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Artigos PERSPECTIVA HISTÓRICA DAS QUESTÕES DE GÊNERO Historical perspective of gender issues Pe. Dr. José

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PERSPECTIVA HISTÓRICA DAS QUESTÕES DE GÊNERO

Historical perspective of gender issues

Pe. Dr. José Eduardo de Oliveira e Silva *

RESUMO: Masculino e feminino não se nasce; mas se escolhe sê-lo, faz-se. Tal afirmação brota candente das páginas e lutas ideológicas da questão de gênero. Este incitante texto propõe-se a historiar a questão do gênero como ideologia. O texto propõe um percurso do tema desde as raízes do marxismo até conferência, que reuniu especialistas de 29 países, em Yogyakarta, Indonésia (2006), organizada pela Comissão Internacional de Juristas e o Serviço Internacional de Direitos Humanos. Da necessidade de uma sociedade de iguais, passando pelas revoluções do proletariado (Marx), da supressão da família, da propriedade privada e do Estado (Engels), da desconstrução da família (Lenin/União Soviética), começou-se, no meio comunista um processo ideológico com nomes como o de Kate Millet e Shulamith Firestone visando o ideal de uma revolução sexual, onde as mulheres haveriam de se libertar da determinação biológica e elas e as crianças poderiam viver como quisessem sua sexualidade. Nessa luta a terminologia gêneropassaria a ser dissociada da identidade sexual biológica, através da dissolução e construção de um outro projeto político.

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PALAVRAS CHAVE: revolução sexual, estruturas de poder, determinação biológica, desconstrução, ideologia.

SUMMARY: Male and female is not born; but if you choose to do it, it does. This type of statement springs from ideological struggles of gender issues. This provocative text seeks to historicize the issue of gender as ideology. It proposes a theme path from the roots of Marxism until the Conference, which brought together experts from 29 countries, in Yogyakarta, Indonesia (2006). The need for a society of equals, passing through the revolutions of the proletariat (Marx), the abolition of the family, private property and the State (Engels), the deconstruction of the family (Lenin/Soviet Union), began amid a communist world, the ideological process with names such as Kate Millet and Shulamith Firestone, envisaging to the ideal of a sexual revolution, where women would get rid of the biological determination. They and the children could choose and live their

* José Eduardo de Oliveira e Silva é graduado em filosofia e teologia; tem mestrado e doutorado pela Pontificia Università della Santa Croce. Sua tese doutoral tem como título: O PAPEL GLOBAL DA VIRTUDE DA RELIGIÃO: UMA PROPOSTA A PARTIR DA DOUTRINA DE SÃO TOMÁS. É professor no Instituto de Filosofia Sede da Sabedoria IFSS/Brasil e no Instituto de Teologia Mater Ecclesiae IMME/Brasil. de Filosofia Sede da Sabedoria, IFSS, Brasil.

sexuality according their will and wish. In this struggle, the terminology genderwould become dissociated from thebiological sexual identity, through the dissolution of existing social process and the construction of another political project.

KEY WORDS:

sexual

revolution,

power

structures,

biological

determination,

deconstruction,

ideology.

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I. INTRODUÇÃO

Nos últimos tempos, muito têm-se falado sobre a ideologia de gênero, que surgiu no horizonte como um projeto político cuja força encontra-se propria- mente em seu desconhecimento. Trata-se de uma falácia verbal, construída para não ser entendida, usada como instrumento para imposição de um totalitarismo político.

O estudo sobre o tema é ainda incipiente. O presente artigo, quase a modo de ensaio, parte do estudo feito por Jorge Scala 1 , deixando de lado uma minucio- sa análise do conteúdo mesmo da ideologia 2 e concentrando-se exclusivamente na apresentação de seus escopos políticos.

Haveria muito mais a se falar, sobretudo aproximando-se da questão a partir de outros de seus proponentes. Ademais, poder-se-ia ainda desenvolver muitís- simo a análise a partir da consideração acerca do tipo de sociedade vislumbrada pelos atores principais desta ideologia, desde seus pressupostos até a concreção dos mesmos, confrontando-o com os fundamentos da civilização ocidental, ou mesmo de qualquer outro tipo de civilização. Contudo, deixo esta importante re- flexão para outro momento, limitando-me a reafirmar aquilo que, no ocidente, sempre se creu:“todos sabem que existem dois tipos de comunidade: a cidade e a família3 , e ambas são mutuamente ordenadas, sem se oporem de nenhum modo, antes, fundando-se a primeira na segunda.

