Você está na página 1de 20

1

GRUPO DE TRABALHO 1 GÊNERO, CORPO, SEXUALIDADE E SAÚDE. HORIZONTES EPISTEMOLÓGICOS PARA O ESTUDO DA
GRUPO DE TRABALHO 1
GÊNERO, CORPO, SEXUALIDADE E SAÚDE.
HORIZONTES EPISTEMOLÓGICOS PARA O
ESTUDO DA FAMÍLIA CONTEMPORÂNEA:
PSICANÁLISE, FEMINISMO E SUBJETIVIDADE
Mariana Corrêa de Azevedo

2

HORIZONTES EPISTEMOLÓGICOS PARA O ESTUDO DA FAMÍLIA CONTEMPORÂNEA: PSICANÁLISE, FEMINISMO E SUBJETIVIDADE 1 Mariana Corrêa de Azevedo 2

Resumo

O presente artigo visa o estudo de algumas questões teóricas acerca da relação entre a psicanálise e

a teoria feminista. Através da contemplação dos clássicos de área, Freud e Simone de Beauvoir,

pretende-se esclarecer os fundamentos psicanalíticos de uma teoria da subjetividade, para a perspectiva do feminismo, bem como apontar suas limitações para esta última. Através desta discussão intenta-se esclarecer as possibilidades sociológicas da pesquisa interpretativa focada na identidade dos agentes sociais. Tomando a psicanálise como pioneira no discurso acerca da subjetividade, espera-se tornar visíveis formas de articular essa abordagem com estudos feministas em gênero, tendo-se como exemplo trabalhos de autores contemporâneos que abarquem as transformações sociais ocorridas desde a gênese da psicanálise até a entrada do século XXI. Busca- se, através desta discussão teórica, estruturar horizontes metodológicos para pesquisar gênero e família, dando-lhes uma fluidez entre disciplinas, para que seja possível contemplar adequadamente

a subjetividade, o conflito e a construção da identidade através de uma conjugação mutuamente crítica e produtiva entre psicanálise e feminismo.

Palavras-chave: psicanálise, feminismo e subjetividade.

1. A PSICANÁLISE: UMA TEORIA DO SUJEITO, DO CONFLITO E DA SUBJETIVIDADE

Para dar início a nossa problemática faremos uma breve incursão geral acerca da psicanálise

freudiana, capaz de justificá-la como uma teoria da subjetividade.

Em 1914, Freud realiza um balanço do desenvolvimento da psicanálise, contabilizando todas

as suas aquisições até esta data. Nesta História do Movimento Psicanalítico (FREUD: 1997) o autor

evidencia o nascimento da disciplina – tão propícia a “provocar oposição e despertar rancor” (idem,

p.10) como autônoma da psicologia da época (a passagem para o século XX), através do abandono

do método hipnótico de Breuer e da introdução da associação livre. As descobertas de Breuer

fundam-se na idéia de que os sintomas dos pacientes histéricos baseavam-se em cenas do passado

individual que chocaram e foram esquecidas gerando um trauma. O método catártico consistia em

reconstituir a experiência dolorosa da memória em estado de hipnose e descarregar a emoção

contida correspondente. A grande divergência de Freud com toda a tradição psicológica precedente

era acerca de uma noção fisiológica do psiquismo da qual Breuer ainda estava imbuído , a qual

ele vai confrontar com uma teoria do sujeito propriamente dita. O autor não encarava a divisão

1 Agradeço imensamente à minha orientadora de dissertação, professora Miriam Adelman, pelas contribuições com idéias e referências para a realização deste artigo.

2 Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná e bolsista pela CAPES.

3

psíquica como uma topologia cerebral, mas como um efeito do processo de repulsão, que vai chamar de “defesa” e, posteriormente, de “repressão”. Essa guinada permitiu a elaboração do corpo da psicanálise; e suas contribuições específicas podem ser resumidas ao seguinte:

Entre outros novos fatores que foram acrescentados ao processo catártico como resultado de meu trabalho e que o transformou em psicanálise, posso mencionar em particular a teoria da repressão e da resistência, o reconhecimento da sexualidade infantil e a interpretação dos sonhos como fonte de conhecimento do inconsciente. (idem, p.18)

A repressão é o conceito chave de toda a sua estrutura. É um fenômeno passível de ser

observado quantas vezes se desejar, ao empreender uma análise de um neurótico sem necessitar da técnica da hipnose. Esta última ocultava o fenômeno correspondente da resistência, que seria a manifestação mascarada dos materiais reprimidos na análise. Foi através dessa inovação que Freud pode comprovar a existência de uma atividade mental inconsciente. Esse inconsciente extravasa na

repressão e na resistência; essas duas são, contudo, não premissas da psicanálise, mas descobertas de um longo e detalhado processo de observação clínica (idem, p.20).

O outro produto autêntico deste tipo de observação é a hipótese da sexualidade infantil

(idem). As pistas dos pacientes com sintomas neuróticos levavam cada vez mais ao passado remoto

do sujeito; donde se fez necessário assumir contra toda teoria e senso comum da época que é na primeira infância que se desperta a sexualidade. Os traumas sexuais infantis dos pacientes histéricos, num primeiro momento considerados traumas ocorridos na realidade, passam a ser traumas fictícios, cenas fantasiosas que exprimiam a realização psíquica de um desejo. A vida sexual da criança, suas etapas de desenvolvimento, também ancora a teoria psicanalítica do desenvolvimento do sujeito.

A interpretação dos sonhos veio a complementar a técnica da associação livre, uma vez que

o simbolismo dos sonhos que sempre remete aos sujeitos e não a arquétipos genéricos surge como conseqüência de conflitos internos, que produzem a distorção característica dos pensamentos oníricos (como resultado do recalque). O sonho era mais um caminho para tornar inteligíveis os sintomas de pacientes neuróticos (idem, p.24). Vamos nos deter um pouco mais no edifício teórico psicanalítico para pensar uma teoria do sujeito. A noção de pulsão é, talvez, o conceito mais enigmático para a psicanálise. Em seu ensaio Pulsões e Destinos da Pulsão (FREUD: 2004), de 1915, Freud tenta lhe dar um conteúdo. O

estímulo pulsional, ao contrário do estímulo fisiológico, não vem do exterior, mas do interior do organismo. Desta forma, uma de suas características é a pressão constante que ela exerce; não é possível fugir dela como a um estímulo de dor física ou fome. Essa distinção entre uma força de

4

impacto (como a dor/fome) e uma de constância é evidência de que há um mundo interno e necessidades pulsionais. Ela é também uma pressão irremovível e continuamente frustra o sistema

nervoso, cuja função primordial é manter afastados todos os estímulos. Em termos gerais sua função

