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DICIONÁRIO DE PSICOLOGIA ADOLESCENTE

PSICOLOGia MODERNA

DICIONÁRIO DE PSICOLOGIA ADOLESCENTE

AOS LEITORES

Para se informar sobre determinado assunto, utilize esta obra como se fosse um dicionário tradicional.

Todos os assuntos, quer se trate de pequenas definições (por ex. PERSONALIDADE, pág. 363), quer de estudos desenvolvidos (por ex. O RACIOCINIO, pág. 396), são classificados alfabeticamente. Para encontrar o assunto pretendido basta, como em qual- quer outro dicionário, folhear o livro, reparando nas três letras impressas no canto superior direito de cada página ímpar, que correspondem às três primeiras letras de termos definidos nessa página.

Mas, ao ler nesta obra certos termos, ser-lhe-á necessário consultar outras páginas do livro em que esses termos são citados: definidos, desenvolvidos ou comentados. A estrutura da obra permite-lhe encontrar directamente as informações pretendidas, sem ter de consultar um índice final.

1. Os termos antecedidos de seta são desenvolvidos no dicionário.

2. A cada título de assuntos do dicionário segue-se um índice complementar. Fecha esta obra com dois

vocabulários: francês-inglês-português e inglês-francês-português.

As notas à margem explicam noções e palavras e dão referências bibliográficas.

A cada título de assuntos do dicionário segue-se um Indice complementar

Colaboraram nesta obra:

Aimée Fillioud

Universidade de Paris, para «Os tempos livres» e «A escolha da profissão». Maurice Gaudet École communautaire, membro da Comissão Nacional de Ensino da U.N.A.F., para «A socialização». çoise Gauquelin Diplomada pelo Instituto de Psicologia da Universidade de Paris, para «O raciocínio».

Diplomada pelo Instituto de Psicologia da

Director da

acqueline Hubert

Honoré Ouillon

Lydie Péchadre e Yvette Roudy

Licenciada em Psicologia, para «A afectividade». Médico conselheiro técnico da Academia de Lyon, secretá rio-geral da União Internacional de Higiene e de Medicina Escolares e Universitárias, para «A fisiologia da adolescência» e «O desenvolvimento da sexualidade».

Psicóloga do Trabalho, Redactora-chefe de Femme du XXe siècle, para a «Mesa-redonda».

O dicionário foi redigido por André Giordanengo.

SUMARIO DOS ARTIGOS

1

Da criança ao adulto:

A

fisiologia da adolescência

204-259 pelo doutor Honoré Ouillon

2

As transformações profundas:

O

desenvolvimento da sexualidade

438-491 pelo doutor Honoré Ouillon

3

A aprendizagem da vida social:

A

socialização

492-528 por Maurice Gaudet

4

A vida sensível:

A

afectividade

18-58 por Jacqueline Hubert

5

A afirmação da inteligência:

O

raciocínio

396-416 por Françoise Gauquelin

6

A determinação do futuro:

A

escolha da profissão

374-382 por Aimée Fillioud

7

Para as horas de liberdade:

Os tempos livres

8 Conversas com os adolescentes:

540-557 por Aimée Fillicud

Mesa-redonda

320-336 por Lydie Péchadre e Yvette Roudy

e 300 termos classificados por ordem alfabética constituem este dicionário de psicologia prática consagrado

à adolescência.

obra foi publicada em França por 3ibliothèque du Centre d'Étude l@ Promotion de Ia Lecture o título original L'Adolescence. concebida por François Richaudeau úizada sob a direcção @,an Feller tidos por Yvette Pesez

.10 portuguesa de niano Cascais Franco

-tz-C.E.P.L., Paris, R.BO - Lisboa/São Paulo, 19 81 -d. - 1344

“@,4C se imprimir

Guerra[Viseu

1,111981

ABORRECIMENTO (Ennui/Boredom)

O aborrecimento é um sentimento que muitos adolescentes conhecem. Não são poucos os que só tiveram

consciência da sua passagem à/adolescência por causa do aborrecimento. Isto deve-se ao facto de os/jogos da infância já não proporcionarem prazer algum e serem pouco a pouco abandonados, sem que quaisquer

outros os venham no entanto substituir. A reactivação pubertária dos elementos da/ personalidade infantil não se faz senão sob a forma de uma lenta instalação, amiúde hesitante, por vezes incoerente.

O adolescente atormentado por/desejos contraditórios sente uma certa repugnância por si mesmo, da qual

não é ainda capaz de definir os limites. É assim que nasce o aborrecimento, espécie de lassidão moral provocada pela dualidade: desejos novos - receio ou impossibilidade de os satisfazer. O aborrecimento provoca a inacção, ela mesma geradora de aborrecimento. Os pais devem esforçar-se por não intervir, pelo menos procurando continuar a impor os /prazeres da infância. Convém, por exemplo, evitar tornar obrigatória a/salda dominical. É verdade que os/pais sentem muitas vezes o abandono desta prática ritual da infância como uma espécie de rejeição que os atinge pessoalmente. Por outro lado, é-lhes difícil deixar o adolescente sozinho uma tarde inteira. Mas não intervir directamente não significa de modo algum

desafeição. Os/pais podem mostrar que estão disponíveis sugerindo formas de/ tempos livres adaptadas à nova/ personalidade do adolescente. Isto sem ignorar que uma tal espécie de aborrecimento fundamental apenas cessará na/maturidade. Seria excelente que se instaurasse um diálogo sobre este tema.

ABSOLUTO (Abudu/Absolute) Página 468.

Do latim absolutus: que é acabado, perfeito. Por falta de experiência de uma situação real onde se tenha visto na obrigação de assumir responsabilidades, o adolescente é facilmente inflexível nos seus/juízos. Ele seria incapaz de conceber algo que não fosse

10

perfeito e tende muitas vezes a desprezar os adultos, aos quais a vida do dia-a-dia ensinou o sentido do relativo. Esta atitude está aliás frequentemente na origem dos mal-entendidos entre gerações diferentes: só com dificuldade os mais velhos se recordam desse período da sua vida em que tudo parecia possível às almas de boa vontade. Nesse sentido, os/pais mais aptos a desempenhar a sua delicada missão não serão forçosamente os mais jovens mas os que possuem melhor memória, os que conservam intacta a recordação da sua própria/ adolescência e das intransigências que lhe são habituais. Estes saberão não troçar do adolescente romântico, anarquista ou revolucionário. Só esta/atitude - compreensiva mas não cúmplice- poderá, sem o desencorajar, conduzir o adolescente a uma concepção mais flexível da vida e, por conseguinte, a uma melhor/ adaptação ao real.

ACIDENTES (Accidents/Accidents)

A/psicologia usa um processo forçosamente esquemático e artificial quando define a,,< adolescência como a aquisição progressiva dos caracteres do adulto. Um tal esquema-tipo, ainda que seja necessário para melhor penetrar a mentalidade deste ou daquele adolescente em particular, não pode obviamente mencionar todos os acidentes de percurso, que são numerosos e inevitáveis. Num caso, é uma admoestação severa que provoca um sentimento de/culpabilidade ou de/revolta. Noutro, é uma experiência/ sexual infeliz que deixa uma rapariga marcada durante muito tempo, que proíbe ao jovem relações absolutamente normais. Pode tratar-se também da separação do casal parental, que afecta muito em especial o adolescente, visto que ele está na idade em que é sensibilizado para os problemas do/amor e do casal, e em que tenta naturalmente identificar-se com um dos pais como membro de um casal. Mas «acidente» na sua acepção original significa: que acontece inesperadamente. Pode então ser também um acontecimento feliz. A descoberta do

amor, a primeira emoção artística, são outros tantos acidentes possíveis, que intervêm de maneira súbita no/

desen-

** do adolescente, apressando ou contrariando a marcha adultizaÇão. «A exploração de tais acontecimentos está eri-

dificuldades, escreve Maurice Debesseo. Quanto Mais o

l'Adoles ent (C.P.M., é inabitual, mais custoso se toma para o psicólogo

mesmo facto pode marear

cito e deixar um outro indiferente. O essencial a-sua existência e sabermos utifizá-los para inter- ,,,@jl~cnto dos jovens.»

O M. Debesse:

LibrairiecA. Colin, Coisa ainda mais grave: um

Paris, 1967).

ACN

ACNE (Acnõ/Acno) Página 78.

A acne é o terror de algumas adolescentes e, para os próprios adolescentes, constitui um embaraço muito

visível. Na idade em que a /beleza física é particularmente apreciada como meio de afirmação de uma/ personalidade ainda informe, os «horríveis pontos negros» têm um efeito muitas vezes desastroso sobre o moral. Assim, na maior parte dos casos, o acneico remedeia o que é mais urgente: extirpa os pontos negros sem de forma alguma se preocupar com as regras de higiene elementares nem com a causa real do mal. Todos os médicos (mas só muito raramente eles são consultados nestes casos) podem esclarecer que tal causa está ligada a certos períodos de/actividade das glândulas genitais. A acne caracteriza-se, as mais das vezes, pelo ponto negro, que cobre a abertura de um poro dilatado. Este ponto negro não é de facto senão a ponta oxidada pelo ar - do rolhão gorduroso que contribui justamente para a dilatação do poro. Pode-se observá-lo facilmente extraindo, por pressão em tomo do ponto negro, o conjunto gorduroso. O aparecimento dos pontos negros não deixa, geralmente, de trazer complicações. Antes de mais, a ame

papulosa, caracterizada pela formação de borbulhas vermelhas e duras surgidas à volta dos pontos negros. Mais grave é a acne pustulosa assinalada por uma inflamação mais viva.

e Pode mesmo ai

pus pelo rosto, for A localização e a intensidade da acne estão sujeitas a importantes uma crosta tenaz e

variações. A maior parte das vezes, manifesta-se apenas por pontos

vestígios indeléveis negros sobre o rosto. Mas a acne pode também alastrar às costas

susceptível de deixar

a pele.

e

ao peito.

O

tratamento da acne A acne, que aparece cerca dos 13 anos, desaparece por volta dos 25.

O

seu tratamento é delicado. Alguns princípios gerais permitem pelo menos evitar um agravamento do mal:

a

vida ao ar livre por exemplo, é sempre salutar para o acneico. Mas convém desc'@**áar das numerosas

medicações, de que as pessoas mais chegadas nunca se mostram avaras. Pois a ame jamais se deve esquecê- lo -

necessita de cuidados especiais que só um médico pode dispensar. Mas este não é consultado senão quando

a

acne atinge proporções inquietantes. Tais proporções são muitas vezes causadas pela falta de tratamento.

O

facto de extrair os pontos negros com unhas de asseio duvidoso tem o efeito de transformar a simples

ame em acne papulosa e, depois, pustulosa. Seria bom que todos soubessem que não há praticamente

nenhum benefício nestas extracções. É preferível aceitar o mal com paciência respeitando estritamente

certas prescrições de higiene geral tal como as define, por exemplo, o Dr. **AuzepyO:

1 I'Êcole das parents «O tratamento geral comporta mais recomendações de higiene do regras imperativas: /alimentação racional, sem excesso de

o pr. Auzepy, in

(março de 1969). que

12

farináceos nem de especiarias; boa mastigação, bom estado digestivo, evitar a prisão de ventre: andar a pé,/ desporto, /férias à beira-mar ou em grande altitude. Se existirem importantes variações endocrínicas, afirmadas por resultados biológicos seguros, é necessário um tratamento endócrino, mas seria mais perigoso do que ú til empreendê-lo na base de conjecturas ou de alegações mal fundamentadas.»

aCTIVIDADE (Activité/Activity)

O termo «actividade» designa em psicologia o conjunto das manifestações psicomotoras. É

simultaneamente sinónimo de «poder de agir» e de «acção».

O poder de agir é função de um equilíbrio psíquico. Neste sentido, a actividade sofre importantes variações

na/ adolescência. Sob o efeito das transformações /pubertárias, a actividade pode quer acelerar-se bruscamente, quer, pelo contrário, registar um afrouxamento muito nítido. Da maneira de aceitar ou de recusar estas transformações depende efectivamente a actividade. Assim, a/anorexia mental - caso de uma

rapariga que recusa toda a alimentação -

é a maior parte das vezes devida a uma recusa. A anorexia é um caso limite: há outros menos nítidos. O

adolescente indolente, ou mesmo/ apático, está, de um modo geral, sujeito a perturbações de saúde. No entanto, uma consulta médica pode revelar-se impotente para o curar. O motivo é, então, uma/ inadaptação parcial. Acontece por vezes o adolescente recusar o seu/sexo: o rapaz com medo das/>’ responsabilidades, a rapariga por causa dos constrangimentos que ela imagina. Esta recusa parcial repercute-se sobre as outras formas de actividade. Em tais casos, importa desvendar a causa psíquica: uma tomada de consciência ocasiona um recomeço da actividade normal.

Um dinamismo em potência A aceleração da actividade 6 de facto normal no adolescente. Com efeito, a

energia e o dinamismo são o resultado de um poderosíssimo impulso vital, de uma necessidade de conhecer

e de experimentar nas novas condições que a adolescência cria. Certas experiências sexuais precoces não têm outra origem. De igual modo, a participação em determinados movimentos de juventude pode evidenciar - mais do que o interesse pelo movimento em causa -

uma necessidade de actividade. Convém então tomar cuidado com o esgotamento que pode comprometer um ano de estudos. A actividade do adolescente deve assim ser dirigida, para se evitar que ela se disperse ou se torne fonte de perturbações.

A

actividade física

O

adolescente abandona as brincadeiras da infância. «Lehmann

ADA

e Witty assinalaram que a puberdade coincide nos rapazes com o desinteresse pelos jogos pueris, como a

corrida, a subida às árvores, os polícias e ladrões, os índios e cow-boys, etc

o origlia e

**Ouilion:

»* A actividade-

Adolescent dade física inflecte-se de forma característica: o adolescente recusa /(E.S.F., Paris. 1908). os jogos gratuitos unicamente recreativos a fim de escolher actividades reveladoras da sua /personalidade. Por exemplo, especializa-se num desporto, ao passo que antes praticava indiferentemente todos os exercícios físicos. A adolescente abandona a maior parte das vezes o/esforço físico, que lhe parece pouco compatível com a/feminilidade. Os desportos que ela escolhe são os susceptíveis de pôr em evidência a graça dos movimentos, como é o caso do basquetebol, que se assemelha muitas vezes à/dança. Um interesse exclusivo pelo. desporto traduz uma certa forma de/desequilíbrio: trata-se de uma compensação para fracassos reais ou imaginários no domínio /afectivo ou/intelectual. Isto é tão válido para o rapaz como para a rapariga, podendo esta última manifestar assim a sua recusa da feminilidade.

A actividade intelectuais As novas possibilidades que o adolescente adquire no domínio intelectual - como

por exemplo a abstracção - dão a este género de actividade um novo interesse. O adolescente arquitecta sem custo grandes teorias para resolver os problemas da humanidade. Ele discute-as longamente sem se preocupar muito com as contradições, unicamente entregue ao /prazer recente da dialéctica. Lê com avidez

e sem discernimento aquilo que estiver ao seu alcance e sobretudo o que pretendem esconder-lhe. Este

renovo de actividade intelectual é em si uma excelente coisa: constitui uma abertura ao mundo e uma preparação para a inserção na/sociedade. Convém no entanto evitar que o adolescente caia no/intelectualismo e se feche num mundo de imagens e de ideias. O adolescente, que passa horas a ler no

seu/quarto, deve exercer uma actividade física compensadora. Se isso não for possível por diversas razões,

é indispensável encontrar uma actividade de / grupo, a qual permite uma / aprendizagem da vida em sociedade.

ADAPTAÇÃO (Adaptation/Adaptation) páginas lo, 16. 360. 409. 439, 454, 462.

A adaptação é a tentativa de um indivíduo para se conformar a um/meio, conciliando as tendências pessoais

e as regras impostas pelo meio. Trata-se pois de uma procura de equilíbrio entre o que é possível e o que o não é, a qual vem a traduzir-se por um modo de vida, uma/profissão, etc.

Os modos de adaptação Piaget descreveu dois modos de adaptação:

- A assimilação: o indivíduo busca conhecer o mundo que o rodeia.

14

Os resultados desta procura são integrados na consciência para «constituírem o plano das acções

susceptíveis de ser repetidas»*.

de l'intelligence Podemos dizer esquematicamente que se trata daquilo a que se

comummente a experiência, a qual orienta o indivíduo para um certo modo de vida. -A acomodação: na maioria dos casos, a experiência mostra que o homem deve ajeitar-se ao mundo exterior que se não deixa facilmente «assimilar». Há discordância entre o/desejo e a realidade. Para se adaptar, o indivíduo deve renunciar ao seu desejo, ou transformá-lo ajustando a sua/conduta a novos dados.

O Piaget: /a Psychologie

(A Colin, Paris, 1962). chama

A adaptação à adolescência A/adolescência é precisamente a idade em que os novos dados são numerosos. Fisicamente, o adolescente transforma-se na altura da/puberdade: o equilíbrio da infância é ameaçado por alterações orgânicas. A estatura, a voz, a genitalidade são outros tantos dados novos que necessitam de uma adaptação. Afectivamente, a criança dependia estreitamente do meio. Para ela, o mundo eram «os outros». Para o adolescente, são «os outros mais eu». A/personalidade afirma-se: ela tem as suas exigências próprias. Também neste caso é indispensável uma adaptação para «despojar a antiga criança». Intelectualmente, enfim, o adolescente alcança o estádio da abstracção e do conceito.

Os obstáculos e os perigos Ao mesmo tempo que impõe uma adaptação nos domínios físico, /*afectivo, /intelectual, a adolescência contribui, devido ao/desequilíbrio passageiro que instaura, para refrear a adaptatividade. Esta exige, para ser ideal, um equilíbrio que só a/maturidade e a experiência conferem. Ora, precisamente, a/personalidade do adolescente, em plena formação, é ainda incoerente. Desde logo, é assaz difícil ao púbere confrontar validamente com o mundo exterior um «eu» que ele ainda não sabe muito bem o que é. A adaptação que se faz pelo jogo da/projecção ou da /identificação dá origem aos /@1 ídolos, cujas flutuações seguem os contornos fluidos da alma adolescente. Na acomodação, intervém um compromisso entre a realidade e o/desejo. A necessidade deste compromisso, ensinada pela experiência, nem sempre aparece ao adolescente, que coloca, por vezes, o problema em termos de / conflito: submeter-se equivale a demitir-se. Ante um tal dilema, o adolescente pode paradoxalmente regressar ao estádio infantil, que ele quer rejeitar, « não se submetendo».

seu desejo de escapar à realidade, refugia-se em atitudes nega- 108 (/ Oposição,,,, revolta) ou utópicas (/idealismo excessivo,

ADO

/intelectualismo,/ascetismo), ou então **denúte-se adaptando-se com uma excessiva docilidade: cai assim no/conformismo. Todas estas atitudes constituem outros tantos sintomas de/inadaptação, que podem entravar gravemente o desabrochamento da personalidade. Mas são igualmente outros tantos sinais, que podem guiar os/pais na sua tarefa educativa. Na ocorrência, esta consiste essencialmente - mais do que em descobrir os sinais de uma inadaptação que se pode considerar inerente à adolescência - em favorecer as actividades no domínio em que a adaptação se faz melhor. Isto poderá ser o/desporto, a actividade intelectual ou a actividade artística, por exemplo. Há interferência entre os diferentes níveis de adaptação:

um/êxito parcial tem as mais felizes consequências para a personalidade do adolescente.

ADOLESCÊNCIA (Adolescence/Adolescence)

Período de transição entre a infância e a idade adulta. Os seus limites situam-se entre os 12 e os 18 anos para as raparigas e entre os 14 e os 20 anos para os rapazes. A duração da adolescência é função de factores tais como o/meio (influência climática), a raça e o contexto/ social, os quais activam ou travam as diferentes transformações características desta idade.

Transformações físicas A/,,puberdade principia por um crescimento físico rápido, acompanhado de

transformações orgânicas que não cessarão senão com a maturidade *. O desenvolvimento dos órgãos

genitais e

A fisiologia o aparecimento dos caracteres secundários (pilosidade púbica e

desenvolvimento dos seios, etc.) são os sinais mais manifestos da puberdade. As leis inerentes a estas

transformações estão actualmente estabelecidas, e o seu conhecimento preciso permite evitar muitas

preocupações aos pais e aos filhos *.

# Ver o artigo

«do adolescência». axilar,

O

Ver o artigo

«A sexualidade

Transformações psicológicas da adolescente».

O púbere já não é uma criança mas ainda não é um adulto. Desta ambiguidade resulta uma tomada de consciência de si mesmo e dos outros que se caracteriza pela rejeição aparente dos modelos da infância (pais) e pela procura de novos modelos (/heróis,/ «ídolos») ou parceiros (/grupo, /bando, Iflirt)*. # Ver estas palavra

Esta procura é a primeira manifestação da/ inteligência abstracta*

cujo aparecimento se dá num contexto de perturbações afectivas

O Ver o artigo

«O raciocínio».

ligadas à rapidez das transformações internas e externas *. Da

«A afectividade relação entre a inteligência pura e a / afectividade depende o / êxito no adolescente».

O Ver o artigo

escolar.

# Ver o artigo

«A escolha da profi Escolha da profissão A adolescência acaba normalmente com a escolha de uma/pro-

lo

fissão que confere uma maturidade social tão importante como a maturidade física ou afectiva. Esta escolha, efectuada nas difíceis condições do crescimento, compromete todo o futuro. Por esta razão a orientação

profissional deve efectuar-se bastante cedo e com o maior cuidado. «Orientação

9 Ver

f] escolar e o artigo

O estudo da adolescência limita-se no entanto com demasiada re-

dados de base. Para perfazer um tal estudo, um psicólogo moderno deve conhecer igualmente o/gosto dos

adolescentes em matéria de/tempos livres: por um lado, estes últimos adquirem na nossa civilização uma importância que cresce de ano para ano; por outro, enquanto/ actividades livremente escolhidas, são

plenamente reveladores da personalidade* dos adolescentes.

«A escolha da profissão». quência a estes

e Ver o artigo

«os tempos livres».

ADOPÇÃO (Adoption/Adoption)

Num passado recente, a situação da criança adoptada podia causar graves perturbações. Esperava~se de facto que a criança alcançasse uma certa /maturidade para lhe revelar a sua verdadeira situação. Actualmente, a psicologia pôs em realce os riscos desta concepção: o adoptado considera ter sido enganado durante toda a sua infân- cia. Ao abalo natural causado por uma tal revelação vem juntar-se um sentimento de desconfiança, ou mesmo de rancor, que compromete posteriormente as relações com os/pais adoptivos. É por este motivo que eles são hoje aconselhados a pôr a criança ao corrente assim que ela está em idade de compreender: a partir de então, os laços criados entre pais e filho não assentam numa falsa situação mas numa outra, particular, de adoptante a adoptado. Os pais adoptivos são pais voluntários no pleno sentido do termo. Estão conscientes, num grau muito elevado, das suas/responsabilidades. Mas, por vezes, o/ comportamento do adolescente escapa- lhes. Eles devem saber que isto resulta, antes de mais, de o adolescente adoptado ter tendência a fantasiar os seus pais. Na idade em que começa a perceber os defeitos dos seus pais adoptivos, ele é levado a imaginar os seus verdadeiros pais perfeitos, dotados de todas as qualidades que não pode deixar de recusar às pessoas da sua convivência. A/oposição natural aos pais acha-se assim reforçada de uma maneira artificial. Na verdade, em vez de preparar

*

futura autonomia do adulto, ela submete-o durante muito tempo a

*

uma imagem idealizada, que compromete a sua/adaptação à

-

f

d, u @J vida rM**.

1

@AFEC .TIVIDADE (Affectivité/Affoctivity) ver o artigo nas Páginas seguintes e as páginas 68. los,

188, 409. 415, 490.

Fundamento da vida psíquica, a afectividade possui, como Jano, um duplo rosto: por um lado, mergulha as suas raizes no instinto

4 e no /inconsciente, e, por outro lado, representa uma abertura a

AFE

outrem. A afectividade manifesta-se pelas,,<emoções ou pelos sentimentos, mas também pelo humor e pela paixão, outros tantos estados afectivos que se sabe estarem particularmente sujeitos a variação no adolescente e que comprometem as suas relações com o adulto, habituado a ver nele a criança equilibrada do período o Ver o artigo de latência (entre os 6 e os 10 anos)*.

cA sexualidade».

18

A afectividade

por Jacqueline Hubert

A noção de «afecto» é a mais geral para exprimir os elementos da afectividade. Representa, segundo

Piérone, um «estado afectivo elementar que evolui entre dois pólos de/prazer-desprazer (alemão: Lust- UnIust) ou agradável-desagradável». Pode-se definir a afectividade como o conjunto dos afectos. Mas esta noção muito geral não é adequada a introduzir a descrição precisa que o presente estudo implicará; todavia,

reteremos a ideia, muito importante, dos dois pólos prazer-desprazer, entre os quais é possível situar todos

os estados afectivos. Uma outra definição também comummente admitida designa por afectividade «o

conjunto dos estados afectivos, dos sentimentos, das/emoções e das paixões de um indivíduo»*. Por muito sugestiva que seja, esta definição seria incapaz de conduzir a mais do que uma descrição dos

/comportamentos afectivos; ora, haverá lugar, para além disto, de analisar as suas causas e efeitos, ou seja,

as suas raízes na /personalidade do indivíduo, que evolui ele próprio num ambiente/social e/cultural definido.

Jacqueline Hubert Nascida em 1944, licenciada em Psicologia. Fez estudos de Medicina na Faculdade de Estrasburgo; prepara um mestrado em Ciências Humanas Clínicas.

9 H. Piéron: Vocabulaire de Ia psychologie (P.U.F., 1969).

* N. Siliamy: Di,tionnaire de M psychologie (Larousse, Paris, 1965).

A CRISE AFECTIVA NA ADOLESCÊNCIA

Um dos caracteres específicos da afectividade do adolescente, um dos mais facilmente observáveis, o que não deixa de inquietar os /pais, é a sua/violência. A intensidade das manifestações afectivas impede doravante as gradações na intensidade da violência. É assim frequente observar, tanto no jovem como na jovem, reacções de alegria, de entusiasmo, de/cólera, de hostilidade, dotadas de um carácter de absoluto, pouco vulgar no adulto. Parece até que o adolescente não consegue reagir de outro modo. Mostra-se amiúde irritável, responde aos/,,pais grosseiramente como se apenas sentisse ódio a seu respeito; «amua», clama bem alto

AFE

que é incompreendido, cora, empalidece ou treme: outras tantas manifestações vegetativas que demonstram um desarranjo/emotivo. Este/ desequilíbrio pode traduzir-se não só por uma hiperemotividade, mas também, por vezes, por uma hipoemotividade: há casos em que o adolescente se fecha num/mutismo onde ninguém pode ir ao encontro dele. Sem dúvida, mais do que as crises de hiperemotividade, esta recusa de/comunicar tem todas as condições para inquietar os pais. Às suas instantes perguntas, muitas vezes nimbadas de/ansiedade: «Estás doente? Que mal te fizeram? Porque não dizes nada?», etc., ele não responde senão de forma evasiva. Algumas vezes chega a parecer admirado com a súbita solicitude dos pais, como se lhe repugnasse dar pormenores acerca de um drama que deseja- guardar só para si drama frequentemente construído de fio a pavio quanto ao seu conteúdo -

e que se destina a tentar afirmar a sua individualidade. Outras vezes, é o silêncio absoluto, dando o sujeito a impressão de se comprazer em manter os pais numa situação que ele torna ainda mais /angustiante. Decerto que ela o é, na medida em que um tal mutismo não deixa de lembrar certos/ comportamentos patológicos. Mas, normalmente, isto é apenas passageiro, não havendo assim motivo para uma inquietação por aí além, tanto mais que uma tal reacção dos pais está longe de prestar serviço ao adolescente. Por um lado, não pode senão encorajá-lo nessa via, justamente porque lhe faz sentir a sua excessiva dependência dos pais. Por outro lado, uma tal resposta dos pais priva-o da ajuda que ele reclama de facto.

Entre a solicitude e a indiferente um interesse constante mas discreta Uma/atitude adaptada e eficaz consistiria, por um lado, em não tentar penetrar o seu mundo íntimo, e, por outro, não só em não lhe manifestar qualquer inimizade, mas, mais ainda, em levá-lo a sentir, embora sem insistência, que ele pode contar com um apoio. No entanto, é frequente a/agressividade dos pais em tais circunstâncias: será porventura a manifestação de uma recusa inconsciente de enfrentarem a sua própria incerteza?

A MUDANÇA DE SITUAÇT0 Este desequilíbrio afectivo do adolescente, que oscila entre a hiperemotividade e a hipoemotividade, traduz, obviamente, uma falta de coordenação entre os sistemas reguladores da/emotividade e os estímulos provenientes das novas situações da/ adolescência, ou seja, uma falta da/adaptação a estas. A adolescência é a idade em que se troca o lar/familiar pelo centro de/ aprendizagem, pelo liceu, pelo internato ou ainda pela fábrica.

20 A afectividade

O adolescente: reacções de criança perante situações de adulto Ás antigas situações quase exclusivamente

familiares vai suceder-se uma quantidade de situações em que o sujeito terá de estabelecer relações de tipo novo com indivíduos desconhecidos e de encontrar interesses/,,< afectivos novos. É assim que as /relações /pai-filho e fraternas são substituídas pelas de professor/aluno, patrão/operário, veterano-caloiro, e de/camaradagem. O adolescente tem de fazer frente tanto a um alargamento como a uma diversificação das suas relações com outrem, às quais deveriam corresponder um alargamento e uma diversificação das suas/condutas afectivas. Mas tal não acontece: as condutas afectivas da infância, de que o adolescente está ainda todo impregnado, não bastarão para controlar e assumir a nova situação, o adolescente tem ainda um pé na infância, e o passo que dá na direcção da idade adulta é motivo para vários tropeções. Ã primeira vista, a causa deste/ desequilíbrio parece ser uma falta de/adaptação, ou seja, uma/socialização ainda incompleta da afectividade. Uma tal socialização consistiria numa regulamentação das manifestações afectivas do adolescente pelos/valores e/ideais do/grupo, e na sua submissão aos arquétipos de/,”’ comportamentos afectivos admitidos por este grupo/cultural. Vemos assim que o adolescente não tem a

mesma «/linguagem afectiva» que os adultos, o que tende a separá-lo do seu mundo. Com efeito, ele é frequentemente rejeitado, incompreendido, por aqueles que não se reconhecem nele. Isto pode ter

consequências temíveis: ele fica isolado e sofre, não recebendo a aprovação necessária para se exprimir. Se esta situação /frustrante para o jovem se prolongar, a aquisição dos mecanismos de regulação afectiva - sem

os quais um indivíduo não poderia existir enquanto ser/social- arrisca-se bastante a ser perturbada. Esta

aprendizagem depende estreitamente, sublinhemo-lo, da resposta que o adolescente receber das pessoas mais íntimas sendo estas toda a sua referência - às suas tentativas afectivas inábeis e, muitas vezes, falhadas.

É necessário que os pais tomem consciência da delicada situação em que se encontra o seu filho, deste

estado de desequilíbrio latente que pode descambar para o patológico. Nunca é demais recomendar-lhes que

sejam prudentes e evitem toda a rudeza, toda a troça, toda a/atitude depreciativa, traumatizante.

POSSIBILIDADES PSÍQUICAS NOVAS Não há dúvida de que a crise de/ adolescência, tal como a temos descrito até agora, é imputável a uma mudança de situação/afectiva, a exigências/ sociais novas. Mas, paralelamente a estes factores exógenos, ela não deixa de se ligar a toda uma transformação das o Ver o artigo

«O raciocínio no estruturas /intelectuais.

adolescente».

AFE

O adolescente pode raciocinar por dedução e por indução

O pensamento do adolescente torna-se/projectivo: capaz de explorar não só o real, mas também as suas

virtualidades, de construir o futuro a partir dos dados do actual, mas também de hipóteses. O adolescente terá o poder de encontrar prolongamentos a um /’<desejo que não pode ser satisfeito com

base nas condições actuais: ele projecta este desejo numa situação vindoura prevista graças ao auxilio de hipóteses que reunam todas as condições para o satisfazerem. Ele vai prever por dedução o caminho que

deverá seguir para o alcançar, tendo em conta os obstáculos eventuais. O jovem Pedro C

sonha vir a ser médico: encontrou neste desejo uma saída para as suas dificuldades afectivas. Ora, os seus /,<pais, sem recursos, proíbem-lhe uma tal/orientação e encaminham-no para um/;<ensino técnico

sancionado pelo diploma industrial que irá permitir-lhe trabalhar logo a seguir. Após um breve despeito que

se traduz por diversas manifestações/,< agressivas, o

de 15 anos,

jovem Pedro vai prever todas as etapas que o levarão à realização do seu desejo: concluirá o curso industrial a fim de evitar o obstáculo/familiar; em seguida preparará o exame final do curso dos liceus, ganhando entretanto a sua vida, obterá uma bolsa de ensino superior e poderá assim estudar medicina sem demasiadas preocupações financeiras e com a aprovação dos pais. Actualmente, este rapaz, que se tomou adulto, exerce a medicina; o seu caso constitui um exemplo-tipo comprovativo da natureza das transformações intelectuais na/ adolescência, e da sua intervenção na resolução de um/conflito afectivo. Vemos o sujeito remeter a satisfação do seu desejo para uma data ulterior, evitando assim um conflito familiar aberto que o teria privado da aprovação dos pais, e

conseguir sem o mínimo choque com as exigências do presente (financeiras, etc.) criar as condições da realização do seu projecto.

