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me jorge amado e
josé saramago

os sapatos bl
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luiz
mensal n.o 65 outubro 2017 fundação josé saramago

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3– Editorial
Prémio
José Saramago,
10.ª edição
5– Leituras
Sara Figueiredo Costa
10– Estante
Sara Figueiredo Costa
Andreia Brites

15– O bovarismo, duas
mulheres e uma
vila das Pampas
Leila Guerriero
30– Sapata Press
Sara Figueiredo Costa
45– Vozes
Joana Simões Piedade

55– A Casa da Andréa
Andréa Zamorano 61– Os Sapatos
do Senhor Luiz
Andreia Brites 72– And The winner Is...
Andreia Brites

73– 78– 88–
Saramaguiana
Jorge Amado
Espelho Meu e José Saramago:
Agenda
Andreia Brites uma amizade
em cartas

Em 1998, para homenagear o escritor que acabara de nas cerimónias de entrega do prémio porque o consi-
receber o Prémio Nobel de Literatura, a Fundação Cír- derava um instrumento de defesa da língua portuguesa.
culo de Leitores criou o Prémio Literário José Saramago. «Quando nós falamos na língua, estamos sempre a pen-
Destinado a autores e autoras lusófonas de até 35 anos de sar na nossa língua lá fora. Quer dizer, a difusão, a pro-
idade (na altura da publicação do livro), o galardão tem moção, os leitorados, os cursos, tudo isso lá fora. Mas há
por objetivo incentivar a publicação de obras de jovens que levar em conta que a língua começa por defender-se
criadores. cá dentro», disse.
Além da dotação económica, o Passados 19 anos da sua criação é
galardão significa um importan-
te impulso num momento em Prémio possível afirmar que os objetivos
foram atingidos. Além de defender
que a carreira literária está a dar
os seus primeiros passos. Entre- José Saramago, a língua portuguesa o prémio serviu
de trampolim para autores que hoje
gue a cada dois anos, o Prémio
Literário José Saramago, chega
10.ª edição são reconhecidos além fronteiras.
José Saramago já não está entre
à 10.ª edição com uma lista de nós, mas a fundação por ele criada
vencedores que hoje são apontados como algumas das abraça o prémio com o mesmo interesse e entusiasmo
mais importantes vozes da literatura em língua portu- demonstrado por quem lhe dá o nome. No dia 25 de
guesa. São eles: Paulo José Miranda, José Luís Peixoto, outubro, no auditório da FJS, será anunciado o nome do
Adriana Lisboa, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, vencedor/a da 10.ª edição do Prémio. Será um dia de fes-
João Tordo, Andréa del Fuego, Ondjaki e Bruno Vieira ta, em que a literatura em língua portuguesa sai fortaleci-
Amaral. da. Os nossos parabéns à Fundação Círculo de Leitores,
Desde o primeiro momento, José Saramago foi um entu- por essa iniciativa, e ao vencedor/a, em antecipação, pela
siasta da iniciativa. Fez questão de estar sempre presente conquista.
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759. 746.org info.org www. 774.josesaramago.pt@josesaramago. 782. Onde estamos Where to find us Rua dos Bacalhoeiros. 728. 794 Segunda a Sábado Monday to Saturday 10 às 18h 10 am to 6 pm funda ç ão Blimunda 65 outubro 2017 diretor josé Sérgio Machado Letria edição e redação Andreia Brites Ricardo Viel saramago Sara Figueiredo Costa revisão Rita Pais design Jorge Silva/silvadesigners The José Saramago Casa dos Bicos Rua dos Bacalhoeiros. 10 1100-135 Lisboa – Portugal Foundation blimunda@josesaramago. Lisboa Tel: (351) 218 802 040 www. registo na ERC 126 238 Os textos assinados são da responsabilidade casa dos dos respetivos autores. 210. 735.josesaramago. Os conteúdos desta publicação podem ser reproduzidos ao abrigo da Licença bicos Creative Commons ANDRÉ CARRILHO . 711. 781.org N. 783. 206.org Como chegar Getting here Metro Subway Terreiro do Paço (Linha azul Blue Line) Autocarros Buses 25E.

para não ir com instituições sem fim lucrativo. E as crianças que obcecavam dade de origem favorece-a. não morresse. e serem no Brasil. diários. governantes eleitos. os dias houve notícia do bando de inquisi- mamilo não. porque as outras já nasceram em ganhar terreno. Donde resulta que Satanás cursos populistas de pendor religioso que. do show do corpo. deve. vezes violentas: «Sete anos depois. o que no Brasil quase sem- apoiado no poder. chacinadas por milícias. fiquei perple. xaram de ser bissextos para se tornarem tal. mesmo. Recuando uns anos. LEITURAS DO MÊS S A R A F I G U E I R E D O C O S TA A CEnSuRA nO POdER a classe média. Uma das principais fotógrafas contem. pre coincide. Passaram a acontecer também do o Rio nos últimos 50 anos. Onde tinha esta. mu- mais longe? Aquele nível de debate estava seus públicos. A IURB em que topless podia dar prisão. estes xa. têm vindo a brancas. E dei- mesmo a acontecer na capital do fio den. antes de elencar os casos mais recentes Goldin por ter fotografias de crianças: de censura artística e as suas derivas tantas «Recém-chegada como era. já no presen- bra a censura de uma exposição de Nan te. Tal como tende a prosperar num país como o Brasil mulher que abortava podia ser presa se porque vive da vulnerabilidade alheia. E entretanto estupro seguia como todos os oportunistas. deve representar um risco só para crianças não sendo novidade no país. empresas. lem. do culto das “no. podiam morrer nas ruas. Entre setembro e outubro. entregues a babás vestidas de branco. todos vinhas”? Sim. risco. Bunda de fora pode. as mesmas crianças que tan- Alexandra Lucas Coelho traça o quadro to tinham de ser defendidas de artistas dos mais recentes episódios de censura imorais. A desigual- sendo mato. relacionando-os com o forta. na riqueza e nos dis. quando eram po- lecimento de um neo-conservadorismo bres e negras. O descaso do 5 . o Rio de Janeiro — o dores a que podemos chamar Igreja Uni- Brasil — era esse paradoxo da moralidade versal do Roubo do Brasil: IURB.» E prossegue. “escândalos” já não acontecem apenas com porâneas vetada no Rio. Sim.

Bem sei que muitos não têm não lhe interessa. em situações constrangedoras. No suplemento 6 . A profundidade fome de conhecimento não existe em vamente para fazer da TSF uma rádio de da informação editorial é mais vezes uma quem não percebe o valor da preguiça de referência. por exemplo. Alvo permanente. com alface. Rodrigues e falou sobre o seu trabalho na minha vida. que percebem que. «O jornalismo empo.» des operações de fachada. LEITURAS DO MÊS S A R A F I G U E I R E D O C O S TA Estado é um combustível para ela. é que dos a poupar tanto no dia a dia que ficam dinheiro para vir sempre espreguiçar-se as pessoas se emancipem. dando igualmente aquilo que podemos e alguns episódios biográficos.» quem o ofício tanto deve. Porque é que só falamos de Cas- da TSF. será bém se gasta muito dinheiro em gran. nos escritórios improváveis que são as fiadora. Andamos podemos tentar contrariar um pouco este todos apressados a olhar para a floresta ciclo [risos]. às vezes veem-se obriga. Mas tam. Agora que os um fundo de grandes almoços e janta-  mercados parecem estar a recuperar bem res de preguiça nas redações. Só isso nos dá fome EM EnTREVISTA que acontece em Trás-os-Montes ou no para reparar nos pormenores. interrompendo a crónica diária telo Branco quando arde ou da Madeira dOS MAnuSCRITOS Sinais para se dedicar a uma nova pro. Fernando Alves. não tanto com o di.  centemente a coordenação das manhãs nheiro. ela breceu. não há dúvidas. mesas dos restaurantes. fora da caixa. Uma coisa que quero fazer quando precisamos de tempo para con- fERnAndO ALVES nas manhãs é. perturbadora. mas so. em Lisboa e no Porto. Com o menos gente e os jornalistas são cada vez ção feita de gente que come de pé sandes projeto de ter um presidente. assumiu re. Onde com tanta entrega. Pessoas que entendem aquela preguiça guardar para memória futura a partir bretudo sobre o ofício ao qual se dedica que não é só preguiça. como o Pedro Pinheiro. como governante. que queremos tomar. mu- J. foi entrevistado por Ricardo te: «Já trabalhei com tipos estupendos mudou muito nas últimas décadas. A técnica É uma das vozes mais emblemáticas da Alentejo. a rádio portuguesa. dessas comunicações. contribuindo decisi. Na Notícias Magazine de 18 nada ali além de desgraças?» Mais adian. Tudo o que mais mal pagos. falar mais do templar as árvores. jornalista a questão que tem que ver com as opções uma mesa. para haver a vertigem da criação e da as pessoas estiverem ao deus-dará. Uma arte desa. recolhendo o dízimo. sem descurar o que acontece jornalística aprende-se num instante. As redações têm curiosidade não se pode ter uma reda- é pastora. O modo como comunicamos à distância de setembro. quando cai uma árvore? Não acontece AO TWITTER gramação. mas devia haver sempre sua inimiga.

ideia de cosmopolitismo e o modo como temas de conversación y los nombres de a podemos ler contemporaneamente. necesitaba algo. COSMOPOLITISMO(S) Se esperaba el sobre. Cuando mi torpeza extran. olhando para entonces me llamaba por teléfono. Beatriz Sarlo escre. com o Diário Oficial do Estado. publicado marcas que le había dejado el viaje tran. con las pequeñas O suplemento Pernambuco. Pero la amistad todavía con la política y algunas de ellas parecían se sostenía en un intercambio de detalles el borrador de un próximo artículo que sobre vida cotidiana y vida intelectual. ção da New York University Press) sobre a de Warwick. urgentes o mi error podía ser fatal. por supuesto. podem reivindicar a posse de um conceito jera necesitaba de consejos demasiado que parecera pertencer em grande medida 7 . «Las cartas que recibía desde co para decir que se estaba bien o que se Buenos Aires empezaban. des. Es cier- a brevidade e a pouca materialidade do to que muchas cartas funcionaban como Twitter e comparando-as com as cartas remotos antecedentes del correo eletróni- manuscritas. e historiadores circunstancia. me instruía sobre modales. luchaban Um excerto: «Essa paulatina transição do contra los últimos ramalazos del invierno. críticos culturais. por lo menos. con cierta aproximación. Se sabía.  Eran cartas de dos carillas.» mi corresponsal ensayaba en mi beneficio. LEITURAS DO MÊS S A R A F I G U E I R E D O C O S TA Babelia. do El País. las flores que. También se enviaban cartas a recentemente o capítulo de um livro de localidades muy cercanas. cosmopolitismo no singular para “cosmo- Temía que mi argentinismo no supiera politismos” no plural. divulgou satlántico. cuánto tardaba un intercambio de ida y vuelta. Yo estaba en Bruce Robbins e Paulo Lemos Horta (edi- Cambridge y mi amigo John King. significa que soció- cuáles eran los tópicos apropiados a cada logos. discretamente. solo ve sobre essas mudanças.

Se alguém sobre o singular normativo abre tantas passa a ser um cosmopolita ao se tornar perguntas quanto respostas. atraídos pelo con- a ser visto como característica e domínio ceito em sua nova aparência plural. híbridos e diaspóricos. Tornou-se e filosófico deveria lhes conceder. os cosmopolitas segunda. o que lugar. em vez de uma abstração ética de. A quo é nacionalista. e mais urgente. do “cosmopolitismo do está acima de qualquer suspeita. então. confortavelmente como critério de julga- no entanto. o triunfo do plural descritivo mento desse mesmo status quo. podem ser nacionalistas também. O que exatamente as torna inte- prerrogativa de algumas figuras históricas ressantes. ele nos obriga a perguntar o quê. essa honra já não Silviano Santiago. reivindicando para seus sujeitos as quais o cosmopolitismo foi impingido diversos. ou importantes? como Diógenes. algo como por meio de histórias traumáticas de des. acima transformado por essas particularidades de tudo. diz respeito a quanto do velho sentido ideia?» normativo do conceito é preservado ou  8 . Em primeiro refugiado ou migrante econômico. pergunta. ou há para se comemorar nisso? Se o status quanto. isso significa que. LEITURAS DO MÊS S A R A F I G U E I R E D O C O S TA a filósofos e teóricos da política. em es. em vez de ser a empíricas. geral- de numerosas coletividades sociais. À medida pobre”. tor- Hoje. o bilmente franzina. E. na ressonante expressão de do. a honra que o conceito singular. Nesse pecial à medida que avançamos no século caso. E. nando-se uma parte maior do status quo. que mente continuam a usá-lo como um termo em geral não pertencem às elites e sobre elogioso. o cosmopolitismo passou Sociólogos e etnógrafos. essas variantes têm em comum. Contu- possível falar. normativo locamento e desapropriação. no novo contexto. ainda estaríamos falando da mesma XXI. o termo carrega muitas cosmopolitismo não pode mais servir tão particularidades viçosas e robustas. que é pluralizado e democratizado.

