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PRESSUPOSIÇÕES METAFÍSICAS EM SEMÂNTICA MODAL

METAPHYSICAL PRESUPPOSITIONS IN MODAL SEMANTICS

Diego Henrique Figueira de Melo 1

Resumo: Neste artigo avalio as posições metafísicas implicadas pela semântica modal. Irei propor e explicar estes três modelos metafísicos que sustentam o discurso modal: (a) tudo é necessário, (b) tudo é contingente e (c) algumas coisas são necessárias e outras contingentes. Argumentarei que mesmo empiristas, como Hume e Quine, adotam, inevitavelmente, um desses planos metafísicos de fundo. A semântica modal introduziu a discussão metafísica na filosofia analítica, porque, como mostrarei neste artigo, negar as modalidades é, também, se comprometer com uma posição metafísica.

Palavras-chave: Modalidades. Metafísica. Essencialismo. Empirismo.

Abstract: In this paper I evaluate the metaphysical positions implied by modal semantics. I will propose and explain these three metaphysical models that support modal speech: (a) everything is necessary, (b) everything is contingent and (c) some things are necessary while other are contingent. I argue that even empiricists, like Hume and Quine, adopt, inevitably, one of those metaphysical backgrounds. The modal semantics introduced metaphysical discussion in analytic philosophy, because, as I will show in this paper, to deny modality is also committing to a metaphysical position.

Keywords: Modality. Metaphysical. Essencialism. Empiricism.

1.

Introdução

A semântica modal é um instrumento linguístico elaborado para dar conta da interpretação sobre os diferentes modos de verdade que uma proposição (ou uma expressão) pode adquirir. Na filosofia analítica contemporânea, noções como as de possibilidade, necessidade e contingência são tomadas como noções modais 2 , pois, como dito, dizem respeito ao modo de verdade de determinadas proposições. É comum tomarmos alguns fatos empíricos como os fazedores de verdade de algumas expressões que utilizamos. Para ilustrar este ponto posso dar como exemplo a seguinte expressão:

(1) Bertrand Russel estudou filosofia. Sabemos que (1) é verdadeira devido aos fatos que temos acesso e que determinam o conteúdo de verdade de (1). Descobrimos o conteúdo de verdade de (1) através de investigações empíricas, o que torna o

1 Doutorando em Lógica e Filosofia da Ciência no programa de Pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais UFMG. E-mail: melo.dhf@gmail.com 2 DIVERS, 2002, p. 3.

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conhecimento de (1) um conhecimento a posteriori. Um outro exemplo pode ser dado com a seguinte expressão: (2) em um triângulo retângulo o quadrado da hipotenusa equivale à soma dos quadrados dos catetos. Sabemos que (2) é verdadeira, contudo os fazedores de verdade de (2) não dizem respeito a fatos empíricos como em (1), mas a um tipo de conhecimento que os filósofos chamam de a priori, sendo este independente da experiência. Por último, sabemos que (3) água é H 2 O é, também, uma expressão verdadeira, a qual se relaciona, novamente, com um tipo de conhecimento a posteriori, obtido através de investigações empíricas. O conteúdo de verdade e os fazedores de verdade das expressões (1), (2) e (3) não suscitam grandes discussões nem causam fascínio nas mentes mais curiosas, entretanto não podemos dizer o mesmo sobre os modos de verdade destas expressões. Se perguntarmos: a verdade de (1) e (2) possuem a mesma “força”? Um leigo interessado no assunto pode se colocar a pensar e dizer que a verdade de (2) parece ser mais “forte” que a de (1). É realmente um bom exercício refletir sobre essa questão, afinal realmente parece fazer sentido dizer que a verdade de (2) é mais “forte” que a verdade de (1). Muitos irão dizer, provavelmente, que a verdade de (2) é mais “forte” porque não poderia ser de outra forma, ao contrário do conteúdo de verdade de (1) que, ao menos parece, poderia ser de outra forma. Ao pensar assim estamos raciocinando sobre os modos de verdade das expressões, e justamente este modo de raciocínio trouxe terras férteis para a filosofia analítica contemporânea, revitalizando a discussão metafísica para essa escola filosófica. Dizer, em linguagem comum, que a verdade da expressão (2) é mais “forte” que

