Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 33 Dilemas do Nacionalismo Paulo César Nascimento Introdução

É difícil encontrar um fenômeno político que tenha influenciado tão decisivamente a históri mundial dos últimos séculos como o nacionalismo. Propulsor do moderno sistema de Es tados-nações, o nacionalismo é associado à transição das ordens dinásticas para sociedades eadas na doutrina de soberania popular. Catalisador de guerras mundiais e inúmeros conflitos regionais, é visto por muitos como uma ideologia chauvinista, antidemoc rática e xenófoba. Mas, por outro lado, como a história recente da África e outras regiões atesta, o nacionalismo também está associado a lutas de libertação contra o domínio colon ial, servindo de inspiração ideológica ao desenvolvimento socioeconômico das nações recém-i pendentes. Freqüentemente avaliado como fenômeno atávico, o nacionalismo tem demonstra do enorme persistência histórica, reaparecendo ao longo do tempo em ondas imprevisívei s. Em 1848, Karl Marx previu no Manifesto Comunista o fim das nações, que se estaria m tornando anacrônicas devido ao crescente processo de internacionalização do capitali smo. Mas foi exatamente nesse período – conhecido como a “primavera das nações” – que o nac alismo conquistou corações e mentes no continente europeu, superando lealdades basea das em identidades de classe e regionais. Mais re-

centemente, em fins da década de 1980, a mesma previsão foi feita por políticos e cien tistas sociais, que viram no colapso da União Soviética e no advento de uma economia globalizada o fim do Estado-nação e dos particularismos nacionais. E novamente uma onda de movimentos nacionalistas e guerras étnicas alastrou-se pelos territórios da ex-URSS, Europa Central e África, reafirmando a centralidade do fenômeno nacionalist a no mundo contemporâneo. Não é surpreendente, então, que historiadores, sociólogos, antro pólogos e cientistas políticos tenham escrito tantas obras sobre nacionalismo nas últi mas décadas. Embora o fenômeno tenha recebido pouca atenção dos grandes pensadores da mo dernidade – como Marx, Nietzsche, Weber, Durkheim e Freud, desde os anos de 1950, a literatura a respeito tornou-se tão diversificada que desafia qualquer esforço de síntese. Além disso, não existe qualquer consenso acadêmico ou definição paradigmática do q seja nacionalismo. Os que têm se dedicado ao tema debatem se o nacionalismo é antigo ou moderno, onde se originou e qual o seu futuro. Divergem sobre o modo mais ad equado de classificá-lo, se sua essência é democrática ou autoritária, ou então se o nacion lismo é construção das elites ou manifestação de elementos primordiais das comunidades hum anas. BIB, São Paulo, n 33 56, 2 semestre de 2003, pp. 33-53

 

 

Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 34 Este artigo analisa os principais debates existentes na literatura acadêmica sobre nacionalismo. Discute os diferentes argumentos que se formaram em torno de cada polêmica, remetendo-os às obras e autores mais relevantes. A revisão dos debates foi dividida em três eixos principais: a confusão conceitual entre Estado e nação, a dicotom ia primordialismo versus modernidade, e a diferença entre nacionalismo étnico e cívico . Como conclusão, o artigo aborda as idéias de alguns autores sobre como encaminhar os estudos do nacionalismo. A Confusão Conceitual entre Estado e Nação Segundo Hannah Arendt (1972), cada conceito reflete uma experiência humana específic a. A democracia, por exemplo, é um conceito derivado da experiência política da antiga pólis ateniense, mas que se materializou em múltiplas variantes ao longo de seu des envolvimento histórico. Através do estudo dos conceitos é possível traçar a democracia até ua experiência de origem, apontar diferenças e semelhanças com sua evolução posterior, bem como clarificar confusões terminológicas advindas das diversas experiências. A mesma lógica pode ser empregada no caso do nacionalismo. A pluralidade de conceitos que o envolve, fruto, em larga medida, de experiências ocorridas em contextos históricos e políticos muito diferentes, tem gerado contradições terminológicas que estão refletidas nas obras dos estudiosos do tema. Já em 1939, o Royal Institute of International Affairs (p. xvi; citado em Connor, 1994, p. 91) assinalou que uma das maiores di ficuldades do estudo do nacionalismo estava na linguagem empregada para definir o conceito. Daí a necessidade de examinar como os principais autores

interpretaram e definiram as ligações entre Estado, nação e nacionalismo, e a que experiên cias históricas recorreram. Uma das definições mais aceita é a de Ernest Gellner, cuja o bra teve enorme impacto tanto na academia como entre líderes políticos.1 Gellner (19 83, p. 1) define nacionalismo como o “princípio político que advoga a congruência entre Estado e Nação”. A idéia que move o nacionalismo seria a criação de um Estado que exercesse autoridade sobre a nação, entendida como um grupo humano que compartilha da mesma cu ltura. Essa formulação é teoricamente clara e historicamente plausível, já que grande part e dos movimentos nacionalistas reivindicou um Estado para suas nações. Esse foi o ca so, por exemplo, de muitos países da Europa ocidental. Mesmo ali, contudo, certos autores lembram que a definição de Gellner deixa de fora outras manifestações de naciona lismo, como a dos flamengos, escoceses, catalães, bascos e outros, que não buscam ne cessariamente um Estado independente, mas várias formas de autonomia política em rel ação ao poder central. Além disso, manifestações nacionalistas continuam ocorrendo em Esta dos-nações há muito formados, por fatores tão diversos como guerras, desavenças econômicas imigração (Snyder, 2000, p. xvii).2 Exemplos disso são o surto nacionalista ocorrido na Argentina durante a guerra das Malvinas/Falklands e o neonacionalismo xenófobo e racista atualmente em ascensão em vários países da Europa. Além de não cobrir todas as m anifestações políticas que se abrigam sob o manto do nacionalismo, a definição de Gellner é ainda criticada por confundir os próprios conceitos de Estado e nação, tornando termos como patriotismo (lealdade ao Estado) e nacionalismo (lealdade à nação) virtualmente sinônimos. Contudo, alguns autores 34

