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foram os estudiosos da nossa rea 1 Resets See fora do pais, nas diferentes areas do pensa- mento. Contudo, esse esforgo de compreensiio do proceso hist6rico de construciio do Brasil tem-se tornado menos efieas & medida que as forcas do processo de globalizacio tend. prevalecer. A tradiedo tem sido pensar qui nnagio se formou sob a impulsio de fatores ends- yenos, quando na verdade este pais surgiu: tuma feitoria comandada de fora para dentro, ‘eevoluiu ao sabor da conjuntura internacional. Ocorre que estamos vivendo uma mutagio, nas relagdes como mundo globalizado que, por sua vez, tem gerado conseqiié Jarmente graves em paises com agudas desi- sualdades sociais como o nosso, Esta 6 problematiea de que se oeupa 0 lon- 0 amanhecer, reflexes sobre a formacao do Brasil, livro que se inscreve na linha de refle- Jin CELSO FURTADO O LONGO AMANHECER REFLEXOES SOBRE A FORMACAO DO BRASIL ve We one estamos constrwindo? O que reserva o futur para a conomia brasileira ni muido, tlobalizado, onde caida vex mends in evceno pode imerfere nos rumos pie io dados ao noseo pals? A ovigem destas ‘ede tras questies esti ta ingie rvflexva de Celso Rurtado, ue reine ‘qui sete ensaios para compor uma vs sobre o tems. Mas enti agora als de gue hvemos fg? ath sri, sen dvi, J import Bienen hone | omens ssa qo ple tneein tam gerad sob a ale de que tos an rcete transforma oem oa Durtedo planeta. A especéncat nesnn ‘qe 0 modelo de esenslsimemts deve wr onechido a yards pzuliaes de cada a enim contact quadrennial Coto Farad lang ain un lh ei Sobre as insti cesta ‘edefinindnest tempo de asi teonogicodesefreads, fal bre ¢ pena do sentido de hemsiatarcoleiso ei detinento do hemetarmetcanti O longo ainanhecer poe ter id enw into deamon in ra I naisdocingienta anos (eight O LonGo AMANHECER Reflexes sobre a formagao do Brasil CzLso Furtapo O Lonco AMANHECER Reflexes sobre a formasio do Brasil 300.981 F988! 2 6d COE trapreorF | PAZETERRA © by Cobo Furado Diapmaco [MIL Earoragio Cage bel Caballo itor Pr eTers SA. ‘Res do Tso, 177 Sona ligéni, Sao Palo, SP CEP O1212-010 Tek (i) 223.6522 {CP-BRASL. CATALOGACAO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL OS EDITORES DE LIVROS.R] roam Fart Ce, 1920 (© longo amanbecer:velexes sobre ¢formagio do [Best / Geko Partai, — Rio de Jain; Pa Tera, 1999 ~ * bibograa 185 239 03383 sil ~ Civizagio. 2. Globalayfo. (Econom 2olica o govern. 4 Beal ~ Pols scour, 1999 Irene 90 Bras Printed in Basil cop 98: Duss! SUMARIO Preficio, 9 A busca de novo horizonte ut6pico, 13, (Os caminhos da reconstrugio, 27 © problems, 27 Que fiver, 32 Nova concepcio do federatismo, 45 | formagio da nacionliade, 45 © sureo da economia caterira, 48 Internagio do ceteo dinimico, 51 CCapacidade cra da sociedad, 53 © espa do poder regional $5 Formagio cultural do Brasil, 57 Mensagem 20s jovens economistas, 69 Machado de Assis: contexto histérico, 103 Rui Burboss e a politica financeita do primeiro governo republicano, 111 » A Rosa, que me ensinow a ser paciente » PREFACIO. (Os ensaios aqui reunidos respondem a uma indaga- fo: que margem de autonomia nos resta para interf fir no desenho de nosso porvir como nagio? A nin- guém escapa que 0 espago em que atuamos pare proseguir na construgio do Brasil reduz-se a olhos Vistos, a0 mesmo tempo que cresce a importincia da variével politica (Os sistemas de poder se fazem cada vez mais hete- rogéneos em um mundo em que os Estados nacionais perdem importincia para instituigdes transnacionais, multinacionais € mesmo regionais. As atividades 6 nnanceiras, beneficiadas por avangos surpreendentes 1a eletrénica, assumem posiges de vanguarda na mode lagem das estruturas de poder. Os padres monetirios endem a unificar-se,o que amplia significativamente © ambito de agio da moeda dominante, a0 mesmo tempo que se impde a constituigio de vultosas reser vas monetirias em beneficio das economias centrais. A conseqiiente redugo da margem de autonomia das autoridades nacionais torna mais dificil aleangar a su- peracio do subdesenvolvimento. As