a verdade da expressão (1) é dizer, em filosofia, que a verdade de (2) é necessária

enquanto a de (1) é contingente. Para ilustrar melhor este ponto é interessante introduzir

o conceito de condicional contrafatual. 3 A forma de um condicional contrafatual é: se p

fosse o caso, então poderia ser o caso que q. Interessante notar que o tempo verbal deste condicional é o subjuntivo. Como o próprio nome indica, um condicional contrafatual nega ou diverge de determinado fato tomado como fazedor de verdade para uma expressão. É possível imaginar um conjunto de condições contrafatuais p que, se tomado como o novo fazedor de verdade, poderia invalidar a expressão (1). A expressão que afirma que Russel foi um estudante de filosofia poderia ser falsa se Russel não tivesse entrado para a universidade, ou se ele tivesse cursado música e seguido a carreira artística, ou se ele tivesse seguido a carreira política, ou qualquer outra coisa.

3 LOUX, 2006, p. 159.

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Parece que a expressão (1) não sobrevive a várias situações contrafatuais que, se tomadas como os possíveis fazedores de verdade, mudam o conteúdo de verdade de (1). O mesmo não parece ocorrer com a expressão (2), parece não existir nenhuma situação contrafatual possível que altere a verdade de (2). Novamente, dizemos que a verdade de (1) é contingente enquanto a de (2) é necessária. Até agora foquei nas duas primeiras expressões apresentadas, com isso o leitor pode estar se indagando sobre a terceira expressão, afinal, qual o statusmodal do conteúdo de verdade da expressão (3) que diz que água é H 2 O? Esta é uma verdade necessária ou contingente? Existem situações contrafatuais que tornam (3) falsa? Enfim, sobre (3) pedirei um pouco de paciência, sendo assim será conveniente desenvolver o artigo para uma melhor compreensão do que será avaliado.

2. Mundos possíveis

Uma concepção bastante difundida na filosofia analítica atual, que colabora para as análises modais, é a ideia de mundos possíveis. Resumidamente podemos dizer que um mundo possível corresponde a uma das várias formas de como as coisas poderiam ter acontecido, já o mundo atual corresponde à forma como as coisas são. Interessante notar que o mundo atual também e um mundo possível. Kripke 4 ressalta o cuidado que devemos ter com a expressão mundos possíveis, afinal um mundo possível não é algo como um planeta distante que podemos, por exemplo, observar por um telescópio potente. Um mundo possível é apenas uma história possível, ou um conjunto destas, que descreve, ou descrevem, situações contrafatuais 5 . Devemos a Kripke 6 a elaboração de uma semântica capaz de captar essas ideias acerca das modalidades, que ficou conhecida como semântica modal ou semântica dos mundos possíveis. O autor inicia seu artigo 7 dizendo que sua intenção é estender os resultados do domínio do cálculo proposicional para a classe dos sistemas modais chamados normais. A estrutura dos sistemas modais normais corresponde a um triplo ordenado (G, K, R), onde K é um conjunto não vazio, G é um membro de K e R é a relação de acessibilidade de G

4 1980, p. 15-16. 5 “Mundos possíveis são conjunções de estados atômicos de coisas possíveis. [

de

possibilidade é analisada, quero dizer reduzida, à ideia de combinação de elementos. Várias dessas combinações não existem, são meras possibilidades lógicas” (ARMSTRONG, 1989, p. 48). 6 Semantical analysis of modal logic, 1963. 7 Semantical analysis of modal logic, 1963.

