Anexo:Imprimir/ História do Futuro

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Anexo:Imprimir/História do Futuro
História do Futuro por Padre Antônio Vieira

Índice Volume I
• Capítulo I: Declara-se a primeira parte do titulo desta História, e quão própria é da curiosidade humana a sua matéria. • Capítulo II: Segunda parte do titulo desta História; convidam-se os Portugueses à lição dela. • Capítulo III: Terceira parte do titulo e divisão de toda a História. • Capítulo IV: Utilidades da História do Futuro • Capítulo V: Segunda utilidade. • Capítulo VI: Terceira utilidade. • Capítulo VII: Última utilidade. • Capítulo VIII: Continua a mesma matéria • Capítulo IX: Verdade desta História. Declara-se o modo com que se pode conhecer e saber os futuros • Capítulo X: Resposta a uma objeção: mostra-se que o melhor comentador das profecias é o tempo. • Capítulo XI • Capítulo XII: Dá-se a razão por que em algumas partes desta História se não alegaram padres e seguiram exposições dos escritores modernos

Volume II
• Capítulo I • Capítulo II

Livro I
• Capítulo I: Mostra-se a Quinta Monarquia com a profecia de Daniel • Capítulo II: Segunda profecia de Daniel • Capítulo III

Anexo:Imprimir/ História do Futuro

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Livro II
• • • • • • • • Introdução Capítulo I Capítulo II Capítulo III Capítulo IV Capítulo V Capítulo VI Capítulo VII

Plano da História do Futuro
História do Futuro (Volume I, Capítulo I: Declara-se a primeira parte do titulo desta História, e quão própria é da curiosidade humana a sua matéria.) por Padre Antônio Vieira

Nenhuma cousa se pode prometer à natureza humana mais conforme ao seu maior apetite, nem mais superior a toda a sua capacidade, que a notícia dos tempos e sucessos futuros; e isto é o que oferece a Portugal, à Europa e ao Mundo esta nova e nunca vista história. As outras histórias contam as cousas passadas, esta promete dizer as que estão por vir; as outras trazem à memória aqueles sucessos públicos que viu o Mundo; esta intenta manifestar ao Mundo aqueles segredos ocultos e escuríssimos que não chega a penetrar o entendimento. Levanta-se este assunto sobre toda a esfera da capacidade humana, porque Deus, que é a fonte de toda a sabedoria, posto que repartiu os tesouros dela tão liberalmente com os homens, e muito mais com o primeiro, sempre reservou para si a ciência dos futuros, como regalia própria da divindade. Como Deus por natureza seja eterno, é excelência gloriosa, não tanto de sua sabedoria, quanto de sua eternidade, que todos os futuros lhe sejam presentes; o homem, filho do tempo, reparte com o mesmo a sua ciência ou a sua ignorância; do presente sabe pouco, do passado menos e do futuro nada. A ciência dos futuros — disse Platão — é a que distingue os deuses dos homens, e daqui lhes veio sem dúvida aquele antiquíssimo apetite de serem como deuses. Aos primeiros homens, a quem Deus tinha infundido todas as ciências, nenhuma lhes faltava senão a dos futuros, e esta lhes prometeu o Demônio com a divindade, quando lhes disse: Eritis sicut Dii, scientes bonum et malum. Mas ainda que experimentaram o engano, não perderam o apetite. Esta foi a herança que nos ficou do Paraíso, este o fruto daquela árvore fatal, bem vedado e mal apetecido, mas por isso mais apetecido, porque vedado. Como é inclinação natural no homem apetecer o proibido e anelar ao negado, sempre o apetite e curiosidade humana está batendo às portas deste segredo, ignorando sem moléstia muitas cousas das que são, e afetando impaciente a ciência das que hão de ser. Por este meio veio o Demônio a conseguir que o homem lhe desse falsamente a divindade, que o mesmo demônio com igual falsidade lhe tinha prometido. E senão, pergunto: Quem foi o que introduziu no Mundo, sem algum medo, mas antes com aplauso, a adoração do Demônio? Quem fez que fosse tão freqüentado e consultado o ídolo de Apolo em Delfos? O de Júpiter em Babilônia? O de Juno em Cartago? O de Vênus no Egito? O de Dafne em Antioquia? O de Orfeu em Lesbo? O de Fauno em Itália? O de Hércules em Espanha, e infinitos outros em muitas partes? Não há dúvida que o desejo insaciável que os homens sempre tiveram de saber os futuros, e a falsa opinião dos oráculos com que o Demônio

Anexo:Imprimir/ História do Futuro respondia naquelas estátuas, foram os que todo este culto lhe granjearam, sendo certo que, se Deus, vindo ao Mundo, não emudecera (como emudeceu) os oráculos da Gentilidade, grande parte do que hoje é fé, fora ainda idolatria. Tão mal sofreram os homens que Deus reservasse para si a ciência dos futuros, que chegaram a dar às pedras a divindade própria de Deus, só porque Deus fizera própria da divindade esta ciência: antes queriam uma estátua que lhes dissesse os futuros, que um Deus que lhos encobria. Mas que direi das ciências ou ignorâncias das artes ou superstições que os homens inventaram desde a terra até o céu, levados deste apetite? Sobre os quatro elementos assentaram quatro artes de adivinhar os futuros, que tomaram os nomes dos seus próprios sujeitos: agromancia, que ensina a adivinhar pelas cousas da terra; a hidromancia, pelas da água; a aeromancia, pelas do ar, e a piromancia, pelas do fogo. Tão cegos seus autores no apetite vão daquela curiosidade, que, tendo-se perdido na terra os vestígios de tantas cousas passadas, cuidaram que na água, no ar e no fogo os podiam achar das futuras. No mesmo homem descobriram os homens dois livros sempre abertos e patentes, em que lessem ou soletrassem esta ciência. A fisionomia, nas feições do rosto; a quiromancia, nas raias da mão. Em um mapa tão pequeno, tão plano e tão liso como a palma da mão de um homem, inventaram os quiromantes não só linhas e caracteres distintos, senão montes levantados e divididos, e ali descrita a ordem e sucessão da vida e casos dela, os anos, as doenças e os perigos, os casamentos, as guerras, as dignidades, e todos os outros futuros prósperos ou adversos; arte certamente merecedora de ser verdadeira pois punha a nossa fortuna nas nossas mãos. Deixo a astrologia judiciária, tão celebrada no nascimento dos príncipes, em que os genetlíacos, sobre o fundamento de uma só hora ou instante da vida, levantam ou figura ou testemunhos a todos os Sucessos dela. Nem quero falar na triste e funesta nicromancia, que, freqüentando os cemitérios e sepulturas no mais escuro e secreto da noite, invoca com deprecações e conjuros as almas dos mortos para saber os futuros dos vivos. A este fim excogitaram tantos gêneros de sortilégios, como se na contingência da sorte se houvesse de achar a certeza; a este fim observaram os sonhos como se soubesse mais um homem dormindo do que sabia acordado; a este sentido consultavam as entranhas palpitantes dos animais, como se um bruto morto pudesse ensinar a tantos homens vivos. Com o mesmo apetite pediam respostas às fontes, aos rios, aos bosques e às penhas; com o mesmo inquiriam os cantos e vôos das aves, os mugidos dos animais, as folhas e movimentos das árvores, com o mesmo interpretavam os números, os nomes e as letras, os dias e os fumos, as sombras e as cores e não havia cousa tão baixa e tão miúda por onde os homens não imaginassem que podiam alcançar aquele segredo que Deus não quis que eles soubessem. O ranger da porta, o estalar do vidro, o cintilar da candeia, o topar do pé, o sacudir dos sapatos, tudo notavam como avisos da Providencia e temiam como presságios do futuro. Falo da cegueira e desatino dos tempos passados, por não envergonhar a nobreza da nossa Fé com a superstição dos presentes. Finalmente, a investigação deste tão apetecido segredo foi o estudo e disputa dos maiores e mais sinalados filósofos, de Sócrates, de Pitágoras, de Platão, de Aristóteles e do eloqüente Túlio, nos livros mais sublimes e doutos de todas suas obras. Esta era a teologia famosa dos Caldeus; este o grande mistério dos Egípcios; esta em Roma a religião dos áugures; esta em Judéia a seita dos Pitões e Aríolos; esta em Pérsia a ciência e profissão dos Magos; esta enfim do Céu até o Inferno, o maior desvelo dos sábios e maior ânsia e tropeço dos ignorantes; uns injuriando o Céu, e dando trato às estrelas para que digam o que não

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escreveram os impérios. folgam de ouvir e saber que se prognosticam. Assim foram retratos de Cristo Abel. sinal certo que não buscam os homens os futuros. outro inferior e invisível. nem com Tucídides a dos Gregos. e descreve feitos heróicos e famosos. pois. a mais estendida e continuada acaba nos tempos em que foi escrita. que com elas contendiam. O mesmo Saul. nós escrevamos a do futuro para os presentes. as repúblicas. que desterrou a Pitonisa. a foi buscar e se serviu de sua má arte. as leis. Esta nossa começa no tempo em que se escreve. a grandeza. nem com Xenofonte a dos Persas. Não escrevemos com Beroso as antiguidades dos Assírios. de ruínas de umas nações e exaltações de outras. nem com Cúrcio a dos Macedônios. a opulência e felicidade. enganados tão profundamente os homens pela falsidade e mentira de todas estas artes e seus ministros. O tempo. e os mesmos que mais severamente negam o crédito às cousas prognosticadas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro podem. nem com Heródoto as dos Egípcios. sperantibus fallax. Oh que de cousas grandes e raras haverá que ver neste novo descobrimento! Aqueles historiadores que nomeamos e foram os mais célebres do Mundo. a ruína ou daquelas mesmas nações. nem com Lívio a dos Romanos. quod in civitate nostra. A história mais antiga começa no princípio do Mundo. ou de outras igualmente poderosas. onde o passado se termina e o futuro começa. na curiosidade humana. antes de a fama os publicar e de serem feitos. nem com Josofo a dos Hebreus. 4 . conta os sucessos futuros antes de sucederem. mas que se hão-de vencer. as conquistas. que é o futuro. Isaac. nem com os escritores portugueses as nossas. Impossível pintura parece antes dos originais retratar as cópias. mas escrevemos sem autor o que nenhum deles escreveu nem pôde escrever. e tanto é hoje. para que revelem o que não sabem. Mede os tempos vindouros antes de virem. o que não conheceu o moderno e o que não alcança o presente. as batalhas. que é o passado. o apetite de conhecer o futuro! Mas o que mais que tudo encarece a tenacidade deste desejo. senão que se hão-de render e domar. as resoluções. as vitórias. continua por toda a duração do Mundo e acaba com o fim dele. David. a declinação. pomos hoje no teatro do Mundo esta nossa História. Eles escreveram histórias do passado para os futuros. O que ignorou o mundo antigo. senão que se hão-de fundar. e tentando os mesmos demônios. a qual nos irá descobrindo as novas regiões e os novos habitadores deste segundo hemisfério do tempo. No meio de um e outro hemisfério ficam os horizontes do tempo. como o Mundo. a mudança. et vetabitur semper et retinebitur. que são os antípodas do passado. por isso chamada do Futuro. José. de exércitos e de vitórias. porque os achem. os conselhos. Nós também havemos de falar de reinos e de impérios. de nações não já domadas e rendidas. Tanto foi em todas as idades do Mundo. mas isto é o que fará o pincel da nossa História. que são estes instantes do presente que imos vivendo. disse Tácito. tem dois hemisférios: um superior e visível. Para satisfazer. nem haja de bastar já para mais os desenganar e apartar dele: Genus hominum potentibus infidum. de vitórias não já vencidas. é considerar que. é o que se verá com admiração neste prodigioso mapa descrito: cousas e casos que ainda lhes falta muito para terem ser quanto mais Antigüidade. não tenha bastado nenhuma experiência. outros inquietando o Inferno (como dizia Samuel). à maior ânsia deste apetite e para correr a cortina aos maiores e mais ocultos segredos deste mistério. porque os amam. senão que vão sempre após eles. mas de impérios não já fundados. antes do Verbo ser homem. Desde este ponto toma seu princípio a nossa História.

mas de S. a noite escuríssima. Escreveu Moisés a história do princípio e criação do Mundo. chamamos a esta narração História e História do Futuro. para exaltação da Fé. porque. o Evangelho é a sua profecia aberta. a ordem e sucessão das cousas. não seguem a ordem dos casos e dos sucessos. também lhe era devido nome novo e não ouvido. mas porque não terão semelhança com elas nenhumas das passadas. porque não guardam nelas estilo nem leis de histórias: não distinguem os tempos. de costumes. de leis. gentes novas. E se as histórias daqueles escritores. disseram S. sem exemplar nem exemplo. E com que espírito a escreveu? Respondem todos os Padres e Doutores que com espírito de profecia. para felicidade e paz universal do Mundo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Hão-se de ler nesta História. saiba que nos pareceu chamar assim à esta nossa escritura. em lugar da benevolência que se costuma pedir aos leitores. e pasmará assombrado do que nunca imaginou. Se já no Mundo houve um profeta do passado. confiança nos fica para esperar que não será ingrato aos leitores este nosso trabalho. Jerônimo e Santo Agostinho que mais escrevera história que profecia. senão vestidas e acompanhadas das suas circunstancias. mas leis novas. que à notícia e inteligência deles. triunfos e felicidades novas. sendo novo e inaudito o argumento dela. de gentes. com palavras não suas. conquistas. e quando tudo isto viram e tudo disseram. sem estrela nem farol. E porque nós. portentosas conquistas. tempos novos. de governos. sendo de cousas menores antigas e passadas. para glória de Cristo. É de direito natural que ninguém seja condenado sem ser ouvido. ignorada até aquele tempo de quase todos os homens. admirará o que nunca leu. seguindo em estilo claro e que todos possam perceber. sem ambição nem injúria de ambos os nomes. porque não haverá um historiador do futuro? Os profetas não chamaram história às suas profecias. conselhos e resoluções novas. determinamos observar religiosa e pontualmente todas as leis da história. heróicas façanhas. e nós com maior ousadia que Tífis. estados novos. governos novos. vitórias. paz. mas esperamos no Pai dos lumes (a cuja glória e de seu Filho servimos). e porque havemos de distinguir tempos e anos. para triunfo da Igreja. e que será tão deleitosa ao gosto e ao juízo a História do Futuro. religiosas empresas. porque são futuras. quanto é estranho ao papel o assunto e nome dela. Antes de abrir as velas ao vento (oh faça Deus que não seja tempestade!). as ondas confusas. sinalar províncias e cidades. escurecido com enigmas e contado ou cantado em frases próprias do espírito e estilo profético. não assinalam os lugares. Do profeta Isaías. que falou com maior ordem e maior clareza. se leram sempre com gosto. Ouvirá o Mundo o que nunca viu. costumes novos. estranhas e espantosas mudanças de estados. nomear nações e ainda pessoas. por isso. tirará a salvamento a frágil barquinha: ela com maior ventura que Argos. lerá o que nunca ouviu. altos conselhos. Sós e solitariamente entramos nela (mais ainda que Noé no meio do dilúvio) sem companheiro nem guia. só lhes quero pedir justiça. isto só deseja e pede a todos a nova História do Futuro. animosas resoluções. Mas porque não cuide alguma curiosidade crítica que o nome do futuro não concorda nem se ajusta nem com o título de história. empresas e façanhas novas. e não só novas. em tudo o que escrevemos. maravilhosas vitórias. de tempos. é envolto em metáforas. (quando o sofrer a matéria). Jerônimo: Legant prius et postea 5 . as nuvens espessas. A sua profecia é o Evangelho fechado. e depois de sabidas se tornaram a ler sem fastio. não individuam as pessoas. disfarçado em figuras. O mar é imenso. mais acomodadas à majestade e admiração dos mistérios. não nua e secamente.

quiseram antes ignorá-los. Disse sem murmuração o satírico que taparam os reis a boca aos deuses. busque-se entre os sepultados. (com quem só falo agora) nem espero o teu agradecimento. digno só por esta ação (se não foram as suas culpas sacrilégios) de que Deus lhe perdoara a vida. e confirmou sempre a Daniel na mercê e lugar em que ele o tinha posto porque assim como profetizou que havia de perder o império o rei dos Assírios. os felizes e os infelizes. Porque. se nas letras que interpreto achara desgraças (bem poderá ser que as tenhas). .. História do Futuro (Volume I. Se tanto vale o conhecimento de um futuro. Et Superos vetuere loqui. eu me conto com Samuel entre os mortos. tudo que descubro melhoras. porque há muitos futuros para temer.mandou Baltasar que o vestissem de púrpura e que lhe dessem o anel real. e depois condenem» — assim dizia aquele grande mestre da Igreja. Sucedeu vitorioso este príncipe na coroa de Baltasar. por não temer os futuros prósperos e adversos. porque um matava os profetas.Cessant oracula Delphis.Anexo:Imprimir/ História do Futuro despiciant: «Leiam primeiro. que seria se os prometera? Não faltou a este merecimento Dario Hidaspes rei dos Persas e dos Medos..diz o texto. se tanto prêmio se dá a uma profecia mortal e que tira impérios. Naquele prometemos grandes futuros ao desejo. e achar-se-á. e premiado assim o profeta. Só isto fez Baltasar nos instantes que lhe restaram de vida. neste só com Portugal. cumpriu-se a profecia e foi morto o rei. Mas era já a véspera do dia da morte. ainda que tão infeliz. não se desengana. e quem busca o desengano tarde. que era faze-lo um dos quatro supremos ministros ou governadores da monarquia. o morto ao vivo. Outros reis houve. E que lhe importou a Daniel esta tão triste interpretação? No mesmo ponto .. Portugal. anunciou-lhe intrepidamente que naquela mesma noite havia de perder a vida e o império. e não queriam consultar os oráculos. é revelar-lhe os futuros. neste asseguramos breves desejos ao futuro. eu te dissera a má fortuna sem receio. Mas é tal a tua estrela (benignidade de Deus contigo deverá ser). e se não há entre nós os vivos quem faça estas revelações. Declarou Daniel a Baltasar a escritura fatal da parede. defendendo a sua versão dos sagrados Livros. tudo o que alcanço felicidades. nem temo a tua ingratidão. que por não temer os futuros. e que fosse reconhecido por Tetrarca de todo o império dos Assírios. disse Samuel a Saul. outro premiava as profecias. Isto é o que deves . os felizes para a esperança e os infelizes para a cautela. «Amanhã serás comigo». então perseguida e impugnada. Oh que temeroso futuro! Caiu Saul desmaiado. se me não contas com Daniel entre os vivos.. Todos fora felicidade antever. O maior serviço que pode fazer um vassalo ao rei. ajuntou também que o havia de ganhar o dos Persas e Medos: Divisum est regnum tuum et datum est Medis et Persis. Capítulo II: Segunda parte do titulo desta História. e fora melhor cair em si que aos pés do Profeta. Nem todos os futuros são para desejar. assim como te digo a boa sem lisonja. o profeta ao rei.) por Padre Antônio Vieira 6 No capítulo passado falamos com todo o Mundo. Saul achou a Samuel morto e Baltasar a Daniel vivo. hoje adorada e de fé. Eu. convidam-se os Portugueses à lição dela. Sed siluit postquam reges timuere futura. que tudo o que leio de ti são grandezas.

e porque? Porque era um lugar onde se esperava tantos anos pelo Paraíso. porque o que se não pode dar logo não se há-de prometer. e em que a nossa História há-de empregar todo o quinto livro. O Limbo chamava-se Inferno. que lhe importam as esperanças da terra de Promissão? No cativeiro de Babilônia pregavam e prometiam os Profetas que Deus havia de levantar mão do castigo e restituir o povo à sua antiga liberdade. Isaac a Jacob e Jacob aos doze Patriarcas. Muito seguras eram. que eu lhas prometo. 7 . são morte. e tão seguras como a mesma palavra de Deus (que não pode mentir nem faltar)`. Modicum ibi. Assim conta esta queixa Isaías no capítulo XXVIII. sendo então as vidas mais compridas. mas todos eles morreram e foram sepultados no Egito. ainda que não fosse muito velho. as promessas dos antigos Profetas. porque em muitas cousas das que lhes prometiam as profecias. Modicum ibi. chegavam a ver o cumprimento do que tão longamente tinham esperado. Se nelas se promete a vida. Boa esperança para um cativo.. se nelas se promete o gosto. Prometer o Céu para ir esperar por ele ao Limbo. Tais são as esperanças dilatadas. De que me serve a esperança da liberdade. As esperanças da Terra de Promissão deixou-as Abraão a Isaac. Mas vejo que o mesmo nome de Esperanças de Portugal lhe poderá com razão suspender o gosto. reexpecta. Por agora só digo que me não atrevera eu a prometer esperanças. Expecta. que vinham a ser fábula do vulgo em Jerusalém as esperanças das profecias. se primeiro se há-de acabar a vida? O mesmo podem argüir os que hoje vivem com estas esperanças. A quem há-de cobrir a terra do Egito. por isso em nome segundo e mais declarado chamo a esta mesma escritura Esperanças de Portugal. Não me tenha a minha Pátria por tão cruel. mas quando há-de ver Portugal essas esperanças? Ponto é este que depois se há-de tratar muito de propósito. e que a volta ou estribilho da cantiga era: . primeiro se acabava a vida do que chegasse a esperança. são tormento. Para se avaliar a esperança. como notaram grandes autores. são Inferno. nunca prometeu o Céu expressamente. e se lhes perguntavam quando. e não é este o futuro da minha História. Grandes são essas esperanças de Portugal.Anexo:Imprimir/ História do Futuro esperar. e isto o que te espera. affligit animam. são promessas em que por então se dá o contrário do que se promete. que lhe houvesse de prometer martírios com nome de esperanças.expecta. reexpecta. se não foram esperanças breves. muito firme e muito bem fundada a esperança. mas cansava-se tanto o desejo na paciência de esperar por elas. assustar o desejo e embaraçar os mesmos alvoroços em que o tenho metido com estas esperanças: Spes qae differtur. os filhos aos netos e nem estes. e este é o comento breve de toda a História do Futuro. disse a Verdade divina e o sabe e sente bem a experiência e paciência humana: ainda que seja muito segura. Deus na Lei Escrita. se nelas se promete o Paraíso.. reesperavam e desesperavam aqueles homens. há-se de medir o futuro. respondiam e afirmavam constantemente que dali a setenta anos. é um tormento desesperado o esperar. Esperavam. Deixaram os pais em testamento as esperanças aos filhos. que pelas ruas e praças da corte se andavam cantando por riso as suas esperanças.

porque lêem feitos seus e de seus antepassados . Este segundo futuro é o da minha História. Lignum vitae. João entre todos os profetas deste Mundo? Porque os outros profetas prometeram a Cristo futuro. Se houve um profeta que foi mais que profeta. Um profeta houve no Mundo mais que profeta. Que vida haverá em Portugal tão cansada. senão só de Portugal? A razão (perdoe o mesmo Mundo) é esta: porque a melhor parte dos venturosos futuros que se esperam. dividiu os futuros em dois futuros: Neque instantia. Sim. é do Mundo. senão única e singularmente sua. perderá esta nossa História gloriosamente o nome. As esperanças que vem são o pomo da árvore da vida: Lignum vitae desiderium veniens. O Grego lê com maior gosto as histórias de Grécia. Só digo que quando assim suceder. as esperanças porque não serão também do Mundo. ó Pátria minha. e com quanto gosto deves aceitar a oferta que te faço desta nova História. et adesse monstravit. e os instrumentos prodigiosos delas os Portugueses. Portugal o centro. aquele filósofo do terceiro Céu. desiderium veniens. vos mostrará o cumprimento delas. um futuro que muito tempo há-de ser futuro — Neque futura — e outro futuro que brevemente há-de ser presente: Neque instantia. Não é privilégio este de qualquer profecia. vós os que mereceis viver neste venturoso século! Esperai no Autor de tão estranhas promessas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro São Paulo. E por que razão mereceu a singularidade deste nome S. Portugal será o assunto. e estas as breves e deleitosas esperanças que a Portugal ofereço. ainda que não vivam muitos anos. que à vista do cumprimento destas esperanças. disse no mesmo lugar alegado a mesma Verdade divina. mas viverão muitos anos os que as virem. e com que alvoroço e alegria pede a razão e amor natural que leias e consideres nela os seus e os teus futuros. não só não tiram a vida. Esperanças que hão-de ver os que vivem. E Portugal que com novidade inaudita lerá nesta História os 8 . não torne atrás os anos para lograr tanto bem? Vivei. mas daquelas profecias de que se compõe esta História. e que deixará de ser História do Futuro. porque são mais que profecias. quão agradável te deve ser. Agora as prometem com a voz. Vê agora. Mas perguntar-me-á porventura alguma emulação estrangeira (que às naturais não respondo): se o império esperado. que quem vos deu as esperanças. Assim como há esperanças que tardam. Portugueses. A virtude maravilhosa daquele pomo era reparar e acrescentar a vida e remoçar aos que o comiam. há esperanças que vem. como se diz no mesmo título. Portugal o teatro. um futuro que há-de vir e outro futuro que já vem. Lignurn vitae. mas acrescentam os dias e os alentos dela: Spes quae differtur. Um futuro que está longe e outro futuro que está perto. As esperanças que tardam. o Romano as de Roma e o Bárbaro as da sua nação. que idade tão decrépita. também as hão-de mostrar presentes. desafiando todas as criaturas. nem o mostraram presente. as esperanças que vem. affligit animam. Mas este grande assunto fique para seu lugar. porque não haverá também algumas profecias que sejam mais que profecias? Assim espero eu que o sejam aquelas em que se fundam as minhas esperanças e que. e a mais gloriosa deles. depois as mostrarão com o dedo. mas não o viram. se nos prometem as felicidades futuras. neque futura. vivei. tiram a vida. porque o será do presente. que foi o grande precursor de Cristo. desiderium veniens. será não só própria da Nação portuguesa. Portugal o princípio e fim destas maravilhas. e entre elas os tempos. o Batista prometeu o futuro com a vez. e mostrou o presente com o dedo — Cecinit ad futurum.

que jaz entre os desertos de Numídia e os do Mar Vermelho. lede agora esta minha. chamamos quinto. Estas sete cousas são as que há-de examinar. suas grandezas e felicidades. Imitavam a soberba de seu soberbo Nilo.) por Padre Antônio Vieira 9 O que encerra a terceira parte do título desta História só se pode declarar inteiramente com o discurso de toda ela. cujo exórdio é este: Nabuchodonosor. rex omnibus populis. e eu vos descubro a vós o que haveis de ser. para os êmulos a inveja. não duvidavam intitular-se Josés do Mundo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro seus e os dos seus vindouros. Tal é a História. como se não houvera mais mundo que o Egito. no quinto. pelas razões que se verão a seu tempo. qui habitant in universa terra: . Se são dos inimigos. que estão fora de seu lugar. sem dor nem sentimento dos membros. senão maior em tudo. nos ambiciosos títulos dos impérios e imperadores. com quanto maior gosto e contentamento. mas também estes fazem harmonia. que. Não lhe chamaram Salvador do Egito. gentibus et linguis. no segundo. resolver e provar a nova História que escrevemos do Quinto Império do Mundo. e por isso na língua vossa. para os amigos e companheiros o gosto e para vós então a glória. maior esperança. Os Faraós do Egito. Esta história era o silêncio de todas as historias. no sétimo. e os demais chamados do Mundo. e também os Ptolemeus que lhes sucederam. ao qual. Se se há-de restituir o Mundo à sua primitiva inteireza e natural formosura. com quanto maior aplauso e alvoroço será razão que o faca? Portentosas foram antigamente aquelas façanhas. não se poderá consertar um corpo tão grande. Alguns gemidos se hão-de ouvir entre vossos aplausos. Assim como líeis então aquelas vossas histórias. porque toda se emprega em provar a esperança dum novo império. quando sai ao mar. Portugueses. para que a matéria de uma vez se compreenda e saiba o leitor em suma o que lhe prometemos. os meios por que se há-de introduzir. sendo um só rio. de tal maneira mediam a estreiteza de suas terras pela arrogância e inchação de seus vastos pensamentos. no sexto. Naqueles ditosos tempos (mas menos ditosos que os futuros) nenhuma cousa se lia no Mundo senão as navegações e conquistas de Portugueses. História do Futuro (Volume I. que império há-de ser. para os inimigos será a dor. em que tempo. Entretanto. assim era aquele império. Do império dos Assírios temos nas divinas letras uma provisão lançada no III capítulo do Profeta Daniel e mandada expedir pelo grande Nabucodonosor. Vós descobristes ao Mundo o que ele era. maior império. porei brevemente aqui sua divisão. Capítulo III: Terceira parte do titulo e divisão de toda a História. em que pesca. que. que também é toda vossa. Em nada é segundo e menor este meu descobrimento. as esperanças. como se foram sete rios. maiores sempre nas vozes que no corpo e grandeza. em que terra. e destes a conhecer o Mundo ao mesmo Mundo. costuma ter maior estrondo na voz que verdade na significação. que vos presente. se espraia em sete bocas. senão do Mundo. e. Os inimigos liam nela suas ruínas. Mas porque esta palavra Mundo. no terceiro. ó Portugueses. com que descobristes novos mares e novas terras. Essa foi a desigualdade do nome que puseram os Egípcios ao seu restaurador José: Vocavit eum lingua aegyptiaca Salvatorem Mundi. dominando somente aquela parte não grande da extrema África. no quarto. entretanto. Maior cabo. Divide-se a História do Futuro em sete partes ou livros: no primeiro se mostra que há-de haver no Mundo um novo império. os êmulos suas invejas e só Portugal suas glórias. será bem que digamos neste lugar o que o título da nossa História entende por Mundo.

rei. Mandou Augusto César matricular e: alistar seu império. que tinha sujeito ao seu domínio o orbe universo: Cum universum orbem meae ditioni subjugassem. Contudo. e dizia o edito: Aliste-se o Mundo. o Tártaro e outros domínios bárbaros do nosso tempo. et magnitudo tua [. veria facilmente que o Mundo. lhe diz assim no mesmo capítulo: Tu es rex qui magnificatus es et invaluisti. pelo meio-dia com o Nilo e pelo setentrião com o Danúbio e Reno. et potestas tua usque ad terminos universae terrae. a todos os povos. Deixo o Mogor. por estas pomposas palavras. semelhantes em tudo às de Nabuco: Tunc Darius rex scripsit omnibus populis et gentibus et linguis. da Europa menos e do resto do Mundo nada. o China. De maneira que os reis persas. Assim nos consta por um decreto de Dario. passaram provisões e decretos a todo o Mundo. não duvidou firmar por sua própria mão.. Inter se Tanais quantum Nilusque relinquunt. ainda que lhe deu por margens os Orientes: Subdit Oceanum sceptris. Tão grande era a significação dos nomes.] pervenit usque ad Coelum.. é cento e vinte e sete vezes maior que o império persiano: tão pouco se proporcionava a geografia dos títulos com a medida dos impérios! Que direi do império dos Romanos? Os termos que lhe sinalam seus escritores são as raias do Mundo: Orbem jam totum victor Romanus habebat Qua mare. que se refere no VI capítulo de Daniel. que professava mais verdade que os poetas: Nulla gens est. mas os títulos não tinham limite. quae aut ita subacta sit ut vi non extet.. obedecendo àquela coroa 127 províncias. 10 . qua sidus currit utrumque disse Petrônio. que se estendia da Índia até a Etiópia. Mas bastavam estes três retalhos da terra para a soberba de Nabucodonosor revestir os títulos de seu império com o nome estrondoso de todo o Mundo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro «Nabucodonosor.exiit edictum à Caesare Augusto ut describeretur universus orbis. seguindo a antiquíssima arrogância da Ásia. mas quem desenrolasse o mapa do Mundo e pusesse sobre ele os pergaminhos destas provisões. por serem senhores de 127 províncias. da África pouco. qui habitant in universa terra: Pax vobis multiplicetur. acharemos que pelo oriente se fechava com o rio Tigres. gentes e línguas. Mas se examinarmos este mundo romano até onde se estendia. se lançarmos os compassos às terras que obedeciam a Nabucodonosor. E o mesmo Daniel (que é mais) falando a este rei e acomodando-se aos estilos da sua corte e aos títulos magníficos de sua grandeza. et margine coeli Clausit opes. no cap. Estes limites lhe prescreveu Claudiano. E o mesmo Assuero por outro decreto. acharemos que da Ásia então conhecida tinha uma boa parte. quantum distant a Tigride Gades.. sem demasiado encarecimento. XIII de Ester. Esta era a demarcação das terras e estes os limites do império. pelo ocidente com o mar de Cádis. aut ita domita ut quiescat. que com a mesma majestade de títulos se chamam imperadores do Mundo. qua terra. e tanto menos 0 que significavam! Do império de Assuero (que era o dos Persas) diz o Texto Sagrado no primeiro capítulo da história de Ester. em que o Mundo andou sempre atado aos títulos da monarquia. aut ita pacata ut victoria nostra imperioque laetetur. que habitam em todo o Mundo. e Cícero. Tal era a opinião que Roma tinha de sua grandeza e tal o estilo que guardava em seus editos: .

