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Concorrência no Mercado de Refrigerantes: impactos

das novas embalagens

Selma Regina Simões Santos


Paulo Furquim de Azevedo
Universidade Federal de Saõ Carlos - UFSCar
E-mail: sanny@claretianas.com.br, dpfa@power.ufscar.br

Abstract:
This paper aims to characterize the competitive environment in the soft drink industry, after a
technological change in the package sector – plastic bottles. The main evidence is a decrease in
market concentration throughout the 90’s, in a different pattern observed in related industries, such as
beer and food industry. This trends were due to the introduction of a new plastic bottle that reduced
entry barriers, mainly those derived from logistic costs. The industry is now characterized by the
presence of two strategic groups: the first focused on low income consumers and the second based in
product differentiation strategies. Although entry barriers decreased, there are still strong mobile
barriers between both strategic groups, inasmuch as the investments in marketing, necessary to
operate in the second group, are heavily subject to scale economies.

Key words: Soft drink industry, technological change, package and competition.

Resumo: Este artigo tem por objetivo caracterizar os efeitos de uma mudança tecnológica no setor de
embalagens – o polietileno tereftalato (PET) – sobre o ambiente competitivo da indústria de
refrigerantes. A principal evidência é a constatação de que houve um forte movimento de
desconcentração no mercado de refrigerantes ao longo da década de 90. O elemento principal para
compreender essa distinção foi uma inovação tecnológica no segmento de embalagens (PET), que
veio a reduzir as barreiras à entrada na indústria, particularmente aquelas derivadas de custos
logísticos. Na virada no século, constituíram-se dois grupos estratégicos: um voltado ao segmento de
baixa renda e o outro baseado em estratégias de diferenciação de produto. Apesar da redução
observada nas barreiras à entrada, há ainda fortes barreiras de mobilidade entre os dois grupos
estratégicos, uma vez que os investimentos em propaganda, necessários para a atuação no segundo
grupo, são fortemente sujeitos a economias de escala.

Palavras-chave: Indústria de refrigerantes, inovação tecnológica, embalagens e concorrência.

I- Introdução

O mercado de refrigerantes vem passando por uma intensa reestruturação, cujo padrão é bastante
distinto de mercados correlatos, como o de alimentos. No caso deste último, a década de 90
caracterizou um período de concentração de mercado, como pode ser depreendido da análise dos
setores de leite (FARINA et alii, 1997) e de grãos (LAZARINI & NUNES, 1998). Como regra geral, a
desregulamentação dos mercados, somada à maior exposição à concorrência de produtos importados,
levou as empresas desses setores a implementarem estratégias que viabilizassem reduções de custo,
sobretudo pelo processo de fusões e aquisições em áreas marcadas por economias de escala. O
mercado de refrigerantes, por sua vez, embora também objeto de fusões – como no caso da AMBEV –
experimenta um intenso crescimento de pequenas empresas, de atuação predominantemente regional,
caracterizando um processo de desconcentração. Este artigo tem por objetivo investigar o novo padrão
de concorrência no mercado de refrigerantes, argumentando que o aumento de participação das
pequenas empresas regionais sustenta-se em uma inovação tecnológica no segmento de embalagens: o
polietileno tereftalato, também denominado ‘PET, que provocou queda das barreiras à entrada.

A fim de responder a essa questão, o artigo divide-se em quatro seções, além desta introdução. Na
primeira seção, o padrão de concorrência no mercado de refrigerantes é apresentado, procurando-se
identificar os principais grupos estratégicos, barreiras à entrada, barreiras de mobilidade e variáveis
relevantes de concorrência. A segunda seção concentra-se no segmento de embalagens, identificando
as principais tecnologias e o processo de adoção nas empresas do setor. De posse das características do
segmento de embalagens, a terceira seção investiga seus efeitos sobre o padrão de concorrência no
mercado de refrigerantes, concluindo o argumento. Finalmente, a quarta seção condensa os principais
resultados e apresenta considerações sobre a estrutura futura do setor.

II- Caracterização do setor de refrigerantes

Essa seção objetiva propiciar ao leitor o entendimento do padrão de concorrência no mercado de


refrigerantes. Para tanto, apresenta as principais características do setor, as quais incluem: relevância
do mercado brasileiro, estrutura competitiva e grupos estratégicos.

