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AR/GAP

TRIBUNAL MARÍTIMO PROCESSO Nº 29.684/15 ACÓRDÃO

B/P “IATE REAL II DO ARANAI”. Acidente pessoal de tripulante que manobrava

a embarcação através de cabo de nylon, diretamente fixado ao leme, provocando-

lhe a amputação de falange distal do primeiro dedo da mão direita. Barco de Pesca

fazer-se ao mar com o timão avariado, improvisando um cabo de nylon diretamente

no leme ao qual enroscou-se com o hélice, tesando o cabo, aliado à falta de

utilização de luvas protetoras para manusear o referido cabo. Negligência.

Imprudência. Condenação.

Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.

Trata-se de analisar o fato da navegação envolvendo a L/M “IATE REAL II DO

ARANAI”, propriedade de Zulmira Ribeiro Maués, quando, cerca das 16h do dia 21/05/2014,

navegava no canal de Dentro, nas proximidades da ilha do Machadinho, zona rural do município

de Cachoeira do Arari, PA, veio a ocorrer o acidente com um tripulante provocando-lhe a

amputação de falange distal do primeiro dedo da mão direita.

Dos depoimentos colhidos e documentos acostados extrai-se que a B/P “IATE

REAL II DO ARANAI”, com 10,80 metros de comprimento e 5,9 AB, sob o comando do

Pescador Profissional Valdemir Ribeiro Maués, saiu da cidade de Soure-PA, com destino a área

de pesca nas proximidades da ilha do Machadinho, com quatro tripulantes a bordo, que ao

chegaram no local de pescaria por volta das 11h do dia 21/05/2014, foi iniciada a pesca com o

lançamento da rede do tipo malhadeira na água. A pescaria transcorria sem anormalidade,

quando por volta das 16h do mesmo dia, o B/P navegava na costa do Estado do Pará, quando a

rede começou a ser içada, o Condutor João Ribeiro Maués Filho, inabilitado, manobrava a

embarcação com um cabo de nylon de oito polegadas fixado diretamente ao leme, pois o timão

estava com problema. O referido cabo enroscou na pá do hélice do B/P, nesse momento o cabo

tesou e imprensou a sua mão direita que segurava o cabo, contra a borda da antepara do B/P,

esmagando a falange distal do polegar direito, enrolando a seguir com gaze a fim de estancar o

sangramento. Imediatamente foi encerrada a pescaria e o B/P “IATE REAL II DO ARANAI”

retornou para a cidade de Soure-PA, onde a vítima recebeu atendimento médico no Hospital

Municipal de Soure, sendo liberado no dia seguinte.

Valdemir Ribeiro Maués, conhecido pelo apelido de TIM MAIA, Pescador

Profissional, em seu depoimento declarou, em resumo, que encontravam-se a bordo (quatro)

tripulantes, sob o Comando do depoente; que o seu irmão João Ribeiro Maués Filho conduzia a

embarcação; que estava no convés principal próximo a popa da embarcação; que no período da

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(Continuação do Acórdão referente ao Processo nº 29.684/2015

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manhã do dia 12/05/2014, o B/P “IATE REAL II DO ARANAI”, saiu da vila do Aranai, zona

rural do Município de Cachoeira do Arari-PA, para atividade de pesca na costa do Estado do

Pará, a pescaria estava transcorrendo normalmente, por volta de 16h do dia 21/05/2014; o B/P

“IATE REAL II DO ARANAI”, estava navegando na costa do Estado do Pará, nas proximidades

da Ilha do Machadinho; que os tripulantes estavam lançando a rede na água, quando o cabo do

leme se enroscou na pá do hélice do B/P, nesse momento o cabo tesou e imprensou a mão direita

do POP João Ribeiro Maués Filho, de encontro a borda do B/P, esmagando a falange distal do

polegar direito, que socorreu a vítima, enrolou gaze no local do ferimento estancando o

sangramento; que o B/P “IATE REAL II DO ARANAI” retornou para terra, no período da noite

do mesmo dia atracou na Cidade de Soure na ilha do Marajó; que a vítima foi conduzida para

Hospital Municipal de Soure, onde recebeu atendimento médico, ficando internado em

recuperação, sendo liberado no dia seguinte; que o tempo estava nublado, sem chuva, águas

agitadas, maré de vazante, vento brando, e visibilidade boa; que a causa do acidente foi devido

ao cabo do leme que se enroscou na pá do hélice, tesou e imprensou a mão direita do POP João

Ribeiro Maués Filho, de encontro a borda do B/P.

Zulmira Ribeiro Maués, Proprietária da embarcação, em seu depoimento declarou,

em resumo, que o acidente ocorreu por volta de 16h do dia 21/05/2014, quando o B/P navegava

no Canal de Dentro, nas proximidades da Ilha do Machadinho; que não estava a bordo do B/P

“IATE REAL II DO ARANAI”, e estava em sua residência.

