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Patrick CHaRauDEAU CHAD AUDE AU —/p-33-3F p: 86-73 p- 242-2 3F t ANGELA M.S. Conta Tradugao Ee CONTEXTO Informacao como ato de comunicagao Seexisce um fendmeno humano e social que depend precipuamente da linguagem. € oda informagao. A informacio é numa definigio empicica minima, a «rarsmissdo de um saber, com a ajuda de uma determinada linguagem. por alguém que o possui aalguém que se presume no pos Assim se produriria um aro de cransmissfo que faria com que o ind! passasse de um zstado de ignorancia a um estado de saber, que © desconhecido para mergullii-lo no conhecida,e isso gracas& ago, bbenévola. dealguém que, poresa azo, poderiaserconsiderado um benteiter Essa definigio minima, po: mais alerufsra que pareca, suscita problemas considerdveis: quem ¢ 0 benfeitor ¢ quais :0 os mot informagio? Qual é a natureza do saber a ser trans vem? Quem ¢ esse outro para qaem a informasio € mantém com os ado pragmicico, pscoldgico, social desse ato e qual é seu efeito individual eso Qualquer que soja a pergunta que se fisa a respeito da informasio, Yora-se sempre para a questio da linguagem. A linguagem nio se refere somente aos sistemas de signos internos a uma lingua, mas a sistemas de valores que comandam o uso desses signos em circunstincias de comunicagso Partculares. Trat-se da linguagem enquance ato de discuro, que aponta Para a mancira pela qual se orgeniza a circulagio da fala numa comunidade 8 iseurso is midis. aa 2 social ao produzir sentido. Assim, pode-se dizer que a informacio implica processo ce producio de diseusso em situagio de comunicacio. Entretanto, & verdade que a questio da informagdo tomou feigées particulares desde 0 momento em que rantada, nfo somente como objeto de di cibernética, ceoria da informagio), mas também no ambito de uma atividade |. Eis que um fendmeno geral, oriundo de uma atividade suscerivel de ser realizaca por todos (informar alguem de alguma coisa) parece transformar-se no dominio reservado de um setor particular, asmidias, cuja vocaeio essencial seria informar o cidadao. Assim sendo, surge um questionamento que toma ares de acusacio, como, al ds, acontece cada ver que ume atividade discursiva que pode ser praticaca por todos (contar, descrever,explicar, ensinar exc) torna-se apandgio de um grupo particular: que pretersio é essa de se dizer especialista da informacio? Por que a i informacéo um dominio reservado? Por que tal exclusividade? Assim, essa atividade encontra-se na mira da crtiea social, obrigindo seus atores a se licar, obrigando as midias a produzie, paralelamente ao discurso de ago, um discurso que justfique sua razio de ser, como se além de ‘is 2 que & preciso saber”, as midias dissessem o tempo todo: porque temos a competéncia para informar”. UM PONTO DE VISTA INGENUO Existe um ponto de vista ingénuo a respeito da informacio, Nao em ratio de seu obj ico (formar 0 cidadio), mas do modelo de comunicasio social que Ihe € subjacente, 0 qual, mesmo nfo sendo explictado, étido como uma evidéncia, Esse modelo —que,aliés, 60 mesmo do senso comum ~ corresponde a uma visio tecnicistado mundo sodal que coincide com a das primeiras teorias da informaséo," cuja ingenuidade tem sido apontada com freqincia. Segundo esse modelo, cudo acontece como se houvesse, entre uma fonte de informagao (que poderia ser a propria realidade, a4 qualqu {uo ou organismo dispondo de inforagies) Pari 1975, Ess tesa meen Schannon H. Tie manag el con Ainlormagaa ss: 32 de comunisasha € um receptor da informagio, uma instincia de mensmissio cum mediador individual ou um sistema inte:meditrio) encarregada de fazer circular um certo saber da fonte a0 receptor: Fonte de informasao = Instincia de transmissio => Receptor A fonte de hhaveria certa uantidade de informagées, sem que seja levantado 0 pronlema de saber qual é a sua narureza, nem qual é a unidade de medida de sa quantidade, G receptor é considerado implicitamente capaz de registra: e deco: “racuralmente” : informagio qae lhe é tran: 6 problema da interpretacio, nem 0 do efe (saber, por exemplo, se este coincide com o efeico visado pels instincia de informagio}* além disso, nada € dito sobre quem julga 0 etiso que uma informacdo deve:ia produzir, ea propria questio do efeita no ¢ levantada, Peis considera-se que, com a excesio de alguns poucos casos de perda, a informagio passaia integralmente. Eferivamente, considera-se que a int derra io assegura a maior transparén Trata-se de um modelo que define a comut formagio & definida como um lugar no «| car ida, sem que seja levantado produzido sobre o receptor a ensreaa clo emissor,cujainicaFunsio seria “codificar” 1 mensagem. ea do receptor, cula fungio seria‘decodificar” esia mesma mensigem. Model hhomogéneo, objeivo, que elimina codo efi constitutiva das erocas humanas, ¢ identifica a comunicagao com a informasio ¢ esta com um simeles procedimento de transmissio de sina Com isso, 0s problemas concernentes ao mecanismo da iaformacio sé poderiam ser externas 20 préprio mecanismo. Com relagio 4 fonte de informacio, s6 havetia 0 problema do acesco a cla. Nao ter acesso informagio ¢ nao poder saber, logo, no poder informar, Em conseqliéncia, desenvolve-s, por um lado, a necesiria sofistcagio dos meios pare que se possa buscat, o mais rapidamente possivel. 2 informagio conde ela esteja: por outro lado, desdobra-se a necessicia luta contra tudo 0 ue poderia opor-se & vontade de saber. Esse problema & 0 da censura, mais exacamente o da ‘censura & fonte". po doses educa que por aco aun ¢ cs de compreender rei 35 Com relagéo ao receptor, haveria > problema da difiado da informacio. Nio poder difundir uria informagio € nao poder fazer saber ~ logo, urna ver mais no poder informar. Em conseqliéncia, surge a necessidade de ‘organizar um sistema de dstribuicao em diresio ao alvo que se queratingir. Quando, nesse siscemé, se interpSer elementos que impedem seu bom fancionamento, cracase de “eensura 4 dfs Comrelagio a insténcia de transmissio, havetiao problema do trztamento da informasio. Isso implicaria efetuar am tratamentoque nao adesvictuasse, que assegurasse a maior transparéncic entre a informago que se apresenca como um “estar ai” e ainstancia de recepgao que deve decodifict-la tal e qual intraducio de técricas (quase sempre ligadasao dominio daintligéncia destinadas ora a definir a unidade de informagao para poder ou mesmo “computé-la" (velho sonho da méquina humana), ora medirojimpactodomodo detratamento junto os receptores' para poder, conjugando os 08, variar a performance da mensagem informativa segundo a quantidade dessas unidades ea forga desses impactos Todos esses problerras so reais, mas sio apresentados de maneira muito rescritiva s, sobretudo, slo simplistas demais, pois nfo