Não é nem poderá ser assim no império do Mundo que prometemos. repartiu em diferentes sucessores o seu império. entretanto. damos por solução de todas a mão onipotente: Ut videant. No livro sétimo examinaremos os fundamentos deste direito. todas as coroas se rematarão em uma só diadema. O Mundo que Deus criou. o pensamento de Alexandre. todas as cabeças obedecerão a uma suprema cabeça. se aos doutos ocorrem instancias e aos escrupulosos dúvidas. e Deus (que é fortuna sem inconstância) lhe conservará a grandeza.. tudo o que cobre e rodeia o Sol. Bem sei que o império de Alemanha (envelhecidas relíquias. ou não quis (se foi inveja) que viesse depois outro imperador mais venturoso. Os que querem o ruído e encher de algum modo o vazio destes grandes títulos. nomes tão alheios da modéstia como da verdade. o Mundo que o não conheceu. que trespassasse as balizas do que ele até então conquistara e fosse ou se chamasse maior que Augusto. Duvida Tácito se foi filha esta resolução do receio ou da inveja: Incertum metu. A Abraão prometeu Deus as terras da Palestina mas conquistou-as a espada de Josué e defendeu-as a de seus sucessores. et Mundus eum non cognovit. e destes três mundos unidos se formará (que assim o formou Deus) um Mundo inteiro. e naquele sentido em que disse S. e mais claramente do que o dissemos agora o provaremos depois. dizem.Anexo:Imprimir/ História do Futuro O Mundo do nosso prometido império não é Mundo neste sentido: não prometo mundos. quando o conhecer. dizem que se entende por hipérbole ou exageração. Europa. an per invidiam. mas já reconhecida. Resolveu Augusto com o senado pôr limites à grandeza do Império Romano. Ásia. senão a justiça da espada. Quando o não conheceu. João: . mas também se sabe que os textos podem dar títulos. universum terraram orbem — diz Ortélio — veteres [. não se pudesse defender com um só braço. Europam et Asiam. é certo que os impérios e os reinos não os dá nem os defende a espada da justiça. e este o império que prometemos do Mundo. a união lhe desfará a inveja. a paz lhe tirará o receio.» Este foi o Mundo passado. do Romano) em muitos textos de um e outro direito se chama império do Mundo. que chamamos Austral. como todos os que até agora se chamaram impérios do Mundo. e esta será a peanha da cruz de Cristo.. Tudo o que abraça o mar. acrescentou-lhe a nossa idade esta quarta parte. e por aquela figura que os retóricos chamam sinédoque. ainda que liberalmente lho concedamos. et 11 . Aqui acaba o título desta História. não chama a um pigmeu gigante nem a um braço homem. aquele Mundo. eam pro quarta parte nostra aetas adjecit. não se pudesse governar com uma só cabeça.] in tres partes divisere: Africam... espera-se agora a quinta. não por nome ou título fantástico. e este é o Mundo presente. Tal foi. depois que se descobriu a América. O título desta História não fala por hipérboles nem sinédoques. e o Mundo que o há-de conhecer. vizinho à morte. tudo o que alumia o Sol. senão por domínio e sujeição verdadeira. scilicet. O Mundo de que falo é o Mundo. que é aquela terra incógnita. o qual. e quase acabadas. Entretanto. será sujeito a este Quinto Império. quintamque expectat sub meridionali cardine jacentem: O Mundo que conheceram os Antigos se dividiu em três partes: África. negou-lhe o domínio. Temeu César (se foi receio) que um corpo tão enormemente grande não se pudesse animar com um só espírito. Este é o sujeito da nossa História.Mundus per ipsum factus est. Todos os reinos se unirão em um centro. nem impérios titulares. dar-lhe-á a posse . mas não impérios. em que se toma a parte pelo todo. Estes são os instrumentos humanos de que se serve (ainda quando obra divinamente) a providencia daquele supremo Senhor que o é do Mundo e dos exércitos. e este será o Mundo futuro. sed in inventa America. para que nenhum lhe pudesse herdar o nome de Magno. sciant et recogitent.

engenho e juízo eminentes. que todos aqueles fins que sabemos teve a Providência Divina em diversos tempos. acharemos que são em muito maior número os que escreveram das futuras: diferença que de nenhum modo fizera Deus. melhoria e reformação a que são encaminhados e dirigidos. Esdras e alguns outros. impertinente e ocioso. Samuel. agora que entramos na maior importância desta matéria. Capítulo IV: Utilidades da História do Futuro) por Padre Antônio Vieira 12 §I Se o fim desta escritura fora só a satisfação da curiosidade humana. homens a esperança das cousas próprias. e se as esperanças que temos prometido foram só flores sem outro fruto mais que o alvoroço e alegria com que as felicidades grandes e próprias se costumam esperar. se sirva de nos comunicar aquela luz. esperando que será grato e aceito a Deus. leitor cristão. que é o verdadeiro Autor de todas as . na Lei da Graça. os quatro Evangelistas. que aqueles que cegamente se precipitaram pela ignorância do futuro. digo. e ainda com vantagem. para que estes secretos de seu oculto juízo e conselho se descobrissem e publicassem ao Mundo e em todo ele produzissem proporcionadamente os efeitos de mudança. cujos nomes . se não fora igual e ainda maior a utilidade que podemos e devemos tirar do conhecimento das cousas futuras. e se como tal empregaram nela sua indústria tantos sujeitos em ciência. por que nos sujeitamos ao trabalho de tão molesto gênero de escritura. que foram muito menos os danos em que caíam os homens por lhes faltar a notícia do passado. que da noticiaria das passadas. certamente eu suspendera logo a pena e a lançara da mão.Anexo:Imprimir/ História do Futuro intelligant pariter quia manus Domini fecit hoc. a quem só pretende nos servir. como foram os que em todos os tempos imortalizaram a memória deles com seus escritos. Em conseqüência desta verdade e em consideração das cousas que tenho disposto escrever. Josué. E verdadeiramente que se os bens da ciência se colhem e conhecem melhor pelos males da ignorância. porque não será igualmente útil e proveitosa. e por indigno não só de o comunicar ao Mundo.e não sabem com tão averiguada certeza). que a memória das alheias? Se em todos os Livros Sagrados contarmos os escritores de cousas passadas (como foram. e o gosto ou lisonja daquele apetite com que a impaciência do nosso desejo se adianta em querer saber as cousas futuras. lugares e nações para lhes revelar antecedentemente o sucesso das cousas que estavam por vir. inspiração e ainda força suave da mesma Providência os impulsos que a isto (não sem alguma violência) nos levaram. desde seu princípio até hoje. humildemente prostrados diante de seu infinito acatamento. História do Futuro (Volume I.Escrituras (sendo todas elas como diz S. outras utilidades necessárias ao governo e bem comum do gênero humano e ao particular de todos os homens. Mas se a história das cousas passadas (a que os sábios chamaram mestra da vida) tem esta e tantas. quanto é mais poderosa e eficaz para mover os ânimos dos. graça e espírito que para negócio tão árduo nos é . Moisés. tendo este meu trabalho por inútil. Esta é não só a principal razão. mas de gastar nele o tempo e o cuidado. e na Escrita. esta nossa História do Futuro. achará facilmente quem discorrer pelos sucessos do Mundo. nas a única e total. Paulo escritas para nossa doutrina.. e entendendo que foram vontade. A mesma Majestade divina. pedimos com todo o afeto de coração.. concorrem com particular influxo nesta nossa História e se acham juntos nela.

era o autor da abundância e da esterilidade. E não bastam. e para que Dario. nem menos poderemos descobrir e alcançar ao diante o muito que nos resta por conhecer. ou porque se não levante a maiores com os benefícios divinos. nem o direito e herança de Baltasar para os conservar. mas não houve até agora nem José que interpretasse os sonhos. conhecendo e confessando que sem assistência deste soberano auxílio. que todas vêm dispensadas por sua mão. pois só ele os pode determinar antes que sejam. que perdia o reino. entendesse que o recebia. rebelde e ingrata. com os olhos sempre no Céu e em Deus. Deus é o que dá e tira os reinos e os impérios. e se beije as mãos a si mesma. que o havia de receber. quando são. para que Baltasar. e logo ordenou a Providência divina que estivesse em Egito um José (posto que vendido e desterrado). porque Deus lho tirava. de que há-de tratar a nossa História.todos os sucessos a primeira causa. nem as armas de Dario para os adquirir. é para que conheçam clara e firmemente os homens. que nem esperando. por dar a César o que não é de César. como dizia Job. que lhe declarasse o mistério dos sete anos da fartura e sete de fome. Como na terra do Egito não chove jamais e se regam e fertilizam os campos com as inundações do rio Nilo. e não o seu adorado Nilo. e que a ele havia de agradecer no benefício dos sete anos o remédio dos catorze. Arma-se assim a sabedoria eterna contra a natureza humana. por isso quer a mesma Providência Divina que as sentenças estejam escritas antes da execução. O primeiro motivo e mui principal por que Deus costuma revelar as cousas futuras (ou sejam benefícios ou castigos) muito tempo antes de sucederem. para que conhecesse o bárbaro que Deus.as sete espigas gradas e as sete falidas. conhecesse que o perdia. para que conheça a ignorante sabedoria do Egito que os meios da conservação ou ruína dos reinos. mas apareceu primeiro a sentença escrita no paço de Babilônia. e isto é o que eu começo a fazer (com a graça daquele Senhor que sempre se serve de instrumentos pequenos em cousas grandes). muitos anos há que estão sonhados como os de Faraó e escritos como os de Baltasar. as sete vacas fracas e as sete robustas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro necessário. se Deus dispõe outra cousa. levantam os olhos ao Céu. e que haja quem as interprete antes do sucesso. Os futuros portentosos do Mundo e Portugal. que tudo são efeitos de seu poder e conselhos da sua providência. ou ordenados para mais altos e ocultos fins por sua providência. quando e a quem é servido. ou porque não atribua a cousas naturais (e muito menos ao caso) os efeitos que vêm sentenciados como castigo por sua justiça. e em lugar de reverenciarem em . só adoram as segundas! Por isso mostra Deus a Faraó. Foram mostradas a Faraó em sonhos . tantos anos antes. nem nós saberemos explicar a outros o pouco que por mercê do Céu temos alcançado e conhecido. Quis a mesma Providência. nem Daniel que construísse as escrituras. 13 § II Primeira utilidade. Oh quantos cristãos há egípcios. nem temendo. sempre soberba. como acima dizíamos tirar o império a Baltasar e dá-lo a Dario. e houve logo um Daniel (também cativo e desterrado). a mão onipotente de Deus é a que os distribui. que tire a Deus o que é de Deus. e para que não haja ignorância tão cega nem ambição tão presumida. como as outras nações. porque não esperavam de lá o sustento. quais hão-de ser os da fome e quais os da fartura. disse discretamente Plínio que só os Egípcios não olhavam para o céu. . porque Deus lho dava. que interpretasse ao rei os mistérios dela. para que conheça o Mundo e Portugal.

é a que há-de levantar e sublimar ao estado felicíssimo e glorioso que lhe está prometido. que é o tempo futuro. e prometidos juntamente os meios e instrumentos prodigiosos por onde há-de subir e ser levantado ao cume mais alto e sublime de toda a felicidade humana. e o intérprete deste último e glorioso estado de Portugal já tenho dito quem é. no presente e no futuro. de todos eles não entraram na Terra da Promissão nem chegaram a lograr a felicidade e descanso da segunda promessa mais que Josué e Calef. Afonso Henriques. e leiam tudo o que daqui por diante formos escrevendo com este pressuposto e importantíssima advertência: que. na terceira. Antes da sua ressurreição. e de tantos outros que logo se cumpriram e vão cumprindo. a vitória que lhe havia de dar em batalha tão duvidosa e as armas de tanta glória com que o queria singularizar entre todos os reinos do Mundo. e lhe revelou como era servido de o fazei rei. quando por nossa desgraça fôssemos tão injuriosamente ingratos a Deus. conseguindo milagrosamente a liberdade. e que era todo seu desde seu nascimento. Antes das glórias de Portugal. e sacudiram sem sangue nem golpe de espada a sujeição de tão poderoso domínio. sublimando-o. que todos vimos também. foram diante a explorar a terra. que ou referíssemos os benefícios passados. para que conhecesse e não pudesse negar Portugal que devia a Deus a vitória e a coroa. favores e as mercês tão notáveis com que o determinava enobrecer: na primeira. e posto que todas viram o cumprimento da primeira promessa. na segunda restituindo-o. Antes do nascimento de Portugal. para que até por esta circunstancia conheçam os Portugueses que a mesma mão onipotente que há vinte e quatro anos conserva e defende tão constante e vitoriosamente o Reino de Portugal. desconhecido e retirado do Mundo o ermitão do campo de Ourique. E o embaixador e intérprete deste e de outros futuros. e por isso mui proporcionado (segundo o estilo de Deus) para tão grande e dificultosa empresa. se alguma cousa lhes poderia retardar o cumprimento destas promessas. e quão indigno de o ser. e a Portugal reino. foi aquele velho. para que conhecesse outra vez Portugal que a Deus e não a outrem devia a restituição da coroa que havia sessenta anos lhe caíra da cabeça ou lhe fora arrancada dela. apareceu o mesmo Cristo a El-Rei (que ainda o não era) D. seria só o esquecimento ou desconhecimento do soberano Autor delas. Prometeu Deus de livrar os filhos de Israel do cativeiro do Egito. dois daqueles aventureiros que.Anexo:Imprimir/ História do Futuro atribuindo à fortuna ou indústria humana o que se deve só à disposição divina. também está prometido este terceiro e mais feliz estado do nosso Reino. receoso porventura de que uma nação tão amiga da honra e da glória lhe quisesse roubar a sua. Considerem agora os Portugueses. foi a nossa experiência. como tinha jurado aos seus maiores. não havendo quem ignorasse ou quem não tivesse lido que no ano de quarenta se havia de levantar em Portugal um rei novo e que se havia de chamar João. no presente ressuscitado e no futuro glorioso. sendo contudo mais de seiscentos mil homens os que triunfaram de Faraó e passaram da outra parte do mar Vermelho. no passado o verá vencido. que depois se viram cumpridos. Estilo foi este que sempre Deus usou com Portugal. fazendo-o. ou esperássemos os futuros de outra mão que a sua. Raro 14 . foi revelado o sucesso dela com todas suas circunstancias. escolhidos pelos Doze Tribos. e em todas estas três diferenças de tempos e estilos lhe revelou e mandou primeiro interpretar o. e muitos centos e ainda milhares de anos antes (como depois mostraremos). e de os levar e meter de posse da terra da Promissão. Quem considerar o Reino de Portugal no tempo passado. E o intérprete deste futuro que parecia tão impossível.

mas muitas vezes. pois tão ingrata e impiamente interpretaram o benefício da primeira promessa. por isso se vos escrevem aqui essa mesma liberdade. como os que restam para se ver.tanta repugnância sua instrumento de seus poderes: Vidi afflictionem populi mei in AEgypto et clamorem ejus audivi. já por mercê de Deus triunfamos de Faraó e do poder de seus exércitos. sendo muito justo e muito justificado castigo que morram e acabem todos antes de chegar o prazo das felicidades. qui te eduxerunt de terra AEgypti. dá a glória de Deus ao ídolo. e ouvi os seus clamores. quando lhe deu o ofício e a vara. assim os que já se viram. et sciens dolorem ejus. e os que atribuem as obras de Deus e os benefícios (de que só a Ele se devem as graças) a Moisés e ao ídolo não merecem ter vida nem olhos para chegar a ver a Terra de Promissão. negue a Deus o que é de Deus e atribua à liberdade as vitórias e o cumprimento das primeiras promessas que temos visto. abundante e cheia de todos os regalos e delícias». e porque sei com quão justa razão se queixam. Moysi enim huic viro. foi atribuírem a mesma liberdade ao ídolo que de seu ouro tinham fundido no deserto. descendi ut liberem eum de manibus AEgyptorum. da bondade e onipotência divina. Se há algum tão invejoso dos bens da Pátria e tão inimigo de si mesmo. não uma.Anexo:Imprimir/ História do Futuro exemplo de severidade na misericórdia de Deus . e para que nós. Agora nos servem as duas. in terram quae fluit lacte et melle: «Vi — diz Deus — a aflição do meu povo. Quem refere a glória dos bons sucessos ao seu valor. à sua ciência militar. ainda antes de ver o fim desejado dela. Eu não nego que em bom sentido se podia chamar Moisés libertador do cativeiro. afogados no Mar Vermelho de seu próprio sangue. et deducam de terra illa in terram bonam et spatiosam. e ainda mais ignorante (sobre ímpia e blasfema). sejam privados de gozar a segunda. atribuírem-na ao ídolo. ou a Moisés ou ao ídolo. a Deus só as refiramos todas. XXXII. se buscarmos no Texto Sagrado as causas deste desvio e dilação (a qual durou quarenta anos inteiros. referirem-se a Moisés. era descortesia. ingrato e blasfemo! Que Moisés e o vosso ídolo foram os que vos livraram do cativeiro do Egito?! Por certo que o não disse assim Deus ao mesmo Moisés. A segunda. Assim o disseram também no mesmo capítulo e o apregoaram impiamente a altas vozes: Hi sunt dii tui. e o fez com . A primeira causa foi atribuírem a liberdade do cativeiro a Moisés.três. ignoramus quid acciderit. e quem fez os portentos e maravilhas foi Deus. e a Deus só louvemos e demos as graças. Israel. ao seu talento. como também Deus pelo honrar lhe dava esse nome. e que se podia vencer em poucos dias) acharemos que foram . 15 . boa. Imos caminhando pelo deserto para a Terra da Promissão. mas bem merecido castigo. espaçosa. e pode ser que estejamos já muito perto dela. nos livrou do cativeiro. Já Deus. e do último cumprimento das prometidas felicidades. porque. tantos anos antes revelados por Deus. já os vimos. como efeitos da providência. e quem abriu o Mar Vermelho e afogou nele Faraó e seus exércitos foi Deus. sendo a distancia do caminho breve. essas mesmas vitórias e esses mesmos sucessos. Basta. e que. Para que conheça por nossa confissão todo o Mundo que são misericórdias suas e não obras do nosso poder. depois diremos a terceira. e não a darem a Deus toda. assim o disseram no cap. ao seu braço. mas nos homens que deviam dar a Deus toda a glória (pois toda era sua). que queira retardar o curso de tão próspera e feliz jornada e acabar infelizmente. povo descortês. Portugueses. era blasfêmia. que lhe hei-de dar. desci em pessoa a livrá-lo das mãos dos Egípcios e tirá-lo daquela terra para outra. qui nos eduxit de terra Aegypti. De maneira que quem tirou os filhos de Israel do Egito foi Deus. era ingratidão suma.

não o verão. In solitudine hac jacebunt cadavera vestra.. juntamente nascem dela e a corrompem. ut habitare vos facerem. bondade e fertilidade da terra. ou não querem crer. que. como filhos da víbora. porque são dignos de o verem. para crerem e confiarem que assim havia de ser. que nenhum deles entrasse nela nem a visse. a confiança em Deus e o zelo e desejo puríssimo de sua glória. mas exceto Josué e Calef. Assim o disse e assim se executou. que ficarão para os capítulos seguintes... levar e meter de posse daquelas segundas promessas. sic faciam vobis. não bastando a experiência de tantas vitórias passadas e de tantos sucessos e prodígios inauditos. assim pela fortaleza e sitio das cidades. não sei se de pouco. como pela valentia. depois de cumprida uma parte das promessas. que aprendemos nas noticias de seus futuros.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Os inimigos que mais temo a Portugal são soberba e ingratidão. Os que pela experiência do que têm visto crêem o que está prometido. a qual refere o Texto Sagrado no cap.. e que todos morressem primeiro e fossem sepultados naquele deserto. e a estes incrédulos e ingratos castiga justissimamente sua Providência. vícios tão naturais da próspera fortuna. forças e corpulências dos homens. As palavras da queixa de Deus e da sentença. A humildade e agradecimento. vê-lo-ão. 16 Breve Advertência aos incrédulos Mas antes que passemos às outras utilidades. Enfim. ait Dominus. audiente me. XIV dos Números. resolveu que fosse executada neles a sentença de sua própria incredulidade. Leiam e pesem bem estas palavras de Deus os incrédulos e desanimados (vícios ambos. que. Diz Santo Agostinho (cujas excelentes palavras adiante citaremos) que.. Chegados os doze exploradores da Terra da Promissão. conformemente. E resoluto Deus a não sofrer mais tal gente. tão importantemente para a vida como para a vista. e pode ser de grande exemplo para outra casta de gente. é não só pertinácia de incredulidade racional. os outros. sicut locuti estis. senão crime de ingratidão grande contra o divino Autor dos mesmos benefícios. sempre são os meios seguros que nos hão-de sustentar.. que são os que a Escritura chama filhos da desconfiança. nem os perdoar ou dissimular como até ali tinha feito.] Vivo ego. qae feci coram eis? [. justo será que fechemos este com a terceira causa do castigo que ponderávamos. instavam que era impossível. que . com que não cheguem a ver nem gozar o que não querem crer de sua bondade: . super quam levavi manum meam. os que não crêem. [. se de mau coração) e vejam o perigo em que os pode meter ou tem metido a sua incredulidade: Sicut locuti estis. a desconfiança de nós. é o primeiro fruto e utilidade que da lição desta nossa História se pode tirar. E este conhecimento tão grato a Deus. de que Deus os havia de meter de posse daquela terra. prevaleceu o número contra a razão) (como as mais vezes sucede). dando-lha em tudo e por tudo. Deliberou o povo eleger capitão e voltar-se com ele ao cativeiro do Egito. e pois criam que Deus os não havia de meter de posse da Terra da Promissão. concordaram todos na largueza.] non intrabitis terram.facilitaram a conquista e animavam o povo a ela. foram estas: Usque quo detrahet mibi populus iste? Quosque non credent mihi in omnibus signis. e sobre tudo as promessas divinas tão repetidamente inculcadas. sic faciam vobis. Esta tão covarde incredulidade foi a última ou a última sem-razão com que acabou de se apurar a paciência divina. comparados com os Hebreus (diziam eles) pareciam gigantes. a sua mesma incredulidade será a sua sentenc: já que o não creram. não crer que se hão-de cumprir as outras.

e depois sobre o novo alicerce levanta nova traça e novo edifício. E quem não crê que se hão-de cumprir. guarda também ordinariamente nas felicidades desta. terão vida para as verem. por isso havemos de ver no Céu os mistérios que vemos na Terra. quando as tem prometido: os que as crêem. alguma desculpa parece que podia ter a incredulidade na fraqueza do receio e desconfiança humana. Quem crê que se hão-de cumprir aquelas . Quem quiser saber (segundo o estilo ordinário da justiça e providência divina) se há-de chegar a ver as felicidades que debaixo de sua palavra aqui lhe prometemos. e os que não quiseram crer. a sua mesma fé lhe conservará a vida > Assim sucedeu. Assim o faz e fez sempre o supremo Criador e Artífice do Mundo. non erit recta anima ejus in semetipso. ó reis. et aedifices. non permanebitis — diz o profeta Isaías. e mais necessária aos tempos próximos e presentes. Assim o sentenciou o mesmo Deus outra vez em semelhante caso por boca do profeta Habacuc: Ecce qui incredulus est. Olhem por si os incrédulos. Aos que crêem. os que as não crerem. e ao que crê. et plantes. ó reinos! Quanto arrancar. tira-lhe Deus a vida. diz Cristo: Sicut credidisti. os que creram aos profetas com el-rei Iconias viveram. desfazendo. desmerece a vista. quando quis plantar e edificar de novo. sic faciam vobis. Quando o lavrador quer plantar de novo em mata brava. mete primeiro o machado. quanto perder. arrasando e arrancando até os fundamentos. justus autem in fide sua vivet. E porque ninguém o duvidasse . É lei da liberalidade de Deus pagar a fé com a vista. diz Deus: Sicut locuti estis. cava. com el-rei Sedecias pereceram. quanto destruir. fiat tibi. e depois planta e semeia. para ele será o vê-las e gozá-las: Sicut creditisti. alimpa. examine o seu coração e consulte a sua fé. História do Futuro (Volume I. <O incrédulo . arranca. quanto dissipar se verá em vossas terras.diz Deus nem terá a vida segura. também começa derribando. e para que não chegue a ver. e se não crêem que havemos de ver. para que as não vejam. constância e consolação nos trabalhos. e se veja restaurado o Universo! Maravilha é que há muitos anos está prometida para esta última idade do Mundo por aquele supremo Monarca. et dissites. fiat tibi. E este estilo que Deus costuma guardar na glória da outra vida. campos e cidades. et disperdas. é rebeldia de ingratidão e dureza da incredulidade. antes que chegue a esperada felicidade. porque na guerra que Nabucodonosor fez a Jerusalém.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Quo usque non credent mihi in omnibus signis. derriba. Ó gentes. ut evellas. antes que Deus vos replante e reedifique. não crer ainda as que estão por vir. Quem não crê. corta. E aos que não crêem como os Israelitas do deserto.tão felizes promessas.) por Padre Antônio Vieira 17 A segunda utilidade desta História. é a paciência. Quando o arquiteto quer fabricar de novo sobre edifício velho e arruinado. do nosso próprio coração nos conta Deus a sentença e de nossas próprias palavras a forma: Exore tuo te judico. tão maravilhosas e tão raras. nem vê-las. Capítulo V: Segunda utilidade. tão grandes. que tem por assento o trono de todo ele: Et dixit qui sedebut in throno: Ecce nova facio omnia. et destruas. Assim o disse e mandou notificar a todo o Mundo pelo profeta Jeremias: Ecce constitui te hodie super gentes et super regna. quae feci coram eis? Antes da experiência das primeiras maravilhas. queima. merecedoras ambas de que Deus as castigue com se conformar com elas: Sicut locuti estis. perigos e calamidades com que há-de ser allito e purificado o Mundo. morrerão. mas depois de cumpridas e vistas com os olhos tantas cousas. será também para ele não gozá-las. como ao Centurião. creiam que não hão-de viver: Si non credideritis.

Que maior trabalho ou perigo pode sobrevir a uma república. Mas. tribulações. Daniel e Solonias. Paulo. opressões e trabalhos. tudo por meio da lição e fé das divinas promessas e consolação dos felicíssimos fins a que todos estes trabalhos e tribulações pela providência do Altíssimo são ordenadas. alívio. No cap. se houver (como há-de haver primeiro) trabalhos. perigos. e o fruto muito principal . e todo o gênero de calamidades. constância e fortaleza. De maneira que. não porque tenhamos necessidade dela e dos vossos socorros. com que Deus costuma castigar. e tão apertada sai a luz e se oferece ao Mundo este livro santo. A lição das Escrituras. guerras. é a que mais que tudo nos pode consolar nos trabalhos. acrescenta logo o Evangelista Profeta: Haec verba fidelissima sunt et vera. diz S.Anexo:Imprimir/ História do Futuro como cousa tão nova e desusada. emendar e domar a rebeldia dos corações humanos. não pelo que ela tem de nossa. ut per patientiam et consolationem Scrip turarum spem habeamus. nem remédio para o sofrimento e constante firmeza de tão fortes calamidades. Se deste trabalho e castigo pode também caber alguma parte a Portugal. e dando conta disso aos mesmos Esparcíatas. o julgue. porque a paciência tem a sua consolação na esperança. Isaías. mas temos sempre em nossas mãos os Livros Santos. no cativeiro profetizou Miqueas. do que a lição e condição desta História do Futuro. Antes do cativeiro profetizaram por sua ordem Oseas. ou para todos (como é mais certo) nenhuma cousa poderão ter os homens de maior consolação. Este é o fim. sendo só doze os Profetas canônicos. e ele mesmo. ou para o resto do Mundo. Jónatas. Joel e Amos. habentes solatio sanctos libros qui sunt in manibus nostris. opressões. Para esta ocasião. cum nullo horum indigeremus. posto que não nos faltam inimigos. ad nostram doctrinam scripta sunt. os dez deles tiveram por assunto e matéria muito principal de todas suas 18 . no qual acharão os aflitos alívio. que nunca no povo de Israel concorreram tantos Profetas juntos como antes do cativeiro de Babilônia e no mesmo cativeiro. só e desamparada. do conhecimento e fé das cousas futuras. Habacuc Jeremias. paciência. diz assim em uma epístola: Nos.para que elas se escreveram: Quaecumque scripta sunt. maluimus mittere ad vos renovare fraternitatem et amicitiam: «Mandamos renovar por este nosso embaixador (diz Jonatas) a antiga amizade e confederação» que convosco fizeram nossos maiores. e com eles e com elas nos consolamos e animamos a resistir. os tristes consolação. como temos vencido e vencemos a todos nossos inimigos. de que Deus . mas pelas escrituras originais de que foi tirada. e se é ele um dos reinos da Cristandade que merece ser mui renovado e reformado. e sem amigo nem aliado que a socorra? Neste estado se viram muitas vezes no tempo de seu governo os Macabeus. pelas quais lhes não foi necessário valerem-se da confederação que naquele tempo tinham com os Romanos e Esparcíatas. lembrando-lhe que está escrito que o juízo e exemplo de Deus há-de começar por sua casa: Judicium incipiet a domo Dei. É cousa muito digna de notar. os atribulados esperança. que então governava o povo. misérias e açoites. sempre os livrou com maravilhosas vitórias e assistências do Céu. a esperança tem o seu fundamento na fé e a fé nas Escrituras. ou sejam para Portugal. VIII se verá que sem atrevimento ou demasiada confiança podemos chamar a esta nossa História do Futuro livro santo. que ver-se cercada e combatida por todas as partes de poderosíssimos inimigos. em que lemos as promessas divinas. Ezequiel. assolações. o mesmo Portugal o examine. se se conhece. pelejar e vencer.

A razão deste concurso tão extraordinário de Profetas e profecias (nunca antes. Os outros seis. XXIX do mesmo Profeta. regis Juda. prisões e perigos da vida por pregar e profetizar a verdade (pela qual finalmente morreu apedrejado). et ad aures universi populi venientis ad librum Não sei se terá a mesma fortuna. mais que a lição e interpretação das profecias. que naquele tempo e estado tão calamitoso. tendo ficado em Jerusalém. que com ele vivia no cativeiro. e a esperança da liberdade e do ano dela. Foi mui particular neste caso entre todos os outros Profetas o zelo e diligência de Jeremias. e as esperanças dele se haviam de cumprir no ano 19 . não esquecido dos alheios. Lia-se nas célebres tradições de Gregório de Almeida no seu Portugal Restaurado. e com a brandura deste som os ferros se tornavam menos duros e os corações mais fortes. O cativeiro e o tirano os oprimiam. que escreveram mais de seis anos antes daquele tempo. porque. e animado com a esperança da liberdade. e se será recebido e lido com o mesmo animo e afeto este nosso livro da História do Futuro. na décima sexta geração atenuada. Lia-se no juramento de El-Rei D. no tempo da sua Babilônia e do cativeiro e opressões com que tantas vezes se viu tão maltratado e apertado. sendo cativos. filii Joachim. nem Portugal nem o Mundo poderá ter outro alívio nem outra consolação maior que a freqüente lição e consideração deste livro e das profecias e promessas do futuro que nele se verão escritas. Levou este livro a Babilônia o Profeta Baruch. e nota o mesmo Baruch que todos com grande alvoroço corriam ao livro. os Profetas e as profecias os alentavam. poria Deus os olhos de sua misericórdia no Reino. nenhuma outra apelação tinha a sua dor. Cantavam-se as profecias ao som das cadeias. Ao menos não negará Portugal que. arrancados da pátria e levados a terras de bárbaros. que. Ordenou pois a providência e misericórdia divina. no meio destas opressões e perigos próprios. pudesse com o trabalho do cativeiro. determinando sinaladamente o ano da liberdade. nem outro alívio ou consolação a sua miséria. e anda no Texto Sagrado junta com as obras de Jeremias: Et legit Baruch verba libri hujus ad aures Jechoniae. antes mui lembrado do que padeciam os desterrados de Babilônia. mas sei que nos trabalhos calamidades e aflições que há-de padecer o Mundo e pode ser cheguem também a Portugal. que o tempo desejado havia de chegar. onde padeceu grandes trabalhos. em que por termos muito claros e palavras de grande consolação lhes anunciava a liberdade e o tempo dela. e lá oprimidos e tratados como escravos em duríssima servidão. escreveu um livro das suas profecias. Os quatro primeiros. Lia-se na carta e tradição de S. presos e. leu-se em presença de El-Rei Iconias e publicamente de todo o povo. para que o povo não desmaiasse com o peso da aflição. que profetizaram no tempo do cativeiro. companheiro de Jeremias. como se pode ver no cap. despojados de seus bens. Afonso Henriques e na promessa do santo ermitão. insistiram constantemente em que ele havia de ter fim. Bernardo que quando Deus alguma hora permitisse que o reino viesse a mãos e poder de rei estranho.Anexo:Imprimir/ História do Futuro profecias o cativeiro de Babilônia. uns que as tivessem escrito no tempo passado. houvesse muitos Profetas e muitas profecias. e outros que as pregassem no presente. não seria por espaço mais que de sessenta anos. nem depois visto) foi porque nunca o povo e reino de Judá padeceu tão grande trabalho e calamidade como o cativeiro ou transmigração de Babilônia. e do termo e fim do cativeiro que nelas se lia. mas que por misericórdia de Deus seria depois restituído à sua pátria. Assim o diz no primeiro capítulo da relação que fez desta jornada. profetizaram que o povo por seus pecados havia de ir cativo.

razão tenho eu (e razão sobre a experiência) para esperar e confirmar que o será também para os futuros. inspirasti mihi mysteria ejus. para todos lhes prometo este remédio: melhor é que sobejem os remédios à cautela. Assim o liam os cativos de Babilônia. João tivesse aquelas revelações e escrevesse aquelas profecias? É pergunta esta de que foi respondida Santa Brígida. as escreveram: para que se veja quão justa e quão útil é. ou do Mundo os que pode causar nele a necessidade ou a adversidade dos tempos..] ut consolarem omnes 1ugentes [. que foi S. a nas suas profecias. et ego scrpsi ad consolationem futurorum. diz Isaías. antes confirmados com as mesmas profecias. apareceu ali S. E assim como eles não tinham outro remédio na sua dor senão a esperança daquele desejado ano e a mudança daquela prometida coroa. por particular favor. diz com igual brandura e eloquência estas notáveis palavras: Spiritus Domini super me [. como se lê no Livro VI de suas Revelações.. E porque não pareça que argumento só de casos e profecias de tempos antigos. E declarando mais em particular os remédios cordiais que lhes aplicava. Eu não prometo nem espero infortúnios a Portugal. era uma coroa trocada pelas antigas cinzas. aliviávamos o peso do nosso jugo e consolávamos a pena do nosso cativeiro. Querendo Cristo. com que os lutos e tristezas passadas se convertessem em festas e alegrias: Et darem eis coronam pro cinere. me revelastes aqueles mistérios. E pois este remédio das profecias foi tão presente e eficaz para os trabalhos passados. e no concurso de todas estas profecias se consolava e animava Portugal a ir vivendo ou durando até ver o cumprimento delas. que a santa ouvisse a resposta da boca do mesmo Profeta... do que faltem à providência. «Desceu sobre mim o Senhor. Mas a que fim. curasse com o talento de minhas promessas e profecias. aponta nomeadamente dois que mais parecem receitados para o nosso cativeiro que para o de Babilônia: o primeiro. Este é o fim (posto que não só este) por que Deus revela as cousas futuras.. e o último de todos... a tristeza e desmaio de seus corações».. com os olhos longos no suspirado ano de quarenta e na esperada coroa do novo rei português.. e por que os Profetas antigos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro sinalado de quarenta. João e disse desta maneira: Tu. o segundo. estejam neles constantes. e ungiu-me com seu espírito. a diligência com que eu me disponho. annum placabilem Domino. sejam os casos e profecias próprias dos nossos tempos e escritas só para eles. era um ano de indulgência e redenção. João. Domine.] ut mederer contritis corde et praedicarem captivis indulgentiam [. em que o cativeiro se havia de acabar: Et praedicarem captivis indulgentiam. oleum gauudii pro luctu. ne fideles tui propter futuros casus everterentur: «Vós. Ninguém ignora que as profecias do Apocalipse e mais ainda as que estão por cumprir) são próprias dos tempos que hoje correm e hão-de parar no fim do Mundo.] et darem eis coronam pro cinere. e do alívio e consolação que com suas profecias haviam de ter em seus trabalhos aqueles cativos. e assim o líamos nós também nas nossas. Assim o dizem Padres e expositores. assim nós. mas ou sejam de Portugal. pergunto. Senhor. oleum gaudii pro luctu.] ut praedicarem annum placabilem Domino [. Falando no mesmo cativeiro de Babilônia o mesmo profeta Isaías. e quão conforme com a vontade e intento de Deus.. e eu escrevi as profecias deles para consolação dos vindouros e para que os vossos fiéis com os casos futuros se não perturbassem». e nós o mostraremos em seu próprio lugar. ordenou a Providência Divina que S. ou da Cristandade. para que como médico dos aflitos cativos de Babilônia. e o trabalho de escolher entre todas as profecias que pertencem a nossos 20 .

