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A BIOÉTICA COMO NOVO PARADIGMA:

CRÍTICA AO CARTESIANISMO 1

Marcelo Pelizzoli 2

Introdução

Do contexto

Tal como a questão ecológica, a questão bioética, da qual vivemos o seu início, é a
mais desafiadora da humanidade como um todo, até porque as duas áreas na verdade são
uma só, buscam estar dentro de novo olhar, um novo paradigma, e correm assim o mesmo
risco. O risco do mero discurso, da superficialidade, da moda e dos academicismos é
grande. Ou de ser tragado pelos hábitos vigentes. É doloroso acompanhar o que aconteceu
em parte à questão ecológica, vê-la tornar-se um ramo específico de alguma área de estudo
ou cuidados com o verde, animais e lixo ou marketing verde de empresas; igualmente, vê-la
tornar-se discurso sem prática pessoal, vê-la tornar-se uma moral descontextualizada e
cooptada por práticas ainda não sustentáveis. Com a bioética não é diferente. O grosso de
seu uso – diferentemente da verdadeira visão bioética como questão civilizatória e de
modelo de ciência, de sociedade e relações com a vida – ela foi conduzida dentro da área de
Saúde voltada para a Doença, para resolver dilemas morais, tais como abuso em pesquisas
com seres humanos, aborto, eutanásia, e os temas atuais da manipulação genética por
exemplo. Coisas importantes, mas que não são o cerne da visão bioética fundante.
A moral é feiticeira, principalmente na mão de filósofos, religiosos e políticos. Mas
é ela também, enquanto costume (de onde deriva “moral”) que mantém a dicotomia ou até
esquizofrenia entre pessoas incluídas e outras excluídos, um apartheid social que é o maior

1
Cartesiano não significa apenas a filosofia de Descartes, um dos pais da ciência moderna junto
com Galileu, mas antes um modelo de produzir conhecimento válido, imposto a partir da Revolução
Científica, com posturas reducionistas muito problemáticas para a consideração e inserção vital do
homem no mundo, como veremos adiante.
2
Membro do CEP da UFPE. Dr. em Filosofia. Ecólogo e pesquisador em Bioética. Coordenação do
pós-graduação em Bioética da UFPE Autor das obras A emergência do paradigma ecológico e
Correntes da ética ambiental, da Ed. Vozes. E-mail: opelicano@ig.com.br

1
desafio bioético e ecológico atual. Ou que mantém a visão da tecnociência e do mercado,
contra as visões humanizadoras e naturalizadoras. Urge conhecer a árvore pelo fruto.
Talvez alguns se perguntem se haveria uma ética que não seja voltada para a práxis,
já que se trata sempre da consideração da ação; contudo, há sim, pois muito do que ocorre
em filosofia oficial e na academia é eminentemente discurso, por vezes com pretensão de
engajamento, por vezes com pretensão academicista. Falar, muitas vezes, é um modo de
não fazer. Por outro lado, vemos que a ética está se transformando em Bioética, sinal dos
tempos e do esgotamento da moral tradicional. Este é hoje com certeza um dos campos de
maior relevância social e de pesquisa e extensão dentro do campo da Filosofia -
tradicionalmente voltado ao desenvolvimento da teoria/especulação pura. O nosso interesse
em Ética Aplicada/Filosofia Prática ou Bioética deve-se a este recorte crítico, de temas
sociais/ambientais urgentes, de interdisciplinaridade e intercâmbio de saberes de áreas afins
ou mesmo aparentemente distantes, como a Filosofia e a Medicina, como bem demonstra
esta presente obra. Crítico e fundamentado, o que significa denunciador e anunciador;
denunciar a desumanização em Saúde, ou a desnaturalização em Ambiente (como na
medicina cartesiana, químico-maquínica, e na agricultura química insustentável); anunciar
o tempo de práticas de sustentabilidade, de volta à vida simples, de medicina natural e
tradicional, saúde integral, corpo e mente; valores humanos e assim por diante.
Certamente, é preciso estar a par da amplitude da (bio)ética ou da Filosofia prática,
que abrange temas que vão da ética ecológica, filosófica, médica (“biomédica”), Saúde
pública, Direito (“biodireito”), biossegurança, direitos humanos e ramos afins,
desenvolvimento sustentável, interculturalidade, políticas públicas e outros. É por isso que,
de mãos dadas, estas áreas – que nunca podem fechar suas fronteiras, graças a Deus –
constituem, juntamente com a práxis crescente de “um outro mundo é possível” –
constituem o novo paradigma, o qual salvará a comunidade humana no planeta e recuperará
a sustentabilidade dos valores humanos, espirituais, culturais, para além da violência da
civilização do capitalismo e da tecnociência sem freios.
O que estamos mexendo é muito atual e surpreendente, pois nenhuma postura
filosófica e ética ocidental anterior está capacitada para lidar com os dilemas atuais e a crise
como ruptura de padrões de conhecimento. Muito menos deixar isso a cargo das ciências
naturais ou da medicina da doença por exemplo. A própria corrente do principialismo, tão

2
usado nos casos bioéticos biomédicos, por mais pragmática que possa ser conduzida, tem
grandes limites, quando confrontada com bases humanistas, libertadoras e outras com matiz
não anglo-americano mas sim europeu e latino. Basta ver o caso de Kant (e de todo
Idealismo), esse ícone teórico da filosofia/ética acadêmica, com um conceito limitado e
cartesiano de ser humano e de Natureza, perdendo muitas “figuras da alteridade” que são
chaves hoje, bem como a questão da consideração das gerações futuras 3 . Em todo caso,
diante dos dilemas exige-se a força do diálogo aberto e contínuo, no encontro desafiador
das diferentes posições, questionando tanto as práticas anti-socioambientais quanto seus
fundamentos filosóficos 4 .

