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XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012

A DIDÁTICA NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES:

A DESCONTRUÇÃO DO MITO DO “LIVRO DE RECEITAS”

Resumo

Ingrid Louback de Castro Moura.

Universidade Federal do Ceará (UFC)

Este trabalho tem como objetivo geral discutir as definições, a importância e expectativas expostas pelos alunos da disciplina Didática I, ofertada nos cursos de licenciatura de uma Universidade Federal, acerca da Didática na formação do professor.

A relevância desse tema justifica-se pelo fato de esta ser uma disciplina ofertada em

cursos de formação de professores, tanto pedagogia, quanto licenciaturas, sendo crucial na reflexão sobre a prática e na constituição da identidade docente. Durante nossa

experiência como professora de Didática distribuímos, no primeiro dia de aula, um questionário para 66 alunos de diferentes cursos de Licenciatura e observamos que quando se matriculam na disciplina Didática I, muitos estudantes revelam certo

preconceito, asseverando que as disciplinas pedagógicas são extremamente superficiais

e distantes da realidade escolar. A expectativa dos discentes é de que a disciplina

Didática quebre essa superficialidade e traga, finalmente, o tão esperado “livro de

receitas” de como o professor deve se comportar em classe, transmitindo os conteúdos escolares e prendendo a atenção dos estudantes. Concluímos destacando a importância

de desmistificar essa visão, asseverando a relevância de recordamos o papel da Didática

no processo de formação do educador para que possamos refletir sobre a nossa prática como professores em exercício e/ou em formação. Destarte a Didática, como disciplina pedagógica que estuda as complexidades do processo de ensino e de aprendizagem, ao superar o reducionismo e a instrumentalidade atribuídos a ela, certamente contribuirá para a formação de um docente que não apenas transmite conteúdos de forma mecânica, mas que se preocupa com a formação de cidadãos críticos e conscientes. Contribuir para essa reflexão continua sendo um dos nossos grandes desafios.

Palavras-chave: Didática. Expectativas dos estudantes. Formação Docente.

Introdução

Com papel de indescartável relevância na formação dos futuros professores, a

disciplina Didática é ofertada aos alunos dos cursos de Pedagogia e licenciaturas,

destinando-se a discentes com e sem prática na docência e tendo como objeto de estudo

o processo de ensino e de aprendizagem.

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Este trabalho tem como objetivo analisar as definições, a importância e expectativas expostas pelos alunos da disciplina Didática I, ofertada nos cursos de licenciatura de uma Universidade Federal, acerca da Didática na formação do professor. Além disso, visa destacar a importância de desmistificar a busca pelo “livro de receitas” de como ensinar. A escolha desse assunto justifica-se pelo nosso interesse em investigar a prática curricular da disciplina Didática, tema escolhido para nossa tese de doutorado, e pela experiência como professora substituta na área de Estágio e Didática, nas disciplinas Didática, ofertada aos alunos do curso de Pedagogia, e Didática I, ofertada aos estudantes dos cursos de licenciatura. Experiência que nos inspirou, nos proporcionado muitos aprendizados e curiosidades acadêmicas. Assim, a exposição deste trabalho será apresentada em dois tópicos. No primeiro faremos uma breve retrospectiva da Didática no Brasil para relembrarmos os sentidos atribuídos a ela nos diferentes períodos. Em seguida, trataremos dos significados conferidos pelos estudantes da disciplina no primeiro dia de aula.

Surgimento e evolução histórica da Didática

A palavra Didática vem do grego didaktiké, que significa a arte de ensinar. A consagração do termo vem com João Amós Comênio em seu livro Didática Magna, no qual a definiu como “a arte de ensinar tudo a todos” (LIBÂNEO, 1992, p. 58). A didática de Comênio apresentava diversos princípios. Libâneo (1992) destaca esses princípios, asseverando que, para Comênio, a educação deveria conduzir à felicidade eterna com Deus, por se tratar de uma força poderosa de regeneração da vida humana e por ser um direito natural de todos. Por esse motivo, o homem deveria ser educado de acordo com suas características de idade e capacidade para o conhecimento. Ademais, o autor também nos lembra que, para Comênio, a observação das coisas e dos fenômenos, por intermédio dos órgãos dos sentidos, tinha uma importância fundamental na aquisição do conhecimento, tornando o método intuitivo deveras relevante. No Brasil, o percurso histórico da Didática iniciou-se antes mesmo de sua inclusão nos cursos de formação de professores no nível universitário. Ainda no período jesuítico (1549 a 1759), a então chamada Metodologia de Ensino já influenciava a ação pedagógica que nesse período se caracterizava por sua não criticidade e pensamento dogmático.