tornou-se moeda corrente que um processo civilizatório exitoso – uma Bildung – só poderia ser alcançado se o 35 . “La Fidèle Nation de Picardie”. quando. durante a Idade Média. porém. com o intuito de des ignar elites estrangeiras vindas de um lugar comum. Mesmo a “nação” francesa à época da Revolução de 1789. A confusão entre os conceitos de Estado e nação não teria muita importância política se a cada Estado correspo ndesse realmente uma nação. sendo usados alterna- damente. chamada de Relações Internacionais. patriotismo e n acionalismo são indistinguíveis. A grande maioria dos países contém várias etnias e naçõ eais ou potenciais. “l’état c’est moi” t rnou-se “l’état c’est le peuple”. o termo popularizou-se. que professam lealdades variadas ao Estado sob cuja jurisdição s e encontram. cap. A partir da Revolução Francesa. o J apão ou a Islândia são muito raros. Mas Estados-nações homogêneos como a Alemanha. e “La Constante Nation de Germanie”. m também da Espanha e Itália. como dos próprios líderes de ex-colônias na África e Ásia. na acepção weberiana) sobre um dado território. Como observou Walker Connor (1994). passando a significar simplesmente os habitantes de um dado país. que formula e desenvolve a política exterior. na verdade. Um exemplo disso está na disciplina que estuda política mundial. como no caso da Alemanha hitlerista. A própria Declaração sobre os Direitos do Homem e do Cida clamou que “a fonte de toda soberania reside essencialmente na nação. que abarcava tanto alemães como ingleses. e da posterior integração econômica das várias regiões que a moderna id ntidade francesa pôde finalmente consolidar-se. mais exatamente nas mudanças ocorridas nos conceitos de Estado e nação que tiveram lugar na transição européia do Absolutismo à Era Moderna (Connor. catalães. 4). longe de possuir a homo dade que o conceito revolucionário de cidadão parecia indicar. já que é Estado. A doutrina de soberania popular colocou o povo como fonte de todo poder político.Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 35 detectam as origens dessa confusão terminológica bem atrás. na Universidade de Paris. os estudantes eram reconhecidos por suas “nações” de ori gem: “La vénérable Nation de France”. Tanto da parte de acadêmicos. trata-se de relações interestatais. A origem latina da palavra nação – natio – sugere a idéia de territorialidade e laços de sangue em comum. nação passou a ser quase sinônimo de povo. na história da Europa. 95). Por exemplo. em que os apel os nazistas se referenciavam indiferentemente ao Estado (Deutsches Reich).3 A partir d o século XVII. ou à pátria (Deutschland). a unidade política que exerce a utoridade (ou o monopólio da violência. era na verdade compos ta de flamengos. bretões e outros que nem falavam o idioma da Île de France – de onde se originou o francês moderno –. e não a nação. 1994. Nos casos em que essa coincidência ocorre. reservada aos holandeses. quando um exército popular foi formado s ob uma só bandeira. Ou se ja. nem se consideravam “franceses”.4 A idéia convencional e popular de q ue Estado e nação devem necessariamente convergir também tem informado estudos e polític as sobre desenvolvimento no chamado Terceiro Mundo. p. essa mesma noção de povo como nação passou a ser associada ao Estado. 1994. to rnando-o quase sinônimo de Estado. nenhum grupo ou indivíduo pode exercer autoridade que não emane expressamente dela” (citada em Connor. que incluía aqueles oriundos não somente da França. à nação (Vo lksdeutsch). oi nesse sentido que o termo foi empregado por muito tempo. normandos. independentemente de sua composição étnica e cultural. Foi somente a partir das guerras napoleônicas. Os termos Estado e nação tornaram-se sinônimos.

por meio de uma ideologia nacionalista. Mas a grande dificuldade com que a política de state-building sempr e se deparou em muitas ex-colônias foi justamente conseguir que seus cidadãos transf erissem suas lealdades tradicionais para o novo Estado em construção. uma cultura comum e uma lín gua única. Dif erentemente do caráter integrativo e emancipador do nacionalismo “clássico”. e o surgimento de mercados nacionais na Europa (Hobsbawm. 1983). O modelo europ eu idealizado de Estado-nação e o nacionalismo a ele associado ou chocavam-se de fre nte com lealdades tribais e étnicas. que não existiram desde tempos imemoriais. bem como as supostas motivações econômicas que informam os movimentos nacionalistas. ou adaptavam-se a estas. Hobsbawm e Ranger. Aqui encontramos novamente Ernest Gellner. p. Para modernistas e construtivistas. 1990).5 Apesar das muitas divergências existentes no sei o dessa escola a respeito de diferentes aspectos do nacionalismo. O neonacionalismo surgido dos escombros do socialismo real é criticado por Hobsbawm justamente por não desempenhar esse papel histórico. socioeconômico e po lítico. que ele identifica como sendo a Revolução Francesa. segundo Gellner (1964. porque “o nacionalismo não é o desper tar das nações à autoconsciência. Esses autores constituem a chamada escola “moderna” ou “construtivista”. os novos na cionalismos do leste europeu. Gellner insiste q ue o nacionalismo está ligado à passagem da sociedade agrária para a industrial. surgidas em conseqüência do colapso da ordem vigente (Ho bsbawm. ele inventa nações onde elas não existem”. gerando conflitos. 1990.Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 36 Estado. “di storcendo” o projeto original modernizador. enfatiza d e forma extrema o caráter manipulador do nacionalismo. que somente o nacionalismo poderia proporcionar. Os instrumentalistas – em gran de parte. cientistas políticos positivistas e partidários da metodologia da “escolha r acional” – alegam que elites empenhadas em defender seu poder político e seus interess es econômicos 36 . nação e identidade nacional. os “instrumentalistas”. amplamente h egemônica no meio acadêmico. mas também mui tos outros autores que influenciaram o desenvolvimento dos estudos sobre naciona lidade. mas que surgiram em um determinado contexto geográfico. a ascensão da burguesia e da s classes médias. Essa experiência acabou refletindo-se no clássico debate acadêmico sobre o primordialismo e a modernidade das nações e do nacion alismo. Primordialismo e Modernidade A grande maioria dos estudiosos concorda que nacionalismo e nações são fenômenos moderno s. Todo esse trabalho de engenharia social é necessário. promovesse o desenvolvimento de uma nação homogênea. como reivindicam os ideólogos do nacio nalismo. segundo o historiador britânico. O processo de formação nac ional é acelerado pela introdução de um sistema educacional de massas e um código cultur al popular disseminado pelos meios de comunicação. divisionistas e reacionárias. A ind ustrialização e a urbanização. a formação de uma burocracia nacional e a consolidação do po e novas elites po- líticas sobre territórios definidos exigiam uma ideologia. todos o associ am com o advento da Era Moderna. o surgiment o das nações e do nacionalismo pode ser remetido às idéias e aos processos socioeconômicos e políticos desencadeados pelo Iluminismo e a Revolução Industrial. 169). Uma outra linha da escola moderna. invenções hum s. Eric Hobsbawm iza justamente este ponto crucial da tese modernista: nações são construções. são meras manifestações.