João Ribeiro Maués Filho, Condutor da embarcação, Pescador Artesanal, em seu

depoimento declarou, em resumo, que na madrugada do dia 20/05/2014, o B/P “IATE REAL II

DO ARANAI” saiu da cidade de Soure, com destino as proximidades da Ilha do Machadinho,

chegando no local por volta de 11h, do dia 21/05/2014, sendo lançada a rede do tipo malhadeira

na água, e por volta das 16h, do mesmo dia, quando a rede começou a ser içada, um cabo de

naylon enrolou na palheta provocando um forte esforço no cabo atingindo o polegar direito,

sendo de imediato encerrada a pescaria e o “IATE REAL II” retornou para a cidade de Soure, a

fim de que fosse providenciado atendimento médico no hospital local da referida cidade.

Valdenil Ribeiro Maués, em seu depoimento declarou, em resumo, que se

encontrava em cima da tolda da embarcação; que já estavam há 01 (uma) semana em pescaria;

que por volta de 16h, quando navegava no Canal de Dentro, saindo do Canal do Machadinho,

nas proximidades da ilha do Machadinho, estavam jogando a rede n`água para continuar a

pescaria, e o cabo que estava preso no leme da embarcação e que fazia a função de governo,

estava sendo movimentado com as mãos pelo João Ribeiro Maués Filho, pois, a chaveta

(engrenagem) do timão, havia quebrado e, com isso, só era possível governar o barco segurando

com as mãos o cabo que estava preso no leme; que o Condutor João Ribeiro guinou para

bombordo, puxando o cabo do leme do seu lado esquerdo, deixando folgado o cabo do seu lado

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(Continuação do Acórdão referente ao Processo nº 29.684/2015

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direito, tendo o mesmo caído n´água e indo em direção ao hélice, à qual, enroscou-se; que o cabo

foi puxado pelo hélice, puxando a mão do João Ribeiro, prendendo na borda da antepara do

barco, fazendo com que o cabo partisse metade do seu dedo polegar direito.

Laudo de Exame Pericial Indireto realizado no dia 02/12/2014, cerca de 7 meses

após a ocorrência, mencionou que os exames periciais restaram prejudicados, haja vista que a

embarcação não foi apresentada para a perícia logo após o fato ter ocorrido, deixando-se de saber

as suas verdadeiras condições materiais/operacionais. Conclui que a causa determinante do

acidente foi a saída com o B/P para a faina de pescaria com avaria (timão com problema), o

excesso de confiança do condutor e a falta de uso do material de proteção individual (luvas).

Documentação de praxe anexada. Foram ainda juntados aos autos BO da Delegacia

de Polícia Seccional Urbana do Comércio da cidade de Belém-PA e Laudo do Exame de Corpo

de Delito n° 34855.

No Relatório o Encarregado do Inquérito, após resumir o depoimento de quatro

testemunhas, analisar os dados obtidos do Laudo Pericial e dos depoimentos concluiu que o fator

operacional contribuiu tendo em vista que a vítima não estava usando luvas protetoras (EPI).

Apontou como possível responsável o Pescador Profissional Valdemir Ribeiro Maués,

Comandante do B/P “IATE REAL II DO ARANAI” tendo em vista a responsabilidade inerente

ao Comandante prevista na LESTA, tendo em vista ter saído com o B/P para a faina de pescaria

com avaria (timão com problema) e por ter deixado o tripulante Condutor sem o material de

proteção individual (luvas).

A D. Procuradoria representou contra Valdemir Ribeiro Alves, Comandante, e

contra João Ribeiro Maués Filho, condutor inabilitado, do B/P “IATE REAL II DO ARANAI”,

com fulcro no art. 15, alínea e, da Lei n° 2.180/54, sustentando, em resumo, após descrever os

fatos e fundamentos constantes dos autos, que o primeiro representado agiu de forma negligente

no desempenho da sua função ao deixar de cumprir o seu dever com relação a salvaguarda da

vida humana, contrariando os deveres legais como Comandante, fator esse que expôs a risco a

incolumidade física das pessoas de bordo, materializada com a lesão corporal sofrida pelo

tripulante vitimado. Que o segundo representado, agiu de forma imprudente por assumir a

condução do B/P sem a devida habilitação junto à Capitania, além de não utilizar o material de

proteção necessário, caracterizado pelo excesso de confiança, ensejando, assim, sua própria

lesão.

Recebida a representação e citados, os representados, que não possuem

antecedentes no Tribunal Marítimo, foram declarados revéis em 13/09/2016 e notificados em

18/10/2016.

Na instrução nenhuma prova foi produzida e em alegações finais a D. PEM reiterou

os termos de sua exordial e os representados não se manifestaram.

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(Continuação do Acórdão referente ao Processo nº 29.684/2015

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Decide-se.

De tudo o que consta nos presentes autos, conclui-se que a natureza e extensão do

fato da navegação, sob análise, tipificado no art. 15, alínea e, da Lei nº 2.180/54, ficaram

caracterizadas pelo acidente pessoal de tripulante que manobrava a embarcação através de cabo

de nylon, diretamente fixado ao leme, provocando-lhe a amputação de falange distal do primeiro

dedo da mão direita.