1 Cf. SCALA, J. R., Ideologia de Gênero. O neototalitarismo e a morte da família, Katechesis, São Paulo

2011.

2 Fiz uma análise mais aprofundada desta ideologia, mesmo que de forma muito sintética e adaptada ao leitor desacostumado com a matéria, numa entrevista concedida ao portal de notícias Zenit. Cf. http://www.zenit.org/pt/articles/caindo-no-conto-do-genero (visto em

17.12.2014).

E, diante dos projetos de desconstrução da célula mater da sociedade, re- cordava-nos profeticamente São João Paulo II, que é urgente, portanto, realizar uma ação vasta, profunda e sistemática, apoiada não só na cultura, mas também nos meios económicos e nos instrumentos legislativos, destinada a assegurar

à família a sua função de ser o lugar primário da humanizaçãoda pessoa e da

sociedade4 . Se é necessário assegurar, talvez seja porque a família realmente seja vista como o empecilho para a gênese de uma anti-civilização 5 .

Poderia começar por diferentes autores. Inicio, porém, por aquele em que o problema surgiu de modo mais evidente e crônico: Karl Marx.

II. MARXISMO, O BERÇO DA QUESTÃO DE GÊNERO

Karl Marx (1818-1883) concebeu um ideal de sociedade igualitária que viria

à luz pela concentração de poder, mediante a ditadura do proletariado, que esta-

tizaria todos os meios de produção, revolucionando a estrutura econômica, o que

causaria ipso facto o desaparecimento sumário de todas as superestruturas. Para ele, a ideologiacomo tal era uma excrescência burguesa, pela qual moldava o comportamento da sociedade em corroboração ao establishment, a si favorável, e desapareceria com o advento de uma economia igualitária.

“Ideologia, para Marx, era a filosofia como tal, e não recairia nela apenas

a ação revolucionáriapura e simples, que causasse a transformação da realida-

de imediatamente 6 . Portanto, sua própria teoria incorria naquilo que ele pensava ser a causa mesma da alienação. Obviamente, Marx era um burguês, e pensava

como tal, mas era consciente de que sua abordagem deveria ser encarada apenas como uma engrenagem do processo revolucionário, cujas etapas são sempre au- to-aniquilatórias, contraditórias por definição, o que contrasta grandemente com

a pretensão de qualquer coerência lógica.

Portanto, o primeiroMarx estava concentrado sobre a revolução econô- mica, pensando ser a propriedade privadao grande obstáculo para a igualdade.

Entretanto, Marx estudava muito. Dedicou anos à reflexão e a análise.

E como todo aquele que pondera os fatos vai aprimorando com o passar dos

tempos sua percepção e vai refinando a qualidade de seus juízos, também ele

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4 João PAulo ii, S., Exortação apostólica pós-sinodal Christifideles Laici (30.12.1988), n. 40.

5 Cf.JoãoPAuloii, S., Carta às famílias (2.02.1994), n. 13.

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mudou, adquiriu maior argúcia em seus arrazoados, chegando à consideração de um aspecto que passou inadvertido nos primeiros anos de sua reflexão.

Na obra “Sobre a Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado7 Der Ursprung der Familie, des Privateigentums und des Staats , de autoria inaca- bada de Marx, mas publicada e assinada por Friedrich Engels, chega à conclusão de que a verdadeira causa da desigualdade social é a família. Nesta obra, excogita fantasiosamente uma mirabolante teoria sobre a origem da família. Resumida- mente, afirma que os homens primitivos viviam em hordas nas quais havia total liberdade sexual e, portanto, predominava um modelo tendencialmente mais matriarcal, já que se ignoraria a própria procedência paterna. Num determinado momento, os machos, pela força física, exigiram fidelidade das fêmeas, fazendo- -as tornarem-se sua propriedade privada, juntamente com seus filhos. A partir de então, construiu-se o conceito de patrimônio (ligado ao pater), do qual decorreu o de matrimônio (no qual a mater é propriedade do macho). Como sustento deste sistema de submissão surgiu o Estado, reconhecedor e garante do mesmo.

