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UFRJ / Faculdade de Letras Latim VII Profa. Ana Thereza Morfologia nominal

Parte 4 - Flexão dos temas em y e w (3ª/5ª e 4ª declinações)

Em I.E., os temas em y e -w apresentavam flexões paralelas, apresentando o mesmo sistema de alternâncias vocálicas, tonais e desinenciais. Em latim, uma evolução fonética em parte acentuou a diferença entre as duas flexões (as duas soantes y- e w-, em posição intervocálica, comportando-se diferentemente, -y sempre desaparecia e w apenas algumas vezes); aproximando o tema em y- da flexão consonântica: civium > civem (como *ped-> pedem). Os temas em w- se isolaram, constituindo um paradigma bem menos produtivo (a 4ª declinação). Da separação dos dois temas, um pequeno grupo de temas em –ū- (grūs; sūs), de flexão tomada de empréstimo, sobreviveu.

I . Formação de temas em y

Esta flexão comporta substantivos e adjetivos.

1 Substantivos: Comportam séries distintas. Alguns como crinis; apis; corbis; frons; funis; urbs (antigo *urbis) são desprovidos de etimologia, talvez tomados de empréstimo de línguas diversas. Outros são de origem seguramente indo-europeia, como ovis; anguis; ignis; avis; axis; clunis; ensis. Algumas vezes, em condições mal explicadas, palavras que em outras línguas eram de tema consonântico passaram em latim à flexão de tema em y-, como auris; dens < *dentis; nāvis; nox < *noct(i)s. Mais raramente o nome latino em y- corresponde a um tema temático de outra língua, como imber < *imbris. Uma categoria especial se constitui em latim num grupo de palavras cujos casos oblíquos foram construídos sobre um tema em y-, enquanto que o nominativo e o acusativo apresentam tema em –ē, como vulpēs, -ĭs; apēs, duplo de apĭs (anotado por gramáticos). Talvez seja o caso também de felēs, -ĭs; palumbēs, -ĭs. Supôs-se para estas palavras um tema em *-ey- (acus. *vulpē(y)m, sobre o qual se refez o nom. vulpēs), alternando com y (gen. vulpis). Mas outras palavras de mesma flexão têm origens diferentes. Assim, formas como sedēs; sordēs; tabēs apresentam o mesmo morfema de estado que os verbos correspondentes sedēre; sordēre; tabēre. Na flexão desses substantivos, a alternância primitivamente deve ter sido entre um tema em eH 1 e um tema em *-H 1 , não se tratando mais de um tema em y-. Outros elementos puderam inserir na série nomes latinos em –ēs/-ĭs, que não constituem uma classe coerente e produtiva em data histórica. Segundo Ernout 1 , “essas palavras em –ēs aparecem em latim como uma sobrevivência mais que uma formação forte e capaz de se

desenvolver. Muitas existem apenas em línguas técnicas

algumas são defectivas, atestadas apenas em certos casos, ou apenas no singular

formam na 3a declinação um pequeno grupo isolado e submetido à influência analógica de

grupos mais numerosos e mais fortes, especialmente o grupo de nomes em –ĭs

assim, que o maior número de palavras em –ēs são artificialmente associadas à flexão latina de

Constata-se,

Elas

ou são utilizadas apenas por poetas;

temas em y-”. Os substantivos e y- apresentam um sufixo reconhecido. É o caso do sufixo *-ti, analisável como *-t-(e/o)y, que servia desde o I.E. para formar nomes de ação, de valor dinâmico e do gênero feminino. Esse sufixo foi aumentado, em latim, frequentemente por um segundo morfema ōn; daí as formações consonânticas em tiō[n]. O latim conservou um pequeno grupo de nomes em tis, que muitas vezes sofreram no nominativo uma síncope de ĭ entre t e s; mas a vogal permanece em outros casos, dando a impressão de que esses casos juntavam ao tema do nominativo uma sílaba suplementar, gerando a expressão “flexão