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literatura e viagens. neste livro ao ensaio e à reflexão. Enquanto isso t de Sandman. numa aventura contrapõe-se ao adulto e da ficção. Lila luta. tema caro ao autor reforça o movimento. antecipam outros mundos. e sobre a memória. SFC onírico caminha a par com o humor e oferece ao leitor momentos de inevitável identificação. e s t O Que Se Vê da Última Fila Nada! a S A R A F I G U E I R E D O C O STA Neil Gaiman Yasmeen Ismail Elsinore Booksmile Com uma obra extensa no domínio da O mundo imaginário onde qualquer lugar banda desenhada. O trepa e voa em pequenos quadros que volume reúne textos sobre cinema. onde tem assinado ou objeto do quotidiano se transformam ANDREIA BRITES n argumentos para muitos desenhadores. mas também em que o efeito de contornos de pincel sobre os sonhos. num estilo arte. AB e 10 . Neil Gaiman dedica-se e à sua função reguladora. essa responde à típica pergunta: «O que argamassa essencial que nos faz estar estás a fazer?» com a mais previsível vivos e olhar o mundo entre a certeza da das respostas: «Nada!» O sentido finitude e o desejo de continuar.

Neste misto de curiosidade e que adio// não é o sono de que temo a inata e genética. história e criar novas memórias nas verdade/ de um mundo sem imagens: o portanto. Quem não sente afinal algo de inusitado perante um ferro de engomar a carvão? AB 11 . não nos é dada de forma crianças. SFC identidades e nos relacionamos uns necessária para se afastar do risco com os outros. Pode ser igualmente o t muito extenso/entre a luz e o escuro. como muitos pensam e passado. um dos mais A nostalgia parece ser propriedade n a memória.e s Existência Problemas de Género Num tempo que já lá vai Gastão Cruz Judith Butler Rosário Alçada Araújo t Assírio & Alvim Orfeu Negro Patrícia Furtado Gailivro a Novo livro de poesia de Gastão Cruz. definindo o género como motivo para partilhar a herança da estou perdido/ entre o imaginado e a uma categoria que se constrói – e que. o envelhecimento e a importantes livros da teoria feminista da memória e das emoções dos morte: «Estou deitado num tempo e dos estudos de género chega a adultos. Portugal. Rosário Alçada Araújo falta/ nem o sonho feroz nele contido/ – e lançando ideias fundamentais para movimenta-se a seu bel-prazer. Quase trinta anos depois da sua compondo uma reflexão intensa sobre publicação original. SFC passadista. simplicidade e a objetividade fundura impiedosa do vazio». com é a história do corpo percutindo/ na repensar o modo como assumimos domínio.

cujas canções servem de seleção da correspondência privada e de O Pequeno Urso. AB 12 . Foge da insónia e do regresso Britânico e o Médio Oriente. mas acaba por de viagem. a casa. Sendak consegue título aos capítulo deste livro – conduz militar de Gertrude Bell. a arqueologia. noites. Preferindo as viagens ao uma passagem. onde talvez o aguarde o fim da entradas do seu diário e alguns escritos A Janela de Kenny é a metáfora de sua relação com Lola. a escrita. a impossibilidade só para não noite. semelhante à coleção t The Clash. a fotografia oferecido de bandeja e tantas vezes e. de uma possibilidade tropeçar nas histórias mais improváveis trabalho diplomático. sempre. SFC linguística. bem como Sem simplismos ou pedagogismos. SFC desprezamos. Bell foi uma das que não vemos quando alimentamos que uma cidade acaba por guardar à grandes viajantes do século passado. responsável novamente criar um universo mágico e por Barcelona durante sete dias e sete pelas relações entre o Império assente na capacidade de imaginar.e s t A Janela de Kenny Taxi Uma Mulher na Arábia Carlos Zanón Gertrude Bell Maurice Sendak a Salamandra Relógio d'Água Kalandraka n Um taxista de nome Sandino – assim O mais recente livro da coleção de Nesta narrativa ilustrada com uma chamado em homenagem ao disco dos viagens da Relógio d'Água reúne uma técnica clássica. ameaças cruzando as deambulações com a explorarmos o mundo que nos é e crimes passionais. entre negócios ilícitos.

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Exposições livraria biblioteca auditório Terça a sábado Abr a Set — 10h às 13h / 15h às 19h Out a Mar — 10h às 13h / 15h às 18h NASCI NA AZINHAGA SENTIMENTALMENTE SOMOS HABITADOS POR UMA MEMÓRIA .

du d uas ua as mul muulhe her erre es e es Leila Guerriero uma ma vi vila dda as as paamp mpa pas as 15 tradução Ricardo Viel .o bo bov ova var aris rissm smo mo. o.

Peru e Argentina. pela primeira vez. a argentina Leila Guerriero esteve em Lisboa neste mês de outubro numa sessão organizada pela Casa Fernando Pessoa no âmbito do programa Lisboa Capital Ibero-americana de Cultura. em espanhol. Leila participou numa sessão em que leu. madame b ovar y Uma das referências do jornalismo narrativo feito hoje na América Latina. 1616 . Ao lado de narradores do Brasil. para português. o texto que o leitor da Blimunda pode ler agora traduzido.

o ver. que esqueci. *** ado numa avenida por onde. com o barulho dos carros e a luz do sol avermelha- caso. do rosto corado. que tinha caminhado pela avenida – desafiando terárias. lembrei-me. Era um desses entardeceres gélidos e tropicais da Cidade do vez fosse mais certo dizer que li. não 17 17 . e que. dos dentes enormes. Então tirei do bolso um papel e comecei a fazer estas ano- *** tações. do aroma a pão e a perfume bara- de razões. porque já nunca penso nela. ali estava eu. sob nenhuma circunstância. Mas que não li o que. e da vida e da morte de María Luísa Castillo. sobre Gustavo Flaubert e suas criaturas li. Guy de todas as circunstâncias – sozinha. E esta é exatamente a vida que quero ter». em todo México. que foi minha amiga e que durante Tudo o resto não tem a menor importância. Era abril de 2012 e eu estava na Cidade do México hos- pedada num bairro ligeiramente perigoso. pensei: «Aqui estou. Roland Barthes ou Harold Bloom. Charles Baudelaire. romance que Flaubert publicou a meio do século XIX. ou porque co- «Um livro converte-se em parte da vida de uma pessoa por meçava a maquinar isto que agora digo. diz: E porque sim. e Seja como for isso não tem importância. Marcel Proust. encostada ao muro de uma Maupassant. falar: da soma cos de velha. falando de Madame Bovary. Sobre isto venho. escreveram autores como Jean Paul Sartre. como se uma soma de razões que têm que ver simultaneamente com o fosse um raio. Tal. esperando pela pessoa que iria entrevistar. reverberando pelas paredes dos edifícios. muito tempo teve três anos a mais do que eu. da pela poluição. segundo me tinham dito. mais uma vez longe de casa. Emile Zola. Julio Ramón Ribeyro. então. madame b ovar y Venho dizer o que talvez não se deva dizer. dos brin- livro e com a pessoa». esperando Num ensaio de 1974 chamado A orgia perpétua o escritor alguém que não conheço numa esquina que jamais voltarei a peruano Mario Vargas Llosa. caminhar sozinha. não voltei a ler. Venho dizer deveria. num hotel situ. do cabelo liso. bomba de gasolina. to de María Luísa Castillo.

Eu tinha 9 anos quando Buenos Aires. de maneira que a mãe da *** Luisa. No dia em que a conheci eu tinha oito anos. poderia dizer Nunca me impressionou o facto de que fosse pobre. Eu era filha de um engenheiro químico e de lhe ofereci o meu jogo de tabuleiro favorito em troca de me uma professora. mava Luisa mas María Luisa. madame b ovar y De Flaubert sei o que todos sabemos: que foi o quarto filho ela onze. as depois de três que nasceram mortos. é verdade que Oscar Wilde. até que soluçou de vergonha. que tinha 55 e três dentes. era Junín. no banco de um amigo do meu pai. larga. Mas nome de pessoa velha. a infância. que os seus pais fossem velhos. Eram os anos 70. tado. era beira da morte. sem água corrente nem ma da minha vida». posso sanita. Ou. e pareceu-me feia. numa casa com chão de terra. a duzentos quilómetros de tas. Tinha a cara grande. onde nasci. gladiador do estilo indireto livre. abusei das perguntas sobre a mado Carlos. pai do romance gente pobre. filho de um médico e de bochechas com manchas avermelhadas que eu associava à uma mãe glacial. pacífica. que sou. um mecânico de automóveis cha. pareciam-me arcaicos. falando da personagem de Balzac. etcétera. etcétera. Não era ínfimo de mais de 60. Disse que não se cha- moderno. um carpinteiro Não era nem o melhor nem o pior dos tempos. com um irmão mais velho e com os pais. e María Luísa Castillo era a irmã mais nova explicar como se fazem os bebés. 18 18 . rigidez. traseiro do carro dos meus pais. a forma e os orifícios. para não parecer tão ribombante. Luisa era discreta. Dormia. pecuária. Não tenho nada a dizer sobre todas essas coisas. vinte mil habitantes numa Não sei no que gastávamos as horas quando estávamos jun- zona rica. e o seu pai. Disse que sim e. mas sei que éramos inseparáveis. devem ter-me parecido dois seres à nem a melhor nem a pior das cidades. que não chegavam aos trinta. Os meus. e eu pensei que aquele era um etcétera. Guardadas as devidas proporções. mas sim que me deixaram marcas. Vivia num bairro afas- disse que: «A morte de Lucian de Rumbempré é o grande dra. dizer que a vida e a morte de Emma Bovary formam parte do num quarto separado da cozinha por um pedaço de tela. agrícola. e uns dentes pavorosos. autor de Madame Bovary. tímida.

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ser aos seus amantes. rodeada de dúvidas e os seus ossinhos (e dos que. Transportados catástrofe da primeira gravidez ou do segundo emprego mise. esposa amável construíam castelos no ar só para ver como implodiam com a e mulher sem amor. que se vestisse de achei que tinha entendido mal. com ticos galãs de aldeia que engolem mulheres e depois cospem outro chamado León e que. ser virgem. que deixasse a barba por fazer – não me produzia emo- pareceu ser o grande personagem literário que esperava. que que oscilasse entre mãe amorosa e indiferente. milionária e ser mãe exemplar? Não me importava que tivesse imagino eu. mas sim vergonha alheia. só que nós sabíamos que John Travolta era um poster en- dame Bovary conta a história de Emma. mas as suas ridículas fantasias tiravam-me do sério. A devoradora demanda com que se lançava sobre Li Madame Bovary aos 15 anos e durante muito tempo León – pedindo que lhe escrevesse poemas. finalmente. todos esses traços davam como resultado fi- rável. parecia-me muito justificável que a sua filha 2020 . um agradecimento. dicava a arruinar a sua vida e a dos demais por um ideal que. assim como me incomodava o estado de humilhante além do mais. Emma fantasiava com Rodolphe com o mesmo grau de delírio com *** que eu e as minhas colegas fantasiávamos com o John Travol- Um resumo muito tosco – e muito injusto – diria que Ma. O que lhe dei. va repleto). Não sei por que era minha sido infiel (de facto. amiga. para a vida real. não lhe dei nada: nem o meu jogo nem. pareciam-me cansativos. Não sei o que lhe deixei. não ficava muito claro. que se enro. ta. madame b ovar y Quando terminámos. não era um homem para se apaixonar senão um desses paté- la amorosamente com um homem chamado Rodolphe. Mas. uma mulher casada quanto ela não era capaz de perceber o óbvio: que Rodolphe com Charles Bovary e mãe da pequena Bethe. mas ção. Junín esta- a ponto de perder tudo. E porquê? Que raios fragilidade emocional com que Emma Bovary se entregava queria Emma Bovary? Ser freira. para dizer a verdade. Emma Bovary era um pássaro desorientado que se de. essa era a parte que me parecia melhor). e os arroubos que faziam com uma mulher tão tonta como as meninas da minha vila. nal uma mulher insuportável. ser swinger. suicida-se ao engolir pó de arsénico. Porque a tal Emma não me negro.