atividades produtivas de alcance estratégico tendem a ser controladas por grupos privados trans- nacionais, 0 que esti reforgando a concentragio do poder econémico e a exclusio social. © processo po= litico, por seu lado, evolui no sentido de conglome- ragio de interesses, ‘No resta divida de que o ciclo histérico que se abre ser matcado pela emengéncia de wma nova con- cepgio da politica. O formato que assumis 0 Estado nacional em paises de grandes dimens6es territoriais € demogrificas como 0 Brasil ainda esti por definir-se. O objetivo destes textos é ajudar a nova geracio a tomar conscigncia da responsabilidade que Ihe cabe para dar continuidade 4 construgio do Brasil preser~ ‘vando os valores fundamentais de nossa cultura que hi de comum nos ensaios presentes é a ten- tativa de captara especificidade do perfil cultural bra- sileiro. O primeiro ensaio,“A busca de um novo ho: zonte ut6pico”, foi apresentado em seminirio sobre politicas macroeconémicas organizado pela Assem- Disia Legislativa de Minas Gerais, em julho deste ano. ( segundo,"Os caminhos da reconstru¢io”, foi obje- to de um debate na Comissio de Economia da Ci ‘mara dos Deputados, em Brasilia, no més anterior. O terveito, “Nova concepgio do federalismo”, retoma uma reflexio que venho fazendo desde uma palestra pronunciada na Ordem dos Advogados do Rio Gran- de do Sul, em Porto Alegre, em outubro de 1982. 0 quarto ensaio, “Formagio cultural do Brasil”, reela- o bora temas inicialmente apresentados no 1° Congres- s0 de Politica Cultural, em Belo Horizonte, em 1984, ‘© quinto ensaio, "Mensagem aos jovens economis- tas”, decorre de uma palestra proferida para os alunos da Escola de Economia da Universidade de Sio Paulo, em 18 de agosto de 1998, organizada pelo professor (Cleber Aquino e tendo como debatedor o jornalista e historiador Jorge Caldeira. Os dois diltimos sio confe- réncias proferidas na Academia Brasileira de Letras no correr do ano presente. CE Rio de Jane, tebe de 1999 A Busca pz Novo Horizonte Uropico 1 Se existe consenso de que esta & uma era pés-keyne- siana, € que percebemos com clareza o alcance da volugio das estruturas de poder. visio do processo econdmico somente deixa de ser simplesmente vir- tual quando adquire consisténcia politica, capta os sis- temas de dominacio social que prevalecem. ‘As estruturas de poder sio nacionais, ransnacio- nais, plurinacionais. Sua evolugio vem se dando no sentido de atrofia das estruturas nacionais, de wm forte crescimento das transnacionais ¢ no avango irregular das plurinacionais, As raizes dessas mudangas morfo- légicas nos sistemas de dominacio revestem-se da complexidade dos processos histéricos, e no é noso propésito abordé-las nesta oportunidade. Limitamo- nos a assnalar que a l6gica desse processo softet pro- fand:s mutagdes 2 medida que a ideologia do bem- estar coletivo foi perdendo forga, suplantada pela racionalidade mercanti. ‘A primeira fase de implantagio do capitalismo in- usteal foi marcada pela erescente ascensio das forgas sociais que Iutavam pelos ideais do bem-estar social Essas lutas levaram, no século que termina, § implan- taco ocasional dos ideais socialistas sob a forma de planificagéo centralizada e, mais freqiientemente, de aumento da participagio do Estado na alocagio da renda social, conforme 0 ideatio da social-democra- cia, Em ambos os casos prevalece a consecusio do objetivo de maximizagio do bem-estar social. Certo, a planificagio centralizada, em razio do quadro hist rico em que foi implantada, ndo conkeceu evolugio politica, © que explica sua crescente perda de eria- tividade e seu final abandono. ‘A pritica da social-democracia produziu resulta- dos bem diversos:a exacerbagio da competitividade levou a criatividade a extremos, com hipertrofia da inovagio de produtos,o que alimenta o consumismo. isso se funda o aumento do poder do capital ¢ a tendéncia & sua participagio crescente na apropria~ Glo da renda, Assim, o capitalismo avangado tendeu a concentrar a renda ¢, subseqtientemente, o capital. ideal keynesiano de pleno emprego foi