Em busca de fundamentos

Percebe-se que, em termos nacionais, praticamente não existe produção em bioética


com tonalidade filosófica crítica e discussões de paradigmas, quanto mais que apresentem
práticas alternativas em saúde e meio ambiente. As pessoas precisam saber mais
profundamente o porquê de estarmos em crise, mas as produções são essencialmente
voltadas para boas intenções morais, aspectos ligados à Comitês de Ética em Pesquisa ou
dentro de casos médicos mais restritos. Para nós, é capital analisar as fundamentações em
jogo e as orientações tecnocientíficas e éticas subjacentes. Trata-se de entender onde está
assentado o modelo de ciência (tecnociência na verdade) praticado em especial na área da
saúde e ambiente, compreendendo o seu grande momento de crise dentro das mudanças
paradigmáticas atuais: da complexidade, da volta à natureza, da visão de sistemas, da
sustentabilidade, da mente e emoções, do papel da comunidade e assim por diante.
Se muitas vezes o filósofo é questionado em relação ao âmbito pragmático e aos
desafios técnico-científicos das ciências naturais em seus objetos particulares, é fato
também a sua vantagem (quando é um filósofo engajado) em relação aos seguintes modos
de abordagem: maior lucidez epistemológica, no sentido de uma teoria crítica do
conhecimento instituído, dos métodos, conceitos e postulados (metafísicos inclusive)

3
Sobre esses temas, cf. nossa obra: Levinas: a reconstrução da subjetividade, EDIPUCRS, 2002.
E nosso artigo em SUSIN (org), Éticas em diálogo, EDIPUCRS, 2003, e ainda sobre Hans Jonas
em Correntes da ética ambiental, Vozes, 2003.

3
utilizados pelo tecnocientista; preocupação social acentuada e com ela a preocupação ética;
consciência do papel da compreensão humana interpretativa mais do que apenas a
explicação objetivista ou fática (positivista); maior abertura para os saberes não-metódicos,
ou os “alternativos”, bem como para com os saberes tradicionais e pontos de vistas diversos
de outras culturas; não estar preso a modelos de procedimento congelados (“normais”
porque aceitos - normose 5 ) e reducionistas (reduzido à ordem químico-física fragmentária,
por exemplo); proposição ao diálogo radical, visão mais global e consideração dos
fundamentos em jogo, entre outros. Não é de menor importância considerar aqui o fosso
construído entre ciências naturais e ciências humanas - bem como a expulsão da
espiritualidade e a própria ética. A nós, cabe conduzir a denúncia do que sob os
procedimentos institucionais pautados neste modelo de Saber e Poder, na Saúde em
especial, perpetua um modo epistemológico reducionista que nitidamente vai se enquadrar
dentro de interesses do consumo na sociedade de mercado capitalista.
Por conseguinte, em termos de Ética e fundamentos, podemos ressaltar muitas
posturas. Mas vamos nos ater a uma breve confrontação entre a “ética naturalista”,
holística, de inspiração grega antiga e, como contraponto, uma “ética racionalista” - ao que
acrescemos aí a nossa contribuição fundamental que são as características epistemológicas
(e problemáticas) da Revolução Científica, que permearam o mundo do saber até hoje, fato
que está a exigir consideráveis mudanças metodológicas/epistemológicas e práticas
regeneradoras 6 . Isto feito, apontaremos muito brevemente como a Bioética está entrando
dentro do novo paradigma mais amplo, a exigir não apenas boas intenções e filantropias
morais, mas desconstrução e reconstrução de posturas teóricas, de visão de mundo, de
modelos institucionais e de normatização social.

1 - Visão naturalista antiga

4
Tenho em mente aqui fatos bem concretos, como transgênicos, medicina cartesiana, indústria
química da doença, ao lado de fundamentos epistemológicos que os legitimam.
5
O termo normose dá bem a entender isso: a doença da normalidade, ou seja, de que as coisas
devem ser como estão porque são assim mesmo... Hipocrisia e falsidade de quem não quer
mudar!
6
Não se trata, apesar da confrontação proposital, de eleger a ética naturalista como a grande
alternativa epistemológico-ética para a questão Bioética ou mesmo socioambiental, mas de

4
Aqui nos remetemos à ética grega em especial, a qual tenta justificar, conforme
Gracia (1989), os juízos morais (de ação) apelando à ordem da natureza. Trata-se do antigo
“viver conforme a natureza”, pressupondo-se a ordem natural das coisas onde o homem, ser
de cultura, deve inserir-se. O conceito de cosmos já indicava isso, bem como o de pólis, e,
até mesmo para Platão, que vai além da filosofia da natureza, há um ideal de fundo de que o
funcionamento da pólis deva imitar algo da ordem natural, da physis, pois esta, ao mesmo
tempo que é dinâmica, caótica, compõe-se por um dinamismo que mantém a homeostase.
A ética naturalista traz a noção de virtudes baseada em ações salutares; a saúde liga-
se à disposição moral; harmonia corporal e bondade, por exemplo, são consentâneos.
Justiça liga-se a uma medida (métron), de não se deixar levar pela hybris, desmedida; e,
assim, trata-se de justas medidas, o termo médio entre os extremos (como queria
Aristóteles), o ajustamento à ordem natural. Contra a hybris e a hamartia (erro, pecado),
temos o métron e o ortos (correção, caminho certo...), e Filosofia e Medicina são muito
próximos nesta abordagem. “A virtude é disposição natural ou diásthesis katá physin,
disposição equilibrada, regular ou harmônica (homologouméne), enquanto o vício é uma
disposição antinatural (pará physin). Os gregos definiram a doença como diásthesis pará
physin. A ética identifica-se com a Bioética” 7 . A natureza corpórea é fundamental aqui; o
estatuto do bios é menos dicotomizado do que vai ocorrer depois; até mesmo num
considerado “idealista” como Platão o corpo, dialeticamente, não é abandonado como tal.
Lembremos dos ginásios gregos, do cultivo do corpo, jogos e disputas...
Os estóicos nos interessam, igualmente, pois olhavam a doença desde uma certa
idéia de pathos, como desordem, desordem como kinesis pará physin, indicando assim que
as doenças do corpo são ligadas às da alma (cf. idem). Recuperar a visão do ser humano
como pathos – sentir, sofrer, padecer... – é fundamental na história do pensamento
ocidental, mesmo que bem tarde, com Schopenhauer, Nietzsche, Freud e pensadores do
século XX como Heidegger, Sartre, Merleau-Ponty, Levinas etc.). Numa tradição que
valorizou o logos como ratio, racionalismo, ou ainda o zoon politikós, branco ocidental e
europeu, trazer o “pato-lógico” destes ao centro da subjetividade é ameaçador e desmascara
os ardis da Razão ocidental, e, por conseguinte, da Razão instrumental. Hoje, falamos

resgatar seu valor. Apontei uma visão mais dialética com a perspectiva hermenêutica, em
Correntes da Ética ambiental, Ed. Vozes, 2003.
7
Gracia, 323.

