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2 Psicopatologia ¢ implicagdes forenses ‘suMARIO Inoue, 16 Prioopatologia da consiéncia, 18 Pacopetologia da tench, 20 Pslopatologia da oienlagao, 21 Psicopatoiogla da meri, 22 Piopatoigia da sensapercepoto, 25, Psicopatoioga do pansamento e juizn, 26 Dols, 27 Psicopatologa da nguager, 30 Psicopatologia do aeta edo humor 92 Plcapatologa da vontade e impuiso, 38 DDependéncia quimica, 40 Intelignciae impllcagbes trenses no retard mental), 42 ‘consderages fina, 45 Referéncias biblogrficas, 45 ITRODUGAO [A psicopatologia deriva do grego psyché (alma, psiquismo), pathos (patoli- fico, doenga) e fogos (estudo} e se configura como uma disciplina interdiseiplinar que envolve a psiquiatria e a psicologia. Engloba a natureza essencial da doenga ‘mental, considerando suas causas, #8 mudangas estruturais e funcionais associadas a cla e suas formas de manifestagdes. Como pontua Cheniau, o esto da psiea- patologia engloba ainda o comportamento, a cognicZo eas experiéncias subjetvas Aanormais que se configuram como as formas de manifestasio e expresséo das doen- gas mentais. Ja Dalgalarrondo? a define como 0 conjunto de conhecimentos refe- rentes a0 adoecimento mental do ser humano. ‘Jaspers?, em seu Tratado de psicopatologia gral, considerou a psicopatologia como o estudo da vida psfquica anormal, sua realidade, suas formas de expressées, suas relagdes e suas miltiplas etiologias. ‘A psicopatologia forense aborda as questées das doengas mentais ¢ dos trans ‘tornos mentais e suas repercussbes jutidicas. Para Garcia’, a psicopatologia foren- se ocupa-se com 0s agentes que, cm virtude de mérbida condigéo mental, tém mo- 16 2 Pslopacologae implicagbesforenses 17 dificada a juridicidade dos seus atos e de suas relagbes sociais, fazendo parte do cenario de investigagio da psicologia, da psiquiatria e da medicina legal, além da ‘eriminologia. A esséncia do processo de investigagio da psicopatologia centra-se antes de tudo nos sinais ¢ nos sintomas. Os sinais so observages e descobertas objetivas, coma os afetos ou as alteragies psicomotoras. Jd os sintomas representam as ¢x- perincias subjetivas descritas pela propria pessoa, expressas na maioria das vezes como a queixa principal, por exemplo, o humor depressivo ou a falta de energia!. Anda sobre os sintomas, consideram-se dois aspectos bésicos. O primeiro referen- te & forma dos sintomas, isto é como se manifesta seja por meio de alucinacio, seja por delitio, obsess6es ou labilidade afetiva. Fo segundo aspecto refere-se a0 contetido do sintoma, isto &, constiui-se de indicadores de culpa, grandiosidade, persezuigo, religido, contaminacio ete.!. No contexto da psicopatologia atenta-se para a denominagio de sindrome, que se caracteriza por um grupo de sinais e sintomas que, juntos, constituem wma condicio reconhecivel No escopo da interface sate mental e justiga, apresenta importante celevin- «ia visto que 0 conhecimento dos aspectos psicopatol6gicos corrobora uma estrei- ta relacio com a possibilidade de: + Diferenciar impuesveis inimputiveis (n0 dizeito penal). + Diferenciar capazes e incapazes (direto civil). + Limitagies (direito do trabalho e previdencisrio}. *Verdade vs. mentira, esponsabilidade,rsco. De relevante tém-se os conhecimentos em psicopatologia, principalmente na ssua interface com o Cédigo Penal brasileiro no que tange a responsabilidade penal (imputabilidade, semi-imputabilidade c inimputabilidade} em seu art. 26: ‘Art. 26. isento de pena o agente que, por doenca mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, a0 erapo da acZo ou omissio, ineiramente in- capaz de entender 0 caréterilicto do fato ou deteeminarse de acordo com esse enter