Já Charles Tilly (1975) enf atiza a ligação entre as guerras européias e o surgimento do nacionalismo. por sua vez. p. entre as elites colonizadas. Ao proporcionar aos cidadãos o sentimento de pertencer a uma entidade percebida como eterna. movimentos nacionais de res istência à opressão européia. Contudo. S egundo eles. Esse processo de imaginação nasce. Embora admitindo os imperativos econômicos que inform am o surgimento das nações. França. Embora a maioria apo nte a Revolução Francesa como fator decisivo para a expansão da idéia nacionalista. Os moder nistas concordam que o início da Era das Nações e do nacionalismo pode ser datado em f ins do século XVIII. onde S lobodan Milosevic e a nomenklatura sérvia. apresenta uma interpretação mui to particular da modernidade das nações.Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 37 fomentam movimentos étnicos e nacionalistas. a mobilização nacionalista de comunidades é facilitada sempre que diferença s étnicas ou religiosas coincidem com desigualdades econômicas e sociais. o nacionalismo evoca nos indivíduo s um sentido de imortalidade que anteriormente era monopólio das religiões. a interpretação de Gellner. po is este aparece igualmente no rastro do declínio das religiões. As identidades nacionais se fortalecem no relacion amento. adotaram um discurso nacionalista xenófobo contra outras nacionalidades. cujos trabalhos têm influenciado d ecisivamente o curso dos estudos sobre nacionalismo. as principais potências européias da época – Grã-Bretanha. reduz o nacionalismo a uma doutrina inventada e manipulada por elites para mobilizar as massas. “Gellner está tão ansioso para mostrar que o nacionalismo se mascara sob falsas pretensões” – escreve Anderson (1991. pacífico ou belicoso. Escócia e País de Gales. c mo também apontam vários autores. Tom Nairn (1977) descreve processo semelhante no caso da I rlanda. ou com dis putas territoriais. A contínua co mpetição entre os Estados europeus levou a uma corrida armamentista em que os monarc as foram obriga37 . Para Anderson. dirigindo-os contra seus oponentes. 6) – “q ue ele acaba associando invenção com fabricação e falsificação. submetidos ao poder inglês. e nesse sentido só pode ser apreendida pela abstração da mente humana.6 Um caso freqüentemente analisado é o da antiga Iugoslávia. colocando-se como defensores do território e da herança cultural da Sérvia. a socióloga Liah Greenfeld (1 992) prefere escolher o momento que se seguiu à Guerra civil das Rosas na Inglater ra. a nação é uma comunidade “imaginada” porque se estende para além dos contatos fac a face reinantes nas pequenas localidades. a parti r do colapso da ordem dinástica e do desenvolvimento da tecnologia de impressão traz ida pelas relações capitalistas. obrigados pelo processo de democratização a competir no espaço público pelo apoio das massas. Ao incorporar as zonas periféricas da América e Europa Centr al. mas disputam o locus original do fenômeno. a partir do século XVI. e Benedict Anderson (1991) privilegia o movimento de independência na América La tina. ao invés de imaginação e cr Anderson. exac erbada pelos instrumentalistas. Immanuel Wallerstein (1974) situa o surgimento do nacionalismo no contexto de formação do sistema mundial mercantilista . Anderson enfatiza a dimensão psicológica do nacionalismo. John Breuilly (1982) e Elie Kedourie ([1960] 1994) identificam no romantismo alemão o primeiro momento de formação de uma identidade nacional. Espanha e Portugal – abaram por desencadear. entre vários países. Já Benedict Anderson. o nacionalismo não é um fenômeno puramente “interno” de um ou outro país. detectando nas elites criollas o primeiro sentimento de um nacionalismo mo derno.

isso decorre de injustiças históricas a que os movim entos nacionalistas se propõem a corrigir. se algumas dela ainda não conseguiram despertar. as nações são as unidades “naturais” da história da humanidade. ou outras vezes apresentam-se distintam ente. Apesar de sua hegemonia na comunidade intelectual. O primordialismo das nações sempre foi defendido pelos ideólogos e líderes dos movimentos nacionalistas. os movimentos nacionalistas nunca produziram teóricos. da hegemonia da cultura hispânica. na Europa.Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 38 dos a extrair recursos cada vez maiores de suas “sociedades civis”.7 E são justamente esses laços primordiais que Geertz vê como obstáculos à unida de nacional que as políticas de nation-building perseguem. do marxismo. Além da já citada perseverança histórica de etnias e nações na própria Eu a. mas que em todos os casos formam identidades básicas que unem comunidades prénacionais. Par a estes. Geertz (1963. racial. hindus e muçulmanos na Índia. desafiam o poder do Estado central. “errar em sua história é fator essencial da formação de qualquer nação”. o ressurgimento de identidades indígenas p arece indicar uma contestação lenta. exércitos populares e burocracias nacionais. pp. Como o historiador Ernest Renan ([18 82]1990. de caráter lingüístico. na América Latina. por sua vez. religioso ou tribal. Os exemplos dessas difi culdades abundam. que algumas vezes se confundem entre si. e diferentemente. q pesar de muito desdenhada como irracional ou “falsa consciência”. 8) de- clarou. 107-113) escreve sobre “sentimentos primordiais” para d escrever laços psicológicos e étnicos. Na Nigéria. muçulmanos do norte e c ristãos do sul. ap arentemente há muito esmagados pelo rolo compressor das políticas nacionais homogene izantes? Por que a cultura e a psicologia coletiva das comunidades nacionais são i nvariavelmente compostas de elementos pré-modernos. Ainda assi tradição primordialista conta com algum lastro acadêmico. por que são percebidas popularmente como eternas e primordiais? Como explica r o ressurgimento de movimentos políticos e culturais de cunho étnico e nacional. e. 12) chega mesmo a declarar que nenhum historiador sério das nações e do nacional ismo poderia tornar-se um político nacionalista militante. ibos e iorubas. mas constante. Contudo. que pode ser encontrado nos trabalhos do antropólogo Clifford Geertz. Tanto os estudos dos chamados “primordialistas” como as tensões criadas pelas políticas de nation-building co locam em xeque o modelo eurocêntrico de formação nacional e sua aplicação em outras regiões do planeta. Essa lista de exemplos poderia continuar indefinidamente. conflitos abertos ou velados entre malásios e chineses em Cingapura. tutsis e hutus se exterminaram aos milhares. Se as nações são uma invenção mod erna. gerando sistemas nacionais de tributação. a escola moderna/construtivi sta permanece fustigada pelo espectro do primordialismo. p. Embora nunca tenha empregado o termo “prim ordialismo”. em Ruanda e Burundi. cuja existência é muito anterior à c onstituição dos Estadosnações modernos? Essas questões remetem à tradição primordialista. geram mais guerras. Se. Hobsbawm (199 0. p. e estes. a formação das nações pôde ser baseada em uma etnia princi38 . em muitos Estados da África. tem mantido certo fôle go graças ao trabalho de resgate efetuado por alguns autores. Ásia e América do Sul o processo de integração nacional te m gerado inúmeros conflitos étnicos. continuam abalando a estabilida de política desses países. por exemplo. Sua conclusão é a d e que guerras criam Estados nacionais. já que o nacionalismo exi giria demasiada crença em fatos inexistentes.

