Anexo:Imprimir/ História do Futuro

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Anexo:Imprimir/História do Futuro
História do Futuro por Padre Antônio Vieira

Índice Volume I
• Capítulo I: Declara-se a primeira parte do titulo desta História, e quão própria é da curiosidade humana a sua matéria. • Capítulo II: Segunda parte do titulo desta História; convidam-se os Portugueses à lição dela. • Capítulo III: Terceira parte do titulo e divisão de toda a História. • Capítulo IV: Utilidades da História do Futuro • Capítulo V: Segunda utilidade. • Capítulo VI: Terceira utilidade. • Capítulo VII: Última utilidade. • Capítulo VIII: Continua a mesma matéria • Capítulo IX: Verdade desta História. Declara-se o modo com que se pode conhecer e saber os futuros • Capítulo X: Resposta a uma objeção: mostra-se que o melhor comentador das profecias é o tempo. • Capítulo XI • Capítulo XII: Dá-se a razão por que em algumas partes desta História se não alegaram padres e seguiram exposições dos escritores modernos

Volume II
• Capítulo I • Capítulo II

Livro I
• Capítulo I: Mostra-se a Quinta Monarquia com a profecia de Daniel • Capítulo II: Segunda profecia de Daniel • Capítulo III

Anexo:Imprimir/ História do Futuro

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Livro II
• • • • • • • • Introdução Capítulo I Capítulo II Capítulo III Capítulo IV Capítulo V Capítulo VI Capítulo VII

Plano da História do Futuro
História do Futuro (Volume I, Capítulo I: Declara-se a primeira parte do titulo desta História, e quão própria é da curiosidade humana a sua matéria.) por Padre Antônio Vieira

Nenhuma cousa se pode prometer à natureza humana mais conforme ao seu maior apetite, nem mais superior a toda a sua capacidade, que a notícia dos tempos e sucessos futuros; e isto é o que oferece a Portugal, à Europa e ao Mundo esta nova e nunca vista história. As outras histórias contam as cousas passadas, esta promete dizer as que estão por vir; as outras trazem à memória aqueles sucessos públicos que viu o Mundo; esta intenta manifestar ao Mundo aqueles segredos ocultos e escuríssimos que não chega a penetrar o entendimento. Levanta-se este assunto sobre toda a esfera da capacidade humana, porque Deus, que é a fonte de toda a sabedoria, posto que repartiu os tesouros dela tão liberalmente com os homens, e muito mais com o primeiro, sempre reservou para si a ciência dos futuros, como regalia própria da divindade. Como Deus por natureza seja eterno, é excelência gloriosa, não tanto de sua sabedoria, quanto de sua eternidade, que todos os futuros lhe sejam presentes; o homem, filho do tempo, reparte com o mesmo a sua ciência ou a sua ignorância; do presente sabe pouco, do passado menos e do futuro nada. A ciência dos futuros — disse Platão — é a que distingue os deuses dos homens, e daqui lhes veio sem dúvida aquele antiquíssimo apetite de serem como deuses. Aos primeiros homens, a quem Deus tinha infundido todas as ciências, nenhuma lhes faltava senão a dos futuros, e esta lhes prometeu o Demônio com a divindade, quando lhes disse: Eritis sicut Dii, scientes bonum et malum. Mas ainda que experimentaram o engano, não perderam o apetite. Esta foi a herança que nos ficou do Paraíso, este o fruto daquela árvore fatal, bem vedado e mal apetecido, mas por isso mais apetecido, porque vedado. Como é inclinação natural no homem apetecer o proibido e anelar ao negado, sempre o apetite e curiosidade humana está batendo às portas deste segredo, ignorando sem moléstia muitas cousas das que são, e afetando impaciente a ciência das que hão de ser. Por este meio veio o Demônio a conseguir que o homem lhe desse falsamente a divindade, que o mesmo demônio com igual falsidade lhe tinha prometido. E senão, pergunto: Quem foi o que introduziu no Mundo, sem algum medo, mas antes com aplauso, a adoração do Demônio? Quem fez que fosse tão freqüentado e consultado o ídolo de Apolo em Delfos? O de Júpiter em Babilônia? O de Juno em Cartago? O de Vênus no Egito? O de Dafne em Antioquia? O de Orfeu em Lesbo? O de Fauno em Itália? O de Hércules em Espanha, e infinitos outros em muitas partes? Não há dúvida que o desejo insaciável que os homens sempre tiveram de saber os futuros, e a falsa opinião dos oráculos com que o Demônio

Anexo:Imprimir/ História do Futuro respondia naquelas estátuas, foram os que todo este culto lhe granjearam, sendo certo que, se Deus, vindo ao Mundo, não emudecera (como emudeceu) os oráculos da Gentilidade, grande parte do que hoje é fé, fora ainda idolatria. Tão mal sofreram os homens que Deus reservasse para si a ciência dos futuros, que chegaram a dar às pedras a divindade própria de Deus, só porque Deus fizera própria da divindade esta ciência: antes queriam uma estátua que lhes dissesse os futuros, que um Deus que lhos encobria. Mas que direi das ciências ou ignorâncias das artes ou superstições que os homens inventaram desde a terra até o céu, levados deste apetite? Sobre os quatro elementos assentaram quatro artes de adivinhar os futuros, que tomaram os nomes dos seus próprios sujeitos: agromancia, que ensina a adivinhar pelas cousas da terra; a hidromancia, pelas da água; a aeromancia, pelas do ar, e a piromancia, pelas do fogo. Tão cegos seus autores no apetite vão daquela curiosidade, que, tendo-se perdido na terra os vestígios de tantas cousas passadas, cuidaram que na água, no ar e no fogo os podiam achar das futuras. No mesmo homem descobriram os homens dois livros sempre abertos e patentes, em que lessem ou soletrassem esta ciência. A fisionomia, nas feições do rosto; a quiromancia, nas raias da mão. Em um mapa tão pequeno, tão plano e tão liso como a palma da mão de um homem, inventaram os quiromantes não só linhas e caracteres distintos, senão montes levantados e divididos, e ali descrita a ordem e sucessão da vida e casos dela, os anos, as doenças e os perigos, os casamentos, as guerras, as dignidades, e todos os outros futuros prósperos ou adversos; arte certamente merecedora de ser verdadeira pois punha a nossa fortuna nas nossas mãos. Deixo a astrologia judiciária, tão celebrada no nascimento dos príncipes, em que os genetlíacos, sobre o fundamento de uma só hora ou instante da vida, levantam ou figura ou testemunhos a todos os Sucessos dela. Nem quero falar na triste e funesta nicromancia, que, freqüentando os cemitérios e sepulturas no mais escuro e secreto da noite, invoca com deprecações e conjuros as almas dos mortos para saber os futuros dos vivos. A este fim excogitaram tantos gêneros de sortilégios, como se na contingência da sorte se houvesse de achar a certeza; a este fim observaram os sonhos como se soubesse mais um homem dormindo do que sabia acordado; a este sentido consultavam as entranhas palpitantes dos animais, como se um bruto morto pudesse ensinar a tantos homens vivos. Com o mesmo apetite pediam respostas às fontes, aos rios, aos bosques e às penhas; com o mesmo inquiriam os cantos e vôos das aves, os mugidos dos animais, as folhas e movimentos das árvores, com o mesmo interpretavam os números, os nomes e as letras, os dias e os fumos, as sombras e as cores e não havia cousa tão baixa e tão miúda por onde os homens não imaginassem que podiam alcançar aquele segredo que Deus não quis que eles soubessem. O ranger da porta, o estalar do vidro, o cintilar da candeia, o topar do pé, o sacudir dos sapatos, tudo notavam como avisos da Providencia e temiam como presságios do futuro. Falo da cegueira e desatino dos tempos passados, por não envergonhar a nobreza da nossa Fé com a superstição dos presentes. Finalmente, a investigação deste tão apetecido segredo foi o estudo e disputa dos maiores e mais sinalados filósofos, de Sócrates, de Pitágoras, de Platão, de Aristóteles e do eloqüente Túlio, nos livros mais sublimes e doutos de todas suas obras. Esta era a teologia famosa dos Caldeus; este o grande mistério dos Egípcios; esta em Roma a religião dos áugures; esta em Judéia a seita dos Pitões e Aríolos; esta em Pérsia a ciência e profissão dos Magos; esta enfim do Céu até o Inferno, o maior desvelo dos sábios e maior ânsia e tropeço dos ignorantes; uns injuriando o Céu, e dando trato às estrelas para que digam o que não

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nem com Heródoto as dos Egípcios. a ruína ou daquelas mesmas nações. 4 . et vetabitur semper et retinebitur. de nações não já domadas e rendidas. sperantibus fallax. outro inferior e invisível. a declinação. na curiosidade humana. mas escrevemos sem autor o que nenhum deles escreveu nem pôde escrever. Eles escreveram histórias do passado para os futuros. e tentando os mesmos demônios. não tenha bastado nenhuma experiência. onde o passado se termina e o futuro começa. as vitórias. Isaac. as resoluções. as conquistas. que são estes instantes do presente que imos vivendo. à maior ânsia deste apetite e para correr a cortina aos maiores e mais ocultos segredos deste mistério. antes de a fama os publicar e de serem feitos. a mudança. que é o passado. O mesmo Saul. que é o futuro. que são os antípodas do passado. Esta nossa começa no tempo em que se escreve. sinal certo que não buscam os homens os futuros. Assim foram retratos de Cristo Abel. que com elas contendiam. é considerar que. senão que se hão-de fundar. os conselhos. de ruínas de umas nações e exaltações de outras. Não escrevemos com Beroso as antiguidades dos Assírios. mas que se hão-de vencer. senão que se hão-de render e domar. quod in civitate nostra. No meio de um e outro hemisfério ficam os horizontes do tempo. as batalhas. Desde este ponto toma seu princípio a nossa História. outros inquietando o Inferno (como dizia Samuel). por isso chamada do Futuro. porque os achem. e descreve feitos heróicos e famosos. tem dois hemisférios: um superior e visível. A história mais antiga começa no princípio do Mundo. de vitórias não já vencidas. nem com os escritores portugueses as nossas. como o Mundo. a qual nos irá descobrindo as novas regiões e os novos habitadores deste segundo hemisfério do tempo. as repúblicas. o que não conheceu o moderno e o que não alcança o presente. nem com Cúrcio a dos Macedônios. porque os amam. conta os sucessos futuros antes de sucederem. é o que se verá com admiração neste prodigioso mapa descrito: cousas e casos que ainda lhes falta muito para terem ser quanto mais Antigüidade. de exércitos e de vitórias. continua por toda a duração do Mundo e acaba com o fim dele. escreveram os impérios. a mais estendida e continuada acaba nos tempos em que foi escrita. Impossível pintura parece antes dos originais retratar as cópias. Oh que de cousas grandes e raras haverá que ver neste novo descobrimento! Aqueles historiadores que nomeamos e foram os mais célebres do Mundo. a grandeza. Nós também havemos de falar de reinos e de impérios. enganados tão profundamente os homens pela falsidade e mentira de todas estas artes e seus ministros. nem com Tucídides a dos Gregos. a opulência e felicidade. David. O tempo. Tanto foi em todas as idades do Mundo. para que revelem o que não sabem. nem haja de bastar já para mais os desenganar e apartar dele: Genus hominum potentibus infidum. e tanto é hoje. folgam de ouvir e saber que se prognosticam. O que ignorou o mundo antigo. Mede os tempos vindouros antes de virem. e os mesmos que mais severamente negam o crédito às cousas prognosticadas. nem com Josofo a dos Hebreus. antes do Verbo ser homem. o apetite de conhecer o futuro! Mas o que mais que tudo encarece a tenacidade deste desejo. mas isto é o que fará o pincel da nossa História. nós escrevamos a do futuro para os presentes. nem com Lívio a dos Romanos. pois. disse Tácito. a foi buscar e se serviu de sua má arte. as leis. mas de impérios não já fundados. pomos hoje no teatro do Mundo esta nossa História. nem com Xenofonte a dos Persas. Para satisfazer.Anexo:Imprimir/ História do Futuro podem. José. senão que vão sempre após eles. ou de outras igualmente poderosas. que desterrou a Pitonisa.

não assinalam os lugares. se leram sempre com gosto. senão vestidas e acompanhadas das suas circunstancias. e nós com maior ousadia que Tífis. a noite escuríssima. porque não guardam nelas estilo nem leis de histórias: não distinguem os tempos. tempos novos. Sós e solitariamente entramos nela (mais ainda que Noé no meio do dilúvio) sem companheiro nem guia. mas de S. determinamos observar religiosa e pontualmente todas as leis da história. Do profeta Isaías. disseram S.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Hão-se de ler nesta História. isto só deseja e pede a todos a nova História do Futuro. de leis. por isso. as ondas confusas. para felicidade e paz universal do Mundo. (quando o sofrer a matéria). Jerônimo: Legant prius et postea 5 . nomear nações e ainda pessoas. Antes de abrir as velas ao vento (oh faça Deus que não seja tempestade!). porque são futuras. conselhos e resoluções novas. admirará o que nunca leu. sem exemplar nem exemplo. porque. e porque havemos de distinguir tempos e anos. em lugar da benevolência que se costuma pedir aos leitores. mas leis novas. Mas porque não cuide alguma curiosidade crítica que o nome do futuro não concorda nem se ajusta nem com o título de história. quanto é estranho ao papel o assunto e nome dela. de gentes. e pasmará assombrado do que nunca imaginou. E porque nós. porque não haverá um historiador do futuro? Os profetas não chamaram história às suas profecias. portentosas conquistas. costumes novos. e não só novas. É de direito natural que ninguém seja condenado sem ser ouvido. confiança nos fica para esperar que não será ingrato aos leitores este nosso trabalho. mais acomodadas à majestade e admiração dos mistérios. gentes novas. sendo novo e inaudito o argumento dela. escurecido com enigmas e contado ou cantado em frases próprias do espírito e estilo profético. para glória de Cristo. não seguem a ordem dos casos e dos sucessos. só lhes quero pedir justiça. também lhe era devido nome novo e não ouvido. para triunfo da Igreja. vitórias. religiosas empresas. de tempos. heróicas façanhas. e que será tão deleitosa ao gosto e ao juízo a História do Futuro. saiba que nos pareceu chamar assim à esta nossa escritura. triunfos e felicidades novas. seguindo em estilo claro e que todos possam perceber. para exaltação da Fé. maravilhosas vitórias. sem estrela nem farol. mas esperamos no Pai dos lumes (a cuja glória e de seu Filho servimos). mas porque não terão semelhança com elas nenhumas das passadas. sem ambição nem injúria de ambos os nomes. as nuvens espessas. Jerônimo e Santo Agostinho que mais escrevera história que profecia. e quando tudo isto viram e tudo disseram. Ouvirá o Mundo o que nunca viu. de costumes. lerá o que nunca ouviu. sendo de cousas menores antigas e passadas. altos conselhos. tirará a salvamento a frágil barquinha: ela com maior ventura que Argos. sinalar províncias e cidades. conquistas. que falou com maior ordem e maior clareza. de governos. governos novos. o Evangelho é a sua profecia aberta. estranhas e espantosas mudanças de estados. animosas resoluções. estados novos. Se já no Mundo houve um profeta do passado. O mar é imenso. e depois de sabidas se tornaram a ler sem fastio. disfarçado em figuras. não nua e secamente. ignorada até aquele tempo de quase todos os homens. paz. E se as histórias daqueles escritores. com palavras não suas. Escreveu Moisés a história do princípio e criação do Mundo. E com que espírito a escreveu? Respondem todos os Padres e Doutores que com espírito de profecia. em tudo o que escrevemos. empresas e façanhas novas. a ordem e sucessão das cousas. é envolto em metáforas. não individuam as pessoas. chamamos a esta narração História e História do Futuro. A sua profecia é o Evangelho fechado. que à notícia e inteligência deles.

. Disse sem murmuração o satírico que taparam os reis a boca aos deuses. nem temo a tua ingratidão. disse Samuel a Saul. eu me conto com Samuel entre os mortos. os felizes e os infelizes. «Amanhã serás comigo». por não temer os futuros prósperos e adversos.Cessant oracula Delphis. assim como te digo a boa sem lisonja. e premiado assim o profeta.. ajuntou também que o havia de ganhar o dos Persas e Medos: Divisum est regnum tuum et datum est Medis et Persis. Mas era já a véspera do dia da morte. História do Futuro (Volume I. hoje adorada e de fé. digno só por esta ação (se não foram as suas culpas sacrilégios) de que Deus lhe perdoara a vida. se tanto prêmio se dá a uma profecia mortal e que tira impérios. Oh que temeroso futuro! Caiu Saul desmaiado. Todos fora felicidade antever. busque-se entre os sepultados. tudo o que alcanço felicidades. se nas letras que interpreto achara desgraças (bem poderá ser que as tenhas). e que fosse reconhecido por Tetrarca de todo o império dos Assírios. O maior serviço que pode fazer um vassalo ao rei.diz o texto. Sucedeu vitorioso este príncipe na coroa de Baltasar. porque há muitos futuros para temer. Naquele prometemos grandes futuros ao desejo. Sed siluit postquam reges timuere futura. tudo que descubro melhoras. é revelar-lhe os futuros. Eu. Se tanto vale o conhecimento de um futuro. e confirmou sempre a Daniel na mercê e lugar em que ele o tinha posto porque assim como profetizou que havia de perder o império o rei dos Assírios. se me não contas com Daniel entre os vivos. Portugal. neste só com Portugal. ainda que tão infeliz. Mas é tal a tua estrela (benignidade de Deus contigo deverá ser).) por Padre Antônio Vieira 6 No capítulo passado falamos com todo o Mundo. Isto é o que deves . e quem busca o desengano tarde.Anexo:Imprimir/ História do Futuro despiciant: «Leiam primeiro. os felizes para a esperança e os infelizes para a cautela. o morto ao vivo. Declarou Daniel a Baltasar a escritura fatal da parede. que por não temer os futuros. Só isto fez Baltasar nos instantes que lhe restaram de vida. . (com quem só falo agora) nem espero o teu agradecimento. outro premiava as profecias. porque um matava os profetas. E que lhe importou a Daniel esta tão triste interpretação? No mesmo ponto .. que seria se os prometera? Não faltou a este merecimento Dario Hidaspes rei dos Persas e dos Medos. o profeta ao rei. cumpriu-se a profecia e foi morto o rei. Saul achou a Samuel morto e Baltasar a Daniel vivo. não se desengana. convidam-se os Portugueses à lição dela. Capítulo II: Segunda parte do titulo desta História. quiseram antes ignorá-los. Porque. neste asseguramos breves desejos ao futuro. defendendo a sua versão dos sagrados Livros. Et Superos vetuere loqui.mandou Baltasar que o vestissem de púrpura e que lhe dessem o anel real. e achar-se-á. e se não há entre nós os vivos quem faça estas revelações. anunciou-lhe intrepidamente que naquela mesma noite havia de perder a vida e o império. que era faze-lo um dos quatro supremos ministros ou governadores da monarquia. então perseguida e impugnada. e depois condenem» — assim dizia aquele grande mestre da Igreja. Nem todos os futuros são para desejar. Outros reis houve. e não queriam consultar os oráculos. que tudo o que leio de ti são grandezas. eu te dissera a má fortuna sem receio. e fora melhor cair em si que aos pés do Profeta..

Deus na Lei Escrita. Isaac a Jacob e Jacob aos doze Patriarcas. e tão seguras como a mesma palavra de Deus (que não pode mentir nem faltar)`. e se lhes perguntavam quando.. que vinham a ser fábula do vulgo em Jerusalém as esperanças das profecias.. muito firme e muito bem fundada a esperança. Grandes são essas esperanças de Portugal. 7 . affligit animam. Para se avaliar a esperança. se primeiro se há-de acabar a vida? O mesmo podem argüir os que hoje vivem com estas esperanças.Anexo:Imprimir/ História do Futuro esperar. Modicum ibi. O Limbo chamava-se Inferno. é um tormento desesperado o esperar. Modicum ibi. chegavam a ver o cumprimento do que tão longamente tinham esperado. reexpecta. são morte. e em que a nossa História há-de empregar todo o quinto livro. os filhos aos netos e nem estes. disse a Verdade divina e o sabe e sente bem a experiência e paciência humana: ainda que seja muito segura. Muito seguras eram. primeiro se acabava a vida do que chegasse a esperança. A quem há-de cobrir a terra do Egito.expecta. que eu lhas prometo. e isto o que te espera. Tais são as esperanças dilatadas. Não me tenha a minha Pátria por tão cruel. como notaram grandes autores. porque o que se não pode dar logo não se há-de prometer. ainda que não fosse muito velho. e porque? Porque era um lugar onde se esperava tantos anos pelo Paraíso. são tormento. por isso em nome segundo e mais declarado chamo a esta mesma escritura Esperanças de Portugal. As esperanças da Terra de Promissão deixou-as Abraão a Isaac. Deixaram os pais em testamento as esperanças aos filhos. porque em muitas cousas das que lhes prometiam as profecias. Mas vejo que o mesmo nome de Esperanças de Portugal lhe poderá com razão suspender o gosto. reesperavam e desesperavam aqueles homens. se não foram esperanças breves. que pelas ruas e praças da corte se andavam cantando por riso as suas esperanças. De que me serve a esperança da liberdade. são Inferno. são promessas em que por então se dá o contrário do que se promete. se nelas se promete o gosto. mas todos eles morreram e foram sepultados no Egito. assustar o desejo e embaraçar os mesmos alvoroços em que o tenho metido com estas esperanças: Spes qae differtur. mas cansava-se tanto o desejo na paciência de esperar por elas. que lhe houvesse de prometer martírios com nome de esperanças. e que a volta ou estribilho da cantiga era: . que lhe importam as esperanças da terra de Promissão? No cativeiro de Babilônia pregavam e prometiam os Profetas que Deus havia de levantar mão do castigo e restituir o povo à sua antiga liberdade. sendo então as vidas mais compridas. Assim conta esta queixa Isaías no capítulo XXVIII. e não é este o futuro da minha História. se nelas se promete o Paraíso. mas quando há-de ver Portugal essas esperanças? Ponto é este que depois se há-de tratar muito de propósito. há-se de medir o futuro. as promessas dos antigos Profetas. e este é o comento breve de toda a História do Futuro. reexpecta. Prometer o Céu para ir esperar por ele ao Limbo. Expecta. Por agora só digo que me não atrevera eu a prometer esperanças. Boa esperança para um cativo. respondiam e afirmavam constantemente que dali a setenta anos. Se nelas se promete a vida. nunca prometeu o Céu expressamente. Esperavam.

Se houve um profeta que foi mais que profeta. mas viverão muitos anos os que as virem. Sim. desiderium veniens. aquele filósofo do terceiro Céu. Agora as prometem com a voz. Este segundo futuro é o da minha História. A virtude maravilhosa daquele pomo era reparar e acrescentar a vida e remoçar aos que o comiam. porque o será do presente. Portugal será o assunto. Portugal o centro. Não é privilégio este de qualquer profecia. porque lêem feitos seus e de seus antepassados . disse no mesmo lugar alegado a mesma Verdade divina. como se diz no mesmo título. e mostrou o presente com o dedo — Cecinit ad futurum. desiderium veniens. E Portugal que com novidade inaudita lerá nesta História os 8 . o Batista prometeu o futuro com a vez. é do Mundo. também as hão-de mostrar presentes. há esperanças que vem. Lignurn vitae. desafiando todas as criaturas. que foi o grande precursor de Cristo. mas daquelas profecias de que se compõe esta História. que idade tão decrépita. porque são mais que profecias. perderá esta nossa História gloriosamente o nome. ainda que não vivam muitos anos. João entre todos os profetas deste Mundo? Porque os outros profetas prometeram a Cristo futuro. et adesse monstravit. Esperanças que hão-de ver os que vivem. vos mostrará o cumprimento delas. Lignum vitae. não só não tiram a vida. Que vida haverá em Portugal tão cansada. E por que razão mereceu a singularidade deste nome S. ó Pátria minha. que à vista do cumprimento destas esperanças. e os instrumentos prodigiosos delas os Portugueses.Anexo:Imprimir/ História do Futuro São Paulo. Só digo que quando assim suceder. Vê agora. e a mais gloriosa deles. As esperanças que tardam. e com que alvoroço e alegria pede a razão e amor natural que leias e consideres nela os seus e os teus futuros. As esperanças que vem são o pomo da árvore da vida: Lignum vitae desiderium veniens. se nos prometem as felicidades futuras. dividiu os futuros em dois futuros: Neque instantia. tiram a vida. o Romano as de Roma e o Bárbaro as da sua nação. affligit animam. senão única e singularmente sua. Mas este grande assunto fique para seu lugar. vós os que mereceis viver neste venturoso século! Esperai no Autor de tão estranhas promessas. um futuro que há-de vir e outro futuro que já vem. Um futuro que está longe e outro futuro que está perto. Portugueses. senão só de Portugal? A razão (perdoe o mesmo Mundo) é esta: porque a melhor parte dos venturosos futuros que se esperam. vivei. Portugal o princípio e fim destas maravilhas. Assim como há esperanças que tardam. neque futura. as esperanças porque não serão também do Mundo. Mas perguntar-me-á porventura alguma emulação estrangeira (que às naturais não respondo): se o império esperado. as esperanças que vem. O Grego lê com maior gosto as histórias de Grécia. mas não o viram. mas acrescentam os dias e os alentos dela: Spes quae differtur. não torne atrás os anos para lograr tanto bem? Vivei. e estas as breves e deleitosas esperanças que a Portugal ofereço. depois as mostrarão com o dedo. e que deixará de ser História do Futuro. Portugal o teatro. um futuro que muito tempo há-de ser futuro — Neque futura — e outro futuro que brevemente há-de ser presente: Neque instantia. quão agradável te deve ser. porque não haverá também algumas profecias que sejam mais que profecias? Assim espero eu que o sejam aquelas em que se fundam as minhas esperanças e que. Um profeta houve no Mundo mais que profeta. e entre elas os tempos. que quem vos deu as esperanças. nem o mostraram presente. será não só própria da Nação portuguesa. e com quanto gosto deves aceitar a oferta que te faço desta nova História.

rex omnibus populis. Esta história era o silêncio de todas as historias. como se foram sete rios. que. e os demais chamados do Mundo. Divide-se a História do Futuro em sete partes ou livros: no primeiro se mostra que há-de haver no Mundo um novo império. ao qual. no quinto. dominando somente aquela parte não grande da extrema África. sendo um só rio. e por isso na língua vossa. quando sai ao mar. e eu vos descubro a vós o que haveis de ser. maior império. cujo exórdio é este: Nabuchodonosor. para os êmulos a inveja. os meios por que se há-de introduzir. entretanto. que. porei brevemente aqui sua divisão. Não lhe chamaram Salvador do Egito. Se se há-de restituir o Mundo à sua primitiva inteireza e natural formosura. pelas razões que se verão a seu tempo. Entretanto.Anexo:Imprimir/ História do Futuro seus e os dos seus vindouros. no sexto. senão do Mundo. que vos presente. gentibus et linguis. será bem que digamos neste lugar o que o título da nossa História entende por Mundo. História do Futuro (Volume I. Do império dos Assírios temos nas divinas letras uma provisão lançada no III capítulo do Profeta Daniel e mandada expedir pelo grande Nabucodonosor. qui habitant in universa terra: . com quanto maior aplauso e alvoroço será razão que o faca? Portentosas foram antigamente aquelas façanhas. no terceiro. com que descobristes novos mares e novas terras. porque toda se emprega em provar a esperança dum novo império. as esperanças. no quarto. no segundo. para que a matéria de uma vez se compreenda e saiba o leitor em suma o que lhe prometemos. não duvidavam intitular-se Josés do Mundo. Tal é a História. Capítulo III: Terceira parte do titulo e divisão de toda a História. que império há-de ser. Se são dos inimigos. se espraia em sete bocas. em que terra. mas também estes fazem harmonia. não se poderá consertar um corpo tão grande. com quanto maior gosto e contentamento. costuma ter maior estrondo na voz que verdade na significação. em que tempo. que estão fora de seu lugar. para os amigos e companheiros o gosto e para vós então a glória. e. Essa foi a desigualdade do nome que puseram os Egípcios ao seu restaurador José: Vocavit eum lingua aegyptiaca Salvatorem Mundi. Assim como líeis então aquelas vossas histórias.) por Padre Antônio Vieira 9 O que encerra a terceira parte do título desta História só se pode declarar inteiramente com o discurso de toda ela. sem dor nem sentimento dos membros. em que pesca. Estas sete cousas são as que há-de examinar. e destes a conhecer o Mundo ao mesmo Mundo. como se não houvera mais mundo que o Egito. no sétimo. que jaz entre os desertos de Numídia e os do Mar Vermelho. Mas porque esta palavra Mundo. Maior cabo. Naqueles ditosos tempos (mas menos ditosos que os futuros) nenhuma cousa se lia no Mundo senão as navegações e conquistas de Portugueses. Os Faraós do Egito. chamamos quinto. os êmulos suas invejas e só Portugal suas glórias. Portugueses. suas grandezas e felicidades. ó Portugueses. Alguns gemidos se hão-de ouvir entre vossos aplausos. Os inimigos liam nela suas ruínas. e também os Ptolemeus que lhes sucederam. lede agora esta minha. senão maior em tudo. Em nada é segundo e menor este meu descobrimento. maiores sempre nas vozes que no corpo e grandeza. resolver e provar a nova História que escrevemos do Quinto Império do Mundo. assim era aquele império. que também é toda vossa. para os inimigos será a dor. Imitavam a soberba de seu soberbo Nilo. nos ambiciosos títulos dos impérios e imperadores. Vós descobristes ao Mundo o que ele era. maior esperança. de tal maneira mediam a estreiteza de suas terras pela arrogância e inchação de seus vastos pensamentos.

lhe diz assim no mesmo capítulo: Tu es rex qui magnificatus es et invaluisti... qua sidus currit utrumque disse Petrônio. XIII de Ester. rei.. Tão grande era a significação dos nomes. quae aut ita subacta sit ut vi non extet. aut ita pacata ut victoria nostra imperioque laetetur.exiit edictum à Caesare Augusto ut describeretur universus orbis. se lançarmos os compassos às terras que obedeciam a Nabucodonosor. et potestas tua usque ad terminos universae terrae. que habitam em todo o Mundo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro «Nabucodonosor. Assim nos consta por um decreto de Dario. por serem senhores de 127 províncias. aut ita domita ut quiescat. Estes limites lhe prescreveu Claudiano. o China. Esta era a demarcação das terras e estes os limites do império. o Tártaro e outros domínios bárbaros do nosso tempo. mas quem desenrolasse o mapa do Mundo e pusesse sobre ele os pergaminhos destas provisões. Mas se examinarmos este mundo romano até onde se estendia. a todos os povos. ainda que lhe deu por margens os Orientes: Subdit Oceanum sceptris. Inter se Tanais quantum Nilusque relinquunt. Deixo o Mogor. que tinha sujeito ao seu domínio o orbe universo: Cum universum orbem meae ditioni subjugassem. que professava mais verdade que os poetas: Nulla gens est. e dizia o edito: Aliste-se o Mundo. quantum distant a Tigride Gades. veria facilmente que o Mundo. sem demasiado encarecimento. pelo meio-dia com o Nilo e pelo setentrião com o Danúbio e Reno. acharemos que pelo oriente se fechava com o rio Tigres. gentes e línguas. qui habitant in universa terra: Pax vobis multiplicetur.] pervenit usque ad Coelum. é cento e vinte e sete vezes maior que o império persiano: tão pouco se proporcionava a geografia dos títulos com a medida dos impérios! Que direi do império dos Romanos? Os termos que lhe sinalam seus escritores são as raias do Mundo: Orbem jam totum victor Romanus habebat Qua mare. que se refere no VI capítulo de Daniel. et magnitudo tua [. pelo ocidente com o mar de Cádis. Contudo. e Cícero. semelhantes em tudo às de Nabuco: Tunc Darius rex scripsit omnibus populis et gentibus et linguis. em que o Mundo andou sempre atado aos títulos da monarquia. Mas bastavam estes três retalhos da terra para a soberba de Nabucodonosor revestir os títulos de seu império com o nome estrondoso de todo o Mundo. Tal era a opinião que Roma tinha de sua grandeza e tal o estilo que guardava em seus editos: . acharemos que da Ásia então conhecida tinha uma boa parte. 10 . no cap. da Europa menos e do resto do Mundo nada. da África pouco. et margine coeli Clausit opes. obedecendo àquela coroa 127 províncias. seguindo a antiquíssima arrogância da Ásia. passaram provisões e decretos a todo o Mundo. E o mesmo Assuero por outro decreto. por estas pomposas palavras. não duvidou firmar por sua própria mão. De maneira que os reis persas. que com a mesma majestade de títulos se chamam imperadores do Mundo. e tanto menos 0 que significavam! Do império de Assuero (que era o dos Persas) diz o Texto Sagrado no primeiro capítulo da história de Ester. qua terra. Mandou Augusto César matricular e: alistar seu império.. E o mesmo Daniel (que é mais) falando a este rei e acomodando-se aos estilos da sua corte e aos títulos magníficos de sua grandeza. mas os títulos não tinham limite. que se estendia da Índia até a Etiópia.

nem impérios titulares. que é aquela terra incógnita. dizem que se entende por hipérbole ou exageração. No livro sétimo examinaremos os fundamentos deste direito. e este será o Mundo futuro. Entretanto. e esta será a peanha da cruz de Cristo. O título desta História não fala por hipérboles nem sinédoques.] in tres partes divisere: Africam. ainda que liberalmente lho concedamos.. e este o império que prometemos do Mundo. entretanto. Tal foi. mas não impérios. o Mundo que o não conheceu. em que se toma a parte pelo todo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro O Mundo do nosso prometido império não é Mundo neste sentido: não prometo mundos. e destes três mundos unidos se formará (que assim o formou Deus) um Mundo inteiro. nomes tão alheios da modéstia como da verdade. Europa. O Mundo de que falo é o Mundo.. depois que se descobriu a América. Duvida Tácito se foi filha esta resolução do receio ou da inveja: Incertum metu. aquele Mundo. Os que querem o ruído e encher de algum modo o vazio destes grandes títulos. para que nenhum lhe pudesse herdar o nome de Magno. vizinho à morte. que trespassasse as balizas do que ele até então conquistara e fosse ou se chamasse maior que Augusto. et Mundus eum non cognovit. scilicet. Aqui acaba o título desta História. dizem. A Abraão prometeu Deus as terras da Palestina mas conquistou-as a espada de Josué e defendeu-as a de seus sucessores. e este é o Mundo presente. Todos os reinos se unirão em um centro. sed in inventa America. Este é o sujeito da nossa História. e mais claramente do que o dissemos agora o provaremos depois. a união lhe desfará a inveja. Estes são os instrumentos humanos de que se serve (ainda quando obra divinamente) a providencia daquele supremo Senhor que o é do Mundo e dos exércitos. mas também se sabe que os textos podem dar títulos. Europam et Asiam. espera-se agora a quinta. Não é nem poderá ser assim no império do Mundo que prometemos. Ásia. não chama a um pigmeu gigante nem a um braço homem. acrescentou-lhe a nossa idade esta quarta parte. tudo o que cobre e rodeia o Sol.Mundus per ipsum factus est. a paz lhe tirará o receio. é certo que os impérios e os reinos não os dá nem os defende a espada da justiça. universum terraram orbem — diz Ortélio — veteres [. não se pudesse governar com uma só cabeça. damos por solução de todas a mão onipotente: Ut videant. do Romano) em muitos textos de um e outro direito se chama império do Mundo. negou-lhe o domínio. não por nome ou título fantástico. e naquele sentido em que disse S. quando o conhecer. ou não quis (se foi inveja) que viesse depois outro imperador mais venturoso. et 11 .» Este foi o Mundo passado. como todos os que até agora se chamaram impérios do Mundo. sciant et recogitent. quintamque expectat sub meridionali cardine jacentem: O Mundo que conheceram os Antigos se dividiu em três partes: África. Temeu César (se foi receio) que um corpo tão enormemente grande não se pudesse animar com um só espírito. mas já reconhecida. será sujeito a este Quinto Império. O Mundo que Deus criou. João: . todas as coroas se rematarão em uma só diadema. o qual. e quase acabadas. e Deus (que é fortuna sem inconstância) lhe conservará a grandeza. repartiu em diferentes sucessores o seu império. se aos doutos ocorrem instancias e aos escrupulosos dúvidas. que chamamos Austral. senão a justiça da espada. e o Mundo que o há-de conhecer. e por aquela figura que os retóricos chamam sinédoque. o pensamento de Alexandre. todas as cabeças obedecerão a uma suprema cabeça. eam pro quarta parte nostra aetas adjecit. não se pudesse defender com um só braço. Bem sei que o império de Alemanha (envelhecidas relíquias. dar-lhe-á a posse . Resolveu Augusto com o senado pôr limites à grandeza do Império Romano.. Tudo o que abraça o mar. senão por domínio e sujeição verdadeira. tudo o que alumia o Sol.. an per invidiam. Quando o não conheceu.

impertinente e ocioso. que da noticiaria das passadas. inspiração e ainda força suave da mesma Providência os impulsos que a isto (não sem alguma violência) nos levaram. Mas se a história das cousas passadas (a que os sábios chamaram mestra da vida) tem esta e tantas. agora que entramos na maior importância desta matéria. e se como tal empregaram nela sua indústria tantos sujeitos em ciência. melhoria e reformação a que são encaminhados e dirigidos.Escrituras (sendo todas elas como diz S. Josué. concorrem com particular influxo nesta nossa História e se acham juntos nela. esta nossa História do Futuro. leitor cristão. quanto é mais poderosa e eficaz para mover os ânimos dos. por que nos sujeitamos ao trabalho de tão molesto gênero de escritura. lugares e nações para lhes revelar antecedentemente o sucesso das cousas que estavam por vir. e ainda com vantagem. Esta é não só a principal razão. Capítulo IV: Utilidades da História do Futuro) por Padre Antônio Vieira 12 §I Se o fim desta escritura fora só a satisfação da curiosidade humana.Anexo:Imprimir/ História do Futuro intelligant pariter quia manus Domini fecit hoc.. Samuel. na Lei da Graça. que a memória das alheias? Se em todos os Livros Sagrados contarmos os escritores de cousas passadas (como foram. outras utilidades necessárias ao governo e bem comum do gênero humano e ao particular de todos os homens. acharemos que são em muito maior número os que escreveram das futuras: diferença que de nenhum modo fizera Deus. como foram os que em todos os tempos imortalizaram a memória deles com seus escritos. Moisés. e entendendo que foram vontade. nas a única e total. digo. para que estes secretos de seu oculto juízo e conselho se descobrissem e publicassem ao Mundo e em todo ele produzissem proporcionadamente os efeitos de mudança. cujos nomes . que todos aqueles fins que sabemos teve a Providência Divina em diversos tempos. e o gosto ou lisonja daquele apetite com que a impaciência do nosso desejo se adianta em querer saber as cousas futuras. se não fora igual e ainda maior a utilidade que podemos e devemos tirar do conhecimento das cousas futuras. engenho e juízo eminentes. certamente eu suspendera logo a pena e a lançara da mão. que é o verdadeiro Autor de todas as . humildemente prostrados diante de seu infinito acatamento..e não sabem com tão averiguada certeza). porque não será igualmente útil e proveitosa. a quem só pretende nos servir. mas de gastar nele o tempo e o cuidado. e se as esperanças que temos prometido foram só flores sem outro fruto mais que o alvoroço e alegria com que as felicidades grandes e próprias se costumam esperar. Em conseqüência desta verdade e em consideração das cousas que tenho disposto escrever. que foram muito menos os danos em que caíam os homens por lhes faltar a notícia do passado. desde seu princípio até hoje. esperando que será grato e aceito a Deus. e na Escrita. homens a esperança das cousas próprias. e por indigno não só de o comunicar ao Mundo. Esdras e alguns outros. tendo este meu trabalho por inútil. A mesma Majestade divina. os quatro Evangelistas. achará facilmente quem discorrer pelos sucessos do Mundo. E verdadeiramente que se os bens da ciência se colhem e conhecem melhor pelos males da ignorância. pedimos com todo o afeto de coração. que aqueles que cegamente se precipitaram pela ignorância do futuro. História do Futuro (Volume I. se sirva de nos comunicar aquela luz. graça e espírito que para negócio tão árduo nos é . Paulo escritas para nossa doutrina.

ou ordenados para mais altos e ocultos fins por sua providência. quais hão-de ser os da fome e quais os da fartura. que o havia de receber. 13 § II Primeira utilidade. quando são. Deus é o que dá e tira os reinos e os impérios. tantos anos antes. . nem temendo. entendesse que o recebia. por isso quer a mesma Providência Divina que as sentenças estejam escritas antes da execução.Anexo:Imprimir/ História do Futuro necessário. para que conheça o Mundo e Portugal. que interpretasse ao rei os mistérios dela. para que Baltasar. e logo ordenou a Providência divina que estivesse em Egito um José (posto que vendido e desterrado). como as outras nações. as sete vacas fracas e as sete robustas. e para que não haja ignorância tão cega nem ambição tão presumida. que lhe declarasse o mistério dos sete anos da fartura e sete de fome. que todas vêm dispensadas por sua mão. e para que Dario. Os futuros portentosos do Mundo e Portugal. e isto é o que eu começo a fazer (com a graça daquele Senhor que sempre se serve de instrumentos pequenos em cousas grandes). Como na terra do Egito não chove jamais e se regam e fertilizam os campos com as inundações do rio Nilo. que nem esperando. e que a ele havia de agradecer no benefício dos sete anos o remédio dos catorze. ou porque se não levante a maiores com os benefícios divinos. por dar a César o que não é de César. que tire a Deus o que é de Deus. nem menos poderemos descobrir e alcançar ao diante o muito que nos resta por conhecer. E não bastam. com os olhos sempre no Céu e em Deus. só adoram as segundas! Por isso mostra Deus a Faraó. é para que conheçam clara e firmemente os homens. e se beije as mãos a si mesma. nem nós saberemos explicar a outros o pouco que por mercê do Céu temos alcançado e conhecido. nem as armas de Dario para os adquirir. que tudo são efeitos de seu poder e conselhos da sua providência. disse discretamente Plínio que só os Egípcios não olhavam para o céu. levantam os olhos ao Céu. e que haja quem as interprete antes do sucesso. e houve logo um Daniel (também cativo e desterrado). porque não esperavam de lá o sustento. para que conhecesse o bárbaro que Deus. pois só ele os pode determinar antes que sejam. a mão onipotente de Deus é a que os distribui.todos os sucessos a primeira causa. conhecesse que o perdia. Foram mostradas a Faraó em sonhos . ou porque não atribua a cousas naturais (e muito menos ao caso) os efeitos que vêm sentenciados como castigo por sua justiça. porque Deus lho tirava. quando e a quem é servido. mas não houve até agora nem José que interpretasse os sonhos. porque Deus lho dava. como acima dizíamos tirar o império a Baltasar e dá-lo a Dario. nem o direito e herança de Baltasar para os conservar. conhecendo e confessando que sem assistência deste soberano auxílio. mas apareceu primeiro a sentença escrita no paço de Babilônia. O primeiro motivo e mui principal por que Deus costuma revelar as cousas futuras (ou sejam benefícios ou castigos) muito tempo antes de sucederem. nem Daniel que construísse as escrituras. Quis a mesma Providência. e não o seu adorado Nilo. que perdia o reino. muitos anos há que estão sonhados como os de Faraó e escritos como os de Baltasar. e em lugar de reverenciarem em . para que conheça a ignorante sabedoria do Egito que os meios da conservação ou ruína dos reinos.as sete espigas gradas e as sete falidas. se Deus dispõe outra cousa. de que há-de tratar a nossa História. era o autor da abundância e da esterilidade. sempre soberba. como dizia Job. Arma-se assim a sabedoria eterna contra a natureza humana. Oh quantos cristãos há egípcios. rebelde e ingrata.

E o intérprete deste futuro que parecia tão impossível.Anexo:Imprimir/ História do Futuro atribuindo à fortuna ou indústria humana o que se deve só à disposição divina. receoso porventura de que uma nação tão amiga da honra e da glória lhe quisesse roubar a sua. no presente e no futuro. e o intérprete deste último e glorioso estado de Portugal já tenho dito quem é. escolhidos pelos Doze Tribos. na terceira. desconhecido e retirado do Mundo o ermitão do campo de Ourique. e de tantos outros que logo se cumpriram e vão cumprindo. e lhe revelou como era servido de o fazei rei. que ou referíssemos os benefícios passados. foram diante a explorar a terra. Estilo foi este que sempre Deus usou com Portugal. e de os levar e meter de posse da terra da Promissão. Raro 14 . Quem considerar o Reino de Portugal no tempo passado. e por isso mui proporcionado (segundo o estilo de Deus) para tão grande e dificultosa empresa. Afonso Henriques. e posto que todas viram o cumprimento da primeira promessa. para que conhecesse e não pudesse negar Portugal que devia a Deus a vitória e a coroa. e leiam tudo o que daqui por diante formos escrevendo com este pressuposto e importantíssima advertência: que. que depois se viram cumpridos. Antes do nascimento de Portugal. fazendo-o. Antes da sua ressurreição. quando por nossa desgraça fôssemos tão injuriosamente ingratos a Deus. sendo contudo mais de seiscentos mil homens os que triunfaram de Faraó e passaram da outra parte do mar Vermelho. apareceu o mesmo Cristo a El-Rei (que ainda o não era) D. conseguindo milagrosamente a liberdade. no passado o verá vencido. favores e as mercês tão notáveis com que o determinava enobrecer: na primeira. E o embaixador e intérprete deste e de outros futuros. e muitos centos e ainda milhares de anos antes (como depois mostraremos). de todos eles não entraram na Terra da Promissão nem chegaram a lograr a felicidade e descanso da segunda promessa mais que Josué e Calef. dois daqueles aventureiros que. foi aquele velho. Antes das glórias de Portugal. foi a nossa experiência. no presente ressuscitado e no futuro glorioso. ou esperássemos os futuros de outra mão que a sua. como tinha jurado aos seus maiores. seria só o esquecimento ou desconhecimento do soberano Autor delas. não havendo quem ignorasse ou quem não tivesse lido que no ano de quarenta se havia de levantar em Portugal um rei novo e que se havia de chamar João. e que era todo seu desde seu nascimento. para que conhecesse outra vez Portugal que a Deus e não a outrem devia a restituição da coroa que havia sessenta anos lhe caíra da cabeça ou lhe fora arrancada dela. a vitória que lhe havia de dar em batalha tão duvidosa e as armas de tanta glória com que o queria singularizar entre todos os reinos do Mundo. e a Portugal reino. e em todas estas três diferenças de tempos e estilos lhe revelou e mandou primeiro interpretar o. é a que há-de levantar e sublimar ao estado felicíssimo e glorioso que lhe está prometido. e sacudiram sem sangue nem golpe de espada a sujeição de tão poderoso domínio. que todos vimos também. se alguma cousa lhes poderia retardar o cumprimento destas promessas. Prometeu Deus de livrar os filhos de Israel do cativeiro do Egito. e quão indigno de o ser. que é o tempo futuro. e prometidos juntamente os meios e instrumentos prodigiosos por onde há-de subir e ser levantado ao cume mais alto e sublime de toda a felicidade humana. foi revelado o sucesso dela com todas suas circunstancias. para que até por esta circunstancia conheçam os Portugueses que a mesma mão onipotente que há vinte e quatro anos conserva e defende tão constante e vitoriosamente o Reino de Portugal. sublimando-o. Considerem agora os Portugueses. na segunda restituindo-o. também está prometido este terceiro e mais feliz estado do nosso Reino.

depois diremos a terceira. sendo muito justo e muito justificado castigo que morram e acabem todos antes de chegar o prazo das felicidades. e os que atribuem as obras de Deus e os benefícios (de que só a Ele se devem as graças) a Moisés e ao ídolo não merecem ter vida nem olhos para chegar a ver a Terra de Promissão. era descortesia. e pode ser que estejamos já muito perto dela. essas mesmas vitórias e esses mesmos sucessos. mas bem merecido castigo. Se há algum tão invejoso dos bens da Pátria e tão inimigo de si mesmo. Assim o disseram também no mesmo capítulo e o apregoaram impiamente a altas vozes: Hi sunt dii tui. qui nos eduxit de terra Aegypti. negue a Deus o que é de Deus e atribua à liberdade as vitórias e o cumprimento das primeiras promessas que temos visto. à sua ciência militar. Já Deus. se buscarmos no Texto Sagrado as causas deste desvio e dilação (a qual durou quarenta anos inteiros. sejam privados de gozar a segunda. foi atribuírem a mesma liberdade ao ídolo que de seu ouro tinham fundido no deserto. e do último cumprimento das prometidas felicidades. mas muitas vezes. e não a darem a Deus toda. da bondade e onipotência divina. Portugueses. mas nos homens que deviam dar a Deus toda a glória (pois toda era sua). pois tão ingrata e impiamente interpretaram o benefício da primeira promessa. e para que nós. já por mercê de Deus triunfamos de Faraó e do poder de seus exércitos. Imos caminhando pelo deserto para a Terra da Promissão. era blasfêmia. et sciens dolorem ejus. sendo a distancia do caminho breve. assim os que já se viram. ao seu talento. XXXII.Anexo:Imprimir/ História do Futuro exemplo de severidade na misericórdia de Deus . que queira retardar o curso de tão próspera e feliz jornada e acabar infelizmente. que lhe hei-de dar. e porque sei com quão justa razão se queixam. qui te eduxerunt de terra AEgypti. dá a glória de Deus ao ídolo. e quem fez os portentos e maravilhas foi Deus. e que. Agora nos servem as duas. como efeitos da providência. porque. boa. abundante e cheia de todos os regalos e delícias». afogados no Mar Vermelho de seu próprio sangue. a Deus só as refiramos todas. espaçosa. Eu não nego que em bom sentido se podia chamar Moisés libertador do cativeiro. Basta. Moysi enim huic viro. e a Deus só louvemos e demos as graças. ingrato e blasfemo! Que Moisés e o vosso ídolo foram os que vos livraram do cativeiro do Egito?! Por certo que o não disse assim Deus ao mesmo Moisés. referirem-se a Moisés. e ouvi os seus clamores. atribuírem-na ao ídolo. ignoramus quid acciderit. 15 . et deducam de terra illa in terram bonam et spatiosam. e quem abriu o Mar Vermelho e afogou nele Faraó e seus exércitos foi Deus.tanta repugnância sua instrumento de seus poderes: Vidi afflictionem populi mei in AEgypto et clamorem ejus audivi. por isso se vos escrevem aqui essa mesma liberdade. e o fez com . Para que conheça por nossa confissão todo o Mundo que são misericórdias suas e não obras do nosso poder. A primeira causa foi atribuírem a liberdade do cativeiro a Moisés. A segunda. era ingratidão suma. povo descortês. Quem refere a glória dos bons sucessos ao seu valor. como também Deus pelo honrar lhe dava esse nome. e ainda mais ignorante (sobre ímpia e blasfema). não uma. como os que restam para se ver. desci em pessoa a livrá-lo das mãos dos Egípcios e tirá-lo daquela terra para outra. descendi ut liberem eum de manibus AEgyptorum. assim o disseram no cap. in terram quae fluit lacte et melle: «Vi — diz Deus — a aflição do meu povo. tantos anos antes revelados por Deus. ao seu braço.três. e que se podia vencer em poucos dias) acharemos que foram . Israel. ou a Moisés ou ao ídolo. já os vimos. ainda antes de ver o fim desejado dela. nos livrou do cativeiro. De maneira que quem tirou os filhos de Israel do Egito foi Deus. quando lhe deu o ofício e a vara.

de que Deus os havia de meter de posse daquela terra. Diz Santo Agostinho (cujas excelentes palavras adiante citaremos) que. a sua mesma incredulidade será a sua sentenc: já que o não creram. e pode ser de grande exemplo para outra casta de gente.facilitaram a conquista e animavam o povo a ela. nem os perdoar ou dissimular como até ali tinha feito. que. que ficarão para os capítulos seguintes. concordaram todos na largueza. resolveu que fosse executada neles a sentença de sua própria incredulidade.] Vivo ego. Esta tão covarde incredulidade foi a última ou a última sem-razão com que acabou de se apurar a paciência divina. E resoluto Deus a não sofrer mais tal gente.. que aprendemos nas noticias de seus futuros. justo será que fechemos este com a terceira causa do castigo que ponderávamos. [. para crerem e confiarem que assim havia de ser. que. sempre são os meios seguros que nos hão-de sustentar.. Chegados os doze exploradores da Terra da Promissão. que são os que a Escritura chama filhos da desconfiança. levar e meter de posse daquelas segundas promessas. ait Dominus.. não crer que se hão-de cumprir as outras. porque são dignos de o verem. a confiança em Deus e o zelo e desejo puríssimo de sua glória. ou não querem crer. conformemente. mas exceto Josué e Calef. e que todos morressem primeiro e fossem sepultados naquele deserto. In solitudine hac jacebunt cadavera vestra. tão importantemente para a vida como para a vista. bondade e fertilidade da terra. é o primeiro fruto e utilidade que da lição desta nossa História se pode tirar. como filhos da víbora. sic faciam vobis. super quam levavi manum meam. juntamente nascem dela e a corrompem. não bastando a experiência de tantas vitórias passadas e de tantos sucessos e prodígios inauditos. XIV dos Números. se de mau coração) e vejam o perigo em que os pode meter ou tem metido a sua incredulidade: Sicut locuti estis. Deliberou o povo eleger capitão e voltar-se com ele ao cativeiro do Egito. a qual refere o Texto Sagrado no cap. os outros.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Os inimigos que mais temo a Portugal são soberba e ingratidão.. a desconfiança de nós. instavam que era impossível. dando-lha em tudo e por tudo. 16 Breve Advertência aos incrédulos Mas antes que passemos às outras utilidades. vê-lo-ão.. como pela valentia. com que não cheguem a ver nem gozar o que não querem crer de sua bondade: . Os que pela experiência do que têm visto crêem o que está prometido.. ut habitare vos facerem. Leiam e pesem bem estas palavras de Deus os incrédulos e desanimados (vícios ambos. e sobre tudo as promessas divinas tão repetidamente inculcadas. sic faciam vobis. E este conhecimento tão grato a Deus. que nenhum deles entrasse nela nem a visse. e a estes incrédulos e ingratos castiga justissimamente sua Providência. não o verão.] non intrabitis terram. forças e corpulências dos homens. Assim o disse e assim se executou. foram estas: Usque quo detrahet mibi populus iste? Quosque non credent mihi in omnibus signis. audiente me. prevaleceu o número contra a razão) (como as mais vezes sucede). depois de cumprida uma parte das promessas. comparados com os Hebreus (diziam eles) pareciam gigantes. os que não crêem. As palavras da queixa de Deus e da sentença. senão crime de ingratidão grande contra o divino Autor dos mesmos benefícios. vícios tão naturais da próspera fortuna. assim pela fortaleza e sitio das cidades. A humildade e agradecimento. que . e pois criam que Deus os não havia de meter de posse da Terra da Promissão. é não só pertinácia de incredulidade racional. Enfim. qae feci coram eis? [. sicut locuti estis. não sei se de pouco.

e para que não chegue a ver. constância e consolação nos trabalhos. tão maravilhosas e tão raras. guarda também ordinariamente nas felicidades desta. alimpa. os que as não crerem. E porque ninguém o duvidasse . alguma desculpa parece que podia ter a incredulidade na fraqueza do receio e desconfiança humana. será também para ele não gozá-las. a sua mesma fé lhe conservará a vida > Assim sucedeu. et destruas. Ó gentes. ó reinos! Quanto arrancar. e mais necessária aos tempos próximos e presentes. Quando o arquiteto quer fabricar de novo sobre edifício velho e arruinado. antes que chegue a esperada felicidade.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Quo usque non credent mihi in omnibus signis. os que creram aos profetas com el-rei Iconias viveram. ó reis. examine o seu coração e consulte a sua fé.diz Deus nem terá a vida segura. corta. é a paciência.) por Padre Antônio Vieira 17 A segunda utilidade desta História. et disperdas. desfazendo. e os que não quiseram crer. et plantes. morrerão. nem vê-las. fiat tibi. com el-rei Sedecias pereceram. e depois sobre o novo alicerce levanta nova traça e novo edifício. e depois planta e semeia. perigos e calamidades com que há-de ser allito e purificado o Mundo. Capítulo V: Segunda utilidade. por isso havemos de ver no Céu os mistérios que vemos na Terra. e se não crêem que havemos de ver. et aedifices. et dissites. diz Deus: Sicut locuti estis. para ele será o vê-las e gozá-las: Sicut creditisti. E aos que não crêem como os Israelitas do deserto. arranca. porque na guerra que Nabucodonosor fez a Jerusalém. mete primeiro o machado. não crer ainda as que estão por vir. Assim o sentenciou o mesmo Deus outra vez em semelhante caso por boca do profeta Habacuc: Ecce qui incredulus est. antes que Deus vos replante e reedifique. quando as tem prometido: os que as crêem. Quando o lavrador quer plantar de novo em mata brava. quanto dissipar se verá em vossas terras. tão grandes. justus autem in fide sua vivet. creiam que não hão-de viver: Si non credideritis. quae feci coram eis? Antes da experiência das primeiras maravilhas. fiat tibi.tão felizes promessas. como ao Centurião. tira-lhe Deus a vida. desmerece a vista. arrasando e arrancando até os fundamentos. mas depois de cumpridas e vistas com os olhos tantas cousas. Quem quiser saber (segundo o estilo ordinário da justiça e providência divina) se há-de chegar a ver as felicidades que debaixo de sua palavra aqui lhe prometemos. que tem por assento o trono de todo ele: Et dixit qui sedebut in throno: Ecce nova facio omnia. <O incrédulo . quanto perder. Assim o disse e mandou notificar a todo o Mundo pelo profeta Jeremias: Ecce constitui te hodie super gentes et super regna. queima. merecedoras ambas de que Deus as castigue com se conformar com elas: Sicut locuti estis. terão vida para as verem. também começa derribando. quando quis plantar e edificar de novo. do nosso próprio coração nos conta Deus a sentença e de nossas próprias palavras a forma: Exore tuo te judico. derriba. É lei da liberalidade de Deus pagar a fé com a vista. é rebeldia de ingratidão e dureza da incredulidade. e ao que crê. E este estilo que Deus costuma guardar na glória da outra vida. non erit recta anima ejus in semetipso. E quem não crê que se hão-de cumprir. Quem crê que se hão-de cumprir aquelas . non permanebitis — diz o profeta Isaías. campos e cidades. Aos que crêem. cava. História do Futuro (Volume I. quanto destruir. sic faciam vobis. para que as não vejam. Olhem por si os incrédulos. e se veja restaurado o Universo! Maravilha é que há muitos anos está prometida para esta última idade do Mundo por aquele supremo Monarca. ut evellas. Quem não crê. diz Cristo: Sicut credidisti. Assim o faz e fez sempre o supremo Criador e Artífice do Mundo.

acrescenta logo o Evangelista Profeta: Haec verba fidelissima sunt et vera. ou para todos (como é mais certo) nenhuma cousa poderão ter os homens de maior consolação. o julgue. cum nullo horum indigeremus. Joel e Amos. e tão apertada sai a luz e se oferece ao Mundo este livro santo. opressões e trabalhos. como temos vencido e vencemos a todos nossos inimigos.para que elas se escreveram: Quaecumque scripta sunt. Mas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro como cousa tão nova e desusada. ut per patientiam et consolationem Scrip turarum spem habeamus. não pelo que ela tem de nossa. e ele mesmo. Habacuc Jeremias. maluimus mittere ad vos renovare fraternitatem et amicitiam: «Mandamos renovar por este nosso embaixador (diz Jonatas) a antiga amizade e confederação» que convosco fizeram nossos maiores. diz S. posto que não nos faltam inimigos. nem remédio para o sofrimento e constante firmeza de tão fortes calamidades. perigos. não porque tenhamos necessidade dela e dos vossos socorros. constância e fortaleza. Paulo. só e desamparada. Este é o fim. que nunca no povo de Israel concorreram tantos Profetas juntos como antes do cativeiro de Babilônia e no mesmo cativeiro. VIII se verá que sem atrevimento ou demasiada confiança podemos chamar a esta nossa História do Futuro livro santo. porque a paciência tem a sua consolação na esperança. Jónatas. do conhecimento e fé das cousas futuras. diz assim em uma epístola: Nos. e o fruto muito principal . Daniel e Solonias. e todo o gênero de calamidades. e dando conta disso aos mesmos Esparcíatas. tribulações. tudo por meio da lição e fé das divinas promessas e consolação dos felicíssimos fins a que todos estes trabalhos e tribulações pela providência do Altíssimo são ordenadas. Se deste trabalho e castigo pode também caber alguma parte a Portugal. sendo só doze os Profetas canônicos. mas pelas escrituras originais de que foi tirada. e sem amigo nem aliado que a socorra? Neste estado se viram muitas vezes no tempo de seu governo os Macabeus. que ver-se cercada e combatida por todas as partes de poderosíssimos inimigos. De maneira que. ou sejam para Portugal. pelejar e vencer. No cap. ad nostram doctrinam scripta sunt. se houver (como há-de haver primeiro) trabalhos. e com eles e com elas nos consolamos e animamos a resistir. Isaías. alívio. É cousa muito digna de notar. sempre os livrou com maravilhosas vitórias e assistências do Céu. os atribulados esperança. do que a lição e condição desta História do Futuro. o mesmo Portugal o examine. Que maior trabalho ou perigo pode sobrevir a uma república. paciência. lembrando-lhe que está escrito que o juízo e exemplo de Deus há-de começar por sua casa: Judicium incipiet a domo Dei. que então governava o povo. A lição das Escrituras. Antes do cativeiro profetizaram por sua ordem Oseas. os dez deles tiveram por assunto e matéria muito principal de todas suas 18 . é a que mais que tudo nos pode consolar nos trabalhos. Para esta ocasião. assolações. emendar e domar a rebeldia dos corações humanos. de que Deus . a esperança tem o seu fundamento na fé e a fé nas Escrituras. mas temos sempre em nossas mãos os Livros Santos. os tristes consolação. e se é ele um dos reinos da Cristandade que merece ser mui renovado e reformado. com que Deus costuma castigar. no qual acharão os aflitos alívio. habentes solatio sanctos libros qui sunt in manibus nostris. ou para o resto do Mundo. se se conhece. Ezequiel. no cativeiro profetizou Miqueas. em que lemos as promessas divinas. guerras. pelas quais lhes não foi necessário valerem-se da confederação que naquele tempo tinham com os Romanos e Esparcíatas. misérias e açoites. opressões.

determinando sinaladamente o ano da liberdade. Lia-se nas célebres tradições de Gregório de Almeida no seu Portugal Restaurado. filii Joachim. e anda no Texto Sagrado junta com as obras de Jeremias: Et legit Baruch verba libri hujus ad aures Jechoniae. Os quatro primeiros. Afonso Henriques e na promessa do santo ermitão. Bernardo que quando Deus alguma hora permitisse que o reino viesse a mãos e poder de rei estranho. e lá oprimidos e tratados como escravos em duríssima servidão. porque. et ad aures universi populi venientis ad librum Não sei se terá a mesma fortuna. para que o povo não desmaiasse com o peso da aflição. que o tempo desejado havia de chegar. poria Deus os olhos de sua misericórdia no Reino. Lia-se no juramento de El-Rei D. Cantavam-se as profecias ao som das cadeias. mas sei que nos trabalhos calamidades e aflições que há-de padecer o Mundo e pode ser cheguem também a Portugal. e outros que as pregassem no presente. e nota o mesmo Baruch que todos com grande alvoroço corriam ao livro. companheiro de Jeremias. na décima sexta geração atenuada.Anexo:Imprimir/ História do Futuro profecias o cativeiro de Babilônia. A razão deste concurso tão extraordinário de Profetas e profecias (nunca antes. houvesse muitos Profetas e muitas profecias. e se será recebido e lido com o mesmo animo e afeto este nosso livro da História do Futuro. não seria por espaço mais que de sessenta anos. regis Juda. que escreveram mais de seis anos antes daquele tempo. mas que por misericórdia de Deus seria depois restituído à sua pátria. prisões e perigos da vida por pregar e profetizar a verdade (pela qual finalmente morreu apedrejado). Levou este livro a Babilônia o Profeta Baruch. no meio destas opressões e perigos próprios. Os outros seis. em que por termos muito claros e palavras de grande consolação lhes anunciava a liberdade e o tempo dela. insistiram constantemente em que ele havia de ter fim. que profetizaram no tempo do cativeiro. e as esperanças dele se haviam de cumprir no ano 19 . nem Portugal nem o Mundo poderá ter outro alívio nem outra consolação maior que a freqüente lição e consideração deste livro e das profecias e promessas do futuro que nele se verão escritas. uns que as tivessem escrito no tempo passado. no tempo da sua Babilônia e do cativeiro e opressões com que tantas vezes se viu tão maltratado e apertado. Lia-se na carta e tradição de S. XXIX do mesmo Profeta. e do termo e fim do cativeiro que nelas se lia. arrancados da pátria e levados a terras de bárbaros. que. tendo ficado em Jerusalém. e animado com a esperança da liberdade. escreveu um livro das suas profecias. que naquele tempo e estado tão calamitoso. e a esperança da liberdade e do ano dela. os Profetas e as profecias os alentavam. nem outro alívio ou consolação a sua miséria. pudesse com o trabalho do cativeiro. despojados de seus bens. mais que a lição e interpretação das profecias. Assim o diz no primeiro capítulo da relação que fez desta jornada. antes mui lembrado do que padeciam os desterrados de Babilônia. leu-se em presença de El-Rei Iconias e publicamente de todo o povo. como se pode ver no cap. que com ele vivia no cativeiro. onde padeceu grandes trabalhos. não esquecido dos alheios. Ordenou pois a providência e misericórdia divina. O cativeiro e o tirano os oprimiam. Ao menos não negará Portugal que. presos e. profetizaram que o povo por seus pecados havia de ir cativo. Foi mui particular neste caso entre todos os outros Profetas o zelo e diligência de Jeremias. nenhuma outra apelação tinha a sua dor. e com a brandura deste som os ferros se tornavam menos duros e os corações mais fortes. sendo cativos. nem depois visto) foi porque nunca o povo e reino de Judá padeceu tão grande trabalho e calamidade como o cativeiro ou transmigração de Babilônia.

e quão conforme com a vontade e intento de Deus. Assim o dizem Padres e expositores. e nós o mostraremos em seu próprio lugar. sejam os casos e profecias próprias dos nossos tempos e escritas só para eles. e eu escrevi as profecias deles para consolação dos vindouros e para que os vossos fiéis com os casos futuros se não perturbassem». apareceu ali S. E declarando mais em particular os remédios cordiais que lhes aplicava.. e o último de todos. E assim como eles não tinham outro remédio na sua dor senão a esperança daquele desejado ano e a mudança daquela prometida coroa.. oleum gauudii pro luctu.] ut consolarem omnes 1ugentes [.. E porque não pareça que argumento só de casos e profecias de tempos antigos. antes confirmados com as mesmas profecias. ne fideles tui propter futuros casus everterentur: «Vós. em que o cativeiro se havia de acabar: Et praedicarem captivis indulgentiam. E pois este remédio das profecias foi tão presente e eficaz para os trabalhos passados. e ungiu-me com seu espírito. a nas suas profecias. João.. mas ou sejam de Portugal. para que como médico dos aflitos cativos de Babilônia. as escreveram: para que se veja quão justa e quão útil é. com os olhos longos no suspirado ano de quarenta e na esperada coroa do novo rei português. Eu não prometo nem espero infortúnios a Portugal. ordenou a Providência Divina que S. annum placabilem Domino. ou da Cristandade. que a santa ouvisse a resposta da boca do mesmo Profeta. e o trabalho de escolher entre todas as profecias que pertencem a nossos 20 . a diligência com que eu me disponho. diz Isaías. Este é o fim (posto que não só este) por que Deus revela as cousas futuras.... Falando no mesmo cativeiro de Babilônia o mesmo profeta Isaías. Mas a que fim. ou do Mundo os que pode causar nele a necessidade ou a adversidade dos tempos. aponta nomeadamente dois que mais parecem receitados para o nosso cativeiro que para o de Babilônia: o primeiro. et ego scrpsi ad consolationem futurorum. me revelastes aqueles mistérios. Domine. Assim o liam os cativos de Babilônia. era uma coroa trocada pelas antigas cinzas. inspirasti mihi mysteria ejus. assim nós. curasse com o talento de minhas promessas e profecias. que foi S.] ut praedicarem annum placabilem Domino [. o segundo. e por que os Profetas antigos. do que faltem à providência. como se lê no Livro VI de suas Revelações. oleum gaudii pro luctu.] ut mederer contritis corde et praedicarem captivis indulgentiam [. pergunto. para todos lhes prometo este remédio: melhor é que sobejem os remédios à cautela. Senhor.. era um ano de indulgência e redenção. Ninguém ignora que as profecias do Apocalipse e mais ainda as que estão por cumprir) são próprias dos tempos que hoje correm e hão-de parar no fim do Mundo. e do alívio e consolação que com suas profecias haviam de ter em seus trabalhos aqueles cativos.. razão tenho eu (e razão sobre a experiência) para esperar e confirmar que o será também para os futuros. Querendo Cristo. aliviávamos o peso do nosso jugo e consolávamos a pena do nosso cativeiro. estejam neles constantes. com que os lutos e tristezas passadas se convertessem em festas e alegrias: Et darem eis coronam pro cinere.. «Desceu sobre mim o Senhor. e assim o líamos nós também nas nossas. João e disse desta maneira: Tu.Anexo:Imprimir/ História do Futuro sinalado de quarenta. por particular favor. João tivesse aquelas revelações e escrevesse aquelas profecias? É pergunta esta de que foi respondida Santa Brígida.] et darem eis coronam pro cinere. e no concurso de todas estas profecias se consolava e animava Portugal a ir vivendo ou durando até ver o cumprimento delas. a tristeza e desmaio de seus corações». diz com igual brandura e eloquência estas notáveis palavras: Spiritus Domini super me [.

lendo os príncipes da Cristandade. História do Futuro (Volume I. pratiquem-nas todos. nem na terceira.tão singulares maravilhas e maravilhosas felicidades. e só uma cousa não pode. ordenar e tirar à luz para o benefício público. quis non timebit? Dominus Deus locutus est quis non prophetabit ? Está o leão bramindo? Sim. porque se não ofenda Deus. e pelejará seguro. Costuma a Providência Divina começar suas maravilhas por efeitos contrários. Esta é a resposta do valor. digo assim com o profeta Amos: Leo rugiet. Deixou Cristo aos discípulos lutar com a tempestade na primeira vigia. de que Deus se não agrada. que Deus há-de acudir por sua palavra. na fé e confiança das mesmas promessas se atreverão animosamente a empreendê-las. Assim lhes chamei. soe também em nossos ouvidos por cima de todas elas. confie só no mesmo Deus e em suas promessas. seguro está o Reino em que ele e a palavra de Deus correm o mesmo perigo. não perca Josué nem seus soldados o animo. rompa-se o céu. Oh! que bem armados esperarão o leão na campanha os nossos soldados. quis non prophetabit? Falem todos nas profecias e entendam-nas todos. sem ter por fiador a palavra divina. enfureçam-se os ventos. Não confie Portugal em si. e quando na quarta. quis non timebit? «Quando bramir o leão. . que lhes estão prometidas. Mas se acaso (que pode ser) houver algum sucesso adverso (que também depois do milagre de Jericó houve nos campos de Hai). que agora é o tempo. e esta pode ser também a da arrogância. e mais particularmente aqueles que foram ou estão já escolhidas por Deus para instrumentos gloriosos de . quem não tremerá?» Responderão com razão os nossos soldados que não temerão aqueles que tantas vezes os têm vencido. e de as ajuntar. medidas só as forças da potência humana. Escureça-se a noite. Leo rugiet. o trovão de nossas profecias. as conquistas. que é faltar ao que tem prometido. que não temerá Portugal. ainda então os repreendeu de pouca confiança. porque são voz do Céu. está. os reinos. ou para provar nossa fé. nenhuma razão haveria no Mundo que se atrevesse a aconselhar. Ele pode mais que todos os poderes humanos.) por Padre Antônio Vieira 21 Finalmente (e é a terceira e não menor utilidade desta História). se tiverem nas mãos as armas e no coração as profecias! Leo rugiet. pois agora é o tempo de se ouvirem as profecias e de se saber e publicar o que Deus tem dito: Dominus Deus locutus est. os socorreu com sua presença. que não temerá Portugal que é o David que tantas vezes lhe tem tirado das garras os seus cordeiros. E porque o fruto deste benefício se pode colher nas novidades que promete este mesmo ano em que. Mas as promessas e as disposições divinas. brame o mar. as coroas e o domínio e sujeição de nações tantas e tão dilatadas. Capítulo VI: Terceira utilidade.Anexo:Imprimir/ História do Futuro tempos. que é o Sansão que tantas vezes o tem desqueixado. ou para mais exaltar sua onipotência. as vitórias. de cujo som tremem os muros de Jericó e a cuja bateria nenhuma fortaleza resiste. no discurso da História do Futuro. que é o Hércules que tantas vezes se tem vestido de seus despojos. depois de os atemorizar com fantasmas. nem ainda temeridade que se arrojasse a empreender a desigualdade de tamanhas guerras e a desproporção de tão imensas conquistas. sendo certo que. somos entrados. quis non prophetabit? Estas são as trombetas do Céu. recorram a Deus e a suas promessas. na segunda não lhos acudiu. digo. lendo. que por isso nos tem prevenido com elas. aplicando o remédio à ferida ou aos ameaços dela. que não temerá Portugal. os triunfos. Quando as bramidos do leão se ouvirem em suas caixas e trombetas.

aperfeiçoou a arte e acompanhou a fortuna. reconhecendo sua desigualdade para resistir a tão superior e excessivo poder. cuidando que eram os soldados de Saul. pelas covas. e na fé e confiança desta profecia. Conhecem-se enfim com imortal glória de Jónatas os autores de tão estupenda façanha. As sentinelas que deram fé dos dois voltos. formou o valor. matam-se. Saem das covas os Israelitas. Bem sei que no dia em que nasceu Alexandre.Neste estado de horror e miséria sai de noite o príncipe Jónatas. trava-se uma brava peleja dos mesmos Filisteus uns contra os outros. ardeu o famosíssimo templo de Diana Efesina.. como são os vaticínios da Gentilidade. Não foi necessário mais. mas não chamo eu a isto profecias. porei aqui um só exemplo de guerras. interpretando-a (como verdadeiramente era) conforme o sinal que tinha posto. bastando só dois homens armados da confiança de uma profecia. Os Israelitas. nem obrara e levara ao cabo o que obrou. que não só compara a Escritura Sagrada q número deles com o da areia do mar. tudo facilitam e a tudo animam. trata de consultar a Deus por um modo de oráculo ou sorte. outro de conquistas. pelas cisternas e por todos os outros lugares mais ocultos e secretos que . pela qual a Providência divina naquele tempo costumava responder e significar os sucessos futuros. quae est in littore maris. onde prognosticaram os Magos que naquele dia entrara no Mundo quem havia de ser o incêndio de toda Ásia. disse assim ao seu pajem da lança. para porem em fugida o mais poderoso exército e alcançarem a mais desigual e prodigiosa vitória. foi a famosa de Alexandre Magno. começa ele e o companheiro a matar nos inimigos. senão com a areia muita: . e que não convém acometer. diz o mesmo texto que se tinham escondido pelas brenhas. Ajustados os sinais nesta forma. Tinham vindo sobre o povo de Israel os exércitos dos Filisteus com trinta mil carros de guerra e tanta multidão de soldados. Fogem. toca-se arma.Anexo:Imprimir/ História do Futuro antecedentemente conhecidas na previsão do futuro. cresce a confusão. chegaram perto e foram sentidos. estava prometido pelos oráculos de Apolo Délfico o império de todo o Oriente. 22 . para que Jónatas entendesse a resposta do divino oráculo. pelas grutas. avança animosamente às tendas dos Filisteus. Também sei que a quem desatasse o nó gordiano que Alexandre cortou com a espada. tendo por sem dúvida que havia de vencer. mas se não fora ajudado da profecia. que temos certa cousa que vos dizer. falaram entre si. a que os Hebreus chamavam Phurim. porque os tem entregues em nossas mãos. O homem que a empreendeu era o maior capitão que criou a natureza. mas um e outro os maiores que até hoje se viram no Mundo. filho de el-rei Saul. mas se as sentinelas disserem: — Vinde para cá — é sinal que responde Deus que acometamos. seguem os Filisteus fugitivos. plurima. disserem as sentinelas: — Esperai por nós — é sinal que responde Deus que paremos. e voltam carregados de despojos. Para testemunho desta tão importante verdade e alento dos que a lerem. A maior e mais nobre conquista que até hoje se intentou e conseguiu no Mundo. nem ele se atrevera ao que se atreveu.. nem assento considerações e verdades tão sérias sobre fundamentos de tão pouca subsistência. que só o acompanhava: Se quando formos sentidos do exército dos Filisteus. prosseguiram seu caminho.sicut arena. e que havemos de prevalecer contra eles.sabe inventar o medo e a necessidade. e encaminhando para os alojamentos do inimigo. atropelam-se. levantaram a voz e disseram para eles: — Vinde cá. . pelas montanhas. concordando em que eram hebreus dos que estavam metidos pelas covas. perturbam-se os arraiais.

mas se não fora ajudado da profecia. interpretando-a (como verdadeiramente era) conforme o sinal que tinha posto. no liv. entrando Alexandre em Jerusalém. vendo-o. ardeu o famosíssimo templo de Diana Efesina. senão nele a Deus. se lançara a seus pés e o adorara. matam-se. Fogem. atropelam-se. trava-se uma brava peleja dos mesmos Filisteus uns contra os outros. no liv. incitavit me ut nequaqm negligerem. estava prometido pelos oráculos de Apolo Délfico o império de todo o Oriente. Propterea et 23 . e voltam carregados de despojos. sed Deum. adhuc in Dio civitate Macedoniae constitutus. porque reconhecera que aquele era o hábito. e perguntado pela causa de tão desusada reverência. se lançara a seus pés e o adorara. e perguntado pela causa de tão desusada reverência. Conhecem-se enfim com imortal glória de Jónatas os autores de tão estupenda façanha' bastando só dois homens armados da confiança de uma profecia. Conta Josefo. As palavras de Alexandre (que é bem se veja a sua formalidade) são as seguintes: Non hunc adoravi. lhe segurara a vitória. Nam per somnium in hujus modi eum habitu conspexi. e que Alexandre. que. XI de suas Antigüidades. o ornato e a representação em que Deus lhe tinha aparecido em Dio. o homem que a empreendeu era o maior capitão que criou a natureza. nem ele se atrevera ao que se atreveu. foi a famosa de Alexandre Magno. saiu a o receber fora do templo o sumo sacerdote Jado. e exortando-o a que empreendesse a conquista da Pérsia. XI de suas Antigüidades.. habens visionis et probutionis nocturnae memoriam. e que Alexandre. formou o valor. et Persarum traditurum potentiam: ideoque neminem alium in tali stola videns. Nam per se ducturum meum exercitum dicebat. sed confidenter transirem. Bem sei que no dia em que nasceu Alexandre. virtutemque solvisse Persarum. Também sei que a quem desatasse o nó gordiano que Alexandre cortou com a espada. que naquele tempo meditava. cujus principa desse a resposta do divino oráculo. porque reconhecera que aquele era o hábito. nem obrara e levara ao cabo o que obrou. o ornato e a representação em que Deus lhe tinha aparecido em Dio. vendo-o. avança animosamente às tendas dos Filisteus. sed Deum. que naquele tempo meditava. [. seguem GS Filisteus fugitivos. cuidando que eram GS soldados de Saul. nem assento considerações e verdades tão sérias sobre fundamentos de tão pouca subsistência. toca-se arma cresce a confusão. mas não chamo eu a isto profecias. tendo por sem dúvida que havia de vencer. Dumque mecum cogitassem posse Asiam vincere. cidade de Macedônia. respondeu que ele não adorara aquele homem. e na fé e confiança desta profecia. que entrando Alexandre em Jerusalém. tão alheia de sua grandeza e majestade. cidade de Macedônia. como são os vaticínios da Gentilidade. tão alheia de sua grandeza e majestade.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Conta Josefo. respondeu que ele não adorara aquele homem senão nele a Deus. cujus principatus sacerdotii functus est. e exortando-o a que empreendesse a conquista da Pérsia.. cum huc advertissem. Saem das covas os Israelitas. aperfeiçoou a arte e acompanhou a fortuna. onde prognosticaram os Magos que naquele dia entrara no Mundo quem havia de ser o incêndio de toda Ásia.] Exinde arbitrar Divino iuvamine me directum Dariumque vixisse. para porem em fugida o mais poderoso exército e alcançarem a mais desigual e prodigiosa vitória. saiu a o receber fora do templo D sumo sacerdote Jado. lhe segurara a vitória. salutavi. revestido dos ornamentos pontificais. começa ele e o: companheiro a matar nos inimigos. revestido dos ornamentos pontificais. A maior e mais nobre conquista que até hoje se intentou e conseguiu no Mundo. perturbam-se os arraiais. As palavras de Alexandre (que é bem se veja a sua formalidade) são as seguintes: — Non hunc adoravi.