5
também em “emoções perturbadoras”, e no seu papel abrangente, na medida em que se “a
razão convence, a emoção arrasta”. A psicossomática recupera sua força inexorável, haja
vista a notável relação das demandas emocionais e das doenças humanas. Os processos de
cura dependem por demais da postura dos curadores e dos doentes; sendo assim, não se
pode perder a dimensão simbólica da cura, presente no naturalismo 8 . O naturalismo,
mesmo quando não tem uma abordagem centrada na autonomia da pessoa, como vemos em
Hipócrates e a medicina grega antiga, carrega junto a possibilidade de intervenção pela
dimensão simbólica e inter-humana, e não apenas tecnicista.
Não é preciso dizer o quanto isso se aproxima de tradições do pensamento oriental
antigo, no sentido da interdependência homem & cosmos, dos aspectos sutis da “energia”
vital 9 , onde seu desequilíbrio significa doença; não obstante, mesmo doença é necessidade
de reencontrar/reorganizar energias dinâmicas que regem a Natureza, a Vida. Veja-se a
quantidade de práticas tradicionais integrativas e sutis elaboradas: dietas natuais, ioga, arte
marcial, meditação, visualização, mantras, massagens, exercícios, terapias diversas, alguns
baseados em movimentos de animais e insetos. Isso nos lembra que os latinos medievais
criaram um dizer basilar, esquecido pelo cartesianismo moderno: a preponderância vital,
para a cura, da vis medicatrix naturae, a força vital medicadora da própria natureza, que nos
habita. Mas o homem, como ser de cultura tecnológica, afastou-se demais dos processos e
ordens dos ambientes, perdeu a cultura da eco-logia, as exigências biocêntricas, sua
inserção num “eco(oikos, casa, comunidade...)sistema” 10 .
Enfim, saúde, nos gregos, leva à medida, beleza, equilíbrio, e, assim, ao bem. De
outro lado, doença, liga-se a maldade, horror, desequilíbrio. Medicina e moral são muito
próximos 11 .

8
Quanto a isto, veja a brilhante obra de Paulo Henrique Martins, Contra a desumanização da
medicina, Ed. Vozes, 2003. Ainda, a premiada obra Curar, de David Servan-Schreiber.
9
É genérico falar em “pensamento oriental”. Pelo menos três grandes divisões deveríamos ter em
conta: indiano (o mais significativo, donde o brahmanismo...), chinês e japonês. É um mundo a
parte que apenas nos aproximamos, com o pressuposto hermenêutico e lúcido de que nunca
recuperamos a coisa própria do outro tempo e escrita como tal. Quanto à energia veja-se aqui
nesta obra o capítulo de Paulo H. Martins.
10
Numa visão naturalista radical, a abordagem seria radicalmente biocêntrica, oposta ao
antropocentrismo e ao agora tecnocentrismo; não obstante, não precisamos cair em tal tipo de
armadilha teórica para ver o grande valor do naturalismo. Uma correção hermenêutica
contemporânea nos ajuda aqui, para não cair em arcaismo e retorno mítico ao passado.
11
Cf. Gracia, 324. “A ética não foi na Grécia propriamente moral, mas física...”. (idem).

6
A ética naturalista busca a concretude natural fundante nos modos de vida, não no
sentido moral/moralista mais pessoal e formal, mas como regula vitae, ou ainda a regimen
sanitas, desdobrada na vida cotidiana e relações vitais (casa, animais, família, relações,
ambiente...). O ethos (daí “ética”, vem de “habitação”), antes de tudo, indica para as
“disposições do homem na vida, seu caráter, costumes, e também a moral. Na realidade, se
poderia traduzir por modo ou forma de vida.” 12 Ética (ethos), no fundo, é habitar a vida, co-
habitar (com outrem), com o clima, ambiente, recursos; é criar hábitos saudáveis, porque
mantém a vida.
No naturalismo, portanto, a moral segue orientações da natureza, e requer
inexoravelmente o corpo, a medicina e o contexto relacional-vital. Isto é algo realmente
produtivo para pensar hoje, por exemplo, a necessidade de medicina mais “natural”, ou
práticas do gênero, como alternativas sociais aos efeitos do cartesianismo objetificador e
dicotomizado 13 . Se medicina e filosofia eram unidas em termos de uma ética e concepção
de relação estreita entre natureza e cultura, hoje o devem ser em termos epistemológicos, no
sentido de refletir como os modelos de produção de saber médico-clínico contêm
problemas, e, então, podem e devem urgentemente ser melhorados na sua abordagem da
saúde e da doença - fundamentalmente uma relação humana e de resgate da saúde-
equilíbrio. Os títulos de dois livros de Galeno servem para exemplificar a fundamental
relação entre filosofia e medicina: Quod animi mores corporis temperament sequantur (os
costumes morais derivam da compleição humoral do corpo) e Quod optimus medicus sit
quoque philosophus, (Quão bom médico sendo também filósofo). Aliás, neste contexto, o
filósofo é um tipo de médico. “O médico que por sua vez é filósofo é igual aos deuses”
(Hipócrates).
Diga-se ainda que, muito do pensamento holístico atual, supostamente devedor do
pensamento oriental antigo, pode encontrar base nesta postura grega, e que se encontra,
dentro de um caldo cultural enorme, na base espiritual de nosso ocidente. Por outro lado,

12
Zubiri, Naturaleza, historia, Dios, 1987, p.248. Madrid. Alianza.
13
Há uma série delas, dentro das chamadas medicinas doces, ou bradas, alternativas, tradicionais,
integrais, naturalistas, preventivas, limpas, e assim por diante. Surgem devido aos limites e
descontroles da medicina cartesiana, e como demanda da sociedade por cuidados de saúde mais
acessíveis, duradouros, autônomos, enfim, mais naturais.

7
outra será a vertente e o ethos dominante entre nós, como seguirá no império da mediação
tecnológica e tecnocêntrica total 14 , pautado em certo modelo de racionalidade moderna.