levantam as questées de fundo que concernem & natureza dessas trés instincias (fonte/transmissio/ receptor) ¢ as relagdes que elas mantém entre si. As quest6es sio temiveis e as respostas complexas. VERDADEIROS PROBLEMAS A informagao nao existe em si, numa exterioridade do ser humano, como podem existir certos objetos da realidade material (uma dtvore, a chuva, 0 Sol) cuja significacao, certamente, depende do olhar que o homem langa sobre esses objetos, mas cuja existncia ¢ independence da ago hamana. A informagao é pura enunciacio. Ela consttéi saber e, como todo saber, depende co mesmo tempo do campo de conhecimentos que o circunsereve, da situagdo de enunciagio na qual se insere ¢ do dispositive no qualé posta ‘em funcicnamento. Antes de defini-la de maneira mais precisa, evoquemos 05 verdadeiros problems suscitados pelo faro de informar. renter Eads Unis Ver see pet, os enudosdeimpc", senoliox pa 36 se (Com relacio a fonte, pare além da questo de saber qual éa narureza da informagdo, coloca-se uma primeira questo que concerre sta vtidade, é 0 que constitui seu valor de verdade.* Essa ques uma série de irdagagdes: 0 que é a “autenticidade” de enquanto fato de ? Tals indagacoes correspondem aquesties que c receptor podria serd que isso existe?” (¢ “existencialnente” verdadeiro?) (€ possivelmente verdadeito?); “serd que isso prec 'serd pertinente?). Hd uma segunda questio que se coloca a respeito da fonte; trata-se da sleo da infoemacio, seles2o que se opea ‘num conjunto de fatos que parecem impossiveis de trensmitir em sua roralidade. Em que campo designificagio secial deve efetunrse a sel no interior desse campo, com que critérios de imporcincia cu de priovidade Em fungio de que sio definicls esses critérics? Dos interesses do media Dos interesses do al | hé ou no ga subjetividade, ou contra a possivel manipulecio do medido Com relacio ao receptor, a questi ¢ saber o que ele & ecomo atingi-lo, pois, como dissemos, o recepior nunca é apenas o alvo ideal visado pel> fornecedor da informagio. Sendo assim, & conveniente, na anilise de codo a0 de inform preduzido, e, por ‘uncar uma nova sétie de questies: que efeito é visado quando se quer informar © que tipo de destinatirio € o alvo? Se a pertinéncia de uma informacic depende das hipdteses que podem ser fe saber do destinatirio (nao se in isso € posst comunicado? maneira, mas sim de acordo com a competéncia que se atribui ac terlocutor), de que meios dispée o informador para conhecer o estado de alvo? Que provis tem sobre ele,’ e na auséncia delas, contingéncia de fabricar seu alvo e Ihe impor uma informacio? A mesma informagio teré 0 mesmo efeito num espago que seja privado do estaria na rmagio 1 de verdad depend mbm doshe: scudos de impacto que fora tudo ents aes pone Discurso destino de uma informagio quando ela érecebida, recolhida e posteriormente fora do dispositive inizial (0 que acontece freqiier temente com o vazamento de informasio)? Nao poderia produit efeitos imorevistos de rumer ou boato? Enfim, uma acumulagio muito grande de informacio 1iio acabaria por produzir um efeico de saturagio contra-produti Com relagio ao traramento da informagao, ha o problema da extensio, uma vez resolvidas as questdes precedentes. O tratamento é a maneira de fazer, 0 modo pelo qua o sujeito informador decide transporem lirguagem {ecambém iconicamente, caso possarecorcer imagem) os ftos selecionados, em fungio do alvo predeverminado, zom o efeito que escolheu produ Nesse processo, esti en: jogo a int como néo ha ine ceferuadsas pelo sujitoirformador, Ora toda escolha se caracteriza por aqui que rerém ou despreza; a escolha poe em evidéncia certos fatos deixando ‘outros a sombra. A cach momento, o informador deve perguntar-se nZo se objetivo ou transpurente, mas que de wratar a informagzo e, concomitamemente, que sfeico produzisia uma outra mancira, ¢ ainda uma outra, antes de proceder a uma escolha uagem é cheia de armadilhas. Isso perque as formas podem. ter vrios sentidos (poiisemia) ou sentidos préximos (sinontimia); tern-se rents consciéncia das nuances de sentido de caida uma del disso, um mesmo enunciado pode ter virios valores (polidis valor refetencial (cle descreve um estado do mund coisas sobre a identidade as se consciéncia dessa mul ue a significagio é poita em discurso retranst 1 parece produzic tal mancira através de um jogo de dito e nao- to de que informa tem pes gic ira ii A nlrmagao camo ato ds dito, de explicito e imy que nao € >erce conscigncia dessa multiplicidide de efeitos discursi ‘Comunicar, informar, eudo éescolha. Nao somente escolha de contetidos a transmitt, nfo somente escalha das formasadequadas para estar de acordo com as normas do bem falar ter clareza, mas escolha de efeitos de sentido para influenciar 0 outro, isto é, no fim das contas, escolha de esmaréuas discursvas.Jear-Luc Godard, sempre presente para dizer 0 que nao se diz, ceu um conseho aqueles que escavam empenhados em comemorar o io do cinema: “Nao digam: ‘este ano vamos projetar 365 filmes os irmaos Lumiére’, mas sim: ‘no vamos projetar os 1035 filmes dos imaos Lumitre.” E, pois, impossivel alegar inocéncia. O informador & obrigedo a reconhecer que esti permanenterente engajado num jogo em que ora é 0 erre que domina, ora a mentia, ora 0s dois, a menos que seja tio-somente a ignorincia, ar todos: tem-se 39 Informar paza qué? A finalidade do contrato asce de vitias contradigoes: é preciso que o maior ntimero de cidadaos tenha acesso & informacio, mas nem todos os encontram nas mesmes condigdes de acesso; é preciso que @ informago em ‘questo seja digna de i, mas suas fontes sio diversas e podem ser suspeitas de tomada de posisio parcial, sem contar que a maneira de relatila pode satisfazer a um py é cidados possam expressar-se, dar palavra se torne publica po: interessam pelo anonimato se puderem integrar a palavra andni encenagio dramatizante, A informa esas contradic6es, o que pode ser resumido na segainte formula: gozar da maior credibilidade po 1 de receptores, ‘A finalidade do concrato de comunicasio midistica se acha numa tensio entre duas visadas, que cortespondem, cada uma delas, a una légica particuler: uma visada de facer saber, ou visada de in‘ormacio pro dita, que tende a produzir um objeto de saber segundo uma l6gica eivica: formar o cidadio; uma visada de fezer sentir, ou visada de capraséo, quic tende a produzir um objeto de consumo segundo uma captar as massas para sobreviver & concorréncia, I com o maior ntimero pos 86 Poder-se-ia pensar que se trata da mesma finalidade que a do contrato de comunicagio publicitéria, em que também se enconira a tensio ertte ‘nformar para xpresentat 0 produto ¢ suas qualidades e sedueir pata incitar © maximo de pessoas a consumis, Esses dois tipos de