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LINGUÍSTICA APLICADA Professora: Graziela Mota Antonio Eduardo Cyrilo de Lira RESENHA CRÍTICA DOS SANTOS, Janete S.

LINGUÍSTICA APLICADA Professora: Graziela Mota Antonio Eduardo Cyrilo de Lira

RESENHA CRÍTICA

DOS SANTOS, Janete S. Letramento, variação linguística e ensino de português. Linguagem em (Dis)curso, jul./dez. 2004

No texto “Letramento, variação linguística e ensino de português”, a linguista e

professora assistente de Língua Portuguesa da Universidade Federal do Tocantins/UFT,

Janete S. Dos Santos, discorre sobre a definição do termo “letramento”, o porquê da

pesquisadora classificá-lo (em sua modalidade autônoma) como um mito e sua aplicação no ensino de língua portuguesa, bem como as questões envolvidas em tal tarefa. Dessa forma, a professora expõe, mediante extensa bibliografia, os problemas relacionados à aplicação dos conceitos levantados no texto, visando formar uma consciência crítica em todos aqueles que se dispõem a executar ou refletir acerca da aprendizagem da língua materna nos segmentos fundamental e médio das escolas brasileiras. Sendo assim, o texto se inicia com a definição do conceito de letramento. Este, de acordo com a autora, se divide em duas modalidades: a autônoma e a ideológica. Ambas preocupam-se com “o impacto da escrita sobre um grupo social, isto é, com os reflexos sentidos na sociedade” (DOS SANTOS, p. 119). Contudo, ao passo que a segunda se ocupa de contextualizar os aspectos externos à questão linguística tais como a origem e contextos sociais dos alunos expostos a tal prática, bem como o seu acesso a ambientes em que as estruturas culturais do meio se fazem presentes em diferentes graus , a primeira entende que a simples exposição dos alunos, em sala de aula, à manifestações textuais seria suficiente para desenvolver neles suas capacidades linguísticas. Desse modo, a autora entende que esta forma de letramento funciona como um mito, pois, ao não levar em consideração as condições externas que constantemente

influem no processo de aprendizado do aluno, o letramento autônomo se comporta de maneira tradicionalista, o que justifica o fato dele ser o método mais utilizado nas escolas tradicionais. Assim, para a autora, o letramento autônomo é mito, pois este não leva em consideração o fato de que, na nossa sociedade, indivíduos com pouco acesso aos meios tradicionais de escrita e leitura muitas vezes conseguem desenvolver suas habilidades com o idioma, assim como uma mera diplomação não necessariamente confirma as capacidades linguísticas de determinada pessoa. Ainda assim, cabe pautar que, em uma sociedade letrada, o acesso do aluno a manifestações escritas é imperativo durante toda sua formação, porquanto isso o conduz ao reconhecimento de seus direitos como cidadão. Diante disso, a autora elenca quatro diferentes problemas, que evidentemente se relacionam, com relação à prática de ensino de língua portuguesa enfrentados por professores e ainda não consensualmente resolvidos pelos pesquisadores. Tais questões dizem respeito à a) dicotomia oralidade x escrita, b) o ensino de leitura x ensino de gramática, c) o ensino da língua culta x ensino da variedade linguística, d) os textos didáticos x textos vivos. Com isso, levantar esses temas é de fundamental importância para o futuro professor de língua portuguesa, além de pesquisadores da área, não só pela sua relevância no processo pedagógico a ser desenvolvido com os futuros alunos, mas também porque qualquer pessoa que tenha passado por uma aula de língua portuguesa certamente se deparou com tais questões, ainda que ela não tenha tomado conta disso durante seu tempo escolar. Sendo assim, a autora entende que o reconhecimento da variação linguística como instrumento didático desempenha um papel fulcral para a resolução dessas problemáticas, pois permite não só aproximar os alunos de uma realidade mais real da língua, pois os aproxima de suas experiências diárias nos mais diversos meios e contextos. Além disso, a adoção pedagógica de tal conceito ainda os ensina a pensar criticamente acerta do fenômeno linguístico. Com efeito, desmitificar a crença corrente dos alunos de que falar “errado” seria cometer um “erro” na norma cultua se revela uma atividade iluminadora e reflexiva acerca das possibilidades da língua, levando-os assim o a uma consciência linguística mais pragmática e funcional. Além disso, a autora ainda pontua que tal crença que aqui melhor seria definida como preconceito tem origens socioeconômicas, porquanto esse julgamento depreciativo dos alunos (e de alguns professores e outros profissionais da escrita, é preciso infelizmente ressaltar) com relação a determinados desvios linguísticas só se

manifesta contra as variedades daqueles pertencentes às classes populares, historicamente alienadas do poder político e financeiro. Torna-se evidente, portanto, que o artigo de Janete S. Dos Santos é de fundamental importância a todos que se aventuram no magistério. Assim, o futuro professor (nosso caso) precisa entender o papel decisivo que ele desempenha na formação crítica de seu aluno, pois ensinar a língua portuguesa brasileira é ensiná-lo a reagir diante da realidade em suas mais diversas manifestações. Dessa forma, desvelar ao discente as mais diferentes situações que o real pode se manifestar, por meio de fenômenos linguísticos, no contexto brasileiro é expô-lo a sua intensa complexidade, de modo a conduzir esse aluno a uma postura mais reflexiva; consequentemente, mais cidadã.