2 – Visão racionalista moderna

Numa fundamentação idealista/racionalista, que nasce junto com a Revolução


Científica e a burguesia (os burgos...), o dever ético resultaria do conhecimento, da idéia,
do que seja a realidade determinada, a verdade das coisas inferidas pelo sujeito; ao que se
determina o modo de comportamento. A subjetividade racional autônoma começa a ser a
detentora de poder, poder-fazer, poder-saber, poder-ter. Há a pretensão de que a Razão
autônoma alcance as leis da realidade, pois há uma continuidade entre elas; o real é
racional, e o racional real. Verdade, aqui, lembra a tradição do adaequatio rei et intelectus,
porém, vai muito além da pretensão antiga e medieval. Na tradição grega, desde
Sócrates/Platão, resta claro que conhecer a verdade, é referir-se ao Bem último, ao fim bom
das coisas, e, portanto, agir bem. O papel da idéia em Platão é fundamental, assemelhando-
se a algo que permanece para além da corrupção das coisas. É o cerne da tradição
metafísica, buscando o sentido que está por trás da aparência, a idéia, o ideal,
fundamentando todo agir ético.
Não obstante, impera em toda concepção (epistemologia) do saber clássico e
medieval ainda o papel da ordem natural, das coisas que são feitas fundamentalmente para
serem admiradas, numa ciência mais contemplativa, teorética, observativa (theorein como
contemplação...), com menos potência de dominação e menos objetificadora. É com o
Renascimento e com a Revolução Científica, e o Iluminismo, que há a mudança
paradigmática mais drástica com o papel do homem como interventor e criador de uma
segunda natureza. A ratio desemboca também numa razão antropocêntrica dominadora. O
homem (europeu) começa a assenhorar-se da história, da natureza. “Isto quer dizer que o
homem não é uma parte da natureza, mas está acima dela. Este algo tem um nome concreto:

14
Divido aqui entre uma mediação técnica sustentável e branda, necessária ao homo technicus
que já somos, e uma mediação técnológica totalizante. Se a fronteira entre natural e artificial
não é mais objetivável, não significa que não devamos fazer a opção do respeito aos processos
naturais. Um exemplo é a quantidade de cesarianas desnecessárias e mercadológicas feitas no
Brasil, com a pretensa segurança da técnica sobre o procedimento natural; ou ainda, a grande
desvantagem da alimentação química sobre a natural.

8
realidade moral. O homem não é um “ser natural”, mas um “ser moral... Frente à
heteronomia dos critérios naturalísticos clássicos, a autonomia da nova razão moral.” 15 O
homem promulga a lei, tal como ele infere leis da natureza, instrumentos e meios para
dominá-la. Dominar a natureza, em quase todos os aspectos, é parte da vida humana; outra
coisa é a permissão para a objetificação, dilapidação e modelos políticos e de
desenvolvimento insustentáveis e “desnaturados”. Com certeza, os mentores da revolução
científica não imaginaram onde estariam se metendo seus continuadores.
Ao contrário das perspectivas adaptativas naturalistas gregas, medievais e também
dos povos orientais e inúmeras comunidades étnicas diferentes pelo mundo, a modernidade
dá cada vez mais ênfase ao papel da individualidade, no sentido de apoderamento sobre a
diferença, a estranheza, a ordem e caos natural. Não se trata apenas de valorizar a
subjetividade nos seus múltiplos aspectos (emocionais, religiosos, artísticos, românticos
etc), mas no equipamento (ego transcendental, a maquinaria do conhecimento e razão
pura...) do sujeito conhecedor, que vai legislar sobre o universo, inferir, modificar e criar
leis de funcionamento do real. Cognitivamente, até Kant pelo menos, funciona o esquema
tradicional de vetor R-> S-> P-> I-> L (Real->Sentidos->Percepção->Idéia-
>Linguagem), onde pretensamente a linguagem veicularia o que é o real captado.
Neste sentido, a tradição idealista, na vertente moderna, desemboca num
deslocamento da ontologia clássica, do ser das coisas pautado na viva ordem natural, da
visão cosmológica adaptativa, para chegar a uma reconstrução do sentido pela postura
invasiva e reconstrutora do sujeito racional. O que nos leva a pressupor a ligação inexorável
entre as explorações mercantis, o surgimento dos burgos e burguesia, o Renascimento, a
Revolução Científica e o grosso da filosofia moderna (em especial os matemáticos
Descartes e Kant). Este último, em especial, decreta a separação radical entre conhecimento
científico e ética (bem como os “saberes não-científicos”, como o fez notadamente
Descartes).
Em suma, a ética não pode mais encontrar seu fundamento e sentido último no que
são as coisas em essência, dentro do cosmos ordenado e na aproximação nossa ao sentido
pré-estabelecido dos (eco)sistemas da natureza. Fazer valer uma ética a partir daí seria cair

15
Gracia, 328.

9
no que Hume chama de falácia naturalista 16 , e um erro de achar que devemos imitar a
ordem natural e seu comportamento. Porém, o que é erro lógico para alguns, pode apontar
para preciosos saberes não metódicos para outros. Custear incondicionalmente a razão
antropocêntrica (do sujeito autônomo e senhor) não significaria, em suma, que aquele
pretensioso projeto da razão ocidental de superar a Natureza, os deuses e a Deus está se
concretizando? O que dizer da Razão instrumental aí ? O homem começa a ficar órfão de
mãe e de pai, para, no século XX, chegar à paradoxal orfandade da própria identidade
(quem somos ? o homem está morto ! quem o matou: Nietzsche, Freud, Foucault e o
estruturalismo ? Provavelmente a própria metafísica tornada tecnociência !).
Daqui temos já pronto o clima para o alavancamento tanto da postura dicotômica de
um Descartes quanto de uma epistemologia que, ao mesmo tempo em que demole a
cosmologia tradicional e sua relação com o Bios, erige a mediação da maquinaria
objetificadora como crivo científico oniabrangente mas reducionista. Por isso que nossa
Medicina e Agricultura, ou a própria Biologia, se tornou o que se tornou: cartesiana.

2.1 - Sobre a Revolução científica e o cartesianismo

Comecemos vendo algo pontual das características de época e exigências do


contexto de Descartes, para depois, ligado a isso, ver as características da abordagem do
saber da Revolução científica e do que se convencionou chamar de cartesianismo – que
para além da filosofia de Descartes, é um modelo científico muito poderoso e que penetra
fortemente na vida social e institucional nos últimos 200 anos.

• Perda da segurança da Escolástica e sua visão de mundo fechada.


• Início da Revolução Científica (Kepler, Copérnico, G. Bruno, Bacon, Galileu),
fruto da revolução burguesa (e o mercado...). Fascínio com a maquinaria
nascente e os autômatos mecânicos, instrumentos de medição e aumento de
visão.

16
“Falácia naturalista”, termo de Moore (Principia Ethica, 1903), que nota que em todo sistema
moral que conhecia, o autor começa estabelecendo o que são as coisas, seus sentidos, e passa
subrepticiamente das proposições de existência às de dever: é, logo deve; se é assim (Deus,
ordem natural, universo etc.), então você deve agir conforme, naturalmente...