imparassilábica” frequentemente empregada. Os principais vocábulos desta série são ars < *arti-s; fors < *forti-s; gens < *genti-s; mors < *morti-s; mens < *menti-s; pars < *parti-s; sors < *sorti-s. Em todas estas palavras, a síncope afeta o grupo tis após a soante. Após vogal longa, a síncope é inconstante: quiēs < *quiēti-s; līs < *stlīti-s; praegnās < *praegnāti-s. A síncope não ocorre se tis vem após vogal breve (sĭtis) ou um ş antigo (uestis) ou recente (messis < *mettis; tussis), para evitar, neste último caso, formas muito abreviadas (*ues; *mes; *tus). Por fim, a síncope produz quase sempre uma forma monossilábica, exceto em palavras com prevérbio (-hors < *-hortis; prae-gnās). Parece que o latim histórico não conservou todos os nomes em tis antigos existentes, se levamos em conta statim e partim, acusativos tomados como advérbios, vestígios de uma flexão que desapareceu, e que deram origem a uma série de advérbios distributivos em tim, como viritim; privatim; gradatim; tendo após uma consoante dental uma variante sim: sensim < *sent-tim; pulsim < *puld-tim.

2 Adjetivos: apresentam em latim um tema em y, pertencendo a uma série variada. Excetuando-se os casos de origem obscura (grandis; rudis; turpis) as principais séries são:

a) A temas que, em estado livre, seguem a flexão temática ou em a (bellum; frēnum; annus;

barba; fāma; forma), correspondem outros termos de adjetivos compostos em is: imbellis; rebellis; effrēnis; triennis; inermis; imberbes; infamis; informis; dēformis etc. O primeiro termo

destes compostos é um prevérbio ou uma negativa; excepcionalmente um nome de número.

b) frequentemente o latim apresenta uma forma em is correspondente a um adjetivo de

outra língua de flexão diferente. Assim, aos adjetivos gregos em ύς correspondem em latim os adjetivos em uis: breuis; leuis; grauis; suauis < *s o wādwis. Igualmente a adjetivos temáticos em outras línguas, correspondem em latim os adjetivos em is. Assim, acer < *acri-s;

à sequência tero/ -tro-, de valor oposicional, responde às vezes em latim uma final -tri-s (silvestris; terrestris; equestris); a adjetivos gregos respondem os latins similis; humilis, com um sufixo li ou ili < *- o li, que se encontra provavelmente em agilis; docilis; fragilis; habilis; e, derivado de um nome, herbilis. Da mesma forma o sufixo *-ni de lenis; segnis deve corresponder ao sufixo *-no. Frequentemente em latim existe, ao lado de um substantivos temático, um adjetivo em is. Assim, na série de sufixos formando nomes de instrumento, observa-se, ao lado de *tlo-m > -culum (poculum) um sufixo adjetival *-tli- > *t o li-, daí tilis

e sob uma forma silis após dental, em fusilis,

(em fictilis; futilis; plectilis; sutilis; volatilis

rasilis); também, ao lado de *-dhlo-m > -blum (stabulum), um sufixo adjetival *-dhli > -bilis (stabilis; daí a abundante série de tipo nobilis; ignobilis; amabilis; superabilis; tolerabilis); ainda ao lado de *-dhrom > -brum (lavabrum), um sufixo adjetival *-dhri- > -bris (lūgūbris; salūbris; mulcēbris).

c) O latim conheceu uma série de adjetivos em -li-s, diferente por sua origem do tipo humilis;