]

a

noção

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definida sobre K. Traduzindo para termos modais, podemos compreender K como o conjunto de todos os mundos possíveis, G como um mundo possível (e.g. mundo atual) e K como a acessibilidade do mundo atual sobre o conjunto dos mundos possíveis. Feitos estas considerações, podemos interpretar as noções modais de possibilidade e necessidade da seguinte forma: uma proposição p é possível no mundo atual sse existe pelo menos um mundo possível, acessível ao mundo atual, em que p seja o caso; já uma outra proposição q é necessária no mundo atual sse em todos os mundos possíveis, acessíveis ao mundo atual, q é o caso. Tomando as notações □ e ◊ como, respectivamente, os operadores de necessidade e possibilidade, e W como um mundo possível acessível ao mundo atual, podemos escrever:

◊↔∃(,)

□↔∀(,)

O que mostra que a semântica modal sugere uma quantificação acerca dos mundos possíveis, de forma que o operador de possibilidade (◊) estaria relacionado ao

quantificador existencial () e o operador de necessidade (□) ao quantificador universal

(). A contingência diz respeito à possibilidade, logo uma expressão que seja verdadeira no mundo atual e falsa em, pelo menos, um mundo possível, é contingentemente verdadeira. Sendo assim podemos dizer que a expressão (1) é contingente, afinal ela é verdadeira no mundo atual e falsa em alguns mundos possíveis, já a expressão (2) é necessária porque é verdadeira em todos os mundos possíveis. A linguagem modal elaborada por Kripke se apresenta como uma ferramenta muito eficiente para tratar noções modais, por isso dizemos que ele desenvolveu um método para expressar modalidades de forma simples e objetiva.

3. O problema

Avaliar as modalidades envolvidas em proposições usando a semântica apresentada nos remete a um velho problema da filosofia, o da relação entre a

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linguagem e o mundo 8 . Se a semântica modal tem algum sentido, parece que devemos assumir que seu conteúdo extrapola o âmbito linguístico e diz respeito ao mundo para o qual as palavras se direcionam. Posso colocar este problema de forma mais clara, para isso imagine algumas expressões que as teorias científicas assumem, como: (4) os corpos se atraem com uma força proporcional ao produto de suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre eles e (5) seres humanos possuem 23 pares de cromossomos. Claramente estas frases são direcionadas para o mundo, para “coisas” que estão “aí”, fora da nossa mente, sendo assim podemos nos perguntar sobre o estatuto modal dessas expressões linguísticas. Perguntar se as verdades expressas por (4) e (5) são necessárias ou contingentes é análogo ao problema colocado em relação a (3) anteriormente. (3), (4) e (5) são expressões científicas que, de alguma forma, espelham o mundo exterior, dizer que elas são necessárias é dizer que elas são verdadeiras em todos os mundos possíveis, já dizer que elas são contingentes é dizer que, apesar de serem verdadeiras no mundo atual, elas são falsas em alguns mundos possíveis. Meu objetivo, aqui, não é responder a essas questões difíceis, mas sim apresentar as pressuposições metafísicas envolvidas no discurso modal. Para começar a exposição irei definir três backgrounds metafísicos implicados pela semântica modal, depois argumentarei que mesmo pessoas que negam a existência de modalidades de re 9 , como alguns empiristas, acabam se comprometendo metafisicamente com um dos esquemas que apresentarei, caindo no que chamarei de imbróglio humeano 10 . Por fim farei algumas considerações acerca das posições metafísicas apresentadas.

4. Pressuposições metafísicas

A semântica modal, como dito, é um instrumento criado para tratar os modos de verdade das expressões linguísticas, sendo assim podemos representar as verdades dessas expressões como necessárias ou contingentes. Irei propor três posições metafísicas que podem ser defendidas como sustentação para o discurso modal, são

8 Lembrar, por exemplo, do diálogo Crátilo de Platão. 9 Defender modalidades de re é defender que o discurso modal diz algo acerca do mundo. A posição contrária é a defesa das modalidades de dicto, que interpreta o discurso modal como um fenômeno apenas linguístico. Em alusão a David Hume (1711-1776).