abandona~ do, 0 que acarretou a degradacio do tecido social com aumento da criminalidade ¢ enfraquecimento da coesio comunitiria A tendéncia 3 subutilizagio do capital explica a grande disponibilidade de recursos Kquidos para inves- tirno exterior, o que esti na raiz da plobalizagio, Com feito, esta resulta da acio conjugada de dois vetores: © reforgo da oferta de recursos para investie no exte- rior, que se observa nos pafses de capitalismo avanca- do,e a orientagio dada a esse processo pelas empresas ‘ransnacionais, 4 Nio € fic captar o sentido das profundas modifica- g8es estruturais que conduziram 4 emergéncia de-um sistema econémico planetirio, Existe consenso de que as atividades econémicas se articulam crescente-mente em escala planetiria num processo que tem como contrapartida o cumprimento da famosa tese de Mare de dissolugao do que se entende como Estado nacio- nal, instituigo que historicamente manteve © mo- nopélio da legitimidade do exercicio da violencia. As fangdes que atualmente exerce o Estado nio dese- pareceriam proprismente, mas astumiriam outra for ‘ma, sem ligacio direta com espacos geogrificos © demogrificos definidos. Essa transformagao seria cum- prida independentemente de um projeto politico, como uum processo evolutivo natural, conduzido pela roda da hstiria, conforme a visio determinista do culo passado. Nao se trata da formacio de novo imp‘ rio de amplitude planetiria, e sim da superacio dos resquicios dos poderes imperiais mediante a preva- léncia da racionalidade formal que conduz & maxi- mizagio da eficiéncia no uso de recursos escassos. Essa visio ut6pica constitui tio-somente um exer- cio de l6gica inspirado no principio de que o pro- sgresso & imanente 4 vida social € se manifesta sempre que o homem se deixa guiar pela razio.A globaliza- fo seria, portanto,a porta de acesso 3 estrada real que conduz 20 uso pleno das potencialidades humanas, ou, para usar um conceito moderno, sinalizaria 0 fin da histéia A economia capitalista buscou desde cedo a frente externa para expandir-se. A abertura para as transa- ges intemnacionais aleangou grande intensidade no meio século que antecedeu a Primeira Guerra Mun- dial e 0s investimentos, particalarmente em titulos, tém crescido mais do que o comércio internacional j& hd alguns decénios. O que é realmente novo €a mon- tagem de um sistema produtivo transnacionale global cujo dinamismo se traduz em novo desenho na alo- cagio geogrifica dos recursos e em forte concentra- «io social da rend © reforco das disponibilidades de recursos liquidos para investir produzido pelo fim da Guerra Fria ea maior concentragio da renda decorrente do impacto das novas técnicas, particularmente o avango na ele trénica € nos meios de comunicagao, consolidaram a posigio das empresas transnacionais. As estratégias adotadas por estas serio de influéncia crescente ma alocagio dos recursos em todos os paises, ¢ nio apenas, nas economias periféricas. ue © modelo de industrializagio substitutiva de impor- tagGes estava longe de haver esgotado suas possbilida- des como motor de crescimento, particularmente nos paises de mercado interno de dimensdes médias ¢ grandes. No caso do Brasil, que mantém grande dis ponibilidade de solos ariveis subutilizados ¢ acentaa- da heterogeneidade social, o caminho mais curto para © desenvolvimento continuaré a ser por muito tempo © dinamismo do mercado interno, Certo, este nfo € 0 caso da grande maioria dos paises do Terceiro Mundo, que dependem de integragio sub-regional e/ou de privilegiar alguma atividade que se beneficie de van- tagens comparativas estiticas para aumentar sua inser- ¢40 no comércio internacional. Exemplos do primei- 1 caso sio 0 Unaguai ¢ o Paraguai que, 20 entrarem para o Mercosul, removeram o maior constrangimen- 0 20 crescimento, que & a estreiteza do proprio mer cado interno, Exemplo do segundo caso é a ops30 por ‘uma zona de processamento, como se observa em pai- ses centro-americanos, © que permite utilizar mio de-obra semiqualifcada e barata, num processo de in sergio no grande mercado dos