Para Marx e Engels, a família é uma instituição endemicamente perversa e precisa ser pulverizada, para que haja a revolução. Notem que Marx percebeu que o seu ideal de igualdade era naturalmente inviável, e a família era uma demons- tração disso. No entanto, ao invés de reconhecê-lo, aferrou-se obstinadamente em sua utopia preferindo atribuir à instituição familiar a culpa pela inviabilidade de seu delírio.

Esta sua conclusão, todavia, permaneceu ignota para a maior parte de seus discípulos. De fato, a Rússia não possuía grande tradição filosófica e, por isso, foi nas mãos de Lênin e Stalin que o marxismo deixou de ser filosofia e tornou- -se uma guerrilha. Os realizadores da revolução marxista na Rússia, os primeiros propugnadores de uma práxis revolucionária segundo aquele modelo, concen- traram-se apenas nos aspectos diretamente políticos e econômicos da teoria de Marx, gerando o mais terrível dos regimes jamais visto em toda a história humana.

Marx concebeu a revolução como protagonizada pelos operários; Lênin foi o primeiro a perceber que isso não bastava, seria necessário incorporar nela também os camponeses. Desde então, não se deixaram de envolver mais e mais agremiações na dinâmica revolucionária, mas nunca se chegou realmente a uma alteração eficaz dos padrões psicossociais. De algum modo, a revolução permane- cia sempre bloqueada. Para utilizar a linguagem de Marx, os padrões ideológicos impunham-se como freio aos impulsos revolucionários.

Lênin chegou a tentar desconstruir a família, mas percebeu que estava des- truindo a sociedade, ficou hesitante e reverteu o processo.

A União Soviética fez de fato um esforço consciente para pôr fim ao sistema patriarcal e reestruturar a sua instituição mais fundamental a família. Depois da revolução, foram votadas todas as leis pos- síveis para libertar o indivíduo das amarras familiares: liberalização do casamento e do divórcio, contraconcepção e aborto autorizado. Sobretudo, mulheres e crianças escaparam ao controle econômico do marido. Sob o regime coletivo, a família começou a desintegrar- se, e as fissuras produziram-se seguindo exatamente o traçado que tinha presidido à sua construção. O sistema patriarcal começou, por assim dizer, a fazer marcha atrás, enquanto a sociedade voltava à comunidade de trabalho democrática que as autoridades socialistas

descrevem sob o nome de matriarcado. (

rar que a família como instituição obrigatória devia desaparecer, a teoria marxista não tinha conseguido fornecer uma base ideológica suficiente para uma revolução sexual e subestimava com uma inge- nuidade notável a força histórica e psicológica do sistema patriarcal. (…). Por consequência, quando a velha ordem patriarcal desabou, não existia uma teoria positiva e coerente para remediar a confusão

que

)

À parte o fato de decla-

devia inevitavelmente seguir-se 8 .

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Este texto é de Kate Millet (1934), uma feminista radical, formada no seio do partido comunista. Foi a primeira grande expoente do pensamento feminista. Sua tese doutoral, Política sexual (1970), foi o primeiro grande trabalho científico sobre o assunto, tornou-se um best-seller pouco tempo após sua publicação, me- recendo gloriosos apanágios nas páginas de nada mais, nada menos que The New YorkTimes.

Contudo, os marxistas ainda não tinham entendido a centralidade disso. O texto de Kate Millet equivale, para as feministas, àquilo que o “Manifesto Comu- nistafoi para os marxistas. Embora seja um texto com bastante rigor científico trata-se de uma tese doutoral , não tinha grande alcance especulativo, permane- cendo uma muito bem escrita análise histórica, concebida em tom de manifesto contra a ordem patriarcal.

III. INICIATIVAS

INDEPENDENTES

Na verdade, Marx havia entendido, no final de sua vida, que a revolução somente aconteceria se houvesse uma profunda subversão da ordem social, não bastando para isso a alteração dos padrões econômicos. A morte, porém, ceifou- -o antes que pudesse desenvolver melhor esta constatação. Seus conseguidores não se deram conta disso, e tiveram de aprender, por tentativa e erro, que seus objetivos não poderiam ser atingidos eficazmente de outro modo.