contrato, entretanto, & diferenciam porque, no publicitétio, é a segunda visida que domiaa, scarando a primeira e consticuindo finalmente o que o legitima: seduzit para vender ot (0 que dd no mesmo) para fazer crer que se vende.! No contrato de informagéo, é a arimeira visada que domina, a do fazer saker, que esté ligada a verdade, a qual supde que o mundo tem uma existéncia reportado com seriedade numa cena de deveria ser sec pois € contrériaa precedente. Poder-se-ia defender a idéia inversa e gue, no contrato de informagio mididtica, tal como no contrato da publicidade, € + segunda viseda que prevakece e mascara a primeira. Mas to de comunicacac se define atraves das representagbes idealizacas ificar socialmente e, portanto, o legitimam. Mesmo sabendo que 0 discurso de informacio se sustenta numa forte tensdo do lado da ‘aptasao, nao seria accitdvel, sob o Angulo das representagdes sociais, que extase exercesse 2m detrimento do fizer saber, embora isso seja perfeitamente aceito para o discutso publicitério. O jogo d= mascaramenco de uma visada utra € inverso nos dois contratos; cada um deles tira sua legitimidade dda oposte: 0 contrato mi fo da visada de captagio. todo ck d publ ‘VISADA DE INFORMACAO: DESAFIO DA CREDIBILIDADE A visada de informagio consiste em fazer saber a0 cidadio o que aconteceu ou o que estd acontzcendo no mundo da vida si ido-narrario, para reportar os fatos do mundo; ¢ a explicapio, para esclarccer 0 destinatério da informagio sobre as causas e zs conseqiléncias do surgimento desses fatos. Num e noutro caso, embora de rmaneiras diferentes, coloca-se um problema de relagio com a verdade, .guagem, numa p. verdadeiro ¢ falso como nagées remetendo a uma realidade Iégica no pertencem a uma problematica Lingiiistica. Entretanto, acham-s no dominio lingtifstico nogSes como as de significar o verdadeiro ou signifcar o fal, ist &, produzie um valor de verdadeiro ou de falso por meio de discurso. A verdade, sob esse ponto de vista, avalia-se através de um dizer, logo, é uma questio que pode ser tratada segundo dete-minadas ‘oposigoes: 0 verdadciro seria dizer o que & exatolo falso seria dizer o erro; 0 verdadeiro seria dizer o que aconteceu/o also seria inveatar o que ndo acontecets; o verdadeiro seria dizer a intengio oculta/ o falso seria mascara a intencdo (mentira ou segredo); enfim, o verdadeiro seria fornecer a prova das explicagies/o falso seria fornecer explicagbes sem prov Dizer 0 exato” significa que hi coincidéncia entre o que é do mundo exterior’ linguagem. Alémdisso, essa coircidéncia deve 90derser pela percepeao humena (0 olho como prova do visto) no 0s fatos jo de experiéncias (a gravtasio), de instrumentos ex ) ou de um certo modo de caleular (quandose diz de eragio matemética que ela estd correta ou exata, e nao verdad “Dizer oerro”, inversamente, seria a impossibilidade deverificar a.coi No discurso de informz¢io, entrecanto, no se trata da verdade res 20 sem fileragen nem falsas aparéncias, entre 0 que é dito os fatos descritos. O ‘que permitiria atingir idealmente essa ‘orma de verdade seria a “designacio”, procedimento que, como num sketch fimoso de Raymond Devos, consistiria 10 mesmo tempo em que fosse mostrada.? > Oct dosh & La joun can" Ca par deo, Pais, Dent, 198 88 , 0 meio mais eficaz de designagio $ ips da ilusto de serismo, fazendo com que se tome aquilo que rativos da transmisséo direta. Nesse ido, certos 1uidos ouvidos pelo rédio funcionaim como autenticago do acontecimento (gritos, rumoresde mul de trens em mavimento etc., para autenticagao nas midias é a prova pelo icat 0 que se passa no local). A o-dito-ow sem disfarce “o que é", mesmo quando se trata d agens que nos dizem: “Isto éa morte em transmisséo direta. Der o que aconteceu significa que nao hi coincidéncia temporal entre 0 dico ¢ 0 fato e que o relato que se instaura entre os dois s6 pode ser dz reconstituigao. Assim, 0 problema que se coloca é o da veracidade da reconstituigao, de seu grau de verossimilhang: que pode ir do mais provivel 420 improvével, ¢ mesmo ao inventado. Torna: verossimil ¢ tentar fazer ere: gue o relato correspon apmsentando-se 0 dito como 0 mas O procedimento ‘que permiteatingiressa forma de verdade€oda"analogia", quetentadescrever mundo segunds roteiros de verossimilhanga.? Nas midias, os eios utilizados io aimagem, ostestemunhios (que dizem, por intermédio dealguém,o visto eouvido, ovivido), assim como uma certatec facos. E preciso que ao término desse procedimento de reconstituicéo a midia ppossa dizer, por exemplo: “Eis como 0 seqiiestiador agiu.” Dizer a intengdo significa que aquilo que é dito corresponde ao que ¢ pensado. SupSe-e entio que se instaure uma telacao de trangparéncia entre © que € enunciaio € 0 que pensa o sujeito que fala. Essa transparéncia & considerada, nas representagdes socials, come devendo set a norma, ¢ se, per acaso, se descobre que hd uma relacso de ocultagao (mentra ou se surge a necessidide de desve fo” que deve atescar mindvel, com aquelas 89 asco te rca cree neenne nt EnPOTESEETOTESE EIDE e que, oque ¢ dito agora, corresponde a uma intengio verdadeire saber oculto. Se € 0 prSprio sujeito que desvenda a incengéo que ma em segredo, a revelagio consiste numa confisséo, se é um outro sujeito que revela a intengo oculta, a revelagio consiste numa densineia, mas € preciso entio apresentar a prova. Nas midias, os procedimentos que permitem provocar revelacdes sio as entrevistas, os bate-papos ¢ os debates, acompanhados de investigacdes e de pesquisas. E necessério que a0 término do processo de revelacio a midia possa dizer: “O que foi dito nao passa de imulacro. Eis 0 que esté por tré.” Fornecer a prova das explicagbes significa mostiar 0 que, por definigio, € invisivel: 0s motivos dos fatos ou sia possivel conseqiiéncia. Néo se trata mais de reportar fatos, mas de extraic deles sua razio de ser. Esse dominio daverdade é, pois, 0 do raciocinio, o da possibilidace de remontarou descer no encadeamento causal, ¢ assegura: sua validade através das provas mais incontestaveis possiveis. O problema, aqui, € no somente o da forca da idade das explicacbes. Nas midias, os git essa forma de verdade sio os que provar ¢ fundamentar a v: procedimentos que petmitem a dependem da demonsnagao, cujos meios sio diversos: uns se obtém pela dda imagem em , a0 téemino da possa dizer: “Bis por que isso aconteceu assim,’ lias, em sua visada de informacio, esto em confronto pe:manente com um problema de eredibilidade, porque baseiam sua legitimidade no “fazer ret que © que € dito é verdadeiro”, Desse modo, estio engajadas num jogo da verdade, que consiste em corresponder aos diferentes imagindtios sociais que as questionam. Dizer 0 excto & dar a impresséo de controlar 0 mundo no instante em que ele surge, € nada nem ninguém poderia