VII. que é a Macedônia. et accepit spolia mulitudinis gentium. Gália. dos Macabeus. Sardenha. o império dos Gregos. O terceiro era Alexandre. et siluil terra in conspectu ejus. e diz ali o Profeta que reinaria e se faria obedecer de todo o Mundo: Et regnum tertium aliud aereum. derribou e meteu debaixo dos pés o império dos Persas e Medos. Conta ali o profeta que viu dois animais do campo: um.percussit Alexander [. e sem pôr os pés na terra. como refere Plutarco e o prova com graves autores. partiu Alexandre vitorioso para a conquista que lhe restava do mundo oriental. na segunda. o investira e derribara e metera debaixo dos pés. o qual sujeitou e uniu todo ao seu império. Tudo certifica ainda com palavras maiores o mesmo Texto Sagrado no exórdio do I Liv. Saiu pois Alexandre da parte ocidental. de Cartago Espanha. saiu de Macedônia com menos de quarenta mil homens. pertransiit usque ad fines terrae. II.Anexo:Imprimir/ História do Futuro omnia quae meo. as quais províncias. o império dos Persas e Medos (como explicou o anjo a Daniel). investiu. Sicília. referida no cap. constituit et praelia multa et oblinuit omnium munitiones.] qui primus regnavit in Graecia. Não parou aqui Alexandre. significava também o império de Alexandre. Itália. entrando da volta desta jornada em Babilônia. et Darium regem Persarum et Medorum. III da História Natural. e com setenta talentos para estipêndios. com um só corno entre os olhos (o qual depois de quebrado se dividiu em quatro).. o maioral das ovelhas. na primeira. referido e louvado por Plínio no liv. refere também Josefo que foram mostradas a Alexandre as profecias de Daniel. o terceiro dos metais. porque. Mas foram ainda mais em número e grandeza as nações que venceu e sujeitou Alexandre com a fama mais que com a espada. pro ventura confido. com dois cornos muito fortes. como é autor Clitarco. porque. é a desigualdade do poder e o limitado aparato de guerra com que entrou em tão imensa empresa. em que venceu e desbaratou de todo os exércitos de Dario e tomou ou se deixou saudar com o nome de Imperador da Ásia. outro. que eram então os últimos da terra de onde Hércules e o padre Líbero os tinham colocado. acabando de se cumprir a profecia na última batalha do Tigranes. bastimentos só para trinta dias. do que depois se viu nas estátuas de Lisipo nem nas pinturas de Apeles. que foram os quatro reinos em que ele o repartiu entre seus capitães. que no princípio esteve unido em uma só pesca. achou nela os embaixadores de África. o maioral das cabras. com que mereceu o nome e se fez verdadeiramente magno. antes de obrar todas estas maravilhas. dizendo: . Nestas duas figuras é certo que estava profetizado.corde sperantur. que foi Alexandre. No mesmo templo de Jerusalém. VIII. se tivesse visto a si mesmo melhor retratado nas profecias de Daniel. não é muito que. animado e soprado do espírito das mesmas profecias e cheio da majestade delas. que fazem da nossa moeda quarenta e dois mil cruzados. passando o Tauro e o Cáucaso e chegando até os fins do Ganges e praias do mar Índico. particularmente aquela do cap. quod imperabit universae terrae. que era o bronze. por isso tinha a testa dividida em dois cornos. Em seguimento e confiança destas profecias. et interfecit reges terrae. Mas como Alexandre. Na visão da estátua de Nabuco. porque não pararam aqui as profecias de Daniel na visão dos quatro animais referidos no cap. em obséquio e reconhecimento de sua potência. e que este segundo animal.. pela velocidade com que vencia e sujeitava tudo. correndo da parte do Ocidente contra o primeiro. Porém o que mais admira nas conquistas e vitórias de Alexandre. se lhe mandaram sujeitar e entregar espontaneamente e entre elas os mesmos Romanos (nome já naquele: tempo famoso no Mundo). se 24 .. e depois de sua morte se dividiu em quatro.. significado no leopardo com quatro asas. sem pôr os pés na terra.

pisa glorioso as cinco coroas mauritanas e põe na cabeça. Isto obraram as profecias daquela noite na guerra. mas como o velho ermitão. et non vinceris — socorrido o animoso capitão e fortalecido o pequeno exército com esta promessa do Céu. mas passaram e penetraram adiante muito maior comprimento e terras do que há do mesmo Ganges a Macedônia. Não chegaram os Portugueses só às ribeiras do Ganges. Tanta parte teve a profecia nas ações deste grande capitão e no império deste grande monarca. e libertada a Pátria. mas ainda mostraram mais os poderes de sua influência na conquista.Oriente perdomito. com aquelas tão expressas e animosas palavras Vinces. rompe os esquadrões. donde Alexandre tinha saído. 25 . se vira as navegações dos Portugueses no mesmo Oceano e suas conquistas no mesmo Oriente? Obrigação tinha em boa conseqüência de lhes chamar imortais. visto primeiro em sonhos e depois realmente ouvido e conhecido. sendo tantos e tão excelentes). sem reparar em que era tão desigual o partido. da mesma noite em que tinha recebido a profecia. E de aqui se pode desculpar (cousa que não soube nem pôde advertir nenhum dos historiadores de Alexandre. conforme as profecias de Daniel. Na manhã. pois. não são menos admiráveis que os estranhos. Alphonse. cumpriu e encheu Alexandre tudo o que cabia na mortalidade. e havia necessariamente de conquistar. não o domínio que ele tivesse sobre a fortuna — Quam solus omnium mortalium sub potestate habuit — como com discrição gentílica disse dele Cúrcio. sustenta quatro vezes o peso imenso de todo seu poder. digo. lhe assegurou da parte de Deus a vitória. e ao mesmo Deus por fiador de sua palavra e promessas. rende. posto que honrosa. de aqui.Anexo:Imprimir/ História do Futuro atrevesse a tão árduas e dificultosas empresas. deve a Daniel o ser Magno! Os exemplos que temos domésticos desta mesma utilidade. Quem duvida que foram mais estendidas e gloriosas as conquistas dos Portugueses que as de Alexandre Magno na mesma Índia? Desta conquista de Alexandre disse o seu grande historiador . mata. acomete de fronte a fronte ao inimigo. quando conquista o alheio e não defende o próprio). indigna de um general prudente e muito mais de um rei. Era tão inumerável a multidão de Sarracenos que debaixo das luas de Ismael. o qual. cativa. com que Alexandre empenhava sua pessoa e vida e se precipitava muitas vezes aos perigos por cousas leves.:> Que dissera. se pode desculpar aquela mais temeridade que audácia (qualidade. resolveu intrepidamente dar a batalha. como Alexandre. fé era e não audácia. como nas conquistas.. aditoque Oceano. intérprete da Divina Providência. e dar exemplo de desprezo da vida a seus soldados para os animar às vitórias. E como tinha a vida e as empresas firmadas por uma escritura de Deus ou por três escrituras. desbarata o exército. das quais justamente se duvida (como pôs em questão Justino) se foi maior façanha o intentá-las. mas a previsão e presciência de suas futuras vitórias e do império que lhe estava prometido. a portuguesa. o primeiro de nossa maior fortuna. triunfa. já rei. confiança e não temeridade empenhar-se Alexandre nos perigos para conseguir as empresas. que justamente estavam temerosos os poucos portugueses. impleret. despoja. que para cada lança cristã havia no campo cem mouros. sendo a confiança ou o seguro de todos estes arrojamentos. e seu valoroso príncipe duvidoso se aceitaria ou não a batalha.. quidquid mortalitas cutiebut. e alcançada na mesma hora a vitória. e dos outros quatro reis mouros. inundaram os campos de Guadiana com intento de tomar Portugal naquele dia fatalíssimo. assim nas batalhas. «Domado o Oriente e navegado o Oceano. ou vencê-las. se deve a Filipe o ser Alexandre.

Henrique. tão temeroso por seus tulões e tão infame por seus naufrágios. como levantar-se contra o mais poderoso monarca do Mundo. para que até nesta parte deva Portugal as suas conquistas aos lumes e alentos da profecia. nos ganhou com sua constância as conquistas. sem tornar atrás. no IV cap. esta confiança os sustentava nos perigos.. Quem quiser ver com admiração a tormenta de contradições populares . o qual. Que valor sesudo. que mares. sem ceder. guia e esperança aos que. autor desta heróica empresa. o Malabárico. valor. não longe senão dentro de 26 . esta última resolução que no ano de quarenta assombrou o Mundo. e aclamar novo rei. vencidas as primeiras e maiores dificuldades. e nela principalmente pretendia a glória de Deus. sobre todos. que nas mais desfeitas tempestades os tinha seguros. mereceu que o mesmo Deus com uma voz do Céu o exortasse a levar por diante o começado. e esta esperança a âncora e amarra firme. conquistando-as primeiro em Portugal. Sabiam que tinha Cristo prometido a seu primeiro rei que os escolhera para argonautas apostólicos de seu Evangelho e para levarem seu nome e fundarem seu império entre gentes remotas e não conhecidas. que será sempre de feliz memória. e restituir-se à sua liberdade.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Não venceram só a Poro. como religiosíssimo príncipe que era. Maiores contrastes tiveram ainda as conquistas de Portugal na nossa terra que nas estranhas. Finalmente. que doenças. não só pôde romper e abrir as portas tão cerradas do Oceano e deixá-las francas e patentes aos que depois vieram. o Etiópico. seguindo seu exemplo e empresa. valor e constância do Infante D. leia o grande cronista da Ásia. João I. que promontórios não contrastaram? Que gentes feras e belicosas não domaram? Que cidades e castelos fortes na terra? Que armadas poderosíssimas no mar não renderam? Que trabalhos. insistindo sempre e indo avante. que tormentas. que mortes não sofreram e suportaram. muito mais a deve o nosso valor à confiança de nossos vatícinios. e. dilatação da Fé e conversão da Gentilidade. animado nas contradições e contrariedades presentes com o conhecimento e certeza dos sucessos futuros. que fomes. mas sujeitaram e fizeram tributárias mais coroas e mais reinos do que Poro tinha cidades. sem parar. e de todo o Reino. esta luz do futuro era o norte que os guiava. que frios. com promessa de seu favor e luz dos gloriosíssimos fins. Assim se conta e escreve por fama e tradição daquele tempo. que não pudera conseguir sem o socorro da luz do Céu. e seus exércitos. que vigias. rei da Índia. a levaram ao cabo. aonde ele é mais bravo e mais pujante. que por meio de tão dura porfia se haviam de alcançar. que é um seio ou braço do Oceano. e conhecerá quantas obrigações deve Portugal e o Mundo ao sofrimento. Não navegaram só o mar Indico ou Eritreu. que climas. América. Que perigos não desprezaram? Que dificuldades não venceram? Que terras. o Pérsico. que calores. do que fossem conquistadas na África. prudente e bem aconselhado se havia de atrever a uma empresa tão cercada de dificuldades. que sedes. mas dar animo. Ásia. mais poderoso e mais indômito: o Atlântico. e mais fortes guerras experimentaram nos naturais que resistência nos inimigos. que por espaço de dez anos padeceram os primeiros descobrimentos das conquistas. com mais pertinácia que com instancia? Mas não obraram todas estas proezas aqueles portugueses famosos por benefício só de seu valor. Com este oráculo divino mais fortalecido o espírito do Infante. o Sínico. Desta maneira o Infante D. e esta fé os animava nos trabalhos. Henrique. mas domaram o mesmo Oceano na sua maior largueza e profundidade. e contrastando com igual fortaleza o indômito furor do segundo e quarto elemento (que são o mar e o fogo). que ventos. que céus. filho de El-Rei D. posto que muito a devamos à ousadia do nosso valor. do I liv. senão pela confiança e seguro de suas profecias.

E se tanto tem valido e importado a Portugal o conhecimento de seus futuros. revelari oportuit — diz Primásio — qualiter esset latius propaganda. pauci multos. em que o novo rei seria levantado. lendo os soldados evangélicos naquelas profecias quão largamente se havia de propagar a mesma Igreja e quão prodigiosas vitórias havia de alcançar a Fé contra todos os inimigos. quando recebeu a coroa. nenhuma tão defendida de dificuldades. quae jam fuerat apostolorum praedicatione funduta. quando as restituiu a elas e se restituiu a si mesmo. quando lhe acrescentou as conquistas. sem armas. que é o seu reino. sem poder. este mesmo conhecimento os animava a quererem ser (como foram) os instrumentos gloriosos delas. e quais foram as armas com que Deus os fortaleceu para que não temessem ou duvidassem a empresa e se dispusessem animosamente a tão estranha conquista? Advertiu com profundo juízo Primásio que fora o Apocalipse de S. pois tudo o que tínhamos vencido e conquistado em quinhentos anos. nem mais elegantemente. alentados das promessas do Céu. que debaixo do escudo desta confiança se não intente. Não se pode dizer. o pudemos restaurar um dia. e este seja entre todos o maior exemplo. se debaixo desta fé nasceu. dizendo e publicando a todos que o desejado tempo dela havia de chegar no ano felicíssimo de quarenta. e pergunte-se a si mesmo se se atreve a igualar estes paralelos. sem socorros. se não avance. Mas quem quiser desde logo fazer de algum modo a conjectura desta desproporção. Em todas as outras considerações foi mais desigual esta empresa que as que eu prometo ou hei-de prometer. Segurou-lhes Deus as vitórias. e quanto mais útil e importante esta mesma fé e conhecimento de seus futuros sucessos para aquelas empresas novas. Da conquista espiritual do Mundo se pode fazer bom argumento para a temporal. tão poderoso contra todos os impossíveis o conhecimento e fé do que há-de ser representado no espelho das profecias. sem estimação. nem mais certa. o Reino à Pátria. oh! quanto mais necessário lhe será a Portugal. e a saudade do rei. sem soldados. É porém. pois é mais forte a guerra e mais dura resistência a dos entendimentos que a dos braços. que nos tempos que hão-de vir (ou que já vêm) o esperam! Não se poderá compreender a grandeza e capacidade desta importância senão depois de lida toda a História do Futuro. para que não duvidassem cometer as batalhas: Post exortum autem Ecolesiae. e o zelo da liberdade. contra tantos armados arrogantes. João. nenhuma tão armada de perigos. que nenhuma empresa pode haver tão desigual. sem aliados. e Portugal a si mesmo. humiles superbos. infirmi nobiles. se exceptuarmos a desproporção de poucos a muitos. porque. vivi tamen spiritualiter mortuos. sem amigos. só e até de si mesmo dividido em tão distantes partes do Mundo? Mas como havia outros tantos anos que a profecia estava dando brados aos corações. a promessa que sempre a conservou nos corações. se estendesse por seus sucessores em todo o Mundo. só porque no conhecimento das profecias tinham segura a 27 . e muito maiores. vel quali etiam fine contenta. fundada pelos Apóstolos. se não prossiga. se debaixo desta fé se restaurou. indubitanter aggrederentur pauci multos. hujus cognitionis fidutia freti. e se a esta se atreveram poucos homens sem armas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Espanha. e ela foi a que deu o rei ao Reino. sobre sessenta anos de cativo e despojado. na qual só se medirá bem a imensidade do objeto com a desigualdade do instrumento. nobres e poderosos. tome os compassos a Portugal e ao Mundo. ut praedicatores veritatis. em todos os casos maiores que podem acontecer a um reino. a Pátria aos Portugueses. sem assistências. se debaixo desta fé cresceu. um reino de grandeza tão desigual. inermes armatos. assim das nossas guerras como das nossas conquistas. se não vença. a levantou a seu tempo nas vozes. Quis Deus que a Igreja. sem nobreza. em que nunca se apagou o amor da Pátria.

senão escudo da presciência . Aeneid . 8. que perigos nos pode oferecer o mar. Que vem a ser esta nossa História do Futuro. ) O ofício e obrigação dos poetas não é dizerem as cousas como foram. . ainda que sejam poucos contra muitos? E digo na confiança das mesmas profecias. mas pintarem-nas como haviam de ser ou como era bem que fossem. romanotumque triumphos. porque uma boa parte da nossa História (como veremos em seu lugar) são as do mesmo Apocalipse. Gregório escudo fortíssimo da presciência. e este mesmo escudo. com que entrasse armado na dificultosíssima conquista de Itália. nem mais impenetrável. Forjou Vulcano as armas. não fabuloso. que pediu Vênus. que conquista haverá que não empreendam. nenhuma arma poderia haver mais forte. Haud vatum ignarus. diz que abriu de subtilíssima escultura as histórias futuras das guerras e triunfos romanos. as batalhas vão já vencidas e os inimigos já triunfados? Fingiu o príncipe dos poetas latinos. (Virgílio. que dificuldades que não desprezem. as armas se ilustram com a nobreza e a nobreza compete com a estimação e com a fama.. compondo e copiando os sucessos pelos oráculos e vaticínios dos profetas e pelas notícias próprias que tinha. e na confiança das mesmas profecias. com que vencesse os reis e sujeitasse as nações belicosíssimas que a dominavam. se as empresas no mesmo escudo vão já resolutas. ao deus Vulcano lhe fabricasse umas armas divinas. que um escudo formado por arte e sabedoria divina. purgnataque ordine bella. Assim armou o grande poeta ao seu Enéias . que pelos fados lhe estava prometido.Anexo:Imprimir/ História do Futuro felicidade e fim da empresa. Fecerat igni potens: illic genus omne futurae Stirpis ab Ascanio. e com ele embraçado em uma mão e a espada na outra.Clypei non enarrabile textum Illic res Italas. com que vitorioso fundasse naquelas terras o famosíssimo Império Romano. em que todas as adversidades e golpes do Mundo se sustentam. no qual estivessem entalhados e descritos os mesmos sucessos futuros que se haviam de obrar naquela empresa. venturique inscius aevi. porque se não atreverão à mesma empresa. que não sustentemos nele com animosa constância? Quem haverá que debaixo deste escudo não empreenda as mais dificultosas conquistas. nem que mais enchesse de ânimo. se reparam e se rebatem: Et nos tolerabilius mundi mula suscipmus. confiança e valor o peito que fosse coberto e defendido com ela. posta toda a confiança em Deus e em sua palavra. aqueles em quem o poder se iguala com as armas. que era a maior e principal peça delas. Lerão os Portugueses. como um dos deuses que era participante dos segredos do supremo Júpiter. e não vença e triunfe dos mais poderosos inimigos.praescientia. e todos os que lhes quiserem ser companheiros. nem aceite as mais arriscadas batalhas. este prodigioso livro do futuro. a terra e o Mundo. para conquistar as mais belicosas nações e para fundar o mais poderoso e dilatado império. que impossíveis que não vençam? Ao conhecimento antecedente dos futuros chamou discretamente S. que perigos que não pisem. e no escudo. e que golpes nos pode atirar com todas as forças de seu poder. que trabalhos. si contra haec per prtescientiae clypeum munimur. clypeum? Armados com este escudo. senão 28 . e achou o mais levantado e judicioso espírito de quantos escreveram em estilo poético. mãe de Eneias. que para vencer as mais dificultosas empresas..

Nele verão os capitães de Portugal. para que o sejam. o que nesta História do Futuro ofereço. e sem resistência. como em espelho. pelejam contra as disposições do supremo poder e combatem contra a firmeza de sua palavra. pois se lhe não pode resistir com força. quantos trabalhos. o que hão-de resolver. e Deus o que o sustenta desunido e o conserva vitorioso. parecendo-lhes aos senhores Castelhanos. que também a lição desta História pode ser igualmente útil e proveitosa aos inimigos. em que sabem muito bem os campos de uma e outra parte o sangue de que mais vezes ficaram matizados. com os olhos limpos de toda a paixão e afeto. com estas cópias de morte-cor diante dos olhos. um manifesto desengano de sua profecia. senão escritos antes de sucederem. sem batalha. ceda-se e obedeça-se a Deus por conveniência. que não duraria a fantasia do nome mais que até a primeira Primavera. Portugueses. conheça-se e examine-se a sua vontade pelos meios com que ela se costuma declarar. retratem por elas vivamente os originais. conhecendo que na guerra que continuam contra Portugal. sem conselho.) por Padre Antônio Vieira 29 Entre as utilidades próprias a dos amigos. chamavam-lhe por zombaria rei de um Inverno. deixada a dissonância e escândalo deste nome. que Deus é o que desuniu de sua sujeição a Portugal. para que em tudo lhe seja semelhante. quiserem antes ser companheiros de nossas felicidades.Anexo:Imprimir/ História do Futuro verdadeiro. o apetite e o ódio. a vingança. Mas são já passados vinte e cinco Invernos. suponha-se que Deus é o que dá e tira os reinos. se quiserem abrir os olhos. Capítulo VII: Última utilidade. que padecê-las dobradamente na dor e inveja dos êmulos. se. Imaginou Espanha que na prisão do Infante D. quanto sangue e perda de vidas. e sem ficção. para que o obrem. Quando se soube em Madrid do rei que tinham aclamado os Portugueses no primeiro de Dezembro do ano de 640. Sobre tudo se verão nele a si mesmos e suas valorosas ações. Oh quantos danos. para o não serem) lerão aqui com boa conjectura as promessas e decretos divinos. é propriamente. se. não quero deixar de advertir por fim delas. em que inundações do Bétis e Guadiana não afogaram a Portugal. tenha também algum dia lugar neles a Fé. para que. como é o animo com que ele se escreve! Não entre só nos conselhos de Estado a conveniência e reputação. e com tanto zelo e desejo de acertar com os caminhos de seu maior bem. Dobrado de sete lâminas dizem que era aquele escudo. e não fingidos depois de experimentados os sucessos. havendo tantas razões. Bem pudera conhecer Espanha. e depois de averiguada e conhecida. quisesse ler esta História do Futuro. provada a verdade dos futuros com a experiência dos passados: e verão. em que a fama só de suas armas nos conquistasse. quantas despesas. o que hão-de vencer. Duarte atava as mãos a Portugal e lhe tirava a cabeça com que haviam de ser governados na guerra. voltando os olhos ao passado. é publicado em sete livros. e o que hão-de ser. e também o da nossa História. História do Futuro (Volume I. e vinte e quatro Primaveras. ao nosso rei. o discurso militar e político. quantas lágrimas e opressão de naturais e estrangeiros podia escusar Espanha. como e quando é servido. o que hão-de conquistar. antevendo o que hão-de obrar. Lerão aqui nossos vizinhos e confinantes (que muito a pesar meu sou forçado alguma vez a lhes chamar inimigos. ainda da mesma natureza. pela experiência. e que com os muros de Milão tinha .

Anexo:Imprimir/ História do Futuro sitiado a Portugal. Morreu enfim (ou foi morto) aquele príncipe, e nem por isso desmaiou o Reino, antes se armou de novo a justiça de sua causa com a sentença daquela inocência, e se endureceram e fortificaram mais os peitos com o horror e fealdade daquele exemplo. Voltou-se todo o peso da guerra contra Saul; maquinou-se contra a vida de El-Rei Dom João por tantos meios e instrumentos (e algum deles sobre indecente sacrilégio); parecia-lhe a Castela que, faltando a Portugal aquela grande alma, seria fácil a suas águias empolgarem no cadáver do Reino. Faltou El-Rei D. João ao Reino, sobre ter faltado de antes seu primogênito Teodósio, príncipe de tantas virtudes, opinião e esperanças; mas viu o Mundo, posto que o não quis ver Castela, que era o braço imortal o que defendia e conservava aos Portugueses. Sucedeu na menoridade do rei com tanta prudência e valor a regência da rainha-mãe, e à regência da rainha o governo felicíssimo de El-Rei D. Afonso, que Deus guarde, monarca de tão conhecida fortuna, que parece a traz a soldo nos exércitos. Fez Castela neste tempo os maiores esforços de seu poder, e para os poder fazer maiores, assim como por esta causa tinha já concluído ou comprado, a preço da própria reputação, a paz de Holanda, ajustou também a de França . Desembaraçadas em toda a parte as suas armas, chamou os espíritos de todo o corpo da monarquia aos dois braços com que Castela cerca a Portugal. Viram-se juntas contra ele em um exército Espanha, Alemanha, Itália, Flandres, com toda a flor militar, ciência e valor daquelas belicosas nações. Mas que resultas foram as desta tão estrondosa potência e dos progressos que com ela se tinham ameaçado a nós e prometido a Europa? Entrou a guerra dividida no ano de 62 por todas nossas províncias; em todas achou oposição igual e efeito superior. Uniu-se no ano seguinte com novo conselho o poder; acrescentou-se de gente de cavalos , de cabos, de aparatos bélicos ; escolheu-se para teatro daquela formidável campanha a província de Alentejo; começou a tragédia com prósperos e alegres passos, triunfando dos que não podiam resistir às armas castelhanas; mas o fim foi tão adverso, tão lastimoso e verdadeiramente trágico, como viu com admiração o Mundo e chorará eternamente Castela. Perdeu a batalha, o exército e a reputação; deixou a Portugal a vitória, a fama, os despojos, e só levou (como sempre) o desengano. Estes têm sido em vinte e cinco anos os efeitos do poder. Passemos aos da indústria. Entendeu Castela que não podia conquistar a Portugal sem Portugal; tratou de inclinar à sua devoção os grandes e os menores. Na constância houve diferença, mas nos efeitos nenhuma. O povo, cuja fortuna é inalterável, não padeceu alteração. Sendo tão livre e aberto em Portugal o mar como a terra, se não viu em tantos anos nenhum pastor que se passasse a Castela com duas ovelhas, nenhum pescador menos venturoso que aos seus portos derrotasse uma barca. Basta por exemplo ou desengano a famosa resolução do povo de Olivença , que com partido de poder ficar inteiro com casas e fazendas, se não achou em todo ele um só homem de espírito tão humilde, que aceitasse a sujeição. Perderam todos a Pátria pela lealdade, triunfou Castela das paredes e Portugal dos corações. Não viu Roma semelhante exemplo, e assim o celebrou um Jerônimo Petrucho poeta romano, com este epitáfio: Victor uterque manet, victoria dividit orbem: Alphonsus cives, saxa Philippus habet. Ainda deu muito a Castela em partir a vitória pelo meio: o vencedor conquistou pedras o vencido vassalos. De indústria se pudera perder á praça, só por lograr a fineza; e de indústria se pudera também não ganhar, só por não experimentar o desengano. Isto vence

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro Castela, quando vence. e assim se rende o povo de Portugal, quando se rende. A nobreza, em que tem maiores poderes o receio ou a esperança, como mais escrava da fortuna, não foi toda constante. Alguns grandes houve entre os grandes, uns que se passaram ao serviço de El-Rei D. Filipe, outros que com maior ousadia o quiseram servir em Portugal; a uns e outros castigou o mesmo braço da Providência, a estes com a vida, àqueles com o desterro. Até agora não tiveram outro prêmio, nem mereciam outro, porque Castela nem pode ressuscitar os primeiros, nem quis pagar os segundos. É fama que foi respondido à sua queixa que tinham feito o que deviam, mas ainda devem o que fizeram: cá perderam o que tinham, lá não ganharam o que esperavam; entre os Portugueses réus, entre os Castelhanos portugueses, que também é culpa. Isto é o que foram buscar a Castela todos os que lá se passaram — o desengano de seu discurso, o descrédito de sua resolução e o castigo de sua incredulidade; e ainda de lá nos mandam o exemplo de seu arrependimento. Levaram o que nos não faz falta, porque se levaram; e deixaram o que nos ajuda a defender, porque nos deixaram as suas rendas. A Portugal deixaram os despojos de suas casas, aos vindouros a memória de sua infidelidade e ao Mundo pregão de sua covardia. Tal foi o merecimento, tal o prêmio. Julgue agora Castela se terá esse interesse cobiçosos e este empenho imitadores. Dizia um dos primeiros embaixadores de Portugal em França (quando ainda havia quem impugnasse a esperança da nossa conservação), que, no caso em que a desgraça fosse tanta, antes se havia de entregar ao Turco que a Castela. Era o embaixador ministro de letras, e como um grande senhor francês lhe pedisse a razão deste seu dito, sendo católico e letrado, respondeu assim: -Porque eu em Turquia, se defender a Fé, serei mártir; se renegar, far-me-ão baxá: e em Castela Monsieur, nem baxá nem mártir. Foi muito celebrada a discrição da resposta, a que acrescentava galantaria a mesma pessoa do embaixador; porque era mui avultado de presença e tão bem lhe podia estar na cabeça o turbante, como na mão a palma. Nada mais venturosamente lhe sucederam a Castela as indústrias estrangeiras que as domésticas. todas desarmou em armas contra si mesma. Em Roma, impediu o provimento das mitras. mas os bagos se converteram em lanças e o que haviam de comer os pastores das ovelhas, comem os que as defendem dos lobos. Em Holanda, comprou os estorvos da paz, mas esta se retardou somente quando foi necessário para se recuperarem as Conquistas. Caso grande e de providência admirável! Em Inglaterra, se empenhou por divertir o parentesco; em França, capitulou que não pudéssemos ser socorridos. mas teve uma e outra diligência tão contrários efeitos, que se vêem hoje em Portugal as suas quinas tão acompanhadas das cruzes de Inglaterra, como assistida das lises de França. Unidas e complicadas estas três bandeiras, fazem um silogismo político, de tão segura como terrível conseqüência. Se só Portugal pôde resistir a Castela tantos anos, ajudado dos dois reinos mais poderosos da Europa, no mar e na terra, como não resistirá? O maior contrário que tem Espanha é o seu próprio poder. Quando se quis levantar sobre todos, se sujeitou à emulação de todos. Estes terá por si Portugal, enquanto ela for poderosa; se o não for, não os há mister. Os discursos da esperança (que é a última apelação de Castela) são os que mais lhe mentiram, porque os homens (quando assim lho concedamos) discorrem com a razão, e Deus obra sobre; ela. Todos os que nas matérias de Portugal se governaram pelo discurso, erraram e se perderam; e por aqui se perderam (ainda entre nós) os que na opinião dos homens eram de maior juízo. São obras e mistérios de Deus; quer Ele que se venerem com

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro a fé e não se profanem com o discurso. Por isso todas as esperanças que se assentaram sobre esta fé foram certas e todas as que se fundaram sobre o discurso, erradas. É natureza isto, e não milagre da palavra e promessa divinas: ...in verba tua super superavi — dizia aquele grande político de Deus, que não só esperava, mas sobreesperava nas promessas de sua palavra divina; porque há-de esperar nas promessas da palavra divina, sobre tudo o que promete a esperança do discurso humano. Assim o temos sempre visto em Portugal, com admirável crédito da fé e igual confusão da incredulidade. No tempo em que Portugal estava sujeito a Castela, nunca as forças juntas de ambas as coroas puderam resistir a Holanda; e de aqui inferia e esperava o discurso que muito menos poderia prevalecer só Portugal contra Holanda e contra Castela. Mas enganou-se o discurso. De Castela defendeu Portugal o Reino e de Holanda recuperou as Conquistas. Aquele fatal Pernambuco, sobre que tantas armadas se perderam e se perderam tantos generais, por não quererem aceitar a empresa sem competente exército, que discurso podia imaginar que, sem exército e sem armada, se restaurasse? E só com a vista fantástica de uma frota mercantil se rendeu Pernambuco em cinco dias, tendo-se conquistado pelos Holandeses com tanto sangue em dez anos, e conservando-se vinte e quatro. Menos esperava o discurso que se conquistasse Angola com tão desigual poder enviado a tão diferente fim; e conquistou-se contudo aquela tão importante parte de África contra todo o discurso e antes de toda a esperança. E porque se saiba mais distintamente quão grandes significações se contêm debaixo destes nomes tão pequenos — Pernambuco e Angola — o que se recuperou em Angola foram duas cidades, dois reinos, sete fortalezas, três conquistas a vassalagem de muitos reis e o riquíssimo comércio de África e América. Em Pernambuco recuperaram-se três cidades, oito vilas, catorze fortalezas, quatro capitanias, trezentas léguas de costa. Desafogou-se o Brasil, franquearam-se seus portos e mares, libertaram-se seus comércios, seguraram-se seus tesouros. Ambas estas empresas se venceram e todas estas terras se conquistaram em menos de nove dias, sendo necessário muitos meses só para se andarem. Quem nestes dois sucessos não reconhecer a força do braço de Deus, duvidar-se pode se o conhece. Assim assiste a Portugal dentro e fora, ao perto e ao longe, aquele supremo Senhor que está em toda a parte e que em todas as do Mundo o plantou e quer conservar. Bendita seja para sempre sua onipotência e bondade! Também esperava o discurso de Castela que os ânimos dos Portugueses, com a continuação da guerra e experiência de suas moléstias, se enfastiassem e suspirassem pela antiga e amada paz, cujo nome é tão doce e natural, e mais à vista de seu contrário; que as contribuições forçosas para o subsídio dos soldados e a licença e opressão dos mesmos soldados fossem carga intolerável aos povos; que os povos, depois de apagados aqueles primeiros fervores que traz consigo o desejo e alvoroço da novidade, com o tempo e seus acidentes se fossem entibiando, até se esfriarem de todo; que os pais se cansassem de dar os filhos e que a guerra detestada das mães (como lhe chamou o Lírico) fosse também detestada e aborrecida das Portuguesas, que, entre as outras mães, o costumam ser mais que todas no amor e na saudade. Mas também aqui mentiu a esperança e se enganou o discurso, porque os ânimos se acham hoje mais alentados, os fervores mais vivos, os corações mais resolutos, o amor ao rei, à Pátria e à Liberdade mais forte, mais firme e mais constante, e maior que todos os outros afetos da fazenda, dos filhos, da vida. Lembram-se os pais que davam os filhos para as guerras de Flandres, de Itália, de Catalunha e navegação das Índias de Castela, onde os perdiam para sempre; e querem

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33 . que os conhece e lhes sabe o nome. com obrigação de alimentar aqueles membros tão distantes com sua própria substância. não para o verem e lhe falarem. e que concorrem com ele para o estabelecimento e honra de sua Pátria. E por tal julgaram ainda aqueles políticos que sem ódio nem amor esperavam e prognosticavam o fim e mediam a desproporção de tão desigual empresa. honrando-se (como é razão) de serem pais de tais filhos. e que o têm consigo e junto a si para o requerimento da justiça. seria como o de Eleázaro contra a grandeza e corpulência do elefante. esperava o discurso que Portugal. que com igual alegria os choram e sepultam mortos gloriosamente na guerra. para o remédio da opressão. havendo de sustentar as guerras e oposição de seus inimigos em todos eles. Verdadeiramente este discurso. porque sabem quanto maiores e mais pesadas são as que se pagam em Castela para os conquistar. tão contínua. e que. e que não era possível aturar por muitos anos as despesas excessivas de uma guerra interior. Isto é o que só tem Castela. e ficaria oprimido e sepultado debaixo de seu próprio triunfo. natural e necessariamente se havia de atenuar e enfraquecer. todo o pensamento que não seja desta perpetuidade. e vêem estampados seus nomes e estendida por todo o Mundo sua fama. têm mostrado que só era sofístico e aparente. toda a conveniência. para o prêmio do serviço. os assistem e os têm consigo. que. ruína. se havia de esgotar. do que eles em Portugal para se defenderem. e antes da experiência mui dificultosa solução. se morrem na guerra. e que logram aquele estado ditoso de que se lembravam e falavam seus avós com tanta saudade e por que suspiravam seus pais com tantas ânsias. sobretudo vêem a seu rei da sua Nação e da sua Língua. horror. e que então era tributo do cativeiro o que hoje é preço da liberdade. todo o perigo obrigação. e toda a mudança impossível. Mas Deus (a quem não queremos roubar a glória) e a mesma experiência natural e o concurso ordinário de suas causas. contra os combates de uma potência tão desigual e superior como era a do maior monarca do Mundo. como Reino menor e dividido em todas as partes do Mundo. sendo toda da mesma Nação. Vêem o fruto de seus trabalhos e suores. e o que só pode esperar dos ânimos dos Portugueses. que os ouve e lhes responde. Têm na memória que também antigamente pagavam. que a gente. Pelo contrário. e não entrando na conta desta aritmética o poder e assistência de Deus. humana ou gentilicamente considerado. do que os parem e criam para ela. que quando o valor dos Portugueses se atrevesse sobre suas forças. sem a dura e insuportável pensão de o irem buscar a Madrid. e em realidade falso. Finalmente. se havia lentamente de diminuir. toda a promessa. Conhecem a grandeza desta estimável felicidade. tão viva e tão multiplicada em tantas províncias. tinha mui forçosa conseqüência. não tendo minas nem Potosis. Os povos não se cansam com os subsídios e contribuições. mas para o verem por fé. e todo o preço para a conservação de tanto bem lhos parece barato todo o trabalho leve toda a dificuldade suave. para o alívio da queixa. cercado dela por todas as partes.Anexo:Imprimir/ História do Futuro antes dá-los para as fronteiras de Portugal. sem mais diligência nem ação que o mesmo peso e grandeza de tão imenso contrário. onde recebem a glória de ouvir celebrar as ações de seu valor e feitos galhardos. traição. têm rei que lhes pague as vidas com larga remuneração de mercês e aumento de suas casas. ainda caindo. que os entende e o entendem. e não para a cobiça de ministros e exatores estranhos. aquele discurso. onde os vêem. sendo tão generosas as mães (nas quais este afeto é superior a toda a natureza). rei que os vê e se deixa ver. que o dinheiro e cabedais. seria sobre ele.

nunca tantas fábricas. nunca tão grandes salários. e que se vestem mais para triunfar que para vencer. Com a guerra. é tanta a cópia de alimento. que no seguinte se não pusesse outro maior. nunca tão grandes dotes. nunca tão grandes soldos. nenhum ano tão bizarro e tão luzido. tanto aparato. Que templo. tão reais e tão sumptuosas festas. nunca tantas. pois. com que se acha Portugal mais rico e abundante que nunca das utilíssimas drogas de seus comércios. nunca tantos e tão magníficos edifícios. que capela. O ano passado. e estas são as minas do nosso Reino. que a substância do Reino está hoje mais grossa. Nenhum ano se pôs em campo exército tão grande. sempre mais e maiores exércitos. desfazendo-se e arruinando-se (com lástima) obras antigas e de grande arte e preço. nunca tanto na abundância e regalo das mesas. que foi o último. só para se lavrarem outras de novo. riqueza e galhardia dos cabos mostra bem que vão às batalhas como a festas. que altar. Destes comércios lhe vêm as riquezas com que pode pagar e premiar 34 . O menor gasto nos vestidos é o que se veste. que no seguinte se não excedesse na bizarria e nas galas. se pode haver falta no necessário. Diga agora o algarismo de seu discurso. que santuário. recebem os espíritos de que se animam. Passo em silêncio os imensos gastos do serviço e majestade do culto divino. As usuras de Deus são cento por um. com o tempo c continuação da guerra. que não só tem suficiente matéria para formar os espíritos que com os membros mais distantes reparte. Mas por isso sobeja. tanta era a variedade das cores com que os terços se matizavam e distinguiam. o certo é que as rendas e cabedais do Reino. mais preciosas e de mais polido artifício? Tudo isto do que sobeja da guerra. as quais com igual liberalidade e interesse remetem hoje ao Reino toda aquela substância que o calor da guerra própria lhes consumia. mais florente e opu1enta que no princípio da guerra. tanta família. que neste mesmo tempo se não renovasse. membros tão remotos e tão vastos deste corpo político de Portugal. Nunca tanto se gastou no primor e preço das galas. nunca tão grandes mercês. mais ricas. assim próprios como particulares. Não me atrevera a falar com tanta largueza. como do coração. crescendo mais os empenhos sempre. onde sobeja e se dispende tanto com o supérfluo? Mais temo eu a Portugal os perigos da opulência. mas lhe sobeja com que se sustentar a si e a todo o corpo. nunca tantos criados. O mesmo que se vê na política bélica das campanhas. A vulgaridade do ouro e prata só se estima pelo invento e pelo artífice. tantos cavalos. a pompa. ao mesmo passo parece que ou crescem ou se manifestam novos tesouros. cresceu e se aumentou tudo em Portugal. e desposas dela. antes se prova com evidente e milagrosa demonstração da experiência. e se sustentam todos os anos. que tudo quebranta e diminui. estes os Potosis de Portugal. com que se sustentaram até agora. E a verdade desta experiência se tem provado com mais sensíveis efeitos depois da paz universal das mesmas Conquistas. tão notáveis por seu nome é grandeza como bizarros por seu luzimento. se renovou outra vez no nosso exército. ainda que do Reino. para que pela divisa se conhecessem os soldados e ostentassem a competência de seu valor. não têm padecido a quebra e diminuição que o discurso lhes prognosticava. mais se gasta em cobrir os vestidos que em cobrir os corpos. que os danos da necessidade. porque só o silêncio os pode explicar. ou outra mais oculta e superior. se não pudera alegar por testemunhas os mesmos que podiam ser partes. e tão abundante. E ou seja esta a causa natural. que eles mesmos com suas riquezas lhe subministram.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Porque as Conquistas (que era o primeiro reparo). e não pelo preço. se admira na pacífica das cidades. não encarecer. nunca tanto no asseio e ornamento das casas. quando a Primavera se acabou nos campos.

sem injúria dos soldados. sem adultério dos metais e sem hipocrisia da moeda. por benefício da qual os exércitos e províncias se podem dar 35 . exército em Trás-os-Montes. e o habitam e o enchem e o multiplicam. de Milão e de Alemanha. e por cada ramo que faltou no Outono. Desta maneira se acha Portugal cada dia mais fornecido de muitos e valentes soldados. que é a senhora da prata e de quem a recebe o resto do Mundo? Cuidou Castela que a Portugal havia de faltar o dinheiro. que não se alistassem nela senão mancebos livres. outros para pelejarem sem amor e com valor vendido. e cada um por sua própria casa e fazenda. e não trazidos por força de Sicília. por cada cabeça que corta a guerra em uma campanha. Ducit opes. e assim como o seu discurso errou as contas ao dinheiro. de Nápoles. animumque ferro. com grande vantagem de coração pelejam pelo rei. per coedes ab ipso. a Portugal. sem serem os Portugueses dentes de Cadmo. brotam dois na Primavera. pela liberdade. pelo contrário. como passam. sendo a maior comodidade da guerra e multiplicação da gente a mesma estreiteza do Reino (que o discurso mal avaliava). lagos e terras. sendo muitos os que se alistam e pagam. ficam hoje dentro em Portugal. pela Pátria. e até as serras. pela honra. onde nunca entrou ferro. Assim se converte e se multiplica em nova substância tudo o que come a guerra. Bem sabem os doutos que o nome grego hipocrisia se deriva do fingimento do melhor metal. como quem defende o alheio e conquista o que não há-de ser seu. nascidos e criados entre o mesmo estrondo das armas. brenhas. pela vida. Todos os Portugueses que povoavam suas Índias. que militavam seus exércitos. e não falsificadas. e sempre mais numeroso e florente em Alentejo. e justificar com os olhos do rei e do Reino as certidões mais seguras de seu valor. nem hão mister socorros. que mareavam suas frotas. assim os nossos exércitos: exército no Minho. E: se Castela quer conhecer as causas naturais desta filosofia. Ou tenha Portugal a qualidade da hidra ou a natureza das plantas. Foi lei. e poucos os que chegam. todos dentro em si e nas mesmas províncias e climas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro seus exércitos e com que os prêmios e as pagas sejam verdadeiras. Quem pudera nunca imaginar que chegasse a tal estado uma monarquia. em que o pelejar e o morrer não é acidente senão natureza. ou vêm requerer o prêmio de seus antigos serviços. e os mesmos que então se retiravam da guerra. têm hoje muitos filhos com que a sustentam e os sustentam com ela. uns para se passarem logo. A sombra desta imunidade. exército e dois exércitos na Beira. Os Portugueses. nem arado. e vê em si o que cuidou de nós. e parece que foi posto em nossos tempos mais para declarar o vício da moeda. que a mentira da virtude. aparecem na seguinte duas. antes delas os recebe o Reino com muitos e valentes soldados e experimentados capitães. e assim se vêem hoje mais povoados seus lugares. Com verdade se podia dizer de Portugal o que dos Romanos disse o seu poeta: Per damna. também as errou à gente. As Conquistas com a paz não levam. comprados e conduzidos com imensas despesas e perigos. ou servir e merecer de novo. com que as famílias se multiplicavam infinitamente. no princípio da guerra. muitos filhos por indústria dos pais se acolhiam na menoridade ao sagrado do matrimônio. e lei prudentíssima. Assim se foram dobrando e crescendo sempre os nossos presídios. que freqüentavam seus portos. mais freqüentadas suas estradas. exército e florentíssimo exército. que lavravam seus campos. mais lavrados seus campos. que trafegavam seus comércios. abertas e cultivadas. onde nada lhes é estranho. que. que inteiravam seus presídios. saiba que a sua reparação foi o primeiro princípio deste aumento.

nem alguém pode duvidar da fé. et aedifices. que também a ti dedico e ofereço. Sempre são falsas e enganosas as esperanças humanas. destruas e dissipes a uns. rei de Israel. e aparecendo em toda a parte (como alma de Dido) aos Castelhanos com novo horror e assombro. tocariam a recolher seus capitães e exércitos e confessariam. logrando vivo a glória de seu triunfo. História do Futuro (Volume I. Desta maneira não teme o valor português que lhe suceda como a Eleázaro com o elefante. profetizando a uns sua exaltação e a outros sua destruição e ruína. e se dizem que se hão-de estabelecer e exaltar. mas está certo que lhe há-de suceder como a David com o gigante. e se perdem. Capítulo VIII: Continua a mesma matéria) por Padre Antônio Vieira 36 Desenganado por estas evidências o poder. esperem. em que tão . obedeceriam com suma reverência aos divinos decretos. ó Espanha. ouçam-me agora como cristão a católicos. Se as profecias resolutamente dizem que os reinos se hão-de perder ou arruinar. ou quantos tesouros baldados poderiam poupar os reis. aparelhem-se sem remédio para sua ruína. Levantou Deus no Mundo a Jeremias por seu ministro. para que arranques. Veja e saiba Castela o que Deus tem prometido a Portugal. abateriam a Deus.Anexo:Imprimir/ História do Futuro as mãos umas a outras. et plantes: «Hoje te ponho e constituo sobre as gentes e sobre os reinos. e um dos fins principais por que escrevo esta História. Aqui verás os futuros de Portugal. e se despenham. et dissipes. a indústria. e se os virem estrelas. e tudo o que podes esperar dele em sua conquista. a profecia de Miqueas. se o seu católico príncipe e seus maiores conselhos se acabassem de persuadir que Deus tinha decretada a conservação e perpetuidade de Portugal. para que. bem pudera eu esperar do juízo mais político de nossos competidores e seus conselheiros. Se Acab. ficando oprimido com a sua própria vitória. por isso erram. religião e piedade espanhola. na mais levantada fortuna. Isto é o que eu agora lhes quero persuadir e demonstrar. o discurso e esperança espanhola. olhem para estes sinais do céu. que influem e ameaçam suas ruínas. Levantem pois os reis e os reinos os olhos. e multiplicando-se por este modo um soldado em muitos soldados. Mas porque muitos reis esperam de onde deviam temer. e a comissão e ofício que lhe deu foi esta: Ecce constitui te hodie super gentes et super regna. acabassem de desistir de tão infrutuosa porfia. desistira da conquista de Ramoth Galaad. temera. a desigualdade de sua maior potência contra os acenos da divina. que. et destruas. subamos um ponto mais alto. e logo advertirá a vaidade do que suas esperanças lhe prometem. ou como astros benignos que influem e prometem suas felicidades. Mas deixados à parte os argumentos da razão e experiência. mas nunca mais certamente falsas. pelejando os mesmos soldados quase no mesmo tempo em diversos lugares. possam emendar o engano de suas esperanças presentes. e perecem muitos. oh quanto sangue. Não duvido. se no meio de seus conselhos pudessem pôr um espelho em que se vissem os futuros! Tal é este livro. se os virem cometas.» Não quer dizer Deus que Jeremias há-de arruinar ou edificar reinos com a espada. que quando se opõem e encontram com as promessas divinas. e se até agora me ouviram como homem a racionais. Estão os profetas e as profecias sobre às gentes e sobre os reinos. pelo conhecimento de nossos futuros. como devia temer. mas que os há-de arruinar ou edificar com as suas profecias. temam. plantes e edifiques a outros. Oh quantas guerras. ainda que tremulassem vitoriosas suas católicas bandeiras. ou como cometas tristes e funestos. crelam sem dúvida sua conservação e aumento: Ecce constitui te super gentes et super regna. ut evellas.

Domingos. era outro e não el-rei D. Sebastião e D.» Gemeu Portugal muito tempo. Clamava a profecia de Jeremias ao rei e príncipes de Jerusalém que se acomodassem com Nabucodonosor contra o qual não podiam prevalecer. pelo qual geralmente se esperava. Que diferente foi o de Ciro. em um dia perdeu a batalha. com o recado de que lhe queria aparecer: Domine bono animo esto: vinces. in qua atteniabitur proles. et non vinceris. e assim o provou com admirável consonância o cumprimento delas. Mas vamos às profecias do cativeiro e ao termo dos sessenta anos dele. prevaleceram estes enfim como o profeta tinha prometido. sem interesse. gemerá por muito tempo. sem partido. não esperadamente. senão dos mesmos Israelitas.e destes gemidos ficar o Reino órfão de seus reis. mas esta sujeição e este castigo. porque. pela mesma profecia que Jeremias e pelas de outros profetas. fora cobiça e não razão tê-las por falsas na promessa da liberdade. ajuntando-se às outras de Espanha. e que sua coroa. sed propitius tibi Deus insperate ab insperato redimet: «Portugal por orfandade do sangue de seus reis. (de cujo espírito profético se dará notícia em seu lugar) diz assim: Lusitania sanguine orbuta regio diu ingemiscet. Assim o diziam as profecias. Afonso Henriques. sem obrigação nem reconhecimento. a conquista a coroa a vida. Dilectus es Domino. quis antes experimentar a fortuna da guerra que vir a honestos partidos com os Assírios. Contentou-se o gentio com o que Deus se contentava e não quis perpetuar a servidão.Anexo:Imprimir/ História do Futuro teimosamente insistia. porque muitos não esperavam. e o rei conheceu tarde a temeridade de seu conselho. estivesse sujeita a rei estranho. No juramento autentico de El-Rei D. em que se conta o miraculoso aparecimento de Cristo. E tanto que estes se acabaram (sendo gentio idólatra). antes desesperavam desta redenção. religloso português da ordem de S. porque o redentor. e não dos Portugueses. posuit enim super te et super semen tuum post te oculos misericordiae suae usque in decimam sextam generationem. tendo-as experimentado verdadeiras na sentença do cativeiro. porque os dois últimos — D. e foi ocasião desta sujeição . não quis o mesmo Deus que fosse perpétuo. S. mas porque quis antes esperar. senão por tempo determinado e limitado. quando Deus tinha limitado anos ao castigo. Henrique — faltaram sem deixar sucessão. que o cativeiro e sujeição dos Israelitas que ele tinha debaixo de seu império não queria Deus que durasse mais de sessenta anos. Creu as profecias sem serem suas ou de seus oráculos. Só faltou para total semelhança do caso de Babilônia e para imortal glória do Ciro de Espanha que a ação fosse voluntária e não violenta. porque gemeu por espaço de sessenta anos debaixo da sujeição de Castela. Frei Gil. será remido por um não esperado. prudente e famoso rei de Babilônia! Entendeu este mesmo excelente príncipe. mas Deus lhe será propício e. sua. João o IV. porque dispôs com tão notáveis sucessos a execução de sua liberdade e foi remido não esperadamente. sed in ipsa 37 . passando-a de um rei gentio a um rei católico! Quis Deus por seus altos juízos que Portugal perdesse a soberania de seus antigos reis. e remido por um não esperado. quando por sua própria pessoa quis fundar o Reino de Portugal. são bem notórias aquelas palavras mandadas anunciar ao rei pelo mesmo Senhor. e que este termo e limite fosse o espaço só de sessenta anos. os restituiu todos livres à sua pátria. vinces. Oh que caso tão parecido ao nosso caso! Oh que ação tão digna de se santificar e fazer cristã. como não devera nas promessas e lisonjas vãs de seus aduladores. mas foi-lhe Deus propício. fiado na potência de suas armas. Não podem as armas dar a vitória a Acab quando nas profecias está segura Ramoth. mas porque El-Rei Sedecias.

Duarte irmão menor de D. D. Duarte. De Claraval. El-Rei D. . mas nela atenuada tornará a pôr seus olhos. Manuel. 7. D. conservada em muitos arquivos deste Reino e divulgada fora dele muitos anos antes da nossa restauração: «Dou as graças a Vossa Senhoria pela mercê e esmola que nos fez do sítio e terras de Alcobaça para os frades fazerem mosteiro em que sirvam a Deus. depois da descendência de El-Rei D. 6. Henrique. Por outros modos também verdadeiros se faz esta mesma conta. João. mais fácil e mais conforme à mente da profecia e às circunstancias em que naquela ocasião se falava. Rei D. D. salvo se pela graveza de culpas por algum tempo o castigar. vencereis e não sereis vencido. Neste último rei se atenuou a descendência. João II. em uma carta escrita a El-Rei D. João III. 3. 8. porque nela se restituiu a coroa que Cristo então lhe dava. tornaria Deus a por seus olhos nela.» Até aqui a divina promessa. Sancho II. Sancho I. El-Rei D. Afonso IV. El-Rei D. Afonso Henriques.Anexo:Imprimir/ História do Futuro attenuata ipse respiciet et videbit: «Senhor. D. que quase não necessita de explicação. Bernardo». que chegue a termos de sessenta anos. Afonso V. A décima sexta geração de El-Rei D. El-Rei D. mas este temos por mais natural. atenuada no décimo sexto rei. D. cujo cumprimento é tão manifesto. 5. antes e depois dela. sendo restituída (como foi) ao Duque D. 4. porque ainda que não quebrou de todo. 11. 14. que no Céu lhe pagará. não será porém tão comprido o prazo deste castigo. João. D. Henrique. na qual se atenuará a mesma descendência. de rei a rei e de coroa a coroa) foi o Cardeal D. descendente do infante D. Mas neste fio único e tão delgado se veio a verificar que. 38 10. o II de Bragança. Pedro I. Sebastião. sois amado de Deus porque pôs sobre vós e sobre vossa descendência os olhos de sua misericórdia até a décima sexta geração. 12. 13. o qual em recompensação desta. como se vê pelo catálogo seguinte: 1. ficou por um fio. Afonso III. a respeito das cousas presentes e futuras do Reino. estai de bom animo: vencereis. João I. como se devem contar. Afonso Henriques (contando as gerações. Afonso II. com quem tinha particular e íntima amizade e correspondência. E1-Rei D. D. Dinis. Bernardo. D. El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei D. me disse lhe certificasse eu da sua parte que a seu Reino de Portugal nunca faltariam reis portugueses. El-Rei D. 16. 15. 13 de Março de 1136. 2. S. Fernando. o IV de Portugal e décimo sétimo dos reis portugueses descendentes do primeiro Afonso. e fio tão delgado e atenuado como era a única casa de Bragança. A carta é a que se segue. 9. profetizou com admirável clareza o termo dos sessenta anos de castigo e a continuação e sucessão de reis portugueses. Henrique. El-Rei D. Afonso Henriques.

arrogante e gentio. e sua liberdade. e que Ciro. o meu Cristo. nas cortes de Lisboa. porque se não hão-de conformar os homens com seus soberanos decretos? E porque se não hão-de contentar com o que Deus se contentou? Porque se não verá no católico Ciro de Espanha um ato de tanta justiça e generosidade. De maneira que por todas estas profecias consta claramente que ao Reino de Portugal haviam de faltar os reis portugueses e que esta falta havia de suceder no décimo sexto rei descendente de El-Rei D. e por um reino de tão poucas léguas de terra. e por este Reino que Castela restituir ou consentir a Deus (pois Ele tem já restituído). lhe pode Deus dar outros maiores e mais dilatados. João o IV. o meu ungido. foi Ciro tão amado de Deus. nas Cortes de Tomar. como S. Bernardo tinha profetizado. temer justissimamente que à resolução e porfia contrária sucedam 39 . e que se havia de chamar D. nem duvidou de o demitir de seu império. nem menos conhecido e celebrado no Mundo o reino de Judá. podendo de outra maneira (para que não calemos esta verdade). Tão liberal é Deus com os príncipes que não regateiam reinos nem estados com Ele. reparem seus prudentes e católicos conselheiros que o não era menos naquele tempo. trataremos larga e particularmente no cap. o meu Ciro. com que enriqueça e sublime sua coroa e amplifique o império de sua monarquia. mas também se cumpriu muito pontualmente que o castigo não chegaria a termo de sessenta anos. João: as profecias o disseram e os olhos o viram. muitas pessoas (de cujo espírito. e que o termo destes sessenta anos havia de ser no ano de quarenta. que Espanha podia esperar do desinteresse deste ato. em I3 de Dezembro de 640. como sucedeu ao mesmo Ciro. Quanto mais que por este ato de consciência. que lhe chamava o meu rei. El-Rei D. e que havia o Reino de gemer debaixo da sujeição estranha. e que esta sujeição havia de ser a Castela. e pelo merecimento deste obséquio e rendimento à-vontade divina lhe deu Deus em um dia o império dos Assírios. Por aquele ato de generosidade e desinteresse. Afonso Henriques. IX deste livro) não só predisseram a sujeição do Reino a Castela. que adiante poremos. e que naquele ano seria levantado novo rei de Portugal e que este se chamaria D. em que dá outro sinal manifesto (e também já cumprido). do tempo em que havia de faltar a coroa. como se viu no Ciro de Babilônia? Se Deus lhe deu o usufruto de Portugal por prazo somente de sessenta anos. como o mesmo Ciro reconhece havê-lo recebido da sua mão. que sem dúvida deviam ser muito grandes. e estes são acabados. em 26 de Abril do ano de I58I. e de tanto rendimento e obediência a Deus. porque hão-de querer e porfiar os homens em que o seja? Se Deus limitou esta sujeição ao termo de sessenta anos. qual era o de Judéia (igual com pouca diferença de Portugal). e que neste seria levantado pelos Portugueses rei novo. Pois se Deus não quis que a sujeição de Portugal a Castela fosse perpétua. Filipe o II foi jurado por rei de Portugal.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A condicional do castigo cumpriu-se por nossos pecados. que fazem 59 anos e cinco meses menos alguns dias. João. que era a primeira monarquia e universal do Mundo. ou sessenta anos não completos. porque El-Rei D. com todas as outras circunstâncias tão miúdas e particulares. como se verá no mesmo lugar. e que não havia de durar mais que sessenta anos não completos. dá em prêmio e recompensa a monarquia de todo o Mundo! Tais são os interesses (quando houvera algum maior que o de obedecer a Deus). Outra carta temos do mesmo santo escrita ao mesmo rei. mas que o fim de uma e princípio de outra havia de ser sinaladamente no ano de quarenta. a respeito dos sucessos futuros de Portugal. Finalmente. religião e cristandade. porque se há-de querer chamar ao domínio e prescrever contra o Céu? Se lhe parece cousa dura arrancar de sua coroa uma jóia tão preciosa como o Reino de Portugal. rei ambicioso.

desinteresse e obediência dá Deus uma monarquia. é o que Ciro. Se por um ato de justiça. regis Persarum. o segundo Baltasar e o terceiro Ciro. et ipse praecepit mihi ut aedificarem ei domum in Jerusalem.». não queira imortalizar seu nome e religião com outro decreto semelhante. Se Deus deu tantos reinos a Ciro. posto algum rei católico na mesma ocasião.ut cornpleretur verbum Dominini ex ore Jeremiae. e maior lástima será ainda que. rei dos Persas. et traduxit vocem in omni regno suo. I. e obedeceu com efeito. e observou em matéria tão grave e de tanto peso e interesse de sua coroa. «No ano primeiro de Ciro. etiam per scripturam. o rei e reino de Portugal. diz: O Rei do Céu me deu e fez senhor de todos os reinos do Mundo e ele me mandou que lhe edificasse casa em Jerusalém. imitação e memória. pelo que toda a pessoa que houver em meus estados pertencente àquele povo e reino. rei dos Persas (que só podia fazer uma ação tamanha e tão real um rei de espírito e espíritos mui levantados por Deus). e peço por reverência do mesmo Deus aos Reis Católicos. cap. por um ato de justiça. o mesmo Deus seja com ela. cabeça de Judéia. como dizem em suas provisões por graça de Deus. Lástima é que semelhante escritura não fosse de rei católico.. havia de ser o reino e povo hebreu libertado do cativeiro de Babilônia e restituído à sua Pátria. julgou que tinha obrigação de obedecer. veja quão legitimamente está restituído por elas. 40 . Leiam este decreto os reis e monarcas do Mundo. leia as profecias que neste livro vão escritas e já cumpridas. em que Ciro faz desistência do reino de Judéia e deixou aquele povo em sua liberdade. senão a seus próprios doutores e aos que mais duramente têm impugnado em nossos dias esta parte e defendido a contrária. e se pode tornar livremente para Jerusalém. chama preceito de Deus neste seu edito. rei dos Persas (quem assim começou a reinar não podia deixar de ter tão felizes progressos). rei não católico. como era demitir de si um povo e um reino tão notável. Não teve Ciro outro preceito ou mandado particular de Deus (como notam todos os expositores) mais que as profecias em que estava anunciado que. a este gênero de preceito assim escrito. no fim de sessenta anos. Se Espanha se quiser ver e compor a ele. Quero pôr aqui as palavras do Texto Sagrado. quae est in Judaea. ascendat in Jerusalem. dicens: Haec dicit Cyrus. porque o primeiro foi Nabucodonosor. porque não dará Ciro um reino a Deus. e não me creia a mim. sendo reis e possuindo os reinos. rex Persarum: omnia regna terrae dedit mihi Dominus. Quis est in vobis de universo populo ejus? Sit Deus illius cum ipso. Deus Caeli. coroa e liberdade. aqueles principalmente que. ainda quando fosse seu indubitavelmente? Mas o que eu só quero ponderar. e mandou apregoar em todos seus reinos por escrito firmado de sua mão este decreto: «Ciro. Não sei que possa haver mais claro espelho do nosso caso.. com tão pouco respeito ao mesmo Deus e à mesma graça armam seus exércitos contra os alheios. posto que não intimado com outra autoridade ou solenidade. E já a ordem das cousas naturais as teve menos dispostas a uma grande ruína. ambição e desobediência também poderia tirar outra. regis Persarum.Anexo:Imprimir/ História do Futuro efeitos também contrários. conforme o decreto ou preceito divino. e são o exórdio de sua história: In anno primo Cyri. Dizem assim no I Livro de Esdras. etc. de que ele já era o terceiro possuidor. a seus conselhos e a seus letrados ponderem. levantou Deus o espírito de Ciro. para se dar cumprimento à palavra divina declarada nas profecias de Jeremias. suscitavit Dominus spiritum Cyri. Siga-se a sua doutrina e não a minha advertência. e a estas profecias chama o rei sem fé preceito de Deu. por serem mui dignas de toda a ponderação.

sendo ditas como as de Caifaz. mas de futuros livres e contingentes. que havia durado quinjentos años. conozcale y reconozcale. para que. não só futuras. que ayer era subdito y labrador. senão algumas. diabólico ou angélico. Três cousas requer Palafoz. e que só podem ser ditadas e inspiradas por aquela sabedoria eterna a quem os futuros são presentes. que para historiar o de Saul impugnando a eleição de El-Rei D. fossem verificadas no mesmo príncipe e no mesmo Reino que ele queria impugnar e destruir. podia tantos anos prever nem conhecer sem revelação de Deus. não só damos a Palafoz três profecias. y elegido jostifique la jorisdiccion. que são as mais qualificadas e livres de suspeita. as de S. digale el Senor a que hora vendrá el dia siguiente. que essas profecias sucedam. senão trinta profecias. E quais são estas três cousas ou circunstancias? As mesmas que intervieram e sucederam na eleição e unção de Saul: Primeira. rigorosa e provada profecia. João o IV. e três vezes trinta. coh que el Profeta quede con quietud y sossiego de que áquello le mandò el Senor. duerman y piensem sobre ello. y ungido. me parecem ditadas por algum espírito e intento superior. Frei Gil. cujo nome se dissimula. bispo de la Puebla de los Angeles. el destinado al império. que a profecia não seja só uma. com maior elegância que decência. suceda la profecia buelva-se otra vez dezir que aquel es el hombre. haver profecia de ser Saul o destinado por Deus ao império. autênticas e justificadas com o testemunho universal do Mundo. buelva otra vez Samuel a la oracion. Se Palafoz pede profecias. e não profecias daquele dia. do conselho supremo de Aragão na sua História Real Sagrada. de tan rara y de tales y tan graves dependencias. para que a vocação do rei se justifique ser de Deus e para que os ministros que o ungiram (como Samuel e Saul) fiquem com quietacão e sossego de ser aquele o que Deus mandou ungir. que as tinha visto e lido. que nenhum entendimento humano. como as de Samuel foram três. Bernardo e de El-Rei D. como acabarse el gobierno de los Juezes. 41 . vayanse a sus casas los Israelitas. unjale. justifique su vocacion con algunas profecias y senales de lo que le ha de succeder despues de ungido. assim como estavam preditas e profetizadas. diz assim: Hazia-se una mudança tan grande en Israel. as quais se poderão ver no cap. e ponderando augusta e doutamente os sinais com que se havia de justificar para ser legítima e de Deus. Afonso Henriques mais de quinhentos. porque o afeto lhe fez corromper a pureza de seu estilo. com tão diverso e contrário intento. como se vê em tantos lugares. porque tantas são (se bem se distinguirem e contarem) as cousas diversas e profetizadas que ali se referem todas. como as de Samuel. el que antes era compañero avian de venerarlo por rey. de trezentos e de quinhentos anos antes. e sua mesma acusação seja um testemunho público e mais qualificado da justiça e justificação de nossa causa. trezentos anos e as de S. damos a Palafoz profecias. terceira. e todas públicas. Se Palafoz pede que a profecia não seja só uma senão algumas. llevele a su casa. Verdadeiramente estas palavras do bispo Palafoz: Cum esset pontifex anni illius. mais para contradizer o novo Reino de Portugal. que são as condições que propriamente se requerem para a verdadeira. senão de cento. escrita. y se tenga por principe legitimo y llamado de Dios al gobierno. João de Palafoz e Mendonça. VI deste anteprimeiro livro. Pues para cosa tan grande. e para que o mesmo rei ungido e eleito justifique sua jurisdição e se tenha por príncipe legítimo e chamado por Deus ao governo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro D. E tais são as que pouco antes alegamos porque as últimas havia cem anos que estavam escritas. segunda. ou três circunstâncias em uma. y começar el de los Reyes escogiase para principe un hombre.