O que quer dizer que ele resolve a situação de conflito afectivo inicial unicamente através de um /raciocínio

dedutivo. Neste caso, a aquisição do novo material dedutivo permite a resolução da crise e constitui um processo de regulação da afectividade, à semelhança da/sublimação ou da/identificação a um nível de consciência menor. Mas este caso tem apenas um valor de exemplo em virtude da simplicidade da sucessão dos fenómenos que ele põe em evidência, e devido à própria circunstância de ter sido realizado. São raros

os adolescentes que dão provas de uma tal justeza na apreciação dos obstáculos e na forma de os contornar. Muitas vezes os /juízos são apressados, as/ condutas de rodeio pouco elaboradas e sobretudo pouco

adaptadas à realidade: não passam de ilusões que conduzirão a /decepções. intelectuais muda

As estruturas

as reacções efectivas diversificam. Mas estas novas possibilidades/ intelectuais do adolescente não afec-

22 A afectividade

tam somente a regulação/afectiva: elas transformam a própria essência da afectividade. O adolescente já não reage às situações quotidianas apenas por/emoções ou sentimentos muito rudimentares, como é o caso da criança. O pensamento formal implica a faculdade de representação intelectual, a longo prazo, do objecto da emoção. Esta pode assim produzir-se sem a presença do estimulo. Por conseguinte, a um novo material intelectual corresponde a expansão de um novo material afectivo: o sentimento. O adolescente torna-se efectivamente capaz de experimentar uma gama muito extensa de sentimentos assaz complexos. Esta diversificação dos sentimentos, que permite ao adolescente perceber as situações de forma mais rica e mais gradativa, deve ser relacionada com o alargamento do seu mundo, e pode aliás oferecer-lhe uma possibilidade de o dominar. De facto, os novos recursos intelectuais do adolescente intervêm de modo positivo durante a crise, no sentido em que facultam os instrumentos necessários a uma tomada de consciência e possibilidades de resolução. Mas eles não escapam a um aspecto negativo. Acontece o adolescente utilizar o seu novo material dedutivo de maneira frenética, sendo este o aspecto nefasto de uma especulação intelectual absolutamente nova para ele. Assim, por desejo de unificar o que o rodeia, de aí se situar, constrói teorias do universo que nem sempre se verificam na vida quotidiana: isto é fonte de muitos debates íntimos e de/conflitos interiores sem fim. Projecta-se então na sua inteireza, apaixonadamente, sobre um problema, um drama humano, um acontecimento da actualidade, analisa-o, critica-o de forma radical, denuncia a injustiça e leva às últimas consequências o seu/raciocínio: o que pode impeli-lo a rupturas, actos de violência, etc. Um/desejo absoluto, uma intransigência, uma radicalidade de /juízo, uma propensão para a/fantasia, a meditação, a/imaginação, as ilusões e a especulação intelectual pura, outras tantas qualidades tradutoras de uma certa efervescência intelectual que contribui para modificar o equilíbrio afectivo do adolescente.

A INTERVENÇÃO DA IMAGINAÇJ0 Podemos dizer que é no adolescente que os processos imaginativos são mais exacerbados. Quantas vezes, a partir de um facto anódino para o adulto, não «constrói ele um romance»! Deve-se procurar a origem das construções da/imaginação na elaboração dos fantasmas da mais tenra infância. Estes fantasmas têm já, no bebé, uma função libertadora de energia: ele imagina, na ausência da/mãe, a satisfação que resulta da sucção do seio

AFE

materno. Deste modo, liberta a/ tensão provocada pelo seu,.”, desejo do seio.

A

imaginação permite ajustar a realidade ao só É para um objectivo inconsciente análogo que o adolescente

se

deixa arrastar pela sua imaginação. Esta constitui nele um dos mecanismos de defesa, de desvio, pelos

quais ele tenta satisfazer os desejos e pulsões cuja satisfação é proibida no meio em que vive. Ela é um meio de transformar a realidade que, como vimos, se manifesta a seu respeito de forma coercitiva. É a mediação entre as pulsões @ a realidade. E frequente os adolescentes transformarem as relações, próximas ou longínquas, que têm na vida corrente com pessoas do/sexo oposto (professores, vedetas de/cinema, etc.) em ligações romanescas de uma rara riqueza afectiva que a sociedade e as instituições proíbem. Eles inventam paixões que só existem na sua imaginação, /amizades extraordinárias que se fundam, apenas e afinal, em relações superficiais. Imaginam perspectivas de/futuro (viagens fabulosas, vida de aventuras, factos heróicos) que lhes permitem investir uma afectividade intensa. Vemos pois como é lamentável que certos /pais acolham com troça e reprovação estes/ comportamentos, proibindo assim aos adolescentes uma

satisfação dos seus desejos e/frustrando-os do mesmo passo: esta actividade fantasmática é-lhes, com efeito, necessária: ela permite-lhes que se libertem das suas pulsões, sem perigo para * ordem estabelecida. Decerto que há adolescentes que consagram * estas/emoções uma proporção excessiva do seu tempo, a ponto de os resultados escolares, em particular,

se ressentirem disso. Mas não é evidentemente com censuras, muito pelo contrário, que se

4@onsegue dar remédio a tais acidentes. E preferível, no caso de numerosos adolescentes, propor uma/actividade extra-familiar - sendo a/ família a própria imagem do /conflito que os preocupa, a qual ajuda a/socialização da sua/afectividade. O/desporto, por exemplo, a/música, os /grupos de jovens permitirão canalizar convenientemente uma energia desordenada.

O FACTOR Biológico

Desde o início da/adolescência aparecem os primeiros sinais da «crise de crescimento»: ela traduz-se, num aspecto, por um súbito crescimento da estatura e dos membros, por um/ desenvolvimento muscular - sobretudo no rapaz, que sente transformar-se em homem- e, noutro aspecto, pelo aparecimento dos caracteres sexuais secundários: os seios e o apuramento das formas na rapariga, o sistema piloso no rapaz *. Estas mudanças somáticas têm por origem uma revolução /hormonal. Pensava-se outrora que adolescência».

24 A afectividado

tais modificações fisiológicas, que conduzirão ao aparecimento da pulsão/sexual, eram a única origem da/;< instabilidade afectiva da adolescência, Este ponto de vista é ilustrado pela doutrina de Stanley Hall, que e ontogénese: história

da formação d indivlduo era de opinião que a ontogéneseo reproduzia a filogéneseo e con-

adolescente como sendo «neo-atávicoo, propenso às ancestrais que dispu- o filogénese: história

da formação da espécie tavaril entre si a preponderâncía»*.

impulso vital, esta efervescência de forças,

muitas vezes contida com grande esforço no interior do indivíduo, e neo-atavismo

desde o ovo acoestado siderava o

adulto. tempestades e à tensão» por causa de «forças

desde o homem primitivo Sem dúvida que este

ao homem de hoje.

da

adolescência. ocasiona uma certa impetuosidade afectiva, em virtude da impa-

segundo S. Hali:

na

adolescência, ciência que ele experimenta de se realizar. Mas veremos que as

apareceriam certos dificuldades

encontradas na altura do aparecimento deste impulso mais imputáveis ao facto de o círculo de convivência à sua própria existência. A crise Este facto não seria

afectiva cujas causas imediatas analisámos não é senão a mani-

O S. Hail: Adolescence festaçâo de um/conflito muito mais profundo, que vai buscar

caracteres ancestrais . (respeitantes, em particular, são muito

às etapas da filogénese). se opor à sua expressão total do que

observável na criança.

(1908), citado por as suas raízes

aos fundamentos da/ personalidade e à dinâmica

O. Klineberg in Psychologie

sociale (P.U.F. Paris, do indivíduo.

1967), p. 415.

As experiências da infância repercutem-se na personalidade adolescente Podenios definir desde já dois níveis que interactuam na/afectividade do adolescente: um nível individual que abarca a personalidade, os caracteres biológicos, aos quais se acrescentam os que nascem das experiências da infância; um nível sociocultural relativo à situação de conflito em que se encontra o indivíduo, entre as exigências do seu eu e as do mundo que o rodeia: a este nível situa-se a/ aprendizagem/ social do adolescente. As perturbações da/adolescê ncia incidem nestes dois domínios: não se deve no entanto considerá-los em separado, visto que eles estão constantemente em interacção. É por isso que as/>,reacções afectivas do adolescente dependerão intimamente do desenvolvimento da sua afectividade durante a infância, das fixações num estádio desta evolução que se produziram por ocasião de um abalo afectivo e estão na origem de regressões durante a adolescência. Elas dependerão igualmente da quantidade de/frustrações impostas pelas pessoas que o rodeiam, da forma como estas tiverem respondido à/necessidade- de/amor da criança, ou seja, tiverem aprovado o seu/ comportamento e satisfeito assim a sua necessidade de aprovação por outrem. Se estas experiências da infância se produziram de forma traumatizante para o sujeito, se, por exemplo, ele não recebeu da parte dos adultos afeição e aprovação em grau suficiente, pela/frustração xe excessiva corre-se o risco da deformar a sua afectividade: será possível observar/ comportamentos/ agressivos diversos. Estas experiências infantis interiorizadas intervêm de modo irrever-

AFE

sível quando o adolescente é confrontado com a sua nova situação. Das experiências da/adolescência deriva dialecticamente uma forma nova da vida afectiva.

AS CAUSAS PROFUNDAS DO CONFLITO DA ADOLESCÊNCIA

Nunca será demasiado salientar a importância da afirmação da pulsão/sexual nas perturbações afectivas da adolescência. Na /puberdade, cerca dos 13 anos nas raparigas e dos 15 anos nos rapazes, as mudanças /hormonais preparam para a função genital. Os psicanalistas determinaram bem o papel primordial da/sexualidade durante a primeira infância. Mas ao passo que esta apenas se exprime confusamente e não de maneira clara e consciente, a do adolescente, p@lo contrário, exprime-se cada vez mais clara e conscientemente. A pulsão sexual da criança acrescentam-se o poder de reprodução, a/ capacidade biológica que vem completá-la, assim como a genitalidade essencialmente nova. Sabe-se que certos autores consideravam esta mudança responsável pela/ instabilidade afectiva da adolescência que eles julgavam por conseguinte inevit@ável, sobretudo na rapariga. E certo que a nova energia biológica de que passa a dispor de repente o adolescente, o novo/desejo que o invade, que ele sente ainda como estranho a si mesmo, são responsáveis *por uma modificação dos comportamentos afectivos no sentido de uma maior intensidade. Mas tal ponto de vista foi posto em causa, assim como certas explicações /psicológicas consideradas como verdades, a partir do momento em que este domínio da ciência pôde recorrer às fontes da etnologia. De facto, a observação de/sociedades primitivas mostrou que as variáveis tidas por universais não eram afinal senão culturais e apareciam como já não sendo as únicas a intervir nos mecanismos considerados. Assim, a explicação da crise de /adolescência apenas pelo factor biológico revelou-se falsa visto que ela não existia sob a mesma forma em/sociedades primitivas cujos indivíduos sofriam evidentemente a mesma evolução

fisiológica na puberdade. Com efeito, Margaret Mead, ao observar os Samoa, sociedade primitiva da Polinésia, em que certos interditos e/tabus/sexuais próprios da nossa/cultura ocidental e cristã não existem, apercebeu-se de que não se descobria neles qualquer crise afectiva na sequência da puberdade. Não sendo, pois, a crise de adolescência um fenômeno universal não se deve continuar a

procurar-lhe as causas apenas na biologia mas antes na relação cultura-indivíduo.

412.

pp- 411-

26

A nossa cultura impõe ao indivíduo severas restrições sexuais: proibição/moral do incesto, do acto sexual fora do/casamento. Estas restrições são inculcadas desde a infância por intermédio de regras morais e sociais. Segundo Freud, tais interditos têm por origem a necessidade de valorizar o/trabalho a que obriga a sobrevivência económica da nossa sociedade. Logo, os quadros institucionais proíbem ao indivíduo qualquer desperdício de energia no acto sexual, que afectaria o seu rendimento. Estes interditos adquirem um relevo particular no adolescente recentemente apto à função sexual. «Todos os fenómenos conflituais e/neuróticos da puberdade têm uma mesma origem: o conflito entre a/maturidade sexual do adolescente, por

volta dos 15 anos, suscitando a /necessidade/ fisiológica de relações sexuais e a/aptidão para gerar, e a impossibilidade material e/psicológica de realizar a situação legal exigida pela sociedade para a/actividade

sexual, a saber, o/casamento.»* Vemos agora quanto o conflito afectivo

da adolescência ultrapassa largamente a crise juvenil que não é mais 1968), p. 121. do que uma sua expressão passageira.

O W.Reich:IaRévolution . sexuelle, (Plon. Paris,

Da insatisfação das

pulsões sexuais

resulta um conflito psico169ico

no acto sexual: é recalcada e cria uma/tensão muito importante no organismo. Esta tensão, desagradável para o sujeito, deverá ser reduzida em virtude «do princípio de constância» que, segundo Freud, leva o

indivíduo a manter a sua energia ao mais baixo nível possível. O equilíbrio energético rompido por este afluxo de energia deverá ser restabelecido. «Sabemos que, sob o ponto de vista orgânico, se manifestam verdadeiras tensões que devem ser reduzidas de uma ou de outra forma e que da impossibilidade de o conseguir pode resultar um conflito psicológico. Mesmo quando se descobre alguma forma de satisfação

sexual,

(P.U.F., Paris, 1967). morais da/sociedade não deixará de levantar problemas.»*

um conflito moral Vemos assim que o problema deriva de não ser possível qualquer satisfação/ sexual legal

em consonância com a/moral sexual, Pois O/Casamento é economicamente impossível neste período .,,da vida, e também de toda a satisfação ilegal causar um sentimento @de vergonha e de/ culpabilidade que alimenta o/conflito na

A energia tornada disponível pela pulsão sexual não pode ser despendida

9 O. Mineberg: a/oposição entre o/comportamento do indivíduo e os preceitos

p.

Psychologie sociale

da sua satisfação

em que o indivíduo tem necessidade de ser aprovado pelo . Há então impossibilidade de resolver o conflito pela

da Pulsão primária. Por consequência vão intervir **mecad~o da energia para fins aceites pelo grupo: a pulsão **ubida quanto ao fim. E assim que se pode ver, no

vivo dos adolescentes pela/arte, a/música, a imaginação e na riqueza afectiva da adolescência,

AFE

uma/sublimação da pulsão sexual recalcada. Mas a acção destes circuitos reguladores, ainda mal organizados, falha muitas vezes diante da amplidão da energia disponível. Isto explicaria as efusões afectivas de todas as espécies, correntes nesta idade. Mais ainda, a/adolescência aparece como sendo

essencialmente um estado de/desequilíbrio energético que o sujeito tenta reduzir: dos processos de redução depende a forma da sua afectividade.

O estado de desequilíbrio energético que se traduz por um desequilíbrio afectivo é inevitavelmente

agravado pela situação/;, social pouco invejável do adolescente.

O ASPECTO SOCIOCULTURÁL DO CONFLITO AFECTIVO

Os especialistas da antropologia cultural mostraram como o indivíduo e a/cultura da sua sociedade se enfrentam incessantemente nos mínimos actos da sua vida quotidiana. A cultura é, segundo Lintone, «a configuração dos seus comportamentos aprendidos e dos resultados, cujos elementos componentes são partilhados e transmitidos pelos membros de uma dada sociedade», ou seja, o conjunto organizado de normas e de/valores, de padrões de/comportamento, de modelos culturais que traduzem o modo de vida do/grupo. Relativamente aos indivíduos, a cultura organiza-se em instituições transcendentes que visam garantir a conservação da sociedade (/família, /trabalho,/ religião são instituições) e se traduzem por sistemas segundo os quais os indivíduos são classificados e organizados. Normalmente, um indivíduo ocupa um lugar determinado em vários destes sistemas; o seu «estatuto» é «o lugar que ele ocupa em dado momento num dado sistema»*, o seu «papel» define-se como «as/atitudes, os valores e os /comportamentos que a /sociedade destina a uma pessoa e a todas as pessoas que ocupam este estatuto»*. Um indivíduo tem portanto vários estatutos e vários papéis que variam consoante o/sexo e a idade; por exemplo, um sujeito pode ser ao mesmo tempo / pai de / família, director de fábrica e membro de um clube.

Estes conceitos de antropologia/ cultural vão permitir-nos apreender melhor as consequências afectivas da

posição sociocultural do adolescente. O estatuto de criança submetida aos/pais já lhe não convém, pois que

se tornou um homem /fisiológica e/intelectualmente falando; o estatuto de adulto não convém ainda, pois o

adolescente não pode assumir todas as /responsabilidades que lhe estão ligadas. Não tem por conseguinte qualquer estatuto particular. Mas não é menos verdade que a sua esfera social o obriga a assumir um papel:

ele deve ter certas/relações com os seus semelhantes, certos

28

comportamentos com as instituições enquanto espera o estatuto de adulto que receberá mais tarde. Sem dúvida que a sociedade prevê certos estatutos para o adolescente -tais como o de aluno de liceu-, mas estes não existem senão na previsão dos estatutos futuros e não podem constituir uma referência bem definida de papé is. Se se quiser definir o estatuto do adolescente como o da/aprendizagem dos estatutos vindouros, o papel afigurar-se-lhe-á um constrangimento absurdo porquanto não é justificado por qualquer estatuto actual. Pede-se ao adolescente, ora que se comporte como um adulto, ora que se submeta como uma criança: por exemplo, ele deve ganhar a vida durante as/férias, ter/opiniões fundadas, evidenciar um trato de adulto; em contrapartida, proibem-lhe que tome a palavra para exprimir o seu parecer, regulamentam-lhe as /saídas nocturnas e impedem-no de usar determinado /vestuário. Vemos os/conflitos afectivos que isto ocasiona. A/frustração quotidiana procedente do facto de o papel lhe ser imposto com tudo o que comporta de constrangedor (pois está dissociado das possibilidades de recompensa que um estatuto oferece sob forma de glória, de consideração, de auto-satisfação, de/dinheiro) e a incerteza em que ele se acha de agir quer como uma criança, quer como um adulto, para beneficiar da aprovação de outrem, vem acentuar o desequilíbrio. Por consequência, são aqui frustradas duas /necessidades essen ‘ciais:

- a necessidade de aprovação por parte de outrem, porque é impossível ao adolescente adoptar quase simuitaneamente comportamentos tão contraditórios; - a dependência na qual se encontra o adolescente frente aos/ pais, sentida como um perigo na medida em que ela pressupõe a possibilidade de privação. Mais uma razão para não se sentir em/segurança, pelo que a necessidade de segurança se acha indirectamente /frustrada.

A crise de adolescência está ligada a um certo tipo de sociedade Esta situação movediça, estas frustrações que criam tensões suplementares acentuam o/ desequilíbrio energético já criado pela impossibilidade de uma satisfação /sexual e estão na origem da crise afectiva da adolescência nas nossas/ sociedades, pois, como acentua Linton, «nas sociedades que reconhecem os adolescentes como uma categoria distinta e lhes destinam/ actividades adaptadas à sua condição, esta idade passa-se sem tensão ou quase, e a transição do papel da criança para o do adulto efectua-se sem abalo grave para a personalidade»*. Trata-se agora de saber que caminhos seguirá a afectividade do adolescente em resposta a este/conflito inevitável nas nossas sociedades.

AFE

O ASPECTO SUBJECTIVO DO CONFLITO AFECTIVO

A angústia que surge na adolescência, é um estado desagradável cujo objecto permanece indeterminado

para o sujeito, o qual a experimenta como uma impressão de mal-estar. A angústia faz-se muitas vezes acompanhar de contracções difasas, duráveis e penosas das regiões viscerais ou da garganta, e de

fenômenos de desequilíbrio vegetativo: taquicardiae, perturbações intestinais, anciloses

aceleração do dtmc passageiras, etc. A angústia é a manifestação da energia latente,

pelas frustrações. A angústia é devida a uma falta de segurança que pode ter causas diversas.

O taqLlicardis.-

cardíaco. da/tensão causada

A angústia está ligada ao medo da sanção, ao receio do ridí Está ligada ao,@<medo inconsciente da/sanção relativa à transgressão dos interditos; este medo acompanha o desenvolvimento da pulsão sexual no adolescente. Pois se não existe satisfação pulsional alguma, há medo antecipado da sanção que se seguiria a uma eventual satisfação. Trata-se de um mecanismo interiorizado durante a infância e que consistia então no medo de perder a afeição dos pais. Por outro lado, a constituição de uma consciência/ moral por interiorização do debate indivíduo autoridade é acompanhada por um sentimento de/ culpabilidade. Certas satisfações como o onanismo resultante da miséria sexual do adolescente, e até muito simplesmente a acuidade do/ desejo sexual que se exprime nesta idade de múltiplas formas, são seguidas de um sentimento de/culpabilidade e da/angústia que sempre o acompanha, vestígio desse /medo infantil de ser castigado. Além disso, o sentimento/ social de vergonha que afecta a coisa genital pode explicar-se, no adolescente, como sendo um composto de angústia e de culpabilidade que acompanha a tomada de consciência da sua própria potencialidade genital percebida como temível. Enfim, a ambiguidade da situação social em que se encontra o sujeito, a iminência da/frustração -no horizonte de qualquer ensaio /comportamental-, percebida como uma/sanção, originam um sentimento de angústia e de ansiedade que reflectem o medo de agir do indivíduo, ou seja, de se arriscar a uma sanção. A esta angústia ligada à ausência de estatuto acrescenta-se um sentimento de ridículo: a criança sente-se adulta em determinada altura e acha ridículo ver-se constrangida a obedecer como uma criança. Este sentimento associa-se a um certo medo de ser ridículo, que é uma das manifestações da angústia. Vemos assim como a angústia se exprime de maneira indirecta em comportamentos afectivos que a não contêm a priori.

30

É lícito ver em certas apreensões escolares (medo do/exame, dores de barriga), na/timidez, no receio de desagradar, na reacção /enleada dos adolescentes quando se lhes exprime por vezes sinais de afeição habitualmente reservados às crianças (a/mãe que o senta nos seus joelhos, por exemplo), uma das manifestações secundárias da angústia, do medo do ridículo e da vergonha. Em suma, a angústia, que constitui, como vimos, uma/reacção afectiva elaborada durante a infância, é uma forma de o adolescente responder pela recusa de agir ao/conflito pulsional. Ela representa portanto uma reacção. «As pulsões

sexuais

sujidade, a exibição, ressurgências passageiras de tendências edipianas), suscitam desejos novos, vão de encontro a interditos estabelecidos, ameaçam o equilíbrio adquirido, desencadeiam assim uma certa angústia e chegam por vezes a provocar sintomas pré-neuróticos de tipo fóbico, obsessional ou

A angústia é uma

histeróide.»*

reacção à frustração. Mas associa-se esta mais geralmente à/agressividade: o que constitui até o objecto de uma lei da/psicologia, a lei Dollars-Miller-Sears, segundo a qual toda a frustração é necessariamente seguida de uma conduta de/agressividade. No entender de Jean-Claude Fillouxo, a frustração resulta «do

choque entre as motivações e um obstáculo exterior percebido como indestrutível; as/reacções agressivas

traduzem

reactivam temporariamente posições sexuais infantis (tendência para a voracidade, a crueldade, a

e A frustração e a agressividade.

simplesmente a impotência do indivíduo para realizar a sua/ adaptação ao real».

A agressividade é uma conduta de fracasso Convém compreender bem que a agressivídade é um mecanismo de regulação tão importante como a/sublimação, visto que ela é consumidora de energia. Contudo, a sublimação, além de permitir uma redução do/conflito, proporciona ao indivíduo uma segunda satisfação em virtude de ser aprovada pelo/grupo, ao passo que a agressividade traduz uma impossibilidade do indivíduo em organizar a sua energia de modo útil, isto é, um fracasso dos mecanismos reguladores que permitem canalizar a energia para fins e dentro de circuitos aprovados pela /sociedade. No adolescente, que conhece frequentemente este fracasso, as condutas agressivas são correntes (cólera, irritabilidade, /gosto pela/violência, por vezes, inclusive, /prazer em fazer mal, tendências/sádicas, etc.). Ainda que estas manifestações agressivas ofereçam ao adolescente um prazer imediato, ou seja, uma baixa de/ tensão, elas privam-no a maior parte das vezes da aprovação de outrem.

Mas existem meios desviados de se exprimir a agressividade que, por causa das suas qualidades secundárias, são susceptíveis de obter esta aprovação: assim, uma excessiva delicadeza, uma submissão exagerada, um/cinismo cheio de finura, uma amabilidade obsequiosa são meios mais apurados e mais satisfatórios de alívio. No entanto, na maioria dos casos, os/ comportamentos agressivos são muito mais primários e nunca constituem condutas organizadas que imbuem a/personalidade como acontece com o adulto obsequioso ou cínico. Trata-se, isso sim, de/risos e de alusões trocistas, de uma brutalidade que se torna verbal, utilizando o adolescente as suas novas aquisições intelectuais: gosta de provocar os seus íntimos em justas oratórias, sem/pudor relativamente a certos/tabus, sem receio de melindrar com o seu/raciocínio incisivo, subjugando qualquer/ oposição encontrada sem a mínima /objectividade, terminando tudo isto amiúde em grandes gritos. */* Os grupos de adolescentes têm muitas vezes o seu bode expiat6i A agressividade aberta e franca da criança que chora, bate com os pés, «tem birras» de curta duração e logo esquecidas é substituída pela implicação por vezes maldosa do adolescente. Nos grupos de adolescentes, esta exerce-se frequentemente sobre um mesmo indivíduo que passa a ser o bode expiatório do grupo. E isso pode ter, para um tal infeliz, objecto de uma implicação que se torna encarniçada e cruel, consequências lamentáveis: em certa turma masculina do

oitavo ano de escolaridade, o pequeno Jaime C

das suas formas um tanto ou quanto roliças; ele não consegue impor o respeito dos outros pela força e acaba por se entregar a uma espécie de melancolia que o impede de se interessar seja por que/actividade escolar for: aluno assaz medíocre, não faz progresso algum, e os seus maus resultados levá-lo-ão a perder o ano. Estas diversas /reacções que ilustram tão bem a crise são outras tantas tentativas do adolescente para afirmar a sua identidade no seio de sistemas donde se sente rejeitado, para resolver o/conflito. Mas tais tentativas nã o conformes às normas /culturais não beneficiam da aprovação dos outros. Uma nova/frustração vem acrescentar-se às precedentes, a tensão aumenta e funda novas manifestações/ agressivas que não tardarão a produzir-se. Vemos aqui o círculo vicioso que pode conduzir a/tensão até ao paroxismo e ocasionar regressões, ou seja, o recurso a mecanismos de defesa /infântis que se arriscará a redundar em/neuroses.

é alvo dos gracejos maliciosos dos/camaradas a propósito

O conflito que acabamos de expor longamente põe assim frente a frente as exigências pulsionais do indivíduo e as do meio sociocultural, opostas às primeiras. «A pré-adolescência e a/adolescência denominam o período de crise no qual se manifesta como pano de fundo uma expansão nova das pulsões sexuais que põe

causa certas construções anteriores da/ personalidade, instaura luta interior com as eventualidades daí decorrentes e abre o

o a novas/ identificações e a novas orientações.»*

1, p,ychopédsgogle et de contrando-se a personalidade, o eu do adolescente, assim dispersa

e estas exigências contraditórias, impõe-se ao adolescente uma

O Laffont: Vocabuleire

(P.U.F., Paris, 1963).

PsYchiatrie de 1'enfant

para sair do estado incómodo em que se encontra. @Como o conseguirá ele? Segundo demonstrou Jeari-

Claude Fillouxo, o eu desenvolve-se

com outrem,

col. «Que sais-je?», ou seja, a afectividade, é essencial: «Só ela pode, de facto, fornecer Paris, 1965), p. 86. referências. Ora estas referências apenas contribuem para constituir uma percepção originária na medida em que elas já não são exteriores ao indivíduo, antes entram na estrutura do para-si. Deste modo, o ‘ego-desenvolvimento’ deve revelar-se solidário de ‘ego-involvimentos’, isto é, de identificações.»

o J.-C. Filloux: através de uma série de processos em que a relação

Ia Personnalité (P.U.F.,

O eu transforma-se por uma sério de identificações com os outros Assim, é por identificação, ou seja,

segundo Laplanche e Pontaliso,

J. B. Pontalis: Vocabuleire por «um processo/ psicológico pelo qual um sujeito assimila um

uma propriedade, um atributo do outro e se transforma,

partir do modelo deste», que a/personalidade se transforma, se constitui. A criança, na altura da situação edipiana - que põe em confronto, por um lado, o seu /desejo/ sexual inconsciente pelo progenitor de sexo oposto e o seu ódio pelo progenitor de mesmo sexo (cuja própria morte é ambicionada), e, por outro, a/culpabilidade que daí deriva -, vai encontrar uma solução na/ identificação com este progenitor de mesmo sexo. O rapazinho imita o seu/pai: «Quero ser grande como o papá», torna-se o seu companheiro de/tempos livres, lugar que não cederia a ninguém; a menina comporta-se como a sua/mãe, embeleza-se, interessa-se pelas tarefas domésticas. Mas, não obstante esta mudança de pólo de interesses, o rapaz permanece muito apegado a sua mãe, que acarinha, e a menina a seu pai. Este interesse, este apego pelo progenitor de sexo

oposto vai durar até à pré-puberdade. Neste período, o sujeito leva a cabo /esforços para se desligar do progenitor do sexo oposto: a rapariga critica a mãe, torna-se/;< agressiva a seu respeito, o rapaz tem a mesma/atitude relativamente ao pai. Este afastamento das identificaçôes do Édipo está relacionado com os /comportamentos /emotivos e agressivos pelos quais os jovens adolescentes rejeitam a célula/ familiar.

e- i. Laplanche e

de Ia psychanalise aspecto,

(P U.F., Paris, 1967). totalmente ou parcialmente, a

Mucchielli* distingue três maneiras de o adolescente exprimir esta

Ia Pe onnalité de J'enfant rejeição afectiva; uma primeira maneira consiste em manifestar a

reprovação dos/hábitos familiares no próprio seio da/acti-

domingo convertem-se em aborrecidos deveres e terminam muitas vezes em ruidosas discussões;

e R. Mucchielli:

(Editio-ns sociales, Paris, sua

1968), p. 148. vidade da família: as/saídas ao

AFE

uma segunda maneira consiste em/imaginar e em contar que não é filho dos seus pais, mas de, um ilustre desconhecido com rosto de /herói. É por esta razão que há quem qualifique este período de idade do «romance familiar». Enfim, última maneira, o adolescente gaba o que se passa noutros sítios: na/escola, em casa dos colegas, no desígnio de denegrir o que se passa em sua casa.

Este distanciamento das identificações anteriores, que se explica pela/ inadaptação à nova situação da/ adolescência, desintegra o eu do adolescente. É através de novas identificações que ele alcançará uma reestruturaçã o da sua personalidade. É, pois, à afectividade do adolescente que compete reunir este eu disperso. É pelo /,,jogo do/amor, da/amizade, do ódio, dos grandes sentimentos, os quais sofrem flutuações evolutivas ao longo de toda a adolescência, que o sujeito vai procurar o equilíbrio perdido.

A PROCURA DO EQUILIBRIO AFECTIVO Não é tarefa ligeira estudar os sentimentos adolescentes,

porquanto se eles se encontram ao longo de toda a/adolescência, é sempre sob uma forma diferente que varia em função da evolução do eu, e esta, por seu turno, não é idêntica em todos os indivíduos que estão submetidos a influências diversas. É verdade, como o formulou Maurice Debesse, que a adolescência, mais do que qualquer outro período da vida, não se deixa de modo algum compartimentar, e esta é outra prova da sua riqueza sentimental.

