Você está na página 1de 12

www.humbertomariotti.com.br

A escalada da barbárie. (E o papel da palavra como instrumento de libertação) *

Humberto Mariotti

*Publicado, com pequenas modificações, na revista Thot (São Paulo) 67:25-33, 1997.

Este ensaio fala da literatura como forma de buscar algum grau de compreensão do mundo em que vivemos. Na qualidade de arte, o fazer literário é um modo de resistência à alienação. Mantê-lo ou perdê-lo é uma escolha nossa — e também uma responsabilidade da qual não podemos escapar.

Duas culturas

Ao que se diz, vivemos hoje uma fase de refluxo da literatura de ficção. O que se afirma é que a ficção literária estaria sendo substituída pelas formas de expressão que utilizam a imagem. E o livro estaria em vias de extinção e seria substituído por outras formas midiáticas como o E-book, o DVD, o CD- Rom e similares.

Mas pouco se fala de um aspecto óbvio: para que se chegue ao filme, ao vídeo ou equivalentes, é preciso que alguém pense no enredo e em sua expressão inicial, que será sempre constituída por palavras. Isto é: alguém terá de escrever a sinopse e o roteiro, para que uma história possa ser posta em imagens e apresentada. Desse modo, aquele que inventa e transforma o que criou em palavras — o escritor — continuará existindo, seja como roteirista ou o que for.

Dito de outra maneira: sem a palavra como ponto de partida não poderão existir as outras formas que supostamente substituirão o livro, ou elas só existirão de um modo muito primitivo. Não nos esqueçamos de que foi a linguagem verbal que nos tornou humanos. O problema real, portanto, é que o suposto desprestígio do texto é na verdade uma forma de privar a mente humana do contato direto com a palavra e seu poder analisador e transformador.

Dessa forma, o que importa investigar aqui é a perspectiva do desaparecimento da literatura como forma de pensar o mundo e tentar compreendê-lo. Para tanto, convém deixar de lado o aspecto acessório da questão, isto é, se o livro de papel vai ou não perdurar. Passemos, portanto, a examinar o que acontece com o texto ficcional como meio de apreensão, compreensão e expressão da realidade e as prováveis conseqüências de tudo isso.

www.humbertomariotti.com.br

Antes, porém — e apenas para apoiar a análise feita neste parágrafo e no seguinte —, tomemos como correta a premissa de que a era do livro tal como o conhecemos está no fim. Como de costume, essa seria mais uma ocasião em que o Brasil conviveria com uma fase cultural importante sem ter ao menos entrado nela. Sabemos que, ao longo da história, a literatura de ficção como instrumento de reflexão sobre a condição humana proporcionou apreciáveis benefícios a um bom número de países. Entre nós, contudo, isso não ocorreu ou só ocorreu de um modo muito restrito — mas não por falta de bons escritores. O que aconteceu foi que desde o início a cultura brasileira pouco teve a ver com a palavra escrita, ao contrário da anglo-saxônica e da judaica.

O estreitamento e o obscurecimento do nosso horizonte mental daí resultantes persistem até hoje, como mostra a nossa eterna condição de país periférico, que insiste em continuar a se auto-enganar com a esperança de um desenvolvimento que virá num futuro sempre adiado. Tal esperança, como todos sabemos, refere-se a um desenvolvimento apenas mecânico, tecnocrático, quantitativo e reservado a uma elite. Assim é claro que ele não melhorará em nada as nossas capacidades de reflexão, auto-compreensão e compreensão do mundo. Por isso mesmo, dificilmente nos livrará da posição periférica e caudatária que hoje ocupamos.

Voltemos agora ao tema principal. Já sabemos que a ficção escrita, veiculada sob a forma de contos, novelas, romances, etc., é um modo importante de compreender (não de explicar) o mundo. O mesmo

é válido para a poesia. A questão é determinar até que ponto a palavra pode ser suprimida sem que o

logos — a razão 1 — seja prejudicado, com o estado de alienação daí resultante. Não há respostas categóricas para essa indagação, é claro. O que se pode fazer é mostrar como tais fenômenos se revelam na prática, e convidar o leitor a refletir sobre os estragos que essa supressão pode provocar caso seja quase total, como muitos afirmam. Trata-se, portanto, de determinar até que ponto a palavra como meio de compreensão de mundo pode e deve ser complementada pela imagem.