Costuma a Providência Divina começar suas maravilhas por efeitos contrários. se tiverem nas mãos as armas e no coração as profecias! Leo rugiet.Anexo:Imprimir/ História do Futuro tempos. sendo certo que. na segunda não lhos acudiu. o trovão de nossas profecias. ou para provar nossa fé. medidas só as forças da potência humana. que é faltar ao que tem prometido. digo assim com o profeta Amos: Leo rugiet. que não temerá Portugal que é o David que tantas vezes lhe tem tirado das garras os seus cordeiros. está. enfureçam-se os ventos. confie só no mesmo Deus e em suas promessas. as conquistas. de que Deus se não agrada. pratiquem-nas todos. rompa-se o céu. Oh! que bem armados esperarão o leão na campanha os nossos soldados. recorram a Deus e a suas promessas. porque são voz do Céu. nenhuma razão haveria no Mundo que se atrevesse a aconselhar. porque se não ofenda Deus. Leo rugiet.) por Padre Antônio Vieira 21 Finalmente (e é a terceira e não menor utilidade desta História). e de as ajuntar. as coroas e o domínio e sujeição de nações tantas e tão dilatadas. na fé e confiança das mesmas promessas se atreverão animosamente a empreendê-las. ou para mais exaltar sua onipotência. lendo. e quando na quarta. sem ter por fiador a palavra divina. Deixou Cristo aos discípulos lutar com a tempestade na primeira vigia. quis non timebit? «Quando bramir o leão. depois de os atemorizar com fantasmas. que Deus há-de acudir por sua palavra. que por isso nos tem prevenido com elas. pois agora é o tempo de se ouvirem as profecias e de se saber e publicar o que Deus tem dito: Dominus Deus locutus est. . de cujo som tremem os muros de Jericó e a cuja bateria nenhuma fortaleza resiste. que é o Sansão que tantas vezes o tem desqueixado. que lhes estão prometidas. aplicando o remédio à ferida ou aos ameaços dela. não perca Josué nem seus soldados o animo. ordenar e tirar à luz para o benefício público. e esta pode ser também a da arrogância. nem na terceira. que agora é o tempo. e mais particularmente aqueles que foram ou estão já escolhidas por Deus para instrumentos gloriosos de . Capítulo VI: Terceira utilidade. Mas se acaso (que pode ser) houver algum sucesso adverso (que também depois do milagre de Jericó houve nos campos de Hai). os triunfos. Não confie Portugal em si. Quando as bramidos do leão se ouvirem em suas caixas e trombetas. Assim lhes chamei. Escureça-se a noite.tão singulares maravilhas e maravilhosas felicidades. soe também em nossos ouvidos por cima de todas elas. quis non timebit? Dominus Deus locutus est quis non prophetabit ? Está o leão bramindo? Sim. no discurso da História do Futuro. Esta é a resposta do valor. Mas as promessas e as disposições divinas. que não temerá Portugal. quem não tremerá?» Responderão com razão os nossos soldados que não temerão aqueles que tantas vezes os têm vencido. quis non prophetabit? Falem todos nas profecias e entendam-nas todos. nem ainda temeridade que se arrojasse a empreender a desigualdade de tamanhas guerras e a desproporção de tão imensas conquistas. digo. E porque o fruto deste benefício se pode colher nas novidades que promete este mesmo ano em que. que é o Hércules que tantas vezes se tem vestido de seus despojos. os reinos. Ele pode mais que todos os poderes humanos. quis non prophetabit? Estas são as trombetas do Céu. e só uma cousa não pode. as vitórias. somos entrados. brame o mar. que não temerá Portugal. lendo os príncipes da Cristandade. seguro está o Reino em que ele e a palavra de Deus correm o mesmo perigo. História do Futuro (Volume I. e pelejará seguro. ainda então os repreendeu de pouca confiança. os socorreu com sua presença.

mas se não fora ajudado da profecia. quae est in littore maris. filho de el-rei Saul. pelas cisternas e por todos os outros lugares mais ocultos e secretos que . pelas grutas. cresce a confusão. . como são os vaticínios da Gentilidade. nem obrara e levara ao cabo o que obrou. A maior e mais nobre conquista que até hoje se intentou e conseguiu no Mundo.Neste estado de horror e miséria sai de noite o príncipe Jónatas. 22 . que só o acompanhava: Se quando formos sentidos do exército dos Filisteus. onde prognosticaram os Magos que naquele dia entrara no Mundo quem havia de ser o incêndio de toda Ásia. Também sei que a quem desatasse o nó gordiano que Alexandre cortou com a espada. porque os tem entregues em nossas mãos. prosseguiram seu caminho. avança animosamente às tendas dos Filisteus. As sentinelas que deram fé dos dois voltos. chegaram perto e foram sentidos. cuidando que eram os soldados de Saul. Tinham vindo sobre o povo de Israel os exércitos dos Filisteus com trinta mil carros de guerra e tanta multidão de soldados. seguem os Filisteus fugitivos.. plurima. Bem sei que no dia em que nasceu Alexandre. Fogem. estava prometido pelos oráculos de Apolo Délfico o império de todo o Oriente. mas não chamo eu a isto profecias. para porem em fugida o mais poderoso exército e alcançarem a mais desigual e prodigiosa vitória. tudo facilitam e a tudo animam. e que não convém acometer.sabe inventar o medo e a necessidade. concordando em que eram hebreus dos que estavam metidos pelas covas. falaram entre si. atropelam-se. nem ele se atrevera ao que se atreveu. matam-se. Para testemunho desta tão importante verdade e alento dos que a lerem.sicut arena. pela qual a Providência divina naquele tempo costumava responder e significar os sucessos futuros. Não foi necessário mais. que não só compara a Escritura Sagrada q número deles com o da areia do mar. disse assim ao seu pajem da lança. O homem que a empreendeu era o maior capitão que criou a natureza. formou o valor. aperfeiçoou a arte e acompanhou a fortuna. reconhecendo sua desigualdade para resistir a tão superior e excessivo poder. perturbam-se os arraiais. diz o mesmo texto que se tinham escondido pelas brenhas. trava-se uma brava peleja dos mesmos Filisteus uns contra os outros. pelas covas. ardeu o famosíssimo templo de Diana Efesina. disserem as sentinelas: — Esperai por nós — é sinal que responde Deus que paremos. a que os Hebreus chamavam Phurim. porei aqui um só exemplo de guerras. começa ele e o companheiro a matar nos inimigos. interpretando-a (como verdadeiramente era) conforme o sinal que tinha posto. Ajustados os sinais nesta forma. Saem das covas os Israelitas. foi a famosa de Alexandre Magno. e encaminhando para os alojamentos do inimigo. Conhecem-se enfim com imortal glória de Jónatas os autores de tão estupenda façanha. e voltam carregados de despojos. nem assento considerações e verdades tão sérias sobre fundamentos de tão pouca subsistência. mas um e outro os maiores que até hoje se viram no Mundo. e que havemos de prevalecer contra eles. levantaram a voz e disseram para eles: — Vinde cá.. que temos certa cousa que vos dizer. e na fé e confiança desta profecia. pelas montanhas. tendo por sem dúvida que havia de vencer.Anexo:Imprimir/ História do Futuro antecedentemente conhecidas na previsão do futuro. Os Israelitas. mas se as sentinelas disserem: — Vinde para cá — é sinal que responde Deus que acometamos. trata de consultar a Deus por um modo de oráculo ou sorte. bastando só dois homens armados da confiança de uma profecia. senão com a areia muita: . outro de conquistas. para que Jónatas entendesse a resposta do divino oráculo. toca-se arma.

onde prognosticaram os Magos que naquele dia entrara no Mundo quem havia de ser o incêndio de toda Ásia. Conhecem-se enfim com imortal glória de Jónatas os autores de tão estupenda façanha' bastando só dois homens armados da confiança de uma profecia. mas se não fora ajudado da profecia. toca-se arma cresce a confusão. seguem GS Filisteus fugitivos. sed confidenter transirem. formou o valor. cidade de Macedônia. começa ele e o: companheiro a matar nos inimigos. A maior e mais nobre conquista que até hoje se intentou e conseguiu no Mundo. e que Alexandre. habens visionis et probutionis nocturnae memoriam. que naquele tempo meditava. Saem das covas os Israelitas. no liv. respondeu que ele não adorara aquele homem. cujus principatus sacerdotii functus est. Bem sei que no dia em que nasceu Alexandre. mas não chamo eu a isto profecias. avança animosamente às tendas dos Filisteus.. revestido dos ornamentos pontificais. e que Alexandre. XI de suas Antigüidades. vendo-o. que entrando Alexandre em Jerusalém. o ornato e a representação em que Deus lhe tinha aparecido em Dio. Conta Josefo. Também sei que a quem desatasse o nó gordiano que Alexandre cortou com a espada. lhe segurara a vitória. e na fé e confiança desta profecia. interpretando-a (como verdadeiramente era) conforme o sinal que tinha posto. et Persarum traditurum potentiam: ideoque neminem alium in tali stola videns. incitavit me ut nequaqm negligerem. Propterea et 23 . entrando Alexandre em Jerusalém. e voltam carregados de despojos. que naquele tempo meditava. matam-se. e exortando-o a que empreendesse a conquista da Pérsia. tão alheia de sua grandeza e majestade. saiu a o receber fora do templo o sumo sacerdote Jado. As palavras de Alexandre (que é bem se veja a sua formalidade) são as seguintes: Non hunc adoravi. cujus principa desse a resposta do divino oráculo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Conta Josefo. perturbam-se os arraiais. e perguntado pela causa de tão desusada reverência. atropelam-se. revestido dos ornamentos pontificais. adhuc in Dio civitate Macedoniae constitutus. no liv. que. Fogem. porque reconhecera que aquele era o hábito. e exortando-o a que empreendesse a conquista da Pérsia. Nam per somnium in hujus modi eum habitu conspexi. sed Deum. XI de suas Antigüidades. lhe segurara a vitória. cum huc advertissem. tão alheia de sua grandeza e majestade. nem assento considerações e verdades tão sérias sobre fundamentos de tão pouca subsistência.. virtutemque solvisse Persarum. [. salutavi. tendo por sem dúvida que havia de vencer. saiu a o receber fora do templo D sumo sacerdote Jado. Dumque mecum cogitassem posse Asiam vincere. ardeu o famosíssimo templo de Diana Efesina. se lançara a seus pés e o adorara. nem ele se atrevera ao que se atreveu. se lançara a seus pés e o adorara. cidade de Macedônia. estava prometido pelos oráculos de Apolo Délfico o império de todo o Oriente. foi a famosa de Alexandre Magno. para porem em fugida o mais poderoso exército e alcançarem a mais desigual e prodigiosa vitória. porque reconhecera que aquele era o hábito. como são os vaticínios da Gentilidade. o ornato e a representação em que Deus lhe tinha aparecido em Dio. sed Deum. Nam per se ducturum meum exercitum dicebat. senão nele a Deus.] Exinde arbitrar Divino iuvamine me directum Dariumque vixisse. nem obrara e levara ao cabo o que obrou. e perguntado pela causa de tão desusada reverência. respondeu que ele não adorara aquele homem senão nele a Deus. vendo-o. aperfeiçoou a arte e acompanhou a fortuna. trava-se uma brava peleja dos mesmos Filisteus uns contra os outros. o homem que a empreendeu era o maior capitão que criou a natureza. cuidando que eram GS soldados de Saul. As palavras de Alexandre (que é bem se veja a sua formalidade) são as seguintes: — Non hunc adoravi.

o império dos Gregos. partiu Alexandre vitorioso para a conquista que lhe restava do mundo oriental. em obséquio e reconhecimento de sua potência. como refere Plutarco e o prova com graves autores. bastimentos só para trinta dias. que foram os quatro reinos em que ele o repartiu entre seus capitães. de Cartago Espanha. VII. pro ventura confido.. Em seguimento e confiança destas profecias. o qual sujeitou e uniu todo ao seu império. VIII. o maioral das ovelhas. que foi Alexandre. se tivesse visto a si mesmo melhor retratado nas profecias de Daniel. investiu. na segunda. refere também Josefo que foram mostradas a Alexandre as profecias de Daniel.] qui primus regnavit in Graecia. do que depois se viu nas estátuas de Lisipo nem nas pinturas de Apeles. se lhe mandaram sujeitar e entregar espontaneamente e entre elas os mesmos Romanos (nome já naquele: tempo famoso no Mundo). et interfecit reges terrae. animado e soprado do espírito das mesmas profecias e cheio da majestade delas. acabando de se cumprir a profecia na última batalha do Tigranes. Conta ali o profeta que viu dois animais do campo: um. et Darium regem Persarum et Medorum. como é autor Clitarco. particularmente aquela do cap. e depois de sua morte se dividiu em quatro. Mas como Alexandre. outro. e com setenta talentos para estipêndios. Sardenha. achou nela os embaixadores de África. derribou e meteu debaixo dos pés o império dos Persas e Medos. o maioral das cabras. que é a Macedônia. referida no cap. pela velocidade com que vencia e sujeitava tudo. antes de obrar todas estas maravilhas. as quais províncias. et accepit spolia mulitudinis gentium. Tudo certifica ainda com palavras maiores o mesmo Texto Sagrado no exórdio do I Liv. que eram então os últimos da terra de onde Hércules e o padre Líbero os tinham colocado. Gália. entrando da volta desta jornada em Babilônia. Saiu pois Alexandre da parte ocidental. o investira e derribara e metera debaixo dos pés. que no princípio esteve unido em uma só pesca. O terceiro era Alexandre. por isso tinha a testa dividida em dois cornos. Porém o que mais admira nas conquistas e vitórias de Alexandre. em que venceu e desbaratou de todo os exércitos de Dario e tomou ou se deixou saudar com o nome de Imperador da Ásia. e que este segundo animal. significava também o império de Alexandre. com que mereceu o nome e se fez verdadeiramente magno. II. porque. sem pôr os pés na terra.corde sperantur. passando o Tauro e o Cáucaso e chegando até os fins do Ganges e praias do mar Índico.percussit Alexander [. Nestas duas figuras é certo que estava profetizado. com um só corno entre os olhos (o qual depois de quebrado se dividiu em quatro). com dois cornos muito fortes. Mas foram ainda mais em número e grandeza as nações que venceu e sujeitou Alexandre com a fama mais que com a espada. et siluil terra in conspectu ejus. Na visão da estátua de Nabuco. é a desigualdade do poder e o limitado aparato de guerra com que entrou em tão imensa empresa. correndo da parte do Ocidente contra o primeiro. Não parou aqui Alexandre. saiu de Macedônia com menos de quarenta mil homens. porque não pararam aqui as profecias de Daniel na visão dos quatro animais referidos no cap.Anexo:Imprimir/ História do Futuro omnia quae meo. porque. não é muito que. que fazem da nossa moeda quarenta e dois mil cruzados. dos Macabeus.. No mesmo templo de Jerusalém. e sem pôr os pés na terra. Itália. constituit et praelia multa et oblinuit omnium munitiones. que era o bronze. o terceiro dos metais. e diz ali o Profeta que reinaria e se faria obedecer de todo o Mundo: Et regnum tertium aliud aereum. na primeira. se 24 . dizendo: . significado no leopardo com quatro asas.. III da História Natural. referido e louvado por Plínio no liv. pertransiit usque ad fines terrae. quod imperabit universae terrae.. o império dos Persas e Medos (como explicou o anjo a Daniel). Sicília.

e ao mesmo Deus por fiador de sua palavra e promessas. Na manhã. Tanta parte teve a profecia nas ações deste grande capitão e no império deste grande monarca.:> Que dissera. Alphonse. aditoque Oceano. acomete de fronte a fronte ao inimigo. quidquid mortalitas cutiebut. E de aqui se pode desculpar (cousa que não soube nem pôde advertir nenhum dos historiadores de Alexandre. cativa.Oriente perdomito. cumpriu e encheu Alexandre tudo o que cabia na mortalidade. Quem duvida que foram mais estendidas e gloriosas as conquistas dos Portugueses que as de Alexandre Magno na mesma Índia? Desta conquista de Alexandre disse o seu grande historiador . Não chegaram os Portugueses só às ribeiras do Ganges. indigna de um general prudente e muito mais de um rei. lhe assegurou da parte de Deus a vitória.Anexo:Imprimir/ História do Futuro atrevesse a tão árduas e dificultosas empresas. 25 . fé era e não audácia. sendo a confiança ou o seguro de todos estes arrojamentos. e alcançada na mesma hora a vitória. a portuguesa. já rei. da mesma noite em que tinha recebido a profecia. deve a Daniel o ser Magno! Os exemplos que temos domésticos desta mesma utilidade. desbarata o exército.. que para cada lança cristã havia no campo cem mouros. com que Alexandre empenhava sua pessoa e vida e se precipitava muitas vezes aos perigos por cousas leves. donde Alexandre tinha saído. pisa glorioso as cinco coroas mauritanas e põe na cabeça. triunfa. et non vinceris — socorrido o animoso capitão e fortalecido o pequeno exército com esta promessa do Céu. mas ainda mostraram mais os poderes de sua influência na conquista. o qual.. não são menos admiráveis que os estranhos. como Alexandre. sustenta quatro vezes o peso imenso de todo seu poder. se vira as navegações dos Portugueses no mesmo Oceano e suas conquistas no mesmo Oriente? Obrigação tinha em boa conseqüência de lhes chamar imortais. com aquelas tão expressas e animosas palavras Vinces. e havia necessariamente de conquistar. não o domínio que ele tivesse sobre a fortuna — Quam solus omnium mortalium sub potestate habuit — como com discrição gentílica disse dele Cúrcio. despoja. E como tinha a vida e as empresas firmadas por uma escritura de Deus ou por três escrituras. e libertada a Pátria. sendo tantos e tão excelentes). resolveu intrepidamente dar a batalha. e seu valoroso príncipe duvidoso se aceitaria ou não a batalha. mas a previsão e presciência de suas futuras vitórias e do império que lhe estava prometido. mata. confiança e não temeridade empenhar-se Alexandre nos perigos para conseguir as empresas. pois. Isto obraram as profecias daquela noite na guerra. se pode desculpar aquela mais temeridade que audácia (qualidade. das quais justamente se duvida (como pôs em questão Justino) se foi maior façanha o intentá-las. rende. se deve a Filipe o ser Alexandre. conforme as profecias de Daniel. digo. inundaram os campos de Guadiana com intento de tomar Portugal naquele dia fatalíssimo. mas como o velho ermitão. de aqui. intérprete da Divina Providência. Era tão inumerável a multidão de Sarracenos que debaixo das luas de Ismael. posto que honrosa. mas passaram e penetraram adiante muito maior comprimento e terras do que há do mesmo Ganges a Macedônia. o primeiro de nossa maior fortuna. e dar exemplo de desprezo da vida a seus soldados para os animar às vitórias. assim nas batalhas. rompe os esquadrões. como nas conquistas. «Domado o Oriente e navegado o Oceano. ou vencê-las. visto primeiro em sonhos e depois realmente ouvido e conhecido. impleret. quando conquista o alheio e não defende o próprio). e dos outros quatro reis mouros. que justamente estavam temerosos os poucos portugueses. sem reparar em que era tão desigual o partido.

seguindo seu exemplo e empresa. sobre todos. que mortes não sofreram e suportaram. mais poderoso e mais indômito: o Atlântico. nos ganhou com sua constância as conquistas. Quem quiser ver com admiração a tormenta de contradições populares . o Malabárico. e mais fortes guerras experimentaram nos naturais que resistência nos inimigos. que mares. sem parar. e esta esperança a âncora e amarra firme. o Sínico. Maiores contrastes tiveram ainda as conquistas de Portugal na nossa terra que nas estranhas. o Pérsico. Com este oráculo divino mais fortalecido o espírito do Infante. com mais pertinácia que com instancia? Mas não obraram todas estas proezas aqueles portugueses famosos por benefício só de seu valor. mas domaram o mesmo Oceano na sua maior largueza e profundidade. vencidas as primeiras e maiores dificuldades. que nas mais desfeitas tempestades os tinha seguros. mas sujeitaram e fizeram tributárias mais coroas e mais reinos do que Poro tinha cidades. Ásia. Desta maneira o Infante D. e de todo o Reino. que sedes. com promessa de seu favor e luz dos gloriosíssimos fins. Henrique. sem ceder. não só pôde romper e abrir as portas tão cerradas do Oceano e deixá-las francas e patentes aos que depois vieram. o qual. leia o grande cronista da Ásia. o Etiópico. que vigias. João I. posto que muito a devamos à ousadia do nosso valor. Finalmente. que por meio de tão dura porfia se haviam de alcançar. Não navegaram só o mar Indico ou Eritreu. que não pudera conseguir sem o socorro da luz do Céu. e contrastando com igual fortaleza o indômito furor do segundo e quarto elemento (que são o mar e o fogo). Henrique. como levantar-se contra o mais poderoso monarca do Mundo. que tormentas. senão pela confiança e seguro de suas profecias. insistindo sempre e indo avante. Que valor sesudo. América. Que perigos não desprezaram? Que dificuldades não venceram? Que terras. muito mais a deve o nosso valor à confiança de nossos vatícinios. mereceu que o mesmo Deus com uma voz do Céu o exortasse a levar por diante o começado. que ventos. e conhecerá quantas obrigações deve Portugal e o Mundo ao sofrimento. que será sempre de feliz memória.. Assim se conta e escreve por fama e tradição daquele tempo. conquistando-as primeiro em Portugal. para que até nesta parte deva Portugal as suas conquistas aos lumes e alentos da profecia. que climas. Sabiam que tinha Cristo prometido a seu primeiro rei que os escolhera para argonautas apostólicos de seu Evangelho e para levarem seu nome e fundarem seu império entre gentes remotas e não conhecidas. aonde ele é mais bravo e mais pujante. que promontórios não contrastaram? Que gentes feras e belicosas não domaram? Que cidades e castelos fortes na terra? Que armadas poderosíssimas no mar não renderam? Que trabalhos. esta última resolução que no ano de quarenta assombrou o Mundo. rei da Índia. no IV cap. que calores. e seus exércitos. a levaram ao cabo. e nela principalmente pretendia a glória de Deus. dilatação da Fé e conversão da Gentilidade. mas dar animo. do que fossem conquistadas na África. animado nas contradições e contrariedades presentes com o conhecimento e certeza dos sucessos futuros. e esta fé os animava nos trabalhos. sem tornar atrás. autor desta heróica empresa. tão temeroso por seus tulões e tão infame por seus naufrágios. e. que é um seio ou braço do Oceano. que por espaço de dez anos padeceram os primeiros descobrimentos das conquistas. que doenças. que frios. não longe senão dentro de 26 .Anexo:Imprimir/ História do Futuro Não venceram só a Poro. guia e esperança aos que. e aclamar novo rei. que céus. do I liv. valor e constância do Infante D. esta confiança os sustentava nos perigos. prudente e bem aconselhado se havia de atrever a uma empresa tão cercada de dificuldades. e restituir-se à sua liberdade. filho de El-Rei D. esta luz do futuro era o norte que os guiava. valor. como religiosíssimo príncipe que era. que fomes.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro Espanha. tome os compassos a Portugal e ao Mundo. em que o novo rei seria levantado. fundada pelos Apóstolos. se estendesse por seus sucessores em todo o Mundo. revelari oportuit — diz Primásio — qualiter esset latius propaganda. pauci multos. quando recebeu a coroa. dizendo e publicando a todos que o desejado tempo dela havia de chegar no ano felicíssimo de quarenta. pois tudo o que tínhamos vencido e conquistado em quinhentos anos. a levantou a seu tempo nas vozes. nem mais elegantemente. sobre sessenta anos de cativo e despojado. o Reino à Pátria. quando lhe acrescentou as conquistas. sem armas. o pudemos restaurar um dia. Quis Deus que a Igreja. para que não duvidassem cometer as batalhas: Post exortum autem Ecolesiae. tão poderoso contra todos os impossíveis o conhecimento e fé do que há-de ser representado no espelho das profecias. se não vença. sem estimação. e pergunte-se a si mesmo se se atreve a igualar estes paralelos. nenhuma tão armada de perigos. hujus cognitionis fidutia freti. e ela foi a que deu o rei ao Reino. se debaixo desta fé cresceu. a promessa que sempre a conservou nos corações. e a saudade do rei. e quais foram as armas com que Deus os fortaleceu para que não temessem ou duvidassem a empresa e se dispusessem animosamente a tão estranha conquista? Advertiu com profundo juízo Primásio que fora o Apocalipse de S. e Portugal a si mesmo. sem aliados. contra tantos armados arrogantes. sem socorros. É porém. E se tanto tem valido e importado a Portugal o conhecimento de seus futuros. Segurou-lhes Deus as vitórias. porque. inermes armatos. que debaixo do escudo desta confiança se não intente. que nos tempos que hão-de vir (ou que já vêm) o esperam! Não se poderá compreender a grandeza e capacidade desta importância senão depois de lida toda a História do Futuro. e este seja entre todos o maior exemplo. nem mais certa. em todos os casos maiores que podem acontecer a um reino. e muito maiores. se não prossiga. que é o seu reino. sem poder. um reino de grandeza tão desigual. quae jam fuerat apostolorum praedicatione funduta. Da conquista espiritual do Mundo se pode fazer bom argumento para a temporal. só porque no conhecimento das profecias tinham segura a 27 . alentados das promessas do Céu. assim das nossas guerras como das nossas conquistas. nenhuma tão defendida de dificuldades. vivi tamen spiritualiter mortuos. sem assistências. só e até de si mesmo dividido em tão distantes partes do Mundo? Mas como havia outros tantos anos que a profecia estava dando brados aos corações. e quanto mais útil e importante esta mesma fé e conhecimento de seus futuros sucessos para aquelas empresas novas. vel quali etiam fine contenta. Em todas as outras considerações foi mais desigual esta empresa que as que eu prometo ou hei-de prometer. lendo os soldados evangélicos naquelas profecias quão largamente se havia de propagar a mesma Igreja e quão prodigiosas vitórias havia de alcançar a Fé contra todos os inimigos. humiles superbos. Não se pode dizer. que nenhuma empresa pode haver tão desigual. quando as restituiu a elas e se restituiu a si mesmo. este mesmo conhecimento os animava a quererem ser (como foram) os instrumentos gloriosos delas. sem soldados. João. sem nobreza. se exceptuarmos a desproporção de poucos a muitos. oh! quanto mais necessário lhe será a Portugal. Mas quem quiser desde logo fazer de algum modo a conjectura desta desproporção. e se a esta se atreveram poucos homens sem armas. na qual só se medirá bem a imensidade do objeto com a desigualdade do instrumento. a Pátria aos Portugueses. se debaixo desta fé se restaurou. se não avance. e o zelo da liberdade. sem amigos. pois é mais forte a guerra e mais dura resistência a dos entendimentos que a dos braços. em que nunca se apagou o amor da Pátria. se debaixo desta fé nasceu. nobres e poderosos. indubitanter aggrederentur pauci multos. ut praedicatores veritatis. infirmi nobiles.

confiança e valor o peito que fosse coberto e defendido com ela. que era a maior e principal peça delas. Aeneid . mãe de Eneias. para conquistar as mais belicosas nações e para fundar o mais poderoso e dilatado império.. ainda que sejam poucos contra muitos? E digo na confiança das mesmas profecias. que para vencer as mais dificultosas empresas. em que todas as adversidades e golpes do Mundo se sustentam. senão 28 . . Forjou Vulcano as armas. nem mais impenetrável. as armas se ilustram com a nobreza e a nobreza compete com a estimação e com a fama. senão escudo da presciência . ) O ofício e obrigação dos poetas não é dizerem as cousas como foram. e este mesmo escudo. e achou o mais levantado e judicioso espírito de quantos escreveram em estilo poético. diz que abriu de subtilíssima escultura as histórias futuras das guerras e triunfos romanos. que um escudo formado por arte e sabedoria divina. que pelos fados lhe estava prometido.Clypei non enarrabile textum Illic res Italas. Lerão os Portugueses. porque uma boa parte da nossa História (como veremos em seu lugar) são as do mesmo Apocalipse. aqueles em quem o poder se iguala com as armas. e todos os que lhes quiserem ser companheiros. que perigos que não pisem. não fabuloso. no qual estivessem entalhados e descritos os mesmos sucessos futuros que se haviam de obrar naquela empresa. e que golpes nos pode atirar com todas as forças de seu poder.praescientia. Assim armou o grande poeta ao seu Enéias . com que vencesse os reis e sujeitasse as nações belicosíssimas que a dominavam. que perigos nos pode oferecer o mar. Fecerat igni potens: illic genus omne futurae Stirpis ab Ascanio. purgnataque ordine bella. com que vitorioso fundasse naquelas terras o famosíssimo Império Romano. e no escudo. (Virgílio. si contra haec per prtescientiae clypeum munimur. nenhuma arma poderia haver mais forte. nem que mais enchesse de ânimo. Haud vatum ignarus. nem aceite as mais arriscadas batalhas. e na confiança das mesmas profecias. clypeum? Armados com este escudo. que dificuldades que não desprezem. que impossíveis que não vençam? Ao conhecimento antecedente dos futuros chamou discretamente S. que trabalhos. que não sustentemos nele com animosa constância? Quem haverá que debaixo deste escudo não empreenda as mais dificultosas conquistas. posta toda a confiança em Deus e em sua palavra. a terra e o Mundo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro felicidade e fim da empresa. romanotumque triumphos. com que entrasse armado na dificultosíssima conquista de Itália. Gregório escudo fortíssimo da presciência. se as empresas no mesmo escudo vão já resolutas. venturique inscius aevi. este prodigioso livro do futuro. e com ele embraçado em uma mão e a espada na outra. mas pintarem-nas como haviam de ser ou como era bem que fossem. compondo e copiando os sucessos pelos oráculos e vaticínios dos profetas e pelas notícias próprias que tinha. se reparam e se rebatem: Et nos tolerabilius mundi mula suscipmus. ao deus Vulcano lhe fabricasse umas armas divinas. Que vem a ser esta nossa História do Futuro. as batalhas vão já vencidas e os inimigos já triunfados? Fingiu o príncipe dos poetas latinos. que conquista haverá que não empreendam. e não vença e triunfe dos mais poderosos inimigos. 8. porque se não atreverão à mesma empresa. que pediu Vênus. como um dos deuses que era participante dos segredos do supremo Júpiter..