10
• Pluralização de saberes; divergências e contradições no saber tradicional, teorias
que levam a uma certa ansiedade teológica e exacerbação científica.
• Renascimento e renovação na cultura, artes, da técnica, o neoclássico etc.
• Necessidade de um ponto de partida seguro e provável para o conhecimento
rigoroso, a verdade dominável, objetivável.
• Início da colonização do mundo pela Europa, navegações exploratórias...
• Surgimento da ênfase no indivíduo e na Razão. Ego... Surgimento do sujeito
para além da determinação coletiva.
• Revalorização da matemática, geometria, e surgimento de uma nova física
material.
• Surgimento dos primeiros modelos de máquinas e o papel da experimentação
científica.
Estes elementos histórico-culturais dão a base para a ruptura teórica e prática com
todo o mundo anterior, medieval, que vivia os processos vitais, sociais e ambientais de
modo ainda orgânico e inserido, abrindo-se agora espaço para uma verdadeira revolução
em direção à civilização tecnológica.
***
Agora, sinteticamente, mapearemos as características da abordagem do saber no
espírito da Revolução científica e do que se convencionou chamar de cartesianismo –
tratando-se do grande modelo epistemológico 17 que guiará as ciências naturais e por vezes
as humanas até hoje. Estudar o cartesianismo e os modelos de ciência vigente é o ponto
mais importante e crucial para entender o sentido da questão ambiental e bioética,
juntamente com as crises de paradigmas de todas as áreas do Saber hoje.

* Características epistemológicas básicas da Revolução Científica em seus efeitos


problemáticos (eis o cartesianismo):

17
Epistemologia é uma das palavras mais importantes hoje na Ciência. Trata-se de reflexão de
fundamentos dos modelos científicos vigentes, seus métodos, hipóteses, as teorias etc, como um
tipo de filosofia da ciência. Toda área tem fundamentos epistemológicos, de onde parte as
orientações de pesquisa, do seu objeto de estudo, dos modelos de validação do conhecimento
considerado verdadeiro e científico. É algo como uma teoria crítica abrangente do conhecimento
em nível de ciência e seus fundamentos. (M.L. Pelizzoli)

11
1. Instituição do método como fundamental/oniabrangente (metodologismo).
Apenas o que passa pela determinação formal e material de determinado método
(chamado científico), poderá ser validado. Ele passa a contar mais do que o
próprio resultado dado na vida prática.
2. Reducionismo, pelo método, no espectro/campos objetivados pela pesquisa;
ênfase na abordagem de elementos isolados, fragmentados, analíticos,
compartimentados. Então, temos a fragmentação do saber e das disciplinas até
hoje presenciada; a isto acompanha a atomização analítica da abordagem, e o
especialismo, as especialidades que aprofundam mas perdem a amplitude e a
complexidade. Trata-se de reduzir a elementos separados manipuláveis, a
métodos químico-físicos restritos em especial.
3. Tal fragmentação e o papel diretivo do método gera a perda da dimensão da
complexidade e da interdependência de fatores, ou seja, a visão sistêmica e
sintética, já que a visão imperante é analítica. O resultado do procedimento
simples, no sentido de um conhecimento produtivo (know how) ou produto que
“funciona”, lança a falsa idéia de sua unidirecionalidade e inevitabilidade. A
complexidade exigiria cuidados procedimentais redobrados e um princípio de
precaução que “atrasariam” o chamado progresso.
4. Abre-se caminho para um materialismo científico, na consideração meramente
de elementos de ordem físico-química. A medicina como “engenharia de
órgãos” ou a agricultura pautada na abordagem químico-física do solo
(desvitalizado), ou a consideração da mente e da psique como processos
apreensíveis materialmente (cerebrais), passíveis de “correção” neuroquímica,
são alguns trágicos exemplos deste materialismo. Cabeça e corpo sem mente e
coração.
5. Ênfase quantificadora muito mais do que qualificadora ou humanizadora na
pesquisa. Portanto, o papel enfático da matemática e de uma matematização da
realidade; daí o apelo exaustivo ao calculismo. Ela será a grande linguagem
explicativa (mas não compreensiva) de mundo, já que este seria ordenado por
leis mecânicas, físico-materiais, químicas. Há a obsessão da quantidade, hoje,
“quantidade de inteligência”, “quantidade de gens”, “quantidade de átomos”.

12
6. Predomínio absolutista das ciências naturais e seu estatuto epistemológico-
metodológico sobre todo saber. Ocorre a exigência de um pretenso rigor às
ciências humanas, devendo estas serem rebocadas cientificamente pelas ciências
naturais. É como se essas tivessem chegado ao âmago do real tão sonhado pela
metafísica, mas pela via da matéria, do laboratório.
7. Reforço do processo de secularização (exclusão gradual do poder religioso, e do
papel da espiritualidade) e a conseqüente expulsão do elemento sagrado da vida.
Junto a isso, o desencantamento do mundo, pela perda da dimensão simbólica,
mítica, tradições culturais inseridas no ethos e oikos. O Sol passa a ser
hidrogênio e hélio, o céu gases, a pessoa células e gens, as árvores madeira, etc.
A religiosidade passa a ser vista como primitivismo.
8. Início da clara concepção do “saber como poder” (Bacon). Poder científico,
então atômico, biotecnológico, bélico... Separa Saber e Ética. E poder se liga ao
empoderamente de um Ego Cogito ligado a um Ego Conquiro (eu conquisto,
venço).
9. Mecanicismo como grande explicadora do real (metáfora do mundo e do corpo
como uma máquina). O universo compõe-se de compostos particulares
engenhados, tal como engrenagens. Por fim, o mundo passa a ser de e até das
máquinas; estamos em meio a programas de computador (como no filme
Matrix). Temos peças intercambiáveis a serem manipuladas de forma simples.
10. Crítica e perda da tradição. O cartesianismo revela um salto e futurismo
tecnológico que deixa para trás, como sem valor para o Saber, a tradição, tudo o
que foi conquistado como saber não metódico e não considerado científico (a
medicina e a agricultura são os exemplos fatais). A mediação tecnocêntrica total
invade até a dimensão da intimidade amorosa. A tradição e as culturas
tradicionais são solapadas pelo novo modelo industrial com conseqüências
culturais “fantásticas”; que nos deixam órfãos de ambiente, cultura,
corporalidade íntima e comunidade.
11. Isto gera a perda da dimensão orgânica e viva da Natureza (incluindo o
homem e seu corpo). É como se a natureza e o corpo não operassem com
vitalidade ecossistêmica, processual, interdependente, não tendo uma sabedoria

13
própria, mas precisasse o tempo inteiro ser corrigida, sanada, limpa, assistida,
combatida no mais das vezes. Como se o centro do problema fossem os
gérmens, vírus, bactérias, fungos, insetos, animais desagradáveis e “defeitos” ! E
como se não soubéssemos mais ganhar filhos, prevenir, amar e criar
sustentabilidade ! É como se precisamos de drogas tecnológicas da felicidade,
pois estaríamos dilacerados em partes mecânicas sem “alma” (interioridade).
12. Temos, junto a isto, a perda da dimensão psicossomática, especialmente na
medicina e nas ciências da saúde em geral. O corte radical entre mente e corpo,
emoção e biologia, é um corte epistemológico com conseqüências desastrosas,
revelado na desumanização da medicina, na incompreensão do papel e limites
das emoções, no papel da mente pessoal e da mente social como centro da vida
pessoal. É grave: o cartesianismo não sabe lidar com dimensões psicológicas e
existenciais.

