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(*) UZIEL SANTANA

SENADO FEDERAL: 'Casa de Rui Barbosa', 'Casa de Prostituição',


'Casa de Corrupção' ou 'Casa de Renan Calheiros'?

“(...) A obra da República. O Parlamento do Império era uma escola de estadistas, o


Congresso da República transformou-se em uma praça de negócios.” (Rui Barbosa)

O Senado da nossa República Federativa do Brasil é a mais alta câmara do Congresso


Nacional. Foi constituído e instalado, na nossa nacão, desde a Constituição do Império de
1824 – a segunda constituição do Brasil e não a primeira como muitos pensam. Isso porque,
em 1817 – permitam-me a digressão – quando o Brasil foi elevado à categoria de Reino
Unido, junto com Portugal e Algarves, a Constituição de tal Reino passou a ser a nossa
Constituição, de modo que, jurídica e formalmente, a primeira Constituição do Brasil seria,
exatamente, esta.
Seja como for, inicialmente, o modelo que inspirou a formação e atribuição de funções do
nosso Senado foi a Câmara dos Lordes da Grã-Bretanha, até mesmo porque nós vivíamos,
neste momento, ainda, sob a égide do regime monárquico. Mas com o golpe da forma de
governo – que a historiografia tradicional insiste em chamar de “Proclamação da República”
– de 1891, a nossa corte senatorial passou a ter o mesmo modelo institucional que tem o
Senado dos Estados Unidos da América. Isto é, passou a ser o órgão do Poder Legislativo
Federal que representa, em tese, os interesses dos Estados-membros componentes desta
Federação. De modo que esta se constitui na função precípua do Senado Federal. Este modelo
é tão evidente que os 27 estados-membros do nosso Brasil elegem, diretamente, através do
povo, os seus 3 representantes, num sistema eleitoral em que os senadores são eleitos para um
mandato de 8 anos, renovando-se a representação de 4 em 4 anos, alternadamente, por um e
dois terços.
Sob o prisma da historiografia da humanidade, na verdade, o Senado remonta a sua origem
nas assembléias do Conselho de Anciãos do antigo Império Romano. O Senatus Romano era
composto, eminentemente, por cidadãos romanos idosos, das famílias patrícias. Ser idoso –
ancião – era um requisito essencial, pois denotava a experiência necessária para servir ao
populus romanus. Daí que o termo Senador, vem do latim Senex, que significa velho ou
idoso. Seja durante o período da realeza romana, seja nos períodos da república ou do
império romano, o Senatus cumpria uma missão essencial na constituição e desenvolvimento
do poder político e militar dos Romanos.
No Brasil, sob inspiração semelhante, a nossa corte senatorial – formada pelos “augustos e
digníssimos senhores representantes da Nação”, conforme preceituava a constituição de 1824
– já foi constituída por homens de reputação ilibada, vida pública irrepreensível e notável
saber jurídico, tais como: no período do império (1826-1889), Afonso Celso de Assis
Figueiredo, o Visconde de Ouro Preto, Alfredo D'Escragnolle Taunay, o Visconde de
Taunay, Bernardo Pereira de Vasconcelos, Cândido Mendes de Almeira, o Pe. Diogo Antonio
Feijó, Francisco do Rego Barros, o Conde da Boa-Vista, entre outros homens de nomeada da
nossa história política. Interessante anotar que, ainda no período imperial, tivemos a única
mulher constituída senadora: Isabel de Bragança e Bourbon, a Princesa Imperial do Brasil,
responsável maior pela abolição da escravatura.
No período da República Velha (1889-1930), dentre tantos importantes nomes da nossa
história política e que honraram a cadeira do Senado Federal, podemos destacar,
representando todos esses, o mais importante político e jurista da nossa história: o baiano Ruy
Barbosa de Oliveira. Rui Barbosa, indubitavelmente, dignificou a história do Senado Federal.
Tanto é assim que tal alta Corte Legislativa ainda hoje é conhecida como a Casa de Rui
Barbosa, tamanha a sua influência política, jurídica e de escritor para a formatação dos ideais
