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CAPíTULO

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POLIDEZ: ASPECTOS TEÓRICOS

A. Introdução

Uma elas carartcrjsticas

mais marcantes

dos re ..

ce ntes dese1lvolvimentos

da pragmática linguistica é o

interesse pelo funcionamento

verbais: hoje se admite que

da polidez nas interacões é impossível descrever ele

modo eficaz o que se passa lias trocas c0l11L111icotivDS

sem considerar nlgun« princípios da polidez, na medi- ela em que tais princípios exercem pressões muito for-

tes

sobre ;, produção dos en 11 nciados, conforme o de-

111o

nst 1'<1 , por exemplo, uma frase como:

Perlro e eu. nós partimos amanhá.

que podemos contrastar

COI11:

I n Pcdro e eu partir amanhá,

enunciado incorreto,

no sentido mais gramatical cio

termo; mas também com:

:2," Eu e Pedro, nós partimos JI11Jnhií, enunciado iliualmente "incorreto",

mas em um senti-

elo absolutamente

outro, visto que a regra aqui

rriln"grcclic1a, segundo a qual o "eu" deve se apagar

diante cio "ele" (na construção elo sintagma n0111in81,

A POLIDEZ,

ASPECTOS

TEORICOS

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como quando se trata de passar por uma portal, tem

um estatuto muito particular:

sem ser propriamente

de natureza Iinguística, ela não deixa de exercer algu- mas coerções sobre a construcâo do enunciado.

c,

A polidez (6 justamente

disso que se trata neste

exemplo) é um fenômeno Iinguisticamente

per-

tinente: dessa t0111Jda de consciência,

nasceu, por

volta do final dos anos 1070, um 110VOdounnio de

investigação, gras a pesquisadores

como R. Lakoff,

G. Leech, e, sobretudo,

P. Brown e S. Lcvinso n. O sis-

tema elaborado por Brown e Levinson, que constitui, atualmente, em matéria de polidez linguística, () quadro referencial rnais sofisticado, produtivo e celebre, sera () principal modelo 80 qual faremos referência. Observações:

A noção de "polidez" é aqui entendida em sentido amplo, recobrindo todos os aspectos do discurso que são regidos por regras, cuja função é preservar o caráter harmo- nioso da relação interpessoal, Verctuos que

<1 polidez assim concebida ultrapassa

ampla-

mente os famosos "fórmulas"

apreciadas

pe-

los manuais de convivência e etiqueta .

Esses manuais empenham-se

em descrever as

maneiras 8 mesa, ou os modos de vestir, do mes-

mo modo que D mie da convcrsacào: a polidez se aplica, com deito, aos comportamentos nào ver- hais tanto quanto aos verbais, mas, aqui, tratare- mos exclusivamente ela polidez Iinguística.

B. O modelo de Brown e Levinson

A concepção da polidez que esses autores dcse n-

volvem se articula CO!l1c se fundamenta

sobre a noção

------

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ANALISE

DA CONVERSACÀO:

PRINCíPIOS

E MÉTODOS

de "face", noção emprestada

de E. Goffman, entre ou-

tros. mas ampliada.

em função

da incorporação

do

que se chama normalmente

de o "território".

a. A uoçào de "[acc"

Para Brown e Levinson, duas faces:

todo indivíduo

possui

_ a face negativa, que corresponde 17rosso modo

ao que Goffrnan descreve como os "territórios

do eu" (território

corporal, espacial ou tem-

poral, bens materiais ou saberes secretos

...

);

_ a face positiva, que corresponde /f1OSS0 modo

ao narcisisruo

e ao conjunto

valorizantes que os interlocutores

de imagens

constroem de

si e que tentam impor na interaçào.

lJ.A noção rir "FTA"

Em qualquer

intcracão

com dois participantes,

quatro faces se encontram

postas em presença. Por

outro lado, ao longo do desenrolar

da interacâo,

os

interloclltores

são levados a realizar um certo mero

ele atos, verbais e não verbais. Ora, a maioria desses

A POLIDEZ:

ASPECTOS

TEORICOS

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Nessa perspectiva, quatro categorias:

os atos

1 0 Atos que ameaçam

de fala se dividem em

a face negativa do

emissor: é, por exemplo. o caso da oferta ou da pro-

messa, pelas quais se propõe ou se compromete

a efe-

tuar um ato suscetível de lesar seu próprio território. num futuro próximo ou distante.