O mercado brasileiro de refrigerantes é o terceiro em nível mundial, com um consumo de 11 bilhões


de litros em 1998 (Abir). Apresenta um amplo potencial de crescimento, em função do baixo volume
de consumo per capita se comparado aos E.U.A e México, países que possuem as maiores demandas
de refrigerantes do mundo. A má distribuição de renda do País restringe esse mercado ao inibir o
consumo de uma significante parcela da população brasileira.

No período correspondente aos anos de 92 a 96 houve um grande crescimento no consumo de


refrigerantes em função dos efeitos expansionistas do Plano Real, que elevou, num primeiro momento,
a renda pessoal disponível. A partir de 1998, houve uma desaceleração da expansão do consumo
devido à conjuntura de recessão econômica iniciada em 1997.

A demanda de refrigerante também está relacionada à temperatura climática. No período


compreendido entre os meses de setembro a março, o consumo chega a duplicar se comparado a
meses de temperatura mais amena. Essas flutuações na demanda adicionadas à indivisibilidade da
planta tornam necessária a presença de capacidade ociosa planejada como mecanismo amortecedor
dos impactos decorrentes de variações na demanda (STEINDL, 1952).

A estrutura da indústria é concentrada, em decorrência de uma participação da Coca-Cola em cerca de


50% do mercado, o que garante um índice de Herfindahl-Hirshman superior a 2500 pontos 1. Esse grau
de concentração pode ser avaliado na Tabela 1, onde mostra-se que houve uma relativa
desconcentração ao longo dos anos 90, mesmo considerando-se a recente fusão que resultou na
AMBEV. O principal fenômeno é o crescimento da participação do segmento ‘outros’, cujas
características e causas serão melhores exploradas neste artigo.

Tabela 1: Estrutura da indústria de refrigerantes nos anos de 1990 e 1999.

Empresa 1990 1999


Coca-Cola 59,8 49,5
Antarctica 9,8 17,5*
Pepsi 15,4

1
Como referência geral, considera-se que um mercado é concentrado se o índice de Herfindahl-Hirshman,
calculado pela a soma dos quadrados das participações de mercado, for superior a 1800 (VISCUSI et alii, 1996).
Brahma 5,8
Outras 9,2 33
Herfindahl- 3.950 2.800
Hirshman
* Incorporação do market share de Antártica, Brahma e Pepsi, sob o comando da AMBEV.
Fonte: Revista Exame e SEAE, 1999.

O padrão de concorrência da indústria de refrigerantes, no entanto, é baseado em diferenciação, no


qual os produtos apresentam algumas distinções entre si, acarretando diferentes graus de preferências
quanto ao desejo de consumir os refrigerantes. Todavia, há uma alta elasticidade-cruzada entre
refrigerantes, significando que, independentemente do sabor, são substitutos entre si. A existência de
inúmeros bens substitutos e a não essencialidade do refrigerante à população explica a sua alta
elasticidade-preço da demanda, ou seja, sua elevada sensibilidade em relação a alterações de preços.

Apesar de concentrada, a indústria de refrigerantes não apresenta fortes barreiras à entrada, sendo a
tecnologia de produção de fácil domínio e a operação em mercados regionais e não diferenciados
possível, em função da alta sensibilidade de consumidores em relação a variável preço. Há, no entanto,
dois grupos estratégicos distintos, havendo barreiras de mobilidade entre eles e, conseqüentemente,
diferentes margens de lucro.

O primeiro grupo é formado por um pequeno número de grandes empresas, que detém uma parcela um
pouco superior a 70% do mercado. Coca-Cola e AMBEV (constituída de três empresas Brahma,
Antarctica e Pepsi-Cola2 ) representam este grupo, atuam em âmbito nacional e internacional,
produzem em larga escala, têm um forte esquema de distribuição, investem altas quantias em
propaganda e marketing para reforçarem o processo de diferenciação e voltam-se para um público de
maior renda. As principais barreiras de mobilidade encontram-se nos investimentos em diferenciação,
que, no caso de bens de consumo de massa, exige elevadas escalas de operação. Esses custos
caracterizam barreiras à saída, uma vez que a empresa que adentra a este grupo estratégico incorre em
investimentos que não são apropriáveis em outros mercados (sunk costs).