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Veiga (1992, p. 41), evoca o fato de que, nesse período, “A Metodologia de Ensino (Didática) é entendida como um conjunto de regras e normas prescritivas visando à orientação técnica do ensino e do estudo”, com a instrução pautada na Ratio Studiorum, cujo ideal era a formação de um homem universal, humanista e cristão. Somente no ano de 1934 ocorreu a inclusão da disciplina Didática em cursos de formação de professores. Segundo Veiga (1991, 1992), o período entre 1930 e 1945 foi marcado pela influência da concepção humanista tradicional (representada pelos católicos) e moderna (delegada pelos pioneiros da Escola Nova). Libâneo (1992) descreve que na Tendência Tradicional a didática é uma disciplina normativa, um conjunto de princípios e regras que regulam o ensino. Destarte, a atividade de ensinar é centrada no professor que expõe e interpreta a matéria, podendo utilizar alguns meios como a apresentação de objetos, ilustrações, exemplos com a finalidade de ilustrar a exposição oral. De acordo com essa tendência, segundo Saviani (2005), acredita-se que repetindo exercícios passados pelo professor os alunos gravam a matéria para depois reproduzi-la. O papel do aluno neste período era de receptor, pois recebia e memorizava os conteúdos para reproduzi-los em provas e arguições realizadas pelo professor, caracterizando o que Paulo Freire denominou de educação bancária. Na década de 1930 foi criado no governo de Vargas o Ministério da Educação e da Saúde Pública e em 1932 lançado o Manifesto dos Pioneiros da educação, preconizando a reconstrução social da escola na sociedade urbana e industrial, dois marcos para a educação nacional. Neste período, assevera Saviani (2005), inicia-se uma nova fase com o advento dos institutos de educação, concebidos como espaços de cultivo da educação, encarada não apenas como um objeto de ensino, mas também de pesquisa. Estes institutos de educação funcionaram sob o ideário da Escola Nova. A origem da didática como disciplina dos cursos de formação de professores a nível superior está vinculada à criação da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da universidade de São Paulo. Acreditava-se que a qualidade do magistério era ponto central para a renovação do ensino (VEIGA, 1991). De acordo com Saviani (2005), a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de São Paulo, era o antigo Instituto de Educação quem foi elevado a nível universitário. O mesmo aconteceu com o Instituto de Educação do Distrito Federal.

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A formação de professores nesse período acontecia sob o esquema 3 + 1, onde

dedicava-se três anos para o estudo das disciplinas específicas e um ano para a formação

didática, segundo Saviani (2005), perdendo o caráter científico das escolas experimentais e o curso de Didática, de acordo com Veiga (1991) era considerado um curso independente, realizado após o término do bacharelado.

A influência do movimento escolanovista repercutiu diretamente na Didática,

que passou a “acentuar o caráter prático-técnico do processo de ensino-aprendizagem, onde teoria e prática são justapostas. O enfoque do papel da Didática está condicionado ao caráter de neutralidade, privilegiando a sua dimensão instrumental, ignorando o contexto político-social”. (VEIGA, 1992, p. 51).

A característica mais marcante do escolanovismo é a valorização da criança.

Esta tendência, de acordo com Veiga (1991), preconiza a solução dos problemas educacionais em uma perspectiva interna da escola, sem considerar a realidade brasileira nos seus aspectos políticos, econômicos e sociais. A ênfase recai no ensinar

bem, mesmo que a uma minoria. Neste momento de influencia da Pedagogia Nova, a Didática passa a ter um

caráter prático e técnico do processo de ensino e aprendizagem, onde teoria e prática são justapostas.

