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NATIONAL GEOGRAPHIC

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GRANDES MISTÉRIOS DA HUMANIDADE

Como foram feitas as pirâmides? Onde foi parar o Santo Graal? A Terra já foi visitada por Ets?

2014

100

GRANDES MISTÉRIOS DA HUMANIDADE

INTRODUÇÃO

Um mundo cheio de mistérios

Vasculhe a história, perscrute a ciência e você perceberá como é pouco o que sabemos sobre o mundo. Deparamos com mistérios por toda parte. Quem ergueu as pedras verticais de Carnac ou a cidade mexicana de Teotihuacán ? Por que dormimos, sonhamos e envelhecemos? Como o Universo começou e como acabará? Onde teve início a vida? Ela existe em outros planetas? Para onde foram os desaparecidos: os homens da Expedição Franklin, a arrojada Amélia Earhart, o astucioso D. B. Cooper? Alguém pode simplesmente sumir? Até as menores coisas são enigmas. Por que os peritos em decodificação não conseguem decifrar um manuscrito medieval? O que explica o soluço? Esta é uma edição especial sobre 100 pessoas, lugares, acontecimentos e questões que há séculos nos desafiam e nos fascinam. Em alguns casos, investigações minuciosas encontraram a resposta para dúvidas imemoriais ou pelo menos oferecem uma gama de explicações plausíveis. Outros mistérios, entre eles alguns dos maiores, ainda não se deixaram desvendar. Gostaríamos que não fosse assim? Certamente a maioria de nós adoraria ver a solução para o câncer ou os males do envelhecimento, mas lá no fundo poucos desejariam viver em mundo ensolarado onde tudo está explicado. Há magia no desconhecido, e certa liberdade para deixarmos a imaginação correr solta pelos cantos mais escuros na Terra.

CIVILIZAÇÕES

Algumas culturas deixaram mistérios que desafiam quem veio depois:

pedras a prumo, manuscritos em código e mais estas que resistem ao teste do tempo.

01. QUAL O SIGNIFICADO DAS PEDRAS DE CARNAC?

Mais de 3 mil pedras a prumo, acorcundadas por vento e chuvas, formam longas avenidas nos arredores do vilarejo francês de Carnac. Elas se estendem por 3 quilômetros, feitas de blocos de pedras conhecidos como menires ou de blocos com mais de uma pedra, chamados dolmens. Os arqueólogos não descobriram seu propósito nem suas origens. Esses megálitos foram considerados sagrados por sucessivas ondas da cultura bretã. Romanos antigos esculpiram seus deuses nas superfícies graníticas, cristãos mais tarde acrescentaram seus símbolos. Diz uma lenda que os menires são os restos mortais petrificados de um exército de pagãos que perseguiu São Cornélio até o mar, e por fim o santo, acuado, transformou seus algozes em pedra. Na verdade, elas são muito mais antigas que o cristianismo, e a maioria remonta ao período Neolítico pré-ceita da Bretanha, aproximadamente de 4500 a 2000 a.C. Teriam sido erguidas em tributo a deuses antigos? Seriam homenagens a ancestrais? Serviriam para representar o alinhamento do Sol ou das estrelas? Até agora o exército cinzento guardou seu segredo.

Associações Megálitos parecem ter possuído um significado sagrado em culturas antigas do mundo todo. Existem , por exemplo, na Indonésia, na península Coreana e na Turquia, Espanha, Portugal e Ilhas Britânicas.

02. COMO OS ANTIGOS EGÍPCIOS CONSTRUÍRAM A

GRANDE PIRÃMIDE?

A grande pirâmide de Gizé, erguida para ser a tumba do faraó Quéops por volta de 2560 a.C., é a última das Sete Maravilhas do Mundo Antigo ainda em pé. Arquitetos egípcios muito provavelmente empregaram dezenas de milhares de trabalhadores para transportar os 2,3 milhões de blocos de calcário da pirâmide, cada um pesando em média 2,3 toneladas. Com eles içaram e instalaram os pesadíssimos blocos em uma construção cada vez mais alta? As teorias sobre os métodos usados vão de guindastes (não havia madeira

suficiente no Egito para fabricá-los) a extraterrestres. A maioria das hipóteses envolve uma rampa. Se fosse reta, a rampa precisaria ter no mínimo 1,6 quilômetro de comprimento para chegar ao topo da pirâmide sem ser íngreme demais, e não há indícios dessa estrutura. Uma rampa espiralada em volta da fachada não permitiria aos engenheiros medir as arestas, tarefa necessária para que elas se encontrassem no topo. Alguns arqueólogos recentemente supuseram que os trabalhadores usaram uma rampa reta para os níveis inferiores e uma rampa interna espiralada para a porção superior. Exames do interior da Grande Pirâmide, possivelmente com uma câmera de infravermelho, talvez por fim solucionem o enigma.

03. QUAL O PROPÓSITO DE STONEHENGE?

Druidas usavam o lugar para cultos e sacrifícios humanos. Era um templo de cura, erguido por gigantes. Foi um grande observatório solar, a capital da cultura britânica na Idade do Bronze, um monumento a vários deuses ou um lugar sagrado de ancestrais mortos. Todos esses significados e outros mais já foram atribuídos a Stonehenge, o famoso círculo pedras na planície de Salisbury, na Inglaterra. Muitas dessas teorias foram refutadas, mas a finalidade do monumento ainda é um mistério. Temos certeza de que Stonehenge é muito mais antigo do que os druidas. Construído em etapas entre 3000 a.C. e 1520 a.C., aparentemente começou como círculos de montes de terra e madeiras na vertical. Mais tarde, até 80 blocos de arenito cinzento, pesando várias toneladas cada um, foram transportados, não se sabe como, desde Gales, a 257 quilômetros. Um círculo externo de sarsen, blocos de arenito silicificado pesando até 45 toneladas, foi extraído entre 30 e 50 quilômetros do local, em Marborough Downs, e instalado por volta de 2500 a.C. Enormes peças de sustentação, ou lintéis, ainda encabeçam algumas das pedras. O monumento completo era ligado ao rio Avon por uma longa avenida. O círculo alinha-se aos solstícios de verão e inverno, mas fora isso não parece ter uma função astronômica. É possível que o local se destinasse a um culto de ancestrais, porém ainda não existem indícios suficientes. Uma coisa é certa: a planície de Salisbury, exposta ao céu, há muito tempo é um local sagrado. Monumentos e sepulturas pré-históricos são comuns em todo esse

platô descampado, indicando que para povos antigos a área realmente teve alguma finalidade espiritual, ainda oculta aos nossos olhos.

Associações Alguns aficionados de Stonehenge dizem que esses megálitos e outros pelo mundo dispõem-se ao longo de “linhas de lei”, supostos canais de força geofísica que atraíram espíritos e investigadores psíquicos.

04. QUEM FORAM AS MÚMIAS DE TARIM?

No começo do século 20, arqueólogos informaram um achado: no noroeste da China, na orla do implacável deserto de Taklimakan, eles estavam descobrindo corpos preservados que pareciam ter sido de europeus. Enterrados na bacia do rio Tarim perto de um leito seco de rio, esses corpos naturalmente mumificados tinham cabelos loiros ou castanhos compridos e traços ocidentais. Alguns remontavam a aproximadamente 4 mil anos atrás. Pelo menos um grupo, enterrado no local hoje chamado de Cemitério do Rio Pequeno, usava capas de lã e chapéus de feltro com penas vistosas, parecidíssimos com os de caminhantes alpinos. Curiosamente, foram sepultados sob barcos virados de borco, sobre os quais havia longas varas parecidas com remos espetados no chão – possivelmente símbolos fálicos, sugerem os pesquisadores. A análise de DNA de um grupo do Cemitério do Rio Pequeno mostrou que a aparência ocidental das múmias não era enganosa: seus genes contêm uma mistura de linhagens da Europa e Sibéria. Outro indício de uma herança européia ocidental foi a descoberta de que habitantes posteriores da área falavam uma singular língua indo-europeia, o tocariano. Mas ainda não sabemos de onde vem o povo de Tarim nem o motivo de sua peregrinação para esse lugar.

05. O QUE ACONTECEU COM A CIVILIZAÇÃO DO VALE

DO INDO?

Três grandes civilizações dominavam o mundo antigo: Mesopotâmia, Egito e a cultura do vale do Indo. A Mesopotâmia e o Egito evoluíram, conquistaram

e foram conquistados, fundiram-se a outras culturas. Em contraste, a

civilização do vale do Indo, a maior das três, ruiu e desapareceu não se sabe por quê.

O povo do vale do Indo prosperou entre 2500 a.C. e 1700 a.C., ocupando

terras principalmente do atual Paquistão, no subcontinente indiano. A civilização beneficiou-se das terras férteis terras da planície aluvial do rio Indo e do comércio com a Mesopotâmia. Duas cidades, Harappa e Mohenjo- Daro, atestam o refinamento e o planejamento central desse povo. Eram agricultores, mercadores e artesãos cujas estatuetas flexíveis revelam observadores perspicazes. A cultura, letrada, possuía uma escrita elaborada que em boa parte ainda não foi decifrada. Uma civilização assim parece ideal para disseminar pelas regiões férteis ao seu redor. No entanto, por volta de 1900 a.C., a grande cidade de Mohenjo- Daro foi arrasada por forças ignoradas – possivelmente invasores arianos -, que, segundo o Rig Veda, destruíram fortes “como o tempo consome as vestes”. Sejam quem ou o que for que atacou a cidade, destruiu suas estátuas e foi embora. Em fins do segundo milênio a.C., toda a cultura desaparecera.

06. O QUE ESTÁ ESCRITO NO DISCO DE FESTO?

Em 1908, o arqueólogo italiano Luigi Pernier encontrou um disco de 15 centímetros feito de argila queimada nas ruínas do antigo palácio de Festo, na ilha grega de Creta. Talvez de 1700 a.C., na Idade do Bronze minóica, o disco mostra uma espiral de símbolos, sem tradução até hoje. Por serem estampados remetem a uma produção em massa, embora nenhuma outra descoberta confirme isso. Os 242 sinais, compostos de 45 estampas únicas, agrupam-se em 61 segmentos. Muitos têm formas reconhecíveis, por exemplo, uma cabeça tatuada, uma seta, uma árvore, um gato e uma colméia, que poderiam representar grupos fonéticos ou silabas; no entanto, são poucos para permitir a decifração. Nunca se encontrou outro artefato com símbolos iguais a esses. Tentativas de solucionar o mistério – cretense? Estrangeiro?

Leitura silábica de fora para dentro? Leitura alfabética de dentro para fora? – são tão variadas quanto seus intérpretes. Especialistas supõem que o disco seja uma fraude, mas a maioria o considera genuíno. Como outros vestígios

da cultura minóica, esse contínua a esconder seus segredos.

07. UM VULCÃO DESTRUIU OS MINOICOS?

Quando o arqueólogo britânico Arthur Evans encontrou as intrincadas ruínas de um antigo palácio na ilha de Creta em 1900, lembrou-se da lenda do rei Minos. Segundo a mitologia grega, o tirânico governante cretense costumava alimentar com jovens atenienses o Minotauro, um híbrido de humano e touro que ele mantinha preso no centro de um labirinto. Ainda que Minos, sua criatura e o labirinto possam não ter existido, as descobertas de Evans mostram que houve realmente uma grande e prospera cultura pré-helênica nessa ilha do Egeu, e Evans batizou-a de civilização minóica. Os minóicos viveram de aproximadamente 2700 a.C. a 1450 a.C. Letrados e artísticos, eles controlavam redes mercantis por toda a Europa e Oriente Médio. Mas sua civilização teve um fim absurdo. Os grandes palácios em Cnosso e em outras partes foram destruídos, e a cultura desapareceu. As razões ainda são alvo de debate. Nessa época, houve uma erupção vulcânica na ilha vizinha de Thera. Um terremoto, cinzas vulcânicas, um tsunami ou uma combinação de tudo isso teria demolido os palácios minóicos? Ou exércitos micênicos teriam invadido, teoria respaldada pela aparência de artefatos micênicos da época? Os minóicos podem ter-se autodestruído com uma insurreição? Ou terá sido uma junção de vários fatores: desastres naturais que enfraqueceram a cultura e exércitos que deram o golpe de misericórdia?

Associações Muitas obras de arte minóica retratam o esporte de salto sobre touro, no qual um atleta agarra os chifres de um touro desembestado e pula por cima das costas da fera. Uma versão desse esporte ainda é praticado no sudoeste da França.

08. EXISTEM TESOUROS ESCONDIDOS NA CIDADE DE

TÂNIS?

Tânis, no Egito, talvez seja o mais espetacular sítio arqueológico de que você já teve notícia. Os fãs de Os Caçadores da Arca Perdida talvez a reconheçam como a cidade soterrada que supostamente guardava a Arca da Aliança. Os leitores do Antigo Testamento podem chamá-la de Zoã, lugar onde Moisés teria feito milagres. Hoje é conhecida como Sân el-Hagar. Mas

a cidade de Tânis real, histórica, a capital da 21ª Dinastia do Egito, foiçou

perdida para o mundo por cerca de 2 mil anos. situava-se no delta do Nilo, e desapareceu quando o rio mudou seu curso. Ninguém sabia onde encontrá-la nem o que ela continha. Estudiosos europeus começaram a descobrir partes da cidade no século 19, porém os achados mais espetaculares aconteceram em 1939, quando o arqueólogo francês Pierre Montet encontrou um complexo de tumbas reais com máscaras de ouro, jóias, ataúdes de prata e outros tesouros que revitalizavam com os do rei Tut. Para azar de Montet, a Segunda Guerra Mundial eclipsou suas descobertas. Embora alguns dos tesouros de Tânis estejam no Museu Egípcio do Cairo, os cientistas sabem que há imagens de satélite em infravermelho que revelam edificações à espera de serem escavadas.

09. O QUE SERÁ ENCONTRADO NA SOTERRADA CIDADE

DE PETRA?

Os viajantes que procuram a entrada leste de Petra, antiga cidade no extremo sudoeste da Jordânia, precisam enveredar por um dos caminhos mais impressionantes do mundo: um desfiladeiro estreito de 76 metros de profundidade conhecido como Siq. No fim do cânion deparam com os imensos pilares do Tesouro (um templo) esculpido no penhasco de arenito. Lá dentro? Uma pequena tumba. Petra, que já foi uma cidade imensamente rica, hoje tem boa parte escondida sob areia e fragmentos de rocha. Petra foi ocupada pelos nabateus, nômades árabes que se fixaram na área e a transformaram em um centro de comércio de aproximadamente 300 a.C. até 700 d.C. Engenhosas redes de água abasteciam banhos públicos e viçosos

jardins no deserto. Os romanos instalaram-se na cidade por volta do século 2,

e depois disso a cidade entrou em declínio, até que a maioria de suas vilas, teatros e templos desapareceu. Declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, Petra é hoje uma grande atração turística, mas a maior parte de sua riqueza permanece enterrada.

10. CORPOS DO PÂNTANO FORAM VÍTIMAS DE

SACRIFÍCIO HUMANO?

Eles estão entre as mais bem preservadas vítimas de assassinato do mundo. Corpos foram descobertos em turfeiras por todo o norte da Europa, na Dinamarca, ilhas Britânicas, Alemanha e Holanda. Alguns eram só esqueleto, mas muitos conservaram-se um extraordinário estado de mumificação natural com a pele intacta mostrando até as rugas de aflição. Conservados pela acidez e ausência de oxigênio de certos pântanos, os corpos representam uma ampla gama de eras, de 8000 a.C. até o século 20, mas a maioria é da idade do Ferro, aproximadamente 2,5 mil anos atrás. Esses não foram caminhantes desafortunados que caíram no pântano e não conseguiram escapar. A maioria sucumbiu a golpes de clava ou faca ou na forca, como o dinamarquês Homem de Tollund, sepultado com a corda de couro no pescoço. Na falta de registros escritos, restou aos arqueólogos fazer suposições sobre a intenção desses assassinatos. Talvez as vítimas fossem criminosos. Mas hoje estudiosos supõem que as mortes tenham sido sacrifícios humanos a deuses ou deusas. Muitos dos corpos encontrados na Irlanda continham marcas de status, como jóias, e foram esquartejados e sepultados ao longo de linhas de fronteira entre reinos. Independente de sua origem, podem ter sido sacrificados e postos nos pântanos como forma de proteção mágica, e permaneceram intactos por muito tempo depois de seus verdugos terem desaparecidos.

11. O QUE ESTÁ ESCONDIDO NA TUMBA DE QIN?

O primeiro imperador da China, Qin Shi Huang Di, exerceu o poder como só um déspota é capaz. Uniu os estados beligerantes da China em 221 a.C. e então padronizou pesos e medidas, defensivas por todo o seu reino. E também queimou livros e executou sábios. Mas seu projeto monomaníaco foi seu próprio legado. Obcecado pela imortalidade, o imperador recrutou cerca de 700 mil operários para construir uma tumba semelhante a uma cidade, guardada por um colossal exército de terracota. Arqueólogos descobriram milhares desses guerreiros, cada um vividamente pintado, além de cavalos e carruagens de bronze em metade do tamanho natural, em companhia de valiosos artefatos de seda, linho, jade e osso.

Artesãos, concubinas e escravos também foram sacrificados e sepultados no complexo, e os trabalhadores que o construíram foram mortos para preservar os segredos. Segundo Sima Quain, historiador da Dinastia Han, a tumba contém maravilhas: uma maquete do império inteiro com detalhes de pássaros de ouro e prata, rios correntes de mercúrio e um mapa do céu com constelações de perolas. Os arqueólogos chineses relutam em perturbar a delicada estrutura. A maior parte do mausoléu permanece inexplorada e desconhecida. O imperador não foi descoberto, e não se sabe se um dia será, o que sem dúvida satisfaz o desejo do autocrata.

12. QUEM CONSTRUIU TEOTIHUACÁN ?

Os desconhecidos construtores da grande cidade de Teotihuacán parecem ter decidido não deixar pistas sobre sua identidade. Iniciada por volta de 100 a.C. no planalto mexicano, a cidade logo se tornou a maior metrópole do hemisfério ocidental, abrigando de 80 mil a 100 mil habitantes em 20 quilômetros quadrados. As ruas formavam um reticulado divido pela Avenida dos Mortos. As imponentes pirâmides do Sol e da Lua dominavam as ruas amplas, os templos, os conjuntos residenciais e as oficinas. Apesar disso, o povo que erguei a cidade não deixou registro de sua língua e origens. Até o melodioso, nome da cidade é legado de uma cultura posterior, os astecas. Ao prosperar, Teotihuacán aparentemente atraiu imigrantes de outras culturas,entre eles maias e mixteques. A brutalidade pode ter sido parte do cotidiano. Esqueletos nos templos parecem ter sido sacrifícios rituais, e até pentes, botões e agulhas foram feitos com ossos humanos de cadáveres recentes. Tão misteriosamente quanto surgiu, a cidade foi destruída, queimada e abandonada no século 7 d.C. Invasores talvez sejam os responsáveis, mais alguns pesquisadores observam que a maioria das edificações incineradas pertencia às cidades superiores. Teotihuacán pode ter sido destruída por seu próprio povo, saqueada pela população oprimida em período de seca.