O segundo grupo é formado por empresas regionais, constituindo um grande número de pequenas
empresas que possuem uma reduzida parcela de mercado. Seu foco de atuação recai sobre um público
de menor renda e, por esse motivo, concorrem basicamente em preço. Compõem esse grupo as
empresas fabricantes das chamadas “tubaínas”, que atuam em âmbito regional e cujos nomes são
identificados apenas em sua área de atuação.

As barreiras à entrada no setor foram bastante reduzidas com a ampla utilização de embalagens
descartáveis como o PET, que será objeto de estudo na próxima seção deste artigo. Em síntese, a
logística de distribuição constituia a principal barreira à entrada, sendo necessária grande capacidade
de articulação com a rede de distribuição para levar o produto aos pontos de venda e, sobretudo,
recuperar os vasilhames para posterior reaproveitamento.

Atualmente transpor as barreiras de mobilidade no mercado de refrigerantes exige maiores esforços do


que entrar no mesmo, visto que implica aumentar o raio de ação mercadológico de regional para
nacional. A Schincariol, por exemplo, tem transposto tais barreiras, reduzindo o problema da
diferenciação, da distribuição, as duas principais barreiras de mobilidade no setor de refrigerante. Para
isso, a empresa tem expandido sua linha de produtos, por meio de crescentes investimentos em
publicidade e propaganda para promover sua marca nacionalmente, e ampliado sua capacidade de
produção e distribuição.

2
Em 1997, a Brahma comprou a Baesa (Buenos Aires Embotelladora S.A), franqueada da Pepsi, passando a ter
o direito de engarrafar e distribuir a linha de produtos da Pepsi no mercado brasileiro.
A presença de economias de escala em propaganda e marketing e elevados custos logísticos conduz a
indústria de refrigerantes a uma estrutura tipicamente multi-planta, ou seja, a existência de inúmeras
plantas auxilia no escoamento da produção e contribui para reduzir os custos logísticos.

A expressiva incidência do custo do transporte sobre o preço final do refrigerante, torna fundamental
para as empresas desse setor estarem presentes no maior número de pontos de vendas possível, ou
seja, disponibilizarem a um maior número de consumidores um produto de baixo valor agregado.
Desse modo, é comum às grandes empresas do setor adotarem o sistema de franquias para agilizar o
escoamento de sua produção. Esse sistema consiste na celebração de contratos entre a empresa
franqueadora e a franqueada, de modo que esta última, passe a produzir sob licença os produtos da
franqueadora, incumbindo-se também de abastecer o mercado com esses produtos (DNES, 1996). O
relatório do SEAE (1999/200 - julgamento do ato de concentração da Brahma e Antarctica) aponta que
o raio de transporte viável está em torno de 400km podendo chegar a 500km, se a empresa tiver uma
grande participação no mercado.

Atualmente está sendo verificado um elevado crescimento das empresas regionais, que pode ser
atribuído basicamente a dois fatores: conjuntura recessiva que o País está atravessando e crescente
utilização das embalagens descartáveis, em especial da embalagem PET, que, como veremos na
próxima seção, reduziu os custos operacionais, facilitando a entrada no setor.

A tabela 2 aponta a evolução das empresas regionais entre os anos de 1988 a 1999 revelando um
crescimento de 344,44% nesse período de 11 anos. As causas e conseqüências desse fenômeno são
exploradas nas seções subsequentes deste artigo.

Tabela 2: Evolução da participação de mercado das tubaínas

Ano Market Share- %


1988 –1991 9
1992 10
1993 13
1994 17
1995 18
1996 18
1997 21
1998 26
1999 33
Fonte: Relatório SEAE ( ato de concentração Brahma / Antarctica 1999-2000)

III - Inovação em embalagens

O objetivo dessa seção é apresentar a transição no padrão de embalagem Vidro-PET das empresas de
refrigerantes ocorridas durante a década de 90, como fruto do processo de incorporação tecnológica.
De um modo mais evidente, essa transição revela uma substituição de embalagens retornáveis (vidro)
por não-retornáveis (one way (vidro), latas e, sobretudo, PET), o que resultou em alterações no
comportamento de compra do consumidor, no padrão de concorrência e no market-share dos grupos
estratégicos do setor.