similis, formada a partir de substantivos. Do ponto de vista de sentido, os adjetivos desta série exprimem um tipo de relação semântica que poderia exprimir o emprego do genitivo: assim, a pertença (erilis amica “amada do senhor”; bellum civile “guerra civil”; feralis victus “subsistência da fera”); ou o fato de mostrar uma noção (fidelis “que tem fé”). Inicialmente, esses adjetivos e, -lis- podem ter sido derivados de temas em -ā (animā-lis; ferā-lis; naturā-lis); ou em -ē (fidē-lis); ou em -i (civī-lis; hostī-lis; ovī-lis); ou em -ū (cur(r)ū-lis; tribū-lis). Essas formações antigas analogicamente originaram sequências produtivas: -ālis (hospit-ālis; liber- ālis; nupti-ālis; uen-ālis); -ēlis (crud-ēlis; patru-ēlis); -īlis (er-īlis; puer-īlis; serv-īlis; vir-īlis; quint- īlis; sext-īlis); -ūlis (ed-ūlis). Tendo em vista que o tema original ao qual se juntava a sequência sufixal comportava um l, uma dissimilação passava a ris o sufixo lis (famili-aris; milit-aris; popul-aris). No neutro substantivado, a perda da vogal final reduzia a al ou ar a sequência āli, -āri, final de tema adjetival; daí os substantivos de tipo animal; vectigal; bacchanal; altar; capar.

d)

O latim possuiu uma série de adjetivos em -ti-s (sofrendo síncope no nom. sing.), que

qualificavam habitantes de um lugar por esse mesmo nome. Frequentemente, esses adjetivos foram substantivados, e designaram aqueles que saíam de uma cidade. Assim, derivados de temas em -r (Tiburs, plural Tiburtēs; Tudertēs); derivados de tema em -ī (Samnīs, plural Samnītes; por analogia Quirītes). Temas em ā foram derivados de formas como Antemnā-tēs; Fidenā-tēs, por extensão formas em ā-t(i)s > -ās, pl. ātēs (cuius, pl. cuiātēs). Uma série desses termos (optim-ātes; summ-ātes; infim-ātes) designando classes sociais.

e) o latim possuiu, designando sempre os habitantes ou ocupantes de um lugar, uma série

adjetival em ensi-s: Atheni-ensis; Carthagin-ensis; atri-ensis; circ-ensis. Esse sufixo em -ensis é

de origem pouco clara.

II . Formação dos temas em w

A flexão latina em w- é menos produtiva que a anterior. Além dos temas em -ū (grūs; sūs), e as duas palavras bōs/ bovis (*g w ōw-) e Iūs-pater/ Iovis (*dyēw-), que merecem um estudo distinto, os termos relevantes desta flexão se agrupam nas seguintes séries:

1) Um sufixo primário *-(e/o)w aparece em palavras como genu; cornu; cruzamento de dois

temas *kr-n- e *kr-w-; pecu; gelu. Este mesmo sufixo *-(e/o)w serviu para formar os nomes de ação currus (de currō) e gradus (de gradior). O sufixo ainda produziu algumas palavras de etimologia pouco seguras: arcus; metus; e talvez lacus; manus; sexus; sinus, cujo valor em data

histórico talvez tenha sido alterado.

2 ) A maioria dos temas em w se constitui numa série de palavras em *-t-(e/o)w, sufixo associando à ampliação -t- o sufixo propriamente dito *-(e/o)w. Esse sufixo servia desde o I.E. para formar nomes de ação, de valor dinâmico, de gênero animado. Tais palavras são em latim muito frequentes, derivadas de temas verbais, que designam abstratamente a noção expressa pelo verbo: cultus (de colō); cāsus (de cadō); status (de stō). Muitas vezes o sentido se concretizou e, em data histórica, palavras como cantus, partus designam “o que é cantado, gerado”; fluctus “o que correr”; enquanto que luctus, uīctus designam “pesar”, “tipo de vida”. Alguns termos designam sensações mais concretas, sobretudo auditivas: crepitus; fremitus; gemitus; sonitus; strepitus. Algumas vezes ocorre que a relação com o verbo seja obscura (situs, de sino; saltus de salio), ou que o verbo tenha desaparecido (partus); o nome em tus fornece nomes de lugares. Ao lado dessa série de nomes verbais, convém assinalar outra série, derivada de nomes, que exprime um estado físico ou social. O mais antigo termo provém de um tema senā-, daí senātus, inicialmente “velhice” (como senectus). A evolução semântica dessa palavra, que se transformou em termo da vida política, gerou analogicamente as formas consul-ātus; magistr-ātus; tribun-ātus; princip-ātus; e, num registro um pouco diferente comit- ātus; equit-ātus. Os nomes em tus tenderam a ser empregados apenas em alguns casos de sua flexão. Assim *nātus (“nascimento”) só se emprega no ablativo (natū maior, minor “filho mais velho, mais novo”). As formas sobreviventes estão no acusativo (lectum, risum, dictum) e no dativo, às vezes em tuī (memoratuī; satuī; victuī; vestituī), mais frequentemente em tū (dictū; memoratū; lectū; risū). Estas formas, por seu valor de nomes de ação, foram pelos gramáticos anexadas à flexão verbal, onde formam o supino.