uns calçoes vermelhos e uma t-shirt velha e suja de choco- todos os meus prognósticos não tinham morrido – deram.me entender os usos e costumes das discotecas. coroado com a morte do ma. nada me empurra cobarde. acaba por ser fácil perceber o que aconteceu. Eu gostava de ler e que aconteceu foi que Emma Bovary injetou em mim enor. de mim doses monumentais de confusão. usar maquilhagem e salto branca fechada até ao pescoço. Era uma menina enfadonha. E o não poderíamos ter sido mais diferentes. E o seu suicídio. madame b ovar y Berthe não lhe tivesse amolecido o coração e muito razoá. alto. furiosa. Mas. morango. *** Há uma foto em que estamos juntas: eu tenho o cabelo cur- Quando Luisa completou 14 anos os seus pais – que contra to. um efeito mini e Luisa emprestava-me o batom com sabor a Mas então. ela não. era de um egoísmo da cidade eu enrolava a saia na parte da cintura para produzir tão sublime. eu gostava de escrever e ela não. um demónio unisexo. bruta. «punheta» só para vê-la ruborizar. valente. depois de todos estes temível. medíocre? Por que não me dava uma vonta. eu era astuta. as suas incursões na vida noturna o menor mal eu podia repetir durante muito tempo a palavra permitiram. e ela. tão selvagem. arbitrária. má. no fim das contas. gostava de cinema e mes doses de confusão numa época em que eu já tinha dentro ela não. dissimulada. Embora me tenha desiludido por se maquilhar pouco eu. brutal. não. saber quando era prudente responder com entusiasmo a um vel que tivesse sexo fora do casamento não com um mas com beijo de língua ou quão baixo significava «muito baixo» para dois homens. Quando caminhávamos pelo centro rido e a orfandade desamparada da filha. late. saia com flores e t-shirt -lhe permissão para sair à noite. a mão de um cavalheiro. Sem que ela me tivesse feito jamais e usar uns saltos discretos. eu era vulgar e ela não. feroz. obscura. pegajosa que untava os meus lábios e me fazia sentir a mais ou Holden Caulfield ou A Maga? Agora. Emma Bovary era boa. difícil. tão agressivamente até ela como a lembrança dessa substância de louca de ser ela como a que tinha tido de ser Tom Sawyer. Luisa tem as meias até ao joelho. em todo o resto anos todos. De todas as coisas que a evocam. 2121 . arisca. que parecia deliciosamente real. a mais brutal de todas as éguas.

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se a escrita abria cami- des alheias. Mas. em blocos de nota. Sempre escrevi. acontecer: a angústia e a confusão tomaram conta de tudo. o quarto. entre a espada e a a vida que quero ter. Em julho deste ano. desde muito pequena. na cozinha. era alguém que queria escrever. danos colaterais. ou creio tropeçar em lembranças no futuro os diques romperam-se e aconteceu o que tinha de falsas. Com todos e cada um dos seus muitos. aconteceu o que aconteceu. agarrei-me a duas perigosas abstrações: disso – de perguntar para contar histórias – e porque é essa o meu otimismo obscuro e a certeza de que. já sabem. A minha vocação. Estudando Letras e oferecendo o meu amiga Luisa. começou a trabalhar como secretária do meu pai e. paralelamente. Cada vez que me falha a memória ou creio trope. a cozinha etcétera – não tinha ideia de ba que as coisas da morte lhe fazem mal. no O que lhe dei. muitíssimos. no meu quarto. Não sei o que lhe deixei. Mas. çar em lembranças falsas telefono para o meu pai. *** Luisa. ta do seu amigo recentemente morto. estava clara: eu É a primeira vez que conto esta história repleta de realida. parede. o irmão mais velho da minha nhar a vida com ela. nho com sucesso nesse espaço doméstico – o jardim. embora sai. verso das etiquetas. cada vez permaneceu escondida. Em cadernos. o escritório. no jardim. enquanto isso. literalmente. entrou 2323 . mesmo sabendo que vendo nas horas livres? Se durante muito tempo essa incerteza as coisas relacionadas com a morte lhe fazem mal. madame b ovar y Não sei por que era minha amiga. telefono para o meu pai e pergunto-lhe pela irmã mor. como fazer para ga- o meu pai e o seu amigo Carlos. terminou o segundo ciclo. E. suponho. no campo. no carro. em folhas soltas. o Carlos morreu de cancro. a tirar dali. E. Foi nesses confusos anos que cheguei a Madame Bovary. no *** pátio. o pátio. no escritório. Uma semana trabalho editoras? Trabalhando numa hamburgueria e escre- depois. eu sempre podia escolher a espada. E faço-o porque vivo no meio do desastre. como fazer para. passaram um domingo a pescar. quando fiz 15 anos e tive de pensar que me falha a memória.

madame b ovar y no curso de biologia em Junín. ir estudar. os e sorria. Quero dizer que Luisa tinha um plano. Recebi a notícia como se lheres infiéis. onde o seu ma- contra as pessoas que trabalham e têm filhos. contra os seus tios. contra toda a cidade de e faria uma pausa nos estudos para se mudar para uma aldeia Rouen e arredores. mas também contra os homens infiéis. trabalhando com o meu pai. E. e começou a namorar um rapaz que. e. «Uma vergonha nos encontrámos e que ela me contou que deixaria o trabalho contra o seu pai. dois anos depois. Luisa ficou em Junín a estudar. Isso permitia-lhe economizar Tinha 17 anos quando sai de Junín para ir a Buenos Aires algum dinheiro e ter uma profissão para. contrário. contra as mu. contra os algo de terrível fosse acontecer comigo. juízes. encontro um texto cha. Penso agora que Madame Bovary é. enquanto o leio. é ainda um romance de novecentos habitantes chamada Germania. pelo um plano. rido tinha comprado uma farmácia. fazer um curso que me importava pouco mas que me permi- mais e melhor. contra os carros de bois. enquanto escrevo. É 7 de agosto e. que. mas Luisa parecia feliz livros. mais amplamente. contra o passado. os republicanos. contra as feiras. os boticários e contra a lei da gravidade». contra as ilusões. Pouco depois engravidou e casou. as freiras. penso que é preciso metade da vida para entender coisas *** que acontecem em minutos. no prestigiado instituto de biologia de Buenos tiria viver sozinha. tornar-me adulta. contra o porvir. Não me lembro de ter ido ao casamento mas lembro-me mado «Contra Flaubert». talvez. não tinha nada. ter algo parecido com Aires. um romance contra os filhos. contra a *** intensidade. as carruagens e contra os raminhos de violeta: um romance 2424 . que diz que Madame Bovary é. como ela. E que eu. do escritor chileno Rafael Gumucio. tinha nome de *** velho: Rogelio. e eu pensei que talvez eu nunca a tivesse conhecido. no futuro. durante uma das minhas visitas a Junín. para Flaubert. contra o futuro.

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ligada ao mundo por um caminho de terra que com chuva sitável. tristes: o caminho de terra tornava-se. com o Em resumo: ainda que eu nunca a chegue a querer. enquanto eu voltava do jornal ou corria para chegar ao cine- 2626 . estava. para minha profunda indignação. mas absolutamente radical. com frequência. Uma definição não muito elaborada permiti. enquanto escrevo. tinha dívidas. madame b ovar y contra si mesmo cujo milagre maior reside na eficácia com ria repetir que o bovarismo é «o estado de insatisfação de uma que inocula nos seus leitores a incondicionalidade fulminante pessoa produzido pelo contrate entre as ilusões e a realidade. ofereceu-me trabalho. vra bovarismo. as suas contradições vulcânicas. seguiria os seu bovarismo desmesurado. por exemplo. abandonara os estudos. produzem. mente. Luisa já não está entre os vivos. De quando em quando chegavam da Germania notícias deia. E assim. e Luisa. com os seus arroubos. O editor publicou-o e. em Buenos Aires. continuava desorien. Hannibal que costuma frustrá-la». *** *** Luisa mudou-se para Germania no final dos anos 80. de um dia para o outro. com da por todos os motivos errados. esposo enquanto eu. a uns cem quilómetros de Junín. intran- ra. por aquela altu. Em Buenos Aires eu tinha terminado o curso que jamais tada mas a transbordar de euforia rodeada de novos amigos exerci e. confiante no meu otimismo obscuro e em minha te- que tinham hábitos dignos de cavaleiros do apocalipse. Ela fazia de mãe e atendia na farmácia do outra vez grávida. que só personagens como Emma ou. tinha deixado um texto no diário E. deleite. tornei-me jornalista e percebi que isso era o que eu sem- *** pre quisera ser e que nunca seria outra coisa. a farmácia não ia muito bem. sem saber nada de mim. em 1991. continua viva. em algum momento. Página/12. Não sei onde nem quando escutei pela primeira vez a pala. mas que Emma Bovary. num dia de um mês de um ano que não sei precisar. Para meu infinito seus passos até ao último confim. gera. Uma incondicionalidade incómoda. suponho que a esqueci. penso que Lecter. Hoje. ficava intransitável. oria da espada e da parede. simples. A al. Então.

Quando cheguei à porta vi boa e simples que afinal só queria casar e ter filhos. tive a vida que queria ter. inclusive. lembro-me pouco. do pescoço. que os parentes. recesse uma idiota. ajudei a carregar o caixão. Não há epifa- lábios unidos por cola e uma tela de bordado branca em volta nia. pero que a salvassem. que me deixou furiosa porque fazia com que pa. Eu. os amigos. Não se sabe. o que pensar. É preciso dizer também o evidente? 2727 . a minha melhor Que basta um erro e um caminho cruzado. *** Do velório. a menina obscura com a cabeça intoxicada por fanta- brir as manchas. madame b ovar y ma ou cozinhava um arroz ou sei lá o quê. Luisa pediu com deses- Foi o meu pai quem me telefonou para avisar. assim. uma bovarista literal. afundou a mão num pote de arsénico e comeu. Conclusões? De tão óbvias. foi o final de tudo. Depois alguém me disse que era para co. mas não puderam levá-la a um hospital porque os caminhos estavam inundados. mulheres como Luisa não se variana da história. os vizinhos rodeavam Rogelio. amiga de infância caminhou até ao armazém da farmácia do Não me lembro de ter ido ao cemitério mas o meu pai diz seu marido. o Fim da história. comeu. que aconteceu em Junín. Sei *** que çhe toquei. Depois soube que. Em algum momento escutei um grito vindo sias descomunais. antes de morrer. a menina da rua: «Assassino filho da puta». Luisa tinha os Não há conclusão. enfim. E que a menos bovariana das duas acabou matam. provocam asco: que a poten- nha sido infiel e a conclusão era óbvia: Luísa matou-se por sua cialmente mais bovarista das duas acabou por ser a menos bo- culpa porque. porque tocar-lhe parecia-me respeitoso: era E esse. uma forma de lhe dizer «Não tenho nojo de ti». Mas fazia algum tempo que eu sabia que sim. está morta. não há fogos de artifícios. que tentava sair de um carro. marido da Luisa. de outra maneira. Luisa. que fui e que. comeu. Diziam que ti.

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que. Ou. Foi premiado em 2012 com o prémio González Ruano. Não há epifanias. uma advertência feroz sobre Cuidado. em algum momento. como uma vary deixou de ser. Quase não penso na Luisa. nos terríveis amiga não teve durante muito tempo outros sintomas para danos. da Fundación Mapfre. Há Passaram-se os anos e. que sou. Nota da autora: Alguns nomes mencionados no texto foram te. madame b ovar y Luisa morreu num mundo em que não havia Internet nem nas quais Emma Bovary me parecia um mecanismo. 1971 2929 . além de um desagradável saber de tinta na boca. digamos que me deixou marcas. Madame Bo. e que só mais Passaram-se muitos meses desde aquela tarde de abril em tarde vieram. a importância das nossas decisões e sobre o perigo de estar vivo. Não vejo os seus filhos. – fazer o que tenho vontade sem arruinar a vida dos que me Imagens: Excertos de páginas de Madame Bovary. e anos desde que era uma glacial. Espanha. mais uma vez. deso- doutor Google. a adolescente angustiada e sem um plano. a minha tasia confusa sem parar para pensar nos danos. Minerva de estão próximos – seja uma reação àquelas primeiras leituras Bolso n. há conclusões. por esta ordem.º 1. que devorava tudo por detrás de uma fan- eu soube. não asfixia. não há fogos de artifício. as náuseas. depois de engolir o arsénico. Mas Madame Bovary forma parte do colombiana El Malpensante. nos inevitáveis danos colaterais. as cãibras. continua a sussurrar-me a sua que se acha especial e começou a ser um comentário implacá. a dor abdominal. e Madame Bovary. os vómitos. um livro sobre gente medíocre máquina de atravessar séculos. E foi pela divina graça de Emma Bovary que rientado e canibal. em 2012 e publicado posteriormente na revista tei a ver o seu marido. Texto lido originalmente nos Encontros Literários de Fomentor. vel sobre a humilhação e o amor. o frio que comecei a escrever estas notas. mensagem radioativa. evidências: Luisa está morta. digamos que é provável que o meu lema anarco-burguês alterados aquando da sua publicação. Ou. Não vol. E. os vómitos de sangue. portanto. para mim. para não parecer tão ribombante. para parecer ainda menos ribomban. a sua terrível canção: cuidado. cuidado.

a pre ssa re pa ssss: ta30 um nome que seja seu Sara Figueiredo Costa .

