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O império Lula (2003-2010): do Planalto à planície

Francisco Augusto – Sociólogo


fcaugusto@gmail.com
17/08/2010

O ramo da Geografia responsável pelos estudos das superfícies físicas da terra é


denominado Geografia Física. Ele é responsável pelas classificações e estudos das
condições da natureza ou paisagens naturais da superfície terrestre. Dentre muitas
classificações, as mais conhecidas são também objeto de discussão do nosso artigo: o
planalto, representado por uma superfície alta e plana, e a planície, uma superfície sem
nenhuma ou quase nenhuma altitude. Furtaremos estes conceitos geográficos para
discutir sociologicamente as condições atuais do que denominamos “império Lula”, do
Planalto à planície social.
“Nunca na história deste país”, em máxima criada pelo presidente Lula, um
governador foi capaz de alcançar os níveis de popularidade que o governo Lula
alcançou. De acordo com o Instituto Datafolha, em avaliação da opinião pública a
respeito do desempenho do governo Lula publicada em Agosto de 2010, 77% da
população classifica como ótimo ou bom a gestão deste governo que encerra em
Dezembro de 2010 seu segundo mandato. Este resultado representa um esforço iniciado
desde meados da década de 1980, nas lutas políticas sindicais que culminaram com a
chegada do presidente Lula ao Palácio do Planalto e o manteve lá por oito anos
seguidos, com ameaças pontuais ao seu poder.
O Planalto já foi cenário de grandes governos, e sem exceção, altos e baixos
representaram fortes influências em suas popularidades. No caso do governo Lula, o
maior desgaste sofrido referiu-se ao escândalo que ficou popularmente conhecido como
“Escândalo do Mensalão” (2005-2006), onde vantagens indevidas eram negociadas e
vendidas por altos funcionários do governo em troca de mesadas e favores. Esta crise
revelou a maior fragilidade da gestão pública do presidente Lula, e culminou com a
demissão e destituição de cargos de instituições públicas importantes e até de
ministérios, na luta pela recuperação da credibilidade e apoio popular ao governo.
Uma das maiores críticas realizadas desde a primeira candidatura do então
metalúrgico Lula em São Bernardo do Campo – SP referia-se a suas características
sócio-culturais serem inadequadas à condição de Presidente do Brasil. Os traços
característicos de nordestino e pobre sustentaram seus discursos e projetos políticos e o
levaram à presidência da República do Brasil após três tentativas frustradas (1989, 1994
e 1998), perdendo para os ex-presidentes Collor e Fernando Henrique Cardoso.
Apoiado pelas camadas mais populares e com grandes desconfortos de setores
da mídia e da política, Lula baseou seu projeto político na erradicação da pobreza,
motivo que o levou a receber prêmios e honrarias nacionais e internacionais, controle da
economia, o que amenizou os efeitos da Crise Financeira Global de 2008 no Brasil, e o
ótimo desempenho na área das Relações Exteriores que possibilitou ao Brasil a entrada
de forma significativa no mercado internacional. Diante de uma atuação nacional e
internacional tão aprovada, certamente o presidente Lula conquistará um espaço
importante na conjectura socioeconômica internacional.
Apesar de tantos esforços, a legislação eleitoral brasileira determina que suas
contribuições enquanto presidente da república devam chegar ao fim. Por inúmeras
vezes setores da mídia articularam lançar a idéia de um possível golpe de estado do
governo Lula em busca de um terceiro mandato, como tem feito o seu amigo e
presidente venezuelano Hugo Chávez. Como pensar, portanto, a descida do Planalto à
planície após décadas de esforço e de candidaturas perdidas, milhares de kilômetros
percorridos em busca de votos em um combate corpo-a-corpo, duras articulações
políticas, altos investimentos em publicidades, além de políticas públicas que não
poderiam desagradar nem os ricos e muito menos os pobres?
Estamos chegando a uma eleição com um valor simbólico muito significativo,
pois um governante nunca chegou ao fim do seu mandato com uma popularidade tão
expressiva, sem fazer parte de uma oligarquia e em um partido de esquerda que foi
capaz de fazer um consenso tão amplo. É importante também perceber que a sociedade
apresenta-se mais interessada pela política, pelos debates de idéias e cada vez menos por
brigas pessoais com interesses políticos, comprovado, por exemplo, pelos esforços em
torno da aprovação da Lei Ficha Limpa (Lei complementar 135/2010).
O presidente Lula descerá muito em breve junto com grande parte da sua equipe
o Palácio do Planalto no Planalto Central e fará parte de uma grande massa de pessoas
que dão forma e tom ao Brasil. Subir ao Planalto e descer à planície nas condições que
demonstramos é respeitar o sistema político democrático, e garantir a possibilidade de
uma minoria tornar-se maioria e uma maioria tornar-se minoria. As eleições políticas
são a raiz central que celebram a cidadania conquistada a duras penas ao longo da
história política brasileira.