III . Paradigma latino dos temas em y- e w-

1) Nom. sing. Forma-se pela junção ao tema da desinência s:

a) Em temas em w, o vocalismo pré-desinencial só aparece em forma plena nas palavras Diūs

(Fidius), Iūs(pater) < *dyēw-s, bōs < *g w ow-s. Nos demais casos, em que o vocalismo é

reduzido, a soante w se vocaliza, formando a final ŭs: senātŭs; manŭs etc.

b) Em temas em y, o vocalismo pré-desinencial reduzido aparece mais comumente e y se

vocaliza em –ĭ: ovis; civis etc. Contudo, a vogal ĭ sofria síncope em certo número de formações em -tĭs de nomes de ação (ars; mens; mors) e quando elas não eram precedidas de vogal longa, nas sequências –rĭs (acer < *acrĭ-s; imber < *imbrĭ-s) e –lĭs (mūgil; pugil; vigil).

O vocalismo pleno pré-desinencial, afetado pela quantidade longa, existiu no tema *rey-; mas o nominativo rē-s é refeito a partir do acusativo *rē(y)-m > *rē-m; e esta longa foi generalizada para os demais casos (5ª declinação).

2) Voc. sing. Em I.E. era caracterizado pelo tema simples, sem desinência; e, em algumas

formas de vocalismo pleno pré-desinencial, pela quantidade breve desse vocalismo. Em latim,

o

vocativo não possui formas autônomas, ficando idêntico ao nominativo.

3)

Acus. sing. A junção da desinência m ao tema algumas vezes tem efeitos diversos:

a)

Em palavras com vocalismo pleno pré-desinencial e de quantidade longa, a soante y ou w

desaparecem diante de m. Assim, *rē-m < *rē(y)-m; *diē-m < *dyē(w)-m, a partir dos quais foram refeitos os paradigmas completos rē-s/rē-ī; diē-s/diē-ī. O abreviamento posterior da vogal longa diante de m final explica as formas clássicas rem; diem.

b) Em palavras com vocalismo reduzido pré-desinencial, pela vocalização da soante, obtêm-se

as formas em um (senatŭ-m; manŭ-m) ou em im (partĭ-m). Se os temas em w- conservaram a forma u-m, a final i-m frequentemente, em temas em y-, transformou-se em –ĕm. A forma im permanece: 1º) em palavras transcritas do grego, como basim; 2º) em acus. em tim que se tornam adverbiais (partim; statim); 3º) em palavras cujo tema inicialmente comportava ī, como vim. Em outras palavras, desprovidas de correspondentes em outras línguas, a quantidade longa de ī (abreviada no acus. diante de m) é reconhecida no abl.: tussim; sitim; Tiberim (provavelmente de origem dialetal); em palavras técnicas sem etimologia conhecida: puppim; restim; securim. Excetuando-se palavras que comportam im e em ao mesmo tempo (clavis; cutis; febris; turris), constata-se que a forma em se generalizou.