Estados Unidos ‘A experiéncia nos ensina que 0 modelo de desen- volvimento deve ser concebido a partir das peculia- ridades de cada pais, tendo em conta os constrangi- mentos do quadro internacional, Ora, 0 que estamos testemunhando é o desmantelamento do modelo que permitiu a insergio de paises da América Latina no processo de industralizacio e a adogio acritica de uma politica econdmica que privilegia as empresas eansnacionais, cuja racionalidade somente pode ser captada no quadro de urn sistema de forgas que trans- cende os interesses expecificos dos paises que © inte~ gram. Trata-se de prescindir de politicas nacionais de desenvolvimento, porquanto a estratégia das grandes empresas transnacionais se sobrepde a0 Ambito de vi- io dos atores nacionais. A primeira observagio a fazer diz respeito a0 tipo de racionalidade econdmica que tende a prevalecer. ‘© conglomerado transnacional gue planeja a alocagio de recursos parte de uma visio da disponibilidade des- tes,3 qual escapa a percep¢o dos valores que cimentam as nacionalidades. Em outras palavras:somente 0s siste~ mas sociais estio em condigio de ondenar @ hierar ‘quizagio dos valores substantivos. As atividades econé~ micas ondenadas pelos mercados traduzem valores dos individuos, microeconémicos, que sio necesariamente heterogéneos e nlo-adiciondveis, exceto mediante wma reduso quantitativa. O valor de um pedago de pio, para um faminto, nfo pode ser medide com a miesma escala com que se afére o valor da comida de quem raanca sentiu verdadeira forme. Esve exemplo extremo ros permite perkustrar a complexidade do problema. w A empresa transnacional que agencia recursos origi- nétios de diversos sistemas produtivs (mio-de-obra, tecnologia, matérias-primas, encargos financeiros, etc) pretende apoiar-se em critérios racionais. Mas, ‘como ignorar que com freqiiéncia se trata de integrar valores substantivos,tarefa que pressupde a existéncia de uma politica de desenvolvimento nacional? Tornar compativeis esses objetivos é tio mais dificil quanto iis hetevogénea for a sociedade. Ali onde prevalece a racionalidade formal das empresas transnacionais, sempre existe uma ammpla margem de atividades dis- fancionais, Com efeito, o avango das empresas trans nacionais nas economias que iniciaram sua industria lizagio a0 impulso da substituicio das importagdes assume a forma de degradagio de segmentos impor tantes do tecido produtivo, com ampla criagio de desemprego. Se observamos de perto 0 cas0 do Brasil, que no periodo histérico anterior & crise dos anos 70 foi 0 pais do Terceiro Mundo que construiu © mais com- plexo sistema industrial, comprovamos que nosso pais reduziu a eficiéncia dos investimentos financiados com poupanga propria, sumentou o ritmo de endivi- damento externo,viu crescer amplamente sua taxa de desemprego, tudo contribuindo para uma baixa sig- nificativa de seu crescimento, Em sintese: a transi¢io para a globalizagio fiz-se a um prego considerivel E natural, portanto, que se indague como justificar esse sactficio e a quem ele beneficia. ‘A dovtrina corrente nos apresenta a globalizagio como um imperative tenolégice, portanto, inescapavel para as economias que aspiram a desenvolver-se. Nio perceber essa realidade seria submeter-se de forma actitica aos preceitos ricardianos dos custos compara~ tivos. Ora, a luta contra o subdesenvolvimento 56 foi possivel quando se superou essa visio dogmética da divisio internacional do trabalho, O horizonte tecno- logico indica a diregio do crescimento ¢ abre um campo de opges. Cabe & politica econdmiea definir seu balizamento.A globalizacio avangou com grande impeto nos decénios que se seguiram a Segunda Guecra Mundial gragas 4 politica de abertura dos mercados protagonizads pelos pases sedes das grandes empresas transnacionais, que controlam institaigées foo como © antigo Garr ¢ a atual Organiza¢io Mundial do Comércio, Em outras palavras, 0 fator politico, |juntamente com a orientacio da tecnologia, deram 10 processo histérico um sentido crescentemente favo- rivel As empresas transnacionais. v io resta