se opor a essa verdade caprurada no momento em que sai da fonte; cis por que as midias est2o sempre em busca da trasmissio direta. Dizer 0 que aconteceu &construir a memér dos homens e permitir-lhes aproy se do passado que foge inexoravelmente; é esa a base de certos reality sh Revelar a intengio oculta equivale a triunfa: sobre forcas do poder que se apdiam no segrado ena mentira, como nas ertrevistas e nos debates politicos, ou entdo a tritnfar sobre enigmas constizafdos pelo conhecimento do hon istas.? Fornecer « prova das cexplicagderequivale a manifesta o triunfo da taz4o, 0 poder da int ‘humana, adominasio do pensimento sobte a matéria, sem a qual a desctigio dbs fatos nao teria nenhuma utilidade. E por isso que é wera pergunta, como o fer 0 secretirio de redacio de um grande jornal regional, durante uum debate: “O que voces desejam que os jomnais Ihes tragan, mais Fatos ou mais comentérios?” Um nao existe sem 0 otro, pois 0 4 fale dos fatos ¢ que se faca um comentétio a respeito. como se pode ver nos call shows int quese VISADA DE CAPTACAO: DESAFIO DA DRAMATIZACAO ‘Toda visada de captagao estéorientada parao parceiroda troca, um parceito tural ( necessério institui-lo como destinatério de aa maioria do piblico, ¢ isso por uma dupla 3780: porque estiem concorrénciacom os demais organismox de informacio, fo quea coloca num campo de uta comercial por sua prépra sobrevivéncia econémica; ¢ porque, em nomeda posigSo que ocupa insticucionalmente no espago puiblico, tem como dever informar, o mais corretamente possivel, 0 ‘ccnjunto dos cdados. Assim sendo, encontra-se engajada nabusca do maior iiimero de cidadios consumidores de informagio, Mas quanto maiot for 0 niimero a atingir, principalmence msios para atingi-los dependem de u paixao pela infor visada encontra-se no extremo oposto 20 efeito de racionalidade que deveria direcionar'”a visada deinformagao. Da decorrea tensio quejé mencionamos, Para satisfazer esse principio de emogao, a instincia mi procedera uma encenacio sutil do dis-urso de informagao, bascando-se, 20 sociocultural ¢ no conhecimento dos universos de crengas que af circulam — pois. as emogdes ndo sio um inefivel aleatério, Elas io socializadas, res das trocas. Essa regulagio, por um lado, segue os movimertos da afetividade e, paralclamente, as representagGes que atribuem valores as condutas € as reagées emocionais: © contrato de informagic mididtica ¢, em seu fundamento, marcado pela contradigio: finalidade de fazer saber, que deve buscar um grau zero de espetacularizagio da informacdo, para satisfazer o principio de setiedade ao produzir efeitos de crediblidade; finalidade de fazer sentir, que deve fazer escolhas estratégicas apropriadas & encenaco da informacéo para satis’zer 0 princfpio de emogao 10 produrir efeitos de dramatizacéo. ‘As midis situam-se num campo de poder complexo que entrecruza vétios ‘outros campos cujo ponto comum ¢ 0 famoso alvo da maioria: 0 cémpo do 0 diante do qual as médias se legitimam por uma dupla agio, de rua er mas deranged uma defi iad do its Quad 18, so 192, Pi Informar yas que? £0 opor-se a esse campo, e de interface com a sociedade civil, 0 que as lea a denunciar; o campo do econémico, no qual as mi se legitimam porsua capacidade de alcangat 0 grande piiblico, o que as leva a dramatizar; 0 campo da cidadania, no qual as midias se legitimam por ‘uma aptidio em realizar um projeco de construcio da opinio piiblica, 0 que as leva a serem crediveis. Na tensio entre os pélos de credibilidade e de capragio, cuanto mais as idias tendem >ara o primeizo, cujas exigincias sfo as da austeridade racionalizante, menos tocam o grande quanto mais rendem para a capracio, cujas exigéncias sio as da imaginacéo dramatizante, menos crediveis lias nfo ignoram isso, ¢ seu jogo consiste em navegar entre losao sabor de sua ideologiae da za dos aconcecimentos. ese trata de ftico que se encerrairvari questbes sobre o destino humano: “Como é poss . Estamos di psizossocial que faz. com que o processo cog ' “Por que as coisas ite do paradoxo do dado vo de compreznséo de uma formagio 86 possa desenvolver-se através do mecanismo psiquico que integra o saber a cepresentagbes captadoras. Aqui, cle € levado ao extremo, * bso se oeidrarmer que a aise mia eo pcos sep Sobre alguns géneros e variantes de géneros Os géneros de informacio so, como jd demonstramos, o res entrecruzamento das carac as de um dispositivo, do grau de engajamento do sujeito que informa edo modo de organizagio discursivo que é escolhido. Além disso, como o contraco mididtico se desdobra numa relagio triangular entre uma instincia d: informacéo, um mundo a comentar ia consumidora, «rés desafios estio presentes na corstrucio de qualquer géncro de informagio: um desafio de visibilidade, um desafio de inteligibilidade e wm desafio de espeacularizayao, que fazem eco & dupla finalidade de informacao ¢ de captagio do contrato. O desefio de visibilidade faz com que as noucias sl midiética scjam percebides o mais imediatamente possivel, com queelaspossam » atrair oolbar ou a atenggio e que possam ser reconhecidés simultaneamente em sua distribuicio temstica. Esse desafio corresponde ao que se costuma chamar de'efeivo ceantincio”,indispensével paraquese produzaa.entrada dos Ali Babés, que sio osconsumidores de noticias na caverna da informacio miditica, ecria ‘uma estrucuracio lo process evenemencial O desafio de inteligiblidade leva, ror um lado, a operar hierarquizagSes no tratamento das noticias, tratadas ou como acontecimento relarado ou como acontecimento comentado ou provocado. Por outro lado, leva a trabalhar encenacio verbal (a escritur), visual (a montagem icdnico-verbal) ¢ auditiva (a fala ¢ os sons) de tal maneira que dé a impressio dz que 0 adas pelainstincia 212 ~ 3 sre atgans gee “xiondmica” do processo evenemencial. O desafio de espetacularizagao leva a trabalhar essas diferentes encenagdes, de tal maneira que, no minimo, elas susciter éreses, emogao. Esse desafio. Essestrés desifios coexistem e se misturam intimamentenos dispositives, tanto na primeiaa pi na composicio dos t no encanto, estio mais ligados do que outros ao cumprimento desses desafos, dos jornais, dos semandrios e das revistas, quanto ENTREVISTA: PALAVRA DA INTERIORIDADE ipal do st reagio muito particular entre inst ia mididtica e receptor: a de uma incimidade e conivéncia intelectual, ausentes tanto da imprensa quanto da 0. Intimidade, no melhor e no pior, porque a voz revela & audigio, tel ita ou inconsciente, os movimentos da afer: ot desfavoréveis, o tremor das emogies, frieza ou paixio, as vibragies do os idade ou mentira. Conivéncia (ou rejeigio) porque a vor se manifesta numa relagio de oralidade ica, segundo modos de lc, sentimentos favoréveis, mas esse género € talvex o que