4) Nom.-acus. sing. neutro Em I.E. constituía-se por um tema simples, sem desinência. Em

latim segue:

a ) nos temas em y, é atestado apenas um tipo de vocalismo pré-desinencial reduzido; daí

*mari; *docili. A partir dessas formas, reforçando-se a vogal breve final, foram gerados mare; docile. Observa-se ainda o desaparecimento da vogal breve final, comum para as formas com sufixos -li, -ri precedidos de vogal longa: animăl; bacchanăl; vectigăl < -āl < -āli; altar; calcăr; exemplăr < -ār < -āri. Algumas vezes sentiu-se uma reconstrução analógica com a reintrodução de uma vogal -ĕ: animāle; altāre; exemplāre (em poesia).

b ) não se conhece bem a quantidade da vogal final de temas em u: cornu, genu (sobretudo se usadas em poesia).

5) Gen. sing. era caracterizado em I.E. por um vocalismo reduzido pré-desinencial seguido de

um vocalismo pleno desinencial (*-w-e/os; *-y-e/os). a ) nos temas em w, o latim apresenta traços de vocalismo pré-desinencial reduzido, de timbre –ŏ (senatuos, no S.C. Bacchanales) ou de timbre -ĕ (anuis; exercituis; fructuis, em

Varrão). Mas, estabelece-se -s junta a um vocalismo pleno pré-desinencial: *-ew-s > *ow-s > ūs (manūs; fructūs).

b ) nos temas em y, a influência dos gen. consonânticos, como dūc-ĭs < -ĕs, generalizou um gen. em -ĭs, como civis; ignĭs, até mesmo em temas que comportavam inicialmente -ī, como puppĭs; Tiberĭs.

6) Dat. sing. A desinência I.E. era -ĭ ou ei.

a ) nos temas em y, a sequência *-ew-ei (pré-desinencial + desinência) evolui foneticamente

para *-ow-ei > -uw-ei > -uwī: manuī; senatuī.

b ) Nos temas em w, *-ey-ei > *-ey por haplologia 2 : *egney-ei > *egney > ignī. Em palavras

em que o abl. era também em -ī, os dois casos ficavam semelhantes.

A partir da semelhança entre dativo e ablativo em algumas situações, formou-se um

segundo dat. em –ū: usū (Pl.); uestitū (Ter.); adspectū (Virg.); concubitū (Virg.).

7) Abl. sing. Além do sincretismo entre abl., instrumental e locativo, convém assinalar a

influência de outras flexões.

a ) em temas em -w, sob a influência da flexão temática em -ōd e a flexão em -ād, formou-se a

final -ūd > -ū: manū; fructū.

b ) nos temas em -y, a mesma analogia fez -īd > -ī: avī; classī; cīvī (em data antiga). Mas, esta final, em grande parte dos substantivos, deu lugar a -ĕ, analógica aos consonânticos: cīvĕ; nāvĕ. A final –ī conservou-se em: a) palavras em que o acus. em -im foi conservado; b) adjetivos que possuíam um nom.-acus. ne. em -ĕ; c) substantivos neutros que não sofrem influência do acus. em -ĕm (marī).

8) Nom.-Voc. pl. O I.E. juntava –ĕs ao tema com vocalismo pleno pré-desinencial. Em latim:

a) Nos temas em -y, *-ĕy-ĕs > *-ĕ(y)ĕs > -ēs: civēs; ignēs; navēs.

b) Nos temas em -w, as formas como manūs; fructūs sofrem a evolução de *ew-es. São a extensão ao nom. da forma de acus.

9) Acus. pl. Em I.E. era formado pela junção de -ns ao tema. Em latim:

a) Nos temas em w, a final *-u-ns > -ūs: manūs; fructūs.

b) Nos temas em y, a final *-i-ns produz paralelamente –īs, às vezes anotada -eis. A final -īs

foi substituída por -ēs, que se generalizou.

10) Nom.-acus. pl. ne. Nos temas em w, o latim herdou a forma ū < *-wH 2 , assimilada ao sing., e a forma de pl. era uă < *-uwa: cornua; genua. Os temas em y paralelamente formam -< *-i(y)ă: maria. Ambos os temas devem ter sido refeitos a partir dos tipos consonânticos templă; cordă.