42 . VI se verão as mesmas profecias declaradas e ajustadas com o sucesso. E se o verdadeiro profeta e primeiro autor desta profecia é Santo Isidoro. aplicando-as a primeira parte deste mesmo caso nosso. Fernando. João de Horosco e Covarrovias. sendo o intento e o assunto ou tema daquela profecia predizer os sucessos futuros de Portugal depois de sua restauração. e pela entrada dos reis castelhanos em Portugal. En que aora acà me vejo. e as demais desde aquele tempo até o ano de 663. mas a explicação é muito própria. Y dexar acá sua viña Y decir. porque. e não duvidando que dele falavam e dele se haviam de entender. com grande quietação e sossego dos ânimos. bastando e sobejando a décima parte das profecias já cumpridas. porque temos mais qualificado autor e mais autorizado profeta. semente de El-Rei D. esta casa es miña. con harta particularidad.. do Rey vejo (Vejo. Finalmente.] tengo notada una. tal a de El-Rei D. y [. E seguir con gran desejo. D. como se tem visto foi princípio muito conveniente à ordem dos mesmos sucessos começar pela sujeição do mesmo Reino a Castela. que se lerão no discurso desta História.. Liv. cap IV. com cujo efeito. no seu Tratado de la verdadeira y falsa profecia. seu restaurador. que não façam menção delas seus autores. e comentando à margem o seu mesmo texto. põe as trovas seguintes: Vejo. outras no mesmo caso e circunstancias de sua restituição. Mas vejamos de caminho que é o que diz Santo Isidoro. além de muitas outras que estão ainda por cumprir. que foi seu neto Filipe II. se Palafoz pede que as mesmas profecias sejam provadas e confirmadas com o sucesso assim antes como depois de o rei ser eleito e ungido no alegado cap. como de príncipe notoriamente chamado e destinado pelo mesmo Deus ao império. conforme a doutrina de Palafoz. para se justificar superabundantemente. tanto melhor. e como avalia esta ação do rei. Tal foi a eleição de Saul. o estoy sonando?) Simiente de rey Fernando Hazer un forte despejo. diz assim: — «. I. vejo. de que se não deve duvidar (como também provaremos). Não deixarei também de lembrar aqui que não são tão novas e desconhecidas em Castela as profecias ou esperanças de Portugal. el aver de jutar-se aquel reyno de Portugal con el nuestro. e não outro. y era aver leydo en] algunas prophecias como las de S. A tradução não é muito limada. João. Isidoro...» Até aqui no corpo do livro. algumas delas cumpridas antes da restituição e coroação de El-Rei D João IV.desta manera tuvo yo noticia de [un çapatero en Portugal que fue tenido por propheta. que a vocação daquele rei foi de Deus mandada e ordenada por ele e que a sua jurisdição é verdadeira e legítima.Anexo:Imprimir/ História do Futuro como é sentença comum dos teólogos e se provará larga e demonstrativamente em seu lugar. e tal a de El-Rei D. se irá cada dia confirmando reais e mais a mesma verdade. muito acomodada e muito bem deduzida. en que a mi parecer se dixo mucho ha. fundador do Reino de Portugal. Afonso Henriques. arcediago de Cuellar na igreja de Segóvia.

posto que visão de um caso tão dificultoso de crer. se isto. sem mais razão nem justiça que meter-se nela e dizer: «Esta casa é minha. Só se afogou Belém em sangue e nadou em lágrimas. porque foi despejo armado de poder e de exércitos. e este mesmo Santo Isidoro diz que o Reino se há-de restituir outra vez. como se dissera: Forte cousa é. está bem profetizado. Em seu lugar. e este mesmo texto. Senhores. neta legítima de El Rei D. e não entendo agora como. ou estou sonhando? Mas o efeito mostrou que não era sonho. porque às cousas feitas sem razão chamamos forte cousa. que em tom castelhano quer dizer desverguença. Manuel e filha herdeira do Infante D. Sei eu e sabe Portugal. do rei vejo. e profetizado no mesmo livro e no mesmo tempo. e alegado o mesmo doutor. Ora. e não (como devera ser) de justiça. em conseqüência. no ano de quarenta. se verá tão demonstrada a sua verdade. vejo. depois delas cumpridas e qualificadas com tão maravilhosos efeitos se lhos tem perdido a reverência. lágrimas. Mas se este mesmo autor. e que o seu rei se há-de chamar D. que não admitem à sucessão príncipe estrangeiro. acabemos de crer a Deus. nem nós o podemos enganar. como pela leis particulares do Reino. que nem Ele pode mentir. porque não hão-de crer os Horoscos e Covarruvias castelhanos nesta segunda parte da mesma profecia. 43 . o lugar do nascimento do Rei profetizado. em que agora cá me vejo». digo. Bem dito. vejo. será indigno de todo o juízo porfiar ainda contra elas depois de tão conhecidas. por isso haveis de dizer: «Esta casa é minha»?! Não debalde o santo arcebispo se espanta tanto de uma tal ação. Mas que efeito tiveram ou que façanhas obraram os exércitos de Herodes? Contra o rei e contra o reino que pretendia estorvar. João. assim como creram na primeira? De maneira que. nem esta ilação a que eu quero inferir. se viesse por força introduzir na casa alheia. Conhecia Herodes a verdade das profecias. quanto cuidado lá davam antes deste tempo e quanto temor se tinha de nossas profecias. Diz o Doutor Horosco e Covarrovias que nesta profecia está profetizado con harta particularidad. Basta. nenhuma cousa. que porque vos vedes metido na casa alheia. e quando profetizam que Portugal se há-de tornar a separar de Castela e se há-de restituir à sua liberdade. haver de juntar-se aquel reino de Portugal con el nuestro. Duarte. e que. Rei católico e descendente de católico. e despejo grande que estando em Portugal a senhora Dona Catarina. Mas não é este o meu intento. E pois o meterem se os Castelhanos em Portugal foi despejo. e esperar prevalecer contra elas por força de armas. que nenhum ódio nem interesse possa negar que são de Deus. e logo armou contra Ele a crueldade de seus exércitos. ou lhe chama também forte. são profecias. por antonomásia chamado o Rei Católico. e com muito maior particularidade. inquiriu por elas o tempo. Até aqui podia chegar a loucura e a cegueira de um mal aconselhado príncipe: crer a verdade das profecias. ainda duvida se era visão ou sonho: Vejo. nem o julgou assim o mesmo Santo Isidoro. senão visão verdadeira. e chamar-lhe despejo forte. não são profecias?! Não o havia de julgar o mesmo Horosco e o mesmo Covarruvias. razão foi também que os fizessem despejar. mas ainda esta conseqüência é mais forte. um rei que era descendente de Fernando.Anexo:Imprimir/ História do Futuro O nome que dá a esta ação Santo Isidoro é chamar-lhe despejo. queixas. e devendo preceder a todos os pretensores da coroa. como tenho prometido. que depois de a estar vendo com espírito profético. quando as profecias de Portugal profetizam que Portugal se há-de ajuntar a Castela. Forte despejo foi aquele. assim pelo direito comum da representação. e Castela também o sabe. Este é o fim sem outro fruto de tão desesperadas resoluções: sangue inocente derramado. só se ouviram em Ramá e no Céu as queixas e lamentações de Raquel.

estando sujeitos a Castela e debaixo de seus presídios. minar. porque não chegou a meter uma seta dentro dos muros de Jerusalém? Porque Ramath estava defendida com uma profecia de Miqueas. em Portugal. Mas deixados exemplos das Escrituras e profecias canônicas. quem quer guerrear contra Deus! 44 . na Ásia e na América. porque uma e outra vez não conquistaram Samaria. então poderão conquistar Portugal. apartando os olhos por um pouco de Portugal.Anexo:Imprimir/ História do Futuro lamentações. e não dos outros. tão novas e tão poderosas nações. tantas. acabe de entender que não peleja contra Portugal. acabe de entender Castela quem defende Portugal e contra quem peleja! Com mui desigual inimigo se toma. rei de Síria. para sujeitar todas as quatro partes do Mundo e ainda para escalar. se se acham seus exércitos com forças e poder bastante para conquistar Europa. senão contra a firmeza da palavra e promessas divinas. Vassalos eram do mesmo Herodes todos os que morreram em Belém: cobriu de luto o reino próprio. abalem. vencer em batalha os nossos exércitos. escalar e arruinar as nossas muralhas. ouçam também as nossas. as vitórias e outros maiores triunfos de Portugal estão também escritos com as mesmas letras e ditados pelo mesmo espírito. derribem. Perguntem a El-Rei José e a El-Rei Acab com as forças de dois tão poderosos reinos unidos. também foram ditadas. e tirar dele a Júpiter pois saibam que mais fácil será conquistar Europa. e aos trinta e dois reis que o acompanhavam. que. como filhos do Sol. romperam um tão luzido e poderoso exército formado mais de capitães que de soldados. o Céu. porque estava destinado por Deus ao domínio de seu verdadeiro Senhor e firmado com sua palavra. Talar as nossas campanhas. na África. mas fazer brecha na firmeza da palavra divina é impossível. desfaçam este castelo. e escalaram com tanta facilidade aquelas montanhas ou muralhas da natureza. senão porque estava escrito? Porque ontem. Pelejem primeiro contra a firmeza da palavra de Deus batam. bem pode ser. sendo tanto o número de seus soldados. Porque puderam romper os Portugueses os claustros impenetráveis do Oceano. defendido e armado como está com as promessas divinas: Coelum et terra transibunt. Considere Castela contra quem peleja. Não há muro tão gastado da Antigüidade e tão fraco em Portugal. que com um punhado de terra que cada um lançasse sobre ela (como eles diziam) a podiam sepultar? Perguntem ao soberbíssimo Senaquerib vencedor de tantas nações. e depois dele rendido. e conhecerá quão impossível é a empresa a que aspira. pelo mesmo espírito. senão porque estava escrito? Pois se a conservação. Jerusalém com uma profecia de Isaías. Reparem os famosos capitães de Castela e considerem seus prudentíssimos e experimentados conselheiros. e não pôde atalhar com tantos rios de sangue os progressos do que procurava impedir. e conquistaram nas outras três partes do Mundo. bater. em cujas pedras não esteja escrito com letras de bronze: Verbum Domini manet in aeternum. a que o seu general chamou castelos de Milão. na memorável batalha do Cano. sacudiram tão feliz e animosamente o jugo. como depois se verá. porque não conquistaram a Ramoth? Perguntem a Benedad. e em um dia restauraram sua liberdade. verba autem mea non praeteribunt. do que vencer e sujeitar Portugal. clamores. o Mundo e o mesmo Céu empíreo. sitiar as nossas cidades. Samaria com uma profecia de Eliseu. com partido tão desigual. que esperança ou desesperação é pretender conquistar a Portugal? Oh. com todo o estrondo de tantos mil carros de guerra e tão inumeráveis exércitos de pé e de cavalo. senão porque estava escrito? Porque. sendo de inferior autoridade. sendo um Reino tão pequeno. a liberdade e perpetuidade. senão dos próprios vassalos.

que tira os poderosos do trono e levanta a ele os humildes ou os humilhados. Não foi só a espada de Gedeão a que com tão poucos soldados venceu os exércitos dos Madianitas. E verdadeiramente foi grande dureza de entendimento imaginar Faraó que podiam prevalecer seus exércitos contra um dedo da mão de Deus. Notem muito estas últimas palavras os reis e seus conselheiros: At illi egressi erant in manu excelsa. Contra o braço estendido de Deus. mais forte é o de Aquiles. que quando Páris houve de ferir mortalmente o impenetrável corpo de Aquiles. juntamente: Gladius Domini et Gedeonis. nem ainda resistir? Este é aquele braço onipotente. quando escreveu aquela história: Induravit Dominus cor Pharaonis. com significação não fabulosa mas verdadeira. regis Egypti. Desengano. Bem sabe Castela (sinal é que o sabe bem. No dia memorável da restituição de Portugal (ou fosse milagre ou mistério). Se a mão do Altíssimo é a que assistiu aos libertados. tão conhecida do Mundo todo e tão temida e reverenciada de seus inimigos e invejada de seus êmulos. senão é que o juízo divino os leva ao Mar Vermelho e os chama lá alguma oculta fatalidade. assistida deles. Dizem as fábulas. Grande glória é de Portugal ter em seu favor o braço de Deus. quão gravemente se ofende Deus de que ninguém presuma cativar a quem ele liberta. cavalarias e exércitos contra eles. Mas é força que ela e nós confessemos que são maiores os poderes de Deus. Assim lho remoqueou Moisés. naqueles mesmos campos e naquela mesma província onde todos os anos trabalham e batalham os homens pelo derribar. Contra a espada de Gedeão naturalmente parece que haviam de prevalecer os exércitos madianitas. a desigualdade de Portugal pode resistir e prevalecer contra Espanha. et persecutus est filios Israel. uniu o deus Apolo a mão de Páris com a sua e ambas juntas dispararam a seta fatal. mas comparado o de Aquiles com o de Páris.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Não é nem pode ser nossa intenção diminuir as forças de Espanha. mas contra o Senhor dos exércitos. mas não foi menos honra e autoridade de Castela. Senhores meus. acompanhado de Apolo mais forte é o de Páris. Se Deus o deu. o que Ele levanta. pelo desfazer e pelo tirar a quem foi dado. at illi egressi erant in manu excelsa. mas a espada de Gedeão maneada pelo seu braço e pelo de Deus. e no mesmo ano em que Portugal se havia de levantar. Comparado o braço de Páris com o de Aquilles. como o podem os homens tirar? Se Deus o fez. que fosse necessário o braço de Deus a Portugal para se libertar da sua sujeição. Bem se viu neste caso. que força dá que possa prevalecer. O que Deus faz. mão por mão e braço por braço. nem escurecer a grandeza de sua potência. O dedo de Deus é este — lhe disseram os seus sábios: Digitus Dei est hic. em vão se cansa Faraó em tirar carruagens. como lhe tem resistido e prevalecido em tantos anos. nenhum poder humano pode prevalecer. o estamparam assim seus escritos) bem sabe Castela (digo) que Portugal com singularidade única entre todos os reinos do Mundo foi reino dado. é certo que a imagem de Cristo crucificado despregou publicamente o braço as portas daquele santo português que tem por graça própria sua recuperar o perdido. mas contra a espada de Gedeão e de Deus. pois chega a o confessar. só Ele o pode derribar. falemos e ouçamos como católicos. quanto mais contra toda a mão. tão horrendo. Não peleja Castela só contra os exércitos de Portugal. e que. bastou para livrar o povo de Israel do poder do grande rei Faraó o dedo de Deus. Menos que o braço e menos que toda a mão de Deus. como fez naquele dia. como o podem os homens desfazer? Se Deus o levantou. só Deus o pode desfazer. feito e levantado por Deus. como o podem os homens derribar? E se Deus prometeu que 45 . quando eles saíram do cativeiro.

ainda quando houvesse muitos deuses. que não seja o mesmo Deus. porque. primeiro ministro de Espanha.como o poderá ser de outrem? E se Deus prometeu de o estabelecer — stabilire. por racionais e por conselheiros.como o podem os homens arruinar? Acabem de conhecer os que se prezam de conhecer a Deus. os que seguirem os ditames deste conhecimento. a que os homens com nome especioso e significação verdadeira infernal chamaram reputação. mais justa. em ceder. para vaidade fantástica da opinião. que são homens.:» Se Deus é o monarca supremo e universal. se viu tão inopinadamente de conquistador. pelo qual o meu nome seja levado às nações estrangeiras. não pelo que ele é. batendo com o tridente os muros que ele mesmo tinha fundado. quanto sangue que ao depois se derramou estivera guardado nas veias ou se tivera de uma e outra parte empregado em serviço daquele grande Senhor. que no da guerra presente. nenhum juízo haverá no mundo católico. as trincheiras entradas. Volo enim in te et in semine tuo imperíum mihi stabilire ut deferatur nomen meum in exteras nationes: «Eu sou o fundador e destruidor dos reinos e dos impérios. Na prodigiosa batalha das Linhas de Elvas. Como se não estivéramos no mesmo Mundo em que ontem o mesmo monarca cedeu às Províncias Unidas dos Países-Baixos todos aqueles estados de que com tão diferentes direitos era herdeiro e legítimo senhor! Mas para o nosso caso não são necessários exemplos. E quando concedêssemos aos políticos que. mais prudente.Anexo:Imprimir/ História do Futuro na décima sexta geração atenuada poria os olhos nela para o restituir. foram: — Contra Dios no valen manos. costuma atravessar o Demônio aquela torpeza do Inferno. aparecendo e falando ao seu primeiro rei. só o mesmo Deus os podia arruinar. nunca se perde nem pode perder reputação. conquistado. e tenham-se por homens. que não estime e venere uma tal ação pela mais cristã. como tão prudente e tão católico capitão. tão verdadeiro e tão evidente se seguira desde aquele dia. porque é diverso de todos e de superior hierarquia. mas pelo que dirá o Mundo. 46 . que funda e desfaz os reinos e os impérios e com tão especia1 solenidade fundou por sua própria Pessoa nos reis portugueses de Portugal. Dizem que não convém à reputação do grande monarca das Espanhas desistir da empresa de Portugal. contra o qual não valem mãos nem validos? Contra a evidência e fé desta razão. e que os reinos fundados por um Deus. o exército desbaratado. nem ainda gentílico. Naquela noite em que Cristo por sua própria Pessoa fundou o Reino de Portugal. os fortes rendidos. os esquadrões rotos. as palavras com que se retirou. político. Se este ditame tão são. como há quem tanto à vista dos olhos de Deus queira triunfar sobre suas promessas e irritar seus decretos? Até a superstição dos Gentios conheceu a conseqüência desta verdade. nem têm lugar. se a reputação consiste no juízo dos homens. se deviam arrastar tantos respeitos sólidos e verdadeiros. e quero em ti e em teus descendentes fundar um império para mim. quem haverá. Se Deus o fundou em nós — in te — quem o poderá arrancar de nós? Se Deus o quis para si –mihi. obedecer a Deus e não resistir à sua vontade conhecida. quando o duque-general. antes se ganha a maior e mais qualificada de todas. Pelo mesmo fundamento e único em que se funda todo este discurso. em nenhum caso da paz e recíproca desistência das armas esteve mais segura e mais honrada a reputação de Espanha e de seu grande monarca. como eles falsamente ensinam. Esta foi a teologia com que os dois príncipes dos poetas no incêndio e destruição de Tróia introduziram ao Deus Neptuno. que não tem resposta. disse: Ego aedificator et dissipator regnorum alque imperiorum sum. que o possa desfazer e dissipar? Ponderem-se muito aquelas três cláusulas — in te mibi stabilire.

porque entenderam que o interesse de obedecer a esta razão era o maior de todos os interesses. de bárbaro. mais heróica de quantas honraram a memória dos maiores príncipes.» Não disse que não queria obedecer a Deus. como Senhor absoluto dos reinos e dos impérios. David. como demitir de si o domínio de uma nação inteira e tão populosa não pode duvidar de obedecer e se sujeitar à sua vontade. a reputação que granjeou com aquela teimosa resolução é a que hoje tem no Mundo. passando todo a David. e a maior circunstancia do caso é que. Quando Moisés foi notificar da parte de Deus a El-Rei Faraó. ainda que seja tão bárbaro e arrogante como Faraó e em matéria de tanto peso e interesse. mas em seu reinado lho dividiu Deus. é tão indigna e tão afrontosa resistência. Propôs Abner aos tribos que a vontade de Deus era que David fosse rei. e também dividi-los e parti-los quando é servido. ainda que se perdesse o mesmo estado. como acabamos de ver. Mas que razões tão fortes e de tanta eficácia foram as que representou Abner para persuadir e concluir tão breve e subitamente um negócio tamanho. que nenhuma razão de estado a pode justificar.Anexo:Imprimir/ História do Futuro mais generosa. que ficara privado do reino de seu pai. os pode dar e tirar inteiros quando lhe parecer.quoniam locutus est Dominus. que. e depois inteirou-lhe Deus o império e reinou sobre toda a Judéia. E porque Faraó o não fez assim. e muito mais a do mesmo rei? A razão foi uma só e esta que estou alegando: . nem conselheiros. ela se ajustou em um dia sem o mediador Abner sem haver em todos os doze tribos um só homem que falasse uma palavra em contrário. Resistir a uma razão tão evidente como a que diz — assim o quer Deus — . de obstinado de ímpio rei e de inimigo e destruidor (como foi por isso mesmo) de seu império. e não hei-de demitir a Israel. e que debaixo dela. e terá enquanto durarem os Livros Sagrados. não só ficava salva a honra e a reputação. e os outros onze tribos obedeceram e juraram por seu rei a Isboseth. Assim como o vassalo nunca pode perder a honra e reputação. senão ganhá-la em obedecer ao rei. em que os interesses. Seu filho Salomão logrou o mesmo império inteiro pacificamente. e deu parte dele a Jeroboão. segurá-la e acrescentá-la muito. 47 . ainda que gentio e sem conhecimento de Deus. Depois da morte de El-Rei Saul. começou com parte do reino de Israel. assim o rei nunca a pode perder em obedecer a Deus. E se buscarmos a raiz desta verdadeira razão.. senão ganhá-la. filho herdeiro do rei defunto. como o tinha declarado o profeta Samuel. que havia tantos anos tinha debaixo de seu domínio. e o fim notável em que vieram a parar foi que os onze tribos deixaram a Isboseth e voluntariamente se entregaram e sujeitaram todos a David. sendo ao parecer tão indignas as condições da paz. nem vassalos que repugnassem ou respondessem. mas honrada a mesma honra. no supremo domínio de Deus. que ontem era seu vassalo. achá-la-emos. senão que o não conhecia. e contra esta proposta não houve rei. de néscio. a honra e a reputação de todos estava tão empenhada. o tribo de Judá seguiu as partes de David. o que respondeu foi: — Nescio Dominum et Israel non dimittam: «Não conheço esse Deus. nem ainda o mesmo Isboseth. Seu neto Roboão entrou no império também inteiro. Seguiram-se bravas guerras entre um e outro partido. sem muito cavar. duraram sete anos. porque o príncipe que conhece a Deus.. que desse liberdade ao povo de Israel.

Antes do Reino de Israel se dividir entre Reboão e Jeroboão. Pelejaram os pastores de Abraão com os de Loth.Anexo:Imprimir/ História do Futuro O mesmo sucedeu ao império de Espanha nos últimos três reis dela. em sinal de que Deus o queria fazer rei de dez tribos de Israel. reputação e glória. não quis pelejar sobre a terra. é dizer como Héli ainda quando se visse despojado de tudo: Dominus est. não de meu discurso. porque o tribo de Benjamim. mas dar a paz. o Grande! Dai licença para que tenham entrada a vossos ouvidos os ecos destas últimas cláusulas. cortar um retalho para vestir e coroar outro? Ah! se os reis e monarcas considerassem que as púrpuras que vestem lhas . nem pode exceder um príncipe essa mesma fortuna mais que não querendo o que pode. in oculis suis faciat. sempre é generosidade. para que representem o papel de reis enquanto ele for servido! E se o Roboão de Israel se contenta com que lhe tirem dez partes do Reino e lhe deixem uma (assim o diz expressamente o Texto Sagrado: Porro una tribus remanebit ei. se lhe deixa dez? Oh! como se pode temer que chame Deus ingratidão ao que os homens chamam reputação! A maior reputação de um príncipe que conhece a Deus e reconhece seu supremo domínio. honra. profetizando. poderá ser menor crédito. e parte a El-Rei Roboão. por sua pouquidade não fazia número . Abraão. e destas doze deu dez a Jeroboão. Ó poderosíssimo monarca Filipe IV. As vozes de que eles se formam. é sempre verdadeira. Seu neto Filipe IV entrou no império também inteiro. e note-se muito. foi a maior glória do poder supremo. Seu filho Filipe III logrou o mesmo império inteiro pacificamente. que não se escrevem com 48 . porque não poderá Deus partir também a sua. que ficou a Roboão juntamente com o de Judá. Mas se em toda a idade tem decência e decoro a gentileza desta resolução. em que a grandeza de Espanha e sua potência. é o maior seguro de sua reputação! Pedir paz quem se não pode defender da guerra. e depois Deus executando. e não poder querer o que Deus não quer. ainda em termos tão apertados. porque se não contentaria o Roboão de Espanha. O grande poder é muito confiado.era outro Algarve em respeito de Portugal). tomou o profeta Ahías a sua capa cortada em doze partes. os do tio com os do sobrinho. Note-se aqui. quem pode fazer e apertar a guerra. Não pode dar mais a fortuna a um príncipe que poder o que quer. E se o profeta Ahías pôde partir a sua capa e dar parte dela a El-Rei Jeroboão. e da púrpura inteira que tinha dado ou emprestado a um rei. ainda é um ponto mais alto sobre a grandeza.empresta Deus da sua guarda-roupa. nos maiores anos ainda é incomparavelmente maior. inteirou-lhe Deus o império de toda Espanha. E se esta razão. Poder pôr em campo doze legiões de anjos. quod bonum est. quando os anos o chamavam mais para o Céu. senão porque a quer dar. sabe O que conhece os corações. quanto mais no caso presente. e deu a Portugal a parte que lhe pertencia. e mandar embainhar a espada a Pedro. que os profetas são os que dividem os reinos e os que os repartem: eles os dividem primeiro. que foi o que apartou a demanda. Filipe II começou a reinar com parte. e se o Roboão de Israel (como dizia) se contenta com que lhe tirem dez tribos e lhe deixem uma só parte. senão de meu desejo. não porque a há mister. mas em seu reinado lho dividiu Deus. e depois com a união e sujeição de Portugal. quando lhe tire o mesmo Dono um reino.

Capítulo IX: Verdade desta História. Ouvi a voz de um homem que nem das felicidades de Portugal espera. o signo debaixo de que nascestes — e seja este o último suspiro do meu afeto: nascestes no dia em que morreu o Rei dos reis e Monarca supremo do Mundo. que tereis conselheiros de grandes letras. maior sereis no fim dela se ao de Grande acrescentardes o de Justo. o que ainda se pode derramar. Com todo este desinteresse me atrevo. gostai o fel e não o passeis da boca. desinteressado vassalo que foi já vosso por sujeição. História do Futuro (Volume I. e depois deste texto e desta interpretação. e por coração muito acima dela. foi saber morrer. com que coroou todas as suas. que segurem e justifiquem as causas e tão dilatada e cruel guerra. Senhor. Se vos parece amargoso este trago. e sobre cristão espanhol. pois é aquele de que mais puramente se alimenta a Santa Madre Igreja e de que cabeça dela recebe os espíritos com que vivifica e anima seus mais distantes membros. A maior façanha de Carlos. Não queirais levar sobre vós e deixar sobre vossos filhos. firmai o título de rei com o de católico. vosso avô. porque vive fora da jurisdição da fortuna. a vos dizer de longe o que pode ser não tenhais ouvido de mais perto. por ama de tanto sangue derramado.Anexo:Imprimir/ História do Futuro outro fim mais que o de O agradar. Não se pode pagar a Deus o que é de Deus. mas ponham os reis diante dos olhos as letras e as balanças de Baltasar e examinem eles se os seus maiores se governaram pelos pareceres dos letrados. Com um texto santo mal interpretado quis o Demônio despenhar a Cristo. sem dar a César o que é de César. Que se não derrame sangue cristão. lhe ofereceu o reino que lhe não podia dar. nem ele havia de fazer. O tratado de uma boa e justa paz podia ser uma bula de composição geral. E seria grande desgraça perder o Reino eterno por um temporal já perdido. para dar exemplo de morrer a príncipes. e hoje é também vosso (posto que não vassalo) por afeto. Senhor. seja parte do sacrifício a repartição das vesti duras e leve embora a túnica aquele a quem coube em sorte. Merecestes na vida o título de Grande. e faça-se tudo diante de vossos olhos antes que os fecheis. que é rei e Senhor. Com uma inclinação da cabeça podeis deixar pacificado o Mundo. Ponde os olhos neste soberano exemplar. Ouvi. este o troféu maior de vossas vitórias. Deixai a paz por herança a vossa esposa. Com esta obra tão consumada. pois sempre prezastes mais o de católico que o rei. Grande sinal é de predestinação de um príncipe que faça Deus por ele as restituições que nem seus predecessores fizeram. como o Reino de Portugal e suas Conquistas: basta haver-se de dar a mesma conta de Ormuz. nem das vossas teme. Os textos são da justiça. de Ceilão. do Brasil. Senhor. Lembro-vos. Senhor. de Malaca. Esta será a maior prenda do vosso amor. e de que todo os príncipes católicos O agradem. por estado muito abaixo da sua roda. Felicidade é levar já abatida das contas que se hao-de dar a Deus uma partida tão grossa. a voz de um estrangeiro. o que só importa. ou os letrados pelos interesses dos reis. as interpretações podem ser da lisonja. com que se levassem purgados todos estes encargos. perdidos pela desatenção dos ministros ou pela intenção (que será pior) dos políticos. podeis entregar a alma segura nas mãos do Padre. Declara-se o modo com que se pode conhecer e saber os futuros) por Padre Antônio Vieira 49 . Não duvido.

o que só agora podemos e devemos fazer é levar a candeia das profecias diante. o sol que há-de amanhecer é o cumprimento delas. possamos entrar com eles no lugar escuro e caliginoso dos futuros e ver e conhecer com a luz não nossa. Pedro: Mas ainda que a candeia esteja na mão de outrem. porque só Deus a pode dar e a dá. et facta est lux. o que eles viram e conheceram com a sua. quasi lucernae lucenti in caliginoso loco. e 50 . não duvidamos da pia afeição de todos. Confesso que entramos em um caos profundíssimo e escuríssimo. para que. Trevas que faziam horror. e dizendo humilde a Deus com David: Lucerna pedibus meis verbum tuum. Este é o modo com que. não coroa os nossos montes. das quais diz o Texto Sagrado: Factae sunt tenebrae horribiles in universa terra Aegypti. e porque esta parecerá muito dificultosa. não aparece. antes que vamos mais por diante.factum est verbum Domini in manu Aggaei prophetae. nemo vidit fratrem suum. e a ver claramente e com maior certeza tudo o que elas encobrem: Habemus firmiorem propheticum sermonem. e muitos passos nelas. Lugar escuro e caliginoso é o futuro. sosseguemos o escrúpulo ou receio (quando não seja o riso e o desprezo) dos que assim o podem imaginar.. e os porá mui seguros. E geralmente das profecias de todos os profetas: Sicut locutus es de manu puerorum tuorum prophetarum. E pois pedimos aos leitores o assento da fé. nec movit se de loco in quo erat. como ali não faltou: Spiritus Domini ferebatur super aquas.. e far-se-á o que só Ele pode fazer: Fiat lux. justo é que lhes mostremos primeiro os motivos da credulidade. quando e a quem é servido: Non enim voluntate humana allata est ali quando prophetia. as quais devemos observar e atender. cui benefactis attendentes. foram aquelas do Egipto. e tão sua. As maiores trevas que se viram no Mundo. dirá Deus o que so Ele pode dizer. saberá contudo onde há-de pôr os pés. porque com o lume da profecia entravam nos lugares escuríssimos e secretíssimos dos futuros e viam neles claramente aquelas cousas para que todos os outros homens são cegos. Pedro nos ensinou a entrar nestas trevas sem medo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A primeira qualidade da história (quando não seja a sua essência) é a verdade. Nesta propriedade fala a Escritura. será razão que. Serão pois as primeiras fontes desta nossa História. E enquanto este sol. Tais são as trevas. sed Spiritu Sancto inspirati locuti sunt sancti Dei homines — diz S. pois a matéria é tanto para crer. Por isso os Profetas na Sagrada Escritura se chamam por antonomásia Videntes. usando delas como de candeia luzente em lugar escuro e caliginoso. alumiados e guiados da mesma luz os que não somos profetas. que será muito formoso e alegre. nem basta estudo ou diligência alguma para a alcançar. et lumen semitis meis. donec dies elucescat: «Temos — diz o Príncipe dos Apóstolos — as profecias e palavras certíssimas dos profetas. e ninguém as pode ver senão alumiado da mesma luz. o Apóstolo S. até que amanheça o dia». e tal a escuridade do futuro. ou com que o Mundo se não viu. e porventura impossível na História do Futuro. havendo a nossa História de caminhar por passos tão escuros e dificultosos. e a dar passo. E da profecia de Malaquias: Onus verbi Domini ad Israel in manu Malachiae. a candeia que alumeia são as profecias. De maneira que pôs Deus a profecia como candeia na mão dos profetas. quando diz da profecia de Ageu: . Contudo. de que se pode dizer com toda a razão: Tenebrae erant super faciem abyssi Mas neste mesmo abismo de trevas. também se podem aproveitar da sua luz os que se chegarem a ela e a forem seguindo. Eu conheço e confesso que a não tenho. trevas com que nada se via e trevas com que se não podia dar passo. seguindo sempre os raios deste farol divino. e com a sua luz (ainda que luz pequena) entraremos no lugar caliginoso e escuríssimo dos futuros. se o espírito do Senhor (como esperamos) nos não faltar com a sua assistência. e veremos o que neles se passa.

há alguns que totalmente são proféticos. tira conclusões teológicas. para vir em conhecimento dos mistérios. Paralipamenon. ajustando. pois só eles os conheceram. Assim que podemos dizer em uma palavra que a primeira e principal fonte e os primeiros e principais fundamentos de toda esta nossa História é a Escritura Sagrada. no qual modo de fábrica se não perde a primeira verdade dos fundamentos. e estes são os que têm maior crédito e autoridade nas cousas daqueles tempos. de princípios sobrenaturais não evidentes mas certissimamente conhecidos. muito louvável e muito recomendado do mesmo Mestre Divino e seus sucessores. o qual. senão no mesmo corpo. com que vem a ser um só livro e um só Autor o que nela principalmente seguiremos: o livro. e todos os outros. Deste modo crescem e se aumentam todas as ciências. a Escritura. ou juntamente doutrinais e históricos. scrutantes in quod vel quale tempus significaret in eis spiritus Christi praenuntians eas quae. Sobre estes fundamentos da primeira e suma Verdade entrará o discurso como arquiteto de toda esta grande fábrica. exceto o profeta Jonas. Deuteronômio. que são somente os Profetas. Eclesiastes. como o Gênesis. como o Levítico. Pedro que os Profetas antigos. os Cantares e o Apocalipse. contêm ou muitas ou algumas cousas proféticas. assim a teologia. ainda que sejam meramente históricos. Reis. Eclesiástico e as Epístolas dos Apóstolos. Josias. não só as naturais.Anexo:Imprimir/ História do Futuro os primeiros e principais escritores a quem nela seguiremos todos ou quase todos os profetas canônicos. Assim como a filosofia de princípios naturais evidentemente conhecidos tira conclusões certas. também científicas e ainda mais certas. ou cousa nova e desusada na Igreja e escola de Cristo. Job e os Evangelhos. combinando. quando servirem ou puderem servir (que não será pouco) ao conhecimento e inteligência dos tempos futuros. como a árvore em suas raízes. Números. passiones et posteriores glorias. Josué. ordenando. devemos recorrer e buscar a verdade e notícias da nossa História nos autores dos tempos futuros. assim nós que escrevemos do futuro. que nelas não estejam imediatamente expressados. nem atrevimento do entendimento e discurso humano. é alheio da reverência que se deve aos oráculos divinos. mas vai crescendo. também canônicos. dilatando-se e frutificando. Assim como os que escrevem anais ou histórias passadas e antiquíssimas. dispondo. e particularmente determinado à história dos Ninivitas. de todos estes nos ajudaremos também. Nem este modo de discorrer sobre as profecias e revelações proféticas. porque. não em diversos. como Provérbios. Quer dizer S. evidentes e científicas. diz assim no primeiro capítulo de sua primeira epístola: De qua salute exquisierunt atque scrutati sunt Prophetae qui de futura in vobis gratia prophetaverunt. depois de lhes serem revelados com lume sobrenatural e eles conhecerem e profetizaram mistérios futuros (como os da paixão e glórias de Cristo) sobre os mesmos mistérios e sobre as mesmas suas profecias inquiriam e especulavam de novo com o lume natural do discurso muitas circunstancias que lhes não 51 . desde Isaías até Miqueas. o Autor. todos os outros. antes estudo muito lícito. E porque entre os outros Livros Sagrados. cujo assunto foi um só. Pedro (primeira e infalível regra da Igreja). Temos desta matéria um excelente texto do Apóstolo S. Sabedoria. falando das mesmas profecias e profetas. como os Salmos. Christo sunt. senão as divinas. concorreram para a fábrica deste novo edifício. mais ou menos. Deus. e por isso se chamam e são ciências. recorrem aos autores mais antigos. sucessos e tempos futuros. inferindo e acrescentando tudo aquilo que por conseqüência e razão natural se segue e infere dos mesmos princípios. assim do Velho como do Novo Testamento. ou meramente doutrinais. Esdras e Macabeus. posto que não evidentes. segredos.

pois de nós e para nós falam os Profetas. estudo e indústria própria. conhecendo delas e por elas muitas cousas que nelas imediatamente não estava reveladas. sucessos e circunstâncias que nelas estavam ocultas e pela conferência e conseqüência do mesmo discurso se vão entendendo e descobrindo de novo. e assim como se há mister necessariamente a sua luz para conhecer os futuros. Mas porque as profecias por sua natural escuridade não são fáceis de entender. se vai propagando. De sorte que. no sentido em que o digo vinham a inferir e alcançar pelo estudo e especulação natural e própria o que Deus lhes não tinha manifestado pela revelação sobrenatural e divina. como diz o mesmo texto de S. quam brevi. XV dos Atos dos Apóstolos faziam os mais doutos cristãos da primitiva Igreja. ambos doutissimos expositores deste lugar. A palavra. as que ouviu a Simeão. as palavras que os pastores referiam ter ouvido aos anjos. e ao mesmo Cristo Menino. ajuntando o lume natural do d curso ao lume sobrenatural da pirofecia. e mais abaixo: Quibus revelatum est quia non sibimetipsis. quando o achou entre os doutores. É isto o que nós fazemos e devemos fazer. vobis autem mintistrabant. inferia e descobria outros mistérios ocultos e profundíssimos. e muito mais. Pedro nas palavras citadas: . Eplicabant quae Messias primum passurus. lendo. a Ana a profetiza. com a luz que dela se vai produzindo.. nec tamen salten omnes. definite sciebant quo tempore veniret et quali.. quae allaturus erat. Isso quer dizer: In quod vel quale tempus.vel lectionis. curam et studium et industriam naturalem vel meditationis. que nas mesmas palavras não estavam expressamente declarados. e o que Cristo mandou a todos que fizessem. vinham a estender e adiantar muito as mesmas profecias. quam postea gloriam consecuturus et collaturus etiam esset. dizendo por S. assim o lume natural do discurso. vel disputationis. e a palavra no qual tempo significa as qualidades e circunstâncias do mesmo tempo. et ratiocinando. quo statu Reipublicae Hebraeorum. senão também. O mesmo diz Salmeirão. e ambos trazem em confirmacão o exemplo da Virgem Maria. isto é. multiplicando e difundindo por todas as partes vizinhas e ainda distantes. Esta segunda luz 52 . atque conjecturando disquirebant. E pois os Profetas profetizavam para nós e as cousas nossas. da guerra. difundindo e estendendo a muitas cousas. conforme a sua menor ou maior esfera. Isto mesmo é o que se diz no cap. e delas. disputando e meditando. razão é que nós como nossas as entendamos. e os acontecimentos particulares da paz. por discurso natural. com ser alumiada sobre todas as criaturas. an belli. captivitatis. se hão-de ver e suceder no Mundo: Deprehendebant Prophetae instinctu spiritus Messiae ejusdem Messiae adventum et gratiae dona.proprie indicant. das repúblicas. onde a versão siríaca tem: Nostra nobis: vaticinabantur. at ignorabant circumstantiam tem poris. do cativeiro. Isto é o que literal e genuinamente significam aquelas palavras: «Exquisierunt et scrutati sunt. L: Scrutamini Scripturas.qui de futura in vobis gratia prophetaverunt. ou mais vizinho ou mais distante. aut pacis. da liberdade e outros semelhantes que no mesmo tempo.. com o cuidado.. da qual diz o Evangelho: Maria autem conservabat omnia verba haec conferens in corde suo. nossa Senhora.. em que tempo significa a determinação do tempo certo em que as cousas hão-de suceder. o estado dos reinos.. aut libertatis.» Exquisitio et scrutatio (diz Lorino) . Conferia a Senhora. como as do tempo estado do Mundo em que os mesmos mistérios se haviam de obrar e as suas mesmas profecias haviam de suceder. Desta maneira. é também necessária outra Segunda e nova luz para as entender a elas. das nações.Anexo:Imprimir/ História do Futuro foram expressamente reveladas. Bem assim como o sol ou candeia (que era a nossa comparação) não só alumeia com a luz que está ao lume ou fogo que nela se sustenta. Atèqui Lorino. tempos. João na cap.

senão ainda. Era aquele labirinto por uma parte muito escuro e por outra mui intricado. e muito mais. E porque o Espírito Santo. a que por isso chamamos Anteprimeiro. aprovados e canonizados pela Igreja. candeia acesa: Neque enim accendunt lucernam et ponunt eum sub modio. com que alumiaremos as profecias. mas diremos o tempo em que escreveram as obras proféticas que deles existam.Anexo:Imprimir/ História do Futuro serão aqueles a quem Cristo chamou luz do Mundo: Vox estis lux Mundi. Por este modo entraremos também nós pelo escuro e intricado labirinto dos futuros. pelas mesmas causas. na forma possível. e depois daqueles seus primitivos anos houve sempre novos profetas. ou por outros fundamentos sólidos da razão. senão igualmente nos antigos e sagrados. e não só provaremos quanto for necessário o espírito da profecia destes autores. Procuramos quanto nos foi possível que fosse mui exata esta diligência. João). e não só falaremos nos autores e Profetas modernos e não canônicos. com que alumiaremos e descobriremos os futuros. Isto é quanto às profecias e Profetas canônicos. poderemos entrar neste labirinto com todo o aparato e prevenção de instrumentos com que se entrava seguramente no de Creta. não só com tocha. como dos seguintes tempos. não deixou de ilustrar e ornar sua esposa a Igreja com o lume e dom da profecia. pela ordem que a necessidade ou ocasião o for pedindo. Não meteremos porém nesta conta senão aquelas profecias somente que. por ser este não só o principal. Por esta causa se não acharão porventura neste nosso discurso menos algumas que em nome de profecias andam entre o vulgo. assim dos seus. depois de fechado o número dos livros e os escritores sagrados (o qual se cerrou no Apocalipse de S. mas o único fundamento de toda a sua verdade. e em segundo os Padres Doutores da Igreja e expositores das Escrituras divinas. que com menos necessidade o fizeram em 53 . senão preparação ou aparato para ela. experiência e opinião do Mundo. e. As profecias e os Doutores nos servirão de tochas. à imitação de Barónio e de outros autores. e outra as mesmas profecias. para a inteligência e combinação das mesmas profecias. por outras palavras. com uma breve relação também das mesmas pessoas (quando não forem geralmente mui conhecidas) pelo muito que importam todas estas notícias não só para a fé e crédito. mas também com fio: as tochas para ver o escuro dos caminhos e o fio para entrar e sair pelo intricado deles. A este fim empregarei grande parte deste presente livro na qualificação do espírito profético que tiveram todos os autores do futuro que na História se hão-de alegar. o entendimento e o discurso de fio. os quais seguiremos e alegaremos em tudo o que dissermos com estas duas luzes ou candeias: uma dos Doutores sagrados. e para vencer e facilitar estas duas dificuldades se inventou entrar nele. alumiados com o mesmo espírito. E posto que todo este tão largo Prolegómeno em rigor não seja História do Futuro. tenham. também estes darão matéria à nossa História. sem certeza de autor e muito menos do espírito com que foram escritas. e esta será a própria matéria de todo este livro. e é como alicerce de todo o edifício. merecido no juízo dos prudentes o nome e veneração de profecias ou predições verdadeiras. que por palavra e escrito predispuseram muitas cousas futuras. que grandemente depende do tempo e de outras semelhantes circunstâncias. e sem o qual vã e não merecidamente lhe devemos prometer o crédito que de todos os que a lerem esperamos. que são em primeiro lugar os Apóstolos sagrados. ou pela santidade de seus autores. a inteireza ou corrupção com que se tem conservado. Também excitaremos a este fim e resolveremos várias questões muito importantes ao conhecimento das profecias.

As outras cousas. ainda que intervenha no discurso algum meio ou proposição científica. é certo que têm toda aquela certeza infalível e de fé. nas do segundo. por sua grande variedade e diligente erudição de cousas curiosas. que será. verdadeira com certeza de fé. como em Deus esperamos. a História do Futuro igualará na verdade e na certeza. e ainda esta exceção se não deve entender em todo. que. se não distinguirá delas. nas do terceiro. que esta História do Futuro é mais certa e mais verdadeira que todas elas (excetas somente as Histórias Sagradas). por natural conseqüência. assim nas antigas como nas modernas. ou canonicamente. 54 . Daqui inferimos sem injúria nem agravo de quantas histórias até hoje estão escritas no Mundo. e que possa sem enfado entreter a expectação e desejo da mesma História. o mesmo Deus. todas elas estão cheias. como também terão advertido os mais lidos e versados. E digo que sem injúria nem agravo de todas as outras histórias humanas. o nome de história verdadeira. e conhecidamente supostas e falsas. esperamos que a matéria. mas formada e como tecida deles. que não é sujeita a erro ou falsidade. As profecias não canônicas podem ser tão evidentemente provadas por seus efeitos. não será injucunda aos que a lerem. posto que não em todas com igual grau de certeza. que as outras verdades sagradas que se contêm nas Escrituras. nem perigo de poderem não ser. se deduzirem. e pela maior parte até agora não tratadas. e por ambas tal certeza. verdadeira com certeza provável. ou por culpas ou sem culpa dos mesmos historiadores. mas alheias e encontradas com a verdade.Anexo:Imprimir/ História do Futuro suas histórias. pelo modo já explicado. qual é a das conclusões teológicas que. verdadeira com certeza teológica. enquanto não sai a luz. porque. pois são filhas e herdeiras da mesma Verdade de que tiveram seu nascimento Restam somente aquelas profecias que. por tradições. terão somente certeza provável naquele sentido em que dizemos provavelmente certas aquelas cousas de que há fundamentos prováveis para o serem. porque as cousas que expressa e imediatamente se predizem nas profecias canônicas. não sendo totalmente fé. ficam dentro dos lates da probabilidade opinativa. que é. ou por estarem explicadas por escritores também canônicos por concílios. não só de cousas incertas e improváveis. nas do quarto. muito brevemente. por melhor dizer. que é a que depois a fé e da ciência têm no juízo humano o maior assento. sendo a excelência singular desta História que toda ela. todas as outras conclusões que por natural e evidente conseqüência delas se deduzirem. ou pelo consenso comum dos Padres. ou por não averiguadas com tão evidente certeza (posto que sempre estabelecidas com bons e racionais fundamentos) ou por sua interpretação não ser tão manifesta ou recebida que não desfaça moralmente toda a razão de dúvida. por esta parte têm evidência. Estes quatro gêneros de verdade são os de que repartidamente se comporá toda a História do Futuro. como veremos que tenham toda a certeza moral. como as conseqüências que delas por formalização se deduzirem. nem somente ciência. na forma que pouco antes dissemos. le nestas. ou teológica. merecendo. que destas verdades assim profetizadas e conhecidas. assim o que imediatamente predizem. ou moral. De tudo o que fica dito ou prometido se colhe facilmente quanta será a verdade desta História. verdadeira com certeza moral. e a mesma participarão. são verdades segundas que participam a mesma certeza também infalível. de cuja inteligência por sua clareza se não pode duvidar. por ir toda (como vai) não só fundada nos mesmos textos e sentenças da Escritura divina. Nas do primeiro gênero. senão em parte. segundo todas suas partes. ou provável. será fundada na primeira e suma Verdade.

ou da ignorância. Capítulo X: Resposta a uma objeção: mostra-se que o melhor comentador das profecias é o tempo. com ter longe as causas do ódio e amor. que são as duas fontes da verdade humana e divina. sendo infalível que um só pode dizer a verdade e certo que nenhum a diz. que não vão envoltas em muitos erros. e desta mesma experiência e razões dela se qualifica claramente ser a nossa História do Futuro mais verdadeira que todas as do passado porque elas em grande parte foram tiradas da fonte da mentira. do Dilúvio. com os quais cotejado. empresa e ousadia. ou da sua. Não aponto erros em particular das histórias mais vizinhas a nossos tempos por reverência deles. a vingança. no capítulo antecedente. como são as de Noé. e todos na tinta de escrever misturam as cores do seu afeto. da divisão das primeiras gentes. Mas sobre esta resolução se pode dizer e argüir contra nós. os Lívios. Jerônimo. os Diodoros. e como há tantos centos de anos que estão escritas estas profecias. que mais merece nome de temeridade :que de confiança. que esta mesma candeia e luz das profecias há muitos centos de anos que está acesa. e todos os outros historiadores daquelas nações e tempos. ainda com maior evidência. no livro primeiro das Leis: Apud Herodotum patrem Historiae et apud Theopompum sunt innumerabiles fabulae. ou da malícia? Que historiador há de tão limpo coração e tão inteiro amador da verdade. os Trogos. Prova Tácito a verdade da sua história. mas nunca com conhecida vitória. que o não incline só o respeito. o amor. daquelas histórias de que temos verdadeira relação nas Escrituras Sagradas. como em pedra de toque. Gregos. e que ninguém contudo se atreveu até agora a entrar com ela por estes abismos e escundades do futuro. mas de aí se convence contra ele. os Cúrcios. que é a ignorancia e malícia humana. que é mais. aos quais (que sempre serão mais de um) responderemos facilmente com o seu mesmo argumento. ou da alheia nação. e não as sentenças sobre os processos. Egípcios. e não sub modio. O certo é que só tinha perto a ambição de seu próprio juízo. e principalmente a dos Hebreus. e nós para eles. História do Futuro (Volume I. Por isso Tertuliano lhe chamou com razão mendaciorum loquacíssimum. tanto mais se vão chegando para nós. os Heródotos. que também tinha longe as informações da verdade. apenas se acha cousa que não seja contradição da verdade. que com a candeia da profecia se podia entrar pela escuridade dos futuros e descobrir e conhecer o que neles está encoberto e enterrado. por mais diligente investigador que seja dos sucessos presentes ou passados. o ódio. leia a mesma história por diferentes escritores. E Cícero. e a nossa tirada do lume da profecia e acrescentada pelo lume da razão. tam graeco quam romano stylo mendacis ficta miracula. Os futuros. a lisonja. Das dos Gregos e Romanos disse S. Persas.) por Padre Antônio Vieira 55 Assentamos com o Apóstolo S. Medos. se contradizem e se implicam no mesmo sucesso. Mas isto mesmo se conhece. e verá como se encontram. sobre a qual batalham tantas vezes os mesmos historiadores. e desta é filha legítima a sua verdade. senão supra candelabrum. por ocasião do milagre da serpente: Cedaxt huic veritati. também há outros centos de anos . ou do seu ou de estranho príncipe? Todas as penas nasceram em carne e sangue. com que formava os processos para as sentenças. e porque fora matéria infinita.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Que historiador há ou pode haver. como nós prometemos fazer. o que escteveram os Berosos. as dos Assírios. Romanos. Quem quiser ver claramente a falsidade das histórias humanas. Pedro. quanto mais vão correndo. Estes foram os pais da História humana. que não escreva por informações? E que informações há de homens.

senão os nossos tempos. porque vai muita diferença de ver as visões de Deus ao longe. Fizeram na última hora o que os outros não fizeram todo o dia. porque a candeia de mais perto alumeia melhor. o Baptista o mostrou melhor. viu melhor e mais claramente que todos. não é muito que alcancemos e descubramos um pouco mais do que eles descobriram e alcançaram. aplicando a parábola de Cristo ao estudo da Sagrada Escritura. para que dele se possa alcançar o que de outros se não alcança. não basta só que a candeia esteja acesa. ao perto. e um pouco mais. é necessário que a distância seja proporcionada: Ut luceat omnibus qui in domo sunt. disse Cristo. não podia alcançar a ver o que os outros viam. Mui bem medimos a nossa estatura. Pigmeus nos conhecemos em comparação daqueles gigantes que olharam antes de nós para as mesmas Escrituras.erat lucerna lucens et ardens. e elas para os futuros. mas subidos por merecimento seu e fortuna do tempo a tanta altura.. e disse que a iria ver. mas basta ser o último. como os cavadores da vinha que vieram na última hora puderam ser avantajados aos demais. mais ou menos todos cavamos e. e por isso nós nos atrevemos a fazer hoje o que os Antigos não fizeram. 0 último degrau da escada não é maior que os outros. mas não se pode ver o que há em uma cidade. mas nós. Com una candeia na mão pode-se ver o que há em uma casa. Se estamos mais perto dos futuros com igual luz (ainda que não seja com igual vista). e conhecemos quão pequena. e ele disse: — Este é.Anexo:Imprimir/ História do Futuro que os futuros se vão chegando para elas. Um pigmeu sobre um agigante pode ver mais que ele. Os que estudamos e trabalhamos na inteligência da Sagrada Escritura. que tanto ornato. mas subido em cima da árvore. Non ergo undecima hora in vineam Domini ad operandum conductis nobis invidendum est — disse Lipomano na prefação de seus Comentários. e que apenas se pode entender. Estava vendo a visão. Cousa maravilhosa é. vemos hoje o que . ou vê-las ao perto. e estar em cima dos mais. Este é o modo com que os últimos podem vir a ser os primeiros. fazem aos antigos: nos antigos reconhecemos a vantagem da sabedoria. Esta é a diferença que não nós. e que disse? — Vadam et videbo visionem hanc magram: «Irei e verei esta grande visão». porque os não veremos melhor? Assim o confessou Santo Agostiho com ter os olhos de águia o qual.eles viram. Mas estes são os privilégios da última hora: Hi novissimi una hora fecerunt. os outros diziam: — Há-de vir. reservou a verdadeira inteligência delas para os vindouros. Ao longe viu só Moisés a sarça e o fogo. A mesma luz e a mesma candeia ao longe vê-se. pode suceder que os que vêm na última hora por felicidade da mesma 56 . ainda que tivessem acesa a mesma candeia. As visões e revelações de Deus vêem-se melhor ao perto que ao longe: de longe viu Moisés a visão da sarça. e ainda que todos os outros Profetas anunciaram a Cristo. quão desigual) quão inferior é. achando-se às escuras em muitos lugares das profecias. Para ver com uma candeia. tanta grandeza e majestade acrescentaram ao edifício da Igreja. porque eles com outros acabaram a obra que os outros sem eles não puderam nem podiam acabar: Sic erunt novissimi primi. e sobre eles por benefício do tempo. antes pode ser menor. como vive mos depois deles. e com os pés no chão. entendeu o que aquelas figuras significavam. Entre a multidão dos que acompanhavam e rodeavam a Cristo. porque era candeia de mais perto.. nos nossos a fortuna da vizinhança. o mais pequeno de todos era Zaqueu que por si mesmo. Eles sem nós viram muito mais do que nós podemos ver sem eles. e ao perto alumeia. 0 grande precursor de Cristo . comparada com aqueles cedros do Líbano e com aquelas torres altíssimas.

era o termo da navegação do mar Oceano junto somente à costa de África. enquanto ele quer que estejam encobertos e escondidos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro hora acabem. porque. meses e anos sem acharem o que buscam. sendo os mares que depois dele se seguiam. e confessando-se por mínimo de todos. que já o não alcançou. Aparecia ao 57 . XIII de S. e cansaram todos e no cabo descobre o tesouro quais sem trabalho aquele ultimo para quem estava guardada tamanha ventura. e se confessa por mínimo de todos: Mihi omnium sanstorum minimo. quando chega o tempo determinado e predefinido por Deus para que seus segredos se conheçam e descubram no Mundo. sucede vir um mais venturoso que. e cavando alguma cousa de novo descobre a poucas enxadadas e tesouro. porque não bastam as forças da sabedoria e entendimento criado. só então. O que se descobriu é um segredo escondido a todos os séculos passados: Sactamenti absconditi a soculis in Deo. secundum praefinitionem saeculorum. porque costuma Deus ter algumas cousas encobertas e escondidas por muitos séculos. diz Ruperto Tertuliano. foi no século que Deus tinha predefinido e determinado: Secundum praefinitionem saeculorum. Crisóstomo. descendo sem trabalho ao profundo da mesma cova. quem o descobriu. que foi no ano da criação do Mundo I80I. multiformis sapientia Dei. Mateus. Desde que Túbal começou a povoar Espanha. I428. ut innotescat principatibus et potestatibus in caelestibus per Ecclestam. porque esta ventura não é privilégio dos entendimentos. o tornará ou não. Finalmente. até o de Cristo. Nas quais palavras se devem ponderar muito quatro cousas: Que é o que se descobriu. Jerônimo com mais estrita propriedade o entende particularmente das escrituras proféticas Quantas vezes os que trabalham no descobrimento de algum tesouro. senão prerrogativa dos tempos. Paulo. e S. disse verdadeira e judiciosamente S. descubram com poucas enxadas o que muitos em muito tempo e com muito trabalho. et vilis invenit. quod magnus et sapiens vir praeterit. que é a Escritura Sagrada. nem viu. Aquele tesouro escondido de que falou Cristo no cap. cavando muito mais. e depois de estes cansados e desesperados. nem ouviu neste Mundo como os demais. não descobriram. conforme a ordem e disposição de sua Providência. porque bem pode o último e o mínimo alcançar e descobrir os segredos que os primeiros e maiores não alcançaram. et illuminare omnes quae sit dispensatio sacramenti absconditi a saeculis in Deo. cavam por muitos dias. o cabo chamado de Não. S. e logra é fruto dos trabalhos e suores dos primeiros? Assim aconteceu no tesouro das profecias: cavaram uns e cavaram outros. João Crisóstomo. e quando . quando se descobriu. 0 último dos Apóstolos foi S. a quem se descobriu. para conhecer e penetrar os segredos altíssimos de Deus. A quem se descobriu foi não menos que aos espíritos angélicos das mais superiores hierarquias do Céu: Ut innotescat principatibus et caelestiu. Quem o descobriu foi o último de todos os apóstolos 9 discípulos de Cristo. que era provérbio entre eles (como escreve o nosso João de Barros): quem passar o cabo de Não. a qual sempre é do último Eis aqui como pode acontecer que descubram o tesouro os que cavam menos: Saepe abseptus quisquam. ainda que seja de um anjo e de muitos anjos. Assim que bem pode um homem menor que todos descobrir e alcançar o que os grandes e eminentíssimos não descobriram. confessa ter recebido a graça de descobrir aos mesmos anjos do Céu os tesouros que lhes estavam escondidos: Mihi omnium sanctorum (diz ele na Epístola aos Efessos) minimo data est gratia hoec in gentibus evangelizare investigabiles divitias Christi. qui omnia creavit. tão temorosos aos navegantes. e de nenhum modo antes. se podem manifestar e entender. se descobriu. em que se passaram mais de 3600 anos.

. ao Mundo e ao mesmo Oceano que também o não navegado era navegável. depois de um anjo lhe ter declarado grandes mistérios dos tempos futuros. foi o primeiro que. diz breve e sentenciosamente: «E a este seu propósito se ajuntou a boa fortuna. Daniel. sondado este fundo e navegável e navegada a imensidade de mares que depois dele se seguem. não havia historiador que de ali adiantasse um momento a conta de seus anos e dias.>> E verdadeiramente é assim: enquanto não chega a hora determinada por Deus. chamado Gil Eanes. cuja passagem.:>> Este é o sentido literal e verdadeiro destas palavras do anjo. há cousas de tal modo fechadas e seladas. demos os louvores a Deus e às disposições de sua Providência. No cap. o qual feito ponderando o nosso grande historiador com seu costumado juízo. claude sermones et sigra librum. nas escrituras dos profetas. e haverá sobre a inteligência de seus mistérios grande variedade de ciências e opiniões. venceu felizmente o cabo em uma barca. Mas se agora virmos desfeitas estas névoas. de horrores. como se pode ver no IV capítulo da primeira Década. de escuridade. Daniel. plurimi pertransibunt et multiplex erit scientia: >>Tu. posto que elas são tão claras e expressas que não necessitam de comentador. para que estejam fechadas e seladas até o tempo determinado por Deus. e entendamos que se passou o cabo. de passar aquele cabo Bojador. fecharás e selarás o livro (em que escreveres estas cousas que tenho dito). como se pode ver em todos os comentadores de Daniel. entretanto passarão muitos por elas. mandou-lhe que fechasse e selasse o livro em que estavam escritas e lhe disse estas notáveis palavras: Tu autem. Mas quem ler o capítulo seguinte. basta Gil Eanes em uma barca para vencer todas essas dificuldades. o qual é o que só tem poder para romper os sigilos e abrir e fazer 58 . de cegueira. coberto de névoas. a hora em que Deus tinha limitado o curso de tanto receio. de impossíveis. dobrado este cabo. nem os Cipiões e Júlios de Roma. como pelo desengano de muitas experiências. por melhor dizer. o que confusamente se representava adiante ao longo deste cabo. de nuvens espessas. se reputava entre todos por empresa tão arriscada e impossível à indústria e poder humano. facilitada esta passagem. De maneira que. dispondo-se ousadamente ao rompimento de uma tamanha aventura. para pisar todos esses impossíveis e para navegar segura e venturosamente os mares nunca de antes navegados. tanto por fama e horror comum. o temerosíssimo Bojador do futuro. e isto por um piloto de tão pouco nome e uma tão pequena barquinha como a do seu limitado talento. usque ad tempus statutum. nem os Bacos. É admirável a este propósito um lugar do profeta Daniel. verá também como um homem português não de muito nome. que pode o Bojador ser vencido. para atalhar todos esses receios. que ninguém as pode entender nem declarar. Não havia pensamento que ainda com imaginação (que a tudo se atreve) desse um passo seguro mais adiante naquele tão desusado caminho. pelo muito que se metia dentro no mar. Mas quando chega a hora precisa do limite que Deus tem posto às cousas humanas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro longe deste o cabo chamado Bojador. XII de Daniel. como todos tinham. quebrou aquele antiquíssimo encantamento e mostrou com estranho desengano à Espanha. nem os Aníbales de Cartago. ou. com que demonstrativa e indubitavelmente se persuade e convence esta verdade nos próprios termos da inteligência das profecias em que falamos. de sombras. era a carranca medonha. Ali donde chega o presente e começa o futuro. até que chegue o tempo determinado pela Providência divina. Lusos. de medos. era até agora o cabo de Não. porque chegou a hora. e param suas empresas e ainda seus pensamentos no cabo de Não. desvanecido este escuro. Gedeões e Hércules de Espanha se atrevem a imaginar.

que nelas estavam ocultos e encerrados. mas não todo Juntamente. cuidam que passam os livros. senão em diferentes tempos. muito doutas. e com grande aparato de cerimônias e efeitos admiráveis no céu e na terra. et multiplex erit scientia. e não apartadas de seus efeitos. ou quando já forem chegando. É este mundo um teatro. e passam por eles: Plurimi perransibunt. João. os Sanches.Anexo:Imprimir/ História do Futuro patentes as escrituras fechadas e declarar os mistérios futuros. pendentes sempre de um sucesso para outro sucesso. mas porque lêem e estudam à luz da candeia. os Riberas? E por quantos passaram também estes. E assim como o primor e subtileza da arte cômica consiste principalmente daquela suspensão de entendimento e doce enleio dos sentidos. os Rupertos. E se quisermos especular a razão desta providencia. encobrindo-se de indústria o fim da história. Bem assim como antes de se acabar de todo a noite. que depois entenderam os Montanos. e a história verdadeira de seus sucessos uma comédia de Deus. Entre as cousas muito misteriosas que viu S. e por isso naquele misterioso livro. com que o enredo os vai levando após si. e nos tempos e nos efeitos estarão descobertas as profecias. Onde se deve advertir e notar que muitos homem ainda que sejam de grandes letras. os Ricardos. temos relatado este segredo da Providência divina. com que dispôs e tem decretado que as profecias se vão descobrindo e entendendo ordenada e sucessivamente aos mesmos passos. e para o qual reservou Deus a abertura dos seus sigilos? Signa librum usque ad tempus constitutum. soberano Autor e Governador do Mundo e perfeitíssimo exemplar de toda a 59 . o mistério destas pausas e intervalos era porque se haviam ir descobrindo as profecias que estavam escritas no livro. traçada e disposta maravilhosamente pelas idéias de sua Providência. Por quantos lugares passaram os Origgenes. os Cornélios. não porque os últimos sejam mais doutos ou de mais aguda vista. pelos resplendores da aurora se conhece a vizinhança do Sol. que depois en tenderam os Agostinhos. foram-se rompendo estes selos e abrindo-se o livro. dirão cousas muito discretas. com que vão seguindo e variando os tempos. sempre admirável em todas suas obras. os homens as figuras que nele representam. mas o certo e verdadeiro sentido delas sempre ficará oculto e escondido. que nelas estavam profetizadas. foi um livro fechado e selado com sete selos o qual era o seu mesmo Apocalipse. ou mais vagarosos ou mais apressados. ajudados e ensinados do tempo. sendo o mesmo tempo e os mesmos sucessos os que as abrissem e manifestassem. os Basílios. sem que se possa entender onde irá parar. ou depois de chegarem. os Teodoretos. que é mais certo intérprete das profecias. os Tertulianos. senão quando já vai chegando e se descobre subitamente entre a expectação e o aplauso. em que a Igreja de Cristo se vai continuando mais claramente que em nenhum outro lugar das Escrituras. sábios e santos que sejam os expositores daquelas profecias. e assim se haviam ir entendendo. assim como eram diversas as profecias e diversos os efeitos e sucessos da Igreja e do Mundo. não juntamente. os Clementes. senão igualmente com eles. De maneira que nas profecias estão encobertos os tempos e os efeitos. os Jerônimos? Por quantos passaram os Hugos. senão por passos e espaços: um selo primeiro e outros depois. acharemos que não é outra senão a majestade da sabedoria e onipotência divina. muito santas e muito várias. No Apocalipse (cujas profecias são próprias deste tempo). por mais doutos. porque passarão todos por ele sem entenderem nem penetrarem Isto quer dizer: Plurimi pertransibunt. antes que ele se veja descoberto nos horizontes. assim também eram diversos os selos com que estavam fechados e diversos os tempos em que se haviam de abrir e manifestar. E enquanto este tempo não chega. assim Meus. que depois entenderam melhor os que lhes foram sucedendo. ou a mais misteriosa de todas.

ou pode fazer. o entendesse senão no último ano. Daniel intellexi: Eu. falando de suas profecias. e não Daniel. o claro por claríssimo que seja 60 . donec faciat et cormpleat cogitationem cordis sui: in novissimo dierum intelligetis ea. et servient omnes gentes istae regi Babylonis septuaginta annis:<<Toda esta terra (diz Jeremias. e com este véu. XXIII: Non revertetur furor Domini usque dum faciat et usque dum compleat cogitationem cordis sui: in novissimis diebus intelligetis consilium ejus. que assim o confessa. servirão ao rei de Babilônia por espaço de setenta anos. com pasmo e assombro do mundo. ou sobre os olhos ou sobre a profecia. não de outrem. de quo factus est sermo Domini ad Jeremiam prophetam. filii Asssueri. não quis Deus que o mesmo Daniel. entendi nos livros o número de setenta anos. mas assim havia de ser. em que ela se cumpria. e todas as gentes que a habitam. diz ele. E esta parece a energia daquela sua palavra: Ego. com que sua mesma clareza se nos faz escura. Daniel. que teve o império dos Caldeus: Eu Daniel. sendo a profecia tão clara e o número dos setenta anos tão expresso.>> Estes setenta anos. sendo Daniel. diz que se não entenderão senão nos últimos tempos do cumprimento delas: No cap. Pois se o termo de setenta anos estava profetizado com palavras tão claras e expressas como são aquelas de Jeremias: Et servsent omnes gentes istae regi Babylonis septuaginta annis. como consta da exata cronologia que se pode ver largamente provada em Perério e rios comentadores da profecia de Daniel. anno uno regni ejus. quase pelas mesmas palavras: Non avertet iram indignationis Dominus. E no cap. Agora entra o caso e a admiração: Esta profecia de Jeremias. estando em Jerusalém) será assolada.profecia. não entendi a profecia tão clara de Jeremias. senão de si: In anno primo Darii. que Deus tinha revelado ao profeta Jeremias havia de durar a assolação de Jerusalém>> e cativeiro dos Judeus em Babilônia. ego. sendo Daniel.Anexo:Imprimir/ História do Futuro natureza e arte para manifestação de sua glória e admiração de sua sabedoria. XXV daquele profeta. ainda quando as manda escrever primeiro pelos profetas. é do cap. ut complerentur desolationis Hierusalem septuaginta anni: <<No ano primeiro de Dario. se acabaram de cumprir no primeiro ano do império de Dario. como diz Daniel. que. O tempo foi o que interpretou a . que nos não deixa compreender nem alcançar os segredos de seus intentos. ainda quando as profecias são muito claras. e diz assim: Et erit uníversa terra haec in solitudinem et in stuporem. que Daniel afirma que entendeu no primeiro ano do império de Dario. Eu o não crera. senão no último ano dos setenta. de tal maneira nos encobre as cousas futuras. onde. senão no primeiro ano de Dario. de semine Medorum. XX. descendente dos Medos. que as profecias se não entendam senão quando já tem chegado ou vai chegando o fim delas. que não entendeu o número destes setenta anos. que foi o último dos mesmos setenta? Podia haver conta mais clara? Podia haver palavras mais expressas? Não Mas como é regra ordinária da Providência divina. E é esta regra (com pouca exceção de casos) tão comum em Deus e seus decretos. se o não vira esento para maior admiração em um dos maiores profetas. Daniel. qui imperavit super regnum Chaldeorum. sendo Daniel um tão grande profeta. por isso. costuma atravessar entre elas e os nossos olhos umas certas nuvens. senão quando Já tem chegado ou vêm chegando os fins deles. porque assim o profetizou e o repete o mesmo Jeremias em dois lugares. E que fez Deus. filho de Assuero. para que umas palavras tão expressas e uma profecia tão clara possa parecer escura? Atravessa uma nuvem (como dizíamos) entre a profecia e os olhos. para nos ter sempre suspensos na expectação e pendentes de sua providência. intellexi in libris numerum annorum.

et (. A candeia está acesa e muito clara.. a inveja ou a lisonja. Como se hão-de entender as revelações com os entendimentos e olhos vendados? Não basta só que Deus tenha revelado os futuros. e que as cousas novas. e que distinguimos melhor porque vemos mais perto. e logo verão os olhos o que há nela. auferetur velamen. porque as quero remos ver por entre nuvens. por muito clara que nela esteja. porque estamos mais chegados aos futuros. como se pode entender a verdade da profecia. ou se não querem entender. velamen positum est super cor eortum. cum legitur Moyses. mas os véus que os homens lançam sobre os próprios olhos. como lhes lançou em rosto o grande Paulo Judeu e semente de Abraão. e tudo isto por beneficio do tempo.tenebrosa aqfxa in nubibgs aeris Em havendo nuvem em meio. História do Futuro (Volume I. et considerabo mitrabilia de lege tua. porque têm os olhos cobertos com aquele antigo véu de Moisés. e tais são as profecias. Se os olhos estão cobertos e escurecidos com o véu do afeto ou com a nuvem da paixão. digo que descobrimos hoje mais. só eles os podem tirar. a vingança ou o interesse. quando o primeiro intento e nega-la ou quando menos escurecê-la? As nuvens que Deus põe sobre a profecia. até a água e escura. do tribo de Benjamim: Usque in hodiernum diem. mas a casa não está varrida.. porque vemos sobre os passados. ou. não desmerecem o crédito de sua verdade. porque eles são os que querem ser cegos. por providência do Senhor dos tempos. Capítulo XI) por Padre Antônio Vieira 61 Declara-se qual seja a novidade desta História. porque todos os que cavaram neste tesouro e varreram esta casa. e contudo essa mesma água (como discretamente advertiu David). resumindo toda a resposta da objeção.. . vemos de mais perto. Oh quantas profecias muito claras se não entendem. porque não há cousa mais clara.) everrit domum. para o dizer melhor. E contudo estas são as que mais obstinadamente nega a cegueira judaica. Quando queremos encarecer uma cousa de muito clara. ou que tirem primeiro-o véu de sobre os olhos. e que trabalhamos menos porque achamos os impedimentos tirados.. como eles. cum autem conversu fuerit ad Dominum. por novas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro fica escuro. é necessário que revele também os olhos: Revela oculos meos. se os cega o amor ou ódio. mas nem se busca. tirem-se os estorvos e impedimentos à luz. foram tirando impedimentos à vista. De maneira que. e logo se verão a candeia e mais o que ela alumeia. e se achará o que se busca. mas varreu a casa:.. como se há-de ver com os olhos cobertos? Tire-se o impedimento à luz. Olhamos de mais alto. com uma nuvem diante.. e verão a luz das profecias: ainda que a profecia seja candeia acesa. Que profecias mais claras que as da vinda de Cristo ao Mundo? E muito mais claras ainda depois de manifestas e provadas com os mesmos efeitos. é escura: . Por isso pedia o mesmo David a Deus que lhe tirasse o véu dos olhos. porque olhamos de mais alto. por claras e claríssimas que sejam. nem se quer achar.. a esperança ou o temor. o tempo as gasta e as desfaz. e achamos os impedimentos tirados. para que pudesse conhecer as maravilhas dos seus mistérios: Revela oculos meos. Tirem o véu de sobre os olhos. ou que a não leiam. dizemos que é clara como a água. varra-se e alimpe-se a casa.accendit lucernam. A mulher que buscava a dracma perdida não só acendeu a candeia. e com véu sobre os olhos! Peço e protesto a todos os que lerem esta História.

si manifesti. que hoje adoptamos por canónica. zelo e elegância. para que não falemos nos Waldenses. Se escuras. João Crisóstomo. e para isso usais daquele novo silogismo..si manifesta.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Quando no princípio deste livro prometemos cousas novas aos curiosos. Quero pôr aqui as palavras deste grande e santíssimo doutor. como os outros escritores. Jerônimo: De vertendis autem in latinam linguam sanctis litteris laborare te nollem [ ] aut obscura sunt. Se o que era escuro. et hac lege post priores nullus loqui audebit. elegante e engenhosamente Santo Agostinho. como vos atreveis também a declarar o que eles não puderam? Se o que era manifesto. senão ao mesmo S. e se manifestas. qui nos in Domino praecesserunt et qui Scripturas Sanctas interpretati sunt. como por graça de Deus não tem. pela novidade do hábito e modo de vida! Digam-no as apologias de S. porque ou elas são escuras ou manifestas. e não é. A mesma Lei de Cristo chamada por sua novidade evangélica. supérflua diligência é quererdes vós explicar o que os outros não podem deixar de ter entendido». superfluum est te voluisse disserere. e pelo qual. e verdadeiramente com vitória.. «Quanto ao que me dizeis—diz S. que acusações não padeceu antigamente (e padece ainda hoje) dos hereges. ac per hoc utroque modo superflua erit interpretatio tua. ainda que a novidade da nossa História fora qual se supõe. nos Belarminos. Mas o maior exemplo de todos neste caso é o daquela divina obra de S. te quoque in eis falli potuisse creditur. Agostinho — que eu me não devia cansar em interpretar as Escrituras depois dos antigos intérpretes delas. ou o que era manifesto. sendo o estado mais santo da Igreja Católica. aut manifesta. Si obscura. escritas não a outrem. por estas palavras:: Porro quod dicis non debuisse me interpretari post veteres. quomodo tu post eos ausus es disserere. Santo Agostinho. 0 reparo da novidade não é crime de que ela tema ser acusada. ao qual respondeu S. mas são estas armas já tão velhas e ferrugentas. tão estranhada quando nova.] tuo tibi sermone respondeo: omnes veteres tractatores. cousa alguma que encontre a Fé ou doutrina da Igreja. em quantos Evros e tribunais de Gentios e Judeus foi terminada pela glória deste título! Acusação foi de que a defendeu Tertuliano. alius de eo scribendi non habebit licentiam. Responda-me logo vossa 62 . nos Soares. Prudêncio. com razão se crê que também vos podeis enganar na sua interpretação. que nos precederam no Senhor. Lactancio. quando o seja.. Si enim obscura sunt. obra é — diz o santo— em que eu não quisera que vós empregásseis o vosso trabalho. nos Barónios. Pensão é muito antiga das cousas boas e grandes serem acusadas de novas. S. illos in eis falli potuisse non creditur. et novo utens syllogismo [.] respondeat mihi prudentia tua. quod illi explanare non potuerunt? Si manifesta. te quoque in eis falli potuisse credendum est. não por Gentios ou hereges. nos Platins. que não há muito que temer seus golpes. et quodcumque alius occupaverit. aut manifesta. senão pela maior luz da Igreja. Bernardo Santo Tomás. superfuum est te voluisse explanare quod i11is latere non potuit: «!Quanto à versão das Escrituras Sagradas na língua latina. Jerônimo a S. nem só por quaisquer católicos. Boaventura.. S. S. Até aqui zelosa. Gregório. Jerônimo com igual engenho. contanto que não tenha. Jerônimo na versão da Sagrada Bíblia. supérfluo trabalho é cansar-vos em querer fazer entender o que eles não podiam deixar de ter entendido. quare tu post tantos ac tales scriptores et interpretes in explanatione Psalmorgm diversa senseris? Si enim obscurt sunt Psalmi. e todos os outros padres que antes e depois destes escreveram contra Gentios. se por si mesma lhe for devida. ou interpretaram o que era escuro. ponha em risco o crédito da sua verdade. A primeira instituição da vida monástica. quod illis latere non potuit [. Arnóbio. respondo com as mesmas vossas palavras: Todos os expositores dos Livros Sagrados. bem advertimos que metíamos as armas nas mãos aos críticos.

