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© 204, so nscosTa LA ood 0s DIRETUS DEST. UGA RESERIADS A const eoipes 6 rennoges cu Tunas, Roca a REPROD Rie EEO, SL 00 DE ARTES E $08 QUALQUER ho RXPRESS D0 AUTOR 8 EDITOR, DTOR -ARLETE OARS NORE be sbipo- neve cara TOS El INGLES — ELEN SABRINA GLEDRILL {10 DRUMIONDJOsANE MOREE DE OLIVIRA 0 De NOTA REFERENCIAS — ADL NOBREGA 18D DY PIERRE YERGER AROLNO FUNDAGiO PIERRE vERCER 15 — te, dn Seal at Lina: 20 2 cannoli igi 4 Rega coo -295 Frcs tea aac amp de aad CSS _VIVALDO DA COSTA LIMA NOS PES DO SANTO EPHEMERA 1 mesic A Bahia o caNbomaié ba sania Na vécapa De tainta: fll ‘ensaiobibliogrtico de Waldir Freitas Oliveira raga com preciso o quaro dos es tudosrealizades sobre a cultura do negro na Bahia, na dcada de rina, enfatzando a con triuigdo de Edison Carneiro e Artur Ramos, autre destinatéio das cartas. Os trintae cinco documentos desta Gomrespondéncia revelam, como tema aia, o que Nina Rodrigues chamou, 1a linguagem do seu tempo, “as sobrevivénciasreligosasafrcaras no Brasil’, portanto, da candomblé que tratam Fasicamente esas caras das pesquisas de Caraeeo; da eitorago de us prieiroslivrs — Religides Negras" e Negros Bants; das tabalhos jépublicados por ‘Artur Rams nese campo; do planejamento eda realizagao do 2° Congress Aro-Brasieto, na Bahia, en janeiro de 1937, e das numerosas referencias a patcpantes do mesmo e a figuras smarcantes ds eciros hatanos. Tudo isso de par com alsies a problemas pessoas, pots, financers, familiares e profssionls AS noas a essa Correspondécta procuram esclarecet muitos des aos luis iden- tar estar pessoas nea mencionadas; naisar stuagdes proper explicgies para refrbcias or aes ntencionalmente obscures. No pretender ser, conto, um trabalho exustio de eis- ‘ogratia crea, mas, por cern, pero ajudar na construcin de um ampl pane da hs social da Bahia nos aos rin, coadamente no campo do crescent epento do negro esta lot ela identidade ultra eparticipacdo politica. Era aqule um tempo em que os impulsos amorecidosereprimidos do negro na Bahia comegavam ase organizar através dos diverss me canis erat deressncia culwra aimago pola. Organizavam-seos movimentos sindcas eos candomblé.E, ainda ma vr, depois de Nina © Querino, no caso do candombl, ram olhos de intlctais que viam ¢ tora socoantropolfgias que interpreavam ovo e 0 ‘vuvido. Maso vst eo oud eram a vida do poo de santo da Bahia, Sotida.Complea. Chia de simbolismo ¢ agin. Temidae perseguida, Disriminada eprocurada como verdad e solugio para insegurancae para acre, Eos eters de candombié continuavam a se orgarizar em torn de fois lideranas, como verdadeias comunidades tenets, em que os pais mts ds teres exerciam uma autoridadeplenae intiscutvel,lgitimada pola vontade postlada dos santos — 05 ois as voduns os inquices ees cabcls dos candomblés da Bahia. Aim, trinta nas depois de Nina Rodrigues ter eset Os Africana no Brasil — que como sabes, s fot integralmente publica em 1933, Artur Rarnose Edson Carneiro deparavam-secom os teres aumentando em iimoroe mats fortaleidos nas sas estar, como, ali, nna ucida- mente Nina, em 196 o cult jee-nagderreiras como candombles, contin afuncionarre- agularmente «cadaver mis eimplanta nas cidades principals do Estado” # Os candomblés cesciam emt nimeroe afimavam-se com a apropriagio de valores da sociedad inclasiva. Ca pitalizavam-se. Compravam erenos nos limits do centro urbano. Conscuiam teres que se {ornariam centos comunitrios, com organizacio hierérquica bem defindae rigoos, em que svautordade do lider ea soidariedade intergrupl ram a norma dominaneetadisctiel. Cra vam sociedades dentro dos teres, com dreoriasexecutias que se encaregavam das ea fies efeivas de cada grupo com o sistema de poder do Estado e, sobretuco,estendiam arede do parentesco ritual para além das rota nas ede clase. as religibesaicanas” do tempo de Nina eram, para Ramos eCareito, “reliibes negras”. Religie do pova negro da Bahia ison Carnet, ele pri um negr —emnbora wm “negro