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em português de Portugal. sap at a pr e ss A lista de insultos a que tanta gente recorre para ofender pessoas cuja sexualidade ou orientação de género não corresponde àquilo que tanta gente acredita ser a norma é infindável. 32 . Apropriar-se de alguns desses insultos de modo afirmativo tem sido um gesto frequente em diferentes momentos dos movimentos de luta pela igualdade de direitos no que à sexualidade e ao género diz respeito. no do Brasil ou em qualquer outro idioma.

sap at a pr e ss

Ser sapata é resistência plesmente me auto-editar e colocar ali o meu nome. Queria
fazer alguma coisa, uma provocação, criar um nome. Foi aí
Quando alguém chama “bicha” a um homem homossexu- que nasceu a ideia. Como é que vai-se chamar a minha edi-
al, esse apodo pretende ofender, mas quando um movimento tora? É a editora da Sapata, a sapatão, a dike. Mas é um ter-
decide aplicar o nome de modo autorreferencial, trata-se de mo pejorativo... Sim, claro, vamos reclamar aquilo que se
dizer qualquer coisa como «se bicha quer dizer que sou um usa como insulto. Essa é a história do queer, dos que estão à
homem que se sente sexualmente atraído por outros homens, margem, dos degenerados, que acabam por fazer essa volta e
sim, sou isso mesmo e não há nenhum motivo para que tal reclamar esses termos. Hoje, aos trinta e quatro anos, sou o
seja um insulto». Troque-se bicha por fufa, veado, boiola, tra- meu pesadelo ambulante aos doze. Se eu visse uma mulher
veca, maricas, fanchona ou qualquer um dos outros termos como eu sou hoje aos doze anos, eu ia fugir. Mas isso não era
com que a ignorância e a insegurança se defendem do mundo eu, esse preconceito não era eu, só que eu fui educada para
para além das suas fracas fronteiras. De algum modo, trata-se achar horrível uma mulher que não fosse feminina, que não
de roubar o ouro ao bandido, fazendo do insulto afirmação. correspondesse ao estereótipo do feminino. Então, ser sapata
Em vez de esconder, negar, ignorar, colocar o jogo às claras e é resistência, claro! E se ser sapata é resistência, por que é que
dizer que diferente (de quê?) não significa menor, menos im- a minha editora não podia se chamar assim? A gente tem de
portante, alvo a abater. ter orgulho naquilo que a gente é, e nas minhas mais tenras
Quando Cecilia Silveira, autora brasileira a viver em memórias da infância eu já era sapata, e se não era antes foi
Portugal há sete anos, procurou um nome para aplicar ao porque não me deixaram ser. Então, se eu posso ser o que eu
seu projeto editorial, um espaço que queria publicar banda quiser, quando chegou o momento de escolher o nome da edi-
desenhada feita por mulheres e pessoas transsexuais ou não- tora, só podia ser Sapata. E já desenhei logo a bota do homem
-binárias, a escolha foi óbvia: Sapata Press. «Não queria sim- do campo, bem grande, com o elástico de lado...» A bota surge

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sap at a pr e ss

numa imagem a stencil impressa num saco de papel pardo. Lá pessoa, que depois seria a minha namorada (ainda hoje é), e
dentro, a encomenda dos livros mais recentes da Sapata Press resolvi que eu ia viver aqui, mas fiquei sem saber o que ia fazer.
que fizemos antes desta entrevista: Sensui, de Dois Vês, e Lado Portugal estava super complicado, com a crise, muito pior do
Bê, de Aline Lemos. Como bónus, dois livros de Cecília Silvei- que agora. Pensei em fazer um curso de ilustração e encontrei
ra, Go e Madrugada, e um envelope selado e lacrado, conten- o Ar.Co, onde fiz um workshop de ilustração digital, com o
do lixo. «Essa foi uma edição que eu recuperei do lixo, mesmo. Afonso Ferreira. A aula dele era qualquer coisa! Aprendi tudo
Ofereci ela para uma pessoa, em Beja, e essa pessoa não deve o que eu queria e muito mais, e logo comecei a fazer ilustração
ter querido guardar, então deitou fora. O interessante é que digital.» Antes disso, o trabalho de Cecília Silveira centrava-se
a edição completou seu ciclo, porque ela foi feita a partir do na fotografia e foi uma série de acasos que a levaram a mu-
lixo, e da ideia do confronto entre o lixo e o luxo, e acabou no dar o rumo dos dias: «A minha pesquisa académica em arte
lixo mesmo, antes de estar aqui, agora.» está toda relacionada com fotografia e objeto fotográfico. De-
pois de um tempo comecei a perceber que tudo já estava ali,
O acaso muda o rumo dos dias na verdade... O meu orientador foi o Jacinto Lajeira e a gente
fez uma pesquisa sobre materialidade da imagem fotográfica
Quando chegou a Portugal, há sete anos, a editora da e sobre a serialidade das imagens e todos os trabalhos dessa
Sapata Press estava longe de imaginar que iria criar uma chan- pesquisa têm, de uma certa forma, uma narrativa serial, em
cela para publicar a sua banda desenhada e a de outras auto- sequência. Então, já havia ali qualquer coisa e quem me aler-
ras. Na verdade, nem sequer a banda desenhada fazia parte tou para isso foi Delfim Sardo, o meu arguente. Antes disso,
dos seus planos. Até porque não havia planos. «Cheguei aqui eu trabalhava com fotografia e nessa fase procurei a Filipa
em 2010, fiz o mestrado em Crítica de Arte e Arquitetura em Valadares, porque queria editar um livro de fotografia. E ela
Coimbra. Aí depois fiquei um pouco perdida... Conheci uma recebeu-me muito bem, mas esse livro acabou não existindo e
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Sensui, Dois Vês

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Madrugada, Cecília Silveira

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sap at a pr e ss

foi nesse intervalo que eu fiquei perdida, sem saber o que fazer lésbica e sempre tenha tido uma atitude muito consciente no
da minha vida nesse país, todo fodido, onde eu tentava sobre- que respeita à questão do género, não tinha essa militância,
viver, até como brasileira. Essas questões são difíceis, embora estava sempre por fora. Aí trabalhei como ilustradora da Geni
exista todo um imaginário de os brasileiros serem muito sim- durante um ano e no segundo ano fiz uma proposta e quis
páticos, mas apenas para uma certa face da vida, porque por fazer uma história, uma novela gráfica. Queria contar a mi-
outro lado só servem para lavar o chão. E eu não queria fazer nha história de imigração, como é a minha vida aqui, como
isso. Foi aí que fui fazer o curso de ilustração e usei todo o meu conheci a minha namorada, enfim. Eles acharam ótimo e foi
privilégio burguês para poder pagá-lo...» assim que começou o “Folhetim”, uma espécie de biografia
ilustrada que eu não quis chamar de banda desenhada... Para
Uma espécie de biografia ilustrada mim, a banda desenhada tinha de ter quadradinhos, mas hoje
já não mantenho essa visão. Além disso, eu não sabia fazer a
«Nessa altura conheci uma poetisa que estava a fazer um sequência da história com quadradinhos, mas sabia que con-
mestrado na Nova e que conhecia um pessoal de São Paulo seguia escrever um texto coerente e ilustrar. As pessoas come-
que precisava urgentemente de um ilustrador para uma revis- çaram a ler aquilo e a esperar pelo próximo número da Geni
ta sobre género e sexualidade, que ia sair, a revista Geni. Ouro para ler a continuação. Publicava uma ou duas páginas por
sobre azul. Comecei a trabalhar quando entrei para o curso e mês e acabei por publicar 30 páginas. Não sabia se aquilo era
fui aprendendo, porque no início não sabia ilustrar.» É nesta banda desenhada e duvidava bastante, então fui procurar o
publicação que tudo começa a ganhar um sentido, cruzando a Ar.Co de novo, para fazer um workshop de banda desenhada.
procura por um novo percurso artístico com as inquietações Tive aula com o Nuno Saraiva, que tem aquela personalida-
políticas relativamente às questões de género e ao modo como de magnética, sempre disponível para partilhar o que sabe,
estas não são indiferentes às questões sociais. «Embora eu seja e foi ótimo. Nesse workshop, produzi o Madrugada, que foi
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Conheci o Francisco Sousa Em 2016 publica Go e Madrugada. tudo. E foi muito bom. que tem tudo a ver com a aula do Nuno. primeiro. que foi muito importante. Madrugada anda pelos territórios do erotismo e da descons- gava-nos a construir o resto da história. mas percebi que precisava melhorar a mi- desenhada. Comecei a fazer curso das margens ali. enfim. Eles me convidaram depois de nos encontrar o meu lugar. que me deixou entrar para o quar- As primeiras edições to ano. sap at a pr e ss um exercício proposto por ele: dava-nos duas vinhetas e obri.» nha técnica de banda desenhada. Go é uma reflexão sobre ras. explo- género no Madrugada. Eu tinha feito uma contemporânea. abrindo a cabeça da gente e destruindo todas as barrei- lações de uma voz em construção. porque já estava muito farta da arte conhecermos no Ar. No fim desse workshop. da Dor de Cotovelo. com quem tive aula. muitas pes- que erguemos uns contra os outros numa ilusão de proteção. e a banda esse doutoramento. migrantes brasileiras. de fazer nalidade que me interessa na banda desenhada e que. na arte. Não conseguia expressar esse dis. Tem uma questão erótica. da Triciclo. proposta para um doutoramento em Antropologia. depois.Co. os refugiados. de tudo isso. acima da questão do mam impor-se ao corpo e às suas expressões. do discurso. Foi aí o co. soas que foram importantes para mim. as barreiras o Daniel Lima. Com a ilustração. Tem uma questão de trução do género enquanto categoria fixa e arrumada. de um convite do Gonçalo Duarte. para onde voltei. percebi que era esse o caminho. e da meço. «O Go nasceu género. Então mostrei o projeto ao Jorge Nesbitt. onde há aulas com tutorias e um acompanhamento mais próximo. pensei que estava conseguindo Ana Braga. Tem uma margi. que já explodiu completamente com a minha visão de traços muito distintos onde se percebem as muitas modu. mas tem leitores que passam por ela rando os caminhos do desejo sem as baias sociais que costu- sem perceber. E havia os colegas. duas narrativas com Lobo.Co. Conheci também a Amanda Baeza. que 3838 . e o projeto foi aceite. uma banda desenhada com a história de vida de mulheres não conseguia encontrar. do Ar. a condição de migrante forçado.

Cecília Silveira 39 . Lixo — Luxo.

Aline Lemos 40 . Lado Bê.

trocou as cores É nessa altura que Cecília Silveira percebe que é possí. «Sabia que não estava sozinha» porque ele queria mostrar um processo partilhado. Jorge. o Madrugada. no S. minha namorada. que me convidou para impressioná-la. já com selo da Sapata Press e edição da autora. a pessoa que coloriu a minha banda desenhada. acho que comecei a fazer isso manter o contacto com a Filipa Valadares. Eu disse que tinha. nada elegante. dos personagens nesse detalhe aqui [mostra uma das vinhe- vel planificar a edição de um livro sem que os custos se tor. mas tória erótica com essa questão de género. que comecei a mostrar aos meus amigos. Na verdade. a Ana Braga.. saiu o Go. Então. que é sultou nesse livro. foi assim que começou a parte para mostrar tudo o que eu tinha do “Folhetim” na banca que da edição. O exercício que re- mantém-se esta estética nada fina. que é um leitor voraz de banda desenhada. tiragens.. mas quem desenhava não era quem fazia a coloração. porque o Nuno uma coisa que eu quero ter desde o começo. peguei na Madrugada. em 2015. também. Entretanto auto-editar... «Continuei a como ela. Então.» Madrugada sai cerca de dois meses mais tarde. em julho de 2016. Então.» Depois de conhecer algumas editoras de pequena ela teve no festival de cinema Queer. a autora avançou com a ideia que acabaria por estru- ra. Enfim. e foi aí que me convidaram para e decidi que queria editar o Madrugada. No dimensão e de se familiarizar com os métodos de produção e ano seguinte ela tinha a banca de novo e perguntou-me se não as diferentes possibilidades de imprimir e distribuir pequenas tinha nada para mostrar. a Dois Vês. nem insuportáveis: «Percebi que também conseguia fazer isso a Marta Sales. ao pai da Cotovelo.» Saraiva dava umas duas ou três vinhetas para a gente dese- nhar. Só tinha feito um editar o Go. paginei toscamente. é engraçado. porque eu achava que ninguém ia editar essa his- já fiz uma segunda edição com paginação mais cuidada. e fiz 13 exemplares para ela vender. como turar o seu trabalho editorial: «A Sapata Press nasceu para me se pode ver. tas da história]. sap at a pr e ss também eram espetaculares: o Gonçalo Duarte. pela Dor de exemplar. mas era menti. onde quem faz a penetração é a personagem 41 41 . brega.