E verdadeiramente é assim: quantas cousas são hoje exemplos que começaram sem exemplo? Todas as opiniões ou verdades que se escreveram. foi o primeiro que lhes deu a autoridade. e aquele que as começou sem autor. Jerônimo a S. e diz assim contra Rufino: Periculosum opus certe. para que se veja quais são os juízos dos homens e quão impugnadas que costumam ser as obras de que Deus se quer servir. se os Salmos são escuros. argumentava Arnóbio contra os Gentios. e não só entre os inimigos e impugnadores da verdade. Agostinho sobre a novidade da sua exposição dos Salmos. lhes granjeia a triste fortuna de serem mais venerados ou melhor conhecidos depois da morte. coeterarum Italiae gentium post latinos. que hoje se chama Vulgata. porque ainda não tem quatrocentos anos. A antigüidade das obras é um acidente extrínseco que nem tira nem acrescenta validade. que não fosse nova em algum tempo? Diz Salomão que não há cousa nova debaixo do Sol. O Testamento Velho não é mais perfeito que o Novo. tempo virá em que seja velha. latini post plebeios. nem o Novo perde a perfeição e excelência que tem sobre o Velho. Jerônimo à queixa da sua nova versão. depois de tantos e tais intérpretes. tempo houve em que também foi nova. inveterescet hoc quoque. nova fuere: plebei magistratus post patricios. Acudia S. Jerônimo sobre a novidade de sua versão. e ainda é mais universalmente certo. supérflua é e não necessária a vossa interpretação E segundo esta lei. E notem os leitores que são estas palavras de uma das apologias que S. e se são claros e manifestos. e é de fé católica. todos por ignorância. ita ingenium quasi vinum probantes. tiveram princípio. A mais nova entre todas as do Mundo foi o mesmo Mundo. Mas destes mesmos exemplos se convence claramente quão frívolas são e pouco eficazes as acusações do que se estranha por novo. Se a nossa religião é nova. Não tinha esta de S. 63 . e tanto que um se adiantar à exposição de algum Livro Sagrado. por ser mais novo. e só porque põe os autores delas mais longe dos olhos da inveja. nem se deve perguntar o quando. et quod hodie exemplis tuemur inter exempla erit. Jerônimo escreveu em defesa daquela nova versão da Sagrada Escritura. que hoje . a qual hoje é de fé. senão entre os maiores zeladores e defensores dela. e ainda os Salmos não estão bastantemente interpretados. a que dá o crédito e autoridade aos escritores. e isto S. mas sobre esta lhe argüía Rufino e outros homens doutos tais calúnias. Dizeis que a religião cristã é nova. Que cousa há hoje tão antiga. por ser mais antigo. que vivos. e depois dela se escreveram infinitas outras mais novas. Patres conscripti. Não é o tempo. e se a vossa superstição é velha. senão a razão. como se só os antigos fossem católicos e a verdade sem cãs não fosse verdade. As trevas foram mais antigas que o Sol e os animais que o homem. Assim que os reparos da novidade são pensão (como dizia) das cousas boas e grandes. que a queriam fazer não menos que herética. vos atrevestes na exposição dos Salmos a sentir diversamente do que eles sentiam? Porque. Uns o faziam por zelo. escolha parece mais de cela vinária. qui me asserunt in septuaginta interpretum sugillatione. muitos por malícia. Jerônimo outro reparo mais que a glória de ser sua e nova. outros por inveja. e há menos de dois mil que os deuses que vós adoráveis ainda não tinham cento. é antiqüíssima e mui venerada. ninguém poderá falar depois dos primeiros. et obtrectarorum meorum latratibus patens. Discretamente. logo nenhum outro terá licença para escrever sobre ele. quae nunc vetustissima creduntur. que não há cousa debaixo do Sol que não fosse nova. nova pro veteribus cudere. Com a mesma energia disse o imperador Cláudio ao senado: Omnia.Anexo:Imprimir/ História do Futuro prudência: com razão. que do trono ou cadeira de Salomão. porque antepor o velho ao novo só pelos anos.» Isto dizia Santo Agostinho a S. também se deve entender que vós vos podeis enganar na sua inteligência. senão o como se escreveram.

64 . E se isto é assim nas ciências humanas. et toties ad magistratum respicere. nec ipse Aristoteles admirabili quadam scientia et copia caeterorum studia restrinxit Até aqui estes dois gentios. formando um perfeito orador no livro Orator: Nec vero Aristotelem in philosophia deterruit a scribendo amplitudo Platonis. utrum ad consumptam materiam. saber só o que os Antigos souberam. nem a admirável sabedoria e cópia do mesmo Aristóteles pôde apagar os fogosos espíritos de tantos filósofos que depois dele e sobre ele escreveram. Porque. que soubera e entendera mais que todos os velhos: Super senes intelexi. se bem apontamos os fundamentos destes impugnadores d a novidade e as razões daquela dura lei com que forçosamente querem que sigamos em tudo os antigos e adoremos as suas pisadas. que descobrir e saber nelas. non praeripuisse mihi videntur quae dici poterant. David que veio ao mundo 3000 anos depois de sua criação. E Marco Túlio. alumiados só pelo lume da razão. Séneca. LXIV. Enoch. Mas não me ouçam a mim. at contra scire. dezesseis séculos antes deste nosso. sendo ambos eminentíssimos nas suas artes não duvidaram confessar que havia ainda muito mais que andar. que vem a ser. E se estes. não é. praecludetur occasio aliqua adhuc adjiciendi. e se lhes deve o primeiro louvor. porque havemos de querer abreviar as mãos do Autor dela e cuidarmos que já não podem falar de novo os homens presentes. aliud scire. an ad subactam accedas: crescit in dies. qui ante nos fuerunt. et inventum inventa non obstant.. post mille secula. Mathusalem. grande injúria fazem à verdade e às ciências.Anexo:Imprimir/ História do Futuro E verdadeiramente que. nec ab exemplari pendere. multumque restabit. sed multum interest. debalde nos deu Deus o entendimento. que cuidemos que já não podem adiantar as ciências nem dizer e acrescentar sobre elas cousa de novo? Sêneca floresceu nos tempos de Nero. que todos se ocupam na erudição do passado. nec ulli nato.. na epist. mas ainda nos deixam seus grandes talentos em que exercitar os nossos. grande afronta aos homens e à nossa idade. como bem disse o mesmo Sêneca. Meminisse est rem commissam memoriae custodire. Muito alcançaram os Antigos. sendo por comum aprovação do Mundo um dos maiores engenhos que produziu a Grécia e a mesma natureza. sem descobrir nem inventar cousa nova. que será naquele pego imenso e profundíssimo das divinas) Mas ouçamos também aos antigos delas. se o segundo. ainda teriam muito que dizer na mesma filosofia moral em que ele tanto e tão sutilmente disse. em que era ainda maior a soberba e presunção que a ciência. Noe. pois nos bastava a memória. Estes tais haviam de ter a testa virada para as costas. como dizem os Italianos dos Alemães. e se ele conheceu que os que nascessem de ali a mil séculos. E começando pelos Gentios. ou que não há capacidade nos modernos para as poderem descobrir e dizer. que muito é que se atreva a dizer alguma cousa nova a nossa idade. sed aperuisse. [. saber. que inventar. e só lhes damos licença para decorarem e repetirem o que disseram os passados? Se assim fora.] Multum egerunt. escreve ou ensina a Lucilo desta maneira: Multum adhuc restat operis. por boas contas. ou é porque têm para si que já se não podem dizer cousas novas. é lembrar-se: Aliud est meminisse. porque havemos nós de esperar e afrontar tanto a nossa idade e os homens dela. E na epístola LXXIX:: Et qui praeesserant. ouçam aos mesmos antigos. se ainda lhe restam por sua confissão novecentos e oitenta e quatro séculos (se tantos durar o Mundo) para dizer e inventar muito de novo sobre o mesmo Sêneca? Se depois do divino Platão (como pondera Túlio) não acovardaram os seus escritos a Aristóteles para que não escrevesse. dizia confiadamente. est et sua facere quemque. Se o primeiro. sed non peregerunt. e estes velhos eram aqueles varões veneráveis da primeira antigüidade — Seth.

os Clementes Alexandrinos. no Liv. et gulae earum vicina maria non sufficiant. os Inácios. dos Cassianos. dos Paulinos. porque. em que a sabedoria eterna viveu humanada no Mundo entre os homens (que foi um parêntesis excessivo e infinito de luz. plus A postoli. os Hieroteus. com aquele famoso elogio: In ethicis assertionibus praecunctis merito praeferendus. na Apologia acima citada . dos Boécios. senão doutrina de S. depois dos Euquérios. em que se contaram quatro mil anos. dos Padres e Doutores sagrados. contra Rufino. ilustrando e escrevendo muitas cousas de novo os que vinham depois. José. quam Moyses. estas palavras: Quid igitur? Damnamus veteres? Minime.depois dos Clímacos. dos Teodoretos. dos Procópios. Melquisedech. se experimenta depois na segunda. os Profetas mais que Moysés. os Cirilos. S. Mas nem por isso depois de tantos e tão esclarecidos lumes da Igreja deixaram de espalhar nela. dos Pascásios. os Atanásios. occupari ab antecedentibus non potest. plus Prophetae. os Policarpos. que floresceu muito depois do mesmo Lactancio e a quem prece deram os Hipólitos. depois de um Crisóstomo. que por aplauso comum do Concílio oitavo toletano foi preferido a todos os Doutores na doutrina ética e moral. os Taumaturgos. e do mesmo Jerônimo. depois dos Hesíquios. sempre foram também crescendo. com o qual nenhum outro estado da Igreja se pode comparar). conhecendo sempre mais de Deus os segundos que os primeiros.quae si hominibus aequaliter datur. sempre os homens se foram excedendo na sabedoria divina. de que ela tinha sido figura. o que é mais que tudo. estranha muito que. o renome de doutor Máximo. os Orígenes. os Arnóbios. Isaac Jacob. Padre dos primeiros séculos da Igreja. que são o sabor dos entendimentos se contentam os homens com a vulgaridade ou velhice dos manjares usados: Nam cum nova semper expectant voluntates. Papa: Per incrementa temporum crevit scientia spiritualium Patrum. dos Fulgêncios. com novos e maiores resplendores.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Abraão. Gregório— ia juntamente crescendo a sabedoria dos antigos Padres. os Apóstolos mais que os profetas». Nazianzeno e Niceno. os Ireneus. passados os tempos de Cristo e de sua vida. escreve o santo Doutor com a modéstia com que costumam falar os homens maiores. laboramus. novos raios de novas luzes os três ilustríssimos 65 . penetrou tão alta mente o espírito interior da Teologia Mística e Ascética. os Justinos. por consenso e pregão universal da igreja. os Epifânios. de um Ambrósio e de um Agostinho. Moyses soube mais das cousas divinas que Abraão. aumentou e adiantou tanto o estudo das divinas letras. dos Crisólogos. dos Leões. Jerônimo. só nas ciências. plus namque Moyses quam Abraham. E convertendo-se no fim contra os vituperadores dos inventos novos. diz assim: Nec qui nos illis temporibus antecessunt. Moisés Josué. os Ciprianos. os Basílios. os Teófilos. dos Atanásios. que mereceu na eminência delas. nova e mais perfeita em que hoje estamos. Gregório. Lactancio Firmiano. ainda que fossem diminuindo na idade. as ciências divinas. cur in solo studio scripturarum veteri sapore contentis sunt ? São Gregório Magno. e. depois dos outros dois Gregórios. dos Máximos. sed post priorum studia in domo Domini. sobre o que tinham sabido e ensinado os mais antigos. que veio ao Mundo para lhe dar melhor cabeça do que seu juízo e errados juízos merecem. os Tertulianos. quam Prophetae in Omnipotentis Dei scientia eruditi sunt: «Ao passo que iam procedendo os tempos —diz S. E o mesmo que tinha sucedido naquela primeira e antiga igreja. II: Divinarum Institutionum. sendo o apetite ou gula humana tão ambiciosa de novos e esquisitos sabores. nos séculos que depois foram sucedendo. Desde a criação do Mundo até a reparação dele. a quem tinham precedido os Dionisios Areopagitas. em todos os séculos seguintes. Samuel e tantos outros de igual sabedoria e nome. Não é consideração minha. quod possumus. dos Cassiodoros. acrescentando.

que será na esfera da sabedoria e da verdade.] haec propter illos dicta sunt.Anexo:Imprimir/ História do Futuro espanhóis — Isidoro. possamos acrescentar alguma cousa de novo. ainda depois de tanto dito. non credunt scientias impertiri ad innovandos sensus hominis interioris: «Não se tenha por cousa grande — diz Ricardo — nem merecedora de admiração. os Damascenos. com mais repetidos exemplos que nos passados. diz assim no prólogo de um deles: Non est magnum. os Soares. entre os quais Ricardo Vitorino.. Digam agora os reprovadores das que eles chamam novidades. si potes. passado o cabo de Boa Esperança. defendendo modestamente alguma novidade que se acharia em seus livros. porque não cuidarão que também as ciências podem produzir cousas novas para alimento e recreação das almas?» Não se podia explicar com mais clara comparação nem provar-se com mais eficaz argumento. os Sofrónios. que mais parecem novas que renovadas. ainda ficaram mares e terras incógnitas que prometem novas empresas e novos argonautas. senão o que primeiro foi recebido pelos antiquíssimos Padres. os Vitórias. aliquid addere possumus [. as quais depois deste doutíssimo século se multiplicaram em tanto número. mais que escrever. os Toledos. os Elísios. dada a bênção a Jacob. que em outra idade podiam ter nome de primeiros planetas. se se pode ainda sobre os Antigos dizer alguma cousa de novo. que foi pelos anos de mil e trezentos a esta parte. em cujos felicíssimos e imensos escritos se vêem tão adiantadas as letras divinas. E porque é matéria impossível e número sem conto. os Soutos. os Molinas.. um Bernardo. É porventura o saber e dizer patrimônio só da Antigüidade e morgado como o de Isaac que. e não correu mais o óleo? Houve neste grande oceano de ciências alguma nau Vitória que desse volta a todo o mar? ou algum Gama que. depois de cheios eles. produz inacessivelmente todos os anos tantos frutos novos. e digo isto por aqueles que nada admitem nem lhes é aceito. os Teofilatos. que em alguma matéria das que escrevemos. si in uno aliquo. um Alexandre de Ales e o famosíssimo e subtilíssimo Scoto. a tirasse a todos os outros de novos descobrimentos? E se depois deste famoso círculo do Universo. qui nihil acceptant. os Belarminos. não só luz. tiveram que inventar mais que os segundos. os Medinas. mais que estudar e saber? 66 . os Caetanos. os Rupertos. e desde aquele tempo. e depois de tanto escrito. fiquem em silêncio (por mais que tão grande brado deram nas escolas) os Vasques. e muitos outros. os Valenças. as cercou de tão luminosas e resplandecentes estrelas. Eugenio e Ildefonso. haja mais que dizer. como foram um Alberto Magno. parou a fonte milagrosa. os Bedas. senão fonte de luzes. Mas se Deus para sustento e gosto dos corpos. sed sicut Deus produxit novos fructus ad recreationem hominis exterioris. porque não quererão os adoradores ou aduladores da Antigüidade que. nome singular. nisi quod ab antiquissimis patribus acceperunt. e depois dos que já não eram os primeiros. os Lugos. os Eutímios. para aumento ou competência de suas mesmas luzes. vel mirum. que se pode com razão dizer do Mundo o que Deus disse a Abraão do firmamento: Numera stellas. os Anselmos. não fica outra para Esau? São os antigos como os cântaros da Sareftana (comparação de que usa Ruperto) que. cuja imensa e infinita circunferência só a pode abraçar 0 que é imenso e compreender O que é infinito? Se depois dos antiquíssimos tiveram que descobrir os menos antigos. e depois de tanto estudado e sabido. porque não só alumiou a Divina Providência pouco depois o Mundo todo com aquelas duas tochas claríssimas e santíssimas de teologia — Santo Tomás e São Boaventura — mas antes e depois deles. se tem confirmado pela grandeza e liberalidade de Deus em todos os séculos. os Canísios.

são aquelas que Deus tem prometido que há-de fazer. do que tiveram e alcançaram os Antigos. Todas as cousas novas que se disserem nesta História. assegura firmemente aos vindouros que poderão ter maiores notícias das cousas. Crebbe l'invidia. sendo aquele a quem o Baptista não era digno de desatar a correia do sapato. e o prova e refere em dois textos ou dois exemplos: um de David. que prometeu saberiam mais os futuros: David quoque super doctores suos et seniores donum sibi intelligentiae audacter praesumit. dizia que daria de alvíssaras o que sabia. como sempre falou pela boca da Escritura. O covarde temerário ao valente. Os que mais queriam louvar a Cristo. são aqueles que não podem dizer senão as muito velhas. e cada um condena o que não tem. por não confessar o que lhe falta. e Herodes se persuadia que não podia ser senão o Baptista ressuscitado. 67 . outro de Daniel. Si veterem ingrati Pompeii quaerimus umbram Et laudant Catulli vilia templa senes Ennius et lectus salvo tibi.. nem grande sem inveja: . mas querer precisamente que nos atemos em tudo aos passados. sendo ele a luz de todos os Profetas. ou adocemos a dureza deste rigor com o melífluo Bernardo. foi aquela de que disse o Profeta: Creavit Dominus novum super terram: faemina circumdabit virum. mores. porque todos disseram cousas novas. e col sapere insieme Ne' cuori enflati i suoi veneni sparti. e pode ser que muito remendadas! O avarento chama pródigo ao liberal. crueldade que só se lê de Mezêncio. escrevendo a Hugo de São Vítor. O distraído hipócrita ao modesto. se lhe dessem o que ignorava.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Como temo que os que condenam as cousas novas.. Et sua quod rarus tempora lector amat? Hi sunt invidiae nimirum.. vivis quod fama negatur.e Soares. Praeferat antiquos semper ut illa novis. ampliorem scilicet rerum notitiam promittens et ipse posteris.signum cui contradicetur. e nenhum careceu de quem lhas impugnasse. E esta novidade foi o alvo das maiores contradições. que tanto tinha em si do que os Antigos souberam. e todos se armaram destas apologias. o qual. isto é. O grande P.Che come crebber l'arti. dicens: Super omnes docentes me intellexi. o que ficou aos vindouros para poderem saber e dizer de novo. Até aqui São Bernardo. Marone Et sua riserunt saecula Maeonidem. Roma. como também predisse outro profeta: . Não ha cousa boa sem contradição.. Todos os grandes engenhos tiveram sempre esta queixa. Sed et propheta Daniel: pertransibunt. A cousa mais nova que Deus fez no Mundo. ait plurimi et multiplex erit scientia. quando disse: Ecce nova facio omnia. Se acaso houver quem as impugne e contradiga. porque nem Deus pode fazer cousa de novo. Regule. Fechemos este discurso. que afirmou que soubera mais que os passados. Mas antes de Petrarca o tinha dito em Roma o nosso discreto espanhol: Esse quid hoc dicam. sem contradição dos mesmos para quem as faz. diziam que era um dos Profetas antigos. é querer atar os vivos aos mortos. que também lhe tinha escrito lastimado da mesma chaga.

Porventura aquela metade do Mundo a que chamavam quarta parte. porque se não vêem. com África e com Europa? E contudo. esquecia-se Cartago do que inventara Cartago. Assim que. Propriedade é dos futuros serem sempre novos todos. Se não fora assim.. Para aquele cego de seu nascimento. ficaram os Cartagineses assombrados com a novidade daquela máquina. Quando Adão saiu flamante das mãos de Deus. também recebida em nossos dias. Nem eram elas as novas. outras a escuridade.. senão novas por antiquíssimas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Mas para que não pareça que defendo as cousas novas. nem tentação o pecado. que somos os sábios. depois de serem velhice no Egito. outras a distancia.] cum autem ultimarent tempora patriae. outras a ignorância. já havia cores e luz. Muitas novidades se verão nesta nossa História não novas por novas. mas para aqueles bárbaros. e tais serão as desta História. senão esquecimento. porque se não lembram. foram novas as cores.. nem por isso ela será nova. illa dicitur Carthago studiis asperrima belli. porque os primeiros inventores daquele bravo instrumento tinham sido os mesmos Cartagineses. parecia instrumento novo aos mesmos Cartagineses. Se no Mundo. Todos os frutos nasceram igualmente naquele dia. as pêras. novo para nós.. et aries jam romanus in muros quondam suos auderet stupuere illico Carthaginienses. velho e muito antigo.] nemini umquam adhuc libratum. nenhuma cousa direi de novo. primeiro foi que a antiga de Aristóteles. porque as apalpava. a quem Cristo abriu os olhos. As pirâmides e obeliscos que assombraram com tão nova e desusada grandeza o foro romano (com boa vénia dos Padres Conscritos). explicarei por alguns exemplos. ele era o novo. de que Cartago tinha sido a primeira inventora. De maneira que o aríete. umas cousas faz novas o esquecimento. e uma perpétua novidade sem nenhuma cousa de novo. não foi criada juntamente com Ásia. porque a América esteve tanto tempo oculta. ainda que não eram novas as quantidades. foram novidade em Roma. como isto possa ser. A nova opinião dos céus fluidos. e não era novidade. digo que em toda essa novidade. as uvas e também as frotas novas. não por novo. as mais delas ressuscitam. recolhendo todos estes exemplos. com ser tão grande. senão por muito antigo.. porque se não 68 . senão por esquecido.arietem [. não há cousa nova. Tantum aevi longinqua valet mutare vetustas. prima omnium armasse in oscillum penduli impetus [. como pouco há dizia Salomão. não por novo. por não ser necessário este escudo à minha História respondendo à objeção da novidade dela. e todas eram mais antigas que ele. que com tão continuado aplauso do Mundo os fez sólidos e incorruptíveis. :Ê uma História nova sem nenhuma novidade. a tinha por novidade. Nas ciências nascem poucas verdades. porque chegaram mais tarde à nossa terra. Ao terceiro dia da criação produziu a terra todas as árvores carregadas dos seus frutos. A novidade da nossa História há-de ser mais dos leitores que dela. abriu os olhos. não tivera ocasião o preceito. Serão novas neste nosso livro cousas que foram primeiro que as que hoje se têm por antigas. mas ainda que esta História seja toda de cousas tão novas. Quando os Romanos a primeira vez bateram os muros de Cartago com o aríete ou carneiro militar. mas como havia muitos anos que gozavam da altíssima paz. e sendo cousa antiga e sua. mas não havia olhos. porque as não via. como se vêem cada dia tantas novidades no Mundo? São novidades de cousas não novas. porque se não sabem. cuja foi esta advertência: .. é chamada Mundo Novo. por isso os últimos e mais distantes se chamam novíssimos. e viu tanta cousa nova. mas estas tiveram este nome. os figos. ut novam extraneum ingenium. Quero dizê-lo com palavras do grande Tertuliano.

e de todas estas novidades sem novidade. em outros se logra a fortaleza. Merecem maior louvor os Antigos. nem se repare se é novo. para alumiar e penetrar com sua luz. porque foram os primeiros inventores das cousas. disse Tertuliano judiciosamente que nem é velho nem novo. A velhice no ouro é preço. Saber as velhas e inventar as novas. no navio e na casa perigo. as novas nossas. não é só obséquio e piedade. ainda que o merecêramos. quam temporum. Todos dizem que os Antigos merecem maior louvor.] profert de thesauro suo nova et vetera: «Os doutos quando escrevem. posto que nem sempre se conhecem igualmente. melhores são as novas. impropriamente se chamam novas ou velhas. dando o primeiro lugar às novas. quad ante vetustas non intellectum venerabutur. no amigo constância. sed de sua veritate censetur. amigo velho. senão obrigação e respeito). outras a negligência. depois dos Apóstolos (os quais não entram nesta controvérsia. se bem se considera. outros pelo que são. E por não deixarmos sem juízo a controvérsia disputada entre as cousas novas e as velhas. A verdade e as ciências. mas só se considere se é ou pode ser verdade: Nec de novitate nec de vetustate. vinho velho. contudo. Lembraremos nela muitas cousas esquecidas. folgara eu que se pudera dizer dele com Vincêncio Lirinense: Per te posteritas gratulatur intellectum. descobriremos muitas ocultas. e posto que o nosso desejo fora levar sempre diante dos olhos esta segunda tocha..scriba doctus [.. assim no certo como no provável. porque as velhas são alheias. Mas notou Santo Agostinho que não disse Cristo as velhas e as novas. uns se conservam pelo que foram. no vinho madureza. que por essência é sabedoria e verdade. as novas do merecimento. certamente entre umas e outras não se pode dar regra certa. no vestido pobreza. E como a verdade da nossa História toda (como vimos) tenha o seu princípio em Deus. isto parece que é ser douto. porque em tudo o que escreveram foram alumiados pelo Espírito Santo. pois o mereceram. sempre foram e sempre hão-de ser as mesmas. absolutamente nas cousas que se consomem com o tempo. nisi maluisset meritorum ordinem servare. em uns se admira a antigüidade. logo da novidade é o louvor. mas verdadeiro: . O tempo umas cousas melhora e outras corrompe: ouro velho. sed de sua veritate censeatur. senão da novidade.. haverá muito nesta nossa História. e é assim. tiram do seu tesouro as cousas novas e mais as velhas. como dizíamos. E quanto ao louvor que renunciamos facilmente.. senão as novas e as velhas. digo com indiferença o que ensinou Cristo: . poremos à vista muitas distantes e procuraremos saber muitas ignoradas. Mais defendida está Roma com os muros de Urbano. porque sempre são.germana divinitas nec de novitate nec de vetustate. De Deus.Anexo:Imprimir/ História do Futuro alcançam. quando as descobriram de novo. História do Futuro (Volume I. como Padres e lumes da Igreja.. Capítulo XII: Dá-se a razão por que em algumas partes desta História se não alegaram padres e seguiram exposições dos escritores modernos) por Padre Antônio Vieira 69 Ainda que o nosso intento é seguir em quanto nos for possível as pisadas dos antigos Padres. Se fora outro o autor desta História. alumiaremos muitas escuras. em que não tem jurisdição o tempo. navio novo.. que com os de Beluário. mas este louvor. quod utique dixisset. porque se não buscam. casa nova. vestido novo. As cousas velhas são do tempo. nem se atenda se é velho. e segui-los como havemos de seguir em tudo. porque as avaliou a suma justiça pelo merecimento e não pelo tempo: Non dixit vetera et nova. porque não é nem será possível seguir em algumas cousas das que dizemos ou . pedimos aos que a lerem que. o escuro das profecias. não é elogio da antigüidade.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro dissemos este nosso intento e desejo, pede a razão e ordem da mesma Escritura que, antes de passar mais adiante, desfaçamos este reparo, para o que os menos doutos ou mais escrupulosos não topem nele e levem desde logo entendidas as causas do que fizermos e os fundamentos, licença ou autoridade com que o fazemos. Ver-se-á em algumas partes desta História, que ou não alegamos Padres antigos, ou nos desviamos da explicação que deram a alguns lugares da Escritura, o que não fazemos senão com grandes razões, sem ofensa da reverência que lhes devemos nem da verdade que seguimos, antes para maior segurança e fundamento dela, a qual é o nosso intento e obrigação buscar e descobrir adonde quer que se ache, antepondo este respeito a qualquer outro, pois à verdade se deve o maior de todos. As razões que nos movem e obrigam são três: a primeira, porque os Doutores antigos não disseram tudo; segunda, porque não acertaram em tudo; terceira, porque não concordam em tudo. E com qualquer destes casos nos pode ser. não só lícito e conveniente, senão ainda necessário seguir o que se julgar por mais verdadeiro; porque nas cousas que não disseram, é forçoso falar sem eles; nas cousas em que não acertaram, é obrigação apartar deles; e nas cousas em que não concordaram, é livre seguir a qualquer deles; e também será livre e lícito deixar a todos, se assim parecer, como logo explicaremos.

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Prova-se a primeira razão
Primeiramente é certo que os Padres antigos não disseram tudo, e se prova claramente com a experiência e lição de seus próprios livros, nos quais se não acha memória de muitas cousas grandes e doutas, achadas e acrescentadas depois, não só nas outras ciências divinas, mas na inteligência das mesmas Escrituras Sagradas, e particularmente nas dos profetas, que nos tempos mais chegados a nós se descobriram, disputaram e entenderam como se lêem nos escritores modernos; e posto que para os 5 versados na lição de uns e outros bastava esta suposição somente apontada, porei aqui para os demais as palavras de dois grandes doutores, Castro e Canísio, ambos do século antecedente a este nosso, e ambos diligentíssimos investigadores da antigüidade e doutíssimos na erudição da Escritura, Concílios e Padres, os quais expressamente afirmam que muitas cousas se sabem e entendem hoje que foram ignoradas dos Padres antigos, como fala Castro ou incógnitas a eles, como mais certamente diz Canisio. As palavras deste segundo, no livro primeiro De Beata Virgine, cap. VII, são as seguintes: Demum habuerint Patres suorum temporum rationem quibus multa vel prorsus incognita erant, vel obscura neque satis evoluta, quae posteris diligentius excutienda, et clarius illustranda, explicandaque non sine certo Dei consilio reliquebantur... E Castro, no Liv. I Adversus haereses, cap. II, depois de provar o mesmo com o lugar do cap. VI dos Cantares, que abaixo citaremos, conclui assim: Quo sit, ut multa nunc sciamus, qae, a primis Patribus aut dubitata, aut prorsus ignorata fsuerunt. A qual diferença se não conheceu só com a comprida experiência dos nossos tempos, senão já nos mesmos Padres se conhecia, como muitos deles escreveram, e particularmente entre os da primeira idade, Tertuliano, e entre os da última Ricardo Vitorino, cujas palavras de ambos referiremos neste mesmo capítulo. A razão de muitas cousas que hoje se sabem serem incógnitas aos Padres antigos, se pode considerar, ou da parte de Deus, ou da parte das mesmas cousas. Da parte das mesmas cousas, nos não devemos admirar que lhes fossem incógnitas, por serem muitas delas dificultosas, escuras e mui recônditas nas Escrituras Sagradas e enigmas dos profetas, as quais se não podiam entender e penetrar só com a agudeza dos entendimentos, por sublimes e sublimíssimos que fossem, em quanto não estavam assistidos de outras notícias

Anexo:Imprimir/ História do Futuro e circunstancias, que só se descobrem com o tempo e adquirem com larga experiência. Excelente exemplo é nesta matéria o das ciências é artes, ainda naturais, as quais em seus princípios e rudimentos foram imperfeitas, e com os anos, experiência e exercício se vêem hoje sublimadas a tão eminente perfeição, como a náutica, a bélica, a música a arquitetura, a geografia, a hidrografia e todas ás outras matemáticas, e muito em particular a cronologia, de que neste mesmo capítulo falaremos. E assim como estas mesmas ciências e artes cresceram e se apuraram muito com o socorro e aparelho de esquisitos instrumentos, que nelas se inventaram, como foi na náutica o astrolábio, a agulha e o admirável segredo da pedra de cevar. e na bélica o terribilíssimo e subtilíssimo invento da pólvora, que deu alma e ser a tantos e tão notáveis instrumentos de guerra, assim também puderam crescer e aumentar-se muito as ciências divinas e chegar à perfeição e eminência em que hoje se vêem com os instrumentos próprios delas, que é a multidão de livros espalhados e facilitados por todo o Mundo pelo beneficio da impressão, com que a doutrina e ciência particular dos homens insignes se faz comum a todos em tão distantes lugares, não sendo menor a comodidade dos mestres, que são instrumentos vivos das ciências, no concurso de tantas e tão diversas universidades, teatros e oficinas públicas de toda a sabedoria; comodidade de que no tempo dos Padres se carecia, sendo necessário ao Doutor Máximo, São Jerônimo, como ele mesmo escreve, copiar com imenso trabalho os livros por sua própria mão e peregrinar à Grécia à Palestina, ao Egipto e às Gálias para recolher os escritos de S. Hilário, ouvir a S. Gregório Nazianzeno, a Dídimo e aos mestres mais peritos na língua hebraica; inconvenientes que só podia vencer e contrastar um tão alentado espírito e zelo de servir à Igreja, como do grande Jerônimo, digno tanto de imortal louvor pela eminência de sua sabedoria, como pelos gloriosos trabalhos e suores com que a adquiriu e conquistou. Da parte dos mesmos Padres se deve igualmente considerar, que deixaram de especular e dizer muitas cousas de grande importância que depois se souberam e escreveram, porque se acomodaram à necessidade dos tempos em que viviam. Todo o intento dos Padres antigos era provar a verdade da encarnação do Filho de Deus e o mistério de sua cruz, a qual na cegueira dos Judeus (como diz S. Paulo) se reputava por escândalo e na ignorância dos Gentios por estultícia. E como esta era a guerra e a conquista daqueles tempos, todas armas da Sagrada Escritura se forjavam e acostavam contra esta resistência, e por isso os primeiros Padres e seus sucessores nenhuma cousa buscavam nos Livros Sagrados, não só proféticos, senão ainda nos históricos, mais que os mistérios de Cristo. É bom testemunho desta verdade o que diz Ruperto a Tristérico, arcebispo coloniense, do prólogo dos seus Comentários sobre os Profetas menores: Scito me Pater mi sicut in caeteris Scripturis, ita et in volumine duodecim Prophetarum operam dedisse, ad quaerendum Christum. E como isto é o que só buscavam para escrever, isto é o que só achavam ou o que só escreviam, seguindo os sentidos alegóricos e místicos e deixando ou insistindo menos nos literais, como se vê ordinariamente em todas as exposições dos Padres, que todas se empregam na alegoria, tocando muitas vezes só leve e superficialmente a letra, e talvez não sem alguma impropriedade e violência. Assim o notaram entre os mesmos Padres alguns mais modernos que antigos e outros menos antigos que antiqüíssimos: dos primeiros, é Ricardo de São Vitor, contemporâneo de S. Bernardo, no Prólogo sobre o Profeta Ezequiel, onde confessa que se aparta de São Gregório, por se não chegar ao sentido literal do texto; dos segundos, é o mesmo São Gregório, Padre do sexto século depois de Cristo, no Proémio sobre o Livro dos Reis, onde diz que lhe foi necessário em algumas partes não seguir os Padres mais antigos, por não

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro faltar ao fio conseqüência e verdadeira interpretação da história. As palavras de São Gregório não refiro aqui, porque terão seu lugar mais abaixo; as de Ricardo depois de referir com os antigos Padres ocupavam seu estudo principal na alegoria, são estas: Hinc contigisse arbitror, ut litterae expositionem is obscuriobus quibusdam locis antiqui Patres tacile praeterirent, vel paulo negligentius tracterent, qui si plenius insistirent, multo perfectius procul dubio quam aliqui ex modernis, id potuissent. Quer dizer que os Padres antigos, por aplicarem toda a sua industria e engenho no sentido alegórico das Escrituras, ou passaram totalmente em silêncio, ou trataram menos diligentemente alguns lugares mais escuros delas, sendo certo, segundo eram dotados de altíssimos engenhos e enriquecidos de muita ciência e erudição, que, se insistissem no sentido genuíno e literal do texto, o poderiam conseguir mais perfeitamente que qualquer dos modernos. De maneira que, segundo a verdade desta advertência, vem a ser a diferença entre os Padres antigos e os comentadores modernos das Escrituras, a mesma que houve naqueles dois homens do Evangelho, ambos ricos e venturosos: um que achou o tesouro e deu quanto tinha por comprar o campo em que ele estava; outro que, buscando so margaritas e achando uma preciosíssima, empregou também nela quanto tinha. Os Padres antigos, que buscavam só nas Escrituras a Cristo e nesta preciosíssima margarita empregavam todo o cabedal do seu estudo, os modernos, que se não determinam no tesouro das Escrituras a um só gênero de riquezas, acham, além da mesma margarita, muitas outras pedras também preciosas, e tiram daquele tesouro (como dizia Cristo) nova et vetera, riquezas novas e velhas: as velhas, que são as notícias das verdades já passadas; as novas, que são o conhecimento das outras futuras. Finalmente se deve considerar este silêncio das cousas que não disseram os Padres, da parte de Deus, o qual com particular providência não quis que eles por então as soubessem e escrevessem, para que a Igreja, nossa mãe, se parecesse com seu Esposo, e, conforme os anos e idade, fosse também crescendo em luz e sabedoria. Assim o notou, além de muitos outros teólogos, o mesmo Canísio, continuando o lugar acima citado: Quae posteris diligentius excutienda et clarius illustranda explicandaque, non sine certo Dei consilio relinquebantur non vero homini tantum, sed etiam Ecclesiae Christi tempus auget sapientiam, et Spiritus Sanctus aliam atque aliam doctrinae lucem patefacit No cap. VI dos Cantares, onde o Esposo é Cristo e a esposa a Igreja estão profetizados os progressos que ala havia de ter, e se comparam com extremada propriedade à luz da aurora: Quae est ista , quae progreditur, quasi aurora consurgens? Porque assim como a aurora nasce das trevas da noite e começa na primeira luz, e nela vai sempre crescendo de menor para maior claridade assim a Igreja, nascida nas trevas da ignorância e infidelidade começou em menos luz de sabedoria e vai sempre crescendo e aumentando-se mais e mais de resplendor, de claridade, que são os termos que usa S. Paulo na Segunda epístola aos Coríntios:Nos vero omnes, revelata facie, gloriam Domini speculantes, in eamdem imaginem transformamur a claritate in claritatem. Fala o Apóstolo do véu da infidelidade com que os Judeus têm cobertos os olhos para não ver a Cristo, e diz que se compõe a Igreja, tirado pela Fé aquele véu, com os olhos abertos e desempedidos por meio da própria especulação e estudo, imos crescendo de claridade em claridade, não já passando das trevas à luz, senão de uma luz para outra, sempre maior e mais clara, transformando-se por este modo a Igreja na imagem do seu mesmo Esposo, Cristo. Porque, assim como Cristo, posto que sua sabedoria foi sempre igual e a mesma (em quanto Deus infinita e em quanto

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com que o corpo místico dela vai crescendo e aumentando-se sempre mais. não só alumia a Igreja 73 . Também deixou em seu lugar. puerícia e adolescência. assim nos anos e duração da Igreja há a mesma distinção e sucessão de idades. senão cada vez menos. quanto mais se vão apartando os nossos tempos do tempo em que Cristo viveu entre os homens. e da ciência mais antiga. própria e rigorosamente falando. da puerícia e da adolescência da Igreja foram os modernos e da ciência moderna. ao Espírito Santo. alumia e quenta mais aos que lhe ficam mais vizinhos e menos aos que estão mais remotos e mais distantes. Donde se deve reparar e advertir (cousa que devera já estar mui notada e advertida) que os Doutores antigos e mais velhos. a não mostrou toda junta. os séculos e a idade. que são os membros de que o seu corpo e os raios de que a sua luz se compõe. bem assim como a luz do Sol material. à medida que cresce nos anos e na idade: Crescat igitur oportet. senão os que hoje e nos tempos mais chegados a nós se chamam modernos Porque assim como nos anos de Cristo houve infância. nem aqueles que vulgarmente são chamados os antigos. como diz o evangelista São Lucas: Proficiebat sapientia et aetate. que não fosse mais sábia a Igreja nos maiores anos. De sorte que vai crescendo a inteligência. até chegar a encher a perfeição ou medida da mesma idade de Cristo. senão os presentes. não são os passados.alios autem pastores et doctores. contudo. nem foi crescendo dos nossos anos para os primeiros. senão nos homens e doutores particulares. senão dos primeiros para os nossos. sapientia — disse doutamente Vincencio Lirinense. scientia. tam unius hominis quam totius Ecclessiae. in aedificationem corporis Christi donec occurramus omnes in unitatem fidei et agnitionis Filii Dei. e que. et multum vehementerque proficiat. E seria não só contra a ordem da natureza. e qualquer outra. argumento desta sua cegueira.. tam singulorum quam omium. a ciência e a sabedoria pelos mesmos graus do tempo com que vão passando os anos. e os Doutores da idade maior e mais provecta da Igreja são os mais velhos e mais antigos. senão dos membros vivos. aetatum ac saecolorum gradibus intelligentia. Donde segue que os Doutores da infância. do que tinha sido nos menores. e isto não só na Igreja universal e em comum. o qual. ad consummationem sanctorum in opus ministerii. transformando-se na sua imagem e retratando-se nele e por ele. igualmente Deus como ele. falando dos mesmos Doutores:. tanto os raios da sua luz são mais tênues. mais escassos e menos intensos. Mas a aparência desta razão é tão falsa como todas as de seus autores. assim a Igreja. senão contra a decência da mesma idade. por segundo mestre de sua escola. que é o corpo místico do mesmo Cristo. como expressamente disse São Paulo. in virum perfectum in mensuram aetatis plenitudinis Christi. vai sempre crescendo mais e mais na luz e na sabedoria. espiritualmente e por particular e invisível assistência sempre ficou com eles e os assistirá (dentro porém da sua Igreja) ate o fim do Mundo. nos atos exteriores e manifestação dela ao Mundo. porque a Igreja não se compõe das paredes mortas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro homem consumadíssima). como prometeu a todos os verdadeiros discipulos de sua doutrina quando lhes disse: Ecce ego vobiscum sum usque ad consummationem saeculi. crescendo sempre nela ao passo que ia crescendo nos anos. Dizem que Cristo é o sol da Igreja e aquela primeira verdadeira luz: quae illuminat omnem hominem venientem in hunc mundum. e do mesmo Sol tiram o argumento desta cegueira. Dizem contra isto os hereges (como notou Banhes) que a Igreja não está hoje mais alumiada. porque ainda Cristo corporalmente se apartou dos homens. com a mesma e não diferente luz. e depois idade perfeita. senão que a foi dispensando por partes.

E porque a perfídia herética se nos não queira acolher por pés. porque isso em suma tudo o que até agora temos dito. ab illo Vicario Domini Spiritu Sancto [. paulatim dirigeretur.] Haec lege fidei manente. cum propterea Paracletum miserit Dominus. em que sempre mais vai crescendo a Igreja com os anos. veniat ad me et bibat. quando disse: Si quis sitit. ensinando e declarando aquelas ocultas e altíssimas verdades.. Cum autem venerit ille Spiritus veritatis. teve por maior glória de sua grandeza fazer dos males bens. docebit vos omnem veritatem. (como imprudentemente fazem ainda em lugares igualmente claros de outras Escritas) fugindo para os tempos antigos.quod ad meliora proficitur. que. quanto mais distante. mais caudaloso. e esse . tanto mais se engrossa. quanto mais caminha e mais se aparta de seu princípio. operante scilicet et proficiente usque in finem gratia Dei. em que eles confessam que a Igreja esteve verdadeiramente alumiada. ouçam ao antiquíssimo Tertuliano: Regula quidem fidei una omnino est. aut proficere destiterit. Hoc autem dixit de spiritu. Quale est enim ut diabolo semper operante et adjiciente quotidie ad iniquitatis ingenia opus Dei aut cessaverit. que cada dia a aumentam com novos e tão excelentes escritos em uma e outra teologia.. mais profundo. é o bem que tira de tão grande mal aquela sapientíssima Providência. por isso disse São Paulo: Oportet haereses esse. os vai descobrindo maiores a seu tempo. novas verdades contra esses erros. caetera iam disciplinae et conversationis admittunt novitatem correctionis. mais se vai enfraquecendo e diminuindo. et ordinaretur.. como doutamente disse Santo Agostinho. A luz que sai do Sol. quem accepturi erant credentes in eum. entrando sempre nela as puríssimas correntes da doutrina de tantos Doutores católicos e sapientíssimos. dizendo-lhes porém. et adjiciente quotidie ad iniquitatis ingenia.. Assim que os que quiserem reconhecer os aumentos da sabedoria. quod intellectus reformatur. 74 . são em suma tudo o que até agora temos dito. Qui credit in me sicut dicit Scriptura. ut quoniam humana mediocritas omnia semel capere non poterat. mas o rio que nasce da fonte. quod Scripturar revelantur.] Quae est ergo Paracleti administratio nisi haec quod disciplina dirigitur. quando por si mesmo os ensinava. et ad perfectum produceretur disciplina. senão a da fonte e do no. etc Se o Demônio sempre obra e não desiste de acrescentar cada dia novos erros e novos enganos com que impugnar. porque vai recebendo novas correntes e novas águas. Tal é a sabedoria da Igreja. vivae. (para: que o Judeu não duvide da assistência do Espírito Santo à Igreja e cabeça dela). verdade e resplendor da Igreja. como havia o Espírito Santo de cessar em acrescentar sempre nela novas:luzes contra essas trevas. não devem tomar à semelhança do Sol` e da luz. flumina de ventre ejus fluent aquae. a que o mesmo Cristo comparou sua doutrina. que não permitir os males. e novas: trevas com que diminuir e escurecer a luz da. só peço se pondere aquela nova e bem achada razão de Tertuliano: Quale est enim ut diabolo semper operante. nova claridade contra esses enganos e novas vitórias contra esse inimigo e seus sequazes? Em sua mesma cegueira tem o herege a prova da maior luz da Igreja. que o Espírito lhas ensinaria: Adhuc multa habeo vobis dicere: sed non potestis portare modo. com que se faz mais largo.. que por menos capacidade dos discípulos deixou Cristo de lhas dizer.? Não me detenho em romancear as palavras. de que o nosso século tem sido mais fecundo e abundante que todos até hoje. sola immobilis et irreformabilis [.Anexo:Imprimir/ História do Futuro com os mesmos resplendores da verdade. mas. segundo a disposição de sua providência.

Escreveram neste gênero doutissimamente Sixto Senense em todo o V e VI livro de sua Biblioteca Santa. Ferdinando Vellocillo. a Igreja luz com propriedade de rio. não é muito que nestas que eles não disseram. subsanant et exsufftant. em muitos lugares de seus Anais.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A sabedoria da Igreja no alumiar é luz e no correr é rio. qui crevit in fluvium. quando voltaram as costas e apartaram os olhos do que em seu pai. E como. et in aquas plurimas redundavit. lembrados porém da reverência que os filhos devem aos pais e da bênção que mereceram aqueles dois honrados filhos. o Cardeal César Barónio. e as águas' os resplendores das luzes naquela milagrosa metamorfose que se conta no cap. e posto que pudéramos provar a verdade deste fundamento com a demonstração das cousas em que não acertaram. hujusmodi velamen habentes. necessidade de doutrina e cautela dos mesmos doutos que lessem as suas obras. otio torpent. reliqui vero scriptores sancti inferiores et humani sunt. dizíamos que os Padres não acertaram em tudo. os quais eles escreveram não por menos reverência que tivessem aos antigos Padres. suae. VII cap. Melchior Cano. nós também lançaremos a capa sobre esta matéria. deficiuntque interdum ac monstrum quandoque . em cujos livros se podem ver por junto estes exemplos. Este último no Liv. por sua sabedoria e santidade. diz assim: Auctores canonici ut superni. no Aparato Sacro. Sed inertiae. Bèze e Wiclef. nec videantur aliquid ultra maiores praesumere. conservando juntamente as luzes e claridades das águas. sol com propriedade de fonte. deixando tão indigno assunto a Lutero. stabilem perpetuamque constantiam servant. quod quidam quasi ob reverentiam Patrum nollunt ab illis omissa attentare. Em segundo lugar. divini. Antônio Possevino. podia ser menos decente. falemos e hajamos de falar sem eles. Cristo. Afonso de Castro. Sem e Jafet. bem assim como os que pintam cartas de marear sinalam no vastíssimo e profundíssimo Oceano os baixos (poucos e raríssimos. Leiam e temam esta sentença os que culpam os que não querem ser culpados nela. Nem isto se nos deve imputar a menos veneração dos mesmos Padres doutíssimos e santíssimos. Não negamos. rio daquela mesma fonte e luz daquele mesmo Sol que é Cristo. e pela aplicação dos Padres. sempre mais vestida de resplendores. por esta providência particular de Deus e pela dificuldade e escuridade de muitos lugares da Escritura. mas por zelo da verdade. porque não querer descobrir nem saber o que eles não disseram. deixaram de escrever algumas cousas com que a Igreja depois se foi alumiando e ilustrando. De Locis Theologicis. antes é vício da ociosidade que virtude da reverência. como bem conclui o mesmo Ricardo Vitorino acima alegado: Sed nec illud tacite praetereo. e igualmente merecedores da eterna veneração. a confirmação de outras verdades e a resistência de outras batalhas próprias daqueles tempos. Calvino. e advirtam que tamb5ém é um dos Padres o que isto disse. X de Ester: Parvus fons. e outros legítimos herdeiros do ímpio e irreverente Cam. sed qui habitat in coelis. se se compararem com a imensidade de suas águas) para maior vigilância e segurança dos que as navegam. Adversus haeereses. e outros. et aliorum industriam in veritatis investigatione et inventione derident. contudo. caelestes. e por isso sempre mais alumiada. nas AdverteAncias Teológicas sobre cinco Padres da Igreja. et in lucem solemque conversus est. que houve muitos autores católicos e pios. irridebit eos et Dominus subsanabit eos. Noé. bispo de Luca. III. 75 Segunda Razão Discorre-se sobre as cousas que no tempo dos padres houve para alguns lugares dos Profetas não poderem ser entendidos inteiramente.

quae illis debetur) aliquid in eorum scriptis improbare. tenho colhido. cujas palavras na Epístola a Teófilo. unde aliquid aliter sapere. divino adjutorio vel ab aliis intellecta. assim dos escritos alheios como dos próprios. em que não acabei de cair de todo. que eram comuns e recebidas entre os doutos. João Hierosolimitano são estas: Scio me aliter habere Apostolos. confessando com alta humildade e modéstia que podiam errar como os homens. escrevendo a Fortunaciano desta maneira: Neque enim quorumlibet disputationes quam vis catholicorum et laudutorum hominum. ou melhor entendida por outros. angelica perfectio est. E se o fundamento dos erros humanos é o efeito natural de serem os homens homens. quando acharmos por outra via a verdade. In nullo autem aliter sapere. tales volo esse intellectores meorum: «As ciências e regulações dos autores. os outros homens. e como os Santos Padres fossem obedientíssimos filhos da Igreja Católica. é argumento só de que foram homens. de tal sorte que nos não seja lícito (salva a reverência de suas pessoas). senão depois de muitos anos de estudo e lição dos mesmos Padres. Jerônimo — Santo Agostinho. ou também por nos. mais digno de veneração por aquela obra que por todas as outras suas o qual prosseguindo a mesma sentença de Santo Agostinho no liv. doutrina. bem se segue que nenhum homem se pode livrar desta pensão da humanidade. e sem menos 76 . é presunção de demônios». é perfeição de anjo. mui louvados e estimados por sua ciência e. Exemplo seja o prodigioso livro Das Retratações de Santo Agostinho. e querer defender seu parecer até romper a caridade e união da Igreja. humana tentatio est. e das opiniões. por douto e sapientíssmo que seja. posto que sejam católicos. V diz assim com admirável piedade e juízo: Homines enim sumus. vel invidendo melioribus. podemos ler em prova deles outros dos mesmos Padres. disseram a verdade em tudo. Jerônimo. quanto dela se pode colher facilmente. contra os erros de S. quam res se habet. atque respuere (si forte invenerimus. institutumque naturae. velut scripturas canonicas laudare debemus. como alumiados por Deus. quando eles escreveram. usque ad prescidendae communionis et condendi schismatis vel haeresis sacrilegium pervenire. em que. talis ego sum in scriptis aliorunt. um de teologia escolástica e outro` da positiva — Santo Agostinho e S. diabolica praesumptio est. II De Batismo. aliter reliquos tratores: illos semper vera dicere: istos in quibusdam ut homines aberrare>> «So os Apóstolos. Mas para que se veja a ocasião ou ocasiões que tiveram para não acertar com a verdadeira inteligência de algumas escrituras. contra os Donatistas. ut nobis non liceat (salva honorificentia. a cujo supremo juízo sujeitaram sempre todos os seus escritos. De maneira que. não as devemos ler como escrituras canônicas. principalmente as dos Profetas. reprovar e não seguir algumas cousas das que disseram.: nimis autem amando sententiam suam. seguindo Santo Agostinho. E ponho aqui (tanto de melhor vontade) esta minha advertência. Mas entre estes exemplos naturais da fragilidade humana. se em alguma cousa desacertaram. Este é o modo (diz Santo Agostinho) com que eu leio os escritos dos outros e com que quero que sejam 1idos os meus. na epístola III. vel a nobis). quão verdadeiramente eram santos. que é o fim para que isto supomos. direi agora o que da ponderação das mesmas escrituras proféticas e das exposições dos Padres sobre elas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro pariunt propter convenientem ordinem. e não eram anjos. cap. quam se res habet. cerrar em alguma cousa é fraqueza de homens. como homens eram e podem errar:>> _ diz o Doutor Máximo.:» O mesmo sentia S. acertar em tudo. nos ensinam no conhecimento que tinham de si e nós devemos ter de nós. e por isso mesmo sapientíssimos Porem aqui as palavras de dois maiores Doutores. quod aliter senserint quam veritas habet. como dissemos ou supomos.

ou de que as partes opostas às que naquele tempo se conheciam. nec quomodo ab occasu ad Orientem remearent. e muito 77 . hanc respondent rerum esse naturam.quasi ut ingenia sua in malis rebus exerceant vel ostentent. et vana vanis defendunt. quod rotundo conclusum teneretur. quae autem levia sunt. fumus. ignis. atque oriri semper ab eadem. etiam ipsam terram globo similem. do que nós hoje nos podemos rir dele. não se rindo menos dos que naquele tempo tinham esta opinião. neque enim fieri posset ut non esset rotundum. Quid dicam de iis? Nescio. quod sic videri propler immensam latitudnem necesse est. que foi de muitos filósofos antigos se tinha entre os Padres por verdade muito certa e averiguada. a medio deferantur ut coelum petant. ut in omnes Coeli partes eamdem faciem gerat. Hujus quoque erroris aperienda nobis origo est [. eram não só desertas. et urbes. qui esse contrarios vestigiis nostris antipodas putant? Num aliquid loquuntur? Aut est quisquam tam ineptus. ut pondera in medium ferantur. et ad medium connexa sint omnia sicut radios videmus in rota. qui cum semel aberraverint. com o verdadeiro entendimento de alguns lugares dos Profetas que eles interpretaram em alheio e diferente sentido A primeira ocasião que os Padres tiveram para não poderem entender em seu tempo o sentido literal e histórico daqueles textos proféticos. itaque et aereos orbes fabricati sunt quasi ad figuram Mundi. Por isso não duvidei de copiar esta página de latim. negando geralmente a opinião. qui haec portenta defendunt. et grandinem sursum versus ca dere in terram? Et miratur aliquis in hortos pensiles ~nter seplem mira narrari. quod si ita esset. etiam sequebatur illud extremum. e a errada opinião. ut nebula. quão impossível cousa lhes era acertarem naquele tempo. Solem atque Lunam in aemdem partem semper occidere. ou de que o globo da Terra não era perfeitamente esférico. em que alguns se afundavam. ut Terra in medio sinu ejus esset inclusa. eosque caelarunt portentosis quibusdam simulacris. quae astra esse dicerent. senão ainda inabitáveis Este sentimento. Quod si esset. necesse esse. e hoje depois delas nos parecem ridículas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro louvor de sua grandeza e sabedoria. que então (antes da experiência) tinham nome de razões. Sic astra. existimaverunt rotundum esse Mundum sicut pilam: et ex motu siderum opinati sunt coelum volvi. caeterisque animulibus incolatur: sic pendulos istos antipodas Coeli rotunditas adinvenit. et agros et maria. aut prudentes et scios mendacia defendenda suscipere. Solemque. não eram entre todos as mesmas razões filosóficas. constanter in stultitia perseverant. quomodo ergo non cadunt omnia in inferiorem illam cueli partem. e muito douto daquele tempo e zombando elegantissimamente dos que tinham a opinião contrária. Até aqui Lactancio. campos tendat. ut nulla sit pars Terrae. em aquelas suposições. . Pluvias et nives. coelum autem ipsum in ornnes partes putarent esse devexum. Si autem rotunda etiam Terra esset. qui credut esse homines quorum vestigia sint superiora quam capita? Aut ibi quae apud nos jacent inversa pendere? Fruges et arbores deorsum versas crescere. maria consternat. Hanc igitur Coeli rotunditatem illud sequebatur. volubilitate ipsa Mundi ad ortum referri. et montes pensiles faciant. ou fama de haver os que então já se chamavam antípodas Posto que os princípios por que os Padres os negavam. cum philosophi. discorre assim: Quid illi. nisi quod eos interdum puto. Cum autem non prospicerent quce machinatio cursus eorum temperaret. montes erigat. era a falta que então havia no Mundo da verdadeira e exata cosmografia. Descreve Lactâncio Firmiano que era um dos Padres. que para os que bem o entendem sei de certo não será larga. cum occiderirint. Quod si quaeras ab is. aut joci causa philosophari.quae non ab hominibus.] Quae igitur illos ad antipodas ratio perduxit? Videbant siderum cursus in occasum meantium. por sua matéria e elegância. id est.

O que se haja de dizer de tais homens e de tais entendimentos. viam. quando há filósofos que fazem campos pênsiles. E se perguntarmos aos defensores deste portento como pode ser que os homens que. posto que lhe não contentaram os seus fundamentos. assim como do mesmo eixo saem os raios para a roda. lá estejam dependuradas? Que as árvores cresçam para a parte inferior? Que a chuva caia para cima? E que os que hão-de colher os frutos. em que as torres e os telhados estão pendurados para baixo! Mas será bem que digamos a origem donde teve princípio este erro e que razão moveu ou levou estes homens a uma cousa tão irracional. vieram a imaginar que o Mundo era redondo como uma bola. acomodando-se naturalmente a figura do corpo exterior e maior. Santo Agostinho também teve a mesma opinião de Lactâncio. senão por jogo e zombaria. defendendo umas cousas vãs com outras tão vãs como elas. e torneada desta maneira. a que chamam antípodas? Porventura dizem estes alguma cousa que tenha fundamento. empregando tão bons entendimentos em tão más cousas. tem figura de uma abóbada (sendo que esta representação não a faz a figura do céu. fingem com os pés para cima. com palavras de tanta segurança como as seguintes: Quod vero et antipodas esse fabulantur. XVI De Civitate Dei. como está: nesta em que vivemos. e não subir? E espantamo-nos que os hortos pênsiles se contêm entre as Sete Maravilhas do Mundo. e que. as defendem contudo para ostentar habilidade e engenho. que de todas as partes inclina para o centro. e que sabendo muito bem que tudo o que dizem são fábulas e mentiras. assim as cousas pesadas vão buscar o meio. Viam que o Sol. assim que a imaginada rotundidade do céu foi a inventora destes antípodas pendurados. e foi bem que o deixasse tão miudamente escrito. e como não caem por esses ares abaixo respondem que é o peso natural da Terra. depois de terem caído no primeiro erro. ou cuidavam que viam. os fumos. hajam de descer aos ramos. perseveram constantemente na sua ignorância. primeiros descobridores de seus antípodas. para que soubéssemos o que naquele tempo se sabia do Mundo e para que saiba o mesmo Mundo quanto deve aos Portugueses. como haver antípodas. e que todas as cousas que aqui estão em pé. tiravam por segunda conseqüência que também havia de estar povoada de homens e de animais. assim como os raios de uma roda todos vão parar ao eixo. sobem direitas para as diversas partes do Céu. que agora se segue. e direitas. os quais impugna no livro das suas Categorias. para que não fiquem com o sentimento de quão mal se pode trasladar à nossa língua a elegância da latina: «Que direi daqueles—diz Lactando—os quais tiveram para si que há no Mundo outros homens que andam com os pés virados para nós. e. a Lua e estrelas. não o sei. e não entendendo o modo por que esta máquina se governa. e feita redonda a Terra. só digo que. como o fogo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro menos para os que o não entendem. homines a contraria parte Terrae. saíam sempre do Oriente e entravam pelo Ocaso. em que estavam esculpidas essas imagens e corpos portentosos. sendo que algumas vezes cuido que não dizem nem escrevem isto de siso. senão o termo e fraqueza de nossa vista). que este céu que nos cobre. em todas as partes. ubi Sol oritur quando occidit nobis. as névoas. de que a Terra está cercada. resolve que se não deve crer que há antípodas. adversa pedibus nostris 78 . ou pode haver homem de tão pouco juízo que se lhe meta na cabeça que há homens que andem com a cabeça para baixo. O mesmo peço eu que façam os que não têm necessidade de ver a tradução dela. porque o passarão mais brevemente. Desta redondeza ou rotundidade do céu inferiam e assentavam que também a Terra era redonda. a que chamamos estrelas e planetas. as cousas leves. dentro do qual estava metida. id est. e assim fingiam que havia no céu vários orbes de matéria sólida como bronze. mares pênsiles e cidades pênsiles. mas no liv.>> Este é o discurso de Lactâncio. se lhes não despeguem da terra.

João Crisóstomo. exusta flammis et cremata. como nós para os seus. navigare ac pervenire potuisse. é cousa que de nenhum modo se há-de crer.Anexo:Imprimir/ História do Futuro calcare vestigia.» O primeiro lugar é do Salmo CXXXV e o segundo do Salmo XXIII. e assim a lemos expressa. nam sic docet Scriptura: «Quid expandit terram super aquis». com muitos outros filósofos. homens da outra parte do Mundo. se os houvera.>> Não dissera isto o sapientíssimo Doutor. A razão de Santo Agostinho com que negou os antípodas. dizendo: Quod autem universa Terra in aquis subsistat nec ulla sit pars ejus. cominus vapore torretur. Circa duae tantum inter exustam et rigentes. que tudo pode. logo. que não só faziam inabitável a zona tórrida. Esta mesma opinião foi comum entre os outros Padres da Igreja. ainda encarece mais este louvor nosso. que de nenhum modo se podia passar: Media vero terrarum _ diz Plínio — qua Solis orbita est. Teofilato. com que os reprovadores da empresa do Infante Dom Henrique a impugnavam. Basílio e Santo Ambrósio. em S. Neque hoc ulla historia cognitione didicisse se affirmant. ainda antes de Lactâncio. mas este é o maior louvor da nossa Nação (como disse um orador delas) que chegaram os Portugueses com a espada onde Santo Agostinho não chegou com o entendimento. como consta da Escritura. onde o Sol lhes nasce a eles. porque. sed quasi ratiocinando conjectant: «E quanto à fábula dos que fingem que há antípodas — diz Santo Agostinho. sem saber de quem falava. et iterum: «quia itse super maria fundavit eum. os quais referiam os tremores da Terra à inconstância deste fundamento de sua natureza tão 79 . isto é. E verdadeiramente que as palavras de um e outro são tão claras. em Santo Hilário. haviam de ter passado a outra parte do Mundo. e tinham por impossível aquele descobrimento. se já naquele tempo estiveram escritas as histórias dos Portugueses. Eutímio e outros. Assim o cuidou Tales Milézio. historiadores e poetas. e é grande absurdo dizer que os homens pudessem fazer tal navegação. como referem as nossas histórias. e que pisam a terra com os pés voltados para os nossos. era um dos mais forçosos argumentos. Esta é a razão de Santo Agostinho e este o famoso elogio que. e só o conjeturam por discursos. Justino. parece se deviam entender assim. Assim o argumentava Procópio sobre o primeiro capítulo do Gênesis. S. Este incêndio da zona tórrida ainda em tempos tão chegados aos nossos. mas supunham tão grande incêndio nela pela vizinhança do Sol. e muitos anos e séculos depois em Procópio. disse o famoso e ilustríssimo africano dos Portugueses conquistadores depois de sua pátria: Nimisque absurdum est (são palavras suas no mesmo lugar) ut dicatur aliquos homines ex hac in illam partem Oceani immensitate trajecta. são descendentes de Adão. em S. temperantur: eaeque ipsae inter se non perviae propter incendium sideris. A estas razões propriamente filosóficas e a este discurso. um dos sete sábios de Grécia. aquis vacua et denudata hominibus. segue-se que não há nem pode haver antípodas. que antes da experiência parecia afirmarem ou definirem claramente que debaixo da terra não havia outra cousa mais que a água. e que Deus. que se a vista dos olhos não tivera ensinado o contrário. quando se põe a nós. e antes de Santo Agostinho. para mostrar sua onipotência tinha fundado a terra sobre a água. ut etiam illic ex uno illo primo homine genus institueretur humanum. nem seus autores o provam com alguma história que tal afirme. por cima da imensidade do mar Oceano. notum reor. acrescentavam os Padres outras teológicas e alguns textos da Escritura Sagrada. porque o argumento em que se funda é este: Todos os homens que se propagaram e estenderam pelo Mundo. uns fundando-se nas razões já referidas e todos naquela tão celebrada dos filósofos. quae infra nos sita sit. nulla ratione credendum est.

aquele verso do Salmo LXVII: Regna terrae.Anexo:Imprimir/ História do Futuro pouco sólido. et timebunt qui habitant terminos a signis tuis exitus matutini et vespere delectabis. e não inferior e debaixo como de antes estava. qui ascendit super Occasum. cujo verdadeiro sentido é este: Quando Deus criou o Mundo. e é Senhor de seus habitadores. porque. para que da conseqüência dele se veja melhor a verdade e clareza desta exposição: Domini est terra et plenitudo ejus. que são aquelas que descobrimos. que são os antípodas. iter facite ei. entende pelos habitadores dos termos da terra as gentes orientais e ocidentais. Lorino. Referem-se vários lugares dos Profetas que os expositores modernos entendem dos antípodas e conquistas de Portugal. assim Orientais como Ocidentais. isto é superior a ela. isto é.. não puderam deixar de dizer o mesmo.. às vozes dos seus pregadores: Ecce dabit voci suae vocem virtutis. que fala da conversão dos reinos e terras do Oriente. et super fluvia praeparavit eum. e são tão próprios desta explicação muitos lugares dele. antes do conhecimento dos antípodas. psallite Deo.] sit Deus (diz Lorino). et supereminere aquis fecit.] in locum unum. a emenda deste engano nos ensinou também a entender aqueles textos de David. hoc est. Donde notou advertidamente Viegas. conforme o lugar que se devia à sua dignidade e nobreza.. e Lorino sim. que são as que habitamos. Deus é o Senhor da Terra e de todos seus habitadores. mas depois que a experiência nos mostrou que debaixo ou da parte oposta a esta Terra há outros habitadores. cantate Deo. para mostrar que a Fé e conhecimento de Deus primeiro havia de vir às terras mais ocidentais. o que fez a Providência Divina foi apartar a água de cima da terra e dar-lhe outro lugar. a fez habitável. por isso diz David que a terra está sobre ela. Começando pelo mesmo David. a preparou e acomodou a que se pudesse habitar: Ratio cur Dominus Terrae. psallite Domino. psalmum dicite nomini ejus. alumiamos com a luz do Evangelho. omniumque in ea rerum [. que no mesmo Salmo tinha dito David: Cantate Deo. como notou o texto: Terra autem erat inanis et vacua.. que. e a água sobre a terra. Todo o Salmo LXIV explica Basílio Ponce da nova conversão das Índias.. no princípio estava o elemento da terra coberto com o elemento da água. ut habitari posset. como elemento que é mais nobre. 80 . convertidas à Fé por meio da pregação dos Portugueses e descobertas por eles. orbis terrarumm et universi qui habitant in eo: quia ipse super maria fundavit eum. E porque é Senhor da Terra? Porque a fundou. conquistamos. e assim explica as palavras: «Exitus matutini et vespere>> pro hominibus qui habitant ubi exit dies et ubi exit nox.. porque Procópio não sabia que havia mar e terra habitada dos antípodas. ecce dabit voci suae vocem virtutis. e essa é a energia da palavra praeparavit. pro Orientalibus et Occidentalibus. mas como por esta causa ficasse a terra vazia e inabitável. que é o que hoje tem o mar para que ficasse a terra superior a ele e pudesse produzir e ser habitada: Et dixit Deus: Congregentur aquae [. fazendo que fosse superior ao mar e aos rios. Dominus nomen illi. e esta é a virtude que Deus deu às vozes da sua voz. Repito o texto todo. qui ascendit super Coelum Coeli ad Orientem. e por sua natureza devia estar. Viegas. E por que a terra por este modo ficou superior à água. diz Genebrardo. porque. E não é muito que Lorino entendesse melhor este texto da terra e do mar que Procópio. comentando o verso IX: Turbabuntur gentes. fazendo a terra superior à água. ainda os que não tiveram tal pensamento. e depois havia de passar às do Oriente. quoniam terram itse fecit. et appareat arida. mas vamos a outros lugares mais impossíveis de entender. Mendonça e outros autores.

porque trata igualmente a todos: sanctum est templum tuum. Fala das missões que fazem àquelas partes os pregadores da Fé. mas multiplicadamente rica: Multiplicasti etc. dum universum haeresim per sapientes destruxit. como se saíram nestes tempos por meio da heresia. Jerônimo e Teodósio: compescens sedans. Como se dissesse Cristo. pois havendo tantos anos e tantos séculos que alumiastes a uns com a luz da Fé. latitudinem aut profundumditatem maris. que podemos dizer que a vossa Igreja é admirável na igualdade. e que a regaria como regou com a água do batismo: Visitasti terram et inebriasti eum. expulso autem Aquilone. Salomão. que foi com estas palavras:. As quais palavras. E porque para isto era necessário que o bravíssimo e indômito Oceano se sujeitasse aos homens e se deixasse arar de seus lenhos. como lê S.. e que entrassem na mesma Igreja as orações do Sul (que são as do Novo Mundo). Segue-se logo no texto:. ou como tem o hebreu: Maris rémotorum. Francisco Xavier). como entraram por meio da Fé. por vossos ocultas juízos. e o conhecimento e culto do verdadeiro Deus têm passado os mares. Ao qual sentido. et de horto suo flagellis anathematis expulit. os rubis. em muitos lugares dos seus Cânticos deixou também profetizadas estas maravilhas da nossa idade: neste sentido explicam alguns modernos aquelas palavras no cap. permitistes até agora. et veni. que é a Igreja: que saísse dele o Norte e viesse o Sul. e vossa Igreja não guardáveis igualdade com os homens. o que até aquele tempo não consentia. depois que a Fé e o Evangelho. Auster. chegado às mais remotas nações do Oriente. cavitatem. porque. sed Rex gloriae Chrisus suis auxilium praebuit. parece que vós. E acrescenta com grande energia que multiplicaria o Senhor o enriquecê-la: Multiplicasti locupletare eum... porque não duvidássemos que mares eram estes. que são os das Índias Orientais. tendo-lhe já dado as maiores riquezas temporais. entendidas assim como soam.. mas também no espírito de profecia. Auster intravit. mirabile in aequitate. que os outros estivessem às escuras (argumento que puseram os Japões a S. Ou. IV: Surge. Uns nos fins do Oriente. que saíssem da Igreja as orações do Norte. isto é. que é mui próprio e verdadeiro. que são as minas do ouro e prata. mirabile in aequitate.spes omnium finium terrae et in mari longe. que outra cousa dizem senão os interesses temporais que trazem as naus da Índia por estes espirituais que levam quando vêm carregadas dos aromas e espécies aromáticas daquelas partes? Assim o tinha dito o mesmo Salomão no verso antecedente. com que ficasse cada uma não só rica. E não carece de mistério e grande mistério. que são os das Índias Ocidentais.qui conturbas profundum maris. também dizia David que fazia Deus esta mudança em suas ondas: . Senhor. que sucedeu a David. Como se dissera: antes de se pregar o Evangelho a estas terras ou a estes mundos do Oriente é do Ocidente. sobre estes lhe havia de dar também as riquezas espirituais e a graça. sonum fluctuum ejus.Anexo:Imprimir/ História do Futuro De maneira que os homens de quem aqui fala David.. os diamantes. não só na coroa. declara o Profeta que não haviam de ser aqueles que lavam as terras e praias vizinhas a nós.. et fluent aromata illius. quasi quadam lepre vitiavit. uma e outra. et perfla hortum meum. são aqueles que estão nos dois últimos fins e extremos da Terra. e diz: Emissiones 81 . com admirável propriedade e energia. et fluent aromata illius. Aquilo. senão os mares de muito longe e de terras e gentes muito remotas: . falando do sen jardim.. diz o Profeta que visitaria Deus. onde nasce o dia e onde nasce a noite. Esta terra.sanctum est templum tuum. Porém. qua totum ortum Ecclesiae. agora sim. e outros nos fins do Ocidente. podemos aplicar as palavras de Honório: Siquidem inauditam haeresim per malignos homines Draco mentibus fidelium infudit. o proêmio com que David introduziu tudo o que até aqui temos dito. as pérolas e outros tantos tesouros. Finalmente. mulcens sonitum.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro tuae, paradisus malorum punicorum cum pomorum fructibus As vossas missões são um paraíso de que se não colhem frutos de árvores, senão frutos de frutos. Cum pomorum fructibus. Porque pelo fruto espiritual que vão fazer os missionários, vêm de lá os frutos temporais com que Portugal se enriquece. E se vão faltando os segundos frutos, é porque também vão faltando os primeiros, de que eles nascem. Mas que frutos são estes? Disse o mesmo Salomão: Cypri cum nardo, nardus et crocus, fistula et cinnamomum cum universis lignis Libati, myrrha, et aloe cum omnibus primi unguentis: A canela, a canafistola, o sândalo, o benjoim, as áquilas, os calambucos, e todo o outro gênero de espécies odoríferas e aromáticas, que são as mesmas que vêm da Índia. No cap. VII diz assim o mesmo Salomão, ou a Esposa, que é a Igreja, falando com seu Esposo Cristo: Mandragorae dederunt odorem. In portis nostris omnia poma: nova et vetera servavi tibi. As mandrigoras são os pregadores da Fé, como diz S. Gregório: Quid per mandragoram, herbam scilicet medicinalem et odoriferam, nisi virtus perfectorum intelligitur? Qui, dum imperfectorum infirmitatibus medentur in fide quam praedicant, id est. in portis Ecclesiae veri medici esse comprobantur. Com o cheiro destas mandrágoras e com a doutrina destes pregadores, [diz a Esposa] que ajuntou para seu Esposo os frutos novos aos velhos. Assim o interpretam os Setenta: Nova et vetera servavi tibi; porque aos cristãos antigos, que eram os da Europa, ajuntou a Igreja estes novos, que são os da nova gente que se descobriu no Oriente e no Ocidente, que são as portas de que fala a Esposa: In portis nostris. Uma porta por onde o Sol sai ao nosso hemisfério, que é a do Oriente, e outra por onde entra aos antípodas, que é a do Ocidente. Assim entendem este lugar alguns autores que refere Cornélio, resumindo todo o sentido dele nestas palavras: Nonulli per nova opinantur hic notari novi orbis inventionem et conversionem ad Chrstum. Novus enim hic orbis continet Peruanos, Mexicanos, Brasilios, Chilenses etc. est dimidium totius orbis, ut patet ex globo cosmográphico [...] jam per religiosos S. Dominici, S. Francisci et Societatis Jesus totus pene subjacet Ecclesiae Sic in India Orientali hoc saeculo et praecedenti mire per eosdem propagatur Fides apud Japones, ubi plurimi pro Fide certant usque ad martyria lentorum ignium apud Sinenses, Molucenses et Ceilanos. De maneira que os frutos novos que a Igreja, por meio do cheiro destas mandrágoras medicinais e odoríferas, ajuntou aos velhos e antigos, são os do Peru e México, do Brasil e Chile, e os do Japão e China, das Malucas e Ceilão; uns nas portas do Oriente, outros nas do Ocidente: Madragorae dederunt odorem suum. Parece que estavam esquecidos, mas não estavam senão guardados para este tempo: servavi. Em quase todo o cap. VIII repete Salomão a mesma conversão das Índias, e particularmente naquelas palavras: Soror nostra parva, et ubera no habet; quid faciemus sorori nostrae in die quando alloquenda est? Si murus est. aedificemus super eum propugnacula argentea; si ostium est. compingamus illud tabulis cedrinis. Até agora foi escuríssimo este lugar, mas são admiráveis os mistérios e mais admiráveis ainda as propriedades dele. Ludovico Legionense, nos comentários sobre este livro, entende por esta irmã mais moça da Esposa a Igreja da Gentilidade novamente convertida à Fé: ...sub persona hujus sororis natu minoris, et parum forma praestantis, cu`jus de collocatione sponsa solicitari dicitur, multi significantur populi atque gentes longe a nostro orbe remotae, ad Christum adducenda; nova quadam Evangelli tradendi ratione; hoc est significatur Hispanorum navigationibus reperti orbis, ejusque incolarum ad Christi. fidem nuper facta conversio. Ainda que a Igreja toda seja uma, como a destas novas gentilidades veio ao conhecimento de Cristo tanto depois, que não foram menos que mil e quinhentos anos, por isso lhe chama