especialis tas em estudos étnicos. p.Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 39 pal e em longas tradições de convivência econômica e política entre diferentes comunidades – já que bem antes do surgimento do nacionalismo os monarcas absolutos haviam conse guido a união política dos territórios onde impuseram seu controle –. Kohn ([1929] 1967) e Connor (1 994) rejeitam definições baseadas em elementos “objetivos” das nações. significando. 193) observou. (1964). 44) a respeito da unificação italiana: “Nós fizemos a Itália. Enquanto nação sempre envolve autodefinição. A língua certamente é uma das características mai izadas pelos românticos alemães como elemento crucial da nação alemã. Stálin ([1914] 1976. em um grupo étnico “os laços de solidariedade são aceitos inconscientemente por seus membros. agora entre n ação e etnia. território. tem de ser complementada por outra distinção. Para que a importância dos “sentimen tos primordiais” no debate sobre nacionalismo torne-se clara. agora temos que fazer italianos”. p. mas os forasteiros identificam facil mente a homogeneidade do grupo”. a é a palavra de origem grega correspondente a nação. já abordada acima.8 Nessa perspectiva. Hayes (1931). vi da econômica e psicologia manifestadas em uma cultura comum. em um obra que muito influenciou a perspectiva do movimento comunista sobre nacionali smo. Emerson. portanto. muitos estudiosos do nacionalismo como Baker (1927). acredita Geertz (19 63). Mas esses laços de semelhança e união são justamente os “sentimentos primordiais” de caráter étnico. em outros continen tes a transferência de lealdades primordiais para o Estado central tem se mostrado bem mais difícil. enfatizam igualmente que um grupo étnico é definido “a partir de fora”. O problema é que o estudo comparativo de casos e a pesquisa histórica indicam que não há “características essenciais” da nação. bem como os laços de semelhança e união que cada comunidade percebe como intrinsecamente “seus”. Como Ch arles Winick (1956. Similarmente. preferindo usar o te mo “autoconsciência” para descrevê-las. Mas os irlandeses pu deram perder sua língua original. É nesse sentido que o termo é usado por antropólogos e e tnólogos. 16). A grande maioria dos autores rejeita a idéia essencialista de nação. Por esse motivo. a essência da nação é intangível. Dificuldade essa sucintamente manifestada na famosa frase de Ma ssimo D’Azeglio (citado em Hobsbawm. Mas muitos autores diferenciam etnia de nação pelo grau de autoconsciência imp licado em cada um dos dois conceitos. a diferença entre Esta do e nação. formada com base em uma língua comum. sem que isso te- nha afetado seu sentido de identidade nacional. Tomotshu Shibutani e Kian Kwan (1965). apesar de a idéi a de nação incluir noções de descendência co39 . 1990. um grupo humano com descendência comum.9 Segundo ele. o gálico. é possível compreendermos a força dos elementos primordiais. a “essência” da nação seria a a epção de diferença que uma comunidade tem vis-à-vis outras comunidades. um gr upo étnico é mais identificado por outsiders do que por seus próprios membros. os judeus podem co rtar seus laços com muitos aspectos do judaísmo e ainda assim permanecerem conscient emente vinculados à nação judaica. Só distinguindo analiticamente esses dois conceitos. p. definiu nação como uma comunidade histórica e estável. Max Weber (1968) percebeu muito bem essa diferença entre comunidade étnica e n ação quando se referiu aos russos brancos da Bielorússia. Se o Estado é facilmente conceituado em termos quantitativos.