Como se sabe, o sucesso de público, o grande sucesso de massa, em geral se expressa por um discurso verbal pouco expressivo, complementado por imagens padronizadas. Quando a palavra escrita é utilizada, muitas vezes ela é posta a serviço do esquematicismo, da uniformização e da superficialidade. Em termos literários, é o caso dos chamados bestsellers, a conhecida literatura

digestiva. Além disso o sucesso de massa, iletrado por natureza, manifesta-se em geral pela propensão

à violência, à banalização do sexo e outras formas de expressão da superficialidade. Em outros termos,

a diminuição da importância da escrita como meio de expressão da inteligência e do imaginário está enraizada na barbárie em que as sociedades humanas vêm cada vez mais mergulhando.

É sabido que a grande maioria das pessoas tem seu gosto massificado pela propaganda e pelo

www.humbertomariotti.com.br

marketing. Essa massificação se tornará cada vez mais fácil e eficaz se o pensamento coletivo for mantido no plano do concreto, do linear, do raciocínio de causalidade simples, cuja característica básica é ver as causas como imediatamente anteriores ou muito próximas aos efeitos. Trata-se de um

modelo mental imediatista e simplificador, que procura excluir a diferença (a diversidade) e privilegiar

a repetição (os padrões). É evidente que nesse processo o imaginário, com seu potencial de criar novas visões de mundo, é reprimido ou direcionado para a produção em série de imagens estandardizadas.

A educação que recebemos, balizada por essa linearidade, faz o que dela se espera: produz a instrução técnica necessária aos atos da vida mecânica. Para isso, utiliza um mínimo de palavras e um máximo

de imagens-padrão (características da baixa cultura). E procura reprimir, ou pelo menos não estimular,

a emergência da linguagem escrita como instrumento de investigação/invenção e produção de imagens

criativas — características da alta cultura. A tônica da barbárie, portanto, inclui a repressão ao imaginário e o combate à diferença em todas as suas formas: na linguagem, na arte, na expressão corporal — em todos os meios pelos quais o indivíduo pode se diferenciar da massa. Todos esses fenômenos são conhecidos há muito tempo. A atual diminuição de prestígio da literatura de ficção é

apenas uma das manifestações de um processo mais amplo, que é a progressiva boçalização da nossa cultura.

Sabe-se que as pessoas criativas tendem a se rebelar contra a massificação de seus gostos e preferências. Reagem contra a uniformização resultante da ação do marketing e da propaganda e contra a monotonia do trabalho e do lazer repetitivos. O declínio da literatura de ficção se enquadra nas estratégias de desestímulo ao comportamento diferenciado. Os bons livros são, como sempre foram, inimigos da vulgaridade e do nivelamento por baixo. É por isso que eles fazem tanta falta no mundo atual. O romance, como disse Lucien Goldmann, é um gênero de oposição.

Mas o problema é que a vulgarização das pessoas pela supressão da palavra as torna cada vez menos capazes de perceber essas nuanças. Um dos mecanismos pelos quais isso se produz é nossa tendência

à interpretação conspiratória da massificação. Ao que parece, muitos de nós estão convencidos de que

a imbecilização coletiva, como todos os fenômenos que a acompanham, é produto da ação de um

sistema "superior", "onisciente" e "onipotente". Seria uma espécie de establishment que tudo comanda

e contra o qual é inútil lutar. Colocamo-nos na situação de vítimas, e com essa desculpa tentamos fugir à responsabilidade de ter de enfrentar essa realidade: não há dominação sustentada sem o consentimento e a colaboração dos dominados. Tudo o que vivemos ocorre com nossa anuência, seja ela consciente ou inconsciente.

Essa postura de vítimas de uma suposta conspiração reflete e reforça uma das manifestações clássicas do modelo mental predominante em nossa cultura, que tende a dar pouco valor às iniciativas

www.humbertomariotti.com.br

individuais para a transformação social. É por isso que é tão difícil o trabalho de conscientização das pessoas para a cidadania, em especial em nosso meio latino-americano. Ao que tudo indica estamos num beco sem saída, que no entanto pode ser reaberto por meio de uma educação que ensine as pessoas a pensar de maneira racional.