é lidar com os estímulos como num reflexo fisiológico; mas essa função se complexifica na medida

em que existem as pulsões, às quais não é possível somente rebater. Para se livrar de uma força que provém do interior, constante e irremovível, é preciso que o sujeito realize atividades complexas e articuladas, que modificam o quadro do mundo exterior. Para Freud é possível afirmar que são estas pulsões assim caracterizadas que levaram o sistema nervoso ao seu atual desenvolvimento; eu diria que elas são o fundamento distinto sobre o qual fomos humanizados. As pulsões, que são misteriosas ao nosso conhecimento, só se fazem conhecer através de sua meta: a satisfação. Uma classificação preliminar entre pulsões de autoconservação e pulsões sexuais permite ao autor inferir que à psicanálise apenas as segundas são cognoscíveis 3 , através do estudo das perturbações psíquicas. Não cabe a nossa proposta nos determos nos detalhes característicos e ainda muito difusos neste texto da pulsão sexual e dos seus destinos possíveis (transformação em seu contrário e redirecionamento para a própria pessoa 4 ). O que nos interessa deter é que os destinos são modos de defesa contra as pulsões, arrebatamentos. A partir delas se formam as polaridades que irão dominar toda a vida psíquica: a relação sujeito (eu) - objeto (não-eu); o mecanismo prazer - desprazer; e a dualidade atividade - passividade (idem, p.157). Na fase do narcisismo as primeiras duas etapas se confundem: o sujeito como prazer e o externo ao sujeito como desprazer; assim, nesta fase, o exterior está desprovido de investimento, na medida em que o sujeito do narcisismo é caracterizado pelo auto-erotismo (infância remota). Com o desenvolvimento do sujeito e a superação da etapa do auto-erotismo, os objetos externos que passam a ser fontes de prazer são recolhidos e os de desprazer, rejeitados. Tudo isso para que possamos aqui equacionar o sujeito cindido da psicanálise: “Do seu próprio Eu ele extraiu uma parte que expeliu para o mundo externo

Em rigor, não há, de início, diferença entre o externo, o objeto e o

e passa a sentir como hostil. [

odiado.” (idem, p.159). Somente depois que o mundo exterior é reconhecido como fonte de desprazer, os objetos podem ser amados, a partir de uma incorporação no Eu. Por isso existe uma ambivalência tão forte e presente de amor (absorção) e ódio (repulsa). Este momento da reflexão de Freud sobre as pulsões amor/ódio Para pensar a psicanálise como uma teoria do sujeito, é impossível não anexar a isso que este sujeito é a encarnação do conflito.

]

3 A hipótese de uma pulsão ou instinto de autoconservação é considerada, por Freud e outros, metapsicológica ou seja, uma hipótese extra-clínica. Nas suas obras finais Freud irá se dedicar à temática, reformulando-a, distinguindo duas pulsões originárias: de vida (criação) e de morte (destruição). Cf. O Mal-Estar na Civilização (FREUD: 1996c).

4 Os dois outros destinos da pulsão não são analisados neste artigo de Freud: o recalque ao qual está destinado um capítulo à parte - e a sublimação nunca publicado.

5

Vamos apenas detalhar um pouco mais esta noção de uma dinâmica conflituosa do sujeito psicanalítico. Em O Ego e o Id (FREUD: 1996b) Freud procura sistematizar as principais idéias

teóricas que compõe a psicanálise. Sua premissa fundamental seria a divisão do psíquico entre o que

é consciente e o que é inconsciente (idem, p.27). Certas idéias ou pensamentos são facilmente

acionáveis, ou capazes de se tornarem conscientes a qualquer momento. Mas é por outro caminho que a psicanálise vai extrair o conceito de inconsciente: experiências em que a dinâmica mental desempenha um papel ativo. A razão de que outras idéias não se fazerem conscientes é porque uma

força se opõe a elas. Esta força é a repressão. A técnica psicanalítica consiste em remover esta força

e trazer estas idéias reprimidas à avaliação consciente. Obtêm-se assim o conceito de inconsciente a partir da teoria da repressão. O reprimido é, por sua vez, um protótipo do inconsciente. Uma maquete ou um modelo de algo que jamais teremos acesso completamente (idem, p.28). Novamente

o que salta aos olhos de uma perspectiva panorâmica da psicanálise é sua teorização do sujeito, a

partir de uma concepção do conflito entre as instâncias psíquicas e na sua relação com o mundo exterior, que é, em última análise, a agitação do eu com o universo da cultura e da sociedade, ou da própria constituição da subjetividade nessa relação.

2. O DISCURSO PSICANALÍTICO SOBRE A FEMINILIDADE, A CRÍTICA EXISTENCIALISTA DE SIMONE DE BEAUVOIR E A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE SEGUNDO FOUCAULT

Após esta apresentação inicial, daremos seqüência à concepção específica da psicanálise no terreno da identidade feminina, para poder rebater seus pontos fracos a partir da emergência do feminismo de Beauvoir, apoiando-se também nalgumas críticas interessantes realizadas posteriormente por Michel Foucault. No artigo intitulado Feminilidade (FREUD: 1996a) de 1933, Freud condensa alguns trabalhos anteriores sobre o tema 5 e procura relatar alguns fatos observados sobre o “enigma da natureza da feminilidade” (idem, p.114). A distinção sexual é em primeira instância a diferença anatômica, mas o que realmente constitui a masculinidade e a feminilidade escapa à anatomia. O autor, tomando como base a concepção comum da época, afirma que o masculino remete ao princípio ativo e o feminino ao passivo. Contudo, este não é um fenômeno absoluto na natureza animal. Até na vida humana seria errôneo fazer coincidir essas polaridades com a sexualidade particular dos indivíduos. Este é um bom argumento que, como se verá a seguir, não se sustentará no texto.

5 Seriam eles “Algumas conseqüências da distinção anatômica entre os sexos” e “Sexualidade Feminina”. Conferir nota do editor inglês (FREUD: 1996a, p.113).

6

Freud percebia que a distinção sexual é realizada a partir de uma bissexualidade primordial nos indivíduos. Como é então que a mulher se forma a partir desta disposição bissexual da criança? Uma nota interessante, e que permanece bastante válida, é que esta constituição como todas as etapas do desenvolvimento do sujeito não se dá sem uma luta e conflito interno. Prosseguindo, a mulher tem duas tarefas extras em relação às da constituição masculina. Uma menininha parece mais dócil e dependente do que um menino; e já notamos aqui uma predisposição à essencialização do gênero. No início, contudo, ambos parecem apresentar a mesma dose de agressividade. Na fase

fálica passadas a oral e a anal os meninos aprendem a obter prazer de seu pênis e as meninas de seu clitóris, ou o “pequeno pênis”, segundo Freud (idem, p.118). Com o advento da feminilidade, a zona erógena do prazer deve ser substituída pela vagina, onde estaria localizada a verdadeira sexualidade da mulher. Para um menino, a mãe é o primeiro objeto erótico, e assim ela será como matriz por toda a sua vida. Na menina, a mãe também ocupa este papel. Porém, no complexo de Édipo, é o pai quem se torna o objeto amoroso; e assim vale para o espelho na escolha de um marido. Essas seriam as duas tarefas extras da mulher: mudar de zona erógena e mudar de objeto amoroso (clitóris/mãe para vagina/pai); enquanto o menino mantém ambos (pênis/mãe). Na fase inicial da menina de vinculação com a mãe, o pai se apresenta como rival. Na fase

de vinculação com o pai, estes sentimentos anteriormente reservados à mãe, se transferem, apesar

de preexistentes. A natureza das relações libidinais da menina com sua mãe é marcada pela

