Você está na página 1de 7

A noção de momento predominante na introdução dos Grundrisse

Gustavo Henrique Lopes Machado

GT: Marx e a tradição dialética

Na presente comunicação, pretendemos analisar o segundo capítulo da introdução dos Grundrisse, tendo em vista captar o significado da noção de momento predominante que nele emerge. Além disto, nos propomos a problematizar, a partir do trecho em questão, as interpretações correntes que veem na esfera da produção, concebida em sentido restrito, o momento determinante das demais relações de produção. Na segunda parte deste seu célebre escrito, Marx analisa as relações entre produção, distribuição, troca e consumo. Particularmente, trata de negar o modo unilateral e superficial em que tais categorias são consideradas pelos economistas de sua época. Quando examina a relação entre produção e consumo, diz:

O importante aqui é apenas destacar que, se produção e consumo são considerados como atividades de um sujeito ou de muitos indivíduos, ambos aparecem em todo caso como momentos de um processo no qual a produção é o ponto de partida efetivo, e, por isso, também o momento predominante [übergreifende Moment]. (MARX, 2011, 49).

Este é o único momento em que Marx utiliza, no conjunto de sua obra, o termo momento predominante. Apesar disto, tal noção ganhou status, entre algumas vertentes do marxismo, de princípio balizador das relações sociais e, consequentemente, do ordenamento categorial realizado por Marx em sua crítica da economia política. Mesmo um autor cuidadoso e rigoroso com a letra dos textos de Marx, como György Lukács, em sua tentativa de construir uma ontologia marxista, transforma a noção de momento predominante em um princípio que possibilita ordenar e estruturar um todo concreto ao assinalar à primazia de uma dada categoria no interior de um complexo dinâmico, no presente caso, a primazia da produção frente ao consumo. Neste sentido, tal noção será universalizada por Lukács, transmutando-se em princípio. Este diz que “nenhuma interação real (nenhuma real determinação de reflexão) existe sem momento predominante” (LUKÁCS, 2012, p.334). É verdade, devemos dizer, que a noção de momento predominante, segundo Lukács, não é produto de uma escolha a priori por esta ou aquela categoria posta como prevalecente frente às demais, antes disto, é resultado e não pressuposto da análise do objeto considerado. Em outro sentido, toda uma tradição associada ao pensamento de Marx, considera a produção, entendida enquanto uma esfera específica e restrita na qual se realiza a atividade laborativa dos indivíduos, isto é, aquele âmbito em que efetivamente se leva a cabo a criação de objetos para atender as necessidades humanas, a esfera predominante que, enquanto tal, determina todos demais âmbitos das relações de produção. Neste caminho, por exemplo, Jacob Gorender, contra Caio Prado Júnior, contesta a interpretação de que “a produção escravista era

orientada para a exportação e subordinada à espoliação colonialista”, afinal, segundo este autor, “a circulação mercantil não é mais do que o prolongamento da produção […]. Em última análise, não é a circulação que desvenda a organização da produção, mas o contrário” (GORENDER, 1978, p. 501). Este autor denomina certas interpretações, como a de Caio Prado Junior do Brasil Colonial, pejorativamente de circulacionistas, por centrarem sua análise nas relações de troca com à Europa, concebida como o “sentido da colonização”. Para Gorender, um marxista deve centrar sua análise na esfera da produção de mercadorias e não na circulação. Tendo em vista tão larga influência desta noção empregada por Marx, nos propomos a examinar mais de perto seu significado, acompanhando o trecho em que ela emerge nos Grundrisse. Segundo Marx, os economistas de sua época representam a relação entre produção, distribuição, troca e consumo em termos de um superficial silogismo. Este tem como ponto de partida a produção, considerada como o momento em que se cria objetos em conformidade com as necessidades humanas. Nesta forma genérica e abstrata a produção aparece como um momento universal e necessário, determinado por leis naturais, afinal, qualquer forma de sociedade tem de produzir objetos para satisfazer suas necessidades, sobretudo aqueles que permitem sua sobrevivência. Já na distribuição os produtos oriundos da produção são repartidos segundo certas leis sociais, diversas em cada forma histórica de sociedade. Nestes termos, trata-se de um momento intermediário do processo que assume a mediação entre produção e consumo segundo certas determinações particulares e não necessárias. Em contraposição à universalidade, a-historicidade e necessidade da produção, atestada pela perspicaz constatação de que toda e qualquer forma de sociedade tem de produzir para sobreviver, a distribuição é posta como um momento particular, histórico e determinado pela casualidade social. A troca, por sua vez, é o estágio em que se reparte outra vez, os produtos já repartidos, segundo a necessidade singular, ou seja, o momento que determina os produtos nos quais o indivíduo reclama para si segundo a cota que lhe atribui a distribuição, sendo, assim, um momento determinado pelos indivíduos em conformidade com as possibilidades que a distribuição lhe confere. Por fim, no consumo os produtos são objetos do desfrute, da apropriação individual, retirando o produto deste movimento social. O consumo é, neste esquema, o ato conclusivo e final do processo, um momento singular e não-social, situando-se em partes, fora da economia. Como se vê, para os economistas considerados, a relação entre produção, distribuição, troca e consumo configuram um silogismo formal, que caminha do universal ao singular, do necessário ao arbitrário, do social ao individual, do a-histórico ao histórico. Neste ponto, Marx inicia o processo de negação das superficiais determinações da Economia corrente. Para além da unilateralidade em que suas categorias são apresentadas, faz emergir uma multiplicidade de outras determinações que submergem qualquer pretensão à categorias a-históricas e não-sociais