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elas: (a) tudo é necessário, (b) tudo é contingente e (c) algumas coisas são necessárias e outras contingentes. Claramente a posição (c) parece ser a mais aceita, contudo (a) e (b) devem ser avaliadas com a devida atenção. Minha intenção é defender que dependendo da forma como alguém avalia o discurso modal, esta pessoa irá inevitavelmente assumir uma dessas três posições. Um essencialista, ou seja, alguém que defenda modalidades de re, poderá assumir as posições (a) ou (c), já um empirista (ou um anti-essencialista), que deseja reduzir todo discurso modal à noção de modalidades de dicto, cairá em (b). Começando pela posição essencialista, podemos dizer que esta posição assume a existência de propriedades essenciais no mundo. Uma propriedade essencial, usando a semântica modal, é aquela instanciada por um objeto em todos os mundos possíveis onde este objeto existe. Dizer que Russel é um ser- humano é uma verdade necessária, para esta vertente, é assumir que a propriedade de ser umser-humano é essencial a Russel, logo não existiria nenhum mundo possível que Russel não seria um ser-humano. Gostaria de distinguir dois tipos de essencialismo, um que chamarei de essencialismo (simpliciter) e o outro de essencialismo global. Um essencialista adere à posição metafísica (c), já um essencialista global adere a (a). Um essencialista, como Kripke ou Plantinga, assume a existência de propriedades essenciais 11 , contudo não descarta a existência de propriedades acidentais (contingentes). Para um essencialista, a expressão (1) é verdadeiramente contingente, afinal existem mundos possíveis em que Russel não estudou filosofia, logo a propriedade de ser um estudante de filosofia é uma propriedade acidental de Russel, diferentemente da propriedade de ser umser-humano, que, como já foi dito, é essencial a ele. Já para um essencialista global, exemplificarei melhor adiante, tudo seria necessário, logo a propriedade de ser um estudante de filosofia instanciaria Russel em todos os mundos possíveis, assim como a propriedade de ser um ser-humano. Perceba que para o essencialista global não existem mundos possíveis ou, se existem, eles são todos iguais ao mundo atual. Não é difícil perceber que a posição metafísica (a) acarreta uma espécie de fatalismo existencial, pois dizer que tudo é necessário implica dizer que não haveria possibilidade de algumas coisas não serem como são. Para um essencialista global, por exemplo, é uma verdade necessária que eu seja um estudante de filosofia e que este artigo fosse escrito por mim, logo ser

11 “Alguém que defenda a ideia de modalidades de re normalmente aceita que alguns objetos, como o número 9, tem algumas de suas propriedades, neste caso ser um número composto, necessárias ou essenciais” (PLANTINGA, 1982, p. 14).

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um estudante de filosofia e ter escrito este artigo são algumas das minhas propriedades essenciais. A tese essencialista global pode ser facilmente exemplificada através das teorias destes dois pensadores franceses: o matemático Pierre Simon Laplace (1749-1827) e o teólogo João Calvino (1509-1564). O primeiro fornece uma explicação epistemológica para sua posição metafísica, já o segundo busca na teologia sua fundamentação 12 . Laplace possui uma posição metafísica determinista, logo aceita aquilo que chamei de fatalismo existencial. Segundo Laplace 13 , todos os fenômenos naturais, nas escalas do micro e do macro, são regidos por leis deterministas. Contudo aquilo que difere nossas perfeitas previsões acerca dos corpos celestes daquelas previsões incertas (probabilísticas) sobre as partículas é a nossa ignorância. O homem, por enquanto, foi apenas incapaz de fornecer as leis pelas quais as partículas poderiam ser perfeitamente descritas, sendo assim a ciência se utiliza dos métodos estatísticos para suprir a falta de conhecimento em assuntos onde leis deterministas não foram cunhadas. Laplace ainda propõe um famoso experimento de pensamento 14 para tentar nos convencer de sua tese, ele pede para que imaginemos uma superinteligência que foi capaz de descobrir todas as leis do universo, nos âmbitos micro e marco, e suas devidas condições de contorno. O matemático conclui que para tal superinteligência tanto o passado quanto o futuro seriam plenamente conhecidos, nada escaparia do escrutínio deste agente. Interessante notar que a literatura filosófica posterior batizou essa superinteligência de “o demônio de Laplace”. Nesta proposta laplaceana todo o universo é avaliado como uma relação de causa e efeito que pode ser quantificada em uma equação, por isso sua insistência em uma abordagem falibilista em relação ao conhecimento humano. Tudo é necessário porque tudo está causalmente interligado no tempo e espaço, o conhecimento humano que é falho e imperfeito para ter acesso a todas as causas e efeitos, pelo menos assim pensava esse matemático francês. Por fim, a proposta de Calvino para a defesa de um