dimento, Reducdo de pena PPardgrafo Gnico. A pena pode ser reduzida de um a dois texcos seo agente, em virmade de perturbacio de sade mental ou por desenvolvimento mental incompleto ox retardado nao era capaz de entender 0 cariterilcito do fato ou determinar-se de scordo com esse entendimenco. E quanto ao Cédigo Civil no que tange 4 capacidade civil segundo os artigos: 18 Psicologia «pris Fornses Ar. 3° Sio absolutamenteincapazes de exercer pessoalmente os atos da vid civil: [J Hos que, por enfermidade ou deficiacia mental, no tiverem o necessric cliscernimento paca a pitica desces ato; [- At 4° Sao incapazes, relativamente a certos atos, ow & manera de os execeer [-1I- 0s ébrioshabitaais, os viciados em t6xicos, 0s qu, por defieitacia men- tal, tenham 0 discernimento eeduzidos IIT ~ os excepcionais, em desenvolvimento mental completo; ..] (© que caracteriza a psicopatologia na prética é a possibilidade do conheci- ‘mento do fancionamento mental de uma determinada pessoa. Definimos por fan- cionamento mental a maneira como a mente humana opera, sendo que este “fun: cionamento” se da pela avaliacio da sensagio, da percepsdo, da orientagio, de pensamento, da motivasio, da meméria, da atencdo, da consciéncia, do raciocinio, da inteligéncia, da emogio e da personalidade traduridos pela expresso do com- portamento, ‘As cizcunstncias da expresso de um comportamento so também seu obje- to de estudo, scja adequado socialmente ou ndo (conduta antissocial). Seu objeti- vv 6 identificar 0 que levou a (circunstncias) e 0 panorama de comportamentos anteriores (hist6rico). PSICOPATOLOGIA DA CONSCIENCIA © termo consciéncia origina-se do latim cunt scientia, correspondendo & n0- «lo de ser consciente, Para Jaspers refere-se ao complexo processo mental para a distingo do “ea, do ndo eu e do ambiente”. Segundo Dalgalarrondo?, para © termo consciéncia aplicam-se as seguintes definigdes sobre trés prismas: # Neuropsicolégico ~ sentido de estar vigil, clareza do seasério, lucidez, esta acordado, * Psicolégico ~ soma das experincias conscientes de um individuo em dado momento, é seu contato com a realidade e sua interacio. * Btico-filos6fico — capacidade de tomar cincia de seus deveres éticos, assu- mie suas responsabilidades, deveres e direitos. £ atributo do homer desenvolvido responsive, inserido em uma comunidade com suas regras ¢ valores. Independentemente das questées conceituais de mancira geral, a consciéncia re- feces ao nivel de alerta do indivuo no qual einsere a prcepso de sie do seu em tome, Em termos de altragdesenglobaaspectos quanttativos equalitativos que ak teram dretament todasas demas fungGes com imbricagio dicta naesera jurdic. ss 2 Pslzopaolopi implicages forenses 19 Alteragées quantitativas Consiste da diminuigao do nivel da conscigneia de forma progeessiva desde 0 «estado normal, vigil, despert, até o estado de coma profundo, no qual ndo hi qual- quer resquicio de atividade consciente. Divide-se em: * Embotamento ou turvagio da conscigncia: é 0 rebaixamento da consciéncia em um grau leve a moderado, com o paciente podendo estar desperto ou visivelmen: te sonolento; presenga de lentido da compreensio e dificuldade de concentrasio, + Estreitamento da consciéncia: diminuigdo do campo da consciéncia. O gra ‘maximo de redugao € 0 foco, coma ocorre no sonambulismo e na epilepsia do lobo temporal, * Obnubilagio: estreitamento do nivel de consciéneia. 