Associações A Pirâmide da Lua é uma fonte particularmente rica em vítimas de sacrifícios. Entre elas há um pioneiro de guerra ferido, queimado vivo com as mãos atadas nas costas, rodeados por corpos de aves de rapina e cascavéis.

13. PALENQUE PODERÁ SOLUCIONAR OS MISTÉRIOS

MAIAS?

Os estudiosos ainda estão preenchendo os claros na história da ascensão e queda da grande civilização maia, apesar da riqueza dos registros foram encontrados em Palenque, sítio arqueológico mexicano com uma cidade imponente contendo templos e praças de pedra, que floresceu de 200 a 900 d.C. Abandonados à ação da selva por centenas de anos, as estruturas, em especial o Templo das Inscrições, de fachada em degraus, contém extensos textos hieroglíficos esculpidos. Mas não século 16, quando os europeus chegaram à península de Yucatán, ninguém mais sabia ler aquela escrita. Investigações à base da força bruta também não ajudaram. Nos anos 1780, o coronel Antonio del Rio começou sua busca no palácio de Palenque derrubando paredes. Mais recentemente, porém, estudiosos começaram a decifrar os complexos hieroglíficos,de pois de entrarem na tumba de um governante maia Pakal, encontrada no Templo das Inscrições. Nos anos 1970, arqueólogos decifraram uma lista de reis; agora 90% dos hieróglifos já foram decifrados, revelando uma complexa escrita logográfica na qual símbolos podiam representar sílabas ou palavras. As inscrições restratam um povo beligerante cujos conflitos internos podem ter ajudado a acarretar a própria destruição.

14. QUAL A FINALIDADE DAS LINHAS DE NASCA?

Dois mil anos atrás, pessoas gravaram mais de mil figuras imensas no deserto costeiro do sudoeste peruano. Quadriláteros, trapezóides, espirais, linhas estreitas e contornos lembrando formas de criaturas gigantes estendem-se por centenas de quilômetros quadrados de platôs áridos concentradas entre as cidades de Nasca e Palpa. Nos anos 1920, pilotos que cruzam os Andes redescobriram os enormes geoglifos, motivando décadas de estudos para responder à pergunta: eles servem para quê? Muitas explicações foram propostas e descartadas ao longo dos anos. sabemos que os traçados foram criados sobretudo pela cultura nasça, que prosperou aproximadamente de 200 a.C. a 600 d.C. Estudiosos das figuras

teorizaram que elas eram linhas de irrigação, um calendário astronômico, estradas incas, ícones para serem vistos de balões de ar quente arcaicos e – na hipótese mais persistente e mais provável – pistas de pouso para espaçonaves extraterrestres. Hoje a principal hipótese é mais simples: os glifos talvez formassem trajetos cerimoniais em uma paisagem sagrada. Muitas das figuras associam-se a chuva ou fertilidade, e ainda há vestígios de pegadas ao longo das linhas.

Associações Os proponentes da teoria dos astronautas antigos argumentam que as linhas só podem ser vistas do céu, porém das montanhas próximas é possível distinguir claramente as figuras.

15. A RODA XAMÂNICA DE BIGHORN É UM

CALENDÁRIO ASTRONÔMICO?

Seja qual for seu propósito, a Roda Xamânica de Bighorn não foi feita para ser facilmente acessível. O círculo de pedras de 23 metros de diâmetro está no topo da montanha Medicine, a 2939 metros de altura, na cordilheira de Bighorn, no Wyoming. Durante dez meses por ano, fica soterrado em neve intransponível. Apesar disso, ou talvez por causa disso, a Roda é um local sagrado para nativos americanos. Construída por tribos indígenas da planície há uns 700 anos, ela é a mais conhecida de outra cerca de 70 rodas existentes nos Estados Unidos e Canadá. No centro da Roda há um monte de pedras do qual partem 28 raios também de pedra. Ao redor da circunferência mais seis monte. Não existem registros que elucidem sua finalidade, mas seu alinhamento é sugestivo. A linha de um monte até o eixo marca o nascer do sol no solstício de verão; do outro monte parte uma linha que marca o pôr do sol nesse mesmo dia. Outros alinhamentos indicam o despontar das estrelas Sírius, Aldebarã e Rigel, importantes em lendas de povos indígenas. Os 28 raios talvez representem os 28 dias do calendário lunar. Intencionalmente ou não, a Roda serve como um notável calendário astronômico.

16. OS PRIMEIROS COLONIZADORES DA AMÉRICA

FORAM VIKINGS?

Por gerações as crianças americanas aprenderam na escola que Cristovão Colombo descobriu a América em 1492. Mesmo depois de professores observarem que o Novo Mundo já fora “descoberto” milhares de anos antes pelos nativos americanos, o navegador genovês era considerado o primeiro europeu a chegar ao continente. Mas dissidentes propuseram uma teoria alternativa. Segundo sagas nórdicas medievais, o arrojado viking Leif Eriksson zarpou da Groenlândia no ano 1000 e chegou a uma exuberante terra de campinas verdejantes a oeste, rica em madeira, salmões e uvas. Outras famílias nórdicas logo se juntaram a ele em “Vinlândia”, onde tiveram atritos com os nativos, que chamavam de “skraelings”. Essa suposição foi vista com ceticismo até 1960, quando dois exploradores noruegueses, Helge e Anne Ingstad, descobriram vestígios de uma colônia em L’Anse aux Meadows, na Terra Nova, Canadá. Havia artefatos nórdicos enterrados profundamente em oito construções, entre eles uma lâmpada, um prendedor de capa, um fuso e pregos de ferro para barco. Hoje os estudiosos em geral aceitam que L’Anse aux Meadows foi a primeira colônia nórdica na América do Norte, provavelmente habitada apenas por alguns anos até que as famílias voltaram para a Groenlândia e sua descoberta se transformou em lenda nórdica.

17. QUAL O SIGNIFICADO DO MONTE DA GRANDE

SERPENTE?

Com mais de 390 metros de compromisso, 6 a 9 metros de largura e 1 a 2 metros de altura, o monte da Grande Serpente, maior efígie em elevação de terra do mundo, coleia por uma encosta do sul de Ohio. Sua cauda termina em uma elegante espiral, e a cabeça parece estar engolindo um ovo gigante. Descrito pela primeira vez nos anos 1840, esse monte sinuoso foi originalmente atribuído ao antigo povo adena, que habitou a área aproximadamente de 500 a.C. até 200 d.C. e cujos restos mortais se encontram em sepulturas nos arredores. Mais recentemente, a datação por radiocarbono sugeriu que a estrutura é mais nova: do tempo do povo de Fort Ancient cerca de 900 anos atrás. A cultura de Fort Ancient foi influenciada pela cultura mississipiana, em cuja iconografia figuravam muitas cascavéis; de fato, muitas culturas americanas nativas atribuíam poder espiritual a

serpentes. Alguns arqueólogos observaram que a cabeça do monte da Serpente alinha-se com o solstício de verão, portanto, ela pode ter servido a alguma finalidade astronômica ou cerimonial. Na ausência de artefatos ou registros escritos, porém, o monte pode permanecer um grande enigma.

18. ENTENDEREMOS A ARTE E A ESCRITA DA ILHA DE

PÁSCOA?

A ilha de Páscoa – Rapa Nui, na língua de seu povo – é o mais isolado dos lugares habitados do planeta. Mais de mil anos atrás, seus habitantes ergueram centenas de monólitos de varias toneladas, os moais, que fascinam desde sua descoberta, há 300 anos. esculpidas principalmente com tufo vulcânico, e ferramentas manuais, as estátuas foram transportadas, não se sabe como, e colocadas sobre plataformas de pedra. Qual seria seu propósito? Como um povo pobre em tecnologia poderia mover os monólitos? Os nativos da ilha de Páscoa dizem que as estátuas andaram. Alguns autores afirma que os moais só poderiam ter sido postos ali por civilizações perdidas ou por extraterrestres. Fontes mais acadêmicas aventaram que as estátuas talvez tenham sido arrastadas sobre suportes. Recentemente, arqueólogos mostraram que o povo da ilha talvez tenha razão: as estátuas andaram. Uma equipe de pouco mais de 20 pessoas, usando cordas, pode ir balançando um moai de um lado para o outro, apoiado na base abaulada da estátua e fazer a estátua “andar” para a frente. Na época em que chegaram os exploradores europeus, muitos moais tinham sido derrubados, e seu significado perdera-se na memória. Eles podem ter sido símbolos de poder entre grupos beligerantes. Ou tiveram um propósito religioso pacífico. Lâminas de madeira e pedra encontradas no local são outro mistério. Contém uma escrita não decifrada, o rong-orongo. Os curiosos glifos são a escritos em direções alternadas, que mudam quando a lâmina é virda de ponta-cabeça. Como as estátuas a escrita, até agora resistiu às explicações.

19. ONDE ESTÁ A TUMBA DE GENGHIS KHAN?

Em sua época, ele foi o terror do mundo. Genghis Khan (Chinggis Qan) reuniu um exército de cavaleiros inclementes no século 13 e arremeteu pela Ásia e pela Europa, chacinando cidades inteiras e erigindo pirâmides de crânios. No auge, seu império abrangia 31 milhões de quilômetros quadrados, do Mediterrâneo ao mar Amarelo. O líder mongol foi tão eficiente na reprodução quanto na luta. Hoje cerca de 16 milhões de pessoas possuem genes que provavelmente podem se identificados com os do conquistador. Mas quando Genghis Khan morreu, em 1227, ele desapareceu, e a localização de sua tumba tem sido um dos segredos mais bem guardados da história. Aparentemente, essa foi a vontade dele. Uma lenda diz que levaram o líder para sua terra natal, na Mongólia, para um funeral elaborado, mas algumas versões também afirma que em seguida o solo foi pisoteado por cavalos e arborizado para ocultar a tumba. Depois toda a procissão cerimonial teria sido assassinada. Agora os exploradores estão usando técnicas não invasivas para examinar a área da Mongólia por via aérea à procura de estruturas antigas, como montes funerários. Até o momento, a terra manteve bem escondidos os restos mortais do maior conquistador do mundo.

20. MACHU PICCHU FOI UM LUGAR SAGRADO?

Hiram Bingham, o explorador que em 1913 revelou em ao mundo a existência de Machu Picchu, no peru, chamou o lugar de A Cidade Perdida dos Incas. Ele supôs que o complexo de palácios, templos, depósitos e habitações de pedra poderia ser o que restava da cidade de Vilcabamba, onde os governantes incas lutaram e perderam a batalha contra os invasores espanhoies. Ou, pensou Bingham, talvez fosse a residência das Virgens do Sol, mulheres consagradas ao Deus-Sol dos incas. Estudos mais recentes derrubaram as imaginativas teorias de Bingham; Machu Picchu foi, sim, uma cidade inca, mas não Vilcabamba. E não se encontrou vestígio algum de virgens sagradas. Mas os incas não deixaram registros escritos, e os arqueólogos continuam a desconhecer a finalidade e os habitantes da cidade na montanha. Teorias recentes supõem que as íngremes construções em terraços podem ter sido erigidas como um retiro para o grande imperador inca Pachacuti no século 15. Por outro lado, o lugar parece ter sido sagrado – cingida pelo

cultuado rio Urubamba e alinhada com os solstícios, Machu Picchu pode ter sido um local real e um destino sagrado. Pesquisadores continuam a escavar o sítio arqueológico, em busca de pistas sobre os fascinantes habitantes da cidade e razão de viver de a terem abandonado nos anos 1570.

Associações Bingham baseou sua teoria sobre as Virgens do Sol em sua descoberta de 100 esqueletos no local; ele julgou que a maioria era mulheres, mas a ciência forense agora prova que metade eram homens de baixa estatura.

21. QUAL O SIGNIFICADO DO MANUSCRITO DE

VOYNICH?

O manuscrito de Voynich é ao mesmo tempo o deleite e o tormento dos

decodificadores. A obra de 240 páginas em papel pergaminho está escrita em uma língua desconhecida e contém centenas de ilustrações a tinta de símbolos

astrológicos, plantas não identificáveis e bizarras figuras humanas. Legiões de criptógrafos, inclusive alguns dos melhores do mundo, tentaram em vão decifrar os dizeres do manuscrito. Será um tratado sobre ervas? Um guia de alquimia? Ninguém sabe.

O manuscrito leva o nome do livreiro polonês-americano Wilfrid Voynich,

que o comprou em 1912, porém é bem mais antigo. Remonta, no mínimo, ao tempo do imperador germânico Rodolfo II (1576-1612), que o adquiriu por

600 ducados de ouro, acreditando que seu autor fosse o erudito Roger Bacon.

O vendedor talvez tenha sido o renomado astrólogo e ocultista inglês John

Dee, que tinha uma coleção de obras de Bacon. Depois o manuscrito passou por vários proprietários europeus, nenhum dos quais conseguiu entendê-lo. Se esse manuscrito indecifrável for uma fraude, é uma fraude bem antiga. Testes recentes mostram que ele é do século 15. Hoje o manuscrito de Voynich se encontra na Biblioteca Beinecke, em Yale, misterioso como sempre.

22. UMA PAREDE FLORENTINA ESCONDE UM DA VINCI

PERDIDO?

Em 1902, o político florentino Piero Soderini encomendou a Leonardo da Vinci a pintura de um mural no Palazzo Vecchio, em Florença. O quadro final, retratando a vitória de forças toscanas na Batalha de Anghiari, era enorme: 6 metros de comprimento por 3 metros de altura. Mas Da Vinci não gostou dele. Experimentando tintas a óleo na parede do Salão dos Quinhentos, o artista constatou que as cores escorriam e borravam. Abandonou o mural sem terminá-lo. Muitos dos que viram a obra impressionaram-se com a dramática cena da batalha, mas quando o salão foi remodelado, contrataram o artista Giorgio Vasari para pintar por cima da obra de Da Vinci. Alguns estudiosos julgam que Vasari, admirador da obra do mestre renascentista, teria construído uma falsa parede para protegê-la, pintando nela seu mural. Estará lá ainda o Da Vinci, escondido e imensamente valioso? Em 2012, o historiador da arte Maurizio Seracini anunciou que inserira uma minúscula câmera numa fenda da parede e detectara um espaço vazio e pigmentos pretos atrás do mural. A investigação está paralisada, e o suspense prossegue no caso.

23. QUAIS SÃO AS FONTES DO MAPA DE PIRI REIS?

Hajji Ahmed Muhiddin Piri, mais conhecido como Piri Reis (capitão Piri), foi um talentoso almirante a cartógrafo turco do século 16. Os cartógrafos e os apaixonados por civilizações perdidas conhecem-no principalmente como o criador de um belo mapa de 1513. Perdido por muitos anos, o mapa foi redescoberto no século 20 e hoje se encontra no Palácio Topkapi, em Istambul. Ele parece representar apenas uma parte do documento original, pois há referencias à Ásia em seu texto, mas infelizmente o resto do mapa desapareceu. Esse pode ser o mais antigo mapa ainda existente a mostrar as Américas. Para os cartógrafos, o mapa impressiona pela representação minuciosa da costa sul-americana, datada de apenas duas décadas depois da descoberta européia. Os de inclinações mais imaginativas dizem que o documento mostra massas de terra, incluindo a Antártica, que na época eram desconhecidas – portanto, o mapa só poderia ter sido criado milhares de anos antes, por alguma misteriosa civilização avançada.

Essa ideia deriva sobretudo do fato de que a linha da costa sul-americana retrata no mapa desvia-se acentuadamente para o leste, quase como se acompanhasse a orla setentrional da Antártica. No entanto, um exame mais atento mostra que a costa é bem diferente da orla antártica, e a latitude difere em milhares de quilômetros. Piri Reis registrou no mapa que recorreu a muitas fontes, entre elas exploradores portugueses, e parece provável que essas fontes fossem demasiado esparsas para permitir a precisão. No entanto, o documento contém informações que em teoria, eram desconhecidas na época, entre elas a presença de uma cadeia de montanhas no interior da América do Sul. O verdadeiro mistério pode ser: que mapeou esses detalhes e por que a história esqueceu esses primeiros exploradores?

Associações O mapa de Piri Reis é um mapa portulano, como os que costumavam ser usados na época do descobrimento. Esses mapas não eram orientados segundo norte e sul ou latitude e longitude: norteavam o navegador pelas indicações da bússola.

24. ENCONTRAMOS EL DORADO?

O primeiro El Dorado foi um homem, não uma cidade. Os exploradores espanhóis da América do Sul ouviram sua lenda no começo dos anos 1500. Em alguma parte dos Andes, disseram-lhes, os índios muíscas empossavam um novo chefe borrifando-o com ouro em pó da cabeça aos pés jogando ouro e esmeraldas em um lago sagrado. Alucinados pela cobiça, aventureiros espanhóis, alemães, portugueses e ingleses embrenhavam-se nas implacáveis selvas da Colômbia, Guiana, Brasil – e onde mais lhe parecesse promissor – em busca desse mítico tesouro. Com o tempo, a história do homem El Dorado transformou-se de um vale pavimentado com ouro. Entre os aventureiros estava Sir Walter Raleigh, cujo filho, Watt, morreu na busca em 1617; Raleigh foi executado quando voltou à Europa por desobedecer às ordens do rei. Muitos nativos americanos e europeus morreram nessas expedições brutais. Nenhum dourado jamais apareceu. Mas talvez haja alguma verdade na lenda. O lago mencionado na história muísca pode ser a laguna Guatavita, situada no alto dos Andes próximo a Bogotá, na Colômbia. Dessa lagoa e de outra próxima foram retirados alguns objetos de ouro e jóias, porém as tentativas de drenar o lago para extrair as

supostas riquezas não deram em nada. Se houver algum tesouro lá no fundo, ele permanece intacto.

Associações Entre os que procuram por El Dorado, estava o explorador espanhol Lope de Aguirre, um psicopata que se intitulava “A ira de Deus”. Em sua busca ele assassinou várias pessoas, inclusive sua própria filha e dois lideres de expedição.

25. A QUEM PERTENCEU A TABULETA DE

JAMESTOWN?