O narcisismo

«A constituição do eu como unidade psíquica é precipitada por uma certa imagem que o sujeito adquire de

si mesmo, a partir do modelo de outrem, e que é precisamente o eu.»* O movimento

J.-B. Pontalis: de/socialização que se observa por volta dos 6 anos na criança e

progressivo alargamento da esfera das/cama- abrandamento. A criança tem Paris, 1967), p. 262.

menos pequenos colegas, mas mantém com eles relações mais estreitas. Isto leva, a maior parte das vezes na pré-puberdade, ao par da mesma idade e do mesmo/sexo. Na/puberdade, este movimento de diminuição da socialização atinge o seu limite extremo no/narcisismo. Todavia, esta evolução vai no sentido de um aprofundamento das/relações afectivas com outrem, como se o adolescente estivesse à procura de si mesmo nos outros e, enriquecido pelo que aí encontrou e que ele interioriza por um jogo de/ identificações e de/projecçõ es, tomasse consciência de si mesmo, da sua pessoa, detendo-se um instante para contemplar, como Narciso, a sua própria imagem.

o J. Laplanche e

Vocabulaire de Ia que consiste num

psycharralise (P.U.F radagens sofre, cerca dos 9 anos, um

34 A afectividado

O narcisismo provoca a tomada de consciência de si Este/amor por si mesmo, que sobrevém exactamente com o aparecimento da pulsão/sexual, surge também como uma tentativa de resolver a /”angústia que ela traz consigo.

De facto, o sujeito dirige a sua «líbido» (a energia de origem sexual, segundo Freud) para si mesmo no

«amor de si» e tenta assim uma uníficação das novas pulsões, guiando-as no sentido do eu tornado objecto, mecanismo elaborado durante a infância por ocasião do período de narcisismo primário, em que o lactente «começa por se tomar a si mesmo -o seu próprio corpo - como objecto de amor»*. Mas ao mesmo tempo

que uma tentativa de unificação das

J. Laplanche e pulsões sexuais, o narcisismo surge, na adolescência, como tentativa

Vocabulaire de Já de uma unificação geral do eu pela tomada de consciência de uma

individualidade e, segundo Mucchiellio, «ele desempenha um papel medida em que rompe brutalmente o jogo das

Ia Personnalité de 1'enfant /identificações e provoca, simuitaneamente com a tomada definitiva

de consciência de si, um salto da/confiança em si mesmo».

* Freud, citado por

J.-B. Pontalis:

psychanalise (P.U.F.,

Paris, 1967). p. 261. indispensável na

(Editions sociales, Paris.

ID R. Mucchielli:

1968), p. 159.

Mercê desta confiança em si mesmo, a qual não será isenta de uma certa suficiência, o sujeito já não é solidário de outrem e pode assim pôr à prova a sua/ personalidade recentemente descoberta.

Reconhece-se o narcisiaco pelo tempo

que ele passa diante do espelho Esta preocupação consigo, que constitui o/narcisismo, conduz o adolescente a conceder uma extrema importância ao seu aspecto físico: vemo-lo passar horas diante de um espelho, lamentar-se por causa de uma borbulha no nariz, ganhar um interesse muito vivo pelo seu guarda-roupa. Noutros casos, tenta forçar os elogios dos/colegas acerca do seu físico, simulando tristeza ao contemplar traços que ele diz serem pouco estéticos; as palavras tranquilizadoras dos/amigos lisonjeiam o/amor-próprio do jovem narciso, mas o contentamento desmedido que se segue é bastante frágil; logo surgem novas inquietações, que reavivam esse/coquetismo em que os adolescentes (sobretudo as raparigas) se comprazem. Na adolescente, a preocupação de ser bela vai até à afectação e invade algumas vezes o domínio escolar: são o estojo de unhas na pasta e os perfumes, o bâton para os lábios, que passam a ser objecto de admoestações dos/pais e dos /educadores.

Estas cenas diante do espelho podem parecer anódinas, mas demonstram uma abertura do adolescente sobre si mesmo: uma complacência em analisar-se a si mesmo, em criticar-se, em explorar o seu mundo íntimo. Na verdade, cerca dos 14 anos, o adolescente toma consciência da sua riqueza interior, das suas novas faculdades, dO seu poder, que o enchem de/prazer; é assim que ele pode pas-

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sar longos momentos, sozinho no seu quarto, a sonhar; sente alegria em viver, gosta de se considerar um elemento vivo no seio da natureza, tira daí um certo orgulho. Deixa-se viver, longe dos outros a quem dedica um altivo desprezo, bastando-se a si mesmo.

O adolescente sente-se só, único o

isolamento, que ele procura e é geralmente acompanhado por melancolia, por/tristeza, estados em que se compraz, embora acuse os que convivem com ele de serem responsáveis por tal e de o não compreenderem. Nestas/ depressões, distinguimos uma espécie de prazer mórbido em alimentar a sua mágoa, unicamente pela satisfaçã o de se sentir existir. Hélène Deutsch observou este/ comportamento nas adolescentes, as quais diz projectarem a sua própria incompreensão do mundo no sentimento de serem incompreendidas e terem gosto em chorar. De qualquer modo, como fez notar Mucchielli*, seja qual for o

Ia Personnalitá de 1 comportamento que eles adoptem, megalomania ou/depressão,

os jovens adolescentes querem sobretudo afirmar que são doravante

seres originais possuidores de uma intimidade na qual já ninguém tem o direito de penetrar.

incompreeno Isto leva-o a experimentar um sentimento de

o R. Mucchieifi:

(Editions sociales, F

1968). p. 159.

Os/pais e os educadores não deixam de se inquietar por causa destes comportamentos esquisitos, desta auré ola de extravagância que parece envolver o adolescente, considerando os primeiros que o seu filho «já não tem os pés assentes no chão» e que o estreitamento da sua sociabilidade é perigoso para o seguimento da/adaptação/social. Mas convém que eles saibam bem que este estádio da evolução da/ personalidade é necessário à/maturação afectiva do filho que precisa, para se afirmar, de acreditar nas suas possibifidades, de ter/confiança em si mesmo; logo, não há motivo para se inquietarem com uma certa suficiência mesclada de/vaidade e de desprezo, nem para a censurarem. Se esta/ necessidade de se afirmar for frustrada pela oposição do /ineio, o sujeito experimenta um vivo sentimento de inferioridade e corre o risco de se fixar neste estádio de evolução, permanecendo privado da confiança em si, indispensável para enfrentar as fases futuras. Este sentimento de inferioridade, que o sujeito pode arrastar consigo toda a vida, manifesta-se, por compensação, através da vaidade, da dignidade rígida.

No decurso dos estádios ulteriores da adolescência, o/narcisismo marcará ainda fortemente o comportamento afectivo: os sentimentos de egoísmo, de vaidade, de estima por si, característicos do adolescente, são a prova disso.

36 A afectividade

A masturbação

Há um fenómeno frequente na/adolescência e que surge como a expressão sexualizada do/amor por si:

a/masturbação, ou onanismo, ocasionada, na opinião de alguns autores, pela necessidade de solidão, pela propensão do adolescente para analisar as suas sensações, decerto, mas também pela impossibilidade de satisfazer de outra maneira as suas pulsões/ sexuais. A masturbação acarreta um sentimento de/ culpabilidade, de/ansiedade e de vergonha. Estes sentimentos são devidos à introjecção dos interditos parentais na consciência/ moral do indivíduo, no decurso do período que o conduziu das/ identificações pós-edipianas à/puberdade. Nos sujeitos que sofreram a influência de um/meio extremamente /-<autoritário e moralizador durante este período, e que têm, por conseguinte, uma consciência/ moral muito rígida, os sentimentos de/ culpabilidade e de vergonha ligados à/masturbação provocam quase sempre uma intensificação desmedida do debate interior e das/atitudes de autodepreciação que podem levar à/neurose. Vemos a/ambivalência dos sentimentos no período do/narcisismo adolescente: os sentimentos de estima por si, de/amor-próprio, de/orgulho, opõem-se à autodepreciação ligada à culpabifidade e à vergonha experimentadas em todos os casos na altura da masturbação. Esta ambívalêncía dos sentimentos é um dos

caracteres específicos da afectividade do adolescente: o sujeito acha-se agradável à vista, digno de/amor, mas, simuitaneamente, inquieta-se com a sua «monstruosidade» /moral que lhe causa repugnância -sente-se ao mesmo tempo encantado com as suas novas formas físicas e aterrado pelos seus «maus pensamentos».

Mucchielli denuncia «a influência de uma/ educação/ religiosa mal orientada (

certos sujeitos, simuitaneamente muito sensibilizados para a falta e sexualmente muito ardentes, um

agravamento paroxístico da/angústia capaz de ir até à neurose»*.

Mucchielli:

) que (

) suscita em

9 R.

Ia Personnalité de 1'enfent Editions sociales. Paris,

O narcisismo do adolescente vai evoluir no sentido de um altruísmo

impulso para outrem, «impulso do coração», como diz Maurice Debesse, que irá conduzir o adolescente à conquista da sua/ personalidade. Mas é sempre ele mesmo que o adolescente procurará no outro.

1,968), p. 166. que se assinala pelo

Aslamizades

O sentimento de solidão no qual o adolescente se havia comprazido durante a fase do narcisismo torna-se, a

pouco e pouco, penoso. Por volta dos 15 anos na rapariga e dos 16 anos no rapaz, faz-se sentir a/,'necessidade de amar e de ser amado, como se a/projecção da/capacidade de amor unicamente sobre si mesmo já não

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bastasse, como se a/imaginação se tivesse esgotado a transformar uma realidade bem pobre e que é agora preciso alimentar por meio de/esforços exteriores. Esta/confiança em si, que o adolescente conquistou, tem necessidade de se reforçar na aprovação benevolente de um/,arnigo. Um tal impulso toma o aspecto de uma autêntica paixão: o adolescente anseia por conhecer, e o seu entusiasmo, como diz L. Dintzer, «cria espontaneamente um laço». Uma circunstância fortuita, uma/,, confidência escapada a um colega que faz entrever uma alma gêmea, ou um serviço prestado num momento difícil, estão na origem da escolha impulsiva e irracíonal do/,@amigo ou da amiga, e acontece a paixão súbita. O adolescente não tem necessidade de conhecer este novo amigo, aceita-o logo à primeira vista como se ele realizasse de uma forma absoluta a imagem do amigo ideal. Nenhuma crítica, nenhum realismo condicionam a adesão total a este novo objecto que vai ser, por sua vez, moldado pela/ imaginação. Mucchielli vê em tal/;<projecçâ0 a expressão de uma espécie de «amor flutuante», como se o/amor, com a sua força e a sua qualidade particulares, preexistisse a todo o investimento num ser, num objecto ou num ideal, como se ele flutuasse em busca ou à espera daquilo sobre que irá cair. Esta espontaneidade na projecção reencontra-se no nascimento do amor, por altura da escolha do objecto deste, e reflecte a/atitude geral do adolescente frente aos objectos da sua afectividade.

Os pares de amigos insep« são caracteristicos

evolução da sociabilidade do indivíduo foram reduzidas à sua expressão mais simples durante o período de/narcisismo. A necessidade de amizade satísfaz-se amiúde, na/ adolescência, no «par/homossexual»: par da mesma idade e do mesmo/ sexo em que a relação sexual não é habitual, mas constitui uma possibilidade. Sob formas variadas, este par reencontra-se em todos os estádios da adolescência. Paralelamente aos seus,,"flirts e à s suas diversas convivências, o adolescente mantém sempre um amigo a quem se pode confiar. Vemos aqui um prolongamento de uma fase da evolução da afectividade: a que, na pré-puberdade, consistia numa verdadeira solidão a dois no par de amigos da mesma idade e do mesmo sexo, fechado a qualquer intromissão de outrem. É o bem conhecido par de inseparáveis que se encontram todas as manhãs à entrada da/escola: os dois amigos «contam tudo» um ao outro, têm a impressão de viver em simbiose, nunca se separam durante os recreios e desprezam sistematicamente o intruso que se atreve a participar nos seus conciliábulos; em casa, cada um gaba as qualidades do outro - que, aliás, as tem todas. Eles imitam-se

mutuamente em todos os seus,, comportamentos, até se assemelharem, De facto, cada um deles é o espelho em que o outro contempla a sua própria

da adole» Estas/amizades adolescentes que seguem a

38 A afectivídade

imagem com enlevo. Este fenômeno prepara o período de/narcisismo que a/puberdade trará consigo.

Tais amizades a dois são necessárias ao bom andamento da futura evolução afectiva e/social, pois, no «outro eu mesmo», o sujeito acha, por/ identificação, os elementos do seu eu futuro. É por isso que Mucchielli insiste na necessidade de nos inquietarmos com a ausência de qualquer laço de amizade que, segundo ele, traduz a solídão/moral e é o sinal de uma/,, socialização mal feita, Não é portanto adequado tentar refrear estas,,>, amizades, o que traumatizaria a criança crescida. A perda de tal/amigo, quando ela é sentida como um abalo -no caso, por exemplo, de o amigo preferir um outro/ confidente, privando o adolescente de um objecto para o qual podia dirigir o seu excesso de/ amor -, pode dar azo a regressões graves na evolução do eu. Nestes casos, é corrente o adolescente procurar um outro si mesmo no progenitor de mesmo/sexo que ele volta a valorizar.

Um desgosto sentimental provoca muitas vezes um atraso

ou uma regressão na evolução para a maturidade Este mecanismo de defesa é corrente no adolescente por ocasião de uma/decepçâo nas suas amizades ou nos seus amores; é uma das fontes do/jnfantilismo de certos sujeitos que permanecem demasiado tempo dependentes da autoridade parenta], o que marcará a sua /personalidade de adulto. As amizades do período de/adolescência propriamente dita conservam o mesmo perfil que esta amizade/ homossexual pré-pubertária, embora se diferenciem em função das variáveis de idade e de sexo. Por conseguinte, distinguiremos as amizades entre indivíduos da mesma idade e do mesmo sexo, depois as que ligam dois indivíduos de idades diferentes, finalmente as amizades entre um adolescente e um adulto.

A amizade entre dois adolescentes da mesma idade e do mesmo sexo reproduz o par homossexual pr&pubertário. São os mesmos inseparáveis um pouco amadurecidos, mas com mais abertura aos outros. Ê- se feliz por amar e ser amado, procura-se prová-lo través de sacrifícios que se fazem com alegria pelo amigo - sob forma de serviços que requerem um/esforço, de dádiva de um objecto do qual nunca se havia pensado separar-se. Os dois amigos nutrem admiração um pelo outro, têm a impressão de comungar nas/emoções, sentimentos, /juízos, /gostos e interesses, e isto exalta-os e impele-os a cantar a sua amizade eterna com um romantismo enternecedor. O amigo é o ideal, jurou-se-lhe uma fidelidade e uma dedicação sem limites. Neles, como acentua Maurice Debesse, a,,*iMitação é levada ao cúmulo, cada qual tenta tornar-se igual ao outro, adoptando as mesmas mímicas divertidas, convencendo-se

AFE

das mesmas ideias, do mesmo ideal de si. Esta amizade tem algo de uma fraternidade de armas: tanto nos rapazes como nas raparigas, a complacência em falar das suas experiências com o sexo oposto, mostrando um certo desprendimento, denota o/medo inconsciente do outro sexo. «As pulsões para o outro sexo, diz Mélanie Kleino, quer nos rapazes quer nas raparigas desta idade,

l'Amour et Ia haine são muitas vezes experimentadas como cheias de tantos perigos que a atracção pelas pessoas do mesmo/ sexo tende a intensificar-se.» p. 125.

O amigo mais velho exerce com frequên

e Méianie Klein:

(Pavot. Paris. 1968),

um ascendente sobre o mais ni Por vezes, um dos dois amigos impõe-se ao outro que o toma por modelo, e isto amplifica-se quando eles não têm a mesma idade. É claro que o mais velho pode tornar-se uma espécie de irmão crescido para o mais jovem, o que significa que a sua/amizade é acompanhada por um/desejo de proteger, tanto no rapaz como na rapariga, que responde à/necessidade de ser protegido e de admirar da parte do mais novo. Porém, neste caso, a/identificaçâo dá-se apenas num sentido: o mais jovem identifica-se com o mais velho, a não ser que, bem entendido, este satisfaça efectivamente o seu próprio desejo de ser protegido/;< projectando-se sobre o seu pequeno amigo. Se a diferença de idade é importante, o mais velho terá problemas de/responsabilidade/ moral quanto aos conselhos que prodigaliza e que serão certamente seguidos. Neste caso, os riscos de/perversão sexual são maiores do que entre dois amigos da mesma idade.

Tais

se tomam a si próprios como objecto sexual; e, partindo do/narcisismo, procuram rapazes que se lhes assemelhem, que eles possam amar como a sua mãe os amou a si mesmos»*.

O Freud citado p, Notemos um outro exemplo da/ambivalência dos sentimentos

Voca do adolescente: a perversão em que ele pensa, que talvez deseje

vezes de um modo confuso, opõe-se à ideia de nobreza e de

comportamentos foram estudados por Freud, o qual escreveu a este respeito que os,,” homossexuais «

JJ"- Laplanche e . B. Pontalis:

de Ia psychanalise (P.U.F., Paris. 1967@ por

p. 261. pureza que ele tem da amizade.

É igualmente muito frequente o adolescente projectar a sua necessidade de amar sobre um adulto da sua

convivência. Trata-se de um professor, de uma pessoa «que tem experiência», ou de um parente. A amizade que o adolescente lhe dedica é sobretudo feita de uma admiração incondicional, sendo as palavras do amigo erigidas em verdades sagradas. O adolescente quer absolutamente «vir a ser como ele», atribui-lhe todas as qualidades - «ele, ao menos, compreende» - e é o único; faz dele um ideal de vida e, o M. Debesse:

l'Adolescence (P.U como afirma Maurice Debesseo, estes adultos «são considerados Paris, 1969), p. 5

40 A afectividade

pelos seus admiradores como uma espécie de messias que lhes revelam o valor da vida». Pode estabelecer-

se uma/ correspondência ou frequentes conversas nas quais o adolescente se confia com o coração nas mãos

e espera os conselhos que serão a chave de todos os seus problemas. Quando o adulto é do sexo oposto, a

amizade pode transformar-se em/amor, e os/diários íntimos encerram cartas apaixonadas em que tanto o rapaz como a rapariga exprimem o seu/amor através de imagens de que estão longe de suspeitar as pessoas em causa.

As amizades adolescentes são ardentes,

desinteressadas o exclusivas Em matéria de/amizade, os /comportamentos afectuosos do adolescente diferem sobretudo quanto à idade e ao/,"sexo do parceiro, mas o decurso/ projectivo é quase idêntico em todos os casos. Antes de mais, ela toma o carácter de uma verdadeira paixão, comportando, segundo Maurice Debesse, todos os seus transes, incluindo as tempestades do/ciúme. O adolescente exige que o parceiro lhe reserve a totalidade das suas/ confidências, o segredo mais absoluto, a escuta mais atenta. As trocas não podem fazer-se senão na intimidade. Nisto, a amizade adolescente assemelha-se muito

ao amor.

Ao ardor das amizades adolescentes vem juntar-se a sua nobreza. Elas são desinteressadas e não admitem os calculismos da idade adulta; acham-se muitas vezes impregnadas de um ideal de pureza e de,,;<absoluto em que a/imaginação do adolescente se inspira com delícia, fazendo-o viver as mais belas aventuras. Daí a sua veemente indignação quando se lhe censura, por exemplo, o facto de pagar demasiadas vezes o / cinema ao / amigo, ou mesmo quando se lhe pede esclarecimentos sobre a organização material das suas /I saídas. Tudo se passa como se, a seus olhos, estes pormenores prosaicos não tivessem o mínimo lugar no desenrolar das suas /relações. Do mesmo modo, ele tem horror a qualquer reparo -vindos as mais das vezes dos colegas- sobre a eventualidade

e uma consumação/ sexual da sua amizade. Ora não podemos eixar de dizer que, investindo o adolescente

toda a sua necessidade e ser amado nesta relação, ela se acha forçosamçnte nimbada e/«sexualidade, tal como o/@Inarcisismo é inseparável de uma d

rta forma de/lauto-crotismo. Os gestos amigáveis -abraços e ícias no caso da rapariga e até no do rapaz-, que adquirem or vezes um ar equívoco, são prova disso. Por consequência, os ntimentos de nobreza e de pureza que acompanham estes géneros e amizades aparecem como a/sublimação das /necessidades xuaiS importantes nesta idade; uma tal evasão na/idealização Mute ao adolescente evitar a realidade sexual desta relação, cuja

AFE

tomada de consciência produziria uma recrudescência da sua/culpabilidade e da sua angústia. Razão pela qual ele recusa até pensar nela.

Todavia, em certos casos, estas tendências homossexuais satisfazem-se em realizações físicas: são as /«amizades particulares». Muito mais do que um relaxamento moral, é de temer a fixação do /amor sobre um objecto inadequado. Além disso, a/angústia e a/culpabilidade que acompanham esta/perversâo arriscam- se a comprometer o seguimento da evolução afectiva e/,,social, ao mesmo tempo que são igualmente germes de,--4ncuroses. Estes desvios são com justa razão inquietantes e devem tornar-se alvo de preocupações particulares da parte dos/,<pais, conquanto seja absolutamente imprescindível agir com discerniniento. Não se deve ferir o adolescente proibindo-lhe um convívio julgado demasiado assíduo nem aumentar a sua culpabilidade com ameaças e sermões moralizadores. Não se trata de aprovar sistematicamente as/actividades do nosso filho, mas, seja em que caso for, de lhe oferecermos a nossa ajuda - de o não amarmos só por nós de facilitarmos o seu desabrochar.

A amizade juvenil: a primeira expressão do verdadeiro altruíam Enfim, a/imitação é uma lei geral nas amizades juvenis. Vimos até que ponto ela era praticada em cada um dos comportamentos amigáveis. Parece que o adolescente procura a todo o custo ver no seu amigo um outro ele mesmo, e é por isso que se transforma à imagem deste. Além disso, já o apontámos, ele vê o outro tal como deseja que ele seja, e tal como ele próprio desejaria ser. Assim, /identificando-se pela imitação com este amigo, tem a impressão de atingir um certo ideal de si. Donde a exigência de que dão mostras os adolescentes nas suas/amizades: na verdade, é indispensável que o/” amigo não rebaixe na vida quotidiana este eu idealizado que se projectou sobre ele mesmo; enquanto o adolescente se estima por intermédio do outro, afirma o seu eu. Por conseguinte, podemos falar aqui da utilidade das amizades adolescentes para a formação do eu e a reestruturação da /,’personalidade. Nelas, vemos o adolescente identificar-se com um ser que é o produto da sua /imaginação benevolente e afirmar, desta maneira, a sua individualidade própria por via intermédia. Evidentemente que não se deixará de estabelecer a ligação entre estas amizades e o/lnarcisismo, mas, em certa medida, um tal,,@'egocentrismo faz-se acompanhar de um primeiro passo para outrem, de uma certa abertura, ou seja, de um atributo da sociabilidade ou, pelo menos, da manífestação socializada do narcisismo; é, no entender de alguns autores, a primeira expressão do verdadeiro altruísmo. Por outro lado, não se pode negar a participação do amigo na

42 A afectividade

constituição deste eu ideal comum, visto que é a sua própria pessoa que alimenta a imaginação do sujeito. A amizade adolescente deve então ser encorajada porquanto permite ao indivíduo realizar-se, completar-se pelo outro, ao mesmo tempo que satisfaz a sua/necessidade de aprovação.

O

AMOR NA ADOLESCÊNCIA

O

nascimento do amor

O/amor, na adolescência, faz-se sentir como uma/necessidade ardente e satisfaz-se, como se viu, nas/ amizades /homossexuais cujas formas não são muito diferentes das do amor. Nos amores adolescentes, a/imaginaçã o e o sonho desempenham ainda um grande papel. Como observou Maurice Debesse, o adolescente imagina, sonha o amor antes de o experimentar; ele espera-o como a satisfação de duas necessidades essenciais: por um lado, a necessidade/sexual, por outro, a necessidade de ternura. Ainda segundo o mesmo autor, estas duas motivações constituiriam as duas raizes do amor humano: a afeição e o/desejo sexual, quando se completam harmoniosamente num mesmo objecto e sem que um deles adquira dimensões hipertrofiadas à custa do outro, formam o amor -plenitude, unidade, perfeição superior. No adolescente, a necessidade de ternura seria a princípio mais imperiosa do que a pulsão sexual e encontraria satisfação na amizade. Mais tarde, do desenvolvimento do desejo sexual e da sua fixação sobre o outro /sexo nasceria o amor, podendo no entanto ambos estes sentimentos produzir-se simuitaneamente. Ora, o que é a necessidade de ternura, senão uma forma/sublimada da pulsão sexual? Do /recalcamento desta pulsão extremamente intensa no adolescente resulta a necessidade de um substituto. Pela via da amizade homossexual, o sujeito contorna o interdito /social - visto que a amizade é permitida e até desejada pelo/ grupo - e evita a atracção pelo outro sexo que lhe surge cheia de perigos: há aqui uma ressurgência do Édipo e dos fantasmas da infância. Nós estabelecemos o primado do sexual nestas amizades da/;< adolescência, analisando a sua aparente pureza.

O abandono de uma extrema amizade coincide geralmente com o nascimento do amor Mas quando o desejo

de uma/relação sexual com o amigo ou a rente P

u

re

M

a quan, @

f amiga se faz sentir com demasiada insistência, na altura em que a Pulsão sexual, durante

algum tempo sufocada, se torna muito imperiosa, o adolescente experimenta a necessidade de dirigir a

amizade Para o outro sexo. De facto, o desejo de relação sexual com o

ra n1 /amigo

provoca nele uma recrudescência sustentada pela própria i1@deia desta relação.

AFE

Tal estado, muito penoso, leva-o a sentir, de forma inconsciente, a não-conveniência do objecto do seu amor; é neste momento que ele é atraído pelo sexo oposto: nasce assim o amor, esse estado de/ansiedade e de alegria misturadas; muitas vezes o amor e a amizade são simultâneos e completam-se.

Olamor no adolescente e na adolescente

No rapaz, o interesse fixa-se pouco a pouco de forma clara e consciente em tudo o que se refere ao/sexual:

os seus órgãos genitais, em particular, são objecto de uma curiosidade atenta. Ele está exposto a erecções e

a

indisposições súbitas e frequentes, sobretudo na presença de mulheres ou no/cinema. Estas manifestações,

o

embaraço ou até a vergonha que elas suscitam tomam o jovem / desajeitado, acanhado nas suas / relações

com o outro sexo, que ele evita cuidadosamente. A mínima alusão aos seus amores fá-lo corar. A sua/atitude muda por volta dos 16 anos; pode ter uma pequena /amiga que ele espera à tarde, à saída do colégio, junto da qual se esforça por se fazer notar pelo seu porte e pelo seu ar altivo. Gosta de se pavonear

diante das suas amigas, de afirmar a sua/ virilidade.

Nos seus sonhos romanescoi o adolescente é ao mesmo tempo justiceiro e sedutc Mas, a maior parte das

vezes, o seu amor fixa-se em segredo sobre uma mulher mais velha do que ele, professora, vizinha, etc., que

a sua/imaginação orna de todas as qualidades físicas e morais. Escreve-lhe cartas apaixonadas, que

evidentemente nunca deita no correio. A sua paixão reveste a forma de uma admiração sem limites e de um/desejo de salvar que se funde muitas vezes com sonhos humanitários. Constrói romances de que é o principal actor, onde vence todos os obstáculos que o separam do seu amor, e vive intensamente estas aventuras românticas. Os sonhos de honra, de poderio e de glória aos quais associa a sua paixão têm um

carácter /erótico: ele é umxherói admirado por todos, ela entrega-se-lhe na sua tenda de guerreiro. Tal/actividade onírica está frequentemente ligada à/masturbação. Esta vida secreta, esta tempestade insuspeitável do espírito é mais uma ocasião de afirmar a sua interioridade.

Na rapariga, em contrapartida, o carácter erótico é mais difuso: o interesse que ela encontra em ser amada é menos explicitamente sexual. A atracção pela coisa sexual é antes de tudo desviada no sentido de um pendor para a/coquetismo, o desejo de agradar. É evidente que esta negação do sexual se traduz por uma

efervescência sentimental e imaginativa que ultrapassa a do rapaz. Bastará

R. Mucchielli: um olhar, algumas palavras mal compreepdidas para mergulhar as

Editions sociales, Paris. adolescentes nos transes do amor. Hélène Deutscha escreve: «As @ 968), p. 171.

O H. Deutsch. citada p

/a Personnalité de 1'enf@5

44 A afectividade

raparigas desta idade têm uma espécie de/aptidão especial para experimentar o amor, elas estão pouco conscientes do carácter sexual do seu sentimento.» Além disso, «a propensão que têm para se admirarem, para se afirmarem enquanto mulheres, para se pretenderem sedutoras, convida-as a representar o papel de ‘mulheres fatais’. Têm a impressão de suscitar nos outros o ‘amor à primeira vista’, julgam deixar atrás de si ‘coraçõ es a sangrar’, os destroços dos que as amam, daqueles cujos olhares e mãos se dirigem para elas quando passam, ao mesmo tempo deslumbradas e desdenhosas».

Tal como no rapaz, o/desejo amoroso da rapariga fixa-se sobre adultos (actores de cinema), mas a rapariga, mais frequentemente do que o rapaz, investe o seu amor em seres imaginados de uma ponta à outra:/ heróis, príncipes encantados, personagens de lenda, aos quais fala à noite, que ela ama e por quem é amada.

«Sonho de amor o sonho de glõria distinguem os dois sexos» Vemos que, na adolescente, o/amor se concentra de forma puramente sentimental no ser de sexo oposto: o que ela ama, é o «homem», homem

idealizado sob os traços do príncipe encantado. Ao invés, no adolescente, a paixão amorosa é contemporânea do impulso para o exterior, de desejo de domínio. É por este motivo que o desejo de ser amado está amiúde subordinado ao de ser admirado, de ser um herói, de se afirmar. Como tão bem disse

Mucchiellia: «Sonho

QP, cit., p. 172.

tanto num como no outro, a paixão amorosa é extremamente intensa e o seu objecto, efémero; por isso mesmo ela toma o aspecto de um impulso para@ o exterior no decurso do qual o/ narcisismo deve desaparecer. E claro que o adolescente projecta no exterior os seus estados de alma. O mundo não existe senão em função da sua/ imaginação, da sua paixão. O eu torna-se universo. A realidade inteira é apenas percebida através de uma subjectividade que a deforma. Trata-se de uma fase do/,-, desenvolvimento da/ personalidade, na qual toma posse do mundo num ímpeto apaixonado, tornando-se durante um instante o seu centro para o restituir à realidade /objectiva nos outros estádios da evolução.

# R. Mucchielli: de amor e sonho de glória distinguem os dois sexos.» Todavia,

Esta fase romântica é portanto um passo a mais na afirmação do eu e no sentido da/ socialização: convém não a contrariar. Sem d dúvida que ela não deixa de apresentar certos perigos: o,/trabalho

úvid a q escolar corre o risco de se ressentir deste açambarcamento repentino de toda a existência pela

paixã o, tanto amorosa como amigável. S

prematuras para esta idade, que originam quase sempre uma viva repugnância /

o escárnio e a troça de muitos/pais a

jgu_ São igualmente de temer certas experiencias sexuais

i ou/cinismo. Além disso,

o jt@ propósito da ingenuidade apaixonada deseu filho são perigosas, j já que o traumatizam ao fazê-lo «cair das nuvens». Importa tam-

bém. evitar qualquer proibição draconiana de conviver com o/ sexo oposto, a qual pode ocasionar a instalaçã o de um sentimento de vergonha e de /culpabilidade e dificultar as escolhas futuras do adolescente.

Em todos estes casos, o impulso para o exterior é quebrado; produz-se então uma regressão para os estádios /narcisíacos ou para as/ amizades /pueris, uma concentração em si mesmo, uma tendência para a solidão que

o indivíduo pode arrastar consigo toda a vida.

A / camaradagem

Esta abertura para o exterior pela amizade e o/ amor amplifica-se cerca dos 17-18 anos. Em tal idade, os adolescentes gostam de fazer parte de um/grupo, de organizar/,” festas,/ saídas em/bando: a sociabilidade parece atingir o seu a ogeu. Aos muitos profundos , p sentimentos de amor e de amizade dos períodos precedentes opõem-se então as relações bastante mais superficiais de/camaradas ou delflirt. Parece que, tendo tomado consciência da distância que separava o seu mundo/ imaginário da realidade, ele se entrega

agora a uma espécie de/jogo social que o prepara para a vida adulta. O adolescente recebe convites, sente-se muito rapidamente à vontade com jovens que acaba de conhecer, como se se estabelecesse logo à primeira vista uma atmosfera de compreensão. Mas, paralelamente aos múltiplos «companheirões» que encontra por

ocasiã o de reuniões de carácter lúdico (baile, cinema

é o único a ter direito às confissões íntimas.