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro Salomão irmã menor e pequena — Soror nostra parva est — não pela grandeza das terras e número das gentes, em que é maior ou, quando menos, igual a toda a Igreja antiga, mas pela menoridade do tempo e da idade em que se converteu. E diz com muita propriedade que não tem peitos: Et ubera non habet porque todos estes anos esteve falta do leite da verdadeira doutrina. E porque haver-se de desposar com Cristo esta nova Igreja era um negócio cheio de tantas dificuldades, assim pela distancia de tão remotas terras e navegação de tão desconhecidos mares, como principalmente pela resistência de suas nações, umas bárbaras, outras políticas e todas feras, armadas e belicosas, e tão superiores no número e multidão aos que lhes haviam de levar e introduzir a Fé, estas dificuldades representa a Igreja antiga a seu Esposo, Cristo, com aquelas palavras: Quid faciemus sorori nostrae in die quando alloquenda est? «Que faremos Senhor, quando chegar o tempo em que se há-de desposar convosco esta minha irmã menor?:>> Ao que responde Cristo com o antiquíssimo conselho de sua providência, dizendo: Si murus est. aedificemus super eum propugnacula argentea; si ostium, compingamus illud tabulis cedrinis. Quem não admirará nesta resposta os altíssimos conselhos da sabedoria e providência divina? Dispôs Deus desde a criação do Mundo que estas terras, assim por fora como por dentro, fossem enriquecidas de coisas preciosíssimas, para que o interesse dos homens facilitasse as dificuldades, que sem ele criam impossíveis de vencer. Como se dissera o Senhor: Ainda que a conquista da Fé tem muros que dificultem sua entrada nessas terras, também tem portas por onde poderá entrar; esses muros facilitá-los-emos com prata; essas portas abri-las-emos com cedros: Si murus, aedificemus propugnacula argentea; si ostium, compingamus illud tabulis cedrinis. Pela prata se entendem as minas e pelos cedros odoríferos as plantas preciosas; e as minas que essas terras têm em suas entranhas, e as plantas odoríferas e preciosas que nelas nascem, são os meios e incentivos que obrigaram o interesse humano a que se disponha a vencer todas essas dificuldades e abrir e franquear essas portas. E assim foi porque a prata, o ouro, os rubis, os diamantes, as esmeraldas, que aquelas terras criam e escondem em suas entranhas; as áquilas, os calambucos, o pau-brasil, o violeta, o ébano, a canela, o cravo e a pimenta, que nelas nascem, foram os incentivos do interesse tão poderoso com os homens, que grandemente facilitaram os perigos e os trabalhos da navegação e conquista de umas e outras Índias. Sendo certo que, se Deus com suma providência não enriquecera de todos estes tesouros aquelas terras, não bastaria só o zelo e amor da religião para introduzir nelas a Fé. O profeta Isaías, como profeta singularmente escolhido para historiar as maravilhas da lei evangélica, foi o que mais falou de nós e delas: no cap. XLIX diz assim: Ecce isti de longe venient, et ecce illi ab aquilone et mari, et isti de terra australi. Laudate, caeli, et exulta, terra, jubilate, montes, laudem, quia consolatus est Dominus populum suum, et pauperum quorum miserebitur. O qual lugar entende Cornélio à Lápide e Árias Montano da conversão da China, e o provam do original hebreu, o qual lêem de terra Senim, como verts S. Jerónimo, Símaco, Áquila, Teodósio, o Siro, o Arábio, e todos, e é o mesmo que de terra Sinorum, por ser este o modo de falar da língua hebréia, na qual os Galileus se chamam Gelilim, e os Judeus Jehudim, e os Assírios Assurim, e assim também os Chinas ou Sinas Sinim. E se replicarmos a este sentido que a China não é terra austral, senão oriental, e que se não pode verificar dela o termo de terra australi, respondem os mesmos autores que aludiu o Espírito Santo, que governava a pena de S. Jerónimo, à navegação dos Portugueses, os quais, quando vão para o Oriente, fazem a sua viagem direita ao Austro, navegando ao cabo da Boa Esperança: Sinae enim (dizem eles), qui proprie hic significantur, licet sint ad Orientem, dici tamen possum ad Austrum, quia Lusitani in Sinas

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro navigaturi, initio longo flexu, navigant ad Austrum, scilicet ex Lusitania usque ad promontorium Bonae Spei, quod uItimum est in continente et directe oppositum Austro. De maneira que, como os Portugueses eram os que haviam de levar a Fé à China, navegando ao Austro ou Sul, por isso o Espírito Santo chamou Austral à China, não pelo sítio, senão pelo rumo da navegação. Da mesma conversão dos Chinas fez outra vez menção Isaías no cap. XI, v. I4, o qual explica larga e eruditamente Malvenda, seguindo a Foreiro, ambos varões mui doutos da família dominicana. O mesmo Profeta Isaías no cap. LX: Qui sunt isti, qui ut nubes volant et quasi columbae ad fenestras suas? Me enim insulae expectant, et naves maris in principio, ut adducam filios tuos de longe; argentum eorum et aurum eorum cum eis, nomini Domini Dei tui et Sancto Israel, quia glorificavit te. Et aedificabunt filii peregrinorum muros tugs, et reges eorum ministrabunt tibi. Nestas palavras está profetizada admiravelmente a conversão das Índias Ocidentais; assim as explicam o mesmo Cornélio, Bózio, Aldrovando e outros, com bem notáveis propriedades. Chama o Profeta às Índias Ocidentais, ilhas: Me enim insulae expectant. Porque todas aquelas vastíssimas terras, em quanto se têm descoberto, estão rodeadas de mar, e bastava para se chamarem assim a imensidade de mares que as dividem do Mundo amigo; além de que estes terras no princípio eram chamadas com o nome de Antilhas, como se lê na história de seu descobrimento. As nuvens que voam a estes terras para as fertilizer—Qui sunt isti, qui ut nubes volant— são os pregadores do Evangelho, levados do vento pelo mar como nuvens; e chamam-se também pombas: Et sunt columbae ad fenestras suas; porque levam estes nuvens a água do baptismo sobre que desceu o Espírito Santo em figure de pomba, que são os dois termos que desde o princípio do Mundo andaram sempre juntos na significação do batismo. No I cap. do Gênesis: Spiritus Domini ferebatur super aquas, e no II de S. João: ...nisi quis renatus fuerit ex aqua et Spiritu Sancto. Mas o mesmo Bózio e Aldrovando, ainda advertiram no nome e semelhança de pomba outra propriedade mais aguda, tirada do descobrimento das mesmas Índias, de cujas terras e navegação foi o primeiro descobridor Cristóvão Colombo; e dizem que a isto aludiu o profeta, chamando Columbas ou Columbos a todos os que seguem a mesma derrota e navegação das Índias: Nomine columbae alludit ad Christophorum Columbum, qui nobis iter ad illas oras primus aperuit. Bem assim, ou muito melhor, e com mais verdade do que disseram os Gentios que os Argonautas, quando foram conquistar o velo de ouro a Colcos, levaram por guia uma pomba: Et qui movistis duo littora, cum rudis Argus Dux erat, ignoto missa columba mari. Os Potosis e outras minas de prata e ouro, que juntamente com as almas para a Igreja haviam de conquistar estes argonautas, também as não esqueceu o Profeta: Et adducam filios tuos de longe, argentum eorum et aurum eorum cum eis. Muito ouro, muita prata e muitos filhos para a Igreja, e tudo de muito longe; e porque não ficassem em silêncio as frotas das Índias: Et navis maris in principio; ou como lê Foreiro do hebreu: Et naves maris cum primaria, seu praetoria, que faziam esta navegação muitas naus, não divididas, senão em frota, com sua capitaina; finalmente, que homens peregrinos edificariam os muros da Igreja naquelas terras: Et aedificabunt filii peregrinorum muros tuos; e que os ministros de tudo isto seriam os mesmos reis, como fazem com tanta piedade os reis católicos: Et reges eorum ministrabunt tibi.

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geral da sua religião.» Tais foram em tudo as obras do Infante D. vós sereis chamado edificador das cercas e fareis que os que sempre andam.. LVIII fala Isaías das obras grandes que fará o homem misericordioso. eu farei que se colha muito copioso e de todo o gênero: Dabo in solitudinem cedrum et spinam et myrtum. vós lançareis os fundamentos de uma e outra geração. Henrique. et terram inviam in rivos aquarum. Henrique. bem ponderadas. e de ilhas desertas que antigamente eram. continuadas depois pelos reis de Portugal. Brasilia. et non sunt: lingua eorum siti aruit. como era a ilha da Madeira. As palavras de Isaías são estas: Et aedificabuntur in te deserta saeculorum. como eram as Canárias e de Cabo Verde.. estão hoje tão povoadas e populosas. et vocaberis aedificator septum. Cornélio. foi o puro e piedoso zelo da dilatação da Fé e conversão da gentilidade. no Brasil. eu abrirei caminho por onde a elas cheguem as águas. XLI: Egeni et pauperes quaerunt aquas. Para que entenda e conheça o Mundo quão poderoso sou. como se tiram as dos Gentios. et myrtum. et in medio camporum fortes: ponam desertum in stagna aquarum. as Terceiras ou dos Açores. tenham assento. isto é. de que tanto necessitam: Et terram inviam in rivos aquarum. e como a major obra e a major misericórdia de sodas é tirar almas do Inferno. diz assim: Hoc etiam hodie in Japone. mas não nos disseram que gentes estes fossem ou houvessem de ser. Dabo in solitudinem cedrum. ele as descobriu. No cap. que levaram adiante o que ele começou. que desde o princípio do Mundo. aliisque Indiarum provinciis impleri magna laetitia conspicimus: que se cumpriu e está cumprindo esta profecia no Japão. que estavam povoadas de bárbaros. quando por meio da luz da Fé se lhes mostra o caminho da salvação.Anexo:Imprimir/ História do Futuro É também ilustre lugar em Isaías aquele do cap. China. São Jerônimo. E assim como nestas ilhas ermas e desertas lançou este glorioso príncipe os primeiros fundamentos da geração humana. fundamenta generationis. et spinam. et intelligant pariter. assim em outras ilhas. na China. et lignum olivae. cujo principal intento naquela empresa. quia manus Domini fecit hoc. povoou e edificou. depois do reverendíssimo Cláudio Aquaviva. Quantos pobres e miseráveis estão morrendo à sede por falta de água. São Cirilo. ponam in deserto abietem. vivendo na gentilidade sem água do batismo? Mas eu (diz Deus) que também sou Senhor destes. por tantos séculos estiveram desertas e incógnitas e despovoadas. Ego Dominus exaudiam eos [. O P. Procópio e Teodoreto entendem este texto da conversão das gentilidades. porém os Doutores modernos nos dizem quais elas são. e de onde até agora se não colheu fruto. Aperiam in supinis collibus flumina. primeiro autor dos descobrimentos portugueses. etc.e.. diz umas palavras o Profeta. que. que Deus havia de converter por meio da pregação do Evangelho. e que esta obra é de minha mão: Ut videant et sciant quia manus Domini fecit hoc. et generationis suscitabis. ulmum et buxum simul.] non derelinquam eos. de nenhum outro homem se podem entender à letra senão do nosso Infante santo (sic) D. os ouvirei e não me esquecerei deles: Ego Dominus exaudiam eos. Até aqui andamos com Isaías pelas terras firmes. Nestes seus montes e desertos secos e estéreis abrirei fontes e rios mui copiosos. porque as não conheciam. e por mais que essas terras sejam sem caminho. Primeiramente nele e por ele se povoaram os desertos dos séculos! porque muitas ilhas. avertens semitas in quietem: «Em vós se povoarão os desertos dos séculos. e tão enobrecidas de famosas cidades e suntuosos edifícios: Aedificabuntur in te deserta saeculorum. fazendo que fossem povoadas de homens. vamos agora às ilhas.. et recogitent. lançou também os 85 . ut videant et sciant. como dizem sodas as nossas histórias. que são as primeiras por onde os nossos descobrimentos começaram.

vel Austrum. e quando fosse tão bárbara. que sempre são os instrumentos mais aparelhados que o Mundo e o Demônio têm para impedir as obras de Deus. nós que proveito podemos ter de terra tão estéril e áspera. e não mando?` seus vassalos passar além-mar. 86 . Oppida innumera et civitates pulcherrimae passim condutur in quibus constituuntur caetus hominum. que os lançou fora da primeira ilha. et omnibus quae Africae littora respiciunt: amplius cunctis quas Oceanus aluit. são os que hoje vivem com tanto assento. e por cobrarmos um comedor destes. que Deus deu por pasto dos brutos. perdermos os amigos e parentes!» Isto é o que filosofavam e diziam os prudentes e políticos daquele tempo. senão infinitos outros. como sabemos que é a das Canárias.os reis passados deste Reino (diziam eles) sempre dos reinos alheios para o seu trouxeram gente a este a fazer novas povoações. referindo o que desta empresa do Infante sentiam e murmuravam os que lhes parecia inútil e infrutuosa: <. e não só eles. quas no mine Promontorii Viridis appellant. andando de antes vagamente pelas brenhas. cultivadas e ricas. latissimis etiam regionibus Indiarum. fundando e edificando conventos de diversas ordens. e foi que. se aquietassem e tomassem assento. Neste sentido tão próprio e literal explica Bózio este texto de Isaías. e ele quer levar os naturais portugueses a povoar terras ermas por tantos perigos do mar. As palavras prometidas de Bózio são as que se seguem: . sive orientem. mas antes que escreva as suas palavras. Certo que outro exemplo lhe deu seu padre poucos dias há. O meio que para esta segunda e mais importante geração tomaram os religiosíssimos príncipes de Portugal. E estes bárbaros. de grande virtude e letras. quero pôr aqui as do nosso João de Barros. Sancti Laurentii. Boreamvel spectantibus idem contingit.. que como animais andavam saltando de penedo em penedo. não sabemos que gente é. humanidade.. E bem se viu quanto mais naturais são para eles que para nós. qui bestiarum modo prius incertis sedibus vagabantur. pois em tão poucos dias uma coelha multiplicou tanto. similiter in Canariis. não cala o Profeta o fruto que desta santa indústria se seguiu em sodas estes gentilidades de bárbaros. e não habitada por nós. E quando quer que nestas terras de Guiné se achasse tanta gente como o Infante diz. dando os maninhos de Lavre. e cativar gente tão mesquinha? Certo nós não sabemos outro. as cercas e claustros das religiões: Et vocaberis aedificator septum Finalmente. junto a Caruche. nem o modo de sua peleja. et in stabulis ipsis habitabant. excitantur fundamenta generationis. ordem e política cristã. Neque finis illus hucusque apparet. edificador de cercas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro fundamentos da geração divina. sive occidentem Solem. alemão. com obrigação de trazer a ele moradores estrangeiros de Alemanha. como animais silvestres.idem perfectum videinus in insults quas Tertieras vocant. romper terras. a Lambert de Orches. a qual anda de penedo em penedo como cabras às pedradas contra quem os quer ofender. que isso quer dizer—Avertens semitas in quietem. de fome e sedes. como vemos que passam os que lá vão. foi mandarem religiosos por sodas as conquistas. que os rompesse e povoasse. fazendo por meio da pregação e luz do Evangelho que esses bárbaros gentios conhecessem a Deus e fossem gerados em Cristo: Fundamenta generationis et generationis suscitabis. como aqui notam alguns expositores. senão virem eles encarentar o mantimento da terra e comerem nossos trabalhos. quase como admoestação de Deus. que são... e vivessem como homens. Ascensionis. mas estes terras ermas foram as que pelo zelo e constância daquele príncipe se vêem hoje tão povoadas. et generationis eorum. Hispaniae in Oceano adjacentibus Occidentem versus. que há por bem ser aquela terra pastada de alimárias. e por isso diz o Profeta que seria chamado o primeiro autor desta obra.

quae quondam remotarum gentium frequentibus navigationibus petebutur. mas chegando mais de perto à gente e terra ou província de que se entende a profecia. Trabalharam sempre muito os intérpretes antigos por acharem a verdadeira explicação e aplicação deste texto. ad gentem convulsam et dilaceratam. Arias Alontano. III explica muitos outros lugares de Isaías. II cap. volans alis suis. mas nem atinaram nem podiam atinar com ela porque não tiveram notícia nem da terra. angeli veloces. ad quam veniunt cum navibus a terra longinqua. e este é o que nós havemos de descobrir ou escrever aqui. et vela sua extendunt.» Aptosite in Indiam. Chama a estes ilhas o Profeta. ilhas de longe. pelas quais ilhas entendiam todos antigamente Itália e Espanha. Porque esta terra que descreve o Profeta está além da Etiópia trans flumina AEtiopiae. Java.. XLIX: Audite. havendo visto as gentes. por estas palavras: Chaldeus interpres haec verba Isaiae in hunc modum reddidit: <<Vae terrae. que é a terra que fica da outra banda da Etiópia. e no cap. dizendo que se entende da nova conversão à Fé daquelas terras e gentes também novas. senão terra firme.ad insulas longe ad illos. e com toda a propriedade são ilhas. como no cap. como diz o texto.. et attendite. José da Costa. e é este: Vae terrae cymbalo alarum. como veremos e verão melhor os que tiverem lido as exposições antigas e modernas dele. Tomás Bózio. parece que os trazemos debaixo dos pés e que os pisamos. que. Ludovico Legionense. tão versado nas Escrituras como na geografia e na história natural das Índias Ocidentais. ut aquila. das ilhas que os Portugueses conquistaram para Cristo. Mas porque Isaías nesta sua descrição põe tantos sinais 87 . e que não tem depois de si outra terra senão o vastíssimo mar do Sul. pisado as terras e navegado as águas de que fala este texto. Alartim del Rio e outros dizem (e bem). post quem non est alius. Mas esta exposição e a de Mendonça e Rebelo (que entendem o texto geralmente da Índia Oriental). Ponhamos fim a Isaías com um celebradíssimo texto do cap. Os comentadores modernos acertaram em comum com o entendimento da profecia. ad gentem expectantem et conculcatam. cujus diripuerunt flumina terram ejus. e ilhas de muito longe. e se prova fácil e claramente.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Até aqui este autor doutíssimo. Estes dois sinais tão manifestos só se podem verificar da América. e verdadeiramente o entendeu. o qual no mesmo liv. qui non audierunt de me. mas verdadeiramente nem são ilhas. por estarem quase cercadas uma do Mediterrâneo. nem se podem chamar de Longe em comparação das que depois descobrimos. também os modernos não acertaram até agora com o sentido próprio. e nomeadamente de Ceilão. Cornélio teve para si que fala o profeta de Etiópia e do Preste João. Japão. que falou Isaías da América e Novo Mundo. entente dos Chinas e Japões. ad populum terribilem. et in vasis papyri super aquas! Ite. o qual foi sempre julgado por um dos mais dificultosos e escuros de todos os Profetas. que ultimamente se conheceram no Mundo com o descobrimento dos antípodas. nem das gentes de que falava o Profeta. que isso quer dizer a energia da palavra: Ad gentem conculcatam: gente pisada dos pés. e aplica à navegação dos Portugueses o parafraste caldeu. Maldivas Socotorá. insulin. germano e natural dela. mas Etiópia não está além de Etiópia. XVIII. quae etiam itsas sinarum oras praetervectae Japoniorum insulas tenent. que ficaram debaixo de nós. outra do Oceano. LXVI: . têm contra si tudo o que logo diremos. Frederico Lúmnio. e notaram alguns com agudeza e propriedade. quae est trans flumina AEthiopiae. pelo havermos recebido de pessoa douta e versada nas Escrituras. et nunc ab extremo Occidente Lusitanorum victricibus classibus aditur. populi de longe. acabou de o entender. Malvenda. Malucas e outras. quae mittit in mare legatos. com os outros que cita. porque os antípodas. e é terra depois da qual não há outra: ad populum post quem non est alius.

que por ser tão pouco conhecida e menos nomeada nos escritores. e nós dizemos. por ruas. em que se possa tomar porto. o Brasil fica imediatamente detrás de Etiópia. navegando-se sempre por entre árvores espessíssimas de uma e outra parte. com grande diferença dos Europeus. palmares e arvoredos altíssimos. senão em casas 88 . Diz pois o Profeta. em que os rios são infinitos e os maiores e mais caudalosos do Mundo. todos com as raízes e troncos metidos na água. sendo muito contados e muito estreitos os sítios mais altos que eles. mas porque assinala mindamente outros mais particulares e que não convêm a toda a gente e terra do Brasil. Os Hebreus dizem&mdash. e os cozem a este fim. cujas terras estão todas senhoreadas e afogadas das águas. Fazem depois suas frautas dos mesmos ossos humanos. mas depois de mortos os despedaçam e os comem e os assam. que aquela (quais são os Brasis) que não só matam seus inimigos.de trans&mdash. que tão expressamente tinha falado nesta gente. e tais são também os Brasis. não é muito que a falta de suas notícias lhe tivesse até agora escurecido e divertido a honra deste famoso oráculo do mais ilustre profeta. e não pode haver gente mais terrível entre todas as que têm figura humana. quae est sita ultra AEthiopiam (quae AEthiopia scatet fluminibus) e o hebreu ao pé da letra tem de trans flumina AEthiopiae. que tangem e trazem na boca. em que os Índios possam assentar suas povoações. lê o Sírio&mdash. como notou Malvenda. Estes são os sinais comuns que nos aponta o Profeta daquela terra e gente. vê-se este destroço e roubo que os rios fizeram à terra. é outra vez necessário que nós também declaremos a província e gente em que eles todos se verificam. que pela maior parte não têm barba. Em lugar de gentem conculcatam. e mostravam aos nossos as panelas em que os haviam de cozinhar. não se vendo em muitas jornadas mais que bosques. E é admirável a propriedade desta diferença. porque em toda aquela terra. A qual palavra&mdash. e esta gente e esta província mostraremos agora que é a que com toda a propriedade chamamos Maranhão.Anexo:Imprimir/ História do Futuro particulares e tantas diferenças individuantes. duzentas e mais léguas. sem nenhum horror. ou como verte e comenta Vatablo: terra. sendo raríssimos os lugares por espaço de cento. e agora das Amazonas. ainda que seja a alguma caveira desenterrada com outras cerimônias cruéis. que são estes homens uma gente a quem os rios lhe roubaram a sua terra: Cujus diripuerant flumina terram ejus. Digo primeiramente. e posto que estes alagadiços sejam ordinários em toda aquela costa. Diz mais o Profeta que a gente desta terra é terrível: ad populum terribilem. e os autores alegados nos não dizem que província esta seja. que estando cercados os Bárbaros. é hebraísmo. que claramente estão mostrando que não fala de toda a América ou Mundo Novo em comum. e no peito e pelo corpo têm a pele lisa e sem cabelo. senão de alguma província particular dele. travessas e praças de água que a natureza deixou descobertas e desimpedidas do arvoredo. e muito distantes uns dos outros.de trans&mdash. e isto é o que agora hei-de mostrar. de que fazem os seus muros. considerado o círculo que faz o globo terrestre. quase todos os campos estão alagados e cobertos de água doce. subiam as mulheres às trincheiras ou paliçadas. detrás. e é estilo e nobreza entre eles não poderem tomar nome senão depois de quebraram a cabeça a algum inimigo. e assim se viu muitas vezes naquelas guerras. bárbaras e verdadeiramente terríveis. semelhante ao da nossa língua. que em respeito de Jerusalém. será necessário que nós o digamos. vivendo por esta causa não imediatamente sobre a terra. que o texto de Isaías se entende do Brasil.gentem depilatam: gente sem pêlo. sendo as próprias mulheres as que guisam e convidam hóspedes a se regalarem com estas inumanas iguarias. muito mais particularmente naquele vastíssimo arquipélago do rio chamado Orelhana. porque o Brasil é a terra que direitamente está além e da outra banda da Etiópia como diz o Profeta: quae est trans flumina AEthiopiae. e assim é na geografia destas terras.

por serem eles. tomando o nome da mesma arte de navegar e das mesmas embarcações em que lá navegavam. se chamam na sua língua igara. nos frutos agrestes das árvores de que se sustentam. outros. que todos desembocam nele.Anexo:Imprimir/ História do Futuro levantadas sobre esteios a que chamam juraus para que nas maiores enchentes passem as águas por baixo. ainda que o rio das Amazonas tenha fama de tão enorme grandeza. uns deles se sujeitaram. restituindo-lhes os rios a terra que lhes roubaram. caindo para a parte do mar. senão rios. e ali como soldados tão exercitados com o mais poderoso inimigo. os que isto fazem. e em muita quantidade de tartarugas e peixes-bois. desenganados os Índios (que eram mui valentes e resistiram por muitos anos) que não podiam prevalecer contra as nossas armas. diferindo só as árvores das casas em que umas são de ramos verdes outras de palmas secas. que nos mesmos lugares sobre-aguados. por cima dela se conservam e aparecem. E nota o Profeta que não é rio. Desta sorte vivem os Nheengaíbas. que tendo as raízes e troncos escondidos na água. se meteram pelo sertão. comunicando e confundindo em si as águas e como unindo e conjurando as forças para este roubo que fizeram àquela terra: Cujus diripuerunt flumina terram ejus. ou juntamente com ele. assim porque foram ficando a pedaços em vários sítios como porque depois da vitória lhes foi necessário para conservarem o violento domínio. porque os Tutinambás. Desta peregrinação e desta guerra se seguiram naquela gente os dois efeitos que sinala Isaías. e muito particularmente pelo exercício e arte da navegação. não podendo resistir. fizeram facilmente a seus habitadores o que nós lhes tínhamos feito a eles. onde ficaram muitos. entre os lodos e raízes das árvores. porque as suas embarcações. e deste nome igara derivaram a denominação de Igaruanas. como gente nascida e mais criada na água que na terra. que são os gados que pastam naqueles campos. em que eram e são os Maranhões mui sinalados entre os índios. porque caem todos na água. se chamam Igaruanas. e uns e outros gente despedaçada: gentem conculcatam et dilaceratam. Conhecidos já pela fortuna os descreve o Profeta. Tanto assim que a principal nação daquela terra. porque apenas dão passo que não seja com o remo na mão. de que os primeiros usavam. e diz que os habitadores desta província são gente arrancada e despedaçada. e alguma caça de aves e montaria de porcos. porque. com mais generosa resolução e determinados a não servir. os artífices ou os senhores das naus Diz pois Isaías que esta gente de que fala é um povo: Quae mittit in mare legatos et in vasis papyri super aquas: «Que manda de uma parte para outra seus negociantes em vasos de cascas de árvores sobre as águas. não sem novos inimigos que ainda mais os despedaçassem. (que assim se chamavam os Pernambucanos) os arrancaram de suas pátrias. os vencidos também ficaram arrancados. bem assim como as mesmas árvores. toda esta se compõe do concurso de muitos outros rios.>> 89 . que são as canoas. ficando uma e outra gente arrancada e despedaçada: os vencedores arrancados. e só o Espírito Santo poderá recopilar em duas palavras a história e última fortuna daquela gente. porque os tinham lançado de suas terras os Portugueses. vieram sair às terras do Maranhão. Maianás e outras antigamente populosas gentes. como se disséssemos os náuticos. ficando em suas próprias terras. muitos deles fugiram em magotes pelos matos e pelos rios tomando diferentes caminhos. de quem se diz com propriedade que andam mais com as mãos que com os pés. e também despedaçados. além de outro pescado menor. ou certamente porque com sua indústria adiantaram muito a rudeza das embarcações bárbaras. se ceva nos frutos delas. Quando os Portugueses conquistaram as terras de Pernambuco. ou os primeiros inventores da sua náutica. dividirem-se em colônias mui distantes uns dos outros. onde fizeram assento. assim que uns e outros ficaram gente arrancada. e também e com muito maior razão despedaçados porque. Continua Isaías a sua descrição. Goianás. outros. cuja colheita é muito 1impa.

que quer dizer. depois que viram os sinos de que nós usamos. e uma e outra cousa significam as palavras de Isaías. têm ambas as significações e querem dizer: Ai da terra que tem navios com asas. cujos troncos são muito altos e direitos. e não adivinhavam nem podiam. ou. além de entrarem com elas pelo mar Oceano. que está nas primeiras palavras deste texto: Vae terrae cymbalo alarum.Anexo:Imprimir/ História do Futuro As palavras do Profeta todas têm mistério e todas declaram muito a propriedade da gente de que fala. ou cretitáculos. de água doce. o expositor que mais foi rastejando o sentido verdadeiro que podia ter este enigma. Isto suposto. senão de cabaços ou cocos grandes. se chama na sua língua. tanto assim que. e por nome geral cimbalos. quae reducem sistris cretitantibus apim Concelebras. dentro dos quais metiam seixos ou caroços de várias frutas. crotalos et inania cymbala pulsas. como são sinos? Esta dificuldade foi até agora o torcedor de todos os entendimentos dos expositores sagrados. leram terrae navium alis. o mesmo arquipélago que dizemos. Depois que tiveram uso do ferro. porque o não tinham. maracás ou sinos de metal. Estes maracás eram propriamente os seus címbalos ou sinos. Diz que as manda o povo. mas como podia ser que entendessem o enigma da terra. como aqueles que falavam a adivinhar. porque. no comentário literal deste lugar de Isaías. cavam os troncos das árvores e fazem de um só madeiro muito grandes canoas. de que o autor desta explicação viu alguma que tinha dezessete palmos de boca e cento de comprimento. senão tinham as notícias nem a língua dela? Para inteligência do verdadeiro entendimento deste texto ou enigma. tirando-lhes as cascas assim inteiras. como para os da guerra. mas o mesmo povo e a mesma nação é a que elege aqueles que lhes parecem de melhor talento. o qual. que se chamavam por nomes particulares sistros crotalos. porque é gente que não tem reis. com que significamos os nossos sinos de metal. como se pode ver nos autores da língua latina. E não faz dúvida dizer o profeta que estas embarcações iam ao mar: Qui mittit in mare. se há-de supor que a palavra latina cymbalum. e. o que tudo quer dizer mar grande. porque Pará significa mar. foi Gabriel Palácio. lhes chamam itamaracás. assim para os negócios da paz. Diz mais que vão sobre as águas em vasos de cascas de árvores.. que tudo isso quer dizer a palavra legatos. mas antes de terem ferro despiam estes mesmos madeiros. e de aqui veio o nome que os Portugueses lhe puseram de Grão-Pará ou Maranhão. significa também qualquer instrumento com que se faz som e estrondo e tais eram os címbalos de que usavam antigamente os Gentios. porque os nomes hebreus de que estas versões foram tiradas. vertendo em verso este mesmo lugar de Isaías: Vae tibi. servindo-se dos menores nas festas e nos bailes e dos maiores nas guerras. Do que temos dito até aqui ficará mais fácil de entender aquele grande enigma do Profeta. Assim o explicou eruditamente Carpenteio. duros e acomodados a fazer muito estrondo e ruído. de 1600 anos a esta parte. o qual foi sempre o que maior trabalho deu aos intérpretes e os obrigou a dizerem cousas mui violentas e impróprias. diz assim: Fortasse indicus usus nominis cymbali antiquitas inolevit apud Hebraeos tempore Isaiae: 90 . com quem concorda o relativo quae. delas formavam as suas embarcações. em lugar de terrae cvmbalo alarum. mar.. ai da terra que tem sinos com asas. Se são sinos. por sua grandeza. como são navios? e se são navios. Os Setenta Intérpretes. porque esta era a matéria e fábrica de suas embarcações. Também se há-de supor que os Maranhões usavam de uns instrumentos a que chamavam maracás não de metal.

Sanchez e outros muitos tão geralmente. como diz Foreiro. empavezavam-se as canoas com asas vermelhas dos guarás. porque os Maranhões são aqueles que. e com ele nomeiam os nossos navios. Mas não está ainda explicada toda a dificuldade ou propriedade do enigma. ficam pontual e perpendicularmente bem debaixo da Linha Equinocial. e estas são pontualmente os maracàtins dos Maranhões. onde a Vulgata leu gentem expectantem expectantem. como dissemos. chamavam àquelas canoas ou embarcações maiores maracàtim. que. porque não só levam empenadas as setas. de que Isaías falava. quais eram ordinariamente as suas. Assim que vem a dizer Isaías que a terra de que fala é terra que usa embarcações que têm nomes de sinos. Nem mais nem menos que os Romanos às suas galés de guerra deram nomes de rostratas. A qual explicação pudera ser bem admitida. pelas pontas de ferro agudas que levavam nas proas. além do movimento natural das canoas e dos remeiros. atados aos gorupezes ou paus compridos. como dizem os geógrafos. quando iam às batalhas navais. e deste modo fica decifrado e entendido o antiquíssimo e escuríssimo lugar e enigma de Isaías. que é propriedade por todos os títulos admirável. grandes e todos vermelhos. e este nome usam ainda hoje. e por isso o Profeta diz que todas estas cousas via e notava como tão novas: chamam as lanças sinos e sinos com asas: Navius alis. destas penas se enfeitam quando se querem pôr bizarros. está também repetida no mesmo texto a palavra expectantem. e principalmente quando vão à guerra. a propriedade da letra hebréia. sem mistura de outra cor. com que vem a concluir o Profeta 91 . punham na proa um destes maracás muito grandes. navium alis.Anexo:Imprimir/ História do Futuro «Porventura—diz ele—que no tempo de Isaías as embarcações dos Índios se chamariam entre os Hebreus sinos. Vatablo. ou tomassem nome de sinos as embarcações dos índios. é grande entre eles o uso das penas pela formosura das cores com que a natureza vestiu os pássaros. cymbalo alarum. além da Etiópia. e a razão de darem este nome às suas maiores embarcações era porque. Como aqueles gentios não tecem.» E porque não seria antes. que se chamassem sinos. conforme o poeta: Velorun pandimus alas. Os expositores todos dizem que estas asas eram as velas das embarcações e que são as asas dos navios. não porque este nome fosse usado entre os Hebreus. e as partaz anas de pau e pedra que chamam fanga-penas. porque diz o Profeta que estas embarcações ou estes sinos eram sinos e embarcações com asas: cymbalo alarum. que têm o mesmo nome. e assim como a palavra lineae se repete. E porque não faltasse a esta terra a demarcação ou arrumação. tirado também o nome ou metáfora dos bicos das aves. senão também os arcos e rodelas. ornando com elas todo o gênero de armas. gente da linha de linha. e juntando a palavra tim com a palavra maracá. de que há infinita quantidade. e as mesmas levavam penduradas dos gorupezes e maracás das proas. e quando a guerra era naval. e bolindo de indústria com eles. tirada a metáfora do nariz dos homens ou do bico das aves. sendo certo que o Profeta não havia de dar por sinal e divisa daquelas embarcações uma cousa tão comum e universal em todas. senão entre os mesmos Índios? Assim era e assim é. Digo pois que fala o texto de verdadeiras asas de aves. significa entre eles sino. se não tivera a própria e verdadeira. e particularmente o chamado guarás. Pagnino. e porque a proa da canoa se chama tim. digo eu. da sua altura. nem têm panos. é gentem lineae linea:. faziam um estrondo barbaramente bélico e horrível. que chamam rostros. derivado o nome da palavra mararacá. As maiores embarcações dos Maranhões chamam-se maracàtim.

que é exortar os pregadores evangélicos a que vão ser anjos da guarda daquela triste gente. Toda a explicação é comum e certa entre todos os autores mais peritos da língua hebraica—Vatablo. como escrevem muitas histórias de Espanha. o qual verdadeiramente se pode contar entre os cronistas de Portugal. Porque entre todas as gentes do Brasil os Maranhões foram os últimos a quem chegaram as novas do Evangelho e o conhecimento do verdadeiro Deus. No Brasil se começou a pregar a Fé no ano de 1550. que tanto tardou a todos os Americanos. limite e fim. O Profeta Abdias em um só capítulo que escreveu também falou das conquistas de Portugal: El transmigratio Hierusalem. em que o conquistou Alexandre de Moura. Frei Luís de Leon. qual é a que logo diremos. possidebit civitates Austri. Isidoro Clário e os demais. esperando mais que todos os outros Brasis sessenta e cinco anos. pela qual fortuna (como notou Santo Agostinho na morte dos infantes de Belém) não tiveram parte na morte de Cristo e conservaram sua antiga nobreza. é conseqüência muito ajustada que da profecia do desterro passou. Deixo muitos outros lugares do Profeta Isaías. de que São Jerônimo verteu Bosphoro. viria tempo em que possuísse as cidades do Austro. Escalona e outras. foi fundação a insigne cidade de Toledo. que tanto há mister quem a encaminhe como quem a defenda: Ite. Diz agora o profeta Abdias que a transmigração de Jerusalém. angeli veloces. Pagnino. por ser parte desta província conquista sua. mais que todos eles. ou desterrados ou trazidos por Nabuco. ad gentem expectantem. Mas hoje estão ainda em pior fortuna. expectantem: gente que está esperando. quae in Bosphoro est. que o primeiro e principal intento que neles tiveram nossos piedosíssimos reis. que passou a Espanha. que são as duas balizas que têm no meio a Portugal. a uma felicidade tão estranha. e como o Profeta própria e literalmente falava neste lugar do mesmo cativeiro de Babilônia. e no Maranhão no ano de 1615. Árias Montano. porque o estado da esperança se Lhes tem trocado no de desesperação. mas foi assim necessário por sua dificuldade e por não estar até hoje entendido. esperando. Estrabo e outros graves autores. Burgense. Lirano. e deles. A palavra hebréia Sepharad. 92 . Assim querem também que de Nabuco traga seu apelido a ilustre família dos Osórios. tendo conquistado a Jerusalém e passado seus habitadores para Babilônia. ficaram muitos em Espanha. Malvenda e outros têm para si que fala da transmigração de Nabucodonosor o qual. Arias. de El-Rei Dom João o III e de El-Rei Dom Sebastião escrevem seus historiadores. limite e fim que os Antigos conheciam no Mundo. do Infante Dom Henrique. para consolação dos mesmos desterrados. como refere Josefo. como se pode ver do que de El-Rei Dom Manuel. significa termo. Destes hebreus. porque em Espanha está o estreito que divide a Europa de África e Espanha era o termo. Esta mesma palavra Sepharad é nome com que os Hebreus chamam a Espanha. segundo fala muitas vezes nas espirituais conquistas dos Portugueses e nas gentes e nações que por seus pregadores se converteram à Fé. e que veio o mesmo Nabuco em pessoa a fazer esta guerra. de El-Rei Dom João o II. Desta transmigração pois (diz Montano e os mais acima alegados) se há-de entender o texto de Abdias. há duas opiniões entre os autores. Maqueda. esperando por este bem. padecendo aquele vae do Profeta: Vae terra: cymbalo alarum. que delas havia de ter princípio. de ali mandou parte deles para Espanha. E esperam de se salvar os que de tantos danos e danos são causa? Muito largos temos sido na exposição deste texto. como testemunham de uma parte as Colunas de Hércules e de outra o cabo de Finis Terrae. em que o descobriu Pedro Álvares Cabral. Mas sobre a transmigração de Jerusalém de que Abdias fala.Anexo:Imprimir/ História do Futuro o seu principal e total intento.

mas eu. que são propriissimamente as que correm de uma e outra parte do Oceano Austral. cuja rainha 93 . chamando por ele o ressuscitou em nome de Jesus Cristo. e são as seguintes: Ego novi sanctum Petrum. O fundamento que tenho para assim o dizer. Hic venerat cum duodecim tributus missis a Nabuchodonosore in Hispaniam Hierosolymis duce Nabucho-Cerdan. e outros que é a de Cristo pelos Apóstolos.. que por isso não traduzimos. ubi dicit Rabbi Sa. Bracharensem Episcopum. se foi a uma sepultura célebre. Antônio Caracciolo e outros. et colla gentium subjugantes. seguindo esta segunda exposição. bispo de Saragoça. o velho. o moço e em presença de infinito povo. digo que falou o Profeta de uma e outra transmigração. E cumprida em Sant'Iago a transmigração de Jerusalém. judeu de nação. Os filhos desta Igreja e herdeiros desta Fé foram os que dali a tantos anos dominaram com os estandartes dela as cidades e regiões do Austro. José da Costa. que são os que em Espanha receberam e conservaram sempre a Fé que ele lhes tinha pregado. porque de ambas as transmigrações foram os primeiros ministros da Fé que a plantaram em Portugal. que é a primeira parte da profecia. porei aqui com as palavras do arcebispo D.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Nicolau de Lira. a quem vinha pregar e publicar por verdadeiro Deus.. e a de Nabuco com o Apóstolo Malaquias. e ele por meio de seus discípulos a converteu toda à Fé e desterrou dela a Gentilidade: Et transmigratio Hierusalem. quae in Bosphoro est (diz Lirano) in hebraeo habetur in Cepharad. entendendo uns que é a de Nabuco pelos Judeus passados à Espanha. o qual. Cornélio. e particularmente de uma carta de Hugo. onde jacia enterrado de seiscentos anos um santo profeta. o escolheu e tomou por primeiro e principal de todos seus discípulos. Pedro de Rates. e à esquerda pela costa de África à Etiópia. De maneira que todos estes autores concordam em que a profecia da conquista das regiões do Austro se entende de Espanha. depois chamado vulgarmente S. entre os quais coube Espanha a Sant'Iago. vel Pyrrho. falando do Apóstolo Sant'Iago. e dos fragmentos de Santo Atanásio. e discordam só na inteligência da transmigração de Jerusalém. chamado Malaquias. bispo do Porto. se cumpriu a segunda parte dela. quando vieram pregar a ela. Hispaniarum praefecto. Fevardêncio e outros entendem por esta transmigração de Jerusalém a que fez Cristo. Vatablo. Até aqui esta maravilhosa história. à parte direita pela costa da América ou Brasil. mandando daquela cidade e espalhando por todo o Mundo seus Apóstolos. quod fuit impletum per Jacobum apostolum. na primeira parte da História Ecclesiastica Bracharense. que foi a pedra fundamental depois do sagrado Apóstolo da Igreja de Portugal. De sorte que ambas as transmigrações de Jerusalém concorrem para a fé de Portugal: a de Cristo com o Apóstolo Santiago. tirada de autores e memórias mui antigas. Rodrigo da Cunha. batizou-o pouco depois. magister meus. Assim o entendem também. et ejus discipulos. sendo estes os que depois de tantos séculos vieram a dominar e possuir as regiões do Austro: Possidebunt civitates Austri. e dando-lhe o nome de Pedro. quem antiquum prophetam suscitavit Sanctus Jacobus Zebeduei filius. ibi fidem Christi primitus praedicantes. o qual conheceu ao mesmo Pedro ressuscitado e escreveu o caso quase pelas mesmas palavras. etc. e que ali viera dar com outros cativos mandados de Babilônia por Nabucodonosor. id est in Hispania. em seus discípulos. ou Samuel. conciliando facilmente estas duas opiniões e mostrando que a profecia se entende mais particularmente de Portugal. Nosso Senhor. e para entrar com estrondo de trovão (cujo filho o chamara Cristo. diz desta maneira: Entrou em Braga o santo Apóstolo. de onde ela depois tão felizmente se transplantou às regiões do Austro.

soberbo. Década I. faziam grande apreço de se armarem nela cavaleiros.) e que as suas alturas ou profundidades. do demônio e do pecado. furioso e indignado. E mais abaixo no mesmo cap. ou eles o sujeitaram também a Cristo. Brasilicam. in luto aquarum multarum. triunfar deles: Equitatio tua salus. quae est in Hispania. aquelas carroças que levavam pelo mar a Fé. AEthiopiam. não era para matar os homens. Os Portugueses. de que usou o Profeta (deixando à parte haver sido esta empresa dos primeiros descobrimentos e conquistas dos Portugueses). para esta guerra dos Infiéis ordenou e novamente constituiu. hoc est. e as naus dos Portugueses. por si mesma e na opinião do Mundo tem [esta] cavalaria [tanto valimento.] que não só os mesmos Portugueses. e este da sua cavalaria o primeiro triunfo. e estas são as terras de que no comento deste texto faz menção Cornélio: Americam. Mas para que se veja o grande mistério desta metáfora de cavalaria de Cristo. e último deste Profeta. com as mãos levantadas o adorariam e reconheceriam por Senhor: Altitudo manus suas levavit. e esta foi a primeira vitória de Cristo. Henrique) outra cousa muito mais eficaz.°: Viam fecisti in mari equis tuis. que ou Cristo lhe sujeitou a eles. possidebit civitates Austri. a salvação: Et quadrigae tuae salvatio. Dinis. que é o 2° do liv. E a primeira empresa e vitória desta cavalaria de Cristo foi a sujeição do mesmo mar bravo.°. com que por meio da sua cruz triunfou um dia da morte. como lemos que o fizeram alguns de Alemanha e Dinamarca. com que a despesa deste caso fosse própria dele e não taxada por outrem. O Cântico de Habacuc. tem por assunto o triunfo de Cristo. Os Portugueses foram aqueles cavaleiros a quem Cristo abriu o primeiro caminho pelo mar: Viam fecisti in mari equis tuis. O mesmo Profeta o disse assim: Numquid in mari indignatio tua?» «Porventura. e os méritos de seu trabalho ficassem metidos na Ordem e Cavalaria de Cristo que ele governava. Faz muito ao caso advertir o que escreve o nosso insigne historiador destas conquistas. ó Senhor. diz Santo Agostinho. que o mar submeteria suas ondas: Gurges aquarum transiit: que os abismos confessariam a potência de Cristo as vozes: Dedit abyssus vocem suam. que El-Rei D. como os cavalos pisam o lodo da terra: In Iuto aquarum multarum.° . I. E esperamos que seja novo complemento dela o domínio da terra indômita. conforme a disposição da sua providência. e verdadeiramente não se podia dizer cousa mais apropriada aos Portugueses. que é a matéria de todo o III cap. E no v. para que pisasse as ondas. e salvando-os. geralmente chamada Terra Austral. do que eram os reinos de Fez e Marrocos. para que o reconhecesse e adorasse.. de cujo 94 .a: Assentou em mudar esta conquista para outras partes mais remotas de Espanha.ascendes super equos tuos: et quadrigae tuae salvatio. que era a obrigação do cargo e administração que tinha de governador da Ordem da Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo. há-de ser eterna a vossa indignação no mar?» E responde a esta sua pergunta. 8.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Sabá chamou Cristo Regina Austri. seu tresavo. Assim se cumpriu nos Portugueses a profecia de Abdias: Transmigratio. Isto quer dizer 0 Profeta no v. A parte marítima deste triunfo. Que abriu Cristo caminho pelo mar à sua cavalaria. e depois em vários tempos foi triunfando da idolatria e da gentilidade. (Ibid.. que quero pôr aqui por suas próprias palavras): Mas ainda foi acerca dele (fala do Infante D. que também foi naval.. Africam. por meio de cuja navegação e pregação sujeitou Cristo à obediência de seu império tantas gentes de ambos os mundos. senão ainda os estrangeiros. senão para os salvar. e que a guerra que com esta cavalaria havia de fazer. 15. evangelistae tui portabunt te. aqueles cavaleiros que pisaram as ondas do mar. pertence principalmente aos Portugueses.

para que a fosse dar por Cristo no Japão. tão breve noite para os corpos e tão comprida noite para as almas. e para que se não admirem quando lhes dissermos que os tem escolhido para outras maiores. e feita. diz que ficou cheio de temor e assombro ( assim o interpretaram os Setenta . diz o Profeta que faria Deus que se descobrisse e conhecesse o que até então estava oculto: In medio annorum notum facies. não havendo outra entre todas as da Cristandade. e a verdade da história e cumprimento da profecia. Francisco Xavier. Na História do P. senão com as rendas e tesouros da mesma cavalaria e serviços e merecimentos próprios dela. De sorte que dizer o Profeta que Cristo havia de abrir caminho no mar à sua cavalaria. traduzindo juntamente e explicando leram: Cum appropinquaverint anni. que a consideração dos ocultos juízos de Deus. Singular prerrogativa. não com outras despesas. Mas no meio desses compridíssimos anos.:>> E este novo conhecimento que Deus deu àquelas nações por meio dos 95 . não só tem a formosura da metáfora. e que tanto adiantou em nossas Conquistas a glória de sua empresa. Quando Deus revelou ao Profeta e quando ouviu de sua boca o que havia de fazer aos vindouros. «Quando chegarem os anos determinados por vossa providência. por certo. senão de um que era propriamente administrador e governador da Ordem da Cavalaria de Cristo. pelos escolher para instrumentos de obras tão admiráveis. que também ele foi cavaleiro da mesma Ordem.e Marcelo Mastrilli. da Ordem dos Cavaleiros de Cristo de Portugal. com que por tantos séculos permitiu que tão grande parte do Mundo. não de outro príncipe. nem de que sobre os dotes da glória se vestisse o seu manto e a sua cruz. E porque o maior ministro do Evangelho que se embarcou nas carroças desta cavalaria. e que tendo durado tantos séculos sua ira contra aquelas gentes idólatras. cujos primeiros trabalhos foram os da navegação da costa de África e pregação da Fé em Moçambique.Anexo:Imprimir/ História do Futuro tesouro podia pretender. que se possa gloriar de ter tão ilustre cavaleiro. cognosceris. tantas gentes e tanta s almas vivessem nas trevas da infidelidade. pois verdadeiramente esta admirável empresa foi obra. acrescentando por modo de glosa no mesmo texto: Consideravi opera tua. tanto mundo e tantas almas conquistou para o mesmo Céu. misericordiae recordaberis. como insigne cavaleiro desta santa cavalaria. (começa ele) audivi auditionem tuam et timui. sem lhes amanhecerem as luzes da Fé. é cousa memorável e muito digna de se referir neste lugar. in medio annorum vivifica illud. com que deu princípio a este cântico triunfal das vitórias de Cristo: Domine. Para confirmação de tudo isto. misericordiae recordaberis. não pode haver melhor testemunho que o proêmio do mesmo Profeta. nem que maior nem mais justo temor deva causar aos que bem ponderarem esta obra. para levar a salvação às terras e gentes que ela descobriu e conquistou. Domine. opus tuum in medio annoram vivifica illud. e que a empresa havia de ser a salvação das almas. onde padeceu glorioso martírio. depois do princípio e criação do Mundo. senão a propriedade do caso. e que então tornaria o Senhor a vivificar e ressuscitar a sua obra: Opus tuum. que mais assombrasse e fizesse pasmar aos homens que o descobrimento do mesmo Mundo que tantos mil anos tinha estado incógnito e ignorado. e para que os Portugueses conheçam quanto devem a Deus. então sereis conhecido. mas todo este favor do Céu merece uma cavalaria que tanto mar. Francisco Xavier restituiu milagrosamente a vida. Os Setenta. se conta uma visão em que o mesmo santo apóstolo apareceu vestido com o manto branco da Ordem de Cristo e com cruz vermelha no peito. et expavi). em fim se lembraria de sua misericórdia: Cum iratus fueris. Porque não houve obra de Deus. In medio annorum notum facies: cum iratus fueris. a quem S. foi o grande Apóstolo da Índia S.

atque capillatura. também falou mui particularmente neste glorioso assunto: Ultra flumina AEthiopiae (diz ele. sed sono vocis dumtaxat. 96 . a mesma Fé e o mesmo Cristo que ele pregava. como são hoje os que se conservam com o mesmo nome na África. Nam AEthiopes qui ab ortu Solis sunt. não se pode entender este texto das gentes orientais. Senhor. Logo. filii dispersorum meorum deferent munus mihi. Castro e Cornélio das nações que estão além do Tigres e do Eufrates. que são todas aquelas terras que cerca o mar Oceano. segundo Estrabo. levantando uma cruz de pedra em lugar distante das praias. E o mesmo profeta mais abaixo se comenta a si mesmo. Cumpriu-se pontualmente a profecia. Digo que de uma e outra terra. qui sunt ab ortu Solis. chamada por isso Etiópia. O Profeta Sofonias. que verdadeiramente falam das gentes que estão além do rio da Etiópia: Ultra flumina AEthiopiae inde supplices mei. dos Chinas. E a razão é porque. dizendo: Suscitans suscitatis arcum. quando na cidade de Meliapor. e de quanto lhe merece Cristo. Assim o profetizou na Índia seu primeiro Apostolo. e de uma e outra gente se pode entender. como traslada Símaco: Reviviscere fac ipsum. e já os Apóstolos plantavam as balizas da fé em seu nome e conheciam e pregavam que ele era o que havia de fazer cristão ao Mundo. chegou ao lugar sinalado. donde era a mulher de Moisés. sempre o oráculo ou elogio deste Profeta nos fica em casa. a qual distinção não não só é necessária para o entendimento de muitos lugares das Escrituras. na África. Heródoto e outros. Igual glória (e não sei se maior de Portugal) a da Índia. que tinha começado pelos primeiros apóstolos que naquelas mesmas terras a pregaram. desde Guiné até o mar Roxo. Éforo.Ásia tinham o cabelo solto e corredio e os da África crespo e retorcido. então famosíssima. III. Lembre-se outra vez Portugal destas obrigações. Vatablo. e só se distinguiam uns dos outros no som da voz e no cabelo. mas contra esta explicação parece que se opõem as primeiras palavras do texto. As quais palavras entendem Árias. S. censebantur cum Indiis specie nihil admodum a caeteris differentes. As palavras de Heródoto são estas: Hi AEthiopes. segundo o que acima deixamos dito. e outra ocidental. chegariam também de partes remotíssimas do Ocidente outros homens da sua cor. isto é. e no mesmo tempo chegaram os Portugueses. que quando o mar ali chegasse. Por este argumento há outros autores que o entendem do Brasil e da América. sub Pharnarzatre. Isto quer dizer: Opus tuum vivifica illud: ou. Tomé por seu apóstolo e Portugal não era de todo cristão.Anexo:Imprimir/ História do Futuro nossos apóstolos e pregadores da sua Fé foi tornar a ressuscitar a mesma obra. qui ex Africa. senão ainda dos historiadores e poetas antigos. que por meio das pregações dos Portugueses se haviam de ajoelhar diante dos altares de Cristo e lhe haviam de levar e oferecer seus dons em testemunho de o reconhecerem por seu Deus. permixtos crines. não menos que doze léguas. Tomé. comendo pouco a pouco a terra. De sorte que também havia Etíopes na Ásia. Japões e outras gentes da Índia menos remotas. tuum. porque os da . crespissimos inter homines habent. que estava na Ásia além do Tigres e Eufrates. e posto de um e outro modo. que de outro modo se não podem bem entender. porque o mar. «Vós. ou por ele Deus) inde supplices mei. por meio de cuja pregação ressuscitaria também a Fé e as vitórias dela naquelas nações. tornareis a ressuscitar o vosso arco» (que é a sua cruz). no cap. debaixo do mesmo nome de Etiópia se compreendiam antigamente duas Etiópias: uma oriental. que pregassem a mesma Cruz. e com o tempo estava em algumas partes amortecida e em outras totalmente morta. que ainda tivesse a S. Lhes disse e mandou esculpir no pé dela.

porque Membrot. o pé direito. no cap. O mesmo Evangelista Profeta S João. os pregadores apostólicos que levam pelo Mundo ao mesmo Cristo e seu Evangelho. e os pés de seu corpo místico. (como neste lugar de Sofonias) se pode entender de qualquer das Etiópias. senão o doutíssimo Genebrardo. para aparelhar o caminho aos reis do Oriente». e que pôs o pé esquerdo sobre a terra e o direito sobre o mar: Et posuit pedem suum dextrum super mare et sinistrum super terram. XVI. cabeça da Igreja. como diz Éforo. que nós pode ser expliquemos em outro lugar. No cap. João chamasse ao mar Eufrates.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Nem faça dúvida a esta distinção a palavra Chus. onde habitou e povoou. 12. que é o mar Oceano. Não os nomeou por seu nome este autor. a quem só pertence a conversão dos reis do Oriente. falando em geral dos Espanhóis e em particular dos Portugueses. do Apocalipse. os que. X. por ser o mais profundo e mais caudaloso da Saia. e outro melhor Eufrates. principalmente acompanhado daqueles dois epítetos de alusão a grandeza: Illud magnum Euphatem. Neste basta dizer que tinha na mão um livro aberto: Et habebut in manu sua libellum apertum. porém quando se ajuntem na história ou narração algumas diferenças que o determinem. assim uns e outros na língua hebréia se chamam Chuteos e a sua terra Chus. sem saírem da terra firme pregaram nela. insigne professor parisiense das Letras Sagradas. donde se segue que o pé direito que Cristo pôs sobre o mar para esta gloriosa e evangélica empresa. diz que viu descer do Céu um anjo forte. ut praepararetur via regibus ab ortu Solis: Que «o sexto anjo derramou sua redoma sobre aquele grande rio Eufrates e que secou suas águas. pelo qual se abriu caminho aos reis do Oriente. Este anjo forte (diz Pedro Bulêngero) é Cristo. que está sobre o mar. e é o mais honrado nome e de maior estimação que lhes podia dar. levaram consigo o nome que tinham herdado de seu pai e de seu avô. para levarem nelas a Fé ao Oriente e trazerem tantos reis orientais à obediência e sujeição da Igreja. referido por Estrabo. que é a Igreja. João que se lhes havia tirar. deu o nome de seu pai às terras orientais. navegando às regiões apartadas e remotas do nosso hemisfério. que é Roma. são. João: Et sextus angelus effudit phialam suam in flumen illud magnum Euphraten: et siccovit aquam ejus. cujas insígnias descreve largamente . e os que depois passaram à África e a povoaram. Os descendentes deste mesmo Membrot e deste mesmo Chus. que está sobre a terra. como nós fizemos no texto de Isaías ultimamente referido. pelo qual os Portugueses (maior façanha e ventura que a do outro Ciro) fizeram passagem a pé enxuto nas suas grandes naus da Índia. O maior impedimento de água que tinham os reis do Oriente para passar a Jerusalém. Donde se segue que quando na Escritura se acha este nome sem outra diferença. entre os quais o pé esquerdo. mas nomeou-os por suas obras. e este impedimento diz S. donde nós lemos AEthiopae. Não sou eu nem autor português (como quase todos os que até agora tenho alegado) o que isto digo. E este grande Eufrates é aquele grande mar. e a sua terra Ethiopia. então se há-de entender determinadamente ou só da Etiópia Oriental ou só da Ocidental. diz S. Mas debaixo das figuras deste enigma se significava outra melhor Jerusalém. o livro. levam a elas a Fé de Cristo e a luz de seu Evangelho. o Evangelho explicado. 0 diz assim sobre este mesmo lugar do Apocacalipse. de modo que se pudesse passar o Eufrates a pé enxuto. e assim como uns e outros na língua latina se chamam AEthiopes. por excelência os Portugueses. não é muito que S. era o rio Eufrates. são aqueles que. entre todas as nações do Mundo. Assim como o Profeta Jeremias chamou ao Eufrates mar. filho de Chus e neto de Cham. de que usa indistintamente o original hebreu. para que pudessem vir à Igreja. 97 .

das ilhas. em que entraram os príncipes e reis e muitos grandes senhores. como haviam de vir em conhecimento dessas gentes e desses reinos os que não podiam saber sua natureza. adorar e servir. ad octo millia primum) et in his reges et princites. se não sabiam que havia Japões? Como dos Chinas. vemos que os reinos e regiões muito apartadas de nós. alegando a Súrio). Ali veremos as admiráveis propriedades e miudíssimas circunstâncias com que os mesmos Profetas falaram dos mares. opera patrum Societatis nominis Jesu ad Christi religionem traducta sunt. que pertencem às antigas Índias. não só incógnitas aos Antigos. e totalmente abrasada e inabitável. conhecem.Anexo:Imprimir/ História do Futuro explicando-se com as palavras seguintes: Istud nostra memoria factum videmus. nem lhes havia de vir ao pensamento que os Profetas falavam dos Americanos. como haviam de entender as profecias destas navegações e destes mares? Se queriam que a zona tórrida era um perpétuo incêndio. (relicto daemonum cultu. das árvores. que adoravam nos ídolos aos demônios. suas propriedades. propriedade. das minas. com que por meio dos pregadores de Cristo o haviam finalmente de conhecer. e sobre tudo da Fé e luz do Evangelho.>> Tão facilmente triunfa Cristo pela voz e espada dos Portugueses. e destas terras. Agora só pergunto: Como era possível que aqueles antigos e antiquíssimos autores explicassem neste sentido aos Profetas? Ou como podiam entender nem perceber que destas gentes. de tal maneira os Índios abraçaram a doutrina cristã e católica. dos rios. dos frutos. exercícios e histórias das gentes e reinos de que falam. explicados por autores que escreveram de cem anos a esta parte. se não sabiam que havia China? Se os Profetas nas figuras enigmáticas dos seus oráculos se declaram pela natureza. mas nem ainda presumidas ou imaginadas deles. catholicamque amplexerunt doctrinam. «Em cumprimento desta profecia (diz Bulêngero. dos costumes. depois que por meio da navegação do mar Oceano se quebrou o fabuloso encantamento dos negados antípodas e se descobriram tantas terras e gentes. que as cidades se batizaram. das navegações. e destes mares. se não sabiam que havia América? Como dos Brasis. qui populi ad veteres Índias expectant. dos sítios. receberam a Fé de Cristo em número de 8. como haviam de interpretar as profecias dos habitadores da zona tórrida? Como haviam de cuidar. et integrae civitates sacro sunt ablutae baptismate. se não havia Brasil? Como dos Peruanos e Chiles. se não sabiam que havia tal Etiópia? Como dos Japões. quae quidem regna a nobis longe dissita el incognitae regiones teterrimo daemonum cultui additae sunt. falavam os seus oráculos e profecias? Se criam tão firme e assentadamente que não havia nem podia haver antípodas. e são infiéis e gentios. pelas árvores. pela indústria dos padres da Companhia de Jesus. e em outras muitas ilhas e terras. da cegueira e infelicidade em que viviam. das terras. deixando o culto da idolatria no ano de I564. Sinenses enim. nem suas histórias? Se declaram as terras pelos sítios. et infideles sunt. com o pé direito no mar e o livro na mão direita! No capítulo seguinte se verão muitos lugares de vários Profetas. deinde multa Indorum insulae et regiones christianam. se têm passado à verdadeira religião. permultique proceres et optimates sub anno Domini I564. se não sabiam que havia no Mundo tais ilhas? Como dos Etíopes ocidentais. porque os Chinas. como podiam conhecer nem atinar com as terras os que não 98 . adoram e servem.000. pelos frutos. Christi Jesu fidem susceperunt. seus exercícios e seus costumes. costumes. com tanta glória da Igreja. como hoje. pelos rios. pelas minas e seus metais. se não sabiam que havia Peru nem Chile? Como haviam de interpretar os Profetas das ilhas desertas ou povoadas do Oceano. como podiam explicar as profecias dos antípodas? Se criam que a imensidade do mar Oceano não era navegável e tinham este pensamento por absurdo. das gentes.

como podia ser que contra a verdade infalível da profecia soubessem os Antigos deste segredo. Destas terras ultramarinas. sendo ele mestre em Teologia: La falta de Geographia v la de otras artes liberales es causa que los teologos non atinem con el sentido de la divina Escritura. ainda por falta de notícias mais particulares e miúdas. in insulis maris nomen Domini. E isto que se não pode dizer dos teólogos do nosso tempo sem grande nota de sua ciência e diligência. nem de tais frutos? E se ainda hoje. e assim como. como verdadeiramente eram. para que cousas invisíveis se fizessem visíveis: Fide intelligimus aptata esse saecula verbo Dei. Dei Israel.in doctrinis glorificate Dominum. diz assim dos teólogos. em que tinha decretado que se soubessem e descobrissem. e se terem escrito tantos livros de sua história natural e política. que seriam na confusão escuríssima da Antigüidade. incógnitas ou ignoradas? Podem os homens ocultar os seus segredos. que também trata destes novos descobrimentos ou triunfos da Fé e da conversão destas gentes. e que a mesma Providência tinha decretado que se não soubessem por revelação? LAUS DEO 99 . e que depois chegasse um século em que se descobrissem e fossem visíveis. tem por título Pro ignorantiis. secretum meum mihi: «Este segredo é só para mim. esta luz e posto que fossem varões santíssimos e tão favorecidos de Deus. E logo acrescentou: Secretum meum mihi. quando disse no cap. ut ex invisibilibus. Diz o Apóstolo S. corrida esta cortina. é obrigação e força que digamos ou suponhamos dos teólogos antigos. não quis o mesmo Deus que eles então a tivessem. por doutíssimos e sapientíssimos que fossem.. antes de chegar o tempo em que Deus tinha determinado de o revelar? O cântico do profeta Habacuc. se descobriram e manifestaram as terras e gentes de que tinham falado os Profetas. romana e espanhola.. em que nenhuma destas cousas se sabia nem se imaginava. naquele seu erudito livro da Conveniência das duas monarquias. de tais rios. se não acerta mais que em comum e individualmente com algumas das terras e gentes de que os profetas falaram. se ignorasse. depois de descobertas e conhecidas estas terras e estas gentes. estivessem ignoradas e invisíveis por tantos séculos. que para eles fossem ocultas. sem agravo. encobertas e incógnitas. e as gentes que o habitavam. por onde não é muito que tanta parte do Mundo. trabalhando por explicar de Espanha certo lugar de Isaías. que agravos ou descréditos é ou pode ser dos antigos sábios. visibilia fiant. depois do Mundo estar tão descoberto e conhecido. assim se entenderam e descobriram também os segredos e mistérios de suas profecias. e estivessem ocultas até àqueles tempos medidos e taxados por ele. sendo logo certo que estes segredos da Providência Divina se não podiam alcançar por ciência humana. Paulo que acomodou Deus e repartiu os séculos conforme os decretos da sua palavra. E se o conselho de Deus foi que o entendimento ou de todas ou de muitas cousas que ali contou o Profeta.Anexo:Imprimir/ História do Futuro tinham notícia de tais sítios. de tais minas. falava Isaías. nem menos decoro de sua erudição e grande sabedoria.» E se na mesma profecia estavam profetizadas as cousas. este segredo é só para mim. porque era disposição mui assentada da sua providência que estas cousas se não soubessem. antes as contrárias delas se tinham por averiguadas e certas? Frei João de la Puente. de tais árvores. Só por nova revelação e luz sobrenatural podiam conhecer os autores daquele tempo o que nós tão fácil e naturalmente conhecemos hoje. e mais o segredo delas. XXIV: . e Deus não será senhor de reservar os seus. porque sabiam a geografia do seu mundo e não podiam saber nem adivinhar a do nosso. mas esta revelação.

e sendo tantos mais os de nações bárbaras e políticas que em diversos tempos do Mundo se têm levantado e caído. e pondo somente os olhos no mundo presente. o do Persa. . o da Etiópia. perto de mil e trezentos anos. para que vejam e conheçam as coroas quanto é grande a sua mortalidade. Não durou. acabou em Dario. posto que arruinada e combatida. O terceiro Império. Capítulo I) por Padre Antônio Vieira Entrando a tratar do Quinto Império do Mundo (grande assunto deste nosso pequeno trabalho) para que procedamos com a distinção e clareza tão necessária em toda a história e muito mais neste gênero. pois ainda nesta nossa idade tantos impérios. em respeito ou suposição dos quais este novo de que falamos se chama Quinto. Alexandre o começou e acabou em Alexandre. só trata do primeiro que se começou e levantou nele. depois que a confusão das línguas na torre de Babel dividiu seus fabricantes em diversas partes da terra. cuja história profética. Ao império dos Assírios sucedeu o dos Persas pelos anos da criação 3444. de que foi o último Sardanapalo. a que depois com nome menos odioso chamaram Império. 3800 antes do presente de 1664 em que isto escrevemos. e o de Espanha. tão unido. os quais em espaço quase de quatro mil anos têm sido com este quatro. Porque sem recorrer à memória dos tempos passados. conforme Eusébio. 37 imperadores. sem fazer caso de muitos e grandes impérios que floresceram e haviam de florescer em vários tempos e lugares do Mundo. Tantos anos tardou a ambição em romper o respeito àquela lei com que nos fez iguais a todas a natureza. teve. e em todas estas três partes do Mundo o violento Império dos Turcos. se o considerarmos como monarquia. Foi este império de Belo o dos Assírios ou Babilônios. e quais sejam em ordem os outros quatro que lhe deram este lugar ou este nome. conhecemos hoje nele muito maior número de impérios. o do Mogor.um.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 100 História do Futuro (Volume II. Belo. o vastíssimo Império da China. ainda durou menos. reduzindo a sujeição e obediência política a liberdade natural com que todos até aquele tempo nasciam. o de Alemanha. Começou em Ciro. foi o primeiro que ensinou ao Mundo e introduziu nele a tirania. durou. filho do gigante Nembrot (posto que não faltam graves autores que fazem destes dois nomes o mesmo homem). contou por todos catorze imperadores. se sustenta a grandeza. e dos que em continuada sucessão se lhe foram seguindo até o tempo presente. com razão se deve duvidar e desejar saber a causa pôr que este nosso Império que prometemos recebe o numero de Quinto. o dos Tártaros. pois pode ser mais breve a vida de um império que a de . mais que duzentos e trinta anos. em que sem o nome. Capítulo II) por Padre Antônio Vieira Correndo os anos de 1860 da criação do Mundo. em que sem a grandeza se continua o nome. castigo tão merecido a sua soberba como necessário à propagação do gênero humano e à o mesma grandeza que aspiravam. homem. Começou este Império dos Gregos depois pelos anos do Mundo 3672. Na Ásia. segundo Justiço. entrando neste número Semearmos. senão fundado e tirado das Escrituras divinas. na Europa. que foi o dos Gregos. tão estendido. Havendo. Esta sucessão e seu princípio foi desta maneira. na África. tão poderoso e formidável. Ao que respondemos breve e facilmente que este modo de contar não é nosso nem de algum outro historiador ou autor humano. História do Futuro (Volume II. a primeira cousa que se oferece para averiguar e saber é que impérios tenham sido ou hajam de ser os outros quatro.