senatoriais da nossa nacão.
Mas este mesmo Ruy Barbosa que, inicialmente, juntou-se ao movimento de
proclamação da República, alguns poucos anos mais tarde, percebendo o erro histórico
que havia cometido, brindou-nos com a célebre e conhecida frase: "De tanto ver
triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver agigantarem-se os
poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da
honra e a ter vergonha de ser honesto". O que poucos sabem é o que ele disse em
complementação a esta frase: “Essa foi a obra da República nos últimos anos.
No outro regime, o homem que tinha certa nódoa em sua vida era um homem
perdido para todo o sempre, as carreiras políticas lhe estavam fechadas.
Havia uma sentinela vigilante, de cuja severidade todos se temiam e que,
acesa no alto, guardava a redondeza, como um farol que não se apaga, em
proveito da honra, da justiça e da moralidade”. Arrependeu-se, Rui, da sua criação
política. A partir de tal constatação fico a pensar o que nos diria Rui, ainda mais, a respeito da
República, hoje.
O fato é que, se Rui Barbosa vivesse no contexto atual, penso que atestaria, pragmaticamente,
que esta frase dita por ele, no início do século XX, nada mais foi do que uma profecia
cumprida nos nossos dias.
Penso, ainda mais, que Rui Barbosa, despertando no contexto atual, olharia para tudo que está
acontecendo neste momento e nos perguntaria “O que é esta corte que vocês chamam de
Senado Federal? Este órgão que vocês chamam de Senado Federal, hoje, representa o quê
na verdade? O que significa ser Senador da República Federativa do Brasil? O que esses
homens e mulheres que aí estão pensam e querem?” Pior para nós seria ter que responder às
suas indagações.
Seja como for, se Rui Barbosa me fizesse estas indagações, para a primeira pergunta eu não
hesitaria em dizer que esta corte que chamamos de Senado Federal, parece não ser mais uma
corte de “augustos e digníssimos senhores representantes da Nação”, muito menos a Casa de
Rui Barbosa. Ao contrário, olhando para o caso da CPMF (das suas espúrias e imorais
negociatas), para o caso da absolvição do seu presidente, Renan Calheiros, para a postura
empreendida pelo nosso representante senatorial Almeida Lima e o seu partido – o PMDB –
que derrubou a secretaria do Profº Mangabeira Unger para mostrar que estão dispostos a fazer
qualquer coisa para verem os seus interesses, quanto à obtenção de cargos na administração
pública federal indireta, atendidos, eu diria que o Senado Federal se tornou uma alta “Casa de
Prostituição”.
Se ele – Rui – continuasse e me perguntasse o que o Senado representa hoje, eu teria que
dizer que, infelizmente, esta corte parece representar o que de mais odioso e terrível existe na
brasilidade e nas instituições nacionais: a “Casa da Corrupção”.
Se ele insistisse e me perguntasse o que significaria ser Senador da República Federativa do
Brasil, eu teria que dizer que, pelo que temos visto, ouvido e vivido, ser senador, no contexto
atual, parece significar ser o mais alto agente de promoção da prostituição e da corrupção da
política brasileira. De modo tal que o ideário de um senador hoje – olhando para o caso
Renan Calheiros – é: “estou no poder pelo poder e para aqui me manter eu faço qualquer
negócio”.
E se Rui, por último, perguntasse-me o que esses homens e mulheres que aí estão pensam e
querem, eu diria: tudo o que eles querem é a satisfação dos seus próprios interesses e a
vitaliciedade no poder. E completaria: “Rui, o Senado que você ajudou a formar, dignificou e
honrou e, por isso, foi mais tarde chamado de Casa de Rui Barbosa, hoje, nada mais é do
que um espaço político-institucional, onde as pessoas vendem o corpo, a alma e o espírito
para quem quer que seja. Hoje, Rui, o Senado Federal tem o designativo que bem merece: a
'Casa de Renan Calheiros'”.
(*) Advogado e Professor da UFS – (ussant@ufs.br).