» E se homens. sendo em tornar-se públicas.» cas: «Já recebi candidaturas de transexuais. E eu via que isso acontecia com outras pessoas. Então. então. mas para que A Sapata Press surge. publicar outras pessoas. zer que está chateando essas pessoas que sempre estiveram via mulheres com trabalhos muito melhores do que os dos nos lugares de poder e que sempre puderam publicar. para que essas O caráter político da edição pessoas se tornassem visíveis. que têm uma história de autoras – mulheres – e pessoas transsexuais ou não-biná. as respostas à convocatória estava sozinha. que sabem fazer os trabalhos de Cecília Silveira. para contar. mas igualmente os trabalhos coisas como todas as outras pessoas. e foi que Cecília Silveira fez no Tumblr da editora são inequívo- assim que começou. porque eu sabia que não res que coubessem neste espaço. porque quer di- enraivece. não para o prazer de as outras as verem como monstros.» 4242 . como conta a editora: «Já tive todo o tipo de crítica que você cadas. sem margem para dú- eu refiz as cores. as meninas. As miúdas. que essas pessoas. como um espaço que publica fossem vistas como pessoas que têm vidas. Às vezes. desenhadas que. A descrição é assumida e clara. uma forma possa imaginar. a ideia era dúvidas pudesse haver sobre a existência de autoras e auto- me publicar pelos mesmos motivos. mas sei que isso é ótimo. E era isso mesmo que eu queria. assim. que muitas vezes não chegavam a ser publi. apenas com a cor. eu não queria vidas sobre o carácter político do gesto que reconhece a ne- correr o risco de o meu trabalho não ser publicado ou de cair cessidade de um espaço que possa ser ocupado por bandas nas mãos de quem pudesse fazer coisas dessas com o meu tra. que fossem vistas. Então. porque é uma forma de infantilizar. E nada disso se fez sem alguns abalos. inclusive gente dizendo que a Sapata Press de referir o género feminino que se usa muito aqui e que me é “anti-homem”. teriam muita dificuldade balho. sap at a pr e ss feminina. para repor a história. eram as mulheres. de outro modo. e de pessoas não-binárias. mas elas quase nunca publicavam. ha. Queria. Posteriormente rias. sim. E subverteu tudo.

Go. Cecília Silveira 43 .

Enfim. porque eu brasileiros. uma série de quadros do quotidiano onde o generoso e mais carinhoso que eu já conheci). pesso- questionamento dos papéis e dos estereótipos de género se as a quem peço uma opinião.» 4444 . mas entre outros lu- o meu olhar. Ainda está tudo muito no começo. é muito bom. não só entre Portugal e o Brasil. novos desfiam com humor. enfim. onde a Sapata Press esteve recentemente). da autoria de Dois Vês. Tem uma mu- lher de Luanda que talvez publique connosco. títulos se preparam. o universo visual cruza o erotismo e o onírico. Vitral. que se possam que me ajudam a escolher o que publico. sap at a pr e ss Os dois primeiros livros editados por Cecília sem se. que aqui quase ninguém conhecia estas duas pessoas. porque não quero só trocar. de Marcos Farrajota. Vamos ver. quadrinhos feitos pelo Lino dar essa experiência para outra pessoa. por exemplo. Paulo.» Para o futuro próximo. com a Sapata. porque era o primeiro livro e isso gerou muita ansie. para con- que nunca vai ter o trabalho reconhecido. e já estou em negociação com ele. e Lado Bê. A ideia é que essas pes- tras pessoas à convocatória que lancei. seguirmos publicar aqui. como tinha acontecido comigo no primeiro livro. conhece. é uma coisa maravi. mas tenho tido respostas de ou. porque não se publicam cá. uma mulher que acha Arruda. gares. que me ajuda muito (e que é o punk mais Aline Lemos. foi com. Poder Sapata Press: «Há o Sapatoons. países de expressão portuguesa e outros. que as pessoas daqui possam conhecer os autores de que ela também. mantendo sempre aberta a convocatória plicado. o Pedro Vieira de Moura. do Brasil. mas convidei o Ramón te (como a EDIT. E sobretudo as mulheres. para que mais trabalhos e portefólios sejam enviados para a dade. esse foi o chute inicial. entre os espaços de divulgação da editora na internet e algumas feiras de edição independen. «Para a Dois Vês. E tenho outras pessoas soas possam alcançar um lugar e mais ainda. uma ilustradora de Leiria cujo a Dandara Palankof. E essa também é a mi- lhosa. e tem também Sensui. Trocar de lugar com todo o mundo rem da sua autoria já circulam. Aprendi muito com ela e tenho a certeza nha ideia. que escreve para a Folha de S. do Recife.

Podem as cidades existir Joana Simões sem Piedade vo vo ze ze direitos humanos? 45 .

à centralidade renovada. Henri Lefebvre 4646 . etc)» O Direito à Cidade. à vida. à habitação. à saúde. à instrução. aos ritmos de vida e empregos do tempo que permitem o uso pleno e inteiro destes momentos e lugares. à educação. figura o direito à cidade (não à cidade antiga. vozes «(…)Direito ao trabalho. ao lazer. mas à vida urbana. Entre estes direitos em formação. aos lu- gares de encontros e de trocas.

ou aviso prévio. Imaginem que. associações e banho aos vossos filhos na rua. a dar que junta moradores. Câmaras Municipais e Estado central. em vossa casa. bairros. sem qualquer notificação pública. a falta de condições de habitabilidade. Acusam e à Cidade e uma das mentoras da Caravana. os um grupo de moradores da Área Metropolitana cortes de água e luz. Esta carta é uma das seria possível conservar alimentos.um projecto criado este ano muitos meses já não há luz ou água.Colectivo pelo Direito à Habitação habitação de que têm sido vítimas. no passado mês que seria se eles não tivessem condições de Setembro. essa vossa casa. Imaginem. activista da a violação do direito constitucional à Habita . de onde podem de não serem capazes de lhes permitir avistar uma enorme pilha de lixo. mesmo que por um só dia… e ao mercado e as políticas incentivam a a imaginar o que seria a sensação de serem especulação imobiliária e desprotegem as tratados como dejectos a serem despejados».com . Habitação — https://caravanapelahabitacao. se ainda no pátio dessa mesma casa. são cada vez mais de Lisboa com o objectivo de denunciar comuns». No entanto. Os despejos. Juntos visitaram. onde há wordpress. defende Rita Silva. ver iniciativas da Caravana pelo Direito à televisão ou carregar o telefone. fosse demolida sem que nenhuma direitos essenciais na sua Constituição e solução alternativa vos fosse apresentada. E o direito à habitação na agenda da discussão imaginem se um dia. pessoas. com competências na área da habitação. Imaginem o académicos. não viver com dignidade. bairros de norte a sul do país de prosseguir os estudos ou que vocês não procurando dar visibilidade às carências e pudessem dizer sequer onde moram por medo precariedade nas habitações. Convidamos-vos a pensar o que seria viver a habitação está cada vez mais entregue na nossa pele. vozes «Imaginem-se a viver na completa escuridão. vosso «O Estado Português comprometeu-se a cumprir único tecto. ambos O panorama que encontraram em vários 4747 . as taxas Assim começa a carta aberta assinada por de esforço excessivas na habitação. a sobrelotação. Querem colocar de serem imediatamente discriminados. nos acordos internacionais.

a habitação que se despegam. Caravana pelo Direito à Habitação menciona O mercado não resolve». as fragilidades de muita da habitação social construída em Portugal nas últimas décadas. moradores e as campaínhas a tocar com Educação ou Segurança Social. por exemplo. e focando-nos no caso no seu limite. Em suma. e acreditam ofertas: «Quer vender a sua casa? Fique que este instrumento seria vital para aqui com o meu contacto». favor». são os tuk tuk nas ruas com os avisos de O grupo de activistas aponta ainda o dedo «Chinatown! Here is Chinatown». são os para a inexistência de uma «Lei de Bases folhetos a cair na caixa de correio dos da Habitação». sentimento generalizado de segregação. «O direito à a habitação é factor de desigualdade e habitação é um direito que parece existir segregação. vozes pontos do país permite-lhes concluir que as alternativas nesses casos. casos de sobrelotação tem sido alvo de ampla discussão e debate. com humidade e materiais particular do centro de Lisboa. edifícios que já estão Com efeito. é a clarificar. e sintetizam com uma pergunta: como figura abstracta. que está a piorar Entre os vários problemas detectados. Gentrificar para melhor lucrar «São problemas estrututurais: má qualidade na construção. são as movimentações de próprias casas. na habitação social». como existe para a Saúde. sustentam. pelo Regime Fiscal para 4848 . a cada vez mais o acesso à habitação. onde são os ruídos ininterruptos de brocas os moradores se sentem vigiados nas suas e berbequins. quais são as especulação imobiliária intensificada pelo situações em que pode haver despejos e quais boom do turismo. O Estado não se sente vinculado mercadoria? e remete para o mercado. Não é como a Saúde ou A habitação é um direito social ou uma a Educação. como se estivessem «quase de carrinhas com materiais de construção. A isto junta-se Nos bairros históricos da cidade são a ausência de diálogo com as entidades os trolleys dos turistas rua acima rua gestoras da habitação dos bairros e um abaixo que não dão descanso à calçada.

ao habitat e ao habitar. Henri Lefebvre 49 . O direito à obra (à atividade participante) e o direito à apropriação (bem distinto do direito à propriedade) implicam-se no di- reito à cidade.» O Direito à Cidade. à individualização na socialização. vozes «O direito à cidade manifesta-se como forma superior dos direitos: di- reito à liberdade.

uma expressão baixo custo. (2012) que veio permitir oportunidades de dando origem a manifestações e protestos negócio a fundos de investimento e outras populares bastante enérgicos. para favorecer as elites. levando já replicada inúmeras vezes. vozes Residentes Não Habituais. deixando-os abandonados por valorização imobiliária de uma zona urbana. o debate público para uma outro local e da entrada de residentes «renovação do bairro». Começa com a a situações de pessoas que vivem nas circunstância de um grupo de investidores cidades e estão a ser expulsas». Tal como começou «São processos de especulação que levam a acontecer a Lisboa. também a surgir vocabulário específico com a 5050 . pontos do mundo em cidades como Nova A isto acresce a nova Lei das Rendas Iorque. Geralmente O que está a acontecer no centro de Lisboa são bairros da classe operária e de dá pelo nome de gentrificação. alterações no seu património imobiliário os produtores culturais. Os processos entidades especuladoras. como possível alvo para o lucro. resume imobiliários detectar determinado bairro Rita Silva. Investidores compram prédios e décadas de 70/80. os designers. Chicago. abrindo caminho de gentrificação têm alterado o espaço urbano para a tal figura da habitação-mercadoria. É um processo atrair a comunidade artística. mas que acaba por produzir efeitos também as profissões das áreas criativas. Este é o processo de apartamentos. pelos Golden Este fenómeno tem acontecido em vários Visa. os senhorios a querer ver-se livres de A receita para a gentrificação é uma fórmula inquilinos para aumentar as rendas. alguns anos. Gera-se uma ideia de que a geralmente acompanhada da deslocação dos zona está em estado de degradação começando. os músicos. Londres ou Barcelona. residentes com menor poder económico para simultaneamente. O próximo passo é com maior poder económico. É preciso de transformação de um bairro. Começa na cultura destes locais. através de chamar os artistas plásticos. localizados no centro das popularizada pelo geógrafo Neil Smith nas cidades.

a legislação que protegia mais as pessoas. inevitavelmente. preocupações e discussão para cima da mesa. eles próprios. actualmente. afastando as -propriedade. art ouvir a sua voz. estas pessoas. fazemos a cidade. Como resultado da gentrificação os tivemos uma lei das rendas que protegia mais valores do arrendamento disparam (quando o direito dos inquilinos. A procura por uma casa no bairro aumenta Rita Silva acredita que «já tivemos e os preços começam. aos sem abrigo. desenvolve. levando ao consequente O direito à cidade aumento da qualidade dos serviços públicos. condições para continuar humanos». Em na História é errada. Hoje é tudo pró- a legislação é permissível). Mas. vozes alusão a bairros vibrantes. com a destruição do Estado sido inicialmente atraídos acabam por não Social e isso coloca em causa direitos ter. defende. bairros da moda. Ou como reflectem os activistas ajudou a trazer os problemas da habitação na olhando para a capital portuguesa em 2017: cidade de Lisboa à tona do debate público. sobretudo. Neste momento estamos determinado ponto. a 51 51 . É com o nosso trabalho que a cidade se no limite. que encerra um acesso transformado à vida refere que foi esta circunstância que urbana. com meios e canais para fazer zonas fervilhantes. que estão a trazer as suas space. na «Antes os problemas da habitação pareciam nossa actividade diária. à boleia dos artistas chega a classe média. ironicamente. mesmo aqueles que tinham num retrocesso. da gentrificação conduz-nos ao «direito à O investigador Simone Tulumello. a participar. A pouco e pouco. e por isso todos temos o direito em Lisboa o problema da habitação tornou. circunscritos às periferias. comunidade criativa. E falar sobre direitos humanos no âmbito ajudaram a popularizar. expressão de Henri Lefebvre (1968) membro da Caravana pelo Direito à Habitação. A ideia que há sempre evolução pessoas que não têm condições de pagar. a se também um problema da classe média». às minorias. a morar nos bairros que. São participar nas suas escolhas e. Já subir. a definir o seu rumo. incubadoras. «É o reconhecimento de que todos nós. trendy spots. também cidade».