4 presenca de outras alteragdes mentais, como alucinagies, ilasées ¢ agitagio psicomotora. Alteragies qualitativas Relacionam-se as alteraySes parciais no nivel de consciéncia, entre elas desta- + Estados crepusculares: corre um estreitamento transit6rio do campo da cons- ciéncia com a conservagio de uma atividade psicomotora global coordenada; surge ¢ desaparece de forma abrupta, com durasio variando entre horas e semanas; atos explosivos violentos ¢ episédio de descontrole emocional podem se frequentes * Dissociagio da conscigncia: hé uma divsio no campo da consciéncia, com pperda da unidade psiquica do ser humano; a crises duram de minutos a horas. + Estado hipnético: caracteriza-se por um estado de consciéncia reduzido ¢ estrcitado e de atengio concentradas pode ser induzido por outeem. Implicagées forenses AAs alterages da consciéncia integram a sintomatologia de uma gama de qua- dros neuropsiquidtricos com implicagées seja de ordem penal, seja de ordem civel Esta observacao deve-se ao fato de que, para o Direito, o principio da determina- ‘fo da racionalidade, ou seja, a sanidade mental (Iicider, auséncia de loucura), a capacidade de perceber, compreendes, raciocinas, planejar e executar (capacidade de entendimento} eo controle sobre a emogio e os impulsos (capacidade de auto- ddetérminagio} deve ser comprovado. Nas aterages da consciéncia, mesmo de for- ma transit6ria, haverd prcjuizos sobre o dominio da razio ¢ do autoconttole, ca- bendo a inimputabilidade para as questdes penais e a auséncia ou capacidade ddiminuida para as questoes civeis. 20. Pricoiogiaepetias forenses PSICOPATOLOGIA DA ATENGAO A atencio representa a diregio da consciéncia, o estado da atividadke mental sobre determinado objeto. Dentro da psicologia cognitiva, a atensio é o fendme no pelo qual processamos ativamente uma quantidade limitada de informagoes dis: pponiveis através dos nossos sentidos, de nossas memérias armazenadas ¢ de outros processos cognitivos’. Para Lezak’, refere-se a uma variedade de capacidades ou pprocessos que estio relacionados a como o organismo recebe, processa e responde a este estimulo {interno ou externo}. ‘Quanto & natureza classifica-se em: + Voluntéria: atencao ativa, com gasto de energia intencional da conscidncia sobre um objeto. * Involuntévia/espontinea: ativada pelo ambiente, no momento, incidental, sem investimento de energia que desperta este ou aquele objeto; aumenta em geral nos estados mentais nos quais o individuo tem pouco controle volantirio das at vidades mentais Em celagio a ditegio classifica-se em: ‘* Externa: diecionada para fora do mundo subjetivo do sujeito; voltada para ‘o mundo exterior ou para o corpo, em geral de natureza mais sensorial. ‘Interna: voltada para os processos mentais do préprio individuo, seus pr6. prios problemas. Quanto a qualidade engloba: ‘*Tenacidade: que é a capacidade de fixar ou manter sua atencio sobre dada 40a ou objeto; a atengio se prende a dado estimulo, fixando-se sobre ele. ‘* Vigilincia: capacidade de manter desviar a atencdo para os objetos quan- do solicitam sua atengi0s permite 20 individuo mudar o foco de um objeto a outro Principais alteragGes da atengio: ‘* Hiperprossexia: estado exacerbado da atengao; tendéncia incoercivel a fi xarlmanter a atencio indefinidamente sobre dado objeto (hipertenacidade), a0 mes- smo tempo em que desvia a ateng3o para outro objeto. '* Hipoprossexia: perda basica da capacidade de concentragfo, com cansago excessivo, que dificulta a percepcio dos estimulos do ambiente ¢ a sua compreen: | | i 2 Psicoparologi implicagbesforenses 21 so, tornando as lembrangas mais diffceis € imprecisas. Configura-se ainda como diminuigio global ds atencio (hipotenacidade e hipovigilancia). * Aprossexia: total aboligdo da capacidade de atengio a quaisquer estimulos. + Distrabilidade: quadro patol6gico da tengo caracterizado por uma insta- bilidade e mobilidade acentuadas da atengdo voluntaria, decorrendo em uma ines ppacidade para fixar ou se manter em qualquer condicio que exija