É a Didática Renovada, que, de acordo com Candau (2002), difunde métodos

como o do estudo dirigido, projetos, fichas didáticas, contrato de ensino, entre outros.

Nessa fase, segundo Veiga (1991), a Didática é compreendida como um conjunto de ideias e métodos, privilegiando a dimensão técnica do processo de ensino e

fundamentada nos pressupostos psicológicos, psicopedagógicos e experimentais, ignorando o contexto sócio-político-econômico, passando, assim, a formar um novo tipo de professor: o técnico. Após esse período, já sob vigência da 1ª LDB, lei 4024/61, a Didática perdeu seu caráter 3+1 e foi introduzida a prática de ensino sob a forma de estágio supervisionado. Com a mudança do modelo econômico no país, a educação, consequentemente, também sofreu modificações, voltando-se, dessa maneira, para a formação de recursos humanos para o crescimento econômico.

O tecnicismo também influenciou diretamente a Didática, fato observado por

Veiga (1992, p. 60)

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O enfoque do papel da Didática a partir dos pressupostos da Pedagogia Tecnicista procurou desenvolver uma alternativa não-psicológica, situando- se no âmbito geral da Tecnologia Educacional, tendo como preocupação básica a eficiência e a eficácia do processo de ensino. Essa Didática tem, como pano de fundo, uma perspectiva realmente ingênua de neutralidade cientifica.

Inspirada na teoria behavorista da aprendizagem, essa tendência transpôs os princípios fabris (taylorismo e fordismo) para o chão da escola. Nesta tendência a ação docente é baseada na atividade de administrar condições de transmissão de matéria, conforme um sistema instrucional previsto. Ele é um elo de ligação entre a verdade cientifica e o aluno, cabendo-lhe empregar o sistema instrucional previsto. Saviani (2005) nos lembra que na Tendência Pedagógica Tecnicista o professor é um administrador e executor do planejamento que deve garantir a eficácia da transmissão do conhecimento. Debates, discussões e questionamentos são considerados desnecessários, assim como, também pouco importa a relação afetiva e pessoal entre os sujeitos envolvidos no processo de ensino e de aprendizagem. São reforçados nessa fase o uso da tecnologia educacional, os audiovisuais e os livros didáticos. Segundo Farias (2008) o papel reservado ao professor nessa tendência é secundário em relação aos fins, reduzindo seu fazer a execução de ensino concebido e controlado por especialistas. Sua prática é marcada pelo emprego da sequência skinneriana estímulo-resposta-reforço, caracterizando o ensino como um arranjo e planejamento de contingência de reforço. Tem como tarefa treinar, moldar, condicionar, prever e controlar resultados com o intuito de instalar nos indivíduos as respostas previstas pelo sistema social capitalista. Para Libâneo (1992, 1993, 1996), esta orientação acabou sendo imposta às escolas pelos organismos oficiais por ser compatível com a orientação econômica, política e ideológica do regime militar. A Didática na Tendência Pedagógica Tecnicista é instrumental. A Didática instrumental está interessada na racionalização do ensino, no uso de meios e técnicas mais eficazes. O professor é um administrador e executor do planejamento, o meio de previsão das ações a serem executadas e dos meios necessários para atingir objetivos. Na década de 1980, começou outro período para a Didática. Na perspectiva de Candau (2002), a consciência de que a educação tinha um papel significativo no

