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Cientefico. Ano VII, v. II, p.314.

Salvador, julho-dezembro 2007

Entrevistas Preliminares
Carmefran Araújo Teixeira Viana
Graduanda do curso de Psicologia da Faculdade Ruy Barbosa

Resumo
Propõe-se aqui tratar de um tema há muito discutido e estudado por todos que atuam na área clínica, constituin-
te do movimento inicial do dispositivo analítico, que são as Entrevistas Preliminares, ou como Freud conceituali-
za, em seu texto “O Início do Tratamento”, de Tratamento de Ensaio. Estas Entrevistas Iniciais carregam consigo,
além da técnica, funções extremamente importantes que, de certa maneira, determinam o curso da análise.

Palavras-chave
Entrevistas preliminares, Postura do analista e técnica.

Dar início à análise de um sujeito, a partir de sua de- na prática analítica. O rigor analítico não se encontra
manda, requer que o analista tome uma decisão. E o nas regras, mas está na condução da análise, sobre a
que poderia fundamentar melhor esta decisão do ana- qual o analista deve responder. Daí a importância de se
lista? As entrevistas iniciais seriam um excelente come- estabelecer um trabalho prévio à definição de se aceitar
ço. Esta ‘decisão’, por começar a atender um sujeito, é um indivíduo em análise. Isso não significa dizer que
considerada como um ato psicanalítico, o qual situa-se não existem regras, simplesmente elas são transmitidas
mais no âmbito da ética do que no das regras. Logo, es- na própria análise (Fernandes1).
tas entrevistas iniciais, apesar de se referirem à técnica, Por isso, Freud (1913) achou mais conveniente cha-
não deixam de se reportarem à ética, pois se dirigem ao mar estas normas não de regras, mas sim de ‘recomen-
sujeito. Freud (1913), ao conceituar sobre o início do tra- dações’, uma vez que o que pode ser indicado para um
tamento em análise, alerta que as regras que podem ser caso não necessariamente se aplica a outro ou a todos
definidas para a prática inicial do tratamento psicana- os casos que se apresentem ao analista. É importante
lítico sofrem inúmeras limitações, sendo a maior delas ressaltar que a única regra que Freud estabelece para
a que se refere à singularidade de cada indivíduo. a psicanálise é a associação livre, a qual está do lado
Por se tratar do sujeito, é impossível instituir padrões do analisante e conduzirá este momento introdutório,

* Este artigo foi produzido sob orientação do prof. Frederico Ricciard.