dautor” -, vet intensa- mente esse tempo e partici intimamente da vida de mas dssas comunidades eligosas. Em seu listo Candomblés da Babi inch wm memento nominum dos pais e mies de santo da Bahia, ea quae todos Cameiro conhece ee muitos foi amigo: Aninha, do Op Af; Bear ino, do Bate Fala Ciriéo; Eduardo ex Emiliana, do terceic jeje do Bogor; Felipe Kango de Ouro; Germina;Kaice;doznho da Goma; Manuel Fale da Formiga de Sao Caetano a- rel Mens Mara Eugénia da ila Flavian;o babalad Martinano do Boat: Meinina do ‘Gants Mia, da Area da Cuz do Cosme: Manuel Natividade do Caboclo Neive Branco tivo, de Plataforma, Manel Pim; Frocdpio, do Ogunid; Sabin, da Barra Senora, do O90 alo ‘Tia Mass da Casa Branca; Zc do Nordeste de Atarana... Muitos dels foram cas frequen ‘emente por Carneiro, em seus livros. A mutes deveu aclhidsfatera e informagia vida. e ‘com alguns poucs estabeeceu os ineitveisconfitos que surges do confonto de uma idelogia de segredo com acurcsidadeetnogstca do pesquisador Nos pase macs de santo lembrads por Carneiro esto representatas dasa “nagies" de sant coneidas na Baia ~ tanto a5 casas mats antiga da tradi jee-nag, como as de angola, ‘congo ecabocn A sii 6 astant representatva ds teres daquela ca, Reve alist, it- «age por que Carn omitin o nome de Catia de Bd, mdedo ereo do Ovumaré aati ata Fscur, hoe Vasco da Cama, Cotinka ~ Maria das Mees ~ era filha de sano do amos pa Antinio Oumar, lembrado, anda hoe, pelos “mais antigo’, po suas ligacbes com cles polticos baianos. no tempo da Campana Civili, Sev pai de santo to o lendrio To Salas de Kang. A suséacis do ome de Cina de Eso memento €deestranhar, ver qe pei Carneiro cit ‘em Relies Negras, otro de Osumaré que frequenava: "No candomisé de Oxumaré tive a oportunidade de asst danca que acusavam parentescoprximo como grupo ttc que Nina Rodrigues ckamou deli da tartaruga'* ainda wo apéndice do mesnn li, Carel inclut ‘um capitulo —" resent & Mae gua” (1934) —em que desree, num estilo colori de reportage, a festa do presente" do Candomblé do Oumar eferindose, inclusive, 4 mae do teria, Cotnha, Sem. enetanto,mencionar theo nome. (utra curios omissio € ado nome do pai de santo Severino Manuel de Abren, mas co- _ecio pelo tome do seu abl, bia. Gado por Carnetoem Relgizes Negras eem Negros Bantus, a propisito do candomblé de caboclo, Jobiabé ea muito conecio na Babia dagueta pocae se grand tereiro na Area da Cruz do Cosme —hoje rua Conde Araijo Prt Alegte ~ tra equentado por politics eautoridades polciis do Estado, de quem era amigo econseheiro Por ese tempo, jorge Amado publicarao seu jf clssco romance fubiaba ese viraenvuvio ‘uma curios polémiea com Severiano que, aparenemente, iriow muito cam: ous do rome ‘do seu poderes cabolo no romance Mas, em verdad, aide santo da Cruz do Case, salvo 0 nome taler, cetos aspects da personalidad caismatca dos dos Jublabis, nada tina aver «om o pai de sano do romance de Amado. & numa longa e excelente reportagem do jonalisa Jno Ouarte Filho, publicada em 0 Estado da Babia, de 1 de aveea de 1936 a primeira de ‘ua ste sobre candomblés,organizada por Caaetn—,Severiano expla, inclusive. a origem do nome jubia fla de suas relages com as clases dirigentes: Mina casa 6 frequentad por mis pessoas de mportinci Médico, bacha- 1, negoianteseautoridades vir aul Eu 34 smigo do Gaverno, Nas ee .8es municipais dei mie eantos votes a0 Dr Americano du Costa,a pedido do ‘De Marcineli raga Aquele é um velhinho Bom. Amigo dos pores. Para esas ‘sinha af do fundo,ele dispensou as plantas eva mandar borar um chafarz (0 prestigindo paid sant, beneficial com a proteio de wm alo funcionio do Goverao Jura Nagas, equibrava-se dieticamente “Siro meu rrato com orem do Dr. Mactinel Braga’, disse categoricamente ao reporter. fo, na verdad, preciso providencia, por teefone luborosamentelcalizadonavizinlanga, a indispeasielcenga pea aftogralia Jorge Amado, ov sa vez, em entrevista dada a0 mesmo jomal, 25 de maio do mesmo an, desmentvavin- culagio, tibia pela reportager, do