mais contribui para a deliberago democtitica pelo fato de set palavra pura e palavra questionada. Dentreas diferentes situagdes dialégicas,existem trés queestdo préximas umas das outras, aentrevisa,o baw-papoea conversa, que,noenanto, merecem tsonne darsua corpus radiopheniqs” por in Fa Diseraga 508 Eout" por Anne Matic Houdehine em Apt disown 22 ser diferenci fisicamente presentes um diance do oucro? e tém di nos turnas de fala. Ela se distinguem pelo modo de regular essa © bate-papo supe queos dois paceiro tmigualdade destanu, queclestratam do mesme tema com uma competéncia que se sup6e igual ecom ocuidadode br essa competénci aservigo da melhor compreensio do problema‘ o que comara alzeendneia dos euros de fala mais ou menos regular tem porel de direco, cada um torrando a palavra como e quando acha S \ entrevista, a0 contratio das duas outras, exige uma difereaciagao de satus, de tal modo que um dos parceiros sejalegitimado no papel de 1um papel de “questionado-com-raz6es-para-ser a de fala seccha encio regulada e controlada pela “questionador” eo outr questionado"” A. \ instancia entrevistadora segundo suas finalidades. Entrevista jornalistica F um terceiro-ausente, o ouvinte, num dispositive triangulat primeiro tra sua legitimidade de um “Frocurar fazer ilar seu convidado para evelar uma verdade oct”, pelo fato de que seu papel consiste cm fazer surgit opinides; osegundo de um “Tenho algo a dizer que concerne 20 24 wd sere stnunsgenrse variants egies bem comum’, lo faro de que sua presenga no rédio 0 consagra nesse papel 0 serceio de um “Estou aqui para ouvir alguma coisa de interes geral que me jada como uma revelagio’, pelo fto de que le std li para saber. A partir destas condigdes de base sto postas em cena diversas variantes de enerevistas: ‘taentrevistepolitica, que se define pelo propésico deconcemiravida cidadi, pela identidade do entrevistado. Este, enquanto convidado, é um ator jesmoou de um grupo que participa da vida politica ue tem um certo poder de decisio ou de pressio. Ele sate que o que dsserseréinterprerado de maneiras diversas, razdo pela qual ‘io pode sepermitir dizer as coisas comoele pensa. O entrevistador, per a tirar do convidado o méximo de informagdes e fazer intengdes ocultas dest de um jogo de nocéncia, falsa lade, provocacio, ¢ trazendo & luz as posigdes contraditérias do convidado; masele deve, sobretudo, parecersérioecompetente, mostrando queconhece bem o dominio em questio. Aentrevista politica éum género que se presume pdr & disposicio da opinido p julgamentosede iquem c engajamento do entrevistado, Esse género se baseia iso-dizer-a-qualquer-prego”. ‘+a entrevstadeespecialsta (cu de expert) por um propésice técnico concernente a diversos aspectos da vida social, econdmica ¢ cientifica. Um es ente desconhecido da grande pibliso (a no ser quese trate de um habitud), cuja comperé reconhecida ou suposta, ¢ convidado para responder a questées técni exclarecer um problema, orientar 0 debate piblico sobre o tema trat sabendo que deve simplificar sua explicacio para torné-la acessi especialistas. O apresentador representa entio o papel do que: ingénuo, como se ocupasse 0 lugar do cidadio de base, de traduror (através de reformulaySes) para simplifcar ainda mais a explicaglo, de animador, ara tornat a entrevista viva catraente, fragmentando-a em nome de regras Profissionais.A entrevista deexpertise €um ginero que se resume a fornecet Aopinido pébica um conjunto de andlisesobjetivas, trazendoaprovadesua legitimidade pelo “saber” pelo “Saber dizer entrevstadrtestemunhe, quesedefine por seu propésito,deseroraorelato de um acontecimento consideredo suficien:emente interesante para ser tratado pelas midis, ora umabceve opinigo emitida em relagio aos fatos da 215 Discurso das mils atualidade. O entrevistado, na maior parte do tempo, é andnimo, tendo 0 papel de testemunhar por ter sido observador ou vitima do acontecimento represeatante do cidadio médio, ss ‘casos presume-se que a testemunha represente uma categoria de (otrabalhador das minas,o pastor)*crjo destino renta-sedefinirao produzir acor também fazo jogo daemoxio pela manein de fazer perguntas ou de fazer comencdi s, além disso, conetibai para fragmentar ainda maisaentrev deve ser breve. A entrevista de testemunho ¢ um gnero que se presume 1 aexisténcia de faros e despertaraemogio, trazendo uma provade idade pelo “visto-ouvido-dleclarado”. + a entrevista cultural que se define igualmente'for seu propésito que trata, no caso, fria, cinematogréfica, artistica, procarando penetrer os mist iagio. O convidado, geralmente auror de obras publicadas (ou simplesmente um critico), rem maior ou menor notoriedade, mas, de todo modo, fica consagrado pel ter side convidado. C enta vatios papéis de intimidade, de fe entusiasmo, visando, pelo co que passui a respeito da obra do au seria suscetivel de revelar os arcanos do mi como s esta dependesse de um: © conv-dado, protegendo o seu mis:ério, tenta escapar o tempo todo 20 questicnamento no qual o entrevistador quer ercerré-lo, A entrevista se egitimado para reagit. Em alguns cultura € um género que se presume entiquecer os conhecimentas do cidadio, e que se fax?” que se opde a + aentrevistade estrelas seu prop6sitodizrespei do mundo do esperdculo (atores, cantores et incia, estd obrigado a aparece imentarsua notoriedade; ele se presta, com maior oumenor fica pela reszosta & pergunta: “Como é que ele ” do especialista a vidadaspersonslidades convidado, mais ou ida e fazer uma boa menosem figura para boa vontade, &s perguntas do entrevistador, que procura fazé-lo falar de para tentar penetrar no espago privadoc no imidade do convidado.' suscitar um “prazer culpado”."3 Problemas de credibilidade A entrevista jorn ca ou televisiva & um genero que obedece a um conjunto de limites. Hé um problema de credibilidade no subgénero politico, na medida em que se pode prever antecipadamente zs perguntas e as respostas: perguntas provocadoras mas pouco convenientes de entrevistador, com direito de resposca dificil de levar a bom termo, respostas de defisa, de esquiva ou de contra-ataque lo enrevistado, quer seam governantss no poder ou membros da oposigio. Trata-se de uma mecinica “previsivel demais para set honesta’, isto é, para ser credivel. Problema de credibilidade igualmence na medida em que as entrevistas de testemunho (¢ em alguns casos também as de expe autenticar os fatos sio mais pretextos do que provas: a fragmentagio da encrevista (brevidide no tempo ¢ interrupeio das tespostas por comentirios), icumulacio dastestemunhas ce opiniao (entrevista de rua) mais ou menos selscionadas em fungio do interesse das respostas, produzem um efeito de ntrevistas-libis’ da informacio, O género esbarra também numa contradicdo que tem a ver com o