Em respeito pois e suposição destes quatro impérios. e desde este tempo começaram as águias romanas a aparecer coroadas com duas cabeças. ficando fora da mesma ordem. por muitos que hajam sido. Nem eles. que eram ministros e como lugar-tenentes dos imperadores orientais. que hoje reina. que começou no primeiro e há-de acabar no Quinto (que será também o último). chamamos Império Quinto ao novo e futuro que mostrará o discurso desta nossa História. de que foi o último outro Constantino de muito diferente fortuna.à margem. porque sucedeu ao dos Assírios. O do Ocidente. porque sucedeu ao dos Assírios e dos Persas. dividiu o Império. trinta anos antes do nascimento de Cristo. Estes são em breve suma os quatro Impérios que desde o primeiro que houve no Mundo se foram continuando e sucedendo até o presente. por isso as Escrituras Sagradas não fazem menção nem memória alguma deles. o qual se há-de seguir ao Império Romano na mesma forma de sucessão em que o Romano se seguiu ao Grego. para melhor governo. porque sucedeu ao dos Assírios. e. dentro em Constantinopla .a Alemanha. cuja notícia. em que contou oitenta e quatro imperadores. ficaram fora da ordem desta sucessão. e o das Gregos se chama o terceiro. até que.Anexo:Imprimir/ História do Futuro conservou-se unido somente oito. com sucessão de 35 imperadores até o grande Constantino. para melhor entendimento de tudo o que se há-de dizer adiante. ficando Roma como cabeça da Igreja. diminuindo sempre em grandeza e majestade. porque. governado e não defendido pela celebrada Cleópatra. sendo sitiado e vencido por Maomete II. e porque todos os outros Impérios. e com grande valor e zelo da Cristandade está resistindo-se (queira o Céu que seja com melhor ventura!) a outro Maomete. o Grego ao Persa e o Persa ao Assírio. e o dos Romanos se chama o quarto. posto que em matéria tão 101 . o da Macedônia. sempre era muito conveniente dar-se logo neste princípio. experimentou nela grandes variedades. e o não pusemos no corpo da história por não embaraçar o desenho dela. eleito Carlos Magno em imperador do Ocidente. tem contado noventa imperadores até Fernando III. em Império Oriental e Ocidental. como também nós a não fazemos. Havia já neste tempo setecentos anos que Rômulo levantara junto ao rio Tibre aquelas primeiras choupanas que depois se chamaram Roma. se passou o governo a exarcas. pois. cujo Império começou com este nome em Júlio César. Sustentou-se o Império Oriental por espaço de quatro mil anos. podem acrescentar número ou lagar ao novo Império com que mude ou exceda o que lhe damos de Quinto. porque há-de suceder ao dos Assírios. nos quais o Império. em tempo o Papa Lúcio TII. o do Egito. E assim como o Império dos Persas se chama o segundo Império. que foi o primeiro do Mundo. por grandes e poderosos que fossem. se dividiu em três reinos: o da Ásia. Gregos e Romanos (como logo veremos) se deve chamar com a mesma razão e propriedade o Quinto Império do Mundo. sendo governado alguns anos por imperador com igual jurdição e majestade. quando não fora tão necessária para o ponto em que estamos. Autores que dizem o mesmo. ao dos Persas e ao dos Gregos. tiradas de diferentes lugares do Texto Sagrado. depois daquela divisão. Tudo o que até aqui fica dito são suposições certas e sem dúvida. passados e presentes. Sucedeu esta mudança pelos anos de Cristo de 810. antes deles acabados. o ajuntou Marco Antônio à grandeza romana. o Império Romano com toda a inteireza de sua monarquia 400 anos. Persas.perdeu a vida e a cidade e sepultou consigo todo o Império. o qual. assim este nosso Império. fundando nova corte em Constantinopla. e este (que foi o que mais permaneceu) continuou com desigual fortuna trezentos anos. ao Pontífice passou o assento do Império . até que. que vão citadas . Durou. porque.

com cuja apreensão e assombro acordou de tal maneira perturbado e confuso. sendo gentio. . irado grandemente Nabuco.que também entravam no número dos condenados. História do Futuro (Volume II. Capítulo I: Mostra-se a Quinta Monarquia com a profecia de Daniel) por Padre Antônio Vieira 102 Já dissemos que os futuros livros ou contingentes (qual é o Império que prometemos) só são manifestos a Deus e a quem os quer revelar.Anexo:Imprimir/ História do Futuro averiguada e sem controvérsia não são necessários autores. entre os quais. um dos últimos reis imperadores de Babilônia. desvelado uma noite com os pensamentos da sua monarquia. não . devemos recorrer principalmente aos que a Fé nos ensina que foram verdadeiros profetas. eles se obrigavam a declarar a significação de tudo. se o rei lhes manifestasse o que sonhara. lhes declarou por si mesmo tudo o que lhe tinha sucedido. mandou que os levassem de sua presença e que neles e em todos os professores das mesmas artes se executasse logo a sentença de morte. E assim. senão que ele e sus famílias morreriam todas. porque tinham . assim como outros príncipes que têm fé e desmerecem por sua negligência e descuido até o conhecimento natural dos presentes. grandes e prenhes de mistérios. Tão violentos são os apetites do poder supremo. e tão arriscado não satisfazer aos reis até no impossível! Achava-se neste tempo em Babilônia Daniel. porque esta é a base e fundamento de toda a nossa História e assunto particular deste I Livro. porque todos eram gentios. Livro I. Será pois a primeira pedra deste edifício uma grande profecia de Daniel. com toda a demonstração e certeza.pelo espírito de profecia que foi tão superiormente ilustrado. os aríolos. e somente lhes haviam de dar crédito no segundo e mais dificultoso. Oro a Deus. e depois de trazidos à sua presença. o que resta e importa mostrar é que haja de haver sem dúvida este novo e prometido Império a que chamamos Quinto. mas porque o fez Deus particular profeta dos reinos e das monarquias. senão também o que tinha sonhado. Viu pois Nabuco em sonhos uma visão admirável e portentosa. mas totalmente se esquecia quais foram. e mandou-lhes seriamente que não só lhe haviam de dizer logo a significação do sonho.cousas prodigiosas. estimulado igualmente do desejo e do temor que a mesma lembrança lhe causava. mandou logo chamar os maiores sábios dos seus reinos. Não se aquietou Nabuco com esta resposta dos sábios. mas que adivinhar qual houvesse sido o sonho era segredo impossível de alcançar aos homens e reservado somente à sabedoria dos deuses. como fica dito. que era. enganadores e indignos de crédito. em prêmio ou conseqüência deste cuidado mereceu que Deus lhe revelasse. como também deixamos dito. ele e seus três companheiros. para fundarmos bem a esperança deste grande futuro. se não podiam saber o sonho. No ano antes de Redenção do Mundo 450. Falaram assim. o sucesso de muitas cousas futuras. alegaremos nos capítulos seguintes. que era cousa passada. porque. E assim o faremos agora. Nabucodonosor. os caldeus. como haviam de conhecer a significação dos futuros. antes os argüiu com ela de falsos. Assim. que eram os que pela observação das estrelas e outras professavam a ciência das cousas futuras. que somente se lembrava que acabava de sonha. E como os tristes sábios respondessem outra vez que não sabiam nem podiam satisfazer ao rei no que deles queria. os magos. o Império dos Assírios. tem o primeiro lugar Daniel. porque isso era a sua profissão e o mais a que se estendia a ciência humana. se no primeiro e mais fácil eles mesmos confessavam sua ignorância? Que se resolvessem a dizer logo uma e outra cousa. Responderam os sábios que. onde fora levado com El-Rei Joaquim no primeiro cativeiro ou transmigração dos Hebreus.

reservando o de mais (que é muito) para seus lugares. Seguiu-se à história do sonho a interpretação dele. diz Daniel. A história do sonho. as ciências de Caldeia. pelas palavras com que Daniel a referiu. e fazendo-se um grande monte. deitado no teu leito. o que havia de suceder depois do tempo presente. pois não só nos obrigam a que a creiamos por fé os que somos cristãos. Então se desfizeram juntamente o barro. e posto em sua presença e na dos maiores príncipes de Babilônia que o acompanhavam. pede que o levem a Nabucodonosor. Estando assim suspenso no que vias. é a seguinte: Tu. primeiramente com assombro e pasmo do rei lhe contou muito miudamente por sua ordem a história do que tinha sonhado. viste mais que se arrancava uma pedra de um monte. ostendit tibi que ventura sunt. Rex. a quem ele servia e que fora o autor daquele sonho. e o que eu agora te direi. Tu. e no ouro. A cabeça de ouro significava o Império dos Assírios. Parecia-te que vias defronte de ti uma estátua grande. a prata. os pés de ferro e de barro. o bronze. rodeados de rústicos e tumulto popular. e os diferentes metais de que era composta as mudanças que o mesmo Império havia de ter em diferentes tempos e para diferentes nações. folhe revelado pelo Céu o sonho e a interpretação dele. lembrando-se outra vez de tudo pela mesma ordem com aquela espécie de memória a que os filósofos chamam reminiscência. o podia revelar e a significação dele.Anexo:Imprimir/ História do Futuro estudado. que foi levada dos ventos. o ventre até os joelhos de bronze. por isso estava representado na cabeça. Disse pois Daniel que aquela grande estátua significava a sucessão do Império do Mundo. usque ad implevit universam terram. etc. de estatura alta e sublime e de aspecto terrível e temeroso. ocupou e encheu toda a terra». cortada dele sem mãos. ó Rei. cogitare coepisti in strato tuo quid esset futurum post hoec. te mostrou naquela visão tudo o que está para vir nos tempos futuros. mas se podem convencer com elas por discurso até os mesmos Gentios. o peito e os braços de prata. em que Nabucodonosor naquele tempo reinava. não por arte ou ciência minha. o ferro. que é o princípio do corpo. e porque este Império. a derrubava. e q. e depois com igual admiração e espanto de todos lhe foi explicando parte por parte os mistérios e segredos futuros que tão prodigiosa visão em si encerrava. e se converteram em pó e cinza. dos joelhos de ferro. que é o primeiro entre todos os metais. por mandado do mesmo rei. e quando já a multidão dos sábios. nem o lugar onde tivessem estado. A cabeça desta está tua era de ouro. para crédito natural da mesma profecia. Este é o prólogo da primeira profecia de Daniel. de que nós diremos agora somente o que pertencer ao ponto em que estamos. se não por revelação sua. Rex. depois de confessar a insuficiência sua e de todo o saber humano. Hoc est somnium. e todo este aparato de circunstâncias com o Texto Sagrado descreve o sucesso dela. et qui revelat misteria. foi o primeiro e o princípio de todos os Impérios. faz parar a execução Daniel. Oferece-se a declarar o sonho. 103 . o ouro. mas nós as quisemos resumir brevemente aqui. Até aqui a relação do sonho. e nem aqueles metais apareceram mais. as quais porventura puderam parecer menos necessárias ao nosso argumento. videbas et ecce quasi statua una grandis: statua illa magna et statura sublimis stabat contra te et intuitus ejus erat terribilis. «Começaste a cuidar. dando nos pés da estátua. e o Deus que só pode revelar os mistérios e segredos ocultos. e mostrar como só o Deus verdadeiro. porém a pedra que tinha derrubado a estátua cresceu. como deixamos notado. . a qual Nabuco de novo ia ouvindo e reconhecendo. começavam a caminhar para o lugar do suplício.

Mas não parava aqui a propriedade da semelhança. um em Roma outro em Constantinopla. em que não há discrepância nem dúvida alguma. disse porém expressamente que os três metais significavam três reinos. vencidos estes por Ciro. significava o Império dos Gregos. bate. que os três reinos e impérios que sucessivamente se seguiram ao dos Assírios foram o dos Persas. que é o quarto metal. ficaram verdadeiramente sendo estas duas partes do Império Romano como duas colunas naturais de ferro. sinalando-os nomeadamente por primeiro. que sucessivamente se haviam de continuar uns aos outros. não só humanas. mas porque o mesmo peso e grandeza. significava o Império dos Persas. que é o segundo metal. recebido. que foi o segundo depois dos Assírios. ainda que Daniel na sua explicação do sonho não nomeou as três nações de Persas. Gregos e Romanos.de todas as histórias. com a qual divisão. não só porque. O bronze. diz particularmente Daniel que foi porque.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A prata. foi causa de que o Império Romano se dividisse em dois impérios ou duas partes iguais do mesmo.. sic comminuet et conteret omnia hoec. e tudo o que na Europa. pondo um pé no Oriente outro no Ocidente. segundo e terceiro reino: Et post te consurget regnum aliud minus te argenteum. sobre as quais toda a máquina daquele portentoso colosso se sustentava. sujeitar e dominar todos os outros impérios. na África e na Ásia possui o Turco. são umas divisões ou .. como 104 . as quais lhe foram tirando as mesmas nações que ele tinha sujeitado.] et regnum erit velut ferrum. E este é o verdadeiro. vencidos estes por Alexandre. Assim como. e assim como as pernas e pés são a última parte do corpo humano. passou aos Persas. se havia de dividir. na sua última declinação. assim como o ventre se segue depois do peito. assim o Império Romano e o poder invencível de suas armas havia de abater. Tudo o que até aqui fica dito é de fé. porque. o dos Gregos e o dos Romanos: ou. em que se dividiam. A razão ou mistério por que o Império Romano se representou no ferro. assim como o ferro lima. passou e se incorporou no Império Romano. desfazer. assim os dez dedos. como acima vimos. que sucedeu aos três primeiros. assim como o peito e braços se seguem à cabeça. aprovado e seguido por todos os Padres e expositores deste lugar. vencidos estes por vários capitães de Roma. assim este é e há-de ser o último Império dos que naquela estátua se representavam. restituindo-se outra vez a sua primeira liberdade e soberania.retalhos do Império Romano. e consta pela experiência e pelo testemunho . consta que o mesmo Império que primeiro foi dos Assírios. e o mesmo Império dos Gregos. sem haver algum que lhe possa resistir. Et regnum quartum erit velut ferrum. significava o Império dos Romanos. e as partes ou membros de que aquele vastíssimo corpo na sua maior grandeza e potência se compunha. assim como os pés da estátua sustentavam e tinham sobre si o peso e grandeza de toda ela. assim o Império Romano teve sobre si e em si o peso e grandeza de todos os outros impérios que nele se uniram e ajuntaram. em que a grandeza do mesmo Império Romano. quomodo ferrum comminuit et domat omnia. senão também das sagradas e divinas. e o mesmo Império dos Persas. E quadra maravilhosamente no Império Romano a figura das duas pernas e pés da estátua em que foi representado. certo e indubitável sentido de interpretação de Daniel. Para cuja inteligência se deve notar que tudo o que hoje possuem os príncipes cristãos na Europa. que é o terceiro metal. passou aos Gregos. que foi o terceiro depois dos Persas e se seguiu depois deles. e que se seguiu a eles. na divisão de uma e outra perna da estátua se representava a divisão do Império Romano nos dois impérios. uns maiores outros menores. que foi e é o quarto Império. significavam dez reinos. et regnum tertium aliud oereum [. O ferro finalmente. ou se segue imediatamente dela. por o dizer com mais propriedade e certeza. corta e doma os metais.

desde o tempo de sua maior declinação a esta parte. e porque. alii minores et imbecilliores futuri sint. o que se tem visto e experimentado no Império Romano. quorum alii maiores et potentiores. havia de descair. porque nesse mesmo estado de sua declinação. partes sunt Imperii Romani tanquam rami ex una illa Imperii arbore decisi. Moscóvia. era opinião comum (como diz o mesmo santo) de todos os escritores eclesiásticos que o Império se havia de dividir em dez reinos. depois de tanta potência. principalmente na sua última idade e declinação. outros menores. pode ser entendida e percebida de todos. Quod autem vidisti ferrum mistum testæ ex luto. contra hereges e contra alguns príncipes cristãos. se bem contarmos os reinos em que hoje está dividido ou despedaçado o que antigamente foi e se chamava Império Romano. e diz assim: . Hierônimo em que o Império Romano estava íntegro e potentíssimo. Ao diante dividiremos estes mesmos dedos da estátua em outras partes que temos por mais proporcionadas. e o mesmo Império Romano. E se uns reinos destes são maiores. e nesta diz clara e expressamente que os dedos dos pés da estátua significam a divisão do Império: Porro quia vidisti pedum et digitorurn partem testæ figuli et partem ferream: regnum divisum erit. que é. e o mesmo Imperador em pessoa estão hoje resistindo às invasões do Turco e poder otomano. senão partes e 105 . et ex parte contritum. sem ter perdido cousa alguma sua grandeza. com a notícia vu1gar que se tem do Mundo.. Polônia e Estado ou Império Turco. porém. e alcançado de seus inimigos gloriosas vitórias. Inglaterra. como depois veremos. que outra cousa são ainda. Ad extremum (diz Perério) ex uno duplex factum est Imperium Romanum: alterum Latinorum seu Occidentis. E posto que Daniel nesta profecia não declara com tanta miudeza que a divisão do Império Romano há-de ser . em tantas ocasiões de guerras e batalhas contra Turcos. et sub Imperio Turcorum.pontualmente em dez partes ou dez reinos.. por agora baste esta divisão que nós pusemos em primeiro lugar por ser mas fácil. em outra profecia. nas quais em defesa da própria e da Igreja têm pelejado os exércitos imperiais com grande valor. que já antes dos tempos de S. que é o estado em que o vemos. quod omnia regna quæ nunc sunt apud Christianos. Græcorum seu Orientis. e assim o estamos vendo hoje. Dinamarca. Adjice. especifica este número. que compreende Alemanha e Itália. commiscebuntur quidem humano semine. ao pé da letra. comprovando-se a verdade desta interpretação com a experiência e confirmando-se ser este o verdadeiro sentido da profecia com o cumprimento dela. Assim se dizia e escrevia então.palavras diz Daniel que o barro dos pés dá estátua significava a debilidade e fraqueza a que o Império Romano. et parte fictiles: ex parte regnum erit solidum. senão compostos parte de barro e parte de ferro. sem reconhecerem sujeição nem obediência alguma ao Império Romano. sed non adhærebunt sibi. Suécia. E a mesma oposição tão bizarra com que as armas do Império nas fronteiras de Alemanha e Hungria. essa mesma é a propriedade dos dedos. e depois dele outros muitos: por decem digitos partim ferreos et partim terreos significatur Romanum Imperium novissime iri in multa regna multosque reges. como nota neste lugar o mesmo autor alegado. Castela França.Anexo:Imprimir/ História do Futuro hoje estão. uns mais fortes outros menos. disciplina e constância. sicuti ferrum misceri non potest testæ. o Profeta que não eram os dedos totalmente de barro. allerum vero constantinopolitanum. Adverte. porque. Et digitos pedum ex parte ferreos. debilidade e fraqueza conservaria o Império algumas partes sólidas em que permanecesse a dureza e fortaleza do antigo ferro de que todo antes era formado. Nas quais . acharemos pontualmente que são dez reinos: Portugal. quod vidisti ferrum mistum testæ ex luto. E é tão verdadeira e tão antiga esta interpretação dos dez dedos da estátua. Passa finalmente o mesmo Profeta a declarar o mistério ou significação do barro de que os dedos eram compostos em uma parte juntamente com outra de ferro.

filha de Octávio. e quantas vezes se liaram os mesmos príncipes entre si por meio de recíprocos casamentos. Quantas vezes se intentou na Europa que entre os imperadores e reis da Cristandade se estabelecesse uma liga firme. se gota por gota lhe distinguirem o sangue. os quais. se amarram contra si. em respeito do Império Romano. os homens barbaramente mortos a sangue-frio. acode Daniel a esta objeção. não tenha cada um dos outros príncipes quase iguais partes nele? E que guerras vimos ou sabemos entre estas coroas. mas tão resumido sempre. antes. e. se desuniram e tiraram de sua sujeição. primo do Imperador. as mulheres e meninos cativos e transmigrados para a Turquia. acrescentando em todas estas circunstâncias novas e admiráveis confirmações à verdade da sua Profecia. E tal é hoje o Reino de França. e verdadeiramente se possam chamar partes de ferro. genro do Imperador? Considere agora o Mundo o estado em que o mesmo Imperador se achou no ano passado e em que se acha no presente. os templos e pessoas dedicadas ao templo em abomináveis sacrilégios profanados. o de Inglaterra e da Suécia. não seja o mesmo? Tão misturado anda o sangue nestas últimas relíquias do Império Romano. em que o sangue que de uma e outra parte se defende. sicuti ferrum misceri non potest testæ. se eu me não engano.pelo matrimônio se uniram. e no de Marco Antônio com Octávia. não são nem se podem chamar senão partes de barro. Significam os dedos dos pés da estátua as últimas extremidades do Império Romano e a sua duração. as . «bem como o ferro se não pode unir nem ligar com o barro. interpondo-se para isso a autoridade dos Sumos Pontífices. corte do Império. sed non adhærebunt sibi «mas nem por isso se unirão nem ligarão entre si». filha de Júlio César. e por isso o mesmo império tão enfraquecido! Nasceu juntamente com Roma esta fatal desunião contra o respeito do sangue em Rômulo e Remo. ainda que em si mesmos sejam muito poderosos e fortes. Que casa real há no Mundo mais ligada com a do Império. os campos talados. dizendo: Commiscebuntur quidem humano semine «misturar-se-ão e ligar-se-ão no sangue». depois de profanados. Mas não são estes exemplos tão antigos os de que fala a profecia de Daniel. sem jamais se conseguir a união desejada! Que imperador ou que rei houve na Cristandade há muitos anos que. que ramo há que seja mais próprio daquele tronco. batendo às portas de Praga. mas por isso mesmo infelizmente! Se este ferro se unira ao Império contra o 106 . e neste mesmo tempo em que o ferro de Espanha se havia de unir todo ao ferro do Império. e. quão facilmente se desatam. com os poderosos exércitos do Turco metidos dentro na Áustria.mesmas mãos que. E porque não cuidasse alguém que a união que se perdeu pela separação das coroas se recuperou e supriu pela conjuração do sangue. e que sangue mais repetidamente unido por multiplicados casamentos que o de Áustria e Castela? E que pessoa real há também em que mais apertadamente estejam atados estes vínculos e mais dobrados todos estes respeitos que na de El-Rei Filipe IV. no mesmo dia em que isto estou escrevendo se está cumprindo esta profecia. cunhado do Imperador. e quase. vemo-lo todo infelizmente convertido contra Portugal. porque não são os dos pés da estátua ou os dos dedos dos pés. as cidades destruídas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro partes muito sólidas daquele mesmo ferro? Mas vindo às partes de barro: estas são (diz Daniel) aquelas províncias e nações que. e formaram novos reinos. em respeito porém do Império de que se apartaram e que tanto desuniram e enfraqueceram com sua separação. e o mesmo de Castela ou Espanha. e sendo estes muitas vezes eleitos das mesmas famílias que do Império se apartaram. viu-se no casamento de Pompeu com Júlia.» A tanta miudeza como isto desceu o Profeta. abrasados e feitos em cinzas. sendo partes do antigo Império Romano. e ainda o que se derrama. casando os imperadores nas casas reais dos outros príncipes e os reis na dos imperadores.

Quer dizer: aquela pedra. para que triunfem nas bandeiras otomanas as luas de Mafoma. da Religião. que faria se lhe dissesse ser e1e o senhor do 107 . «Tanto que o rei acabou de ouvir a Daniel. porque se desune dele em tal ocasião e se converte contra Portugal. ó Rei. et revelans mysteria. O que fez Nabuco no mesmo tempo. e mando que lhe oferecessem incenso e sacrifício. da Cristandade. barro há-de ser também no presente. e o que só conhece e revela as mistérios escondidos aos homens. ó Rei. significa um novo e quinto Império que o Deus do Céu há-de levantar no Mundo nos últimos dias dos outros quatro.et verum est somnium et fidelis interpretatio ejus. que derrubou a estátua e desfez em pó e cinza todo o preço e dureza de seus metais. Quanto melhor e mais católica ação fora. O que lhe disse foi: Vere Deus vester Deus deorum est. o primeiro. por mais que se mostre ou ameace ferro. Barro e barro quebradiço. e ainda antes de dizer estas palavras. é o Deus dos deuses e a Senhor dos reis. segundo. dissipado ou destruído. casará Filipe IV com Leonor. refere o mesmo texto em as seguintes: Tunc rex Nabuchodonosor cecidit in faciem suam. mostrando que a principal causa de toda ela é a desunião daquelas partes que por serem mais conjuntas em sangue e parentesco. é barro.. que de uma é outra parte se desperdiça. e se conquistem e sejam vencidas nas portuguesas . mas nas últimas extremidades do Império Romano e nos seus maiores apertos e trabalhos não se acharam parentes nem aderentes »— sed non adhærebunt sibi. quæ ventura sunt postea. «Verdadeiramente o Deus que adoras. esta é a fraqueza das extremidades do Império Romano. desde a cabeça até os pés da estátua.. e da mesma cabeça dela. casará o Imperador Fernando com Maria. fora ferro. pois tu. depois das palavras ultimamente referidas. prostrou-se diante dele e adorou-o com o rosto em terra. quando lhe disse que seu império se havia de acabar e passar outros quatro. foi o ano passado e. Temos visto até aqui. esta é a queixa que . e quanto de maior exemplo para todos os príncipes católicos e de menor escândalo para os hereges e para os mesmos Turcos se o sangue espanhol. sem haver de vir jamais por acontecimento algum a domínio ou poder estranho. se empregara com glória imortal de ambas as coroas em defesa da Fé. et hostias et incensum præcepit ut sacrificarent ei. a quem tão de perto ameaça este golpe! Mas quando todo o poder de Espanha se havia de achar unido contra o Turco em socorro de Alemanha e Itália. segue-se agora ver o quinto na mesma história do sonho de Nabuco e na mesma interpretação de Daniel. com lástima e lágrimas da Igreja.. e tão valoroso. ó Daniel.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Turco. que viste arrancar e descer do monte. quoniam tu potuisti aperire hoc sacramentum. Estas são as cousas futuras que Deus te quis mostrar.as chagas de Cristo! Este é o barro dos pés da estátua.» Se isto fez Nabucodonosor a Daniel. irmã de el-Rei Filipe IV. nem haver de ser conquistado. et Dominus regnum. o qual. tinham obrigação de ser mais unidas »— commiscebuntur quidem humano semine »— isto é. continuou e concluiu desta maneira: In diebus autem regnorum illorum etc. no campo de Portugal e Castela.Daniel explica e pondera na mesma fraqueza. filha de Fernando. despovoam-se os presídios de Itália. e ele só há-de permanecer para sempre. e este é o sonho que tiveste e esta a verdade de sua interpretação -. alumiado por ele. terceiro e quarto império. mas. acrescenta imediatamente o que Nabucodonosor lhe fez e o que lhe disse. pudeste declarar este grande segredo e sacramento. como sucedeu ou há-de suceder aos demais. levantam-se os de Alemanha e chamam-se todos a Castela contra Portugal. Este Império os há-de desfazer e aniquilar a todos. et Danielem adoravit. Depois de contar Daniel toda esta prodigiosa história.

e tinha quatro asas como ave e quatro cabeças. e foi-lhe dado grande poder. Persas e Gregos. horrível. «Saiu a primeira besta semelhante a uma leoa com asas de águia. et cor hominis datum est ei. Tinha os dentes de ferro grandes com que comia e despedaçava . entre os quais trazia três bocados. reinando já nela Baltasar. antes mais portentosa em tudo e mais notável. O que deste somente quero recolher e deixa assentado é que. «Depois desta saiu a terceira besta semelhante a leopardo. viu o Profeta Danie1 em uma visão de noite. como tem a opinião mais comum dos Doutores. Esta suposição é de fé. porque assim se infere por bom discurso. no sonho de Nabucodonosor e na visão daquela estátua. «Saiu a segunda besta semelhante a um urso. (ou fosse dormindo e em sonhos.. que é o romano. Durava ainda a noite. et in dentibus ejus. e depois do quarto. que a primeira. nada menos misteriosa e cheia de circunstâncias. que sucedeu a Nabuco no Império dos Assírios ou Caldeus. há-de haver um novo e melhor império que há-de ser o quinto e último.Anexo:Imprimir/ História do Futuro quinto? Naquele tempo pagava-se a interpretação de uma profecia infeliz com adorações e sacrifícios hoje pagam-se as interpretações felicíssimas com opróbrios e calúnias. primeiro no sonho das paveias dos onze irmãos que adoravam a sua.et ecce quatuor venti coeli pugnabant in mari magno. et sublata est de terra. Vejam lá os leões se lhes tira Deus as asas para [que] sejam homens! Prima [bestia] quasi leæna et alas habebat aquilæ. ou fosse. espantosa e muito forte. que os quatro ventos principais se davam batalha no meio do mar e levantavam uma horrível e furiosa tempestade. quatuor super se et quator capita erant in bestia et potestas data est ei. firmou-se sobre os pés e parou.». e depois no das sete espigas gradas e sete falidas. acordado. profeta chama bestas grantes: . Mas este ponto ficará para seu tempo e para seu lugar. em outro sonho e em outras figuras lhe fez segunda vez a mesma representação. mas o mar assim perturbado e temeroso não era mais que o teatro em que haviam de sair a representar quatro figuras horrendas. porque assim o lemos nas Escrituras. que já passaram. que ainda hoje dura. aspiciebam donec evulsæ sunt ale ejus. Passados 47 anos depois daquela visão (que foi o ano 54 do último cativeiro de Babilônia). depois de revelar Deus a Daniel o secreto do Quinto Império. et sic dicebant ei: Surge. et ecc alia quasi pardus. é de experiência. a que o. até que lhe foram tiradas ou arrancadas as asas. Livro I. e diziam-lhe que comesse e se fartasse de carne» Et ecce bestia alia similis urso in parte stetit.. et tres ordines erant in ore ejus. comede carnes plurimas. diz o Profeta e por fim de todas entrou «a quarta besta. depois dos três impérios dos Assírios.» Post hæc aspiciebam. e não levou assim muito tempo. e é de razão. velando) viu. primeiro no sonho das sete vacas robustas e sete fracas. et quator bestiæ grandes ascendebant de mari diversæ inter se. porque assim o mostrou o sucesso dos tempos. et alas habebat quasi avis. História do Futuro (Volume II. e depois no do Sol e nas estrelas que lhe faziam a mesma adoração. Assim mostrou a El-Rei Faraó os sete anos da fartura e os outros sete da fome. et super pedes quasi homo stetit. como outros suspeitam. E logo levantou as mãos da terra e se pôs em pé e ficou em figura de homem. Capítulo II: Segunda profecia de Daniel) por Padre Antônio Vieira 108 Não é cousa nova em Deus quando revela cousas grandes. Assim mostrou antigamente a José suas felicidades. tinha três ordens de dentes. pôs o Profeta nela os olhos. significar por repetidas visões o mesmo mistério e por diferentes figuras a mesma revelação. E assim nos tempos em que agora imos. digo.

Fluvius igneus. E ele lhe deu o poder. Acabou também a quarta besta. et cornua decem. representada nele. a matéria do trono era fogo. para que todos os povos e todos os tribos. Post hæc aspiciebam in visione noctis. estas como neve. e que fora entregue ao fogo para ser queimado». assentaram-se os conselheiros ou juizes assessores. et ecce bestia Quarta terribilis atque mirabilis. não ficando de tanta grandeza e bravosidade mais cinzas. et libri aperti sunt. quas videram ante eam. segunda e terceira besta se tirasse todo o poder. descrito ou construído ao pé da letra. et in conspectu ejus obtulerunt eum. limitando-se a cada uma o tempo determinado de sua duração. dentes ferreos habebat magnos. porque nunca jamais lhe será tirado» Aspiciebam ergo in visione noctis. e tinha na testa dez pontas». Et dedit ei potestatem et honorem et regnum. et regnum ejus. et Antiquus dierum sedit: vestimentum ejus candidum quasi nix. o qual acabado. e brancas as roupas de que estava vestido. Thronus ejus flammæ ignis: rotæ ejus ignis accensus. e por isso repetimos as palavras do texto: Aspiciebam donec throni positi sunt. A primeira sentença ou execução que saiu deste juízo foi que à primeira. «Com a qual (diz Daniel) ficou o meu espírito assombrado e cheio de horror. Era mui diferente de todas as outras bestas. como fazemos. para onde o reservamos. et tempora vitæ constituta essent eis usque ad tempus et tempus. Esta é pontualmente a relação de todo o sonho ou história enigmática.Anexo:Imprimir/ História do Futuro tudo o que lhe caía da boca ou não queria comer pisava com os pés. quod non cortumpetur. potestas æterna quæ non auferetur. et omnes populi. cheguei-me a um dos ministros que ali 109 . a honra e reino de todo o Mundo. eterno também o reino. e de fogo também um rio arrebentado que da boca lhe saía. et usque ad Antiquum dierum pervenit. Este é o aparato daquele tribunal e juízo. «levantou Daniel os olhos ao céu e viu que se armava um tribunal de juízo. Enquanto tudo isto notava. comedens atque comminuens. E continuando o que pertence a este. e todas as línguas o obedeçam e sirvam. umas rodas sobre que o trono estava levantado também fogo. grandeza e majestade. e que todo aquele grande corpo perecera. et fortis nimis. o qual chegou ao trono do Antigo de Dias e o ofereceram em sua presença. rapidusque egrediebatur a facie ejus. et traditum esse ad comburendum igni. Daniel via que de entre as dez pontas da quarta besta saía uma ponta menor que as outras. Trouxeram-se cadeiras e assentou-se em um alto trono um velho de venerável ancianidade. et decies millies centena millia assistebant ei: judicium sedit. et capili capitis ejus quasi lana munda. como também outras circunstâncias desta mesma visão que expenderemos em seus lugares. vieram os livros e abriram-se». et reliqua pedibus suis conculcans: dissimilis autem erat ceteris bestiis. Este seu poder será eterno. a quem o Profeta chama Antigo dos dias. Os ministros que lhe assistiam de uma e outra parte eram milhares de milhares. E volvendo eu no pensamento que significariam aquelas cousas. et ecce cum nubibus coeli quasi filius hominis veniebat. tribus et linguæ itsi servient: potestas ejus. Et vidi quoniam interfecta esset bestia. acabaram. aliarum quoque bestiarum ablata esset potestas. cujo cabelo era todo branco. para maior crédito da verdade em tudo o mais que imos referindo. cheio com grande aparato de horror. et perisset cortus ejus. Millia millium ministrabant ei. porque «viu o Profeta que fora morta violentamente. aquele como arminhos. cuja narração e mistérios pertencem ao Livro V desta nossa História. Torna a dizer o Profeta que «ainda durava a noite e viu vir rodeado de nuvens do céu um como filho do homem. a qual obrou grandes estragos e outras cousas prodigiosas.

e o que acontece em qualquer destas idades se diz com toda. declarando todas as figuras dela pela mesma ordem com que foram saindo. também está na última declinação. foi idade de prata. Mas. e os ventos e tempestades que o alteram as alterações. o qual não há de ter mudança nem variedade. pedindo-lhe me quisesse declarar o verdadeiro sentido delas. nos dias daqueles impérios. representou todos os quatro impérios. Esta é a interpretação em comum que deu o intérprete do Céu a toda a visão. ou certamente porque as julgou de menos importância ao seu interesse principal. porém. foi idade de bronze. e assim como da quatro corpos dos quatro impérios se formou um corpo. e suprindo com a exposição dos Doutores o que eles calaram. Hæ quatuor bestiæ magnæ quator sunt regna. porque dos quatro impérios já passaram totalmente os três. satisfaremos um argumento que nos fica no texto de Daniel. que é o tempo dos Persas. sobre a qual nos explicaremos mais particularmente. passa em silêncio algumas circunstâncias dela. a terceira. Primeiramente diz Daniel (ou disse a Daniel o seu intérprete) que «aquelas quatro bestas grandes significavam quatro reinos ou quatro impérios. que o mesmo intérprete chama Reino dos Santos do Altíssimo. antes que passemos adiante. Da mesma maneira a duração da estátua dos impérios era composta de diferentes idades. o dos Persas e o dos Gregos. movimentos. esta monarquia não é futura se não passada. senão como um só corpo ou um só indivíduo. et somninm scribens brevi sermone comprehendit. Suscipient autem regnum sancti Dei altissimi. Por isso viu o Rei não quatro estátuas senão uma só estátua. Diz o texto que levantará Deus esta nova monarquia in diebus regnorum illorum. e o quarto. assim das quatro durações dos quatro impérios se há-de compor uma só duração. sem dúvida para não exceder a brevidade que no princípio deste capítulo tinha prometido. no sonho de Nabucodonosor. porque não deixemos o inimigo nas costas. o qual. quæ consurgent de terra. que é o tempo dos Assírios foi idade de ouro. como agora veremos. não como quatro corpos ou quatro indivíduos. Não declara Daniel que ventos fossem aqueles. que e a demonstração do Quinto Império. que é o tempo dos Gregos. Até aqui o mesmo Profeta. a quarta. Daniel somnium vidit. que são o dos Assírios. que é o Romano. guerras e perturbações que se costumam experimentar no mesmo Mundo. mas todos os expositores concordam em que o mar significava o Mundo. donde segue que com toda a verdade se pode afirmar que sucederá nos dias daqueles Reinos o que sucede nos dias de qualquer deles. nem outro reino algum ou império que lhe suceda. Exemplo: a vida de um homem compõe-se de muitas idades. que sucessivamente se haviam de levantar no Mundo depois dos quais se havia de seguir outro quinto reino ou império. referindo a dita interpretação. exprimindo com grande particularidade e miudeza tudo o que pertence a ele. summatimque perstringens ait. porque há-de durar para sempre. Porque Deus. coligido porém tudo imediatamente do mesmo que dizem. Respondo que o Profeta na sua interpretação se acomodou com grande propriedade à figura do enigma que declarava.Anexo:Imprimir/ História do Futuro assistiam. nem que tempestades se levantaram no mar antes de sair nele as quatro bestas. A sua primeira idade. Logo. E a razão de passar por aquelas circunstâncias tão brevemente ou foi porque as supôs bastantemente declaradas na visão do segundo capítulo ou sonho de Nabucodonosor que acabamos de explicar. que é o 110 . a segunda. propriedade e verdade que acontece nos dias daquele homem. quando nele se levantam novos impérios. et obtinebunt regnum usque in sæculum et sæculum sæculorum. advertindo o que o Profeta e seu intérprete exprimiram. E ele o fez assim e me ensinou a interpretação e mistérios de tudo o que tinha visto».

que é este último tempo dos mesmos Romanos. para mostrar a violência e velocidade com que seus fundadores conquistariam e sujeitariam por armas os reinos terras e gentes de que se haviam de formar os ditos impérios. viu que do meio de dois montes de bronze saíam quatro carroças puxadas por quatro cavalos. cada tiro ou parelha de diferentes cores. foi idade de ferro. ou porque este anjo falasse mais culto que o de Daniel. como supremo Senhor dos Exércitos. diz que o perguntou a um anjo que falava dentro nele. assim dobrou também as testemunhas . iam sucedendo as profecias. Diz pois o Profeta Zacarias. e Deus multiplicando as revelações. e destes os mais fortes trataram de discorrer por toda a Terra. Assim que o Império que promete Daniel não é império já passado. levantando os olhos (ou levantado-lhos Deus da atenção das cousas presentes para a visão das futuras). no capítulo VI da sua profecia. pela terceira pombos. Estas carroças diz o Anjo que estavam prontas como ventos para execução dos mandados do Dominador da terra. e mais trabalho tem dado aos expositores deste lugar a declaração do Anjo que a visão do Profeta. que sucedeu a Baltasar. Até aqui a interpretação do Anjo. Capítulo III) por Padre Antônio Vieira 111 Prova-se o mesmo contra outra profecia de Zacarias Assim como Deus dobrou as visões. Vendo estas carroças Zacarias e não entendendo o que significavam. e a mesma sucessão de impérios que revelou a Daniel em umas figuras a mostra agora ao Profeta Zacarias em outras. Pela primeira tiravam cavalos melados. assim parece que se deve construir o texto na forma da nossa cavalaria. a principal força dos exércitos consistia nas carroças armada que eram as que faziam maior estrago na guerra como se vê nos casos tão celebrados. e estes entre os outros diz que eram os mais fortes. A primeira profecia de Daniel foi a mesma de Nabucodonosor. é idade de ferro e barro. os vários saíram contra as do Sul. senão que ainda está por vir. História do Futuro (Volume II. aos da segunda negros. ao uso daqueles tempos. porque.Anexo:Imprimir/ História do Futuro primeiro Império dos Romanos. como decrépita. e após eles os brancos. in diebus regnorum illorum. e declarados pelo Anjo em metáfora de ventos. e que com licença do Dominador a tinham passeado toda. pela segunda murzelos. aos da terceira brancos. porque Deus. se servia sempre das armas de todas as nações. como tão poderosas . que sucedeu a Nabuco. aos da quarta vários. pela quarta remendados. es1a terceira de &carias em tempo de Hidaspes. mas na frase do mesmo texto chama aos da primeira carroça ruivos. Mas. De modo que. mas sempre mostrando pela mesma forma primeiro os quatro impérios e depois o quinto. na qual e na visão do Profeta seguiremos a comum sentença dos Doutores. assim como iam sucedendo os reis. e foram estes impérios representados ao Profeta em figura de carroças. ou porque Zacarias se entendia por dentro com e1e acham os Doutores que explicou um enigma com outro. daquela estátua ou daqueles reinos se haja de levantar o Quinto Império. para que com toda a verdade e com toda a propriedade se verifique havê-lo Deus de levantar nos dias daqueles reinos. a segunda em tempo de Baltasar. que é desta maneira: estas carroças significam os mesmos quatro impérios que Deus mostrou a Daniel. a quinta. Respondeu pois o Anjo que aquelas quatro carroças (dos montes não disse nada) eram quatro ventos doces que assistiam ao dominador da Terra para executarem suas ordens. principalmente destas quatro. Livro I. e que os cavalos negros tinham saído contra as terras do Norte. E basta que nesta última idade.

porque os Romanos. porque os Persas devastaram e ocuparam a Babilônia que fica para a parte do Norte da Judéia. marido de Ester. e assim foi. os quais por altos e imutáveis são comparáveis aos dois montes de bronze donde saíam as carroças. Trajano. que são os Persas. quando El-Rei Assuero. E a quarta carroça. porque. A terceira carroça. que com sua potência e vitórias se fizeram senhores do Mundo e o meteram debaixo dos pés. assim no ódio como na benevolência. nações. cor de tristeza e luto. e assim consta das histórias. Nero. diz que foi atrás da primeira. Porque. porque os Gregos venceram e destruíram a Dario. César. principalmente no cativeiro de setenta anos a que eles com razão chamavam fornalhas da Babilônia. como Cipião. porque também os Persas afligiram e foram lutuosos aos Hebreus. e tiravam por ela cavalos negros. como escreve José. fundador daquele império. tomou o nome de Rei da Ásia. como escreve Crítio e Plutarco. não tinha necessidade de intérprete nem declaração. e ali acabou o Império dos Gregos. lugares. e depois da vitória chamada actíaca. porque os Romanos passaram por várias vezes à conquista do Egito. Teodósio. como Pompeu. Restam por explicar os diferentes caminhos que disse o Anjo fizeram estas carroças. etc. Ultimamente diz que os cavalos mais fortes ou os robustíssimos da quarta carroça quiseram correr e passear toda a Terra. perseguidores e cruéis. princípios. que já havia muito tempo florescia. e mais que todos Alexandre Magno. Finalmente. A primeira carroça representava o Império dos Assírios. e assim se verificou nos Romanos. e da consonância e harmonia dos tempos. Estes robustíssimos dos Romanos foram os seus maiores capitães e imperadores. em que Augusto desbaratou a Cleópatra e Marco Antônio. A segunda carroça. Pompeu. reduziu o mesmo Egito a província. e tiravam por ela cavalos ruivos. não duvidou de adorar no templo ao pontífice Jada. E assim declarou somente o Anjo os três impérios seguintes. principalmente naquela grande aflição. se faz certo e evidente argumento de que esta interpretação é a sólida e verdadeira. dos cavalos negros. a dos cavalos brancos. Vespasiano. porque nunca chegaram à América. tinha condenado a morrer em um dia com crueldade inaudita toda a nação hebréia. fins e todos os sucessos desses Impérios tão ajustados com as propriedades das figuras que as representavam. e que isto foi o que Deus e o Anjo quiseram significar ao Profeta. Tito. cuja fundação e sucessos estavam ainda por vir. e tiravam por ela cavalos vários. cuja majestade. e que a correram e passearam. 112 . A terceira carroça representava o Império dos Gregos e tiravam por ela cavalos brancos. e ali acabou o Império dos Assírios. último imperador dos Persas. para significar os danos. diz que foi para o Sul. E posto que os Romanos absolutamente não conquistaram o Mundo como é em si. exceto Antíoco (cuja tirania também serviu de matéria gloriosa aos triunfos dos Macabeus) os outros príncipes gregos sempre foram benéficos aos Hebreus. como a primeira carroça significava o Império dos Assírios. Constantino. De toda esta combinação das histórias com a profecia. e assim sucedeu. foram vários para com os Hebreus. Augusto. A segunda carroça representava o Império dos Persas. que mais é uma metade que parte do Mundo. que é cor de fogo. como escreve Suetónio. Tibério. como Júlio César. Adriano. assolações e incêndios com que os Assírios conquistaram destruíram e abrasaram o povo hebreu. Augusto. uns amigos e propícios. junto à mesma Babilônia onde Alexandre.Anexo:Imprimir/ História do Futuro para a execução de seus divinos decretos. outros inimigos. dos cavalos vários. cor pacífica e alegre. que é admirável confirmação de serem significados nas quatro carroças os quatro impérios. a quarta carroça representava o Império Romano. que fica ao sul de Judéia. Cláudio. e primeiro que tudo se deve muito notar que da primeira carroça não disse cousa alguma. persuadido pelos enganos de Amão. Vespasiano. Calígula. diz o Anjo que caminhou para as terras do Norte.

Paulo. o fundamento principal sólido e certo desta interpretação é ser esta a mente e sentido em que falaram os mesmos Profetas. que. onde se diz que os pés e dedos da estátua eram compostos de ferro e barro. et partem ferream. e que esses se haviam de desunir da sujeição e obediência do mesmo Império. como muitos romanos de Portugueses. estas vitórias próprias dos Espanhóis. contra o Céu. contra o Sol. porque esta glória que Sanchez dá aos Espanhóis toca pela maior e melhor parte aos Portugueses. alegando que era cidadão romano e que só no tribunal de César podia ser julgado. como os antigos Romanos. a que venceram e contrastaram. digo que os Portugueses e todos os Espanhóis se podem e devem entender debaixo do nome de Romanos. E posto que qualquer destas razões e muito mais todas juntas são bastantes para que sem impropriedade se possa entender os Portugueses debaixo do nome de Romanos. que impugna facilmente. parece lhe competiam. para explicar a palavra per omnem terram em toda a sua largueza. no sentido desta profecia. como se vê em S. sibique proprios reges crearunt. Mundo Novo. porque Espanha e Portugal foram colônias dos Romanos. Franceses e os demais. ajudando a defesa e conquista do Império.Anexo:Imprimir/ História do Futuro contudo diz o Anjo que correram e passearam todo o Mundo no mesmo sentido em que Augusto. Ingleses. pois conquistaram estas regiões novas e incógnitas.boca de um anjo os mais fortes de todos os Romanos. como violenta e trazida de tão longe. na qual divisão de dedos e desunião de metais se significava que o Império Romano se havia de dividir em muitos reinos e senhorios menores. apelou para o César. Mas Sanchez. verdadeiramente valentíssimos. e verdadeiros cidadãos romanos. não pelejando contra os homens. os quais entendem Império Romano todo o corpo íntegro do dito Império. assim em Portugal. ao que não obstava serem de diferente nação. uti fecerunt Hispani. e que o barro e o ferro não estavam unidos. Franci. E para este autor perfilhar ou acomodar aos Romanos. contra todos elementos e contra a mesma natureza. senão do povo romano. Angli. foram estipendiários dos Romanos e pelejaram debaixo de suas bandeiras. os quais Godos. e todas as partes de que ele se compôs e inteirou quando esteve em sua maior grandeza. sendo antes sujeitos aos 113 . quer que não só nas terras do Mundo Antigo. como nas guerras dos mesmos Romanos. Polacos. ainda que essas mesmas partes depois se desunissem do mesmo Império e lhe negassem obediência. E diz que aqueles robustíssimos de que fala o Anjo são os Espanhóis. com razão não é admitida de Cornélio à lápide. no seu edicto do tempo do nascimento de Cristo. nação um título tão honrado como serem chamados por . Poloni. De maneira que a divisão dos dedos e a desunião dos metais dos pés da estátua significava os reinos dos Espanhóis. Cornélio diz assim: Potissimum vero divisum fuit hoc regnum ideoque enervatum cum variæ gentes ab ejus obedientia se subduxerunt. e nas da Índia Oriental. audacíssimos e fortíssimos. conforme a profecia. Além de que muitos portugueses eram filhos e netos dos Romanos. e que de nenhum modo. Assim o interpretou o mesmo Daniel: Porro quia vidisti pedum et digitorum partem testæ figuli. e parte não só do Império. Contudo. como já tinha notado Ribeira. etc. regnum divisum erit. Mas esta aplicação. onde viviam os presídios romanos. senão nas da América. pelas vitórias do Oriente a que o mesmo Cornélio chama ad miraculum usque illustres. ut describeretur universus orbis. como fizeram ao Imperador Maximino contra os Partos e a Constantino contra Licínio. pela união e comércio destas duas nações. Vê-se claramente esta verdade na primeira profecia de Daniel. as quais palavras comentando. onde os Portugueses iam servir e merecer debaixo de suas bandeiras. que. mandou que todo o Mundo se alistasse. sendo hebreu. senão contra os ventos. leva o direito desta herança à origem que os Reis de Espanha trazem dos Godos. por não deixar perder a nossa. nunca conquistada nem ainda conhecidas pelos Romanos. contra os mares.

foi empresa de muito maior valor. ainda desunidos dele. considerando todo o corpo do Império Romano e todas suas empresas. que são os sete dons do Espírito Santo. derrubou a estátua e desfez os quatro impérios dos Assírios. Ele foi a pedra que viu Zacarias. ele a pedra sobre que sustentou os braços levantados de Moisés. quando se lhe abriu o Céu e viu a escada. pela diferença dos climas. para maior clareza e firmeza dela. e entre os Espanhóis muito particularmente os Portugueses. a que uniu os dois povos gentílicos e judaico. deles. Gregos e Romanos. Persas. et dixit: Ite. Livro II. e a pedra fundamental e provada sobre que se fundaram na Lei antiga a Igreja de Sion e na nova a do mesmo Cristo. Finalmente. Mas contudo (que é o nosso intento) ainda assim divididos e desunidos se computam e reputam por parte da mesma estátua e do mesmo Império Romano. e entre esses Espanhóis os fortíssimos dos fortíssimos foram os Portugueses. os Césares. História do Futuro (Volume II. Ele foi a pedra com que David derrubou ao gigante. pois não é cerzida de pedaços ou retalhos das Escrituras. Destas nações pois e destes reinos de que se compunha o Império Romano. segue-se que digamos que Império há-de ser: e assim o faremos em todo este II Livro. Estes foram os Espanhóis. é o Império de Cristo e dos Cristãos. resolução e esforço que a dos Castelhanos. Assim que. os fortes dos Romanos foram os Cipiões. arrancada do monte. que eram os mais fortes e valentes de todos. os fortíssimos foram os Espanhóis. et quærebant ire et discurrere per omnem terram. Suposto como deixamos assentado que há-de haver no Mundo um quinto e novo Império. super lapidem unum septem oculi. porque realmente são partes daquele corpo e daquele todo. quando venceu os exércitos de Amalec.Anexo:Imprimir/ História do Futuro imperadores romanos. o qual infundiu todo e descansou sobre Cristo. senão cortada toda da mesma peça. os Pompeus. exierunt. Introdução) por Padre Antônio Vieira 114 Em que se mostra que Império há-de ser este. Capítulo I) por Padre Antônio Vieira É conclusão certa e de fé que este Quinto Império de que falamos. Ele foi a pedra sobre que adormeceu Jacob. Esta pedra pois foi a que. sobre as quais fundaremos tudo o que dissermos nesta história. não se contentaram só com as terras dos outros impérios. porque a conquista dos mares e terras do Oriente. em significação de que por meio e virtude de Cristo havemos de vencer o Mundo e o Demônio. ele finalmente a pedra angular. aqueles homens. anunciado e prometido pelos Profetas. Primeiramente aquela pedra que derrubou a estátua e desfez as quatro monarquias figuradas nos quatro metais. pelo valor e potência das nações que se conquistaram. pela distancia remotíssima das terras. era justo. é Cristo. pela dificuldade de navegações. mas que intentaram discorrer e passear toda a redondeza da Terra. Ele foi a pedra que no deserto matou a sede aos filhos de Israel e os acompanhou até a terra da Promissão. os Augustos.. para que a profecia se entenda dos Espanhóis e Portugueses. Que o Quinto Império é o Império de Cristo e dos Cristãos. Livro II.. História do Futuro (Volume II. senão o anjo que falava em Zacarias: Qui autem erant robustissimi. para fundar e levantar o seu . e depois cresceu e a sua grandeza ocupou e encheu toda a Terra. ainda que não sejam romanos. Prova-se dos mesmos textos e profecias já alegadas. perambulate terram: et perambalaverunt terram. e sobre ela sete olhos. lhes negaram a sujeição e se desuniram. o qual em outros muitos lugares da Sagrada Escritura se chama Pedra. Não somos nós que o dizemos.

Hierónimo. senão ainda muitos hebreus. Ruperto e muitos outros Padres. etc. donde desceu Cristo quanto a divindade. Epilanio. não só o confessa a Igreja Universal na aplicação deste lugar. não tiveram parte mãos de homem. S. Diz Daniel que esta pedra caiu de um alto monte. com a qual concorda admiravelmente a advertência de Daniel. ou finalmente é a Virgem Maria. sendo verdadeiro homem. ou é a nação hebraica. sendo quasi filius hominis. Jesus filii Josedeci: e em todas estas três visões em que Deus revelou aos seus Profetas a 115 . De maneira que na primeira visão foi Cristo. diz o doutissimo Sanchez.Anexo:Imprimir/ História do Futuro sobre todos eles. na segunda com o nome particular de Filho do Homem. Só reparou Maldonado que não se chama Cristo neste lugar Filho do Homem absolutamente.. S. e erram somente em não crerem que o Messias é Cristo. Não repito os autores desta explicação. senão quase homem-quasi filius hominis. Já dissemos que a coroa ou coroas que foram postas sobre a cabeça de Jesus. da qual o Verbo se dignou tomar e unir a si a humanidade. S. suprindo o Espírito Santo e a virtude do Altíssimo o que nela faltou de concurso humano. Esta é a sentença comum e mais recebida dos Padres e expositores deste lugar. Cristo é homem e Deus juntamente. Júlio. porque são todos. S. Assim o notou o mesmo S. assim que aquele quasi significa a falta de substância humana. levantada naquele tempo como monte entre todas as outras nações do Mundo. como a mais perfeita e excelente de todas.. significado com o nome comum e metafórico de pedra. Assim o dizem conformemente neste lugar não só todos os Padres e expositores católicos. et usque ad. posto que tão superiormente suprida com a divina. toda foi obra sobrenatural e divina. como explica S. Senhora Nossa. posto que tivesse a mesma natureza como eles. Agostinho. Ambrósio. sublimada como monte altíssimo sobre todas as criaturas. E porque Deus não havia de ter subsistência humana como os outros homens. não lhe chama por isso o Profeta homem. e a opinião comum de todos os Padres e Doutores.. Quem havia de duvidar que em um quasi cabia uma distancia infinita? A terceira visão de Zacarias confirma ainda com maior propriedade ser Cristo o Senhor deste Império. como interpreta S. Agostinho. para denotar o Profeta que entre este homem e os outros homens havia diferença: os outros são puros homens. E este monte ou é o Céu e o seio do Eterno Padre. E que cousa há mais certa e freqüente no Evangelho que chamar-se Cristo Filho do Homem? Quem dicunt homines esse filium hominis? Væ autem homini illi per quem filis hominis tradetur! Tunc videbunt filius hominis venientem in nubibus cæli. arrancada dele sem mãos. De sorte que a pessoa a quem foi dado por Deus o Quinto Império de que Danie1 fala neste lugar (como vimos) era o Filho do Homem. que a pedra foi arrancada ou cortada do monte sem mãos: Lapis abscissus de monte sine manibus.. que sem ódio escreveram antes de Cristo. Ireneu. Teodoreto. e porque o texto é tão claro que não há mister intérpretes.Antiquum dierum pervenit: . porque na geração temporal de Cristo.. na terceira com o nome propriíssimo de Jesus. Na segunda visão de Daniel ainda consta mais claramente e por termos mais expressos que este Império é o de Cristo.. filho de Josedec significavam o mesmo Império Quinto profetizado por Daniel: e que seja Cristo o soberaníssimo Monarca que Zacarias viu coroar naquela figura.et dabit ei potestatem et honorem et regnum. Communis est Patrum sententia et multorum ex Hebræis quibus accedit Chaldeus sermonem hic esse de Messsiah. senão também os hereges e até mesmo Rabinos.et ecce (diz o Profeta) cum nubibs cæli quasi filius hominis veniebat. os quais acertam em dizer que nesta pedra está profetizado o Reino do Messias.

e ele lhe disse por três vezes que o reino e império que vira dar ao Filho do Homem era o reino e império que os santos do Altíssimo haviam de ter neste Mundo. E saudando aos Filipenses no fim da epístola citada. regnum sempiternum est. onde Deus para consolação dos fiéis quis que nos ficasse expressa e revelada esta tão gloriosa verdade. dos Cristãos.. Paulo. No verso 18 daquele capítulo (que é o VII) diz assim: Suscitient autem regnum Sancti Dei altissimi: et oblinebunt regnum usque in sæculum et sacculum sæculorum. cujus regnum. tornemos à segunda visão de Daniel. bastem os textos alegados. diz. em nome de alguns cristãos que estavam em serviço do Imperador que então era Nero: Salutant vos omnes Sancti maxime autem qui de Cæsaris domo sunt: «saúdam-vos. senão frase muito corrente e ordinária em toda ela. et potestas. ea ad Regnum Christi et Christianorm accommodari. no título ou sobrescrito da carta diz assim: Omnibus Sanctis in Christo qui sunt Philippis «a todos os Santos em Cristo que estão em Philippis». Assim o diz expressamente sobre estas palavras de Daniel o seu grande comentador Perério. representando Cristo os grandes males que Saulo tinha feito contra os Cristãos: Quanta mala Sanctis tuis fecerit. 116 . conforme o texto da Epístola ad Corinthios: In ecclesiis Sanctorm doceo. E no 27: Regnum autem. vocatis Sanctis. escrevendo aos cristãos da cidade de Filipe. et tempus advenit. chamando a este Quinto Império Regnum Christi e Christianoram. Cristãos. e revelou também que o Senhor e o Monarca deste Império havia de ser Cristo. E no verso : Donec vénit Antiquus dierum. e principalmente os que estão em casa de César». de que usa Daniel. os fundamentais de toda ela. detur populo sanctorum Altissimi. lhes mostrou . e assim lemos no capítulo IX dos Atos dos Apóstolos que usou da mesma frase Ananias. a quem ele chama o Antigo dos dias dera ao Filho do Homem aquele novo reino ou império. quæ de illo quinto Regno tam præclara et gloriosa prædix Daniel. et dierum. Finalmente este era o ordinário modo de falar da primitiva Igreja. Depois de referir Daniel como Deus Padre. todos os Santos. E na mesma epístola. E que pelo nome de Santos. as quais ficam reservadas para se explicarem em seus lugares por agora só nos serve (o que diz e repete tantas vezes o Anjo) que aquele mesmo Reino que o eterno Padre deu ou há-de dar a seu filho Cristo é o Reino e o Império dos Santos. que são. et magnitudo regni quæ est subter omne cælum. Reino de Cristo e dos Cristãos. como dizia. perguntou o mesmo Profeta a um dos anjos que assistiam ao trono a significação das cousas que via. Mas porque no princípio deste capítulo dissemos que o Quinto Império era o Império de Cristo e dos. em Macedônia. e os quatro a que ele devia de suceder. S. et regnum obtinuerunt sancti. et omnes reges servient ei et obedient. Muitas cousas e muito grandes disse nestas palavras o Anjo. E escreveu aos cristãos de Roma: Omnibus qui sunt Romæ dilectis Dei. isto é. et judicium dedit sanctis Excelsi. Deinceps (diz ele) pagnandum nobis est cum Judæis qui Christianis infensi infestique et iniquo animo ferentes. mas porque tudo o que havemos de dizer nesta história será uma continuada prova e confirmação dela. Com muitos outros textos da Escritura pudéramos confirmar esta mesma conclusão. se entendam e devam entender os Cristãos não é só explicação de intérpretes da Escritura. exortando aos mesmos Romanos a que socorressem com suas esmolas aos cristãos necessitados: Necessitatibus Sanctorum communicantes. etc. E a este uso se chamaram as igrejas dos Cristãos igrejas dos Santos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro grandeza e majestade futura do Quinto Império.

segue-se que o Império de Cristo e dos Cristãos. repúblicas e impérios do Mundo se não hão-de desfazer em cinza.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A razão deste nome é tomada da santidade da Lei de Cristo que professam os Cristãos. e já tinham desaparecido totalmente do Mundo. com a mesma frase com que depois se nomearam os Cristãos. como dizem expressamente as palavras de ambos os textos: Regnum quod in eternum non dissipabitur. Tertuliano. não há-de ser neste Mundo. Logo. E aquele povo remido por Deus será chamado publicamente Povo santo. e entre os latinos. fundado na mesma visão. e todos. o qual é de fé que se há-de acabar. mas que tem para si que há-de ser este Império no Céu e não na Terra. Livro II. chamados de Jesus Cristo e chamados santos. desta maneira: Antes que a pedra cortada do monte (que é Deus e o seu Império) crescesse a toda aquela sua grandeza (diz Teodoreto). redempti a Domino. os quais concordavam com a verdade da nossa História em dizerem com os demais que o Quinto Império é o de Cristo e dos Cristãos. nullusque locus inventus est eis. E posto que os autores desta sentença mais supõem que aprovam. E ambos estes nomes e as etimologias deles compreendeu S. os quais. Regnum usque in sæculum et sæculum sceculorum. æs. nem se poder achar ou conhecer o lugar onde tivessem estado. Regnu sempiternum. Paulo no princípio da Epístola aos Romanos. Tertuliano. como consta do texto: Tunc contrita sunt pariter ferrum. por mais que durem e permaneçam. E este é o sentido em que Daniel e o Anjo falaram naquela visão chamando a Cristo Filho do Homem. já o vento os tinha levado pelos ares. e chamando ao Reino dos Cristãos Reino dos Santos. entre os Padres gregos. Os reinos deste Mundo todos de sua própria natureza são corruptíveis. . o Teodoreto. é que este Reino e Império de Cristo e dos Cristãos profetizado por Daniel (qualquer que haja de ser) é Império da Terra e na Terra. de que fala Daniel. nós aprovaremos e demonstraremos com os textos das mesmas visões. se o Reino e Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser perpétuo. com a mesma frase com que depois se nomeou a Cristo. Deu motivo a esta questão. em que lhe chama Vocati Jesu Christi et vocatis Sanctis. Sendo logo certo como é que os reinos. argumenta assim Este Reino ou Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser Reino perpétuo. senão do Céu. argentum et aurum. assim da Lei santa de Cristo se chamaram santos. Regnum quod non corrumpetur. sem haver mais que a memória deles. lapis autem qui percusserat statuam factus est mons magnus. Contudo a sentença comum dos Santos. já todos os outros reinos e impérios do Mundo estavam derrubados e caídos. hão-de ter um com o mesmo Mundo. et redacta quasi in favillam æstiva. cidades. que é em próprios termos o que depois se viu na Igreja e o que diz aqui o Anjo: Regnum autem et potestas detur populo sanctorum. História do Futuro (Volume II. incorruptíve1 e eterno. e muito mais na segunda. incorruptível e eterno. Fundam a sua opinião nas mesmas visões de Daniel. nem se hão-de acabar. e recebida e seguida como certa de todos os expositores. senão quando se desfizer e acabar o mesmo Mundo na última ruína dele. clara e manifestamente se segue que não há-de ser império da Terra. bem assim como já antes de Daniel o tinha profetizado com o mesmo espírito Isaías: Et vocabunt eos populus sanctus. assim como de Cristo se chamavam cristãos. testa. senão no outro. desfeito em pó e em cinza. e aquela sua grandeza prodigiosa e que há-de crescer. areæ quæ rapta sunt vento. Capítulo II) por Padre Antônio Vieira 117 Pergunta-se se este Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser neste Mundo ou no outro.

crescendo. Infiro agora assim: Esta pedra e este Império de Cristo. pois posto se entenda e saiba que não é assim. os quais dizem que este Reino e Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser incoado na Terra e consumado no Céu. mas nem por isso há-de deixar de ter na Terra a grandeza que nestes textos lhe é profetizada e prometida. Nas palavras que se seguem a estas declara mais em particular Danie1 (ou o Anjo por ele) quem hão-de ser os súbditos deste Império. quæ est subter omne cælum. Da Terra é logo este Império. e na Terra é que há-de ser servido e obedecido e reconhecida de 118 . este é o mais ordinário sentir de todos os expositores de Daniel. Regnum autem et potestas et magnitudo regni. se o Reino de Cristo e dos Cristãos há-de crescer depois daquele tempo. nem se obedece. que são os Cristãos. Se os reis hão-de servir e obedecer a este Império. que est subter omne cælum.» Podia-se dizer cousa mais clara? Parece que estava antevendo Daniel que havia de haver quem interpretasse esta sua visão em diferente sentido do que ele a escrevia. antes a razão de haver de ter tanta grandeza no Céu. e só se goza o prêmio do que se obedeceu. assim se acabou o tempo de mais alcançar. dizendo que este Reino havia de ser no Céu e não na Terra. não há-de crescer nem pode crescer na glória dos bem-aventurados. não há-de haver mais homens que vão ao Céu. nem se merece. é o poder e grandeza de todos os reinos que há debaixo do Céu. porque. depois de acabado o Mundo e depois do Dia de Juízo. Não há-de crescer nem pode crescer no número dos homens. Mas para que são conseqüências. porque no Céu não se serve. bem se colhe que há-de ser Império da Terra e não do Céu. diz Daniel. na primeira visão. porque. no Céu consumada e perfeitíssima. porém. depois de acabado o Mundo. segue-se que esse crescimento há-de ser neste Mundo e não no outro. como se deve ao estado do Céu. que derribou os outros impérios. e diz em nova confirmação do que dizemos. que cresceu e se fez um monte tão grande que ocupou e encheu toda a terra. porque o Reino e Império de Cristo. cresceu? Logo. Não negamos. Os termos da segunda visão de Daniel ainda são (se podem ser) mais evidentes. Se a pedra. se fez um grande monte. é porque a terá primeiro na Terra. e este é o Império profetizado de Cristo. senão de debaixo do Céu: magnitudo regni. de nenhum modo há-de crescer nem pode crescer. detur populo sanctorum Altissimi. como veremos em seu lugar. Desta maneira se concilia e concorda facilmente a opinião de Tertuliano e Tedoreto com a verdade da nossa. não é império do Céu nem depois de acabado o Mundo. o qual grande monte encheu e ocupou toda a Terra. «0 Reino ou Império que se há-de dar ao povo dos Santos do Altíssimo. adverte e nota sinaladamente o Profeta que não é Reino do Céu. desde aquele ponto. Logo. bem claro se mostra que é Império da Terra e não do Céu e que na Terra e não no Céu há-de ter toda esta sua grandeza. os quais o hão-de servir e lhe hão-de obedecer: et omnes reges servient ei et obedient. e como se acabou o tempo de mais merecer. mas com tanta discrepância de tempos. do que se serviu e do que se mereceu na Terra. que serão todos os reis do Mundo. e crescer a uma grandeza tão imensa. se as mesmas palavras do texto o dizem claramente? Factus est mons magnus et implevit universam terram. Lapis autem qui percusserat statuam factus est mons magnus et implevit universam terram. que agora só trataremos qual seja em comum o deste Império.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Daquela pedra que representava a Cristo e seu Império. nem podemos negar que este Reino e Império de Cristo e dos Cristãos há-de durar também com o mesmo Cristo e os mesmos Cristãos depois de bem-aventurados por toda a eternidade no Céu. detur populo sanctorurn Altissimi. cada um há-de receber por inteiro toda a glória devida a seus merecimentos.

não só pode embaraçar a verdade da nossa sentença. e a dos Persas pela sucessão dos Gregos. por ser fundada nas mesmas palavras do texto de Daniel. as quais nem cada uma por si nem todas juntas compreenderão nunca toda a grandeza da Terra. Millia millium ministrabant ei. como legitimo senhor e herdeiro dele. Respondo que é certo falar neste lugar o Profeta de juízo. cidade e gentes das ditas monarquias se haviam de acabar e extinguir totalmente (como há-de acontecer a todo o Mundo no Dia de Juízo) senão que havia de se acabar seu mando. que depois veremos quanto há-de ser. de quem fala a Escritura pelos mesmos termos. E isto quer dizer em frase da Escritura . e mostraremos mais largamente quando escrevermos a duração do Quinto Império. e assim o entendem mais ordinariamente os expositores desta visão. pela palavra eternidade não se entende rigorosamente duração sem fim.Anexo:Imprimir/ História do Futuro todos os reis dela. et Antiquus dierum sedit vestimentum ejus candidum quasi nix. e juízo rigoroso e de grande majestade. em que Cristo há-de vir julgar os vivos e os mortos no fim do Mundo. Matias. senão continuação e permanência de muito tempo. Responder aos seus argumentos é igualmente fácil. do fogo.. e não se achou mais o lugar onde estivessem. sive in omni plaga cælo subjecta. que são os Cristãos. como se vê no exemplo de Judas. thronus ejus flammæ ignis rotæ ejus ignis accensus. pouco atrás citadas: Non quæ est super. rapidusque egrediebatur a facie ejus. senão que estão demonstrando o vigor e majestade do juízo final. et capilli captis ejus quasi lana munda. em que o Padre Eterno há-de tirar o Reino e Império universal do Mundo ao tirano ou tiranos que então o possuírem. como verdadeiramente se acabou a dos Assírios pela sucessão dos Persas. et decies millies centena millia assistebant ei. e a dos Gregos pela sucessão dos Romanos e se acabará também a dos Romanos pela sucessão do Quinto Império. sed quæ est subter omne cælum. e aos professores de sua fé e obediência. Mas para que tiremos todo o escrúpulo aos outros razão será não passe sem satisfação uma grande dúvida que. senão um juízo particular. como notou S. não quer dizer que as terras. etc. mas confirmar na contrária os autores e seguidores dela. porque sucederam outros nele. Mas se entendermos o texto de Daniel da duração somente que o Império de Cristo e dos Cristãos há de ser neste Mundo. seu poder. e foram voadas do vento. sua soberania. e consta que sucedeu em seu lugar S. Ao de Teodoreto dizemos que o texto de Daniel só fala das quatro monarquias representadas nos quatro metais da estátua. Aspiciebam (diz Daniel na segunda visão) donec throni positi sunt. Fluvius igneus. Logo. e para meter de posse e o entregar a Cristo. claramente se convence que ano é nem há-de ser Império desde Mundo. seu filho. como bem advertiu Cornélio. e quando se diz que ficaram desfeitas em pó e desapareceram. mas digo com a mesma certeza que este juízo não é o juízo final. e juízo de Deus. não só parece que significam. seu império. Entretanto basta saber-se que a palavra eterno tem este mesmo sentido e limitação em muitos lugares da Escritura. já temos dito que a continuação dele no Céu há-de ser verdadeiramente eterna em toda a propriedade e largueza da significação desta palavra. Agostinho na Questão 3I.non inventus est locus ejus-que «se não achou mais o seu lugar». 119 .a sobre o Gênesis. E estas palavras por todas as circunstâncias do trono. dos livros que se abriram e do mesmo nome de juízo. id est in omni terra. da assistência dos anjos. judicium sedit et libri aperti sunt. senão do outro. comentando as palavras subter omne cælum. se o Reino e Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser depois do juízo final. Ao argumento de Tertuliano que se fundava na eternidade do Quinto Império.

e que nos deixou o seu amor e o nosso contentamento. os interesses da esmola. e estando até aquele tempo fechado. em quanto este fim particular e mediato se ordena ao último fim. para que a graça prevalecesse contra a natureza e o amor de Deus pudesse mais que o do sangue. que ensinou o desprezo das riquezas. desde o dia em que nasceu até à hora em que expirou na cruz. diremos primeiramente que este Império de Cristo (o qual não há-de ser diferente do que hoje é. Capítulo III) por Padre Antônio Vieira Se este Império de Cristo no Mundo é espiritual ou temporal Assentado. que é o fim particular de todas as comunidades humanas. e com a doutrina e ações de sua vida e morte. cujo poder e jurdição se ordena a governar os fiéis membros e súbditos da Igreja. que se dirige a governar os vassalos por meio de leis prudentes e justas. finalmente que abriu sete fontes de graça e ou que instituiu sete sacramentos perpétuos e ficou Ele conosco perpetuamente em sacramento. para que se acendesse nela a claridade que tão apagada estava. a virtude da humildade e a da castidade. se perguntarmos aos Evangelistas (deixando o testemunho das outras Escrituras) que fez Cristo e que ensinou com a palavra e com o exemplo. Livro II. Porque este Império de Cristo. é principalmente o da Terra e não o do Céu. onde reinava e se intitulava príncipe. que veio apartar os pais dos filhos e os filhos dos pais. e começando pela conclusão em que não há resistência nem dificuldade. cujo reino lhes pregou e prometeu sempre. senão . o rigor do juízo. uma não usada. ou pode ser espiritual ou temporal. a eternidade do Inferno. que é o último fim do homem. perguntamos agora se este Império de Cristo há-de ser espiritual ou temporal. nas execuções e no exercício. o perdão das injúrias. dir-nos-ão que veio ensinar aos homens a ciência da saúde e salvação.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 120 História do Futuro (Volume II. nem que maior demonstração ou evidência de ser o Reino e Império deste santíssimo e soberaníssimo Rei. a conseguir a bem-aventurança. espiritual no governo. ainda nesta suposição nos resta averiguar um ponto de grande importância e de cuja decisão depende o maior fundamento de todo este nosso discurso. que maior sentimento se pode desejar. Reino e Império espiritual? Foi Reino e Império espiritual no fim e causas de sua instituição. dos Cristãos católicos. e em seu nascimento foi aclamado Rei e em sua morte intitulado Rei. o preço e imortalidade da alma. como acabamos de resolver. Isto posto. e todos os expositores de ambos os Testamentos. a verdadeira amizade com os inimigos. espiritual no uso. Sendo pois estas as ações daquele Senhor a quem antes de vir ao Mundo todos os profetas chamaram Pai. e suposto que . lho abriu e mereceu com seu sangue. que veio encher e informar a lei e animar a letra com o espírito. outra não conhecida no Mundo. que veio lançar fogo na terra. espiritual como o que hoje tem o Sumo Pontífice. e sendo todas elas ordenadas só à salvação e perfeição dos homens e dirigidas e encaminhadas ao Céu.quanto ao modo como em seu lugar veremos) é império espiritual. que veio vencer o demônio e lançá-lo do Mundo. espiritual nas leis. temporal. que dizemos há de ser na Terra. que pregou o Reino do Céu. Porque. que nos lavou com o seu sangue. de que falam as profecias alegadas. e se demonstra com o mesmo mistério da Encarnação e fim com que Cristo veio ao Mundo. que veio ser luz do Mundo e alumiar os que vêm a ele. Assim o ensinam e ensinaram sempre conformemente todos os Padres e Doutores da Igreja. todos os teólogos antigos e modernos. que este Império de Cristo e dos Cristãos. como o que têm os príncipes católicos sobre os seus reinos e províncias. que morreu por nós.

no capítulo XXIII.. o Arcebispo primaz é juntamente Bispo e Senhor de Braga. em Alemanha. todas espirituais. Assim vemos que o Sumo Pontífice. em qualquer tempo futuro será e há-de ser também espiritual. Livro II. Muitos e graves teólogos seguem de tal maneira a parte negativa que exclui totalmente do Império de Cristo toda a jurdição.Anexo:Imprimir/ História do Futuro dizemos há-de ser sempre o mesmo (nem é decente nem seria crível outra cousa). prospere procede et regna.Ego autem constitutus sum rex ab eo. E depois . como dissemos.intende. Isaias. sempre acrescentam alguma explicação ou limitação com que o nome geral de Rei e Senhor se distinga ou aliene da significação de poder temporal. No Salmo II chama David a Cristo Rei constituído por Deus . Refere-se a opinião negativa O império e domínio temporal é certo que de sua natureza não exclui nem implica com o temporal.regnabit rex et sapiens erit. mas logo determina os efeitos dessa sabedoria que hão-de ser encaminhados todos à salvação: In diebus illis salvabitur Juda.. anuncia o mesmo Reino de Cristo e sua perpetuidade: . assim por serem todos. et deducet te mirabiliter dextera tua. poder e domínio temporal.. celebra o Reino e sabedoria de Cristo Rei: . no capítulo IX. e no nosso reino. pobre e humilde: Justus et salvator. História do Futuro (Volume II. e notam bem advertida e doutamente estes autores que todas as vezes que os textos da Escritura Sagrada falam no Reino. de modo que um outro domínio bem pode sem repugnância alguma convir e ajustar-se no mesmo sujeito. mas logo lhe chama rei e salvador justo. mas logo aponta os fundamentos espirituais também. bem assim como aquele que os príncipes eclesiásticos têm sobre suas igrejas ou ovelhas (posto que por modo mais sublime e excelente) mas de nenhum como aquele que os senhores e príncipes seculares têm sobre seus estados e vassalos. mas logo limita a significação do ofício ou dignidade. com que há-de conquistar o Mundo: Propter veritatem et mansuetudinem et justitiam . três dos eleitores do Império são príncipes eclesiásticos e senhores temporais de seus estados.. tendo o domínio espiritual de toda a Igreja. Império. poder ou principado de Cristo. como acabamos de resolver.acrescentou logo que o seu Reino era para dar testemunho da verdade ao Mundo: Ego in hoc veni in mundum ut testimonium perhibeam veritati. ipse pauper et ascendens super asinam.. estreite e determine ao espiritual somente. Suposto pois que o Reino e Império de Cristo seja espiritual. dizendo que para pregar seus preceitos-praedicans praeceptum ejus. Não alegamos aos autores desta doutrina. Capítulo IV) por Padre Antônio Vieira 121 Examina-se se o Reino e Império de Cristo é também temporal. domínio. Jeremias. de que lhe háde vir a firmeza: ut confirmet illud et corroboret in judicio et justitia. é também senhor e príncipe temporal do estado que chamam eclesiástico. e se limite. mas logo declara o gênero de armas. o mesmo Cristo »— confessando a Pilatos que era rei »— Tu dicis quia rex sum ego . No Salmo XLIV descreve o mesmo Profeta as prosperidades e progressos do Reino de Cristo: . que os Profetas davam a Cristo. Fundam primeiramente esta sua sentença em muitos lugares da Escritura e particularmente em todos aqueles com que no capítulo passado mostramos o seu nome e título de Rei.. Finalmente. e somente lhe concedem ou admitem nele o puramente espiritual. resta examinar agora se é também império temporal.super solium David et super regnum ejus sedebit in eternum. como porque alegaremos muitos no capítulo seguinte. Zacarias no capítulo IX descreve o triunfo de Cristo aclamado por rei na entrada de Jerusalém: Ecce Rex tuus veniet tibi.