A causa determinante foi o Barco de Pesca fazer-se ao mar com o timão avariado,

improvisando um cabo de nylon diretamente no leme ao qual enroscou-se com o hélice, tesando

o cabo, aliado à falta de utilização de luvas protetoras para manusear o referido cabo.

Analisando-se os autos, verifica-se que a embarcação se fez ao mar com o timão

inoperante, tendo sido instalado um cabo de fortuna acoplado diretamente ao leme, sendo

acionado pelo Condutor vitimado para posicionar o leme e com isso governar a embarcação.

Ocorre que durante a faina de içar as redes de pesca o cabo foi entrelaçado pelo propulsor

fazendo com que fosse tensionado e com isso pressionou a mão direita do Condutor João Ribeiro

contra a borda, causando-lhe a amputação da falange distal do primeiro dedo.

O representado Valdemir Ribeiro Maués permaneceu revel, por conseguinte,

decorreram os efeitos da revelia quanto à matéria fática, com a presunção de veracidade dos

fatos narrados na representação, não havendo provas ou argumentos nos autos que possam

afastar a sua responsabilidade pelo evento em questão, eis que foi negligente no desempenho da

sua função de Comandante ao deixar de cumprir o seu dever com relação a segurança dos seus

comandados, ao permitir que a embarcação fosse manobrada com sistema de governo de fortuna,

mediante a utilização de cabos de nylon diretamente no leme, expondo a risco a incolumidade

física dos tripulantes, materializada com a lesão corporal sofrida pelo Condutor e segundo

Representado João Ribeiro Maués Filho.

O representado João Ribeiro Maués Filho permaneceu revel, por conseguinte,

decorreram os efeitos da revelia quanto à matéria fática, com a presunção de veracidade dos

fatos narrados na representação, não havendo provas ou argumentos nos autos que possam

afastar a sua responsabilidade pelo evento em questão, eis que foi imprudente por assumir a

condução do Barco de Pesca com o timão avariado e sem a devida habilitação, além de não

utilizar o material de proteção necessário, no caso luvas, ao manobrar o cabo de nylon que fazia a

função de governo.

Pelo exposto, deve-se julgar procedente a representação da D. PEM

responsabilizando Valdemir Ribeiro Maués e João Ribeiro Maués Filho. Deve ser levada em

consideração a primariedade de ambos os Representados no Tribunal Marítimo. Com relação ao

segundo Representado João Ribeiro Maués Filho, deve ser considerado a aplicação do art. 143,

da Lei nº 2.180/54, tendo em vista que as consequências da infração o atingiu de forma tão grave

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(Continuação do Acórdão referente ao Processo nº 29.684/2015

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que a sanção administrativa se torna desnecessária, resultando a não aplicação de pena prevista

na citada Lei. Deve-se, ainda, oficiar à Capitania dos Portos da Amazônia Oriental a infração ao

RLESTA, art. 11 – conduzir embarcação sem habilitação para operá-la, cometida por João

Ribeiro Maués Filho.

Assim,

ACORDAM os Juízes do Tribunal Marítimo, por unanimidade: a) quanto à natureza

e extensão do fato da navegação: acidente pessoal de tripulante que manobrava a embarcação

através de cabo de nylon, diretamente fixado ao leme, provocando-lhe a amputação de falange

distal do primeiro dedo da mão direita; b) quanto à causa determinante: barco de Pesca fazer-se

ao mar com o timão avariado, improvisando um cabo de nylon diretamente no leme ao qual

enroscou-se com o hélice, tesando o cabo, aliado à falta de utilização de luvas protetoras para

manusear o referido cabo; c) decisão: julgar o fato da navegação, previsto no art. 15, alínea e, da

Lei nº 2.180/54, como decorrente de negligência de Valdemir Ribeiro Maués, condenando-o à

pena de repreensão, de acordo de acordo com o art. 121, inciso I, da Lei n° 2.180/54, com a

redação dada pela Lei n° 8.969/94 e ao pagamento das custas processuais, e como decorrente de

imprudência de João Ribeiro Maués Filho, deixando de lhe aplicar qualquer sanção

administrativa em face do art. 143 da Lei n° 2.180/54, uma vez que as consequências da infração

o atingiu de forma tão grave ao ter um dedo de sua mão direita amputado; e d) medidas

preventivas de segurança: oficiar à Capitania dos Portos da Amazônia Oriental a infração ao

RLESTA, art. 11 – conduzir embarcação sem habilitação para operá-la, cometida por João

Ribeiro Maués Filho.

Publique-se. Comunique-se. Registre-se.

Rio de Janeiro, RJ, em 11 de julho de 2017.

GERALDO DE ALMEIDA PADILHA Juiz-Relator

Cumpra-se o Acórdão, após o trânsito em julgado.

Rio de Janeiro, RJ, em 27 de setembro de 2017.

MARCOS NUNES DE MIRANDA Vice-Almirante (RM1) Juiz-Presidente PEDRO COSTA MENEZES JUNIOR Primeiro-Tenente (T) Diretor da Divisão Judiciária

AUTENTICADO DIGITALMENTE

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