Anexo:Imprimir/ História do Futuro verdadeiro. se. que Deus é o que desuniu de sua sujeição a Portugal. é propriamente. para o não serem) lerão aqui com boa conjectura as promessas e decretos divinos. antevendo o que hão-de obrar. para que. o discurso militar e político. suponha-se que Deus é o que dá e tira os reinos. para que em tudo lhe seja semelhante. quantas despesas. chamavam-lhe por zombaria rei de um Inverno. Dobrado de sete lâminas dizem que era aquele escudo. Bem pudera conhecer Espanha.) por Padre Antônio Vieira 29 Entre as utilidades próprias a dos amigos. Nele verão os capitães de Portugal. que não duraria a fantasia do nome mais que até a primeira Primavera. Duarte atava as mãos a Portugal e lhe tirava a cabeça com que haviam de ser governados na guerra. Capítulo VII: Última utilidade. em que inundações do Bétis e Guadiana não afogaram a Portugal. ceda-se e obedeça-se a Deus por conveniência. em que a fama só de suas armas nos conquistasse. pela experiência. quiserem antes ser companheiros de nossas felicidades. quantos trabalhos. para que o sejam. um manifesto desengano de sua profecia. a vingança. o apetite e o ódio. e sem ficção. é publicado em sete livros. não quero deixar de advertir por fim delas. o que nesta História do Futuro ofereço. senão escritos antes de sucederem. ao nosso rei. sem conselho. parecendo-lhes aos senhores Castelhanos. Portugueses. e não fingidos depois de experimentados os sucessos. e Deus o que o sustenta desunido e o conserva vitorioso. conhecendo que na guerra que continuam contra Portugal. deixada a dissonância e escândalo deste nome. com estas cópias de morte-cor diante dos olhos. como e quando é servido. e vinte e quatro Primaveras. pois se lhe não pode resistir com força. e com tanto zelo e desejo de acertar com os caminhos de seu maior bem. o que hão-de resolver. História do Futuro (Volume I. e depois de averiguada e conhecida. conheça-se e examine-se a sua vontade pelos meios com que ela se costuma declarar. Imaginou Espanha que na prisão do Infante D. quanto sangue e perda de vidas. quantas lágrimas e opressão de naturais e estrangeiros podia escusar Espanha. retratem por elas vivamente os originais. se quiserem abrir os olhos. quisesse ler esta História do Futuro. como é o animo com que ele se escreve! Não entre só nos conselhos de Estado a conveniência e reputação. o que hão-de conquistar. e o que hão-de ser. sem batalha. se. tenha também algum dia lugar neles a Fé. o que hão-de vencer. que também a lição desta História pode ser igualmente útil e proveitosa aos inimigos. em que sabem muito bem os campos de uma e outra parte o sangue de que mais vezes ficaram matizados. havendo tantas razões. Oh quantos danos. provada a verdade dos futuros com a experiência dos passados: e verão. como em espelho. Lerão aqui nossos vizinhos e confinantes (que muito a pesar meu sou forçado alguma vez a lhes chamar inimigos. com os olhos limpos de toda a paixão e afeto. para que o obrem. Sobre tudo se verão nele a si mesmos e suas valorosas ações. e que com os muros de Milão tinha . ainda da mesma natureza. e também o da nossa História. Quando se soube em Madrid do rei que tinham aclamado os Portugueses no primeiro de Dezembro do ano de 640. voltando os olhos ao passado. Mas são já passados vinte e cinco Invernos. e sem resistência. pelejam contra as disposições do supremo poder e combatem contra a firmeza de sua palavra. que padecê-las dobradamente na dor e inveja dos êmulos.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro sitiado a Portugal. Morreu enfim (ou foi morto) aquele príncipe, e nem por isso desmaiou o Reino, antes se armou de novo a justiça de sua causa com a sentença daquela inocência, e se endureceram e fortificaram mais os peitos com o horror e fealdade daquele exemplo. Voltou-se todo o peso da guerra contra Saul; maquinou-se contra a vida de El-Rei Dom João por tantos meios e instrumentos (e algum deles sobre indecente sacrilégio); parecia-lhe a Castela que, faltando a Portugal aquela grande alma, seria fácil a suas águias empolgarem no cadáver do Reino. Faltou El-Rei D. João ao Reino, sobre ter faltado de antes seu primogênito Teodósio, príncipe de tantas virtudes, opinião e esperanças; mas viu o Mundo, posto que o não quis ver Castela, que era o braço imortal o que defendia e conservava aos Portugueses. Sucedeu na menoridade do rei com tanta prudência e valor a regência da rainha-mãe, e à regência da rainha o governo felicíssimo de El-Rei D. Afonso, que Deus guarde, monarca de tão conhecida fortuna, que parece a traz a soldo nos exércitos. Fez Castela neste tempo os maiores esforços de seu poder, e para os poder fazer maiores, assim como por esta causa tinha já concluído ou comprado, a preço da própria reputação, a paz de Holanda, ajustou também a de França . Desembaraçadas em toda a parte as suas armas, chamou os espíritos de todo o corpo da monarquia aos dois braços com que Castela cerca a Portugal. Viram-se juntas contra ele em um exército Espanha, Alemanha, Itália, Flandres, com toda a flor militar, ciência e valor daquelas belicosas nações. Mas que resultas foram as desta tão estrondosa potência e dos progressos que com ela se tinham ameaçado a nós e prometido a Europa? Entrou a guerra dividida no ano de 62 por todas nossas províncias; em todas achou oposição igual e efeito superior. Uniu-se no ano seguinte com novo conselho o poder; acrescentou-se de gente de cavalos , de cabos, de aparatos bélicos ; escolheu-se para teatro daquela formidável campanha a província de Alentejo; começou a tragédia com prósperos e alegres passos, triunfando dos que não podiam resistir às armas castelhanas; mas o fim foi tão adverso, tão lastimoso e verdadeiramente trágico, como viu com admiração o Mundo e chorará eternamente Castela. Perdeu a batalha, o exército e a reputação; deixou a Portugal a vitória, a fama, os despojos, e só levou (como sempre) o desengano. Estes têm sido em vinte e cinco anos os efeitos do poder. Passemos aos da indústria. Entendeu Castela que não podia conquistar a Portugal sem Portugal; tratou de inclinar à sua devoção os grandes e os menores. Na constância houve diferença, mas nos efeitos nenhuma. O povo, cuja fortuna é inalterável, não padeceu alteração. Sendo tão livre e aberto em Portugal o mar como a terra, se não viu em tantos anos nenhum pastor que se passasse a Castela com duas ovelhas, nenhum pescador menos venturoso que aos seus portos derrotasse uma barca. Basta por exemplo ou desengano a famosa resolução do povo de Olivença , que com partido de poder ficar inteiro com casas e fazendas, se não achou em todo ele um só homem de espírito tão humilde, que aceitasse a sujeição. Perderam todos a Pátria pela lealdade, triunfou Castela das paredes e Portugal dos corações. Não viu Roma semelhante exemplo, e assim o celebrou um Jerônimo Petrucho poeta romano, com este epitáfio: Victor uterque manet, victoria dividit orbem: Alphonsus cives, saxa Philippus habet. Ainda deu muito a Castela em partir a vitória pelo meio: o vencedor conquistou pedras o vencido vassalos. De indústria se pudera perder á praça, só por lograr a fineza; e de indústria se pudera também não ganhar, só por não experimentar o desengano. Isto vence

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro Castela, quando vence. e assim se rende o povo de Portugal, quando se rende. A nobreza, em que tem maiores poderes o receio ou a esperança, como mais escrava da fortuna, não foi toda constante. Alguns grandes houve entre os grandes, uns que se passaram ao serviço de El-Rei D. Filipe, outros que com maior ousadia o quiseram servir em Portugal; a uns e outros castigou o mesmo braço da Providência, a estes com a vida, àqueles com o desterro. Até agora não tiveram outro prêmio, nem mereciam outro, porque Castela nem pode ressuscitar os primeiros, nem quis pagar os segundos. É fama que foi respondido à sua queixa que tinham feito o que deviam, mas ainda devem o que fizeram: cá perderam o que tinham, lá não ganharam o que esperavam; entre os Portugueses réus, entre os Castelhanos portugueses, que também é culpa. Isto é o que foram buscar a Castela todos os que lá se passaram — o desengano de seu discurso, o descrédito de sua resolução e o castigo de sua incredulidade; e ainda de lá nos mandam o exemplo de seu arrependimento. Levaram o que nos não faz falta, porque se levaram; e deixaram o que nos ajuda a defender, porque nos deixaram as suas rendas. A Portugal deixaram os despojos de suas casas, aos vindouros a memória de sua infidelidade e ao Mundo pregão de sua covardia. Tal foi o merecimento, tal o prêmio. Julgue agora Castela se terá esse interesse cobiçosos e este empenho imitadores. Dizia um dos primeiros embaixadores de Portugal em França (quando ainda havia quem impugnasse a esperança da nossa conservação), que, no caso em que a desgraça fosse tanta, antes se havia de entregar ao Turco que a Castela. Era o embaixador ministro de letras, e como um grande senhor francês lhe pedisse a razão deste seu dito, sendo católico e letrado, respondeu assim: -Porque eu em Turquia, se defender a Fé, serei mártir; se renegar, far-me-ão baxá: e em Castela Monsieur, nem baxá nem mártir. Foi muito celebrada a discrição da resposta, a que acrescentava galantaria a mesma pessoa do embaixador; porque era mui avultado de presença e tão bem lhe podia estar na cabeça o turbante, como na mão a palma. Nada mais venturosamente lhe sucederam a Castela as indústrias estrangeiras que as domésticas. todas desarmou em armas contra si mesma. Em Roma, impediu o provimento das mitras. mas os bagos se converteram em lanças e o que haviam de comer os pastores das ovelhas, comem os que as defendem dos lobos. Em Holanda, comprou os estorvos da paz, mas esta se retardou somente quando foi necessário para se recuperarem as Conquistas. Caso grande e de providência admirável! Em Inglaterra, se empenhou por divertir o parentesco; em França, capitulou que não pudéssemos ser socorridos. mas teve uma e outra diligência tão contrários efeitos, que se vêem hoje em Portugal as suas quinas tão acompanhadas das cruzes de Inglaterra, como assistida das lises de França. Unidas e complicadas estas três bandeiras, fazem um silogismo político, de tão segura como terrível conseqüência. Se só Portugal pôde resistir a Castela tantos anos, ajudado dos dois reinos mais poderosos da Europa, no mar e na terra, como não resistirá? O maior contrário que tem Espanha é o seu próprio poder. Quando se quis levantar sobre todos, se sujeitou à emulação de todos. Estes terá por si Portugal, enquanto ela for poderosa; se o não for, não os há mister. Os discursos da esperança (que é a última apelação de Castela) são os que mais lhe mentiram, porque os homens (quando assim lho concedamos) discorrem com a razão, e Deus obra sobre; ela. Todos os que nas matérias de Portugal se governaram pelo discurso, erraram e se perderam; e por aqui se perderam (ainda entre nós) os que na opinião dos homens eram de maior juízo. São obras e mistérios de Deus; quer Ele que se venerem com

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro a fé e não se profanem com o discurso. Por isso todas as esperanças que se assentaram sobre esta fé foram certas e todas as que se fundaram sobre o discurso, erradas. É natureza isto, e não milagre da palavra e promessa divinas: ...in verba tua super superavi — dizia aquele grande político de Deus, que não só esperava, mas sobreesperava nas promessas de sua palavra divina; porque há-de esperar nas promessas da palavra divina, sobre tudo o que promete a esperança do discurso humano. Assim o temos sempre visto em Portugal, com admirável crédito da fé e igual confusão da incredulidade. No tempo em que Portugal estava sujeito a Castela, nunca as forças juntas de ambas as coroas puderam resistir a Holanda; e de aqui inferia e esperava o discurso que muito menos poderia prevalecer só Portugal contra Holanda e contra Castela. Mas enganou-se o discurso. De Castela defendeu Portugal o Reino e de Holanda recuperou as Conquistas. Aquele fatal Pernambuco, sobre que tantas armadas se perderam e se perderam tantos generais, por não quererem aceitar a empresa sem competente exército, que discurso podia imaginar que, sem exército e sem armada, se restaurasse? E só com a vista fantástica de uma frota mercantil se rendeu Pernambuco em cinco dias, tendo-se conquistado pelos Holandeses com tanto sangue em dez anos, e conservando-se vinte e quatro. Menos esperava o discurso que se conquistasse Angola com tão desigual poder enviado a tão diferente fim; e conquistou-se contudo aquela tão importante parte de África contra todo o discurso e antes de toda a esperança. E porque se saiba mais distintamente quão grandes significações se contêm debaixo destes nomes tão pequenos — Pernambuco e Angola — o que se recuperou em Angola foram duas cidades, dois reinos, sete fortalezas, três conquistas a vassalagem de muitos reis e o riquíssimo comércio de África e América. Em Pernambuco recuperaram-se três cidades, oito vilas, catorze fortalezas, quatro capitanias, trezentas léguas de costa. Desafogou-se o Brasil, franquearam-se seus portos e mares, libertaram-se seus comércios, seguraram-se seus tesouros. Ambas estas empresas se venceram e todas estas terras se conquistaram em menos de nove dias, sendo necessário muitos meses só para se andarem. Quem nestes dois sucessos não reconhecer a força do braço de Deus, duvidar-se pode se o conhece. Assim assiste a Portugal dentro e fora, ao perto e ao longe, aquele supremo Senhor que está em toda a parte e que em todas as do Mundo o plantou e quer conservar. Bendita seja para sempre sua onipotência e bondade! Também esperava o discurso de Castela que os ânimos dos Portugueses, com a continuação da guerra e experiência de suas moléstias, se enfastiassem e suspirassem pela antiga e amada paz, cujo nome é tão doce e natural, e mais à vista de seu contrário; que as contribuições forçosas para o subsídio dos soldados e a licença e opressão dos mesmos soldados fossem carga intolerável aos povos; que os povos, depois de apagados aqueles primeiros fervores que traz consigo o desejo e alvoroço da novidade, com o tempo e seus acidentes se fossem entibiando, até se esfriarem de todo; que os pais se cansassem de dar os filhos e que a guerra detestada das mães (como lhe chamou o Lírico) fosse também detestada e aborrecida das Portuguesas, que, entre as outras mães, o costumam ser mais que todas no amor e na saudade. Mas também aqui mentiu a esperança e se enganou o discurso, porque os ânimos se acham hoje mais alentados, os fervores mais vivos, os corações mais resolutos, o amor ao rei, à Pátria e à Liberdade mais forte, mais firme e mais constante, e maior que todos os outros afetos da fazenda, dos filhos, da vida. Lembram-se os pais que davam os filhos para as guerras de Flandres, de Itália, de Catalunha e navegação das Índias de Castela, onde os perdiam para sempre; e querem

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para o prêmio do serviço. os assistem e os têm consigo. e que concorrem com ele para o estabelecimento e honra de sua Pátria.Anexo:Imprimir/ História do Futuro antes dá-los para as fronteiras de Portugal. que os ouve e lhes responde. se havia lentamente de diminuir. do que eles em Portugal para se defenderem. para o alívio da queixa. e ficaria oprimido e sepultado debaixo de seu próprio triunfo. sem mais diligência nem ação que o mesmo peso e grandeza de tão imenso contrário. e toda a mudança impossível. e que o têm consigo e junto a si para o requerimento da justiça. e que. honrando-se (como é razão) de serem pais de tais filhos. e o que só pode esperar dos ânimos dos Portugueses. E por tal julgaram ainda aqueles políticos que sem ódio nem amor esperavam e prognosticavam o fim e mediam a desproporção de tão desigual empresa. Isto é o que só tem Castela. 33 . Têm na memória que também antigamente pagavam. e antes da experiência mui dificultosa solução. toda a promessa. do que os parem e criam para ela. que os entende e o entendem. onde recebem a glória de ouvir celebrar as ações de seu valor e feitos galhardos. tão viva e tão multiplicada em tantas províncias. contra os combates de uma potência tão desigual e superior como era a do maior monarca do Mundo. e que então era tributo do cativeiro o que hoje é preço da liberdade. toda a conveniência. Conhecem a grandeza desta estimável felicidade. que a gente. e não entrando na conta desta aritmética o poder e assistência de Deus. todo o perigo obrigação. Pelo contrário. rei que os vê e se deixa ver. humana ou gentilicamente considerado. sendo toda da mesma Nação. sem a dura e insuportável pensão de o irem buscar a Madrid. seria sobre ele. e todo o preço para a conservação de tanto bem lhos parece barato todo o trabalho leve toda a dificuldade suave. natural e necessariamente se havia de atenuar e enfraquecer. que os conhece e lhes sabe o nome. havendo de sustentar as guerras e oposição de seus inimigos em todos eles. Os povos não se cansam com os subsídios e contribuições. Vêem o fruto de seus trabalhos e suores. e não para a cobiça de ministros e exatores estranhos. que com igual alegria os choram e sepultam mortos gloriosamente na guerra. sendo tão generosas as mães (nas quais este afeto é superior a toda a natureza). porque sabem quanto maiores e mais pesadas são as que se pagam em Castela para os conquistar. que o dinheiro e cabedais. com obrigação de alimentar aqueles membros tão distantes com sua própria substância. tinha mui forçosa conseqüência. tão contínua. têm mostrado que só era sofístico e aparente. todo o pensamento que não seja desta perpetuidade. não para o verem e lhe falarem. se havia de esgotar. se morrem na guerra. onde os vêem. cercado dela por todas as partes. que quando o valor dos Portugueses se atrevesse sobre suas forças. têm rei que lhes pague as vidas com larga remuneração de mercês e aumento de suas casas. esperava o discurso que Portugal. Verdadeiramente este discurso. sobretudo vêem a seu rei da sua Nação e da sua Língua. e que não era possível aturar por muitos anos as despesas excessivas de uma guerra interior. aquele discurso. horror. seria como o de Eleázaro contra a grandeza e corpulência do elefante. mas para o verem por fé. que. traição. como Reino menor e dividido em todas as partes do Mundo. não tendo minas nem Potosis. e que logram aquele estado ditoso de que se lembravam e falavam seus avós com tanta saudade e por que suspiravam seus pais com tantas ânsias. para o remédio da opressão. Mas Deus (a quem não queremos roubar a glória) e a mesma experiência natural e o concurso ordinário de suas causas. ainda caindo. ruína. e vêem estampados seus nomes e estendida por todo o Mundo sua fama. Finalmente. e em realidade falso.

só para se lavrarem outras de novo. com o tempo c continuação da guerra. que no seguinte se não excedesse na bizarria e nas galas. que tudo quebranta e diminui. tanta família. riqueza e galhardia dos cabos mostra bem que vão às batalhas como a festas. onde sobeja e se dispende tanto com o supérfluo? Mais temo eu a Portugal os perigos da opulência. mais preciosas e de mais polido artifício? Tudo isto do que sobeja da guerra. nunca tanto no asseio e ornamento das casas. e estas são as minas do nosso Reino. com que se acha Portugal mais rico e abundante que nunca das utilíssimas drogas de seus comércios. Passo em silêncio os imensos gastos do serviço e majestade do culto divino. se renovou outra vez no nosso exército. e que se vestem mais para triunfar que para vencer. tanto aparato. cresceu e se aumentou tudo em Portugal. Que templo. crescendo mais os empenhos sempre. Mas por isso sobeja. nunca tantos criados. não têm padecido a quebra e diminuição que o discurso lhes prognosticava. e não pelo preço. o certo é que as rendas e cabedais do Reino. a pompa. mais ricas. que neste mesmo tempo se não renovasse. e desposas dela. mas lhe sobeja com que se sustentar a si e a todo o corpo. quando a Primavera se acabou nos campos. e tão abundante. que os danos da necessidade. como do coração. as quais com igual liberalidade e interesse remetem hoje ao Reino toda aquela substância que o calor da guerra própria lhes consumia. tão notáveis por seu nome é grandeza como bizarros por seu luzimento. nunca tanto na abundância e regalo das mesas. pois. O menor gasto nos vestidos é o que se veste. nunca tão grandes salários. assim próprios como particulares. Nunca tanto se gastou no primor e preço das galas. desfazendo-se e arruinando-se (com lástima) obras antigas e de grande arte e preço. que no seguinte se não pusesse outro maior. com que se sustentaram até agora. E a verdade desta experiência se tem provado com mais sensíveis efeitos depois da paz universal das mesmas Conquistas. Não me atrevera a falar com tanta largueza. não encarecer. estes os Potosis de Portugal. O mesmo que se vê na política bélica das campanhas. E ou seja esta a causa natural. porque só o silêncio os pode explicar. mais se gasta em cobrir os vestidos que em cobrir os corpos. se admira na pacífica das cidades. nunca tantos e tão magníficos edifícios. Com a guerra. nunca tão grandes soldos. mais florente e opu1enta que no princípio da guerra. Destes comércios lhe vêm as riquezas com que pode pagar e premiar 34 . tão reais e tão sumptuosas festas. membros tão remotos e tão vastos deste corpo político de Portugal. nunca tão grandes mercês. As usuras de Deus são cento por um. tantos cavalos. que eles mesmos com suas riquezas lhe subministram. ainda que do Reino. Nenhum ano se pôs em campo exército tão grande. que foi o último. se pode haver falta no necessário. é tanta a cópia de alimento. que capela. que altar. que não só tem suficiente matéria para formar os espíritos que com os membros mais distantes reparte. sempre mais e maiores exércitos. nunca tantas fábricas. ao mesmo passo parece que ou crescem ou se manifestam novos tesouros. nenhum ano tão bizarro e tão luzido. se não pudera alegar por testemunhas os mesmos que podiam ser partes. Diga agora o algarismo de seu discurso. antes se prova com evidente e milagrosa demonstração da experiência. recebem os espíritos de que se animam. que santuário.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Porque as Conquistas (que era o primeiro reparo). nunca tantas. para que pela divisa se conhecessem os soldados e ostentassem a competência de seu valor. O ano passado. e se sustentam todos os anos. nunca tão grandes dotes. ou outra mais oculta e superior. que a substância do Reino está hoje mais grossa. tanta era a variedade das cores com que os terços se matizavam e distinguiam. A vulgaridade do ouro e prata só se estima pelo invento e pelo artífice.

pela liberdade. Os Portugueses. Com verdade se podia dizer de Portugal o que dos Romanos disse o seu poeta: Per damna. como passam. comprados e conduzidos com imensas despesas e perigos. e até as serras. onde nada lhes é estranho. que inteiravam seus presídios. Foi lei. também as errou à gente. e o habitam e o enchem e o multiplicam. saiba que a sua reparação foi o primeiro princípio deste aumento. e lei prudentíssima. Desta maneira se acha Portugal cada dia mais fornecido de muitos e valentes soldados. abertas e cultivadas. ou vêm requerer o prêmio de seus antigos serviços. e poucos os que chegam. e justificar com os olhos do rei e do Reino as certidões mais seguras de seu valor. brotam dois na Primavera. que trafegavam seus comércios. de Nápoles. e sempre mais numeroso e florente em Alentejo. no princípio da guerra. pela vida. animumque ferro. E: se Castela quer conhecer as causas naturais desta filosofia. que freqüentavam seus portos. sem serem os Portugueses dentes de Cadmo. Todos os Portugueses que povoavam suas Índias. exército em Trás-os-Montes. Ducit opes. que mareavam suas frotas. em que o pelejar e o morrer não é acidente senão natureza. aparecem na seguinte duas. por benefício da qual os exércitos e províncias se podem dar 35 . sendo a maior comodidade da guerra e multiplicação da gente a mesma estreiteza do Reino (que o discurso mal avaliava). brenhas. que militavam seus exércitos. mais lavrados seus campos. mais freqüentadas suas estradas. com grande vantagem de coração pelejam pelo rei. Assim se foram dobrando e crescendo sempre os nossos presídios. e vê em si o que cuidou de nós. Assim se converte e se multiplica em nova substância tudo o que come a guerra. e por cada ramo que faltou no Outono. Ou tenha Portugal a qualidade da hidra ou a natureza das plantas. e cada um por sua própria casa e fazenda. e assim como o seu discurso errou as contas ao dinheiro. a Portugal. de Milão e de Alemanha. As Conquistas com a paz não levam. ou servir e merecer de novo. e não falsificadas. e assim se vêem hoje mais povoados seus lugares. exército e florentíssimo exército. uns para se passarem logo. lagos e terras. pelo contrário. ficam hoje dentro em Portugal. e não trazidos por força de Sicília. pela Pátria. Bem sabem os doutos que o nome grego hipocrisia se deriva do fingimento do melhor metal. como quem defende o alheio e conquista o que não há-de ser seu. têm hoje muitos filhos com que a sustentam e os sustentam com ela. e os mesmos que então se retiravam da guerra. que é a senhora da prata e de quem a recebe o resto do Mundo? Cuidou Castela que a Portugal havia de faltar o dinheiro. onde nunca entrou ferro. antes delas os recebe o Reino com muitos e valentes soldados e experimentados capitães. por cada cabeça que corta a guerra em uma campanha. com que as famílias se multiplicavam infinitamente. que lavravam seus campos. que. Quem pudera nunca imaginar que chegasse a tal estado uma monarquia.Anexo:Imprimir/ História do Futuro seus exércitos e com que os prêmios e as pagas sejam verdadeiras. muitos filhos por indústria dos pais se acolhiam na menoridade ao sagrado do matrimônio. per coedes ab ipso. sendo muitos os que se alistam e pagam. nem hão mister socorros. pela honra. A sombra desta imunidade. exército e dois exércitos na Beira. e parece que foi posto em nossos tempos mais para declarar o vício da moeda. nascidos e criados entre o mesmo estrondo das armas. que não se alistassem nela senão mancebos livres. assim os nossos exércitos: exército no Minho. sem injúria dos soldados. sem adultério dos metais e sem hipocrisia da moeda. que a mentira da virtude. nem arado. outros para pelejarem sem amor e com valor vendido. todos dentro em si e nas mesmas províncias e climas.

a profecia de Miqueas.» Não quer dizer Deus que Jeremias há-de arruinar ou edificar reinos com a espada. a indústria. Se as profecias resolutamente dizem que os reinos se hão-de perder ou arruinar. que quando se opõem e encontram com as promessas divinas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro as mãos umas a outras. para que. e se dizem que se hão-de estabelecer e exaltar. tocariam a recolher seus capitães e exércitos e confessariam. Não duvido. et destruas. ou como astros benignos que influem e prometem suas felicidades. logrando vivo a glória de seu triunfo. e tudo o que podes esperar dele em sua conquista. abateriam a Deus. bem pudera eu esperar do juízo mais político de nossos competidores e seus conselheiros. Se Acab. se o seu católico príncipe e seus maiores conselhos se acabassem de persuadir que Deus tinha decretada a conservação e perpetuidade de Portugal. temera. ou quantos tesouros baldados poderiam poupar os reis. mas nunca mais certamente falsas. possam emendar o engano de suas esperanças presentes. que também a ti dedico e ofereço. esperem. Mas porque muitos reis esperam de onde deviam temer. ficando oprimido com a sua própria vitória. e se até agora me ouviram como homem a racionais. mas está certo que lhe há-de suceder como a David com o gigante. por isso erram. em que tão . Estão os profetas e as profecias sobre às gentes e sobre os reinos. e se os virem estrelas. Veja e saiba Castela o que Deus tem prometido a Portugal. nem alguém pode duvidar da fé. e um dos fins principais por que escrevo esta História. na mais levantada fortuna. mas que os há-de arruinar ou edificar com as suas profecias. o discurso e esperança espanhola. obedeceriam com suma reverência aos divinos decretos. que. acabassem de desistir de tão infrutuosa porfia. e perecem muitos. se os virem cometas. e se perdem. pelejando os mesmos soldados quase no mesmo tempo em diversos lugares. e multiplicando-se por este modo um soldado em muitos soldados. profetizando a uns sua exaltação e a outros sua destruição e ruína. ou como cometas tristes e funestos. Mas deixados à parte os argumentos da razão e experiência. Isto é o que eu agora lhes quero persuadir e demonstrar. Aqui verás os futuros de Portugal. ut evellas. rei de Israel. subamos um ponto mais alto. destruas e dissipes a uns. História do Futuro (Volume I. plantes e edifiques a outros. temam. desistira da conquista de Ramoth Galaad. Levantem pois os reis e os reinos os olhos. crelam sem dúvida sua conservação e aumento: Ecce constitui te super gentes et super regna. ainda que tremulassem vitoriosas suas católicas bandeiras. Desta maneira não teme o valor português que lhe suceda como a Eleázaro com o elefante. religião e piedade espanhola. Levantou Deus no Mundo a Jeremias por seu ministro. para que arranques. aparelhem-se sem remédio para sua ruína. ó Espanha. Capítulo VIII: Continua a mesma matéria) por Padre Antônio Vieira 36 Desenganado por estas evidências o poder. se no meio de seus conselhos pudessem pôr um espelho em que se vissem os futuros! Tal é este livro. e logo advertirá a vaidade do que suas esperanças lhe prometem. pelo conhecimento de nossos futuros. ouçam-me agora como cristão a católicos. et dissipes. a desigualdade de sua maior potência contra os acenos da divina. oh quanto sangue. et aedifices. Oh quantas guerras. como devia temer. que influem e ameaçam suas ruínas. e se despenham. olhem para estes sinais do céu. e aparecendo em toda a parte (como alma de Dido) aos Castelhanos com novo horror e assombro. et plantes: «Hoje te ponho e constituo sobre as gentes e sobre os reinos. e a comissão e ofício que lhe deu foi esta: Ecce constitui te hodie super gentes et super regna. Sempre são falsas e enganosas as esperanças humanas.

e destes gemidos ficar o Reino órfão de seus reis. porque muitos não esperavam. e remido por um não esperado. e o rei conheceu tarde a temeridade de seu conselho. e assim o provou com admirável consonância o cumprimento delas. mas esta sujeição e este castigo. sed propitius tibi Deus insperate ab insperato redimet: «Portugal por orfandade do sangue de seus reis. Que diferente foi o de Ciro. in qua atteniabitur proles. não esperadamente. sem obrigação nem reconhecimento. são bem notórias aquelas palavras mandadas anunciar ao rei pelo mesmo Senhor. gemerá por muito tempo. prevaleceram estes enfim como o profeta tinha prometido. e foi ocasião desta sujeição . S. religloso português da ordem de S. sem partido. ajuntando-se às outras de Espanha. Clamava a profecia de Jeremias ao rei e príncipes de Jerusalém que se acomodassem com Nabucodonosor contra o qual não podiam prevalecer. que o cativeiro e sujeição dos Israelitas que ele tinha debaixo de seu império não queria Deus que durasse mais de sessenta anos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro teimosamente insistia. porque. com o recado de que lhe queria aparecer: Domine bono animo esto: vinces. Assim o diziam as profecias. era outro e não el-rei D. os restituiu todos livres à sua pátria. não quis o mesmo Deus que fosse perpétuo. sed in ipsa 37 . quando por sua própria pessoa quis fundar o Reino de Portugal. a conquista a coroa a vida. et non vinceris. E tanto que estes se acabaram (sendo gentio idólatra). passando-a de um rei gentio a um rei católico! Quis Deus por seus altos juízos que Portugal perdesse a soberania de seus antigos reis. Dilectus es Domino. vinces. Não podem as armas dar a vitória a Acab quando nas profecias está segura Ramoth. Afonso Henriques. Mas vamos às profecias do cativeiro e ao termo dos sessenta anos dele. porque o redentor. porque os dois últimos — D. sem interesse.» Gemeu Portugal muito tempo. e não dos Portugueses. mas porque quis antes esperar. em um dia perdeu a batalha. tendo-as experimentado verdadeiras na sentença do cativeiro. porque gemeu por espaço de sessenta anos debaixo da sujeição de Castela. (de cujo espírito profético se dará notícia em seu lugar) diz assim: Lusitania sanguine orbuta regio diu ingemiscet. Sebastião e D. como não devera nas promessas e lisonjas vãs de seus aduladores. mas porque El-Rei Sedecias. antes desesperavam desta redenção. Oh que caso tão parecido ao nosso caso! Oh que ação tão digna de se santificar e fazer cristã. fiado na potência de suas armas. João o IV. No juramento autentico de El-Rei D. Creu as profecias sem serem suas ou de seus oráculos. pela mesma profecia que Jeremias e pelas de outros profetas. prudente e famoso rei de Babilônia! Entendeu este mesmo excelente príncipe. sua. senão por tempo determinado e limitado. pelo qual geralmente se esperava. Só faltou para total semelhança do caso de Babilônia e para imortal glória do Ciro de Espanha que a ação fosse voluntária e não violenta. quando Deus tinha limitado anos ao castigo. Contentou-se o gentio com o que Deus se contentava e não quis perpetuar a servidão. Henrique — faltaram sem deixar sucessão. mas Deus lhe será propício e. posuit enim super te et super semen tuum post te oculos misericordiae suae usque in decimam sextam generationem. em que se conta o miraculoso aparecimento de Cristo. Frei Gil. quis antes experimentar a fortuna da guerra que vir a honestos partidos com os Assírios. estivesse sujeita a rei estranho. e que este termo e limite fosse o espaço só de sessenta anos. mas foi-lhe Deus propício. será remido por um não esperado. porque dispôs com tão notáveis sucessos a execução de sua liberdade e foi remido não esperadamente. Domingos. e que sua coroa. senão dos mesmos Israelitas. fora cobiça e não razão tê-las por falsas na promessa da liberdade.

como se vê pelo catálogo seguinte: 1. o IV de Portugal e décimo sétimo dos reis portugueses descendentes do primeiro Afonso. mais fácil e mais conforme à mente da profecia e às circunstancias em que naquela ocasião se falava. D. vencereis e não sereis vencido. e fio tão delgado e atenuado como era a única casa de Bragança. 12. A carta é a que se segue. D. El-Rei D. 5. D. mas este temos por mais natural. a respeito das cousas presentes e futuras do Reino. cujo cumprimento é tão manifesto. Afonso Henriques. profetizou com admirável clareza o termo dos sessenta anos de castigo e a continuação e sucessão de reis portugueses. Duarte irmão menor de D. 7. Sancho I. conservada em muitos arquivos deste Reino e divulgada fora dele muitos anos antes da nossa restauração: «Dou as graças a Vossa Senhoria pela mercê e esmola que nos fez do sítio e terras de Alcobaça para os frades fazerem mosteiro em que sirvam a Deus. ficou por um fio. não será porém tão comprido o prazo deste castigo. 11. Pedro I. Fernando. antes e depois dela. 13 de Março de 1136. mas nela atenuada tornará a pôr seus olhos. estai de bom animo: vencereis. tornaria Deus a por seus olhos nela. El-Rei D. D. com quem tinha particular e íntima amizade e correspondência. na qual se atenuará a mesma descendência. me disse lhe certificasse eu da sua parte que a seu Reino de Portugal nunca faltariam reis portugueses. porque nela se restituiu a coroa que Cristo então lhe dava. que quase não necessita de explicação. D.» Até aqui a divina promessa. 13. Dinis. que chegue a termos de sessenta anos. 16. João I. Sancho II. o qual em recompensação desta. 38 10. de rei a rei e de coroa a coroa) foi o Cardeal D. 3. sois amado de Deus porque pôs sobre vós e sobre vossa descendência os olhos de sua misericórdia até a décima sexta geração. Henrique. João. Henrique.Anexo:Imprimir/ História do Futuro attenuata ipse respiciet et videbit: «Senhor. Bernardo». Neste último rei se atenuou a descendência. D. João II. João III. El-Rei D. 4. Afonso Henriques (contando as gerações. Henrique. porque ainda que não quebrou de todo. De Claraval. A décima sexta geração de El-Rei D. D. Afonso V. Por outros modos também verdadeiros se faz esta mesma conta. depois da descendência de El-Rei D. El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei D. sendo restituída (como foi) ao Duque D. Rei D. 15. em uma carta escrita a El-Rei D. Duarte. Afonso II. 14. S. D. Sebastião. . El-Rei D. 6. atenuada no décimo sexto rei. João. 8. que no Céu lhe pagará. Afonso III. descendente do infante D. E1-Rei D. El-Rei D. 9. Afonso Henriques. Manuel. salvo se pela graveza de culpas por algum tempo o castigar. 2. o II de Bragança. El-Rei D. Bernardo. como se devem contar. Mas neste fio único e tão delgado se veio a verificar que. Afonso IV.