uma história em comum. As observações de Weber revelaram-se proféticas. como ocorre nas comunidades étnicas. algu ns desses elementos podem estar presentes em algumas comunidades étnicas e ausente s em outras. Sua preocupação está em mostrar que não há ruptura total. O colap o da União Soviética obrigou as elites da Bielorússia a declararem sua independência e f ormarem um Estado próprio. mas pesquisas têm indicado que a maioria da população do país nã se percebe como essencialmente diferente dos russos. já um Estado. acabem por incorporar. como o sistema de castas n a Índia. cap.11 Mas Anthony Smith inova ao traçar um painel c omparativo e empiricamente rico dos elementos étnicos. Nesse sentido. um dos mais eminentes especialistas em origens étn icas das nações. ainda que concordando com o grau diferente de conscientização entre etnias e nações. Segundo ele. Até aqui essa sugestão não representa nenhuma novidade. Esses elementos são fortes e persistentes justamente porque tocam em sentimentos. dedicou vários estudos ao tema. e há forte respaldo popular para uma reunificação com a Rússia (Urban e Zaprudnik. Smith (1986. os elementos étnicos existentes em sua cultura . 2) detecta seis princi pais elementos presentes em comunidades étnicas: um nome coletivo. notou Weber (1968. Não que Smith seja exatamente um “primordialista” à maneira dos ideólogos nacionalistas. Por isso é comum que as elites de Est ados recémformados. ao invés de suprimir. Ao contrário. 395). mas não poderiam qualificar-se como uma nação separada. já que enfatiza que os elementos étnicos são símbolos. leis e códigos de conduta que em vários países do mundo refletem as o rigens étnicas de suas culturas modernas. o que remete a definição de comunidade étnica aos mesmos problemas encont rados na definição de nação. O sociólogo inglês Anthony Smith. 1993). a Bielorúss ia. Alguns autores. um mito comum d e descendência. ou ainda as institui valores morais. mitos e experiências ubjetivas comuns desenvolvidos pelos grupos étnicos. pois até hoje os russos brancos ainda não se constituíram em uma nação. e mostrando ainda s ua influência na cultura das nações modernas. sempre man ifestaram um sentimento de solidariedade étnica vis-à-vis seus vizinhos da Rússia. a organização da produção econômica e d omércio em bases étnicas existente em várias regiões da África e Ásia. identidades e laço s de solidariedade profundamente arraigados. Os russos brancos. os rituais dos judeus Beta Israel etíopes. é uma nação ainda em potencial. na passagem de uma sociedade “tradicional” ou “agrária” para uma nação industrial moderna. se l embrarmos que Durkheim e. em seu esforço para construir uma nacionalidade homogênea. como certos modernistas apregoam. o sentimento de solidariedade étnica por s i mesmo não forma uma nação. uma cultura distinta. colocando de volta ao debate acadêmico a questão do primordialismo10. os estudiosos da modernização já haviam indicad o a permanência de elementos da estrutura social e cultural tradicionais nas forma s mais modernas de organização social.Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 40 mum. Mas Smith tampouco está buscando uma “essência objetiva” das c dades étnicas. 40 . p. ele também concorda que as nações são um fenôme moderno. uma associação com um terri tório específico e um sentido de solidariedade entre seus membros. Seus estudos facilitam a comp reensão das particularidades culturais das nações modernas. insistem que elementos pr imordiais étnicos continuam presentes na cultura das nações modernas. depois dele. relacionando sua formação a exp eriências humanas sociais e identitárias cristalizadas por gerações.

Ele admit e ainda que esses elementos são percebidos pelos membros dos grupos étnicos como pri mordiais. Essa identidade coletiva promovida pelo discurso nacionalista liga cada ind ivíduo diretamente à nação. pode prescindir de alguns dos ele mentos étnicos apontados por Smith. como alegam Rogers Brubaker (1996) e Craig Calhoun ( 1997). ações e tradições associadas aos seus elementos étnicos. pp. Nacionalismo Cívico e Nacionalismo Étnico Não há autor que deixe de enfatizar a dimensão política do nacionalismo. mostram que as identidades étnicas estão sujeitas às mudanças impostas pela modernidade. analisada por Walker Connor (1994). pp. 18-19) escreveu. para além da filiação deste a esta ou aquela identidade parenta tribal. está em que ela abarca a nação como um todo. o “primordial” seria igualmente moderno. os elem entos étnicos sofrem transformações e são reelaborados de forma consciente ou inconscien te ao longo do tempo. ou colocar maior ou menor ênfase em outros tantos. 41 . por sua vez. recebe outras críticas de autores interessados em superar o que vêem como um impasse no debate sobre nacionalismo. mpondo as prioridades da mesma sobre todas as outras formas segmentárias de identi ficação.12 Os trabalhos de Paul Brass (1991). percepções à parte. símbolo nacional da Escócia. étnica. Seja como discu rso que informa a idéia de nação. mas que o histo riador inglês Hugh Trevor-Roper demonstra que foi um mero caso de reconstrução e invenção no contexto da resistência dos escoceses à dominação inglesa. E há os casos de “invenção” de tradições. indica a dir eção política do nacionalismo. já abalada pelos estudos de Anthony Smith. classe ou relações de parentesco. por exemplo. vis-à-vis outras identidades baseadas em gênero. e que só se tornou popular n o século XVIII. o nacionalismo sempre envolve a instituição de um sistema polít ico. o nacionalismo é um discurso que integra uma comunidade a partir do significado comum que seus membr os atribuem a eventos.13 Nesse sentido. entre as dimensões cívicas e étnicas do nacionalismo. que nações não são criações exnihilo. a nação enquanto tal formou-se como um corpo de cidadãos cuja soberania coletiva levou à constituição de um Estado que. levando-as a enquadrar s uas aspirações em termos da idéia de nação e de identidade nacional. A ideologia nacional. Para Calho un. O nacionalismo como discurso é a produção de um entendimento c ultural e uma retórica que molda a consciência das pessoas. A própria equação Estado-nação-povo. a especificidade da identidade nacional. e que. religiosa ou de classe. portanto.Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 41 A dicotomia primordialismo versus modernidade. em todos os casos. é a expressão política de seus cidadãos. O sociólogo Craig Calhoun (1997) admite. provocando outro debate recorrente na lite ratura acadêmica. ou como movimento concreto que aspira a alguma forma de autonomia para um a comunidade nacional. Como Hobsbawm (1990. Calhoun (199 7. co m Smith. conserv ando alguns de seus aspectos e mudando outros. co o famoso exemplo da saia dos escoceses. Mas aponta para o fato de que. eternos ou fixos. sua compreensão passa neces iamente pela identificação dos elementos étnicos pré-modernos que as informam. E é essa ligação direta entre indivíduo e nação que vela a dimensão política do nacionalismo. porém. 41-50) associa o nacionalismo ao conceito de “formação discursiva” elaborado por Michel Foucault (1977). dependendo do contexto específico em que surge.