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processo sociopolítico e cultural de afirmação da democracia fez com que houvesse um movimento para que a Pedagogia e a Didática comungassem com essa perspectiva. Num panorama de globalização e neoliberalismo, a década de 1990 também influenciou a Didática. Para Candau (2002), a crítica pós-moderna traz elementos importantes para repensar a Didática, incentivando a incorporação de outras questões como diferença, estabelecimento da identidade, relação saber-poder, sexualidade, gênero, entre outras. O momento atual também traz novas questões para a Didática. Candau (2002) está convicta de que o desafio atual é, tendo presente a especificidade da Didática, trabalhar a articulação com diferentes áreas do conhecimento, ou seja, numa perspectiva interdisciplinar. Autores como Fazenda (2006), Lenoir (2006), Libâneo (2003), Moraes (2008), Moran (2000), entre outros, advogam uma prática interdisciplinar, fato também observado por Martins e Romanowski (2010, p. 64), que destacam a importância da “busca de construção do espaço interdisciplinar por meio de atividades e conhecimento articulados”. Nesse mesmo movimento, Veiga (2010, p. 53) lembra a importância de, nas propostas didáticas, “reestruturar o conteúdo de Didática como síntese dos fundamentos da prática pedagógica, fornecendo orientações necessárias para tornar o processo didático uma ação reflexiva, questionadora e interdisciplinar”. Ao defender a interdisciplinaridade e a transversalidade, Moraes (2008, p. 272) nos lembra que não é necessário abandonar a disciplinaridade, “saber especializado responsável por muitos avanços da civilização”, mas sim, superar a fragmentação que “mutila e aliena o ser humano privando-o de uma noção do todo”. Além da interdisciplinaridade, Candau (2002) defende que a didática revisite seus temas clássicos, como avaliação, planejamento, disciplina e violência “como componentes especialmente críticos nos processos educativos”.

Voltamos a nossa preocupação do início. Toda reflexão pedagógica exige um horizonte utópico. Na construção da nossa agenda de trabalho é necessário reconhecer o cenário em que hoje estamos imersos. Articular a perspectiva crítica com as contribuições da visão pós-moderna. Romper fronteiras epistemológicas e articular saberes. Favorecer ecossistemas educativos. Reinventar a didática escolar. Afirmar a multidimensionalidade do processo educativo. Apostar na diversidade. Revisitar os temas “clássicos” da didática. Certamente esta é uma agenda que suscita muitas perguntas, debates e enriquecimentos e admite muitos desdobramentos, tanto na ótica do ensino como da pesquisa (CANDAU, 2002, p. 6).

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A busca pelo “livro de receitas”

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Em nossa experiência como professora de Didática, não foi difícil observar a herança das tendências pedagógicas, em especial a tradicional e a tecnicista, na visão dos alunos dos cursos de licenciatura. Tanto os estudantes que ainda não tiveram contato com a atividade docente como aqueles que já trabalham como professores manifestam uma visão bastante similar da Didática e sua utilidade na prática do professor. Logo no primeiro dia de aula da disciplina, distribuímos um questionário que foi respondido por 66 alunos dos cursos de Licenciatura em Ciências Biológicas, Ciências Sociais, Geografia, Letras e Química. Nesse questionário solicitamos aos estudantes que definissem Didática de acordo com a concepção dos mesmos, opinassem a respeito da importância da disciplina para a formação do professor e citassem os temas que gostariam de abordar durante o semestre. Realizamos essa atividade objetivando conhecer os alunos, suas expectativas para disciplina e também para partir do conhecimento atribuído pelos mesmos para a construção de um significado de Didática que supere o reducionismo e o mito do “livro de receitas”. É interessante observar que, nas mais variadas turmas, quando se matriculam na disciplina Didática, alguns estudantes chegam carregados de expectativas haja vista que acreditam que aprenderão, passo a passo, a receita de como se deve ensinar, como se comportar em sala de aula e como agradar seus alunos. Fato observado em muitas respostas como as que seguem

“Didática é transmitir um determinado conhecimento de forma que o público-alvo compreenda”. (Estudante do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas).

“É o complexo de conhecimentos que abordam a metodologia da prática de ensino se especificando na dinâmica de ministrar aulas”. (Estudante do curso de Licenciatura em Ciências Sociais).

“É a Ciência que se preocupa com as diversas estratégias de se transmitir determinado conteúdo visando, sobretudo, o entendimento do aluno sobre o conteúdo. A Didática ajuda o educador em sua criatividade, pois com ela se pode realizar diversas atividades e formas de se passar o conhecimento”. (Estudante do curso de Letras).

Os depoimentos acima comprovam que muitos discentes esperam um “livro de receitas”, com ingredientes e modo de preparo de uma aula que sempre dará certo. Além

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disso, a preocupação apenas com a transmissão de conteúdos é evidente em muitos relatos revelando uma concepção reducionista do processo de ensino. Outra visão bastante recorrente nas declarações dos alunos é a de que a Didática ensina a se comportar em sala de aula, quase como um “manual de boas maneiras” do professor.