2 o Atos que

ameaçam a face positiva do

emissor: a confissão,

a desculpa, a autocrítica

e ou-

tros comportamentos "a utodegrada n tes "

3 o Atos que ameaçam a face negativa do

receptor: as violações rerritoriais de natureza nào ver-

bal sôo numerosas porais inadequados,

(ofensas prornicas,

contatos cor-

agressões visuais, sonoras ou olfa-

tivas, infiltracão

por invasão nas "reservas"

elo outro

etc.}. Mas as ameaças territoriais

também podem ser

de natureza verbal: é isso que ocorre nas chamadas per-

guntas "indiscretas";

e no conjunto dos atos que silo,

em alguma medida, inoportunos

ou "direrivos",

como

a ordem, a interpelação.

a proibição ou o conselho.

4 () Atos que ameaçam a face positiva do re-

ceptor: são todos aqueles que colocam

em risco o

narcisismo do outro, como a critica, n refutação, a repro-

vação, o insulto e a injúria, a chacota e o sarcasmo ...

atos - até mesmo sua totalidade - constitui-se

como

As categorias

1o e 2°

remetem

aos Mos "auto-

ameaças potenciais

para uma e/ou para outra dessas

ameaçadores";

mais pertinentes,

para a perspectiva

quatro

faces: de onde decorre

a expressão

Face

C0111 a qual nos ocupamos aqui, silo as categorias 3° e

Thl('({fcllin.r; Act proposta por Brown e Levinson para designar "atos que ameaçam as faces"; expressão po-

  • 4 0 , visto que a polidez concerne, antes de tudo, il ati- tude do falante para com seu interlocutor.

pularizada

sob

a forma de "FTA". Essa sigla atual-

Notemos que um mesmo ato pode se inscre-

mente faz parte

do vocabulário básico de todo pesqui-

ver simultaneamcnte em diver sas categorias

sador das conversações.

 

(mas, geralmente,

C0111 um valor dominante);

por

80

ANÁLISE

DA CONVERSAÇÃO:

PRINClplOS

E MÉTODOS

exemplo: 8U

mesmo tempo em que ameaçam a face

negativa do destinatário,

a ordem e a interpelão

ameaçam a face positiva do destinatário,

no caso da

ordem. e elo falante, no caso

da interpelação.

c. A /IOCr/o de face want

Por

um lado, portanto, os atos efetuados ele ambas

ns partes ao longo da interaçâo

S30 potencialmente

ameucarlorcs

para os i nteractan tes. Mas, por outro

lado. eles devem obedecer ao COmJl1t10 supremo:

1In" e nutrns. ,(';,1111 c'uid,1(losos,

porque ;,1 perda da tace é uma falha simbólica que teu-

tantos evitar, 11<1 medida do possível, a nós mesmos

e

aos outros, À. noção de face se sobree não somente

a

nocào ele FT!\, ruas também ,1 de [acc 11'f111t ou o desejo

de prescrvacào

elas faces - sendo essas ultimas, ao

mesmo tempo (' contr<lditori8mente,

o alvo ele ameaças

permanentes

e () ohjeto ele um desejo de preservação.

d, A noçõo de face work

Como os intcractantes

conseguem resolver essa

co nt radicào? Para Goffman: realizando um t1'3bal110 de "figu- r;lç:lo" (f({((' WOJ 1<); esse termo designa "tudo o que uma pessoa empreende para que SUélS acões não impliquem

perda diante de ninguém (nem de si mesma)".

Para Bro\\'11 e Levinson: utilizando

diversas estra-

tégias de polidez: nessa perspectiva, ({ potid»: aparece

('()1I1!J 11111 meio rir conciliar o mútuo dcsejo rir P/('stJw/çiio

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A POLIDEZ:

ASPECTOS

TEÓRICOS

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das jaces. com ofato de qi« a ma ioria dos {I tos de fala são potencialmente ameaçadores para lima t!('sS({sf{/(cs. A partir daí, para Brown e Levinson, trata-se ele fazer o inventário e a descrição das diferentes estraté- gias que podem ser postas 8 servo da polidez; a esco- lha efetuada entre essas numerosas estratégias depen- de da função elos três segu intes fatores:

  • - o grau de gravidade do FTA;

  • - a "distância

social" (D) entre os intcr-

locutores (011seja, nossa relao "horizontal"):

  • - sua relação de "poder" (P) (relação "vertical"):

a ideia é que a polidez

de um enunciado eleve, em princípio,

crescer, ao mesmo tempo, que D, r e o "peso" elo vrA.