ambivalência entre o carinho e a hostilidade. Clinicamente, Freud afirma que este desejo se mostra

na vontade de ter um filho com a mãe. No Édipo feminino, a menina tem a fantasia de ser seduzida pelo pai. Na relação materna, contudo, esta fantasia toca o chão da realidade, uma vez que é

geralmente a mãe que faz a higiene e, assim, as primeiras carícias. O fim desta ligação libidinal é acompanhado de uma hostilidade e ódio pela mãe, explicada pelo desenvolvimento do complexo de castração e este será um aspecto central da crítica de Beauvoir. Na menina este complexo se afirma pela culpabilização da mãe devida a sua desvantagem, por ser ela mesma castrada. Após a constatação da diferença anatômica sexual, a menina sente-se injustiçada e passa a sentir a “inveja do pênis”. Este desejo de ter um pênis, de acordo com Freud, é muitas vezes responsável pela ida da mulher adulta ao analista. “A descoberta de que é castrada representa um marco decisivo no crescimento da menina” (idem, p.126). Esta descoberta relativa à mãe permite à menina abandoná-

la como objeto amoroso, pois o fato de a mãe ser castrada levaria a um rebaixamento de seu valor.

A inveja do pênis também leva concomitantemente a um impulso contra a masturbação infantil

clitoridiana. Renuncia-se em paralelo com o abandono deste prazer um certo “soma de atividade”.

A passividade passa a ser predominante e a menina volta-se para seu pai. O desejo que explica esta

transferência é o de obter o pênis que a mãe lhe recusou, que espera agora obter com o pai. Por fim, a mulher só ficará completa com a substituição do desejo do pênis pelo desejo de um bebê. O desejo

7

do pênis-bebê inaugura o Édipo feminino. A hostilidade contra a mãe faz dela uma rival. No menino o Édipo se descreve assim: o desejo pela mãe causa o de eliminar o pai, seu rival; com o medo da castração o primeiro complexo é reprimido e no seu lugar instaura-se o superego. Esquematicamente, na fase fálica (descoberta da diferenciação sexual) surge o complexo de Édipo, que, quase paralelo ao complexo de castração, dá origem ao superego. Na menina, o complexo de castração prepara o Édipo ao invés de destruí-lo. Ela é forçada a abandonar o amor pela mãe pela inveja do pênis e a situação edipiana é como um refúgio desta frustração. Freud deduz daí que o

Édipo, pai do superego, é incompleto na menina e isso há de significar uma fragilidade maior, uma imperfeição dessa instância psíquica. Dando seqüência à sua apresentação, o autor afirma que o complexo de masculinidade em

evita-se a afluência da passividade que abre caminho à

uma mulher ocorre uma vez que “[

mudança rumo à feminilidade.” (idem, p.129). Afinal, segundo ele, nesta pré-história da sexualidade feminina, seu desenvolvimento permanece exposto às perturbações do período masculino inicial (pré-edípico de desejo pela mãe). Esta maior complexidade pode ser a causa do que se intitula o “enigma da feminilidade”. Nas partes finais deste seu texto, Freud afirma que nem sempre é fácil saber distinguir entre o que vem da função sexual ou da educação sexual, que eu diria são totalmente inseparáveis, mas que o levam a mais uma série de afirmações de caráter

essencializador. À feminilidade atribui-se maior grau de narcisismo, uma vez que a necessidade de ser amada (pólo passivo) é mais forte do que a de amar. A vergonha seria também uma característica feminina por excelência, que parece ter como finalidade ocultar sua “deficiência genital”. Também o fato de as mulheres terem feito poucas contribuições às invenções civilizacionais; como os instrumentos de guerra e massacre, poder-se-ia dizer ironicamente. Na escolha objetal feminina está o ideal narcisista do homem que a menina queria tornar-se; e mais:

“Um casamento não se torna seguro enquanto a esposa não conseguir tornar seu marido também seu filho, e agir em relação a ele como mãe.” (idem, pp.132-133), ao que cabe notar por um lado a conveniência de ser maternado, mas por outro a dúvida sobre sua capacidade e autonomia enquanto sujeito adulto. A inveja, outro atributo feminino, é a causa do reduzido senso de justiça nas mulheres. E possuem também menos capacidade de sublimação de seus instintos; manifestam-se menos na arte, na intelectualidade, na política, diria eu, nas atividades públicas tipicamente masculinas. Para finalizar, Freud sinaliza que um homem de trinta anos parece um adolescente

cheio de vida; uma mulher da mesma idade “[

atemoriza por sua rigidez psíquica e

imutabilidade” (idem, p.133) – parece que o difícil percurso da feminilidade exauriu as forças da pessoa em questão. O que nos leva a pensar: como era ser uma mulher em 1930? Vejamos em qual potência o discurso psicanalítico é capaz de atuar dentro das prescrições sociais assumidas como femininas, na seguinte passagem:

]

]

8

é decisiva para o futuro de uma mulher: durante

essa fase são feitos os preparativos para a aquisição das características com que mais tarde exercerá seu papel na função sexual e realizará suas inestimáveis tarefas sociais. (idem)

A fase da ligação afetuosa pré-edipiana [

]

Juntando a questão posta acima e esta última passagem, antes de tomar como referência a crítica de Beauvoir, coloca-se até que ponto Freud estava certo, mas pelas causalidades erradas. O que é ser uma mulher ontem e hoje é amplamente explicado pelas funções sociais que lhe foram prescritas, o espaço simbólico que foi reservado a ela e tornou sua constituição num conflito particularmente mais intenso, pode ter exaurido suas forças; e é evidente que este espaço se modificou da primeira metade do século XX até agora. De qualquer maneira, Freud lança problemas interessantes para uma teoria da subjetividade a sexualidade não é biológica, mas constituída a partir do conflito do sujeito e do seu desejo , mas simultaneamente parece reproduzir todos os preconceitos sociais da época e normalizadores, no sentido foucaultiano, acerca da mulher enquanto função social (tarefas do lar) e sexual (a posição de passividade diante do desejo masculino). Dez anos após a morte de Freud, Simone de Beauvoir irá publicar O Segundo Sexo (BEAUVOIR: 1980), onde dedica um capítulo para responder à psicanálise freudiana.