12 Um terceiro pensador francês, Nicolas Malebranche (1638-1715), também possui uma teoria essencialista global com justificativas teológicas. Resumidamente a proposta de Malebranche diz que Deus é a causa eficiente de todos os movimentos que realizamos. Deus age sobre o espírito e sobre o corpo, logo cada ação que realizo, por exemplo, é fruto da intervenção divina em meu espírito e em meu corpo. A intenção de digitar uma palavra neste artigo (estado mental) mais a ação executada (estado corporal) é, segundo Malebranche, causada por intervenção divina. Deus age em toda ocasião, por isso essa proposta ficou conhecida como ocasionalismo. 13 LAPLACE, 1995, p. 3-4. 14 LAPLACE, 1995, p. 2.

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modelo essencialista global diz respeito a sua tese (ou doutrina) da predestinação 15 . Baseado em suas leituras de Agostinho de Hipona (354-430), Calvino desenvolveu a teoria segundo a qual tudo ocorre devido a vontade de Deus 16 . Deus, por ser onisciente, sabe de todas as coisas, tanto do passado quanto do futuro. Deus é o único com liberdade total, tudo só ocorre devido a sua vontade. Em uma perspectiva calvinista, é necessário que Russel seja um estudante de filosofia porque Deus quis que assim fosse. Russel estava predestinado a ser um estudante de filosofia, logo ser estudante de filosofia é uma propriedade essencial de Russel. Podemos resumir o essencialismo global de Calvino da seguinte forma: tudo é necessário pois tudo é fruto da providência divina.

A próxima posição metafísica a ser avaliada é a (b), que afirma que tudo é contingente. Em geral empiristas tendem a adotar esta posição, por mais que alguns neguem o discurso modal ou se autodenominem metafisicamente “neutros”. Tentarei mostrar que quanto mais um empirista nega o essencialismo, sendo, portanto, um anti- essencialista, mais ele adota uma posição metafísica tão forte quanto aquela que ele rejeita. Um defensor clássico da posição (b), considerado um dos grandes ícones do pensamento empirista, é o escocês David Hume. Hume se preocupou profundamente em compreender o problema das inferências causais no domínio que ele chamou de questões de fato 17 . Para Hume, todas questões de fato envolvem juízos relativos à experiência, sendo este modo de raciocínio baseado no princípio da causalidade e no habito. Um exemplo clássico, fornecido pelo próprio Hume e adotado para expor esse ponto, diz respeito à inferência de que o Sol nascerá amanhã. Esta inferência é justificada apenas pelo fato de nos habituarmos a ver uma relação causal entre dois eventos distintos 18 , neste caso quando o Sol se põe e depois quando nasce. Seguindo a teoria humeana, a necessidade não estaria na natureza, mas em nosso aparato psíquico. Apresentando essa posição usando termos modais, podemos dizer que, para Hume, o fato do Sol nascer e se pôr todos os dias de forma causal é um fato contingente, logo existiriam mundos possíveis em que o Sol não nasceria amanhã. Contudo essa contingência, no mundo atual, sempre se apresentou de forma regular, sendo assim adquirimos o hábito de interpretá-la como necessária. A posição de Hume expressa