O manifestode Kate Millet levantou a bandeira da revolução sexual. Para os marxistas, foi abjeto; mas, para as feministas, foi sua pedra de toque. A partir de então, começarem-se a produzir profundíssimos estudos sobre esta temática.

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Um estudo mais expressivo, que transportou o feminismo do manifestopara a ideologia políticafoi a Dialética do Sexo (1970), de Shulamith Firestone (1945-2012). Sintetizando as ideias de Freud, Reich, Marx, Engels e Simone de Be- auvouir, Firestone desceu mais profundamente ainda ao ideal de uma revolução sexual, demonstrando como a mesma seria o único detonador possível de uma autêntica revolução social e econômica. Na conclusão de sua obra, afirma:

Eis aqui algumas sugestões do sistema alternativo:

1) A libertação das mulheres da tirania de sua biologia reprodutiva por todos os meios disponíveis e a ampliação da função repro- dutiva e educativa a toda a sociedade globalmente considerada. (…) Estamos falando de uma mudança radical. Libertar as mulhe- res de sua biologia significa ameaçar a unidade social, que está organizada em torno da sua reprodução biológica e da sujeição das mulheres ao seu destino biológico, a família.

2) A total autodeterminação, incluindo a independência econômi- ca, tanto das mulheres quanto das crianças. (…) É por isso que precisamos falar de um socialismo feminista. (…) Com isso ataca- mos a família em uma frente dupla, contestando aquilo em tor- no de que ela está organizada: a reprodução das espécies pelas mulheres, e sua consequência, a dependência física das mulheres e das crianças. Eliminar estas condições já seria deficiente para destruir a família, que produz a psicologia do poder. Contudo, nós a destruiremos ainda mais. 3) A total integração das mulheres e das crianças em todos os ní- veis da sociedade. Todas aquelas instituições que segregam os sexos ou separam as crianças da sociedade adulta, por exemplo,

E,

se as distinções culturais entre homens e mulheres e entre adul- tos e crianças forem destruídas, nós não precisaremos mais da repressão sexual que mantém estas classes diferenciadas, sendo pela primeira vez possível a liberdade sexual natural. Assim, che-

a escola elementar, devem ser destruídas. Abaixo a escola! (

)

garemos, à

4) liberdade sexual para que todas as mulheres e crianças possam usar a sua sexualidade como quiserem. Não haverá mais nenhu- ma razão para não ser assim. (…) Em nossa nova sociedade a humanidade poderá finalmente voltar à sua sexualidade natural polimorfamente diversa. Serão permitidas e satisfeitas todas as formas de sexualidade. A mente plenamente sexuada tornar-se -ia universal 9 .

Shulamith conseguiu entender que a revolução sexual deveria acontecer, mas não entendeu como se deveria dar, quais instrumentos poderiam ser utiliza- dos.

Paralelamente, Kingsley Davis (1908-1997) dava um novo contorno à po- lítica de controle populacional 10 , mostrando que não bastava a facilitação dos instrumentos anticonceptivos e ao aborto, mas era necessário mudar o padrão mesmo das condutas sociais, a tessitura mesma da sociedade, composta de usos cristalizados em costumes, que eram positivados em legislações. Sem a alteração desta estrutura, nenhuma mudança seria realmente eficaz.

Kingsley Davis chegava, por conta própria, àquela psicologia pressuposta na teoria revolucionária. Com efeito, a revolução se autoprojeta como pretensão de reconstrução de toda a realidade segundo um determinado fim, vislumbrado pelo agente revolucionário.

Ao mesmo tempo, o movimento comunista passava por um longo proces- so de revisionismo interno. O marxismo ortodoxo sustentava que a mudança da estrutura econômica causaria o desaparecimento da superestrutura. Contudo, esta tese não se verificou. Onde a ditadura do proletariado fora instaurada, conti- nuava a existir o “freioideológico, que permanecia inexpugnável.

Foi então que, em 1923, Karl Korsch (1886-1961) escreveu seu conhecido artigo Marxismo e filosofia.

Assim como a ação econômica da classe revolucionária não torna supérflua a ação política, tampouco as ações econômicas e políticas juntas não tornarão supérfluas a ação espiritual; esta, ao contrário, deve desenvolver-se até o fim, teó- rica e praticamente, como crítica científica e revolucionária e trabalho de agitação antes da tomada do poder pelo proletariado, e como trabalho científico de orga- nização e ditadura ideológica, depois da tomada do poder 11 .