A importância da embalagem reside na sua influência em relação à compra de um determinado


produto, ou seja, na agregação de valor a ponto de promover a diferenciação de um produto. O
estímulo à compra é visual, e, nesse sentido, cabe à embalagem atrair a atenção do consumidor através
de um design gráfico chamativo, combinações de cores e padronizações. Insatisfações com a
embalagem podem resultar na não aquisição de um produto.
A embalagem informa os consumidores sobre um determinado produto. Nesse sentido tem a mesma
função da marca, mas nos pontos de venda transmite mais informações do que a própria marca.
(COBRA, 1993). Reúne uma série de atributos como: conveniência, proteção e conservação do
produto, custo, boa relação com o meio ambiente entre outros. No caso específico das embalagens
PET, destacam-se dois atributos: custo inferior e conveniência devido ao menor peso da embalagem,
maior resistência do material a quedas e atritos e a facilidade de descarte (não-retornável).

Até o início da década de 90, a indústria de refrigerantes utilizava em ampla escala as embalagens de
vidro que eram retornáveis, ou seja, eram entregues nos postos de vendas para a "recompra" dos
refrigerantes, o que pré-determinava as vendas, pois a compra sem a devolução do antigo "casco"
implicava num gasto extra, superior ao custo do produto em si, fator que desmotivava sua aquisição.
Desse modo, a compra por impulso no mercado de refrigerantes tinha na embalagem um importante
limite.

O sistema de reutilização das embalagens de vidro caracterizava-se pela complexidade da logística.


Era imprescindível a existência de um elevado estoque de garrafas de vidro, para garantir o bom
funcionamento do sistema de distribuição e venda de refrigerantes. Havia, portanto, a obrigação de
que as empresas de refrigerantes fornecessem aos canais de distribuição e revenda do produto uma
quantidade de vasilhames suficiente para o feedback do sistema.

A necessidade de manutenção de um grande estoque de embalagens onerava significativamente o


custo em se operar no setor, obstaculizando a atuação das pequenas empresas. Além disso, era
fundamental que o sistema de distribuição fosse extremamente ágil, visto que a ausência de cascos
vazios nos pontos-de-venda do produto representava num desestímulo à compra do refrigerante.

A incorporação do progresso tecnológico pelas empresas de embalagens no final da década de 80,


possibilitou a criação de uma embalagem plástica flexível, o polietileno tereftalato, denominado
popularmente de PET.

O padrão de embalagem PET começou a ser utilizado pelas grandes empresas de refrigerantes no
Brasil no final dos anos 80. As vantagens provenientes de sua utilização, residiram na simplificação do
sistema de logística, pois a não necessidade da devolução das embalagens para a recompra do produto,
eliminou a necessidade de manutenção de um grande estoque de embalagens, beneficiando todos os
elos da cadeia produtiva, ou seja, desde o fabricante do produto passando por todos os intermediários
até chegar ao consumidor final. A redução das escalas mínimas eficientes intra-regional dispensou a
formação de grandes redes de distribuição. O resultado imediato foi a retração dos custos de transporte
e de estocagem, aumentando as vantagens em se operar no setor.

A não obrigatoriedade da troca de vasilhames na compra do refrigerante alterou adicionalmente o


comportamento do consumidor, fazendo com que as vendas passassem a ser muitas vezes impulsivas,
pois no preço do refrigerante já estava incluído o custo da garrafa descartável. Isso foi possível devido
ao baixo preço das garrafas plásticas em comparação com às de vidro, o que vinha a somar com a
eliminação dos custos logísticos citados anteriormente. A possibilidade de descarte da embalagem
PET provocou, ainda, o crescimento das vendas de refrigerantes nos supermercados .

Os benefícios provenientes desse novo padrão de embalagem, explicam sua proliferação no transcorrer
da década de 90 e o grande acesso das pequenas e médias empresas ao setor de refrigerantes. Segundo
dados da Abir, existe atualmente no Brasil cerca de 700 empresas fabricantes de refrigerantes, a
maioria surgidas após a introdução da embalagem PET. Como veremos na próxima seção desse artigo,
o PET viabilizou economicamente o mercado das tubaínas.