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sendo característica básica que aproxima as entrevistas sujeito, mantendo, segundo Freud (1912), uma ‘atenção
preliminares da análise. uniformemente suspensa’, ou seja, uma atenção flutuan-
Ciente de que as condições do tratamento analítico te. Este discurso direcionado ao analista é diferente dos
são reguladas principalmente pela postura do analista outros, devido ao sentido novo que ele adquire aos ou-
e de que não existem regras prescritas, de que forma se vidos do psicanalista. Seu posicionamento é que vai de-
inicia um tratamento analítico? Freud (1913) responde terminar se o atendimento vai servir apenas para tam-
a esta pergunta quando institui algumas condições de ponar o sofrimento psíquico que o sujeito traz ou se irá
análise, a saber: o tratamento de ensaio, o uso do divã, abrir espaço para que a sua subjetividade seja revelada e
a questão do tempo e do dinheiro. que este possa se implicar em suas questões. Portanto, o
O tratamento de ensaio, segundo Freud (1913), dura analista não deve criar interpretações precipitadas, pois
algumas semanas antes da entrada da análise propria- é o paciente que dá sentido às suas experiências.
mente dita, onde o analista observará sinais que leva- A escuta analítica não oferece saídas nem respostas e
rão à determinação ou não do caso apresentado além nem soluções imediatas; mas ajuda o sujeito a articular
da tentativa. Este tratamento inicial já é considerado sua demanda, ou seja, proporciona a ele, a partir des-
parte inicial da análise, mesmo que ainda não se saiba ta escuta, um ‘alívio’ do sintoma imediato (função te-
se o paciente formulará uma demanda que possibilite rapêutica), além de, sem responder de forma direta ao
a continuidade do tratamento, constituindo-se como conteúdo manifesto, devolver ao sujeito, de forma mo-
uma sábia prudência que, segundo ele, poderá evitar a dificada, seu discurso. De acordo com Mannoni (1980),
interrupção da análise posteriormente. “a primeira entrevista com o psicanalista é antes de
Designado por Lacan como entrevistas preliminares, tudo um encontro com nosso próprio eu, que procura
este tratamento inicial é considerado a ‘porta de entrada’ sair da falsidade. O analista está presente para devolver
na análise, abrigando três funções básicas para o anda- ao sujeito, como dádiva, a sua verdade”.
mento de um trabalho psicanalítico: a sintomal, a trans- A partir do momento que o analista entra em contato
ferencial e a diagnóstica. O termo ‘preliminar’, segun- com este ‘candidato à análise’ e, por fim, concretiza-se esta
do Calderoni (1998), supõe que este atendimento inicial dupla escolha (tanto do analista, aceitando o indivíduo
está sendo anterior a algo que está por vir (neste caso, a em análise, quanto pelo analisando, que se deixa analisar
análise propriamente dita). Portanto, a prática das entre- por aquele em específico), o sujeito será levado a elaborar
vistas preliminares significa que o começo é delongado, sua demanda de análise, o que seria caracterizado na prá-
cuja função se encontra nesta preparação em algo mais tica como um fator de histerização (Quinet 2002).
consistente. Há um tempo de compreender, que implica O trabalho de histerização inicia-se na função sin-
na questão diagnóstica, e de concluir, que é quando o tomal das entrevistas preliminares, cuja importância
analista toma sua decisão (Quinet, 2002). situa-se na diferenciação entre a queixa inicial e o sin-
A queixa inicial do sujeito quase sempre demanda toma analisável, pois a demanda que o sujeito traz em
uma palavra de cura, livrando o paciente do seu sinto- estado bruto (queixa) deve ser questionada. A deman-
ma. Ele espera o auxílio de alguém, que supõe-se saber da verdadeira de análise só é explicitada quando ela se
algo do sofrimento dele, podendo tratá-lo. Mas isto não desvencilha do sintoma, ou seja, deverá haver uma ela-
é o suficiente para que a análise ocorra. Logo, estas en- boração deste sintoma enquanto ‘sintoma analítico’.
trevistas iniciais servem para investigar os motivos que Quinet (2002) afirma que é necessário que a queixa se
trazem o paciente àquela consulta, é a mola mestra que transforme em demanda, endereçada àquele analista, e
vai direcionar o analista a montar suas hipóteses iniciais. que o sintoma saia da posição de resposta para a de uma
Este primeiro contato pode ser exatamente o momento questão para o sujeito. Assim, este mesmo sujeito será in-
no qual se detectará o que é possível ou não ser “tratado” citado a decifrá-la. O analista entra como um questiona-
em termos psicanalíticos, podendo, além disso, propor- dor deste sintoma. Segundo Tenório (1995), a transforma-
cionar em si mesmo um resultado terapêutico. ção do sintoma em questão depende do endereçamento
Segundo Quinet (2002), deixa-se que o paciente fale desta demanda a um analista, por meio da transferência.
não apenas o que quiser, de forma intencional e bus- A constituição do sintoma analítico é correspondente
cando um alívio, mas também tudo mais que lhe ve- ao estabelecimento da transferência, sendo necessário
nha à cabeça, mesmo que lhe pareça sem importância que isto aconteça para que uma análise se principie. Isto
ou absurdo. A importância de encorajá-lo a “contar sua é o que se chama de função transferencial das entrevistas
história com suas próprias palavras” possibilita ao ana- preliminares. Supondo um saber ao analista, o paciente
lista realizar um diagnóstico, que diz respeito à com- estabelece a transferência e começa a trabalhar na análi-
preensão da dinâmica dos sintomas e dos conflitos que se a partir dela, quando começa a querer saber sobre seu
o paciente traz (Cunha, 1993). sintoma, sobre o que há por trás dele e do ‘gozo’ que ele
A postura do analista, neste primeiro contato, deve proporciona. O profissional que o recebe em entrevistas
voltar-se para a escuta, a receptividade ao discurso do preliminares oferece-se para que a transferência se ins-