valo: simbélico que se atribui & fala numa dada comunidade culeural. Quanto eis complexo 0 enémeno a explicar, tanto mais © pensamento & profunde ¢ necessita de um tempo de fala mais longo. O que é profuundo e complexe ‘Go pode ser expresso brevemente. © saber precisa de tempo e de siléncio. destinadas a Mas, por outro Iado, quanto mais longo é o tempo de fala, canto mais a atenglo € mesmo o interesse decrescem, ainda mais porque, na informasao 2, sup6e-se que o piiblico-alvo deva ser eaptado o tempo todo. Iss0, s vezss, € resolvido por uma diferenciacéo de puiblicos segundo as estagies de rédio (France Inter/France Culeure) ou pelos tipos de programas (Pop Club/ Radioscopie) ros quais os entrevistadores déo uma importincia maior ou menor 20 siléncio ou & continuidade da palavra do entrevistado. Enfim, coloca-se a questo, para os entrevistadores, de saber em que medida é legitimo apoiar-se em rumores ou esterestipos para fazer reagir 0s entrevistadas. Rumores ¢ estereétipos™ sio fendmenos diferentes, mas 0s dois resultam de discurscs que circulam nos grupos sociais, os quais se constituem ¢ se fixam ~ ainda que temporariamente — em discuysos de evidéncia, C simples fato de inseri-los numa perguna os reifica e lhes confere um certo valor de verdade em nome do qual “no hé fumaca sem fogo". midi ‘DEBATE: UMA ESPETACULARIZAGAO DO CONFLITO VERBAL O debate também ¢ um género central, particularmente na televisio francesa. Nao se deve consideré-lo num sentido res:rito ¢ incluir, por exemplo, sé-0 que a televisio chama de debate. Pod: exemplo, nos progtamas de atualidades, nos talk shows, nos programas politicos, culcurais, esportivos etc. Estudemos esse género em duas 0 sob formas diferentes: 0 “debate cultural” eo talk shou retomar os componentes que correspondem as variévels desse género, O debate € uma forma que, como todos sabem, retine uma sire de convidados em tomo de um animador para watar de um determinado tema, e € completamente organizado e gerenciado pel 218, cies * Os convidados sio convocados por estarers numa relagéo de identidade com o tema tratudo, So conhecidos ou desconhecidos do pablico de acordo com 2 natureza do propésito: sio necessariamente conhecidos ‘nos debates de temstica politica (embora haja a tendéncia em se cham, cada vez mais desconhecidos representardo 0 cidad desconhecidos nos debat fungio de seu posicionamento no campo das que tal posicionamento sejz, senfo antagonista, pelo menos diferente daquele dos demais convidados. Isso obriga os convidados a assum’ determinados papéis linguageiros. Espera-se, por exemplo, que es do animador (ou eventualm re 8s de outros intervengées durante 0 encont:o, seja contra, 9 que os colocaré em relacbes icas de oposicio aos dei ja a favor, © que os colocaré em relagdes complementares de alianga com os demais convidados. Assim, os convidhidos estéo presos numa armadilha planejada com antecedénci O queelesdisserem no seré consideradc como: ifo, aqui, nao ¢ julgada por seu conteido, mas p de dissenso ou de consenso. Os participantes devem ar pela tomada ou pela manutengio da palavra, devem tensar escapar aos pressupostos das questdes que lhes sio colocadas, levar en c além dos efeitos produzidos sobre os produzidos sobre os telespectadores — que e'es nao véem e -ujas reagécs julgumento podem imaginar. no podem perceber, mas cujo + O animador representa a instincia mididtica. Desempenha secessariamente o papel de “gestor dapalavra’. Ele fax perguntas distribu nos de fala, renta acenuar as intervercdes mais agressivas, pede explicagdes echega mesmo provocarreacées ecambém se espera que demonstre imparc liad, no que sua manda de erguntar e de tratar as respostas néo sejainfluenciada por seu engajamento, pore waar de um jomalsea (ao se datia de outro modo se 0 autor da reporcagem fosse uma pe:sonalidade de fora das midias).” E essa obrigagio ‘que torna desconfortivel a posicio do jornalista diretor de reportagens. Pois nao hé questionamento nem tentativa de andlise (inclusive no dominio cientifico) que possa fazer-s fora de um modo de pensamento critico, ouseja, de encontro a outros pontos de vista. O diretor da reportagem, com efeito, esti numa sieuagio desconfortével pelo fato de que, em nome da visida de informagio do contrato mididtico, deve abster-se de mostrar seu ponto de vista pessoal. Eneretanto iso éimpossive (toda consrrgio desentidodepende de um ponco de vista particular) e necessirio (codo procedimento de endlise implica tomadas de posigio). Dafa técnica da “gangorsa’, também adotada pelos comentaristas, que consiste, paraoautor de umareportagem, em propor pontos de vista diferentes, ou mesmo contrérios, sem artiscar-sea operat uma hierarquia (ou fzzendo-o em dose minim), ecuja conelusio se resumea urna série de novas questées, daquelas que justamente no ousam tomar partido. Paradoxalmente, essa técn ca rem um fraco poder explicativo:suscitaaemocao, a expectativa, a incerrogagio permanente, mas no prope ao telespectad nenhum modo de pensamento, nenhum modo de discriminacio conee dos fatos, para que ele seja capaz. de formar sua prépria opinio. GENEROS DA TELEVISAO: UM DESAFIO DE ESFETACULARIZAGAO Como se sabe, a televisio ¢ 0 dominio do visual e do som, lugar da istemas semiolégicos, o da imagem eo da palavra, Desa, combinacio de doi — Sobre sigan gtnerose variants de gtnens combinago nace um produto, talvex mais apto do que outros a fabrica: iimagindtio parao grande piblio, isto é, um espelho que devolve ao priblico acuilo que ésua prépria busca de descoberta de mundo. Mas, diferentemente do cinema, a tdevisio estd obrigada, por contrato, a dar conta de uma déverminadsa realidade. Assim seado, ela no pode seapresentarcomoméquine de fabricar fccio, mesmo que, afinal, sja isso que ela produra Apesar da superficie plana de sua tela, a tdevisdo tenta articular encre si tués espagos que constituem lugares particulares de construcéo do sentido: lum espago externo, onde surgem os acontecimentos do espaco piblico, um espago interno, onde se desenrala a cena mididtica de representagio dessa redlidade, ¢ um epaco interno-extemno, que seria o lugar em que se articula uma relagio simbélica de contato entre 2 miditica e a instncia telsspectadora. Assim, a insténcia midistica televisual esté numa posigio de pixé duplamenteorientada: referencial, quand olha para o mundo exterior us ela mostra, relata ¢ comenta, e de contato, quanto olha ¢ telespectador que ela procura irteressar ¢ emocionar, que cla solicta e interpela. A televi co mesmo temoo, “instincia exibidora” com relacio a0 mundo exterior ¢ instincia exibida” com relacio ao telespectadar, sendo este “instincia que olha’.E a produgio geral, lugar por exceléncia da articulagio entre o mundo excerior, 0 estudio e o tclespectador, que coordena essa mise-en-scine, stn Relacées palavra~imagem Hi vérias manciras de abordar a descrisdo da relacio entre a palavra ea imzgem. Jd em 1967, Roland Barthes mostrava a autonomia desses dois sistemas significantes, pois cada um deles ¢ portador de universos sociodiscursivos préprios, e também sua interdependéncia, pois esto numa relagio rec{proca de ancoragem/retransmissio, pelas quais se constr6i a significagao, Alguns semiélogo: prosseguem nessa linha, refinando-a." Ourros procuram definir a especificidade dos documentos audiovisuais.? outros, ainda, mais centrados na televisdo e seus processos de realizacio, ropoem diferentes critérios de distingao.