esforgo, produti Implicagées forenses No contexto geral dos cédigos de lei do Brasil (penal e civil), nfo hé referén- cias diretas a condigao de déficit de atengo. No entanto, comportamentos decor- rentes de possiveisalteragSes da capacidade e qualidade da atengio podem set ana- lisados sob a perspectiva do contexto forense. ‘Como a desorganizacio na forma de viver dos pacientes com transtorno do déficit de atengdo ¢ hiperatividade (TDAH) é uma marca proemineate e essa condi- o geralmente pode levar essas pessoas a no cumprirem suas responsabilidades, normalmente esquecem de pagar contas, nado cumprirem metas de trabalho por nto conseguirem estabelecer prioridade, como também incapacidade para estabelecer € cumpric uma rotina, estas dificuldades podem ter implicagées cfveis etrabalhistas. ‘No campo das relagdes do trabalho, a preseaga do TDAH pode se configurat cm uma condigio ineapacitante para execugso de determinada atividade, Opera- dores de guilhorina, méquinas de prensar e empilhadeiras, por exemplo, requerem alta capacidade de concentragio, dado o sisco de acidente de trabalho, Candidatos a piloto de helicéptero ou avido também terdo problemas nos process0s seetivos, (cxames psicolégicos) para atestar a plena capacidade para desenvolver atividade to complexa. Nos quadeos de necessidade de afericZo da qualidade atencional me- diante avaliagao neusopsicolégica. PSICOPATOLOGIA DA ORIENTAGAO ‘A orientagio encontra-se diretamente relacionada ds noges de tempo ¢espa- 50 ese constitui de Fungo psiquica bsica que serve para aferir 0 estado de cons- iéncia com ¢ ateacao. Em elemento bsico da atividade mental!2, ‘esse sentido, permite ao individuo situar-se em relagio a sie ao mundo que © rodeia por meio da orientaséo autopsiquica, orientasao do individuo em relagio 2 si mesmo (identidade, individualidade, permanéncia, atividade) e da orientagio slopsiquica, relativa & capacidade de orientar-se em relacao a0 mundo, 20 tempo (cemporal: dia, més, ano, hora} e ao espaco (espacial: local, bairro cidade, estado, pais). 22 Psicologia e pritica forenses As principais alteragdes si: + Fetado confusional: ocorte por diminuisio do nivel de consciéncia, como a turvagio da eonseincias 6a forma mais comum de desorientagio. * Estado apético ou abiilico: fruto de uma marcante alteragio de humor ¢ da voligio, por desinterestee desmotivagio, O individuo tende a responder a qualquet _pergunta com um “nao sei”. comam em deprimidos graves, ns quai seu sofi- ‘mento emocional € t2o importante a ponto de deixar o resto sem relevancia. ‘Estado delirante: secundario & atividade delirante, podendo ter até perda da ‘dectidade. # comum a dupla orientaglo, na qual a orientagio fala, delirante, coe iste com a correta real * Quadro amnéstico: ocorre por déficit da meméria de fixacdo, no qual o in- dividuo nao consegue fixar as informages ambientais basicas. Geralmente o indi- 0 perde a nogio do fluir do tempo e do deslocamento no espago. Implicagdes forenses Os déficits de orientagao derivam de outeas alteragées como os quadeos dis funcionais da atencio e da meméria, integrando tanto quadros puramente psiquia ‘ricos ou neuropsiquidtricos. No processo da pericia, cabe ao avaliador a investi aco minuciosa destes déficits para a adequada compreensao da extensio das dificuldades. Sendo assim, 0 contexto forense tera repercussées tanto civel come penal. PSICOPATOLOGIA DA MEMORIA Para Ixquierdo®, meméria a aquisisao, a formagao, a conservacio e a evo- cagio de informagées. A aquisigao € também chamada de aprendizagem: s6 se “gra- va” aquilo que foi aprendido. A evocagio é também chamada de recordago, lem- branga, recuperagdo, S6 se lembra daquilo que se grava, daquilo que foi aprendido, Depend