Dados coletados pela Abra revelam que até o ano 2000, 63% das vendas de refrigerantes serão
envasadas em garrafas PET (Abre). O domínio das embalagens PET no mercado de refrigerantes
corrobora a intensificação da estratégia de segmentação utilizada pelo padrão vidro a partir das
embalagens one-way. Convém observar que as embalagens one-way foram introduzidas no mercado
de refrigerantes por volta de 1985, ou seja, anterior ao padrão de embalagem PET. As vantagens em se
adotar as embalagens one-way residem no fato de serem constituídas por um vidro mais fino e,
portanto, mais barato, fator que reduziu o custo para o produtor em comparação as embalagens de
vidro comum. Atualmente tem sido verificada uma concorrência direta das embalagens one-way em
relação as embalagens PET, todavia o menor custo do polietileno tereftalato associado à sua grande
resistência a quedas explicam a sua maior utilização

Em 1998, o mercado de PET teve como líder de consumo a Coca-Cola, com participação de 47,7%,
sendo seguida pelas: Brahma/Pepsi com 13,1%, a Antarctica com 11,9% e os refrigerantes regionais
com 27,3% desse mercado ( Nielsen ).

O PET tem entrado com sucesso nos setores de água mineral e sucos. Sua entrada no setor de cervejas
está condicionada a superação de barreiras como: padrão de consumo caracterizado pela ingestão de
cervejas cujas embalagens são apropriadas ao congelamento do produto como o vidro e a lata, e
manutenção do sabor da cerveja e do seu shelf-life (da cerveja) de 24 semanas. Dessa forma, além da
necessidade de remoção ou redução de uma alta barreira "cultural de consumo", haveria a necessidade
em utilizar a nova geração do PET, o PEN; polietileno naftalato que permitiria uma barreira mais
eficaz à entrada de oxigênio preservando o shelf life da cerveja.

Há uma tendência das empresas de vidro em aderirem à produção da embalagem PET, como forma de
recuperar mercados que o vidro perdeu, sobretudo em produtos bem populares (SEAE, Ato de
Concentração Brahma / Antarctica 1999-2000)

O PET é derivado do petróleo, aumentos no preço do internacional do petróleo, impactam


negativamente sobre a manutenção do padrão PET no mercado brasileiro.

Por fim, há muita discussão quanto a ampla adoção das embalagens descartáveis, que vem sendo
acompanhada pela inexistência de um sistema de obrigatoriedade de reciclagem. O principal
argumento são os problemas ambientais ocasionados. Em comparação ao vidro, o PET causa mais
danos ao meio ambiente, pois além de produzir um maior volume de lixo industrial, a natureza demora
mais tempo para demandá-lo. Constata-se portanto, que a reciclagem do PET é imprescindível para
amenizar problemas ambientais.

IV - Nova dinâmica em embalagens e seus efeitos sobre o padrão de concorrência

O segmento de bebidas – incluindo refrigerantes e cervejas – tem nos esforços em propaganda e


marketing e na logística de distribuição suas principais variáveis de concorrência. De um lado, os
gastos em fixação de uma marca constituem custos irrecuperáveis, o que desestimula a entrada de
novas firmas. De outro, a logística de distribuição – quando a produção apoia-se em embalagens
retornáveis de vidro – é um problema cuja complexidade cresce exponencialmente, à medida que
cresce o raio de atuação da empresa. Não bastando a distribuição pulverizada do produto, as
dificuldades são ampliadas pela necessidade de coleta das embalagens (‘casco’) de retorno.
Adicionalmente, a constituição de uma rede de distribuidores constitui um entrave à expansão das
atividades no negócio de bebidas.

É nesse contexto que a introdução de embalagens PET produz seus efeitos. Embora as embalagens
constituam elementos importantes no processo de diferenciação de produtos, não está aqui o principal
impacto do PET sobre o padrão de concorrência no setor de bebidas. Seu uso pelas empresas de
refrigerantes possibilitou, de imediato, a redução do custo do produto, uma vez que fazia uso,
sobretudo no período de valorização cambial (1994-1998), de insumos de menor valor. No entanto, o
maior ganho associado às garrafas PET está na redução dos custos logísticos, decorrentes da
eliminação de atividades de transporte de retorno e estocagem na indústria de bebidas.
Em síntese, a introdução dessa nova tecnologia de embalagem produziu fortes impactos sobre uma das
variáveis-chave de concorrência no mercado de refrigerantes: a logística. Esse impacto pode ser
notado no desempenho do mercado de refrigerantes, analisado na seção II deste artigo. Há claramente
uma identificação de mudança no padrão de concorrência no setor ao longo da década de 90, o que
pode ser depreendido nas alterações na estrutura de mercado. É digno de nota, conforme pode ser
observado na Tabela 1, a estabilidade da estrutura de mercado até 1991, logo após a introdução da
tecnologia PET, enquanto observa-se profunda mudança no período que se seguiu. O intenso
crescimento das empresas regionais (tubaínas) verificado durante a década de 90 – saindo de 9% de
participação do mercado, em 1991, para 33%, em 1999 – é um resultado desse novo padrão de
concorrência instaurado após a inovação no segmento de embalagens.