É como se arqueólogos do futuro descobrissem as ultimas páginas de um bloco atual, com tênues marcas de rabiscos, listas de compras, pensamentos e lições escolares calcadas no papel. Em 2009, escavações em um velho poço de Jamestown na Virgínia, a primeira povoação européia permanente na América, revelaram uma tabuleta de ardósia coberta de arranhões sobrepostos. Entre suas inscrições havia desenhos: um homem com uma gola de tufos, o que parece ser uma palmeira do gênero Sabal e palavras em inglês que podem significar “UM CRIADO [OU CANHÃO] DOS MELHORES” ou ainda “NÃO SOU DOS MELHORES”. As marcas, assim como seu dono ou donos originais, permanecem um mistério. A palmeira sugere que o artista de Jamestown viajara para o sul; poderia até ser William Strachey, que sobreviveu a um naufrágio nas Bermudas e se tornou o primeiro secretário da colônia. O poço onde se encontrou a tabuleta foi aberto entre 1608 e 1610 por ordem de John Smith, o líder de Jamestown, e depois transformado em depósito de lixo porque se tornou salobro e inútil. Lixo colonial é tesouro para um arqueólogo, e a tabuleta descartada é um achado particularmente valioso.

RELIGIÃO, MITO E O SOBRENATURAL

Fé, esperança e uma pitada de sobrenatural permitem que muitos mistérios perdurem. Estes lugares, pessoas e objetos místicos são lendários.

26. O QUE ACONTECEU COM AS DEZ TRIBOS PERDIDAS

DE ISRAEL?

No século 10 a.C., 12 tribos ocupavam Canaã, a Terra Prometida. Eram conhecidas pelos nomes de seus ancestrais, filhos ou netos de Jacó, que por sua vez era neto do patriarca bíblico Abraão. Em 930 a. C., dez dessas tribos – Aser, Dã, Efraim, Gade, Issacar, Manassés, Naftali, Rúben, Simeão e Zebulom – formaram o Reino de Israel, ao norte. As outras duas, Judá e Benjamin, constituíram o Reino de Judá. Assim foi durante 200 anos, até que os assírios invadiram o norte, e as dez tribos desapareceram do registro histórico. Teriam sido simplesmente assimiladas? Ou exiladas? Seus descendentes ainda vivem? O destino das dez tribos perdidas fascinou muita gente nos séculos seguintes. O viajante judeu Eldad-ha-Dani declarou tê-las descoberto no século 9 na margem oposto do intransponível rio Sambation. Outros afirmam ter encontrado descendentes das tribos na Pérsia (atual Irã), América do Sul, Afeganistão, África do Sul, Japão – onde quer que viajantes pensem ter visto vestígios de tradições hebraicas. Vários grupos intitulam-se descendentes das tribos perdidas, mas ainda não se sabe se essas pretensões são válidas, e as tribos perdidas, por enquanto, continuam sem indícios.

27. ONDE ERA O JARDIM DO ÉDEN?

Se o Jardim do Éden bíblico existiu, qual teria sido sua localização? Diz o Gênesis 2:10-14: “E saía um rio do Éden para regar o jardim, e dali se dividia, repartindo-se em quatro braços. O primeiro chama-se Pisom; é o que rodeia a terra de Havilá, onde há ouro. O ouro dessa terra é bom; também se encontram lá o bdélio e a pedra de ônix. O segundo rio chama-se Giom; é o que circunda a terra de Cuxe. O nome do terceiro rio é Tigre; é o que corre pelo oriente da Assíria. E o quarto é o Eufrates”. Esses cursos d’água sugerem locais talvez no Iraque, Irã ou Turquia. Mas o Livro do Profeta Ezequiel também se refere ao Éden como um monte santo, possivelmente na região do atual Líbano.

A busca pelo Éden avançou muito além disso. Se a montanha sagrada for o

monte do Templo, em Jerusalém, e o rio original for o Jordão, o Éden poderia ter sido onde hoje é Israel. se o rio Giom for o Nilo, como há quem acredite, o norte da África poderia ser o local do Éden. Interpretações mais criativas apontam as ilhas Seychelles, o condado de Jackson, no Missouri (segundo a igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias), ou o planeta Marte – essa última de um autor que associou os rios edênicos a canais marcianos.

28. A ARCA DE NOÉ ESTÁ ENTERRADA NO MONTE

ARARAT?

Poucas histórias bíblicas são mais conhecidas do que a Arca de Noé. Segundo

o Gênesis, Noé foi escolhido por Deus para preservar um casal de cada

espécie animal no mundo em sua embarcação de madeira durante um grande

minguaram ao cabo de cento

e cinqüenta dias. No dia dezessete do sétimo mês, a arca pousou sobre as montanhas de Ararate”. Encontrar a arca, ou o que restou dela, tem sido uma obsessão para exploradores por no mínimo 2 mil anos. As montanhas de Ararat são referência a uma região da Armênia antiga. Hoje, o monte Ararat, um maciço vulcânico na Turquia, é o local mais comumente citado como a sepultura da Arca de Noé, embora Irã e Iraque também tenham sido mencionados. Entre

dilúvio. A terra foi inundada, mas “as águas [

]

os que procuraram o Ararat está o astronauta James Irwin, que participou de duas expedições malogradas nos anos 1980. Em 2010 um grupo de Hong Kong declarou ter encontrado compartimentos de madeira de 4,8 mil anos perto do pico da montanha turca, mas não apresentou provas.

A maioria dos especialistas duvida que a arca, se existiu, seja encontrada no

Ararat. Mesmo se essa for a montanha correta, os restos de madeira da arca já teria apodrecido há muito tempo.

29. É NO ZIMBÁBUE QUE ESTÁ A ARCA DA ALIANÇA?

A bíblica Arca da Aliança descrita em vários livros do Antigo Testamento,

não era uma embarcação, mas, como a Arca de Noé, continha tesouros. Na

caixa dourada de 1,2 metro de comprimento, além das tábuas dos Dez Mandamentos havia um poder formidável. Levada à frente dos israelitas, ela partiu as águas do rio Jordão. Carregada ao redor de Jericó, ajudou a fazer a ruir as muralhas da cidade. Por fim, foi guardada no Primeiro Templo de Jerusalém, construído por Salomão. E aí termina a trilha: quando os babilônios invadiram Jerusalém, em 586 a.C., o templo foi destruído, e a arca desapareceu dos registros. Onde poderia estar? Alguns acreditam que esteja enterrada no monte do Templo. Certos autores europeus supõem que ela foi levada por cruzados para a França. A Igreja Ortodoxa da Etiópia afirma que está em posse da arca, guardada na cidade de Axum, mas não a mostra em público. Recentemente, Tudor Parfitt, professor da Escola de Estudos Africanos e Orientais em Londres, associou a arca a um objeto sagrado no Zimbábue. Um clã zimbabuano chamado Lemba diz ter trazido um recipiente semelhante a um tambor. A datação por carbono indica que é mais nova que a Arca da Aliança, mas Partiff acredita que o ngoma pode ser um substituto ou uma segunda geração da Arca.

Associações Segundo anotações antigas, a Arca limpava o chão dela dos escorpiões e serpentes com rajadas de fogo. Além disso, matava os ímpios que a fitavam.

30. O REI ARTHUR FOI UM CHEFE MILITAR BRITÂNICO

REAL?

Eis o Arthur que a maioria de nós conhece: “’Muito bem, vejo que deveis ser o rei desta terra’, disse Sir Ector a Arthur. ‘Mas por que eu?’, disse Arthur. ‘O que fiz?’ ‘Meu senhor’, disse Ector, ‘é porque assim quis Deus; pois, nenhum homem jamais tiraria essa espada’”. Quando Thomas Malory escreveu esse romance, Le Morte d’Arthur, no século 15, o rei Arthur já estava arraigado nos corações britânicos como um governante de proporções sobrenaturais. Mas os historiadores modernos debatem sua existência. No século 6, o monge celta Gildas escreveu sobre batalhas dos britânicos contra invasores saxões por volta do ano 500, mas não mencionou Arthur. O historiador galês Nennius, do século 9, é o primeiro a pôr Arthur em cena como um líder guerreiro. Em sua História dos Reis da

Bretanha, de 1138, Geoffrey de Monmouth promove-o a rei e acrescenta as figuras de Guinevere, Merlin e outras. Hoje a opinião dos historiadores é dividida. Alguns acham que a ausência de relatos contemporâneos sobre Arthur significa que ele foi inventado posteriormente. Outros acreditam que a ausência de provas não prova a ausência: historiadores antes do nosso tempo também não mencionaram lideres que hoje sabemos ser reais. A versão final aguarda provas até agora não encontradas.

31. EXISTIU UMA PAPISA?

A história surgiu no século 13 e logo se tornou aceita como fato. Segundo vários cronistas medievais, quando o papa Leão IV morreu, em 885, foi sucedido por um brilhante inglês, João de Mainz. João já ocupava o trono papal fazia mais de dois anos quando, durante uma procissão em Roma, sentiu dores fortíssimas. Para assombro dos presentes, ele deu à um filho e morreu. Desde então o papa João passou a ser a papisa Joana. Por vários séculos, o público acreditou na verdade histórica da mulher pontífice. Seu busto figurou entre outros na Catedral de Siena e historiadores da Renascença incluíram-na em seus textos. Procissões papais evitavam a rota na qual Joana teria dado à luz. Críticos protestantes da Igreja, em particular, deleitavam-se em remodelar a história. Com o tempo, no entanto, estudiosos salientavam que na verdade o papa Leão IV foi sucedido em 855 por Bento III. Nenhum texto contemporâneo menciona uma papisa, e é improvável que ela tenha realmente existido. Ainda assim, a lenda da desafortunada papisa Joana persiste. Peças teatrais, romances e filmes continuam, no século 21, a retratar a douta e fértil sacerdotista.

32. QUEM FOI PRESTE JOÃO?

Por volta de 1165, o imperador bizantino Manuel Commenus recebeu uma carta surpreendente. O homem que a enviou dizia ser nada menos que o maior rei já visto no mundo, e ainda por cima cristão. Governava um reino

exótico e rico no Oriente “Setenta e dois reinos são nossos vassalos”, ele escreveu. Em sua terra viviam criaturas como elefantes, grifos, ogras, gigantes e sátiros. Não havia pobres, adúlteros, ladrões nem avarentos na terra de Preste João. Mas a música que mais agradou aos ouvidos europeus foi a notícia de que Preste João pretendia mandar um exército à Terra Santa para combater os muçulmanos. O papa Alexandre III soube da carta e respondeu pressurosamente, mas não veio nenhuma réplica. Seguiram-se centenas de anos de explorações na África e Ásia em busca do misterioso monarca cristão. O monge João de Piano Carpini fez uma penosa viagem para ver o líder mongol Kuyuk Khan, mas descobriu que ele não era nem Preste João nem cristão. Marco Polo procurou o monarca durante suas viagens. Os exploradores portugueses Bartolomeu Dias e Vasco da Gama, também não o acharam, mas abriram o Caminho das Índias. A esperança foi arrefecendo, e Preste João reduziu-se a fábula. Hoje o veredicto dos historiadores para a carta de 1165 é que ela foi uma tremenda peça pregada na era medieval.

Associações Shakespeare menciona Preste João em Muito Barulho por

Nada. Benedick diz: “Preferia buscar-te um palito de dentes no rincão mais

longíquo da Ásia, trazer-te a medida do pé de Preste João ( palavras com essa harpia”.

) a trocar três

33. ONDE ESTÁ O SANTO GRAAL?

Tradicionalmente considerado o cálice usado por Jesus na Última Ceia, o Santo Graal, porém, só foi aparecer na literatura no século 12, quando o poeta francês Chrétien de Troyes escreveu Perceval ou o Conto do Graal. Nessa obra inacabada, o Graal é um recipiente de servir à mesa, um dos vários objetos místicos exibidos ao jovem Perceval. O Graal ainda esperaria até o século seguinte para ser associado à Última Ceia, no poema José de Arimateia, de Robert de Borron. A partir de então, a lenda do Graal floresceu com romances sobre o rei Arthur, em uma mistura de simbolismo ceita e cristão, fato e fantasia. Ele foi objeto de aventuras literárias, em especial a do puro Sir Galahad. Dizem alguns que os Cavaleiros Templários conseguiram resgatá-lo de Jerusalém e escondê-lo bem demais. Muitos lugares, da Espanha a Maryland, declararam

estar em posse do verdadeiro Graal.

O Graal é, quase com certeza, uma invenção. Os historiadores acreditam que,

se algum cálice usado por Jesus sobrevivesse por todos esses séculos, seria impossível de identificá-lo hoje – oculto, realmente, pelo templo.

Associações O recipiente não perdeu o poder de inflamar a imaginação nos tempos modernos. Uma infinidade de pinturas, romances e filmes dos séculos 19, 20 e 21 insere o objeto em cenários que variam do Louvre ao espaço cósmico.

34. QUAL É A IDADE DO SUDÁRIO DE TURIM?

O Sudário de Turim pode ser real ou pode ser uma fraude, mas certamente

revela os limites da ciência para resolver a controvérsia.

O sudário é uma peça de linho longa e retangular que muitos acreditam ter

sido a mortalha de Jesus. Em sua superfície se distingue (com mais nitidez em fotografias) a imagem de um homem com feridas como as que Jesus teria

sofrido ao morrer. O Sudário está guardado na Catedral de São João Batista, em Turim.

A autenticidade do sudário é debatida desde que ele apareceu, no século 14.

Em 1988, três testes independentes de datação por carbono apontaram sua origem entre 1260 e 1390 d.C., muito depois da morte de Jesus. Em 2005, um

cientista afirmou que os testes tinham sido feitos em remendos do pano e que

o sudário era mais antigo. Em 2013, cientistas da Universidade de Pádua

tornaram a testar as fibras de 1988 e dataram entre 280 a.C. e 220 d.C., a época de Cristo. No Domingo de Páscoa de 2013, o papa Francisco I mostrou reverência e cautela quando se referiu ao Sudário “O Homem do Sudário nos convida a contemplar Jesus de Nazaré”. Nem o papa tem condições de dizer se o pano é historicamente autêntico.

35. QUEM FOI A INSPIRAÇÃO PARA DRÁCULA?

O aristocrático antagonista em Drácula, romance de 1897, escrito por Bram

Stoker, não foi o primeiro sugador de sangue da ficção. O Vampiro, de John Polidori, e Varney – O Vampiro, de James Rymer, entre outos, precederam a

obra de Stoker. Mas o Conde Drácula tornou-se o vampiro icônico, personagem marcante que muitos leitores se perguntaram se não teria sido baseado em uma pessoa real. Stoker encontrara vampiros em histórias de folclore e em outras fontes de ficção, mas parece ter extraído o nome Drácula do texto do diplomata britânico William Wilkinson intitulado Um Relato sobre os Principados da Valáquia e Moldávia. Nessa obra, Wilkinson descreve a figura histórica de Vlad III Drácula, nascido na Transilvânia e príncipe da Valáquia em meados dos anos 1400. Em tentativas de conquistar o trono de seu pai, Vald tornou-se notório por suas atrocidades, em especial seu hábito de empalar inimigos aos milhares. Em outros relatos, ele esfola, ferve ou queima vivos os pobres e os ciganos. Por mais sedento de sangue que Vlad, o Empalador possa ser metaforicamente, as histórias não fazem menção alguma a um hábito de beber sangue. Esse gosto foi deixado para o seu herdeiro fictício, o Conde da Transilvânia.

36. O CONDE DE SAINT-GERMAIN FOI IMORTAL?

O misterioso Claude Louis, Conde de Saint-Germain, era talentoso, influente e, segundo alguns, imortal. Apareceu em cortes européias em meados dos anos 1700. Horace Walpole escreveu sobre esse “homem singular” em 1745:

“Ele está aqui há dois anos, e não quer dizer quem é ou de onde vem (

canta, toca maravilhosamente o violino, compõe, é louco e não muito sensato. Dizem que é italiano, espanho, polonês; alguém que se casou com uma grande fortuna no México e fugiu com as jóias dela para Constantinopla; um padre, um rabequista, um grande nobre”. Diziam que era um espião, um celibatário e ambidestro. Na verdade, Saint-Germain foi um diplomata, possivelmente um espião. E, segundo ele próprio, um homem de centenas de anos de idade. Casanova, que o conheceu em 1757, comentou: “Esse homem extraordinário, que a natureza destinou a ser o rei dos impostores e embusteiros, dizia com grande desenvoltura e segurança por trezentos anos de idade, conhecer os segredos da Medicina Universal, possuir o domínio da natureza e ser capaz de derreter diamantes.” Quem ele realmente foi não se sabe, mas imortal ele não era. Morreu na Alemanha em 1784 com 188, 223 ou 2000 anos, dependendo da fonte.

) Ele

37. PONDE DE LEÓN ENCONTROU A FONTE DA

JUVENTUDE?

Muito mencionada mas jamais descoberta, a Fonte da Juventude já inspirou muitas buscas esperançosas. Gregos antigos, árabes medievais e outros falavam de uma fonte ou rio com poderes restauradores. Mas a mais conhecida Fonte da Juventude talvez seja aquela que o explorador espanhol Ponde de León teria indo procurar na Flórida. Só que provavelmente ele não foi. Ponce de León, governador colonial de Porto Rico de 1509 a 1511, queria ouro, terras e nativos para escravizar quando partiu em busca de uma ilha conhecida como Bimini em 1513. Em vez disso, ele chegou à costa da Flórida, voltou à nova terra duas outras vezes nos anos seguintes antes de ser fatalmente ferido pela flecha de um nativo. Só em relatos posteriores os cronistas, possivelmente zombando do explorador, disseram que ele andava em busca da lendária fonte. Antonio Herrrera de Tordesillias escreveu: “Ele fez um relato da riqueza dessa ilha (Bimini) e especialmente da singular Fonte da qual falavam os índios, que transformava velhos em meninos”. A cidade de St. Augustine, em Flórida, não se deteve diante do insucesso de Ponce e criou o Parque Arqueologico da Fonte da Juventude próximo a uma fonte termal natural.

Associações Dizia-se que o lendário reino de Preste João possuía uma

Fonte da Juventude. Segundo sua carta de 1165, “se qualquer um beber

três vezes da fonte (

)

será, enquanto viver, um homem de trinta anos”.

38. OS ÓVNIS SÃO MESMO ESPAÇONAVES

ALIENÍGENAS?