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taure, visando ao estabelecimento de um novo laço com Quinet, A. As 4 + 1 condições da análise. 9.ed. Rio de
esse sintoma, por parte do paciente. Janeiro: Jorge Zahar. 2002.
Segundo Fernandes2, é preciso que o analista sus- Tenório, F. Desmedicalizar e subjetivar: A especifici-
tente esta posição de sujeito suposto saber para trans- dade da clínica da recepção. In: A clínica da recepção
formar a transferência demandante em transferência nos dispositivos de saúde mental. Cadernos Ipub, n.17.
produtora pelo trabalho da associação livre – regra Rio de Janeiro: Ufrj, 1995.
fundamental da psicanálise. É importante ressaltar
que o analista vai ‘tomar este lugar de saber’ empresta-
do, não devendo nunca se identificar com essa posição,
o que, para Quinet (2002), seria um erro.
A função diagnóstica das entrevistas preliminares se
institui como um papel de direção da análise, ou seja,
ela só terá sentido se servir de respaldo para a condu-
ção da análise. Esta tática do analista no direcionamen-
to da análise está correlata com a transferência, na qual
o diagnóstico está intimamente ligado. Porém, este só
pode ser investigado no registro do simbólico, atentan-
do para o que Lacan anuncia ao dizer que um sujeito é
incurável, pois não se pode curar o inconsciente.
Quinet (2002, p. 23) consegue expressar de forma
simples e direta esta função ao afirmar que:

[...] nas entrevistas preliminares, é importante, no que diz res-


peito à direção da análise, ultrapassar o plano das estruturas
clínicas (psicose, neurose, perversão) para se chegar ao plano
dos tipos clínicos (histeria – obsessão), ainda que ‘não sem he-
sitação’, para que o analista possa estabelecer a estratégia da
direção da análise, sem a qual ela fica desgovernada.

Enfim, é importante entender que o mínimo que se


pode exigir das entrevistas preliminares é que elas permi-
tam ao sujeito, que vem ao encontro de um analista, rom-
per a cadeia de seu discurso habitual (sair de uma versão
saturada do seu problema), para que venham à luz as suas
questões mais profundas, e até então inacessíveis, via cons-
ciente. Dessa forma, o processo de análise possibilitará ao
sujeito uma subversão subjetiva e um reencontro consigo
para o re-início de uma história sem tantos percalços.

REFERÊNCIAS

Calderoni, M. L. De M. B. O ato clínico de recepção e


triagem: percurso. Ano X, no 20, 1o semestre, 1998.
Cunha, J. A. & Colaboradores (1993). Psicodiagnóstico
– R. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.
Fernandes, M. C. B. Entrevistas Preliminares. Disponível
em: «http://www.rubed.psc.br/Artigos/entrepreli.htm».
Freud, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psico-
lógicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janei-
ro: Imago, 1969.
___. Recomendações aos médicos que exercem a psica-
nálise. v.12. 1912.
___. Sobre o início do tratamento: Novas recomenda-
ções sobre a técnica da psicanálise I. v.12. 1913.
Mannoni, M. A Primeira Entrevista em Psicanálise. (Trad.)
Roberto Lacerda. Rio de Janeiro: Campus, 1980.

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