Argumentam ou decorrem assim: Se Cristo foi Rei temporal. Finalmente. batismo e salvação dos homens. não seria maior autoridade. que dizer-se que o tivera e conservara. porque. a majestade de todo ele? E se esta majestade. Por direito divino também não. se nem para o decoro da pessoa. e havia de estar sempre oculto e encoberto aos homens. mas que convencem e desfazem a probabilidade de qualquer outra. e quando menos se podem interpretar assim. das quais palavras podemos dizer: Quid adhuc egemus testibus? A eficácia destes textos se acrescenta a de muitas razões e argumentos. como vimos. parece que traz consigo alguma dureza e dissonância. maior exemplo e ainda maior circunstância de perfeição saber-se que o renunciara Cristo. se entendem do Reino espiritual ou celeste. podendo tê-lo. que não são muitas vezes as que menos persuadem. entre os quais porventura não é o que tem granjeado menos votos a esta opinião errada aquela palavra temporal. nem para o fim do ofício. ou por direito divino. constara pelas Escrituras. o domínio. deixasse o domínio das suas herdades. Segue-se logo que o Reino e Império de Cristo é espiritual somente. honras e haveres do Mundo. Por direito natural não. porque a jurdição de fazer ou eleger rei está na comunidade dos homens. declarando aos Apóstolos com a maior majestade de palavras que podia ser a grandeza de seu império. por não dizer indecência. ou foi Rei por direito natural. se queria ser perfeito. os mesmos reis e as mesmas temporalidades? Se a perfeição cristã que Cristo veio ensinar aos homens consistia em deixar tudo e seguir em pobreza e humildade a Cristo pobre e humilde. sem nos obrigarem a que os entendamos do Reino ou Império temporal. nem para o exemplo da doutrina era necessário. construída com o Império de Cristo e pronunciada aos ouvidos mais religiosos e espirituais. a herança de um reino particular não lhe dava direito para o império de todo o Mundo. como dizia com esta renunciação de todos os bens. domínio e potestade-Data est mihi omnis potestas in Cælo in Terra-a conseqüência que tirou deste poder tão universal foi: Euntes in mundum universum prædicantes Evangelium omni creaturæ. se no mesmo tempo o mestre desta perfeição retivesse o domínio de toda a Terra? Para que se há-de admitir logo o nome deste Império temporal em Cristo. e de nenhum modo temporal. com que parece aos autores desta sentença que não só estabelecem de todo a certeza dela. e dado que fosse legítimo sucessor do Reino de Israel.o meu Reino não é deste Mundo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro de ressuscitado. Sobretudo está por esta parte aquele claríssimo oráculo de Cristo: Regnum meum non est hoc mundo . por direito humano não. salvus erit: fé. a qual. todos. e para o exercício e uso que nunca teve realmente inútil e ocioso? Estas razões ou admirações. De que servia a Cristo (dizem) o nome ou jurdição de Rei temporal do Mundo. com que o elegessem por Rei e Senhor de 122 . era necessário que todos os homens e comunidades do Mundo se unissem em um consentimento. e ainda que o pedira. o império. como dizem menos provavelmente alguns autores. como alguns dizem? Com que liberdade ou com que confiança havia de aconselhar ou mandar Cristo a certo mancebo que. e para Cristo ser respectivamente Rei universal de todo o Mundo por esta via. se fecham e apertam eficazmente com um discurso fundido em todos os princípios gerais de direito. porque Cristo não era filho nem herdeiro de rei. e posto que muitos textos da Escritura falem de Cristo como Rei e lhe dêem o nome e título de Rei. este império e este domínio não havia de ter (como nunca teve com Cristo) uso ou exercício público. se ele vinha como vimos a confundir com seu exemplo o mesmo Mundo. se houvera tal direito. ou por direito humano. qui crediderit et baptizatus fuerit.

Tertuliano. e se escondeu em um monte para escapar daquela violência. mas alegam-se e podem-se alegar no mesmo sentido S. só porque não tomasse o nome de Rei. Capítulo V) por Padre Antônio Vieira 123 Propõe-se e defende-se a opinião afirmativa Se escrevêramos menos há de cem anos. parecendo-lhes cousa indigna. mais se alumia. bem se conclui que o Reino e Império de Cristo. e que o mesmo Senhor. os que reconhecem em Cristo o domínio temporal dele. Porventura ofende a Deus. que era a terra onde Cristo vivia. Jansénio. o ser senhor e criador de todas as cousas corporais. e ambas ao fim. já têm vencido Mitigou-se com os dias e com a consideração o horror daquele nome temporal. nem querem fazer menos espiritual o Mundo. por termos tão indiferentes. Gregório. ainda não tinham escrito. sucederam àqueles teólogos de grande espírito outros de grandes espíritos. Letmatio. e diz o doutíssimo Maldonado que esta é a sentença comum dos melhores teólogos que assim o disseram. se não têm ainda triunfado. de nenhum modo foi nem pode ser temporal. fugiu deles e do mesmo título. com outras galantarias. Adrião Fino.aos inimigos (porque também na Teologia se deve entender: Omnia dat qui justa negat). e posto que também se citem por esta . que Vasques os alega (e diz que assim se devem alegar) pela parte contrária. que os teólogos que hoje têm maior fama nas escolas. quanto a Igreja mais cresce. e antes dele Sábio. que houvessem de aparecer diante de Deus as nossas almas com vestidos tão indecentes como são os corpos. quando ele escreveu. História do Futuro (Volume II. e o ter em sua própria essência eminentemente as idéias de todas elas? Antes . para crédito de Maldonado e nosso. scilicet Saul. João Parisiense. Ao menos confessa Vasques que da doutrina dos Padres não se pode convencer o contrário. Driedo. se conjuraram contra ele e lhe tiraram a vida. Logo se não foi Rei temporal. João Crisóstomo. porém. e diz S. Os Padres que isto disseram e seguiram querem alguns que sejam todos. Atanásio.Anexo:Imprimir/ História do Futuro todas. o que nunca houve. a opinião do Reino temporal de Cristo e da Conceição imaculada de sua Mãe se acompanharam no mesmo tempo na mesma fortuna. Não fazem menos santo a Cristo. O primeiro que se alega é Santo Agostinho em muitos lugares. Os Origenistas chamavam por escárnio pelusiotas aos que seguem a fé de que todos havemos de ressuscitar em nossos corpos. nem . antes se tiravam . Livro II. E são estes: Hermas. nem por eleição humana. S. e o que nos tempos passados é duvidoso. Nem sempre é maior espiritualidade o que mais opõem ao corpo. antes sabemos que os príncipes e povo de Judéia. Castro. Abulense e Waldense. que não eram os que pior tratavam seus corpos os que isto diziam. acabou-se de conhecer que com e1e se não davam armas. e muito contra o decoro da bem-aventurança. nem por sucessão natural. se não espiritual e somente qual acima dissemos. Francisco de Cristo. nos futuros se sabe. em quanto Deus. O douto leitor julgará se são os melhores. como disse S.parte Soto. e resolveu-se que não eram menos espirituais os que admitiam no Império de Cristo o nome de temporal.por doação ou nomeação divina. entre os quais o mais claro (ou o que parece) é este: Populi personam figurate gerebat homo ille. Advirta-se. Melchior Flávio. Jerônimo. qui populus regnum fuerat amissurus Christo Domino nostro per Novum Testamentum. Vitória. porventura que não puséramos aqui tão confiadamente este capitulo. na ocasião em que alguns deles lho quiseram dar. S. falam. Bertolameu de Medina. Ambrósio. Mas. non carnaliter sed spiritualiter regnaturo. tão celebrado nas Escrituras. Teófilo e outros. Nenhum dos outros Padres fala em termos de tanta expressão.

Durando. a que o mesmo Mundo quando fala com mais siso chama com razão temporalidades. e bastava ter escrito estes três grandes nomes. a qual em toda a Escritura Sagrada significa Rei temporal. Valença. Salazar. O Império que dão ou reconhecem em Cristo os que admitem e veneram nele o nome de temporal. Justiniano. Lacerda. sed et verus ac absolutus et proprius. é um domínio soberano e supremo sobre todos os homens. como o Cardeal Turrecremata. Molina. nem que receba a grandeza e majestade da pompa e aparato vão das cousas exteriores do Mundo. Scoto. dando e tirando reinos. Verga. eo quod illis in omnem usum potest citra alicujus injuriam uti. A que podemos acrescentar o do maior Profeta da Lei da Graça. Almaino e os três já nomeados Abulense. e se é regra certa. Os teólogos que isto assentam por conclusão é S. sobre todas as cousas criadas. pelos mesmos princípios e fundamentos da opinião contrária. Arnico. como se pode ver nos lugares citados à margem. Soares. para dar por provada e acreditada com o Mundo uma verdade tão necessária e importante como depois veremos. em dois lugares do Apocalipse. Vasques. fazendo e desfazendo leis castigando e premiando. Pois o domínio soberano. que é perfeição em Deus Deus (digamo-lo assim). Peres. e isto é só o que negam as Escrituras. mas absoluto soberano. não queremos dizer que é o seu Império sujeito às mudanças e inconstâncias do tempo. Rex regnum et Dominus dominantium. Seguem a estes três lumes outros muitos que o puderam ser da Telogia. na Universidade de Salamanca. antes dos quais tinham seguido e ensinado a mesma doutrina Santo Antonino. excitou e defendeu galhardamente esta questão nos termos seguintes. S. Princeps regnum terrae. Hurtado Arriaga. que por serem tão particulares os quero referir aqui: Verum Jesus Christus Deus ac Salvator noster fuerit vere ac proprie Dominus et Rex totius Orbis. a que podemos ajuntar muitos juristas de grande nome. sobre todos os reis. E para que demonstremos a verdade desta nossa crença. et unusquisque hominum dominus est suarum rerum. Bacónio e outros. e isto o que explicou o mesmo Cristo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro deixava de ser Deus. se assim não fora. João Evangelista. onde era catedrático de Scoto. com jurdição tão própria e direta sobre todo o Mundo como a que os reis particulares têm sobre seus vassalos e reinos. Agostinho. e os dois Mendonças insignes de Portugal e Castela. Os quais textos e todos os mais se não podem entender própria e naturalmente senão do Reino temporal de Cristo. o Cardeal Hostiense. dos quais este último já no ano de 1586. secundum quod homo est. em que Cristo tão repetida e expressamente é chamado Rei por boca de todos os Profetas antigos. se eles não foram diante. porque o contrário devia fazer manifesta violência à significação da palavra Rei. porque há-de ser menos decência em Deus Homem? Quando chamamos Império temporal ao de Cristo. atque adeo tenporalis: tam vere et proprie quam Philippus 2dus temporis rex est Hispaniarum. no capítulo I. e os vamos juntamente impugnando e desfazendo. Cornelio. mais perfeito e mais excelente domínio. Carçosa. Este é o sentido em que falam com pouca diferença de palavras todos os teólogos referidos. O Cardeal Toledo. non tantum spiritualis rex ac dominus. Tomás. Waldense. o Cardeal Lugo. não dependente como eles das criaturas. com poder de dispor delas a seu arbítrio. isto o que não admitem os Padres. antes com muito maior. como ensina S. seja o primeiro o testemunho das mesmas Escrituras alegadas. atque omnium rerurm creatarum. sublime e independente de todos. Caspense. que as palavras da Sagrada Escritura se não hão-de interpretar em sentido metafórico e 124 . e do império temporal de Cristo. em que chama a Cristo Príncipe dos reis da Terra e Rei dos reis e Senhor dos senhores. e no capítulo XIX. quando disse: Regnum meum non est de hoc mundo. Ludòvico Tena. Navarro.

e teve juntamente o império temporal. nós. senão duas: uma como Supremo Sacerdote. deixou dito e publicado ao Mundo que seu Eterno Pai lhe tinha dado todo o poder no Céu e na Terra: Data est mihi omnis potestas in Cælo et in Terra. filho de Josedec significa a dignidade suprema do Império de Cristo. E. e que o império espiritual significado no ouro era mais alto. glória e autoridade. não só significa Império espiritual. começando pela profecia de Zacarias. E posto que baste cada um deles. seguindo as regras do direito. segue-se que o de Supremo Rei significa o temporal. E quanto ao império temporal. e porque uma delas foi de prata e outra de ouro? A razão. sem sair das mesmas profecias e textos fundamentais desta história. como neste capítulo se irá vendo. não só esperamos de a confirmar eficazmente na mesma certeza.Anexo:Imprimir/ História do Futuro figurativo. E por isso não eram ambas de ouro. se seguisse algum grande inconveniente ou absurdo contra a doutrina da mesma Escritura recebida pela Igreja. que é própria da pessoa de Cristo. antes de subir ao Céu. que é o que com toda a propriedade se chama império na Terra. Agora pergunto porque foi coroado não com uma senão com duas coroas. que maior prova se podia desejar que a da estátua de Nabuco. João. senão quando. quando respondermos a estas leves objeções da parte contrária. mas de lhe acrescentar com a nova luz deles nova evidência. se se entenderem na sua significação própria e natural. Finalmente. falando do Império de Cristo. os mesmos nomes de Rei e Reino. 125 . nos obrigam a conceder e confessar que em toda sua propriedade significam Rei e Reino temporal. senão uma de prata e outra de ouro. A esta confirmação geral da significação da palavra Rei acrescenta o Padre Soares outra. que é uma tão grande parte desse todo. não mística senão literal. o mesmo Cristo. se é certo (como é de fé) que aqueles quatro metais significavam quatro impérios sucessivos. Porque o Reino espiritual de Cristo se distingue do Sacerdócio do mesmo Cristo. e outra como Supremo Rei. tomado na propriedade e natureza de sua significação. Teve logo Cristo o império espiritual. que pertencia ao Império espiritual. dizem comumente os expositores que foi porque Cristo não teve uma só coroa. e nós mostraremos largamente no capítulo seguinte. e impérios verdadeiramente temporais. em que só podia haver dúvida. que pertencia ao temporal. mais precioso e mais sublime que o império temporal. Estes são os textos mais eficazes e expressos com que os teólogos costumam provar a verdade do Império temporal de Cristo. pois se não segue de assim o entendermos inconveniente algum ou dissidência contra aquela grandeza e majestade de Cristo. que tivesse ou tenha Cristo todo o poder. e consta das Sagradas Escrituras. que é o que mais propriamente se chama império no Céu. se o nome de Supremo Sacerdote significa o Reino e Império espiritual. Logo. para . nenhuma cousa exclui. para maior demonstração da mesma verdade. e que eficazmente convence o sentido em que se deve tomar a mesma palavra. sem manifesta implicação.persuadir facilmente a qualquer entendimento fácil e dócil. para significar a diferença e preço daqueles dois impérios ou jurdições. ou ambas de prata. bem se segue que a pedra que os derrubou e desfez. porque de outra maneira se não de dizer nem entender. Agostinho no Tratado XXII sobre S. que o Reino e o Sacerdócio em Cristo são dignidades e jurdições distintas. sua e da Igreja. cujos metais desfez a pedra em pó e em cinza? Porque. pois lhe faltaria nesse caso o poder temporal. como prova S. figura do Reino e Império de Cristo. já vimos que a coroação de Jesus. tantas vezes celebrados e cantados pelos Profetas. antes muita honra. E quem diz todo.

mandou primeiro queimar a quarta besta das vinte pontas. Deum regem venire quid times? non eritit mortalia qui Regna dat cælestia? sendo pois certo que o Reino e Império de Cristo derrubou ou há-de derrubar todos os impérios do Mundo. e assim como a palavra regnum e dominantium é sem dúvida que significa reis e senhores temporais. não haja de ser também temporal? Este é. e todos os reinos temporais que dela nasceram. e que rex e dominus têm uma significação e regnum e dominantium outra. antes com ela se confirma e estabelece mais. pois vemos que reinou antigamente Cristo espiritualmente em todo o Império Romano. como melhor se entenderá pelo discurso de tudo o que diremos. no qual Império hão-de entrar e ser incorporados todos os reis e reinos do Mundo. E este foi o erro. E se nos lugares da Escritura alegados pelos autores da opinião contrária. o império do Filho do Homem ou de Cristo naquela visão é o mesmo Império universal que hão-de ter os Cristãos na Terra. e nem por isso deixam de ter o mesmo domínio e soberania temporal que. Para um império derrubar e desfazer a outro. e não entre o império espiritual e temporal.Anexo:Imprimir/ História do Futuro senão também temporal. de nenhum modo se enfraquece com este indício ou argumento a verdade da nossa sentença. o qual. porque nós não dizemos que o Reino e Império de Cristo 126 . que lhes há-de tirar essa soberania temporal. que são impérios verdadeiramente temporais. senão temporal! E tudo isto se verá mais claramente. e em outros que também lhes pudéramos ajuntar. o que de nenhuma maneira era necessário se o Reino e Império de Cristo fora somente espiritual. Como se pode logo duvidar que este imenso e portentoso Império. cantando sobre sua loucura por boca da Igreja: Crudelis Herodes. não é ou há-de ser o Império espiritual de Cristo. como consta do mesmo texto de Daniel. Segue-se logo com evidência que o Império de Cristo. não desfez os impérios e reinos dos príncipes temporais. a que eles já estão sujeitos. porque só impérios temporais se derrubam. para não admitirmos. antes ajudou muito e se ajudou de seus aumentos. assim a palavra rex e dominus significa rei e senhor também temporal. ignorância e engano de que sempre os fiéis notaram e motejaram a Herodes. Finalmente. o que não faz nem pode fazer o Império espiritual. composto de todos os impérios. como bem tem mostrado a experiência no mesmo Império espiritual de Cristo. quando adiante explicarmos o tempo da ruína desta estátua e outras circunstâncias dela. arruínam e desfazem uns aos outros. tão cantado e celebrado nos oráculos dos Profetas. e não espirituais. crescendo e estabelecendo-se mais a grandeza e majestade da Igreja e dos Pontífices. Nem menos se confirma a mesma verdade com a segunda visão de Daniel (Daniel VII) na qual lemos que. e este o Reino e Império de Cristo. tiveram. antes de receberem a sujeição de Cristo. de todos os reinos e de todas as repúblicas temporais. para Deus dar o Império ao Filho do Homem. e reina também hoje espiritualmente em todos os reinos que do mesmo Império Romano nasceram e se dividiram. posto que seja espiritual e espiritualíssimo. parece que o domínio real de Cristo se limita e determina ordinariamente a fins e obras espirituais. donde eles antes estiveram. senão o Império temporal. que na mesma sentença e na mesma palavra se varia o sentido e suposição dela. ocupando e enchendo toda a Terra. em que era significado o Império Romano. depois de comunicado a seus vigários os Sumos Pontífices. e conservam o nome de cristãos. quanto mais se estabelecia e crescia a dos Imperadores. com manifesta violência da Escritura e repugnância do entendimento. e esta oposição e contrariedade só se acha nos impérios temporais entre si. pelo qual se intitula com toda a propriedade Rex regnum et dominus dominantium. como expressamente se colhe que o império de Cristo não é só espiritual. é necessário que tenha oposição e contrariedade com ele acerca das mesmas cousas.

e isto é ser império de Cristo e dos Cristãos. e os principais e maiores exemplos que nos quis deixar foram do desprezo dele. não porque aqueles santos negassem à universalidade de seu Império o domínio temporal. damos por testemunhas os mesmos livros dos Padres. explicando as palavras de Cristo: Regnum meum non est de hoc mundo. S. Ireneu. Não faltam contudo lugares muito ilustres aos Padres. e para que nos livros dos autores cristãos se não achasse menos a propriedade e majestade da eloquência que tanto se venera nos escritores gentios. não porque os santos tivessem diferente parecer. e 127 . como S. distinta da união hipostática. ponderando o lugar do nascimento de Cristo. no Livro XII sobre S. nos quais também se acharam freqüentemente louvadas. Desta razão. na Homilia VIII. Bernardo. sed regni Cæsaris se non esse hostem ostendit. IV. dos quais porei aqui os que bastem a responder a estes e confirmar a verdade da nossa. XXVI. Lib. sobre os Evangelhos. pois esse Reino e não outro é o que há-de ser eterno e glorioso no Céu. como dizem as palavras tão repetidas do nosso texto. porque estes têm por fim a conservação e felicidade da Terra. Cipriano Adversus Judaeos cap. quia -ejus regnum terrenum non est. se ordena ao fim último e sobrenatural da bem-aventurança. e nisto se distingue dos reinos meramente políticos e humanos. Outras muitas sentenças semelhantes a estas se vêem em outros Santos Padres da mesma e maior antigüidade. inculcadas e persuadidas as virtudes que pertencem ao Reino espiritual de Cristo. Agostinho. cap. sobre Jeremias. et jure creaturæ et merito redemptionis et dono patris. João. non secundum potestatem sed secundum naturam. S. . et dabo tibi gentes hæreditatem tuam et possessionem tuem terminos terræ?»Possessionem et dominium cede huic. Hilário sobre o Salmo II. em que falavam do Império temporal de Cristo com termos Não menos expressos que os que se alegam pela parte contrária. que não só em quanto espiritual..Anexo:Imprimir/ História do Futuro é espiritual. senão ainda em quanto temporal. sed talis ut homines reges faceret. mas porque deste não quis ter exercício aquele Senhor que era juntamente Senhor e Mestre. E S. qui possessionem sibi vindicat. para convidarem a todos a lerem de boa vontade e com gosto seus escritos. cap. Cirilo. no Livro IV. non data possessio. nam secundum potestatem in propria venit. no Tratado XIV sobre o mesmo Evangelista: Erat quidem Rex non talis qualis ab hominibus fit. conhecendo e tendo pela maior excelência deste felicíssimo Reino. tu curam ilius habe. como também se não acha o da graça santificante do mesmo Cristo. ceterarunque rerum omnium. e outras cousas de igual importância e dignidade. V. no Livro III De consideratione escrevendo ao Papa Eugénio: Dispensatio tibi super illum credita est. senão que é espiritual e temporal juntamente. E mais claramente que todos S. mas porque em seu tempo não estavam em uso aqueles termos que depois inventou a Teologia.Non tu ille de quo Propheta: «Et erit omnis terra possessio ejus?» Christus hic est. Vindo às autoridades (como dizem) dos Padres concedemos facilmente que são poucos os lugares de seus escritos em que se ache expressamente e em próprios termos o Reino temporal de Cristo. para maior clareza da doutrina escolástica. Gregório. E S. Não próprio senão alheio:Alienum. S. diz assim: Regem se esse non negat. recebidas entre os teólogos. Jerônimo. explicando muitos deles com palavras menos latinas (por não dizer bárbaras) qual é a palavra temporal. diz.. S. que é geral para muitas matérias. como nos primeiros tempos da Igreja faziam aqueles santíssimos e doutíssimos Padres. sed caeli et terra:. v. XXII. XVII. Cui enim alteri dictum est: «Postula a me. e o de Cristo e dos Cristãos a do Céu. Dos quais termos se abstêm ainda hoje os que escrevem com estilo mais polido e levantado.

cum certe non istius regni ille rex esset. Neque enim hastas. no Sermão I De nativitate Virginis: Quandoquidem Christus rex est qui natus est ex virgine idemque et Dominus et Deus. grandeza e majestade exterior de rei temporal. o Império e Monarquia universal de Cristo. o império e domínio de todo o Mundo. Atanásio. Senhora nossa. ministri utique mei decertarent. parece que diziam e ensinavam o contrário (como verdadeiramente parece). Nihil quippe tale monstravit. por todos os Padres que pudéramos trazer em comprovação desta nossa advertência. não quanto ao poder. sed vilem hanc prorsus vitam egit ac pauperem: duodecim tantummodo homines. E S. Serm. não negando a Cristo Rei. reconhecem e veneram na Virgem. que são os nomes injuriosos ou gloriosos com que uns e outros afrontavam a cruz e humildade de Cristo. E como a controvérsia e disputa daqueles tempos era contra este escândalo dos Judeus e contra esta estultícia dos Gentios. dicens: «Domini est terra et plenitudo ejus. regina cælorum et domina mundi jure esse probutur.Anexo:Imprimir/ História do Futuro S. coches. criados. galas. a título de Mãe de Cristo. principal mente em livro s apologéticos ou tratados. eosque despectabiles secum circumducendo. O mesmo S. sicut Propheta testatur. non enim istum neque alium quempiam circa se habuit ornatum. Esse aparato e pompa exterior de riquezas. porque o Reino de Cristo verdadeiramente era deste Mundo e de todo o Mundo. exércitos. em que. Onde se deve notar que não disse Cristo: Regnum meum non est hujus mundi.. Dos quais lugares todos e muito mais claramente destes últimos se mostra quão assentada cousa era. e não o império e domínio dele sobre todo o Mundo. e quão sem controvérsia. não só quanto ao Reino espiritual e do Céu. et regira domina et deipara proprie et vere censetur. senão quanto ao aparato. Bernardo. ea propter et mater quæ eum genuit. diz assim elegantemente: Quonam pato magi ex stella illa Judaeorum regem illum esse didicerut. e este é o sentido próprio e germano em que Cristo disse a Pilatos: Regnum meum non est de hoc mundo. XI. sobre S. Bernardino de Sena. 128 . império ou domínio. palácios. como dizíamos. no Sermão sobre as palavras do Apocalipse . senão de hoc mundo.signum: Maria (diz) eo quod mater Dei est. E se alguns dos mesmos Santos Padres . deve-se advertir que falavam do Reino de Cristo. I: Virgo beatissima omnem hujus murdi meruit principatum et regnum. E S. cavalos. no sentir comum dos Padres. no Tomo I. o domínio e império ainda temporal sobre todo e1e. cap. falando do Rei que vieram adorar a Belém os reis e da diferença humilde de seu estado. e os segundos fingindo as propriedades de Deus humanado conforme sua vaidade e apetite. orbis terrarum et universi qui habitant in eo». João Crisóstomo. Lucas. Como logo explicou na mesma razão que deu do que tinha dito: Si ex hoc mundo esset regnum meum. ut non traderer Judæis. mas engrandecendo esse mesmo império pelo desprezo da pompa e aparato vão em que põem os reis da Terra sua grandeza e majestade. neque clypeatas ostendit militum catervas: non equos regalibus phaleris insignes. é o que os Santos negavam no Império de Cristo.. Ambrósio no Livro III. um lugar de S. como gente costumada a fazer deuses à sua vontade. quale mundi hujs reges habere conspicimus. os primeiros interpretando erradamente as Escrituras. senão quanto ao temporal e da Terra. por isso é tão freqüente nos escritos dos Padres a diferença do seu Reino aos reinos do Mundo. e só não tinha os acidentes da vaidade e falsa grandeza com que se sustentam os outros reinos do Mundo. Aos quais com razão podemos acrescentar todos aqueles autores antigos e modernos que. Basta. quia filius ejus in primo instanti suæ conceptionis monarchiam totius promeruit et obtinuit uriversi. non cunas auro ostroque fulgentes. o qual os Judeus esperavam e os Gentios desejavam em Cristo.

escrito. Do qual Vasques diz Salazar que foi o primeiro a quem a Teologia deve os sólidos e verdadeiros princípios em que fundou o Império temporal de Cristo. Agostinho e S. oleo laetitiae pre consortibus tuis e a explicação de S. nós veneramos nela a autoridade de David. assim a união hipostática em Cristo foi uma verdadeira e própria unção com que juntamente com o ser e a natureza recebeu o poder e a Monarquia do Mundo. e por ela fica constituído. E o mesmo Cristo. sem algum outro concurso ou condição extrínseca. para mostrar que o ser rei de todos os reis e senhor de todos os senhores lhe convinha e era seu por sua própria natureza. Este é o único fundamento do Padre Vasques. mas ungido por natureza. como iremos mostrando pela mesma ordem. e não o de Cristo. é Cristo Rei e universal Monarca do Mundo por natureza. porque por meio da união da divindade à humanidade. porque o ser ungido por Rei e universal Monarca do Mundo não lhe pertencia por imposição divina ou humana. Livro II. o quarto por compra. venite et occidamus eum. Salvador por obediência. Paulo. e de outros grandes Padres que. falando também de Cristo: Quem haeredem universorum per quem fecit et sæcula. que significa a geração humana. por não faltar ao costume de impugnar tudo. in femore. não só espiritual. de todos os reinos e de todos os impérios do Mundo. todos legítimos e conforme o direito: o primeiro por natureza. Gregório Nasianzeno. apontam-se os títulos e razões do Reino temporal de Cristo O principal fundamento dos que não admitem no Reino de Cristo o império e domínio temporal. como diz o texto. Porei suas palavras no capítulo seguinte pelas não repetir duas vezes. Deus tuus. E por isso o nome que lhe puseram na circuncisão foi de Jesus. com a maior brevidade que nos for possível. Capítulo VI) por Padre Antônio Vieira Prossegue a mesma matéria. assim o entenderam. sendo Cristo filho natural de Deus. de que Deus é absoluto Senhor. pertence ao mesmo Cristo em quanto homem o domínio e império universal de tudo o criado. como também no seguinte: . E S. apontaremos e provaremos aqui. que quer dizer salvador. E posto que Arriaga. o segundo por herança. E neste título convêm todos os teólogos acima alegados. conforme o texto de S. E assim como antigamente se faziam ou consagravam os reis pelo óleo que eram ungidos. o sexto por eleição e aceitação de todos os homens. ao qual compita e seja devido aquele domínio. senão por natureza própria sua. Assim o disse o mesmo Deus por boca do Profeta Rei: Postula a me et dabo tibi gentes hæreditatem tuam et possessionem tuam terminos terræ. na parábola da vinha: Hic est hæres. os títulos por que é devido e compete a Cristo em quanto homem o Império e domínio supremo. que quer dizer ungido. ou por ser quem era. Primeiramente. o terceiro por doação.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 129 História do Futuro (Volume II. porque. ou por ela (sem ninguém o constituir) é Rei e Senhor e Monarca supremo de todos os reis. e para que se veja manifestamente a debilidade deste fundamento e tragamos à nossa sentença os mesmos autores que em seguimento deles abraçam a contrária. da parte de Deus nem da parte dos homens. Paulo — quod si filius et haeres — lhe pertence a Cristo o título de herdeiro do domínio e império universal do Mundo. o quinto por guerra justa. a qual se inclui essencialmente na natureza de Cristo. como eles dizem. que assim o disse no Salmo XLIV: Unxit te Deus. São estes títulos seis. é por não haver título. senão também temporal de todo o Mundo. O segundo título do Império de Cristo é por herança. não reconheceu na unção da união hipostática mais que a propriedade e energia da metáfora. a quem geralmente seguiram todos os que depois dele escreveram. Por isso Cristo no Apocalipse trazia o título de Rex regnum e Dominus dominantium.

eleição ou aceitação. O Anjo à Senhora. assim como o que é senhor do escravo fica juntamente sendo de todos os seus bens. senão verdadeiramente escravos seus. o título em que funda este direito é o consentimento. João. Capítulo XIV. E é conclusão certa na teologia.Anexo:Imprimir/ História do Futuro É o terceiro título. porém. E no capítulo. em cujas comunidades. aceitação e como eleição de todas as nações do Mundo.: Data est mihi omnis potestas in cælo et in terra. prometido aos primeiros Patriarcas da sua nação. os quais têm para si que Cristo foi legitimo Rei do Reino de Israel. Judæi (diz o texto) consenserunt eum Simonem esse ducem suum [. a cujo Reino e direito não queriam prejudicar.: Omni subjecisti sub pedibus ejus.. assim no Velho como no Novo Testamento. Lucas: Dabit illi dominus Deus sedem David patris ejus et regnabit in domo Jacob. pois verão por grandes notícias e não vulgares da Antigüidade quão certa e concertadamente concorre a novidade e verdade desta nossa consideração ao maior estabelecimento do Reino de Cristo.. E para . arrostando a opinião de muitos e graves autores. Contudo digo que não faltou ao Império e Monarquia universal de Cristo este último título do consentimento e aceitação universal dos homens. sed si cuiquam maxime competiit Christo.. quem semper expectaverunt sibi regem f ore in lege promissum. comprados com o preço de seu sangue: empti enim estis pretio magno: O sexto e último título do Império de Cristo dizíamos que era por consentimento. sendo o Monarca universal de todo o Mundo e de todos os homens. Alberto Pighio (para que de todo não entremos neste novo caminho sem alguma guia) no Livro V da Hierarchia Ecclesiastica. Nec Pilato (diz este autor) nec Caesari ullum legitimum jus in regnum Judaeorum. não é possível havê-lo. no I capítulo da Epístola aos Hebreus. e este consentimento comum nunca jamais o houve no Mundo. pôs Deus. no capítulo II de S..prova desta geral aceitação e consentimento com que todo o povo hebreu tinha recebido por seu Rei ao prometido Messias. como agora mostrarei.. no capítulo III: Sciens quia omnia dedit ei pater in manus. e Platão no Diálogo de Regno e nos livros — De republica. e de grande glória não só de Cristo mas nossa. o poder e jurdição suprema de eleger e nomear príncipe. quando querem viver juntos e politicamente. capítulo III.] 130 . verdadeiro Messias. como dizem alguns teólogos. por ser pensamento novo e matéria até agora não tratada. que pelo título da Redenção não só ficamos vassalos deste soberaníssimo Monarca. em que se refere como os Judeus por consentimento comum elegeram por seu príncipe Simão e seus descendentes com a cláusula. era necessário que os mesmos homens conviessem todos este consentimento. S. e o alcançaram e ensinaram antes deles. O título da compra. antes. e no salmo. Este título é o mais natural e jurídico entre os homens. à qual é necessário abrir os alicerces e lançar os primeiros e sólidos fundamentos. mas ao primeiro domínio se segue necessária e naturalmente o segundo.: Omnia mihi tradita sunt a Patre meo. o qual se acha mais expresso que todos. que é o quarto. com que Cristo. prometendo aos que fizerem esta detença não perderão o fruto do tempo que nela gastarem. Aristóteles no Livro III das Políticas. as quais palavras entende S. Assim o tem a comum sentença de todos os juristas teólogos. era esperado de todo aquele povo como seu verdadeiro Rei e Senhor. parece que cai mais imediatamente sobre os homens que sobre o Mundo. aceitação e expectação geral.. O mesmo Cristo no capítulo. traz o mesmo Alberto Pighio a história do Livro I dos Macabeus. como autor da natureza. o de doação. que o seriam somente até que viesse o Messias. no Salmo pouco antes alegado: Dabo tibi gentes hæreditatem tuam. por lume natural. Mas em Cristo parece que não pode ter 1ugar este título porque. como acima dizíamos. Paulo de Cristo... E peço licença aos que quiserem ler este discurso para meditar um pouco mais nele.

no. como consta da História Sagrada. e antes da vinda de Cristo. referindo-se a Pighio) alio titulo Christi regnum ab aduersariis vindicant. porque não pareça a acomodação da dita sentença levada de algum modo por nós ao intento em que nos serve: Alii (diz Mendoça. quod illi adventanti legitimo jure deberi significaverunt. De toda esta sentença assim entendida me não serve mais que o exemplo e o modo de dizer ou filosofar. nos quais houve o mesmo consentimento comum. et veniet desideratus cunctis 131 . De maneira que o título com que tão grande teólogo e jurista defende o direito de Cristo ao Reino de Israel é aquele geral consentimento. Nem impede ou encontra a verdade ou legitimidade deste título o ser o mesmo Rei Cristo primeiro eleito. e este será a espectação das gentes. porque assim o explicou S. e digo que. nam dicunt ex consensu et quasi electione populi judaici Christum fuisse illius gentis regem. capítulo XII): . Sobre as quais palavras conclui assim o dito autor: Vides omnium Judeorum votis et expectatione semper expectatum Christum et Messiam in lege promissum. deixados outros muitos textos de menor clareza. e o mesmo desejo. ideo pblico totius gentis decreto in ipsum sua suffragia conjecerant et in regem elegerant. em respeito de todo o Mundo e de todos os homens e nações dele. assim concorreu e concorre o mesmo título no Reino e Monarquia universal de Cristo. falando da mesma vinda de Cristo (como é de fé que falava. no qual.. como entendem uniformemente todos os autores católicos. e a mesma espectação acerca do Reino e Monarquia universal de Cristo sobre todos eles. o mesmo desejo e a mesma espectação. Saul e Daniel. desejo e consentimento comum com que era esperado de todos por seu legítimo.. et movebo omnes gentes. aclamados e cada um deles ungido pelo mesmo povo. na bênção que lançou Jacob a seu filho Juda. prometido e dado por Deus. diz assim: Non auferetur sceptrum de Juda et dux de femore ejus. entenderam também sempre todos os Hebreus. os quais por primeiro foram ungidos pelo Profeta Samuel por mandado de Deus. e depois novamente aceitos. apontarei somente dois. E que em todos os homens e nações do Mundo houvesse geralmente o mesmo consentimento comum. falando do Messias prometido. que é o ponto e suposição em que fundamos este novo título. nam ad ejus usque aduentum Simoni atque e jus posteritati regnum stabilierunt. como logo mostraremos. pela espectação. Alonço de Mendoça acima citado. supremo e verdadeiro Rei. velut expresse protestantes in ejus praejudcium et injuriam nihl se velle facere. ungido. espectação e como eleição com que todo o povo judaico tinha aceitado como seu verdadeiro Rei o futuro Messias. porque todas estas circunstâncias e condições concorrem no exemplo alegado (o qual não é semelhante se não o mesmo) e o mesmo temos nas eleições dos dois primeiros reis de Israel.» E o Profeta Ageu. et tenacissime crederent regem itsum futurum temporalem. donec veniat qui mittendus est. donec surgat propheta fidelis. assim como em respeito do Reino de Israel. Assim explica em próprios termos esta sentença de Alberto Pighio. regem sibi fore. e como tal o esperava. concorreu ou pode concorrer em Cristo o título da aceitação e como eleição geral daquele povo. que se não podiam desejar nem ainda fingir mais expressos. cujas palavras quero também referir aqui. et ipse erit expectatio gentium: «Não faltará o cetro de Judá nem príncipe de sua descendência até que venha o que há-de ser mandado. capítulo II. Paulo na Epistola aos Hebreus.ego commovebo caelum et terram et mare et aridam. O primeiro é do capítulo penúltimo do Gênesis. no I e II Livro dos Reis.Anexo:Imprimir/ História do Futuro in aeternum. nam cum ardentissime Messiam expectarent.

o vinham adorar e reconhecer. as três partes do Mundo até aquele tempo conhecido) sendo gentios. conforme a significação mais recebida. e era desejada de todos a sua vinda: Ipse erit expectatio gentium. senão somente aos Hebreus. e de nenhum modo sujeitos ao domínio da república hebréia. veniet desideratus cunctis gentibus. outros da Etiópia. 132 . não só era Ele o desejado e esperado do povo de Israel.muito menos todas elas. antes de Cristo vir ao Mundo. outros os fazem da Pérsia. Eu tenho por mais provável que ao menos parte deles eram de regiões mais distantes. com que as nações dos Gentios todas (geral e moralmente falando) ao menos algum tempo esperassem e desejassem a vinda do prometido e futuro Rei. Daqui a um pouco (diz Deus) «moverei o céu e a terra. as quais. pois antes de Cristo vir ao Mundo. outros da Média. vencidos da força dele os maiores intérpretes da Escritura. Esta é a razão e o mistério por que os três reis do Oriente (em que se representavam. querem dizer reis ultramarinos. senão as dos gentios a tinham aceitado e querido. o mar e todo o Mundo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro gentibus. Sobre a nação daqueles reis. e por certo modo de eleição segunda e humana escolhido depois de Deus para seu futuro Rei e Senhor. quando não façam alguma violência aos mesmos textos. S. o certo e sem controvérsia é que todos eram reis gentios. nem a fé ou a esperança de que havia de vir se tinha anuncia do ou manifestado às nações dos Gentios. e por isso como o Rei verdadeiro e Senhor universal de todos os reinos e de todas as nações do Mundo. ao menos não enchem o sentido de suas palavras. Pois se eram reis gentios. o que se não verifica sem grande impropriedade nos reis da Arábia e Sabeia com respeito da Palestina. que razão ou motivo tiveram para vir adorar um menino que eles mesmo conheciam e diziam que era Rei dos Judeus? Ubi est qui natus est rex Judaeorum? A razão e motivo que tiveram foi (como bem notou Almaino) porque sabiam e criam que aquele rei dos Judeus novamente nascido não era rei particular (como os outros reis hebreus) de uma só nação ou de um só reino. Porque aquelas palavras reges Tharsis et insule. e quando somente estava profetizado e prometido já às nações do Universo. e argüir contra esta nossa suposição (como argüiu S. e . como diz a glossa. senão Rei. não só a hebréia. senão por Monarquia universal de todas as outras nações e reinos do Mundo. senão o esperado e desejado de todos os povos e de todas as gentes. Agostinho contra este último texto) que não podia ser que as nações dos Gentios. vieram adorar Cristo e oferecer-lhe tributos. porque todos o esperavam por seu Rei e natural Senhor. e render-lhe a devida obediência e vassalagem: debitam ei seu vero eorum regi et domino prestantes obedientiam. porque aquele erit expectatio gentium e aquele veniet desideratus cunctis gentibus verdadeiramente significam própria espectação e próprio desejo. e por isso como a rei verdadeiramente seu. e verdadeiramente da nossa Índia Oriental. esperassem e desejassem o Messias antes da sua vinda. reges Arabum et Saba dona adducent. Só vejo que podem reparar com muita razão os doutos. De sorte que antes de Cristo nascer e aparecer no Mundo. Jerônimo quer que fossem da Arábia Feliz. Monarca e Senhor universal de todos os reinos e de todas as nações. excogitavam aos dois textos referidos as explicações que neles se podem ver. e se eram só de uma ou de diferentes nações. conforme profecia de David: Reges Tharsis et insula numera offerent. e não só por Rei particular dos Judeus. e moverei todas as gentes e virá o desejado de todas elas» De sorte que. há variedade entre os Doutores. Mas de qualquer modo que seja. e como tal o esperavam todos. É tão forçoso e ao parecer tão evidente este argumento que.

Gregório Nasianzeno. sed potius delectante. Basílio. por ser de tão duvidosa antiguidade. apud quos ferebutur quaedam scriptura. por deixar imperfeita e não acabada a obra que comeu. de apparitura hac stella. derivada desde Noé. o qual se conservava em uma nação das últimas partes do Oriente. II. e assim se cumpriu uma e outra profecia. O outro meio por onde os Gentios puderam vir em conhecimento da vinda e império universal do Messias. ou a todas ou a quase todas as nações de todo o que naquele tempo se chamava Mundo. Anselmo. chamado o Imperfeito. e que neste livro estava descrita a aparição futura daquela estrela. como se pode. E posto que não tem por certo aquele livro. e assim digo se devem entender ambas em toda a capacidade do seu sentido próprio e natural. no Sermão 157. mas com efeito chegou. Ambrósio. que encheram o Mundo. o qual querem muitos que seja S. filho terceiro de Adão. Cam e Jafet foram os segundos povoadores do gênero humano. Audivi aliquos (diz ele) referentes de quadam scriptura. que entre os Gentios se conservava. S. Teofilato. e que todas estas notícias se tinham conservado entre os doutos e estudiosos daquela gente por tradição de pais a filhos. junto ao mar Oceano. Tomás e S. Sem. ver em Orígenes. cujos três filhos. ou o que há-de vir. diz que tinham aprendido e sabido assim por doutrina e tradição de seus maiores. o qual. continuou também unida a mesma tradição. Jerônimo. Até aqui este autor. E o autor do Imperfeito na humildade. S. declarando o meio por onde os magos puderam entender que a estrela significava o Messias e que este havia de nascer na Judéia. depois de Abel. S. Esta é a opinião comum dos Padres. an alium expectatamus? 133 . O primeiro meio é a tradição continuada desde Adão até Noé. pois é certo que com a mudança das línguas não perderam os homens a memória nem a ciência. Pedro Crisólogo. que os Judeus esperavam. no qual. porém. foi a grande comunicação que em todas as partes do Mundo tiveram sempre com os mesmos Gentios. S. sed de prisca sanctorum traditione majorum. E para que se veja que não era cousa impossível nem dificultosa ser a vinda do Messias desejada e esperada geralmente de todas as nações gentílicas. mostrarei aqui os modos e os meios mais prováveis e certos por onde o conhecimento e esperança do futuro Messias não só podia chegar.S. e depois que na Torre de Babel se dividiram os homens e as línguas. Eutímio.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Assim é e assim foi. S. conta haver ouvido de certo livro escrito com o nome do mesmo Set. . quae per generationes studiorum hominum patribus referentibus filiis suis habebatur deducta. cujas palavras citaremos depois. que o nome com que vulgarmente chamavam ao Messias era o Esperado. como se vê nos termos que falaram os discípulos ou embaixadores do Baptista. sobre S. e referindo-se aos tempos de Set. Mateus. tomando esta tradição mais perto da fonte. entre os quais era tão vulgar e celebrada aquela esperança. erant isti de genere Noe. e os dons que se haviam levar e oferecer ao Rei nascido que ela significava. João Crisóstomo. enquanto se conservou unido. e da nova estrela que havia de anunciar o seu nascimento. et muneribus ei hujusmodi offerendis. etc. também com elas se espalhou pelo mesmo Mundo aquela noticia e esperança recebida de seus antepassados. et si non certa tamen non destruente fidem. quoniam erat quaedam gens sita in ipso principio Orientis juxta Oceanum. antes aprova a tradição do futuro Messias. Mas temos para maior confirmação dele o testemunho de S. irscripta nomine Seth. Este discurso é tão natural que não havia mister autor. Procópio. quando perguntavam a Cristo: Tu es qui venturus es. Leão Papa. Non chaldea arte. Máximo. e que só refere a fama. não nega. e os mesmos Gentios com os Judeus. S. e se começaram novas nações. Cipriano.

é que todos estes. sendo tão admirável a sabedoria e grandeza de Salomão. Isto é o que tanto celebrava David naquela cidade em cuja fundação e formosura tinha ele tão grande parte: Glorosa dicta sunt de te. horum qui ferunt in ea. cap. que é mais. depois de ouvirem e admirarem em presença a sabedoria de Salomão. e o que sobretudo te faz gloriosa. Pedro. não só freqüentam tuas ruas os do povo. Ecce alienigenæ et Tyrus et populus AEthiopum hi fuerunt illic. Persas. Asianos. se o mesmo Salomão não fora maior maravilha! Para ver e ouvir estas duas maravilhas.. e se conformam com o exemplo da Rainha de Sabá. em ti se vêem homens brancos. ao som daquele trovão do céu. como os Tírios. Que gloriosas cousas se contam de ti (diz David) e se escrevem nas escrituras de todos os povos. porque conhecem a Cristo. como são os de Etiópia. e em sinal da mesma fé introduziu em todo ele a circuncisão.. Frígios. soubemos que acudiram ao convento e ouviram a primeira pregação de S.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Era Jerusalém antigamente a mais formosa cidade e o maior império do Mundo situado no meio de todo ele. como dizem comumente todos os intérpretes. Mesopotamios. e sabem o que dantes não sabiam. primeira maravilha do mesmo Mundo. et Babylonis scientium me. bastava um só do nosso para abundantíssima prova das muitas nações de Gentios que vinham ordinariamente e residiam em Jerusalém. 134 . et ab universis regibus terræ qui audiebant sapientiam ejus. mas também as passeiam os príncipes — populorum et principum! Mas o que sobretudo é digno de maior memória. homens de todas as nações e partes do Mundo. dezessete gêneros de homens de línguas e nações diferentes — Partos. em ti os da Ásia. Elamitas. ó cidade de Deus! Em ti se acham todas as diferenças de homens. em ti homens negros. Memor ero Rahab. como são os de Babilônia. vindo a ti. em ti os da Europa. plusquam Salamone! Assim o dizem expressamente neste lugar . ainda havia de ter o mesmo Salomão um descendente que fosse mais sábio e maior que ele. porque o mesmo Cristo é o que falava neste Salmo por boca de David. homens de todas as cores. que por isso se chamava Umbellicus terrae. que seria no tempo de seu filho Salomão. foi a primeira que pregou nesta fé e esperança do Messias no seu Império de Etiópia. e como tal concorriam a ela de todas as partes infinitas gentes de todas as nações e ainda de todas as cores. Panfílios. quando menos. IV. e de todas estas gentes. iam contar e ensinar a suas terras e príncipes o que dele tinham ouvido e aprendido. em ti se acham todos os homens de África. E quem poderá duvidar que um dos principais mistérios que Salomão ensinava naquela cadeira universal do Mundo era o da fé e esperança do futuro Messias. que isso quer dizer homo et homo. Este é o sentido literal das palavras scientium me. homens de todas as línguas. como são tantos outros estrangeiros. que vinham de todos os povos e de todos os reis da Terra a Jerusalém pessoas enviadas por eles (que é certo seriam os maiores sábios dos mesmos povos e reinos) os quais. que era uma protestação pública dos que a professavam. pois só no dia de Pentecoste. depois de ouvir a Salomão. Et veniebant de cunctis populis ad audiendam sapientiam Salomonis. et ipse fundavit eam Altissimus? Dominus narrabit in scripturis populorum et principum. Judeus. Mas quando nos faltavam estes testemunhos do Testamento Velho. em ti homens de todas as outras cores meãs. civitas Dei. como são os asiáticos. E se no tempo de David era tão freqüentada a cidade de Jerusalém de todas as nações do Mundo. aprendem o que dantes ignoravam. Numquid Sion dicet: Homo et homo natus est in ea. diz o Texto Sagrado no III Livro dos Reis. Pontos. depois de edificado o templo. como os Etíopes. que. Capadoces. e muito mais a segunda. Medos. e que a maior maravilha que levavam para contar em suas terras os que tinham ouvido aquele famoso oráculo era que. filho e descendente seu. ó cidade santa.

pusesse escola de sua sabedoria. et AElamitæ. prometendo-lhes que em sua descendência seriam abençoadas todas as nações do Mundo: Benedicentur in semine tuo omnes gentes terrae. assim como hoje os judeus convertidos à Fé de Cristo se chamam cristãos-novos . Phrygiam et Pamphiliam. que quer dizer novos. que senhoreavam o Mundo. onde tivesse por ouvintes todos os príncipes e sábios egiptianos: Ut erudiret principes ejus sicut semetipsum. se não fundasse tanto no receio de sua multidão que no medo de suas profecias. que passaram entre as quatro nações imperantes e o reino ou povo hebreu. e algumas vezes mais estreita do que quiseram. quando isto aconteceu. dos Persas. E porque ao numero dos três Evangelhos não faltasse o primeiro. de entradas. de confederações. Passados. como notou o mesmo Profeta: Et pertransierunt de gente in gentem. onde permaneceram até verem o cumprimento delas em Cristo. para que fossem três pregadores daquele primeiro Evangelho. à Terra de Promissão. Mas no tempo daquele comprido cativeiro Não havia casa no Egito em que o cativo não fosse mestre do senhor. a Isaac em Gerara. concorreram e floresceram no mesmo tempo os quatro impérios ou monarquias dos Assírios. desde que nasceu e começou no Mundo a nação hebréia. et senes ejus prudentiam doceret. e no mesmo tempo pôs a Providência divina aqueles três Patriarcas em diferentes nações e províncias: a Abraão em Canaã. Judaeam et Cappadociam. Ajuntou depois disto a fome em Egito os doze irmãos.prometido fazer a todas. como a de Herodes. et AEgyptum et partes Liyæ. Cirenos. que foi em Abraão. II dos Atos dos Apóstolos) audivimus unusquisqe linguam nostram in qua nati sumus? Parthi et Medi. ou como três evangelistas que anunciassem às gentes a boa nova da mercê grande que Deus tinha . As maravilhas que depois viram nos Egípcios é certo que acrescentariam fé às esperanças dos Hebreus. saíram vencedores. entraram livres. dos Gregos e dos Romanos. Assim trouxe Deus naquele tempo pelo Mundo estas quatro testemunhas de suas promessas de reino em reino e de nação em nação. Judaei quoque et proselyti. Onde se deve muito advertir que. permitiu a mesma Providência que por extraordinários caminhos fosse José levado ao Egito. que seria nos tempos passados? Mas se importou muito para se estender a notícia do Messias por todo o Mundo a comunicação que os Gentios tinham com os Judeus em suas próprias terras. porventura até aquele tempo mal cridas. Com os Assírios 135 . e não conservava a quarta parte da grandeza a que nos tempos de sua maior opulência tinha chegado. et de regno ad populum alterum. filhos de Jacob e cabeças dos tribos. muito mais ajudou e adiantou a mesma notícia a muito maior comunicação e freqüência que os mesmos Judeus tinham e continuaram sempre nas terras dos Gentios. a Jacob em Mesopotâmia. E se agora era tão freqüentada de nações estrangeiras. Cretenses. Cretes et Arabes. e já pode ser que a crueldade de Faraó. de pazes. como diz David. Romanos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Egipcios. e com todas elas tiveram grande comunicação os Hebreus. Et quomodo nos ( diziam todos estes no cap. primeiro tronco e pai de toda ela. já a. enfim. Africanos. et qui habitant Mesopotamiam. quæ est circa Cyrenen. et advene Romani. cidade de Jerusalém e o povo e república dos Hebreus estava quase arruinada. Todas as histórias sagradas estão cheias de embaixadas. audivimus eos loquentes nostris linguis magnalia Dei. Isaac e Jacob a vinda do Messias. de guerras. que chamavam com nome geral prosélitos. continuaram cativos. Arabes e outros convertidos das gentilidades. de presentes e de outros tratos e correspondências políticas. e que aí por mandado do rei. Pontum et Asiam. Revelou Deus por três vezes sucessivamente a Abraão.

em tempo de Judas Macabeu. com Salmanasar. crescendo e multiplicando-se a nação hebréia. de Matatias. de Simão e Jónatas. cuja largura e comprimento. ficasse tão crescida e arreigada. de que se nomeia na Escritura Sagrada somente Lúcio. Com o mesmo fim ordenou a sabedoria e justiça divina que os maiores e mais gerais castigos daquela nação fossem desterros e cativeiros. em tempo de Jeconias. para que por este meio ficassem castigados os Judeus. com que eram levados e transmigrados a terras e regiões estranhas cousa poucas vezes vista em nações inteiras. como consta do I e II Livro de Esdras e da História de Ester. no tempo de El-Rei Oseas . Finalmente. VIII dos Atos dos Apóstolos que se levantou uma grande perseguição na igreja de Jerusalém. A primeira foi dar-lhes muitos filhos e pouca terra. E a razão desta providência foi para que. não falando no do Egito. como consta das mesmas capitulações feitas entre uma e outra nação. de Joaquim e do sacerdote Eliacim. de que já dissemos. foi o de Salmanasar. não chegava a oitenta léguas da nossa medida. que concorreram com Alexandre Magno. que muitos deles se dividiram por todas as terras orientais 136 .Anexo:Imprimir/ História do Futuro notemos de Ezequias. em tempo do Sumo Sacerdote Jado. Heliodoro. Com os Gregos. e não cabendo nos estreitos limites da sua própria terra. Assim lemos no cap. como consta do IV Livro dos Reis e da história de Judite. quae erat Jerosolymis. de Zorobadel. que concorreram com Ciro. mandadas pelos Romanos à Judéia. como escreve Paulo Orósio. O primeiro e principal desterro e cativeiro. com Ful. Severo Sulpício e outros autores latinos e hebreus. que estavam bem no coração de toda a Ásia. com Demétrio. de Acáz. porém. e levasse a elas a primeira luz da fé de Deus e da esperança de Cristo: e este é o mistério ou a energia de primeiro se haverem de multiplicar como pó e depois como estrelas. escritas em tábuas de bronze. Com os Persas. que concorreram com diversos cônsules de Roma. por este meio tão natural e ao parecer não pretendido. com os Romanos. e posto que o maior corpo daquela gente teve o sucesso que depois se verá. para que o alumiassem no meio das trevas em que todo estava. gue concorreram com Berodac. para que. se plantasse nelas a Fé e depois. tomada em sua maior extensão. e foi assim que de doze netos de Abraão se formaram os tribos e destes cresceu e se multiplicou a mais numerosa nação que jamais houve no Mundo de um só sangue. que Deus deu e repartiu aos doze tribos para sua habitação foi a terra chamada de Promissão. como lemos nos mesmos Livros dos Macabeus. A terra. e juntamente instruídos e alumiados os Gentios. et omnes dispersi sunt per regiones Judae et Samariae:. Ptolemeu e Trifon. no qual foram levados os dez tribos desde Judéia até as terras dos Medos e dos Assírios. E não só com estes quatro estendidíssimos impérios. com os dois Antíocos. concorrendo Deus para este fim com disposições de mui particular providência. com Dario e com Assuero. tiveram muito particular trato e comunicação os Judeus. por ocasião da qual se dividiram e espalharam os Cristãos por todas as regiões e terras de Judéia e Samaria: Facta est in illa die persecutio magna in ecclesia. de Simão e Jónatas. como consta do I e II Livro dos Macabeus. de Judas Macabeu. de Oseas. Prometeu Deus a Abraão que multiplicaria sua descendência como o pó da terra e como as estrelas do céu. como adiante largamente contaremos. de Esdras. com Nabucodonosor e com Baltasar. de Neemias. mas com todas as nações do Mundo. é certo. juntamente com eles assim espalhados ou semeados por aquelas terras. E notam comumente os Padres e expositores que ordenou ou permitiu a Providência divina este desterro ou dispersão geral de todos os cristãos de Jerusalém pelas cidades e lugares daquelas províncias. se espalhasse e estendesse por todas as nações do Mundo.

que era droga naquele tempo que só nascia em Judéia. e levava nele o trigo e mais o cálix de José. metendo-lhes em casa. como neste lugar notam todos os expositores modernos. na qual se permitia (posto que não se justificava) para com as nações estrangeiras. fez sua fortuna. em tempo de El-Rei Joaquim. e nos mesmos imperadores supremos. em que os dois tribos que haviam ficado foram também cativos. sed e contrario justis utentes legibus. E já pode ser (se o pensamento me não engana) que fosse este o intento de Deus naquela lei do cap. 137 . E a razão desta resistência. penetrando até as províncias de que então nem muitos anos depois houve notícia. honra e sujeição ao verdadeiro Deus que os Judeus adoravam. pela fé e conhecimento das cousas divinas que de sua conversação e doutrina (ainda sem particular estudo) se lhes pregavam. e fazer-se patrão e senhor do maior morgado do Mundo.. que era esse o nome de José no Egito: Vocabit eum lingua egyptiaca Salvatorem Mundi. orando ele apertadamente pela liberdade do povo. e o gênio indústria e inclinação tão particular que teve sempre esta nação ao comércio e mercancia. e os introduzir e misturar com todas as nações. e com tão pouco cabedal como uma escudela de lentilhas soube adquirir por indústria o que lhe tinha negado a natureza. se vê claramente quão grande fruto faziam com sua presença nas terras onde estavam cativos e desterrados. XXIII do Deuteronômio: Non fænerabis fratri tuo ad usuram [. X de suas visões). Cuidava Benjamim que só levava trigo no seu saco. onde os mesmos Hebreus estavam cativos. E aqui se entenderá o mistério com que um dos anjos custódios da nação hebréia. Desta inclinação dos Judeus se serviu a Providência divina para os levar suavemente às terras e regiões mais remotas. era o grande proveito espiritual que os gentios persas conseguiam com a presença e comunicação dos Judeus. as drogas do Céu entre as mercadorias da Terra. comprando e vendendo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro daquela vastíssima parte do Mundo. XVI do Livro de Estér. cheias todas de fé. O segundo foi no tempo de Nabucodonosor. E destes temos o testemunho da Sagrada Escritura no cap. em todas elas e em todas suas cidades estavam espalhados os Judeus. e nos fardos de mercadoria que levavam. como filhos alfim daquele pai que. ou desejo de adquirir riquezas. metia também a sua o Salvador do Mundo. conhecimento. para que esta maior liberdade ou impunidade de adquirir ou multiplicar fazenda fora de sua pátria os convidasse a sair dela e os arrebatasse voluntariamente às terras estranhas onde com eles se transplantasse a verdadeira fé. onde em nossos tempos depois de 2300 anos. que. Assim saíam de Judéia os mercadores. Nas quais palavras. cujus beneficio et patribus nostris et nobis regnum est traditum. com que mandou revogar a sentença de morte. se achavam judeus daquela transmigração com todos os sinais dela. e levados a Babilônia. Princeps autem regni Persarum restitit mihi viginti et uno diebus. sem uns nem outros o pretenderem. qual era Assuero ou Artaxerxes que firmou aquele edicto. e com eles a fé do verdadeiro Deus.. Nem se deve passar em silêncio a cobiça natural dos Judeus. que por malícia e vingança de um mau e soberbo privado — Aman — contra a mesma nação se tinha mandado executar. et usque hodie custoditur. in nulla penitus culpa reperimus. Nos autem (diz o edicto) a pessimo mortalium Judaeos neci destinatos. que falava com o Profeta Daniel (como se lê no cap.] sed alieno. como escreve o Padre Trigantio nas suas Relações da China. sendo aquele império dividido em 127 províncias. Não só entre a gente popular mas nos maiores ministros e príncipes. de que é bom exemplo a China. et filios altissimi et maximi semperque viventis Dei. lhe deu por causa da dilação daquele despacho a resistência que fizera por muitos dias diante de Deus o Anjo Custódio do reino dos Persas. como se vê nas palavras do edicto de El-Rei Assuero ou Artaxerxes. que professavam.

ou fosse a América. levavam a Fé de Cristo. diz que a nação hebréia tinha cheia toda a redondeza da Terra: orbem terrarum replevit. Quando os deuses de Tróia passaram a Itália. ou fosse Ofir a Índia.Anexo:Imprimir/ História do Futuro E que seria se a este título justificasse Deus as usuras que permitia aos Hebreus nas outras nações. os sacramentos. pérolas. prata. Anquises levava os deuses na mão. porque não teve quem o levasse.pela riqueza e opulência de suas minas Isto vinha buscar a cobiça. ou fosse. quando iam. porque era santa aquela terra. diamantes. quando não havia comércio. na Arábia e na Etiópia. e o comércio leva às costas os pregadores. Isto levaram as frotas celebradas del-Rei Salomão quando navegavam a terras de Ofir. Europa. como muitos querem. mediterraneas. E se estes dois autores. as verdades do Evangelho. a salvação. e aquilo vinha trazer a Providência. posto que tão alegados e seguidos de todos os que escrevem. a esperança do Céu. alias civitatis demereberis plurimas. De maneira que o comércio. Assim entravam os negociantes hebreus em Judéia ricos e acrescentados com as drogas mais preciosas de todo o Mundo. Os pregadores levam a Fé aos reinos estranhos. diz que a maior parte de todas as ilhas e terras firmes maritimas e mediterraneas da Asia. No edito que passou Assuero para que morressem todos os Judeus sujeitos às terras de seu Império. e o segundo Apóstolo do Oriente. depois que o comércio bateu a elas. os desterros e a estreiteza da terra própria foram as três ocasiões principais por que os Judeus se saíam e Deus os derramava por todas as terras e nações do Mundo. meter neles a Fé às costas do interesse. Se não houvesse mercadores que fossem buscar a umas e outras Índias os tesouros da terra. Africa. e assim deu princípio àquele admirável comércio em que depois. traçou que o pregador entrasse como negociante. a graça. S. que muito mais ricas iam do que voltavam. para que a Fé tivesse lugar como mercadoria. era urna droga que só se dava então naquela terra. sendo certo então o que depois vimos nas frotas das nossas Índias. rubis. e Eneias levava às costas a Anquises. se não era a terra de Israel. e o que principalmente levavam de Judéia para o mesmo Mundo. E em quantas províncias achou o Evangelho fechadas as portas e. querendo pregar na China. diz assim a Relação ou Relatório de suas 138 . da África e da Europa eram habitadas de Judeus: Itaque si exorat mea Patria tuam clementiam præpter ipsam. Asia. quando quer passar a religião de um reino a outros. mas sei que não é cousa nova em Deus. traziam ouro. maritimas. no Livro XI de suas Antiguidades. as teve abertas e francas? O primeiro rei de Portugal que se intitulou rei do comércio da Etiopia. Josefo. houve de caminhar (como é tradição) por cima das ondas. saiba que os mesmos testemunhos se leram nas Escrituras Sagradas ainda com palavras mais universais e de maior encarecimento. que era a Fé e conhecimento de Deus. insulares. império famosíssimo já naquela idade . Arábia. Pérsia e dia foi o que introduziu a Fé na Índia. como direitos ou gabelas daquela mercadoria? Não me atreverei a o afirmar assim. a nossa Espanha. sitas in diversis orbis tractibus. Tomé. que levou do Brasil à Índia o Evangelho. E Filo Hebreu. por serem da mesma nação. e o comércio leva os pregadores. Naaman Siro trouxe de Damasco as suas azêmolas com carga de ricos presentes para oferecer a Eliseu e levou-as carregadas de terra de Israel. quem havia de passar lá os pregadores que levam os do Céu? Os pregadores levam o Evangelho. tomando de nós o que tínhamos na Terra. na Pérsia. nos enriqueceu com o que trazia do Céu. parecerem a alguém suspeitosos e dignos de menos crédito. naquele memorial ou livro que intitula De Legatione ad Caium. Assim começou Deus a espalhar o conhecimento de sua Fé pelo Mundo. Quando voltavam.

qui novis uteretur legibus. e ali se tinham as pregações. as quais ele foi buscar a Jerusalém contra os Judeus de Damasco. mas se mostra também com a mesma clareza que os efeitos dessa dispersão era ser pública e notória a todas as nações e reis e a todo o gênero humano a nova lei e nova Fé diferente de todas as outras que os mesmos Judeus professavam. nas quais palavras se diz votada e expressamente que o povo hebreu naquele tempo estava espalhado por todo o Mundo:In toto orbe terrarum populum esse dispersum. mas eram umas casas grandes e públicas. E estas culpas assim relatadas que vêm a ser senão um testemunho público e autêntico de tudo o que imos provando? Porque não só consta delas estarem os Judeus espalhados por todo o Mundo. não se há-de entender que uma só sinagoga fosse dos Libertinos. se pode ser ainda mais notáveis: Erant autem in Hierusalem habitantes judaei viri religiosi ex omni natione quæ sub caelo: «Havia em Jerusalém (diz S. ainda que vivessem em outros reinos. que quando ultimamente foi destruída aquela cega cidade por Tito e Vespasiano. as quais sinagogas não eram propriamente igrejas como as nossas (porque o templo era um só e comum a todos. jussimas etc. senão que cada uma das comunidades dos Judeus pertencentes a estas províncias tinham a sua sinagoga própria. como refere Lorino. e que com a novidade de suas leis perturbavam a paz de todas as gentes e de todas as nações:omnium gentiam et universarum nationum. Cilicianos. et contra omnium gentium consuetudinem faciens. nostrisque jussionibus contraire. regnum jussa contemneret. e que desobedeciam os mandados dos reis e eram rebeldes contra todo o gênero humano: adversus omne genus humanum. assim e muito mais se observava o mesmo uso entre os Judeus. que era terra de gentios sujeitos a El-Rei Arctas. à qual estavam sujeitos todos os Judeus e professores da mesma Fé. quae appellatur libertínorum. como se conta no capítulo XVII dos Atos o fazia ou costumava fazer S. No I capítulo dos Atos dos Apóstolos temos outro testemunho sagrado igualmente universal e por termos. videntes unam gentem rebellem adversus omne hominum genus perversis uti legibus. et eorum qui erant a Cilicia et Asia. província.. como se vê das provisões de S. onde se ajuntavam principalmente aos sábados. E era tanto o número destas sinagogas em Jerusalém. os conselhos. gente por natureza tenacíssima dos seus costumes e ritos. et per sabbata tria disserebat eis de Scripturis. separada e particular. homens religiosos de todas as nações que cobre o céu. nem podia ser mais que um conforme a lei).» para cuja inteligência se deve supor que todos os hebreus que viviam longe de Judéia em diferentes nações. e sobretudo era a cabeça da Igreja da Lei Velha. et turbare subjectarum nobis provinciarum pacem atque concordiam. a universidade das letras. e ainda hospitais da mesma nação. E no capítulo VI do mesmo livro se faz expressa menção das sinagogas diferentes que dizíamos: Surrexuntur autem quidam de Synagoga.Anexo:Imprimir/ História do Futuro culpas: In toto orbe terrarum populum esse dispersum. se acharam nela. Era Jerusalém naquele tempo (e muito mais antes daquele tempo) a corte dos rei. como advertiu S. et universarum concordiam natonum sua dissensione violaret. as disputas. Cirenenses. mas no qual texto. Paulo. reinos ou cidades populosas tinham em Jerusalém suas sinagogas particulares e distintas. Paulo: Secundum consuetudinem autem Paulus introivit ad eos. reino corte ou povo notáve1 onde houvesse tanto número de Judeus que só ó que deles assistiam em 139 . e assim como todos os reinos e repúblicas da Cristandade têm seus embaixadores. o assento dos tribunais. Asiáticos e Alexandrinos. quatrocentas e oitenta sinagogas. Lucas) muitos judeus moradores da mesma cidade. et Cirenensium et Alexandrinorum. cada uma de diferente nação. como hoje é Roma da Nova. e todas as outras conferências das cousas espirituais ou eclesiásticas. Quod cum didicissemus. Crisóstomo e outros Doutores. agentes requerentes e igrejas particulares em Roma.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro Jerusalém pudessem formar corpo e comunidade distinta. nem faltavam em diversas partes do Mundo padrões desta mesma verdade. «Cercais o mar e a terra para converter um gentio à Fé. e não só pelo trato. Destes altares havia outros. comunicação e exemplo. porém. os Gentios. ensinai-lhes tais doutrinas que o fazeis mais filho do Inferno do que vós sois. Mas nesta mesma incerteza com que falou no Deus criador do Mundo. se não por zelo e cuidado particular da Religião. com que. Paulo achou em Atenas. ensinados pelos Judeus. na Arábia. isto é. vós seis um Deus escondido. ut faciatis unum proselytum: et cum fuerit factus.» Na qual sentença de Cristo se vê principalmente como os Judeus rodeavam mar e terra. Tal era aquele altar que S. na nossa Espanha e em outras províncias nobres da Ásia e da Europa. os quais com desejo de aumentar a sua religião e o culto do verdadeiro Deus. vindo a tratar do nome de Deus. como dizíamos. E estes eram aqueles a quem S. aludindo a esta proibição: «Verdadeiramente. Desta verdade temos em prova (que não é só suspeita ou conjectura nossa) o testemunho e autoridade do mesmo Cristo no capítulo XXIII de S. Porque os deuses dos Gentios eram conhecidos pelos seus nomes particulares de Júpiter. e por isso se chamava Inefável. repreendendo a hipocrisia dos escribas e fariseus. levantados entre as gentes mais políticas e celebradas da Gentilidade. passou-o em silêncio e disse que lhe não era lícito pronunciá-lo: De quo mihi dicere non est fas. dizendo-o só absoluta e incertamente: Quisquis fuit ille deorum «quem quer que foi o Deus» que o criou. nas Gálias. e juntamente se prova que com estas suas peregrinações e navegações levavam pelo mesmo Mundo a Fé do verdadeiro Deus. este poeta declarou ser ele o Deus que adoravam os Judeus. nome que se não podia falar nem dizer. mas Deus que escondido e desconhecido salvais. e que estes monumentos de Religião e este conhecimento de Deus não conhecido se tivesse derivado aos Gentios da doutrina e trato com os Judeus. posto que depois a viciavam os escribas e fariseus do tempo de Cristo com a má doutrina e exemplo que lhes ensinavam. era o verdadeiro Deus. no Livro II de suas Antiguidades. porque 140 . no Sermão de dia de Pentecoste. peregrinavam e navegavam por todas as terras e mares do Mundo. porque lhes estava proibido tomarem na boca o nome de Deus. como escreve o Cardeal Barónio. Vere tu es Deus abconditus. com o mesmo título de não conhecido. e este foi o mistério daquela erudita ignorância. chamou judeus de longe: Vobis enim est repromisio et filiis vestris et omnibus qui longe sunt Vivendo pois os Judeus tão misturados e travados com todas as nações dos gentios. ao qual os Gentios chamavam Deus incerto. criador do Céu e da Terra. senão também por indústria e estudo particular de alguns judeus mais zelosos. o conhecimento da Fé de Deus e esperança de Cristo. que este Deus desconhecido a quem não sabiam o nome era o Deus que criara todas as cousas. não o nomeou nem determinou o Deus que o criara. diz assim: circuitis mare et aridam. e o davam a conhecer aos Gentios. Conheciam. isto é. Marte. Senhor. dos quais convertiam alguns.» E Josefo. como logo lhes declarou o mesmo Apóstolo. Pedro. mas o Deus dos Judeus não era conhecido de nome. Daqui se tira o novo e eficaz argumento de quão espalhados e multiplicados estavam os Judeus por todas as partes do Mundo. Saturno. provam-no agudamente alguns autores. descrevendo Ovídio a criação do Mundo. e depois que está convertido. Mateus. onde. e finalmente que Não se fazia isto acaso e por ocasião do trato. desta companhia se lhes pegara. Deus absconditus et Salvator — dizia Isaías a Deus. ensinavam e afeiçoavam a ela os gentios. facitis eum filium gehennæ duplo quam vos. consagrado ao Deus não conhecido — Ignoto Deo — o qual Deus não conhecido.