“Eu acho que a Didática ensina a se comportar em sala de aula. Ela ensina o professor a usar a voz e a apagar o quadro antes de sair da sala”. (Estudante do curso de Letras).

“Didática são métodos que você aprende para ensinar melhor, aprendendo a melhor forma de chamar a atenção dos alunos e facilitar o aprendizado”. (Estudante do curso de Licenciatura em Química).

Quando questionados a respeito da relevância da Didática na formação do professor os alunos novamente ressaltaram que a disciplina é importante para aprender a transmitir o conteúdo e se comportar em sala, além de facilitar a relação entre o professor e o aluno.

“Didática é um conjunto de métodos de comportamentos e pensamentos que servem para ajudar na convivência entre aluno e professor”. (Aluno do curso de Licenciatura em Geografia).

Apesar da visão reducionista da Didática, apenas dois estudantes afirmaram que a disciplina não é importante para a formação do professor. Justificando que

“Penso que tenho outras disciplinas que podem substituí- la, tornando-a dispensável”. (Estudante do curso de Licenciatura em Geografia).

“Porque cada um tem seu método e maneira de transmitir o conteúdo”. (Estudante do curso de Licenciatura em Química).

As justificativas explicitadas pelos discentes que não consideram a Didática importante na formação do docente revelam novamente uma visão reducionista e equivocada. Fato também observado em algumas respostas sobre as temáticas que os alunos esperam estudar. Entre os assuntos que os discentes revelaram esperar trabalhar na disciplina técnicas de ensino foi o mais citado, seguido de temáticas relacionadas a como tratar os alunos e “prender” a atenção dos mesmos. Temas como planejamento e avaliação do processo de ensino e de aprendizagem também foram lembrados. Isso mostra que apesar de em alguns momentos

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demonstrarem não saber o que é Didática os estudantes compreendem, mesmo em seus depoimentos mais reducionistas, que ela trata do processo de ensino e de aprendizagem. Ampliar essa visão é certamente um dos grandes desafios do professor de Didática.

Considerações Finais

Quando se matriculam na disciplina Didática muitos alunos dos cursos de licenciatura revelam certo preconceito, asseverando que as disciplinas pedagógicas são extremamente superficiais e distantes da realidade. A expectativa de muitos estudantes é de que a Didática quebre essa superficialidade e traga, finalmente, o tão esperado “livro de receitas” de como se comportar em classe, transmitindo os conteúdos e prendendo a atenção dos estudantes.

Essa Didática instrumental impregna fortemente os cursos de licenciatura e passa mesmo a ser desejada pelos licenciandos, ansiosos por encontrar uma saída única – um método, uma técnica – capaz de ensinar a toda e qualquer turma de estudantes, independentemente de suas condições objetivas e subjetivas de vida. (Pimenta, 2002, p.47).

É essencial que os futuros docentes compreendam que a sala de aula é cheia de especificidades e que não existe uma “porção mágica” que transforma o ensino em uma atividade sem erros, mecânica e descontextualizada .

Por isso também é que ensinar não pode ser um puro processo, como tanto tenho dito, de transferência de conhecimento da ensinante ao aprendiz. Transferência mecânica de que resulte a memorização maquinal que já critiquei. Ao estudo crítico corres-ponde um ensino igualmente crítico que demanda necessariamente uma forma crítica de compreender e de realizar a leitura da palavra e a leitura do mundo, leitura do texto e leitura do contexto. (FREIRE, 1993, p. 23).

Concluímos asseverando a importância de recordamos o papel da Didática no processo de formação do educador para que possamos refletir sobre a nossa prática como professores em exercício e/ou em formação. Destarte a Didática, como disciplina pedagógica que estuda as complexidades do processo de ensino e de aprendizagem, ao superar o reducionismo e a instrumentalidade atribuídos a ela, certamente contribuirá para a formação de um docente que não apenas transmite conteúdos mas que também se preocupa com a formação de cidadãos críticos e conscientes. Contribuir para essa reflexão continua sendo um dos grandes desafios de nós, professores de Didática.

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