Em outras palavras, Korsch dizia que a revolução deveria ver pela superes- trutura, se quisesse ser eficaz, e tornar-se uma superestrutura que mantivesse a

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9 FiresTone, Sh., La dialectica de los sexos. En defensa de la revolucción feminista, Editorial Kairós, Barcelona 1976, pp. 258-262.

10 dAvis, K., Population policy: will current programs succeed?, “Science(10.11.1967), pp. 730-739.

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estrutura econômica dentro dos novos padrões comunistas. Ele não foi entendi- do, e a III a . Internacional o expulsou do Partido.

Louis Althusser (1918-1990) concretizou esta teoria de Korsch em seu arti-

go Contradição e sobreterminação (1965), explicando como se dá a interação entre

o nível da estrutura e o da superestrutura para que se possa eclodir a revolução.

Para ele, não basta a revolução operária, pois esta não consegue detonar a contra-

dição em nível de sociedade se os demais níveis desta não estiverem em sintonia com ela; pois isso, elas precisam ser sobredeterminadas.

Quando nesta situação entra em jogo, no mesmo jogo, uma prodigiosa acumulação de contradições, das quais algumas são profundamente heterogê- neas, e nem todas têm a mesma origem, nem o mesmo sentido, nem o mesmo

nível e lugar de aplicação, e que entretanto se fundem numa unidade de ruptura,

já não se pode falar mais de uma única virtude simples da contradição. (…) Não

se pode pretender com todo o rigor que estas contradiçõese a sua “fusãosejam

seu puro fenômeno. (…) Constituindo esta unidade, constituem e levam a cabo a unidade fundamental que as anima, mas, fazendo-o, indicam também a natureza desta unidade: que esta contradiçãoé inseparável da estrutura do corpo social todo inteiro, no qual ela atua, inseparável das condições formais de sua existência

e das instâncias mesmas que governa; que ela é a primeira afetada, no mais pro-

fundo do seu ser, por estas instâncias, determinante mas também determinada por um só e mesmo movimento, e determinada pelos diversos níveis e as diversas instâncias da formação social que ela anima; poderíamos dizer: sobredeterminada

em seu princípio 12 .

Mas é num seu ensaio posterior, Aparelhos ideológicos do Estado (1970), no qual apresenta o arcabouço adequado para o justo balizamento de como se deve realizar a sobreposição das contradições.

Nós designamos por Aparelhos Ideológicos do Estado (AIE) um certo nú- mero de realidades que se apresentam ao observador imediato sob a forma de instituições distintas e especializadas. (…) AIE religioso, AIE escolar, AIE familiar, AIE jurídico, AIE político, AIE sindical. (…) Os AIE funcionam de forma massiva- mente prevalente à ideologia, mas tudo para o funcionamento secundário da re- pressão 13 .

12 AlThusser, L., Contradicción y sobredeterminación in idem, La revolución teórica de Marx, Siglo veintuno editores, México 1967, pp. 80-81.

Resumidamente, estes AIE correspondem às estruturas ideológicas que dão sustentação ao Aparelho Repressivo de Estado. Para Althusser, todos estes aparatos, sobretudo a escola, precisam gerar o homem revolucionário, que fará a revolução do Aparelho Repressivo de Estado. Trata-se da reconstrução de toda a sociedade pelo seu anterior aniquilamento.

Na sequência, Jacques Derrida (1930-2004) formulou o desconstrucionis- mo. Partindo da linguística de Ferdinand de Saussure (1857-1913), concebeu a ideia de que a história está fundamentada em discursos passíveis de serem de- compostos e, no fundo, subjaz a eles apenas a vontade de poder.

Por fim, Michael Foucault (1926-1984) reduziu as instituições a discursos. Em sua conferência A Ordem do Discurso (1970) , ele afirma:

Creio que essa vontade de verdade assim apoiada sobre um suporte e uma

distribuição institucional tende a exercer sobre os outros discursos estou sem- pre falando de nossa sociedade uma espécie de pressão e como que um poder de coerção. (…) Se o discurso verdadeiro não é mais, com efeito, desde os gregos, aquele que responde ao desejo ou aquele que responde ao poder, na vontade de verdade, na vontade de dizer este discurso verdadeiro, o que está em jogo, senão

o desejo de poder? 14

Deste modo, o grande revisionismo marxista foi se dando conta que, se- gundo sua linguagem, as estruturas sociais são pura ideologia, e sua subversão pode se dar eficazmente somente através de uma manipulação da linguagem.