15 CALVINO, As Institutas, III. 21.

16 CALVINO, As Institutas, I.16.2-3.

17 HUME, 1999, p. 47.

18 HUME, 1999, p. 63.

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claramente sua posição anti-essencialista e empirista em epistemologia, afinal a necessidade não pode ser percebida pela experiência. Entretanto, ao negar propriedades essenciais, verdadeiras em todos os mundos possíveis, o que Hume faz é assumir a posição metafísica (b), que diz que tudo é contingente. Ora, se as verdades das expressões (3), (4) e (5) são contingentes, isso significa afirmar que as leis da natureza expressam verdades contingentes. Se as leis da natureza poderiam ser diferentes do que são, eu poderia não ter sido um ser-humano, logo poderia ter sido um cachorro. Digo mais, se as regularidades das leis científicas são meras contingências, posso, a qualquer momento, me transformar subitamente em um cachorro, ou em um pássaro, ou em uma lagartixa! Se o comportamento dos meus órgãos, tecidos e células são contingentemente regulares, então tudo pode ocorrer com eles a qualquer momento, inclusive se transformarem em órgãos, tecidos e células de outros animais. A esse fluxo infindável de problemas, levantados pela posição metafísica (b), chamarei de Imbróglio humeano. Para fazer justiça a Hume é importante ressaltar que ele não pensava o mesmo sobre as relações de ideias, ou seja, com as formas de raciocínios não baseadas na experiência. Para Hume as verdades da matemática e da lógica, por exemplo, seriam necessárias. Outro empirista, ligado à filosofia analítica contemporânea que será avaliado, é Quine. A posição deste filósofo, no que toca às modalidades, é uma posição reducionista, porque para ele só existem modalidades de dicto 19 . Segundo Quine, toda modalidade não passa de relações linguísticas que são facilmente detectadas pelo uso corrente das palavras. As expressões (3), (4) e (5) são tomadas como necessárias, segundo esse autor, por causa das convenções dos significados das palavras que as compõem. A necessidade da expressão (5), que diz que seres humanos possuem 23 pares de cromossomos, se deve à semântica atribuída a cada palavra que compõe a frase. A semântica da palavra ser-humano, devido as práticas linguísticas de nossa sociedade, possui, em sua extensão, a propriedade ter 23 pares de cromossomos. O significado de uma expressão diz respeito aos significados das palavras que a compõe, como os significados das palavras são adquiridos através de convenções sociais, a necessidade não passaria de um fenômeno linguístico onde ocorreriam interseções semânticas de palavras que operariam em determinada expressão. Os significados dos termos de uma língua, para esse empirista contemporâneo, refletem a cultura dos falantes que a utilizam, sendo assim a necessidade se reduziria à analiticidade, que para

19 MURCHO, 2002, p. 40.

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Quine é um fenômeno linguístico 20 . Interessante ressaltar que, segundo o naturalismo quineano, nem as expressões matemáticas como (2) escapariam do convencionalismo linguístico 21 . É possível, em última instância, reformular até as verdades da matemática alterando as semânticas dos termos utilizados para expressá-las, com isso nem as verdades matemáticas seriam necessidades de re, como em Hume, mas verdades analíticas produzidas por contingências linguísticas. Não desejo negar que existam casos onde a necessidade não passa de um fenômeno linguístico que possa ser reduzido a aspectos analíticos, contudo Quine reduz toda necessidade à aspectos linguísticos. Negar a existência de modalidades de re faz Quine se comprometer com a concepção metafísica (b), que Hume assumiu como background do seu empirismo. O que está em jogo aqui é saber se, por mais que a semântica seja produto de determinado convencionalismo, os significados das palavras espelham ou não algo no mundo. Parece que a posição de Quine informa que não, dando a entender que toda linguagem diz respeito apenas às relações sociais que as subdeterminam. A posição de Quine é tão forte que ele chega a dizer que a diferença entre as entidades postuladas pela física contemporânea com os deuses gregos é uma diferença apenas de grau, não de espécie 22 . Quine parece possuir uma posição metafísica de fundo bastante clara, afinal, para ele, todo o conhecimento humano é um conhecimento contingente, possível de ser alterado. Ao contrário de Laplace e Calvino que chegaram a posição metafísica (a) por vias distintas, aquele pela epistemologia e este pela teologia, Hume e Quine adotaram (b) como posição metafísica de fundo pelo mesmo caminho, o da epistemologia de viés empirista e naturalista. Contudo Hume assume, sem constrangimentos, sua concepção metafísica e a expõe abertamente em sua obra, já Quine parece “fugir” deste ônus tão forte quanto o de uma postura essencialista global.