O imenso progresso que a psicanálise realizou na psico-fisiologia foi considerar que nenhum fator intervém na vida psíquica sem ter revestido um sentido humano; não é o corpo-objeto descrito pelos cientistas que existe concretamente e sim o corpo vivido pelo sujeito. A mulher é uma fêmea na medida em que se sente fêmea. Há dados biológicos essenciais e que não pertencem à situação vivida. Assim é que a estrutura do ovário nela não se reflete; ao contrário, um órgão sem grande importância como o clitóris, nela desempenha um papel de primeiro plano. Não é a natureza que define a mulher; esta é que se define retomando a natureza em sua afetividade. (idem, p.59, grifo meu)

Portanto, a autora não irá rebater apenas por hábito, mas para retirar da psicanálise aquilo que é possível usar na contribuição para o estudo da mulher. Beauvoir, lançando mão de uma ironia, diz que a psicanálise, como outras doutrinas “religiosas” dentre o cristianismo e o marxismo, possui conceitos altamente rígidos, mas com uma elasticidade embaraçante. Isso torna a crítica mais difícil de se fazer, até porque ela possui muitos doutrinários. Freud não estuda diretamente a sexualidade da mulher e, apesar de afirmar que “Existe apenas uma libido, que tanto serve às funções sexuais masculinas, como às femininas. A libido como tal não podemos atribuir a nenhum sexo.” (FREUD: 2006a, p.130), a libido aparece como uma força originalmente masculina. Freud localizou uma diferença, que antes dele não tinha sido devidamente reconhecida, entre o erotismo do homem centrado no pênis e o da mulher distinto entre o clitoridiano, característico da sexualidade infantil, e o vaginal a partir da puberdade (BEAUVOIR: 1980, p.61). A mulher passa como o homem do auto-erotismo (chamado narcisismo

9

primário) para a fase narcísica de objetivação do prazer. Mas seu processo é mais complexo uma vez que tem que passar do prazer clitoridiano para o vaginal, conforme o próprio Freud apresenta. E também há uma diferença essencial pela menina possuir inicialmente uma fixação pela mãe. Em resumo, a constituição do feminino é mais complexa exatamente como no artigo de Freud. Beauvoir apresenta duas críticas essenciais ao ponto de vista psicanalítica. O drama sexual feminino é calcado no masculino, como se a mulher se sentisse um homem mutilado: isso implica uma comparação e uma valorização. O complexo de castração na mulher é bastante relativizável:

“Essa excrescência, esse frágil caule de carne só lhe pode inspirar indiferença e até repugnância; a inveja da menina resulta de uma valorização prévia da virilidade.” (idem, p.62) não é o pênis em si que poderia explicar uma possível inveja da menina (lembrando que o texto é de 1949). A outra crítica seria sobre a própria noção do Édipo na mulher que posteriormente Freud chama de complexo de Eletra – “Seja como for, não é a libido feminina que diviniza o pai; a mãe não é divinizada pelo desejo que inspira o filho.” (idem, p.63). A soberania do pai é um fato de ordem social que Freud não explica satisfatoriamente. A autora acrescenta também que quando uma teoria força muito suas explicações secundárias (como no caso do Édipo feminino) para manter seu esquema, talvez seja preciso modificá-la. Há uma série de coisas não explicadas na psicanálise, como a autoridade, o tabu do incesto, as duas realidades distintas (princípio do prazer e de realidade), para as quais Freud apresenta explicações romanceadas. Como no mito da horda primitiva, onde os filhos revoltam-se contra a soberania do pai, matam-no, mas sentem depois a dor do remorso e acabam por celebrar sua autoridade duma maneira simbólica. Esse “mito freudianosobre a autoridade paterna e o progresso está retomado no Mal-Estar na Civilização (FREUD,

1996c).

É certo que a sexualidade ocupa um lugar de primeiro plano na existência humana, e o corpo é a expressão concreta desta última, afirma Beauvoir. Mas é preciso descobrir suas significações. Nem a sexualidade é um dado irredutível (no limite, da natureza): ela é um dos aspectos da “procura do ser” (BEAUVOIR: 1980, p.66). Não é apenas do desejo, da libido e da pulsão que se pode reter a existência. Vale lembrar o jargão existencialista enunciado por Sartre: a existência precede e governa a essência. O aparato existencialista permite a Beauvoir fazer uma inversão no esquema psicanalítico: “Não é porque simboliza a virgindade feminina que a integridade fascina o homem: é seu amor à integridade que torna preciosa a virgindade.” (idem, p.67). Em toda a psicanálise há uma recusa da idéia de “escolha”. Ao rechaçar esta noção ela pode facilmente cair num tipo de determinismo, pois está ignorando as estratégias de vida e existência dos indivíduos. Usando esta perspectiva da existência para compreender o valor do pênis, a autora infere que há primitivamente uma tendência do sujeito à alienação, ou seja, do sujeito a procurar-se nas coisas – “Os primitivos alienam-se no mana, no totem; os civilizados em sua alma individual,

10

em seu eu, em seu nome, em sua propriedade, em sua obra: é a primeira tentação da inautenticidade.” (idem, p.68). Vejamos ao que Beauvoir está se referindo como inautenticidade. O pênis tem um duplo papel no menino: é um estranho e ele próprio. Sua performance, todavia, determina o valor do sujeito (jato de urina, ejaculação e ereção). O falo encarna neste

sentido a própria transcendência. A menina, por sua vez, é feita inteira objeto (castrada), ou Outro,

“[

falo então assume tão grande valor porque simboliza uma soberania que é realizada em outros campos. Se a mulher encontrasse sua afirmação como sujeito, inventaria equivalentes para o falo. Afinal, ela só encontra sua feminilidade no seio da sociedade na qual está encerrada. Freud faz esta constatação 6 , mas não a leva às últimas conseqüências, talvez porque isso colocaria muitos problemas ao edifício psicanalítico, tolhendo sua especificidade. Doutro modo, seria o mesmo que acusar um psicanalista de ser psicanalista. De qualquer maneira, o drama individual não se desenrola exclusivamente nele,

a ausência do pênis impede de se tornar presente a si própria enquanto sexo.” (idem, p.69). O

]

Mas uma vida é uma relação com o mundo; é escolhendo-se através do mundo que o indivíduo se define; é para o mundo que nos devemos voltar a fim de responder às questões que nos preocupam. Em particular, a psicanálise malogra em explicar por que a mulher é o Outro, pois o próprio Freud admite que o prestígio do pênis explica-se pela soberania do pai e confessa que ignora a origem da supremacia do macho. (idem, p.69-70, grifo dela)

No caso da mulher esta assertiva é bastante importante, pois trata-se de situar o destino da

mulher de maneira diferente, dando-lhe uma dimensão de liberdade. A questão da escolha é uma

posição positiva, uma estratégia frente a uma dominação real: afinal a mulher “[

joguete de impulsos contraditórios, ela inventa soluções entre as quais existe uma hierarquia ética.” (idem, p.71). A psicanálise assina sua normatividade, tratando certas escolhas alternativas uma vez que o escopo de ação feminina é muito reduzido em relação ao masculino como falhas e patologias. É sempre em relação com o passado que se explica o indivíduo e não em projeção à articulação do futuro. A máxima existencialista, de que a existência precede e governa a essência, implica uma deserção (inexistência de uma essência humana imutável) concomitante a uma inovação da experiência humana. O conceito de identificação dos psicanalistas, ao pai ou à mãe, implica o encerramento num modelo e a conseqüente recusa de um movimento espontâneo e positivo da existência, ou seja, a inautenticidade. Quando uma garota sobe numa árvore é porque lhe agrada e não porque, seguindo o ponto de vista psicanalítico, quer se igualar ao menino. No

um

]

não é

limite de sua normatividade, a psicanálise considera viris as atitudes do sujeito quando se afirma

6 Por exemplo, nesta passagem: “Devemos, contudo, nos acautelar nesse ponto, para não subestimar a influência dos costumes sociais que, de forma semelhante [da função sexual], compelem a mulher a uma situação passiva.” (FREUD:

1996a, p.116, grifos meus).