seu personagem com o verdadero Jubiabd. na matéia sobo titulo" fbi do romance oda vida reat, esubilo: Nap pensei no molto Seeriano um s6 momento enquanto escrevia olive. O referente nico “molato” foi certamenteusao aca opo-se imagem do pai de santo do romance, ngeo ej bem vlho diverso da figura do ‘erdacioJbiab, questo no oral, una fotoaiaobrepsa legend — "Jubb, capitio do Bxérito de 2* linha e curadoresiritaposando para 0 sade da Babia”.E foto mostra «avverdade, um lato claro, portanto “ur branco da Babi, elegantementebem srrumado no seu aque “de casimira ingles, A moda daquela ca, gratata bem post, bigodesaparaos, calelos alsados para trés,setado em sua sala de vistas. Aqela sre de reportagens organiza, Carneiro define o inicio de uma mudanca, em alguns jonas de Salvador, com respeito 0 tratamenta dado &religin ds negros Bahia Por ese tempo, a emergéncia de novos tereiras, muitos fos quis frequentads e ci ‘ado por Carneiro, ecamados de “clandestinos” pela seeriade emacntrice ds els pais mes, era um fato ber estabelecd,Essesterreimos conviviam coma dscriminacio que so fram por pate dos candombés mais antgns ~ disriminagao mais focmgl do que real e 6 reproduaiam os padeoes vlorativs, exteriogse rituals, da otodoajej-nagh. Esse ato pre- «isa ser melhor analisadoe os autores 6 o tim abordado de passage, Os mecanismos de e- sitmago de alguns desses tereensenvolviat, como ainda envolvem, a“adocio” de velhas ebomins de casas prestigiosas, profundas conhecedora ds fundamentos, que assumiam paps ‘importantes na hierarquia dos novos candomblés. Mas ofator dominante nese processo de criagdo era, sobretudo, a personlidade do pa ou da mée da nova casa. ntligents,chamados por apels iescapaveis vida religiosa, os novos “zeladores” ~ como prefetem chamar-se iuitos deseslideres~ progrediam, organizaram suas cass, inicavam seus prépriosfilhos de santo, afirmavam-se em poder e prestigio. ‘Muitos dos ovens lideres daquele tempo esto je desapaecios. Outros enretant, so atualentevels chefs de teres, "sabedores das cosas", guras respetadas,poderoses, mai- tasvezes com enorme geraco de fins de santo desses fins, muita, porsua ef so chees atnomes de suas prprias cass Um oueoaspecto que merece wma atengo mais demoraa, que no poe ag ser con- sierada,eram as relages de poder, marcanterentedalics, entre cs eres a sociaade inclusva dominante, como severfca no caso de ubiad Essa relagesenvoviam tanto poten ‘eamizade como dscriminagio eviolécia, certo qu os grands terrlrs rarament sofiam a gress predtria da ola do notctri dos rai, que feta, de cert form, 2 ideologia da clase dominant, 0s jorals dos ano rintareproduziam o mesmo discurso ja denunciado por Nina ~# muita gente exquece ese aspecto da sua obra ao analisa devenas de noticias de jor naisbrasleieos, especialmente cs da Babi, da tina década do século XI, Est anda por fazer se um stud sistem sobre a repressinaos terreios dos candomblés, desde os temps ainda limprecios de sua implantacioeinicial expansio. (pecino, entretanto, das cata de Carneiro Ramos, ostrava uma crta mudanga no discursorepressio ~¢catolcament orientado — do noicirio dos jonas baianos. 0 se ‘deve, em grande parte, 3 intensa divulgacio do 2° Congress Alro-Brasileo, especialmente através 0 Bstado da Babia, jornal onde Carneiro colaborava naguee tempo. Reportagens, artigos, entzeists enovicirio do Congress eram publicadns com destaque gin, por Ca. neico, que ao ipod, als, que os mesmosjornais que publistam matéis posits sobre fatos relacionados com o candombléc a cotara negra em geral divlgassem, 3s ves na mesma ‘edicio, nots estremament preconcituosasedisriinatirias sobre os terreirs a repressio polical vida religiost das comunidades negras. ale tar aq’ um pequeno reco dahistria devia de um conhecto pide santo da Bahia, V8. Falandolongamente, no eu estilo rin cioso recorente, de alguns incidents policais em que seenvolera egabando-se de “nao tet, em toda sua vida, do munca a uma delegacia de policia, ele evocaa figura de