Não há dúvida de que os óvnis existem se os definirmos como “objetos voadores não identificados”. Questionável é se, nos avistamentos de óvnis ao longo de séculos, incluem-se espaçonaves extraterrestres. Desde tempos imemoriais há relatos de misteriosos objetos aéreos. Pingavam esparsamente no passado, mas viraram um dilúvio na era das máquinas voadores. Em 1896 e 1897, por exemplo, residentes da Costa Oeste, de San Francisco a Tacoma, Washington, disseram ter visto um objeto dirigível

circular e brilhante movendo-se lentamente no céu. Os avistamentos aumentaram nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial. Em 1947, o piloto Kenneth Arnold viu uma formação de objetos brilhantes sobrevoando as montanhas Cascade. “Voavam com um pires que a gente jogar para fazer girar e ricochetear na água”, disse aos repórteres. Embora os objetos que ele viu fossem em forma de meia-lua, o termo “flying saucer” (pires voador) entranhou-se no imaginário popular. As forças armadas americanas levaram muito a sério esses avistamentos no tempo da guerra fria. A Força Aérea fez uma série de investigações nas décadas de 1940 a 1960, e a mais famosa foi o Projeto Blue Book. O projeto concluiu que 94% de aproximadamente 12 mil avistamentos podiam ser atribuídos a causas naturais, como o planeta Vênus, meteoros ou aeronaves comuns. Seis por cento não tinham explicação. Decerto, algumas fotos de óvnis eram forjadas, e exames revelaram fios segurando as naves com jeito de prato de torta. Ainda assim, os avistamentos inexplicados levaram cientistas sensatos, entre eles, o astrônomo J. Allen Hynek, a acreditar que alguns visitantes realmente poderiam ser extraterrestres. Outras organizações aliaram-se ao Centro de Estudos de Óvnis dirigido por Hynek para investigar relatos sobre óvnis. Ainda não se descobriu se esses objetos inexplicados representam espaçonaves alienígenas, mas, na ausência de provas, a maioria dos cientistas é cética.

Associações O ex-presidente americano Jimmy Carter avistou um óvni. Quando era governador da Geórgia, Carter e testemunhas viram uma luz brilhante no céu movendo-se em vaivém. Carter informou o fato a uma comissão sobre fenômenos aéreos.

39. O QUE ESTÁ ESCONDIDO EM ROSWELL?

O incidente em Roswell é possivelmente o mais polemico de todos os avistamentos de óvnis. Em julho de 1947, testemunhas viram objetos no céu e ouviram um estrondo em Roswell, Novo México. Nos dias seguintes, o xerife local e uma major do Aeródromo do Exército em Roswell recolheram curiosos destroços metálicos em uma fazenda próxima. O Exército fez então um notável pronunciamento à imprensa: “Os muitos rumores sobre o disco voador tornaram-se realidade ontem, quando o setor de inteligência do 509°

Grupo de Bombardeios da Oitava Força Aérea, Aeródromo do Exército em Roswell, teve a sorte de apoderar-se de um disco”. Pouco depois, o Exército fez outra declaração que dizia: “Esqueçam, eram apenas destroços de um balão meteorológico”. A tentativa de o Exército encobrir o caso deu o que falar. Surgiram relatos de um segundo local de queda e de corpos esquisitos. Em 1997 a Força Aérea apresentou um relatório afirmando que se tratava de uma simulação de acidente aéreo. Alguns oficiais ainda dizem que os destroços era de u óvni; para os céticos é um caso de fabricação de mito. Não há provas de que corpos de extraterrestres ou óvnis estão guardados em Roswell, mas a controvérsia persiste.

40. EXISTE UMA MALDIÇÃO NO TRIÂNGULO DAS

BERMUDAS?

O escritor Vincent Gaddis foi o primeiro a aventar que a região marítima

delimitada por Miami, Bermudas e Porto Rico – área que ele apelidou de Triângulo das Bermudas – era amaldiçoada. Ele escreveu para a revista Argosy em 1964 a história dos cinco bombardeiros do desafortunado Voo 19 da Marinha. Depois de decolarem de Fort Lauderdale, em Flórida, em uma missão de treinamento de rotina, os aviões informaram problemas na bússola e silenciaram. Nunca mais voltaram à base, e 14 homens desapareceram.

Depois da publicação, fãs do paranormal começaram a reunir outras histórias

de navios e aviões perdidos no Triângulo das Bermudas, descrevendo-o como

uma região onde as bússolas falham e um número incomum de pessoas desaparece. Abduções por extraterrestres, vórtices no espaço e energias de Atlântida figuram nas suposições sobre o desaparecimento. No entanto, estudos sobre os incidentes na área mostram que eles não são mais freqüentes do que em qualquer outra parte do oceano com tráfego intenso. Essas águas quentes que margeiam a corrente do Golfo são naturalmente tempestuosas e sujeitas a vagalhões súbitos. Como observa a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, “as forças combinadas da natureza e a falibilidade humana superam até a mais inacreditável ficção científica”.

Associações O piloto Bruce Gernon contou que em 1970, quando voava das Bahamas para Palm Beach, na Flórida, entrou em um estranho túnel

de nuvens que pareceu levá-lo para outra dimensão e deixá-lo na Flórida em metade do tempo normal.

MUNDO VIVO

Apesar dos impressionantes avanços da ciência no século passado, continuamos no escuro quando se trata de alguns fatos da vida. O que está escondido no mar? Por que envelhecemos e morremos?

41. COMO OS ANIMAIS SE ORIENTAM?

No verão borboletas-monarca migram por milhares de quilômetros para o norte, dos abetos no México central até os Estados Unidos, onde põem ovos e morrem. A geração seguinte metarmofoseia-se em borboleta e voa de volta às mesmas árvores, mesmo sem nunca tê-las vistos. Os salmões-do-pacífico retornam do oceano aos rios onde foram gerados. Formigas do deserto vagueiam por 183 metros em busca do alimento, depois voltam em linha reta para o formigueiro. Pombos-correio levados para lugares desconhecidos encontram o caminho de volta. Como eles fazem? Os animais possuem uma ampla gama de sentidos refinados não disponíveis aos humanos, e o uso de pistas recebidas do instinto e do ambiente varia conforme a espécie. Os cientistas, com experimentos, descobriram algumas técnicas. Alguns animais guiam-se pela posição do Sol no céu: as monarcas, por exemplo, discernem a posição com as antenas. Outros animais seguem pistas das estrelas, como o azulão (Passerina cyanea), pássaro que se orienta pela estrela Polar. Outros recorrem ao magnetismo. Tubarões podem orientar-se por campos magnéticos de cinco bilionésimos de volt por centímetro. O famosos pombo- correio é um mistério dos grandes: pode orientar-se por campos magnéticos, pelo olfato ou até por som de baixa freqüência.

42. POR QUE ALGUNS ANIMAIS SÃO ALTRUÍSTAS?

Da perspectiva do evolucionismo não surpreende que as abelhas operárias estéreis devotem-se às larvas da abelha rainha ou que o macho da aranha viúva-negra dê a vida para matar a fome da parceira. Esse comportamento beneficia sues descendentes ou parentes próximos, perpetuando sua herança genética. Menos clara é a motivação de corvos jovens quando convidam corvos que não são seus parentes para um banquete ou a de fêmeas de morcego-vampiro quando dividem um alimento com fêmeas não aparentadas. Já se observou altruísmo até entre espécies. Por exemplo, cadelas que alimentam pássaros e até filhotes de tigre. Recentemente um grupo de

cachalotes adotou um golfinho com deformidade. Na maioria dos casos, supõem os estudiosos, animais ajudam criaturas aparentadas porque isso os beneficia como um grupo. As fêmeas de morcego que partilham sangue vivem mais do que os machos que não o fazem, com potencial para reproduzir-se mais. Corvos que convidam um bando podem proteger seu alimento de aves maiores. Cientistas constatam que o comportamento altruísta tem variações. Quando o alimento é escasso, animais tendem a ajudar-se mutuamente de maneira a obter comida; quando o alimento é disponível, o altruísmo mais provavelmente assume a forma de proteção contra predadores. No longo prazo, o altruísmo pode nunca ser totalmente isento de egoísmo.

43. O QUE VIVE NOS MARES PROFUNDOS?

Apesar de o oceano ser o berço da vida, conhecemos menos sobre ele do que sobre a superfície da Lua ou Marte, e só vimos uma fração de seus habitantes. O Censo da Vida Marinha de 2010 indica um total de 250 mil espécies marinhas não bacterianas, mas estima que existam cerca de 750 mil a serem descobertas. As águas mais misteriosas são as de profundidades superiores a 1000 metros, onde a luz solar não chega. É um ambiente que exige muito de seus habitantes e dos exploradores. A escuridão significa ausência de fotossíntese e de ajuda da luz a predadores e presas. A maioria dos seres dessas profundezas vive de detritos que chegam de águas mais acima. As temperaturas beiram 0°C. A pressão pode chegar a aniquiladores 1000 atm (1 atm é aproximadamente a pressão ao nível do mar). Apenas submersíveis especiais podem navegar nessas regiões, e os espécimes vivos levados para a superfície geralmente morrem pelo caminho, incapazes de suportar pressões menores. É espantoso que formas de vida sobrevivam ali, mas cientistas já descobriram 5,7 mil espécies nessas águas trevosas. Entre elas há alguns gigantes surpreendentes, como o colossal lula de 14 metros de comprimento e o descomunal peixe regaleco, de 11 metros, que lembra uma serpente marinha. Vermes tubulares e bactérias encontrados pela primeira vez ao redor de chaminés marinhas em 1977 subsistem da quimiossíntese de compostos

sulfurosos; representam formas arcaicas de vida, mas são novidade para a ciência. Cerca de 500 novas espécies bênticas foram descobertas por ocasião do censo recente. Cada nova incursão às profundezas oceânicas encontra mais.

44. QUAL O SEGREDO DAS ÁRVORES LONGEVAS?

O Teixo de Llangernyw que abre seus ramos sobre um cemitério no País de

Gales viu a Idade do Bronze britânica. O primeiro da espécie Pinus Iongaeva, conhecido como Matusalém, na floresta de Inyo, na Califórnia, é ainda mais velho: 4765 anos, provavelmente a árvore individual mais antiga do mundo. Mas Pando, a colônia de choupos-tremedores em Utah, faz essas duas árvores parecerem brotos. Considerada um organismo vivo único porque seus troncos geneticamente idênticos emanam de um mesmo sistema de raízes, essa colônia tem no mínimo 80 mil anos. algumas estimativas chegam a dar-lhe 1 bilhão de anos de idade. Como árvores resistem ao processo de envelhecimento? Cientistas explicam que elas têm vantagens ausentes no corpo humano. Seus genes parecem não sofrer mutação nem danos com o tempo, elas conservam células semelhantes

a células-troncos a cada ciclo de crescimento, seus sistemas vasculares

permitem que parte da árvore sobreviva se outra parte morrer; elas são capazes de substituir órgãos danificados, e algumas podem produzir clones. Por que os estudiosos não conseguem estabelecer com certeza a idade da colônia Pando? Na falta de anéis de crescimento, os pesquisadores fazem estimativas baseadas no que conhecem a respeito das taxas de crescimento dos choupos. Outras colônias de choupos mais antigas ainda poderão ser descobertas no oeste dos Estados Unidos. Os cientistas também estão aprendendo a regenerar plantas antigas: em 2012, uma equipe russa informou ter cultivado uma delicada flor siberiana a partir de sementes de 32 mil anos.

45. ALGUNS ANIMAIS SÃO IMORTAIS?

Alguma coisa na água parece favorecer a longevidade, pelo menos para alguns animais. Entre elas as criaturas mais longevas do mundo estão o

bodião da espécie Sebastes aleutianus (205anos), a baleia-da-groenlândia (211 anos) e o molusco Arctica Islandica (400 anos). Mas uma água-viva

minúscula e prolífica ganha de todos eles: a Turritopsis nutrícula, apelidada de água-viva Benjamin Button. Ela pode reverter seu ciclo de vida, voltando a um estado juvenil e tornando a crescer. Essencialmente é mortal.

A Turritopsis foi descoberta no século 19, mas só em década recentes suas

notáveis capacidades vêm sendo estudadas. O pequeno hidrozoário, do tamanho de uma unha pode ser nativo do mar do Caribe, mas disseminou-se pelo mundo todo, provavelmente pegando carona em navios cargueiros. Nos anos 1980 pesquisadores descobriram que, quando estressada, a água-viva marinha pode mudar de forma e voltar ao estado de pólipo: suas células transformam-se em formas diferentes, juvenis. A colônia de pólipos

resultante pode então formar novas medusas, a forma madura de água-viva.

O rejuvenescimento só ocorre quando a água-viva é ameaçada; a maioria

delas vive e morre do jeito usual. Os cientistas duvidam que estudar as mudanças radicais do Turritopsis renderá algo parecido com a imortalidade humana. Mas a capacidade de essa criatura transformar geneticamente suas próprias células pode nos dar pistas para os mecanismos que controlam o destino das nossas células.

Associações As águas-vivas (cnidários) são um filo, surgido 600 milhões atrás. Fósseis desses animais de corpo mole são raros, mas revelam corpos semelhantes aos das criaturas atuais.

46. O QUE AMEAÇA OS ANFÍBIOS?

O sapo-dourado, da Costa Rica, um vívido símbolo da floresta Nebulosa,

transformou-se em um tipo diferente de emblema. Visto pela última vez na natureza em 1989, ele é uma das centenas de espécies de anfíbios que recentemente se extinguiram ou estão criticamente ameaçadas. Juntando-se a ele na lista sinistra estão a rã-dourada-do-panamá, o sapo Bufo Baxteri, o

sapo africano Callixalus pictus e muitos outros. Os herpetologistas calculam que anfíbios estejam desaparecendo a uma taxa de extinção 211 vezes maior que a normal, e até 50% das espécies estejam ameaçadas.

O porquê ainda está em estudo. Muitos fatores são prováveis. Habitats que

desaparecem, poluição da água, predadores exóticos e, em alguns lugares a

mudança climática e as secas resultantes podem estar matando essas criaturas. Mas uma ameaça que se destaca é uma doença causada por um fungo, a quitridiomicose. Cientistas encontraram o fungo em espécimes mortos desde a Austrália até as Américas.

Estudiosos pesquisam defesas bacterianas naturais contra o fungo existentes em algumas espécies, na esperança de que elas possam melhorar a imunidade de outras. Alguns pesquisadores até conseguiram reviver mortos: cientistas da Universidade de New South Wales criaram embriões com genes da extinta

rã do gênero Rheobatrachus.

47. O QUE CAUSA AS GRANDES EXTINÇÕES?

Extinção, o desaparecimento de uma espécie do mundo vivo, é um evento natural. Mas cinco vezes na história da Terra, no mínimo 50% de todas as espécies desapareceram numa extinção em massa. O que provoca essas catástrofes? Estamos em meio a uma sexta onda? As cinco grandes extinções, em ordem cronológica, foram:

Ordoviciano-Siluriano (em torno de 440 milhões de anos atrás): 85% das espécies marinhas. Causa desconhecida: a migração do supercontinente Godwana. Devoniano Superior (359 milhões de anos atrás): 75% das espécies,

particularmente corais. Causa desconhecida: impacto de cometa ou asteróide. Permiano (266-251 milhões de anos atrás): 95% das espécies marinhas e 70% das terrestres. Causa desconhecida: possivelmente impactos do espaço ou erupções vulcânicas. Fim do Triássico (200 milhões de anos atrás): 76% das espécies. Causa desconhecida: possíveis gigantescas erupções vulcânicas. Cretáceo-Terciário (65 milhões de anos atrás): 80% de todas as espécies incluindo os dinossauros. Causa: provavelmente impacto de asteróide.

A maioria dos biólogos acredita que estamos em meio a uma sexta e grande

extinção, a uma taxa 80 vezes maior que a normal. Se não for contida, 75% das espécies da Terra estarão extintas em 300 anos. A causa desta vez? Perda de hábitat, poluição, introdução de espécies não nativas e mudança climática são os principais fatores, todos associados à atividade humana.

48. A CIÊNCIA PODE ENCONTRAR A FONTE DA

CONSCIÊNCIA?

Eis uma questão antiqüíssima que ocupa filósofos, cientistas e crianças: o que é esse eu que vivencia o mundo? A nossa percepção de subjetividade, identidade ou senciência é um resultado físico do nosso cérebro grande? Ou a mente é distinta do corpo? Os cientistas tipicamente investigam essa questão da perspectiva da estrutura do cérebro. Talvez, supõem alguns, exista um ponto crítico no qual o número de conexões neuronais entre o córtex cerebral e o resto do cérebro origine a experiência da consciência. De uma perspectiva física, nossa vivência do mundo parece surgir das interações organizadas entre as áreas emocionais, sensoriais e executivas do cérebro. Mas ainda assim restam muitas perguntas. Estamos conscientes quando dormimos? E que dizer das ocasiões em que agimos antes de nos aperceber da nossa ocasião? Um computador avançado poderia tornar-se consciente? Muitos também indagam: somos os únicos animais conscientes? Não segundo a Conferência sobre a Consciência em Animais Humanos e Não Humanos de 2012. Os cientistas presentes, depois de analisar estudos de animais como o papagaio-cinzento, o elefante e o polvo, publicaram uma declaração que dizia, entre outras coisas: “O peso das provas indica que os humanos não são os únicos a possuir os substratos neurológicos geradores da consciência”.

49. COMO EXPLICAR A HISTERIA EM MASSA?

Em 1692, a jovem Betty Parris, do vilarejo de Salem, em Massachusetts, começou a se contorcer e a se queixar de estranhas dores e febres. Logo outras seis meninas apresentavam os mesmos sintomas, e a comunidade se assustou. O episódio encerrou-se com 20 homens e mulheres sendo enforcados por bruxaria, acusados de causarem a moléstia. Trezentos e vinte anos depois, quase 20 adolescentes em Le Roy, Nova York, começara a crispar-se, ter tiques e se contorcer com espasmos. Desta vez a bruxaria não entrou na lista de causas, que teve de tudo, incluindo infecções,

vacinas e toxinas do ambiente. No fim, os médicos chegaram ao mesmo

diagnóstico para os incidentes de Le Roy e Salem: distúrbio de conversão, sintomas neurológicos com origem em conflito psicológico. Em grupos, é conhecido como epidemia ou histeria em massa.

A histeria em massa já existia no antigo Egito. A raiz da palavra “histeria”

significa “útero”, referindo o fato inegável de que a maioria de quem a sofre é do sexo feminino. Muitos episódios começam com a sensação de um cheiro estranho. Alguns vêm e vão em um dia, enquanto outros, como o incidente de Le Roy, duram semanas. Ainda não se identificou uma causa isolada da histeria em massa. O estresse parece ser um fator precipitante, e os incidentes podem ser magnificados pela atenção pública, o tipo de notoriedade facilmente obtido na era da mídia social.

50. POR QUE SE SUCUMBE À SÍNDROME DE

ESTOCOLMO?