porque se não hão-de conformar os homens com seus soberanos decretos? E porque se não hão-de contentar com o que Deus se contentou? Porque se não verá no católico Ciro de Espanha um ato de tanta justiça e generosidade. que era a primeira monarquia e universal do Mundo. lhe pode Deus dar outros maiores e mais dilatados. e que esta sujeição havia de ser a Castela. e estes são acabados. foi Ciro tão amado de Deus. como sucedeu ao mesmo Ciro. do tempo em que havia de faltar a coroa. qual era o de Judéia (igual com pouca diferença de Portugal). em 26 de Abril do ano de I58I. podendo de outra maneira (para que não calemos esta verdade). IX deste livro) não só predisseram a sujeição do Reino a Castela.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A condicional do castigo cumpriu-se por nossos pecados. o meu Ciro. religião e cristandade. e por este Reino que Castela restituir ou consentir a Deus (pois Ele tem já restituído). mas também se cumpriu muito pontualmente que o castigo não chegaria a termo de sessenta anos. El-Rei D. a respeito dos sucessos futuros de Portugal. Outra carta temos do mesmo santo escrita ao mesmo rei. Filipe o II foi jurado por rei de Portugal. e sua liberdade. João o IV. nem duvidou de o demitir de seu império. e que Ciro. arrogante e gentio. e que se havia de chamar D. e que o termo destes sessenta anos havia de ser no ano de quarenta. que fazem 59 anos e cinco meses menos alguns dias. em que dá outro sinal manifesto (e também já cumprido). e de tanto rendimento e obediência a Deus. o meu ungido. e que neste seria levantado pelos Portugueses rei novo. muitas pessoas (de cujo espírito. reparem seus prudentes e católicos conselheiros que o não era menos naquele tempo. e que naquele ano seria levantado novo rei de Portugal e que este se chamaria D. João. Bernardo tinha profetizado. com que enriqueça e sublime sua coroa e amplifique o império de sua monarquia. como o mesmo Ciro reconhece havê-lo recebido da sua mão. em I3 de Dezembro de 640. porque El-Rei D. nem menos conhecido e celebrado no Mundo o reino de Judá. De maneira que por todas estas profecias consta claramente que ao Reino de Portugal haviam de faltar os reis portugueses e que esta falta havia de suceder no décimo sexto rei descendente de El-Rei D. como se verá no mesmo lugar. trataremos larga e particularmente no cap. que sem dúvida deviam ser muito grandes. mas que o fim de uma e princípio de outra havia de ser sinaladamente no ano de quarenta. Por aquele ato de generosidade e desinteresse. temer justissimamente que à resolução e porfia contrária sucedam 39 . porque hão-de querer e porfiar os homens em que o seja? Se Deus limitou esta sujeição ao termo de sessenta anos. com todas as outras circunstâncias tão miúdas e particulares. Tão liberal é Deus com os príncipes que não regateiam reinos nem estados com Ele. ou sessenta anos não completos. que lhe chamava o meu rei. que adiante poremos. nas Cortes de Tomar. como S. o meu Cristo. rei ambicioso. e que não havia de durar mais que sessenta anos não completos. e por um reino de tão poucas léguas de terra. dá em prêmio e recompensa a monarquia de todo o Mundo! Tais são os interesses (quando houvera algum maior que o de obedecer a Deus). e pelo merecimento deste obséquio e rendimento à-vontade divina lhe deu Deus em um dia o império dos Assírios. e que havia o Reino de gemer debaixo da sujeição estranha. Quanto mais que por este ato de consciência. João: as profecias o disseram e os olhos o viram. Afonso Henriques. Finalmente. porque se há-de querer chamar ao domínio e prescrever contra o Céu? Se lhe parece cousa dura arrancar de sua coroa uma jóia tão preciosa como o Reino de Portugal. que Espanha podia esperar do desinteresse deste ato. nas cortes de Lisboa. Pois se Deus não quis que a sujeição de Portugal a Castela fosse perpétua. como se viu no Ciro de Babilônia? Se Deus lhe deu o usufruto de Portugal por prazo somente de sessenta anos.

pelo que toda a pessoa que houver em meus estados pertencente àquele povo e reino. ambição e desobediência também poderia tirar outra. levantou Deus o espírito de Ciro. Deus Caeli. julgou que tinha obrigação de obedecer. o mesmo Deus seja com ela. em que Ciro faz desistência do reino de Judéia e deixou aquele povo em sua liberdade. quae est in Judaea. com tão pouco respeito ao mesmo Deus e à mesma graça armam seus exércitos contra os alheios. E já a ordem das cousas naturais as teve menos dispostas a uma grande ruína. et ipse praecepit mihi ut aedificarem ei domum in Jerusalem. o rei e reino de Portugal.. cap. como dizem em suas provisões por graça de Deus. e mandou apregoar em todos seus reinos por escrito firmado de sua mão este decreto: «Ciro. senão a seus próprios doutores e aos que mais duramente têm impugnado em nossos dias esta parte e defendido a contrária. «No ano primeiro de Ciro. Se por um ato de justiça. veja quão legitimamente está restituído por elas. havia de ser o reino e povo hebreu libertado do cativeiro de Babilônia e restituído à sua Pátria. etiam per scripturam. Não teve Ciro outro preceito ou mandado particular de Deus (como notam todos os expositores) mais que as profecias em que estava anunciado que. Lástima é que semelhante escritura não fosse de rei católico. diz: O Rei do Céu me deu e fez senhor de todos os reinos do Mundo e ele me mandou que lhe edificasse casa em Jerusalém. porque não dará Ciro um reino a Deus. regis Persarum. dicens: Haec dicit Cyrus. ainda quando fosse seu indubitavelmente? Mas o que eu só quero ponderar. para se dar cumprimento à palavra divina declarada nas profecias de Jeremias. é o que Ciro. ascendat in Jerusalem. Leiam este decreto os reis e monarcas do Mundo. a este gênero de preceito assim escrito. aqueles principalmente que. posto que não intimado com outra autoridade ou solenidade. e observou em matéria tão grave e de tanto peso e interesse de sua coroa. imitação e memória. cabeça de Judéia.. Se Espanha se quiser ver e compor a ele. chama preceito de Deus neste seu edito. rei não católico.Anexo:Imprimir/ História do Futuro efeitos também contrários.ut cornpleretur verbum Dominini ex ore Jeremiae. e a estas profecias chama o rei sem fé preceito de Deu. leia as profecias que neste livro vão escritas e já cumpridas. sendo reis e possuindo os reinos. Quis est in vobis de universo populo ejus? Sit Deus illius cum ipso. posto algum rei católico na mesma ocasião. e não me creia a mim. como era demitir de si um povo e um reino tão notável. desinteresse e obediência dá Deus uma monarquia. regis Persarum. e peço por reverência do mesmo Deus aos Reis Católicos. rei dos Persas (quem assim começou a reinar não podia deixar de ter tão felizes progressos). etc. Quero pôr aqui as palavras do Texto Sagrado. não queira imortalizar seu nome e religião com outro decreto semelhante. Dizem assim no I Livro de Esdras.». por serem mui dignas de toda a ponderação. Siga-se a sua doutrina e não a minha advertência. e se pode tornar livremente para Jerusalém. conforme o decreto ou preceito divino. et traduxit vocem in omni regno suo. I. e são o exórdio de sua história: In anno primo Cyri. o segundo Baltasar e o terceiro Ciro. coroa e liberdade. por um ato de justiça. no fim de sessenta anos. rex Persarum: omnia regna terrae dedit mihi Dominus. a seus conselhos e a seus letrados ponderem. de que ele já era o terceiro possuidor. porque o primeiro foi Nabucodonosor. e obedeceu com efeito. rei dos Persas. Se Deus deu tantos reinos a Ciro. e maior lástima será ainda que. suscitavit Dominus spiritum Cyri. rei dos Persas (que só podia fazer uma ação tamanha e tão real um rei de espírito e espíritos mui levantados por Deus). 40 . Não sei que possa haver mais claro espelho do nosso caso.

e todas públicas. com tão diverso e contrário intento. escrita. João de Palafoz e Mendonça. que nenhum entendimento humano. Se Palafoz pede que a profecia não seja só uma senão algumas. llevele a su casa. y elegido jostifique la jorisdiccion. rigorosa e provada profecia. porque tantas são (se bem se distinguirem e contarem) as cousas diversas e profetizadas que ali se referem todas. senão trinta profecias. buelva otra vez Samuel a la oracion. que as tinha visto e lido. porque o afeto lhe fez corromper a pureza de seu estilo. de trezentos e de quinhentos anos antes. el que antes era compañero avian de venerarlo por rey. terceira. podia tantos anos prever nem conhecer sem revelação de Deus. E tais são as que pouco antes alegamos porque as últimas havia cem anos que estavam escritas. mais para contradizer o novo Reino de Portugal. Se Palafoz pede profecias. ou três circunstâncias em uma. e sua mesma acusação seja um testemunho público e mais qualificado da justiça e justificação de nossa causa. haver profecia de ser Saul o destinado por Deus ao império. Afonso Henriques mais de quinhentos. 41 . e três vezes trinta. me parecem ditadas por algum espírito e intento superior. Pues para cosa tan grande. damos a Palafoz profecias. como as de Samuel foram três. e que só podem ser ditadas e inspiradas por aquela sabedoria eterna a quem os futuros são presentes. justifique su vocacion con algunas profecias y senales de lo que le ha de succeder despues de ungido. e para que o mesmo rei ungido e eleito justifique sua jurisdição e se tenha por príncipe legítimo e chamado por Deus ao governo. trezentos anos e as de S. e não profecias daquele dia. que essas profecias sucedam. el destinado al império. conozcale y reconozcale. que são as mais qualificadas e livres de suspeita. para que. Verdadeiramente estas palavras do bispo Palafoz: Cum esset pontifex anni illius. as de S. como se vê em tantos lugares. bispo de la Puebla de los Angeles. y se tenga por principe legitimo y llamado de Dios al gobierno. suceda la profecia buelva-se otra vez dezir que aquel es el hombre. diabólico ou angélico. de tan rara y de tales y tan graves dependencias. mas de futuros livres e contingentes. segunda. assim como estavam preditas e profetizadas. senão algumas. autênticas e justificadas com o testemunho universal do Mundo. y ungido. com maior elegância que decência. E quais são estas três cousas ou circunstancias? As mesmas que intervieram e sucederam na eleição e unção de Saul: Primeira. diz assim: Hazia-se una mudança tan grande en Israel. do conselho supremo de Aragão na sua História Real Sagrada. sendo ditas como as de Caifaz. Bernardo e de El-Rei D. senão de cento. coh que el Profeta quede con quietud y sossiego de que áquello le mandò el Senor. João o IV. Três cousas requer Palafoz. e ponderando augusta e doutamente os sinais com que se havia de justificar para ser legítima e de Deus. VI deste anteprimeiro livro. as quais se poderão ver no cap. y começar el de los Reyes escogiase para principe un hombre. não só futuras. duerman y piensem sobre ello. que são as condições que propriamente se requerem para a verdadeira. que a profecia não seja só uma. como as de Samuel. não só damos a Palafoz três profecias. unjale. para que a vocação do rei se justifique ser de Deus e para que os ministros que o ungiram (como Samuel e Saul) fiquem com quietacão e sossego de ser aquele o que Deus mandou ungir. fossem verificadas no mesmo príncipe e no mesmo Reino que ele queria impugnar e destruir.Anexo:Imprimir/ História do Futuro D. que ayer era subdito y labrador. Frei Gil. cujo nome se dissimula. digale el Senor a que hora vendrá el dia siguiente. vayanse a sus casas los Israelitas. como acabarse el gobierno de los Juezes. que para historiar o de Saul impugnando a eleição de El-Rei D. que havia durado quinjentos años.

o estoy sonando?) Simiente de rey Fernando Hazer un forte despejo. porque temos mais qualificado autor e mais autorizado profeta. en que a mi parecer se dixo mucho ha. e como avalia esta ação do rei. com grande quietação e sossego dos ânimos. como se tem visto foi princípio muito conveniente à ordem dos mesmos sucessos começar pela sujeição do mesmo Reino a Castela. seu restaurador. e comentando à margem o seu mesmo texto. cap IV. se irá cada dia confirmando reais e mais a mesma verdade. E seguir con gran desejo. E se o verdadeiro profeta e primeiro autor desta profecia é Santo Isidoro. que se lerão no discurso desta História. que não façam menção delas seus autores. que foi seu neto Filipe II. vejo. el aver de jutar-se aquel reyno de Portugal con el nuestro. Fernando. e pela entrada dos reis castelhanos em Portugal. João de Horosco e Covarrovias. do Rey vejo (Vejo. Tal foi a eleição de Saul.] tengo notada una. Não deixarei também de lembrar aqui que não são tão novas e desconhecidas em Castela as profecias ou esperanças de Portugal. conforme a doutrina de Palafoz. esta casa es miña. diz assim: — «. de que se não deve duvidar (como também provaremos). fundador do Reino de Portugal. aplicando-as a primeira parte deste mesmo caso nosso. y [. I. con harta particularidad. Y dexar acá sua viña Y decir. põe as trovas seguintes: Vejo. Isidoro. algumas delas cumpridas antes da restituição e coroação de El-Rei D João IV. tal a de El-Rei D. que a vocação daquele rei foi de Deus mandada e ordenada por ele e que a sua jurisdição é verdadeira e legítima... 42 .Anexo:Imprimir/ História do Futuro como é sentença comum dos teólogos e se provará larga e demonstrativamente em seu lugar. D. arcediago de Cuellar na igreja de Segóvia.. Mas vejamos de caminho que é o que diz Santo Isidoro. tanto melhor. e não duvidando que dele falavam e dele se haviam de entender. e tal a de El-Rei D. com cujo efeito. para se justificar superabundantemente. e as demais desde aquele tempo até o ano de 663. mas a explicação é muito própria.» Até aqui no corpo do livro. bastando e sobejando a décima parte das profecias já cumpridas. muito acomodada e muito bem deduzida.. y era aver leydo en] algunas prophecias como las de S. En que aora acà me vejo.desta manera tuvo yo noticia de [un çapatero en Portugal que fue tenido por propheta. porque. Afonso Henriques. além de muitas outras que estão ainda por cumprir. Finalmente. se Palafoz pede que as mesmas profecias sejam provadas e confirmadas com o sucesso assim antes como depois de o rei ser eleito e ungido no alegado cap. João. VI se verão as mesmas profecias declaradas e ajustadas com o sucesso. Liv. e não outro. sendo o intento e o assunto ou tema daquela profecia predizer os sucessos futuros de Portugal depois de sua restauração. A tradução não é muito limada. no seu Tratado de la verdadeira y falsa profecia. como de príncipe notoriamente chamado e destinado pelo mesmo Deus ao império. semente de El-Rei D. outras no mesmo caso e circunstancias de sua restituição.

será indigno de todo o juízo porfiar ainda contra elas depois de tão conhecidas. 43 . razão foi também que os fizessem despejar. em conseqüência. como tenho prometido. por isso haveis de dizer: «Esta casa é minha»?! Não debalde o santo arcebispo se espanta tanto de uma tal ação. quando as profecias de Portugal profetizam que Portugal se há-de ajuntar a Castela. nem esta ilação a que eu quero inferir. acabemos de crer a Deus. Rei católico e descendente de católico. Senhores. posto que visão de um caso tão dificultoso de crer. Manuel e filha herdeira do Infante D. neta legítima de El Rei D. porque às cousas feitas sem razão chamamos forte cousa. ou estou sonhando? Mas o efeito mostrou que não era sonho. Forte despejo foi aquele. se isto. vejo. nem nós o podemos enganar. e quando profetizam que Portugal se há-de tornar a separar de Castela e se há-de restituir à sua liberdade. Conhecia Herodes a verdade das profecias. Bem dito. se viesse por força introduzir na casa alheia. Mas que efeito tiveram ou que façanhas obraram os exércitos de Herodes? Contra o rei e contra o reino que pretendia estorvar. em que agora cá me vejo». e esperar prevalecer contra elas por força de armas. que em tom castelhano quer dizer desverguença. do rei vejo. Este é o fim sem outro fruto de tão desesperadas resoluções: sangue inocente derramado. haver de juntar-se aquel reino de Portugal con el nuestro. quanto cuidado lá davam antes deste tempo e quanto temor se tinha de nossas profecias. Sei eu e sabe Portugal. que porque vos vedes metido na casa alheia. que nem Ele pode mentir. mas ainda esta conseqüência é mais forte. Ora. que não admitem à sucessão príncipe estrangeiro. e devendo preceder a todos os pretensores da coroa.Anexo:Imprimir/ História do Futuro O nome que dá a esta ação Santo Isidoro é chamar-lhe despejo. se verá tão demonstrada a sua verdade. depois delas cumpridas e qualificadas com tão maravilhosos efeitos se lhos tem perdido a reverência. e que. inquiriu por elas o tempo. nenhuma cousa. e alegado o mesmo doutor. e não (como devera ser) de justiça. Basta. está bem profetizado. Só se afogou Belém em sangue e nadou em lágrimas. Duarte. ainda duvida se era visão ou sonho: Vejo. no ano de quarenta. Até aqui podia chegar a loucura e a cegueira de um mal aconselhado príncipe: crer a verdade das profecias. queixas. e profetizado no mesmo livro e no mesmo tempo. porque foi despejo armado de poder e de exércitos. ou lhe chama também forte. sem mais razão nem justiça que meter-se nela e dizer: «Esta casa é minha. e Castela também o sabe. porque não hão-de crer os Horoscos e Covarruvias castelhanos nesta segunda parte da mesma profecia. Mas não é este o meu intento. e não entendo agora como. assim como creram na primeira? De maneira que. como se dissera: Forte cousa é. assim pelo direito comum da representação. um rei que era descendente de Fernando. João. e que o seu rei se há-de chamar D. que depois de a estar vendo com espírito profético. Mas se este mesmo autor. e com muito maior particularidade. e despejo grande que estando em Portugal a senhora Dona Catarina. e este mesmo Santo Isidoro diz que o Reino se há-de restituir outra vez. senão visão verdadeira. E pois o meterem se os Castelhanos em Portugal foi despejo. e este mesmo texto. Em seu lugar. que nenhum ódio nem interesse possa negar que são de Deus. e logo armou contra Ele a crueldade de seus exércitos. como pela leis particulares do Reino. Diz o Doutor Horosco e Covarrovias que nesta profecia está profetizado con harta particularidad. digo. vejo. não são profecias?! Não o havia de julgar o mesmo Horosco e o mesmo Covarruvias. por antonomásia chamado o Rei Católico. e chamar-lhe despejo forte. nem o julgou assim o mesmo Santo Isidoro. o lugar do nascimento do Rei profetizado. lágrimas. são profecias. só se ouviram em Ramá e no Céu as queixas e lamentações de Raquel.

senão contra a firmeza da palavra e promessas divinas. Vassalos eram do mesmo Herodes todos os que morreram em Belém: cobriu de luto o reino próprio. pelo mesmo espírito. escalar e arruinar as nossas muralhas. na África. desfaçam este castelo. o Mundo e o mesmo Céu empíreo. Porque puderam romper os Portugueses os claustros impenetráveis do Oceano. a que o seu general chamou castelos de Milão. vencer em batalha os nossos exércitos. e tirar dele a Júpiter pois saibam que mais fácil será conquistar Europa. como filhos do Sol. Jerusalém com uma profecia de Isaías. sacudiram tão feliz e animosamente o jugo. clamores. também foram ditadas. estando sujeitos a Castela e debaixo de seus presídios. e depois dele rendido. como depois se verá. e escalaram com tanta facilidade aquelas montanhas ou muralhas da natureza. romperam um tão luzido e poderoso exército formado mais de capitães que de soldados. sendo de inferior autoridade. porque uma e outra vez não conquistaram Samaria. porque não chegou a meter uma seta dentro dos muros de Jerusalém? Porque Ramath estava defendida com uma profecia de Miqueas. Perguntem a El-Rei José e a El-Rei Acab com as forças de dois tão poderosos reinos unidos. o Céu. derribem. então poderão conquistar Portugal. na memorável batalha do Cano. porque não conquistaram a Ramoth? Perguntem a Benedad. minar. quem quer guerrear contra Deus! 44 . porque estava destinado por Deus ao domínio de seu verdadeiro Senhor e firmado com sua palavra. abalem. e não pôde atalhar com tantos rios de sangue os progressos do que procurava impedir. mas fazer brecha na firmeza da palavra divina é impossível. senão porque estava escrito? Porque ontem. com partido tão desigual. rei de Síria. senão porque estava escrito? Pois se a conservação. e conhecerá quão impossível é a empresa a que aspira. bem pode ser. senão porque estava escrito? Porque. apartando os olhos por um pouco de Portugal. bater. para sujeitar todas as quatro partes do Mundo e ainda para escalar. ouçam também as nossas. Não há muro tão gastado da Antigüidade e tão fraco em Portugal. tão novas e tão poderosas nações. e em um dia restauraram sua liberdade. sitiar as nossas cidades. senão dos próprios vassalos. do que vencer e sujeitar Portugal. sendo tanto o número de seus soldados. que. sendo um Reino tão pequeno. a liberdade e perpetuidade. tantas. na Ásia e na América. em cujas pedras não esteja escrito com letras de bronze: Verbum Domini manet in aeternum. acabe de entender que não peleja contra Portugal. e não dos outros. que com um punhado de terra que cada um lançasse sobre ela (como eles diziam) a podiam sepultar? Perguntem ao soberbíssimo Senaquerib vencedor de tantas nações. e conquistaram nas outras três partes do Mundo. verba autem mea non praeteribunt. Reparem os famosos capitães de Castela e considerem seus prudentíssimos e experimentados conselheiros. Considere Castela contra quem peleja. Talar as nossas campanhas. que esperança ou desesperação é pretender conquistar a Portugal? Oh. em Portugal. defendido e armado como está com as promessas divinas: Coelum et terra transibunt. e aos trinta e dois reis que o acompanhavam.Anexo:Imprimir/ História do Futuro lamentações. acabe de entender Castela quem defende Portugal e contra quem peleja! Com mui desigual inimigo se toma. Pelejem primeiro contra a firmeza da palavra de Deus batam. com todo o estrondo de tantos mil carros de guerra e tão inumeráveis exércitos de pé e de cavalo. as vitórias e outros maiores triunfos de Portugal estão também escritos com as mesmas letras e ditados pelo mesmo espírito. Mas deixados exemplos das Escrituras e profecias canônicas. Samaria com uma profecia de Eliseu. se se acham seus exércitos com forças e poder bastante para conquistar Europa.

com significação não fabulosa mas verdadeira. quanto mais contra toda a mão. em vão se cansa Faraó em tirar carruagens. juntamente: Gladius Domini et Gedeonis. mas contra o Senhor dos exércitos. Bem sabe Castela (sinal é que o sabe bem. Contra a espada de Gedeão naturalmente parece que haviam de prevalecer os exércitos madianitas. et persecutus est filios Israel. tão horrendo. que quando Páris houve de ferir mortalmente o impenetrável corpo de Aquiles. acompanhado de Apolo mais forte é o de Páris. Não foi só a espada de Gedeão a que com tão poucos soldados venceu os exércitos dos Madianitas. mas não foi menos honra e autoridade de Castela. como o podem os homens tirar? Se Deus o fez. bastou para livrar o povo de Israel do poder do grande rei Faraó o dedo de Deus. Mas é força que ela e nós confessemos que são maiores os poderes de Deus. assistida deles. mão por mão e braço por braço. e que. Assim lho remoqueou Moisés. Senhores meus. Se a mão do Altíssimo é a que assistiu aos libertados. Grande glória é de Portugal ter em seu favor o braço de Deus. mas contra a espada de Gedeão e de Deus. mas a espada de Gedeão maneada pelo seu braço e pelo de Deus. mas comparado o de Aquiles com o de Páris. como fez naquele dia. nem ainda resistir? Este é aquele braço onipotente. como o podem os homens derribar? E se Deus prometeu que 45 . Bem se viu neste caso. quando eles saíram do cativeiro. regis Egypti. só Deus o pode desfazer. pois chega a o confessar. é certo que a imagem de Cristo crucificado despregou publicamente o braço as portas daquele santo português que tem por graça própria sua recuperar o perdido. Comparado o braço de Páris com o de Aquilles. nenhum poder humano pode prevalecer. e no mesmo ano em que Portugal se havia de levantar. falemos e ouçamos como católicos. o estamparam assim seus escritos) bem sabe Castela (digo) que Portugal com singularidade única entre todos os reinos do Mundo foi reino dado. Se Deus o deu.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Não é nem pode ser nossa intenção diminuir as forças de Espanha. No dia memorável da restituição de Portugal (ou fosse milagre ou mistério). uniu o deus Apolo a mão de Páris com a sua e ambas juntas dispararam a seta fatal. cavalarias e exércitos contra eles. que fosse necessário o braço de Deus a Portugal para se libertar da sua sujeição. a desigualdade de Portugal pode resistir e prevalecer contra Espanha. nem escurecer a grandeza de sua potência. E verdadeiramente foi grande dureza de entendimento imaginar Faraó que podiam prevalecer seus exércitos contra um dedo da mão de Deus. Contra o braço estendido de Deus. quão gravemente se ofende Deus de que ninguém presuma cativar a quem ele liberta. at illi egressi erant in manu excelsa. que tira os poderosos do trono e levanta a ele os humildes ou os humilhados. feito e levantado por Deus. que força dá que possa prevalecer. O que Deus faz. senão é que o juízo divino os leva ao Mar Vermelho e os chama lá alguma oculta fatalidade. O dedo de Deus é este — lhe disseram os seus sábios: Digitus Dei est hic. Dizem as fábulas. só Ele o pode derribar. o que Ele levanta. quando escreveu aquela história: Induravit Dominus cor Pharaonis. pelo desfazer e pelo tirar a quem foi dado. mais forte é o de Aquiles. Notem muito estas últimas palavras os reis e seus conselheiros: At illi egressi erant in manu excelsa. Desengano. Menos que o braço e menos que toda a mão de Deus. como o podem os homens desfazer? Se Deus o levantou. Não peleja Castela só contra os exércitos de Portugal. tão conhecida do Mundo todo e tão temida e reverenciada de seus inimigos e invejada de seus êmulos. naqueles mesmos campos e naquela mesma província onde todos os anos trabalham e batalham os homens pelo derribar. como lhe tem resistido e prevalecido em tantos anos.

para vaidade fantástica da opinião. nem têm lugar. nenhum juízo haverá no mundo católico. Na prodigiosa batalha das Linhas de Elvas. a que os homens com nome especioso e significação verdadeira infernal chamaram reputação. que não seja o mesmo Deus. político.Anexo:Imprimir/ História do Futuro na décima sexta geração atenuada poria os olhos nela para o restituir. contra o qual não valem mãos nem validos? Contra a evidência e fé desta razão. foram: — Contra Dios no valen manos. nunca se perde nem pode perder reputação. que são homens. obedecer a Deus e não resistir à sua vontade conhecida. Se este ditame tão são. e tenham-se por homens. os que seguirem os ditames deste conhecimento. conquistado. se deviam arrastar tantos respeitos sólidos e verdadeiros. os esquadrões rotos. porque. E quando concedêssemos aos políticos que. Volo enim in te et in semine tuo imperíum mihi stabilire ut deferatur nomen meum in exteras nationes: «Eu sou o fundador e destruidor dos reinos e dos impérios. que não estime e venere uma tal ação pela mais cristã. primeiro ministro de Espanha. se a reputação consiste no juízo dos homens. Como se não estivéramos no mesmo Mundo em que ontem o mesmo monarca cedeu às Províncias Unidas dos Países-Baixos todos aqueles estados de que com tão diferentes direitos era herdeiro e legítimo senhor! Mas para o nosso caso não são necessários exemplos. mais justa. costuma atravessar o Demônio aquela torpeza do Inferno.como o poderá ser de outrem? E se Deus prometeu de o estabelecer — stabilire. ainda quando houvesse muitos deuses.como o podem os homens arruinar? Acabem de conhecer os que se prezam de conhecer a Deus. as palavras com que se retirou. que no da guerra presente. Pelo mesmo fundamento e único em que se funda todo este discurso. e quero em ti e em teus descendentes fundar um império para mim. 46 . que não tem resposta. mais prudente. os fortes rendidos. se viu tão inopinadamente de conquistador. em nenhum caso da paz e recíproca desistência das armas esteve mais segura e mais honrada a reputação de Espanha e de seu grande monarca. mas pelo que dirá o Mundo. batendo com o tridente os muros que ele mesmo tinha fundado. aparecendo e falando ao seu primeiro rei. que funda e desfaz os reinos e os impérios e com tão especia1 solenidade fundou por sua própria Pessoa nos reis portugueses de Portugal. quanto sangue que ao depois se derramou estivera guardado nas veias ou se tivera de uma e outra parte empregado em serviço daquele grande Senhor. porque é diverso de todos e de superior hierarquia. em ceder. quando o duque-general.:» Se Deus é o monarca supremo e universal. antes se ganha a maior e mais qualificada de todas. o exército desbaratado. por racionais e por conselheiros. Dizem que não convém à reputação do grande monarca das Espanhas desistir da empresa de Portugal. pelo qual o meu nome seja levado às nações estrangeiras. disse: Ego aedificator et dissipator regnorum alque imperiorum sum. só o mesmo Deus os podia arruinar. como há quem tanto à vista dos olhos de Deus queira triunfar sobre suas promessas e irritar seus decretos? Até a superstição dos Gentios conheceu a conseqüência desta verdade. nem ainda gentílico. Se Deus o fundou em nós — in te — quem o poderá arrancar de nós? Se Deus o quis para si –mihi. e que os reinos fundados por um Deus. Esta foi a teologia com que os dois príncipes dos poetas no incêndio e destruição de Tróia introduziram ao Deus Neptuno. que o possa desfazer e dissipar? Ponderem-se muito aquelas três cláusulas — in te mibi stabilire. Naquela noite em que Cristo por sua própria Pessoa fundou o Reino de Portugal. como eles falsamente ensinam. como tão prudente e tão católico capitão. tão verdadeiro e tão evidente se seguira desde aquele dia. não pelo que ele é. quem haverá. as trincheiras entradas.

que. Propôs Abner aos tribos que a vontade de Deus era que David fosse rei. como o tinha declarado o profeta Samuel. David. o tribo de Judá seguiu as partes de David. de néscio. de bárbaro. porque entenderam que o interesse de obedecer a esta razão era o maior de todos os interesses. que desse liberdade ao povo de Israel. que havia tantos anos tinha debaixo de seu domínio.. como acabamos de ver. assim o rei nunca a pode perder em obedecer a Deus. e os outros onze tribos obedeceram e juraram por seu rei a Isboseth. ainda que seja tão bárbaro e arrogante como Faraó e em matéria de tanto peso e interesse. 47 . achá-la-emos. Assim como o vassalo nunca pode perder a honra e reputação.quoniam locutus est Dominus. o que respondeu foi: — Nescio Dominum et Israel non dimittam: «Não conheço esse Deus. Quando Moisés foi notificar da parte de Deus a El-Rei Faraó.Anexo:Imprimir/ História do Futuro mais generosa. de obstinado de ímpio rei e de inimigo e destruidor (como foi por isso mesmo) de seu império. Resistir a uma razão tão evidente como a que diz — assim o quer Deus — . não só ficava salva a honra e a reputação. sem muito cavar. e contra esta proposta não houve rei. e muito mais a do mesmo rei? A razão foi uma só e esta que estou alegando: . porque o príncipe que conhece a Deus. senão que o não conhecia. e depois inteirou-lhe Deus o império e reinou sobre toda a Judéia.. e não hei-de demitir a Israel. a reputação que granjeou com aquela teimosa resolução é a que hoje tem no Mundo. começou com parte do reino de Israel. nem vassalos que repugnassem ou respondessem. nem conselheiros. em que os interesses. Depois da morte de El-Rei Saul. a honra e a reputação de todos estava tão empenhada. senão ganhá-la em obedecer ao rei. Seu filho Salomão logrou o mesmo império inteiro pacificamente. Seu neto Roboão entrou no império também inteiro. mas honrada a mesma honra. E porque Faraó o não fez assim. e o fim notável em que vieram a parar foi que os onze tribos deixaram a Isboseth e voluntariamente se entregaram e sujeitaram todos a David. que nenhuma razão de estado a pode justificar. nem ainda o mesmo Isboseth. passando todo a David. ainda que se perdesse o mesmo estado. Mas que razões tão fortes e de tanta eficácia foram as que representou Abner para persuadir e concluir tão breve e subitamente um negócio tamanho. Seguiram-se bravas guerras entre um e outro partido. no supremo domínio de Deus. é tão indigna e tão afrontosa resistência. e terá enquanto durarem os Livros Sagrados. mas em seu reinado lho dividiu Deus.» Não disse que não queria obedecer a Deus. como demitir de si o domínio de uma nação inteira e tão populosa não pode duvidar de obedecer e se sujeitar à sua vontade. e que debaixo dela. e também dividi-los e parti-los quando é servido. ela se ajustou em um dia sem o mediador Abner sem haver em todos os doze tribos um só homem que falasse uma palavra em contrário. segurá-la e acrescentá-la muito. e deu parte dele a Jeroboão. sendo ao parecer tão indignas as condições da paz. E se buscarmos a raiz desta verdadeira razão. que ontem era seu vassalo. como Senhor absoluto dos reinos e dos impérios. duraram sete anos. e a maior circunstancia do caso é que. mais heróica de quantas honraram a memória dos maiores príncipes. os pode dar e tirar inteiros quando lhe parecer. filho herdeiro do rei defunto. ainda que gentio e sem conhecimento de Deus. que ficara privado do reino de seu pai. senão ganhá-la.