O modelo erigido por Brown e Levinsnn é, certa-

mente, produtivo, conforme () testemunha

a conside-

rável maSSJ ele estudos que nele se inspirou proveito-

samente. Contudo,

parece que algumas críticas lhe

podem ser dirigirias, e, corrclativamenre.

que alguns

aperfeiçoamentos

lhe devem ser incorpornrlos.

c. Aperfeiçoamentos do modelo

a. A noção de "({fi li FT'J\" ((J/{ "FFA")

A esse modelo reprovou-se, sobretudo, 11llWcon-

cepção excessivamente

"paranoidc",

ela interacào

pessimista,

e até mesmo

- representando

os indi-

víduos em sociedade C0J110 seres vivos sob a ameaça

permanente

ele FTAs de todo gênero, c passando seu

tempo a montar guarcb em torno de seu território e

de sua face. Com efeito, é incontestável

que Brown e

Levinson reduzem demais J polidez à sua forma "ne- gativa": bastante rcvelador desse aspecto é o fato de

,,\

82

ANALISE

DA CONVERSAÇÃO,

PRINClplOS

E MÉTODOS

que, buscando reciclar

a noção de ato de fala na pers-

pectiva de uma teoria da polidez linguística,

eles ape-

nas tenham focalizado os atos potencialmente

amea-

çadores para as faces, sem pensar que alguns atos de

fala também

podem ser valorizantes

para essas

ou os

introduzir

no

para designar

S

(e I "FF'A" .

s

conforme

111eS1118Sfaces, como o elogio, o agradecimento

votos. l'ara explicá-los,

é indispensável

esses

cc

antt

modelo teórico um termo suplementar

'Fl'A"

esses "tos que são, em alguma medida, o lado positivo

dos FTAs: chamamos

(Vau Hotfcr;Il/J Acts) -

di vicie, então, em duas

o conjunto de atos de fala se

grandes famílias,

produzam efeitos essencialmente

negativos para as

faces (C0I110 a ordem ou a crítica), ou essencialmente

positivos (como o elogio e o agradecimento).

b. Polidcznrqativa vs.!Jositil 1

{/

A introdução

dos FFAs permite, além disso, es-

clarecer

as noções de "polidez negativa"

e de "polidez

positiva",

que estão bastante

confusas

em Brown e

Lcvinson. Diremos que:

• A polidez negativa é de natureza absten-

cionista ou compensatória:

ela consiste em

evitar produzir um FTA, ou em abrandar, por

meio de algum procedimento,

sua realização

_ quer esse FTA se refira à face negativa (ex.:

ordem)

ou à face positiva

(ex.: crítica) elo des-

ti 11<1 t<.Í ri o.

A polidez positiva é, ao contrário, de na-

tureza produtiva: ela consiste

em efetuar

algum FTA para a face negativa (ex.: presen-

te) ou positiva (ex.: elogio) do destinatário.

A POLI DEZ,

ASPECTOS

TEOR ICOS

83

E acrescentaremos

que a polidez positiva ocu-

pa, de direito, no sistema global, um lugar tão importante quanto a polidez negativa: mostrar-se

polido na interação é produzir F};~s tanto quanto abran-

dar a expressão elos FTAs - e amais que isso: nas

representações

prototípicas, '-1 lisonja passa como sendo

"ainda mais polida" que a atenuação de urna crítica.

É a partir dessas noções básicas:

-

face negativa e face positiva:

-

FTA e FFA:

- polidez negativa e polidez positiva,

que iremos ver quais o as diferentes

rea Iizacoes da

polidez linguística, abordando,

sucessivamente,

os pro-

cedimentos da polidez negativa e os da polidez positiva.

-