5. Considerações finais

Espero ter alcançado meu principal objetivo, o de mostrar que mesmo um empirista anti-essencialista adota uma postura metafísica tão forte quanto a que ele rejeita. Digo mais, a estatística está mais ao lado do essencialista do que do anti-

20 QUINE, 2013, p. 46-51. 21 QUINE, 1980, p. 42-43. 22 QUINE, 1980, p. 44.

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essencialista, pelo menos no que diz respeito às leis da natureza. É inegável a regularidade com a qual vários fenômenos naturais se apresentam, tornando o anti- essencialismo, no mínimo, pouco atrativo. Tentei mostrar que ser anti-essencialista é assumir que tudo é contingente, caindo numa situação que chamei de imbróglio humeano. Dizer que não existem propriedades essenciais é assumir que até as verdades científicas são contingentes, logo poderiam ser diferentes. Para um anti-essencialista, nada garante que o futuro será como o passado (cientificamente falando), afinal nosso conhecimento científico é, também, contingente. Mesmo que um empirista use o argumento da meta-indução pessimista 23 contra meus ataques, posso dizer que uma coisa é aquilo que achamos que são as leis científicas de verdade, outra coisa são as próprias leis científicas. Se a lei da gravitação de Newton for verdadeira, ela é verdadeira em todos os mundos possíveis. Se depois de algum tempo outra teoria a substituir ou a modificar, como fez Einstein com a relatividade geral, diremos que aquilo que tomávamos como necessário, verdadeiro em todos os mundos possíveis, era, na verdade, falso no mundo atual. Com isso a nova teoria seria a nova candidata a uma teoria necessária. Assumir que a ciência muda não é, de forma alguma, fortalecer o empirismo, é simplesmente saber distinguir epistemologia de ontologia. Se uma teoria científica se mostra falha, não há nada de errado com o mundo, mas, parece óbvio para mim, existe algo de errado na própria teoria. O essencialista é aquele que possui uma crença metafísica em propriedades essenciais, sendo a ciência uma das formas de rastrear estas propriedades. Já o anti-essencialista tem convicção de que não existem tais propriedades essenciais, sendo assim assume a crença metafísica de que tudo é contingente. Apesar do meu apoio à concepção metafísica (c), ou seja, assumo a existência de propriedades essenciais, minha intenção não era a de escrever argumentos a favor do essencialismo, mas sim escrever argumentos mostrando as pressuposições metafísicas envolvidas na semântica modal, além de mostrar que mesmo aqueles empiristas que tentam negar o discurso modal caem, inevitavelmente, no imbróglio humeano, que é, também, mais uma posição metafísica. Interessante nos lembrar de Popper 24 quando ele diz que posições metafísicas são impossíveis de serem confirmadas empiricamente (senão não seriam posições

23 Este argumento foi elaborado por Laudan (A confutation of convergente realism, 1981). Basicamente o argumento fala que se todas teorias científicas bem-sucedidas do passado se mostraram erradas no presente, as atuais teorias científicas bem-sucedidas também se mostrarão erradas no futuro. 24 1988, p. 28-29.

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metafísicas), logo nos resta apenas assumi-las e oferecer bons argumentos para nossas

crenças. Não consigo provar que Laplace ou Calvino, por exemplo, estavam

metafisicamente equivocados, nem que Hume ou Quine estavam errados. Talvez tudo

seja predestinado por Deus como pensava Calvino, ou então estamos imersos em um

fluxo determinista como Laplace disse. Quem sabe Hume tenha razão e a regularidade

do movimento do Sol não passa de uma contingência, podendo ele não nascer amanhã,

ou ainda Quine esteja correto sobre a contingência de todo o nosso conhecimento,

inclusive sobre a lógica e a matemática. Bom, como não consigo provar ao menos uma

posição metafísica, prefiro acreditar em propriedades essenciais do que achar que não

virei uma lagartixa por mera contingência.

Referências

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