senão de meu desejo. que foi o que apartou a demanda. e se o Roboão de Israel (como dizia) se contenta com que lhe tirem dez tribos e lhe deixem uma só parte.empresta Deus da sua guarda-roupa. é dizer como Héli ainda quando se visse despojado de tudo: Dominus est. in oculis suis faciat. os do tio com os do sobrinho. honra. profetizando. por sua pouquidade não fazia número . O grande poder é muito confiado. Pelejaram os pastores de Abraão com os de Loth. sabe O que conhece os corações. que não se escrevem com 48 . cortar um retalho para vestir e coroar outro? Ah! se os reis e monarcas considerassem que as púrpuras que vestem lhas . E se o profeta Ahías pôde partir a sua capa e dar parte dela a El-Rei Jeroboão. ainda em termos tão apertados. não de meu discurso. quanto mais no caso presente. e mandar embainhar a espada a Pedro. e não poder querer o que Deus não quer. ainda é um ponto mais alto sobre a grandeza. senão porque a quer dar. porque o tribo de Benjamim. foi a maior glória do poder supremo. e depois com a união e sujeição de Portugal. quem pode fazer e apertar a guerra. é o maior seguro de sua reputação! Pedir paz quem se não pode defender da guerra. poderá ser menor crédito. em sinal de que Deus o queria fazer rei de dez tribos de Israel. nos maiores anos ainda é incomparavelmente maior. Note-se aqui. não porque a há mister. Não pode dar mais a fortuna a um príncipe que poder o que quer. e depois Deus executando. mas dar a paz. Seu neto Filipe IV entrou no império também inteiro. se lhe deixa dez? Oh! como se pode temer que chame Deus ingratidão ao que os homens chamam reputação! A maior reputação de um príncipe que conhece a Deus e reconhece seu supremo domínio. quando os anos o chamavam mais para o Céu. Ó poderosíssimo monarca Filipe IV. é sempre verdadeira. As vozes de que eles se formam. E se esta razão.Anexo:Imprimir/ História do Futuro O mesmo sucedeu ao império de Espanha nos últimos três reis dela. e deu a Portugal a parte que lhe pertencia. quando lhe tire o mesmo Dono um reino. para que representem o papel de reis enquanto ele for servido! E se o Roboão de Israel se contenta com que lhe tirem dez partes do Reino e lhe deixem uma (assim o diz expressamente o Texto Sagrado: Porro una tribus remanebit ei. e da púrpura inteira que tinha dado ou emprestado a um rei. que ficou a Roboão juntamente com o de Judá. Poder pôr em campo doze legiões de anjos. o Grande! Dai licença para que tenham entrada a vossos ouvidos os ecos destas últimas cláusulas. e parte a El-Rei Roboão. mas em seu reinado lho dividiu Deus. em que a grandeza de Espanha e sua potência. quod bonum est.era outro Algarve em respeito de Portugal). tomou o profeta Ahías a sua capa cortada em doze partes. porque não poderá Deus partir também a sua. inteirou-lhe Deus o império de toda Espanha. Mas se em toda a idade tem decência e decoro a gentileza desta resolução. e note-se muito. e destas doze deu dez a Jeroboão. sempre é generosidade. porque se não contentaria o Roboão de Espanha. Seu filho Filipe III logrou o mesmo império inteiro pacificamente. reputação e glória. não quis pelejar sobre a terra. Filipe II começou a reinar com parte. que os profetas são os que dividem os reinos e os que os repartem: eles os dividem primeiro. Antes do Reino de Israel se dividir entre Reboão e Jeroboão. Abraão. nem pode exceder um príncipe essa mesma fortuna mais que não querendo o que pode.

como o Reino de Portugal e suas Conquistas: basta haver-se de dar a mesma conta de Ormuz. Merecestes na vida o título de Grande. lhe ofereceu o reino que lhe não podia dar. maior sereis no fim dela se ao de Grande acrescentardes o de Justo. Senhor. Deixai a paz por herança a vossa esposa. o que ainda se pode derramar. o signo debaixo de que nascestes — e seja este o último suspiro do meu afeto: nascestes no dia em que morreu o Rei dos reis e Monarca supremo do Mundo. Os textos são da justiça. e por coração muito acima dela. a voz de um estrangeiro. que segurem e justifiquem as causas e tão dilatada e cruel guerra. firmai o título de rei com o de católico. do Brasil. porque vive fora da jurisdição da fortuna. Ouvi. com que coroou todas as suas. Com esta obra tão consumada. por ama de tanto sangue derramado. Grande sinal é de predestinação de um príncipe que faça Deus por ele as restituições que nem seus predecessores fizeram. desinteressado vassalo que foi já vosso por sujeição. Não queirais levar sobre vós e deixar sobre vossos filhos. História do Futuro (Volume I. Não se pode pagar a Deus o que é de Deus. gostai o fel e não o passeis da boca. por estado muito abaixo da sua roda. Senhor. Com todo este desinteresse me atrevo. para dar exemplo de morrer a príncipes. e hoje é também vosso (posto que não vassalo) por afeto. com que se levassem purgados todos estes encargos. pois é aquele de que mais puramente se alimenta a Santa Madre Igreja e de que cabeça dela recebe os espíritos com que vivifica e anima seus mais distantes membros. mas ponham os reis diante dos olhos as letras e as balanças de Baltasar e examinem eles se os seus maiores se governaram pelos pareceres dos letrados. de Malaca. e de que todo os príncipes católicos O agradem. nem ele havia de fazer. de Ceilão. Lembro-vos. podeis entregar a alma segura nas mãos do Padre. as interpretações podem ser da lisonja. Capítulo IX: Verdade desta História. Que se não derrame sangue cristão. e sobre cristão espanhol. Não duvido. A maior façanha de Carlos. vosso avô. Com um texto santo mal interpretado quis o Demônio despenhar a Cristo. E seria grande desgraça perder o Reino eterno por um temporal já perdido. seja parte do sacrifício a repartição das vesti duras e leve embora a túnica aquele a quem coube em sorte. o que só importa. nem das vossas teme. que é rei e Senhor. Ponde os olhos neste soberano exemplar. sem dar a César o que é de César. Declara-se o modo com que se pode conhecer e saber os futuros) por Padre Antônio Vieira 49 . foi saber morrer. O tratado de uma boa e justa paz podia ser uma bula de composição geral. Esta será a maior prenda do vosso amor. Felicidade é levar já abatida das contas que se hao-de dar a Deus uma partida tão grossa. Com uma inclinação da cabeça podeis deixar pacificado o Mundo. a vos dizer de longe o que pode ser não tenhais ouvido de mais perto.Anexo:Imprimir/ História do Futuro outro fim mais que o de O agradar. Se vos parece amargoso este trago. que tereis conselheiros de grandes letras. Senhor. Senhor. este o troféu maior de vossas vitórias. Ouvi a voz de um homem que nem das felicidades de Portugal espera. ou os letrados pelos interesses dos reis. e depois deste texto e desta interpretação. pois sempre prezastes mais o de católico que o rei. e faça-se tudo diante de vossos olhos antes que os fecheis. perdidos pela desatenção dos ministros ou pela intenção (que será pior) dos políticos.

as quais devemos observar e atender. e far-se-á o que só Ele pode fazer: Fiat lux. e a dar passo. Trevas que faziam horror. E da profecia de Malaquias: Onus verbi Domini ad Israel in manu Malachiae. e dizendo humilde a Deus com David: Lucerna pedibus meis verbum tuum. E enquanto este sol.. E geralmente das profecias de todos os profetas: Sicut locutus es de manu puerorum tuorum prophetarum. que será muito formoso e alegre. e veremos o que neles se passa. As maiores trevas que se viram no Mundo. nec movit se de loco in quo erat. foram aquelas do Egipto. das quais diz o Texto Sagrado: Factae sunt tenebrae horribiles in universa terra Aegypti. e com a sua luz (ainda que luz pequena) entraremos no lugar caliginoso e escuríssimo dos futuros. não aparece. e 50 . e porque esta parecerá muito dificultosa. et facta est lux. sed Spiritu Sancto inspirati locuti sunt sancti Dei homines — diz S. Pedro: Mas ainda que a candeia esteja na mão de outrem. quando e a quem é servido: Non enim voluntate humana allata est ali quando prophetia.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A primeira qualidade da história (quando não seja a sua essência) é a verdade. e os porá mui seguros. Pedro nos ensinou a entrar nestas trevas sem medo. ou com que o Mundo se não viu. cui benefactis attendentes. será razão que. Serão pois as primeiras fontes desta nossa História. De maneira que pôs Deus a profecia como candeia na mão dos profetas. e muitos passos nelas. não coroa os nossos montes. justo é que lhes mostremos primeiro os motivos da credulidade. dirá Deus o que so Ele pode dizer. porque só Deus a pode dar e a dá. E pois pedimos aos leitores o assento da fé. possamos entrar com eles no lugar escuro e caliginoso dos futuros e ver e conhecer com a luz não nossa. quasi lucernae lucenti in caliginoso loco. e a ver claramente e com maior certeza tudo o que elas encobrem: Habemus firmiorem propheticum sermonem. sosseguemos o escrúpulo ou receio (quando não seja o riso e o desprezo) dos que assim o podem imaginar. o que eles viram e conheceram com a sua. nemo vidit fratrem suum. porque com o lume da profecia entravam nos lugares escuríssimos e secretíssimos dos futuros e viam neles claramente aquelas cousas para que todos os outros homens são cegos. de que se pode dizer com toda a razão: Tenebrae erant super faciem abyssi Mas neste mesmo abismo de trevas. alumiados e guiados da mesma luz os que não somos profetas. Eu conheço e confesso que a não tenho. trevas com que nada se via e trevas com que se não podia dar passo. seguindo sempre os raios deste farol divino. como ali não faltou: Spiritus Domini ferebatur super aquas. o Apóstolo S.factum est verbum Domini in manu Aggaei prophetae. Este é o modo com que. e porventura impossível na História do Futuro. donec dies elucescat: «Temos — diz o Príncipe dos Apóstolos — as profecias e palavras certíssimas dos profetas. se o espírito do Senhor (como esperamos) nos não faltar com a sua assistência. o que só agora podemos e devemos fazer é levar a candeia das profecias diante. e tão sua. o sol que há-de amanhecer é o cumprimento delas. até que amanheça o dia». saberá contudo onde há-de pôr os pés. antes que vamos mais por diante. e tal a escuridade do futuro. nem basta estudo ou diligência alguma para a alcançar. também se podem aproveitar da sua luz os que se chegarem a ela e a forem seguindo. Lugar escuro e caliginoso é o futuro.. não duvidamos da pia afeição de todos. Contudo. Tais são as trevas. pois a matéria é tanto para crer. a candeia que alumeia são as profecias. para que. et lumen semitis meis. usando delas como de candeia luzente em lugar escuro e caliginoso. quando diz da profecia de Ageu: . Confesso que entramos em um caos profundíssimo e escuríssimo. e ninguém as pode ver senão alumiado da mesma luz. havendo a nossa História de caminhar por passos tão escuros e dificultosos. Nesta propriedade fala a Escritura. Por isso os Profetas na Sagrada Escritura se chamam por antonomásia Videntes.

nem atrevimento do entendimento e discurso humano. a Escritura. os Cantares e o Apocalipse. de princípios sobrenaturais não evidentes mas certissimamente conhecidos. inferindo e acrescentando tudo aquilo que por conseqüência e razão natural se segue e infere dos mesmos princípios. como Provérbios. concorreram para a fábrica deste novo edifício. o Autor.Anexo:Imprimir/ História do Futuro os primeiros e principais escritores a quem nela seguiremos todos ou quase todos os profetas canônicos. Reis. devemos recorrer e buscar a verdade e notícias da nossa História nos autores dos tempos futuros. Temos desta matéria um excelente texto do Apóstolo S. Josué. quando servirem ou puderem servir (que não será pouco) ao conhecimento e inteligência dos tempos futuros. como os Salmos. e particularmente determinado à história dos Ninivitas. scrutantes in quod vel quale tempus significaret in eis spiritus Christi praenuntians eas quae. e estes são os que têm maior crédito e autoridade nas cousas daqueles tempos. falando das mesmas profecias e profetas. para vir em conhecimento dos mistérios. Job e os Evangelhos. cujo assunto foi um só. Nem este modo de discorrer sobre as profecias e revelações proféticas. dilatando-se e frutificando. tira conclusões teológicas. também científicas e ainda mais certas. que são somente os Profetas. mas vai crescendo. antes estudo muito lícito. no qual modo de fábrica se não perde a primeira verdade dos fundamentos. posto que não evidentes. E porque entre os outros Livros Sagrados. não só as naturais. senão no mesmo corpo. ajustando. também canônicos. segredos. e por isso se chamam e são ciências. Sabedoria. Deus. como a árvore em suas raízes. há alguns que totalmente são proféticos. e todos os outros. passiones et posteriores glorias. Paralipamenon. assim a teologia. o qual. Eclesiastes. Pedro (primeira e infalível regra da Igreja). Eclesiástico e as Epístolas dos Apóstolos. ou juntamente doutrinais e históricos. mais ou menos. Josias. desde Isaías até Miqueas. é alheio da reverência que se deve aos oráculos divinos. Deuteronômio. Christo sunt. pois só eles os conheceram. diz assim no primeiro capítulo de sua primeira epístola: De qua salute exquisierunt atque scrutati sunt Prophetae qui de futura in vobis gratia prophetaverunt. muito louvável e muito recomendado do mesmo Mestre Divino e seus sucessores. contêm ou muitas ou algumas cousas proféticas. assim do Velho como do Novo Testamento. Assim como a filosofia de princípios naturais evidentemente conhecidos tira conclusões certas. Deste modo crescem e se aumentam todas as ciências. porque. de todos estes nos ajudaremos também. evidentes e científicas. ou cousa nova e desusada na Igreja e escola de Cristo. Quer dizer S. todos os outros. depois de lhes serem revelados com lume sobrenatural e eles conhecerem e profetizaram mistérios futuros (como os da paixão e glórias de Cristo) sobre os mesmos mistérios e sobre as mesmas suas profecias inquiriam e especulavam de novo com o lume natural do discurso muitas circunstancias que lhes não 51 . ou meramente doutrinais. ainda que sejam meramente históricos. Sobre estes fundamentos da primeira e suma Verdade entrará o discurso como arquiteto de toda esta grande fábrica. como o Levítico. Assim como os que escrevem anais ou histórias passadas e antiquíssimas. senão as divinas. recorrem aos autores mais antigos. assim nós que escrevemos do futuro. combinando. ordenando. Pedro que os Profetas antigos. não em diversos. exceto o profeta Jonas. com que vem a ser um só livro e um só Autor o que nela principalmente seguiremos: o livro. Esdras e Macabeus. Números. sucessos e tempos futuros. que nelas não estejam imediatamente expressados. Assim que podemos dizer em uma palavra que a primeira e principal fonte e os primeiros e principais fundamentos de toda esta nossa História é a Escritura Sagrada. dispondo. como o Gênesis.

das nações. Desta maneira. É isto o que nós fazemos e devemos fazer. sucessos e circunstâncias que nelas estavam ocultas e pela conferência e conseqüência do mesmo discurso se vão entendendo e descobrindo de novo. da guerra. e ambos trazem em confirmacão o exemplo da Virgem Maria. assim o lume natural do discurso. como as do tempo estado do Mundo em que os mesmos mistérios se haviam de obrar e as suas mesmas profecias haviam de suceder. quando o achou entre os doutores. quo statu Reipublicae Hebraeorum. as palavras que os pastores referiam ter ouvido aos anjos. o estado dos reinos. Pedro nas palavras citadas: . se hão-de ver e suceder no Mundo: Deprehendebant Prophetae instinctu spiritus Messiae ejusdem Messiae adventum et gratiae dona. multiplicando e difundindo por todas as partes vizinhas e ainda distantes.Anexo:Imprimir/ História do Futuro foram expressamente reveladas. De sorte que. as que ouviu a Simeão. quam postea gloriam consecuturus et collaturus etiam esset. an belli. senão também. tempos. pois de nós e para nós falam os Profetas. razão é que nós como nossas as entendamos. e assim como se há mister necessariamente a sua luz para conhecer os futuros. se vai propagando. ou mais vizinho ou mais distante. João na cap. onde a versão siríaca tem: Nostra nobis: vaticinabantur. e muito mais.» Exquisitio et scrutatio (diz Lorino) . como diz o mesmo texto de S. curam et studium et industriam naturalem vel meditationis. e mais abaixo: Quibus revelatum est quia non sibimetipsis. da liberdade e outros semelhantes que no mesmo tempo.vel lectionis. dizendo por S. da qual diz o Evangelho: Maria autem conservabat omnia verba haec conferens in corde suo. estudo e indústria própria. vinham a estender e adiantar muito as mesmas profecias. e a palavra no qual tempo significa as qualidades e circunstâncias do mesmo tempo. XV dos Atos dos Apóstolos faziam os mais doutos cristãos da primitiva Igreja. quae allaturus erat. nec tamen salten omnes. nossa Senhora.. do cativeiro. E pois os Profetas profetizavam para nós e as cousas nossas. a Ana a profetiza. A palavra.. ambos doutissimos expositores deste lugar. e delas. e ao mesmo Cristo Menino. Bem assim como o sol ou candeia (que era a nossa comparação) não só alumeia com a luz que está ao lume ou fogo que nela se sustenta. atque conjecturando disquirebant. lendo. Isto mesmo é o que se diz no cap. que nas mesmas palavras não estavam expressamente declarados. Esta segunda luz 52 .. vel disputationis. conforme a sua menor ou maior esfera. quam brevi. Atèqui Lorino. Mas porque as profecias por sua natural escuridade não são fáceis de entender. Conferia a Senhora. e os acontecimentos particulares da paz. definite sciebant quo tempore veniret et quali. inferia e descobria outros mistérios ocultos e profundíssimos. vobis autem mintistrabant. at ignorabant circumstantiam tem poris. por discurso natural. das repúblicas. L: Scrutamini Scripturas. é também necessária outra Segunda e nova luz para as entender a elas. ajuntando o lume natural do d curso ao lume sobrenatural da pirofecia. Isto é o que literal e genuinamente significam aquelas palavras: «Exquisierunt et scrutati sunt.. O mesmo diz Salmeirão. Eplicabant quae Messias primum passurus. difundindo e estendendo a muitas cousas. isto é. e o que Cristo mandou a todos que fizessem.. aut pacis. et ratiocinando. no sentido em que o digo vinham a inferir e alcançar pelo estudo e especulação natural e própria o que Deus lhes não tinha manifestado pela revelação sobrenatural e divina. disputando e meditando. captivitatis.qui de futura in vobis gratia prophetaverunt.proprie indicant. com a luz que dela se vai produzindo. em que tempo significa a determinação do tempo certo em que as cousas hão-de suceder. conhecendo delas e por elas muitas cousas que nelas imediatamente não estava reveladas.. Isso quer dizer: In quod vel quale tempus. com o cuidado. com ser alumiada sobre todas as criaturas. aut libertatis.

com que alumiaremos as profecias. pela ordem que a necessidade ou ocasião o for pedindo. e é como alicerce de todo o edifício. com uma breve relação também das mesmas pessoas (quando não forem geralmente mui conhecidas) pelo muito que importam todas estas notícias não só para a fé e crédito. pelas mesmas causas. que são em primeiro lugar os Apóstolos sagrados. Era aquele labirinto por uma parte muito escuro e por outra mui intricado. e depois daqueles seus primitivos anos houve sempre novos profetas. senão igualmente nos antigos e sagrados. que grandemente depende do tempo e de outras semelhantes circunstâncias. sem certeza de autor e muito menos do espírito com que foram escritas. mas o único fundamento de toda a sua verdade.Anexo:Imprimir/ História do Futuro serão aqueles a quem Cristo chamou luz do Mundo: Vox estis lux Mundi. por ser este não só o principal. à imitação de Barónio e de outros autores. candeia acesa: Neque enim accendunt lucernam et ponunt eum sub modio. não só com tocha. Por este modo entraremos também nós pelo escuro e intricado labirinto dos futuros. por outras palavras. e não só falaremos nos autores e Profetas modernos e não canônicos. senão preparação ou aparato para ela. Isto é quanto às profecias e Profetas canônicos. e para vencer e facilitar estas duas dificuldades se inventou entrar nele. e sem o qual vã e não merecidamente lhe devemos prometer o crédito que de todos os que a lerem esperamos. As profecias e os Doutores nos servirão de tochas. e outra as mesmas profecias. também estes darão matéria à nossa História. a que por isso chamamos Anteprimeiro. que com menos necessidade o fizeram em 53 . E porque o Espírito Santo. e não só provaremos quanto for necessário o espírito da profecia destes autores. depois de fechado o número dos livros e os escritores sagrados (o qual se cerrou no Apocalipse de S. e muito mais. senão ainda. como dos seguintes tempos. mas diremos o tempo em que escreveram as obras proféticas que deles existam. o entendimento e o discurso de fio. A este fim empregarei grande parte deste presente livro na qualificação do espírito profético que tiveram todos os autores do futuro que na História se hão-de alegar. não deixou de ilustrar e ornar sua esposa a Igreja com o lume e dom da profecia. Por esta causa se não acharão porventura neste nosso discurso menos algumas que em nome de profecias andam entre o vulgo. alumiados com o mesmo espírito. Não meteremos porém nesta conta senão aquelas profecias somente que. Também excitaremos a este fim e resolveremos várias questões muito importantes ao conhecimento das profecias. para a inteligência e combinação das mesmas profecias. aprovados e canonizados pela Igreja. que por palavra e escrito predispuseram muitas cousas futuras. e em segundo os Padres Doutores da Igreja e expositores das Escrituras divinas. com que alumiaremos e descobriremos os futuros. a inteireza ou corrupção com que se tem conservado. assim dos seus. merecido no juízo dos prudentes o nome e veneração de profecias ou predições verdadeiras. João). ou pela santidade de seus autores. ou por outros fundamentos sólidos da razão. os quais seguiremos e alegaremos em tudo o que dissermos com estas duas luzes ou candeias: uma dos Doutores sagrados. poderemos entrar neste labirinto com todo o aparato e prevenção de instrumentos com que se entrava seguramente no de Creta. experiência e opinião do Mundo. mas também com fio: as tochas para ver o escuro dos caminhos e o fio para entrar e sair pelo intricado deles. tenham. e. e esta será a própria matéria de todo este livro. E posto que todo este tão largo Prolegómeno em rigor não seja História do Futuro. Procuramos quanto nos foi possível que fosse mui exata esta diligência. na forma possível.

por natural conseqüência. que. é certo que têm toda aquela certeza infalível e de fé. ou canonicamente. como também terão advertido os mais lidos e versados. que destas verdades assim profetizadas e conhecidas. que não é sujeita a erro ou falsidade. e por ambas tal certeza. ou teológica. por esta parte têm evidência. o nome de história verdadeira. se deduzirem. não será injucunda aos que a lerem. porque as cousas que expressa e imediatamente se predizem nas profecias canônicas. será fundada na primeira e suma Verdade. como em Deus esperamos. segundo todas suas partes. enquanto não sai a luz. não só de cousas incertas e improváveis.Anexo:Imprimir/ História do Futuro suas histórias. posto que não em todas com igual grau de certeza. que é. pois são filhas e herdeiras da mesma Verdade de que tiveram seu nascimento Restam somente aquelas profecias que. ou provável. como as conseqüências que delas por formalização se deduzirem. sendo a excelência singular desta História que toda ela. verdadeira com certeza moral. ou pelo consenso comum dos Padres. Estes quatro gêneros de verdade são os de que repartidamente se comporá toda a História do Futuro. ou por não averiguadas com tão evidente certeza (posto que sempre estabelecidas com bons e racionais fundamentos) ou por sua interpretação não ser tão manifesta ou recebida que não desfaça moralmente toda a razão de dúvida. nem perigo de poderem não ser. que será. Nas do primeiro gênero. nas do quarto. o mesmo Deus. se não distinguirá delas. e a mesma participarão. qual é a das conclusões teológicas que. por ir toda (como vai) não só fundada nos mesmos textos e sentenças da Escritura divina. na forma que pouco antes dissemos. de cuja inteligência por sua clareza se não pode duvidar. verdadeira com certeza provável. e que possa sem enfado entreter a expectação e desejo da mesma História. que é a que depois a fé e da ciência têm no juízo humano o maior assento. ainda que intervenha no discurso algum meio ou proposição científica. por melhor dizer. ficam dentro dos lates da probabilidade opinativa. nas do terceiro. todas elas estão cheias. e ainda esta exceção se não deve entender em todo. e pela maior parte até agora não tratadas. que esta História do Futuro é mais certa e mais verdadeira que todas elas (excetas somente as Histórias Sagradas). pelo modo já explicado. ou por culpas ou sem culpa dos mesmos historiadores. As profecias não canônicas podem ser tão evidentemente provadas por seus efeitos. E digo que sem injúria nem agravo de todas as outras histórias humanas. nem somente ciência. merecendo. porque. ou moral. assim nas antigas como nas modernas. que as outras verdades sagradas que se contêm nas Escrituras. por sua grande variedade e diligente erudição de cousas curiosas. ou por estarem explicadas por escritores também canônicos por concílios. verdadeira com certeza de fé. mas formada e como tecida deles. verdadeira com certeza teológica. 54 . são verdades segundas que participam a mesma certeza também infalível. De tudo o que fica dito ou prometido se colhe facilmente quanta será a verdade desta História. não sendo totalmente fé. e conhecidamente supostas e falsas. a História do Futuro igualará na verdade e na certeza. nas do segundo. assim o que imediatamente predizem. todas as outras conclusões que por natural e evidente conseqüência delas se deduzirem. como veremos que tenham toda a certeza moral. As outras cousas. le nestas. por tradições. terão somente certeza provável naquele sentido em que dizemos provavelmente certas aquelas cousas de que há fundamentos prováveis para o serem. Daqui inferimos sem injúria nem agravo de quantas histórias até hoje estão escritas no Mundo. senão em parte. muito brevemente. esperamos que a matéria. mas alheias e encontradas com a verdade.

Jerônimo. sobre a qual batalham tantas vezes os mesmos historiadores. os Lívios. Das dos Gregos e Romanos disse S. e porque fora matéria infinita. Estes foram os pais da História humana. Por isso Tertuliano lhe chamou com razão mendaciorum loquacíssimum. e nós para eles. que não escreva por informações? E que informações há de homens. que não vão envoltas em muitos erros. que esta mesma candeia e luz das profecias há muitos centos de anos que está acesa. por ocasião do milagre da serpente: Cedaxt huic veritati. Quem quiser ver claramente a falsidade das histórias humanas. Os futuros. com que formava os processos para as sentenças. e a nossa tirada do lume da profecia e acrescentada pelo lume da razão. senão supra candelabrum. os Trogos. da divisão das primeiras gentes. a lisonja. e todos na tinta de escrever misturam as cores do seu afeto. ou da alheia nação. que é mais. Medos. que são as duas fontes da verdade humana e divina.) por Padre Antônio Vieira 55 Assentamos com o Apóstolo S. E Cícero.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Que historiador há ou pode haver. ou da ignorância. tam graeco quam romano stylo mendacis ficta miracula. leia a mesma história por diferentes escritores. e desta é filha legítima a sua verdade. Pedro. e não sub modio. O certo é que só tinha perto a ambição de seu próprio juízo. empresa e ousadia. com ter longe as causas do ódio e amor. Prova Tácito a verdade da sua história. ou da sua. o ódio. ou do seu ou de estranho príncipe? Todas as penas nasceram em carne e sangue. que o não incline só o respeito. mas de aí se convence contra ele. ou da malícia? Que historiador há de tão limpo coração e tão inteiro amador da verdade. se contradizem e se implicam no mesmo sucesso. no livro primeiro das Leis: Apud Herodotum patrem Historiae et apud Theopompum sunt innumerabiles fabulae. como em pedra de toque. e como há tantos centos de anos que estão escritas estas profecias. as dos Assírios. como são as de Noé. Capítulo X: Resposta a uma objeção: mostra-se que o melhor comentador das profecias é o tempo. o amor. os Diodoros. no capítulo antecedente. Persas. História do Futuro (Volume I. e desta mesma experiência e razões dela se qualifica claramente ser a nossa História do Futuro mais verdadeira que todas as do passado porque elas em grande parte foram tiradas da fonte da mentira. do Dilúvio. a vingança. que com a candeia da profecia se podia entrar pela escuridade dos futuros e descobrir e conhecer o que neles está encoberto e enterrado. o que escteveram os Berosos. Mas isto mesmo se conhece. e verá como se encontram. e que ninguém contudo se atreveu até agora a entrar com ela por estes abismos e escundades do futuro. por mais diligente investigador que seja dos sucessos presentes ou passados. que mais merece nome de temeridade :que de confiança. e todos os outros historiadores daquelas nações e tempos. sendo infalível que um só pode dizer a verdade e certo que nenhum a diz. tanto mais se vão chegando para nós. daquelas histórias de que temos verdadeira relação nas Escrituras Sagradas. Romanos. Gregos. e principalmente a dos Hebreus. quanto mais vão correndo. apenas se acha cousa que não seja contradição da verdade. também há outros centos de anos . Não aponto erros em particular das histórias mais vizinhas a nossos tempos por reverência deles. Egípcios. Mas sobre esta resolução se pode dizer e argüir contra nós. aos quais (que sempre serão mais de um) responderemos facilmente com o seu mesmo argumento. os Heródotos. mas nunca com conhecida vitória. os Cúrcios. como nós prometemos fazer. que é a ignorancia e malícia humana. que também tinha longe as informações da verdade. com os quais cotejado. ainda com maior evidência. e não as sentenças sobre os processos.

senão os nossos tempos. viu melhor e mais claramente que todos. não basta só que a candeia esteja acesa. Com una candeia na mão pode-se ver o que há em uma casa. mas não se pode ver o que há em uma cidade. e sobre eles por benefício do tempo. como vive mos depois deles. Esta é a diferença que não nós. e ele disse: — Este é. Pigmeus nos conhecemos em comparação daqueles gigantes que olharam antes de nós para as mesmas Escrituras. e estar em cima dos mais.. o Baptista o mostrou melhor. porque os não veremos melhor? Assim o confessou Santo Agostiho com ter os olhos de águia o qual.Anexo:Imprimir/ História do Futuro que os futuros se vão chegando para elas. Mas estes são os privilégios da última hora: Hi novissimi una hora fecerunt. 0 último degrau da escada não é maior que os outros. mas subidos por merecimento seu e fortuna do tempo a tanta altura. que tanto ornato. disse Cristo. quão desigual) quão inferior é. Fizeram na última hora o que os outros não fizeram todo o dia.eles viram. 0 grande precursor de Cristo . As visões e revelações de Deus vêem-se melhor ao perto que ao longe: de longe viu Moisés a visão da sarça. e elas para os futuros. comparada com aqueles cedros do Líbano e com aquelas torres altíssimas. não podia alcançar a ver o que os outros viam. fazem aos antigos: nos antigos reconhecemos a vantagem da sabedoria. ao perto.. entendeu o que aquelas figuras significavam. e disse que a iria ver. Entre a multidão dos que acompanhavam e rodeavam a Cristo. porque vai muita diferença de ver as visões de Deus ao longe. Se estamos mais perto dos futuros com igual luz (ainda que não seja com igual vista). Eles sem nós viram muito mais do que nós podemos ver sem eles. e ainda que todos os outros Profetas anunciaram a Cristo. Este é o modo com que os últimos podem vir a ser os primeiros. ou vê-las ao perto. e por isso nós nos atrevemos a fazer hoje o que os Antigos não fizeram. para que dele se possa alcançar o que de outros se não alcança. Para ver com uma candeia. Os que estudamos e trabalhamos na inteligência da Sagrada Escritura. mas basta ser o último. mais ou menos todos cavamos e.erat lucerna lucens et ardens. Cousa maravilhosa é. Ao longe viu só Moisés a sarça e o fogo. achando-se às escuras em muitos lugares das profecias. Non ergo undecima hora in vineam Domini ad operandum conductis nobis invidendum est — disse Lipomano na prefação de seus Comentários. e conhecemos quão pequena. Estava vendo a visão. e que disse? — Vadam et videbo visionem hanc magram: «Irei e verei esta grande visão». os outros diziam: — Há-de vir. o mais pequeno de todos era Zaqueu que por si mesmo. e um pouco mais. porque eles com outros acabaram a obra que os outros sem eles não puderam nem podiam acabar: Sic erunt novissimi primi. aplicando a parábola de Cristo ao estudo da Sagrada Escritura. mas subido em cima da árvore. vemos hoje o que . é necessário que a distância seja proporcionada: Ut luceat omnibus qui in domo sunt. e com os pés no chão. porque a candeia de mais perto alumeia melhor. nos nossos a fortuna da vizinhança. como os cavadores da vinha que vieram na última hora puderam ser avantajados aos demais. pode suceder que os que vêm na última hora por felicidade da mesma 56 . reservou a verdadeira inteligência delas para os vindouros. tanta grandeza e majestade acrescentaram ao edifício da Igreja. não é muito que alcancemos e descubramos um pouco mais do que eles descobriram e alcançaram. A mesma luz e a mesma candeia ao longe vê-se. mas nós. Mui bem medimos a nossa estatura. Um pigmeu sobre um agigante pode ver mais que ele. e que apenas se pode entender. antes pode ser menor. e ao perto alumeia. ainda que tivessem acesa a mesma candeia. porque era candeia de mais perto.