11

como transcendência e femininas às atitudes de alienação frente aos objetos. O homem aparece como ser humano e a mulher como fêmea. É preciso pensar a condição da mulher não oscilando entre tendências virilóides ou verdadeiramente femininas, mas na sua posição de Outro ou de sua liberdade, reinventando sua existência. Nota-se após este longo excurso que a psicanálise ocupa uma dupla posição na gênese dos estudos sobre a condição feminina: como instrumento de análise e compreensão do sujeito, hipótese a qual estou tentando me remeter freqüentemente; e, evidentemente, como objeto de crítica por sua tendência a normatizar a essência feminina. Como desdobramento desta segunda, temos ainda uma terceira, que seria sua posição de enunciar uma certa cosmologia para emprestar um termo antropológico que coloca a mulher na posição de Outro e de todos os preconceitos sociais ligados a esta colocação. A psicanálise, portanto, como um “laboratório do discurso”, onde se pode observar as especificidades desta cosmologia. É neste contexto que gostaria de emprestar alguns argumentos de Foucault em sua História da Sexualidade de 1970 (FOUCAULT: 1988), que nos ajudam a pensar o contexto do surgimento da psicanálise freudiana. A sexualidade vitoriana, que se supõe muda e hipócrita, se instaura no século XIX, absorvida pela família conjugal. Cria-se simultaneamente todo um circuito de sexualidades ilegítimas, circunscritas entre outros espaços ao divã, ou “orelhas em locação” (idem, p.13). Surge, portanto, com a repressão do sexo, a necessidade de falar dele duma outra maneira, em termos desta repressão. Uma história da sexualidade moderna,

Trata-se, em suma, de interrogar o caso de uma sociedade que desde há mais de um século se fustiga ruidosamente por sua hipocrisia, fala prolixamente de seu próprio silêncio, obstina-se em detalhar o que não diz, denuncia os poderes que exerce e promete libertar-se das leis que a fazem funcionar. (idem, p.14)

Sua tipicidade é sua racionalização, quase num sentido weberiano, mas de uma outra maneira, uma vez que Foucault dá uma resposta instigante e anti-convencional ao problema do poder. Criticando a hipótese repressiva de que o sexo fora simples e puramente escamoteado desta sociedade o autor explora os mecanismo discursivos que constituem sua prática. A psicanálise é uma das regiões deste discurso sobre a sexualidade humana, incluída num circuito de poder-saber- prazer.

Há mais de três séculos há uma explosão do discurso sobre o sexo. Desde os manuais de

confissão da Idade Média tudo a seu respeito deve ser dito; o pecado deve ser confessado nos mais íntimos detalhes, fazendo do desejo um discurso. Através deste discurso analítico do “falar de

efeitos múltiplos de deslocamento, de intensificação,

de reorientação, de modificação sobre o próprio desejo.” (idem, p.26). Não apenas através da moral,

sexo”, o homem moderno procura obter “[

]

12

mas na racionalidade, como modo de superar o moralismo puro e simples; desculpar-se; auto- acusar-se. “O sexo não se julga apenas, administra-se” (idem, p.27), afirma Foucault. Dispõe-se assim de uma “Polícia do sexo: isto é, necessidade de regular o sexo por meio de discursos úteis e públicos e não pelo rigor de uma proibição.” (idem, p.28). Esta técnica de poder vai, portanto, além do mutismo e da interdição; há pois diferentes maneiras de silenciar. Através destas considerações é possível a Foucault vincular a intensificação dos poderes com a multiplicação do discurso. No lugar do discurso claro e grosseiro sobre o sexo, criam-se estas novas maneiras de falar dele, como a medicina, a psiquiatria, a justiça penal e a psicanálise. Vale reter o seguinte:

Seu caráter minúsculo: que o cotidiano da sexualidade aldeã, os ínfimos deleites campestres [como brincadeiras sexuais com crianças] tenham podido tornar-se, a partir de certo momento, o objeto não somente de uma intolerância coletiva, mas de uma ação judiciária, de uma intervenção médica, de um atento exame clínico e de toda uma elaboração teórica. (idem, p.33)

Saber e poder passam a fazer parte do mais íntimo cotidiano. Possivelmente, segundo nosso autor, nenhuma outra sociedade foi tão “inexaurível” e produziu tantos discursos sobre o sexo. Esta

é a contrapartida da hipótese repressiva. Falar do sexo sempre e valorizá-lo como o segredo, de maneira a ordenar o discurso no sentido de afastar as sexualidades insubmissas, porque não se enquadram nas relações sociais de produção e reprodução do mundo burguês. A sexualidade conjugal é neste sentido cheia de regulamentações, e a ela se dá o direito de certa discrição (não é preciso falar dela sempre). Do contrário, as sexualidades periféricas é que serão escutadas. Neste espaço, talvez o discurso religioso tenha perdido terreno para o médico. Dado todo este contexto, Foucault apresenta quatro mecanismos de poder característicos e diferentes da interdição. A masturbação das crianças passa a ser considerada um problema que deve ser extinto mesmo que esta seja uma tarefa inútil , a partir da exorcização dela por médicos e pedagogos. Cria-se também uma classificação detalhadíssima das perversões sexuais; como se vê na marginalização do homossexual que passa a ser definido inteiro por um aspecto apenas de sua personalidade. A sensualização do poder é outro mecanismo que opera pela constante e íntima relação com estes estranhos prazeres, na ordem discursiva. Há uma fusão complexa entre prazer e poder. Por último estão os dispositivos de saturação sexual. Ao legitimar a sexualidade do casal monogâmico heterossexual, a família se torna um jogo de poderes/prazeres: a separação de adultos

e crianças, a segregação dos quartos de uns e outros, a segregação entre meninos e meninas, os

13

da família, mesmo reduzida às suas menores dimensões, uma rede complexa, saturada de sexualidades múltiplas, fragmentárias e móveis.” (idem, p.46). As sexualidades transversais são o correlato do poder. O crescimento das perversões é um produto real deste tipo de poder sobre os corpos, do a qual nos fala tão bem o angustiado personagem joyceano Stephen Dedalus 7 .

A implantação das perversões é um efeito-instrumento: é através do isolamento, da intensificação e da consolidação das sexualidades periféricas que as relações do poder com o sexo e o prazer se ramificam e multiplicam, medem o corpo e penetram nas condutas. (idem,

p.48)

Dito isso, fica visível o papel normalizador que a psicanálise efetivamente ocupou numa sociedade cindida e conflituosa acerca de seus próprios valores em emergência, que devem ter exigido dos indivíduos um autocontrole (no sentido eliasiano 8 ) sem precedentes. E, a partir deste olhar crítico, reafirmo a dupla ou tripla posição que a psicanálise pode ocupar.

3.