13. Por fim, em suma, a Objetificação das relações homem-natureza e então


homem-homem, pautadas na relação de dominação total no vetor S Æ O
(sujeito-objeto). Na filosofia, a visão de predomínio da racionalidade
dominadora sobre o “frio universo material”. Por conseguinte, a dicotomização
(pensamento-matéria, corpo-alma, razão-emoção, eu-outro) é acentuada.
Objetificação não é só o fato de produzir objetos, ou de nos separarmos da
Natureza, mas o estabelecimento de padrões ou paradigmas que moldam
relações instrumentais, dentro da perda da dimensão essencial (natural e social)
do homem, a ponto de que homem e natureza devam ser constantemente
modificados e “melhorados”.

Como conceito sintetizador (junto a este ponto 13) deste modelo epistemológico,
com assustadoras implicações cosmológicas, ontológicas, culturais e éticas, temos o que se
chama de CARTESIANISMO 18 , neste processo de objetificação das relações sócio-vitais e
do saber instituído. Não se trata apenas da filosofia de Descartes em si, mas de uma

18
Outro autor capital para compreender o que estamos falando, é Edgar Morin, com seus tópicos
críticos sobre a Ciência Moderna, descritos em A inteligência da complexidade.

14
abordagem científica do Saber e de uma atitude nova diante da vida, com conseqüências em
valores e relações que se tornaram insustentáveis.

Aqui estão as bases onde se assentou o determinismo científico, como explicação


totalitária de tudo o que é investigado, através de leis da natureza cientificamente
instituídas. Isso é sinônimo de cientificismo, pela oniabrangência quase mitológica, mesmo
que desmistificadora, do saber científico e seus detentores. Aqui teremos então a base para
a Revolução Industrial. Torna-se evidente a perda da perspectiva orgânica, de
interdependência de fatores ambientais e humanos, naturais e culturais; cai-se pois numa
abordagem mecanicista que retira a ambigüidade, o mistério e a complexidade das
realidades ou dos seres vivos. O que significa também dizer da perda da visão holística, do
todo, da unidade e da participação da consciência no mundo. Não podemos deixar de citar
o respaldo que isso tudo dá para o positivismo, não apenas no sentido de A. Comte, mas
como visão geral de dominação do mundo como fatos objetivos em evolução, a serem
inventariados e à disposição da manipulação objetificadora. Palavra que não deve faltar em
tal contexto, enfatizada mais tarde, é a noção de progresso material ilimitado; ele vem
contra o progresso espiritual e humano adaptativo dos tempos anteriores e de outras visões
de mundo de culturas diversas.

Torna-se evidente, portanto, a imperiosa necessidade de discutir modelos


paradigmáticos do saber no sentido de inferir quais e como dominam nosso “habitar”
(nossa ética, nossa bio-ética), para então corrigi-los e complementá-los, como é o caso
emergente aqui. Parte da dificuldade cabe ao fato de que saberes sustentáveis, tradicionais
(como na medicina oriental ou natural, agricultura orgânica, terapias alternativas etc.) são é
não são científicos. São no sentido de que muito do seu valor já é visível ou inferido na
metodologia científica, mesmo que não adotados por falta de tradição e interesse
econômico; são por que empiricamente se constatam seus exemplares funcionamentos 19 .
Não são porque, comumente, não entram dentro dos cânones de validação do estatuto das

19
Enquanto o potencial de cura de câncer por métodos hospitalares gira em torno de 50%, na
probiótica/unibioética (uma das medicina naturais orientais cujo nome central é Jong Suk Yum) -
vai a mais de 90 % !

15
ciências naturais, cartesianos em especial, redutores 20 . Não obstante, a maior parte da
dificuldade de modelos alternativos reside nos termos políticos-econômicos: quem financia
as pesquisas e práticas médicas, agrícolas, administrativas e socioinstitucionais em geral, e
a que lucros devem corresponder.

3 – Em busca de um novo paradigma histórico

Ninguém ou teoria alguma será a detentora do melhor diagnóstico e tratamento para


a perda/crise/ruptura civilizatória e tecnocientífica que vivemos. Isso posto, trata-se de
prosseguir na análise crítico-desconstrutiva do paradigma cartesiano no sentido de perceber
como ele se materializa nas práticas institucionais e sociais, em especial dentro da
economia de mercado pautado na tecnociência e no tratamento do homem como meio para
e não como fim em si (o mesmo vale para a Natureza). É, ao mesmo tempo, a dimensão de
intervenção política, organização civil, com uma “ciência com consciência”, percebida em
sua dimensão histórica, existencial, interpretativa, política, complexa, social, e humana
acima de tudo. A ética da vida, a sustentabilidade socioambiental, bem como ética da
alteridade e responsabilidade, tornam-se o centro da questão 21 .
Numa perspectiva histórica, apontemos rapidamente como a questão atual da
Bioética, em seu advento abrangente, pode ser incluída dentro do surgimento de um novo
paradigma, mesmo que em construção, sendo tecido por vezes de baixo para cima, em cada
pequeno nível local 22 . Há, pois, um contexto histórico-filosófico de emergência da grande
questão da Ecologia. Refere-se basicamente a rupturas culturais e de matriz de
pensamento, desde a passagem do séc. XIX para o séc. XX, da modernidade à “pós-
modernidade”. Como segue:

20
Há uma avalanche de procedimentos sustentáveis, regimes de saúde, alimentação e terapias de
que a sociedade se vale cada vez mais, beneficiando-se, e à margem dos manuais e das
instituições de saúde pautadas na alopatia e intervenções artificiais fragmentadas.
21
São os referenciais que nos guiam, inspirados em Levinas, Dussel, Jonas, Habermas e outros, e,
no veio mais epistemológico, a hermenêutica, teoria da complexidade e rede, da auto-organização,
budismo e outros.
22
Em 1999 intitulei esta questão no livro chamado A emergência do paradigma ecológico, Ed.
Vozes, indicando “ecológico” como nome geral abrangente para uma nova postura do saber, da
ética e da política frente aos novos tempos.