Um dos mais famosos, símbolos da síndrome e Estocolmo é Patty Hearst, a herdeira seqüestrada em 1974. Dois meses depois de ser levada pelo grupo

terrorista Exército Simbionês de Libertação (ESL), Hearst roubou um banco em San Francisco com membros da ESL. Permaneceu com o grupo, fugindo do FBI, até ser capturada em 1975.

O comportamento de Hearst é típico da síndrome de Estocolmo, cujo nome

deriva do assalto ao banco Kreditbanken, em Estocolmo, na Suécia. Depois de serem mantidos como reféns sob a mira de armas por seis dias em um cofre do banco, cativos lutavam contras os policiais que foram resgatá-los, e um deles criou um fundo para custear a defesa dos criminosos. Segundo o FBI, a síndrome ocorre em menos de 30% dos casos de reféns. Surge mais frequentemente em crises emocionalmente intensas quando o cativo (1) não

consegue escapar e fica sob o controle de estranhos; (2) é isolado do resto do mundo; (3) teme pela vida e (4) não é ferido pelo seqüestrador.

A base para a síndrome não é clara. Psicólogos freudianos dizem que a

vítima, privada da independência, regride a um estado infantil. Outros afirmam que se trata de uma reação involuntária ao perigo. Os cativos precisam adquirir uma sensibilidade acentuada aos estados de espírito do seqüestrador – desenvolver um vínculo atenua o estresse e dá à vítima a

ilusão de que o afeto prevenirá maus-tratos.

51. SEMPRE FICAMOS INCONSCIENTES SOB ANESTESIA?

A anestesia é aclamada como uma das maiores descobertas da medicina. A

anestesia geral suprime a consciência, a dor, os movimentos e a memória de procedimentos dolorosos. Os médicos sabem que as substâncias afetam o cérebro, mas ignoram como e onde. Há pesquisas para prevenir uma complicação rara na qual pacientes “acordam” durante a cirurgia mas não consegue se mover nem falar. Talvez em um ou dois casos em mil, pacientes relatam ter tido alguma sensação ou ouvido médicos falarem. A maioria não sente dor, mas as memórias podem ser traumáticas. Muitos hospitais

recorrem a um monitor do índice bispectral (BIS), que analisa ondas cerebrais para medir o nível de consciência do paciente antes da cirurgia. Mas estudos recentes mostraram que o monitor não pode prevenir a consciência sob anestesia. Outra técnica lança alguma luz sob o problema. Tomografias PET

de cérebros em recuperação de anestesia revelam que a consciência aparecem

primeiro em estruturas antigas e profundas, como o tálamo e o sistema límbico. Isso poderia explicar por que aparelhos que monitoram apenas o córtex são menos eficazes. Um dia, talvez, esses estudos do processo de despertar possam até explicar exatamente como sinais entre regiões cerebrais interligadas contribuem para a consciência humana.

Associações Pessoas ruivas têm uma modificação genética que as torna mais sensíveis à dor, por isso podem necessitar de anestesia mais forte do que outros pacientes.

52. POR QUE É POSSÍVEL SENTIR UM MEMBRO

FANTASMA?

O fenômeno dos membros fantasmas é tão antigo quanto a existência de

pessoas que perderam partes do corpo. O capitão Ahab queixou-se em Moby Dick. “Põe a tua perna viva aqui no lugar onde um dia esteve a minha”, ele diz. “agora, pois, há somente uma perna distinta aos olhos, mas duas à alma. Onde tu sentes a vida formigar, ali, exatamente ali, até o último pelo, também

eu sinto”. A maioria da pessoas que perdem um membro continua a ter

sensações na parte desaparecida. Até os anos 1980, a explicação mais comum era que, de algum modo, irritação em terminais nervosos causavam essa ilusão. Estudos recentes indicam que a sensação começa no cérebro. O corpo

é “mapeado” para o córtex somatossensorial; algumas partes lidam com

sensações provenientes dos lábios, enquanto outras registram o ombro. Quando um membro é amputado, o mapa no cérebro deixa de corresponder ao corpo percebido, o que resulta em dor. O mapa do corpo também pode ser reescrito. Um paciente pode enganar seu cérebro se puser um espelho ao lado de seu membro intacto e mover esse membro até que o cérebro acredite que o fantasma está se movendo.

Associações Pessoas que tiveram membros esmagados ou paralisados, e algumas nascidas com membro encurtados ou ausentes, também podem sentir movimentos e dores fantasmas.

53. POR QUE DORMIMOS?

O renomado estudioso do sono William Dement, da Universidade Stanford,

explica: “A única razão por que precisamos dormir

raciocínio parece circular, e é. Décadas de pesquisas não atinaram com a

razão de o sono existir. De uma perspectiva evolucionária, dormir parece ser um desperdício e um perigo. Animais não se reproduzem enquanto dormem,

e podem ficar vulneráveis a predadores. No entanto, dormir parece ser

essencial; o ser humano faz isso por aproximadamente oito horas diárias, assim como todas as aves e mamíferos. Portadores de uma forma rara de insônia geralmente morrem dentro de poucos anos. ratos impedidos de dormir morrem em semanas, e a autópsia não revela causas físicas. Há muitas teorias, nenhuma provada, sobre as razões do sono. Alguns cientistas acreditam que ele deve favorecer o funcionamento do cérebro. Experimentos mostravam que durante o sono o cérebro pode consolidar informações aprendidas, enquanto elimina outras conexões subutilizadas. Outros pesquisadores julgam que o sono também beneficia o corpo, conservando energia e recursos enquanto permite um despertar rápido em caso de perigo. Uma coisa os insones sabem: o sono faz uma falta danada.

é que sentimos sono”. O

54. O QUE SIGNIFICAM OS SONHOS?

Freud considerava os sonhos “a estrada real para conhecermos as atividades da mente inconsciente”. Nos sonhos, ele disse, vemos os nossos desejos reprimidos. E, para muitas pessoas, as emoções e símbolos dos sonhos trazem compreensão. Se os sonhos contêm pistas para memórias ou desejos, essas tipicamente refletem aflição. Entre os não conseguir chegar a tempo para fazer uma prova, estar nu em público, perder um avião ou trem ou perder-se. Raramente são surreais; tendem a ser banais, com rostos conhecidos e em lugares corriqueiros. Cientistas de inclinações mais mecanicistas procuram razões neurológicas para sonhar. A maioria dos sonhos (porém não todos) ocorre durante o sono REM (movimento rápido dos olhos). Experimentos indicam que, ao tirarem cochilos que incluem sono REM, as pessoas saem-se melhor em tarefas criativas do que as que não sonham. Pessoas que dormem por tempo suficiente para sonhar também podem perceber uma atenuação de memórias dolorosas quando acordam. Alguns pesquisadores supõem que os sonhos não têm nenhum significado intrínseco – seriam simplesmente o modo como o cérebro interpreta sinais aleatórios durante o sono, ligando os pontos na mente enquanto o cérebro executa uma faxina noturna.

55. POR QUE BOCEJAMOS?

Cobras, gatos e até os fetos no útero bocejam. Todos os tipos de animais bocejam, e não sabemos por quê. Quando bocejamos, abrimos a boca, inalamos, a membrana timpânica estica-se e então exalamos. As pessoas bocejam quando estão cansadas ou entediadas, e também quando nervosas. É um ato involuntário – você pode fingir um bocejo, mas não é a mesma coisa. Em grande medida, foi refutada a teoria de que o bocejo expele dióxido de carbono do corpo e ajuda a acordar. No entanto, o movimento pode estimular o estado de alerta. Níveis de crescimento de neurotransmissores como serotonina e dopamina estão associados ao aumento de bocejos, ao passo que, quando aumentam as endorfinas, boceja-se menos. Quando bocejamos, o seio maxilar (cavidade cheia de ar próxima ao nariz)

expande-se e bombeia ar fresco para o cérebro. Cientistas descobriram que a temperatura cerebral eleva-se um pouco antes de um bocejo e torna a baixar depois dele. O bocejo contagia, pelo menos para a maioria dos seres humanos e alguns animais. Estudos mostram que pessoas com mais empatia têm maior probabilidade de bocejar ao verem alguém bocejando. Até cães, quando sintonizados com os sinais sociais, bocejam ao verem um ser humano fazendo isso. Recém-nascidos e as crianças autistas não têm esse comportamento.

Associações O ato de bocejar é tecnicamente conhecido como oscilação e é algo que todos os vertebrados fazem; bocejar enquanto se espreguiça chama-se pandiculação.

56. PARA QUE SERVE O RISO?

Entender o riso é diferente de entender o humor, embora os dois sejam misteriosos, cada um a seu modo. As exalações e vocalizadas e os músculos faciais distendidos que constituem o riso são reações involuntárias, evidentes em humanos a partir dos 3 ou 4 meses de idade. O som parece ser controlado por partes do cérebro associadas à respiração. O riso reduz o estresse e produz sentimentos positivos, o que não é de surpreender; neurônios associados ao prazer brilham nos exames de imagem quando as pessoas riem. Ri-se mais frequentemente em situações corriqueiras, isto é, não especialmente engraçadas. Pesquisadores observaram interações sociais e constataram que é mais comum o riso aparecer depois de comentários comuns, por exemplo, “Lá vem a Maria” ou “Como foi a prova?” O riso parece estar mais relacionado com o vínculo social do que com o humor em si. As pessoas riem juntas depois que o perigo passou. Usam o riso para promover a confiança e também para indicar um lugar na hierarquia social: as figuras dominantes em um grupo riem mais. Ainda não se sabe por que, exatamente, essa reação física evoluiu dessa maneira e como o humor a desencadeia. Quem sabe a resposta acabe sendo engraçada.

Associações Ao ouvirem piadas, as pessoas riem com mais freqüência se a piada lhes parecer verossímil, ou seja, se concordar com suas preconcepções. Isso pode reforçar um sentimento de confiança e coesão social.

57. QUAL A FUNÇÃO DO SOLUÇO?

“Quando você era um girino e eu era um peixe/no tempo Paleozoico”. Lagdon Smith compôs o poema Evolution para evocar um caso de amor imemorial, mas eles também poderiam figurar na história do soluço. Uma teoria recente baseia-se na evolução para explicar o incômodo tique físico. Durante um soluço, um espasmo nervoso provoca uma contração abrupta nos músculos do diafragma e em outros músculos. A glote, incluindo as cordas vocais, fecha-se na parte superior das vias aéreas, provocando o som característico do soluço. Nos peixes, os nervos que controlam a respiração começam no tronco cerebral e percorrem uma curta distância até as gueiras; nos mamíferos, o trajeto é mais longo e menos eficiente, e essa rota dá margem a espasmos e irritações. A parada da glote que produz o soluço também é observada em animais, como os girinos. Quando um girino bombeia água através das gueiras, a glote fecha a entrada de seus pulmões, para que o animal não se afogue. A região antiga do cérebro que controla esse comportamento é encontrada no cérebro humano. Cientistas descobriram que com estímulos podem desencadear uma crise de soluço. O que ainda ninguém sabe: como deter os espasmos depois de eles terem começado.

58. POR QUE TEMOS IMPRESSÕES DIGITAIS?

Impressões digitais são as marcas visíveis deixadas pelas delicadas cristas espiraladas da pele das extremidades dos dedos. Essas cristas, que existem nas superfícies carnudas das mãos e pés, começam a formar-se no feto na décima semana de vida e não mudam depois do nascimento. Pressupõe-se que não existem duas pessoas com impressões digitais iguais; até os gêmeos idênticos têm cristas ligeiramente diferentes, provavelmente devido a pequenas variações no ambiente pré-natal. Mas para que servem essas cristas? Uma hipótese é que sejam “cristas de atrito para produzirem tração quando a mão segura pequenos objetos. Porém experimentos recentes que testaram a força do atrito dos dedos sobre uma lâmina lisa de resina de acrílico transparente mostraram que, na verdade, as cristas reduzem o atrito, pois diminuem o contato entre a pele e a superfície. É possível, no entanto, que elas dêem mais firmeza quando a mão segura um

objeto áspero ou quando pega firmemente alguma coisa lisa. Outro estudo tem uma teoria diferente: a pele sulcada pode produzir mais vibrações quando desliza através de um objeto, permitindo que os nervos sensitivos da pele captem impressões mais facilmente. Uma terceira teoria: as cristas permitem que a água escoe dos dedos, como na superfície sulcada de uma rodovia. Só parece improvável que as cristas das impressões digitais tenham evoluído para ajudar a polícia a encontrar os criminosos.

59. POR QUE UMA CÉLULA TORNA-SE CANCEROSA?

Todo câncer começa com uma única célula que decide não morrer. Essa célula destoante pode residir em quase todos os tipos de tecido, por exemplo, nos ossos, pulmões ou sangue. Ela se divide varias vezes, e suas células filhas fazem o mesmo, em um surto descontrolado de crescimento que tipicamente produz um tumor. Células que se desmembram do tumor original podem seguir para outras partes do corpo e invadir outros tecidos. Cientistas do mundo todo ainda estão tentando entender o mecanismo de crescimento anárquico e o que o desencadeia. A busca é complicada porque o próprio câncer é complicado: existem mais de 100 formas distintas. Mas quase certamente o problema começa no DNA da célula. Em uma célula cancerosa, os controles normais que determinam quando uma célula para de crescer e se dividir foram desativados. Muitos agentes podem causar mutações em genes, entre eles radiação, substâncias químicas e vírus. Em alguns casos isso pode não ser prejudicial. Mas hoje sabemos que o crescimento celular é controlado por certos genes especializados. Proto-onco- supressores de tumor inibem essa divisão. Um dano a esses genes pode abrir a porta para o crescimento descontrolado. Outros sistemas regulam o crescimento e a morte de células, entre eles uma complexa rede de controles internos para reparar danos e prevenir a divisão controlada. Entender como se pode impedir uma pane é a chave para encontrar a cura.

60. POR QUE O CORPO ENVELHECE?

O envelhecimento – especificamente, a senescência, a gradual degradação do corpo com o avanço da idade – é um conjunto de mudanças celulares que ocorre na fase adulta. Com o tempo, as células passam a funcionar com menos eficiência. Por fim, param de se dividir e morrem. Em conseqüência, tecidos encolhem e órgãos não funcionam tão bem quanto antes.

O envelhecimento é um mistério. O que determina esse declínio? As

numerosas teorias são agrupáveis em duas vertentes: a do dano gradual com o tempo e a da programação genética. A primeira supõe que o corpo envelhece em razão do desgaste celular. Acumulam-se resíduos, sistemas de apoio falham, mecanismos de reparo entram em pane e o corpo vai se esgotando. Em particular pesquisadores descobriram que proteínas danificadas e moléculas destrutivas chamadas radicais livres podem acumular-se nas células com o tempo. Além disso, o DNA sofre danos e mutações. A segunda vertente diz que o envelhecimento é regido por um relógio molecular interno ajustado segundo um cronograma. Corroboram essa ideia estudos com animais nos quais os cientistas alteraram apenas um gene e aumentaram o tempo de vida de um animal. Quanto à evolução, os benefícios da seleção natural declinam acentuadamente após a idade reprodutiva. Portanto, a evolução favorece genes que são úteis nas primeiras fases da vida. O corpo precisa fazer compensações, e desfrutamos o lado positivo delas na juventude.

61. QUANDO COMEÇARÁ A PRÓXIMA GRANDE

PANDEMIA?

Em 2003, um homem doente, com tosse, passou uma noite em um quarto de hotel em Hong Kong. Em poucos dias, 16 pessoas que estiveram nas proximidades de seu quarto também adoeceram. Algumas embarcaram em

aviões e atravessaram o oceano. Em alguns meses, a doença alastrou-se velozmente pelo mundo, matando 775 pessoas de 8273 infectadas.

A sars (síndrome respiratória aguda grave) é apenas uma dentre muitas

doenças modernas que ameaçaram transformar-se em uma epidemia mundial,

ou pandemia. A gripe espanhola de 1918-1919, que segundo estimativas

matou 50 milhões de pessoas, e a AIDS, com aproximadamente 30 milhões de mortes até agora, são assustadores exemplos de pandemia.

Podemos prever onde começará a próxima pandemia? Não temos certeza; a

natureza é a rainha da invenção. Mas a história nos dá algumas pistas. Para começar, a próxima provavelmente será causada por um vírus de RNA, como os responsáveis pela AIDS e a sars. Vírus de RNA sofrem mutação facilmente, o que lhes permite evoluir depressa em uma ampla gama de hospedeiros. Provavelmente a pandemia será zoonótica, ou seja, passará de um animal hospedeiro para humanos. Foi o que aconteceu com muitas das doenças perigosas da história, como a raiva (cães e outros mamíferos), a AIDS (primatas), o hantavírus (roedores) e várias formas de gripe aviária (galinhas e outras aves domésticas). E provavelmente começará na África ou na Ásia, onde multidões vivem próximas de animais selvagens e domésticos

– mas se alastrará em alta velocidade, por causa da moderna rede mundial de viagens e marítimas.

62. EXISTE VIDA APÓS A MORTE?

Pessoas acreditam em vida após a morte desde o tempo em que os primeiros humanos enterravam seus finados com alimentos e armas. A realidade de

uma vida além desta é o alicerce de muitas fés. Fora dos limites da fé, porém,

a questão é tema de acirrados debates, mas nada que se baseie em provas.

Os argumentos em favor da vida após a morte costumam citar relatos de experiências de quase morte. Tipicamente, são casos em que alguém perde a consciência durante um acidente ou operação. A pessoa tem a sensação de deixar o corpo, flutuar e ver a si mesma do alto. Pode estar envolta em uma luz e ver um ente querido ou bondoso que lhe diz que ela precisa voltar a viver. Embora muitos que relatam esses incidentes não estivessem em condição crítica, alguns quase morreram, e acreditam que vislumbraram outra vida. No livro Uma Prova do Céu, o neurocientista Eben Alexander conta que entrou em outra dimensão durante o coma e encontrou uma figura angelical. Milhares de histórias parecidas já foram registradas; não há dúvida de que muitos que as contaram tiveram algum tipo de experiência transcendente. Os argumentos contra a existência de vida após a morte citam provas de que essas experiências são meras alucinações. Neurologistas conseguiram provocar a sensação de sair do corpo estimulando os lobos temporais de

pessoas em experimentos. Não há prova de que um paciente inconsciente soube de coisas durante uma experiência extracorpórea que ele não teria sabido sem essa experiência. Tampouco existe qualquer outro tipo de indício que ateste uma vida após a morte.

Associações Estudo publicado no Journal of Positive Medicine em 2009 pode corroborar experiências de quase morte. Picos idênticos de atividade cerebral foram observados em sete pacientes pouco antes da morte. Isso explicaria a sensação de “sair do corpo”.