É o que se pretende pôr em prática hoje em dia com iniciativas como a interdisciplinaridade e, de

modo mais sofisticado, com a transdisciplinaridade. Entretanto, mesmo entre os proponentes dessas orientações é freqüente uma dificuldade: reconhece-se a importância do imaginário, é claro, mas muitos parecem não entender que propostas como a abordagem transdisciplinar — que visa a sinergia

dos modelos mentais linear e sistêmico — precisam ser postas em prática por meio da harmonia entre

a palavra e a imagem. Parece que existe uma grande lentidão para entender que para o sucesso dessa complementação é fundamental que o fabulário dos povos continue abrangente. E que para tanto é indispensável o uso da palavra — do logos, portanto — como instrumento de criação.

Tal objetivo não pode ser atingido numa cultura cada vez mais atrelada a ícones, logomarcas e outras expressões da imagética padronizada. Não que esteja de todo ausente a noção da importância da ficção. As pessoas costumam citar obras literárias, até porque esse procedimento sempre foi considerado cult. Mas a grande maioria não as leu e, mesmo nesse caso, muitos não chegaram a compreender que a leitura dos textos da grande literatura é um poderoso instrumento de desenvolvimento da razão humana, base de toda iniciativa de compreensão do mundo. A literatura não

é apenas um entretenimento (esta é a proposta das obras ditas "digestivas"). Ela cumpre o papel geral

das artes: a busca da clareza possível sobre o mundo e as pessoas, tarefa de que o pensamento linear isolado não é capaz. Como escreveu Albert Camus, "se o mundo fosse claro, a arte não existiria".

A esse respeito, convém lembrar o que Harold Bloom mostrou com argúcia: em Shakespeare estão

muitas das bases do pensamento de Freud. Ao que se pode acrescentar que em Kafka, Proust e Céline há uma profundidade de investigação da alma humana de que as psicologias formais ainda não são capazes. No caso da ficção de um escritor como Ernesto Sábato, pode-se dizer que poucos textos filosóficos da atualidade (inclusive os dele próprio) têm examinado a questão do lado sombrio da alma humana como os seus romances. Sartre mostra pela ficção o que muitas vezes tem dificuldade de explicar por meio do discurso filosófico. Há toda uma filosofia implícita nos contos de Borges.

Kurt Lewin assinala que as descrições mais bem estruturadas e abrangentes de situações humanas são

as feitas por escritores como Dostoiévski. Acrescentemos que o mesmo vale para Tolstoi. Alfred

Adler dizia que haveria de chegar um tempo em que os artistas seriam considerados guias da humanidade. Também ele admirava Dostoiévski, e sempre viu o escritor russo como um predecessor da chamada psicologia profunda. Aliás, existe hoje um consenso que vê a obra dostoievskiana como

www.humbertomariotti.com.br

ainda pouco estudada sob o ponto de vista de sua contribuição à psicologia.

Nos domínios de Machado

Freud não ignorava nada disso. Chegou mesmo a aprender espanhol — sem mestre — para ler o Dom Quixote. E se tivesse aprendido o português teria se deliciado com O alienista, de Machado de Assis, conto que mostra a que extremos do ridículo podem chegar o cientificismo e a arrogância intelectual. A história de Machado é uma pequena obra-prima, de modo que vale a pena comentá-la.

O alienista apareceu entre outubro de 1881 e março de 1882. A época é a do vice-reinado. A ação se passa na vila de Itaguaí, onde o médico Simão Bacamarte decide dedicar-se ao estudo e tratamento da loucura. Depois de vencer as resistências de praxe, Bacamarte consegue da Câmara local autorização e ajuda para abrir o seu manicômio, a Casa Verde. Logo após a inauguração, ele começa a perceber que o número de insanos em Itaguaí e arredores é maior do que imaginara. Por isso, as instalações do hospício vão aos poucos se ampliando. Essa expansão faz com que o alienista alargue também seus critérios para o diagnóstico da loucura:

"Homem de ciência, e só de ciência, nada o consternava fora da ciência; e se alguma cousa o preocupava naquela ocasião, se ele deixava correr pela multidão um olhar inquieto e policial, não era outra cousa mais do que a idéia de que algum doente podia achar-se ali misturado com a gente de juízo." 2

Daí a expandir na prática o âmbito da loucura é só um passo. As internações se sucedem ao menor motivo e mesmo sem motivo algum. Já não há como escapar ao poder da Casa Verde. As pessoas do lugar, entretanto, terminam se insurgindo contra esse estado de coisas. A Câmara recebe uma petição que pede o fechamento do hospício, mas não a acolhe. A reação popular, porém, continua e é grande:

discute-se o despotismo científico do médico e põe-se em dúvida a sua própria sanidade mental. A resposta é categórica:

"Poderia convidar alguns de vós, em comissão dos outros, a vir ver comigo os loucos reclusos, mas não o faço, porque seria dar-vos razão do meu sistema, o que não farei a leigos, nem a rebeldes." 3

A revolta cresce, mas depois de um momento de aparente vitória acaba fracassando. Simão Bacamarte, revigorado pelos acontecimentos, permite-se um gesto magnânimo: recolhe ao manicômio boa parte de seus críticos. As internações recrudescem, a ponto de nem a própria esposa do médico ficar de fora. Até que um dia, de súbito, ele resolve dar alta a todos os internados. A Câmara é notificada por escrito. A perplexidade é geral. Bacamarte havia mudado de orientação: o que agora via

www.humbertomariotti.com.br

como normal era o anormal de antes. Revisara as suas teorias, ou, como diriam hoje não poucos eruditos, "fizera uma releitura de seu corpo de doutrina".

Mas logo recomeçam as internações e a esse novo surto se segue mais um refluxo: aos poucos volta a esvaziar-se a casa Verde. Ainda assim, Bacamarte não se dá por satisfeito. Nas palavras de Machado:

"Não lhe bastava ter descoberto a teoria verdadeira da loucura; não o contentava ter estabelecido em Itaguaí o reinado da razão. Plus ultra! Não ficou alegre, ficou preocupado, cogitativo; alguma cousa lhe dizia que a teoria nova tinha, em si mesma, outra e novíssima teoria." 4

Isso pensado, o médico se enfurna em sua biblioteca e começa a se auto-analisar. Depois consulta um conselho de amigos. Dessas reflexões tira uma conclusão: acaba convencido de que é um modelo de sanidade mental. Diante do que, interna a si mesmo na Casa Verde onde retoma a auto-análise. É

taxativo: "A questão é científica (

Reúno em mim mesmo a teoria e a prática". 5

);

trata-se de uma doutrina nova, cujo primeiro exemplo sou eu.

E assim termina morrendo sob a suspeita de ser, no fim das contas, o único louco do lugar. Suspeita essa, diga-se, atribuída ao padre da vila que "com tanto fogo realçara as qualidades do grande homem". 6

Como se vê, a posição de Simão Bacamarte consiste em acreditar que o científico equivale sempre ao verdadeiro. Mesmo quando se auto-examina ele o faz à luz de sua teoria, e não de sua experiência direta com o mundo real. Essa atitude lhe conferiu poder e sobranceria, mistura que o levou passo a passo à intolerância, ao radicalismo e por fim à solidão. Ao encarnar o cientificismo, o personagem machadiano se propôs inquestionável, e portanto o único detentor das artes e sutilezas de seu ofício.

Ao mostrar a distância que Bacamarte estabelece entre ele e seus pacientes, Machado dá um exemplo nítido da separação sujeito-objeto que é própria do modelo mental linear. Assim, revela-nos o quão longe do real podem ficar determinados teóricos. Vimos que a crise vivida pelo alienista num dado momento o levou a dar alta a todos os internados, o que aparentemente faz dele um antipsiquiatra avant la lettre. Mas só aparentemente. Em seu estudo sobre a novela, Luiz Costa Lima identifica o significado do comportamento pendular de Bacamarte, e mostra que o tema básico d'O alienista — o que é a loucura? — só pode ser compreendido se examinado por meio da relação entre a ciência, a linguagem e o poder.

Surge então a importância de um tema paralelo: o poder do saber, que Machado denuncia partindo do discurso ficcional e chegando ao psicológico, político e filosófico. Por não reconhecer que poderia

www.humbertomariotti.com.br

estar errado (ou seja, que poderia perder o saber), o alienista acabou perdendo o poder. O que nos leva

à especulação: o que teria acontecido se ele não tivesse parado, se tivesse continuado a internar as pessoas a seu talante, a considerar-se a personificação da teoria e da ciência?

À vista de casos análogos, registrados na história da psiquiatria e da psicoterapia, teríamos algo assim:

um Bacamarte cada vez mais poderoso, internando na Casa Verde (isto é, reduzindo à sua teoria)

todos os que não se mostrassem crédulos e disciplináveis. Desse modo, seu prestígio aumentaria de modo crescente; não tardariam a acorrer discípulos, acólitos e agregados vários, que levariam adiante

as teorias do mestre e logo formariam instituições; estas brigariam entre si pela custódia e

interpretação do "corpo de doutrina"; daí surgiriam dissidências, que dariam origem a novas correntes

e novas instituições; e assim por diante — todos os envolvidos, é claro, sempre fiéis nem tanto à teoria em si mas à autoridade e ao poder que ela proporciona, sem no entanto jamais deixar de proclamar que

a

questão é científica.