fuere septuaginta. que foram setenta e dois estes novos precursores e embaixadores de Cristo. Constituit terminos populorum juxta numerum filiorum Israel. senão quando a primeira vez se ajuntaram com os Gentios? O mistério e razão desta providência foi sem dúvida porque tinha Deus destinado aos Judeus para mestres da Fé dos Gentios naquela primeira Igreja. E a nova e promessa de que o Messias havia de vir é explicação admirável de outros setenta e dois intérpretes da divina palavra. chamando aos Judeus os adoradores de Deus incerto: Cultrix incerti Judæa Dei. por serem outras tantas (como dizíamos) as nações do Mundo. E estes foram os primeiros rudimentos da Fé que os Judeus semearam entre os Gentios. Jerônimo. chamando neste lugar aos filhos de Israel anjos ou embaixadores de Deus. por meio da sua pregação e doutrina. os quais também concordam em que as línguas e nações em que Deus dividiu os homens (como se colhe do capítulo X do Gênesis. ·os quais consta do capítulo X do mesmo livro e do capítulo XLVIII dos Gênesis. que mandou diante de si: . E para que concluamos este discurso com uma advertência em tal matéria digna de muito reparo. no capítulo XXXII do Deuteronômio diz Moisés que. Lucas no capítulo X. que entraram no Egito. que são os Hebreus. porque eles eram os que haviam de levar e semear entre todas elas o conhecimento do verdadeiro Deus. no princípio da Lei Escrita. se se tirarem a hebréia e egípcia. Temos a confirmação deste pensamento na mesma Providência Divina. para que levassem por todo ele o conhecimento de Deus e a nova de que o Messias era já vindo. Tratou Cristo de dispor a pregação do Evangelho e conversão do Mundo. com o de todas as outras nações e gentes do mesmo Mundo. queria trazer (como trouxe) ao conhecimento da Fé. introduzindo-se o verdadeiro Deus nas outras nações e andando nelas como disfarçado. assim como Cristo. 141 . igualou o número dos seus discípulos ao das nações e gentes do Mundo. na confusão da Torre de Babel. respondendo a cada um deles uma nação: Quando dividebut Altissimus gentes. E era conveniente e necessário para este soberano fim que fossem tantos os mestres quantas eram as nações. quo erat ipse venturus. quando Deus. que sempre é semelhante a si mesma em casos semelhantes. in omnem civitatem et locum. também poeta latino e gentio. Assim o disse Claudiano.designavit Dominus et alios septuginta duos et misit illos binos ante faciem suam. quando separabat filios Adam. conhecido debaixo do nome de incógnito. No qual número alude Moisés aos filhos de Israel. em correspondência também dos doze filhos de Jacob e dos doze tribos de Israel. fez aquela divisão conforme o número dos filhos de Israel. em que se referem as famílias dos descendentes de Noé) foram setenta e duas. como escreve S. Destas. quae ingressæ sunt in AEgyptum. De maneira que. assim Deus. e crido com o sobrenome de incerto. que já estavam unidas e se comunicavam. depois de nomeados os doze Apóstolos. Agora pergunto: E que mistério ou que intento teve a Providência Divina em igualar o número de todas as nações ao dos primeiros hebreus e não em outro tempo ou ocasião. e com ele a sentença comum dos intérpretes. dividiu a todos os filhos de Adão em diversas nações e línguas. elegeu sinaladamente setenta e dois. ficam pontualmente setenta. os quais.Anexo:Imprimir/ História do Futuro não tinha nome particular com que fosse conhecido e se distinguisse dos outros deuses. e. no princípio da Lei da Graça. E se buscarmos nos expositores sagrados o mistério e proporção deste número. responde S. Assim entendem este lugar todos os Padres e intérpretes. que foram setenta almas: Omnes animæ domus Jacob. em lugar de — juxta numerum filiorum Israel — tresladaram — juxta numerum Angelorum Dei »— .. porque esse era o fim e ofício para que foram destinados a todas as nações e tomados e repartidos conforme o número delas.. E dois discípulos. mediu o número dos filhos de Israel. que o Senhor.

e os vossos mesmos deuses (e não digo nisto mais senão menos) os vossos templos. gentes etiam plurasque et urbes insignes. os vossos sacrifícios. para que. de Moisés. e ainda as mesmas cidades e algumas das gentes. ipsa templa. tendo sempre que entender. inquam. Quem quiser saber facilmente quão estudadas eram dos Gentios as Escrituras. ordines. os Gabaonitas. E não havia antes de Cristo província conhecida ou cidade de grande nome no Mundo. Até aqui Tertuliano. achariam facilmente que não só foram escritas pela lei e observância dos Hebreus. os Romanos. dos seus historiadores e ainda dos seus poetas. Tempore nostrorum prophetarum (diz S. et inde etiam nostri. O primeiro livro que viu o Mundo foi o Pentateuco. os Moabitas. os Amorreus. de cujos sucessos se não achasse alguma memória no 142 . os Filisteus. quando as deixou pela suavidade de Túlio. a que outro fim se faz neles tão freqüente memória de todas as outras nações do Mundo e seus sucessos? Assim temos os Cananeus. os Sidónios. Deos vestros. os Gregos. e não faltam grandes conjecturas para se crer que Moisés foi aquele prodigioso Mercúrio a quem os Antigos celebraram com o nome de Trimegisto. tudo vencem em muitos séculos de Antigüidade os livros de nossas profecias. as histórias das gentes e das cidades insignes.. os Persas. historiarum causas et memoriarum . elas o entretenimento dos curiosos. Este livro foi o que fez aos Caldeus mestres da Ásia. sendo um só o Povo de Deus. e tudo foi tomado do tesouro das escrituras judaicas. assim os Assírios. os Medos. que são entre todos quase os últimos. et (puto adhuc minus dicimus) ipsos. Esse foi um dos mistérios de Deus. que assim lhe chamou Aristóteles. venas veterani cujusque styli vestri. et oracula. os dos Profetas. Deste rústico. os Eveus. porque. os Amalecitas. que são também as nossas: Omnes itaque substâncias omnesque materias. Com razão chamou Clemente Alexandrino a Platão o Moisés de Atenas — Moyses Atlicus — porque de Moisés foram tirados todos aqueles lumes que deram a Platão em suas obras nome de divino. E como só estes livros havia no Mundo. que tudo governa. e os autores que escreveram aqueles livros todos do mesmo Povo. os Caldeus. Aos livros de Moisés se seguiram os outros sagrados. delas imitaram e sobre elas fingiram. foram as Escrituras Sagradas. «Tudo o que compôs o estilo dos vossos escritores — dizia Tertuliano aos Gentios — a substância. os Amonitas. para que mais se estendessem por toda a parte e fossem mais celebradas suas notícias. Não lhes podia suceder então às Escrituras divinas o que depois lhes aconteceu com Jerônimo. dispondo-o assim a Providência. os Macedônios. Agostinho) philosophi gentium nondum erant. os Eteus. se os versados nas divinas Escrituras considerassem diligentemente a matéria delas e a traça e harmonia com que foram ditadas pelo Espírito Santo. É certo que.. só estes se liam em todo ele. a ordem. sæculis vincit. origines. a matéria. Elas só eram o estudo dos sábios. elas o desvelo dos entendidos. a origem. porque ainda não tinha gostado sua doçura. leia com atenção os livros dos seus filósofos. os vossos oráculos. os Egípcios.Anexo:Imprimir/ História do Futuro O terceiro meio de providência particular com que pôde chegar facilmente e chegou naquele tempo aos Gentios o conhecimento da fé e esperança de Cristo. os Etíopes. os Jebuseus. os Fereses. as causas e memórias do que escreveram e até a forma das letras e imagens dos caracteres. verá quanto as não largavam das mãos. e verá o que delas tomaram. tomou este soberbo e ingrato filósofo a sabedoria mais sublime que o fez o maior da Grécia. os Tírios. senão também para lição e estudo de todas as outras nações. assim os Ismaelitas. Sírios. fossem uma e muitas vezes lidas. in quo videtur thesaurus collocatus totius Judaici Sacramenti. os Madianitas. ainda vencem em Antigüidade os mais antigos filósofos e escritores gentios. et sacra unius interim prophetae scrinium. ipsas denique effigies literarum indices custodesque rerum. em as fazer escuras. aos Egípcios da África e aos Gregos da Europa.

um Enoc desaparecido . como dos futuros nas profecias. Que disse a Gentilidade da cítara de Orfeu. E que nação destas haveria que não lesse com grande atenção e cuidado os oráculos daquele famoso profeta. também ouvidas da Lua. as rodas e os cavalos tudo de fogo? Que semelhança tiveram aquelas máquinas que se levantaram com nome de maravilhas do Mundo com a portentosa grandeza das que lemos nas Escrituras? Que estátua como a de Nabuco. mas dos fingidos e fabulosos. que palácio encantado como o templo de Salomão. nem arrimaram escadas ao céu. Qual poeta se impôs ou traçou jamais uma comédia como a de Job. que se iguale com a harpa de David. chamadas cada urna por seu nome a ouvir a sentença e a saber da boca de Deus o que lhe estava por vir. parava os rios. mas só em nove capítulos de Isaías lemos sinaladamente as profecias de onze nações diferentes. que coluna como a do Deserto. já dissemos que se chamava coluna. serem só eles os que revelaram e descobriram o Mundo o segredo de seu primeiro princípio. a origem das línguas. tão ignorado entre todos os sábios. um Datão e Abiron tragados da terra. assim dos passados nas histórias. que não exceda uma só voz de Josué. a ordem e cronologia dos tempos. o carro. onde estavam conhecendo seus nomes e lendo as fortunas? Bastava só para mover a curiosidade universal de todas as gentes à lição dos livros Sagrados. que igualem em grandeza e variedade de casos admiráveis a menor parte ou sombra do que se refere nas histórias sagradas? Narraverunt mihi iniqui fabulationes. sem pôr monte sobre monte. obedecida da Lua e do mesmo Sol? O caduceu tão celebrado do seu Mercúrio que comparação teve com os poderes da vara de Moisés. a da mulher de Lot em estátua. que falou universalmente de todos os maiores impérios. de que fugira o Inferno? Que disse das respostas duvidosas do seu Apolo.de repente. Que se podia inventar de maior pasmo aos ouvidos. do que tudo houvera perpétua ignorância nos homens. Que gigantes fabulosos filhos da terra se atreveram a edificar uma torre como a de Babel. que ouvir falar um jumento com Balaão e uma serpente com Eva? Que se podia 143 . mas não tiveram fantasia para meter todo o Mundo em uma arca. que livros se escreveram jamais. só do que leva o apetite e não do que move a razão. nem confiança para o salvar nela. edificado de seus fundamentos sem nele se ouvir o golpe de martelo? Um pavilhão que de dia cobria do sol seiscentas mil famílias. que se pareça com os oráculos sempre certos do propiciatório? Que disse das vozes de Eudimião. que jardins como os de Assuero. não digo dos que professam verdade. fazia caminhar os montes? Onde se lê tal agravo de onipotência como no tenente daquela vara em quem foi culpa tirar fontes de um penhasco com dois golpes. e depois de serpente convertida outra vez em vara? Descreveram as fábulas o dilúvio. se não estivera revelado nas Escrituras. sed non ut lex tua. porque o podia fazer com uma palavra? Não digo nada dos documentas da Escritura.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Testamento Velho. e mais ainda não tinha sido o que depois dele se escreveu. porquanto trato do doce e não do útil. que dividia os mares. o nascimento das nações. Mas quando nenhum destes tesouros houvera depositado e encerrado nelas. como a de Jacob? Que metamorfoses ou transformações fingiram como a de Nabucodonosor. a da vara de Moisés em serpente. convertido em bruto. que carroça como a de Ezequiel. dizia Daniel. Não falo já de Daniel. a divisão das terras. comendo serpentes. uma tocha que de noite as alumiava. e um Elias voando pelos ares em um carro de quatro cavalos. uma novela ou enredo como a de José? Em que teatro dos Gentios se representaram aparências de tanto artifício como um paraíso terreal sumido no meio do Mundo. falando somente do que pertence à história. uma tragédia como a de Aman.

quebrou com as mãos os ferrolhos e lançou às costas as portas. se não fugiram todos? Teve sede Sansão. aquele que. em que um só capitão com um só soldado. lançou a mão direita e esquerda a duas colunas. que comer em uma iguaria todos os banquetes e gostar em um só maná todos os sabores? Que se podia imaginar de maior suspensão e assombro à vista. Fique à trombeta da fama Josué. que. a dos meninos de Babilônia tomando fresco na fornalha. tomando posto nos braços da Princesa do Egito. arrancando um dente da mesma queixada. com uma funda e um cajado contra o gigante coberto de ferro? Que batalha como a de Gedeão. se mortalmente oprimido do peso de tamanha vitória. e ver dali a três dias surgir a baleia. aquele que. em que degolou de um golpe todo aquele seu exército? Mas passando nós a encontros de maiores forças em que pelejaram os braços e não a indústria. e. derrubados com os instrumentos dos músicos do templo! Que emboscada como a de Abimelec em que os bosques e as sombras caminhavam juntamente e os soldados com eles? Que vitória como a de Jónatas. que Hércules Tebano como Sansão. atado sete vezes. e deixou semeando com seus corpos o campo que andava lavrando. sepultou debaixo dele todos os idólatras. em campo aberto. mil de seus inimigos e ainda matara mais. primeiro foi matador de sua sepultura. Segundo Sansão. a de Daniel comendo e não comido no lago dos leões. já entregue à fúria do Nilo na barquinha ou naufrágio de vimes. porque dedicou todos a Deus. de uma só rompeu as cordas e nervos como se foram teias de aranha. mas lavrador que. cansado de matar. só com trombetas e luzes em cântaros de barro? Que bateria como a dos muros de Jericó. encomendado com maior ventura à própria mãe para que o criassem a seus peitos? Que maravilha como a da sarça verde e sem arder no meio das chamas. desembarcá-lo a fera vivo nas praias de Nínive? Como estes são os prodígios que se encontram a cada página nos Livros Sagrados. metendo-se intrepidamente com a espada debaixo de um elefante armado. vencedor de trinta e um reis. aquele que. matou. Assim obedecem os elementos a quem assim triunfa dos homens. o sangue e o estrondo das armas. e de entre a lenha e a espada escapando vivo? Que caso tão bem tecido como o de Moisés infante. aquele que. fazendo montante do arado. Paremos no valente Eleásaro. Mas que direi das façanhas e cavalarias que. levado ao templo dos Filistinos. e tão venturoso como o de Isaac posto já sobre o altar. Mas deixando a guerra. restaurador vítima da sua pátria. desde seu nascimento. ainda conhecidas por falsas. e juiz depois de lavrador. foi Sangar capitão do mesmo povo depois de juiz. matou com ele em um dia seiscentos filisteus. e o fortíssimo Macabeu. quando entrou pelas portas de Betúlia com a cabeça de Olofernes. deleitam e suspendem tanto a curiosidade dos homens? Que desafio como o de David. pôs em fugida e desbarato o exército inumerável dos Filisteus? Que triunfo como o da galharda Judite.Anexo:Imprimir/ História do Futuro fingir de maior lisonja e admiração ao gosto. fez brotar dela uma fonte. ver levá-lo consigo ao fundo e desaparecer. que história tão admirável como a da casta Susana? Que sacrifício tão lastimoso como o da filha de Jepta. Todas estas forças tinha este bizarro mancebo em sete cabelos. dando com o templo em terra. e a da serpente do Deserto dando vida aos mordidos só com olharem para ela? Que prudência como a de Salomão em mandar partir o menino para conhecer a mãe verdadeira? Que engenho como o 144 . com uma queixada de um jumento. que ver o monstro marinho engolir a Jonas. preso dentro da cidade de Gaza. e depois ficou ali não sei se diga morto.

para mostrar de dia nas pegadas dos sacerdotes e seus filhos que eles e não o ídolo eram os que comiam as ofertas? Que subtilezas de Estado tão bem entendidas como as dos Livros dos Reis. todos estes catorze salmos têm por principal assunto o Império do Messias. o Salmo IX. no estilo e disposição das escrituras do Testamento Velho (tão diversas nesta parte das do Testamento Novo) temperando a alteza e majestade de seus mistérios com o sabor de tantas verdades gostosas e com a variedade de tantas maravilhas tão novas e tão notáveis. que não visse e conhecesse que era prometido naquelas palavras um Rei futuro. 145 . e fora matéria imensa de prosseguir e impossível de compreender querer levar por diante os princípios deste não intentado discurso. o 65 e o 66 de Isaías. e muitos outros de todos os Profetas. XCVI. O Salmo II. de uma só ou algumas nações. em que o Reino universal daquele futuro Monarca está expresso e declarado com palavras tão vulgares e tão significativas. o Salmo XLV. como ele era a quem tão de perto tocava aquela felicidade e a quem particularmente estava prometida. Três partes da Escritura. e como este foi o altíssimo conselho da Providência Divina. o 53. aprendessem por eles a Fé de Deus e juntamente as esperanças de Cristo. o 35. E quão impossível cousa seja poderem ler os Gentios as Escrituras Sagradas. para que. disse Cristo aos discípulos que falavam mais particularmente na sua vinda ao Mundo: os Profetas. senão de todas as gentes e reinos do Universo? E quando todas as outras profecias tivessem alguma escuridade que eles não pudessem entender ou interpretar por si mesmos. o II. tudo raro. o Salmo XLI. e não Rei como os que costumava ver no Mundo. como dissemos. é cousa maravilhosa a freqüência com que está repetido. o 9.Anexo:Imprimir/ História do Futuro de Jacob em meter as cores pelos olhos das mães. foram ordenadas à vinda de Cristo. mais aludidos que contados. de Etiópia (se bem havia muitos hebreus. sem beberem daquelas fontes esta esperança. o 54. Bastem estes poucos exemplos. a clareza com que está apregoado e a pompa e majestade de palavras com que está engrandecido o Reino de Cristo. os dois textos de Daniel. que homem os podia ler com juízo e entendimento. por bárbaro e ignorante que fosse. entre os Gentios. o Salmo XCII. o Salmo CII. tudo maravilhoso. Nos Salmos de David. e com termos que Não admitem outro sentido nem interpretação. 2. a quem estes podiam perguntar a interpretação quando quisessem) o cap. XLVI e XLVII. convidados com o cevo da curiosidade os que ainda não deviam àqueles livros outros melhores respeitos. LXVII e LXXXVIII. que. que como as de David com Saul e as de Cusai com Aquitofel? Tudo nas divinas Escrituras é divino. o Salmo LVIII. que não fizesse conceito do que diziam? Mas basta ao nosso intento que o fizessem os doutos e os entendidos. E deixando à parte os lugares mais escuros (que esses não os entendiam os Gentios sem intérprete) como se viu no eunuco da rainha Cândaces. e de Cristo em quanto Rei e Senhor do Mundo. o 52. fundamentais desta nossa História. os Salmos e os livros de Moisés: Necesse est impleri omnia quae scripta sunt in lege Moysi et prophetis et psalmis de me. ainda que fosse sem fé. XCVII. para que deles possa entender o leitor (que é o que só lhe pretendemos persuadir) quão fraca seria a todas as nações dos Gentios a lição dos Livros Sagrados quando chegassem a suas mãos. vê-se clara e naturalmente da matéria das mesmas Escrituras. XCV. apenas se acha cláusula em muitas delas que não esteja anunciando esta vinda e este Reino. que gentio havia de haver. para pintar os cordeiros antes de nascerem? Que indústria como a de Daniel em semear de noite o templo de cinza. como todas.

os dos Salmos e os dos Profetas. A qual promessa tornou Deus a ratifica quarta e quinta vez em Isaac.Anexo:Imprimir/ História do Futuro E porque não duvidassem os Gentios que eles. neto do mesmo Abraão.. eram as que haviam de ser sujeitas a este grande Império. podia ler estes textos ou ouvir estes pregões tão expressos e declarados do domínio daquele futuro Rei sobre todos os Reis e nações do Mundo. se não cresse aquela Fé. em prêmio da resolução e obediência com que Abraão não duvidou de sacrificar seu filho. e no capítulo XVIII torna a referir Deus esta mesma promessa: . digo. sempre pelas mesmas palavras. e em Jacob. e foi insigne profeta de Cristo. os livros de Moisés (que era a 3. com que as nações gentílicas puderam conhecer. idumeu de nação. porque o faremos muitas vezes. não só têm por ocasião da mesma história muitas profecias e promessas desta esperança. Seja o primeiro exemplo desta luz aquele grande varão mais conhecido pelo testemunho da paciência que pelo lume da profecia. Era Job verdadeiramente gentio. natural da terra de Hus. a quem conheceu por universal Redentor: Et scio quod Redemptor mous 146 . lhe promete Deus terceira vez a mesma bênção. No capítulo XII. foram muitas revelações particulares daquele mistério com que Deus em diferentes tempos alumiou por si mesmo a vários homens e mulheres de toda a Gentilidade. Job. ao menos não conhecesse aquela esperança? Deixo de ponderar mais lugares de David. posto que sejam principalmente históricos e não proféticos. vinte nove vezes lhes repete e inculca o mesmo Daniel esta gloriosa sujeição. e em Jacob. filho. donec veniat qui mittendus est. lendo os Gentios como liam as Escrituras. finalmente. com declaração que não seria na sua pessoa. e no Salmo XCVIII: Dominus in Sion magnus.a alegação de Cristo). et excelsus super omnes populos. a primeira vez que Deus apareceu a Abraão e o mandou sair da pátria. e não por termos enigmáticos ou metafísicos. Que gentio podia haver tão rude. De sorte que em um só livro de Moisés tinham os Gentios seis profecias claras e que claramente falavam com eles. que gentio. que era o esperado Rei e Messias do Mundo. Finalmente. etenim correxit orbem terrae. e no Salmo XXI: Adorabunt in conspectu ejus universæ familiæ gentium. e no Salmo LXXI: Adorabunt eum omes reges terræ.cum benedicendae sint in illo omnes nationes terræ. do Gênesis. O quarto e último meio e mais imediato da Providência Divina. que. nas quais se lhes prometia por boca de Deus que seriam abendiçoadas em um homem da descendência de Abraão. quoniam Domini est regnum. as suas terras e as suas coroas.. o prometido Messias. et ipse erit expectatio gentium. e no Salmo XCV: [Dicite] in gentibus quia Dominus regnavit. Assim que. que todos o desejassem e esperassem todos. falando com eles nomeadamente. tão alheio do lume da razão e tão gentio. no capítulo XLIX do mesmo livro dos Gênesis está o famoso texto já referido um dos dois em que fundamos todo este discurso: Non auferetur sceptrum de Juda. que não podiam deixar de ser lidas deles com grande advertência e recebidos com grande aplauso. Em Isaac no capítulo XXVI: Benedicertur in semsa tuo omnes gentes terræ. mas tão dirigidas e encaminhadas todas as nações. não podiam deixar de vir em conhecimento. que lendo no Salmo II: Dabo tibi gentes hæreditatem tuam et possessionem tuam ter minos terræ. e tal conhecimento de Cristo. e no capítulo XXII. omnes gentes servient ei. senão clara e distintamente pelo seu próprio nome de Gentios. no capítulo XXVIII: Benedicentur in semine tuo cuntae tribus terræ. e particularmente os livros de Moisés. senão na de um seu descendente: Benedicentur in semine tuo omnes gentes terrae. e com efeito conheceram. lhe prometeu que seriam abendiçoadas nele todas as nações da terra: In te benedicentur universæ cognationes terræ. nomeadamente dos mesmos Gentios. em toda esta História.

senão mau gentio.» As quais palavras foram sempre entendidas. sicut Israeli per prophetas. suum votum et totam illam futuram seriem praesertim ad salatem mortalium spectantem. este gentio. e muito famosa. respondo que em muitas cousas particulares. olharei para ele. que em tempos futuros havia de imperar no Mundo e havia de sujeitar a seu domínio todas as nações dele. porque. et in carne mea videbo Deum meum. (o qual não duvidou de se chamar a si mesmo auditor sermonum Dei. ita gentibus per Sibyllas ostendere voluisse per idem numen fatidicum. sed non prope: orietur stella ex Jacob. si revelante Deo praenuntiare potuit. et consurget virga de Israel. e em quem esperou ver a Deus vestido de carne: In carne mea videbo deum meum. illum. qui novit doctrinam Altissimi et visionem Omnipotentis vidit) profetizou claramente de Cristo e de seu império naquele texto. nascerá a estrela de Jacob. quod de illo tempore prophetavit quia Christi deitas habitum nostrae carnis induta est. de um Rei descendente da casa de Jacob.. a memória desta profecia. como pelos Gentios. Máximo: Nemo [. vencerá todos os capitães dos Gentios e sujeitará todas as nações do Mundo. puderam argüir do aparecimento da nova estrela o nascimento do novo Rei: . Quer dizer: «Vê-lo-ei.tão celebrado no capítulo XXIV dos Números: Videbo eum. trazia sempre guardada no seio: Reposita est haec spes mea in sinu meo». por ser muito célebre entre eles a notícia deste oráculo. assim como os Hebreus tiveram os seus Profetas. e quão pública seria entre eles a esperança de Cristo Balaão (cujo espírito profético é tão vulgar que não tem necessidade de provas) não só foi gentio. e também alumiados da mesma fé e confirmados na mesma esperança. Leão Papa). Similiter et Job—diz Santo Agostinho— eximius prophetarum.] miretur netivitatem dominicam agnovise Chaldaeos quam utique. sed non modo. falaram com termos de 147 . conforme a ordem e disposição eterna de sua providência. Dele diz S.. e esta esperança. e levantar-se-á o ceptro de Israel. Das Sibilas (profetizas também da Gentilidade) diz assim Xisto Betuleu. pela qual memória ou notícia (diz o mesmo santo) informados os Reis Magos. vastabitque omnes filios Seth. mas não de perto. mas não agora. principalmente aqueles que para a salvação universal do Mundo eram necessários. já se vê quão ensinados teriam nela a todos seus vassalos. Os amigos de Job também eram gentios de outras províncias vizinhas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro vivit. ou difamada (como diz S. potuit Gentilis agnoscere. assim pelos Hebreus. como ele diz. intuebo. ou aos Gentios pelas Sibilas. principalmente das que pertencem a Cristo. nas Anotações que fez sobre o original grego dos oráculos sibilinos: Sic prarsus sentio Deum totius universitatis opificem et administrum aeternum. Este Balaão.. E se alguém perguntar curiosamente a quem e por cu]a boca falou Deus mais claramente. de que se ve facilmente quão notória era no Mundo e quão pública entre os Gentios esta esperança. por cujo meio a uns e outros fossem manifestos os conselhos divinos. tivessem também os Gentios os seus. e como todos fossem reis e senhores de suas terras (assim lhes chama o Texto Sagrado no capítulo I de Tobias) com aquela suprema autoridade e com o conhecimento e sabedoria que tinham do Céu .. Notem-se bem estas últimas palavras. E digo que não só os Hebreus entendiam assim este lugar. mas também os Gentios. Quer dizer este autor (e o confirma com o que disseram das Sibilas Lactanio Firmiano e S. como consta da mesma história e do que eles disseram nela. et percutiet duces Moab. se aos Hebreus pelos Profetas. Agostinho) que comunicou Deus o espírito de profecia a estas famosas mulheres.ad intelligendam miraculum signi potuerunt Magi etiam de antiquis Baluam praenuntiationibus commoveri scientes alim esse praedictum et celebri memoria diffamatam.

tão galante é a frase com que o Santo declara o mal falado e mal medido daqueles versos. Horrida terra vias caeli spinceque tenebunt. propriedade que falta em muitas outras versões latinas. antes quão impossível cousa era lerem eles. os quais copia este naquele lugar. formando ao menos um conceito comum. e conceito de um Rei e de um Império futuro. De muitos lugares e exemplos que pudera trazer desta diferença. cap. Diz que nasceria este Rei e daria princípio a seu Império quando Roma dominasse e governasse o Egito. gazamque retostam. XXIII. A de João Bongro. e acabou de dominar o Império Romano. omnem. Depois diz que o Procônsul Flaviano lhe mostrou outros mais conformes às leis da gramática e da poesia. a soberania de seu supremo poder e a Monarquia Universal de seu Reino sobre todos os cetros e coroas do Mundo. até o nascimento de Cristo. nome ou inscrição particular. Ille domus caecas et Ditis claustra refringet. cujo artifício é lerem-se pelas primeiras letras. Unum suscipient numen pravique bonique Summum. compreendeu e cumpriu felizmente com todas estas dificuldades. No fim do Livro II diz a Sibila Eritrea estes versos: Sed postquam Roma AEgyptum reget imperioque Fraenabit. servator Crux Jesus Cristo. porque não guardam a ordem das letras iniciais. para que se veja quão fácil era aos Gentios o conhecimento de Cristo pelos livros ou oráculos das Sibilas. Rejicient simulacta viri. como consta da. porei somente aqui dois. são trinta e cinco e a sentença é esta: Jesus Christus. debaixo do qual se havia de renovar e restaurar o Mundo. S. e formar-se com elas alguma sentença. sem tomar outra licença mais que a de desatar a última letra em duas. 148 . no Livro XVIII De Civitate Dei. em que venceu a Marco António e Cleópatra no Egito. qui totius orbis Omnia sceculorum per tempora sceptra tenebit. É a seguinte: Judicii metuet sudans presagia tellus Et Rex ceternus magno descendet Olympo Sublimis carnem mundumque ut judicet. como se pode ver facilmente de uns e outros livros. summi tum summa potentia regni Regis inextincti mortalibus exorietur. pois.. Os versos. Rex etenim sanctus veniet. Não se podia descrever com maior clareza o tempo e circunstâncias do nascimento de Cristo. Filho de Deus. e que se não podiam ter em pé: Versibus male latinis et non stantibus. e nós deixamos de os pôr aqui. Estes versos estão em toda a sua propriedade no texto grego. as últimas relíquias de poder em que se conservava o Grego não passaram mais que doze anos. traduzida por Xisto Betuleu. supremo cum Sanctis tempore mundi. e não se poderão traduzir na língua latina com o motivo daquelas letras sem alguma variedade.. como liam. porque depois da vitória de Augusto César. Salvador cruz. aqueles livros. Agostinho. e fazer de um X. (lacuna do original) No Livro VIII (que é o último) tem a mesma Sibila outros versos mais notáveis do gênero daqueles que os Gregos chamaram acrósticos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro maior clareza as Sibilas do que os Profetas. Carnifer ille homines judex inquiret in omnes. C e S. diz que a primeira versão que chegou a suas mãos deste acróstico era em versos mal latinos. e assim foi. e não terem notícia da Messias e da esperança e promessa de sua vinda. Dei filius.

vaga lympha Solis arescet ripis. Atque Dei solio sistetur judicis omnis Turba ducum regumque. scelerosos flamma piabit Ultrix bertetuum: mala quae quicumque patravit Sontica suppressitque diu. Velivago nulli cernentur in aequore nautae. Vastam terra chaos stygio monstrabit hiatu. em suma. Luxus sublimis mortales deseret oras. O mistério da encarnação está com tanta e maior clareza no Livro I dos mesmos oráculos das Sibilas: Tunc ad mortales veniet. Não falou com palavras mais claras S. O sentido dos versos. majestade e horror que pertencem ao aparato e execução do juízo. Insurgent valles. que morreu cinquenta anos antes do nascimento de Cristo. E mais abaixo se lê a pregação do Baptista. quae clamet ad omnes 149 . consident ardua montis. Rore bonos lustrans bisseni fontis ab unda: Virgaque qua pecori dat ferrea jura magister Carminis auspiciis qui crimina morte piabit Servator Rex arternus Deus ipse patescit. Immensos colles aequabunt marmora campi. mortalibus ipsis In terris similis. Ipsum deficiet solis decus astra colore Fusco obducentur. Paulo. com todas as circunstâncias de grandeza.Mundo. no livro II De Divinatione. é a vinda de Cristo a julgar o . Destes mesmos versos faz menção Eusébio Cesariense na Vida de Constantino Magno. Erumnae et stridor dentis regnabit ubique. e Marco Túlio. producent in auras Deteget et turbis Deus obsita corda tenebris. pluet tum sulphure et igni Omnibus extabunt ligni vexilla verendi Robur et auxilium populo exoptata fidéli: Certa pio generi vita. quando disse: In similitudinem hominum factus et habitu inventus ut homo. fontesque dehiscent: Et tuba de caelo tristis clangore sonabit Raucisono mundi clades pereuntis acerbas. quase pelas mesmas palavras de S. Mateus: Verum cum quaedam vox per deserta locorum Nuncia mortales veniet.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Sanctior a mortis jam nexu libera lucem Turba hominum cernet. argentea luna peribit. natus Patris omnipotentis Corpore vestitus. Succendet terram fulmen. ast offensa malignis.

150 . cujus. animosque refurgent A vitiis et aqua lustrentur corpora cuncta. as enfermidades que curou milagrosamente. os mares que pisou andando placidamente. diz no mesmo lugar: Et brevis egressus Mariae de Virginis alvo Exorta est nova lux..Anexo:Imprimir/ História do Futuro Ut rectos faciant calles. dissimulando debaixo de tantas injúrias a grandeza. sobre as ondas. a paciência e humildade com que sofreu ser cuspido. resumindo todas as obras de Cristo. A embaixada do Anjo à Virgem com o mesmo nome de Gabriel descreve a Sibila no Livro VIII por estas palavras: E caelo veniens mortales induit artus. segundo as leis da história. hinc tali affatur sermone puellam: Accipe. Até aqui a Sibila. Finalmente. E porque não faltasse com todas estas circunstâncias. até o presépio de Belém. horrentemque feret de vepre coronam. e coroado por escárnio com coroa de espinhos. depois que teve (como ele diz) maiores as mãos. O nome da Virgem. Deum premio intemerata pudico. aparecimento da estrela e adoração dos Reis. Placabit ventos dicto sternetque profundum Insanum. Ad virosa genas praedebit sputa prudentes Verberibusque sacrum tradet proscindere tergum [Viriginem enim castam tradet mortalibus ipse. açoitado e afrontado com mãos sacrílegas em seu próprio rosto. o sacramento do batismo. Ut nunquam doincets peccent in jura. o império que exercitou sobre todas a criaturas. assim da vida santíssima. Ac primum cortpus Gabriel ostendit honestum Nuncius. Virgo. compreendendo admiravelmente em tão poucas regras o nascimento virginal de Cristo. E pelo mesmo estilo vai prosseguindo a história da encarnação.] Perque feret tacitus cotaphos ne forte sciatur Quis sit. que instituiu e administrou. até lhe pôr a coroa (como se esta fora o fim e assunto do seu poema) conclui com estes versos: Ergo ad judicium veniet diciti memor hujus. como da sua Paixão. poder e majestade de quem era e de quem o mandara ao Mundo. placidis pedibus calcando.. Collustrans lympha manibus senioribus (?) omnes Cuncta jubens faciet morboque medebitur omni. Sic ait: est illam caelestis gratia mo11i Leniit afiatu: tum virginitatis amatrix Perpetuae magno subito correpta stupore Atque metu trepida pressit formidine mentem. assim como tinha declarado o do Anjo. fideque. Persimilem formam portans in Virginis alvum. a sujeição com que lhe obedeceram os ventos. mortalibus unde locutum Venerit. alegria e pasmo dos pastores. renati.

e dos Modernos ao P. e a claridade das Sibilas à fé com que os Gentios o haviam de crer. que andavam nas mãos de todos. E assim a primeira e mais relevante de todas se funda na união hipostática com que a humanidade sagrada de Cristo está unida ao Divino Verbo. se acomodou à cegueira com que os Judeus haviam de negar a Cristo. qui carminum horum sensum altius sub conspectum divinitatis Dei scrutantur. filho de Polion. quod Mose et cetera disciplina carebant. nascidos e criados entre os resplandores da Fé e conhecimento de Deus. e que destas fontes bebeu aqueles levantados espíritos. filho do Eterno Padre. ut in eum obscurarent alque ita sua.e Lacerda. posto que 151 . que morreu treze dias antes do nascimento de Cristo. qual se não acha maior nem ainda igual nos Profetas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Tanta como esta é a clareza com que falaram de Cristo as Sibilas. Desta mesma opinião de Eusébio são outros muitos autores. que de versos de Virgílio teceu e compôs felizmente toda a vida de Cristo As razões mais fundamentais e sólidas com que se persuade e converte a verdade deste império temporal de Cristo são as que imediatamente se tiram dos mesmos títulos que acabamos de declarar. conhecido pelos oráculos das Sibilas. e não nas de Aganipe ou Hipocrene. Intelligimus autem (diz Eusobio) dicta haec manifeste simul et obscure per allegorias prolata iis. é de opinião que esta quarta Égloga de Virgílio é toda alegórica. como se vê em Platão e Aristóteles. que nem ainda do mesmo César se puderam dizer sem nota de demasiada adulação e indigna de um tão eminente juízo como o de Virgílio. veritatem occuluerit. para que entendêssemos que as Sibilas foram as Musas Sicélides que exercitaram cousas maiores. ne quis eorum qui in regio orbe denominabantur. tendo também estes ali tantos mestres que os pudessem alumiar e ensinar. no já citado livro da Vida de Constantino Magno. encobrindo e envolvendo o vigilantíssimo Poeta a verdade desta sua fé e pensamento com as figuras e metáforas daquele seu Mecenas.. e cita nela os oráculos da Sibila Cumea: Ultima Cumaei venit jam carminis aetas.. era tão vulgar e famosa entre os Gentios a esperança daquele novo Rei e da idade dourada que havia de trazer ao Mundo com seu felicíssimo Reino. rejiceret. quanto a lemos elegantemente profetizada na IV Égloga de Virgilio. innuere quomodo Poeta. para que o não condenasse a superstição romana como violador da divindade dos deuses.. Se já não foi (como considera o mesmo autor e o prova com Isaías) que a escuridade dos Profetas. Nonne (são as palavras de Castálio) quae de Christo gentibus praedicta sunt ea clariora esse oportuit. et quae jam olim inde a majoribus de diis credita fuiissent.. e que debaixo da metáfora de Asínio. veja nos Antigos ao mesmo. talhado verdadeiramente para poeta de Cristo. por permissão ou castigo. foi verdadeiramente escrita e dedicada a Cristo. pertinaciae poenas darent. Por meio destes oráculos das Sibilas. Quem tiver curiosidade de ver a alegoria de toda a Égloga aplicada e explicada de Cristo. id oraculorum perspicuitate compensaretur? Accedit eo quod (quemadmodum scitur ex Isaia) voluit Deus Judaeis obscuriorem esse Christi adventum. e certo são tão extraordinariamente grandes as cousas que o príncipe dos poetas diz naquele poema bucólico. os quais constantemente se persuadem que o sujeito da IV Égloga virgiliana não foi outro senão Cristo. Sendo a razão desta providência (como bem notou Castálio) a rudeza e ignorância das cousas divinas em que viviam os Gentios. quae eis ad Christi lumen quasi proluceret: ut quod hic durat. e carecendo aqueles de toda a luz e doutrina. e sobre todos (lacuna no original). Eusébio Cesareense. culpare posset quod contra patrias leges scriberet. principalmente dos sábios. quod idem de gentibus dicere non licet. aos quais era necessário se falasse com maior clareza do que aos Hebreus.

outra é o merecimento infinito de Cristo. assim sobre as cousas e ações concernentes ao espírito. não era justo que tivesse sobre eles o domínio partido. pelo qual lhe eram devidas todas as dignidades e grandezas humanas. que se deve conceber e admitir na soberana pessoa de Cristo todos aqueles atributos de poder. porque não reteria ao menos o que não perdeu em seu Pai? A geração de Cristo escrita por S. porque se lhe há-de negar o do Mundo? Finalmente. por Cristo ser verdadeiro e inteiro homem. não digo já àquele segundo Adão que veio restaurar as ruínas do primeiro. e se. et bestiis terrae. Mateus começa em David. foi inveja. antes.Anexo:Imprimir/ História do Futuro esta mais se pode chamar natureza que razão. Se os Trajanos e outros imperadores e príncipes do Mundo deram seus impérios e reinos inteiros aos estranhos que adotaram por filhos. que não só em quanto Deus.ut sicut ipse e corpore et spiritu compositus erat. comentando o capítulo IX. 9. por filho de Adão. e por S. se pôde e não quis. como doutamente disse Stuniga. é princípio geral e recebido de todos os teólogos. se não de carne. como havemos de crer nem imaginar que desse Deus só uma parte de seu império e domínio a Cristo. como cabeça dos homens que são compostos de carne e espírito. se não ainda em quanto homem. autoridade e soberania alguma. e como investidora absoluta desta suprema e universal potestade. porque. o qual. Como negaria logo Deus este mesmo poder. composto não só de espírito. e seu filho natural e verdadeiro e unigênito? Se quis e não pôde (como em semelhante caso argumentava Agostinho) foi fraqueza. como as que pertencem ao corpo. ita eum (Pater) et regem spirituum et corporum etiam fecerit. Porque o império espiritual de 152 . E se Cristo não foi filho de Adão escravo. que é razão de si mesma. et volatilibus caeli. que sem implicação nem indecência se podem considerar nela. do Profeta Zacarias. melhor que Caim e Abel. senão de Adão inocente. A Adão deu Deus o império universal do Mundo com sujeição e otediência a todas as criaturas dele. e ainda alguma conseqüência indigna e de menos decoro. que foi o princípio efetivo donde manou e se derivou a Cristo a comunicação liberalíssima. o seu merecimento e a vontade divina. e tão fora está deste perigo o império e domínio temporal que admitimos em Cristo. em conseqüência do qual merecimento se ajuntou a ele a vontade eficaz divina. Lucas em Adão.. que facilmente se consideram muito convenientes todas ao decoro e majestade de Cristo. e um ou outro pensamento fora blasfêmia contra o onipotente amor de tão divino Pai.. como advertiu o Apóstolo. grandeza e majestade. ut tam late ipsius regnum et imperium pateret quam ipsius Dei. senão àquele que é imagem e retrato perfeitíssimo de sua sustância: Ipse est enim imago Patris et figura substantiae ejus? Haverá quem se atreva a dizer ou presumir que foi menor o poder de Cristo no Mundo que o de Adão ou que teve Adão poder que faltasse a Cristo? A carne de Adão que tomou Cristo não foi de Adão pecador. foi muito conveniente que não só tivesse o Império espiritual que pertence às almas. tomou a carne e não contraiu o pecado. ut praesit piscibus maris. porque todos lhe são infinitamente devidos. melhor que Salomão lhe foi devido o cetro de Israel. se não também o temporal que é próprio das corpos: . por filho de David. sem exclusão de poder. assim que as razões fundamentais do império temporal de Cristo são três: o ser quem é. só por ser feito a sua imagem e semelhança: Faciamus hominem ad imaginem et similitudinem nostram. se não de Adão senhor. Estas razões capitais se podem ajudar e revestir de várias congruências. inseparável a todas as suas ações. que antes da falta dele se podem arguir conhecidos inconvenientes. senão inteiro. v..

e era não só 153 . que era ser este ato incompatível com a natureza e essência do mesmo Cristo. O domínio universal que Cristo tinha do Mundo era o que mais subiu de preço os quilates de sua pobreza. alguns que o querem ser. para Cristo ser perfeitíssimo mestre e exemplar de todas as virtudes. virtude pode ser. não ofereceu o Senhor a outra face. e não queiram mais pobreza. Porque aquele domínio supremo e universal de todas as cousas fundava-se imediatamente. E quanto ao reparo da pobreza e desprezo das cousas temporais que Cristo veio ensinar ao Mundo. Não era menos mestre nem menos exemplar Cristo da paciência do que o foi da pobreza. mas quem queira ser e parecer filho de pobres: Quis est hic et laudabimus eum? Só Cristo e quem tem muito de Cristo. como dissemos. porém senhor absoluto de tudo quanto há e pode haver no Mundo. praebe illi et alleram sabemos contudo que. oh! que pasmo. só tem poder e jurdição indireta sobre as cousas e ações temporais. não consiste só na mortificação ou temperança do uso das cousas temporais. quando deram a Cristo a bofetada em presença do Pontífice Caifás. havia outra razão mais forçosa e necessária. oh! que exemplo. ainda que os tivesse ensinado. mas virtude que parece fortuna ou necessidade. Mas deixada esta estrada geral. Muitos há que querem parecer pobres. na união hipostática. e que espiritual e temporalmente lhe são todos os homens e todas as cousas sujeitas. não era necessário exercitar todos os atos particulares delas. por supremo e universal que seja. Primeiramente digo que.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Cristo. senão desfazê-lo. e pobre sobretudo na eleição de pais pobres. Não ter uso das cousas do Mundo quem não tem ou teve domínio delas. segue-se que não só não teve o uso das cousas temporais. no desprezo e abdicação deste domínio é que devia Cristo dar-nos o exemplo da perfeita pobreza. pobre na morte. pobre na vida. logo. se Cristo quisesse mandar a um homem ou a um anjo uma ação meramente temporal alheia (ainda que fosse para obrar um milagre). e poder dizer com verdade: Vulpes foveas habent et volucres caeli nidos. segue-se (como doutamente infere o Padre Soares) que. e ter menos uso do mesmo Mundo do que os bichinhos da terra. se contentem com o que se contentou este Monarca temporal do Mundo: imitem a pobreza de Cristo. se não também temporal. quanto a renunciação do domínio. necessariamente havemos de dizer e confessar. E pois é certo que foi Cristo consumadíssimo exemplar de todas as virtudes. pobre no nascimento. e muito particularmente desta . e dizem que a pobreza evangélica. Sendo logo este sentimento indigno do poder e majestade de Cristo e da soberania de sua pessoa. que não é somente espiritual o império e domínio que Cristo tem sobre o Mundo. em boa teologia. antes acudiu à calunia de que falsa e sacrilegamente o argüiam. cum te percusserint in una maxilla. ainda os mais desprezadores do Mundo! Mas replicam a esta resposta os autores da contrária opinião. de que Cristo professou ser mestre. que o não poderia fazer livre e absolutamente a seu arbítrio e sem licença do dono dela (se comodamente o pudesse fazer de outra sorte): Indignum autem videtur (conclui o grande Doutor) haec et similia de Christi potestate sentire. e sendo uma das mais altas proposições de sua doutrina na matéria do sofrimento. enquanto estas se ordenam ou subordinam ao fim e conservação das espirituais: e no caso ou suposição em que Cristo somente fosse Rei espiritual. oh! que confusão para os homens. filius autem hominis non habet ubi caput reclinet. nem mais exemplo em Cristo. porque não é nosso intento divertir o argumento. se não principalmente na renunciação do domínio delas. nós nos contentaremos com que os autores deste escrúpulo. digo outra vez que na pobreza de Cristo. se não que também careceu do domínio de todas. por santos e espirituais que sejam.

não todos mas só os que impugnam a nossa sentença. o Senhor lhes respondeu: Quis me constituit judicem super vos? E a conclusão é contra a Fé. Lucas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro propriedade inseparável. pedindo dois irmãos a Cristo que julgasse certa dúvida que tinham entre si. e ao supremo bispo e supremo prelado. Resolvem os defensores da opinião contrária. ad. logo não teve poder real. e assim como Cristo não podia renunciar nem abdicar de si a própria natureza. porventura que era mais conveniente ao mesmo exemplo do Mundo conservar o domínio sem o uso. Antes daqui se forma novo argumento em confirmação da verdade da nossa sentença. Quanto mais qnue ainda no caso em que fora possível na pessoa de Cristo a renunciação do domínio temporal de todas as cousas. Reges. senão parte intrínseca dela. Foi logo convenientíssimo que em Cristo se ajuntasse o sumo domínio e o sumo desprezo e abstinência das cousas do Mundo. E nesta segunda conseqüência. não só devia dar exemplo aos religiosos que professam renunciar o domínio dos bens temporais senão também aos prelados e bispos. E daqui inferem. nem se serviu de cousa alguma do Mundo. como dizíamos da parte contrária. porque o ofício de julgar é parte da dignidade de Rei. é contra a Fé a conclusão. e também muitos da nossa. assim (diz o Padre Vasquez) não podia renunciar nem demitir de si o direito soberano domínio. não teve exercício algum do império temporal. quia filius hominis est. posto que o Santo Doutor a não exprima. conforme aquele princípio vulgar da filosofia: Frustra est potentia quae non reducitur ad actum Mas começando pela forma desta conseqüência. a jurdição pelo exercício. Finalmente. para que ponhamos o selo à confirmação desta nossa sentença e acabemos de desfazer as razões ou admirações. e o direito (do modo que pode ser) pela posse. conserva o domínio e administração dos bens e só periga ou pode perigar na imoderação ou excesso do uso deles. como quem teve só o domínio e senhorio dele. porque Cristo. ou colhe demasiadamente ou nada. O que podia só fazer Cristo era privar-se do uso dele. como mestre e exemplar da perfeição evangélica. logo não teve poder judicial. porque havemos de ser tão estreitos de coração que lha não concedamos toda? Os que admitem ou veneram conosco em Cristo o título e domínio de rei e concedem contudo que não teve exercício dele. se chama nomeadamente Rei: Tunc dicet Rex his qui a dexteris ejus erunt etc. dizem muito douta e conseqüentemente que. que vinha a ser totalmente ocioso este império temporal que consideramos em Cristo. porque a potestade judiciária em Cristo foi conseqüência da dignidade real. I: Potestas judicis secuta est in Christo regiam dignitatem. sendo de maior perfeição. Paulo: Pater non judicat quemquam. para que no mesmo exemplar aprendessem os religiosos a mortificação do uso e os prelados a moderação do domínio. provemos demonstrativamente a causa pelos efeitos. cujo estado. ainda 154 . como expressamente ensina S. e por conseguinte nulo. Por isso o mesmo Cristo. porque lemos no capítulo XII. A premissa é de Fé. que renunciar o uso e mais o domínio. Tomás na Questão LIX. que. descrevendo o supremo e último ato de juízo em que há-de sentenciar o Mundo. E se é certo e de Fé que Cristo tem esta parte da jurdição e dignidade real. Porque tão boa conseqüência é esta: Cristo não teve exercício de rei. Art. sed omne judicium dedit filio. a potência pelos atos. porque nem fez ato que fosse próprio da dignidade real. IV. que Cristo em toda a sua vida. sendo de Fé a premissa. intelligite: erudimini qui judicatis terram. conforme o texto de David: Et nunc. e assim o fez tão perfeita e perfeitissimamente como sabemos. senão também os amigos. nem em quanto Rei nem em quanto Senhor. de S. como esta: Cristo não teve exercício de juiz. porque neiga contraditòriamente o texto de S. Temos neste ponto contra nós não só os inimigos. E a razão desta ordem natural é.

temos por certo o contrário. o qual necessariamente supõe o mesmo domínio) não é tê-lo ocioso. a mirra como a homem. se não em quanto Rei. não indouta nem indiscretamente. porque muitas vezes o mais nobre e o mais generoso uso do poder é não querer usar dele. Nesta conformidade entendem todos os Padres o mistério das três espécies de ouro. teve porém um ato excelentíssimo e um exercício contínuo. não só em ato primo (como diz a frase dos Teólogos) senão em ato segundo. pelo que respondemos negando a suposição. E se não. como falam os filósofos. Item em receber os tributos que lhe ofereceram os mesmos Reis em reconhecimento da soberania suprema de sua majestade. de maneira que neste sentido (que nem é vulgar nem violento) podemos dizer que não careceu Cristo do uso do domínio temporal que nele consideramos. como se vê claramente em muitos lugares e exemplos do Evangelho. como foi Cristo Rei e Senhor temporal do Mundo. se pode também dizer. que nunca teve nem havia de ter ato (qual é a potência que há nos indivíduos para a conservação da espécie). não só em quanto Deus. e contudo ninguém a nega nem pode negar em Cristo. e que o uso que teve daquele domínio foi a privação do mesmo uso. de ornar e mais aperfeiçoar o sujeito. porque é perfeição natural da Humanidade. poeta cristão da primeira Igreja. que eram próprios só do legítimo Rei e verdadeiro Senhor do Mundo. incenso e mirra. para maior exemplo e doutrina nossa? Onde mais bem empregado e aplicado o domínio. ou não querer usar dele. que os Reis ofereceram: o incenso como a Deus. para que o viessem reconhecer e adorar por Rei. Persistindo na mesma suposição. e não só quanto a jurdicão e domínio. que foi o não querer usar Cristo do mesmo domínio. mas porque exercitou alguns atos particulares de império e domínio. por atos próprios de jurdição e domínio. Bem assim como na humanidade do mesmo Cristo é certo que houve alguma potência. ainda que não tivesse outro uso mais que não querer o poderosíssimo Senhor usá-lo. como eles mesmos disseram: Ubi est qui natus est Rex Judaeorum? Vidimus enim stellam ejus in Oriente et venimus adorare eum. E se aquelas espadas só para este uso não foram ociosas. nem o haja de ter em outro tempo. e assim cantou Arato. e o ouro como a rei. chamar os Reis do Oriente pela estrela. Para este uso ou desuso quis Cristo a procuração das espadas. depois do maior ato de humildade: Si ergo ego dominus et magister? Desta maneira respondem (e podem responder os que seguem que Cristo não teve exercício algum do império e domínio temporal. como fazem os reis da Terra. senão quanto ao uso e exercício dela. que para poder dizer. ponderando devagar a história evangélica. porém nós. porque o seria o domínio de Cristo. a que podemos chamar negativo. porque serve. se lhes havia de mandar que as deixassem estar na bainha? e responde o grande Doutor que foi para mostrar Cristo que se podia defender e vingar de seus inimigos. mas não queria. E ter o domínio para poder e não querer usar dele (que é um ato heróico de humanidade e modéstia. perguntemos a S. e por última confirmação da nossa opinião mostraremos. O primeiro seja mandar Cristo. nem por isso se deve julgar aquele poder por baldado e ocioso. naquele verso que tão 155 . ainda que fosse a preço das mesmas túnicas com que andavam cobertos. tanto que entrou neste Mundo. que. não porque pública e continuadamente o professasse Cristo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro que a dignidade e jurdição real em Cristo não tivesse ato ou exercício algum em sua vida. ainda que o domínio temporal de Cristo não teve aqueles atos ou exercício positivo que costuma ter nos reis e príncipes da terra. se não mui gloriosamente exercitado. Ambrósio para que quis e mandou Cristo aos Apóstolos que comprassem espadas. nunca visto até então no Mundo.

. de pastores. assinalando-lhes o caminho por onde haviam de ir? Mas passemos do nascimento de Cristo aos dias mais chegados à sua morte. myrrham etaurum regium. diremos por última conclusão que o Império de Cristo é juntamente espiritual e temporal. et justitiam tuam filio Regis. S. Jerónimo. segundo estas duas jurdições. judicium tuum Regi da. e mandá-los como súbditos e novos embaixadores seus. alega David profeticamente no mesmo Salmo a adoração e tributos dos Reis do Oriente: Reges Tharsis et insulae numera offerent. e receber adorações e tributos dos mesmos reis. e que. ser ele o Rei prometido aos Patriarcas e anunciado dos Profetas. para que vejamos como. se não um pregão público e um Real! Real! por Cristo Rei do Mundo. mas declararam também por to das as circunstancias de salvador. que era o lugar onde aquela cidade estava situada? A mesma publicação fizeram os Anjos nos montes e campos de Judéia. na sua Relatio Theologica de universali Christi Regno. de anjos. Finalmente. de ungido por Deus. Sacerdote Supremo. Que ato pois mais próprio e positivo de rei. se não do Reino e Império temporal. com que o mesmo Rei se mandou apregoar na praça mais universal de todo ele. a entrada dos mesmos reis em Jerusalém. como se colhe claramente do texto de S. se mostrou e publicou Rei e senhor de todo ele História do Futuro (Volume II. como larga e eruditamente prova Alonço de Mendoça.Anexo:Imprimir/ História do Futuro bem pareceu a S. da qual publicação foram os mesmos pastores os terceiros pregoeiros. e o comum consenso de todos os Padres e da mesma Igreja. Lucas:Et omnes qui audierunt mirati sunt. e não só do Reino de Cristo absolutamente. E em comprovação deste Reino de Cristo. que divulgaram por toda a parte o que tinham visto. Agostinho. myrrham regique hominique Deoque. aos grandes e aos pequenos. in civitate David. Livro II. ambas supremas. como senhor supremo de todos. e ultimamente desobrigá-los da palavra que tinham dado a El-Rei Herodes. e no meio do mesmo Mundo. Este Salmo se entende literalmente do Reino de Cristo. E a Igreja. e da paz que trazia consigo. no Hino da Epifania: Thus. se compõem. et adorabunt eum omnes Regeç terrae. thus. perguntando publicamente: Ubi est qui natus est Rex? que outra cousa foi. E muito antes David. que havia de salvar e dominar o Mundo. respondendo·toda a milícia do Céu: Gloria in altissimis Deo ed in terra paz huminibus! Nas quais palavras todas não só apregoaram o nascimento e chegada ao Mundo do novo Rei. a coroa de Cristo. Ambrósio. de descendente de David. e outra coroa de universal Senhor e Legislador in temporalibus. quando anunciaram aos pastores: Quia natus est vobis hodie salvator qui est Christus dominus. et de his quae dicta erant a pastoribus ad ipsos. que era Jerusalém. nas cidades e nos campos. conforme a explicação de S. com quatro pregões tão públicos e tão notáveis. de reis. posto que alguns pareçam entre si contrários. nas cortes e aldeias. Jerônimo: Aurum. Reges Arabum et Saba dona adducent. omnes gentes servient ei. S. no Salmo que começa: Deus. de estrelas. segundo a qual se chama propriamente Supremo Rei. entrando e saindo do Mundo. que mandar-se publicar por tal. Capítulo VII) por Padre Antônio Vieira 156 Conclui-se que o Reino de Cristo é espiritual e temporal juntamente. Recolhendo tudo o que tão largamente temos disputado (que foi necessário ser tão largamente) e reduzindo a concórdia quanto pode ser as opiniões de todos os Doutores.

unindo-se por verdadeira geração no sangue santíssimo de Cristo e sua mãe o tribo real de Judá e o sacerdotal de Levi. andou sempre o morgado temporal unido com o sacerdócio. rnajor in imperio. fosse lavada de coroas e de tiaras. se repartiu em dois filhos do mesmo Jacob. quod cognata ejus esset Elisabeth. insinuante Luca. foram reis e sacerdotes. e de ambos se compõe o império (assim o natural como o figurativo) que Ruben tinha perdido. capítulo II. mas. Mateus e do III de S. Este é o que viu mais distintamente que todos Zacarias na sua terceira visão. prior in donis. foi ungido por rei de Israel David. ficando em Judá a benção do reino. quando se desposou com a natureza humana. effusus es sicut aqua. ipsam quoque Mariam de stirpe David a liquam consanguinitatem duxisse dubitare utique non debemus. primogenitus meus. Firmissime tenendum est carnem Christi ex utroque genere propagatam. Estas eram aquelas bênçãos tão celebradas e tão pleiteadas que os Patriarcas davam a seus filhos. Agostinho no livro II de Consensu Evangelisarum. e que a tela de que se havia de vestir o Verbo. prior in donis major in imperio. era ele o herdeiro legítimo do reino e do sacerdócio. porque na instituicão do Tabernáculo. ainda a título de geração natural. De maneira que ordenou a Providência Divina que na geração e ascendência de Cristo se tecesse o tribo sacerdotal de Levi com o tribo real de Judá. como consta do I capítulo de S. o qual mistério (para maior propriedade e majestade dele) se observou até nos escritores da mesma genealogia de Cristo. se conservou sempre o reino e sacerdócio. como direito descendente daqueles sacerdotes e daqueles reis que só eram feitos por Deus. Conforme a este direito de sucessão. foi ungido por sumo sacerdote Arão. deste tempo da Lei da Natureza. e Zacarias viu o Reino e a pessoa. Lucas. e por indústria de Rabeca foi dada a Jacob. que havia de andar encabeçado no primogênito de Ruben. porque dos 157 . e em Levi a do sacerdócio. e um e outro vinculado aos primogênitos. porque Nabucodonosor viu somente o Reino e sua grandeza. os quais. como lhe disse o mesmo Jacob: Ruben. e a que Isaac quis também dar a seu primogênito Esaú. e o número e distinção das coroas. pois fica contada no I Livro Para maior inteligência desta matéria havemos de supor que. que era do tribo de Levi. que era do tribo de Judá. e este o Reino que Nabucodonosor também tinha visto encher o Mundo. quam dicit de filiabus Aaron.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Este é o Reino universal que Daniel veio dar ao Filho do Homem (que é Cristo).. non crescas. posto que não viu nem lhe foi mostrado a quem se havia de dar. para que visse o Mundo que. Cujus feminae quoniam nec sacerdotale genus tacotur. como foi a que Abraão deu a seu primogênito Isaac. como depois se cumpriu. se uniram outra vez em Cristo. depois de o perder Saul. ou estas duas coroas. e na instituição do reino. et regum et sacerdotum. como gravemente notou e expressamente disse S. quia ascendisti cubile patris tui et maculasti stratum ejus. em castigo da irreverência que tinha cometido contra o tálamo de seu pai. que foram Judá e Levi. Daniel viu o Reino e a pessoa que o havia de dominar. foi privado dela.. Supremo Sacerdote e Supremo Rei. Cum autem evidenter dicat Apostolus Paulus: ex semine David secundum carnem Christum. in quibus personis apud illum populum Hebraeorum etiam mystica unctio figurabutur. até que a tiara e a coroa. tu fortitudo mea et principum doloris mei. Nestas duas descendências de Arão do tribo de Levi e de David do tribo de Judá. Desde este tempo se dividiram estas duas dignidades que haviam de estar juntas no morgado ou maioria de um só império (major in império) e o reino e o sacerdócio. havia de dar também Jacob a seu primogênito Ruben a mesma bênção. Daqui se entende maravilhosamente o mistério da ascendência e primogenitores de Cristo. Torno a repetir o texto e suponho a história. que precedeu ao Templo.

e referindo as palavras de S. qui dicitur Christus. und e Christi nomen elucet tanto ante etiam illa evidentissima significatione praenuntiatum Resolve-se quando começou este Império de Cristo e propõe-se acerca dele uma grande dificuldade. senão pela unção interior. Gregório Papa. e a S. Lucas. 89. A de Rei e a de Sacerdote Supremo. que é nome grego. que é o animal do sacrifício. João no capítulo I. como. História do Futuro (Plano da História do Futuro) por Padre Antônio Vieira 158 Cópia do Ms. Da unção de profeta já dissemos no capítulo VII do I Livro. tomo II p. História do futuro. que é o rei dos animais. depois de S. O nome de Cristo e de Messias. que para este lugar reservamos: S. Um e outro nome. Pedro: Invenimus Messiam (quod est interpretatum Christus) e esta foi uma das erudições em que a Samaritana se mostrou tão letrada: Scio quia Messias venit. E agora poremos aqui as autoridades dos Padres. como foi ungido Eliseu. que escreveu a geração real. Agostinho no livro e capítulo pouco antes citado: Firmissime tenendum est carnem Christi ex utroque genere propagatam et regum et sacerdotum. não porque fosse ungido com aquela cerimônia exterior com que os reis e sacerdotes eram ungidos por mãos dos homens. como diz S. Jerônimo e S. da Biblioteca Nacional Maquinações de Antonio Vieira jesuíta. Quinto Império do Mundo . que eram as duas maiores. Três ofícios achamos na Escritura Sagrada. assim o de Cristo como o de Messias. Esperança de Portugal. pertence o boi. que é nome hebreu. id est. e chama-se Cristo ungido. temporal e espiritual. como acima dizíamos. e com todas estas unções foi ungido Cristo. entre si unidos. e chama-se Cristo ungido. e o de Profeta. quer dizer ungido. que escreveu a geração sacerdotal. com que o mesmo Deus o ungiu na união da divindade com a humanidade. chrisma. Mateus. Porque Messias. com que o mesmo Senhor foi chamado e conhecido. são aquelas por que Cristo principalmente se chama ungido. porque foi ungido por Rei e Sacerdote Supremo. André a S.Anexo:Imprimir/ História do Futuro quatro animais do carro de Ezequiel que significam os quatro evangelistas. e Cristo. ambos têm a mesma significação. porque foi ungido Arão. in quibus personis illum populum Hebraeorum etiam mystica unctio figurabutur. pertence o homem. notam comumente todos os Doutores. foram duas firmas ou assinados públicos de um e outro império sacerdotal e real. que se davam com a cerimônia da unção: o de rei. a S. como ungido. antes e depois de vir ao Mundo.

afirm.? Resp. Questão 4. que dizemos ser o Quinto.a Que Império seja este.a Se na suposição que o Império Romano há-de durar até o Anticristo. afirm Questão 5. a que chamamos o Quinto? Resp. Questão 3. e declaração dele Questão 1. afirm.a Se no Capitulo I de Daniel é significado o Império do Anticristo na figura do chamado_ Cornuparvulum? ou o do Anticristo. afirm.a Se na Sagrada Escritura está revelado algum Império. que foi o Romano? Resp. é o Império do Céu ou da Terra? Resp. Livro Segundo Definição do V Império. Questão 3. que se deva chamar o V.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 159 Livro Primeiro Nome. ou o do Turco? Resp.a Se o Império de Cristo.a Se o dito Império é diverso e totalmente distinto do IV Império do Mundo. Questão 2. . Questão 2. afirm.: Até o de Cristo. pode haver no Mundo outro Império que se chame o Quinto? Resp.a Se o Império de Cristo na Terra é espiritual ou temporal? Resp. verdade e fundamento deste Império Questão 1.a Se o Império Romano há-de durar até a vinda do Anticristo? Resp. que é espiritual e temporal juntamente. que da Terra.

afirm.. Questão 11. posse. problem. e começou desde o primeiro instante da sua encarnação. Questão 9.a Se há-de Cristo ainda ter alguma hora o exercício do dito império. Questão 8.a Quando começou. que é possível. Questão 5. e qual seja? Resp. mas que nunca há-de ter o dito exercício pessoal. afirm. por sua própria pessoa .a Qual seja o dito domínio do Império de Cristo.a Se tem Cristo hoje exercício do dito império temporal e espiritual.a Por que pessoa ou pessoas tem Cristo o exercício mediato do império temporal? Resp. que pelo Sumo Pontífice e mais ministros da Igreja. que começou desde os primeiros que creram em Cri st o . que consiste em ser conhecido por fé e obedecido.a Se teve Cristo exercício do dito Império em quanto espiritual? Resp. que tem sobre todo o Mundo e sobre todos os homens. Questão 6. que pelos príncipes temporais cristãos.a Em que consiste a posse do dito Império? Resp.a Por que pessoa ou pessoas tem Cristo o exercício mediato do império espiritual? Resp. que é.a Se teve Cristo exercício do dito império em quanto temporal? Resp. assim espiritual como temporal. e quando começou? Resp. Questão 12.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 160 Questão 4. exercício? Resp. Questão 13. e vai continuando em todos os que têm a mesma fé. . que tem o exercício. Questão 7. mas o mediato. e como se continuou a dita posse? Resp. Questão 10. imediato não.a Se no dito Império espiritual e temporal de Cristo se distingue o domínio. ou se é possível? Resp.

que pelas Escrituras. Livro Quarto Causas. meios e instrumentos com que se há-de conseguir o estado consumado do dito Império. Questão 5. afirm. Questão 8. Questão 4. ou há-de ter outro e mais perfeito? Resp.a Se este Reino e Império de Cristo há-de continuar sempre no estado presente.a Se há-de haver no dito estado paz universal? E em todo o Mundo? Resp. Questão 3.a Porque a opinião do dito estado não é comum de todos os Padres e Doutores? Resp. que simultanea e permanente.a Quanta haja de ser a grandeza do Império de Cristo no dito estado? Resp.a Se hão-de ser todos pela maior parte justos no dito estado? Resp. Questão 7. sobre todas as gentes e sobre todos os reinos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 161 Livro Terceiro Grandeza e felicidades do dito Império Questão 1. Questão 2. que por muitos fundamentos. afirm. . que universal. que há-de ter outro estado mais perfeito. Questão 6. completo e consumado. afirm.a Se a dita grandeza há-de ser simultanea e permanente ou sucessiva? Resp. por autoridade e por razão.a Como se prova este estado mais perfeito e consumado do Império de Cristo? Resp.a Se hão-de ser todos cristãos no dito estado? Resp.

Questão 3.a Se é conveniente ao bem da Igreja que a opinião da dita esperança se pratique? Resp. Questão 7.a Se podem os Judeus 1icitamente esperar esta restituição mediante a Fé de Cristo? Resp.a Como se prova em especial a conversão de todos os hereges.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 162 Questão 1. Questão 6. afirm. Questão 8.a Se nesta conversão dos Judeus hão-de entrar também os Dez Tribos perdidos? Resp.a Como se prova em especial a conversão. que pelas Escrituras e Doutores. a extinção do Turco. Questão 10. Questão 9. Questão 4. afirm. afirm. e a extirpação de todas as heresias? Resp. que pelas Escrituras e Doutores. Questão 5. a extirpacão da seita de Mafona? Resp.a Como se prova em especial a conversão dos Judeus e a extirpação do Judaísmo? Resp. afirm. afirm. afirm.a Se por meio da dita conversão universal se há-de consumar a união dos dois povos. gentílico e o judaico? Resp. .a Se convertidos universalmente os Judeus hão-de ser restituidos à sua Pátria? Resp.a Como se prova em especial a conversão de todos os gentios e a extinpação da idolatria? Resp.a Se o primeiro meio da consumação do dito estado seja a conversão universal de todos os homens à Fé de Cristo e a extirpacão de todas as heresias do Mundo? Resp. Questão 2. que pelas Escrituras e Doutores. que pelas Escrituras e Doutores.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro

163

Questão 11.a
Se então se cumprirá a profecia do texto—et erit unum ovile et pastor?—Resp. afirm.

Questão 12.a
Se a causa principal eficiente da dita conversão universal será o Eterno Padre? Resp. afirm.

Questão 13.a
Se concorrerá para a dita conversão o Espírito Santo com especial e nova uncão da divina graça? Resp. afirm.

Questão 14.a
Que parte terá nesta obra a autoridade e intercessão de Cristo e da Virgem Santíssima? Resp. que muito grande.

Questão 15.a
Se o instrumento principal humano da dita conversão será o sumo pontífice santo e muitos pregadores evangélicos? Resp. afirm.

Questão 16.a
Se concorrerá para a dita conversão algum príncipe temporal, com a sua autoridade, o seu poder e as suas armas? Resp. afirm.

Questão 17.a
Se este príncipe temporal será imperador e monarca universal do Mundo? Resp. afirm.

Questão 18.a
Se o dito imperador universal se poderá chamar Vigário de Cristo no temporal? Resp. afirm.

Livro Quinto
Tempo, duração e ordem do dito Império

Questão 1.a
Se o estado consumado do Quinto Império há-de ser antes ou depois do Anticristo? Resp. que antes.

Questão 2.a
Qual dos dois povos se há-de converter primeiro universalmente, para a consumação do dito I:npério, se o gentílico, se o judaico? Resp. que o gentílico.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro

164

Questão 3.a
Quanta seja a duração do dito Império, depois de consumado? Resp. que até o fim do Mundo.

Questão 4.a
Quando há-de começar a dita consumação do Império de Cristo? Resp. que na extinção do Império turco.

Questão 5.a
Se do tempo presente até o da vinda do Anticristo pode e há-de correr um grande número de séculos? Resp. afirm.

Livro Sexto
Terra em que se há-de fundar o dito Império em quanto temporal, e qual há-de ser a cabeça dele

Questão 1.a
Se o dito Império temporal há-de ser na Europa ou em alguma das outras quatro partes do Mundo? Resp. que há-de ser na Europa.

Questão 2.a
Em que província da Europa se há-de fundar o dito Império temporal de Cristo ? Resp. que em Espanha.

Questão 3.a
Em que reino de Espanha se há-de fundar o dito Império? Resp. que em Lisboa.

Livro Sétimo
Pessoa que será o primeiro Imperador instrumento temporal do dito Império

Questão 1.a
Se a dita pessoa que seja imperador será o imperador de Alemanha? Resp. negativ.

Questão 2.a
Se a dita pessoa há-de ser El-Rei Cristianíssimo de França? Resp. negativ.

Questão 3.a
Se a dita pessoa há-de ser El-Rei Católico de Espanha? Resp. negativ.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro

165

Questão 4.a
Se a dita pessoa há-de ser o Sereníssimo Rei de Portugal? Resp. afirm .

Questão 5.a
Se o Rei de Portugal há-de ser El-Rei D. Sebastião? Resp. negativ.

Questão 6.a
Se o dito Rei de Portugal há-de ser El-Rei D. João IV? Resp. problem.

Questão 7.a
Se o dito Rei de Portugal há-de ser El-Rei D. Afonso ou o Infante D. Pedro? Responde-se: Vejo subir um Infante
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