Isso não significa que houve queda significativa do poder de oligopólio das grandes empresas de
bebidas. Em termos técnicos, a introdução da tecnologia PET resultou em queda das barreiras à
entrada no mercado de refrigerantes, em geral, mas não alterou de modo significativo as barreiras de
mobilidade entre as empresas que operam no segmento de baixo valor e aquelas que operam no
segmento de produtos diferenciados. Esta última barreira ainda é definida pela necessidade de
investimentos intensos e contínuos em Propaganda & Marketing, o que inviabiliza a atuação de
pequenas empresas, dadas as elevadas economias de escala presentes nesse tipo de operação.

O mesmo fenômeno não foi observado no mercado de cervejas, em que atuam o mesmo conjunto de
empresas líderes. Ao longo da década de 90, esse mercado enfrentou uma pequena desconcentração,
revertida com a recente formação da AMBEV. No movimento de desconcentração, é marcante o
crescimento da Schincariol e, sobretudo, da Kaiser. O crescimento desta última foi amparado na
estrutura de distribuição da Coca-Cola, ou seja, a barreira à entrada derivada da logística não era
obstáculo à sua expansão. Assim, uma diferença fundamental entre a indústria de cervejas e a de
refrigerantes está no fato de logística ter deixado de ser uma barreira à entrada no caso da segunda,
após a introdução da tecnologia PET.

Conforme analisado na seção III, a introdução dessa embalagem no mercado de cerveja encontra
limites nos hábitos de consumo de cerveja, que demostra marcante preferência por recipientes de
vidro. A parte dessa limitação, as empresas seguem fazendo pesquisas de mercado para viabilizar a
sua utilização no mercado de cerveja, com a finalidade de apropriar-se da redução de custos logísticos.
A efetiva utilização de embalagens PET nesse mercado deve levar a uma mudança no padrão de
concorrência semelhante ao observado em refrigerantes, com maior participação de pequenas
empresas regionais.

V - Conclusão

Este artigo procurou caracterizar os efeitos de uma inovação tecnológica no segmento de embalagens
– o polietileno tereftalato (PET) – sobre o padrão de concorrência na indústria de refrigerantes. O
ponto inicial de investigação é a constatação de que houve um forte movimento de desconcentração no
mercado de refrigerantes ao longo da década de 90, fenômeno esse não observado na mesma
magnitude no mercado de cervejas, em que operam as mesmas empresas líderes.

O elemento principal para compreender essa distinção foi uma inovação tecnológica no segmento de
embalagens (PET), que veio a reduzir as barreiras à entrada na indústria de refrigerantes,
particularmente aquelas derivadas de custos logísticos. Na virada no século, constituíram-se dois
grupos estratégicos na indústria: um voltado ao segmento de baixa renda e o outro baseado em
estratégias de diferenciação de produto, em que pesam os investimentos em Propaganda & Marketing.
Há, portanto, ainda sensíveis barreiras de mobilidade entre os dois grupos, sendo os esforços em
propagando um divisor de águas.

O julgamento da fusão entre Brahma e Antártica, resultando na formação da AMBEV, evidencia esse
novo padrão de concorrência. Embora a fusão se estendesse aos refrigerantes, a preocupação básica
recaiu sobre as cervejas, onde, de fato, havia um problema concorrencial. Como o mercado de
refrigerantes está operando com baixas barreiras à entrada, a concentração não implica um maior
poder de monopólio, dada a elevada contestabilidade do mercado (BAUMOL et alii, 1982). Do
mesmo modo, uma eventual introdução de uma tecnologia PET adaptada ao mercado de cervejas deve
resultar em um fenômeno semelhante ao observado em refrigerantes, com o aumento da participação
de empresas regionais, baseadas em estratégias de baixos preços.

VI- Referências bibliográficas

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(Instituto Brasileiro de estudo das Relações de Concorrência e de Consumo), Doutrina
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STEINDL, J - Maturidade e Estagnação no Capitalismo Americano, Coleção os


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