FORÇAS NATURAIS

O nascimento, a morte e a física do Universo são grandes questões ainda à espera de grandes respostas. E o que é esse incômodo zumbido no Novo México?

63. COMO O UNIVERSO COMEÇOU?

A história é bem conhecida e apócrifa: um cientista está falando em uma conferência sobre astronomia quando uma mulher se levanta na platéia e o contradiz: “O Universo está nas costas de uma tartaruga gigante”, ele diz “Mas a tartaruga, está em cima do quê”, ele indaga. “Muito esperto, moço”, ela replica, “mas é uma tartaruga em cima de outra, sem fim!”. Os cosmólogos que procuram entender o que aconteceu no início do tempo acabam fazendo perguntas circulares semelhantes. Embora muitos (mas não todos) concordem sobre o que aconteceu no Universo a partir de uns poucos instantes após o Big Bang, profundas barreiras cientificas e filosóficas se interpõem em nosso caminho para compreender o que houve antes: a transição do nada para alguma coisa. Uma cronologia clássica era assim: aproximadamente 13,8 bilhões de anos atrás, logo depois que o Universo começou, ele era inconcebivelmente pequeno, quente e denso. A gravidade, o eletromagnetismo e as forças fortes e fracas estavam unificados. Por um breve tempo, o Universo expandiu-se a velocidades extraordinárias em um período de inflação cósmica. As forças básicas separaram-se. Conforme o Universo foi esfriando nos milhares de anos seguintes, formaram-se partículas, depois átomos, e o Universo começou a se parecer com aquilo que conhecemos, com matéria condensando-se em estrelas e planetas. Esse cenário ainda questiona o que existia antes do Big Bang. Nenhuma informação sobre esses momentos pode chegar até nós, mas alguns físicos apresentaram uma interpretação. Segundo a física quântica, mesmo no vácuo perfeito flutuações aleatórias podem produzir matéria e energia. Talvez o Universo simplesmente tenha surgido instantaneamente. Os críticos replicam que essa resposta supõe que as leis da física já existiam, uma variação da analogia da tartaruga: é física em cima de física, sem fim.

Associações Algumas teorias da física predizem que, além do nosso Universo, pode ter surgido um número quase infinito de outros. Mas nunca seremos capazes de detectar os outros membros do Multiverso nem de fazer contato com eles.

64. O QUE É GRAVIDADE?

Para Isaac Newton, gravidade era uma força universal atuando sobre a matéria: cada partícula de matéria atraía todas as demais, e a força de atração diminuía rapidamente com a distância. Para Einstein a gravidade estava embutida no tecido espaçotemporal: um objeto imenso faz o espaço-tempo curvar-se ao redor dele, como um cobertor sob uma bola de boliche. Para a física quântica, é uma das forças de natureza, juntamente com a força eletromagnética e as forças fortes e fracas do núcleo atômico. Todas essas teorias têm alicerces experimentais e são internamente consistentes. Mas infelizmente as duas últimas são incompatíveis entre si. A teoria de Einstein prediz que corpos em aceleração produzirão ondas gravitacionais – elas ainda não foram detectadas. A teoria quântica prediz que a gravidade seria transmitida por partículas; assim como a força eletromagnética é mediada por fótons, a gravidade seria mediada por grávitons. Estes também ainda não foram detectados. Os físicos também não conseguiram unificar a gravidade com as outras três forças. Para aumentar o mistério, descobertas da cosmologia estão levando alguns físicos a questionar o básico. Talvez precisemos reescrever as regras da gravidade para explicar nosso Universo escuro e acelerado.

65. ONDE ESTÁ A ANTIMATÉRIA?

Na emocionante primeira parte do século 20, quando a física estava redesenhando nossa imagem da matéria, os cientistas notaram que cada partícula tem de ter uma antipartícula – com a mesma massa, mas de carga oposta. Assim, os elétrons (carga negativa) têm de ter seus correspondentes em pósitrons (carga positiva); os prótons (carga positiva) têm de ter uma contrapartida em antiprótons (carga negativa). De fato, experimentos podem produzir essas partículas em grandes quantidades. Mas é preciso manter separadas as partículas de matéria e antimatéria, ou se aniquilarão mutuamente em uma explosão de energia. A física diz que, durante o Big Bang, devem ter sido criadas quantidades iguais de matéria e antimatéria. Aqui está o xis da questão: embora tenhamos detectado antipartículas no espaço, tudo o que vemos é feito de matéria. Onde

foi parar a antimatéria? A antimatéria não encontrada continua a ser um dos enigmas da cosmologia. Uma explicação diz que partículas e antipartículas podem diferir ligeiramente em sua taxa de desintegração. Mesmo uma minúscula variação poderia, com o passar do tempo, levar à assimetria atual. Experimentos no Grande Colisor de Hádrons, em Genebra, poderão trazer alguma luz ao problema.

Associações Espaçonaves impelidas por antimatéria não estão limitadas à ficção científica. A NASA financia pesquisas sobre motores de pósitron, que poderiam transportar uma tripulação até Marte com apenas alguns miligramas de antimatéria.

66. O QUE É MATÉRIA ESCURA?

O astrônomo suíço Fritz Zwicky, quando estudava aglomerados de galáxias nos anos 1930, chegou a uma conclusão desnorteante, às velocidades que ele observou, os aglomerados deveriam estar arremessando suas estrelas no espaço como crianças que soltassem as mãos num carrossel veloz. Aqueles aglomerados só poderiam estar mantendo sua coesão se contivessem mais massa do que qualquer um jamais vira. Medições do movimento galáctico feitas posteriormente reforçaram o mistério da matéria escura. Hoje os físicos acreditam que aproximadamente 27% da matéria no Universo consiste nesta substância que não emitem nem reflete luz. A matéria escura poderia ser formada por objetos comuns não vistos, como estrelas anãs maciças e buracos negros. Mas os cientistas têm uma segunda hipótese: partículas maciças de interação fraca (WIMPS, na sigla em inglês). Essas partículas exóticas teriam pouca massa individualmente, portanto seriam difíceis de detectar, mas poderiam ser tão numerosas e difundidas que produziriam o efeito gravitacional requerido. Experimentos a bordo da Estação Espacial internacional detectaram partículas de alta energia que poderiam, talvez, te sido alijadas pela colisão de partículas de matéria escura.

67. QUAL A ORIGEM DOS PODEROSOS RAIOS

CÓSMICOS?

Fique ao ar livre e mais ou menos uma vez por segundo você será atingido por um raio cósmico. Não sente? É porque cada “raio” é uma partícula subatômica, tipicamente um próton. Observados já por uns 100 anos, raios

cósmicos entram na atmosfera da Terra em alta velocidade vindos de todas as direções. Alguns provêm do Sol, mas a maioria chega de fontes remotas e desconhecidas. Alguns têm tanta energia que viajam quase à velocidade da luz. Há tempos os cientistas se perguntam que tipo de explosão poderia impelir uma partícula a essas velocidades. É impossível identificar a origem de uma partícula, pois os raios curvam-se ao longo dos campos magnéticos que permeiam o espaço interestelar e rodeiam a Terra. Recentemente, porém, pesquisadores descobriram indícios

de ligação entre os raios ultraenergéticos e campos magnéticos ao redor de

vestígios de supernovas. Algumas partículas carregadas nesses campos aceleram-se em torno da onda de choque da supernova, ganham velocidade e arrojam-se como uma bala pelo espaço. Em fevereiro de 2013, astrônomos anunciaram que o Telescópio Espacial de Raios Gama Fermi havia detectado radiação gama característica dessas interações ao redor de vestígios de duas supernovas – não é uma prova, mas é nossa melhor pista até agora para a fonte dessas partículas.

68. POR QUE A COROA SOLAR É TÃO QUENTE?

No núcleo, o Sol registra temperaturas em torno de 16 milhões de °C, um calor inconcebivelmente intenso capaz de fundir átomos e liberar a energia que sustenta a Terra. As temperaturas caem conforme aumenta a distância em

relação ao núcleo, e chegam a amenos 5,5 mil °C na superfície visível do Sol.

E então, inexplicavelmente, o calor torna a aumentar na emplumada

atmosfera exterior do Sol, a coroa, variando entre 1 milhão de °C e 5 milhões

de °C. Esse calor externo intriga os astrônomos há anos.

Telescópios avançados estão fornecendo pistas para a razão de tanto calor. Dois mecanismos responsáveis podem ser os responsáveis. Sabemos há tempos que campos magnéticos volteiam através do Sol, subindo e descendo pelas manchas solares e contribuindo para o caos borbulhante e redemoinhante da estrela. Ao que parece, esses campos criam ondas magneto-hidrodinâmicas, que propelem energia da parte interna do Sol para a

coroa. As temperaturas mais altas podem provir de um movimento magnético diferente. Linhas de fluxo magnético aparentemente se torcem em emaranhados e depois tornam a separar-se, liberando tanta energia que a temperatura da coroa alcança milhões de graus.

69. AS MANCHAS SOLARES AFETAM O CLIMA DA

TERRA?

Antes de saberem o que eram manchas solares, observadores já as acompanhavam. O astrônomo amador Samuel Heinrich Schwabe, do século 19, registrou as manchas escuras na superfície solar todos os dias durante 17 anos, e percebeu que o número de manchas aumentava e diminuía segundo um ciclo de 11 anos. Tempos depois, cientistas descobriram que as manchas solares indicam lugares onde campos magnéticos irrompem na superfície

visível do Sol. Quando o ciclo está no auge, a radiação aumenta e o Sol torna-

se

particularmente tempestuoso, com explosões solares que podem perturbar

as

transmissões elétricas na Terra.

A

teoria de que as manchas podem fazer mais do que isso – e afetar o clima

da

Terra, por exemplo – por muito tempo foi ridicularizada. Mas agora essa

ideia ganhou reconhecimento. Um período de atividade extremamente baixa em manchas solares de 1645 a 1715, conhecido como Mínimo de Maunder, foi associado a um gélido período na Terra, quando as temperaturas medias ficaram em torno de 0,7 °C abaixo do normal. Estudos de anéis de árvores indicam uma associação entre ciclos solares e o clima. Mas o clima da Terra é muito complexo e seus mecanismos ainda estão sendo estudados, por isso não temos o veredicto sobre a questão das manchas solares.

70. COMO SER FORMOU A LUA?

A Lua, o único satélite da Terra, é nossa velha companheira, mas suas

origens são obscuras. Teorias supunham que ela havia se formado na mesma

época em que a Terra, de fragmentos dos primeiros tempos do sistema solar,

ou que a Terra teria capturado a Lua, que vagava pelo espaço. Mas estudos

das rochas lunares e a física de uma captura desse tipo mostram que essas ideias são implausíveis.

O atual modelo da origem da Lua é o mais aceito. Nos primeiros tempos da

Terra, há cerca de 4,5 bilhões de anos, o planeta sofreu um esbarrão titânico de um objeto do tamanho de Marte. Fragmentos da crosta e do manto foram arremessados ao espaço, fundiram-se em um disco com partes do corpo responsável pelo impacto, e esse disco, ao coalescer, formou a Lua. Essa teoria encontra respaldo na composição da Lua e na matemática da rotação da Terra e de seu satélite. No entanto, estudos recentes de rochas lunares puseram em dúvida essa ideia. Se as rochas lunares são uma mistura da Terra e do corpo colisor, sua composição química deveria refletir isso. Mas as rochas parecem quimicamente idênticas às da Terra. Os cientistas não descartaram a hipótese do impacto, mas ainda precisam explicar como os fragmentos se transformaram na Lua.

71. A TERRA EMITE UM SOM DE ZUMBIDO?

O som é descrito como um ruído surdo grave, irritante, como o de um motor

a diesel distante. Nos mais variados lugares, desde Auckland, na Nova

Zelândia, até Beaufort, na Irlanda, pessoas dizem que o ouvem. Na maioria desses locais, o barulho de máquinas ou do tráfego foram descartados como fonte. Um dos zumbidos é relatado em Taos, no Novo México, e tem ensejado queixas desde os anos 1990. O povo estava tão incomodado que apresentou uma petição à delegação do Congresso no Novo México solicitando uma investigação. O pedido foi atendido. Uma equipe da Universidade do Novo México foi a Taos, entrevistou os moradores e instalou microfones. Determinaram que aproximadamente 2% dos residentes ouviam o barulho: o ruído surdo de baixa freqüência em mi bemol. Excluíram a ressonância da rede de força e vibrações militares distantes. Concluíram:

“Não há sinais acústicos conhecidos que possam estar produzindo o zumbido”. Muitas explicações foram aventadas: tinido auditivo (embora quem sofra dessa condição perceba um som agudo), máquinas de localização ainda não descoberta ou simplesmente uma sensibilidade exacerbada a ruído de fundo normal.

Associações A Terra faz barulho, sim, mas muito abaixo dos limites da audição humana. Entre seus sons estão ruídos de ondas oceânicas e crepitações graves. Alguns podem ser captados por receptores de rádio de muita baixa freqüência (VLF).

72. QUAL A NATUREZA DO NÚCLEO DA TERRA?

O núcleo terrestre começa a 2,9 mil quilômetros abaixo de nós, mas é tão

inacessível que parece estar em outra galáxia. Cientistas chegaram a uma noção aproximada de sua natureza estudando como ondas sísmicas atravessam o planeta, aferindo a massa e a densidade da Terra segundo o

modo como ela interage com outros corpos e sondando as camadas exteriores

do planeta.

Baseados nessas medições, os cientistas julgam que o núcleo é uma esfera metálica como um raio de aproximadamente 3,5 mil quilômetros, o tamanho

de Marte. Pode ter duas camadas, um núcleo interno de liga de ferro sólido e

um núcleo externo de liga de ferro líquido. As temperaturas podem chegar a 5,5 mil °C no núcleo interno. É esse calor que impele os deslocamentos das placas tectônicas. Ainda há questões a responder. Algumas descobertas apontam que o núcleo interno encerra um núcleo ainda mais interior, menor, de ferro sólido. Medições indicam que o núcleo interno pode ter uma rotação com velocidade diferente do restante da Terra. Estudos constataram mais calor do que o previsto emanado do núcleo: mais uma vez, não sabemos por quê. O cientista David Stevenson sugeriu, meio a sério, fazer um furo no planeta e enviar uma sonda. Sem dúvida, muitos cientistas gostariam que fosse possível fazer exatamente isso.

73. O QUE CAUSA AS INVERSÕES NO CAMPO

MAGNÉTICO DA TERRA?

O campo magnético da Terra, gerado por correntes em seu núcleo de ferro

líquido, protege o planeta como um imenso guarda-chuva de radiações cósmicas letais. No século 20, ao estudarem padrões magnéticos em rochas do leito oceânico, geólogos descobriram que essa característica do planeta é inconstante: muda sua polaridade em intervalos aparentemente aleatórios no

decorrer dos milênios. O norte magnético torna-se o sul, repetidamente. Em média, a inversão do campo acontece aproximadamente a cada 200 mil anos, mas já passaram 780 mil longos anos desde a última mudança (embora um estudo recente afirme que houve uma inversão breve há 41 mil anos, na

última Idade do Gelo). Uma inversão pode levar milhares de anos, durante os quais o campo pode enfraquecer-se, surgindo mais de um polo magnético. Não sabemos o que provoca essas mudanças. Alguns modelos feitos em computador do dínamo magnético no núcleo terrestre sugerem que pequenas instabilidades no campo podem transformar-se em inversões completas.

O campo magnético agora está 10% mais fraco do que quando foi medido no

século 19, o que talvez pressagie uma inversão iminente. Os geocientistas dizem que não precisamos nos preocupar: o processo leva muito tempo e não deverá afetar significativamente a vida na Terra.

74. DE QUE MODO COMEÇOU A VIDA NA TERRA?

Entre 4 e 3,5 bilhões de anos atrás, a jovem Terra atravessou um limiar e se tornou um planeta vivo. Como as primeiras formas de vida – organismos que absorviam energia e se reproduziam – surgiram nos oceanos do planeta? Duas escolas de pensamento supõem que a vida originou-se de substâncias orgânicas simples. Uma acha que as substâncias da vida chegaram à Terra vindas do espaço. Cientistas encontraram um número surpreendente de moléculas orgânicas complexas no espaço. A análise espectral de nuvens de

moléculas interestelares revela substâncias químicas orgânicas como açúcares – compostos orgânicos também foram descobertos em cometas e meteoritos. Não é improvável, talvez até seja provável, que cometas e outros fragmentos gelados do espaço, ao despencarem na Terra primeva, tenham trazido substâncias químicas orgânicas já prontas para a superfície do planeta.

A outra escola de pensamento, mais comum acredita que a vida surgiu de

reações químicas no oceano. O famoso experimento de Miller-Urey, de 1953,

no qual cientistas energizaram uma “sopa primordial” com uma carga elétrica

e viram surgir aminoácidos, mostrou que não são necessárias condições

especiais para a formação de substâncias químicas orgânicas. Muitas variações dessa hipótese foram propostas, entre elas a de substâncias orgânicas surgindo nas águas quentes próximas de chaminés hidrotermais ou

sob o gelo de oceanos congelados.

O

próximo passo é difícil de decifrar: como substâncias químicas orgânicas

se

organizam em um sistema autorreplicante com proteínas e ácidos nucléicos

trabalhando juntos? Muitos cientista acreditam que o RNA, e não o DNA, foi a primeira forma de código genético – experimentos criaram bases de RNA em laboratório sob condições que podem ter existido nos primeiros tempos da Terra. Grande parte do trabalho sob as origens da vida envolve muitas conjeturas.

Associações A descoberta de novas formas de vida no oceano profundo nos anos 1970 resultou em uma revisão de classificação para os eucariotos (animais, plantas, fungos e proteínas), bactérias e arquelas (micróbios em ambientes extremos).

75. O QUE PROVOCA UM TERREMOTO?

O terremoto que em 2011 assolou a costa leste de Honshu, a maior ilha do

Japão, foi um pesadelo. O sismo de magnitude 9.0 e o resultante tsunami de 30 metros de altura mataram mais de 15 mil pessoas e destruíram mais de 300 mil construções. Ninguém predisse esse terremoto, pois, ninguém podia. Os cientistas conhecem o mecanismo básico dos abalos sísmicos. Simplificando: nos terremotos não relacionados a uma erupção vulcânica, dois blocos de terrra deslizam ao longo de uma linha de falha, acumulam energia com o atrito e subitamente a liberam quando um bloco vence o atrito e se arroja para a frente. A energia move-se então em ondas através do solo, abalando a superfície. Mas ainda há muitos mistérios. Por exemplo, por que o atrito atenua-se de repente? Será que a rocha derrete-se ao longo da falha, ou se pulveriza como talco? Por que tantos terremotos são menores, quando simulações em laboratório prediziam que eles seriam devastadores? A pressão da água em reservatórios ou de águas residuais injetadas no solo durante perfurações para extração de gás natural parece às vezes desencadear terremotos. Mas como? E são perigosos? Não temos respostas firmes para essas perguntas. E a ciência continua impotente para prever o próximo desastre.