REFLEXÕES SOBRE A PSICANÁLISE E O FEMINISMO HOJE: SUJEITO, FAMÍLIA E

SOCIEDADE

Considerando a estratégia de nos determos em questões teóricas fundantes iremos dar na seqüência um grande salto temporal, que nos faz passar muito superficialmente pela questão do desenvolvimento da teoria feminista, desde a década de 1950 até hoje, bem como seu impacto nas ciências humanas e sociais, para podermos nos deter em vias de finalização do debate clássico entre Freud e Beauvoir sobre questões lançadas por autoras contemporâneas que buscam pensar a identidade em conflito na sociedade atual. Estas reflexões devem apenas abrir um caminho a ser trilhado posteriormente, introduzindo um debate sem apresentar respostas, mas apenas esboçando horizontes para fundamentar o estudo da família contemporânea através da conjugação entre feminismo e psicanálise. Jane Flax (1995) propõe através de um modo dialógico de pensar, aproximar três formas importantes do pensamento ocidental: a psicanálise, as teorias feministas e as filosofias pós- modernas. Vamos nos deter brevemente nas considerações que a autora faz sobre as duas primeiras. As questões relativas à subjetividade, sua formação e deformação, são abordadas com maior profundidade pelas teorias psicanalíticas. No que concerne às teorias feministas, lhe cabem o espaço de se debruçar sobre o papel central do gênero e da experiência vivida como estruturas de dominação. Um aspecto essencial e especialmente importante do pensamento pós-moderno é “[ ]

7 JOYCE, James (1970). Retrato do artista quando jovem. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 8 Ver por exemplo: ELIAS, Norbert (1993). Sugestões para uma teoria de processos civilizadores. In:

Processo civilizador: Formação do Estado e Civilização. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, pp.191-274.

O

14

su rechazo a evitar o conflito y las diferencias irresolubles o a sintetizar estas diferencias en un todo unitario y uniívoco.” (FLAX: 1995, p.55). Afirma-se assim a impossibilidade de traduzir uma realidade radicalmente fragmentária por um modo de pensar universalizante e com pretensões de atingir uma verdade monista. Esta cultura fragmentadora se expressa para Flax como um mal-estar, uma falta de referência, ou, como eu gostaria de chamar, uma espécie de niilismo cultural ou de valores. Neste contexto de fragmentação e ruptura que evidentemente coexistem com as formas passadas tanto a psicanálise quanto a teoria feminista podem ser consideradas, digo eu, como atos epistemológicos na cultura ocidental, que desconcertam irreversivelmente o conteúdo do sujeito da razão.

Adelman (2009) nos apresenta as concepções identidade ou sujeito na cultura ocidental, a partir de uma leitura de Stuart Hall: em primeiro está o sujeito do iluminismo, constituído pela gênese do indivíduo burguês, que se manifestou na filosofia iluminista típica de Descartes aos contratualistas. Com Marx este sujeito se reveste de um sentido e uma localização histórica, produto de relações sociais concretas e em conflito. A terceira noção é aquela que se introduz a partir da psicanálise freudiana onde há uma ruptura com o fundamento racional postulado no esclarecimento, uma vez que o desejo é subjacente ao sujeito. É desta terceira concepção que parte a crítica feminista, como se pode notar tão bem na escrita de Beauvoir (ADELMAN: 2009, pp.127-128). A importância dos movimentos sociais da década de 1960 no contexto destas reinvenções da categoria de sujeito, dá-se a partir de

A vigorosa presença dos “novos atores” que protagonizavam os novos movimentos sociais [que] conduziu de forma bastante direta a um renovado debate sobre a relevância da categoria de classe e sobre a categoria de “sujeito”: tanto os debates sobre as chamadas novas classes sociais quanto as teses que definiam o novo sujeito noutros termos (como mulheres, povos do terceiro mundo, gays e lésbicas, as “minorias étnicas” nos países do primeiro mundo etc). (idem, pp.129-129, grifos e aspas da autora)

Tendo em vista esta reviravolta do discurso canônico do conhecimento sobre o social, como é então possível pensar a identidade sem tomar em consideração esta heterogeneidade da experiência vivida? Esta é, claro, uma questão retórica que sustento poder ser contemplada pelo diálogo entre a psicanálise e os estudos feministas. Já em seu Sobre Ética e Psicanálise, Maria Rita Kehl (2002), chamava atenção para a “virada freudiana”, que havia trazido à tona os excessos do controle pulsional:

A psicanálise revelou ao século XX o preço pago pelo controle excessivo dos impulsos que as sociedades oitocentistas haviam imposto aos seus membros. A eficácia deste controle exigia, entre outras coisas, um silenciamento sobre tudo o que fosse proibido. Ao romper esse silêncio, a psicanálise contribui para a desmoralização de uma série de tabus e restrições, característicos do apogeu da dominação do modo de vida burguês. (KEHL: 2002,

p.17)

15

Ao fazer estas considerações, a autora reifica a idéia de que a psicanálise tem um contexto social de formação, sem o qual seria impensável o seu aparecimento. É o próprio contexto da

família conjugal burguesa; à qual, de forma mais ou menos intencionada, ela ajudou a desmoralizar.

E assim o é, podemos acrescentar, para o surgimento da sociologia. Um pouco ao gosto do conceito

de “reflexividade” de Giddens 9 : ao se promover uma circularidade da razão e das explicações dos fenômenos sociais, reinvestida na esfera da realidade, torna-a ainda mais instável. Mas é no Deslocamentos do Feminino que Kehl (2008) faz um exercício de verificação focado na noção de histeria feminina na qual Freud fundou a psicanálise. O que é que estas mulheres tinham que transbordava, para usar uma expressão de Foucault, no divã? E, principalmente, o que é que Freud não queria saber sobre este “enigma da feminilidade”? A partir da personagem de Flaubert, Emma Bovary, uma descrição ficcional da mulher freudiana, a autora tenta compreender o modelo de feminilidade que entrou em crise no século XIX

e produziu como resultado um modo de sofrimento psíquico definido por “histeria”. Ela é a

“salvação das mulheres”, uma vez que é a possibilidade de expressão de sua experiência desse colapso do ideal da família burguesa e da feminilidade (domesticidade) e suas aspirações enquanto sujeito; colapso do qual Simone de Beauvoir também nos apresenta notícias, ainda que já no final da década de 1940. É justamente pelo novo anseio de tornarem-se sujeitos de um discurso, e não

mais meros objetos, que o modelo de feminilidade fica exposto. Talvez, diria eu, como o próprio

resultado da concepção do indivíduo burguês as mulheres tenham começado a desejar sua liberdade. De qualquer maneira, Freud foi o primeiro cientista da época a escutar o que estas mulheres sintomáticas tinham a dizer. “A recusa das histéricas em aceitar a feminilidade como modelo de

(KEHL: 2008,

subjetivação e de sexuação deve ter criado uma crise para o próprio Freud, [

p.183), uma vez que ele parece não ter aceitado as provas clínicas de que não é possível a nenhuma

mulher tornar-se “A Mulher”. Para Kehl a insistência neste não-saber pela parte do fundador da psicanálise expressa um mecanismo de negação.