é o nacionalismo e a constituição de nações que colocaram países como a Inglater a França e os Estados Unidos no caminho da modernidade. Segundo Greenfeld. relig língua. o nacional ismo cívico mudou os critérios de dignidade humana e. independentemente de raça. e de erosão das hierarquias e dos status sociais tradicionais após a Guerra das Rosas. mas a aspiração à autodeterminação dos primeiros. p. As revoluçõ ancesa e americana igualmente associaram nação e povo à democracia. “Esta transformação semântica”. 42 . ao reiterarem.16 Como na Inglaterra. que representava a nova aristocracia. tornou a atividade econômica respeitável. Segundo Greenfeld. como notou John Stuart Mill (1873). inaugurando a era do nacionalismo”. cap. A socióloga Liah Greenfeld (1992) enfatiza especialmente o caso inglês como tipo ideal da associação original do nacionalismo com democracia. O que distinguia os colonos da revolução americana de 1776 do rei George e seus súditos não era a língua ou etnia. mas a adesão aos princípios políticos da soberania popular e d o governo representativo (Hobsbawm. a partir do século XVI. cad a uma a seu modo. O governo representativo que resultou da vitória da idéia de soberania popular significou. Eric Hobsbawm (1990) concorda que a novidade orig inária da nação estava justamente em seu caráter inclusivo. etnia e até local de origem. Po r exemplo. mas. ao contrário. o que ela chamou de nacionalismo de tipo cívico.14 Liah Greenfeld inverte a equação dos modernistas ao defen der que não foi a lógica da indústria que gerou as nações. Novas elites. na Rússia. contra a nobreza associada à coroa inglesa. junto com a reforma protestant e. lembra Hobsbawm. 1). comandaram o processo de asserção da soberania popular. não ve dificuldades em eleger o anglo-americano Thomas Paine para sua Convenção Nacional . os primeiros nacionalistas eram aristocratas cujo status soc ial dependia inteiramente da qualidade dos serviços prestados ao czarismo absoluti sta. o que torna um indivíduo cidadão não é a língua que ele fala ne ar de onde é proveniente.Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 42 Essa é a experiência das revoluções americana e francesa. insatisfeitas c om a impossibilidade de ascensão na hierarquia da sociedade das ordens. 6). em outros lugares o na cionalismo foi sempre adotado por elites insatisfeitas com seu status social. 1990. Nessa concepção de nação. O fantástico desenvolvimento e expansão mun dial dos países que inicialmente experimentaram o nacionalismo tiveram como conseqüênc ia a exportação da idéia de nação para outras regiões com condições socioeconômicas e polít o diferentes da Inglaterra ou França. E a república francesa. enfati Greenfeld (1992. e também da formação nacional da laterra. a idéia de soberania popular e as instituições democráticas que refletem essa soberania surgiram gradualmente na Inglat erra. quando o termo nação deixou de denominar uma elite e pas sou a ser aplicado a toda a população da Inglaterra. a independência e soberania de seus cidadãos e o princípio do govern o “pelo povo e para o povo”. que elevou o povo à categoria de elite. os burgueses e commoners. manifesto na longa luta política do parl amento. a a spiração da população por um governo constituído por ela própria ou parte dela.15 Esse nacionalismo de ca ráter cívico é baseado na concepção política de cidadania. Apesar de algumas ressalvas a respeito da presença de element os étnicos nas nações revolucionárias. Esse novo significado da pala vra nação. Por isso ela insiste que o nacionalismo cívico é in clusivo e democrático. teve lugar em um contexto de mudanças radicais na estrutura das sociedades dinásticas. “sinalizou a emergência da primeira nação tal como entendemos es sa palavra hoje.

lingüísticas e étnicas formaram a consciência nacion l dos países daquela região. uma atitude psicológica em que se atribui caráter negativo aos valores da nação que é objeto de comparação e imitação. ao mesmo tempo em que valores autóc recebem avaliação positiva. materialismo e consumismo. se aplicados à q uestão racial no Brasil.17 Para os românticos nacionalistas alemães e a escola panes lavista nacionalista russa do século XIX. Na Rús a fé ortodoxa e a espiritualidade do muzhik russo foram escolhidas como os element os decisivos da consciência nacional. A idéia de nação desenvolveu-se em muitos países sem a dimensão cívica originada na França e Ingla erra. 1985. os primeiros a abraçarem a causa nacional. após morar no Brasil como embaixador da França em meados do século XIX. alienado e anti-social. A vontade foi avaliada como superior ao racionalismo. Essa visão é compartilhada por muitos autores importantes. vendo o camponês como a encarnação do Volk (povo). André Van De Putte (1996. Por iss o. Por outro lado. 153-174). o nacionalismo foi sempre a opção escolhida por eli tes sem estabilidade social definida (Greenfeld e Chirot. Greenfeld ressalta que todo nacionalismo étnico é por natureza excludente e colet ivista. Raça e língua germânicas tornaram-se os atributos principais da nação alemã. 3-40). Razão e racionalidade foram reduzidas a “cálculo” e “contabilidad e” (Greenfeld. mas sim atributos específicos. enraíza-se em componentes étn icos primordiais. Ele não expressa a transcendência das raízes particulares através da c idadania. cuja educação era insufici ente para garantir-lhes proeminência na sociedade. pp. 161-195) faz a m esma análise para os nacionalismos da Europa Central. Nesses e outros casos. como Kohn ([1929 ] 1967) e Hayes (1931). mais importante que o ind ivíduo. Mesmo e m fins do século XIX e início do XX. A dicotomia nacionalismo cívico versus nacionalismo étnico t em sido muito criticada por seu eurocentrismo e conservadorismo. onde a noção ocidental de autodeterminação dos povos encontrou um mundo de Kulturnatione n. pp. Um dos grandes dilemas que historicamente os intelectuais brasileiros tiveram de enfrentar foi a visão negativa sobre os negros predominant e nas elites do país. 1996. A construção da identidade nacional brasileira pode ser analisad a através dos conceitos de ressentimento e transvalorização de valores. a organização social e os valores do “Ocidente” – que a França e a Inglaterra por muito tempo representaram – tornaram-se a incorporação d o mal. que. pp. Por exemplo. os românticos alemães idealizavam a s atividades agrícolas. onde os apelos às raízes culturais. já que mulatos não conseguiriam reproduzir-se para além de algumas gerações. sugeriu que a população brasileira iria desaparecer em poucos séc ulos. e sua origem ressentida o faz desenvolver tendências à xenofobia e ao autori tarismo. O indivíduo ocidental era percebido como egoísta. únicos e particulares das culturas. e daí a 43 . As sociedades industriais desenvolvidas foram criticadas por seu individu alismo. Estas abraçavam teorias racistas européias. muitos intelectuais pregavam que o Brasil nunca poderia tornar-se “moderno” mantendo uma população predominantemente miscigenada. a comparação entre o atraso da Alemanha e Rússia e o desenvolviment o da França e Inglaterra gerou ressentimentos e levou ao que Greenfeld chama de “tra nsvalorização de valores”. especialmente o “racis mo científico” do conde Gobineau. O nacionalismo. nesses casos. Mas a interpret ação de Liah Greenfeld pode ser útil para iluminar a formação de identidades nacionais em países como o Brasil. e o coletivo.Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 43 Na Alemanha foram os intelectuais românticos de classe média.