seu prio pa dean, aum context que define aj eerida abiguidade das relages do poder dos teretos com 2s autoridades policss ou pide sane, na hora dx morte. me espantow quando me dsse:~"Eu levo “4 uma dor comigo, nfo conheci as grades ds palica No canheciacades,¢o pl de santo pra ser pa de sanco de vardade, deve conhecer’Eu disse:—Ave Maria, ‘meu pal eu tenho fem Deus que munea contesa® A citago merece ume ands, quo ce nests tas da delogia do sent’, plc no pais lament do velop de santo (o nome dele eraTertuliano das Neves. Flecido himuitos ans camad Teo, apeido de To. Morava no Beco de Joo do Bi"). &aceitago osotrimentn eda injustia tornada clemento dogmatco de uma religtoaparentementeituaistica sugee uma interpretago mais cudadosa, 40s especiists, aos teslogos do candomble. faa su- st dese otro amino para a comrensin dese proceso. espe 3 tradcin, Emergéncia de nova iderancs. Crescent alirmaso sci epoltica das comunidades dos terete, apr da recorrentereressin policial Ese, num amploepeco, 0 quate das candombls da Bait na dada de trina ‘os muitos lees religions que exerci, com maior ou menor infugnca comunitri, aps importantes nos candomblés da Baia, nos anos ita, dose destacavam de manta indis- ctv: obabalad Natiniano Else do Bonfim ea ilo Eugnia Ana ds Santos, nina, do eno Cruz Santa do Ax Op ans Sas personalidad transcend o ambiente des tereins ese impunham igualmente& socieade inlisia Carne, et aigo na edico comemoraiva do 4" Centero da Cidade do Sal- ‘ado, do jornal Tarde, em29 de margo de 1949 —"Lembranca do negro na Bahia, vepublcado em 1964, no to Lada Criowas titan da “exraodinriaimportinca para a nacionalidae da exrtebuigin do nest", di sta contribigio se extendou, com incensidade varével a todos 0s campos a stvidade humana, enre 0s quai ua pola pela reforma da socladae,pro- duzindofiquas eminentes, como os pardos d revolt de 1798, concampors- reamente, Manvel Querin. Teodere Sampo. Marciano do Boni «Arif Carneiro estava certo em inelueses dis ders religiosos, por sua intensaatuago na soca globa,no plano da influéacia politica no sentido aval eabrangente do onceto de tea. Carneiro fo’ amigo de ambos, de Martiniao ede Aninha O babalad é mencionado muias eas tas carts desta Correspondéncia Aninha, cada, erbora uma vez apenas, 0 fi de um modo que resume sua pesonaldade forte e sense Na carta de 8 de janeiro de 198, Carneco informa a Ramos “Morte, hd dias, D. Anns, doOpd Aon, brago do Congreso, sua dmira- dora’ Poles imaginar quanto ted cstadoa Edson Carneiro eesuit nessa cura fase, cr regada de intences, todos os setides de reset e ratio que mantoha pel alec iar, desde a ajuda que ela le preston narealizagio do Congress 80 “Santuario” que Ihe concede, osu terra de So Gongalo, ao im do ano de 1957. quando Carneiro ali se refugou, a abrign seg da perseguigo da plicia politica, Esse ato lebrado por Carneiro a Senhora eseus obs, ruitas anos depois, é também mencionado no lve de DeoscredesN. dos Santos. filo de Se- nora, Ago do terri, nose iro Are 6 ig: Emfins de 1937,com a procamagio do Estado Novo.0 escrito e einégrafo Ed son Cameo sendo persequid, refugiau-se no terreio, tendo Mie Ania the dado aslo. Ficau em casa de Oxum « Annha encaregou Senhora de velr por Clee prestar assisténcl. Ese fat por muitos anos fol conhecido apenas de ‘Avinha Senhora, até que o mesmo Edon Cameio deu-lhediulgugio publica? Nas suas cartas «Ramos Cari tna que ser dscrito ennai fats esituagies que dese vr a comprometer seus aig ds candomblés, Martini eAninba so analmene noms lembrados na tradi oral de tds os ter- ‘reir da Bahia, mitficados na lemibranga da gene de santo. ds que os conkeceram em vida dos que ouviram contr histris de seu pve, de seu conhecimento, de seu imenso presto Nessas das figuras singulaes bem quesepoeriam identificar a clssicas categoris weberianas «aegtimasao do poder, no cas, do poder tecrticoexercido pelo pais e mies dos eters da Bahia: eam eles pessoas que conheciam sas origens tics eculturas, Dotados de um superior