No mesmo período, um médico neozelandês, Dr. John Money (1921-2006), professor da Universidade de Johns Hopkins, Baltimore, EUA, psicólogo, sexólogo

e pesquisador especializado em identidade sexual excogitava sua teoria segundo

a qual as identidades sexuais são construções convencionadas a partir da biologia

dos corpos, mas não necessárias. Foi o Dr. Money que inventou o termo gênero com o significado utilizado pelos ideólogos, uma identidade arbitrária relativa- mente ao corpo com o qual o indivíduo nasceu.

Foi em 1965 que Dr. Money realizou sua conhecida experiência. Um casal teve gêmeos univitelinos, homens. Quando foram circuncidar um deles, o médico usou uma agulha de eletrocauterização, e acabou por destruir o órgão genital de Brien. O casal procurou-o e ele lhe fez uma cirurgia de mudança de sexo e pediu que seus pais nunca lhe contassem o ocorrido, o criassem como menina e lhe chamassem de Brenda.

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14 FoucAulT, M., A Ordem do discurso. Aula inaugural do Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970, Loyola, São Paulo 1999, pp. 18-20.

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Anos depois, quando o caso tinha sido já esquecido, um médico chamado Dr. Milton quis conferir a situação 15 . Descobriu que “Brendase rebelava contra as roupas femininas desde os dois anos de idade, mas sempre teve comportamento visivelmente masculino. A mãe tentou suicidar-se várias vezes, tornou-se depres- siva e morreu. O pai contou-lhe toda a verdade aos 14 anos de idade e, depois de inúmeras cirurgias, reverteu a situação, passou a viver como homem, trocou o nome para David e casou-se. Brien tentou suicidar-se aos 20 anos, teve uma de- pressão incurável, foi abandonado pela mulher, seu pai tornou-se um alcoólatra, seu irmão um drogado que terminou por se matar medicamentosamente, e ele, por fim, aos 38 anos, em 2003, matou-se com um tiro no peito. Este foi o lindoexperimento de Dr. Money.

Entretanto, ele se tornou famoso e sua herança tinha ficado à posteridade. Ele era o pai da terminologia gênerodissociada da identidade sexual biológica.

Sendo assim, visando o ideal revolucionário de dissolução e reconstrução da sociedade, 1) as feministas tinham entendido o que se deve fazer: a revolução sexual é a única maneira de se chegar à desconstrução da desigualdade; 2) os de- mógrafos sociólogos entenderam qual deveria ser o nível da transformação: uma alteração no próprio comportamento dos indivíduos, nos usos e costumes da sociedade; 3) os marxistas perceberam como isso seria possível: mediante a des- construção dos discursos, base ideológica das instituições da sociedade, de modo que se precisava de um aparato verbal adequado; 4) e Dr. Money lhes deu aquilo que queriam, o instrumento dessa desconstrução: a terminologia de gênero.

IV. Um projeto político

Faltava quem se desse ao trabalho de “juntar as peçase realizar a síntese que colocaria todos estes elementos em ordem para a obtenção do resultado re- volucionário.

Judith Butler (1956) foi a responsável pela articulação do conceito de gê- nero, segundo a formulação de Money, contextualizado-o num projeto político. Mais do que qualquer coisa que possa eu dizer, ouçamos o que ela mesma tem a nos falar:

Durante a maior parte do tempo a teoria feminista supôs que haveria uma identidade existente, entendida através da categoria da mulher, que não ape- nas inicia os interesses e os objetivos feministas no discurso, mas que também constitui o sujeito para o qual se constrói a representação política. Para a teoria feminista, o desenvolvimento de uma linguagem que plena ou adequadamente

15 colAPinTo, J., As Nature Made Him: The Boy Who Was Raised as a Gir, HarperCollins, 2000.

representa as mulheres pareceu necessária para promover a visibilidade política das mulheres. (…) Recentemente esta concepção da relação entre a teoria femi- nista e a política foi questionada a partir de dentro do próprio discurso feminista.