16
* Rupturas epistêmicas científicas: a Física quântica dissolvendo o conceito clássico
de matéria, átomo e as posturas fragmentárias; a teoria da Relatividade de Einstein,
demolindo noções tradicionais de tempo, espaço e realidade física determinada e fixa; a
Teoria dos Sistemas e a démarche da Biologia; as abordagens da Complexidade epistêmica;
o princípio da incerteza com Heisenberg; o papel do observador como parte da experiência,
entre outros desafios das ciências que geram uma série de impasses teóricos e de abertura
de novas visões surpreendentes da teia da vida e suas conexões que ignoramos na visão
cartesiana.
* O advento da Fenomenologia e da Hermenêutica, rompendo com a relação
Sujeito-Objeto linear e separativa, e mostrando o papel da consciência do sujeito
conhecedor na interpretação e no mundo; a noção revolucionária e filosófica de Tempo
(Rosenzweig, Bergson, Heidegger, Lacan, Levinas), para além do tempo cronológico.
Igualmente, o advento da questão do corpo mais que objeto, do corpo orgânico e vivo não
mais separado da mente.
* A necessidade do procedimento interdisciplinar na ciência em geral.
* O chamado pensamento holístico, promulgando a recuperação da integridade e
integralidade da abordagem do ser humano e da natureza em seus vários aspectos.
* O advento da Psicanálise é crucial, subvertendo o Sujeito identitário e
racionalista. A quebra da idéia de identidade egológica (subjetividade heróica, sujeito
forte...), quebra que acompanha a desconstrução das Identidades Culturais etnocêntricas. Aí
também o surgimento do estruturalismo e da etnologia, trazendo à tona outras modalidades
socioculturais de vida. Descobre-se as outras culturas na sua diferença irredutível.
* A Arte contemporânea demonstra muito disso tudo com antecedência e com força
estética, o espírito de um novo tempo, mesmo que trazendo um certo tom do caos.
* A retomada do Romantismo nos movimentos sociais (ecologia), na literatura, na
Filosofia, na Arte, na perspectiva encantada e espiritual (o retorno do que foi reprimido mas
está dentro de nós).
* Junto a isso, a crítica à tarefa prometeica e megalomaníaca da Civilização Técnica
(exemplo: pensadores da Escola de Frankfurt, Hans Jonas, as correntes do Humanismo, a
bioética, os ecólogos...)

17
* Guinada das Ciências Humanas para a questão do diálogo, da centralidade da ética
e a crítica ao declínio da essência humana na crise da Metafísica (em vista do triunfo da
Razão Instrumental, do Positivismo, e do Liberalismo/Capitalismo imperantes em modelos
insustentáveis).
* Em filosofia em especial, os grandes “mestres da suspeita”: Nietzsche, Marx e
Freud. E mais atualmente, Foucault, Habermas, Gadamer, Levinas, e o latino-americano
Enrique Dussel, para citar os mais significativos.

Por conseguinte, a Bioética como ética surge dentro deste grande paradigma
nascente, no contexto em que despontam significativos eventos tais como:

* Movimentos pela PAZ


* Atrocidades da II Guerra Mundial e tribunal de Nuremberg (1947)
* Direitos Humanos e movimentos de Direitos em geral; Direitos difusos e do
consumidor
* Volta à natureza e a questão ecológica
* Desenvolvimento Sustentável
* Movimento Feminista
* Defesa da Diferença e Alteridade (vários níveis), dos excluídos e populações
vulneráveis.
* Renascimento da sabedoria Oriental Antiga no Ocidente (várias práticas:
espirituais, filosófica, psicológicas, médicas, corporais). Retomada da Filosofia existencial,
das religiões, como por exemplo a não-violência e compaixão no Budismo (Dalai Lama).
* Movimentos culturais pontuais stricto sensu, de protesto.
* Movimentos sindicais, de luta pela terra, de reformas, revoluções sociais etc.

É diante disso que se conclui pela emergência do paradigma ecológico (oikos e


logos, a racionalidade e sentido da casa, no amplo e interdependente sentido do termo,
envolvendo vizinhança, pólis e o planeta, começando igualmente na mente humana). A
Bioética não pode ser separada deste “espírito do tempo”, e tomada apenas como novo

18
ramo da biologia ou mesmo da teoria ética. Suas implicações e ilações são revolucionárias
na raiz da questão, mesmo que sem armas.

Em vista de demonstrar a amplitude do que se trata, basta citar os grandes âmbitos


de compreensão da realidade/conhecimento envolvidos:

Epistemologia: fica evidente que se trata, como diz o livro de Einstein, de Como
vejo o mundo. Epistemologia diz da raiz e procedimentos que guiam determinado saber
colocado em cada ciência particular. Um médico ao se formar, aprende uma série de
técnicas profissionais da terapêutica; porém, no momento em que se pergunta pela validade
dos procedimentos científicos de pesquisa que o guiam, ou pelas noções de ser humano,
doença e saúde que adota, ou seus métodos, ou se o corpo humano é visto como máquina,
quando assim o faz está no coração das questões epistemológicas. São de alta ordem, pois
estão correlacionadas aos paradigmas, concepções e pressupostos que guiam a relação com
o mundo ditada pelo conhecimento; isso, por sua vez, sustenta valores determinados, bons
ou ruins, e mais ou menos cartesianos.
Ontologia: Se mexemos em como vejo o mundo e o saber, o mundo muda, eu mudo,
o sentido que se dá à Vida é alterado. A ontologia, na esteira da metafísica, diz aquilo que
é, a essência por trás das aparências. A ciência tem por trás de si toda uma ontologia,
muitas vezes impensada, relativa ao modo como concebe o real, a matéria, o corpo humano,
os animais, os ecossistemas etc. Mudança ontológica é uma transformação em essência.
Veja-se que, com a civilização técnica, a própria essência do homem está em jogo, a sua
constituição ontológica e íntima; e não precisamos ser “essencialistas” metafísicos para ver
que existem modos humanos essenciais de ser a serem resgatados.
Ética: Naturalmente, tudo isto é essencialmente uma questão de relação com a vida,
com o Outro em largo sentido. A ética é colada à epistemologia e a todos estes níveis
elencados. Não significa que se eu tiver uma nova visão teórica de mundo vou agir
diferentemente, até porque tal mudança passa por uma competência e conversão ética,
trilhada no nível pessoal, cultural e dos processos de socialização e poder. Não obstante, a
nova postura epistemológica ontológica está na base desta ética e igualmente é alimentada
por ela, num sentido circular.