de modo algum. enfeitar o espaço urbano com objetos de arte.» O Direito à Cidade. vozes «Colocar a arte ao serviço do urbano não significa. Henri Lefebvre 52 . Esta paródia do possível denuncia-se a si própria como caricatural. Significa que os tempos-espaços se transfor- mam em obra de arte e que a arte passada é reconsiderada como fonte e mode- lo de apropriação do espaço e do tempo.

têm vindo a uma solução ser encontrada (e decidida) só constituir-se como micro-resistências. a Câmara considerou que «a No meio deste combate. num primeiro momento. os que defendem a cidade como por rever o seu próprio posicionamento. de campanha eleitoral com a consequente É neste sentido que a Caravana pelo mediatização do caso. 5353 . um Direito à Habitação. No entanto. uma vez que o executivo «chegou progresso» . daquela que sempre foi a sua. famílias e jovens construção do direito à habitação e de uma têm sido coagidos a abandonar a cidade e cidade para todas as pessoas passa também afastam-se para zonas periféricas onde pela responsabilização e envolvimento dos têm de lidar com uma realidade distante proprietários». Lagares». Seja como for. caso bem sucedido aconteceu no mês passado Um pouco por todo o mundo assistiu-se (e na Rua dos Lagares. questão entre privados. comunicado. Um foi precisa vontade. E. Os moradores naturais do mercado livre (ainda que muitas pediram ajuda à Câmara Municipal de Lisboa vezes apoiado em financiamento e recursos que. mostrando que para associações e movimentos. assiste-se) ao combate entre um sector que Lisboa. onde 16 famílias estavam prestes a defende que a gentrificação é fruto de acções ser despejadas de um prédio. acabou De um lado. na zona da Mouraria. vozes não ser expulsos». E a e a circunstância de ter ocorrido em período negação do seu próprio direito à cidade. Vontade política. disse que não públicos) e os movimentos de protesto contra podia interferir visto tratar-se de uma a venda de prédios e despejo de moradores. Em criação de imóveis com rendas acessíveis.a permanência dos moradores e a a entendimento com o proprietário». produto de consumo e afastam parte da Em vésperas de eleições autárquicas «foi população do seu usufruto. travada a saída das famílias da rua dos os que defendem – sob o rótulo de «anti. do outro. poucos (e A vitória surgiu do misto entre uma luta dispendiosos) transportes públicos para corajosa e acérrima das moradoras do prédio acesso ao centro e aos bens culturais. bem como várias outras precedente foi aberto.

como quero argumentar. um dos mais preciosos. É. O direito a fazer e refazer as nossas cidades e a nós mesmos é. e ainda assim mais negligenciados. ao invés de individual. vozes «O direito à cidade é muito mais que a liberdade individual para ace- der aos recursos urbanos: é o direito de mudar a nós mesmos por mudar a cidade. sobretudo. dos nossos direi- tos humanos» David Harvey 5454 . um direito coletivo. pois esta transformação inevitavelmente depende do exercício de um poder co- letivo para dar nova forma ao processo de urbanização.

A CASA DA ANDRÉA A BAnhEIRA ANDRÉA ZAMORANO 55 55 .

os raios de luz esmorecidos ficaram para lá da porta. Todos ouvíamos o som que vinha de um interior. quando os raios tocavam o chão o pó se misturava tornan- do-a quase uma luz calma. Pisava o soalho envelhecido de tábuas corridas com cuidado. Primeiro achei que estavam apenas dentro da minha cabeça. depois olhei para trás e vi na penumbra que as outras pessoas se aproximavam da porta do minúsculo quarto que se afigurava ainda mais apertado. Em cada divisão a cena se re- petia. um último e minúsculo cubículo me esperava. Preferia evitar um olhar mais duro ou até uma palavra de reprimenda. seu Carlos e até algumas pessoas que eu nunca tinha visto. o ar estava suspenso. Minhas mãos se apoiaram no batente me impedindo de entrar. diáfana. Estavam todos lá: minha tia Zezé. estava atrasado para variar. os vizinhos da rua detrás. Dona Mercedes. Então as vozes foram chegando. meu primo Mário. os vizinhos se consolando com afago nas costas e os estranhos apenas espreitavam calados. Contudo nada aconteceu. não havia mais nada que pudesse fazer. Fui entrando pelo meu caminho. como se saísse de dentro de algum lugar. Entrei no quarto escuro. Fui-me aproximando com cuida- 56 . o vento não corria pelas salas. Não pretendia. não estavam interessados na minha demora. uns parentes se abraçavam. não queria que me notassem. Continuei perambulando. As paredes me pareciam mais baixas. Esquivei- -me pelos cómodos despidos de móveis arrastados para os cantos. a casa da andr é a A luz entrava em pequenos feixes.

No breu luta- va por contar as cabeças que não conseguíamos encontrar. começaram a chorar. Pensei que não fosse demorar para que todos entrassem em pâni- co com as vozes murmurando coisas indecifráveis e as criaturas zanzando à nossa volta. O quarto estava muito menor. atravessou aquele aglomerado de gen- tes. Pedi que parassem. as vozes voltaram. encostei minha orelha à parede. Com tanta água salgada. Todas as pessoas estavam dentro do diminuto espaço. A água então ia pelos quadris anafados de Dona Mercedes que bem se esforçava para que parassem com o berreiro. colocou o dedo indicador em riste na boca e no meio daquela escuridão até parecia que todos haviam visto a sua ordem silenciosa para pararem com a choradeira. Fomos capazes de ouvir algo. Não nos podíamos mover.a casa da andr é a do do fundo. parei de ouvir. As lágrimas foram inundando a sala. sentia-o a passear. E choraram tanto que de repente senti os meus pés encharcados. com 57 . Não sei descrever o som que me fugia porém não restava dúvida que nadava entre as nossas pernas. Porém o choro não era mais de desconsolo. estranhamente não estávamos mais apertados. Minha tia Zezé começou a chorar bem baixinho para que não a ouvissem mas o sussurro das lágrimas é poderoso. Éramos menos. já nenhuma pessoa lhe ligava. Olhava em volta. ninguém me ouvia. a verdade é que estava certo. O pranto parou. uma pessoa muito humana porém um tanto autoritária. já chegavam às minhas canelas quando Dona Mercedes. Não me lembrava de estar descalço. o quarto encolheu um pouco.

a casa da andr é a a água pela cintura. E de repente o seu Carlos. mantinha os braços levantados. estava gelado. via-o mal e segundos depois deixei de o ver. As vozes foram se tornando nítidas. fora d’água. Meu primo Mário arregalou tanto os olhos que a parte branca refletiu o quarto por momentos antes de desaparecer também. Demorei uns minutos pasmado. a luz foi entrando mais um pouco. enquanto a minha mãe agarrava na minha mão. estava habituado a estar num aquário. Talvez porque tantas vezes me senti como um. Fiquei sozinho de novo naquele cómodo que se tornara do tamanho da banheira da casa do meu avô. Quando consegui ver os ténues raios de luz por trás da porta. não queria ficar encarcerado com os peixes sem me ter tornado um deles. Estiquei-me todo e com as pontas dos dedos conseguia tocar novamente no batente da porta. a água já ia no meu peito. estava bem ali na minha frente. então comecei a compreender o que me diziam as vozes. Chamavam o meu nome baixinho. As pessoas passaram a caminhar atrás de nós e do carro da funerária que levava o meu avô. Não sei porque não incomodava as pessoas terem virado peixes. era o que meu avô me chamava quando nos verões ficava horas tomando banho na sua banheira. onde estaria a minha tia Zezé? Sentia cada vez mais criaturas a roçarem-se nas minhas costas. su- miu. Sem ninguém mais para chorar. marido da Dona Mercedes. A porta só não podia se fechar. estava engando. Mergulhei na esperança de chegar lá mais depressa. como não me querendo chamar. pensei que a água desistisse de subir. 58 . encharcado no suor.

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os sapat- s o do se- nhor Luiz Andreia Brites 60 .

que viajam connosco. 61 .À porta do Teatro Municipal São Luiz as famílias vão aguardando as 11 horas. nadas e tudos. haverá pares de sapatos à espera de serem encontrados pelos visitantes. No teatro. Mas isso o grupo só começa a alcançar depois de algumas crianças repararem no primeiro par que entretanto. memórias. A importância dos sapatos: aqueles que nos transportam. por artes mágicas. sapatos que literalmente têm histórias dentro. Madalena Garnier Marques abre a porta do Foyer e logo convida o grupo a sentar-se no chão. que guardam episódios. Depois desta visita-espetáculo a Blimunda foi conhecer os bastidores dos bastidores com Madalena Garnier Marques. São sapatos do teatro. jaz num degrau das escadas que levarão ao primeiro andar.

Ela queria disso tinha estado um ano em França a colaborar em projetos umas visitas mais encenadas com uma parte de expressão dra. à música ou a qualquer outra arte. Licenciou-se atro. onde conheceu muitas pessoas e formas de criar diferentes. onde se decidiu por aquela licenciatura em mática. entre os quais um curso de puppet em Copenha- Levei-lhe uma série de propostas e pensámos que podíamos ga. os sap at os do sen hor lu iz O convite para esta visita espetáculo surgiu numa conversa O que eu andei para aqui chegar entre Susana Duarte. «No meio disto tudo fiz dois estágios que são as minhas grandes referências: um na Gulbenkian. achámos tura. Durante o curso fez vários in- para casa pensar naquilo. Reunimos passado quase um ano. tercâmbios.. tendo em conta que se queria pegar nesta liberdade de criar momentos performativos associados à lei- história invísivel do teatro que está lá mas não está. onde coordenou o Pé de Ven- do Senhor Luiz. Voltei para casa e pensei que não. uma oficina que esta última ali realizou sobre o actividário Te. que o conhecimento teórico lhe sabia a muito pouco. e Madalena Garnier Marques por ocasião de Com experiência de teatro amador desde a adolescência. no antigo Centro de 62 . Fez um mestrado em que era a melhor proposta. Madalena tem um percurso muito pouco linear.» totalmente pensadas e trabalhadas por si.» Tinha outra que era Isto é um teatro ou é um to. Quando acabou o curso ingressou na Câmara Municipal da mos a reunir e disse-lhe: «Vamos apostar numa: Os Sapatos Moita como técnica da cultura. A mim também me interessa muito Educação Artística e começaram a surgir as primeiras oficinas trabalhar estas coisas invisíveis e torná-las visíveis e acessíveis. Mas depois. um projeto de educação pela arte no Vale da Amoreira até barco? porque toda a maquinaria dos teatros é inspirada nos à decisão de abandonar o emprego estável para se lançar na barcos. de voluntariado. a programadora infantil do Teatro Mu- nicipal São Luíz. da editora Pato Lógico.. escrito por Ricardo Henriques e em animação e intervenção socio-cultural e logo aí percebeu ilustrado por André Letria. Voltá. Antes «Começámos a pensar no que podíamos fazer. Havia várias possibilidades em cima da mesa e eu fui detrimento dos estudos teatrais. avançar com várias.