no interior do processo produtivo 1 . De inicio, Marx assinala que a produção é imediatamente consumo. Em duplo sentido, objetivo e subjetivo, dado que a produção é, ao mesmo tempo, consumo dos meios de produção

empregados no processo produtivo e das capacidades do indivíduo que trabalha. Em seguida, Marx inverte a fórmula em questão e diz que consumo é imediatamente produção, afinal, quando

o homem consome os diversos produtos oriundos do processo de produção produz a si mesmo. Todavia, tais identidades imediatas entre produção e consumo, até mesmo por sua

imediatez e superficialidade, não são estranhas à tradição econômica objetada por Marx. Tanto é assim que as novas determinações agora consideradas não lhes escapam. Denominam o consumo de meios de produção e das capacidades do produtor de consumo produtivo, em contraposição ao consumo do produto acabado que consiste no consumo destrutivo. Já a produção de si mesmo pelo homem através do consumo, denominam de produção consumptiva. Temos, assim, de um lado, a produção-consumo produtivo e, de outro, consumo-produção consumptiva como momentos diversos e imediatos do processo produtivo e, deste modo, configuram o que Marx denomina uma “dualidade imediata”. Avançando ainda mais na negação da concepção que coloca a produção e o consumo como determinações separadas e estanques, que podem ser determinadas independentemente uma da outra, Marx destaca que a produção medeia o consumo ao criar o material, o objeto que será consumido e, ao mesmo tempo, o consumo medeia a produção ao criar sujeitos para o qual se destina o produto. Agora entre as duas unidades imediatas se impõem uma dupla mediação, que relaciona o que inicialmente aparecia como externo e separado. Entretanto, não se trata apenas de uma relação entre categorias que subsistem independentemente e apesar dela. Segundo Marx, o consumo produz a produção, quer seja porque o produto se torna efetivamente produto - em ato - quando é consumido, quer seja porque

o consumo cria a necessidade, o estímulo de uma nova produção. Em suma, não se produz por

produzir, a possibilidade do consumo está pressuposta em toda produção como seu impulsor, seu fundamento ideal e pressuposto. Além disto, Marx diz ainda que a produção produz o consumo. Em primeiro lugar porque esta cria o material, o objeto para o consumo e um consumo sem objeto, evidentemente, não é consumo. Mas também porque a produção determina o modo de consumo ao criar novas necessidades para o sujeito que consome, sendo assim, produção objetivamente e subjetivamente. E, por último, porque a produção gera como necessidade no consumidor os produtos por ela própria postas como objeto; produz, assim, não somente um objeto para o sujeito mas um sujeito para o objeto. Em suma, a produção produz o consumo ao produzir o objeto, o modo e o impulso do consumo.

1 Por motivos que nos escapam, em livro publicado recentemente, João Antônio de Paula apresenta o silogismo que é objeto da crítica de Marx na introdução dos Grundrisse como sendo revindicado, em alguma medida, por este. Não encontramos qualquer passagem que justifique esta interpretação, antes disto, Marx trata de desconstruir o referido silogismo em todos os seus aspectos. Ver: (PAULA, 2010).