), o adolescente conserva o antigo/ confidente que

O flirt

Durante este período de amizades múltiplas, o amor reveste um carácter volúvel no flirt. A relação platónica

do período precedente já não basta para assumir um/desejo sexual, que se torna, normalmente, cada vez mais forte. Também aqui, ele precisa de realidades: o flirt vai fornecer-lhas. Contudo, este raramente chega ao acto sexual propriamente dito, é apenas uma espécie de jogo/erótico ao qual se entregam os jovens. Permite evitar a culpabilidade que acompanharia uma eventual realização sexual. Nele, nada há de sério:

troca-se amiúde de parceiro, sem no entanto romper com o precedente, que continua a ser uma «esperança».

É quase sempre excluída toda a «sentimentalidade», porque se tem medo de chegar a ela e de ficar em

presença de uma realidade sexual inquietante. Decerto para marcar esta realidade que ele deseja e teme ao mesmo tempo, o adolescente gloria-se do sem conto - amiúde fictício -

46 A afectividade

das suas «experiências»: o número destas estabelece o grau de /prestígio que ele obtém junto dos colegas. Volúvel, efémero, apresentando todos os caracteres opostos aos do/amor adulto, * 1flirt não está, no entanto, isento de dramas. O desfasamento entre * rapariga que acabou a sua /adolescência e o rapaz que a termina cria estes episódios trágicos, em que a jovem toma a sério uma ligação que o jovem não considera senão como um passatempo agradável.

Para o estabelecimento da co-educação no meio escolar Também aqui, importa não contrariar, por uma/atitude demasiado rígida, demasiado moralizante, este impulso para o exterior. Conviria, pelo contrário, favorecer contactos precoces entre os rapazes e as raparigas: o desconhecimento mútuo alimentado pela segregaçã o desde a infância, em particular no/meio escolar, é outro obstáculo à sua superação da adolescência. Esta segregação é em grande parte responsável pela/imaginação que tende a compensar uma real convivência. Outra consequência infeliz de uma tal regulamentação consiste numa procura nociva da promiscuidade nos dancings. Assim, a/co-educação na/escola é desejável: ela permite uma melhor/ aprendizagem da vida. Apresenta, ademais, a vantagem de reunir os interesses afectivos e escolares dos adolescentes, reduzindo desta sorte o perigo da invasão do domínio escolar por preocupações de ordem afectiva. Há quem pense que a/liberdade oferecida aos @jovens em tal forma de/ensino pode levar a temer relações/>< sexuais prematuras. Este risco é mínimo quando a co-educação é bem feita, e os perigos - muito mais graves - de perversão entre jovens do mesmo sexo ou de experiências sexuais traumatizantes com/prostitutas ficam praticamente excluídos, ao passo que eles são frequentes na segregação. É conhecida a reputação dos internatos ingleses.

O ódio

Se o / amor e a / amizade são apaixonados no adolescente, o mesmo sucede com os sentimentos de hostilidade. Acontece frequentemente ele detestar cordialmente certas pessoas -/amigos dos seus/ pais,/ camaradas de classe, professores. Odeia sem reticências, e as razões que ele dá do seu ódio só surgem a posteriori. Pode-se supor a existência, na adolescência, de um ódio latente que o sujeito projecta, tal como o seu amor, de forma apressada e espontânea. Parece que o adolescente se esforça por separar a sua tendência

para amar

detesta exclusivamente. Deste modo, evita uma/ambivalência muito intranquilizante dos sentimentos (amor- Mo) relativos aos seus/pais. Na/adoles-

e a sua/ agressividade, /projectando-as sobre objectos bem distintos. Ele gosta exclusivamente,

AFE

cência, segundo Mélanie Kleino, «os primeiros sentimentos de

Ia heino (Payot. Pari,, /anior ou de ódio pelo/pai ou pela/mãe, consoante os casos,

experimentados em toda a sua força, se bem que a sua razão sexual permaneça inconsciente». A revivescência de tais sentimentos ambivalentes exprime a repetição edipiana deste período em que as/ identificações anteriores são postas em causa. O adolescente esforça-se então por afastar o seu ódio por

aqueles que tem necessidade de amar para escapar à/ culpabilidade. O ódio por certas personagens fictícias (certos tipos de maus nos filmes ou na literatura, que representam objectos de ódio socialmente aconselhados), ou por pessoas com as quais o adolescente não tem qualquer laço, permite-lhe preservar, proteger as pessoas amadas. Assim, o adolescente reencontra a/@<segurança, pois, diz M. Kleino,

Klein: op. Cit. «a/capacidade de amar gera uma segurança que está estreitamente

inconsciente, ao sentimento de proteger e de não fazer mal às pessoas amadas». Por conseguinte, o ódio aparece como necessário à expressão do amor, como um contrapeso que permite a instauração de um certo

equilíbrio afectivo.

e M. Klein: l'Amoui

1968). P. 122. são revividos e

e M.

p. 124. ligada, no

Finalmente, amores, amizades e ódios adolescentes constituem a última fase de resolução do complexo de Édipo. Por um lado, o sujeito projecta o/desejo culpável pelo progenitor de/sexo oposto e o ódio pelo progenitor de mesmo sexo em objectos exteriores. Por outro lado, reconcilia-se com este último nas amizades/homossexuais. Logo, afastando os seus interesses do pólo/familiar, o adolescente preserva a existência de uma relação afectuosa com os pais. Destas projecções e identificações dependem a formação da/ personalidade e a,,” socialização do adolescente. Além disso, visto que o adolescente se acha reconciliado em certa medida com a fonte primitiva da/autoridade, ou seja, o pai, o/conflito indivíduo- autoridade pode ser superado.

ORIGINALIDADE E DESVIOS

Pudemos seguir, através das diferentes etapas da evolução da afectividade adolescente, a gênese do eu. O sujeito procura fazer reconhecer e afirmar este eu. A/oposição à autoridade é a expressão social de tal vontade de afirmação. Esta é observada ao longo de toda a/adolescência, sob formas diferentes de originalidade, em função do estádio de evolução do eu.

A crise de oposição é uma promessa de maturidade afeci A originalidade juvenil consiste, em primeiro lugar, na pré-puberdade, numa crise de/oposição aos/pais, em breve seguida de uma fase durante a qual a originalidade não está ausente dos/comportamentos, mas não atinge o seu paroxismo: a oposição traduz-se

48 A afectividade

no traio, na contestação da/moral familiar, na/atitude, nas declarações voluntariamente aberrantes, etc., continuando apesar de tudo a ser possível a vida familiar. Por volta dos 18-19 anos, a originalidade juvenil conhece frequentemente uma crise; esta nem sempre se verifica, porquanto representa a fase última da evolução que muitos sujeitos não atingem, ficando bloqueados em estádios anteriores. Mucchiellio chama a atenção para a importância desta /revolta contra a família, na qual «ela deve ser negada, para que o adolescente e a adolescente possam alcançar uma maturidade afectiva real, isto é, possam ter acesso à idade adulta». Mas aqui, à oposição à família acrescenta-se a oposição à/sociedade dos adultos que os adolescentes, apoiados nas suas concepções do mundo recentemente elaboradas, querem transformar: o abalo é grande quando a descoberta do real contraria os seus ideais, e nasce a desilusão.

Nestas duas crises, a afectividade está em/desequilíbrio. O grau deste, a violência das crises e a sua duração dependem da/reacção do/nieio, quer dizer, das dificuldades maiores ou menores que o adolescente encontra na sua afirmação e que condicionam o fracasso ou o/ êxito das suas/ identificações. Os riscos de acidentes afectivos, de desvios* diversos, mais ou menos graves, são de temer.

DESVIOS E ACIDENTES CORRENTES NA ADOLESCÊNCIA

Na pré-adolescência, o distanciamento em relação às identificaçoes anteriores mergulha o sujeito numa incerteza/ angustiante e torna-o muito vulnerável, o que pode conduzi-lo a comportamentos/ anormais. Na altura da crise final de originalidade juvenil, esta vulnerabilidade é acrescida se as etapas anteriores da afirmação do eu foram mal resolvidas. Além disso, a recusa de aceitarem uma realidade demasiado decepcionante, de se inserirem no mundo adulto num momento em que eles já rejeitaram a família, torna os adolescentes «flutuantes», «sem raizes»,/depressivos, logo predispostos ao desvio. Portanto, quando esta situação de fragilidade quase «natural» é complicada por intervenções traumatizantes do meio, compreende- se que ela se torne assaz perigosa para a/personalidade adolescente. Estas intervenções podem ter diferentes formas. Há, por exemplo, uma hiperautoridade paterna que se traduz por uma espécie de esmagamento sistemático de toda a veleidade de afirmação do adolescente. Este é humilhado através de contínuas admoestações, por vezes públicas: tomam-se os outros por testemunhas dos seus defeitos para q@e ele sinta

bem até que ponto é culpado. A censura Permanente: «Es um mentiroso, um imbecil

», longe de facilitar

o R. Mucchielli: /a Persom7alité de 1'enfant (Editions sociales, Paris, 1968), p. 184.

o É relativamente à noção de norma social que se defino o desviado. As normas de uma sociedade são modelos de acção’ de comportamentos, ideias e valores comuns aos membros do grupo. O desviado recusa conformar-se âs normas, conquanto se situe no irIterior de uma margem, não ultrapassando certos limites, de tal modo que é. em geral, tolerado pela sociedade.

AFE

* desaparecimento do defeito, só serve, a maior parte das vezes, para * acentuar, já que aumenta a/oposição do sujeito.

A humilhação reiterada destrói tanto a personalida

como a superprotecção constan A/sanção humilhante, por vezes injusta, que nunca respeita a

individualidade do sujeito, provoca um ensimesmamento e/reacções de defesa muitas vezes mal elaboradas. Se certas /@< atitudes paternas são castradoras para o adolescente, também se conhecem muitos exemplos de/mâes não menos invasivas, que utilizam, para retardar a emancipação dos filhos, uma espécie de chantagem à piedade, quando não o método/autoritário. De qualquer modo, tal como a troça que visa meter

o adolescente a ridículo, a hiperautoridade ou a superprotecção parentais quebram a afirmação do eu no

adolescente. Este é/frustrado na sua/necessidade de aprovação e de afirmação e, em vez de se sentir seguro de si, experimenta um sentimento de inferioridade muito acentuado. Tal sentimento pode provir igualmente

de uma deficiência fí sica: os/gagos, os/enurésicos, etc., têm muito mais dificuldade em afirmar-se. Diz-se, com frequência, ao falar destes indivíduos que eles são «/complexados»*, querendo assim indicar que o

seu/com- o O termo « complaxai

tal como é entendido portamento exprime um/desequilíbrio afectivo o qual traduz uma

rejeiçã o da sua própria/ personalidade.

aqui, num sentido vul

não corresponde à su,

acepç5o em psicologiz

Uma das consequências desta inferiorização, sobretudo se, desde a infância, todas as tentativas de afirmação do eu foram contrariadas, é a fraqueza deste eu: «A desvalorização, o adestramento autoritário da criança, depois do adolescente, a uma submissâo/passiva obtida por constrangimento, por chantagem ou por troça, têm o efeito de vergar o eu, de o impedir de se constituir.»*

o R. Mucchielli:

Ia Personnalité de l'en (Editions sociales, Pari A

compensação

1968), p. 183.

Em todos os casos em que a aflimação do eu é posta em xeque, o adolescente recorre a/condutas de substituição que visam compensar a inferiorização. Elas consistem, as mais das vezes, em criar para si uma superioridade que torna satisfatória a ideia que o sujeito tem de si próprio, ou que tem em vista transformar a/opinião de outrem. Este mecanismo de defesa do eu exprime-se de diferentes maneiras, variando conforme a importância da inferiorização.

A mentira, o roubo o a fuga são condutas de compensaç Os /comportamentos/ emotivos de/cólera e

de/violência fazem parte destes fenômenos de compensação. A cólera pode atingir no adolescente um

paroxismo pouco comum, chegando a actos cuja gravidade ele não mede (vandalismo, depredações, /suicídio). Na mentira de compensação, o adolescente defende-se contra o

60 A afectividado

/juizo de inferiorização de outrem, dissimulando-lhe a verdade. No/roubo e na/,"fuga de compensação, frequentes na pré-adolescência e no fim da adolescência, trata-se sempre de proteger o eu contra a inferiorizaçã o, quer afastando-a do/ meio ,<frustrante quer tentando substituir a posse de si pela propriedade de objectos adquiridos por vias não admitidas pelo meio. Nestes objectos roubados, sobretudo no caso do/dínheiro, o adolescente encontra um certo poderio: /prestígio junto dos/camaradas, poder de compra.

O adolescente provoca, com atitudes anti-sociais,

o reconhecimento da sua individualidade Na altura da «crise de originalidade juvenil», última tentativa de afirmação do eu, a compensação toma. muitas vezes um carácter mais elaborado, que permite ao sujeito afirmar-se ao mesmo tempo que evita a/sanção, a que não escapa nos actos anti-sociais que são a fuga e o roubo. Trata-se de uma série de comportamentos extravagantes que, além de colocarem o adolescente à margem dos outros - logo, ao abrigo -, suscitam o espanto destes e, em certa medida, o reconhecimento da sua individualidade, pois o espanto deixa-os desarmados. O adolescente age ao arrepio de toda a lógica, faz-se notar por actos gratuitos: quer tornar-se estivador, abandonar os estudos, parte à boleia recusando qualquer dinheiro. Entrincheira-se numa «torre de marfim» donde não sente senão indiferença pelos outros; nutre-se de ideias estranhas, paixões esotéricas, metafisicas ou/religiosas. Os acontecimentos do día-a-día perdem todo o significado a seus olhos e ele não tarda a sentir a /vaidade da vida, tão fortemente que qualquer acção lhe parece inútil. Esta/atitude, aliada à tendência para a especulação, pode ser extremamente destruidora do sujeito, tanto mais que ela é algumas vezes acompanhada por perturbações da /sensibilidade:

ele comove-se por causa de futilidades e fica gélído perante dramas.

Este/autismo de compensação, à semelhança das atitudes anti-sociais, cessa se o adolescente encontrar mais compreensão da parte dos que o rodeiam. Mas se estas pessoas persistirem na sua atitude depreciativa ou,,,@punitiva, tais/,” comportamentos poderão tornar-se sistemáticos e até organizar-se em/ condutas/ obsessionais, culminando por vezes na/delinquência crónica ou na /neurose.

Na realidade, esta «superiorização» só é aborrecida devido às suas consequêncías anti-sociais ou patológicas, visto que tenta preservar e afirmar um eu atrofiado, negado pela esfera de convivência, e restabelecer o equilíbrio afectivo. Ela manifesta-se de forma inadequada. importa criar as condições da sua expressão conveniente. A terapia consiste em favorecer as/actividades que dão ao sujeito

AFE

a possibifidade de afirmar a sua superioridade, de sentir uma certa /confiança em si, ao mesmo tempo que

asseguram a sua inserção /social. A criação/ artística:/ música, pintura, escultura,/arte dramática, o/desporto ou a/aprendizagem acelerada de uma /profissão remuneradora que lhe permite fazer a experiência do /dinheiro, proporcionar-lhe-ão satisfações pessoais, assim como a tão procurada aprovação de outrem.

COMPORTAMENTOS PATOLõGICOS

Quando os abalos afectivos e os traumatismos são percebidos com uma/violência particular pelo sujeito, em certos casos em que as /identificações formadoras do eu foram irremediavelmente comprometidas pela

ausência ou pela fraqueza do/pai ou por uma má imagem deste (bêbedo, cadastrado

quando os substitutos que a criança procurou para esta carência paterna (tio, vizinho, ete.) se revelaram ineficazes, o adolescente não encontra mais do que soluções inadequadas para a afirmação do seu eu, pois que ele está absolutamente entregue a si mesmo, abandonado aos seus/conflitos interiores. É então de temer uma evolução patológica da/ personalidade. A origem destes desvios enraíza-se profundamente em conflitos infantis mal resolvidos, e o abalo afectivo ou o bloqueio da evolução do eu na adolescência, que parece explicá-los, não é, de facto, senão a centelha que inflama a pólvora. «A perturbação neurótica, /psicológica, somática ou social não pode declarar-se sob a simples influência de um abalo afectivo final. Para que este tenha um tal efeito de fenda na personalidade, é preciso que a criança, depois o adolescente, tenha vívido durante anos sob / tensão no / meio 1x familiar, sofrendo sem se exprimir, enraivecendo-se sem o dizer, suportando uma situação carregada e obsidiante sem poder libertar-se dela.»* Mucchielii: /à Personnalité de i (Editions sociales. 1 É difícil estabelecer uma nosografiao válida das perturbações do

1968). p. 184.

/adolescente, já que não se podem distinguir as perturbações

) durante a infância,

S.

e nosogrer5s:

assificagão das d passageiras, que são a manifestação desta crise, das que chegarão

ecstabelecida a parti

certos critérios hei a uma estruturação verdadeiramente patológica da personalidade.

definidos. Ela apre@

impre o inconveni E no entanto possível classificar as perturbações observadas em três

‘d'e constituir um ct

categorias:

permite levar em ec

- perturbações/ caracteriais,

- perturbações/ neuróticas,

- perturbações/ psicóticas.

estreito que dificiln

novos contributos

cientfficos.

52 A afectividade

PERTURBAÇõES CARACTERIAIS Qualificam-se habitualmente de «caracteriais» os indivíduos cujo /comportamento estranho, algumas vezes até/inadaptado a qualquer forma de vida em/sociedade, põe em evidência um /@1desequilíbrio da/ personalidade, sem que no entanto se possa falar de uma doença mental propriamente dita. Incluem-se nesta categoria de perturbações, por um lado, aquelas que podemos considerar transitórias, porque são o efeito dos «acessos de/agressividade» característicos da/adolescência e que desaparecem habitualmente no fim deste período; já nosreferimos aelas. Por outrolado,as «psicopatias constitucionais» que são expressões, na adolescência, de perturbações do/carácter fixadas pela hereditariedade.

Podemos distinguir vários tipos de caracteriais:

- Os hiperemotivos são caracterizados por uma «impressionabilidade afectiva exagerada» pela incerteza, pela insegurança e pela indecisão c; O H. Faure: «Eléments de

sérnóiologie en p ychologie Os cielotímicos passam por fases de/depressão intensa que alter- pathologique», is nam, após intervalos mais ou menos breves, com períodos de eufo- Bulletin de psychologia,

n'mero especial anual, ria durante os quais se mostram hiperactivos. Esta hiperactividade,

acompanhar muitas vezes de uma grande exuberância e de hipersociabilidade, esconde uma personalidade profunda que comporta «componentes/ ansiosas, tendências para o/humor depressivo, sentimentos de vazio e de insegurança física, inquietudes latentes e mal definidas»;

- OsI,1 instáveis, muito numerosos, são incapazes de se aplicar numa tarefa e nunca terminam o que empreenderam; -

Os paranóicos são indivíduos/ anormalmente agressivos e reivindicadores; eles estão imbuídos do seu valor pessoal, vêem um inimigo em qualquer pessoa, têm uma tendência para as falsas interpretações; enfim, a sua inadaptação social

é caracterizada pela susceptibilidade, o/egocentrismo e a rigidez afectiva nas relações humanas; -OsIperversos recusam

as leis/sociais, mas não hesitam em utilizá-las em seu proveito; atribuiram-se-lhes quatro características: a amoralidade,

a inafectividade, a/ impulsividade e a inadaptabilídade. Eles são capazes de cometer actos anti-sociais, friamente, sem o mínimo remorso: os seus desmandos sexuais são frequentes. Mais do que todos os outros caracteriais, têm predisposição para as/fugas, os/,<roubos e, em geral, a/delinquência;

- Os1-@mitómanos têm uma «tendência patológica, mais ou menos voluntária e consciente, para a/mentira e a criação de ficções»; a mitomania infantil é bastante frequente;

- Os esquizóidés refugiam-se em si mesmos, centrados na sua interioridade, recusando o contacto social;

1967, p. 85. que se faz

AFE

- Os epileptóides, enfim, «são capazes de furores, de/violência, de desvairamento e também, ao invés, de meticulosidade, de paciência, de adesividade».

Esta descrição tem o mérito de exprimir com clareza as diferentes perturbações que se podem observar efectivamente na/adolescência, mas remete para a teoria das constituições hereditárias, o que é lamentável. De facto, em tais condições, torna-se inútil tentar seja que profilaxiao for das psicopatias. A psicanálise

estabeleceu, e proffiama. no entanto, que estas perturbações são muito mais imputáveis a

preventiv uma evolução afectiva deteriorada por condições /famíliares deploráveis do que a uma qualquer hereditariedade. A sua origem deve então ser procurada na história pessoal do indivíduo, e a sua brusca acentuação na adolescência explica-se pela desestruturação da/ personalidade, inevitável neste períc>do, pelo menos num grande número de/sociedades. Pode-se, sem dúvida, observar uma continuidade patológica em certas/famífias, mas nesse caso é a presença de/pais doentes que gera uma doença na criança, muito mais do que a hereditariedade: compreende-se quanto o filho de uma esquizóide, privado da ternura materna indispensável, se arrisca a tornar-se ele próprio esquizóide, e até, possivelmente, esquizofrénicoo. e Para a psicologi

tratamento

constituições, a esqu é um elemento ,ar,cterológico, um As perturbações caracteriais são dificilmente curáveis porque pro- psicológico mais ou vêm de uma evolução num meio patogénico desde a primeira infân-

condições, a constit cia, e não de um traumatismo preciso e localizável na história do

«normal». Em certas

esquizóide pode ev( indivíduo.

para uma estrutura

caracterial patológic para a i=e: a esqu

a. ASINEUROSES

A neurose, na adolescência, aparece como uma/reacção de fuga psíquica a uma situação /conflitual particularmente traumatizante.

As neuroses de origem actual A neurose actual é uma afecção psíquica cuja origem deve ser procurada, segundo Freud, não nas experiências infantis, mas no presente, isto é, nos/conflitos da adolescência. Os sintomas desta neurose «resultam directamente da ausência ou da inadequação da satisfaçâo/sexual»*.

Compreende-se que na adolescência, em

J.-B. Pontalis: que a satisfação sexual é objecto de severos interditos, os riscos de Vocabuleire de Ia

psychanalise (P.U.F tal afecção sejam grandes. Mais frequentemente, ela toma neste Paris, 1967). p. 271. período a forma da neurose delangústia: o sujeito é vitima de crises de/ansiedade, paralisado pelo medo sem razão aparente -uma situação tão anódina como a espera de um /xan-úgo pode estar na origem de um mal-estar deste gênero, o qual é por vezes

o J. Laplanche e

54 A afectividade

acompanhado de uma impressão de morte iminente e de perturbações somáticas (dispneiao, taquicardia,

sudação, etc.).

em respirar. A psicastenia consiste numa fatigabilidade excessiva, estado de /depressão, dores vagas injustificadas,/astenia permanente tanto física como psíquica. A/-<atenção do sujeito está constantemente dispersa, a sua/adaptação ao real é difícil. Mau grado a origem actual destas/ neuroses, os psicanalistas encontram nos sintomas «a expressão simbólica de/conflitos mais antigos*», que se acham reactivados pela situação presente. o J. Laplanche e

Q dispneia: dificuldade

J.-B. Pontalis: Vocabulaire de Ia psychanalíse As neuroses de transferência

(P.U.F

Paris, 1967).

p. 272. Nas neuroses de transferência, as desordens afectivas são menos evidentes, no sentido em que se exprimem por vias mais organizadas: angústia «somatizada» nas histerias de conversão, «fixada sobre um

objecto substitutivo nas/obsessões e nas/fobias»*.

séméiologie en psychologie pathologique», Na histeria, chama-se/ conversão ao mecanismo de fuga diante

de psychologíe. da/ansiedade em sintomas que podem ser «aparências de enfer-

9 H. Faure: «Eléments de

in Builetin

n'mero especial anual,

midades físicas ou doenças somáticas»*: observam-se casos de que desaparecem logo que a razão H. Faure: op. cit., p. 8.

do conflito cessa (exame, presença de um indivíduo que perturba a afectividade do sujeito, encontro de uma pessoa inconscientemente odiada).

1967. p. 91. paralisia ou de perda da vista

As doenças psicossomáticase são igualmente frequentes na/ adoles-

M doenças do corpo cuja cência; os sintomas consistem, como a denominação o indica, e

perturbações orgânicas, mas estas afecções devem ser distinguidas

determinantes não são exclusivamente /psicológicas; são no entanto estimuladas por alterações psíquicas. A

úlcera gástrica, por exemplo, é condicionada por uma lesão primária do estÔmago, mas muitas vezes só se desencadeia no seguimento de um abalo afectivo. Podemos também citar a asma e certas uremias. Parece que o indivíduo, não podendo descarregar a sua/tensâo interior através de/agressividade enviada para o exterior, dirige esta contra si mesmo. Tal mecanismo é comparável à autopunição, atribuída a um/ desenvolvimento/ anormal do superego (consciência moral) que corresponde à/culpabilidade do sujeito na neurose de fracasso, em que este não suporta a possibilidade de satisfazer um/desejo inconsciente. Ele recusa a si mesmo qualquer satisfação. O exemplo corrente e frequentemente observável desta afecção é a repetição, em certos adolescentes, de fracassos nos /exames.

psicossomáticas:

causa principal é de ordem

psicológica. da histeria, pois as

-4 neurose,,* obsessional: a perturbação principal é «uma ideia precisa que persegue sem descanso o sujeito, contra a sua vontade,

AFE

e que se impõe irresistivelmente ao seu espírito, por muito,;< esforço que ele faça para a afastar»*. Esta

ideia pode ser a de um objecto

simbolismo deve ser procurado nos conflitos infantis. A/atitude do sujeito a respeito desta ideia ou deste

objecto é/ambivalente: ele compraz-se em pensar nisso, ao mesmo tempo que sente/ medo. Pode ser

igualmente uma compulsão* para efectuar actos indese-

várias vezes se a porta está bem fechada

contra estes pensamentos e estas tendências, ritos esconjuratórios, etc. Isto leva a/inibições do pensamento e da acção.

), lutas ‘órbida para a repo

O H. Faure7 op. cit. (uma faca, por exemplo), de um desejo (pela mãe), cujo

e compulsão., tend jáveis (ir verificar

A neurose fóbica: o sujeito deslocou o seu medo inconsciente de realizar um desejo, recalcado desde a infância, para um objecto que adquire então valor de símbolo. A/fobia é «um receio que incide sobre um objecto determinado, objecto pelo qual o doente experimenta uma repulsão instintiva e cujo contacto difigencia evitar». Esta/neurose é muitas vezes acompanhada de angústia. O aparecimento de tais neuroses deve motivar a consulta de um especialista.

No caso das neuroses actuais, basta algumas vezes uma mudança de/meio para fazer desaparecer as perturbações; mas, quando se está na presença de uma neurose de transferência, impõe-se muitas

vezes uma terapia analítica: «Só as modificações obtidas pela tomada de consciência das posições antigas podem mudar o sujeito e dar-lhe segurançao.»

Psychothérapie

Dr. Male:

AS PSICOSES

Contrariamente às perturbações neuróticas, as/psicoses, afecções globais da/ personalidade, muito mais graves, são raras na/adolescencia. Quando elas surgem, é frequentemente no final da adolescência e sob a forma de psicoses agudas, ou seja, transitórias. Por exemplo, podem aparecer «acessos delirantes» nos sujeitos hiperemotivos: há desorientação, perda de todo o sentido do real, e por vezes alucinações. O seu desaparecimento produz-se quer espontaneamente quer sob o efeito de uma terapêutica que acelera esta cura. Porém, nalguns casos, estas crises conduzem a uma estruturação duradoura da esquizofrenia, por exemplo. O segundo tipo de psicose que se observa na adolescência é a psicose intermitente, cujo exemplo- paradigma é a maníaco-depressiva. Esta surge como uma exageração da ciclotinija: as fases de/depressão vão por vezes até ao/ suicídio; durante os períodos maníacos, a euforia é «lábil, versátil», acompanhando-a perturbações graves da/conduta: desencadeamento das pulsões, violências. Os doentes atingidos por esquizofrenia, ou demência precoce, soçobram num estado de fraqueza

de 1 adolescence (Paldera, 1964).

56 A afectividade

psíquica, sem que nada no seu/ comportamento anterior tenha podido deixar supor uma deficiência mental.

Há, na esquizofrenia, duas grandes categorias de perturbações: -a «dissociação», ou seja, a alteração da harmonia das funções mentais, que são perturbadas independentemente umas das outras; há discordância das ideias e do comportamento, em particular da mímica; o sujeito ri sem que se possa compreender a razão; -as perturbações da afectividade são profundas: fechar-se sobre si mesmo (/autismo), indiferença total pelo meio, por vezes crises de/oposição violenta aos/pais, que vão até à ideia do homicídio.

Esta psicose é de prognóstico temível quando se não empreende um tratamento desde as suas primeiras manifestações. Para estas perturbações em particular, mas também para todas as perturbações psíquicas da adolescência, convém ter presente «a importância, num certo número de casos, de uma terapia precoce, conduzida por um psicanalista, mas sem no entanto ser forçosamente analítica no sentido estrito, pois basta muitas vezes, no início, uma psicoterapia «compreensiva» que permitirá ao adolescente encontrar e situar a

sua imagem, e senti-Ia aceite algures»*.

A EDUCAÇÃO

e H. Faure, in Laffont.

Na/ adolescência, como em cada um dos períodos da evolução da criança, a tarefa dos/pais é muito delicada. Mas a última fase apresenta dificuldades particulares que derivam antes de mais do facto de as relações recíprocas dos filhos e dos pais se modificarem:

- por um lado, o adolescente recusa doravante aos seus pais, como vimos, o privilégio de satisfazerem as/ necessidades dele, pelo menos nos casos normais; -por outro lado, a própria/ atitude dos pais muda, considerando estes o seu filho, durante a adolescência, de um modo mais ou menos evidente, não como uma pessoa dotada de certos caracteres que não devem ser julgados, mas como um ser em devir sobre o qual se tem o direito e até o,.;,dever de agir. Decerto que esta atitude dos pais é observável durante os períodos precedentes da vida do seu filho - constitui a primeira condição de toda a educação -, mas torna-se muito mais marcada na adolescência, último período importante da evolução da/ personalidade e no qual, efectivamente, as transformações do indivíduo terão consequências indubitáveis sobre a vida futura. Deste ponto de vista, tal atitude é necessária na medida em que leva os pais a facultarem uma ajuda. Mas é uma

AFE

atitude que tem frequentemente outra origem: é motivada pela circunstância de o adolescente ser considerado pelos seus pais como

um ser que não está à altura de enfrentar a vida. Trata-se do sentimento de que se vai perder o filho, do receio do momento em

que ele se separará do lar parental. Resulta dai um/desejo de posse, em particular na/mãe, que, longe de favorecer então a

evolução do adolescente para o domínio da sua/ personalidade, a entrava pelo contrário: ele acha-se desapossado de si mesmo e privado de/segurança, porque aquela que sua mãe lhe oferece já não pode satisfazê-lo.

Mais rara é a atitude que consiste, para os pais, em considerar desde o inicio da adolescência que o seu filho se tornou «crescido» e em deixar-lhe a máxima/ liberdade, já não mantendo com ele senão relações de/camaradagem. Isto apresenta igualmente o risco, para a criança, de não superar a sua situaçâo/conflitual, porquanto não encontrará o apoio necessário num momento em que poderá p cisar dele-em caso de/decepção sentimental, por exemplo. E pois indispensável que os pais favoreçam, por um lado, a emancipação do seu filho, deixando desenvolver-se/ amizades e laços /heterossexuais, e, por outro lado, o estabelecimento dos novos laços consigo mesmos, de compreensão e de amparo, que facifitarão a ultrapassagem desta fase difícil.

É também durante a infância que convém pensar em facilitar esta crise da/ adolescência, em particular aceitando responder às perguntas da criança relativas à/,, sexualidade, de tal sorte que, no momento da/puberdade, ela não se encontre desarmada diante desse mundo desconhecido e que esta nova percepção de si não seja acompanhada por um sentimento de estranheza que estaria na origem de um fechar-se em si demasiado prolongado.