até o de Cristo. que já o não alcançou. nem viu. descubram com poucas enxadas o que muitos em muito tempo e com muito trabalho. e confessando-se por mínimo de todos. quando chega o tempo determinado e predefinido por Deus para que seus segredos se conheçam e descubram no Mundo. e S. secundum praefinitionem saeculorum. e logra é fruto dos trabalhos e suores dos primeiros? Assim aconteceu no tesouro das profecias: cavaram uns e cavaram outros. Crisóstomo. cavando muito mais. qui omnia creavit. Mateus. só então. o cabo chamado de Não. o tornará ou não. e depois de estes cansados e desesperados. se podem manifestar e entender. confessa ter recebido a graça de descobrir aos mesmos anjos do Céu os tesouros que lhes estavam escondidos: Mihi omnium sanctorum (diz ele na Epístola aos Efessos) minimo data est gratia hoec in gentibus evangelizare investigabiles divitias Christi. descendo sem trabalho ao profundo da mesma cova. et illuminare omnes quae sit dispensatio sacramenti absconditi a saeculis in Deo. quem o descobriu. porque. Jerônimo com mais estrita propriedade o entende particularmente das escrituras proféticas Quantas vezes os que trabalham no descobrimento de algum tesouro. nem ouviu neste Mundo como os demais. que foi no ano da criação do Mundo I80I. porque bem pode o último e o mínimo alcançar e descobrir os segredos que os primeiros e maiores não alcançaram. ut innotescat principatibus et potestatibus in caelestibus per Ecclestam. Desde que Túbal começou a povoar Espanha. não descobriram. e quando . disse verdadeira e judiciosamente S. a quem se descobriu. meses e anos sem acharem o que buscam. porque costuma Deus ter algumas cousas encobertas e escondidas por muitos séculos. que era provérbio entre eles (como escreve o nosso João de Barros): quem passar o cabo de Não. e cansaram todos e no cabo descobre o tesouro quais sem trabalho aquele ultimo para quem estava guardada tamanha ventura. Quem o descobriu foi o último de todos os apóstolos 9 discípulos de Cristo. foi no século que Deus tinha predefinido e determinado: Secundum praefinitionem saeculorum. se descobriu. cavam por muitos dias. Paulo. tão temorosos aos navegantes. Aparecia ao 57 . 0 último dos Apóstolos foi S. XIII de S. porque esta ventura não é privilégio dos entendimentos. quando se descobriu. enquanto ele quer que estejam encobertos e escondidos. S. João Crisóstomo. A quem se descobriu foi não menos que aos espíritos angélicos das mais superiores hierarquias do Céu: Ut innotescat principatibus et caelestiu. Nas quais palavras se devem ponderar muito quatro cousas: Que é o que se descobriu. ainda que seja de um anjo e de muitos anjos. Finalmente. era o termo da navegação do mar Oceano junto somente à costa de África. sendo os mares que depois dele se seguiam. a qual sempre é do último Eis aqui como pode acontecer que descubram o tesouro os que cavam menos: Saepe abseptus quisquam.Anexo:Imprimir/ História do Futuro hora acabem. para conhecer e penetrar os segredos altíssimos de Deus. e se confessa por mínimo de todos: Mihi omnium sanstorum minimo. senão prerrogativa dos tempos. Aquele tesouro escondido de que falou Cristo no cap. e de nenhum modo antes. Assim que bem pode um homem menor que todos descobrir e alcançar o que os grandes e eminentíssimos não descobriram. quod magnus et sapiens vir praeterit. et vilis invenit. que é a Escritura Sagrada. O que se descobriu é um segredo escondido a todos os séculos passados: Sactamenti absconditi a soculis in Deo. I428. sucede vir um mais venturoso que. conforme a ordem e disposição de sua Providência. diz Ruperto Tertuliano. e cavando alguma cousa de novo descobre a poucas enxadadas e tesouro. porque não bastam as forças da sabedoria e entendimento criado. em que se passaram mais de 3600 anos. multiformis sapientia Dei.

venceu felizmente o cabo em uma barca.. fecharás e selarás o livro (em que escreveres estas cousas que tenho dito). quebrou aquele antiquíssimo encantamento e mostrou com estranho desengano à Espanha. para pisar todos esses impossíveis e para navegar segura e venturosamente os mares nunca de antes navegados. Lusos. como se pode ver em todos os comentadores de Daniel. não havia historiador que de ali adiantasse um momento a conta de seus anos e dias. de escuridade. a hora em que Deus tinha limitado o curso de tanto receio. era a carranca medonha. ou. de impossíveis. entretanto passarão muitos por elas. e entendamos que se passou o cabo. facilitada esta passagem. Mas se agora virmos desfeitas estas névoas. Daniel. posto que elas são tão claras e expressas que não necessitam de comentador. nem os Cipiões e Júlios de Roma. e isto por um piloto de tão pouco nome e uma tão pequena barquinha como a do seu limitado talento. o qual é o que só tem poder para romper os sigilos e abrir e fazer 58 . plurimi pertransibunt et multiplex erit scientia: >>Tu. nem os Aníbales de Cartago. porque chegou a hora. verá também como um homem português não de muito nome. XII de Daniel. como pelo desengano de muitas experiências. coberto de névoas. até que chegue o tempo determinado pela Providência divina. de passar aquele cabo Bojador. o qual feito ponderando o nosso grande historiador com seu costumado juízo. com que demonstrativa e indubitavelmente se persuade e convence esta verdade nos próprios termos da inteligência das profecias em que falamos. desvanecido este escuro. o que confusamente se representava adiante ao longo deste cabo. basta Gil Eanes em uma barca para vencer todas essas dificuldades. ao Mundo e ao mesmo Oceano que também o não navegado era navegável. foi o primeiro que. como se pode ver no IV capítulo da primeira Década. nem os Bacos. Daniel.>> E verdadeiramente é assim: enquanto não chega a hora determinada por Deus. que ninguém as pode entender nem declarar. dobrado este cabo. de nuvens espessas. No cap. chamado Gil Eanes. Mas quem ler o capítulo seguinte. como todos tinham.:>> Este é o sentido literal e verdadeiro destas palavras do anjo. De maneira que. depois de um anjo lhe ter declarado grandes mistérios dos tempos futuros. o temerosíssimo Bojador do futuro. era até agora o cabo de Não. de cegueira.Anexo:Imprimir/ História do Futuro longe deste o cabo chamado Bojador. Ali donde chega o presente e começa o futuro. para que estejam fechadas e seladas até o tempo determinado por Deus. usque ad tempus statutum. nas escrituras dos profetas. pelo muito que se metia dentro no mar. Mas quando chega a hora precisa do limite que Deus tem posto às cousas humanas. de horrores. sondado este fundo e navegável e navegada a imensidade de mares que depois dele se seguem. diz breve e sentenciosamente: «E a este seu propósito se ajuntou a boa fortuna. tanto por fama e horror comum. de medos. e haverá sobre a inteligência de seus mistérios grande variedade de ciências e opiniões. de sombras. mandou-lhe que fechasse e selasse o livro em que estavam escritas e lhe disse estas notáveis palavras: Tu autem. para atalhar todos esses receios. É admirável a este propósito um lugar do profeta Daniel. dispondo-se ousadamente ao rompimento de uma tamanha aventura. Gedeões e Hércules de Espanha se atrevem a imaginar. cuja passagem. se reputava entre todos por empresa tão arriscada e impossível à indústria e poder humano. Não havia pensamento que ainda com imaginação (que a tudo se atreve) desse um passo seguro mais adiante naquele tão desusado caminho. que pode o Bojador ser vencido. por melhor dizer. demos os louvores a Deus e às disposições de sua Providência. e param suas empresas e ainda seus pensamentos no cabo de Não. há cousas de tal modo fechadas e seladas. claude sermones et sigra librum.

soberano Autor e Governador do Mundo e perfeitíssimo exemplar de toda a 59 . sempre admirável em todas suas obras. o mistério destas pausas e intervalos era porque se haviam ir descobrindo as profecias que estavam escritas no livro. que depois entenderam os Montanos. ou mais vagarosos ou mais apressados. e assim se haviam ir entendendo. senão igualmente com eles. Onde se deve advertir e notar que muitos homem ainda que sejam de grandes letras. traçada e disposta maravilhosamente pelas idéias de sua Providência. No Apocalipse (cujas profecias são próprias deste tempo). e não apartadas de seus efeitos. os Teodoretos. antes que ele se veja descoberto nos horizontes. assim como eram diversas as profecias e diversos os efeitos e sucessos da Igreja e do Mundo. De maneira que nas profecias estão encobertos os tempos e os efeitos. que nelas estavam ocultos e encerrados. que nelas estavam profetizadas. pendentes sempre de um sucesso para outro sucesso. E se quisermos especular a razão desta providencia. ajudados e ensinados do tempo. mas porque lêem e estudam à luz da candeia. encobrindo-se de indústria o fim da história. e por isso naquele misterioso livro. João. os Jerônimos? Por quantos passaram os Hugos. que depois entenderam melhor os que lhes foram sucedendo. assim também eram diversos os selos com que estavam fechados e diversos os tempos em que se haviam de abrir e manifestar. ou quando já forem chegando. com que dispôs e tem decretado que as profecias se vão descobrindo e entendendo ordenada e sucessivamente aos mesmos passos. com que o enredo os vai levando após si. os Tertulianos. porque passarão todos por ele sem entenderem nem penetrarem Isto quer dizer: Plurimi pertransibunt. em que a Igreja de Cristo se vai continuando mais claramente que em nenhum outro lugar das Escrituras. os homens as figuras que nele representam. Por quantos lugares passaram os Origgenes. cuidam que passam os livros. senão por passos e espaços: um selo primeiro e outros depois. os Rupertos. sábios e santos que sejam os expositores daquelas profecias. mas o certo e verdadeiro sentido delas sempre ficará oculto e escondido. e nos tempos e nos efeitos estarão descobertas as profecias. pelos resplendores da aurora se conhece a vizinhança do Sol. E enquanto este tempo não chega. os Ricardos. temos relatado este segredo da Providência divina. et multiplex erit scientia. que depois en tenderam os Agostinhos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro patentes as escrituras fechadas e declarar os mistérios futuros. assim Meus. foi um livro fechado e selado com sete selos o qual era o seu mesmo Apocalipse. Entre as cousas muito misteriosas que viu S. os Riberas? E por quantos passaram também estes. acharemos que não é outra senão a majestade da sabedoria e onipotência divina. e a história verdadeira de seus sucessos uma comédia de Deus. os Sanches. É este mundo um teatro. não porque os últimos sejam mais doutos ou de mais aguda vista. por mais doutos. foram-se rompendo estes selos e abrindo-se o livro. e passam por eles: Plurimi perransibunt. mas não todo Juntamente. Bem assim como antes de se acabar de todo a noite. dirão cousas muito discretas. e para o qual reservou Deus a abertura dos seus sigilos? Signa librum usque ad tempus constitutum. sem que se possa entender onde irá parar. muito doutas. os Cornélios. não juntamente. senão quando já vai chegando e se descobre subitamente entre a expectação e o aplauso. com que vão seguindo e variando os tempos. sendo o mesmo tempo e os mesmos sucessos os que as abrissem e manifestassem. muito santas e muito várias. E assim como o primor e subtileza da arte cômica consiste principalmente daquela suspensão de entendimento e doce enleio dos sentidos. os Clementes. os Basílios. e com grande aparato de cerimônias e efeitos admiráveis no céu e na terra. senão em diferentes tempos. ou a mais misteriosa de todas. que é mais certo intérprete das profecias. ou depois de chegarem.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro natureza e arte para manifestação de sua glória e admiração de sua sabedoria. qui imperavit super regnum Chaldeorum. XX. sendo Daniel um tão grande profeta. donec faciat et cormpleat cogitationem cordis sui: in novissimo dierum intelligetis ea. ainda quando as profecias são muito claras. sendo Daniel. que Daniel afirma que entendeu no primeiro ano do império de Dario. não quis Deus que o mesmo Daniel. que nos não deixa compreender nem alcançar os segredos de seus intentos. Pois se o termo de setenta anos estava profetizado com palavras tão claras e expressas como são aquelas de Jeremias: Et servsent omnes gentes istae regi Babylonis septuaginta annis. filii Asssueri. não de outrem. que teve o império dos Caldeus: Eu Daniel. falando de suas profecias.profecia. e não Daniel. que Deus tinha revelado ao profeta Jeremias havia de durar a assolação de Jerusalém>> e cativeiro dos Judeus em Babilônia.>> Estes setenta anos. de semine Medorum. Agora entra o caso e a admiração: Esta profecia de Jeremias. de tal maneira nos encobre as cousas futuras. por isso. O tempo foi o que interpretou a . com pasmo e assombro do mundo. diz que se não entenderão senão nos últimos tempos do cumprimento delas: No cap. com que sua mesma clareza se nos faz escura. E é esta regra (com pouca exceção de casos) tão comum em Deus e seus decretos. é do cap. XXIII: Non revertetur furor Domini usque dum faciat et usque dum compleat cogitationem cordis sui: in novissimis diebus intelligetis consilium ejus. senão de si: In anno primo Darii. senão no último ano dos setenta. o entendesse senão no último ano. estando em Jerusalém) será assolada. e todas as gentes que a habitam. intellexi in libris numerum annorum. como consta da exata cronologia que se pode ver largamente provada em Perério e rios comentadores da profecia de Daniel. porque assim o profetizou e o repete o mesmo Jeremias em dois lugares. para nos ter sempre suspensos na expectação e pendentes de sua providência. como diz Daniel. Eu o não crera. mas assim havia de ser. XXV daquele profeta. anno uno regni ejus. sendo Daniel. E no cap. Daniel. filho de Assuero. em que ela se cumpria. que assim o confessa. não entendi a profecia tão clara de Jeremias. diz ele. ego. e com este véu. para que umas palavras tão expressas e uma profecia tão clara possa parecer escura? Atravessa uma nuvem (como dizíamos) entre a profecia e os olhos. E esta parece a energia daquela sua palavra: Ego. o claro por claríssimo que seja 60 . de quo factus est sermo Domini ad Jeremiam prophetam. Daniel. senão quando Já tem chegado ou vêm chegando os fins deles. que. entendi nos livros o número de setenta anos. et servient omnes gentes istae regi Babylonis septuaginta annis:<<Toda esta terra (diz Jeremias. Daniel intellexi: Eu. ou sobre os olhos ou sobre a profecia. sendo a profecia tão clara e o número dos setenta anos tão expresso. descendente dos Medos. se o não vira esento para maior admiração em um dos maiores profetas. E que fez Deus. onde. se acabaram de cumprir no primeiro ano do império de Dario. ut complerentur desolationis Hierusalem septuaginta anni: <<No ano primeiro de Dario. costuma atravessar entre elas e os nossos olhos umas certas nuvens. e diz assim: Et erit uníversa terra haec in solitudinem et in stuporem. senão no primeiro ano de Dario. que foi o último dos mesmos setenta? Podia haver conta mais clara? Podia haver palavras mais expressas? Não Mas como é regra ordinária da Providência divina. que não entendeu o número destes setenta anos. ou pode fazer. que as profecias se não entendam senão quando já tem chegado ou vai chegando o fim delas. servirão ao rei de Babilônia por espaço de setenta anos. quase pelas mesmas palavras: Non avertet iram indignationis Dominus. ainda quando as manda escrever primeiro pelos profetas.

Que profecias mais claras que as da vinda de Cristo ao Mundo? E muito mais claras ainda depois de manifestas e provadas com os mesmos efeitos. só eles os podem tirar. mas nem se busca. . mas varreu a casa:. e tais são as profecias. e que distinguimos melhor porque vemos mais perto. porque eles são os que querem ser cegos. varra-se e alimpe-se a casa. porque olhamos de mais alto. se os cega o amor ou ódio. porque têm os olhos cobertos com aquele antigo véu de Moisés. Quando queremos encarecer uma cousa de muito clara.. dizemos que é clara como a água. porque as quero remos ver por entre nuvens. resumindo toda a resposta da objeção. Tirem o véu de sobre os olhos. Se os olhos estão cobertos e escurecidos com o véu do afeto ou com a nuvem da paixão.. até a água e escura. História do Futuro (Volume I. e que as cousas novas. cum autem conversu fuerit ad Dominum. por muito clara que nela esteja.tenebrosa aqfxa in nubibgs aeris Em havendo nuvem em meio. ou. et considerabo mitrabilia de lege tua. e que trabalhamos menos porque achamos os impedimentos tirados. porque não há cousa mais clara.accendit lucernam. velamen positum est super cor eortum. Por isso pedia o mesmo David a Deus que lhe tirasse o véu dos olhos. ou que tirem primeiro-o véu de sobre os olhos. não desmerecem o crédito de sua verdade. A candeia está acesa e muito clara. porque estamos mais chegados aos futuros. E contudo estas são as que mais obstinadamente nega a cegueira judaica. para o dizer melhor.. como eles. o tempo as gasta e as desfaz. para que pudesse conhecer as maravilhas dos seus mistérios: Revela oculos meos. é escura: . porque todos os que cavaram neste tesouro e varreram esta casa. é necessário que revele também os olhos: Revela oculos meos. como se pode entender a verdade da profecia.Anexo:Imprimir/ História do Futuro fica escuro. vemos de mais perto. mas os véus que os homens lançam sobre os próprios olhos. a inveja ou a lisonja. e com véu sobre os olhos! Peço e protesto a todos os que lerem esta História.. De maneira que. e logo verão os olhos o que há nela. do tribo de Benjamim: Usque in hodiernum diem. Oh quantas profecias muito claras se não entendem.) everrit domum.. e verão a luz das profecias: ainda que a profecia seja candeia acesa.. e contudo essa mesma água (como discretamente advertiu David). A mulher que buscava a dracma perdida não só acendeu a candeia. ou se não querem entender. e se achará o que se busca. a esperança ou o temor. com uma nuvem diante. Capítulo XI) por Padre Antônio Vieira 61 Declara-se qual seja a novidade desta História. auferetur velamen. a vingança ou o interesse. et (. mas a casa não está varrida. por claras e claríssimas que sejam. digo que descobrimos hoje mais. porque vemos sobre os passados. ou que a não leiam.. foram tirando impedimentos à vista. e tudo isto por beneficio do tempo. como se há-de ver com os olhos cobertos? Tire-se o impedimento à luz. tirem-se os estorvos e impedimentos à luz. Como se hão-de entender as revelações com os entendimentos e olhos vendados? Não basta só que Deus tenha revelado os futuros. e logo se verão a candeia e mais o que ela alumeia. nem se quer achar. Olhamos de mais alto. quando o primeiro intento e nega-la ou quando menos escurecê-la? As nuvens que Deus põe sobre a profecia. por novas. como lhes lançou em rosto o grande Paulo Judeu e semente de Abraão. por providência do Senhor dos tempos. cum legitur Moyses. e achamos os impedimentos tirados.

ponha em risco o crédito da sua verdade. Responda-me logo vossa 62 . A mesma Lei de Cristo chamada por sua novidade evangélica. ainda que a novidade da nossa História fora qual se supõe. si manifesti. Boaventura. et hac lege post priores nullus loqui audebit. senão pela maior luz da Igreja. Prudêncio. nos Barónios. que nos precederam no Senhor. Jerônimo com igual engenho. ac per hoc utroque modo superflua erit interpretatio tua. zelo e elegância. Mas o maior exemplo de todos neste caso é o daquela divina obra de S. ou o que era manifesto. Agostinho — que eu me não devia cansar em interpretar as Escrituras depois dos antigos intérpretes delas. mas são estas armas já tão velhas e ferrugentas.] tuo tibi sermone respondeo: omnes veteres tractatores. quod illis latere non potuit [.. nos Platins. S. «Quanto ao que me dizeis—diz S. Jerônimo: De vertendis autem in latinam linguam sanctis litteris laborare te nollem [ ] aut obscura sunt. como por graça de Deus não tem. te quoque in eis falli potuisse credendum est. A primeira instituição da vida monástica. Jerônimo a S. Si obscura. ou interpretaram o que era escuro. João Crisóstomo. superfluum est te voluisse disserere. supérflua diligência é quererdes vós explicar o que os outros não podem deixar de ter entendido». contanto que não tenha. elegante e engenhosamente Santo Agostinho. Gregório. Se o que era escuro. Si enim obscura sunt. quomodo tu post eos ausus es disserere.si manifesta. bem advertimos que metíamos as armas nas mãos aos críticos. quare tu post tantos ac tales scriptores et interpretes in explanatione Psalmorgm diversa senseris? Si enim obscurt sunt Psalmi. et novo utens syllogismo [. 0 reparo da novidade não é crime de que ela tema ser acusada. quod illi explanare non potuerunt? Si manifesta. nem só por quaisquer católicos. te quoque in eis falli potuisse creditur. Até aqui zelosa. com razão se crê que também vos podeis enganar na sua interpretação.. e se manifestas.. e não é. para que não falemos nos Waldenses. Pensão é muito antiga das cousas boas e grandes serem acusadas de novas. Se escuras. Quero pôr aqui as palavras deste grande e santíssimo doutor. e para isso usais daquele novo silogismo. escritas não a outrem.. e todos os outros padres que antes e depois destes escreveram contra Gentios. nos Belarminos. alius de eo scribendi non habebit licentiam. supérfluo trabalho é cansar-vos em querer fazer entender o que eles não podiam deixar de ter entendido. Jerônimo na versão da Sagrada Bíblia. Bernardo Santo Tomás. sendo o estado mais santo da Igreja Católica. pela novidade do hábito e modo de vida! Digam-no as apologias de S. por estas palavras:: Porro quod dicis non debuisse me interpretari post veteres. qui nos in Domino praecesserunt et qui Scripturas Sanctas interpretati sunt. cousa alguma que encontre a Fé ou doutrina da Igreja. que hoje adoptamos por canónica. respondo com as mesmas vossas palavras: Todos os expositores dos Livros Sagrados. que acusações não padeceu antigamente (e padece ainda hoje) dos hereges. em quantos Evros e tribunais de Gentios e Judeus foi terminada pela glória deste título! Acusação foi de que a defendeu Tertuliano. não por Gentios ou hereges. porque ou elas são escuras ou manifestas. quando o seja. ao qual respondeu S. como vos atreveis também a declarar o que eles não puderam? Se o que era manifesto. e pelo qual. Santo Agostinho. nos Soares. e verdadeiramente com vitória. que não há muito que temer seus golpes. aut manifesta.] respondeat mihi prudentia tua. S. se por si mesma lhe for devida. senão ao mesmo S. illos in eis falli potuisse non creditur. como os outros escritores. et quodcumque alius occupaverit. Lactancio. aut manifesta.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Quando no princípio deste livro prometemos cousas novas aos curiosos. obra é — diz o santo— em que eu não quisera que vós empregásseis o vosso trabalho. Arnóbio. S. tão estranhada quando nova. superfuum est te voluisse explanare quod i11is latere non potuit: «!Quanto à versão das Escrituras Sagradas na língua latina.

As trevas foram mais antigas que o Sol e os animais que o homem. porque antepor o velho ao novo só pelos anos. e tanto que um se adiantar à exposição de algum Livro Sagrado. se os Salmos são escuros. todos por ignorância. por ser mais novo. que vivos. a qual hoje é de fé. e diz assim contra Rufino: Periculosum opus certe. porque ainda não tem quatrocentos anos. Que cousa há hoje tão antiga. e isto S. foi o primeiro que lhes deu a autoridade. também se deve entender que vós vos podeis enganar na sua inteligência. Se a nossa religião é nova. Não é o tempo. escolha parece mais de cela vinária. coeterarum Italiae gentium post latinos. que hoje se chama Vulgata. e depois dela se escreveram infinitas outras mais novas. e não só entre os inimigos e impugnadores da verdade. a que dá o crédito e autoridade aos escritores. Não tinha esta de S. A antigüidade das obras é um acidente extrínseco que nem tira nem acrescenta validade. tempo virá em que seja velha. argumentava Arnóbio contra os Gentios. et quod hodie exemplis tuemur inter exempla erit. E notem os leitores que são estas palavras de uma das apologias que S.» Isto dizia Santo Agostinho a S. tiveram princípio. Discretamente. que não fosse nova em algum tempo? Diz Salomão que não há cousa nova debaixo do Sol. que a queriam fazer não menos que herética. por ser mais antigo. e ainda os Salmos não estão bastantemente interpretados. Jerônimo à queixa da sua nova versão. ita ingenium quasi vinum probantes. inveterescet hoc quoque. A mais nova entre todas as do Mundo foi o mesmo Mundo. quae nunc vetustissima creduntur. supérflua é e não necessária a vossa interpretação E segundo esta lei. qui me asserunt in septuaginta interpretum sugillatione. nova pro veteribus cudere. senão a razão.Anexo:Imprimir/ História do Futuro prudência: com razão. que hoje . mas sobre esta lhe argüía Rufino e outros homens doutos tais calúnias. Jerônimo sobre a novidade de sua versão. e é de fé católica. para que se veja quais são os juízos dos homens e quão impugnadas que costumam ser as obras de que Deus se quer servir. latini post plebeios. e se são claros e manifestos. et obtrectarorum meorum latratibus patens. Jerônimo escreveu em defesa daquela nova versão da Sagrada Escritura. Assim que os reparos da novidade são pensão (como dizia) das cousas boas e grandes. senão o como se escreveram. Patres conscripti. nova fuere: plebei magistratus post patricios. é antiqüíssima e mui venerada. e aquele que as começou sem autor. nem se deve perguntar o quando. nem o Novo perde a perfeição e excelência que tem sobre o Velho. ninguém poderá falar depois dos primeiros. Agostinho sobre a novidade da sua exposição dos Salmos. 63 . Jerônimo a S. Acudia S. e ainda é mais universalmente certo. logo nenhum outro terá licença para escrever sobre ele. lhes granjeia a triste fortuna de serem mais venerados ou melhor conhecidos depois da morte. E verdadeiramente é assim: quantas cousas são hoje exemplos que começaram sem exemplo? Todas as opiniões ou verdades que se escreveram. outros por inveja. que não há cousa debaixo do Sol que não fosse nova. Jerônimo outro reparo mais que a glória de ser sua e nova. que do trono ou cadeira de Salomão. e há menos de dois mil que os deuses que vós adoráveis ainda não tinham cento. muitos por malícia. Dizeis que a religião cristã é nova. como se só os antigos fossem católicos e a verdade sem cãs não fosse verdade. depois de tantos e tais intérpretes. O Testamento Velho não é mais perfeito que o Novo. vos atrevestes na exposição dos Salmos a sentir diversamente do que eles sentiam? Porque. e só porque põe os autores delas mais longe dos olhos da inveja. Mas destes mesmos exemplos se convence claramente quão frívolas são e pouco eficazes as acusações do que se estranha por novo. tempo houve em que também foi nova. e se a vossa superstição é velha. Com a mesma energia disse o imperador Cláudio ao senado: Omnia. senão entre os maiores zeladores e defensores dela. Uns o faziam por zelo.

mas ainda nos deixam seus grandes talentos em que exercitar os nossos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro E verdadeiramente que. at contra scire. na epist. et inventum inventa non obstant. Meminisse est rem commissam memoriae custodire. que muito é que se atreva a dizer alguma cousa nova a nossa idade. LXIV. que será naquele pego imenso e profundíssimo das divinas) Mas ouçamos também aos antigos delas. sendo ambos eminentíssimos nas suas artes não duvidaram confessar que havia ainda muito mais que andar. sed multum interest. que inventar. que cuidemos que já não podem adiantar as ciências nem dizer e acrescentar sobre elas cousa de novo? Sêneca floresceu nos tempos de Nero. praecludetur occasio aliqua adhuc adjiciendi. E começando pelos Gentios. nec ipse Aristoteles admirabili quadam scientia et copia caeterorum studia restrinxit Até aqui estes dois gentios. post mille secula. est et sua facere quemque. sed aperuisse. E na epístola LXXIX:: Et qui praeesserant. ainda teriam muito que dizer na mesma filosofia moral em que ele tanto e tão sutilmente disse. nec ab exemplari pendere. Estes tais haviam de ter a testa virada para as costas.] Multum egerunt. sem descobrir nem inventar cousa nova. nem a admirável sabedoria e cópia do mesmo Aristóteles pôde apagar os fogosos espíritos de tantos filósofos que depois dele e sobre ele escreveram. Muito alcançaram os Antigos. se o segundo. e se lhes deve o primeiro louvor. nec ulli nato. e estes velhos eram aqueles varões veneráveis da primeira antigüidade — Seth. ou que não há capacidade nos modernos para as poderem descobrir e dizer. Porque. por boas contas. utrum ad consumptam materiam. Séneca.. em que era ainda maior a soberba e presunção que a ciência. pois nos bastava a memória. alumiados só pelo lume da razão. sendo por comum aprovação do Mundo um dos maiores engenhos que produziu a Grécia e a mesma natureza. se bem apontamos os fundamentos destes impugnadores d a novidade e as razões daquela dura lei com que forçosamente querem que sigamos em tudo os antigos e adoremos as suas pisadas. Noe. E Marco Túlio. porque havemos de querer abreviar as mãos do Autor dela e cuidarmos que já não podem falar de novo os homens presentes. ouçam aos mesmos antigos. não é. ou é porque têm para si que já se não podem dizer cousas novas. que descobrir e saber nelas. saber. multumque restabit. e só lhes damos licença para decorarem e repetirem o que disseram os passados? Se assim fora. se ainda lhe restam por sua confissão novecentos e oitenta e quatro séculos (se tantos durar o Mundo) para dizer e inventar muito de novo sobre o mesmo Sêneca? Se depois do divino Platão (como pondera Túlio) não acovardaram os seus escritos a Aristóteles para que não escrevesse. et toties ad magistratum respicere. David que veio ao mundo 3000 anos depois de sua criação. non praeripuisse mihi videntur quae dici poterant. an ad subactam accedas: crescit in dies. [. Se o primeiro. que todos se ocupam na erudição do passado. que vem a ser.. formando um perfeito orador no livro Orator: Nec vero Aristotelem in philosophia deterruit a scribendo amplitudo Platonis. E se isto é assim nas ciências humanas. como bem disse o mesmo Sêneca. Mas não me ouçam a mim. aliud scire. debalde nos deu Deus o entendimento. E se estes. dizia confiadamente. que soubera e entendera mais que todos os velhos: Super senes intelexi. dezesseis séculos antes deste nosso. é lembrar-se: Aliud est meminisse. 64 . saber só o que os Antigos souberam. Mathusalem. escreve ou ensina a Lucilo desta maneira: Multum adhuc restat operis. grande afronta aos homens e à nossa idade. grande injúria fazem à verdade e às ciências. como dizem os Italianos dos Alemães. porque havemos nós de esperar e afrontar tanto a nossa idade e os homens dela. sed non peregerunt. e se ele conheceu que os que nascessem de ali a mil séculos. Enoch. qui ante nos fuerunt.

depois dos Clímacos. porque. estranha muito que. sendo o apetite ou gula humana tão ambiciosa de novos e esquisitos sabores. dos Máximos. Moyses soube mais das cousas divinas que Abraão. os Clementes Alexandrinos. contra Rufino. os Tertulianos. e do mesmo Jerônimo. por consenso e pregão universal da igreja. os Justinos. Mas nem por isso depois de tantos e tão esclarecidos lumes da Igreja deixaram de espalhar nela. José. depois dos Hesíquios. Gregório— ia juntamente crescendo a sabedoria dos antigos Padres. o renome de doutor Máximo. depois dos Euquérios. aumentou e adiantou tanto o estudo das divinas letras. e. sobre o que tinham sabido e ensinado os mais antigos. quam Moyses. os Taumaturgos. os Orígenes. conhecendo sempre mais de Deus os segundos que os primeiros. as ciências divinas. dos Leões. cur in solo studio scripturarum veteri sapore contentis sunt ? São Gregório Magno. os Ireneus. dos Padres e Doutores sagrados. em todos os séculos seguintes. dos Teodoretos. os Basílios. depois de um Crisóstomo. que veio ao Mundo para lhe dar melhor cabeça do que seu juízo e errados juízos merecem. Nazianzeno e Niceno. em que a sabedoria eterna viveu humanada no Mundo entre os homens (que foi um parêntesis excessivo e infinito de luz.quae si hominibus aequaliter datur. dos Boécios. os Inácios. a quem tinham precedido os Dionisios Areopagitas. Não é consideração minha. sempre foram também crescendo. E o mesmo que tinha sucedido naquela primeira e antiga igreja. que por aplauso comum do Concílio oitavo toletano foi preferido a todos os Doutores na doutrina ética e moral. Moisés Josué. et gulae earum vicina maria non sufficiant. nos séculos que depois foram sucedendo. os Profetas mais que Moysés. penetrou tão alta mente o espírito interior da Teologia Mística e Ascética. se experimenta depois na segunda. Lactancio Firmiano. dos Cassianos. Papa: Per incrementa temporum crevit scientia spiritualium Patrum. no Liv. os Teófilos. os Hieroteus. com aquele famoso elogio: In ethicis assertionibus praecunctis merito praeferendus. plus Prophetae. ainda que fossem diminuindo na idade. acrescentando. que mereceu na eminência delas. só nas ciências. plus namque Moyses quam Abraham. plus A postoli. E convertendo-se no fim contra os vituperadores dos inventos novos. sempre os homens se foram excedendo na sabedoria divina. os Epifânios. dos Procópios. novos raios de novas luzes os três ilustríssimos 65 . Gregório. ilustrando e escrevendo muitas cousas de novo os que vinham depois. dos Cassiodoros. S. os Policarpos. o que é mais que tudo. escreve o santo Doutor com a modéstia com que costumam falar os homens maiores. occupari ab antecedentibus non potest. com novos e maiores resplendores. dos Atanásios. os Apóstolos mais que os profetas». dos Crisólogos. que floresceu muito depois do mesmo Lactancio e a quem prece deram os Hipólitos. quod possumus. na Apologia acima citada . diz assim: Nec qui nos illis temporibus antecessunt. senão doutrina de S. os Cirilos. de um Ambrósio e de um Agostinho. Melquisedech. dos Paulinos. passados os tempos de Cristo e de sua vida. dos Pascásios. Samuel e tantos outros de igual sabedoria e nome. de que ela tinha sido figura. os Arnóbios. Desde a criação do Mundo até a reparação dele. os Atanásios. sed post priorum studia in domo Domini. Jerônimo. que são o sabor dos entendimentos se contentam os homens com a vulgaridade ou velhice dos manjares usados: Nam cum nova semper expectant voluntates. depois dos outros dois Gregórios. Padre dos primeiros séculos da Igreja. estas palavras: Quid igitur? Damnamus veteres? Minime. nova e mais perfeita em que hoje estamos. com o qual nenhum outro estado da Igreja se pode comparar). os Ciprianos. II: Divinarum Institutionum. laboramus. quam Prophetae in Omnipotentis Dei scientia eruditi sunt: «Ao passo que iam procedendo os tempos —diz S. dos Fulgêncios. Isaac Jacob.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Abraão. em que se contaram quatro mil anos.