A manutenção de um ponto enigmático sobre o querer feminino, a representação da mulher como o continente negro da psicanálise, seriam a meu ver recursos a que Freud recorreu para manter-se ignorante a respeito do que ele mesmo não queria saber, embora já tivesse revelado ao resto do mundo: a diferença fundamental entre homens e mulheres é tão mínima, que não há mistério sobre o “outro” sexo que um cavalheiro não pudesse responder indagando a si próprio. (idem, p.184)

]”

No limite, a denegação de Freud sobre a relação das mulheres com a sua feminilidade, está fazendo oscilar novamente o eixo das posições que a psicanálise pode ocupar: não levar às conseqüências finais suas descobertas por considerar a mulher ainda idilicamente como somente objeto do desejo masculino. Quando as mulheres manifestam um desejo de se rebelar deste lugar

9 Ver, por exemplo, GIDDENS, Anthony (1991). As conseqüências da modernidade. São Paulo: UNESP.

16

tão conveniente psicanalistas ainda hoje, segundo Kehl, se perguntam confusos, “afinal, que quer mesmo uma mulher?” Trata-se pois de reedificar certas medidas e concepções da psicanálise, reestruturando a noção de feminilidade, que desde as histéricas de Freud, e ao rebatimento de Simone de Beauvoir, não serve mais. Não servem mais os predicados talvez não porque as mulheres recusam absolutamente o que eles deveriam internalizam, mas porque não é mais este o seu desejo. É preciso, também conforme Beauvoir já sugeria em 1949, ampliar o escopo das possibilidades, dando uma “dimensão de liberdade” à mulher. Me remeto a todas estas questões, evidentemente, porque elas são estruturantes na vida de uma casal e na disposição da vida familiar, que parece hesitar flutuantemente entre o passado e o futuro, o antigo e o novo. A psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco (2003) lança também algumas questões interessantes para pensarmos nossa temática. A autora inicia, em A Família em Desordem, problematizando o inquietante fato de que casais homossexuais na França e provavelmente no mundo afora – queiram se “normalizar”, casando e adotando crianças. Nas palavras dela:

O que aconteceu então nos últimos trinta anos na sociedade ocidental para que sujeitos

qualificados alternadamente de sodomitas, invertidos, perversos ou doentes mentais tenham desejado não apenas serem reconhecidos como cidadãos integrais, mas adotarem a ordem familiar que tanto contribuiu pra seu infortúnio? (ROUDINESCO: 2003, p.7)

A ordem familiar que era na década de 1970, ao despertar do desejo e da liberdade sexual, considerada uma instância colonizadora e que oprimia as mulheres de gozarem de seu corpo, as crianças de seu auto-erotismo e aos marginais de realizarem suas práticas perversas, passa a ser retomada (a publicação é de 2002) com uma meta de integração. Esta integração acomete a sociedade com novas problemáticas, uma vez que não é mais a contestação que incomoda aos conservadores, mas a diluição dos excluídos, que perigosamente integrados ressignificam a prática. A “família nuclear”, uma das formas de se definir a família na díade aliança/filiação da concepção antropológica estruturalista, vem de um longo desenvolvimento histórico. A família “tradicional”, onde os casamentos eram arranjados pelos pais, pressupunha a transmissão do patrimônio. Esta cedeu lugar a uma família “moderna”, na qual havia uma lógica afetiva do amor romântico e da divisão do trabalho entre o casal. A partir de 1960, contudo, surge a família “contemporânea”, segundo nossa autora, onde dois indivíduos se unem em busca de relações íntimas e realização sexual.

À família autoritária de outrora, triunfal ou melancólica, sucedeu a família mutilada de hoje,

feita de feridas íntimas, de violências silenciosas, de lembranças recalcadas. Ao perder sua auréola de virtude, o pai, que a dominava, forneceu então uma imagem invertida de si mesmo, deixando transparecer um eu descentrado, autobiográfico, individualizado, cuja grande fratura a psicanálise tentará assumir durante todo o século XX. (idem, p.21)

17

Vejamos mais pormenorizadamente como esta família tomou lugar a partir da posição do pai, e no que afetou a condição feminina para que cedesse lugar a sua irrupção posterior. O pai arcaico confundia-se com a figura de guerreiro ou herói. Ele reinava sobre a família, mas com a palavra. No advento da era cristã, à essa função simbólica passa-se também a exigência de uma paternidade biológica. Desta forma, o pai fornece o sangue e o nome. A infidelidade da mulher neste contexto passa a ser impensável. A lei abstrata do pai deve separar o filho do corpo da mãe, onde foi gestado: “A ordem da procriação deve respeitar a ordem de mundo. Penetrada pelo homem deitado sobre ela, a mulher ocupa seu verdadeiro lugar.” (idem, p.24). Este é precisamente o retrato judaico-cristão da família: a mãe como fluidos corporais e o pai separador com o cogito. O feminino precisa ser controlado pelas leis do casamento; por isso a mulher desmedida sofre profundas perseguições (caça às bruxas). O pai é o rei na casa, assim como o rei é o Deus no reino. Mas desta forma, ele amaldiçoava sua prole, a jamais ter maior grandeza do que ele. Em seguida vem se sobrepor a esta “maldição paterna” a idéia de um contrato moral. A esta instituição da compaixão na família seguem o Estado e a nação; a família aparece aqui como a primeira sociedade política. Relativizada, contudo, a soberania do pai se apaga lentamente e o poder perdido foi “[ ] reinvestido por ele no teatro da vida econômica e privada.” (idem, p.32). A partir de então se teme cada vez mais a feminilização do social. O que se pode reter desta apresentação sumária da argumentação de Roudinesco? É certo que estamos em terreno fértil para pensar psicanálise e feminismo. Na história da família estão retidas que tipo de práticas? Como é que chegam até hoje a influência do poder do paterno e do cerceamento do feminino? São questões interessantes e válidas, que como sinalizei anteriormente, só podem ser neste contexto esboçadas para uma pesquisa futura. Uma nota importante, que irá resultar nas considerações finais, é acerca da presente relação normalidade e anormalidade para pensarmos novos paradigmas de identidade sexual e de gênero, bem como rearranjos familiais. Por que esta ambivalência está sempre espreitando?

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS: AS PARTES DO ELEFANTE?

Após todas estas considerações teóricas, gostaria de fazer algumas reflexões de maneira mais livre e criativa. Num mundo hesitante, em termos de cultura, valores, posições, numa expressão, heterogeneidade da experiência seja ela qual for (prática ou teórica), como é possível um conhecimento impermeável? Ou conservador e doutrinário? Sobre essas posições hesitantes, e para iniciar uma discussão, é possível observar nos meios psicanalíticos se reproduzir uma fala em torno da anormalidade da homossexualidade que supõe

18

como contraponto uma normalidade da heterossexualidade. E penso como é difícil escapar, seja nas discussões especificamente de gênero ou em discussões de outro escopo, desta matriz normal/anormal. Tentando fazer uma reflexão um pouco diferente e fugir das obviedades, é muito provável que esta dualidade seja resultado de uma espécie de não-niilismo cultural (ao qual já me referi anteriormente), o que seria bom deste ponto de vista que vem a seguir, que a vida humana não se sustenta fora de um sistema cultural e todo o seu apanágio (manifestações materiais, valores, enfim, suportes e expressões diversas), que nos orienta afinal acerca do que fazemos com nossa humanidade. Ao mesmo tempo em que criticamos as práticas sociais nós estamos mergulhados nelas, este é um lugar comum, por exemplo, na sociologia. Contudo, esta é a questão fundamental da relação epistemológica entre o sujeito e o objeto, que sempre foi mais importante, talvez porque mais incômoda, nas ciências humanas e a cuja qual eu ainda acredito que seja necessário que o cientista em questão se justifique. Essa hesitação dualista, que é também válida para a diferença sexual e de gênero entre muitos outros fenômenos sociológicos, senão todos, me suscita a questão de como sustentar a relativização dos valores, como o sugere o psicanalista francês Charles Melman, que propõe a existência de uma “nova economia psíquica”, não mais baseada no desejo (este nunca satisfeito), mas na exibição do gozo. O desejo, antes inconsciente como Freud o percebeu pela atenção flutuante da escuta, torna-se imperativo.