a nação cívica par excellence. que se esenvolveu posteriormente na consagração da miscigenação por Darcy Ribeiro. segundo Anderson. ao passo que um imigrante turco que tenha passado toda a sua vida na Alemanha raramente conse guirá obter cidadania alemã. Ainda que lutando pela preservação da cultura francesa de Quebec e mesmo pela independência da província. adotando a língua de uma de suas etnias e faze ndo dela um aspecto central de sua identidade nacional. E. Irish-American. podendo assumir um caráter étnico ou cívico. Alguns cidadãos de países democráticos podem reje itar os princípios da democracia. como forma de “embranquecer” país. O nacion alismo francês. Além disso. já que 44 .Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 44 necessidade de políticas de imigração que atraíssem europeus. Claro está que em várias regiões do mundo o nacionalismo étnico está associado a aut oritarismo e guerras. ou uma mistura dos dois. apesar da evidente discriminação racial existente no país (Sousa e Nascimen to. como os grupos neonazistas. Nesse contexto e ressentimento em relação às nações brancas da Europa. em que os cidadãos dissolveriam suas origens étnicas e ra ciais na “panela” nacional comum. É importante. Os alemães nascidos na comunidade germânica do Volga. A Alemanha seguiu o cami nho inverso. tornando-se uma democracia após a Segunda Guerra Mundial. 1995. assinalar que as identidades nacionais mudam ao longo do tempo. irreal. Bene dict Anderson (1992) assinala uma crescente “etnização” de sua população. por exemplo. 42-52 ). transformando a m iscigenação em fator positivo e motivo de orgulho nacional. tornando-os African-American. desenvol veu posteriormente uma dimensão étnica. os movimentos nacionalistas de Quebec defendem um conceito inclusivo de cidadani a e querem preservar as instituições democráticas do Canadá (Nielsen. recebem cidadania imediata ao imigrarem para a Alemanha. 166182). tal princípio cívico acabaria por contradizer a própria idéi a da soberania política de cada cidadão. cujos aspectos étnicos não o tornam xenofóbico ou autoritário. pp. por exemplo. A miscigenação o “mito da democracia racial” tornaram-se parte integrante da identidade nacional b rasileira. Nesse sentido. mas mantend o uma concepção étnica de cidadania. Nativ e-American e assim por diante. na Rússia. Gilberto Freyre foi um d os intelectuais mais importantes na realização dessa “transvalorização de valores”. como le mbra Kai Nielsen (1996/97). Oliveira Vianna (1934). A idéia de uma identidade nacional e um a cidadania completamente despidas de componentes étnicos e baseadas exclusivament e em lealdades aos princípios cívicos e democráticos é. a avaliação negativa do nacionalismo étnico d as regiões periféricas feita por Liah Greenfeld revela um viés eurocêntrico e conservado r que não passou desapercebido por alguns cientistas sociais (Yack. se em sua origem foi predominantemente cívico. A idéia tradicion da América como melting pot. Mesmo nos Estados Unidos. ligava o desenvolvimento social do Bra sil à gradual eliminação dos traços físicos e culturais de índios e negros. 1996/97. assim. 2003). Mas existem nacionalismos como o da província canadense de Q uebec. O caso do Brasil parece indicar que uma identidade nacional enraizada em uma elaboração particular de seus elementos autóctones não tem de ser necessariament e retrógrada e antimoderna. igualmente. e ainda assim manter sua cidadania. a ênfase cada vez mais se desl oca de Irish-American para Irish-American. pp. está sendo substituída por um multiculturalismo que en fatiza a “hifenização” dos indivíduos. intelectuais brasileiros desenvolv eram uma resposta criativa à suposta inferioridade racial do país.

ou entre étnico e cívico. o estudo do nacionalismo só poderá progredir se se produzirem teorias menos abrangentes. Para ele. Divisões rígidas entre pri mordialismo e construtivismo.Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 45 esta não pode estar baseada nas possíveis orientações políticas dos cidadãos. um filósofo importante como Jürgen Habermas (1996) insiste n a validade da concepção cívica de identidade nacional. um nacionalismo “cívico” que fosse puramente político e que pudesse refletir uma adesão a princípios democráticos. Para Habermas. ele terá de aprender pelo menos um dos dois idiomas do país e aprend er algo da história e cultura canadenses (Nielsen. além de permitir que os negócios da União Européia sejam domin ados pela burocracia e pelo big business. não irá ganha r cidadania pela simples adesão aos princípios democráticos de seu novo país. 1-28). Para Craig Calhoun. entendem a nação como uma enti dade cultural. independentemente da cultura em que esteja inserido. p. Segundo ele. de encontrar melhor classificação dos tip os de nacionalismo. Um finlandês que queira imigrar para o Canadá. segundo a qual os cidadãos devem trocar serviços e b enefícios por votos e impostos. As limitações dos modelos étnico e cívico leva ram cientistas sociais como John Hall a pregar o abandono de qualquer teoria ger al sobre nacionalismo. a sugestão de Habermas é clara: o desenvolvimento democrático da União Européia exig e uma cidadania mais comunitária e participante. que não se reduzam a casos históricos específico s. pp. Nielsen adver e ainda para a existência de elementos étnicos até mesmo nas leis de imigração de países cí os como o Canadá. nesse se ntido. Ainda assim. e capaz de dar sentido às at ividades individuais e coletivas dos membros da sociedade. 1996/97. Para eles. Segundo esses autores. mas que conduzam a tipologias mais adequadas à fenomenologia nacionalista. O denominador comum entre o protecionismo econômico japonês. o nacionalismo em suas múltiplas variantes só pode ser apreendido como formação discursiva. a “limp eza étnica” promovida pelos sérvios e a execução do hino norte-americano em jogos de beise bol. 48). e tenta até desenvolvê-la à luz da r alidade da União Européia. 130-137). e que sociedades baseadas puramente em um dos dois critérios simplesmente não existem. diz 45 . pp. o nacionalismo cívico é também cultural. mas em práticas intersubjetivas compartilha das pelos cidadãos. lembra ela. uma nação só pode ser qualificada como tal se possui uma cul tura pública e societária. compartilhada por seus cidadãos. Os especialistas que rejeitam a oposição entre nacionalismo cívico e étnico. 491-515) propõe uma cidadania participativa na qual a autonomia política é um fim em si mesma. basear-se em um fator ou causa única que p ossa explicar o fenômeno nacionalista leva ao reducionismo. Para torna r-se canadense. Não existiria. não são analiticamente frutíferas. que não vai realizar-se por indivíduos privad os perseguindo seus próprios interesses. Habermas (1996. a União Européia ainda está baseada em uma conce pção lockeana de nacionalismo cívico. que supere o modelo lockeano. para John Hall (1993. Trat a-se então. Poi s são as limitações desse tipo de nacionalismo cívico que criam o solo fértil para o flore scimento do nacionalismo xenófobo de um Le Pen e para a popularidade do sentimento antiimigrante na Europa. pp. como Kai N ielsen (1996/97) e Will Kymlicka (1995. Aqui. e tem de ser estudado como tal. Esses fatos pa recem demonstrar que a dicotomia entre nacionalismo étnico e cívico é reducionista.