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Este infantil. – o infantil – e um tema que subjaz a tudo o que faz: a invisi- artistas plásticos. maioritariamente dirigidos ao público raspar o chão para ver o que está por baixo ou por trás.» Assim foi. De Neste momento. Verme. e em Bruxelas este edifício? Quem é que construiu isto? Porquê estas cores? no Museu das Crianças. Um sítio maravilhoso! É um palácio Estou sempre com estas coisas na cabeça. de querer próprios espetáculos. atores. uma das três criadoras.» de cinco andares onde as exposições duram quatro anos. costureiros – todas a trabalhar juntas e que bilidade e a memória como elementos basilares para o desen- nos últimos dois anos de cada exposição preparam a seguinte. a Casa Invisível. volvimento de identidades coletivas. A Quando estava no final do mestrado recebeu um email Casa. onde cria projetos de raíz com duas sócias. a exposição chamava-se Vermelho. só por isso!». Recentemente fundou uma associação. somos três e temos ao teatro. atualmente Coleção Moderna. trabalho significa para nós a democratização da informação ta a história real dos chapéus de chuva. Então era o Vermelho Amor. que não tem espaço físico. palavra e ação os módulos de jogo. carpinteiros. Verme. tem um papel de acolhimen- com a informação sobre um curso de artes performativas e to.. «Fui pesquisar tudo: que implica o investimento na acessibilidade e adaptação dos a origem. quem conteúdos aos diferentes públicos. tudo. Por isso propuseram uma visita encenada para o Te- 64 . Na altura em que lá estava. É incrível! Eles é que constroem todos Conforto. como é que era usado. Foi uma grande inspiração!» somos da margem sul.» é que o usava. Catarina. Vermelho Natureza. Começou então a criar sozinha os seus todas em comum esta coisa de querer vasculhar. Interessa-me mesmo a história das coisas. É para crianças e inclui todas as referências que eles consi- deram importantes. conforto e mediação.. O que é Funchal. os sap at os do sen hor lu iz Arte Moderna. a mediação performativa. com O que hoje lhe parece claro é a escolha intuitiva do público uma equipa de trinta pessoas – músicos. lho Festa. comenta entre risos. está no coisas que eu também não sei mas que me pergunto. «Sócias porque lho Teatro. no ativo. Vermelho Culinária. onde é que era usado. O primeiro de todos chama-se Apanha Chuva e con. «É muito pensou: «É mesmo isto! Estou mesmo a precisar de voltar giro porque na Casa Invisível...

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oficinas e uma parte performati. normalmente entre três obras e durante o qual O modelo de trabalho de Madalena Garnier Marques é vão acontecendo coisas. a associação continua. Começou por uma pesquisa acurada sobre a história lena e Catarina trabalham essencialmente com o público in. Susana e Catarina já trabalhavam juntas quando convicção. as reflexões e os processos tade para serem quem são. foi concedido a Luiz de Braga Júnior pelo va. para não se preocuparem com aquilo que os outros achem e gem comum. de trabalho das três no sentido de aprofundarem uma lingua. Mada. Há uma relação que é criada entre as o que nós quisermos. Madalena. Susana e Catarina conheceram-se na para ser um espaço de descoberta. em parceria com a Susana Pires. cimento da pessoa São Luiz. que agora escrevemos sobre a associação dizemos que os contornos da também é realizado através da Casa Invisível. um espaço de palavra e de Gulbenkian. qualquer espaço que a casa seja. embora não referido na rá a oferecer visitas guiadas. Carlos: Visconde São Luiz. A ideia é tam- bém haver uma pesquisa em torno dos objetos e dos artistas Uma forma de ler aquela casa expostos.» histórias e a exposição que não é só um cenário. O título. mas o objetivo ceberam as dinâmicas sociais dos torna-viagem (os que vão e 66 . Luíz. A de conforto onde as pessoas se encontrem. Ao longo da pesquisa per- ocuparmos espaços que são menos usados. Como objectivo programático. Daí resulta uma abordagem performativa através de um percurso. visita-espetáculo. «A ideia é podermos conviver com espaços que já existem. «São histórias Casa Invisível são os contornos do nosso dedo indicador e são a partir das exposições. Na sinopse que Madalena surgiu no projeto Histórias de Musear.» Estas sessões dirigem-se a famílias bastante metódico e Os Sapatos do Senhor Luiz não fugiram com crianças entre os dois e os cinco anos. para dizerem o que lhes apetece. e as histórias do teatro. Le- fantil enquanto Susana acrescenta ainda visitas para o público ram e vasculharam documentos e documentos. à regra. Rei D. se sintam à von- Casa Invisível reúne as experiências. ao qual ela se dedica realizando agora o principal da Casa Invisível é ser de facto uma casa. os sap at os do sen hor lu iz atro Baltazar Dias. Na Casa. um espaço mesmo tipo de pesquisa que Madalena já fez para o S. desde o nas- adulto.

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parecem ser a brincar. do arquiteto do edifício. chega ao teatro!" Depois. ciono as informações que acho que são importantes.. para os cluindo informações. e a citações e informações. italiano Luigi Manini que assina o fresco da parede do Jardim quando chegou ao Teatro. em ge- cortar.» São coisas que para não me perder no meio de todos os factos e depois sele. que são a rimar. o que vou usar no sapatos escolhidos. se criasse um texto e uma dramaturgia espetáculo naquele momento. e que mulher! Tendo em conta que as visitas encontrei pensei "Isto é genial. é sobre o momento em que ele são destinadas ao público infantil. o que vou dizer para além do que revelasse o invisível e o evidente. No entanto. ou do pintor. sacudiu de inverno. É verdade que o São Luiz. tirou três vezes o chapéu. Adoro Estas coisas fazem a diferença na cabeça das pessoas. é assim tão importante. os sap at os do sen hor lu iz voltam do Brasil a partir da segunda metade do século XIX). pavões mas é verdade que viajava com os seus animais de es- Ernest-Louis Reynaud.. Mas tudo o que conto no espetáculo é propriamente dita é que teve início a escolha dos sapatos. Li isto numa pôs foi o da mundialmente conhecida atriz Sarah Bernhardt. dramaturgia. entrevista que consegui ver num jornal da época. Quando a Era uma mulher. Mas não foram. datas. Mas chegar aqui implicou que. faço uma cronologia gem. Po. «Faço a seleção das in.» 68 . Só quando chegaram à história do Teatro São Luiz ir por outras formas. as mãos e disse coisas que ninguém entendia. Outro com uma tabela onde vou in- surpresa será maior. entre os quais um macaco. que ficam no ouvido. Se calhar a Sarah Bernhardt não viajava com tantos deriam ter sido os sapatos da Rainha. a partir do momento em que faço ca apresentar alguém totalmente desconhecido. cenógrafo e arquiteto timação. que é informação histórica e começo a criar a minha lingua- formações que me chamam a atenção. Por exemplo: «O São Luiz estava feliz. verdade. Depois há sempre pequenos detalhes quem eram as pessoas influentes e as mais importante para sobre os quais não consigo encontrar informações e tenho de o teatro. a mais conhecida!» faz parte do jogo este engano. a seleção do texto preciso de começar a ver como é que vou Madalena anuncia-a como «a melhor e mais incrível atriz do dizer isto. Um dos nomes que logo se im. Como fazem na minha. incluir esta figura signifi. é muito fácil para mim perceber que isto ou aquilo não ral. Então tenho dois documentos paralelos: um com mundo.

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Madalena nem sempre Não nos conhecíamos mas entretanto fomos percebendo o apresenta Sarah Bernhardt. que cada uma de nós fazia.» sou muito do detalhe: a florzinha que nunca ninguém viu. os sap at os do sen hor lu iz A criação dos sapatos também foi uma novidade no pro. numa das solas. petáculos sem nada. Estão por isso previstos novos pares e rem ir fazer coisas ao condomínio. pessoas. Se forem muito pequenos. como por vezes acontece com grupos casa e a Ângela Rocha fazia parte da equipa do condomínio. a planta Quando estreou. Por isso. Eu candidatei a minha até algumas variações. percebi que a Ângela também era do detalhe. dos sapatos do Senhor Luiz vemos a nosso pedido. À medida que pesquisava e escrevia o guião com São mais pequenos do que os outros para eu os poder calçar. Habituada a desenvolver es.. A Ângela é aderecista. únicos sapatos que foram comprados são os do Mário Viegas. será o próprio São e cenógrafa. na imagem do seu par de sapatos porque afinal. Andava com ela na cabeça para este projeto. -espetáculo. figurinista independentemente dos outros convivas. a Susana Pires tentava materializar factos. o São Luiz e os do Marreco. A história do Teatro permite precisamente esse acréscimo e ras de casas e candidaturas de projetos. «é ele nho um amigo que me chama a senhora minúscula porque quem abre a porta. Eles recebem dois tipos de candidaturas: candidatu.. era preciso organizar muito bem cada elemento a a equipa que trabalha com ela e fez um trabalho notável. ou. um mapa. base do texto de toda a visita. Ela reuniu tidiano. Luiz. apenas com recurso aos objetos do quo. Tenho um espetáculo que é o senhor minúsculo e a baleia! cesso de trabalho de Madalena. É mesmo um trabalho de joalheiros!» aparecer. escolares. Quem não faltará. senão não conseguia. de pessoas que que. por exemplo. Os introduzir nos pares de sapatos. de sapatos: os do seu fundador. projecionista. Passado um ou dois meses. diminuição de pares. entraram os sapatos domínio e que é um festival que acontece dentro da casa das de Sarah Bernhardt e este ano chegaram os de Mário Viegas. a visita-espetáculo só incluía dois pares da sala principal. episódios e símbo. Tudo o que eles puseram nos sapatos foi los nos sapatos. Te. então falei com ela para ser ela a fazer os sapatos. Não sei porquê. por exemplo. o «Eu conheci uma rapariga num projeto que se chama Con. 70 .

Uma vez. A terminar a nossa conversa. É fundamental fazê-las sentir que aquilo é para elas. especialmente porque promovo memória. e às tantas olha para a professora que estava atrás e alteraria o formato. O meu foco é o público. Porque os projetos também têm memória coletiva. n'Os Sapa. promove leitura. A mediação é esse convite a entrar. as. não seria o mesmo objeto. «Acho que sim. da leitura que orienta com a dos espetáculos.» isso. Pensá- visita para escolas na Gulbenkian. com as miscelâne. outra criança perguntou se mos num momento de expressão dramática mas não resulta- aquilo. Porque nos interessa muito continuar esta relação de pro. «Foi aí que me ria. Madalena assume que sofre quando compa- ra a maior participação do público nas oficinas de promoção «É muito giro ver a reação do público. numa últimos. logo ao princípio.» ESTELLE VALENTE 71 . ximidade sem quarta parede. «Tentámos com os sapatos do Mário Viegas.» surgiu a ideia da visita-espetáculo. que não é só mais uma coisa que aconteceu e que é FOTOGRAFIAS DE repetida. independen- temente do projeto que estejamos a criar. essa mediação em que queremos que nos digam coisas para integrar também. Mas reconhece tos do Senhor Luiz. não fazia sentido. era um espetáculo. os sap at os do sen hor lu iz O público Apesar disso. estava um menino super que são modelos distintos e que forçar demais a participação colado. Tenho muito respei- to pelas pessoas que tiram o tempo para fazer aquilo comigo e por isso eu trabalho para as pessoas que estão comigo na- quele momento. que era uma visita. perguntamos a Madalena se Isso é algo que temos vindo a perceber na Casa Invisível: é que considera que a visita-espetáculo Os Sapatos do Senhor Luiz queremos muito brincar com os híbridos. Por causa daquele miúdo. a linguagem e a própria coerência destes diz: "Isto é que é o espetáculo?"» Numa outra ocasião.

via skype. na condição de ilustrador. A Andante Biblioteca Internacional da Juventude. Associação Artística merece a nomeação portuguesa enquanto entidade Eric Carle ou Jimmy Liao. entre os quais a Biblioteca de Lampedusa. promotora da leitura. Abuelas Cuentacuentos da Argentina. em abril de 2018 juvenil Maria Teresa Maia Gonzalez. and the winner is.. 72 . como sempre acontece. Katsumi Komagata. Já o juri internacional decidiu recandidatar a escritora O prémio será divulgado na Feira do Livro de Bolonha. Elena Odriozola.. a André Letria volta a ser nomeado. Maria Teresa Andruetto. AND André Letria Andante Maria Teresa Maia Gonzalez Candidatos ao ALMA 2018 A candidatura é da responsabilidade da DGLAB e a integração na lista reconhecidos. a organização deste prémio é quase tão relevante como integrar a do Prémio Andersen. onde se encontra a Fundação com o seu nome. diretamente na cidade natal de Astrid Os candidatos portugueses estarão acompanhados por muitos nomes Lindgren na Suécia.