os stems sone © audio axa Tat © oftwo Fstmula =—e — Sereaydo > Parspgo. > Figura 2.1 Adaptada ce Strabo, 2 Pricoparologia «implicages forenes 23 Kandel etal? enfatizam que a meméria é 0 armazenamento de informagées, pautadas nas nossas experiéncias pezeeptivas, motoras, afetivas (experiéncias emo- cionais) e cognitivas {pensamento).J4 Dalgalarrondo®estabelece que a meméria envolve a capacidacle de registrar, manter € evocar fatos ja ocorridos. A capacida~ dle de memorizar relaciona-se com © nivel de conscizacia, da atenglo e do inveres- se afetivo. Os processos relacionados ao aprendizaco dependem intimamente da capacidade de memorizar. O processo da memaéria © processo da meméria envolve teés fases: + Aquisigio: atengao e recepe4o da informacio. Nessa fase os cinco sentidos sio utilizados (audigfo, tato, paladar, visio e olfato), captando os detalhes daqui- lo que prestamos atencio e enviando a mensagem ao cérebro. O cérebro seleciona as informagées, armazenando aquilo que é importante, descartando o restante. Des- sa forma, a concentragao é fandamental, pois o cérebro s6 consegue guardar aqui- lo que damos atencio. + Consolidagio: armazenamento da informagao. E processada no hipocampo por meio de reagées quimicas especificas. Ocorrem mudangas que possibilitam a ‘memorizagio. + Bvocacio das informagGes: recuperagio ou resgate. Essa fase acontece quan- do acessamos os dads armazenados na meméia. E 0 que se chama de lembranga Sistemas de memoria + Meméria imediata ou de curtissimo prazo: capacidade de reter 0 material logo apés ser percebido. Tem capacidade limitada e depende da concentragao ¢ da fatigabilidade. ‘* Meméria recente ou de curto prazo: capacidade de reter a informagio por um periodo curto de tempo (poucos minutos até meia hora). Tem capacidade limitada, * Meméria remota ou de longo prazo: é a capacidade de evocagao de infor mages ¢ acontecimentos ocorridos no passado, mesmo apés meses ou anos. Tem capacidade bem mais ampla. Relacionada a Areas corticais (principalmente fron- ‘ais ¢ temporais). Principals alteragdes da meméria As alteragdes de meméria podem ser quantitativas ¢ qualitativas. De ordem quantitativa tem-se: 2A Prcologiaeprtiens forenses + Hipermnésia: caracteriza-se pelo excesso de meméria, ganhando-se em quan- tidade e perdendo em clareza e precisios pode estar presente em pacientes com re- tardo mental. Hipomnésia: representa uma diminuigfo da meméria, comum apés traumas, infartos, infeegées ou docncas degenerativas. * Amnésia: peeda da meméria, seja por perda da capacidade de fixagao ou de ‘manter e evocar antigos conteddos. ‘© Amnésia psicogénica: perda de elementos mnémicos focais, com um valor psicolégico especifica (simbélico, afetivo). Pode-se esquecer devido a forte conteé do emocional e ser recuperado por meio de psicoterapia. ‘© Amnésia orgdnica: apresenta menos seletividade que a psicogénica; em ge- ral ocorre primeiro a perda primdria da capacidade de fixagao c em estados avan- gados o individuo perde os contetidos antigos. ‘ Amnésia anter6grada e retrograda: na anterégrada, ha perda de conteddos, que virfo a partic do acidente e, na retrdgrada, perde-se o que estava gravado até oacidente. ‘ Amésia lacunae: perda da meméria de eventos dentro de um espaco de tem- po, uma lacuna, Lembra-se o antes ¢ 0 depois. Comum nas convulsdes e intoxica- ‘do alcoslica. «# Amnésia irreversivel: quase total impossibilidade de recuperar informagées, carte em algunas epilepsias e no mal de Alzheimer. De ordem qualitativa tem-se: + Alomnésia ou ilusto mnémica: ocorre um acréscimo de contetidos falsos a um miicleo verdadeiro de meméria, a lembranga adquire um cardzerficticio. O fate cocorreu, mas 0 individuo distorce a lembeanca