O

exemplo d'O alienista, somado às demais citações deste texto, pretende reiterar que a ficção, longe

de ser um simples meio de entretenimento, é uma das formas mais eficientes de buscar algum grau de compreensão de mundo. Ela pode, por exemplo, mostrar como é possível buscar por meio da palavra o tão sonhado equilíbrio entre razão e emoção.

Não é novidade que muitos romancistas se anteciparam a Freud, ao revelar a importância do inconsciente e seus processos. Aliás, o próprio criador da psicanálise (ele mesmo dono de um esplêndido estilo literário), já em 1895 se admirava com a grande semelhança entre os relatos de seus pacientes e as obras ficcionais. Também em Tolstoi é possível entrar em contato com as profundezas da condição humana. A noção de situação-limite, tal como viria ser depois desenvolvida pela filosofia

e psicoterapia existenciais, está bem clara em sua novela A morte de Ivan Illitch. Cervantes é hoje

reconhecido como tendo sido um dos primeiros a mostrar, em termos romanescos, a ambigüidade do ser humano. Viagem ao fim da noite, de Louis-Ferdinand Céline — um dos grandes romances do século 20 — é um discurso penetrante sobre a fragilidade da condição humana e a presença do mal no coração do homem.

Todos esses dados mostram que a narrativa ficcional é um meio de acesso ao conhecimento e à sabedoria, o que a torna também um instrumento de libertação. Existe um consenso de que a expressão literária não é compatível com regimes políticos totalitários e situações de opressão. Os romances de Nadine Gordimer, por exemplo, foram importantes na luta contra o apartheid na África do Sul. Os muitos episódios de censura e queima pública de livros dão testemunho desse potencial libertador da ficção literária. Entre psicologia, filosofia e literatura, portanto, há um estreito parentesco. O contador de histórias (e todo escritor se orgulha de ser um) se antecipa com freqüência

www.humbertomariotti.com.br

ao psicólogo e ao filósofo, e assim mostra que a literatura é também uma forma filosófica.

Dualidade e circularidade

É na qualidade de forma filosófica que a literatura investiga a dinâmica razão/emoção. Sabemos que do só intuitivo ao inteiramente racional há um espectro. Entre os seus extremos há uma movimentação sutil, quase imperceptível. Seria mesmo imaginável uma linha que ligasse o máximo do emocional ao auge do racional, isto é, que unisse o linear ao sistêmico. Veríamos então que, num dado momento e a depender de muitas variáveis, poderíamos nos situar num ponto qualquer desse continuum, indo ou vindo na direção de um de seus pólos.

Dessa maneira, nada impede que suponhamos também a existência de uma faixa mediana, que representaria o lugar do equilíbrio dinâmico entre essas tendências. Talvez a metáfora dos círculos concêntricos expresse ainda melhor essa idéia. Aqui a faixa mediana seria o centro, que é comum aos sucessivos círculos. Num dado momento estaríamos num determinado círculo, aproximando-nos ou afastando-nos da área central. Em qualquer dos casos esse centro comum — ou essa faixa mediana — seriam ideais, como as tendências que para eles convergissem. Mesmo assim, teriam uma função importante: não como algo concreto, palpável, mas como uma posição que, embora inatingível na prática, não excluiria os nossos esforços para chegar tanto quanto possível perto dela.

Lionel Trilling diz que no mundo "adulto" atual não são apenas os poetas que estão sob ameaça. Sustenta que o racionalismo excessivo prejudica, e muito, as emoções . O contrário, claro, é também verdadeiro. Para ele, devemos manter a preocupação e o cuidado que começaram no século 18 em relação às crianças, às mulheres, aos camponeses e aos selvagens. Trata-se de seres humanos cuja vida mental é menos reprimida que a do homem "prático", bem mais submetido às imposições e restrições do conservadorismo da sociedade.