configura o poema numa abstração que telhado. festa aonde outros acorrem. No final quem estaria afinal à toa na vida? E quem foi o amor que Seguindo escrupulosamente a introdução das personagens (o homem chamou? sério. a chuva ou a neve. tudo se altera. em alguns casos nenhuma. a estrutura que a inclua e lhe dê até protagonismo. alimenta a angústia e o mistério. a coleção que tem Quem são estas personagens? O mistério mantém-se o nome do autor começa com este poema icónico que o porque a ilustração não avança com muito mais informa- brasileiro Chico Buarque escreveu e musicou em 1966. as casas. alimentando a progressão e as pausas do discurso -se para começar a desaparecer na página da direita e à textual. prepara- to. antes desse interlúdio feliz. as crianças criam Afonso Cruz. como Sem nunca se alterar o enquadramento espacial . profundamente marcado pela cadência rítmica medida que cada um dos músicos abandona o cenário e melódica. pontilhada de detalhes. o acidente que cria esperança e mudança na vida daquelas pessoas. contudo. refúgios parecem estar preenchidos. todos desaparecem. a rapariga triste estende roupa. A roupa pendurada muitas páginas antes permanece. o faroleiro. nem reciclam nenhuma repetição. Mas não há resposta definitiva para nada nem para ninguém. o ção. os caem. já que é ela que pauta o contex. amplia-se com a mudança das estações que são centrais respondem agora os cinzas. O tempo é então o protagonista e a banda o seu mote simbólico. nádia e Tiago Albuquerque. uma freira precisa A ilustração é neste caso o ponto central do livro de assistência médica. a rua) para ver a banda que progride a cada página dupla. E tudo culmina num clímax de e da narrativa global. que assume igualmente a escolha dos desacato junto das freiras. Alimentando vividas com cores distintas e cíclicas. O homem sério é perturbado ilustradores. Pelo contrário. o caixote do lixo desponta da neve e o boneco casas e pessoas – é a banda que se desloca nas páginas. as quatro janelas mantêm as luzes acesas. Alfaguara Com curadoria de Afonso Cruz. O velho tem bengala e É então a primeira escolha de um texto inspirador para óculos. as crianças. a namorada. como no início. A banda. a rapariga triste. escolhem uma Todavia. estas vão-se juntando nos seus postos (as janelas. bem como com a integração ou não a dor depois de a banda passar. 73 . ção. alimentando ou não o desa- de alguns elementos reconhecíveis como as folhas de plátanos que mor.uma rua com memória e vestígio. panhia. pela agitação das crianças e do fogo.ANDREIA BRITE S A Banda ESPELHO MEU Chico Buarque. O tempo da ação é um tempo maior do bengala do velho que caíra sozinho na neve. Os cantos. e com ela o que as crianças entretanto fizeram apropriou-se dos óculos e da próprio tempo da história. aparentemente tudo Mas Nádia e Tiago Albuquerque não dispensam regressa ao ponto de origem. Aos ocres das páginas que breve momento. o retorno não se repete de forma idêntica. o velho ou O estilo plano e geométrico das formas e das cores desta ilustra- a rapariga gorda). o da passagem do rapariga regressa ao banco de jardim para ler e o gato faz-lhe com- tempo. No final.

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çando pela imagem do cérebro de Coco que vai reaparecendo. numa possibilidade à escala global. de ilustração e grafismo que em muito se relacionam com o universo corpo duvidoso. os diálogos entre personagens e ainda canções que surgem Os detalhes da ilustração são também por sua vez hilariantes. à sua composição textu- seu escritório é disso um espelho. come- repentinamente a propósito deste investigador protagonista. Há caixas de texto que albergam quer a voz do narrador quando a ação Esta total identificação permite antecipação e confirmação. Ao contrário da limpidez conclusões e deseje confirmá-las com o desempenho do do traço. ilustrações de página inteira e página dupla. indiana. ora den- tas de dimensões variáveis. a que ritmo. Bem pelo contrário. e nesse sentido. pilhas de papéis. um lugar particular torna-se claro. O particular contribui para a cons- Os seus elaborados rituais. sordenada e imprevisível que dificulta o acesso pelo leitor. hipérboles e silogismos descons. The night life of trees). Orfeu negro A estética mais associada aos livros da editora indiana leitor de forma indireta. O texto e a personagem têm então as caracte- (Waterlife. para além da comicidade que invocam. Priya Sundram. O figurino das personagens deve deter? é tradicional e há aqui e ali elementos que remetem para a geografia O texto assenta em contradições. As conclusões perante as pistas Tara Books não se assemelha a esta edição que agora surge demoram o tempo suficiente para que o leitor tire as suas em Portugal pela Orfeu Negro.. Desde que persistisse o mistério e o humor. Há vinhe. da composição poética e da abordagem artesanal Capitão Coco. brada até à evidente solução. O desafio que se coloca excentricidade da observação do Capitão. Que relevância pode ter uma banana desaparecida? A Contudo. A cadência das roça o nonsense e na colagem como recurso central para pistas. em nada esta estratégia prejudica a coerência pergunta passa rapidamente de literal a retórica e a moti- da estrutura interna desta original intriga policial. com a fotografia do seu rosto num al. tão Coco que rapidamente se assume. revistas de detetives e do nonsense que desconstrói o policial.. esta banda desenhada aposta no humor que rativa e a figura excêntrica do protagonista. uma taça que prova uma qualquer glória. trução das personagens. 75 . cuja técnica varia de obra rísticas do policial: a indução patenteada na estrutura nar- para obra. local. fotografia. vação é a de seguir este homem que vê aquilo que a ilustração dá a ver. a arquitetura truídos que provocam estranheza e uma empatia pela figura do Capi. O jogo de perspetiva alimenta igualmente a reproduções de formas e padrões. este livro uma figura completamente desfazada da realidade: é um pateta feliz. como a fotografia de Ghandi na parede da sala. progride. O é contudo um livro universal.ANDREIA BRITE S Capitão Coco e o caso das bananas desaparecidas ESPELHO MEU Anushka Ravishankar. aos olhos de quem o vê e lê como Sem margem para dúvidas quanto à localização geográfica. com outros atores o palco contribuem para o jogo de antecipação que é desde logo proposto ao poderia ser outro. onde se o sobrinho da Srª Y sai da casa de banho. as pequenas revelações e os momentos de reflexão a introdução da multiplicidade de elementos contextuais. o tapete e outros posters e fotos pendurados nas paredes. sucedem-se numa velocidade vagarosa mas sempre equili- Tudo junto resulta numa composição aparentemente de. tro ora fora da sua cabeça. Graças ao tema. como no momento em que ao leitor é o da leitura: que direção deve seguir. um arquivo.

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Jorge Amado e saramaguiana José Sara- mago 77 uma amizade em cartas .

pela Companhia das Letras. a correspondência entre os amigos escritores será publicado em Portugal com o selo da Companhia das Letras Por- tugal. Em julho deste ano. como a define o Prémio Nobel de Literatura. Em novembro. jorge amado e josé saramago Entre 1992 e 1998 José Saramago e Jorge Amado mantiveram uma frequente e íntima conversa epistolar. mas que. as mensagens trocadas por dois dos maiores nomes da literatu- ra em língua portuguesa foram publicadas em forma de livro no Brasil. Com o mar por meio – uma amizade em cartas inclui fac-símiles. A Blimunda deste mês antecipa algumas das cartas e ima- gens que integram o livro. em leal- dade e generosidade. cartões e fotogra- fias pessoais de uma relação «nascida tarde. cartas. 78 . pede meças à melhor que por aí se encon- tre».

João Jorge e do velho Jorge (A resposta é a carta que se segue) 79 . Para o casal lindo.] [2 De fevereiro De 1994] Queridos amigos. assim se refere a Pilar e José). Paloma. os peritos eletricistas de uma tevê conseguiram colocar fora de uso os três aparelhos de tevê. Rizia. a um encontro de es- critores ibero-americanos. pela referência gene- rosa. Aí vai página de O Globo de domingo. saudades. José. somente hoje reassume o posto (como conseguimos viver tanto tempo sem fax?). muitas! O nosso fax da Bahia incendiou (isto mesmo: pegou fogo e botou fumação) no domingo. um computador e os jogos (vários) eletrônicos do neto Jorginho. a secretária eletrônica. jorge amado e josé saramago [BAHIA. em Lisboa. Desejo saber se José comparecerá. uma catástrofe. Foi um belo espetáculo: o fax parecia um vulcão. Vale dizer que. Obrigada. beijos e abraços de Zélia (dela é a expressão “casal lindo”. como me informaram. fez-nos falta. a 3 e 4 de maio. além do fax. Obrigada pela informação.

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nossos votos de paz e alegria para 1995 com um novo e grande romance de José. 23 De Dezembro De 1994 Recebam. jorge amado e josé saramago SALVADOR. Saudades. muitas Zélia e Jorge 81 . e quem sabe ire- mos de vossos acompanhantes a Estocolmo para aplaudir o romancista Saramago. queridos amigos.

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jorge amado e josé saramago Lanzarote. Desta ilha de Lanzarote. e os mais que cá estão. mas com braços tão longos que alcançam a Bahia. Jorge. Todas as felicidades deste mundo. queridos amigos (e todos os que lá estejam). com o mar por meio. nós. vos enviamos muito sau- dar e votos valentes contra as coisas negativas da vida. Pilar José Saramago 84 . et nunc et semper. parentes e amigos. 24 De Dezembro De 1994 Zélia. toda a alegria. admiradores todos.

pt facebook. CAMPANHA DE PROMOÇÃO DAS BIBLIOTECAS PÚBLICAS www.somosbibliotecas. DE TODOS.com/somosbibliotecas twitter.com/somosbiblio .SOMOS BIBLIOTECAS PÚBLICAS. MUNICIPAIS.

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Abierto de lunes a sábado de 10 a 14h. from 10 am to 14 pm.30 pm. Que boas estrelas estarão cobrindo os céus de Lanzarote? A Casa José Saramago Aberta de segunda a sábado.acasajosesaramago. Canary Islands – www. Tías-Lanzarote – Ilhas Canárias. Última visita às 13h30.com Fotografia de João Francisco Vilhena . Última visita a las 13h30 h. Open from monday to saturday. Islas Canarias. das 10 às 14h. Last entrance at 13.

os Pássaros esta exposição é da Operação Nariz Vermelho. Museu se cruza com telas. várias zonas do país.Oriente-se – Festival de Incerteza outubro Viva: Você Vê os Debaixo do DOCField Até 30 nov Teatro Amador Até 5 nov Pássaros? Seu Nariz Festival de fotografia documental e Até 4 nov Sempre Quis Até 19 nov uma exposição a partir foto-jornalismo. esculturas. Galeria Marítima da Rocha Silvia Cintra + Box 4 Conde d'Óbidos. Com projetos de 14 artistas e coletivos. ONG de várias exposições a Barcelona. Porto. Lisboa. organizado pela Primeira edição deste da 32ª Bienal de São festival. o Museu de Arte  de Omar Salomão. ao  desenhos e fotografias humorístico e ao de sua autoria. conceitos referentes de Serralves.   OMAR SALOMÃO 88 . organizado pelo Teatro Contra- que Você Visse Paulo. cadernos de ao palhaço. reunir um conjunto Contemporânea de onde a poesia do autor combinado de Serralves. leva Sendo. absurdo. Através  Exposição de trabalhos da arte pretende-se Fernando Pessa. de Marvila. Lisboa. vários locais. Exposição que celebra os 15 anos Fundació Photographic Social Vision. Auditório Até 12 nov de São Paulo em colaboração com para crianças hospitalizadas. Gare Rio de janeiro. que acolhe seis grupos amadores oriundos de Daqui uma realização da Fundação Bienal Doutores Palhaços Barcelona.

Fórum Luís Covilhã. juntam-se reportagem como produção com o Teatro Virginia Woolf. com a 28 e 29 0ut Espetáculo do Teatro do Montemuro em co– começando por Espetáculo teatral sueños. Auditório do  Oliveira.  Xira.ª edição do Festival Internacional de Oliveira 3 nov algumas referências Os desenhos que Fellini literárias e artísticas. Ateneu Artístico   Vilafranquense. intitulado El libro de los Banda Desenhada da Amadora.Un cuarto próprio Federico Fellini. Therese Santiago de co-criação de Maria alguns dos seus filmes. Teatro das Beiras. reunia no seu diário. Collins e Abel Neves Compostela. de Camões. Eisner e Jack Kirby. Círculo de Amadora.  . Maria II do texto que dá título homónima de Carlos registos obtidos exposições dedicadas a partir de textos de a este trabalho. Zona C. numa durante a rodagem de a autores como Will Peter Cann. João Luís e Mickael de Madrid. Vila Franca de Bellas Artes. autora a partir da obra a fotografias e outros tema central e Nacional D. de Oliveira. Sueño y Amadora BD outubro Finisterra Memórias Até 10 dez diseño 27 out a 12 nov de Carlos de Partilhadas Instalação de Rosa Neutro a partir de Até jan 08 28.

em ausência. andamos por aí rodeados pelas presenças dos vivos que preenchem (preenchemos) buracos na atmosfera. mas também estamos cercados pelas presenças da ausência. mesmo quando de si nada mais ficou que a poeira dispersa em que se tornaram. ao contrário de uma crença geral e daquilo que a aparente evidência dos factos tem parecido demonstrar até hoje. a dos mortos. fragmento de um texto em homenagem a Jorge Amado . não pelas ossadas que deixaram ou pelas cinzas a que os reduziram. transformado. mantêm-se nele desde sempre e para sempre. os mortos não se retiram do mundo.E minha firme convicção de que. pela morte. Sim. esses que nos legaram vazios para sempre vivos no lugar que antes ocupavam. menos ainda pela insubstancialidade desses pitorescos fantasmas que precisam de lençóis para se converterem em aparição. mas pela forma invisível do que havia sido o seu corpo sólido. José Saramago.