>® Come dissermos, vériastipologias Houde. em Tina de Logisgue Semis Uni 8 Ager 2 56, 1954 ies pour une ypolog des documents ail via Sn. % Bocas de Guy Lactaed 223 Discurso das mii so possive's, mas em todos os casos, ¢ necessétio determinar as varidveis, dos eixos de tipologizacio cuja combinagio determina os géneros. Uma ver mais, a determinagio destes eixos ¢ dessas varidveis depende dos lugares de pertinéncia que se defi nacio, se adotamos 0 ponto de vista dos canais; ético-juridica, se o ponto ce vista for o das instivuigdes de controle; comercial, do ponto de vista dos vencedores géneros de informacio no cruzamento de um ¢ um modo de interver¢io da instincia mi levisual que, trazendo variaveis suplementares, pe génezos, de acordo com seus procedimentos de encenacio, ‘A palavra, como para os outros suportes, ¢ encenada seguindo cinco tipos de enunciagio: a descrigio-narracio (do fato ¢ do dito), a explicagao, 0 testemunko, a proclamagao, a contradi¢as. Como os deis pri descritos como modes discursivos, apresentamos agora os demais tipos: * 0 resemunho, a que aludimos a respeito da entrevista, éuma forma de enunciagdo que revel, ou pelo menos confirma, a existéncia de uma realidade com a qual o enunciador teve contato. Esse é, pois, levado a dizer oque viu, ouviu ou tocou, sem andlise nem julgamento. A palavra de testemunho compromete 0 sujeito sobre uma verdade que “provém apenas do corpo” (como se diz em Direito), 0 que lhe confere os tracos da pureza ¢ da autenticidade. A palavea de testemunho instaura 0 imagindrio da “verdade verdadeira’. O testemunho pode ser enunciado mesma categoria (com sma entrevista de testercunha .). Ele se achard arquétipo social de um modelo de vida profissional (um |, de um individuo sofredor (vitima de doencas, de ou de comportamento extremo (her6i po reality e 0s talk shows exploram abundantemente. Se 0 s certa notoriedade, o valor de seu testemunho seré relativo aos tracos de 224 idade psicoldgica (sinceridade, blefe: mentira) queo telespectadce tem a possiblidade de lhe ztribui. +A proclamagioe a forma deenunciacaoperformativa que compromete osu oenunciador a azeroqueelediz(“C governondo eden e rester externas”), Ovalor dessa forma de enunciario depende, pois, do status do sujelto que enuncia, qual deveré estar em posigao de decisio (politica, presidente departido, de sindicato, de empresa etc.), tendo nao soment: poder de dizer, mas também e sobrerudo poder de fazer, * A contradigio € uma forma de enunciagio interativa que consiste em trazer um porto de vista contrério a um outro jé exposto. Tem como efeico colocar em causa 0 autro ponto de vista, atenuar valor de evidéncia que este poderia ter se fosse tinico ¢ mostrar que a verdade respeito do tema tratado € fragmencada, parcial, deixando, para aquele que ¢ testemanha exterior & troca, 0 cuidado de uti prdpria busca da verdade, ea construco de sua opinio. Ja para a suc Alimagem televisual, por suavez, pode rer ués Fungbes:" de designapio de figuragio e de visualizagao: * A designasio consiste em mostrar diteramente o mundo em sua r. perceptiva como um “estar-at” presente, convertendo-se num “objeto mostrado” tendo sua propria autonomia de existéncia em relacio a0 processo de designacio, perceptivel sem intermediagio, sem nada que se interponha entre 0 objeto eo olhar do sujeito, Este ikimo pode ter, entio, a iluséo de que ele também esté nesse mundo, em contaro com ssa realidade fisica.* Essa Fungo pe em cena efeitos de ausenticidade, + A figuragto consiste em reconst © mundo no que ele “fo | deimediaco, mas representdvel por ossivelmente verdadeiro. O sui esse mundo reco conhecimento de agic, naquilo que ue olha s6 pode perceber ituido por analogia ccm uma certa experiéncia ¢ undo, projetando-se i, trata-se realmente deuma analog, nao como decalque da realidad, mas como construio- ite © Ve La prleconit gee in bl Tani edi a ms iscuro dar mins representacéo de um certo imagindrio da realidade. Essa fungao p5e em cena efeitos de verasinithanga, do mundo nio visivel a olho nu (através de representagbes grificas, closes 01 imagens virtuais). O sujeito que olha sé pode perceber esse mundo na medida em que tem conhecimento do cédigo de representagao, © qua. Ihe permite, usando de célculo, c essa parte oculta do mundo. Mas esse proce depende do contrato de comunicagio, E somente na medida em que 0 contrato de informagio const ur. propésito que se destina a mostrar a realidade externa 20% sujeitos que esa funcdo pode pr em cena efeitos por um lado, a faverecer su (polémica ou consensual), por outro, a prefigurar uma certa gestio da imagem, alguns rotci:os de exibigao que sio organizados pela producio. iro é o momento em que st faz a +A fiimagem do acentecim (por exemplo, um incéndio ow um del com o enquadramento (ele, primeico plano, plano americano, plano € 05 Angulos de visio (panorimica vertical, panorimi ocedimentos que produzem pontos ¢ horizontal, traveling ec. diferentes sobre 0 eu qi petsoralizado, de observador etc com a continuidade da flmagem (0 cernpo da A montagem, em ruptu ers ¢ imagens compésitas, virtualizagac etc.) que torram co-visiveis diversos elementos que nZo 0 seriam a olho nu (virtualiza;ao), procedimentos que produzem um efeica dd irealidade, mas uma irreclidade que, na televisio, aproretada com fins didéticos (Fave sabes, fazer compreende transmitido, pela selecao de alguns d inago particular de planos e seqi criarum cert ritmo eefeitosde dramatizacio (i) transmissiodo produto televisual que pode ser dete (20 vivo) ~nesse caso a inst pode interviratravés da producio (slecio ee éenesse caso, cu bem aiinstin:ia eal contempo: do acontecimento (uma partida de nigbi cransmitida apésseu término, mas como comentério de tansm ssfo 20 vivo), 04 enta la propriase sicua num pés-acontecimento (transmissao e comentiio da partida so fetos apés 0 jogo). A monagem pode prodiizir un épossivelatribuir-lheintengdes mani composicio do produte ipos de enunciacio ¢ desses regimes de exibicao ante complexas, por integrarem virias dessas caracteristicas, como 0 Telejornal: um ritual compésito O telejornal €0 género