Desarmados pelas perguntas das crianças: por É errado julgar que, «chamando a/atenção das crianças para problemas em que elas ainda não pensam, nos arriscamos a excitar artificialmente a sua curiosidade e a

impeli-Ias para experiências perigosas e nocivas pelo facto de serem prematuras*»: pelo con- Makarenko: trá rio, quanto mais cedo tiver começado a/educação sexual da

criança, mais este domínio lhe parecerá natural, e mais probabi~ lidades ela terá de o seguir com sir@pIicidade, à medida que se desenvolverem as suas/ necessidades. E aliás lamentável que este problema da educação sexual dos filhos ainda ofereça aos/pais tão grandes dificuldades, mas a razão disso é simples:

eles próprios interiorizaram, desde a infância, interditos sexuais; a prova está no penoso sentimento que experimentain ao abordar tais conversas com os seus filhos. Se os pais conseguissem, também neste plano,

o

Notas de cursos.

58 A afectividade

perder os seus/hábitos, a adolescência talvez fosse menos difícil tanto para os seus filhos como para eles.

Por outro lado, importa estar atento

às perturbações afectivas,

o pródromo: ainda que ligeiras, da infância, as quais podem ser já os pródro-

futura,/ neurose. Nestes casos, «convém encarar adolescência mediante Psycho'thérapie de

l'adolescence psicoterapias infantis precoces»*. (Paldera. 1964).

«A segurança afectiva e a força do eu

o/ desenvolvimento da criança se haja efectuado com facilidade e que os pais tenham todas as razões para crer que este desabrochamento sem sobressaltos vai continuar durante a adolescência, eles não devem esquecer que as condições /sociais em que a criança se acha depois da puberdade tornam a crise inevitável,

e que os seus sintomas, como a/agressividade, não passam amiúde de fenómenos normais, necessários

ao,,"desenvolvimento do adolescente. Importa assim criar no/ meio/” familiar um terreno o menos coercivo possível, a fim de evitar as amplificações destes fenómenos que se tomariam prejudiciais, pois «é somente quando a/revolta é possível, sublinha Mucchielli, quando ela se abre, quando ela se desdobra, que todas estas estruturas do passado são varridas, ao passo que permanecem a/segurança afectiva e a força do eu, os dois verdadeiros tesouros que devem constituir a herança recebida dos/pais».

si,el precursor. mos* de uma

9 Dr Malé: um ensaio de profilaxia das perturbações da

devem constituir a herança recebida dos pais» Contudo, mesmo que

Jacqueline Hubert

AGRESSIVIDADE (Agressivité/Agressiveness) páginas 111. 117» 119. 142,262.352. A agressividade resulta de um/

conflito - consigo mesmo ou com outrem -julgado intolerável. É muito frequente no adolescente que busca, ao sair da infância, situar-se, por um lado, relativamente ao eu da infância, por outro, relativamente às pessoas da sua convivência, as quais tendem a fixar o novo eu do adolescente. Esta agressividade é particulannente virulenta quando

os/país se resignam mal a ver crescer o filho e continuam a tratá-lo como um bebé. Não se deve procurar noutro lado a origem de certas explosões desconcertantes da parte de determinado rapaz considerado «sensato e sério» e que sente de súbito a necessidade de se afirmar. Certas experiências puseram em realce o papel desempenhado no desencadeamento das condutas agressivas pelos erros educativos.

O problema da/autoridade é primordial neste domínio: demasiado fraca, acarreta um sentimento de insegurança;

demasiado forte, suscita uma/reacção de defesa. Todo o excesso dá origem a uma reacção de agressividade. Os meios de atenuar a agressividade do adolescente são no entanto bastante numerosos e começam a ser conhecidos: convém que

os pais e os/educadores tentem provocar no jovem revoltado uma tomada de consciência das causas reais da sua

agressividade. Pode-se em seguida diligenciar por dirigir esta, através de uma transferência, para fins positivos:

/desporto, expressão artística, etc. Todavia, seria errado considerar qualquer conduta agressiva como um sintoma /neurótico. Certos métodos de/,,pedagogia, ditos «à americana», desaconselham ao educador toda a intervenção susceptível de desencadear uma reacção agressiva. Deste modo, a criança, superprotegida, torna-se criança-soberana. Não estando habituada a ser frustrada, considera intolerável qualquer frustração e sabe-se, a partir dos estudos de psicólogos como R. Mucchielli, que a intolerância à frustração é uma das causas possíveis da/ delinquência juvenil. Uma tal/atitude pedagógica afigura-se pouco propicia a facilitar a entrada do adolescente no mundo. De facto, seja qual for o domínio em que ele escolher realizar-se, deverá, mais cedo ou mais tarde, dar mostras de agressividade; terá de se impor, de saber forçar uma resistência. Para tal, é bom que o adolescente tenha encontrado algumas ocasiões de se afirmar. A experiência ensina que quem não deparou com estas ocasiões é mais facilmente perturbável.

Agressividade e insegurança Ao mínimo confronto, ele manifesta unia agressividade excessiva porque nunca aprendeu a dominá-la, a fazer dela um elemento enriquecedor da/personalídade. A própria atitude dos pais dema-

so

siado indulgentes revela-se traumatizante, pois «a criança nunca se sente em segurança junto de pais que nunca dão provas de agressividade. Como é que uma criança pode sentir-se segura do poder de protecção de um progenitor num mundo potencialmente perigoso, se este progenitor nunca lhe prova que é capaz de se impor ou de combater? É evidente que um progenitor demasiado dominador pode tornar-se assustador e ninguém pretende preconizar um regresso ao poder autoritário ‘do pater familias da época vitoriana. Mas muitos pais moderno@ são tão condescendentes e mostram-se de tal modo/ansiosos por não manifestar a mínima agressividade que já não conseguem convencer os filhos da sua própria/aptidão para se defenderem

e para os defendero».

l'agressivité nócessaire» Assim, entre a agressividade perturbante e encontrar um meio-ternio. O ideal seria o adolescente poder exteriorizar, num contexto normal e tranquilizante, uma agressi-

desabrochamento. A/competição, a emu-

lação escolar ou desportiva parecem adequadas para canalizar uma agressividade que, recalcada, se arrisca

a enveredar por caminhos infinitamente mais perigosos.

9 Extraído de

a,,,@ passividade, é pre- de Anthony Storr ciso

(Robert Lafont), citado .

em Documents Service

edolescence, vidade necessária ao seu

Março de 1969.

&LCOOL (Alcool/Alcohol)

Num momento em que se fala muito de/ drogas, não é mau relembrar certos malefícíos do alcoolismo. R. Bascou cita núnieros reveladores: «Do estudo de 649 casos de crianças provenientes de todas as regiões e tomadas ao acaso entre as de um centro de observação (para/ delinquentes ou pré-delinquentes), extraímos os seguintes elementos: o alcoolismo é encontrado 39 vezes em ambos os progenitores, 37 vezes só na mãe

e 230 vezes no pai. Ou seja: 306 famílias em 649.»*

Vocabulaire

de psychopédsgogl1e Estes números são suficientemente eloquentes para advertir os adO-

lescentes tentados a brincar aos bebedores resistentes, pois é muitas vezes destas estúpidas competições que nasce o perigo. Cada qual tenta «aguentar mais tempo», por espírito de competição, para provar aos outros

e provar a si mesmo que é um homem. Ora, o sistema nervoso do adolescente, em pleno desenvolvimento,

tolera mal o álcool e arrisca-se, por muito pouco regular que seja a absorção de álcool, a adquirir uma

fragilidade doentia. Isto não significa, como é evidente, que se deva proibir categoricamente o álcool a um adolescente. De qualquer modo, a proibição seria violada por ser considerada, com justa razão, um abuso. Mediante certas precauções, é fácil autorizar o vinho à mesa, pois ele marca uma etapa da maturação. O que

convém recear, em contrapartida, são os excessos que podem surgir durante uma/festa os/pais a exercer uma vigilância -justificada pela

# R. Bascou:

(P.U.F., Paris, 1963).

Aconselhamos

ALI

participação nas despesas - permitindo, por exemplo, apenas a sangria ou outras bebidas pouco

alcoolizadaso.

e Ver «Festa».

ALIMENTAÇÃO (Alimentatíon/Alinientatiori) páginas li, 238,

A/adolescência é, do ponto de vista físico, o período de construção do corpo, que adquire então a sua altura e a sua conformação definitivas. É um fenómeno que não se deve esquecer quando se trata da alimentação dos adolescentes. Pois se o adulto se contenta com uma alimentação de manutenção, unicamente destinada a compensar o que é queimado pelo organismo, o mesmo não sucede no caso do adolescente. Em virtude do seu crescimento brutal, ele não pode satisfazer-se com uma alimentação de manutenção; todos os seus novos centímetros têm forçosamente de ser «colhidos» algures. Daí uma voracidade que suscita a admiração ou o espanto dos adultos («Mas onde é que ele mete aquilo tudo?»). Sabe-se que a/necessidade de um adolescente em calorias ultrapassa a de um adulto de estatura média: enquanto este se contenta com

2 200 calorias o por dia, são precisas entre 2 400 e 3 000 durante

e A caloria represar

em física a quantidad o crescimento.

calor necessária para

elevar de um grau um 2rama de água. Afigura-se indispensável propor com prioridade ao adolescente

por conseguinte un

quantidade de energia alimentos que favoreçam a construção: trata-se dos alimentos ditos que pode aplicar-se à

plásticos, os que contêm em grande quantidade sais minerais

ealimentação. proteínas*.

o Ver a quadro no

do artigo.

Sais minerais: são essencialmente o cálcio, o magnésio, o cloro, o sódio e o potássio. Os elementos minerais são particularmente importantes em período de crescimento, porquanto os encontramos fixados no esqueleto e nos outros tecidos. E é aí que o organismo vai buscá-los quando a alimentação os não fornece em quantidade suficiente. O crescimento acha-se então comprometido, e sobrevem a anemia, a perda de apetite ou a escoliose, a cárie dentária, etc. Os alimentos capazes de abastecer o organismo em sais minerais são os frutos, os legumes, o leite e todos os seus derivados (queijos, iogurtes, etc.). Ora, verifica-se que, com grande frequência, o leite encontra da parte dos adolescentes uma aversão de ordem psicológica (será por lembrar os cafés com leite da infância?). Pode-se então recorrer aos produtos derivados do leite, se bem que eles sejam menos ricos em sais minerais.

Proteínas: o seu valor reside no teor de ácidos aminados, os que mais se aproximam das albuminas humanas. Existem duas fontes essenciais: as albuminasde origem animal e as de origem mineral. As primeiras - que se acham na carne e nos ovos, por exemplo -

devem ser preferidas em período de crescimento. No que se refere

82

à carne, é falso julgar que a carne vermelha é mais nutritiva do que a carne branca: o teor de proteínas é sensivelmente o mesmo. Além destes alimentos, cuja função é contribuir para a construção do corpo, há alimentos que fornecem energia que pode ser armazenada. Estas reservas de energia são naturalmente indispensáveis ao adolescente, que dispende muito esforço.

Glicidos: a ração mínima é de 1 grama por quilograma e por dia. Os alimentos mais ricos em glicidos são as massas e o arroz, depois vêm o pão e os legumes secos.

Lípidos: os lípidos, ou gorduras, são indispensáveis ao organismo, o qual não pode elaborar a sua síntese. Os alimentos mais ricos em lípidos são o leite e os seus derivados, e os ovos.

Vitaminas. São de certo modo elementos-fermentos que ajudam a assimilação e são indispensáveis nesta qualidade. As vitaminas que se consegue reproduzir sinteticamente têm um papel específico bem determinado: Vitamina A: desempenha um papel de primeiro plano no crescimento em geral. É sobretudo conhecida pela sua acção sobre os tecidos de revestimento da córnea, cujo funcionamento assegura; Vitamina B: favorece a digestão e a assimilação, intervém no crescimento, regulariza o sistema nervoso; Vitamina C: favorece o desenvolvimento dos ossos e dos dentes, estimula a resistência do organismo; Vitamina D: muito importante na adolescência porque permite a absorção e a repartição do cálcio.

As carências em vitaminas (avitaminose) têm sempre repercussões muito aborrecidas sobre o organismo. Importa saber que o excesso é igualmente prejudicial (hipervitaminose). É por isso que nos devemos acautelar com as preparações farmacêuticas ricas em vitaminas, que se tem tendência a usar com demasiada facilidade nos nossos dias. É indispensável seguir rigorosamente as indicações do médico.

Alimentos plásticos

Alimentos energéticos

Ricos em sais

Ricos em

Ricos em

Ricos em minerais

proteínas

glicidos

lípidos Leite de vaca

Peixes

Arroz

óleo Marteiga-Ovos

Queijos

Massas

Manteiga (massa de pastéis) Carne Pão

Legumes secos

Margarina Queijos

de vaca

AMB

As vitaminas nos alimentos

Vitamina A:

Vitamina B:

Vitamina

C*:

Vitamina D:

Nata

Levedura de

Pimentão

óleos de fígado

Manteiga

cerveja

Salsa

de peixes

Legumes

Arroz

Couve-flor

Gema de ovo

(cenouras,

Laranja

Limão-Laranja

Manteiga

hortaliças)

Rim (porco)

Morango

Sardinhas de

Gema de ovo

Alface

conserva

Tomate

Espargos

Cacau

Leite

Fígado de

animais

# A vitamina C é a

resiste pior ao calor. As os legumes e frutos coz perdem o seu teor de vitamina C.

AMBIÇÃO (Ambition/Ambition) página 414.

A adolescência, que é o período em que o indivíduo se prepara para entrar na/sociedade adulta, constitui muito

naturalmente a idade da ambiçã o. O adolescente começa de facto a dispor de um certo número de elementos que até

então lhe faltavam, e que lhe permitem situar-se na,;<sociedade: estatura, peso, voz, nível de estudos. Em suma, graças a um determinado número de/aptidões que descobriu ou adquiriu, ele tem uma imagem mais nítida do seu futuro papel. Esta/projecção no futuro não está decerto isenta de alguma utopia: o que deriva em primeiro lugar de o adolescente não poder saber realmente em que consiste a vida profissional, por exemplo, antes de ter exercido a sua/profissão de forma

autêntica. E, como pôs em evidência o estudo de Suzanne Cordeliero,

O S. Cordelier:

Ias Adolescents face è são muitos os factores que contribuem para falsear a escolha pro-

/puerilidade, ilusões (por vezes alimentadas por filmes 1957). ou romances baratos). Segundo Ouillon, a ambição dos adolescentes não corresponde «nem. a uma escolha racional nem a uma consciência objectiva das aptidões, mas a um estado de alma particular na/ adolescência: inquietação, insegurança, sentimento de sujeição ou necessidade de evasão

no sonho»*.

leur avenir (E.S.F., Pai fissional:

e Origlia e Ouillon:

I,Adolescent A dificuldade, para os/pais, está em canalizar a ambição profis-

adolescente tenha o mais cedo possível uma justa noção das diferentes profissões a que pode/aspirar. Mas, por outro lado, uma/orientação demasiado restritiva poderia levá-lo a uma perigosa/ passividade. É o que acontece com frequência no caso de estudantes que pensam em abandonar a sua escolaridade: tendo-se mostrado inacessível a

profissão sonhada, adoptam uma atitude de/demissão. Enfim, os pais devem evitar idealizar eles próprios. São muitos

os que querem a todos o custo que o filho tenha uma situação superior à sua, sem suspeitarem de que se limitam assim a reviver inconscientemente, através do seu

(E.S.F., Paris. 1968). sional. Convém que o

64

rebento, a sua própria adolescência. É indubitável que uma tal atitude pode originar sentimentos de fracasso e perturbações de /adaptação. Para obstar a estes erros, os pais dispõem actualmente dos modernos métodos de investigação que lhes oferece a ciência/ psicológica. Graças aos/,<testes, em particular, um especialista é capaz de situar de modo rigoroso as possibilidades do adolescente, e isto no âmbito dos centros de orientação profissional e escolar. Eles podem encontrar, em tais centros*, conselheiros que lhes facultarão uma preciosa # Ver mais elementos

em «Orientação escolam ajuda no difícil caso em que as aptidões não estão à altura das am-

bições da/família ou da criança: «É ao conselheiro de orientação

rigor do/"conflito assim criado. A sua perspicácia, o seu tacto, a espécie de ‘sentido clínico’ que ele deve possuir tornam-no o diplomata e o advogado que concilia os espíritos e os converte às soluções mais

favoráveis ao desabrochar dos jovens seres.»*

e no artigo «A escolha da

profissão». profissional que cabe atenuar o

e S. Cordelier,

Ias Adolescents face à

leur avenir (E.S.F., Paris, 1957).

AMBIENTE (Ambiance/Surrounding)

O ambiente é um dos termos-chave do/vocabulário da/adolescência. Os termos usados para este efeito são

muito numerosos, revelando uma certa preocupação por um «bom ambiente»: «está a aquecer», é «giro», ou ainda «foi de tarar». Se esta terniánologia se presta um pouco ao sorriso, nem por isso devemos esquecer que ela é reveladora de uma das tendências fundamentais da adolescência: a,,, identificação com o/grupo. O adolescente, em busca da sua,;< personalidade e desejoso de se abstrair dos quadros da infância, experimenta uma propensão normal para se dar com os seus contemporâneos, junto dos quais encontra uma imagem tranquilizadora de si mesmo. Assim, para que tudo seja perfeito numa reunião de adolescentes, é indispensável que esta suscite a aprovaçao unânime; por outras palavras, que o ambiente seja bom. É por este indício que o adolescente sabe que pode libertar-se moralmente e fisicamente da/tensão interior que é a sua. Em/psicologia clássica, ambiente é sinónimo de/meio (do latim ambire, «ir à volta»). No momento em

que se forma a personalidade própria do indivíduo, é sabido que o ambiente rep@esenta um factor de impregnação que influi sobre o psiquismo. E por esta razão que o ambiente familiar desempenha em tal domínio um papel de primeiro plano. Ela pode contrariar ou favorecer de forma determinante o desabrochamento da personalidade adolescente, travando ou activando a identificação com os/pais, por

exemplo. Uma/família demasiado severa ou, pelo contrário, inexistente priva o adolescente dos modelos indispensáveis à maturação do indivíduo.

O ambiente escolar pode só por si agir sobre o /desenvolvimento

AMEI

/intelectual: assim, um/internato mal aceite pode ser causa de/inadaptaçâo escolar.

AMBIVALÊNCIA (Ambiva1ence/AmbivaIence) páginas 36.67.

Foi Bleuler* o primeiro a utilizar, em 1911, o termo ambivalênciao

psiquiatra sulÇo, conhec para designar uma disposição mental em que se encontram englo-

6. Bleuler (1857-19M

pelos seus trabalhos

bados urna tendência e o seu contrário. Por exemplo, o reconheci-

sobre a esquizofrenia.

mento pode ser ambivalente quando inclui ao mesmo tempo a gra-

O Do latim arribo,

dois», e valere, tidão e o ódio nascido da humilhação de dever alguma coisa a alguém.

A/adolescência é hoje definida como desfasamento entre a/MatU_

social. Este desfasamento é fonte de uma ambivalência fundamental que encontramos em numerosos exemplos: -Dependência-/ independência: o adolescente, para deixar de depender dos modelos da infância, cria para si mesmo uma dependência de tipo novo (/ ídolos, / identificação com um / grupo, etc.); -/Amor captativo-oblativo: o,,,Iflirt é ao mesmo tempo descoberta do outro e tentativa de apropriação para si; - Ternura-/ desejo: enquanto dura o conflito/edipiano, o adolescente trata as suas «namoradas» simuitaneamente como/ amigas crescidas e miúdas. Muitas vezes, os/pais admiram-se de ouvir formular sobre os seus filhos certos/juízos que diferem entre si ou não correspondem de forma alguma ao seu. Não devem contudo pensar que estas flutuações resultam de um erro dos/educadores ou de uma/ instabilidade mental do adolescente. Isto traduz antes de tudo um fenômeno comparável à procura de um comprimento de onda, revelador de um poderoso impulso vital que é próprio deste período da vida.

«significar». ridade biológica e a maturidade

««e0qsuivaler a».

AMIGOS (Arinis/Friends) páginas 37, 38. 69.

Tal como Montaigne, o adolescente coloca a/ amizade muito acima «daquilo a que chamamos vulgarmente amigos ou amizades, que não passam de hábitos e familiaridades contraídos casualmente ou por interesse». O adulto, para quem a amizade é a maior parte das vezes vaga e mal definida, tem tendência a esquecê-lo. Assim, é corrente ouvir alguém, a quem se pergunta a identidade de uma pessoa, responder: «Oh! não sei, é um amigo!»

Que representa o amigo? Um filósofo da Antiguidade comprazia-se em dizer: «Tive um amigo: é uma quantidade considerável.» O que equivale a definir assaz precisamente o ponto de vista do adolescente. Este, inimigo de qualquer compromisso e de qualquer meia-medida, acha-se antes de tudo em busca de um reflexo de si mesmo que possa ajudá-lo

PA-5

66

a definir a sua própria /personalidade. Escusado será dizer que, nesta procura, o amigo não é apenas um meio mas também um fim, como se, momentaneamente, a busca do outro e a de si mesmo se vissem confundidas. Sem dúvida que devemos assinalar aqui um resto de/egocentrismo pueril, embora não seja menos verdade que nunca convém encarar descuidadamente as amizades do adolescente. Para nos convencermos disto, basta tomarmos conhecimento de algumas definições de amigo dadas por

adolescentes*:

- Um amigo, é alguém diante de quem se tira a máscara;

-É uma pessoa que não precisamos de elucidar: pois ela sabe de antemão o que vamos dizer-lhe; -É um camarada que não temos vontade de ludibriar nem de assombrar.

o In Promessas,

Março de 1966.

Algumas destas amizades podem - se o clima ajudar, nomeadamente o clima religioso e a ternura mística - tornar-se particulares*. e ver «Amizade

Depara-se então um grave problema aos adultos, que conhecem o

limites da amizade adolescente: procura do alter ego num outro adolescente que se tornará forçosamente adulto. Desta tentativa de/ identificação condenada ao malogro, não perdura muitas vezes de ambas as partes senã o um imenso desencanto. Dever-se-á intervir para preparar a ruptura quando esta se torna inevitável? Parece que não há receita. Cada um deve ajuizar da /atitude a observar, fundando-se no/carácter do adolescente. Mas uma boa fórmula de intervenção indirecta consiste em fazer passar o amigo ou a amiga pela prova da vida de/grupo durante as/férias; aí, os verdadeiros/ valores não deixam de aparecer. Uma amizade demasiado exclusiva pode transformar-se então naturalmente em abertura aos outros e já não em refúgio esclerosante no par. É portanto dever dos/pais velar pelas/amizades do seu filho. Mas têm de dar mostras de um grande tacto, sem o qual a sua solicitude não tardaria a ser considerada como uma intolerável intrusão. Na prática, os filhos ficam reconhecidos aos pais por eles respeitarem os seus amigos. Gostam designadamente que estes sejam recebidos com cortesia. Mas há erros que se não devem cometer:

certa /mãe muito atenciosa para com o amigo de seu filho pode, quando se despede, recomendar-lhe que «tape a garganta» ou que «tenha cuidado na rua». Por vezes, inclusive, o amigo, naturalmente considerado como «crescido», vê ser-lhe confiada a guarda do «filhinho». Haverá então motivo para admiração se este

se abstém de trazer seja quem for a casa dos pais? Em tal caso, estes últimos não demoram a suspeitar de

alguma amizade prejudicial que se pretenderia ocultar-lhes bastado para evitar uma tal situação.

particulam. valor mas também os

No fundo, um mínimo de compreensão teria

Se o(a) amigo(a) é do sexo oposto, certos pais não se coibem de manifestar uma virtuosa reprovação, podendo chegar à proibição pura e simples. «És muito novo, isso não te fica bem!» Porém, nesta óptica, não será preferível uma amizade oficial a uma paixoneta clandestina?

AMIZADE (Amitió/Friendship) páginas 37, 39, 103. 332.

A procura da amizade surge como uma das constantes da/personalidade adolescente. Ela fornece o tema de numerosos romances. É verdade que por detrás deste tema se esconde muitas vezes o desejo de captar o/erotismo juvenil, a que é sensível um certo público. Não é menos verdade que, também com frequência, a amizade juvenil pode apresentar aspectos patológicos: é sobretudo o caso de uma amizade fundada na busca do alter ego. Tudo se passa como se o adolescente, privado das relações tranquilizantes da infância, procurasse então no amigo um reflexo de si mesmo. E esquecer a alteridade - ou personalidade essencialmente diferente - do ;@:migo, que é apenas visto em função deste/desejo de/segurança. E negar a tal amigo qualquer história pessoal, qualquer autenticidade. Esta forma de amizade só pode conduzir a um fracasso, visto que não existe outro si mesmo.

Amizade particular Uma amizade, à partida muito pura, pode, no contexto das pulsões/11sexuais da puberdade, ganhar uma cor erótica latente ou efectiva. O amigo não é então mais do que a compensação substitutiva de uma necessidade que não pode saciar-se de outra forma. A amizade particular é um caso-tipo de/ambivalê ncia em que se misturam a mais pura amizade e o desejo.

Amizade de substituição Característica dos/ínternos dos estabelecimentos religiosos onde se cria uma atmosfera de ternura mística. A coabitação num tal clima leva a que o amor a Deus tenha tendência a encarnar-se na pessoa do(a) amigo(a), cuja alteridade também aqui não é reconhecida. Estas diversas formas de amizade de tendência patológica tornam o fracasso inevitável na maior parte dos casos. Mas um tal fracasso, que pode ser causa de uma concentração em si mesmo e culminar na insociabilidade, é também por vezes, ao contrário, o ensejo de uma ultrapassagem. Pois, através dele, o adolescente não só descobre a solidão estéril da concentração em si, como ainda rompe com o/egocentrismo da infância. A experiência ensinar-lhe-á que a solidão apenas pode ser rompida pelo reconhecimento incessantemente renovado do outro enquanto ser diferente e/livre: é a fidelidade. Assim, a ami-

68

zade juvenil é ao mesmo tempo tomada de consciência da individualidade humana e/aprendizagem da

fidelidade, logo do/amor. A amizade pode ser também um poderoso factor de/adaptação, o que é importante para a formação da personalidade. A amizade

- facilmente absoluta na adolescência - é com muita frequência um encorajamento a fazer melhor, a superar- se no âmbito de uma saudável emulação. Numerosas carreiras prestigiosas são assim edificadas, como se comprazem em reconhecer certos homens ilustres. É por isso que os pais devem estimular a tendência para

a amizade que é a de todo o adolescente normal. A sua ausência deriva na maioria dos casos das

perturbações da personalidade ou do /carácter. Um adolescente que não tem amigos prepara-se para uma

entrada mais difícil na sociedade.

kMIZADE PARTICULAR (Amitlé particulière/ Particular friendship)

páginas 41, 104.

A amizade particular é um momento do/ desenvolvimento afectivo e sexual da adolescência. Componente afectiva: no decurso do seu desenvolvimento afectivo, o adolescente passa pelo estádio da admiração. Ele sente de facto necessidade de admirar aqueles que ama, de admirar os seus iguais. Em compensação, a amizade deles ser-lhe-á uma garantia, pois ele tem tendência a desvalorizar-se, apresentando-se-lhe o

mundo como um bloco difícil de penetrar e a sua própria/ personalidade bem frágil e/ínstável. Trata-se de um dos temas normais da amizade. Componente sexual: no decurso do desenvolvimento da sua/osexualidade, o adolescente passa por um período de aversão pelo sexo oposto. Aversão natural visto que o adolescente não está nesse momento apto a procriar*. A conjunção destas duas componentes

Ver o artigo (admiração pelos iguais e aversão pelo/ sexo oposto) leva à amizade

amizade amorosa por uma pessoa do mesmo sexo. Esta amizade particular nunca está isenta de uma verdadeira/ angústia ligada à componente sexual. É por esta razão que o adolescente precisa mais do que nunca da compreensão de um adulto que possa explicar-lhe o mecanismo da sua/afectividade. Ora, é justamente este o momento escolhido pelos/pais ou/educadores para manifestarem uma gama de sentimentos que vão da inquietação ao pânico, passando pela /culpabilidade, ou até pela hostilidade declarada. Isto constitui uma/reacçâo natural para quem não está a par do mecanismo,,,` psicológico posto em jogo na ocorrência. Mas é também uma reacção que convém ultrapassar. O próprio termo de mecanismo

é aqui significativo, já que se opõe ao de estrutura: por outras palavras, o adolescente que tem uma amizade

particular obedece a um concurso de circunstâncias. Não é a sua natureza profunda que está posta em causa.

xualidade». particular ou

O mecanismo das amizades particulares Deve ser integrado no esquema que caracteriza a evolução da

/sexualidade do adolescente. Este passa por um estádio/auto-erótico que lhe permite experimentar as novas possibilidades da /puberdade. Depois vem urna fase dita de « /homossexualidade de/;Igrupo», em que ele sente pelo sexo oposto uma certa forma de aversão mesclada de receio.

O adolescente, cuja /personalidade se vai afirmando, depressa se dissocia do/grupo para onde o impelia

aquele receio, porquanto ele é cada vez menos capaz de se identificar com uma média. Ora, a necessidade de /identificação subsiste mais forte do que nunca, posto que a protecção oferecida pelo grupo já não existe. Assim, muito naturalmente, o adolescente é conduzido a procurar o alter ego, aquele que lhe oferecer um espelho apto a tranquilizá-lo: este espelho, é o/amigo ou a amiga. Uma tal procura faz-se no contexto da/puberdade, ou seja, da /sexualidade nascente. O que dá esquematicamente o seguinte:

identificação = amizade puberdade

total

= amizade amorosa

= sexualidade

Esta/ projecção de si mesmo, característica de tal fase, pode fazer-se em dois planos, consoante a escolha se fixa sobre um contemporâneo ou sobre um adulto.

Amizades particulares entre adolescentes. Nascem frequentemente de uma procura de um outro si mesmo, de um/ desejo apaixonado de ser compreendido. Esta necessidade de amizade, que leva dois adolescentes do mesmo sexo a ligarem-se, é natural, e se unia tal amizade se traduzir por carícias ou por uma/masturbação recíproca, é bom ter então presente que esta/ homossexualidade é uma «homossexualidade de desenvolvimento» que não tem senão a aparência da verdadeira homossexualidade.

Amizades particulares adolescente-adulto. O caso de apego quase fanático a um professor ou a um educador não é raro. Convém igualmente não ver aqui mais do que uma necessidade de identificação com um modelo julgado perfeito. A maior parte das vezes, são os professores das disciplinas ditas de «despertar» (/música, desenho, etc.) que se tornam objecto dela, pois o seu/ensino, mais do que qualquer outro, apela para a/ sensibilidade.

As possibilidades de intervenção dos pais A dificuldade da intervenção é aqui evidente, dado que ela será quase sempre considerada como uma intrusão intolerável

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num domínio privado: tudo o que se passa entre «amigos» ou «amígas» é sagrado. Além disso, esta intervenção arrisca-se bastante a dar importância ao que no fundo não é mais do que um devaneio passageiro. No entanto, quando é claro que esta amizade é nitidamente mais amorosa do que amigável, importa, antes de tudo, desculpabilizar. impõe-se uma explicação franca: explicação difícil, sem dúvida, pois os/pais têm então tendência a julgar que o seu filho é/anormal. Eles devem a todo o custo persuadir-se de que a priori isto não é verdade. Devem aproveitar a ocasião que uma tal descoberta lhes oferece para reporem o adolescente na perspectiva do/desenvolvimento normal, sem esquecerem o que a situação pode ter de traumatizante. Na verdade, a passagem ao acto homossexual, quando ele é efectivo, não deriva, nos casos normais, de uma intenção deliberada, sendo antes o resultado de um concurso de circunstâncias: o isolamento faz manifestar-se uma ternura irrepri*niível. A primeira impressão é o espanto, logo seguido de um forte sentimento de/ culpabilidade. Geralmente, uma troca de impressões muito precisa, reveladora da compreensão dos pais, é suficiente para que o adolescente supere este estádio. Ela parece preferível a uma situação brutal que suprima os sintomas sem atingir as raízes. Se a tendência persistir, impõe-se o recurso a um/psicólogo.

AMOR (Amour/Love) Páginas 10.42,43,44,474.

O tema dos amores adolescentes lembra o tema clássico do Blé en herbeo. É verdade que, na/ adolescência,

e Rmance de Colette. essencíalmente captativa: o que o adolescente procura, ao amar, é

um reflexo tranquilizador de si mesmo. Ele concebe o amor como uma caçada: o objecto ou o ser amado é a caça cuja posse confere o poder. Convém notar que, contrariamente a uma opinião muito propagada, isto é verdade tanto para as raparigas como para os rapazes, com a simples diferença de que estas pretendem assim pôr à prova o seu poder de sedução. O que é verdade no caso do amor entre adolescentes é-o ainda mais quando se trata do amor por um adulto; este último deve estar preparado para não atribuir um tal fervor unicamente aos seus méritos: mais do que a si mesmo, é ao representante do mundo adulto que se dirige este culto. Seria no entanto falso concluir que o adolescente é incapaz de um amor desinteressado. Se as aparências estão contra ele, é porque ainda não se

a noção de amor é

acha apto a discernir com precisão o que provém da arregimentação pelos adultos - integração escolar,/ educativa ou familiar - e o que depende do amor autenticamente desinteressado. Logo, não é de admirar que qualquer testemunho de amor se lhe afigure uma tentativa de sujeição.