11) Gen. pl. No latim, as duas finais ium e uum algumas vezes deram lugar à final um de temas consonânticos (raramente em temas em w: passum, em Pl.; currum, em Virg.). O gen. em um se encontra em antigos temas consonânticos, que no latim atravessou os temas em - y. Assim can-um; mens-um; iuven-um.

12) Dat.-abl. pl. A desinência -bho-s se junta ao tema de vocalismo pré-desinencial reduzido, ocasionando as finais *-i-bhos e *-u-bhos: civi-bus; ped-ibus; artubus. No caso de ubus, ocorre uma substituição por ibus, tomada de empréstimo dos temas em y: manibus; fructibus.

A final ubus foi conservada em: artubus; arcubus; partubus (para evitar homofonia

com artibus; arcibus; partibus.

2 Contração de elementos similares de um vocábulo, no caso -ei-ei.

IV . Flexão de temas especiais Há em latim palavras cujo paradigma não apresenta flexão regular; 1 ) Flexão de *dyēw- (luz celeste). Em I.E., essa palavra comportava dois temas:

Nom.: *dyēw-s > *dyĕw-s, às quais o latim corresponde diūs; Acus.: *dyēw-m > *dyē(w)-m, e o latim *diē-m > diĕm; Gen.: dois vocalismos alternantes existiam *dyĕw-s e *dyw-e/os. O latim Iou-is repousa sobre uma flexão mista *dyew-es, fruto de uma inovação.

2) Flexão de *g w -ōw- (boi). No nom. o latim apresenta bōs, com tratamento dialetal da labiovelar e do ditongo. No gen. a forma bou-is repousa sobre o grego com duplo vocalismo pleno *g w ow-e/os. No dat. há também o duplo vocalismo pleno no sânscrito, originando no latim bou-ī. Sobre o tema bou-, de bou-is e bou-ī, o latim refez o abl. bou-ĕ e um novo acus. bou-em, que suplantou o antigo *gwō(w)-m, dando bum em umbro. O plural foi refeito sobre o tema bou-, à exceção do dativo-ablativo pl. -bus (ou būbus).

3) Flexão de temas em -ū. Temas como grū-s e -s são mais simples. O tema não comporta alternâncias, sendo no gen. *-ĕs > *sŭĕs (abreviamento do hiato) > *sŭw-ĕs (introdução de uma consoante de transição) > *sŭw-ĭs > suis. Sobre esse tema su(w)- foram refeitos, com as desinências da flexão consonântica, todos os outros casos: suem, suī, suĕ, suēs, suum, suibus (sūbus também pôde ser encontrado).

Parte 5 Flexão dos temas em –ē (5ª decl.)

O latim conheceu um último tipo flexional, caracterizado por um tema em –ē-, com pequeno número de vocábulos. Esse tipo, a 5ª declinação, constitui em latim uma flexão residual e artificialmente organizada, mesmo se aplicada a termos antigos.

1 ) Os dois vocábulos mais frequentemente empregados, -s e diē-s, continuam antigos temas sonânticos, cuja soante desapareceu no acus. diante de m; daí: *rē(y)-m e *diē(w)-m. Se a vogal longa não se abrevia diante e consoante final diferente de s, os temas *- e *diē- refizeram uma flexão completa.

2 ) Entre as demais formações cujo tema era em -ē, há sedē-s (do verbo sedēre). Mas frequentemente o sufixo ē < -eH 1 alternava com H 1 ; originando no caso oblíquo is (sedis). A partir dessa alternância, algumas palavras desenvolveram uma dupla flexão: -ēs/ -ĭs, como famēs, -ĭs; tabēs, -ĭs e -ēs/ -ēī, como famēs, -ēī; tabēs, -ēī, em que ē permitiu uma flexão regular.