que integra 0 maior ntimero de forras televisuais, como: antincios, reportagens, resultados de pesquisas ¢ de investigacées, de specialists etc. Assim sendo, pode-se cconsicerar que, ccm relagio 20s cixos de tipologizago da figura 6 do capieulo : imo ¢ pelo azresentador que assegura a coordenagio e traz sua contribuigéo pessoal de seducio. Do porto de vista do Parnas ene tani "pa 227 Discurso das mids ngjamenee,deveriaencontarse na pare de buvo dese mesmo cx pis deveriaapagae-se por dets da tealidade do mundo e de seus comentastas eneretanto, nao deixa de mpor sua visio dramaizante do mundo, pela pregndncia da visada de capeagdo. Com relago ao eixo herizontal, poder-se-ia pensar que ele se encontrar paraolado do aconteciment relatado (a) em nme dea ideaidade do contato de comunicagio e de sua visada de credibilidade:relaar os fats tas como eles sfo. Na reaidade, ele cobre o conjunto des modos discursive, pois tats no somente de dar com dos faros, mas também de comenté-os (4c), apelando para specials, e prevocar bates (3) sobee os ema mais pregrants, convidando responses pelos diversossetoressocais. O telejomnalé pois, o objeto de uma sequencializagdo em rome dese tts modes discursivos tempo dedicado a cada uma dessas seqilnciasévardvel, mas a quantidade no é frgosamentepertinente para lg da ons de un earl poir os momenroefores nem sempre previsives—podem produits em qualquer uma desas sequen ‘A especificidade do tlejornal se deve, em comparagio com outros g2neros adois aspects dominantes da encenagio disaursiva, endo um 0 ropésit, outro a consrasio da identidade dos parceirose de suas rele O props € marado pela atulidade, volo par os concecimentos do dia que sé0 noticia,” apresentados numa espécie de cardépio do que se terd para mastigas seja bom ou maui Espera-se do 2 qual sera a mesma para todos os telespectadores. © telejornal procede a ‘uma fragmentacio temética (seguindo 0 modelo de rubr.cagem da imp:ensa) ifn Nenu geo “ Lembreos gi ads eons ads ipaeg Gereentnds tem enstncnno soln da um sigan pe ta bide um di, Pano iol un jor er o page deere pod fo osfor que posem sels so spp dem da, ‘Sgunacais Asim nbn ons omer ocopjnm dfn o dinero pear dF nfermapto bor ou md agadl dena, qc oderd.em pis Ser coemalmente rus ~3 ue pretende comesponder&fragmentasio do coridiano do espago pilblic, ‘mas que, na reiidade, é uma fragmentacio convencional do mundo » uma racionalizagao, imposta como um pensamento tinico, do ae séo 0s aconrecimentos do mundo. Tal recorte nos remete 3 consttugio te jas caracteristicas devem ser estudadas em detalhe ade dos parceiros édeterminada pelo conjunto da encenasio do telejornal, cujo pupel principal ¢ desempenhado pelo apresentador, embon com uma importincia varivel. Pelo uso de modos discursivos diversos, 9 apesentadorconsituiopivé daencsnagdodo tdejornal, exercendouma dupla furcao de interface, por um ladoentre o mundo referencial ea telespectadon, Por outro entre estudio ~ materializagto do mundo mi -eo ‘elsspectador sendo esas cluas fungGesexercidasde mancira quasesimultinea Esas caracteristies jd foram bastante destacadas em diversos estudos,! nos cabendo ani nic d-las mais uma ver; trata-se, para nés, de mostrar sua pertinéncia no arrbito das restrigdes do dispositivo televisual, O contato entzeo estidio€ 0 telespectador se estabelece desce a abertura do Jornal, por saudisses do apresentador quc se acha insralado em seu lugar de «xarccio profsioml, em posicio frontal, e anunda o sumo, Depois, durante to constituido de julgamentos e apreciagées. O editorialista eo sronista tim a liberdade de expressar um ponto de vsta paztiddrio, mas o primeiry € instado a fazé-lo de maneire argumentada, ainda mais porque seu pont de vista implice o engajamento de toda a relacio do jotnel. O segundo — também chamado de critica de filmes, de livros, de pegas de teatro ~ pode, iferentementedo editorialisa, dar e Cuno a scus préprios sentimentos, 5 Sto enconsads aay de edi ds cls de alin 235 Dicurae dae mes. sua prépria emoglo, seus prépriasjulgamentos, sem que iss0 c falta, pois nesse modo de enunciagio a tegra é a subje (Os tittss (que podem ser considerados um género, na medida em que regularidades texzuais sob 0 controle de uma instincia de ‘mesmo que um ou outro apresentem, de maneira mais ou menos € elementos de comentario. Estio situados 20 alto do eixoda instincia incerna, pois esta (jornalistas, coaferéncia de redagio, secre:atiado de redasio) intervém de maneira marcante na formulacio dos titulo: e em sua disposigio, mas tendo um grau -se na imprensa diversos cutros subgéne:os como o perfil, um idade da pessoa al retiatada, recém-chegado & ca, um falecimento ou uma comemoracio etc.);esté colocado bem ois depende, segundo as declaragbes dos priprios jornalistas, de sua subjetividade. O anélise exh pr6ximo da crénica aponto dese confundir coma crénica pelitica,** mas com um menor grau de tum conjunto de artigos destinados a esclarecer dererminada questo tanto do ponto de vista dos favos quanto dos irios, da{ sua posicdo mediana no eixo horizontal, porque apesar deaf jadas, clas io temperadss por outtas que lhes reservada a personalidades ia € suscetivel de p acontecimento, tem um grau varidvel deengajamento segundoa posicio social do autor. Enfim, na imprensa hé tamoém as entrevistas, as quais podem integrar-se em outros géreros (entrevista para estabelecer fatos, entrevista de ‘uma opiniio para esclarecet um comentivio, entrevista paraconstruir um perfil ciao, dat serem encontradas em diversos lugares, com um grau menor de engajamento. se encontrarem posigoes io opostas ou que sio mais neutras. A sribuna, etc.), mas queas caracteriza é uma espécie de grau zero de Em no cdo sobre "Lacie cinzmaographis= Sobre alguns gine Na imprensa, os géneros também evoluem, porém de m queatelevisio, Mas pode-se di que apresentavam um desenv enco longo sobre as né modo de escricura que pretendia ser uma pega literdria,® pouca vi arual, com uma :endéncia a apresentar artigoscurtos, am ce vis que joga com a tipografia, as molduras, a colunagem, a disposicio etc. Diferengas que -evelam a idéia que as midias constroem sobre seus leitores, popular/culco/de elie, jovem/relho, masculino/feminino etc.* fers ¢ externos) € 2 aumentar a visibilidade por uma paginagio sobredeterminada aqui pelo coatrato aacada suporce, Essas formas consticue: dainformagio, as. que verdadeiros moldes de tratamento iis dever seradotadas pela instancia mididtica (quaisquet jam seus cores) € das qui Uncia ce recepeao necessica instincias se encontrarem na co-construgio da informagio, Noentanto, uma ‘vez mais, essa formas consticuem apenas uma parte do discurso informativ. jas para, como dizia Roland Barthes, fazer obra de “autot”, do simples “escril ue vem ont vio «que Daina 198.