O próprio sujeito ‘mulher’ não pode ser mais entendido em termos estáveis ou

permanentes.

O filósofo Michel Foucault mostra que os sistemas jurídicos de poder pro- duzem os sujeitos que eles em seguida passam a representar. Os sujeitos regra- dos por estas estruturas são, pelo fato de estarem submetidos a elas, formados, definidos e reproduzidos segundo as exigências de tais estruturas. (…) A crítica feminista deveria entender como a categoria mulher, o sujeito do feminismo, é produzida e oprimida pelas próprias estruturas de poder através das quais se pro- cura a sua emancipação.

Além das ficções que fundamentam a noção do sujeito, entretanto, temos também o problema político que o feminismo encontra ao supor que o termo “mulher” denota uma identidade comum. A hipótese política segundo a qual deve haver uma base universal para o feminismo frequentemente acompanha a noção de que deve haver alguma forma singular visível na estrutura universal ou hegemônica da dominação patriarcal ou masculina. A urgência do feminismo em estabelecer um status universal para o patriarcado para fortalecer a aparên- cia representativa dos apelos feministas tem levado a uma ficção universalista da estrutura da dominação, sustentada para produzir uma experiência comum da sujeição das mulheres. Embora a denúncia de um patriarcado universal não goze mais da mesma credibilidade de outrora, a noção de uma concepção comum de mulher, que é o corolário deste quadro, é de muito mais difícil desconstrução. (…)

Mas talvez o problema seja ainda mais sério. A construção da categoria“mu-

lher” como um sujeito coerente e estável não seria uma reificação de uma relação

de gênero? E esta reificação não seria exatamente o contrário do que pretende o

feminismo? Até que ponto a categoria ‘mulher’ alcança estabilidade e coerência somente no contexto da matriz heterossexual? Se uma noção estável de gênero não pode mais provar ser a premissa fundacional da política feminista, talvez seja desejável um novo tipo de política feminista para contestar as próprias reificações de gênero e de identidade, uma nova política que fará da construção variável da identidade não apenas como um pré-requisito metodológico e normativo, mas

também como um objetivo político.

A identidade do sujeito feminista não pode ser o sujeito da política feminis- ta, se a formação deste sujeito ocorre dentro de um campo de poder que o apri- siona através da afirmação desta formação. Paradoxalmente, a representação no

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feminismo somente poderá fazer sentido se o sujeito ‘mulher’ não for assumido de nenhum modo 16 .

A Fundação Ford começou a financiar, em 1972, o Womens Studies, dedi- cado aos estudos políticos pela emancipação da mulher. Em 1990, acoplou sim- plesmente a palavra gêneroao seu nome: Womens and Gender Studies”.

Em 1995, a Conferência de Pequim introduziu, de modo ainda muito bran- do e discreto a terminologia de gênero.

Judith Butler encontrava-se no comitê de diretores da Comissão Internacio- nal de Direitos Humanos dos Gays e Lésbicas. Seu pensamento tinha conseguido criar influência, a tal ponto que Peter Beckman e Francine DAmico chegaram a escrever:

A concepção de gênero como poder nos permite dar um passo além: suge- rir que toda a nossa forma de pensar e falar sobre as pessoas se baseia no poder. Os termos “mulher” e homemsão um reflexo deste poder. Etiquetar as pessoas comomulheres”(ouhomens”) é o exercício do poder, porque a etiqueta cria para os seres humanos um conjunto de expectativas sobre quem são, quem não são e quais sãos as opções disponíveis para eles. O gênero como poder argumenta que

a mulher e o homem se fazem, não nascem. São criados por estas etiquetas eti-

quetas que abrem algumas portas e fecham outras. Etiquetar cria um ser fictício e perpetua as desigualdades porque os humanos que carregam uma etiqueta têm mais direitos e privilégios do que os que levam outra etiqueta 17 .

Conforme o testemunho de Dale O’Leary, a Conferência de Pequim termi- nou por permitir, não sem uma certa perplexidade e explicitando que entendia o termo gênero em seu sentido ordinário, duas recorrências desta palavra. Os pro- motores desta agenda se sentiram vitoriosos com a indefinição, pois tinham con- seguido introduzir este conceito de gêneros construídos socialmentede forma bastante discreta.

