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Juliana,

Curitiba, 15 de novembro de 2017

hoje, o dia está lindo. Admirável coincidência não é? Pois escrevo-te está carta para falar justamente de beleza.

Carta? Deve estar se perguntando. Tu és jovem, provável que nunca recebestes uma, então, aqui está aquela que espero que seja a primeira. Sei que falta o envelope, o carimbo e selo dos correios. São só detalhes que não fazem desta menos do que qualquer outra carta.

Precisava escrever-te para contar sobre o malou bemque me fizeste. O tempo que me deste fora o bater do cinzel, e, como uma Vênus Pudica, esculpiste tua imagem em minha mente. Sim, ela ainda persiste e torço eu, para que as ondas do mar tempo um dia venham a apagá-la.

Sinto-me em choque! Sabe, quando vemos algo chocante que nos deixa estranho por algum tempo? Pois bem, é assim que ainda encontro-me neste momento. Um sentimento singular que, por mais que eu pense, não consigo descrever. Por analogia, posso dizer que sou um relés mortal prostrado diante de uma imagem divina.

Assim, se alguém que me viste ajoelhado ante o nada perguntasse, "O que te aflige?" eu não responderia. Se tomasse-me o tronca entre as mãos e sacudisse-me, gritasse. Ainda assim, calar-me-ia! Mas, se comovido pelas lágrimas em meus olhos pedisse. "Ao menos, compartilhe comigo o que vês ou o que viste?" Então, desta vez eu diria:

- superlativo belíssima. Não, minto! Mesmo que adicione uma segunda, terceira, quarta dose de belíssima, ainda assim, não faria jus ao que viste. Os cabelos, madeixas escuras,

Pense em uma jovem mulher, adicione o adjetivo

chegavam a encobrir os tenros montes gêmeos do seu quadril, quando, vista de costas, ela elevava a cabeça para o alto. Dos olhos, ela dizia Negrose eu, digo Raros, tanto quanto as pérolas de mesma cor. Confesso que, para mim, devam ser de um castanho, do mais escuro. Ela diz Amendoados, mas eu, parafraseando Machado, digo São oblíquos e dissimulados, olhos de cigana! Enfeitiçaste-me!. A boca, adornada por lábios perfeitamente desenhados, abre-se em um sorriso lindo. Vi, embora ainda não acredite que viste, a sua espádua nua e, logo abaixo, os seios cálidos adornados por auréolas brancas que tímidas, não ousavam contrastar com

a alva pele. A pele, daquele tom que ousa ocultar-se do sol

como se dele fugisse. Será ela uma das damas de Nosferatu? Será que eu quase foste uma de suas vítimas? Digo-lhe que se pudesse escolher algum modo de morrer, então seria este,

entregaria com gosto o meu corpo aos lábios de tal vampira.

O ventre, virgem, de onde há de nascer Hércules, Ninfas e

todos os frutos da divindade. O púbis

Se perguntar-me

Por que paraste tão perto?direi Do que falas? De seu sexo? Se for, não ousarei conspurcar-lhe. Não sou digno! Tortura-me se assim o desejar, nada mudará, calar-me-ei. Queime meu olhos se isso for apaziguar-lhe, não fará diferença pois eles já foram queimados quando ousei olhar para esta a quem vos descrevo."

Juliana, a ironia disto tudo é que sei que entregará, ou já entregaste, esta divina graça à mãos tolas, mas se tolas eu rogo aos céus que sejam ao menos merecedoras e se merecedoras que sejam no mínimo dignas e se dignas, então que se juntem sobre o genuflexório para honrar está dama, que para mim é divina.

Por fim, Juliana, guarde esta carta. Deixe-a dobrada, no fundo de alguma caixa, com outras lembranças. Quem sabe um dia, após o correr dos anos, não desdobre algum papel

envelhecido e venha novamente a encontrar-me. Estarei a esperando, disso eu garanto. Então, poderei lembra-te que houve alguém em algum lugar, cujo coração por ti aceleraste e cujos olhos a viram divina e ousaram a desejar-te sem desejarpois sabiam-se não merecedores, no entanto, eternos e devotos admiradores.

Com profunda admiração e extremo carinho.

André