Na dúvida, o adolescente prefere abster-se para não se expor a uma alienação da sua/-< personalidade. Mas a/capacidade de dar continua a ser a mesma da infância.

O adolescente não é de modo algum egoísta por definição. É até muito frequente que, encerrado no dilema

amor-arregimentação, ele escolha uma forma derivada do amor: a dedicação, no âmbito, por exemplo, de uma obra de assistência aos velhos necessitados ou aos enfermos. Uma tal dedicação não exclui uma/atitude de defesa, por vezes/ agressiva, em,,,Ifamília.

O amor dos pais Neste contexto, a tarefa dos/pais mostra-se particularmente árdua. Assim, diante da

rejeição aparente de todos os testemunhos de amor da sua parte, muitos deles preferem refugiar-se ao abrigo

de uma/pedagogia «liberal» cujas virtudes são incessantemente enaltecidas nos países «de ponta»: Estados

Unidos ou Suécia, por exemplo. Isto equivale a esquecer uma realidade adolescente cheia de/ambivalência:

determinado adolescente proclama abertamente que já não quer que lhe dêem os parabéns no dia do aniversário. É bom para os «miúdos». Se, ao chegar o dia, cumprirem os seus desejos, ele aproveita para declarar «que não gostam dele e que, aliás, nunca gostaram», mas que, «vendo bem, ele se está completamente nas tintas». Depois irá discretamente desafogar uma mágoa tão profunda quanto paradoxal.

Este paradoxo resolve-se facilmente quando nos lembramos de que o adolescente já não é uma criança mas ainda não é um adulto.

O

que ele teme nas provas de amor familiares é que continuem a tomá-lo pela criança que era. E talvez não

se

engane muito. Seja como for, ele priva-se de amor. Pelo menos de tal espécie de amor, pois nele, como

em qualquer ser humano, a necessidade de ser amado e de amar é vital. Motivo pelo qual se >entrega a amores de substituição, enquanto espera restabelecer com a sua família relações adultas. É só nesse momento que o amor dos pais e o amor pelos pais encontrará - além da vivacidade do amor infantil - a profundidade dos laços de adulto a adulto. Até lá, a única/atitude que se deve desaconselhar decididamente aos pais é o/ciúme. Pois, afinal, percebe-se que aquilo que separa os adolescentes dos seus/pais é mais um desejo natural de emancipação do que uma vontade deliberada ou uma qualquer forma de ingratidão. O ciúme, amiúde manifesto em certos pais, leva frequentemente a impedir o acesso dos filhos à vida adulta, ao mesmo tempo que compromete o recomeço de relações normais e desanuviadas que são as que existem entre pais e filhos adultos.

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AMOR-PRõPRIO (Aniour-propre/Seif-1ove)

O amor-próprio é a tradução demasiado literal do/amor por si. Nada há de surpreendente no facto de o adolescente ser facilmente vitima dele. O amor-próprio é muitas vezes ignorado por se fazer acompanhar, na maioria dos casos, de susceptibilidade e de irritabilidade. Certo rapaz não aceitará qualquer observação ou conselho.

O mínimo fracasso será sentido como uma ofensa deliberada. Em contrapartida, nas circunstâncias favoráveis, o amor-

próprio terá ocasião de se evidenciar plenamente. Todo o ensejo será bom para se manifestar o seu contentamento. Um determinado adolescente exaspera as pessoas da sua convivência: ele mostra-se demasiado seguro de si, costuma-se dizer neste caso. Ora, precisamente, o amor-próprio é um fenónieno de compensação. O receio que se sente de não ser apreciado no seu justo valor leva a que se tenha tendência a exagerar a afirmação de tal valor. Uma atitude/ educativa

positiva consistirá então, não em procurar tornar o adolescente menos seguro de si, mas, pelo contrário, mais seguro de si. Os pais deverão preocupar-se, mais do que em «esbater-lhe as fumaças», em dar-lhe ocasiões concretas de/êxito. Se, por exemplo, um adolescente manifestar um amor-próprio excessivamente vivo que o conduz a recusar qualquer conselho, nada impede os país de o colocarem em tal situação (/trabalho temporário, /responsabilidades novas) que ele

se sinta feliz por encontrar na experiência deles um precioso apoio. O que importa, antes de tudo, é não responder a uma manifestação de amor-próprio com uma manifestação de/humor.

AMUO (Bouderie/Pouting)

O amuo manifesta-se simuitaneamente por uma/atitude hostil e passiva e por um retraimento de afeição. A criança que

amua entende exercer uma vingança sobre o adulto que a castigou e repreendeu. Atitude especificamente infantil, ela é ainda frequente na/adolescência. Quando se produzir, tomará então a forma de um/ mutismo reprovador, pois o pós- púbere, que adquiriu um certo domínio emocional, descarrega com menos frequência a sua/tensão interna através de

gestos de/cólera. O seu único recurso, em caso de ,,<conflito com uma pessoa chegada, é portanto a/insolência ou

O amuo, que constituem ambos uma confissão de impotência.

Uma atitude negativa

O amuo do adolescente marca unia regressão ao estádio /infantil. De facto, a adolescência é o momento em que nos

tornamos homem ou mulher, com as /responsabilidades que isso implica. Certos

“I

adolescentes, incapazes de se aceitarem a si mesmos, de se reconhecerem após estas transformações, podem recusar o seu novo estatuto ou as novas atitudes das pessoas a seu respeito. É esta recusa que um arnuo/anormal repetido traduz. Neste sentido, o amuo é revelador de um sentimento de inferioridade, seja qual for a sua causa inicial. Eis por que compete ao adulto, que representa a força e o equilíbrio, encetar o diálogo. A troça não pode senão acentuar a/ansiedade natural do amuado. Pelo contrário, sinais de/confiança estimulam-no e encorajam-no a resolver os seus problemas de outro modo que não seja confinando-se numa atitude pueril e negativa.

ANGúSTIA (Angoisse/Anquish) páginas 29,261.

A angústia é o sentimento de inquietação resultante do temor irraciocinado «de algo que poderia acontecer»

. Ela distingue-se da /ansiedade por certas reacções neurovegetativas (palidez, dificuldade respiratória) que desencadeia e que permitem detectá-la.

As causas da angústia Na/adolesc8ncia, a angústia é devida em grande parte ao/conflito entre os novos/desejos da/puberdade e os interditos instaurados durante a infância. Por exemplo, a/masturbação, - que não tem uma repercussão /fisiológica grave- é, na maioria dos casos, experimentada como angustiante e pode desta maneira criar um verdadeiro desarranjo funcional. A necessidade de o adolescente se inserir no

contexto/social e as responsabilidades dai decorrentes são também uma causa frequente de angústia: é o que

se passa na altura de um,,*exame, ou no momento de declarar sentimentos amorosos. Para o adolescente, o

primeiro baile, a primeira/ entrevista podem ser fonte de angústia. Algumas formas de angústia são mais difusas, mas igualmente temíveis: passar em frente de uma esplanada de café e submeter-se assim ao exame dos clientes sentados às mesas constitui para certos jovens @ima provação inexcedivel. E indispensável tentar dar o mais depressa possível remédio a todas estas formas porque, como a maior parte das pessoas angustiadas, o adolescente pode recorrer aos tranquilizantes ou ao,,,"álcool. Nos Estados Unidos, os negociantes de/droga encontram os seus melhores clientes entre os adolescentes. O papel dos/pais é aqui primordial, na medida em que estão melhor colocados para descobrir os sintomas de angústia. Para a remediar, basta em muitos casos suscitar uma/actividade que ponha o sujeito em contacto directo com a realidade. Nunca é demais louvar as virtudes do /trabalho temporário que, mais do que qualquer outra coisa, tem

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o mérito de confrontar o adolescente com a realidade, com a/ sociedade que o atemoriza. Se a angústia provém de uma falta de/confiança em si, é essencial que os pais criem ocasiões de/êxito concreto e mensurável. Enfim, existe uma forma de angústia propriamente física: o adolescente que teme passar em frente de uma esplanada de café é o mesmo (ou a mesma) a quem a sua silhueta desespera. Ele sente-se

demasiado magro, demasiado alto, demasiado gordo. Ela tem a certeza de nunca vir a agradar a alguém, as

suas amigas são todas mais bonitas

diferentes tipos de evoluçã o física na/adolescência e saiba assim que atraso ou precocidade quase nunca são atributo de/anormais.

É bom em tais casos que o adolescente seja posto ao corrente dos

ANOREXIA MENTAL (Anorexie mentale/Anorexia nervosa)

páginas 12, 76, 101, 238.

O termo anorexia mental significa uma falta de apetite ligada a uma causa de ordem mental. A anorexia mental é um fenômeno especificamente feminino. Os sintomas são habitualmente os seguintes: a jovem começa por vomitar. Depois restringe pouco a pouco a sua/afimentação, que reduz a alguns alimentos, muitas vezes extravagantes e cuja quantidade se limita a assegurar a sobrevivência. Não se trata de uma comédia destinada a chamar a atenção, visto que a anoréxica toca tão pouco nos alimentos quando a observam como quando sabe não estar a ser vista. A jovem pratica o jejum como se estivesse a respeitar algum juramento. Na realidade, a inapetência manifesta-se rapidamente, mas o estado geral permanece aparentemente bom, assim como a/actividade, que regista até por vezes uma certa recrudescência. Em seguida, a doente enfraquece. As/regras param e o risco de uma tuberculose torna-se então muito grande. Doença puramente física ou mental, ou ambas as coisas? O erro vem a princípio do facto de em todos os

casos a anorexia ser precedida de perturbações digestivas. Todavia, foi possível concluir que as mesmas perturbações verificadas noutros gastropatas não produziam os mesmos efeitos.

O Rouart: «O seu aparecimento nesta época da vida, ensina Rouarto, indica

Psychopatholoffie

de l'adolescence efectivamente uma paragem de sequência no decurso da evolução

para a genitalidade, como prova, sob a influência da hipo- dos sinais secundários sexuais de

notou o desaparecimento

Imaturidade sexual (amenorreia, desaparecimento de quase todos

(P.U.F., Paris, 1952). sexual

e Foi assim que Rouart nutrição, o desaparecimento

das regras durante vários

meses. num grande número de menores os sinais sexuais secundários: seios, etc.).»

 

recém-chegadas ao Centro

Ora, esta paragem coincide sempre com

circunstâncias de ordem

de Recuperação de

Versalhes, na sequência /afectíva. Tudo se passa como se o desarranjo endocrínico fosse

de uma detenção ou de um

pedido de correcção função directa de uma perturbação afectivao.

pelos pais,

ANO

Anorexia e fobia Parece actualmente estabelecido com bastante nitidez que, na origem de numerosos casos de anorexia, se encontram/ fobias. Quer fobia da puberdade, devida a uma/culpabilização frequentemente consecutiva à menstruação, quer fobia de tudo o que é/sexual. Neste último caso, apercebemo-nos de que uma excessiva/ liberdade sexual ou, ao invés, uma falta de informação podem ter os mesmos efeitos traumatizantes. Contudo, esta fobia, observada na maior parte dos casos, nunca é suficiente para explicar a anorexia. Ela precisa do contexto de um /carácter inteiro, ou seja, pouco inclinado aos compromissos e, deste modo, sujeito às/neuroses e às satisfações substitutivas que elas pressupõem (conversão histérica, por exemplo). Um caso: uma rapariga sofre do/conflito entre a distinção materna

e a vulgaridade do/-'4pai. Ora, é a este último que ela se assemelha fisicamente, e o mínimo aumento de peso acentuaria esta semelhança. Donde um receio inconsciente de se parecer com o pai, receio que o carácter religioso da jovem reprova fortemente. A anorexía cessa quando esta rapariga se/casa, para ressurgir na altura da viuvez. De um tal caso típico de anorexia, podemos concluir que se afigura haver perturbações de/ identificação, não podendo o sujeito aceitar-se num corpo de adulto.

ANORMAL (Anormal/Abnormal) páginas 102.239,243.446.464.

O anormal é aquele que se afasta da norma. Mas é bem difícil definir com precisão o que é a norma: de facto, o que se admite num lado não é admitido noutro, e inversamente. Assim, tal indivíduo pode parecer normal numa/sociedade de um dado tipo e anormal numa outra cujos usos não conhece. Convém portanto apelar para duas noções do anormal: a noção «indívidual» - é anormal aquele cujas/reacções não podem ser comparadas com as de qualquer outro ser humano - e a noção «social»: o meio molda, pelo menos exteriormente, o indivíduo; logo é anormal aquele que não se adaptou ao seu/meio. Foi desta maneira que o termo de inadaptado acabou por substituir o de anormal. Um/11delinquente, um/caracterial, um atrasado escolar são inadaptadoso. O Ver «Inadaptação

Juvenib o «Dificuidade escolares».

ANSIEDADE ~xiété/AnAety) páginas 133.190. 497. 522.

A/adolescência, que se assinala pelas mudanças espectaculares da/puberdade e pelas variações mais profundas da/personalidade em gestação, é um período de ansiedade. Estas mudanças surgem de facto muitas vezes como perturbações. A criança que, durante o período de latência, pudera aceitar, no âmbito das/ iden-

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tificações estabelecidas, unia imagem estável de si mesma, vê esboroar-se este conjunto aparentemente sólido. Sente em si os primeíros acessos sexuais, verifica as primeiras ejaculações. Por vezes, cede à/masturbação. A adolescente vê-se sujeita, desde as primeiras/regras, a um ciclo que é muitas vezes considerado injusto. Em última análise, a recusa da condição feminina pode ir até à /anorexia. Em casos mais frequentes do que se julga, as próprias formas da/feniinilidade só a custo são aceites: esta tendência é aliás utilizada por certos costureiros cujas criações visam uniformizar os sexos. Existem grandes armazéns de vestuário onde certas secções atendem tanto os rapazes como as raparigas. O seu êxito mostra bem com que dificuldade o adolescente aceita o seu/sexo no momento em que as manifestações secundárias sexuais aparecem. Mas a obrigação em que se está de assumir nesta altura um sexo e um comportamento sexuado não é a única fonte de ansiedade na adolescência. Como sempre, interferem diversas causas. A inserção na/sociedade adulta como membro/ responsável é uma causa frequente de ansiedade difusa. Ninguém conseguiria persuadir o adolescente de que ele é capaz, a priori, de realizar tal inserção, sobretudo se pensarmos que, neste preciso instante, não é raro ver o rendimento escolar decair perigosamente. Os/pais inquietam-se e a sua inquietação só contribuirá para aumentar a ansiedade natural do adolescente que vê nela mais uma razão para duvidar do seu/futuro.

Como detectar a ansiedade no adolescente? Convém antes de mais não perder de vista que ela é relativa a um certo estado anterior: o da infância. Na maior parte dos casos, o adolescente ansioso, isto é, que recusa inconscientemente a sua adolescência, refugia-se nas/,<atitudes da infância; é a esta recusa que se dá o nome de regressão, ou voltar atrás, a um estádio infantil onde não faltavam nem a protecção dos pais nem

a/11segurança.

O adolescente age como se, ao reencontrar certas atitudes da infância, recuperasse magicamente o estatuto tranquilizador desta; podemos assim dizer que é ansioso o adolescente que chucha no dedo, molha a cama,

manifesta uma voracidade desmedida*, uma cruel-

de asseio ostensiva. Por vezes, inclusive, assiste-se a uma reactivação do/complexo edipiano: o rapaz manifesta uma ternura infantil em relação à/mâe, a rapariga brinca a ser a «mulherzinha» do/paí. Todas estas manifestações são outros tantos pontos de referência para os pais, que, não raro, se sentem desnorteados com a atitude dos seus filhos adolescentes. Devem saber em primeiro lugar que seria nefasto

deixar transparecer a sua inquietação: na verdade, o adolescente só espera ser desenganado. Por muito pouco que os pais entrem no jogo, a sua ansiedade difusa tomará corpo, por assim dizer:

O Ver bulimia. dade irraciocinada, ou mesmo uma falta

ela encontrará em todo o caso um alimento que dispensaria perfeitamente. Mais do que nunca, é necessária compreensão para ajudar o adolescente a superar uni período difícil da sua formação. Os pais devem também saber que esta ansiedade não desemboca forçosamente numa espécie de/neurose de/angústia. Ela pode, nos casos normais, revelar-se, ao contrário, um factor de/êxito. A melhor maneira de combater a ansiedade é apresentá-la como um estádio normal que importa ultrapassar. É neste sentido que se pronuncia o psicanalista americano J. A. Davis, para quem «a ansiedade provoca a acção».

APATIA (Apathie/Apathy) páginas 12, 83, 107, 143. 144, 250.

A apatia caracteriza-se por uma aparente insensibilidade a tudo o que provoca habitualmente no indivíduo um sentimento ou uma ,,”emoção: receio, afeição,/ desejo, etc. A apatia é por vezes devida a uma insuficiência mental caracterizada, mas, de modo geral, limita-se a traduzir um sentimento de estranheza. Pode encontrar-se num aluno/interno brutalmente arrancado ao círculo/ familiar. Um tal apático oferece então todos os sinais aparentes da/preguiça. Com efeito, não devemos esquecer que, até à última fase da /adolescência, a/afectividade é um dos principais motores do trabalho: é a idade em que ainda se trabalha mais para agradar a certo professor admirado ou respeitado do que por qualquer outra razão. A apatia deve ser rapidamente descoberta porquanto ela conduz bastante, vezes sem conta, a uma verdadeira anestesia mental, moral ou afectiva.

Despertar no apático centros de interesse Com grande frequência, bastará, para dar remédio a isto, suscitar uma tomada de consciência no apático: primeiro, colocá-lo diante do facto consumado: atraso escolar, insociabilidade, em suma, tudo o que, numa tal atitude, manifesta a/inadaptação efectiva. Depois de criada esta perspectiva, é preciso, por um lado, evitar dar repreensões que não serviriam senão para agravar a situação e, por outro lado, insistir na/ responsabilidade que cabe ao adolescente pelo seu próprio destino. Trata-se de uma coisa que o apático esquece muitas vezes em virtude da sua atitude mesma, já que uma renúncia gera outra. Quando isto for admitido, o adulto deve esforçar-se por suscitar centros de interesse que sejam susceptíveis de tirar o apático do autêntico torpor mental em que ele corre o risco de se atolar.

APRENDIZAGEM (Apprentissage/Traíning) páginas 13,360,410.506.

«A aprendizagem é uma/actividade que modifica de uma maneira

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duradoura as possibilidades de um ser vivo.»* Através da apren-

humano pode adquirir ou/hábitos ou conheci- (9 de Fevereiro de 1957). mentos. Durante a infância, o mecanismo de base da aprendizagem é o condicionamento, fundado primordialmente na/ afeição e na admiração que a criança nutre pelos seus,,Opais: ela aprende a ser asseada «para dar alegria», porta-se bem à mesa «para

fazer como os crescidos»

Cada aprendizagem corresponde a um grau de/maturidade. A/adolescência é a

idade da elaboração da/ personalidade, cujos contornos se desenharão graças à aprendizagem nos domínios fisiológico, afectívo e,,,” intelectual.

O Fraísse. in Bulletin dízagem, o ser

Aprendizagem,,” fisiológica

O adolescente deve habituar-se a um corpo que a/puberdade transformou: «A noção de crise juvenil,

escreve Pierre Furter, esconde sob o seu aspecto dramático um facto real: a inquietação que o adolescente experimenta diante do seu corpo. Seja pela desproporção do comprimento dos seus membros, ou pelo aparecimento dos sinais secundários da/sexualidade, por acontecimentos tão ridículos como a/acne ou uma

gordura passageira, os adolescentes interrogam-se sobre a significação do seu corpo.»* Fre-

Ia Via morale de quentemente, os adultos que reataram desde há muito com o seu corpo as «relações de

coexistência pacífica» de que fala Merleau-

-Ponty, esquecem esta dimensão do problema juvenil. Eles mini-

querendo desdramatizá-lo sem custo, dizem gracejos que reforçam a/ansiedade do adolescente e falseiam a sua aprendizagem física.

e Pierre Furter:

(Delachaux et Niestlé,

Paris. 1965). mízam-no, ou então,

Aprendizagem afectiva

O adolescente deve aprender a considerar-se e a ser considerado como diferente do que era durante a

infância. Por causa da/puberdade, as suas relações com os/pais, os professores, os/amigos, etc., vão tomar

uma nova feição. O adolescente deve aprender a comportar-se como um ínterlocutor válido, e passar do estádio da dependência infantil para o da autonomia afectiva que tem, em princípio, de desembocar na criação de um lar/ independente. Também neste caso são numerosas as dificuldades que espreitam o adolescente. Muitas vezes, as pessoas da sua convivência não sabem ao certo se devem consíderá-lo como uma criança ou como um adulto. As diferenças de/atitude são por vezes resultantes de mudanças de,,,,humor: um adulto exasperado acha mais cómodo dar uma bofetada numa criança do que explicações a um adolescente. Inconscientemente, os pais podem recusar a/maturidade do seu filho em virtude de ela marcar uma etapa de envelhecimento para eles. No domínio do/amor, enfim, o adolescente deve percorrer

os numerosos estádios que o levarão do/auto-crotismo mais ou menos

APT

matizado à integração/ sexualidade-,, afectividade que assinala a/maturidade amorosa. O obstáculo principal

será, na ocorrência, o risco de se fixar prematuramente num dos estádios transitórios possíveis*. Para ajudar

o adolescente a alcançar a maturidade,

o Ver «A sexualidade». não há nada mais importante do que a imagem

de um casal parental harmoniosamente equilibrado.

Aprendizagem intelectual Enquanto a/ actividade/ intelectual se distingue na criança por um extremo

realismo, o adolescente tem acesso ao estádio da abstracção e do conceito; mas, muitas vezes, ele deixa a afectividade interferir nos seus/juízos: «O elemento subjectivo, notam Origlia e Ouillon, é de tal forma preponderante (nesta idade) que se mistura com os dados do real e por vezes os recobre até os fazer desaparecer. As imagens visuais e mesmo auditivas fornecidas pela/memória impõe-se ao espírito do adolescente com um tal vigor que lhe dão a ilusão da realidade. Estabelecem-se assim relações arbitrárias entre as coisas em função da afectividade do sujeito, e estas relações transformam os dados percebidos

consoante as disposições de espírito daquele que as recebe.»* ‘Adolescent Deste modo, o adolescente deve aprender a substituir uma visão

mundo por uma concepção racional dos seres e dos objectos. Ainda aqui, a ajuda dos adultos é preciosa. Não é raro, de facto, que a necessidade de racionalização acarrete /decepções, em particular no que diz respeito às/ aptidões, tanto do próprio adolescente como da sua esfera imediata. Uma das consequências desta decepção pode ser o refúgio excessivo em si mesmo.

# Origlia e Ouilion:

í(E.S.F., Paris. 1968). mágica do

APTIDÃO (Aptitude/Aptitude) páQinas 416, 434.

Confunde-se muitas vezes aptidão e/capacidade. De facto, a capacidade é a aptidão posta em prática. Assim, à aptidão para correr durante muito tempo chama-se resistência ou fôlego. A capacidade é a,,Iperformance que permite efectivar a aptidão. A aptidão é o objecto de uma dupla descoberta na/ adolescência. A primeira é o princípio que acaba de ser enunciado e que a criança ignora: a aptidão não é a capacidade; por outras palavras, o homem só é aquilo que pode ser na medida em que sabe querer sê-lo. A segunda descoberta é a das próprias aptidões, tornada possível, em especial, pela/ escolarização. Os resultados escolares permitem ao adolescente tomar consciência das suas faculdades e dos seus limites. Assim se delimitam os contornos da/ personalidade. Nestas condições, é muito importante que a avaliação das aptidões se não preste a erro. Certos /testes proporcionam informações precisas sobre o nível do sujeito em função da/actividade posta em jogo

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pelos diferentes testes de aptidão: /memória, abstracção, verbalização, etc. A precisão destas medições é um elemento importante para o /desenvolvimento harmonioso da personalidade do adolescente: uma das inquietações mais frequentes neste período da vida provém muitas vezes da impossibilidade provisória, em que então se está, de pôr à prova as suas aptidões; em tais condições, estas podem ser quer desvalorizadas quer exageradas. Em ambos os casos fica entravado o acesso à/maturidade.

ARTE (Art/Art)

A noção de/beleza para que tende toda a obra de arte tem conduzido amiúde a erros educativos. Com efeito, observou-se que embora o aparecimento da/inteligência abstracta na/adolescência permita uma iniciação estética, esta não parece ser validamente recebida senão por estudantes naturalmente dispostos a tal forma de/ensino. Tornou-se assim corrente limitar esta iniciativa a voluntários que a solicitam, escolhendo matérias de opção como a/música ou o desenho. O que equivale a esquecer que a arte é uma forma de/linguagem e que enquanto tal ela pode dirigir-se a todos os indivíduos. Nesta óptica, a iniciação artística poderia ser apresentada como uma reflexão sobre o lugar da arte na/cultura: haveria aqui matéria para o enriquecimento de todos. E, sobretudo, este modo de reflexão teria a vantagem de colocar o adolescente enquanto indivíduo diante da obra de arte.

Os erros educativos Uma falta de iniciação conduz os adolescentes, que nem por isso deixam de manifestar um gosto muito vivo por certas formas de arte tais como o/cinema e a literatura, a desnaturarem completamente a finalidade de uma obra de arte. Não apreendendo o sentido autêntico dos símbolos que lhes são propostos, eles vêem o mundo através do prisma de uma máquina de filmar ou das imagens literárias. Ou então, tendo-os compreendido, arriscam-se a fixar-se num estádio de/jogo intelectual: tudo é símbolo, nada existe senão através do símbolo. Portanto, o ensinamento que toda a obra de arte contém permanece letra morta, visto não oferecer uma abertura para o real. E, precisamente, o adolescente tem, mais do que ninguém, necessidade de se preservar de uma tendência para transformar magicamente o mundo à medida dos seus/desejos. Um outro erro educativo corrente consiste em misturar sistematicamente a arte e a/religião. Deconchy cita o caso de um educador que procurava «cativar os seus adolescentes»:

«Mandando fechar as luzes e correr as cortinas, ele fê-los escutar às escuras, de olhos

ASC

semi-cerrados, um disco de música religiosa, seguido de uma oração sussurada a meia-voz que ele só achou tão vibrante e tão ‘conseguida’ porque lhe faltava bom senso. Com um pouco de sedução e nas mesmas condições, teria obtido exactamente o mesmo resultado, obrigando-os a escutar uma canção de Brassens ou mandando recitar uma fábula de La Fontaine. É assim -conclui o autor -

que se preparam admiráveis terrenos patológicos sobre os quais poderão enxertar-se as/;<neuroses e

as/psicoses místicas mais ou menos delirantes.»* Uma tal confusão, frequentemente inspirada pelos melhores senti-

de 1'adolescent mentos, faz pelo menos correr ao adolescente o risco de uma/con-

seria fundada na/emoção artística e não numa fé real.

9 Deconchy: /é Dáveloppement psychologique de l'enfa

8(Éditions ouvrières. versão que

Paris, 1966).

ASCETISMO (A9cétisme/Asceticism) páginas 299,452.476.

O ascetismo distingue-se por uma aversão a tudo o que depende do instinto alimentar ou/sexual, por exemplo. É possível ver determinado adolescente descurar qualquer precaução contra o frio, ou então mal se/alimentar. Trata-se de um sistema de defesa elaborado sob a pressão dos acessos instintivos representados pelo impulso vital característico da adolescência. Logo, mecanismo próximo do fenômeno/ neurótico; mas, aqui, o que está em jogo é mais a quantidade dos instintos do que a sua qualidade. Tudo se passa como se o adolescente, temendo ser ultrapassado, estendesse a recusa dos instintos até às suas manifestações mais comuns. Certas pseudovocações monacais não têm outra origem senão esta/atitude, a qual se resume afinal de contas a uma fuga diante da realidade e das /responsabilidades. Pode suceder que o instinto, durante demasiado tempo contido na mínima das suas manifestações, se comporte como o vapor no interior de uma caldeira: por falta de válvula de escape, ela explode. Assiste-se então a uma mudança espectacular: os acessos do instinto, como que sob o efeito de uma pressão excessivamente forte, fazem rebentar as barreiras minuciosamente erguidas. O ex-asceta queima aquilo que adorou, e o inverso:

desmedidamente, está claro. Tais excessos podem por vezes tomar um carácter anti-social e o asceta prega a anarquia.

ASPIRAÇÃO (Aspiration/Aspiration) páginas 371.408.411.

A aspiração é o facto de se propor uma finalidade a atingir. Ela é por conseguinte uma atitude activa que põe em jogo o impulso vital de um indivíduo. Chama-se nível de aspiração ao nível a que o sujeito deseja chegar no ideal. Este nível tem sempre em consideração aquilo que foi realizado anteriormente: assim, um/êxito

PA-6

82

tende a elevar o nível de aspiração ao passo que um fracasso o abaixa. Convém levar em conta estes dados quando se está perante adolescentes. Pois estes experimentam correntemente dificuldades em fixar a si mesmos níveis de aspiração, situando-se os objectivos ou ideais propostos num contexto de inexperiência

da vida real que os torna frequentemente utópicos. É por esta razão que os adolescentes devem ser

constantemente ajudados -por vezes contra a sua vontade - na pesquisa de um nível de aspiração pessoal. Mais do que os outros, eles sentir-se-ão tentados a valorizar em excesso um êxito; fixam então um objectivo elevado cuja vã perseguição pode provocar um/complexo de fracasso. Tais atitudes são frequentes na vida corrente: determinado rapaz pretende ingenuamente seguir um curso de engenharia militar ou civil quando afinal tem grandes dificuldades nos dois últimos anos do liceu. Mas ele justifica esta pretensão com um recente êxito parcial. Ou então, uma adolescente pode esperar firmemente triunfar no teatro porque, havendo gravado a sua fala, acha que tem uma «linda voz». É bastante difícil avaliar sem mais nem menos a parte de utopia das aspirações de adolescente. Porém, estes diferentes níveis podem ser objecto de medições precisas graças aos/testes. Podemos assim, comparando as aspirações e as possibilidades reais, conhecer

melhor a/personalidade do sujeito. L

TENIA (Asthénie/Asthenia)

m estado depressivo astenia consiste na falta de força, de energia. Traduz-se por uma fatigabilidade

excessiva e permanente: o asténico sente-se canado desde que acorda. Esta fatigabilidade conduz rapidamente a ma repugnância pela acção e por qualquer iniciativa, o que não eixa de comprometer o/

desenvolvimento da/ personalidade, ois o sujeito atingido de astenia é julgado -e julga-se

resultados - sejam eles escolares ou outros - são forsamente medíocres. A astenia conduz à/passividade, à fuga a do o esforço construtivo. Frequente na/ adolescência, a astenia a maior parte das vezes temporária. A sua origem deve ser geralente procurada no/desequilíbrio orgânico a seguir a um avanço T

preiçoso. Os

o o

iológico brutal. Neste caso, um tratamento médico apropriado M todas as probabilidades de ser eficaz.

ma dupla origem: biológica e psicológica as para isso é indispensável que tal tratamento não seja demasiado .Lrdio. Por causa do círculo vicioso: astenia-passividade-astenia, ma terapêutica unicamente médica raras vezes é suficiente. Depois

ATE

de restabelecida a saúde, importa restituir ‘ao adolescente -a,,$ confiança em si que se degradara em virtude da astenia. Para isso, a compreensão atenta dos/pais é o melhor dos remédios: devem sobretudo evitar castigar ou repreender sem discemimento, sob pena de fazerem do asténico um/apático e de entravarem assim o seu crescimento físico e/intelectual.

ATENÇÃO (Attention/Attention) pâgina 183.

Podemos dizer que as faculdades puras de atenção aumentam na /adolescência. O centro da vigilância é constituído pela formação reticular na base do cérebro, e a atenção põe alerta os centros reguladores que lhe correspondem. Ora, a adolescência caracteriza-se por importantes variações de certas partes do cérebro e, em particular, do centro de vigilância. Segundo Maes, a complexidade do cérebro progride imenso a partir dos 16-17 anos.