O parágrado 50 (48) se refere à “rigidez dos papéis de gênero atribuídos

à sociedade. O parágrafo 28 (27) diz, em parte: Os limites da divisão de gênero

do trabalho entre os papeis produtivos e reprodutivos estão se cruzando gradu- almente, enquanto a mulher começou a entrar nas áreas de trabalho anterior- mente dominadas pelos homens e os homens começaram a aceitar maiores res- ponsabilidades nas tarefas domésticas, incluindo o cuidado dos filhos. Entretanto, as mudanças nos papeis da mulher foram maiores e muito mais rápidas que as

16 BuTler, J., El género en disputa. El feminismo y la subversión de la identidade, Barcelona, Paidea 2007, pp. 45-53.

mudanças nos papeis do homem. Em muitos países, as diferenças entre as con- quistas e as atividades da mulher e do homem não se reconhecem ainda como consequências dos papeis de gênero construídos socialmente, além do que pelas diferenças biológicas imutáveis18 .

Neste ínterim, financiaram centenas de entidades ocupadas na aplicação de um novo conceito de gênero. Encubado em Pequim, foi explicitado somente dez anos depois.

Em novembro de 2006, em Yogyakarta, Indonésia, foi realizada uma con- ferência organizada por uma coalizão de organismos internacionais coordenada pela Comissão Internacional de Juristas e o Serviço Internacional de Direitos Hu- manos. Tal reunião, que contou com especialistas de 29 países, teve o objetivo de sacralizar as premissas anteriores num projeto politico mediante a concepção de ações que visam implantar nas legislações de todo o mundo a ideologia de gênero.

Entendendo identidade de gênerocomo estando referida à experiência interna, individual e profundamente sentida que cada pessoa tem em relação ao gênero, que pode, ou não, corresponder ao sexo atribuído no nascimento, incluindo-se aí o sentimento pessoal do corpo (que pode envolver, por livre esco- lha, modificação da aparência ou função corporal por meios médicos, cirúrgicos ou outros) e outras expressões de gênero, inclusive o modo de vestir-se, o modo de falar e maneirismos 19 .

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Como consequência disso, afirma o documento “Princípios de Yogyakarta”:

Todos os Estados deverão tomar todas as medidas legislativas, administrati- vas e de outros tipos que sejam necessárias para respeitar plenamente e reconhe- cer legalmente a identidade de gênero autodefinida por cada pessoa 20 .

Deste modo, põe-se em nível programático aquilo que está teoricamente muito bem formulado por Judith Butler.

VI. Uma palavra conclusiva

Diante desta genealogia da ideologia de gênero, fica evidente a pretensão de se dissolver a família como a conhecemos mediante a desconstrução intencio- nal de seus papeis fundantes.

Ao longo dos séculos, a instituição familiar se foi construindo espontane- amente, entre luzes e sombras, erros e acertos. Nenhuma autoridade humana

18 oleAry, D., Agenda de género, Edición eletrónica, pp. 89-90.

19 Princípios de Yogyakarta, Preâmbulo.

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constituiu os papeis familiares por decreto legislativo. O Estado não cria a família, mas a pressupõe, e a deve defender por sua função insubstituível: a família é o lugar da humanização, por excelência.

Ninguém é gerado pelo Estado, nem pode ser realmente amado por um ente jurídico. Quando nascemos, salvo experiência dolorosamente excepcional, fomos acalentados por um cuidado materno e por um zelo paterno, aprendemos no seio de nossa parentela os valores que nos permitiram construir uma perso- nalidade equilibrada e uma moralidade transparente, e sobretudo nos fizeram aprender a viver em sociedade.

O homem não cai no universo lançado ao esmo. Antes de pensar por si mesmo é amado por outros, porque gerado por eles.

A sociedade doméstica é o viveiro dos bons cidadãos, a cimeira onde se cultivam as virtudes daqueles que podem incrementar verdadeiramente a nossa nação. A ideologia de gênero, destruindo a identidade, destrói consigo a possibi- lidade de que exista família.

Estamos apenas defendendo nosso direito de existir, de educar, o direito de continuar a aventura de ser, sem manipulações, sem o engenho de quem se erige usurpadoramente em detentor dos destinos da humanidade.