76. POR QUE ROCHAS DESLIZAM NO VALE DA MORTE?

As rochas móveis de Racetrack Playa, um leito de lago plano e seco no Parque Nacional do Vale da Morte, fascinam os visitantes há anos. embora nunca tenham sido vistas em ação, rochas pesando mais de 300 quilos foram encontradas no fim de longos sulcos riscados na superfície ressequida da playa. Alguns desses rastros chegam a 900 metros de comprimento. As rochas não deslizam num declive – na verdade, a maioria está até subindo ligeiramente. Tampouco o vento, sozinho, poderia mover pedras por essas distâncias. E não há rastros de humanos ou animais na superfície dos sulcos feitos pelas pedras. Na busca da resposta, os pesquisadores são tolhidos pelas limitações de trabalhar no Vale da Morte, ecossistema sensível que seria danificado por instalações invasivas. A maioria das teorias envolve uma combinação de vento com superfície escorregadia. Ferozes vendavais no inverno poderiam dar um empurrão nas rochas sobre uma superfície convertida em lama macia por raras chuvas. Ou as rochas poderiam patinar: a água poderia transformar- se em gelo sob as rochas, diminuindo o atrito e permitindo que o vento as empurrasse. Ou, quem sabe, ambos os cenários e ainda outros atuem em momentos diferentes.

Associações A maioria das formas de vida não suporta os verões do Vale da Morte (49 °C), mas algumas bactérias adoram. Alguns desses micróbios despertam da letargia depois da chuva e produzem uma película, que ajudaria as rochas em cima a deslizar.

77. COMO FOI FEITO O OLHO DO SAARA?

Parece uma gigantesca mosca para a prática interplanetária de tiro ao alvo: o Olho do Saara, ou Estrutura de Richat, é uma formação circular no Saara mauritano. Com 48 quilômetros de diâmetro, a formação tem anéis dentro de anéis roídos pela erosão e fulgura em azul-claro na areia pardacenta. Alguns observadores imaginativos viram ligação entre a estrutura circular do Olho e a Atlântida de Platão (em Crítias, ele diz que a cidade era cingida por canais circulares e cinturões de terra). Mentes mais sóbrias imaginaram que poderia tratar-se de uma cratera de impacto, mas o estudo de suas rochas não

confirma a ideia. Teorias atuais supõem que o Olho seja uma estrutura puramente ecológica, um domo rochoso, desgastado pelo tempo e pelo ambiente implacável do Saara. Rochas sedimentares no centro remontam à

era Proterozoica, 1 bilhão de anos atrás. Quartzito, rocha mais resistente à erosão, forma as crista circulares do Olho.

O domo pode ter sido criado muito tempo atrás por rochas ígneas que

afloraram. Hoje a formação é um ponto de referência para astronautas, claramente visível do espaço.

Associações Formações geológicas antigas são vistas em desertos, onde água e vegetação não podem apagá-los. Várias crateras de impacto, como a Aorounga, no Chade, com 18 quilômetros de comprimento, são claramente visíveis do espaço.

78. COMO SE FORMAM OS TORNADOS?

Em matéria de alerta sobre tornados, hoje estamos melhor do que a população

no caminho de 468 quilômetros percorridos em 1925 pelo tornado dos Três

Estados: 695 pessoas morreram nesse desastre. Envolta em nuvens borbulhantes, a tempestade vasta e veloz arrojou-se sobre cidades e fazendas sem aviso. Só nos últimos 60 anos os meteorologistas podem contar com os instrumentos, em especial o radar Doppler, para detectar as condições capazes de gerar um furacão e avisar o público. Mas a ciência atmosférica é extremamente complexa, e não descobriu por que tempestades forma tornados nem se eles serão fracos ou fortes. Descobrimos que os tornados mais violentos nascem de tempestades fortíssimas como supercelulares. O ar quente que sobe da tempestade começa a girar, por razões ainda não totalmente claras, enquanto o ar acima, mais frio, precipita-se para baixo. Em certas condições, o giro transforma-se em uma nuvem afunilada. A intensidade dos tornados é medida pela escala de Fujita aumentada de 6 graus, baseada nos danos causados. As tempestades variam muito em tamanho, desde 60 metros até monstruosos 3 quilômetros de largura, como a F-4, que em 2004 se abateu sobre Hallam, em Nebraska, e destruiu 95% das construções. Apesar dos modernos sistemas de alarme, o fenômeno de dois dias que incluiu o tornado Hallam matou 385 pessoas.

79. O QUE CAUSA AS ONDAS ANORMAIS?

Capitães de transatlânticos e operários de plataformas petrolíferas contam a mesma história. Em raras ocasiões, uma parede de água da altura de um prédio de dez andares surgiu de uma direção inesperada e arrebentou janelas e equipamentos – quando tiveram sorte, foi só isso. Os oceanógrafos antes riam e citavam estudos segundo os quais ondas desse tipo só aconteciam, uma vez a cada 10 mil anos. Hoje as ondas extremas de tempestade são aceitas como um fato, graças à melhor documentação de navios, plataformas petrolíferas e satélites. Em 1995, lasers em uma plataforma petrolífera no mar do Norte mediram a altura

de uma onda dessas: 26 metros. Dois transatlânticos em 2001 perderam as

janelas da ponte, destruídas por ondas de 30 metros de altura. Satélites

controlados pela Agência Espacial Europeia detectaram dez ondas de mais de 25 metros no decorrer de apenas três semanas. Agora os cientistas calculam que, em qualquer dado momento, dez ondas anormais estejam assomando em alguma parte do oceano.

As teorias sobre o que causa esses monstros são exploratórias. Muitas dessas

ondas ocorrem em fortes correntes oceânicas, como a corrente do Golfo ou a corrente de Agulhas, próximo à costa da África do Sul. Elas podem crescer quando ventos de tempestade sopram perpendicularmente a essas correntes, encurtando a freqüência das ondas e aumentando sua altura. Outras ondas anormais podem formar-se quando ondulações (“swells”) vindo em sentidos diferentes encontram-se e suas ondas e depressões reforçam-se uma às outras.

80. O QUE É O RELÂMPAGO GLOBULAR?

O relâmpago globular, ou “Ball lightning”, é um fenômeno visto com

freqüência mas pouco estudado, tão estranho que alguns cientistas pensam tratar-se de alucinação. Em geral (mas nem sempre), ele se forma durante uma tempestade com raios e aparece como uma bola luminosa de tamanhos que podem variar de uma bola de tênis a uma bola de basquete. Observadores contam que a bola pulou pelo chão ou flutuou a alguns centímetros de altura, sacudindo-se de um lado para outro, sibilando ou crepitando até explodir com estrondo. A bola pode entrar flutuando pela janela de uma casa. Passageiros

de avião viram um relâmpago globular disparar pelo corredor até desaparecer na traseira da aeronave. Também foram vistos relâmpagos acima das falhas ativas durante terremotos.

O fenômeno raramente é perigoso. Há uma famosa exceção no século 18, o

físico alemão Georg Richmann foi atingido na cabeça e morto por um

relâmpago globular que entrou em seu laboratório. Seja o que for, não é raio. Alguns estudiosos supõem que se trata de poeira de silício em combustão, enrolada numa bola luminosa ao ser atingida por um raio. Outros aventam que, durante uma tempestade, partículas eletricamente carregadas acumulam-

se em superfícies, formando um campo elétrico que se descarrega em formato esférico. Associações O tsar Nicolau II viu um relâmpago globular em uma igreja:

“Vi de repente uma bola de fogo entrar voando pela janela (

) A bola

(era um relâmpago globular) rodopiou pelo chão, passou pelo lampadário e voou porta afora”.

81. EXISTE VIDA EM OUTROS PLANETAS?

Muitos cientistas citam o princípio de Copérnico para justificar sua opinião de que é possível encontrar vida em outros planetas. Batizado com o nome do astrônomo que provou que a Terra não tem um lugar especial no Universo, o princípio diz que nosso planeta formou-se de elementos comuns no entorno de uma estrela típica, não havendo razão por que outros como ele não existam. Opõe-se a essa ideia o chamado paradoxo de Fermi. O grande físico, em um debate sobre vida inteligente extraterrestre, teria supostamente respondido com uma simples pergunta: “Então onde está todo mundo?” Ainda é uma grande incógnita se encontraremos ou não vida inteligente em outros planetas, mas achar algum tipo de vida parece cada vez mais plausível. Uma avalanche de descobertas recentes de planetas extrassolares levou a maioria dos astrônomos a acreditar que seja só questão de tempo para descobrir algum com água e um clima semelhante ao da Terra. Em nosso planeta, pelo menos, a água líquida é o solvente universal necessário às reações químicas. O carbono, espinha dorsal dos aminoácidos, pode ser outro requisito. Mas os extremos que existem em alguns mundos não são necessariamente

uma barreira à vida. Bactérias extremófilas foram descobertas na Terra em águas ferventes e sob lagos antárticos. O fato de ser possível haver vida nesses extremos faz do oceano sob o gelo da lua. Europa ou das possíveis reservas hídricas no subsolo de Marte promissores alvos na busca por vida.

82. É POSSÍVEL VIAJAR NO TEMPO?

Alguém poderia viajar no tempo? Físicos dizem que talvez, mas não do jeito que vemos na ficção científica.

A maioria dos cenários de viagem no tempo deriva das implicações mais

extremas das teorias da relatividade, de Einstein. O tempo não é separado ou absoluto – como parte do contínuo espaço-tempo, ele se desacelera para objetos muito grandes ou muito velozes. Uma mulher de 20 anos que embarcasse numa espaçonave e viajasse durante cinco anos em velocidade

próxima à da luz poderia, ao voltar a Terra, ver que aqui se passaram 50 anos.

A mulher, na prática, teria viajado 45 anos no futuro. O mesmo efeito se

aplicaria se ela visitasse um objeto imenso, como uma estrela de nêutrons. Os buracos de minhoca (“wormholes”) são outro portal do tempo teórico. Certos tipos de buracos negros poderia, talvez, formar um túnel através do espaço-tempo. Se existirem, porém, os buracos de minhoca exigirão uma espécie exótica de matéria antigravitacional para permanecerem abertos, e quase certamente destruirão qualquer coisa que passa por eles. Esses métodos requerem imensas quantidades de energia, muito mais do que hoje podemos reunir, e só funcionariam para viagens ao futuro. Viajar ao passado impossível. Há também o paradoxo do avô: e se você voltasse no tempo e matasse seu avô, como ficaríamos?

83. VIVEMOS EM UM MULTIVERSO?

Quando cientistas propõem novas ousadas, às vezes introduzem possibilidades inesperadas. Assim foi com a cosmologia, o estudo das origens e estrutura do Universo. Teorias sobre a expansão do Universo em seus primeiros tempos e sobre modos de conciliar a gravidade com outras forças da física trouxeram a possibilidade de que vivemos em apenas um de um

conjunto infinito de universos.

A teoria da inflação cósmica, proposta por Alan Guth em 1980, resolve

alguns problemas da cosmologia do Big Bang que o espaço-tempo expandiu-

se a uma taxa extraordinariamente rápida em seus momentos iniciais. Teorias

derivadas dessa dizem que, embora nosso Universo tenha parado de inflar, em outras partes a inflação pode ter continuado, formando outros universos, como um sem-número de bolhas bem ao lado da nossa. A teoria das cordas é uma tentativa de aproximar a física relativista da física quântica. Segundo essa teoria, em um nível fundamental, subatômico, o Universo tem muito mais dimensões além das quatro que conhecemos. Outros universos poderiam ter se formado nesse espaço multidimensional, invisíveis para nós. Um grande problema é que as teorias do Multiverso não podem ser provadas, pelo menos por ora. Não podemos observar esses outros universos. Você pode ter um correspondente em outro Universo, mas nunca irá saber.

Associações Outra possibilidade para um Multiverso seria o nosso Universo estender-se infinitamente além dos limites observáveis. Matéria e energia podem combinar-se um dado número de vezes antes de repetir- se, criando um Universo duplicata distante.

84. O QUE É ENERGIA ESCURA?

Se você pular para o alto, a gravidade logo o puxará para baixo. Mas e se continuasse a subir, cada vez mais rápido? Esse tipo de comportamento contrário à lógica é que os astrônomos agora procuram em nosso Universo. Em vez de desacelerar sua expansão, tolhido pela própria massa, o Universo está se acelerando. A fonte dessa velocidade ainda é desconhecida. Os cientistas chamam-na de energia escura. Nos anos 1990, astrônomos descobriram essa aceleração medindo a distância até supernovas em galáxias remotas e constatando que as estrelas estavam mais distantes do que o previsto. A energia necessária para promover essa aceleração é imensa, e equivale aproximadamente a 70% da substância do Universo. As teorias sobre a natureza da energia escura são vagas e problemáticas. Uma explicação baseada na teoria quântica supõe que a energia provém de “partículas vitais” que surgem e desaparecem num instante, mas a matemática parece não dar certo. Talvez, como aventou

Einstein, o espaço vazio possua sua própria energia que aumenta, representada por uma “constante cosmológica” nas equações de relatividade. Ainda não temos provas disso. Ou simplesmente podemos estar errados quanto ao funcionamento da gravidade, e nesse caso não existe a energia escura. Mas aí precisaremos de uma séria revisão nos fundamentos da física.

85. COMO O UNIVERSO VAI ACABAR?

No filme Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, o pequeno Alvy Singer para de

fazer as lições de casa porque o Universo está se expandindo. “E se está

expandindo, um dia ele vai se despedaçar, e será o fim de tudo!

quê?”. Alvy não está errado – pelo menos quanto ao Universo. Ele está se expandindo, e um dia deixará de existir como o conhecemos. Mas a natureza desse fim ainda é uma questão em aberto. Dependendo da quantidade total de matéria e energia no Universo, um de três modelos provavelmente se aplicará: o Big Crunch, o Big Chill ou o Big Rip. No Big Crunch (“grande esmagamento”), existe massa suficiente no Universo para que ele desacelere e então reverta sua expansão; por isso, o Universo irá encolher até esmagar a si mesmo. No Big Chill (“grande resfriamento”), não existe massa suficiente para deter a expansão, por isso as galáxias lentamente se distanciarão, se resfriarão e ficarão às escuras. No Big Rip (“grande despedaçamento”), o Universo em aceleração, impelido pela energia escura, desfaz-se em pedaços, inclusive seus átomos. Para os astrônomos, baseados no que hoje sabemos sobre a matéria no Universo , o Big Crunch é improvável. Qual dos outros dois acontecerá vai depender do que ainda não descobrimos sobre esses dois assuntos misteriosos, matéria escura e energia escura.

Então para

86. DESCOBRIREMOS A TEORIA DE TUDO?

Chamada por muitos de o Santo Graal da física, a teoria de tudo é um termo pomposo para uma teoria que conciliaria nossos atuais modelos conflitantes do mundo físico. A revolucionária física do século 20 legou-nos dois modos de explicar a natureza. Um é a relatividade, que descreve interações em

grande escala do Universo, particularmente a força da gravidade, segundo a geometria do espaço-tempo. O outro é a física quântica, que explica as interações em pequenas escala de três outras forças – eletromagnetismo e as forças atômicas fortes e fracas -, segundo a permuta de partículas. Infelizmente essas teorias são incompatíveis. A teoria das cordas é uma tentativa de conciliá-las. Essa teoria complexa e polêmica – na verdade, um

grupo de teorias – começa com a ideia de que as partículas fundamentais são feitas de arcos de “corda”, ou membranas, que vibram em muitas dimensões.

A inflexível matemática da teoria das cordas aplica-se a todas as forças

básicas. Mas a teoria das cordas tem seus críticos, para quem ela é impossível

de submeter a teste e não científica. A maioria dos cientistas acredita que um

dia nossas teorias físicas serão compatibilizadas. “Cientistas maduros não crescem substituindo uma teoria por outra”, escreveu o físico James Trefil, “e sim incorporando teorias antigas a novas”.

DESAPARECIMENTO

Para onde foram os colonos de Roanoke, a tripulação do Marie Celeste, a corajosa Amelia Earhart? É possível alguma coisa realmente desaparecer neste mundo?

87. O QUE ACONTECEU COM OS NEANDERTAIS?

Quando chegaram à Europa e a Ásia, há cerca de 30 mil ou 50 mil anos, os humanos modernos encontraram outra espécie humana, o homem de Neandertal. Descendentes de humanos que haviam deixado a África em uma migração anterior, os neandertais eram robustos e seu corpo troncudo e musculoso ajudava-os a sobreviver no ambiente inóspito. Andavam eretos, tinham cérebro maior do que os dos humanos modernos, produziam ferramentas e sepultavam seus mortos com rituais. Eram disseminados pela Europa e Eurásia, mas há 28 mil anos eles estavam extintos. Muitas são as teorias sobre seu desaparecimento. Eles podem ter sido incapazes de se adaptar ao clima, que se tornou mais frio, ou talvez tenham sido vencidos na competição com os humanos modernos, que possuíam ferramentas melhores e uma organização social mais flexível. Ou foram absorvidos pela linhagem humana moderna por meio de cruzamentos. Em 2009, o biólogo sueco Svante Pääbo e colegas completaram o primeiro esboço de uma análise do genoma neandertal. Descobriram que europeus e a asiáticos modernos têm 2,5% de seu genoma em comum não como o do homem de Neandertal. Ele não foi totalmente assimilado pela linhagem humana moderna, mas muitos de nós têm um pouquinho de homem de Neandertal.

Associações Há uma possibilidade de os neandertais voltaram. Se 500 gerações humanas participassem de uma reprodução seletiva privilegiando os que possuem mais DNA neandertal, conseguiríamos chegar perto de uma versão moderna.

88. ONDE ESTÁ A CIDADE SUBMERSA DE HELIKE?

A antiga cidade grega de Helike já foi líder no mundo mediterrâneo. Citada entre os aliados de Agamenon na Ilíada, no século 4 a.C., Helike encabeçou a Liga Aquela, confederação criada para proteger as cidades participantes. Segundo historiadores clássicos, em 373 a.C., Helike sofreu uma catástrofe. Por cinco dias, cobras, camundongos e outros animais fugiram em busca de terrenos mais altos. E então, numa noite de inverno, houve um terremoto, a

cidade ruiu e o oceano a engoliu. O sábio grego Erastótenes mencionou

depois que a estátua de Poseidon da cidade ainda podia ser vista sob as ondas e era uma ameaça às redes dos pescadores.