Deinasiado solicitado, o adolescente dispersa a sua atenção Contudo, a atenção do adolescente parece, de uma maneira geral, facilmente inconstante. É que outros factores, ligados ao/desenvolvimento físico e psíquico da puberdade, constituem obstáculos muito sérios. Assim, Pierre Mendousse nota que: «A diversidade dos/desejos, a novidade das/emoções, o número considerável dos fins que a vida propõe pela primeira vez, o receio de os não poder atingir, balançam o adolescente de uma para outra preocupação e tornam-no durante muito tempo incapaz de substituir o equilibrio da/ personalidade infantil pela

organização adulta.»*

I'Ãma, de 1'edolescent Mas ainda que o adolescente não seja inteiramente/ responsável

sua desatenção, é-lhe sempre facultado adquirir, por meio da vontade, a forma de atenção organizada de

que fala Théodule Ribot. Este distingue de facto, além da atenção espontânea*, que tem

seu osso. como causas estados afectivos, uma atenção voluntária* que é treino e do adestramento. é aceito. se não desejado.

e P. Mendousse:

(P,U.F., Paris, 1963), pela

O A do cSo pelo

e Atenção cujo objecto um produto do

A atenção voluntária. Th. Ribot delineia a sua génese era três períodos* -A atenção nascida de sentimentos primários: receio, desejo, /afeição (móbiles naturais: uma criança aprende a tocar piano para «dar alegria» aos pais); -A atenção obtida por/amor-próprio, emulação, sentimento do dever (/competição escolar, exame); -A atenção organizada criada pelo hábito, aquela em que os «móbiles habituais tomaram a força dos móbiles naturais: receio, etc.»*.

Psychologia, de retteMIOft

# Th. Ribot:

Visto que as faculdades de atenção dependem essencialmente do interesse dos estímulos experimentados, é dever dos/pais infor-

(Alcan, Paris).

84

marem-se dos/gostos e das/aspirações do adolescente quando as cadernetas escolares indicam com

demasiada frequência: «Desatento, poderia fazer melhor»

que permitem evitar erros educativos, outrora correntes quando toda a preguiça surgia simplesmente como

uma falta de vontade. É legítimo dizer que uma falta de atenção é amiúde uma falta de interesse. Mas há casos em que a desatenção é constitucional, o que significa que o sujeito não experimenta verdadeiro interesse por coisa alguma. Estas perturbações da atenção estão ligadas a perturbações da /actividade motora. Elas encontram-se nos sujeitos deprimidos, /fatigados ou esgotados. Muitas vezes isto tem por origem uma insuficiência glandular. Em tais casos, é necessário consultar um médico.

Para determinar estes gostos, existem/,< testes

TITUDE (Attitude/Attitude) páginas 10. 19. 86,119,358,433.

Em/psicologia, a atitude tem duas acepções: -Atitude psicomotora: postura do corpo orientada com vista a unia determinada acção (por exemplo, a postura da espreita). Esta postura tem valor expressivo e pode influir sobre o psiquismo; - Atitude psicossocial: disposição permanente que leva a reagir de uma certa maneira perante certas situações. A/insolência, o /orgulho, a humildade são atitudes psicossociais. Esta espécie de atitude é determinada pelos três factores psicológicos chave: / inteligência, / afectividade, / actividade. Ela é essencialmente variável no adolescente a quem falta, por definição, a experiência vivida. A novidade das situações, na sequência da puberdade, deixa-o muitas vezes indeciso quanto à atitude a adoptar. Provêm daí certas falsas/ timidezes: a criança desenvolta e segura de si pode transformar-se completamente na/adolescência. Do mesmo modo, a ambiguidade do seu estatuto leva o adolescente a compor uma atitude destinada a enganar os outros ou a si mesmo. Certo rapaz pode compor uma máscara de impassibilidade e de indiferença com a única finalidade de lutar contra a hiperemotividade que sente em si. Uma adolescente pouca segura da sua/ feminilidade pode fazer-se passar por desportista ou por «maria-rapaz». Diante desta ambiguidade, os/pais e os/educadores devem aprender a interpretar as atitudes dos adolescentes para que a sua influência educativa seja realmente eficaz. Se eles se detiverem nas aparências, arriscam-se bastante a cometer um erro de/juízo que reforçará o adolescente no papel que finge assumir.

LETISMO (Athlbtisme/Athieties) Entre os/desportos praticados pelos adolescentes, o atletisnio

ATL

encontra-se em boa posição: segundo um inquérito sobre a juventude francesa publicado em Maio de 1968 pelas

Actualités socialese,

4 % por ano. É relativamente pouco em comparação com o futebol que conta, por seu lado, 487 000 inscritos e uma taxa de crescimento regular de 8 % por ano. Esta diferença resulta essencialmente da falta de estádios acessíveis: isto é posto em evidência pelo facto de os jovens rurais praticarem cinco vezes menos o atletismo do que os citadinos, os quais dispõem de instalações apropriadas. Em compensação, pode-se jogar futebol um pouco por toda a parte.

e Ver «Desporto». havia, em 1965, 65 000 inscritos. Desde então, esta cifra aumentou

Vantagens e inconvenientes do atletismo As vantagens do atletismo são no entanto numerosas: despertando o interesse dos jovens graças àsIperformances de notáveis cam- peões de vários países, revelou-se um meio de aperfeiçoamento tanto físico como moral, O atletismo oferece de facto o duplo aspecto da/competição e da performance. Por um lado, trata-se de lutar contra adversários sem a mínima possibilidade de/batotice, e, por outro lado, a performance permite um duelo consigo mesmo, exigindo uma superação continua no esforço. Numa pista, o atleta está sozinho frente a si próprio, e para um adolescente é já uma maneira de se conhecer. Os inconvenientes decorrem das próprias vantagens: o atleta pode ser tentado a procurar a performance pela performance, comprometendo assim tanto a saúde física como a moral. Só um treino sério permite evitar estes inconvenientes. O atletismo é em geral pouco praticado na/0escola, quer por falta de instalações quer por falta de competência e de tempo dos professores de ginástica, os quais não podem ser polivalentes; o atletismo é uma especialidade que se não improvisa e que nã o tolera medidas vagas. O próprio termo de atletismo abarca várias especialidades muito diferentes: saltos, corridas, lançamentos, que requerem, cada uma delas, monitores qualificados. Para obter informações, o mais simples é evidentemente consultar o professor de/educação física do estabelecimento escolar frequentado pelo adolescente ou, na falta dele, um serviço distrital da juventude e desportos. O adolescente poderá assim beneficiar das instalaçõ es de um clube e dos conselhos que lhe são indispensáveis fazendo a sua inscrição. Esta só pode ser obtida após um exame médico muito completo, susceptível de rastrear as eventuais causas de impossibilidade, entre as quais figura desígnadamente a insuficiência cardíaca. Estas precauções revelam-se particularmente indispensáveis no caso da adolescente desportísta, Um treino intensivo pode dar ao corpo feminino caracterí sticas propriamente masculinas: volume do músculo, alargamento dos ombros, etc. Todos eles riscos que

se

uma prática inteligente consegue eliminar, se tomarmos como referência da nossa apreciação a/ morfologia de certas campeãs (Colette Besson, por exemplo).

UTISMO (Autismo/Autism) Página 60.

Do grego auto, «si mesmo». Bleuler define-o como um «desprendimento da realidade com predomínio da vida interior». O autismo não deve no entanto ser confundido com a interiorização nem com o/narcisismo, que são tendências normais da adolescência. Ele é antes uma amplificação destes dois estados que, excessiva e discordante, se reencontra na esquizofrenia.

UTO-EROTISMO (Auto-ãrotísme/Seif-eroticiam) Pâginas69.442,461,463.464,466,

O auto-erotismo é frequente na adolescência, se nos ativermos ao número de casos observados: 90 %. de casos nos rapazes, segundo certos psicólogos. Tal cifra é consideravelmente menos elevada no que diz respeito às raparigas: pensa-se de um modo geral que a causa desta menor frequência reside, por um lado, na configuração dos órgãos genitais femininos, e, por outro lado, na forma de /sexualidade muito mais difusa e táctil nas raparigas do que nos rapazes. Hoje em dia, admite-se que se os adolescentes e as adolescentes se entregam a tais práticas, é essencialmente por causa da indeterminação das pulsões sexuais iniciais. A falta de parceiros e os interditos,,w sociais teriam igualmente uma influência, mas em menor grau. Com efeito, o auto-erotismo pressupõe uma vontade deliberada, uma escolha consciente de modalidade sexual, a qual parece difícil de atribuir ao adolescente. É por esta razão que só devemos considerar o auto-erotismo juvenil como manifesto quando a frequência dos actos de satisfação é/ anormal e sobretudo quando eles são preferidos a relações/ heterossexuais possíveis. É levando em linha de conta estes dados que os pais podem intervir eficazmente ou pelo menos sem contribuírem para criar traumatismos. Outrora, tais intervenções tinham vulgarmente um efeito contrário ao procurado; os pais mostravam tendência quer para assumir as faltas verificadas quer para as castigar com excessiva dureza:

duas/atitudes que, no fundo, criavam um sentimento de /culpabilidade prejudicial à serenidade exigida por uma autêntica/pedagogia.

TOM6VEL (Voituro/Car) página 466.

O carro é o alvo principal dos jovens/ delinquentes: é por terem roubado automóveis que são presos em quase todo o mundo cerca

AUT

de dois terços dos jovens /delinquentes, A razão essencial reside numa motivação /psicológica. Aos olhos dos adolescentes, de facto, o carro é um símbolo de/virilidade. Há vários motivos para isto: em primeiro lugar, acha-se, decerto, a circunstância de o automóvel permitir «sair com as raparigas». De preferência, a máquina deverá ser «de desporto», de capota móvel e vistosa. Nos Estados Unidos, passou a ser costume as /entrevistas terminarem nos bancos de trás propícios aolpetting.

O carro é assim frequentemente o refúgio dos/ amores sem morada. Pouso provisório, ele assegura o mais

completo anonimato, e a penumbra que aí reina varre não poucas/ inibições. Para certos adolescentes, o automóvel é, antes de tudo, um instrumento de adulto cuja posse parece conferir magicamente o acesso à/maturidade. A este propósito, talvez não seja inútil lembrar o comportamento desses adultos que, mal

chega o domingo, fazem «brilhar»/religiosamente a carroçaria e por nada deste mundo cederiam o volante à esposa nos trajectos dominicais. Sendo assim, como havemos de nos admirar do fascínio mórbido exercido pelo automóvel sobre o adolescente ávido de maturidade?

O carro, em numerosos casos de/roubos, não é simplesmente um objecto cómodo de delito. Ele é

verdadeiramente um fim em si mesmo. Herbert Bloch e Arthur Niederhoffero relatam um episódio a este

e H. Bloch e

A. Niederhoffer: respeito: dois jovens membros da «Gerrsiten Beach» eram tão les Bandes d'adolesc pequenos

que, para roubar uni automóvel, não hesitavam nesta

carregava nos pedais, acocorado no chão, enquanto o outro manobrava o volante, de pé no banco da frente.

(Payot, Paris, 1965). estranha colaboração: um

O símbolo da evasão Como não estar de acordo com os sociólogos americanos quando falam de

relação/mística entre o automóvel e o adolescente? Relação mística, visto ser um início de solução para o perpétuo /conflito em que o adolescente se encontra mergulhado entro a infância e a maturidade. O carro é não só, pela idade legal para a carta de condução, reservado aos adultos e, neste sentido, um sonho de evasão do adolescente que dele se apodera através de um futuro tornado provisoriamente acessível, mas também uma evasão do quadro habitual em que se desenrola o conflito. Ele é de certo modo a encarnação da,,,@'fuga. Enfim, no plano inter-relacional, permite ao adolescente ocupar um lugar de eleição. Aquele que conduz é igualmente aquele que decide a hora do regresso a casa e muitas vezes, no fundo, aquele que

determina o trajecto a percorrer. Os passageiros encontram-se, por assim dizer, à sua mercê. Por conseguinte, a posse, mesmo temporária, de um carro confere uma auréola de/prestigio ao adolescente, tão facilmente atormentado pela dúvida de si mesmo e do seu futuro papel na/sociedade.

as

UTORIDADE (Autorít6/Authoríty) páginas 412. 490, 497.

O problema da autoridade é um dos mais discutidos em matéria de pedagogia. Tendo reentrado recentemente na ordem do dia devido às experiências americanas de liberalização, adquiriu na Europa urna nova acuidade após os acontecimentos de Maio de 1968. Em certos países, em consequência de uma vulgarização mal compreendida da psicanálise, instituíra-se o método de «deixar fazer e deixar dizer». Era bom tudo o que não comprometesse o equilíbrio psicológico da criança; era nocivo tudo o que pudesse, a mais ou menos longo prazo, gerar um/complexo. OsIpais lechavam-se eles próprios num círculo vicioso:

pois não se tardou a perceber que, contrariamente às aparências, o adolescente ainda sente fortemente a necessidade de ser protegido.

Uma experiência célebre Três psicólogos americanos, Lewin, Lippit e White, demonstraram-no sem margem para dúvidas. Certos adolescentes foram repartidos em três/grupos. Os do primeiro eram livres de fazer o que lhes apetecesse sem que estivesse instituída qualquer forma de autoridade. Os do segundo eram sujeitos a uma disciplina muito rigorosa, ao passo que os do último grupo, a conselho dos monitores, escolhiam a sua própria disciplina. Em breve rebentaram diversos /conflitos no interior do primeiro grupo. A/agressividade, que é sinónimo de insegurança, campeou aí sem peias. A ausência de toda a autoridade privava, na verdade, os adolescentes das barreiras tranquilizadoras, no meio das quais é possível atingir a autonomia que caracteriza a idade adulta.

No liceu Actualmente, dir-se-ia que os adolescentes põem em causa o prin-

io de autoridade por todo o inundo. A polícia viu-se frequente-

te obrigada a intervir nos liceus para restabelecer a ordem. gnificará isto que o adolescente de 1968 queria libertar-se de todas

formas de constrangimento? Também neste casa, não se trata ão de aparências. De facto, a seguir a essas alterações, a/agresidade cedeu o lugar, de ambos os lados, a uma procura em muin das novas modalidades das relações adultos-adolescentes. que estes últimos recusavam, era mais uma forma de autoridade Ip

i s en ivi o

o que a autoridade em si. O que eles já não aceitavam, era um modo

relações baseado numa tradição ultrapassada e não sobre a personalidade dos detentores da autoridade. sde então, suprimiu-se a cátedra na sala de aulas: o professor, o mesmo plano que os alunos, admite o diálogo. Mais ainda, é e a suscitá4o e a sua autoridade não lhe é de modo algum constada.

Na família Ao nível/familiar, deve fazer-se idêntica evolução. Antigamente, as pessoas atinham-se demasiadas vezes ao arbítrio da autoridade parental. Os pais acreditavam na melhor das boas-fés que era seu

dever impor um tipo de adulto «puro e duro» que cortava a direito. Sem o saberem, eles despersonalizavam- se. O adolescente era fatalmente levado a encontrar uma fenda em tão bela armadura; desprendia-se então do que apenas constituía a seus olhos urna forma de duplicidade. Os pais modernos devem, portanto, estar conscientes dos novos elementos do problema, Para que a sua autoridade não seja autoritarísmo, têm agora de aceitar ser abertos, em constante disponibilidade de diálogo. É nesta condição que a sua tarefa educativa será bem sucedida. Mas não se pense que seja aconselhado optar pelo papel de «compincha»: neste ponto, os/psicólogos são unânimes. Os/delínquentes provêm tanto de famílias fracas como de famílias autoritárias. Uma vez mais, o adolescente reivindica a sua,,Windependência, mas o que ele quer acima de tudo, é saber « até onde pode ir demasiado longe», para usar o célebre dito de Cocteau. Trata-se, pois, de encontrar um equilíbrio difícil mas possível. A autoridade só vale o que valer aquele que a exerce: mais do que uma maneira de agir, ela é uma maneira de ser.

AVõS (Granda-parents/Grandparenta)

É cada vez menos frequente ver coabitar/pais e avós,sob o tecto familiar. Isto deve-se a razões económicas mas também a razões /psicológicas. Há já muito tempo que se tornaram claros os reais perigos que uma tal coabitação fazia correr à vida do casal. Aquele (ou aquela) que continua a viver com os seus pais depois de casado arrisca-se a permanecer inconsciente e indefinidamente a criança que já não é. Mas nem por isso os contactos frequentes entre pais e avós deixam de ser recomendados.

Avós e netos Pouco a pouco tecem-se laços,,* educativos de um gênero particular entre as crianças e os avós. De facto, estes últimos tomarão a peito ajudar os pais na sua tarefa, embora seja incontestável que os seus pontos de vista não coincidem. Há sem dúvida uma questão de diferença de geração, mas também e sobretudo a circunstância de os avós se não acharem directamente implicados na situação educativa. Quer eles se mostrem de uma indulgência excessiva, quer, ao contrário, se erijam em retratos de/família encarregados de velar pela perenidade das tradições ancestrais, arrisca-se a pro-

90

duzir-se uma espécie de curto-circuito entre netos e avós: «Paira, muitas vezes a ameaça de se concluir uma

aliança por cima da cabeça da geração intermédia, escreve o doutor Bergeo nos Cahiers de

Ias Milleux familíeux pédagogie moderne, a não ser que os avós tenham conservado toda

virulência e pretendam exercer uma/autoridade absoluta

patriarcal ou matriarcal que não convém de modo algum ao nosso modo de civilização e na qual os jovens distinguem sobretudo, muito lamentavelmente, a/demissâo dos/ pais, dos quais precisariam, pelo contrário, de ter uma imagem forte e susceptível de provocar admiração.»

e André Bergo:

(Armand Colin, Paris, a sua

1967), p. 228. sobre toda a gente. Família

Os avós deniasiado liberais. Para o adolescente, os avós são amiúde uma «pechincha». O «avô baboso» não sabe resistir a uma solicitação de/dinheiro. Além disso, quando convida o neto ou a neta, estes têm autorizaçã o para fazer o que quiserem e não se coibem disso. Com a desculpa de comprar/tabaco para o avô, dispõem de toda uma tarde. Depois, pedirão ao avô ou à avó um álibi que conseguirão arrancar à custa de virtuosas promessas. Vemos assim o perigo que fariam incorrer avós deste gênero ao seguirem -a pretexto de indulgência ou pelo/desejo egoísta de serem preferidos aos pais e de o poderem mostrar orgulhosamente aos amigos «netinhos verdadeiramente encantadores»- a direcção oposta à/atitude educativa dos pais.

Os avós intransigentes. Mas pode acontecer que os papéis se invertam. É aliás cada vez mais frequente o caso em que os pais compreensivos concedem aos adolescentes /liberdades que lhes são recusadas peremptoriamente pela «velha guarda»: «No meu tempo, uma menina respeitável, um rapaz decente, não se comportavam assim.» Seguem-se desagradáveis dissensões que podem perturbar a vida familiar e, por tabela, o equilíbrio do adolescente. Quando se produzem estas fricções, é preferível que os/pais as conservem ignoradas pelos seus filhos, pois estes só muito dificilmente compreenderão que alguém tenha o direito de se rebelar contra a autoridade dos adultos mais velhos. Ou então compreenderão perfeitamente e tomá-lo-ão como argumento para discutir a autoridade dos seus próprios pais.

Seja como for, no contexto da evolução do adolescente, não é aconselhável que este se veja encorajado de maneira por assim dizer oficial a entrar na via da/oposição.

Nos casos normais, as relações «adolescentes-avós» não podem deixar de ser um facto excelente. Os avós menos directamente implicados na relação educativa podem afinal desfrutar de um recuo

AVO

que lhes favorece a perspectiva. O seu papel não consiste então no contrário mas no contrapeso da/educação parental. É o que acentua o doutor Braescolo: «Feliz a criança educada paralelamente

e Dr. Braesco:

51es Grands-parents» em dois lares: o dos seus verdadeiros pais que se ocupam atenta- parenti mente dela na medida das suas possibilidades, proporcionando-lhe

/êxito, quadro de referência e gênero de vida, além do dos seus

avós que, mais disponíveis, lhe garantem presença/ afectiva e tutela maleável e benéfica!»

in I'École dos (Julho-Agosto de li

p. 28.

92

ILE (Bal/Bail)

de Lisboa, o baile é uma ocasião para/dançar; esta verdade muito simples combina-se com uma outra menos conhecida. Como mostra a enumeração prece ente, ca a bal e tem a sua fisionomia própria e reúne jovens pertencentes a uma mesma unidade geográfica ou a uma mesma classe social. Isto pode constituir um argumento para tranquilizar certos pais, no entender dos quais o baile é automaticamente «mal

frequentado», porque não se sabe, «afinal de contas, que pessoas se pode lá encontram. A prova está em que

página 550. Baile de aldeia,/festa num luxuoso bairro residencial ou baile dos trasmontanos

17 ‘/. das pessoas casadas* encontra-

O Ver «Dança». ram o seu cônjuge num baile. Um inquérito de J.-C.

Ibert e J. Charles indica: «Na província, é sobretudo o baile que parece propício ao despontar do/amor.» Não duvidemos de que, se não é possível tirar a mesma conclusão nas grandes cidades, é apenas porque as/distracções -e por conseguinte as ocasiões de encontro (/teatro, /cinema) - são aí mais numerosas do que nas outras regiões. Afigura-se, em suma, que o baile, ao reunir jovens, os aproxima à margem dos

constrangimentos impostos por uma/sociedade que, para proteger a virtude, institui uma segregação sexual. O baile é muitas vezes um motivo de/” conflito /familiar entre as gerações; não é raro que o/pai tenha tendência a superproteger a sua filha proibindo-lhe ir ao baile, ao passo que esta reivindica o direito de assumir livremente as suas /responsabilidades.

NNDOS (Bandes/Ganga)

O bando é um/grupo não institucionafizado que reúne adolescentes fora da tutela dos adultos. O bando existe desde que o mundo é mundo: o adolescente, em virtude do seu estatuto ambíguo (nem criança nem adulto e as duas coisas ao mesmo tempo), tem o sentimento de viver à margem da /sociedade organizada dos adultos. O bando oferece-lhe o reconforto de viver no meio dos seus contemporâneos, de quem se sente

páginas 127, 136. 142, 270. 433, 448.

BAN

próximo. Depara, nestas associações mais ou menos duradouras, com a ocasião de fazer a sua/

aprendizagem da vida colectiva sem que esta seja submetida a regulamentos impostos pelos adultos. Não se sabe ao certo se o número dos bandos está a diminuir ou, pelo contrário, a aumentar. J. Monodo, em les

Barjots, sustenta

tes BariotS que eles tendem a desaparecer, enquanto G. Avanzini julga, ao

número continua a crescer. No fundo, os meios

excessiva a tónica nas mani-

Ed. universitaires. Paris. festações /agressivas dos «Mods», dos «Rockers» e outros «blu-

O Jean Monod:

(juiiiard, Paris). invés*, que o seu

9 G. Avanzini: de difusão modernos põem de maneira

ia Temps de l*adoiescen<

965). sões negros».

Porque surgem os bandos? - Para certos psicólogos, como R. Mucchielli, a adesão a um bando significaria uma recusa da sociedade. O bando não tem um valor de/empenhamento, mas, isso sim, um valor de desempenhamento: «Nos grupos de participação - e a sociedade é um protótipo deles-, escreve R. Mucchielli, os/valores sociais constituem-se contra o Eu, e a consciência sociomoral (que é o Eu querendo participar, o Eu que se sente Nós) torna-se controle e/inibição do Eu individualista. No bando de/ delinquentes, é aquilo que os individualismos têm em comum que se transforma na super-realidade do/grupo. O bando revela, reforça, agrava o/egocentrismo dos seus membros; ele concretiza, materializa a hipertrofia do Eu e num certo sentido consagra-o.»*

e R. Mucchieili:

Comment Iís deviennent

O que presidiria à formação de um bando não seria, pois, a capa-

inexprimível, mas a união de

uma maior eficácia. Mucchielli mostra que as relações interiores e exteriores de um bando são o fruto de uma participação unicamente negativa: por exemplo, a solidariedade, que alguns autores assimilam um pouco apressadamente ao sentido da honra (a lei do mundo do crime), não passa de uma solidariedade negativa porque «a segurança de cada um depende do silêncio de todos». - Segundo G. Avanzini, o adolescente que adere a um bando, delinquente ou não, obedece a uma necessidade de compensar certas/ frustrações. O bando responderia então a uma tripla/necessidade de/afeição, de segurança e de valorização. Afeição: a vida em bando proveria às/carências afectivas familiares; «Nâo, decerto, escreve Avanzini, que as modalidades afectivas do grupo sejam assimiláveis às

da/familia normal, mas, àqueles que sofrem por causa de/pais deficientes ou negligentes, essa afeição tira a

délinquents cidade de/adaptação social, aliás

(E.S.F., Paris, 1965). egocentrismos com vista a alcançar uma maior/segurança e

impressão de solidão e de abandono.»O

Ia Temps de I-adoiescem Segurança: o adolescente sente-se de certo modo confrontado com

universo no qual deve integrar-se e que ele já não reconhece

de confusão, uma insegurança que os educadores têm normalmente de atenuar.

9 G. Avanzini:

(Ed. universitairos. Paris, um

1965). desde a/puberdade. Dai um sentimento

94

Na medida em que estes últimos não estão à altura da sua tarefa, é o bando que os substitui e propõe uma linha de conduta aos seus membros. Valorização: o sentimento de frustração provoca obrigatoriamente um sentimento de inferioridade. Os adolescentes encontram então no bando «a ocasião e a possibilidade de uma

revalorização: a publicidade que lhes é assegurada pela imprensa, o lugar que eles sabem ocupar na opinião, o/medo que suscitam em muitos adultos, tudo isto lhes restitui uma certa importância no seio

dessa/sociedade pela qual eles se sentem simuitaneamente repelidos e desprezadoS»Q.

e Guy Avanzini: op. dt.

* passagem à delínquência * pertença a um bando não significa necessariamente a vontade firme e deliberada de cometer delitos. Porém, seja qual for a razão que se dê à formação de um bando, percebe-se que, no fundo, se encontram reunidas todas as condições para que a passagem ao acto delituoso seja pelo menos tentada. Na verdade, quer o membro de um bando seja um insocial, como pensa Mucchielli, ou um frustrado, como mostra Avanzini, o freio que a consciência moral constitui para os comportamentos delituosos é inexistente. Com efeito, no primeiro caso, a consciência/ moral está totalmente ausente; no segundo, a família não soube ou não quis assegurar a formação /moral. Se acrescentarmos a isto a sobrestímação do Eu pressuposta pela pertença seja a que/grupo for (os fenômenos de multidões, por exemplo), vemos que tudo impele um bando para a /delinquência. A soma das/agressividades nascidas das/frustrações de cada membro abre o caminho a/violêncías de todos os géneros. A maneira como os delinquentes em bando formam um «tesouro» de objectos roubados, que a maior parte das vezes eles nem sequer procuram tornar a vender, é reveladora desse estado de/carência que reencontramos na/cleptomanía. Alsociedade em si não é directamente responsável por esta forma de delinquência dissocial de que o bando é o sinal distintivo. Mas não há dúvida de que ela contribui poderosamente para isso se não oferecer à juventude outro aspecto que não seja o de uma forte resistência à integração social que deve marcar o acesso à,,,, maturidade. Ou ainda se ela não souber, graças à instrução cívica - essa parente pobre do ensino -, pôr em evidência os aspectos positivos da vida social sob todas as suas formas. Em muitos países, o fenômeno da animação/ cultural tem permitido dar passos essenciais nesta via. As responsabilidades situam- se mais precisamente à escala individual. Qualquer/ educação que não saiba responder às necessidades fundamentais dos adolescentes impele-os a procurar compensações fora do quadro das estruturas sociais. Razão pela qual a entrada Para um bando não é um fenômeno exclusivo de meios desfavorecidos: a pobreza, por exemplo, é incontestavelmente causa de

perturbações /familiares que proibem uma educação normal. Mas há muitos outros factores (entre os quais

o/ desentendimento conjugal) que podem influir noutros meios, produzindo as mesmas frustrações/

afectivas que a pobreza.

BARBA (Barbe/Board)

A barba surge no púbere por volta dos 18 anos. Mas a penugem que já aparece cerca dos 14 anos acima dos

lábios sugere um bigode mais ou menos basto. Convém lembrar a este respeito que o apareciniento da pilosidade se verifica em idades que variam em função da maturação pubertária: não nos devemos portanto inquietar com um atraso de alguns anos. O mito da «barba-sinal-de-virilidade» por causa do qual os adolescentes glabros são alvo de gracejos de gosto duvidoso da parte dos seus/ camaradas -e por vezes até dos adultos - está em contradição com a observação clínica. Não há nada mais cómico do que um adolescente que pretende barbear-se muito antes de despontar a mínima penugem. Umas piadas amigáveis não farão, em regra, grande mal. Mas é sobretudo uma questão de contexto: se os adultos sentirem que as suas brincadeiras podem ser contraproducentes, é preferível absterem-se. Para conseguirem um benefício de

pouca monta, correm o risco de ferir assaz inutilmente o adolescente e falsear/ relações que já de si têm demasiada tendência a ser difíceis. Acontece com muita frequência o adolescente deixar crescer a barba

durante as/férias. Ela simboliza então o abandono momentâneo das coacções sociais. É aliás por tal motivo

que ele a rapa assim que chega ao fim das férias

visto, conscientemente ou não, como uma compensação para uma /virilidade ainda frágil ou, pelo menos no caso do adolescente como o receio de não poder assumi-Ia tal como desejaria. Este simbolismo da barba é válido até à idade adulta.

De um modo geral, afigura-se que o ornato da barba é

BARULHO (Bruit/Noise) Página 163-

É frequente o barulho ser uma fonte de mal-entendidos entre adultos e adolescentes. De facto, para os

primeiros, o barulho é sinónimo de perturbação psicológica; diz-se: um barulho ensurdecedor, irritante, enervante. Os moradores das grandes cidades apressam-se a procurar o silêncio do campo logo que chega o sábado.

Qual o motivo do barulho? Antes de mais, o barulho representa um dispêndio de energia por interposta pessoa. Do mesmo modo que, no adulto irritado, elevar a voz tende a aliviar a/,tensão interior, no adolescente o barulho é, por assim dizer, um paliativo para a/dúvida de si.

96

Além disso, o barulho sob forma de fundo sonoro impede o frente a frente consigo mesmo, gerador de

interrogações inquietas. Certos adolescentes não hesitam em confessar: «Quando há barulho, não penso em nada» ou mesmo: «Acho o barulho repousante.» Não é portanto de admirar que o adolescente faça um tão

grande uso da telefonia*.

deste frenesi do barulho. Todavia, uma proibição brutal arrisca-se a parecer um castigo arbitrário.

Alguns/pais não hesitaram em adoptar um modus vivendi: a telefonia ou o gira-discos podem funcionar com

o som no máximo, mas apenas a determinadas horas. Este gentlemen agreement oferece a dupla vantagem

de preservar a harmonia e o ouvido familiares, por um lado, sem deixar de mostrar ao adolescente, por outro lado, que ele é um interlocutor de pleno direito, já que lhe dão o ensejo de fartar o seu/desejo de barulho.

Ver «Rádio». A vida/ familiar pode ressentir-se

ATOTICE (Tricherie/Cheatinq) página 507.

A consciência/ moral do adolescente é mais a resultante de um sentido do absoluto do que uma verdadeira

tomada de consciência do mundo e dos seus/valores. Daí uma falta de sentido das proporções que impede o adolescente de ver o intermédio entre o bem e o mal: o que não está bem está mal. O seu sentido da justiça, em particular, é muito agudo. Ora, em seu redor, ele não vê senão «batoteiros». Ensinaram-lhe que era preciso ser caridoso, amar o próximo, mostrar-se respeitador e obediente. Após o que, como mostra Karen Horney*, a K. Horney:

Ia Pefsonnalité névrodque lhe pedem que se entregue a contínuas confrontações; na aula, tem

esforçar por ser o primeiro, por ter,,"êxito nos/exames a

a impiedosa concorrência já não recorre a disfarce: nos negócios, tenta-se eliminar os outros para chegar ao

alto da escala. Segundo Karen Horney, não se deve procurar noutro ponto as razões pelas quais, chegados a adultos, estes adolescentes, sequiosos de pureza, carecem de afirmação de si e se refugiam na busca/passiva da aprovação de outrem. A isto vem juntar-se a/conduta assaz desastrada dos adultos que se gabam de falsificar a sua declaração de impostos, de ter espoliado um comerciante que se enganou nos trocos. Daí a considerar todos os adultos batoteiros vai apenas um passo que não tarda a ser dado. Importa então que um

adulto em quem o adolescente tenha/confiança possa intervir para serenar o seu/juízo.

de notre temps de se

(I'Arche. Paris, 1953). todo o custo. Profissionalmente,

ELEZA (Beauté/Beauty) Página li.