Tal preocupação e cuidado exprimem a intuição de que não só a lógica linear tem importância para a condição humana. Em outros termos, a razão precisa aliar-se à emoção para continuar racional. A perda da capacidade de fabular faz com que percamos também a habilidade de descontextualizar. Como resultado, ficamos confinados ao modelo mental linear e assim nos tornamos incapazes de entender o poder transformador dos mitos, dos símbolos e das metáforas. Daí as nossas crescentes dificuldades na busca da harmonia possível entre razão e emoção.

O universo de Dostoiévski

As relações entre psicologia, filosofia e literatura são da maior importância, não apenas no plano intelectual mas também na prática cotidiana. Para aprofundar um pouco mais o tema, tomemos um

www.humbertomariotti.com.br

autor muito citado mas hoje pouco lido: Fiodor Dostoiévski. Analistas da sua obra com freqüência discutem se ela reflete a experiência de um romancista ou a de um visionário. A personalidade do escritor russo mescla arte, psicologia e filosofia, entre outras coisas, daí sua agudeza e a extrema facilidade que tem de penetrar no fundo da condição humana. Em Os irmãos Karamazov, por exemplo, ele faz Zósima aconselhar a Aliócha: "Não se envergonhe do seu êxtase, beije a terra".

As relações humanas estão sempre no centro das preocupações de Dostoiévski. Sua ficção é povoada de anti-heróis às voltas com experiências extremas. Talvez por isso, Freud, no fim da vida, não tivesse sido capaz de suportar a leitura de seus romances. Essa circunstância se torna crucial, se recordarmos que o criador da psicanálise, dada a evolução da doença que o consumia, vivia também uma situação- limite.

Nada mais ilustrativo do poder da ficção de Dostoiévski. Ninguém como ele investigou a dualidade da condição humana. Em seus textos, a culpa é mostrada como uma condição existencial e não apenas como algo circunstancial, atrelado a uma causa imediata. A eterna busca do equilíbrio entre razão e emoção pode ser vista no complexo mundo de Os irmãos Karamazov, ou no sombrio universo de Crime e castigo. No entanto, o lugar onde ela talvez seja mais bem analisada é um trabalho bem mais breve, a novela Memórias do subterrâneo.

O texto data de 1864 e é considerado o ponto de partida para os romances que viriam consolidar a obra

do escritor russo. Nele, como num prelúdio para o que continuaria a fazer ao logo de sua obra, o autor

se

antecipa a muitas das descobertas da psicologia e da psicanálise. Sua leitura é tão surpreendente que

se

torna indispensável lembrar aqui algumas passagens.

As duas primeiras colidem em cheio com o cientificismo:

"Mas de tal maneira o homem se apega aos seus sistemas e à sua dedução abstrata, que seria capaz de alterar a verdade com conhecimento de causa, de fingir-se surdo e cego só com o fim de não invalidar a sua teoria." 7 ( ) "A razão só sabe aquilo que teve tempo de saber (pode ser que haja algumas coisas que ela nunca venha a saber; não é muito consolador dizer isto, mas por que não reconhecê-lo?), ao passo que a natureza humana atua em massa com tudo quanto nela se contém, e quer se engane ou acerte, vive." 8

Nosso espanto aumenta à medida em que avançamos na leitura. Lá está quase tudo: a percepção de que o homem não pode se apropriar impunemente do mundo natural; o pressentimento de que o ego tende a afastar-nos da natureza; a reificação das pessoas; a intuição da liberdade como dimensão-

www.humbertomariotti.com.br

chave da existência humana; a antecipação da noção psicanalítica de retorno do reprimido e do uso da palavra como provocadora da emergência de conteúdos do inconsciente; e, por último mas não menos importante, a previsão da alienação de muitas de nossas sociedades pelo economicismo tecnocrático. Leiamos alguns trechos:

"Este tem fome de viver e resolve as questões vitais com um palavreado lógico. Que aborrecidas e impertinentes são as suas palavras e, ao mesmo tempo, que medo tem!" 9

) (

"Hão de gritar-me (se ainda se dignam a responder-me) que ninguém fala em privar-me da minha liberdade, que se aspira somente a organizar a vida do homem, de maneira que a própria vontade, a minha vontade própria, esteja de acordo com os meus interesses normais, com as leis da natureza e a

aritmética. Mas não quererão dizer-me, meus senhores, que vontade será a minha quando o mundo for

regido pela tal lista e pela aritmética, quando todos pensem unicamente que dois e dois são quatro?" 10