Temos acima três momentos de identidade entre produção e consumo. No primeiro momento temos, de um lado, o consumo dos meios de produção e a produção do objeto de consumo, de outro, o consumo do produto pelo consumidor final em que este produz a si mesmo. Imediatamente, nada liga um momento ao outro, que aparecem aos agentes da sociedade capitalista como separados no tempo e no espaço. Em um segundo momento temos a mediação entre estas respectivas identidades imediatas na medida em que na produção se cria o objeto para o consumo e este, por sua vez, cria o sujeito para o qual se destina a produção. As duas unidades imediatas se relacionam e tornam-se indispensáveis uma para a outra, mas os dois polos ainda se mantêm externos um ao outro: a produção fornece o objeto externo de consumo, o consumo fornece o objeto representado pela produção, sua finalidade. No terceiro e último momento assinalado por Marx aquelas identidades imediatas inicialmente separadas, depois relacionadas, mas mantendo a exterioridade recíproca, passam a criar uma à outra, na medida que o consumo constitui o fundamento ideal e pressuposto na produção e, por outro lado, a produção produz continuamente o objeto, o modo e o impulso do consumo, que continuamente se renova. Trata-se agora, em certo sentido, de uma identidade mediata entre consumo-produção e produção-consumo. Do exposto acima, não se pode deduzir que produção e consumo são idênticos, como poderia parecer se tratássemos da questão em termos categorias abstratas, que suprimissem as diferenças contidas em seu interior. As duas categorias já não podem mais ser concebidas separadamente em sua identidade tautológica consigo mesma e, deste modo, metafisicamente. Agora, cada uma delas constituem uma a outra, se determinam mutuamente, compondo um mesmo e único gênero contraditório, passíveis de serem separadas apenas pelo processo de abstração. Colocando a questão nestes termos, em que sentido Marx pôde afirmar, em seguida, que a produção é o momento predominante frente ao consumo? Como colocar a tônica sobre uma categoria que se constitui e se determina pela outra? Pensamos que esta operação seria ilegítima e Marx realmente não atribui preponderância

à produção, entendida em seu sentido restrito, frente ao consumo. O que faz no curso de todo

este trecho dos Grundrisse é mostrar que a produção, distribuição, troca e consumo constituem momentos de uma dada forma histórico-social de produção e somente no interior desta podem ser

adequadamente compreendidas. Os economistas com os quais dialoga, colocam, de um lado, a produção, concebida tautologicamente, como uma universalidade a-histórica e, no outro extremo,

o consumo, como um ato singular e não social. Em contraposição à este estreito modo de

considerar a questão, Marx mostra que os atos individuais de consumo não são sempre os mesmos e se configuram em conformidade com uma dada forma histórica de produção. E somente neste sentido podemos afirmar ser a produção, entendida como uma forma histórico-social de produção, o momento predominante. Tanto é assim que logo após enunciar a produção como momento predominante, conforme a citação presente no inicio de nossa

comunicação, Marx prossegue:

O próprio consumo, como carência vital, como necessidade, é um momento interno da

atividade produtiva. Mas esta última é o ponto de partida da realização e, por essa razão, também seu momento predominante, o ato em que todo o processo transcorre novamente.

O indivíduo produz um objeto e retorna a si ao consumi-lo, mas como indivíduo produtivo e

que se autorreproduz. O consumo aparece, assim, como momento da produção. (Grifo nosso) (MARX, 2011, p.49).

Como se vê, a noção de momento predominante não remete à uma relação recíproca entre elementos diversos em que um dos lados predomine sobre o outro. A produção é o momento preponderante frente ao consumo, não porque o primeiro possui uma ação “causal” mais “vigorosa” na relação mútua com este último, mas por ser o consumo parte constitutiva e um momento interno da produção, da mesma forma que o corpo humano predomina sobre cada um dos seus órgãos, sem o qual não possuem qualquer sentido 2 . Tanto é assim que, na parte que se segue, Marx evidencia que tanto a distribuição como a troca se articulam e se determinam em conformidade com as relações sociais de produção no interior das quais se inserem. Não se trata de considerar o espaço em que se desdobra a atividade laborativa como determinante da distribuição, troca e consumo, mas de considerar todas estas esferas como determinadas pela forma social em que se realiza as relações entre as pessoas no processo de produção. Por este motivo, Marx aborda ironicamente aqueles

economistas que tratam separadamente a forma de produção social diante da distribuição das pessoas e produtos no seu interior. Para estes, a produção é determinada pela distribuição, afinal, um povo conquistador ao partilhar a terra conquistada ou escravizar os vencidos ou, ainda, um povo que através da revolução divide a grande propriedade, ao re-distribuir os elementos de produção não determinam uma nova forma de produção? Sob esta ótica, “a distribuição parece

preceder e determinar a produção; como se fosse um fato pré-econômico” (MARX, 2012,

agora[

50). Contra estes, Marx mostra que a distribuição, assim considerada, decorre da distribuição dos meios de produção e dos membros da sociedade em diferentes tipos de produção, sendo, assim, nada mais que um momento constitutivo de uma nova forma produtiva, de sua gênese histórica, com a nova forma de distribuição que lhe corresponde. Trata-se de captar o desenvolvimento histórico da própria produção. Deste modo, Marx conclui que “considerar a produção abstraindo dessa distribuição nela contida é manifestadamente uma abstração vazia”, pois a distribuição é “originariamente um momento constitutivo da produção”' (MARX, 2012, 51).