Beleza moral Na criança, a consciência moral é essencialmente submissão a

regras impostas pelos adultos. Na adolescência, a consciência/ moral inflecte-se no sentido da/ responsabilidade. Dentre as regras morais, o adolescente só aceita as que considera ele próprio «boas». Uma tal inflexão está em íntima correlação com a descoberta dos valores fundamentais que a escola alemã de/psicologia designa assim: o belo, o bem, o verdadeiro e o religioso. É então facilmente previsível que venham a produzir-se certas confusões de/valores na passagem ao acto. O adolescente ainda se acha de facto estreitamente submetido ao prazer novo de se sentir em conformidade com os valores que acaba de descobrir, aos quais se lhe afigura ter dado origem. Estes valores derivam de uma necessidade, consciente ou não, de auto-satisfaçã o. Tudo se passa, nesta altura, como se o critério moral essencial fosse não o verdadeiro, mas o belo. É por isso que um adolescente é capaz de roubar para poder realizar um «belo gesto», por exemplo aliviar uma miséria; um certo jovem/ delinquente, ladrão de automóveis, deixa-se apanhar voluntariamente para proteger a fuga dos seus cúmplices. Noutros casos, a procuia do belo é levada a tal ponto que torna o ideal inacessível. A «B.A.» (boa acção) diária, pregada por Baden-Powell, foi instituída precisamente para lembrar ao adolescente realidades mais acessíveis, logo mais autênticas. Do mesmo modo, não é impossível que, no caso de determinadas vocações, se deva falar mais de uma motivação estética que deleita, do que de um real/desejo de concretizar confusas aspirações. É a busca do «belo moral» que incita alguns adolescentes a uma forma de/fantasia mística pouco compatível com uma autêntica maturação. Mas, pensando bem, isto parece preferível à indiferença/ cínica. Importa então, sem desencorajar a tendência para o belo pelo belo, evitar metê-la a ridículo sob pena de destruir todo o sentido moral no adolescente. /Pedagogicamente, julga-se que a melhor/atitude consiste em sensibilizá-lo, através do quotidiano, para aquilo que uma moral autêntica tem de vivido, logo de verdadeiro. Convém impedi-lo resolutamente de se deixar cair numa pecha que já lhe é mais do que familiar: a da fantasia e da utopia. Importa fazê-lo ver claramente que só é belo o que é efectivamente realizado ou realizável, que a noção de beleza moral, se bem que conduza algumas vezes para fora do quotidiano, tem o seu lugar nos gestos de todos os dias.

Beleza física A beleza física é frequentemente um motivo de inquietação, tanto para os adolescentes como para as adolescentes. São muitos os rapazes e raparigas que desesperam de vir um dia a corresponder aos modelos oficiais da beleza: eles imaginam-se então condenados a uma vida solitária e ao insucesso. De facto, a irrupção pubertária faz-se, as mais das vezes, de forma

P A-7

desarmoniosa. O rapaz é desengonçado, já que ainda não tem o

peso correspondente à sua altura. Quanto às raparigas, a mínima imperfeição -peito demasiado pequeno ou demasiado volumoso, arqueadura temporária em consequência do brusco crescimento do esqueleto - é sentida como uma séria inferioridade. E isto tanto mais quanto os jovens não são ternos entre si no que respeita ao aspecto físico: qualquer anomalia é impiedosamente acentuada e as zombarias, abertas ou alusivas, contribuem para deprimir aquele que é alvo delas. É muito importante que, neste caso, possa intervir um adulto; o traumatismo assim criado é real e ainda mais temível se o interessado nunca falar dele. Convém então que seja o mais depressa possível demonstrada a vacuidade de um tal receio. Nesta ordem de ideias, serão úteis os exemplos de casais felizes C fisicamente imperfeitos. O próprio/cinema, outrora reservado às esculturaís beldades hollywoodescas, apresenta modelos cada vez menos sofisticados. Se, após uma explicação franca, o mal-estar persistir, traduzido por uma desafeição evidente pelos cuidados corporais ou de vestuário, não se deve hesitar em consultar um especialista, por exemplo o/psicólogo escolar. Este problema, julgado secundário pelos adultos, assume importância para um bom/ desenvolvimento dos adolescentes.

IBLIOTECA (Bibliothèque/Library) página 308.

Em regra, o adolescente gosta de lera ainda que, por vezes, as e Ver «Leitura» aparências deixem pensar o contrário. Se o adolescente não lê é porque pode sofrer de alguma perturbação da vista ou então não ter encontrado leitura adaptada. Guiá-lo neste domínio é uma tarefa para a qual devem contribuir os/pais e educadores.

Os livros preferidos A escolha das/leituras é o primeiro problema. Muitas vezes, os pais confessam-se um pouco desorientados. Tendo procurado na sua memória, tentaram extrair de lá títulos e nomes de autores. Mas os centros de interesse do adolescente variaram e não correspondem forçosamente aos que os seus pais tiveram na mesma idade. A divergência provém certamente da actualidade: um adolescente dos nossos dias interessar-se-á obviamente mais pela, ficção cientifica do que o faziam os seus pais. Existe todo uni contexto que os sensibiliza para este gênero de problema. Há, pois, aqui, uma mina à qual se pode recorrer na certeza de agradar aos jovens. Em contrapartida, é preferível não oferecer livros de história pois corre-se o risco de recordar ao adolescente obrigações escolares demasiado precisas. Existe um meio que permite instruir sem deixar de distrair: é o romance de aventuras históricas. Se bem que este

gênero fervilhe em obras sem a mínima qualidade, outras há que são excelentes e decerto conhecidas pelo professor de história ou por qualquer outra pessoa competente na matéria. Revelar-se-á particularmente apreciado o romance psicológico. Com efeito, convém não perder de vista que a/adolescência é a idade em que a/personalídade adquire os seus contornos definitivos; é também o momento em que «o indivíduo se acha em busca de/identificaçâo». Ele procura exemplos e modelos. É no entanto possível observar que o romance, tal como a língua de Esopo, pode ser a melhor e a pior das coisas. O adolescente, por falta de experiência, raramente sabe separar o trigo do joío. E ainda que o fizesse nem sempre poderia estabelecer a

destrinça entre a realidade e a ficção, entre a vida quotidiana e a técnica de ampliação inerente ao romance e

a toda a obra de/arte. Motivo pelo qual é útil que os/pais acompanhem as/leituras dos filhos. Isto obriga a um mínimo de tacto, visto que o adolescente não quererá que lhe constituam uma biblioteca à força. Ele

gosta de ter liberdade de escolha. Nada impede que sejam os pais a guiá-lo nesta escolha, se necessário for explicando-lhe calmamente as razões de uma recusa. Na maior parte dos casos, uma recusa é motivada pela inexperiência do adolescente: não se deve temer dizer-lho. «Esse livro não é para a tua idade. Julgarias compreender, mas iludir-te-ias completamente quanto ao sentido geral.» Se ele insistir bastante, nada obsta

a que se compre o livro com a condição de a leitura ser seguida de uma/discussão, se os pais se sentirem

suficientemente preparados para o ‘fazer sem erros. Aliás, certos pais de tipo /intelectual não hesitam em dar a ler ao filho ou à filha livros «muito acima da idade deles». Consideram que o adolescente, desconcertado, pedirá esclarecimentos aos mesmos que lhe ofereceram o livro. Por vezes é realmente o único meio de restabelecer, entre pais e filhos, um contacto tão frequentemente rompido por mal-entendidos ou pelas circunstâncias da vida profissional.

As leituras «sérias» Em matéria de livros, existem alguns/valores seguros que oferecem a vantagem de ter passado à posteridade, de servir de temas escolares na altura das provas e de guiar o adolescente na busca da sua personalidade. Entre estes valores mais seguros podemos citar: Camilo, Machado de Assis, Eça de Queirós, Alexandre Herculano, Júlio Dinis, Saint~Exupéry, Malraux, Julien Green, Graham Greene, Cronin, etc. Há decerto outros e citá-los a todos seria impossível. Conquanto seja bom que os pais tenham tomado conhecimento deles, não é obrigatório, evidentemente, lê-los todos sistematicamente. Mas se houver alguns que não conheçam, podem folheá-los

100

(com um pouco de experiência, chega-se muito depressa a apreciá-los) ou assinar revistas que publicam regularmente críticas. Enfim, há um facto que não deve ser esquecido: o adolescente gosta de possuir a sua biblioteca, mesmo que esta inclua apenas alguns livros. A/ adolescência é a idade dos livros de cabeceira, aqueles que se estimam particularmente e se lêem muito. O adolescente aprecia igualmente pesquisar na biblioteca dos seus pais. Coloca-se então um problema delicado. Numa época em que são editados livros ou revistas « para adultos com reservas», a pergunta «deve-se deixar os adolescentes ler tudo a partir de uma certa idado?» reveste uma acuidade particular.

Os pais hesitam entre duaslatitudes: eles não dissimulam as suas leituras, e o rapaz ou a rapariga podem não aceitar que os seus pais leiam um certo tipo de obras e ficar abalados; eles escondem os livros e o risco de perturbação é muito maior em caso de descobeita. De resto, nos nossos dias, nenhum adolescente pode ignorar certas formas de arte e de literatura. Acabará por se interrogar se «o papá não esconde qualquer coisa algures»: afigura-se preferível, se assim acontecer, tratar o problema com uma franqueza que as circunstâncias podem tomar indispensável. E, também neste caso, não será uma excelente ocasião de diálogo? O/pai descerá do pedestal onde talvez tenha julgado bom empoleirar-se. Mais acessível, abordará sem embaraço os problemas da informação sexual, e quiçá até da. própria/ educação sexual, nada escondendo de uma/atitude no fundo muito humana a respeito da/sexualidade. E talvez, enfim, consiga desculpabilizar o seu filho que leu, lê ou lerá o que ele tinha tanto cuidado em esconder.

LINGUISMO (Bilinquisme/Bilinqualism)

O bilinguismo é a faculdade de nos exprimirmos correntemente em duas línguas diferentes. Esta faculdade

pode ser adquirida na /escola, ou o resultado de uma/educação familiar, no caso em que os/pais não utilizam

a mesma língua.

Bilinguismo escolar Segundo um recente inquérito do Instituto Pedagógico Nacional* França, o interesse pelas línguas estrangeiras está a aumentar.

O que se explica facilmente pelo grande número de empregos remuneradores oferecidos no final destes

estudos. É actualmente difícil, devido à Crescente intemacionalização em todos os domínios, seguir uma

carreira sem o conhecimento de pelo menos uma língua estrangeira. Na,,,, adolescência, o bilinguismo tem o mérito de desenvolver o Pensamento abstracto. Pensar numa língua estrangeira pressupõe

O Ver «Ensino». de

BUL

de facto um esforço de abstracção maior do que pensar na língua materna, cujas palavras parecem «colar- se» aos objectos significados. É, do ponto de vista puramente/ intelectual, um excelente exercício de ginástica. Além disso, e é o mais importante, o bilinguismo permite viver num país estrangeiro e ter assim acesso a uma nova/cultura. Só uma tal experiência dá ocasião a que aprofundemos a cultura do nosso país, ou seja, aquela em que nos integramos. É esta, hoje em dia, a principal vantagem das línguas vivas sobre as línguas mortas, que não oferecem a possibilidade de desembocar numa realidade actual.

Bilinguismo natural

O bilinguismo pode ser a consequência de uma situação familiar: pai e mãe de nacionalidades diferentes

habituaram o filho a exprimir-se desde muito novo numa e noutra língua. Há também casos em que a situação profissional dos pais obriga a/família a deslocações mais ou menos prolongadas ao estrangeiro: é o que acontece designadamente com os jornalistas, certos funcionários, etc. Este bilinguismo, fácil de adquirir visto que a criança aprende sem ,;<esforço várias línguas, é de certo modo o sonho de qualquer aluno de

liceu quando diante de uma tradução francesa ou de uma retroversão inglesa. Sem dúvida que é algo sedutor, mas não seria melhor ter começado por assimilar as regras, a sintaxe, numa palavra, o «género» da sua língua materna?

Os perigos Com grande frequência, uma criança atirada de um para outro pais não possui qualquei@ base

só lida: daí algumas confusões e interversões. É, evidentemente, no português que a desvantagem se fará

sentir mais, mas tal não exclui que o atraso registado nesta disciplina se repercuta lamentavelmente na/aprendizagem das outras matérias. Pode acontecer igualmente que o adolescente bilingue se valha unicamente dos seus êxitos linguísticos: como ele é sempre o primeiro em francês ou em inglês, descuida-se

na aquisição das subtilezas gramaticais ou do /,,,vocabulário que os seus/camaradas assimilaram pacientemente durante anos, sob a orientação de diferentes professores. Imiporta não deixar o adolescente entregue a si mesmo nestes casos. E bom colher informações sobre as/difi.culdades que experimenta, e procurar com ele o meio de as remediar. Por vezes, uma série de lições particulares pode obviar a certas falhas.

BULIMIA (Boulimie/ Buli mia) página 236.

Vocabuleire de «Sensação intensa de fome (oposta à/anorexia e à saciedade) e psychopódogogie

Laffont

Paris. satisfação desta pelo consumo excessivo de alimentos.»* Por outras 1963).

102

palavras, o volume total de comida absorvida pelo bulímico excede as necessidades de manutenção e de

construção*.

Ver «Mimentação».

Bulimia anormal A bulimia pode ser de origem médica: depara-se então com a presença de uma bicha- solitária ou de outros vermes parasitários do intestino. Nestes casos, o bulímico apresenta-se/ anormalmente magro. É um sintoma não desprezível porque pode indicar um princípio de diabetes ou de tuberculose. Mas existem igualmente causas /psicológicas da bulimia: esta faz-se então acompanhar muitas vezes de retenção de matérias fecais, indo até à incoercibilidade. Uma tal/atitude traduz a instalação de uma/neurose geralmente provocada por um sentimento de/frustração.

Bulimia normal É claro que há ainda o caso do «bulímico» normalíssimo: é o adolescente-tipo, aquele que tem fome às 10 h e às 4 h. depois de ter tragado quantidades de comida que parecem inverosímeis ao adulto. Não devemos esquecer que o adolescente tem enormes/necessidades em calorias, que queima para construir o seu corpo em pleno desenvolvimento. Mas como o seu estômago não acompanha o ritmo geral, só resta ao adolescente desdobrar as refeições. É por tal motivo que ele dá frequentemente a impressão de ser insaciável. Não há aqui nada que possa inquietar.

CAL

CALÃO (Argot/Slang) página 574.

«,,«Linguagem própria dos vagabundos, mendigos e ladrões. Por extensão: fraseologia particular de que se servem

entre si as pessoas que exercem a mesma,,Iarte ou a mesma profissão.»*

Dictionneira, Liu

t. 1, p. 287

O calão é portanto, antes de mais, uma linguagem de iniciados cujo

o profano. Os adolescentes utili-

Iân,, Cum.

(Editions du Cap, emprego se destina a desorientar

zam de boa vontade as expressões de calão que supõem conferir-lhes um estatuto viril. Este fenômeno linguístico é designadamente observado nos,;<bandos, cujo calão varia de bairro para bairro. As adolescentes também passam geralmente por um período atreito à gíria: o calão é aos olhos de toda a gente a prova indubitável de que elas «se libertaram». Mas a evidente incompatibilidade entre a aspereza de certas palavras de calão e a elegância feminina não tarda a fazê-las preferir a austeridade do academismo. De uma maneira geral, podemos dizer que o calão da/adolescência procede directamente do calão original, o dos vagabundos e dos mendigos, porque o adolescente se sente sempre mais ou menos de fora, à margem da sociedade dos adultos. Isto é tão verdade que aqueles que o empregam mais frequentemente são os mesmos a que a sociedade chama inadaptados. Convém evitar ser demasiado severo quando estas expressões são utilizadas na vida corrente, pois isso apenas contribuiria para aprofundar o fosso que se abre naturalmente entre as gerações. Uma /atitude mais compreensiva consiste pelo contrário em o/pai comparar com o seu filho a evolução desta linguagem particular.

CAMARADAGEM (Camaraderio/Comradeship) páginas 20,33.45,116.163.

A camaradagem diferencia-se da/amizade electiva pelo facto de ser de algum modo imposta: «Escolhemos os/amigos e

sujeitamo-nos aos camaradas

»

Camaradagem e amizade Na realidade, a camaradagem não é unicamente passiva: em certo sentido, ela é aceitação do/grupo, e desta maneira prefigura a

104

/identificação com o grupo. Tem sobre a amizade a vantagem de uma maior sociabilidade e por conseguinte de uma melhor preparação para a inserção do adolescente na sociedade. É talvez por isso que «a juventude actual prefere, às amizades exclusivas das gerações passadas, a camaradagem. Esta mostra mais discrição /afectiva; pressupõe uma vida comum fundada na/comunicação durante os/tempos livres, o/>"desporto ou a/ actividade/ cultural, ao passo que a amizade se esgotava amiúde na busca vã da identificação pessoal»*.

e P. Furter: Ia Via morale

de Padotescent Isto é tanto mais verdade quanto -e todos os/educadores estão sobre este ponto - o autêntico insocial tem a maior parte Paris, 1965), p. 127.

das vezes um amigo mas nunca camaradas. Com efeito, o que é procurado neste tipo de amizade é a união

de duas «insociabilidades» e não, pelo contrário, a aplicação dos princípios da vida em sociedade. Logo, em

ú ltima análise, um adolescente que não tem camaradas deve inquietar mais os seus familiares do que aquele que não tem amigos. Além disso, a verdadeira camaradagem tem a vantagem de não fazer intervir esse turvo factor afectivo que pode levar a degenerar uma amizade normal em/amizade particular.

(Delachaux et Niestlé, de acordo

MARADAS (Copains/Pais) Páginas 45. 138, 333. Tem-se falado muito, em França, do fenômeno dos copains. Este termo, retomado por uma estação radiofónica, conquistou logo à primeira a imensa maioria dos adolescentes, que bruscamente se sentiram estimulados para uma realização adulta. Noutros países, este fenômeno assumiu a forma do clube de «fás».

Olídolô. O Camarada com um C grande, é o ídolo ao mesmo tempo próximo pela idade e distante pela riqueza, o mito quase religioso que o rodeia. Decerto que, aos olhos de alguns adultos, um tal ideal parece carecer de «profundidade», mas é bom não esquecer que o ídolo nasceu justamente para preencher uma falta de /ideal. Além disso, o ídolo tem pelo menos a vantagem de apaziguar as/tensões interiores através do ritmo das canções. @

s canções assinalam o regresso a um realismo quotidiano. «Amorterno» tende a ceder o lugar às histórias de

todos os dias: a escola, os/pais, os/tempos livres. Os pais devem reagir em te o c r a n c aso de excesso, se

possível sem dramatizar. O adolescente trocará

s

ntão sem sobressalto o tempo dos camaradas pelo das/respon-

h j( bilidades.

ACI1DADE (Capacité/Ability) página 79.

1 capacidade é a aplicação de uma/aptidão; mas não deve ser

confundida com esta, como acontece na palavra inglesa ability. De facto, a capacidade presume um

emprego da vontade, ao passo que a aptidão -inata e por assim dizer imerecida- não implica /esforço algum.

É por tal motivo que dois alunos igualmente dotados não têm necessariamente o mesmo rendimento. Podem

registar-se grandes diferenças devido ao /O temperamento do adolescente. O adolescente mais amadurecido

e mais reflectido será melhor sucedido do que o imaturo.

A I afectividade influi fortemente sobre as capacidades do adolescente: um aluno que receia admoestações

fica quase sempre aquém das suas possibilidades. A/timidez, a/;<inibição, os/desequilíbrios orgânicos

passageiros, habituais na/,< adolescência, bastam muitas vezes para impedir o/ desenvolvimento de aptidões reais. Importa, pois, que o adolescente sinta/confiança a fim de exteriorizar o melhor possível as suas possibilidades e de propor assim a si mesmo níveis de/aspiração cada vez mais elevados. Na verdade, não

se deve esquecer que é nesta idade que se desenha a/personalidade adulta: repetidos fracassos têm

repercussões longínquas e impedem os dons de se exprimir. O papel dos educadores consiste essencialmente em ajudar o adolescente a desenvolver as suas capacidades, fixando-lhe objectivos que não estejam nem aquém nem além das suas aptidões. Neste domínio, os/ pais, possuidores de uma tendência natural para se/projectarem no seu filho, devem ter o cuidado de não tomar,,` desejos demasiado ambiciosos por realidades.

CAPRICHO (Caprice/Fancy) página 498.

A palavra «capricho» (do latim capra: a cabra) designa uma crise reaccional «por saltos», sem relação real

com a motivação aparente.

O capricho manifesta-se muitas vezes nos adolescentes e nas adolescentes. Os educadores conhecem bem

a/reacçâo de certo adolescente que -escolhido para ser o/herói de uma peça de/;<teatro representada

na/escola- recusa bruscamente, no último momento, desempenhar o seu papel. Ou ainda de determinada adoles- cente que decide de um dia para o outro que um certo alimento já não é digno da sua jovem pessoa. Estes/ comportamentos traduzem uma regressão ao estádio infantil, pois exprimem essencialmente o/desejo de chamar a,,,Iatenção. Mas têm uma significação intrínseca que não pode ser negligenciada, mesmo - e talvez devêssemos dizer sobretudo - quando a motivação se afigura pouco fundamentada ao adulto.

O rapaz que desiste do seu papel algumas horas antes de o desempenhar é sem dúvida/pueril, mas as razões

que motivam o seu comportamento talvez sejam importantes. É preciso tentar sondá-Ias. Uma tal recusa

revela uma ruptura interior, uma falha da

108

/personalidade. Isto tanto mais quanto o jovem actor foi provavelmente escolhido por causa da sua sociabilidade e segurança íntima. Há fortes motivos para pensar que esta sociabilidade e esta segurança não passam de uma fachada destinada a esconder a sua inquietude. Do mesmo modo, a rapariga que rejeita certo alimento obedece aparentemente a uma ridícula preocupação de estética. Mas pode ser que uma tal preocupação dependa de uma outra menos superficial que englobe a personalidade no seu todo. Importa que os pais não tratem com demasiada ligeireza caprichos que podem ter profundas raízes.

CARÁCTER (Caractóre/Character)

«Carácter significa: marca. É o cunho pessoal de um ser, o seu sinal distintivo, o que permite definir o seu estilo, a sua maneira de ser. de sentir, de reagir.»*

Psicologia (Ed. Verbo,

O carácter, que para Renê Le Senne é «o esqueleto mental do ho-

entanto tal qual desde a infância. É um conjunto de disposições profundas mas não imutáveis. Os estádios de maturação psíquica e as circunstâncias influem de modo permanente sobre ele; o carácter constitui de facto tanto uma maneira de sentir - traduzindo então a acção da situação sobre o sujeito- como uma maneira de/reagir -indicando então a acção do sujeito sobre a situação.

# Dicionário de

Lisboa, 1978). mem», não se manifesta no

Carácter e/ comportamento É o desejo de emancipação que vai inflectir de forma muito pronunciada o carácter do adolescente, o que pode dar origem a inversões espectaculares. Certo rapaz/tí"do e fechado com os seus transforma-se quando se acha em/sociedade: toma a palavra, discute de tudo com todos. A menina «maria-rapaz» experimenta bruscamente a necessidade de se sentir/feminina e atraente. Um e outra obedecem à/necessidade de se afirmar/ independentes: o rapaz pela sua facúndia, a rapariga pelo seu encanto. Podem produzir-se os casos contrários. A criança turbulenta retrai-se porque não se sente suficientemente segura de si. A menina/coquete, duvidando da sua feminilidade, ou recusando-a como meio de emancipação, descura de repente toda a elegância de vestuário, penteia-se às três pancadas, adopta o blue-jean.

Os tipos de carácter Distinguem-se diferentes tipos de carácter em função de três critérios principais:

a/oemotividade, a/actividade e a ressonância.

A emotividade: indica o grau de dependência do sujeito relativamente

CAR

à situação vivida. Aquele que é muito profundamente afectado por um acontecimento perturbador é um hiperemotivo. É não emotivo aquele a quem nada abala. o primário é a%iele cuja reacção emotiva é imediata, pouco ou mal controlada. E secundário aquele que interioriza a sua reacção e difere a respectiva expressão.

A actividade: ela indica o grau de influência do sujeito sobre a situação. É activo aquele que em qualquer

situação manifesta de si mesmo uma energia dirigida para um objectivo determinado. O não activo, pelo contrário, só age contra vontade e sob a pressão dos acontecimentos.

A ressonância: toda a percepção tem um efeito imediato e um efeito prolongado. Por exemplo, a criança

que se queima tem uma reacção imediata (dor, choro) e depois integra a queimadura nos seus esquemas de/conduta: receio do fogo, etc. Consoante domina num indivíduo um ou o outro efeito, diz-se que ele é primário ou secundário: «Os efeitos que um acontecimento produz, enquanto ainda se mantém na consciência clara do indivíduo ou imediatamente após, constituem a função primária da representação deste acontecimento. Os que se verificam quando o acontecimento já saiu há algum tempo da consciência actual do indivíduo constituem a função secundária da representação.»*

o R. Le Senne:

Ia

Destinde personnellê

O

primário é aquele em que predomina o efeito imediato: ele vive

(Fiammarion, Paris, ao sabor das suas

experiências, que se expulsam umas às outras.

O secundário, ao invés, acumula os dados da experiência, cada um dos quais é julgado em função dos precedentes. /;, Emotividade,,,,, actividade e ressonância combinam-se nos indivíduos.

1951), p. 47.

Classfficação de Gaston Berger

O

Nervoso: Emotivo, não activo, primário.

O

Sentimental: Emotivo, não activo, secundário.

*

Colérico: Emotivo, activo, primário.

*

Apaixonado: Emotivo, activo, secundário.

*

Sanguíneo: Não emotivo, activo, primário.

*

Fleumático: Não emotivo, activo, secundário.

O

Amorfo: Não emotivo, não activo, primário. OlApático: Não emotivo, não activo, secundário.

Carácter e/ pedagogia

O desconhecimento da diversidade dos caracteres é gerador de erros educativos. Como acentua J.-L. Faure:

«O interesse prático de uma descrição caracterológica é o de estabelecer um ‘dado’

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com o qual se vê confrontada toda a acção pedagógica ou curativa, sem ter a pretensão de poder mudá-lo grandemente, mas com a necessidade de se lhe adaptar para encontrar unia via de eficácia. Sob pena de malogro, não podemos dirigir-nos da mesma maneira a um emotivo-activo-primário e a um emotivo-não activo-secundário. Há com certeza, mas apenas neste sentido, uma pedagogia do carácter.»*

* J.-L. Faure:

Vocabulaire de psychopédagogie Carácter e / personalidade

cuidado de não confundir aspectos comportamentais

P. 95.

(P.U.F., Paris, 1963), É preciso ter o

adquiridos na sequência da/educação com traços fundamentais do carácter. Estes podem muito bem estar em contradição com aqueles. É o caso de certas crianças «ajuizadas» que se revelam bruscamente na adolescência altercadoras e indisciplinadas. Percebe-se então que a aparente sensatez não era senão uma/inibição excessiva do carácter, inibição devida geralmente a uma educação demasiado severa. Do mesmo modo, um educador perde o seu tempo a querer transformar a todo o custo aquilo que é, na realidade, um traço imutável do carácter. Produz-se então o que se observa no caso dos canhotos contrariados, por exemplo, se eles escrevem com a mão direita à custa de perturbações mais ou menos profundas. Um certo sonhador conseguirá disciplinar-se: porém, ao fazê-lo, talvez tenha de abandonar toda a espontaneidade, toda a originalidade. Distinguir o temporário do definitivo, o aparente do real, é sem dúvida uma das tarefas mais difíceis do educador. Os/pais podem ser bem sucedidos nela desde que se disponham a urna observação atenta e permanente do /comportamento do adolescente.

‘ARACTERIAL (Caractériel/Disturbed character) Páginas 51, 52.

Designa-se correntemente por caracterial aquele que apresenta perturbações de,-<carácter. O carácter, maneira de ser e de pensar habitual, pode_ achar-se alterado pelas flutuações do equilíbrio ,”fisiológico. E nomeadamente o que acontece na/puberdade. O carácter relativamente equilibrado da infância apaga-se então frequentemente diante de uma /instabilidade mais ou menos duradoura, mais ou menos profunda. É só quando as perturbações atingem uma certa amplitude que se considera o sujeito como um caracterial; caso contrário, todo o adolescente o seria no sentido restrito do termo. «Por volta dos 13 ou 14 anos, a crise pubertária determina novas manifestações caracteriais: /condutas de recusa, fantasias, amuos e/atitudes de feição por vezes

discordante.»*

- Recusa. É o que se passa com o adolescente que, quer por medo

das/ responsabilidades, quer por causa de um traumatismo/psi- (P.U.F., 1952), p. 64.

O Porot: Manuel

alphabátique de psychietrie

CAR

cológico, é levado a recusar um certo número de/ valores e de condutas considerados como normais. A recusa pode ser consciente -como na/'1oposição- ou inconsciente -como no/negativismo. -IFantasias. A

tendência para a fantasia pode ser considerada como uma conduta de recusa. O sonhador interpõe, entre o mundo e ele, um écran protector. É assim conduzido pouco a pouco a construir o seu próprio universo e adopta uma atitude geral de/,<passividade. O adolescente recorre de boa vontade à fantasia, que é uma

maneira de prolongar a/imaginação lúdicas da infância.

- Reacções de compensação. O adolescente, fundamentalmente pouco seguro de si mesmo, é levado a compensar certos defeitos reais ou imaginários. «Alguns sujeitos jovens, desfavorecidos pela natureza, procuram uma compensação para a sua /inferioridade física numa /cultura excessiva e por vezes afectada da sua/ inteligência e das suas/aptidões estéticas ou numa ,@’ sublimação moral. Outros, fisicamente dotados mas sentindo-se em desacordo /afectivo ou intelectual com o seu/meio, lançam-se em,,” actividades

de/jogos inúteis ou improdutivos ou em/ competições /desportivas que os desviam de uma função/social normal.»* Porot, ibidem, P. E

- Hiperemotividade. A inquietação sexual derivada do ímpeto pubertário acha-se a maior parte das vezes na

origem da hiperemotividade ou/impulsividade. O adolescente torna-se então aparentemente incapaz de se dominar. As reprimendas e admoestações só agravam as perturbações. O remédio consiste mais numa atmosfera de calma e de desdramatização. -IInstabilidade. O instável é na aparência um excitado, incapaz de fixar demoradamente a sua atenção. Manifesta uma tendência pronunciada para a/inadaptação, que, por seu turno, contribui para acentuar as perturbações caracteriais.

9 Iúdico: relativo aojoç

Os casos patológicos

- A paranóia caracteriza-se pela progressiva instalação de um delírio coerente e pela conservação do uso da maior parte das funÇões psíquicas. O tipo do paranóico é o perseguido perseguidor. Observa-se então no paranóico uma sobreestimação patológica do eu, sobreestimação que Mucchielli considera a causa primeira da/delinquência juvenil. Esta sobreestimação conduz o paranóico quer a uma excessiva/ passividade quer a uma conduta de recusa. Podemos dizer que, no fundo, o paranóico sofre de um perpétuo sentimento de/frustração, o que o impele a diversas compensações. -A/ mitomania é uma forma afim da paranóia, pois a mentira e a realidade acham-se muito intimamente confundidas. Também aqui, uma tal atitude resulta do fenômeno de compensação.

- V esquizoidia é caracterizada pelo/autismo, ou recolhimento

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excessivo em si mesmo. Ela traduz a recusa ou a incapacidade de inserção normal da/sociedade. -A

lperversão é um desvio das tendências naturais. Por exemplo, a tendência normal da/sexualidade é a procriação: toda a atitude /sexual que para ela não concorra é considerada como perversão. De igual modo,

a delinquência é uma perversão do instinto de conservação. Os factores traumatizantes da/puberdade podem provocar o desencadeamento de manifestações/ perversas, o mesmo sucedendo quando há convívio com outros perversos.

Os métodos de rastreio Os/pais não devem hesitar em consultar um especialista logo que se manifestem os sintomas de/inadaptação sob todas as suas formas:/social, escolar ou/afectiva. Muitas vezes os pais pensam que «isto há-de passar». É justo reconhecer em sua defesa que os primeiros sintomas caracteriais se assemelham bastante a mudanças de/humor de aparência benigna. Outros, pelo contrário, assustados por aquilo que tomam por uma/psicose, preferem adoptar a política da avestruz. Mas não se trata afinal senão de uma doença igual a tantas outras, que, apesar de ser mental, nem por isso deixa de ser curável. Após observação clínica para procurar uma eventual causa somática,

* médico confiará o caracterial a um/psicólogo. Este utilizará