) (

"Mas o homem é um ser volúvel, inconseqüente, e talvez, como o jogador de xadrez, apenas tenha

prazer nos meios e não nos fins em si mesmos: quem sabe (ninguém poderia demonstrar o contrário) se o fim para o que a humanidade propende consistirá apenas nesse incessante esforço para chegar; por outras palavras, na vida em si própria e não no fim, que certamente não é mais que dois e dois são quatro, quer dizer, uma fórmula?" 11

) (

"E, no entanto, fiquem sabendo: tenho a certeza de que é preciso segurar pela trela o nosso irmão do subterrâneo. Pois ainda que seja capaz de passar quarenta anos no seu esconderijo, assim que finalmente sai logo se escapa e se põe a falar, a falar, e não consegue fazer parar a língua." 12

Há quem dê pouco valor a transcrições, confundindo-as com a mera exposição de frases pinçadas e fora de contexto. No caso de Memórias do subterrâneo, porém, essa restrição logo se esvazia. A novela tem poucas páginas (24, na tradução aqui citada), o que torna mais fácil recomendá-la aos céticos, muitos dos quais são, como se sabe, pouco dispostos a reflexões mais demoradas. Leiam o texto inteiro e tirem suas próprias conclusões.

As veredas da alienação

Aqui estão, portanto, alguns exemplos da força da ficção, instrumento de cujo poder transformador aparentemente julgamo-nos hoje capazes de prescindir. Mas é fundamental que também aqui não caiamos numa das principais armadilhas do modelo mental linear: dividir tudo em dois lados e depois assumir a posição maniqueísta de afirmar que a palavra é superior à imagem ou vice-versa. Isto é, decretar que todos devem transformar-se em leitores compulsivos ou, como hoje é a regra, em

www.humbertomariotti.com.br

exclusivos (e passivos) receptores de imagens estandardizadas.

Também não se deve confundir baixa cultura com cultura popular. Sabemos que é nesta que se encontram muitas das potencialidades criativas dos povos. Do mesmo modo, não se deve confundir alta cultura com erudição acumulativa, pedante e ornamental. É óbvio que se as pessoas podem se alienar pelas imagens, podem também fazê-lo por meio da palavra escrita.

Esse, aliás, é o tema de um dos romances mais importantes de nossa época, Auto-de-fé. Nele, o escritor búlgaro Elias Canetti, laureado com o prêmio Nobel, conta a história de um professor que era um dos mais famosos sinólogos de seu tempo. Mas tornou-se a tal ponto obcecado pelos livros que acabou perdendo o contato com as realidades práticas da vida, e por isso passou a vê-las como ameaças. Nessa obra, Canetti mostra como o instinto de posse (no caso a posse dos livros e do saber) pode se transformar numa poderosa forma de alienação, paranóia e arrogância, disfarçadas em humanismo e erudição.

Eis alguns dos dilemas atuais da literatura. Como sempre, boa parte de nossos destinos depende de nossas escolhas. Está em nossas mãos, pois, preservar ou não o poder e o encanto dessa forma de arte. Não sabemos com exatidão o que acontecerá com ela a longo prazo. No entanto, se deixarmos que se perca, para pôr em seu lugar esse obscurantismo que avança a passos largos sobre o cenário mundial, terá sido uma grande pena. E por ela haveremos de pagar um preço cujo total ainda não conhecemos — mas que tudo indica que será bem maior do que imaginamos.

Notas

1. Neste contexto, deve-se entender a razão segundo a concepção de Espinosa, isto é, a razão que inclui a

intuição e a emoção.

2. MACHADO DE ASSIS, O alienista, in Obra completa, 3 vols., Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1986, vol. 2 ,

p. 259.

3. Id., ibid., p. 272.

4. Id., ibid., p. 186.

5. Id., ibid., p. 288.

6. Id., ibid., p. 288.

7. DOSTOIÉVSKI, Fiodor M., Memórias do subterrâneo, in Obra completa, 4 vols.,Rio de Janeiro, Nova

Aguilar, 1995, vol 2, p. 678.

8. Id., ibid., p. 681.

9. Id., Ibid., p. 687.

10. Id., ibid., p. 683.

11. Id., ibid., p. 684.

12. Id., ibid., p. 687.

© Humberto Mariotti, 2000

www.humbertomariotti.com.br

HUMBERTO MARIOTTI. Médico e psicoterapeuta. Professor, pesquisador e autor em ciências da complexidade e suas aplicações. E-mail: homariot@uol.com.br