A cidade desaparecida virou lenda, e ninguém sabia sua localização exata.

Muitos exploradores dos séculos 19 e 20, entre eles Jacques Yves Cousteau, procuraram em vão por ela nas águas do golfo de Corinto. Em 2001, uma equipe de arqueólogos decidiu investigar terras interioranas até o delta formado pelos rios que deságuam no golfo. Ali finalmente a encontraram:

paredes do século 4 a.C., moedas e cerâmicas sepultadas sob séculos de iodo. A cidade desaparecida, possível inspiração para a história da Atlântida, ressurgiu.

89. EXISTE MESMO UMA CIDADE DE ATLÂNTIDA?

Tema de milhares de livros, sem falar em artigos, poemas, filmes e até histórias em quadrinhos, Atlântida possivelmente é o mais famoso de todos

os lugares lendários. Platão foi o primeiro a contar sua história em seus dois

diálogos, Timeu e Crítias, escritos por volta de 355 a.C. Segundo essas obras, Atlântida era uma ilha imensa além dos Pilares de Hércules (o estreito de Gilbratar) que prosperava 9 mil anos antes. Ricos e poderosos, seus habitantes inicialmente desfrutaram uma existência ideal: “Tinham o coração leal e em tudo nobre, e demonstravam cortesia aliada a sabedoria”. Com o tempo, no entanto, tornaram-se ambiciosos, ímpios e belicosos. Zeus, irado, destruiu a ilha com terremotos, inundações em “um atroz dia e noite”, e Atlântida afundou para sempre sob as ondas. Na época de Platão, a maioria dos leitores interpretou a história como uma parábola sobre governo e corrupção. Na Idade Média, ela começou a ser aceita como uma verdade histórica. Desde então, crentes já situaram Atlântida na Espanha, Irlanda, Suécia, Malta, Birmini, norte da África, Antártica e no ressequido Saara, além de muitos lugares próximos ao Mediterrâneo. Conjeturas mais acadêmicas procuram descobrir qual foi a inspiração de Platão para Atlântida e seu fim. O Mediterrâneo da antiguidade conheceu terremotos, erupções vulcânicas e ondas gigantescas. Um desses desastres foi a grande erupção na ilha de Thira, que a destruiu parcialmente e pode ter sido

crítica para a civilização vizinha, Creta. Mais próxima do tempo de Platão foi

a destruição da cidade de Helike, assolada por terremoto e enchente em 373

a.C. Memórias desses tipos de cataclismos podem explicar por que a história de Atlântida tem tanta repercussão.

Associações O advogado Ignatius Donnelly basou-se em conhecimentos deturpados das novas áreas da geologia e evolução para escrever – The Antedilluvian World, em 1881. Charles leu a obra “em um estado de espírito muito cético”.

90. OS ÍNDIOS AMERICANOS EXTERMINARAM A COLÔNIA

DE ROANOKE?

Em agosto de 1587, um grupo de 118 colonos ingleses desembarcou na ilha de Roanoke, próxima da costa da atual Carolina do Norte. Eram liderados

pelo governador John White, que trazia seu filho, nora e a neta Virginia Dare,

a primeira criança inglesa nascida nas Américas. Meses depois, White zarpou

para a Inglaterra para buscar suprimentos. Sem poder sair da terra natal por três anos em razão da guerra entre Inglaterra e Espanha, ele voltou a Roanoke em 1590. Não encontrou ninguém lá. Não havia sinais de luta. As pistas eram as palavras “Croatoan” e Cro”, entalhadas em um poste de madeira e numa árvore. Os colonos nunca foram encontrados. Croatoan era o nome de uma tribo indígena e também da ilha onde esses nativos viviam, 80 quilômetros ao sul. Historiados supõem que os colonos podem ter-se mudado para lá. Outros acham que eles seguiram para o oeste. É possível que tenham simplesmente sido raptados. Ou, quem sabe, mortos por espanhóis. Se sobreviveram, pode não ter sido por muito tempo. Segundo alguns relatos, Powhatan, o pai de Pocahontas, pretendia mandar um grupo para o sul a fim de aniquilar colonos em 1607. Os colonos que não foram mortos podem ter sido assimilados, o que explica relatos anteriores de índios de cabelos claros e olhos cinzentos na área.

91. QUE DESTINO TEVE A EXPEDIÇÃO FRANKLIN?

Poucas histórias são mais terríveis que a da Expedição Franklin. Em 1845, Sir John Franklin zarpou da Inglaterra com dois navios, Terror e Erebus, e 129 tripulantes em busca da Passagem Noroeste, uma rota de navegação do Atlântico ao Pacífico através do Canadá. A expedição nunca retornou. Grupos de busca encontraram poucas pistas. Mensagens deixadas em um memorial de pedras na ilha de King William e algumas testemunhas inuítes disseram que os dois navios ficaram presos no gelo no estreito de Victoria em setembro de 1846. Franklin morreu de causas desconhecidas no ano seguinte. Os navios continuaram à deriva no gelo durante outro inverno, e mais homens pereceram. Por fim, o novo capitão Francis Crozier, aparentemente abandonou os navios e partiu com a tripulação, seguindo pelo gelo em uma desesperada tentativa de chegar à terra firme. Alguns corpos foram encontrados, embora os navios e muitos marinheiros, inclusive Franklin, continuem perdidos. Não se sabe o que teria matado os homens que foram encontrados. É possível que os exploradores tenham sido aniquilados por muitos fatores: frio, fome, escoburto, envenenamento por chumbo, pneumonia e tuberculose e a pura desesperança.

O explorador Roald Amundsen finalmente encontrou a Passagem Noroeste através do Canadá em 1906, mas a gelada rota pelas ilhas do Ártico canadense ainda é considerada perigosa e nada prática.

92. A TRIPULAÇÃO DO MARIE CELESTE

DESAPARECEU?

O capitão David Morehouse, do brigue Dei Gratia, navegava pelo Atlântico

fazia já um mês quando, em 5 de dezembro de 1872, deparou com uma cena consternadora. À deriva do mar revolto estava o bergantim Marie Celeste. Morehouse conhecia o navio e seu capitão, Benjamin Briggs – tinham jantado juntos antes de cada um zarpar de Nova York. A mulher e a filha de Briggs haviam embarcado com ele, junto com sete tripulantes. Feita uma busca, confirmou-se que não havia ninguém a bordo. Não encontraram sinais

de violência, mas estava faltando um barco salva-vidas. Papéis espalhavam-

se pelo chão, e uma bomba de água estava desmontada. O Dei Gratia rebocou

o navio abandonado até Gilbratar e teve início o jogo de adivinhação. A culpa era de marinheiros bêbados amotinados ou de piratas ou do próprio Dei

Gratia, ávido pela recompensa pelo salvamento do navio. A tripulação enlouqueceu depois de comer cogumelo ou pão de centeio infectado com ergotina. Uma lula-gigante devorou-os (junto com o barco salva-vidas e documentos selecionados do navio). As teorias atuais concentram-se no álcool volátil no porão de carga ou na bomba quebrada como possíveis razões do abandono do navio. Como

ninguém que estivera a bordo jamais foi encontrado, o barco salva-vidas pode

ter

sido ainda menos seguro do que o Marie Celeste.

93. ONDE ESTÃO OS FAROLEIROS DE EILEAN MOR?

O

mar é traiçoeiro ao redor das rochosas ilhas Hébridas Exteriores, na

escócia. Por isso, em 1899 o Departamento de Faróis do Norte construiu um

farol para ser mantido por três homens na remota ilha Eilean Mor. Em 15 de dezembro de 1900, um navio que passava notou que a luz, instalada no alto

de um penhasco de 46 metros, estava apagada. Tempestades atrapalharam,

mas em 26 de dezembro o faroleiro substituto, Joseph Moore, chegou ao farol. Não encontrou nenhum dos três homens. Uma refeição de carneiro com batatas estava à mesa, intocada, faltavam uma caixa de ferramentas e dois casacos impermeáveis. No diário de 15 de dezembro lia-se “Tempestade passou, mar calmo. Deus está em tudo”. Os homens não foram encontrados, e nunca foi confirmada nenhuma razão para seu desaparecimento. Os danos na ilha atestam os perigos das intempéries antes do Natal. Os três faroleiros teriam sido varridos para o mar por uma onda gigantesca? Será que um enlouqueceu, matou os outros e se suicidou de um modo misterioso? Teriam sido levados pelos fantasmas vikings que alguns diziam assombrar as ilhas? Até hoje, ninguém sabe. O farol continua lá, automatizado e operado por controle remoto.

Associações As Hébridas Exteriores abrigam outro mistério. A primeira vez que alguém disse ter visto o Monstro do Loch Ness foi em 14 de abril de 1933, e desde então mais de mil avistamentos foram relatados. Mas não há provas da existência de Nessie.

94. AMBROSE BIERCE MORREU NO MÉXICO?

A arrepiante história Um incidente na Ponte de Owl Creek de Ambrose

Bierce, tem um famoso desfecho surpreendente, e coube ao próprio autor ter um fim misterioso. Bierce, nascido em 1842, lutava na Guerra de Secessão e era conhecido pelo cinismo e misantropia em seus escritos “Fidelidade:

virtude característica dos que estão prestes a ser traídos”, diz um verbete do seu Dicionário do Diabo. Em 1913, família morta e carreira em declínio, Bierce partiu para o sul em uma viagem na qual iria rever os campos de batalha da Guerra de Secessão e seguiria para o México. “Estou a caminho do México com um propósito bem

definido, não revelável por ora”, ele escreveu ao seu secretário. Ele pode ter-

se juntado ao exército rebelde de Pancho Villa e viajado com eles para

Chihuahua. Depois disso, nunca mais foi visto. Relatos de uma batalha de Villa falam de um “velho gringo” morto em combate. Seria Bierce? Ou ele terá vivido no México, Califórnia, França ou Brasil, onde Charles Fort observou que Ambrose Bierce Small desapareceu no Canadá alguns anos depois de Bierce e se perguntou: “Será que alguem está colecionando Ambroses?”

95. A GRÃ-DUQUESA ANASTÁSIA ESCAPOU DA

EXECUÇÃO?

Quando a revolução russa avassalou o país em 1917, forças bolcheviques capturaram o tsar Nicolau II, sua mulher, Alessandra e os cinco filhos, Olga, Tatiana, Maria, Alexei e a vivaz Anastasia. Confinaram-nos num porão em Ecaterimburgo. Em 17 de julho de 1918, a polícia secreta invadiu o lugar, executou a família e enterrou-nos em um local secreto. Quase imediatamente espalhou-se o rumor de que a menina mais nova, a grã-duquesa Anastasia, sobrevivera. Em anos seguintes, várias jovens disseram ser a duquesa perdida. A mais famosa foi Anna Anderson, descoberta em 1920 depois de pular de uma ponte em Berlim. Descobriu-se depois que ela era Franziska Schanzkowska, operária polonesa, mas o interesse da mídia e os patrocinadores de celebridades mantiveram viva a história até a morte da mulher em Charlottesville, Virgínia, em 1984. Testes de DNA confirmaram sua identidade polonesa. Em 1991, autoridades russas revelaram o local das sepulturas dos Romanov

nos arredores de Ecaterimburgo. Só foram encontrados cinco corpos, o que reforçou a esperança de que Anastasia pudesse realmente ter sobrevivido. Mas em 2007 dois outros corpos foram encontrados nas proximidades, um menino e uma menina, cujo DNA provou que também eram Romanov. Na primeira ou na segunda sepultura, Anastasia finalmente foi encontrada.

96. O QUE ACONTECEU COM QUEM PROCUROU A CIDADE

PERDIDA DE Z?

A vida de aventuras e o misterioso desaparecimento do coronel Percy

Harrison Fawcett parecem extraídos do romance O Mundo Perdido, de Sir Arthur Conan Doyle, e não sem razão. Conan Doyle baseou seu livro nos

diários de Fawcett. Percy Fawcett foi um explorador tradicional. Já fizera duas expedições pela Amazônia no começo do século 20 quando encontrou um irresistível documento português. Intitulado “Relação histórica de uma occulta, e grande povoação antiqüíssima sem moradores, que se descobriu no anno de 1753”, o texto fala de imponentes ruínas ocultas na selva de Mato Grosso. Fawcett decidiu imediatamente encontrar as ruínas, que ele chamou

de Cidade Perdida de Z.

Depois de uma tentativa malograda, em 1925 Fawcett, seu filho Jack, o amigo do filho, Raleigh Rimell, e dois nativos contratados embrenharam-se

na floresta brasileira. Sua última mensagem para a terra natal foi escrita em

20 de maio. Os ajudantes brasileiros haviam desertado, Fawcett comentou, mas “vocês não devem temer o fracasso”. Nunca mais se teve notícia do grupo. Um repórter que saiu em busca de Fawcett em 1930 também desapareceu, e o mesmo se deu com um caçador suíço e seu grupo de busca. Da selva filtraram-se boatos não confirmados de prisioneiros de pele clara e filhos pequenos, mas Fawcett e seus companheiros nunca foram encontrados.

97. GEORGE MALLORY CHEGOU AO CUME DO

EVEREST?

As esperanças do mundo, ou pelo menos as da comunidade mundial de

montanhistas, estavam com George Leigh Mallory, quando ele partiu em sua terceira tentativa de atingir o cume do monte Everest em abril de 1924. O

bem-apessoado escalador inglês, ex-professor primário, havia subido até os 8301, 549 abaixo do cume do Everest, em uma expedição em 1922. Desta vez ele pretendia fazer o cume. Em 8 de junho, Mallory e seu jovem parceiro Sandy Irvine, partiram no que esperavam ser o ataque final ao cume. Outro escalador avistou-os, dois pontinhos pretos a uns 244 metros do topo. E então uma tempestade de neve

se

abateu, e eles nunca mais foram vistos.

O

corpo de Mallory ficou desaparecido por 75 anos. Em 1999, o escalador

Conrad Anker encontrou o corpo congelado de Mallory a 8156 metros, na face norte da montanha. As lesões indicavam que ele caíra e fora atingido na cabeça por sua picareta durante a queda. O corpo de Irvine nunca apareceu. Não se sabe se Mallory estava a caminho do cume ou se voltava de uma ascensão bem-sucedida. Em suas roupas, e na encosta da montanha, não se encontrou a fotografia que ele pretendia tirar do cume. Se ele chegou lá, terá batido o recorde de Edmund Hillary em 29 anos.

98. ENCONTRAREMOS AMELIA EARHART?

Capitães de navio são aconselhados a nunca dizer as ominosas palavras “esta será minha última viagem”, e talvez Amélia Earhart devesse ter seguido a recomendação. Quando planejava seu vôo ao redor do mundo em 1937, ela comentou com um amigo: “Tenho a sensação de que meu organismo só dá para mais um vôo”. Amelia Earhart era mundialmente famosa – foi a primeira mulher a atravessar

o Atlântico em um vôo solo e a primeira pessoa a voar do Havaí a Califórnia. Uma viagem ao redor do globo era o desafio final. Quando ela decolou em 1°

de junho de 1937, estava acompanhada de um experiente navegador, Frederik

Noonan. Os primeiros trechos da viagem foram árduos, mas os 4114 quilômetros do trecho do Pacífico, da Nova Guiné até a minúscula ilha Howladn, foram os piores. Do ar, Earhart informou pelo rádio que não

conseguia ver a ilha e o combustível estava acabando. Depois, silêncio.

A maior tentativa de resgate já feita não conseguiu encontrar Earhart, e as

buscas prosseguem até hoje. Ela pode ter caído nas águas do Pacífico. Há

quem acredite que ela aterrissou na ilha Nikumaroro, onde já foram encontrados náufragos. Outros pensam que, naqueles anos que precederam a Segunda Guerra Mundial, ela e seu companheiro foram capturados pelos japoneses. Até agora não surgiram pistas que nos levem ao paradeiro final de Earhart.

99. ONDE ESTÃO OS TESOUROS DA SALA ÂMBAR?

A resplandecente Sala Âmbar da Rússia deve ter sido deslumbrante

fulgurando à luz de velas. Projetada pelo escultor alemão Andreas Schlüter, a construção do palácio começou em 1701, originalmente como parte do palácio de Charlottenburg, na Prússia. Seis toneladas de painéis de âmbar com molduras folheadas a ouro e incrustadas de pedras preciosas revestiam

as paredes. Hoje, valeria 142 milhões de dólares.

Em 1716, os prussianos deram a sala à Rússia, e ela acabou sendo incorporada ao Tsarkoye Selo, o palácio de verão de Catarina, a Grande. Em 1941, com as relações entre Alemanha e Rússia distintamente mais frias,

solados de Hitler decidiram tomá-la de volta. Encaixotaram tudo e mandaram para o museu do Castelo de Königsberg, próximo ao mar Báltico. Quando a guerra desandou para a Alemanha, o diretor do museu recebeu ordem de desmontar novamente a sala. Bombas e incêndio consumiram o castelo em 1945. A Sala Âmbar terá sido incinerada também? Ou foi escondida em outro lugar? Um painel desapareceu, posto à venda na Alemanha em 1997, mas em 2004

um veterano de guerra russo disse ter visto o âmbar no castelo pouco antes de

o edifício ser destruído, o que significaria que o resto da sala também foi consumido pelo fogo. Uma réplica foi construída em Tsarskoye Selo pela módica quantia de 11 milhões de dólares.

100. D. B. COOPER ESTÁ SÃO E SALVO?

Praticamente a única coisa que sabemos sobre D. B. Cooper é que ele não era D. B. Cooper. Dan Cooper, o nome em seu cartão de embarque, era um pseudônimo. O afável senhor “Cooper” pulou de um avião e ganhou a

simpatia do público americano em 24 de novembro de 1971. Durante um vôo da Northwest Airlines que ia de Portland, no Oregon, a Seattle, em Washington, Cooper anunciou que trazia uma bomba, pediu 200 mil dólares de resgate e quatro paraquedas. Pegou o dinheiro em Seattle e libertou os passageiros. Tornou a decolar e, a 3 mil metros de altitude, sobre as montanhas Cascate, acionou a escada da saída traseira. Com dois paraquedas, de terno escuro e levando o dinheiro, ele pulou do avião. As buscas foram infrutíferas. Arquivos do FBI sobre Cooper mostram milhares de páginas de esforço em vão e falsas confissões. A única pista aproveitável veio de um menino de 8 anos que achou um maço de notas de 20 dólares na margem do rio Columbia nos arredores de Portland em 1980. Os números de série correspondiam aos das notas entregues a Cooper. Quem entende de paraquedismo e do terreno acidentado onde Cooper caiu acha que ele não poderia ter sobrevivido ao salto. Mas numa época em que os seqüestros não tinham as conotações sinistras de hoje, ele se tornou um herói popular.