divide de que esas eransormagies extuti- tas dos sistemas econdmicos tém impacts desiguas ‘os paises que 2s vivem. Aqueles de dimensBes econd- micas médias ou pequenas, como o Chile e a Cost Rica, podem com fallidade tar vantagem do novo esilo de integragio internacional, beneiciando-se de vantagens comparativasclissicas no quadto de zona de prcesamenta £ fill perceber que 0 findamento da divisio geogrifica do tabilho que esi na Base dese intercimbio é, em altima instincia, a diversidade da dotagio de recusos natras e/ou a diversidade da 2e- moneragdo da mio-de-obra. Sendo assim, a preserva- (fo dese ntercimbio depende da persstencia nas de- Sigualdades do custo do trabalho. O inico intercimbio ent iguais seria aquele que se funda na diversidade de dotario de recursos natura ‘A medida que desaparecem as barreiras tarifiias, surge um tecido de atvidades econdmicas comands 2 des por empresas que fandam o seu poder no controle da inovagio e na protegio do Estado nacional. A com- binacdo de recursos politicos e inovagio tecnolégica facilita © acesso aos mercados financeiros. A empresa transnacional recruta recursos produtivos em escala global e esti em condigdes de combinar mio-de-obra de baixo prego com trabalho altamente especializado, € pode minimizar os custos financeiros e maximizar a remuneragio do capital. Tata-se de uma organizagio horizontal que opera mediante associagBes variadas de alcance planetirio. E essas organizacdes sio entidades de direito privado, sem responsabilidade pOblica que rio sejam aquelas aceitas voluntariamente © desafio que se apresenta atualmente & o de iden- tifcar a l6gica imanente ao agenciamento de recursos por esses complexos transnacionais. Trata-se de novas formas de estruturacio do poder capazes de sobrepo- rem-se aos sistemas tradicionais que sio constituidos por empresas privadas de atuagio local e © Estado na~ cional. Sua forga decorre prineipalmente da posicio de vanguarda tecnol6gica que ocupam ¢ da possibilidade que tém de mudar a localizagio de unidades produti~ vas em fingio dos custos relatives dos insumos ¢ de alteragdes nas taxas de cimbio de juros. Em sintese,a estratégia de uma empresa transnacional é algo de grande complexidade e pressupSe um forte entrosa~ mento com as estruturas de poder politico sobre as uais tem erescente influéncia. Explica-se assim 0 de~ bilitamento do poder sindical ¢ 0 declinio das politicas de pleno emprego. Surge uma crescente margem de exibilidade na administragio dos salérios, © que en~ sgendra uma tendéncia& concentragio de renda,que se universaliza. Em sintese, as modificagdes fondamentais que estio ocorrendo tém lugar na esfera politica de decisbes, esfera que escapa i anilise rigorosumen~ te econdmica. Iso explica o aparente atrso da anilise ‘econémica na captario das mudangas em curso. vI A visio prospectiva mais completa da area geogrifica latino-americana possivelmente é 2 apresentada pela ‘CEPAL na reuniio da UNCTAD/#NUD de fevereiro de 1999, As politicas econdmicas tendem a scr unifor mizadas para evitar formas bastardas de concorréncia €.a politica monetiria perderia relevincia mediante uum processo de dolarizapdo que jé se encontra avanga~ do na maioria dos paises da area, © projeto de monitoramento politico para modi~ ficar 0 modelo atual seria levado adiante pelas empre~ sas tcansnacionais, principalmente as norte-americ nas, gue representam metade do total e contam com meios politicos para atuar na regio. A agio dessas u empresas se desdobra atualmente de forma sinerénica visando trés objetivos estratégicos: 4) busca de eficiéneia, 0 que significa dar énfise & tecnologia intensiva de capital, com vistas a competit ‘nos mercados mais sofisticados; ) busca de matérias-primas visando abrit 20 exte~ rior o setor produtivo de minerais e combustiveis; 6) abertura dos mercados financeiros, das teleco municagdes, da eletricidade e da distibuigio de gis. ‘A ago das empresas transnacionais nesses setores Jevaria a uma efetiva integragio das economia latino- americanas, emergindo 0 délar como moeda comum € assumindo os Estados Unidos as fangSes de ban- gueiro central A anilise dos efeitos que exe tipo de integragio tem sobre os distintos paises latino-americanos esti pot ser féita. Ja vimos que nos paises de pequenos -maercados sio 05 recursos naturais no-renoviveis ¢ a dlisponibilidade de mio-de-obra barata que balizario © esforgo das entidades produtivas. (Os pafses que jé avangaram no processo de indus trializagio principalmente voltado para © mercado interno — 0 Brasil é o exemplo conspicuo — sero confrontados com um dilema: optar pela linka mais ficil de renunciar a wm projeto préprio, on lutar para abrir caminho no sentido de privilegiar 0 desenvolvi- ‘mento do mercado interno, Nesta segunda hipétese, © acesso A vanguarda tecnolégica seri mais custoso, mas o desenvolvimento seri mais autodirigido as, forgas que apdiam mudangas sociais, mais participa- tivas, Para os que adotam essa posigio contestadora a histéria esti longe de apresentar-se como concluida. vu O objetivo que comega a definir-se é o de caminhar para instituicio de uma Autoridade Financeira mun= dial, que poder’ ow nio ser tutelada pelas economias dominates Estas se preparam para assumir 0 controle das ativie dades monetarias dos chamados paises emergent. ‘A consciéncia de que as estraruras atuais expéem po- 05 ricos e pobres a crises de custo social cescente esti na origem de mitiplas iniciatvas para que’ se realize uum esforgo comum de reconstrugio institucional. Para avangar neste terreno se requerem espirito de coopera- Ho, visindo a conciliar interesses divergentes,e espirito de lutaa fim de que os que ocupam posi¢io de poder e tém mais amplo acesso is fontes estratégicas de informa- gio no obriguem os fracos a aceitar mais um desses Dikeats responsive por tantas tragédias historicas, ‘© Pando Monetirio Internacional continua enfeu~ dado a0 Tesouro dos Estados Unidos ¢ aos interesses financeiros internacionais para desempenhar adequa- damente ese papel. Recentemente deu-se um pas- so adiante com a institai¢io de uma forga-tarefa no ‘Comité Consultivo das Nagées Unidas para Assuntos Econémicos ¢ Sociais. Este 6rgio recomendou a insti- tuigdo de uma Autoridade Financeita Mundial com poderes pata definir padrées de regulagio fnanceiza, Parte-se da evidéncia de que o distirbio que vivemos deve-se 3 incapacidade do sistema financeiro aual de prever e prevenir as situagdes casticas Entre as medidas suugeridas inclui-se a eriagio de fandos de liguider re- ionais, fsndos que seriam administrados de forma preventiva e nfo para apagar incndios. Recomenda-se também a adoro de um cédigo internacional de con- uta‘ em matéria monetira, fiscal efinanceira Em uma época de transigo como a atual, © mais importante € preservar a margem de autonomia que nos permita utilizar © peso internacional do Brasil para mobilizare coligarforcas na defesa dos interesses de povos que lutam para preservar sua independéncia, A economia mundial é um sistema de poder enger drado historicamente, portanto, em. transformagio. Ese poder pode ser virtual: 0 caso do Brasil é tipico pela diferenga que existe entre 0 poder que permane~ ce virtual e aquele que se realiza plenamente. Em ne~ hum momento de nossa historia foi to grande a distincia entre o que somos ¢ 0 que esperivamos set Os CamiNnos pA REconsTRUGAO. (© PROBLEMA A politica econémica seguida tradicionalmente no Brasil engendrou uma sociedade com chocantes desi- gualdades, sujeita a crises intermitentes de balanca de pagamentos. Nao podemos ignorar esse fato se pre- tendemos compreender a inflagio erénica que carac« terizou a economia brasileira nas fases de crescimento e também nas de recessio, A estratégia de estabilizagio adotada pelo governo a partir de 1994 ignorou essa realidad. Ora, instabi- lidade vinha reduzindo a governabilidade do pais des- de 0s anos 70, quando mudon a conjuntura interna- cional sob impacto da alta do prego do petrSleo e, no fim do decénio, com a elevagio abrupta das taxas de juros né mercado internacional. Esse aumento nas ta- 22s de jos operou em detrimento dos paises do Ter