3) Mas o maior número de termos da 5ª declinação se constitui por meio de um sufixo < *- yeH 1 . Esse sufixo, junto a um tema derivado de *-t-(ĕ/ŏ)-, constituía com a consoante precedente a sequência tiēs, que se tornou produtiva e que se juntou a um tema temático:

dūritiēs, de dūrus; canitiēs, de canus, constituindo a série ĭtiēs. O sufixo evoluiu em latim para ou iyă. Assim, uma mesma palavra, no curso de sua flexão, podia apresentar um tema em ē < *-eH 1 ou um tema em ă < *-H 1 . Em data histórica, o latim generalizou ē para toda a flexão. Mas, da forma em ă, algumas palavras

fizeram um paradigma paralelo em ă, -ae (1ª declinação). Assim, temos as duplas luxuriēs / luxuriă; materiēs / materiă. As formas de 1ª declinação tenderam a suplantar as de 5ª, que se tornaram formas poéticas; daí alguns poetas criarem as formas amicitiēs (Lucrécio); munditiēs (Catulo).

4) Enfim, spēs, tema consonântico (de spērāre), que passou à flexão em –ēs por causa da ambiguidade de sua final no nom.

Obs.:

(masc./fem.).

Esta

declinação

não

comporta

nomes

neutros.

Todos

são

femininos, exceto

diēs

Flexão dos temas em –ē:

1) Nom. sing. junção de s ao tema em ē: materiēs; plebēs; rēs; diēs.

2) Acus. sing. junção de m ao tema em ē, daí ēm > -ĕm: materiĕm; rĕm; diĕm.

3) Gen. sing. como os temas em ā, foi formado pela junção ao tema da desinência s: diēs (Ênio); rabiēs (Lucrécio). Analogicamente, introduziu-se a desinência ī da flexão temática, daí ēī: fidēī (Lucrécio). Entretanto, esta forma não resiste, originando a evolução:

a ) ēĭ (abreviamento do segundo elemento) > -ēy (ditongo no primeiro elemento longo),

levou a ē (perda do segundo elemento do ditongo): diē (C.I.L.); (Pl.); perniciē (Cic.);

b ) Outro tratamento de -ēī > -ĕī (abreviamento em hiato) > -(ditongo), esta última a forma mais frequente. Algumas vezes, porém, ainda presenciou-se uma evolução para -ī, em fins da

República, ou -iei > -: perniciī (Cic.).

4) Dat. sing. O latim herda uma final *-ēi < *-ē-ei, suscetível a evoluir para -ē: fidē; diē; rē (Pl.). Mas, o latim conhece ainda uma final -ēī, com duas longas: diēī (Manílio); rēī (Luc.) e outra final -ĕī: fidĕī (Manílio); rĕī (Hor.). A analogia dessa palavra e a influência de palavras como civī estenderam a final -ēī a outras palavras. Mas há poucas anotações de dat. sing. desta flexão. Em palavras em -iēs era comum o emprego do dativo de tema em-iă correspondente:

luxuriae, no lugar de luxuriei. Apenas as palavras dies, fides e res registram o dativo com frequência.

5) Abl. sing. A forma -ē < *-ē-d: diē; fidē; materiē. A consoante final -d não foi atestada em latim, como em outras declinações.

6) Nom.-Acus. pl. Ambos os casos apresentam a final -ēs, foneticamente explicada em res:

Nom.: *rē(y)-ĕs > rēs; Acus.: *rē(y)-ns > rēs. Sobre esse modelo se refaz o acus. *dyē(w)-ns > diēs. Apenas estas duas palavras são frequentemente atestadas. Excepcionalmente ocorrem speciēs (Cic.); spēs (Pl.; Cic.).

7) Gen. pl. As formas -rum e diē-rum são analógicas aos tipos de 1ª e 2ª declinações, sendo as únicas que atestam o gen. pl., pois as demais palavras têm valor abstrato, pouco aptas ao caso em questão.

8) Dat.-Abl. pl. Apenas duas formas, novamente, são atestadas: -bus e diē-bus, que apresentam uma desinência semelhante à de puppibus. Varrão e Festo atestam ainda a forma speribus.