Neste sentido, Marx conclui esta segunda parte dos Grundrisse que ora comentamos, reafirmando o significado da produção que figura como momento predominante:

]

2 É verdade que Lukács, em sua ontologia, tem consciência do sentido amplo dado por Marx à produção na passagem em que se insinua a noção de momento predominante. Sobre esta questão, este diz: “É evidente que a produção, enquanto momento predominante, é aqui entendida no sentido mais amplo possível – no sentido ontológico -, como produção e reprodução da vida humana, […].” (LUKÁCS, 2012, p.336).

O resultado a que chegamos não é que produção, distribuição, troca e consumo são idênticos, mas que todos eles são membros de uma totalidade, diferenças dentro de uma unidade. A produção estende-se tanto para além de si mesma na determinação antitética da produção, como sobrepõe-se sobre os outros momentos. É a partir dela que o processo sempre recomeça. É autoevidente que a troca e o consumo não podem ser predominantes. Da mesma forma que a distribuição como distribuição dos produtos. No entanto, como distribuição dos agentes da produção, ela própria é um momento da produção. Uma produção determinada, portanto, determina um consumo, uma troca e uma distribuição determinados, bem como relações determinadas desses diferentes momentos entre si (grifo nosso) (MARX, 2012, 53).

A citação em questão é clara. A produção que se insinua como momento predominante é aquela considerada enquanto uma totalidade social, uma unidade de diferenças, predominante não apenas frente à distribuição, troca e consumo, mas da própria produção em sua significação restrita, ou seja, enquanto espaço em que o homem efetivamente trabalha e produz. Neste sentido, conclui Marx:

A produção, por sua vez, certamente é também determinada, em sua forma unilateral, pelos

outros momentos. P. ex., quando o mercado se expande, i.e., a esfera da troca, a produção cresce em extensão e subdivide-se mais profundamente. Com mudança na distribuição,

modifica-se a produção; p. ex., com a concentração do capital, com diferente distribuição da população entre cidade e campo etc. Finalmente, as necessidades de consumo determinam

a produção. Há uma interação entre os diferentes momentos. Esse é o caso em qualquer todo orgânico. (MARX, 2012, 53).

Percebe-se, então, a unilateralidade das formas caducas dos economistas. Em sua forma autônoma e unilateral, ou seja, abstrata, a produção é decerto determinada pela distribuição, troca e consumo. Seja na expansão do mercado, na concentração de capital, ou mesmo na distribuição da população consumidora. Todavia, em sua forma concreta, a produção é totalidade social, a forma específica em que as sociedades se organizam para sobreviver nos distintos momentos históricos. Como se vê, a noção de momento predominante, no sentido empregado por Marx, nada diz sobre à proeminência desta ou daquela determinação em uma interação recíproca ou reflexiva. Interessante notar, tendo em vista reflexões futuras, que no curso de sua crítica da economia política, em particular, o livro primeiro de O Capital, Marx jamais recorre à categorias ou princípios que não estejam voltados diretamente para as próprias coisas, sejam eles de natureza sensível ou social. Neste caminho, categorias como valor, trabalho abstrato, mais valia, reprodução de capital entre outras, remetem sempre à relações sociais bem determinadas e a linguagem jamais toma a si mesma como objeto. Tendo isto em vista, perguntamos: o uso da noção de momento predominante como um enquanto princípio, como quer Lukács, não sinaliza uma tentativa de reconfigurar o pensamento de Marx a partir de um vocabulário meta-categorial? Seja como for, à luz da letra do texto de Marx na introdução dos Grundrisse, não encontramos

qualquer apoio maior para a tese que credita à esfera da produção o momento determinante do

conjunto das relações de produção, a tônica da análise encetada por Marx recai sempre sobre a

totalidade da forma social através dos quais os homens se organizam tendo em vista a produção,

não sobre uma de suas esferas particulares.

Referências

MARX, Karl. Grundrisse. São Paulo: Boitempo; Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2011. GORENDER, Jacob. O Escravismo Colonial. 2º ed. São Paulo: Ática. 1978. LUKÁCS, György. Para uma ontologia do ser social, vol. 1. São Paulo: Boitempo, 2012. PAULA, João Antônio de A “Introdução” dos Grundrisse, In. Paula, João Antônio de (org.) O Ensaio Geral: Marx e a crítica da economia política (1857-1858). Belo Horizonte: Autêntica, 2010.