90-106). ci tado em Greenfeld (1992. pp. mas que não pode oferecer uma explicação causal para nenhum deles. então . 133-149). que reconheceu ter mudado s ua opinião sobre a questão nacional após ler Gellner. Seton-Watson (1977). Mesmo as manifestações mais “modernas” e e nacionalismo remetem-se a elementos étnicos “primordiais” e mitos de origem nacional . Como. 8. A divisão entre nacionalismo cívico e étnico. Notas 1. aparecem nas manifestações nacionalistas de forma combinada. Connor (1994). Breuilly (1982). seja nas versões de Liah Greenfeld ou de Jürgen Habermas. mas sempre reivindicam um passado. Um exemplo disso é Alexander Iakovlev. Ver a esse respeito Staniszkis ( 1991. Hayes (1931). tomando formas tão variadas? A teoria do nacionalismo “clássico” de senvolvida por Gellner (1983). extraindo daí a força de seu apelo. 5. Os movimentos nacionalistas são ao mesmo tempo t eleológicos e tradicionais. e mesmo após as guerras napoleônicas. não encontra subsídios empíricos sólidos. é uma formação discursiva que informa e conecta todos esses eventos. etnia e cidadania. E é esse o dilema que se impõe aos estudos acadêmicos: encontrar uma interpretação coerente. ge ográficas e culturais. política e cultura. Ver a esse respeito Connor (1994. com metodologia abrangente. Uma boa resenha da escola instrumentalista en contra-se em François Nielsen (1985. 351-366). membro do politburo durante a Era Gorbac hev e um dos principais formuladores da Perestroika. Hobsbawm (1990). pp. Giddens (1987). em grau s e associações tão diversos que desafiam sua captura por uma teoria singular. ver também Ignatieff (1993). a vasta maioria da população não tinha consciência de pert encer a uma nação francesa.Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 46 Calhoun (1997. Segundo Eugene Weber (1976). Ver a esse respeito Shils (1957. Perseguem um destino comum. Gellne r (1983). As origens do t ermo nação foram traçadas pelo sociólogo italiano Guido Zernatto (1944. 4). 4. empi ricamente sólida. A esse respeito. além de outros. Kohn ([1929] 1967). Geertz. industrialização e formação dos Estados-nações eu s. revela-se insuficiente para explicar tanto as dificuldades de construção de nações em outras regiões do planeta como o ressurgimento de movimentos nacionalistas na própr ia Europa contemporânea. pp. Primordialismo e modernidade. Uma lista mínima da escola moderna teria de incluir os seguintes nomes e obras: Anderson (1991). reconhe ce seu débito intelectual para com Edward Shils. 23-24). 46 . pp. que associa nação a modernidade. 294). quando se criou um exército popular sob uma bandeira e um idioma. 2. capaz de unir sob um mesmo conceito as variadas manifestações de nacionalismo. até a modernização da França rural. pass ado e presente. 6. p. Til ly (1975). 3. 7. 130-145). por sua vez. p. pp. Hobsbawm (1990) e Hobsbawm e Ranger (1983). definir um fenômeno que se manifesta nas mais diversas circunstâncias históricas.

As regiões da Europa Central. 2001). 18).). 2000 From migrants to citizens : membership in a changing world. The ethnic origins of nations ( 1986). da língua russa par a o idioma bielorusso. que. 17. a Alemanha e a Itália não se unificaram até a segunda metade do século XIX. As principais o bras de Smith são: Theories of nationalism (1983). após sua independência. Ver a esse respeito Durkheim (1964. Os processos de formação nacional na I nglaterra. 1 e 2. Anderson. mas concorda com outros autores em que o nacionalismo fra ncês era originariamente de caráter cívico. 277-278). 1 6. mesmo na Europa. 15. 11 . Uso o nome antigo porque ainda é mais c onhecido.Bib 56 4/10/04 6:36 PM Page 47 9. predominantemente rurais. Benedict. 1991 Imagined communities: reflections on the orig in and spread of Nationalism. Nationalism in the Twentieth Century (1979). Carnegie Endowment for Internation al Peace. suas elites aristocráticas se adequavam mel hor às ordens dinásticas. 13. 12. University of California at Berkeley. 1992 “Lon g-distance Nationalism: world Capitalism and the rise of identity politics. Center for German and European Studies. Essa tese é retomada por Liah Greenfeld em sua obra mais recente. não adquiriram independência nacional nem se cons tituíram como países até a Primeira Guerra Mundial. os territórios dos países qu adquiriram independência após a Segunda Guerra Mundial cortavam comunidades tribais e étnicas. ou seja. Verso Editions and New Left Books. O nome do país foi mudado de Bielorússia para Belarus. Os habitantes da Bielorússia chamam-se “russos brancos”. Em Calhoun (1997). Greenfeld coloca restrições ao conceito de “vo ntade geral” de Jean Jacques Rousseau. carrega uma noção coletivista e antiindividualista. Bibliografia Alenikoff. em contraposição aos ru ssos (ou grã-russos) que habitam a República Federativa da Rússia. especialmente pp.” Paper . Alexander & Klusmeyer. 47 . França e Estados Unidos são analisados e interpretados detalhadamente em Liah Greenfeld (1992). Na África. Os conceitos de ressenti mento e transvalorização de valores foram definidos por Max Scheler ([1912] 1961) e retomados por Liah Greenfeld (1985). segundo ela. C itado em Hobsbawm e Ranger (1983. ver especialmente caps. Por exemplo. p. e não existia mercado e economia nacionais. London. The spirit of Capitalism (Greenfeld e Chirot. No caso da França. Washington. Eisenstadt (19 73) e Nisbet (1965). sem sequer passar pela f ase pré-nacional das monarquias absolutas da Europa ocidental. 14. National identity (1991). 10. A Rússia desenvolveu-se como império. Douglas (eds. Tradicionalmente.

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