Por que, aliás, não teríamos o direito de encontrar em nosso meio o que nos pode satisfazer, quaisquer que sejam nossos costumes? Se um casal homossexual deseja se casar, a título de que nos oporíamos? Se um transexual pede uma mudança de identidade, a que autoridade você se referiria para recusar? Ou, se um sexagenário quer ter um filho, em nome de que opor-se? Na situação atual, a partir do momento em que haja em você um determinado tipo de desejo, ele se torna legítimo, e se torna legítimo que ele encontre sua satisfação. (MELMAN: 2008, pp.31-32)

Longe de querer adotar uma postura conservadora, que pode ser facilmente extraída desta afirmação, apenas sugiro a constatação destes impasses, destes entraves, que se apresentam no social e no conhecimento do social em sua relação com os agentes portadores de uma subjetividade construída. No limite surge outra questão mais ampla: quem a sociedade vai acolher e quem ela vai marginalizar. Esta é a hesitação a qual estou tentando me remeter: entre a relativização absoluta, de negar todo o valor do valor, e a absolutização de render-se totalmente ao valor prescritivo do valor (valor cultural). Um pouco a questão da nossa própria capacidade de absorver as mudanças práticas no nível do discurso e da consciência, como se percebe muito bem na confusão discursiva sobre a família: ora ela é ainda mais sagrada, ora ela é totalmente reinventada, transfigurada.

19

Eu diria que o discurso é contraditório ou hesitante, inclusive o científico, talvez mais por sua mania de precisão, porque a sociedade é contraditória, a realidade é contraditória e arduamente classificável cartesianamente, e os nossos sistemas de valores e referências também o são; por exemplo como sugere a teoria psicanalítica no conflito entre o social e o individual, especialmente no célebre Mal estar da civilização (FREUD: 1996c), onde Freud afirma que não há felicidade possível. A psicanálise explorou como nenhum outro sistema de conhecimento as profundezas do inconsciente. Certas idéias têm que ser removidas do consciente por causa do sofrimento que elas causam, e este recalcamento é bom no sentido em que existe para regular esta angústia. Quanto mais uma idéia causa sofrimento maior energia é usada para reprimi-la, ou levá-la para a ante-sala. Freud atingiu uma compreensão muito grande sobre o pensamento humano, a mente e as emoções. No sentido de que o sujeito da razão guarda dentro de si um abismo, um grande mistério de si mesmo. E este sujeito é um corpo, antes de ser sujeito ou na ordem das descobertas da psicanálise, onde talvez se justifique a necessidade de uma teoria da sexualidade, da genitalidade, da sexualidade infantil (FREUD: 1997). É a partir deste corpo sexuado que se explora o inconsciente e seus mistérios. A crítica mais interessante de Simone de Beauvoir (1980) à psicanálise é sobre as “escolhas” da mulher em constituir-se sujeito, uma vez que existe, não só na mulher, uma projeção de futuro, um certo cálculo, uma certa racionalidade. Nós somos socializados, mas também somos únicos do ponto de vista psicológico e psicanalítico. Não existe uma discordância real nos objetos da sociologia e da psicanálise. Não estou dizendo que são dois aspectos do mesmo fenômeno, porque fazer coincidir indivíduo e sociedade é exagerar no exagero. Mas na realidade estes fenômenos socialização e individuação não se separam a não ser na abstração científica. A disputa pela supremacia por uma ou por outra é talvez política e disciplinar, mas não entre fenômenos de ordem real. O inconsciente é preenchido por uma relação que o sujeito estabelece com a cultura. Neste sentido indivíduo e sociedade só podem ser pensados complementarmente e não como partes distintas de um elefante, que podem ser olhadas de maneira isolada. É sutilmente diferente e talvez por isso a metáfora que utilizo seja meio falha , mas se a psicanálise pegasse a cabeça do elefante (o sujeito/agente) e não pudesse ver nada mais ela não se aplicaria. Ela aniquilaria qualquer possibilidade de pensar enfaticamente sobre o elefante. Se não há cultura, não há Édipo, não há pulsão, não há conflito, não há superego não há psicanálise. E o mesmo se daria na sociologia se não houvesse significado individual dos elementos sociais. Enfim, esta é só uma maneira de pensar diferentemente para poder compreender a complexidade do cultural e do subjetivo; dando à pesquisa, mais uma vez parafraseando Beauvoir, uma dimensão de liberdade.

20

5.

REFERÊNCIAS

ADELMAN, Miriam (2009). Teoria social e discursos sociológicos do “pós-68”. In:

BEAUVOIR, Simone de (1980). O ponto de vista psicanalítico. In:

A

Voz e a Escuta: Encontros e Desencontros entre a teoria feminista a sociologia contemporânea. Florianópolis: Blucher Acadêmico, pp.127-179.

O Segundo sexo.

Vol.1: Fatos e Mitos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, pp.59-72.

FLAX, Jane (1995). Algo pasa: Sobre la escritura en un estado de transición. In:

Psicoanálisis y feminismo. Pensamientos fragmentarios. Valência, España: Ediciones Cátedra,

pp.53-67.

História da

Sexualidade I: A vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, pp.8-49.

Novas Conferências Introdutórias.

Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Vol. XXII. Rio de Janeiro: Imago, pp.133-134.

Obras psicológicas completas de

Sigmund Freud: edição standard brasileira. Vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago, pp.14-71.

Obras Psicológicas

Completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Vol.XXI. Rio de Janeiro: Imago,

pp.66-148.

FOUCAULT, Michel (1988). Nós, vitorianos e A hipótese repressiva. In:

FREUD, Sigmund (1996a). Feminilidade. In:

FREUD, Sigmund (1996b). O Ego e o Id. In:

FREUD, Sigmund (1996c). O Mal-Estar na Civilização. In:

FREUD, Sigmund (1997). A história do movimento psicanalítico. Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, Sigmund (2004). Pulsões e Destinos da Pulsão. In:

Escritos sobre a

psicologia do inconsciente. Rio de Janeiro: Imago, pp.133-173.

KEHL, Maria Rita (2002). Sobre Ética e Psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras.

KEHL, Maria Rita (2008). Freud, a feminilidade e as mulheres. In:

Deslocamentos do

Feminino. Rio de Janeiro: Imago, pp.179-250.

MELMAN, Charles (2008). O homem sem gravidade: gozar a qualquer preço. Entrevistas por Jean-Pierre Lebrun. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

ROUDINESCO, Elisabeth (2003). A Família em Desordem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.