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AR/NCF

TRIBUNAL MARÍTIMO PROCESSO Nº 28.497/13 ACÓRDÃO

Bote orgânico da escuna “CAPITÃO CHICO”. Naufrágio causado pelo excesso de

passageiros. Material de salvatagem insuficiente para todos a bordo. Condenação.

Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.

Tratam os autos do naufrágio de uma embarcação miúda, ocorrido no dia 16 de

setembro de 2012, às 15h40min, na praia de Ponta de Areia, Ilha de Itaparica, BA, que causou

apenas danos materiais.

A embarcação envolvida no acidente foi um bote orgânico da escuna “CAPITÃO

CHICO”, classificada para a atividade de transporte de passageiros em área de navegação

interior, construída em madeira, medindo 18,42m de comprimento, 5,33m de boca e 30AB,

inscrita em Salvador sob a propriedade do Sr. Francisco César Cunha Bonfim. Foram

apresentados os documentos de praxe da embarcação, todos em dia.

Durante o inquérito foram ouvidas 03 (três) testemunhas e segundo disseram a

escuna “CAPITÃO CHICO” suspendeu do Terminal Turístico de Salvador com destino à Ilha do

Frade, na Baía de Todos-os-Santos, sob o comando do Sr. Adauto Lima Lessa, a fim de realizar

um passeio turístico. Depois de duas horas de iniciado o passeio suspenderam com destino à

Ponta de Areia, na Ilha de Itaparica, onde fariam uma parada para almoço, porém no local não há

um píer para atracação e o embarque e desembarque dos passageiros é realizado com o auxílio

de catraias ou caíques motorizados ou a remo. Em uma das travessias entre a praia e a escuna,

quando transportavam oito passageiros e o comandante da escuna o bote adernou para bombordo

lançando todos na água e em seguida emborcou e naufragou. Os passageiros e o tripulante foram

resgatados e levados para a escuna sem danos pessoais, apenas com a perda de seus pertences.

Os peritos da Capitania fizeram o cálculo de arqueação do bote e apuraram que o

mesmo lotaria com apenas quatro pessoas a bordo, mas levava nove no momento do acidente.

Disseram que fatores externos como o estado do mar e condições do tempo não contribuíram, de

forma que a causa do emborcamento do bote teria sido o excesso de passageiros.

Com base no depoimento das testemunhas e no Laudo Pericial o encarregado do

inquérito concluiu que a causa determinante para o emborcamento do bote foi o excesso de

passageiros. Anotou como consequência do acidente a queda dos passageiros e do tripulante na

água, porém, sem vítimas fatais ou feridos. Apontou como possível responsável direto pelo

acidente da navegação, o Sr. Adauto Lima Lessa, comandante da escuna “CAPITÃO CHICO”,

dizendo que ele teria agido de forma imprudente ao permitir o embarque de passageiros acima da

capacidade da embarcação auxiliar, expondo suas vidas a risco.

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(Continuação do Acórdão referente ao Processo nº 28.497/2013

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O Sr. Adauto Lima Lessa foi devidamente notificado do resultado do IAFN, mas

não apresentou defesa prévia.

Os autos foram remetidos ao Tribunal Marítimo que os encaminhou à PEM, que

ofereceu representação em face de Adauto Lima Lessa, comandante da escuna “CAPITÃO

CHICO” e condutor da embarcação, sem nome, de apoio a escuna, com fulcro nos artigos 14,

alínea “a” e 15, alíneas “a” e “e”, ambos da Lei nº 2.180/54.

Depois de resumir os principais fatos narrados no inquérito, a PEM afirmou que o

Representado teria agido de forma contrária ao direito no momento em que deixou a praia com a

embarcação de apoio ciente do número excessivo de passageiros a bordo e da ausência de

equipamentos de salvatagem suficientes para todos, contrariando o que preceitua o item 0413, da

NORMAM-02/DPC, expondo a risco a incolumidade física dos passageiros e a segurança da

embarcação. Pediu sua condenação nas penas da Lei e ao pagamento das custas processuais.

A representação foi recebida na Sessão do dia 02 de outubro de 2014, o

representado foi citado por edital por não ter sido encontrado no endereço por ele mesmo

fornecido durante o inquérito, estando em local incerto (certidão de fl. 133, verso e edital de fl.

138), não apresentou contestação no prazo e foi declarado revel. Assim, revel citado por edital,

foi-lhe concedido um curador, múnus cumprido pela DPU-RJ.

Em sua contestação a DPU alertou sobre as prerrogativas do curador, negou os fatos

narrados na inicial genericamente e pediu gratuidade de justiça.

Aberta a instrução nenhuma prova foi produzida e em alegações finais as partes

reportaram-se às suas peças.

É o relatório.

Decide-se:

A PEM acusou o Representado de ter agido de forma contrária ao direito no

momento em que deixou a praia com uma embarcação de apoio com número excessivo de

passageiros a bordo e sem equipamentos de salvatagem suficientes para todos, expondo a risco a

incolumidade física dos passageiros e a segurança da embarcação.

A contestação por negativa geral devolve à PEM o ônus de provar suas alegações,

mas a prova colhida durante o inquérito é robusta o suficiente. De fato havia em um bote miúdo

nove pessoas e o cálculo de arqueação feito pelos peritos demonstrou que uma embarcação

daquele porte lotaria com apenas quatro pessoas, havendo, portanto, excesso de passageiros. O

número excessivo de passageiros provocou o emborcamento e lançou todos na água, logo, a

atitude imprudente do representado foi determinante para a exposição a risco de todos a bordo e

para o naufrágio do bote.

Desse modo, o acidente da navegação que aqui se caracterizou pelo naufrágio de

uma embarcação miúda e a exposição das vidas das pessoas a bordo se materializou no excesso

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(Continuação do Acórdão referente ao Processo nº 28.497/2013

)

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de passageiros e pela falta de material de salvatagem a bordo, teve por consequência apenas

danos materiais de pequena monta.

Deve a representação ser julgada procedente para responsabilizar o representado

pelo fato e pelo acidente da navegação.

Assim,

ACORDAM os Juízes do Tribunal Marítimo, por unanimidade: a) quanto à natureza

e extensão do acidente e do fato da navegação: naufrágio de bote e exposição das vidas e

fazendas de bordo a risco, com danos materiais de pequena monta, sem danos a pessoas ou

poluição; b) quanto à causa determinante: excesso de passageiros e falta de material de

salvatagem; e c) decisão: julgar o acidente da navegação, previsto no art. 14, alínea “a” e o fato

da navegação previsto no art. 15, alínea “e”, da Lei nº 2.180/54, como decorrentes da

imprudência do representado, Adauto Lima Lessa, condenando-o à pena cumulada de repreensão

e multa no valor de R$ 400,00 (quatrocentos reais), com fulcro no art. 121, incisos I e VI, c/c art.

124, inc. IX e art. 139, inciso II, todos artigos da Lei nº 2.180/54. Dispensado do pagamento das

custas processuais em deferimento ao pedido de gratuidade de justiça.

Publique-se. Comunique-se. Registre-se.

Rio de Janeiro, RJ, em 06 de julho de 2017.

NELSON CAVALCANTE E SILVA FILHO Juiz Relator

Cumpra-se o Acórdão, após o Trânsito em julgado.

Rio de Janeiro, RJ, em 04 de outubro de 2017.

MARCOS NUNES DE MIRANDA Vice-Almirante (RM1) Juiz-Presidente PEDRO COSTA MENEZES JUNIOR Primeiro-Tenente (T) Diretor da Divisão Judiciária

AUTENTICADO DIGITALMENTE

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