19
Político: Com o ético vai junto o político, como administração da casa, da pólis, da
vizinhança, do tempo, da sociedade civil organizada, do Estado e dos governos atrelados às
políticas públicas, sustentáveis, equilibradas ecologicamente e justas socialmente. Aqui, a
democracia não pode ser apenas formal, mas acompanhada com a cidadania real, que
passou pela consciência educada, construindo a história com as mãos da sociabilidade
emancipada.
Cosmologia: uma nova cosmologia, da era ecológica, da visão planetária, já é
exigida há muito tempo. A destruição cosmológica imposta pelo cartesianismo fragmentou
a coesão de mundo tradicional, deixou-nos em “frios espaços infinitos da geometria e da
matemática”, como dizia Pascal. Tal cosmologia recupera e recria visão holística, o cosmos
dinâmico-harmônico e interdependente, onde os processos naturais são respeitados em sua
auto-organização e vida própria, complexidade e imprevisibilidade. Tal vai exigir um pacto
do homem com o cosmos, de simbiose e sustentabilidade ecológica.
Estética: Radicalmente, isso tudo envolve uma mudança de sensibilidade (aisthesis,
sensação). É uma nova sensibilidade para com as coisas vivas, para a ética, para a natureza,
para a pessoa humana, para o que significa a ciência que tem o ser humano não por meio
para... mas por fim em si, e junto aos outros seres vivos. Envolve emoção, a disposição
afetiva para ir além do próprio narcisismo e da fome de poder. Sensibilidade também diz de
beleza, viver é buscar beleza, alegria e felicidade em pequenas coisas. Modos sustentáveis
de consumo e cidadania (cidade).

Por fim

Falar de novo paradigma, portanto, pode ser apenas uma nova e ampla hipótese; e,
aplicado ao “espírito do tempo”, corre o risco de crer em processos evolutivos, teleológicos
e até escatológicos. Todavia, aqui, apresenta-se a possibilidade de transcender os interesses
imediatos da nossa geração, bem como o nosso planejamento pessoal e social muitas vezes
limitado e preso a padrões aceitos e a uma falsa “normalidade”. A normalidade pode,
também, ser “burra” e defensiva, encerrar-se nos processos de alienação de consciência e
de massificação. O papel daquele que conhece – desperta - passa novamente pelo sentido

20
social e ético do que está ocorrendo e do que ele faz, um outro nome para a práxis, ou
engajamento, provavelmente o início da era da Cultura de Paz 23 .

Como exemplo, lanço algumas perguntas que fazem transcender na direção


paradigmática apontada, no momento do encontro da Bioética e da Filosofia com as
Ciências da Saúde e Ambientais em particular, o que serve para pensar os limites do
estatuto epistemológico das ciências naturais dominadas pelo cartesianismo, ao mesmo
tempo em que convida a um diálogo mais profundo e interdisciplinar.

• Qual o lugar para as relações simbólicas e naturalistas na cura hoje ?


• Qual o lugar para os saberes tradicionais sustentáveis na Medicina e na
Agricultura, por exemplo ?
• Qual o lugar da intuição, da experiência de vida e da sabedoria acumulada pelos
povos ?
• Qual o lugar para as práticas tradicionais, seja oriental, seja ocidental?
• Qual o lugar da psique na intervenção humana?
• Qual o lugar e importância de uma medicina preventiva e branda ?
• Qual o lugar da doença como manifestação psicossomática e autodefesa do
sujeito ? Ou seja, qual o lugar do Pathos verdadeiro ?
• Qual o lugar da psicologia e da psicanálise na relação com a medicina ?
• Qual o lugar da epistemologia contemporânea, sistêmica, crítica, da alteridade,
da teoria no sentido amplo ? Qual o lugar então da razão não-instrumental, do
logos compreensivo-interpretativo do saber ?
• Enfim, qual o lugar da ética do humano e da responsabilidade aí, diante das
demandas da economia de Mercado ?

Em nosso entender, essas inquietantes interrogações revelam por si os limites do


paradigma da ciência antes exposto, bem como sua ligação com o modelo econômico
vigente, e a amplitude das mazelas a reverter, bem como a grande tarefa que se coloca para

23
Para tudo isso cf. nossa obra Correntes da ética ambiental, Vozes, 2003. Sobre o despertar de
um novo tempo, veja-se os filmes: Waking Life, o excelente What the bleep do we know, e o

21
a chamada Bioética e a Filosofia Prática em geral, em direção ao novo projeto
civilizacional humanizador e ecológico que se avizinha. A Vida é inexorável.

Bibliografia

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Oxford, 1994.
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FONTES, Olney L. Educação biomédica em transição conceitual. SP: Ed. da UNIMEP,
1999.
GADAMER, H.G. Verdade e método. RJ: Vozes, 1998.
HIPPOCRATES. Hippocrates. Translation by W.H.S. Jones, London: Loeb Classical
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JONAS, Hans. El Princípio responsabilidad. Barcelona: Herder, 1995.
MARTINS, Paulo Henrique. Contra a desumanização da medicina. Petrópolis: Vozes,
2003.
MORIN, E. & LE MOIGNE, Jean-Louis. A inteligência da complexidade. SP: Peirópolis,
2000.
MOSER, Antônio. Biotecnologia e bioética: para onde vamos? Petrópolis: Vozes, 2002.
PELIZZOLI, Marcelo L. Correntes da ética ambiental. Petrópolis: Vozes, 2003.
__________. A emergência do paradigma ecológico. Petrópolis: Vozes, 1999.
__________. Levinas: a reconstrução da subjetividade. EDIPUCRS, 2002.
__________. O eu e a diferença: Husserl e Heidegger. EDICPUCRS, 2002.
POTTER, Global Bioethics. East Lansing: Michigan State University Press, 1988.
SINGER, Peter. Ética prática. SP: Martins Fontes, 1998.
SERVAN-SCHREIBER, D. Curar. SP: Sá Editora, 2004.
TENNER, E. A vingança da tecnologia. SP: Ed. Campus, 1997.

clássico O ponto de mutação.

22
VARELA, Francisco. Sobre a competência ética. Lisboa: Edições 70, 1992.
YUM, Jong Suk. Doenças, causas e tratamentos. (Edição própria)
ZUBIRI, X., Naturaleza, Historia, Dios. Madrid: Alianza, 1987.

23