dele; isso € comum em situagées de ‘traumas emocionais, como nos casos de pessoas que sofreram violéncia sexual a infancia, ‘*Paramnésia ou alucinagdes mniémicas: nestes quadcos o fato no ocorreu, mas 1 pessoa relata como se tivesse ocorrido, Nao ha distoreo dos fatos, mas criaso. Implicagées forenses ‘As questées juridicas imbricadas pelas disfungGes da meméria, conduzem duas linhas dividem e determinam a especificidade da aplicagao da avaliagio neuropsi colagica forense. A primeira relativa a verificacéo quer quantitativa, quer qualita: tiva dos prejuizos da meméria decorrente dos fatores organicos com esteeita rela- so com a capacidade civil A segunda linha compreende as alegacdes de déficts de meméria, por vezes fulezo dos processos de simulago, que participara tanto na es 2 Pricopatologia impliagBerfrenscs 25 fera do dircito penal, como o acusado que declara “no lembrar de nada”, quanto na esfera do dircico do trabalho e previdencidrio, nos quais a queixa do possivel deficit tem haver com interesses de aposentadoria ou afastamentes. PSICOPATOLOGIA DA SENSOPERCEPGAO ‘Ao abordar o tema sensopercepeio, reporta-se a um complexo sistema que liga o mundo fisico e psicol6gico dos homens e dos animais. A sensagao indica como 1 6rgios dos sentidos respondem aos estimulos externos ¢ transmitem as respos- tas a0 cérebro. A percepgio representa 6 processamento, a organizagio ea inter- pretacio dos sinais sensoriais que resultam em uma representagio interna do est mulo®, Fernande'" cessaltou que 0 estudo da sensopercepgio depende da capacida- de de discriminagio de cor, forma, peso, temperatura, consisténcia, textura, sabor, por exemplo, eapacidades essas que dependem da sensaglo e da percepcio que nos permite reconhecer ediseriminar os objetos. ‘De maneira geral a sensopercepsio se constitu de um conjunto de processos pelos quais se reconhece, organiza c entende as sensacées recebidas, os estimulos ambientais © qual compreende as alteragdes descritas a seguir’ Principais alteragdes da sensopercepgéo ‘As alteragées da sensopercepeao podem ser quantitativas ou qualitativas. As ualitativas envolvem a hiperestesia (as percepgées estio anormalmente aumenta- das em qualquer 6r—i0 ou sentido; ocorrem nas intoxicagdes exSgenas, algumas epilepsias, hipertireoidismo, enxaqueca, quadros maniacos, esquizofrenias etc.) €a hipoestesia (a pessoa percebe o mundo circundante como mais escuro, as cores se tomam mais pilidas, sem brilho, alimentos com pouco sabor etc as sensaces par ecem apagadas; alguns pacientes depressivos podem apresentar este quadro). ‘Jé.as qualitativas incluem ilusio (que é uma percepcao deformada, alterada, de um objeto presente, existente, decorrente do rebaixamento da consciéneia, fadi- fa grave e alguns estados afetivoss as uses visuais e afetivas sdo as mais comuns) alucinacao {quando a pessoa tende a vivenciar a percepgao de um objeto sem a sua presenga, sem um estimulo sensorial; existe a percepcio perfeita de uma vor ‘ou imagem, com todas as caracteristicas normais, 6 que sem o objeto; as mais co- imuns sio as auditivas, ¢ os contetidos em geral sZo de vozes que ameagam, insul- tam e dizem frases de contetido ameagador ou depreciativo, podem ainda dar or- dens ou comentar as atos do paciente; ocorrem na esquizofrenia, nos quadros depressivos muito graves ¢ nos quadros de manias).. 26 Pecologia «pris foremtes Implicagdes forenses Estes quadros geralmente participam dos sitomas relativos a quadsos psicé ticos como as esquizofrenias,psicoses orgnicas, psicoses indusidas por abuso de 4lcool e substincias psicoativas, além dos quadros demenciais. A necessidade de peticia dependera do enquadie jurfdico a que se aplica a agfo. O que pode abaccar