um Bernardo.] haec propter illos dicta sunt. os Soutos. se se pode ainda sobre os Antigos dizer alguma cousa de novo. os Rupertos. dada a bênção a Jacob. mais que escrever. diz assim no prólogo de um deles: Non est magnum. os Teofilatos. os Eutímios. possamos acrescentar alguma cousa de novo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro espanhóis — Isidoro.. os Caetanos. depois de cheios eles. não só luz. tiveram que inventar mais que os segundos. haja mais que dizer. non credunt scientias impertiri ad innovandos sensus hominis interioris: «Não se tenha por cousa grande — diz Ricardo — nem merecedora de admiração. fiquem em silêncio (por mais que tão grande brado deram nas escolas) os Vasques. que se pode com razão dizer do Mundo o que Deus disse a Abraão do firmamento: Numera stellas. vel mirum. os Bedas. se tem confirmado pela grandeza e liberalidade de Deus em todos os séculos. nome singular. ainda depois de tanto dito. e muitos outros. e depois de tanto estudado e sabido. Digam agora os reprovadores das que eles chamam novidades. e não correu mais o óleo? Houve neste grande oceano de ciências alguma nau Vitória que desse volta a todo o mar? ou algum Gama que. os Anselmos. os Toledos. e digo isto por aqueles que nada admitem nem lhes é aceito. as cercou de tão luminosas e resplandecentes estrelas. parou a fonte milagrosa. cuja imensa e infinita circunferência só a pode abraçar 0 que é imenso e compreender O que é infinito? Se depois dos antiquíssimos tiveram que descobrir os menos antigos. um Alexandre de Ales e o famosíssimo e subtilíssimo Scoto. sed sicut Deus produxit novos fructus ad recreationem hominis exterioris. como foram um Alberto Magno. porque não cuidarão que também as ciências podem produzir cousas novas para alimento e recreação das almas?» Não se podia explicar com mais clara comparação nem provar-se com mais eficaz argumento. si in uno aliquo. os Belarminos. senão o que primeiro foi recebido pelos antiquíssimos Padres. qui nihil acceptant. e desde aquele tempo. que será na esfera da sabedoria e da verdade. os Molinas. os Medinas. entre os quais Ricardo Vitorino. os Elísios. os Soares. que em alguma matéria das que escrevemos.. as quais depois deste doutíssimo século se multiplicaram em tanto número. para aumento ou competência de suas mesmas luzes. produz inacessivelmente todos os anos tantos frutos novos. que mais parecem novas que renovadas. É porventura o saber e dizer patrimônio só da Antigüidade e morgado como o de Isaac que. Mas se Deus para sustento e gosto dos corpos. que foi pelos anos de mil e trezentos a esta parte. mais que estudar e saber? 66 . senão fonte de luzes. os Canísios. em cujos felicíssimos e imensos escritos se vêem tão adiantadas as letras divinas. os Lugos. e depois dos que já não eram os primeiros. E porque é matéria impossível e número sem conto. aliquid addere possumus [. si potes. Eugenio e Ildefonso. com mais repetidos exemplos que nos passados. porque não quererão os adoradores ou aduladores da Antigüidade que. defendendo modestamente alguma novidade que se acharia em seus livros. os Sofrónios. porque não só alumiou a Divina Providência pouco depois o Mundo todo com aquelas duas tochas claríssimas e santíssimas de teologia — Santo Tomás e São Boaventura — mas antes e depois deles. passado o cabo de Boa Esperança. a tirasse a todos os outros de novos descobrimentos? E se depois deste famoso círculo do Universo. nisi quod ab antiquissimis patribus acceperunt. e depois de tanto escrito. os Valenças. que em outra idade podiam ter nome de primeiros planetas. os Damascenos. os Vitórias. não fica outra para Esau? São os antigos como os cântaros da Sareftana (comparação de que usa Ruperto) que. ainda ficaram mares e terras incógnitas que prometem novas empresas e novos argonautas.

signum cui contradicetur. dicens: Super omnes docentes me intellexi.Che come crebber l'arti. O grande P. Todos os grandes engenhos tiveram sempre esta queixa. Roma. Si veterem ingrati Pompeii quaerimus umbram Et laudant Catulli vilia templa senes Ennius et lectus salvo tibi. Até aqui São Bernardo. foi aquela de que disse o Profeta: Creavit Dominus novum super terram: faemina circumdabit virum. Mas antes de Petrarca o tinha dito em Roma o nosso discreto espanhol: Esse quid hoc dicam. ou adocemos a dureza deste rigor com o melífluo Bernardo. do que tiveram e alcançaram os Antigos. crueldade que só se lê de Mezêncio. porque todos disseram cousas novas. Fechemos este discurso. e Herodes se persuadia que não podia ser senão o Baptista ressuscitado. e nenhum careceu de quem lhas impugnasse.. ait plurimi et multiplex erit scientia. que afirmou que soubera mais que os passados. Praeferat antiquos semper ut illa novis. e pode ser que muito remendadas! O avarento chama pródigo ao liberal. é querer atar os vivos aos mortos. 67 . assegura firmemente aos vindouros que poderão ter maiores notícias das cousas. A cousa mais nova que Deus fez no Mundo. o qual. que também lhe tinha escrito lastimado da mesma chaga. outro de Daniel.. nem grande sem inveja: . Et sua quod rarus tempora lector amat? Hi sunt invidiae nimirum. dizia que daria de alvíssaras o que sabia. diziam que era um dos Profetas antigos. como sempre falou pela boca da Escritura.. que prometeu saberiam mais os futuros: David quoque super doctores suos et seniores donum sibi intelligentiae audacter praesumit. quando disse: Ecce nova facio omnia. O covarde temerário ao valente. e todos se armaram destas apologias. mas querer precisamente que nos atemos em tudo aos passados. isto é. por não confessar o que lhe falta. sendo ele a luz de todos os Profetas. Regule. que tanto tinha em si do que os Antigos souberam.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Como temo que os que condenam as cousas novas. o que ficou aos vindouros para poderem saber e dizer de novo. vivis quod fama negatur. e col sapere insieme Ne' cuori enflati i suoi veneni sparti.. Todas as cousas novas que se disserem nesta História. porque nem Deus pode fazer cousa de novo. Os que mais queriam louvar a Cristo. ampliorem scilicet rerum notitiam promittens et ipse posteris. e o prova e refere em dois textos ou dois exemplos: um de David. sem contradição dos mesmos para quem as faz. são aqueles que não podem dizer senão as muito velhas. e cada um condena o que não tem. são aquelas que Deus tem prometido que há-de fazer.e Soares. Não ha cousa boa sem contradição. Crebbe l'invidia. como também predisse outro profeta: . se lhe dessem o que ignorava. Sed et propheta Daniel: pertransibunt. E esta novidade foi o alvo das maiores contradições. Se acaso houver quem as impugne e contradiga. sendo aquele a quem o Baptista não era digno de desatar a correia do sapato. Marone Et sua riserunt saecula Maeonidem. O distraído hipócrita ao modesto. mores. escrevendo a Hugo de São Vítor.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro Mas para que não pareça que defendo as cousas novas. e sendo cousa antiga e sua. que com tão continuado aplauso do Mundo os fez sólidos e incorruptíveis. porque as apalpava. foram novidade em Roma. porque se não sabem. e todas eram mais antigas que ele.. as pêras. os figos. não foi criada juntamente com Ásia. Porventura aquela metade do Mundo a que chamavam quarta parte. novo para nós. a quem Cristo abriu os olhos. depois de serem velhice no Egito. illa dicitur Carthago studiis asperrima belli. como se vêem cada dia tantas novidades no Mundo? São novidades de cousas não novas.. porque a América esteve tanto tempo oculta. porque chegaram mais tarde à nossa terra. recolhendo todos estes exemplos. Quero dizê-lo com palavras do grande Tertuliano. Se no Mundo. et aries jam romanus in muros quondam suos auderet stupuere illico Carthaginienses. porque se não 68 . não por novo. outras a ignorância.. mas para aqueles bárbaros. não tivera ocasião o preceito.. Nas ciências nascem poucas verdades. primeiro foi que a antiga de Aristóteles. como pouco há dizia Salomão. As pirâmides e obeliscos que assombraram com tão nova e desusada grandeza o foro romano (com boa vénia dos Padres Conscritos). nem por isso ela será nova. parecia instrumento novo aos mesmos Cartagineses.. Muitas novidades se verão nesta nossa História não novas por novas.. explicarei por alguns exemplos.] nemini umquam adhuc libratum. nenhuma cousa direi de novo. nem tentação o pecado. de que Cartago tinha sido a primeira inventora. Para aquele cego de seu nascimento. De maneira que o aríete. cuja foi esta advertência: . já havia cores e luz. mas não havia olhos. senão esquecimento. Assim que. não há cousa nova. A nova opinião dos céus fluidos. mas ainda que esta História seja toda de cousas tão novas.] cum autem ultimarent tempora patriae. por não ser necessário este escudo à minha História respondendo à objeção da novidade dela. Quando os Romanos a primeira vez bateram os muros de Cartago com o aríete ou carneiro militar. com África e com Europa? E contudo. Serão novas neste nosso livro cousas que foram primeiro que as que hoje se têm por antigas. que somos os sábios. Nem eram elas as novas. ficaram os Cartagineses assombrados com a novidade daquela máquina. porque se não lembram. Quando Adão saiu flamante das mãos de Deus. umas cousas faz novas o esquecimento. foram novas as cores. e tais serão as desta História. senão por esquecido. com ser tão grande. outras a escuridade. ut novam extraneum ingenium. A novidade da nossa História há-de ser mais dos leitores que dela. Todos os frutos nasceram igualmente naquele dia. porque os primeiros inventores daquele bravo instrumento tinham sido os mesmos Cartagineses. mas estas tiveram este nome. a tinha por novidade. ele era o novo. ainda que não eram novas as quantidades. porque as não via. Tantum aevi longinqua valet mutare vetustas. senão novas por antiquíssimas. digo que em toda essa novidade. também recebida em nossos dias. por isso os últimos e mais distantes se chamam novíssimos.arietem [. abriu os olhos. Propriedade é dos futuros serem sempre novos todos. porque se não vêem. as uvas e também as frotas novas. prima omnium armasse in oscillum penduli impetus [. é chamada Mundo Novo. e viu tanta cousa nova. Ao terceiro dia da criação produziu a terra todas as árvores carregadas dos seus frutos. Se não fora assim. não por novo. mas como havia muitos anos que gozavam da altíssima paz. esquecia-se Cartago do que inventara Cartago. velho e muito antigo. como isto possa ser. e uma perpétua novidade sem nenhuma cousa de novo. outras a distancia. senão por muito antigo. e não era novidade. :Ê uma História nova sem nenhuma novidade. as mais delas ressuscitam.

A velhice no ouro é preço. E quanto ao louvor que renunciamos facilmente. mas só se considere se é ou pode ser verdade: Nec de novitate nec de vetustate. porque as avaliou a suma justiça pelo merecimento e não pelo tempo: Non dixit vetera et nova. em que não tem jurisdição o tempo. no vinho madureza. absolutamente nas cousas que se consomem com o tempo. vinho velho. quam temporum. dando o primeiro lugar às novas. vestido novo.. nem se repare se é novo. sed de sua veritate censeatur. O tempo umas cousas melhora e outras corrompe: ouro velho. uns se conservam pelo que foram. senão da novidade. navio novo. porque foram os primeiros inventores das cousas. para alumiar e penetrar com sua luz. tiram do seu tesouro as cousas novas e mais as velhas. Merecem maior louvor os Antigos. que com os de Beluário. no navio e na casa perigo. como dizíamos. depois dos Apóstolos (os quais não entram nesta controvérsia. isto parece que é ser douto. porque não é nem será possível seguir em algumas cousas das que dizemos ou . senão obrigação e respeito). outras a negligência. poremos à vista muitas distantes e procuraremos saber muitas ignoradas.] profert de thesauro suo nova et vetera: «Os doutos quando escrevem. A verdade e as ciências. posto que nem sempre se conhecem igualmente. haverá muito nesta nossa História. não é só obséquio e piedade. e é assim. e posto que o nosso desejo fora levar sempre diante dos olhos esta segunda tocha. Se fora outro o autor desta História. As cousas velhas são do tempo.. porque as velhas são alheias. ainda que o merecêramos.germana divinitas nec de novitate nec de vetustate. se bem se considera. quad ante vetustas non intellectum venerabutur. impropriamente se chamam novas ou velhas. em outros se logra a fortaleza. História do Futuro (Volume I. descobriremos muitas ocultas.. nisi maluisset meritorum ordinem servare. porque sempre são. outros pelo que são. e de todas estas novidades sem novidade. não é elogio da antigüidade.scriba doctus [. Todos dizem que os Antigos merecem maior louvor.. mas este louvor. pois o mereceram. pedimos aos que a lerem que. senão as novas e as velhas. em uns se admira a antigüidade. melhores são as novas. que por essência é sabedoria e verdade. sed de sua veritate censetur. certamente entre umas e outras não se pode dar regra certa. quando as descobriram de novo. Capítulo XII: Dá-se a razão por que em algumas partes desta História se não alegaram padres e seguiram exposições dos escritores modernos) por Padre Antônio Vieira 69 Ainda que o nosso intento é seguir em quanto nos for possível as pisadas dos antigos Padres. no amigo constância.. Lembraremos nela muitas cousas esquecidas. porque se não buscam. Saber as velhas e inventar as novas. e segui-los como havemos de seguir em tudo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro alcançam. disse Tertuliano judiciosamente que nem é velho nem novo. o escuro das profecias. Mas notou Santo Agostinho que não disse Cristo as velhas e as novas. digo com indiferença o que ensinou Cristo: . amigo velho. sempre foram e sempre hão-de ser as mesmas.. folgara eu que se pudera dizer dele com Vincêncio Lirinense: Per te posteritas gratulatur intellectum. alumiaremos muitas escuras. De Deus. as novas nossas. logo da novidade é o louvor. no vestido pobreza. assim no certo como no provável. E por não deixarmos sem juízo a controvérsia disputada entre as cousas novas e as velhas. quod utique dixisset. Mais defendida está Roma com os muros de Urbano. E como a verdade da nossa História toda (como vimos) tenha o seu princípio em Deus. mas verdadeiro: . as novas do merecimento. porque em tudo o que escreveram foram alumiados pelo Espírito Santo. nem se atenda se é velho. contudo. casa nova. como Padres e lumes da Igreja.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro dissemos este nosso intento e desejo, pede a razão e ordem da mesma Escritura que, antes de passar mais adiante, desfaçamos este reparo, para o que os menos doutos ou mais escrupulosos não topem nele e levem desde logo entendidas as causas do que fizermos e os fundamentos, licença ou autoridade com que o fazemos. Ver-se-á em algumas partes desta História, que ou não alegamos Padres antigos, ou nos desviamos da explicação que deram a alguns lugares da Escritura, o que não fazemos senão com grandes razões, sem ofensa da reverência que lhes devemos nem da verdade que seguimos, antes para maior segurança e fundamento dela, a qual é o nosso intento e obrigação buscar e descobrir adonde quer que se ache, antepondo este respeito a qualquer outro, pois à verdade se deve o maior de todos. As razões que nos movem e obrigam são três: a primeira, porque os Doutores antigos não disseram tudo; segunda, porque não acertaram em tudo; terceira, porque não concordam em tudo. E com qualquer destes casos nos pode ser. não só lícito e conveniente, senão ainda necessário seguir o que se julgar por mais verdadeiro; porque nas cousas que não disseram, é forçoso falar sem eles; nas cousas em que não acertaram, é obrigação apartar deles; e nas cousas em que não concordaram, é livre seguir a qualquer deles; e também será livre e lícito deixar a todos, se assim parecer, como logo explicaremos.

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Prova-se a primeira razão
Primeiramente é certo que os Padres antigos não disseram tudo, e se prova claramente com a experiência e lição de seus próprios livros, nos quais se não acha memória de muitas cousas grandes e doutas, achadas e acrescentadas depois, não só nas outras ciências divinas, mas na inteligência das mesmas Escrituras Sagradas, e particularmente nas dos profetas, que nos tempos mais chegados a nós se descobriram, disputaram e entenderam como se lêem nos escritores modernos; e posto que para os 5 versados na lição de uns e outros bastava esta suposição somente apontada, porei aqui para os demais as palavras de dois grandes doutores, Castro e Canísio, ambos do século antecedente a este nosso, e ambos diligentíssimos investigadores da antigüidade e doutíssimos na erudição da Escritura, Concílios e Padres, os quais expressamente afirmam que muitas cousas se sabem e entendem hoje que foram ignoradas dos Padres antigos, como fala Castro ou incógnitas a eles, como mais certamente diz Canisio. As palavras deste segundo, no livro primeiro De Beata Virgine, cap. VII, são as seguintes: Demum habuerint Patres suorum temporum rationem quibus multa vel prorsus incognita erant, vel obscura neque satis evoluta, quae posteris diligentius excutienda, et clarius illustranda, explicandaque non sine certo Dei consilio reliquebantur... E Castro, no Liv. I Adversus haereses, cap. II, depois de provar o mesmo com o lugar do cap. VI dos Cantares, que abaixo citaremos, conclui assim: Quo sit, ut multa nunc sciamus, qae, a primis Patribus aut dubitata, aut prorsus ignorata fsuerunt. A qual diferença se não conheceu só com a comprida experiência dos nossos tempos, senão já nos mesmos Padres se conhecia, como muitos deles escreveram, e particularmente entre os da primeira idade, Tertuliano, e entre os da última Ricardo Vitorino, cujas palavras de ambos referiremos neste mesmo capítulo. A razão de muitas cousas que hoje se sabem serem incógnitas aos Padres antigos, se pode considerar, ou da parte de Deus, ou da parte das mesmas cousas. Da parte das mesmas cousas, nos não devemos admirar que lhes fossem incógnitas, por serem muitas delas dificultosas, escuras e mui recônditas nas Escrituras Sagradas e enigmas dos profetas, as quais se não podiam entender e penetrar só com a agudeza dos entendimentos, por sublimes e sublimíssimos que fossem, em quanto não estavam assistidos de outras notícias

Anexo:Imprimir/ História do Futuro e circunstancias, que só se descobrem com o tempo e adquirem com larga experiência. Excelente exemplo é nesta matéria o das ciências é artes, ainda naturais, as quais em seus princípios e rudimentos foram imperfeitas, e com os anos, experiência e exercício se vêem hoje sublimadas a tão eminente perfeição, como a náutica, a bélica, a música a arquitetura, a geografia, a hidrografia e todas ás outras matemáticas, e muito em particular a cronologia, de que neste mesmo capítulo falaremos. E assim como estas mesmas ciências e artes cresceram e se apuraram muito com o socorro e aparelho de esquisitos instrumentos, que nelas se inventaram, como foi na náutica o astrolábio, a agulha e o admirável segredo da pedra de cevar. e na bélica o terribilíssimo e subtilíssimo invento da pólvora, que deu alma e ser a tantos e tão notáveis instrumentos de guerra, assim também puderam crescer e aumentar-se muito as ciências divinas e chegar à perfeição e eminência em que hoje se vêem com os instrumentos próprios delas, que é a multidão de livros espalhados e facilitados por todo o Mundo pelo beneficio da impressão, com que a doutrina e ciência particular dos homens insignes se faz comum a todos em tão distantes lugares, não sendo menor a comodidade dos mestres, que são instrumentos vivos das ciências, no concurso de tantas e tão diversas universidades, teatros e oficinas públicas de toda a sabedoria; comodidade de que no tempo dos Padres se carecia, sendo necessário ao Doutor Máximo, São Jerônimo, como ele mesmo escreve, copiar com imenso trabalho os livros por sua própria mão e peregrinar à Grécia à Palestina, ao Egipto e às Gálias para recolher os escritos de S. Hilário, ouvir a S. Gregório Nazianzeno, a Dídimo e aos mestres mais peritos na língua hebraica; inconvenientes que só podia vencer e contrastar um tão alentado espírito e zelo de servir à Igreja, como do grande Jerônimo, digno tanto de imortal louvor pela eminência de sua sabedoria, como pelos gloriosos trabalhos e suores com que a adquiriu e conquistou. Da parte dos mesmos Padres se deve igualmente considerar, que deixaram de especular e dizer muitas cousas de grande importância que depois se souberam e escreveram, porque se acomodaram à necessidade dos tempos em que viviam. Todo o intento dos Padres antigos era provar a verdade da encarnação do Filho de Deus e o mistério de sua cruz, a qual na cegueira dos Judeus (como diz S. Paulo) se reputava por escândalo e na ignorância dos Gentios por estultícia. E como esta era a guerra e a conquista daqueles tempos, todas armas da Sagrada Escritura se forjavam e acostavam contra esta resistência, e por isso os primeiros Padres e seus sucessores nenhuma cousa buscavam nos Livros Sagrados, não só proféticos, senão ainda nos históricos, mais que os mistérios de Cristo. É bom testemunho desta verdade o que diz Ruperto a Tristérico, arcebispo coloniense, do prólogo dos seus Comentários sobre os Profetas menores: Scito me Pater mi sicut in caeteris Scripturis, ita et in volumine duodecim Prophetarum operam dedisse, ad quaerendum Christum. E como isto é o que só buscavam para escrever, isto é o que só achavam ou o que só escreviam, seguindo os sentidos alegóricos e místicos e deixando ou insistindo menos nos literais, como se vê ordinariamente em todas as exposições dos Padres, que todas se empregam na alegoria, tocando muitas vezes só leve e superficialmente a letra, e talvez não sem alguma impropriedade e violência. Assim o notaram entre os mesmos Padres alguns mais modernos que antigos e outros menos antigos que antiqüíssimos: dos primeiros, é Ricardo de São Vitor, contemporâneo de S. Bernardo, no Prólogo sobre o Profeta Ezequiel, onde confessa que se aparta de São Gregório, por se não chegar ao sentido literal do texto; dos segundos, é o mesmo São Gregório, Padre do sexto século depois de Cristo, no Proémio sobre o Livro dos Reis, onde diz que lhe foi necessário em algumas partes não seguir os Padres mais antigos, por não

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro faltar ao fio conseqüência e verdadeira interpretação da história. As palavras de São Gregório não refiro aqui, porque terão seu lugar mais abaixo; as de Ricardo depois de referir com os antigos Padres ocupavam seu estudo principal na alegoria, são estas: Hinc contigisse arbitror, ut litterae expositionem is obscuriobus quibusdam locis antiqui Patres tacile praeterirent, vel paulo negligentius tracterent, qui si plenius insistirent, multo perfectius procul dubio quam aliqui ex modernis, id potuissent. Quer dizer que os Padres antigos, por aplicarem toda a sua industria e engenho no sentido alegórico das Escrituras, ou passaram totalmente em silêncio, ou trataram menos diligentemente alguns lugares mais escuros delas, sendo certo, segundo eram dotados de altíssimos engenhos e enriquecidos de muita ciência e erudição, que, se insistissem no sentido genuíno e literal do texto, o poderiam conseguir mais perfeitamente que qualquer dos modernos. De maneira que, segundo a verdade desta advertência, vem a ser a diferença entre os Padres antigos e os comentadores modernos das Escrituras, a mesma que houve naqueles dois homens do Evangelho, ambos ricos e venturosos: um que achou o tesouro e deu quanto tinha por comprar o campo em que ele estava; outro que, buscando so margaritas e achando uma preciosíssima, empregou também nela quanto tinha. Os Padres antigos, que buscavam só nas Escrituras a Cristo e nesta preciosíssima margarita empregavam todo o cabedal do seu estudo, os modernos, que se não determinam no tesouro das Escrituras a um só gênero de riquezas, acham, além da mesma margarita, muitas outras pedras também preciosas, e tiram daquele tesouro (como dizia Cristo) nova et vetera, riquezas novas e velhas: as velhas, que são as notícias das verdades já passadas; as novas, que são o conhecimento das outras futuras. Finalmente se deve considerar este silêncio das cousas que não disseram os Padres, da parte de Deus, o qual com particular providência não quis que eles por então as soubessem e escrevessem, para que a Igreja, nossa mãe, se parecesse com seu Esposo, e, conforme os anos e idade, fosse também crescendo em luz e sabedoria. Assim o notou, além de muitos outros teólogos, o mesmo Canísio, continuando o lugar acima citado: Quae posteris diligentius excutienda et clarius illustranda explicandaque, non sine certo Dei consilio relinquebantur non vero homini tantum, sed etiam Ecclesiae Christi tempus auget sapientiam, et Spiritus Sanctus aliam atque aliam doctrinae lucem patefacit No cap. VI dos Cantares, onde o Esposo é Cristo e a esposa a Igreja estão profetizados os progressos que ala havia de ter, e se comparam com extremada propriedade à luz da aurora: Quae est ista , quae progreditur, quasi aurora consurgens? Porque assim como a aurora nasce das trevas da noite e começa na primeira luz, e nela vai sempre crescendo de menor para maior claridade assim a Igreja, nascida nas trevas da ignorância e infidelidade começou em menos luz de sabedoria e vai sempre crescendo e aumentando-se mais e mais de resplendor, de claridade, que são os termos que usa S. Paulo na Segunda epístola aos Coríntios:Nos vero omnes, revelata facie, gloriam Domini speculantes, in eamdem imaginem transformamur a claritate in claritatem. Fala o Apóstolo do véu da infidelidade com que os Judeus têm cobertos os olhos para não ver a Cristo, e diz que se compõe a Igreja, tirado pela Fé aquele véu, com os olhos abertos e desempedidos por meio da própria especulação e estudo, imos crescendo de claridade em claridade, não já passando das trevas à luz, senão de uma luz para outra, sempre maior e mais clara, transformando-se por este modo a Igreja na imagem do seu mesmo Esposo, Cristo. Porque, assim como Cristo, posto que sua sabedoria foi sempre igual e a mesma (em quanto Deus infinita e em quanto

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senão dos membros vivos. do que tinha sido nos menores. ao Espírito Santo. alumia e quenta mais aos que lhe ficam mais vizinhos e menos aos que estão mais remotos e mais distantes. assim a Igreja. nem foi crescendo dos nossos anos para os primeiros.alios autem pastores et doctores.Anexo:Imprimir/ História do Futuro homem consumadíssima). e do mesmo Sol tiram o argumento desta cegueira. Donde se deve reparar e advertir (cousa que devera já estar mui notada e advertida) que os Doutores antigos e mais velhos. não só alumia a Igreja 73 . nem aqueles que vulgarmente são chamados os antigos. senão nos homens e doutores particulares. ad consummationem sanctorum in opus ministerii. assim nos anos e duração da Igreja há a mesma distinção e sucessão de idades. bem assim como a luz do Sol material. Também deixou em seu lugar. De sorte que vai crescendo a inteligência. contudo. aetatum ac saecolorum gradibus intelligentia. tam unius hominis quam totius Ecclessiae. até chegar a encher a perfeição ou medida da mesma idade de Cristo. que não fosse mais sábia a Igreja nos maiores anos. a ciência e a sabedoria pelos mesmos graus do tempo com que vão passando os anos. et multum vehementerque proficiat. senão os que hoje e nos tempos mais chegados a nós se chamam modernos Porque assim como nos anos de Cristo houve infância. mais escassos e menos intensos. porque ainda Cristo corporalmente se apartou dos homens. como expressamente disse São Paulo. in virum perfectum in mensuram aetatis plenitudinis Christi. crescendo sempre nela ao passo que ia crescendo nos anos. Mas a aparência desta razão é tão falsa como todas as de seus autores. e os Doutores da idade maior e mais provecta da Igreja são os mais velhos e mais antigos. scientia. senão contra a decência da mesma idade. Dizem que Cristo é o sol da Igreja e aquela primeira verdadeira luz: quae illuminat omnem hominem venientem in hunc mundum. falando dos mesmos Doutores:. o qual. senão cada vez menos. transformando-se na sua imagem e retratando-se nele e por ele. quanto mais se vão apartando os nossos tempos do tempo em que Cristo viveu entre os homens. da puerícia e da adolescência da Igreja foram os modernos e da ciência moderna. com a mesma e não diferente luz. que são os membros de que o seu corpo e os raios de que a sua luz se compõe. com que o corpo místico dela vai crescendo e aumentando-se sempre mais. senão dos primeiros para os nossos. e depois idade perfeita. igualmente Deus como ele. por segundo mestre de sua escola. nos atos exteriores e manifestação dela ao Mundo. Donde segue que os Doutores da infância.. que é o corpo místico do mesmo Cristo. porque a Igreja não se compõe das paredes mortas. e qualquer outra. vai sempre crescendo mais e mais na luz e na sabedoria. puerícia e adolescência. argumento desta sua cegueira. senão os presentes. in aedificationem corporis Christi donec occurramus omnes in unitatem fidei et agnitionis Filii Dei. tam singulorum quam omium. à medida que cresce nos anos e na idade: Crescat igitur oportet. como diz o evangelista São Lucas: Proficiebat sapientia et aetate. própria e rigorosamente falando. e que. a não mostrou toda junta. E seria não só contra a ordem da natureza. Dizem contra isto os hereges (como notou Banhes) que a Igreja não está hoje mais alumiada. sapientia — disse doutamente Vincencio Lirinense. como prometeu a todos os verdadeiros discipulos de sua doutrina quando lhes disse: Ecce ego vobiscum sum usque ad consummationem saeculi. e isto não só na Igreja universal e em comum. tanto os raios da sua luz são mais tênues. espiritualmente e por particular e invisível assistência sempre ficou com eles e os assistirá (dentro porém da sua Igreja) ate o fim do Mundo. senão que a foi dispensando por partes. não são os passados. e da ciência mais antiga. os séculos e a idade.

E porque a perfídia herética se nos não queira acolher por pés. de que o nosso século tem sido mais fecundo e abundante que todos até hoje. Hoc autem dixit de spiritu. quem accepturi erant credentes in eum. novas verdades contra esses erros. ouçam ao antiquíssimo Tertuliano: Regula quidem fidei una omnino est. ensinando e declarando aquelas ocultas e altíssimas verdades. é o bem que tira de tão grande mal aquela sapientíssima Providência. mais se vai enfraquecendo e diminuindo. (para: que o Judeu não duvide da assistência do Espírito Santo à Igreja e cabeça dela). mas o rio que nasce da fonte. com que se faz mais largo.. são em suma tudo o que até agora temos dito. paulatim dirigeretur. segundo a disposição de sua providência. veniat ad me et bibat. entrando sempre nela as puríssimas correntes da doutrina de tantos Doutores católicos e sapientíssimos. Tal é a sabedoria da Igreja. por isso disse São Paulo: Oportet haereses esse. vivae. tanto mais se engrossa. operante scilicet et proficiente usque in finem gratia Dei. aut proficere destiterit. quando por si mesmo os ensinava. porque vai recebendo novas correntes e novas águas. verdade e resplendor da Igreja. quod intellectus reformatur. dizendo-lhes porém. etc Se o Demônio sempre obra e não desiste de acrescentar cada dia novos erros e novos enganos com que impugnar. Assim que os que quiserem reconhecer os aumentos da sabedoria. docebit vos omnem veritatem. não devem tomar à semelhança do Sol` e da luz. que cada dia a aumentam com novos e tão excelentes escritos em uma e outra teologia. Qui credit in me sicut dicit Scriptura. Quale est enim ut diabolo semper operante et adjiciente quotidie ad iniquitatis ingenia opus Dei aut cessaverit. a que o mesmo Cristo comparou sua doutrina. sola immobilis et irreformabilis [. senão a da fonte e do no. que não permitir os males. só peço se pondere aquela nova e bem achada razão de Tertuliano: Quale est enim ut diabolo semper operante. flumina de ventre ejus fluent aquae. que. caetera iam disciplinae et conversationis admittunt novitatem correctionis.quod ad meliora proficitur. porque isso em suma tudo o que até agora temos dito. nova claridade contra esses enganos e novas vitórias contra esse inimigo e seus sequazes? Em sua mesma cegueira tem o herege a prova da maior luz da Igreja. quod Scripturar revelantur.] Quae est ergo Paracleti administratio nisi haec quod disciplina dirigitur. mais profundo. em que eles confessam que a Igreja esteve verdadeiramente alumiada. os vai descobrindo maiores a seu tempo. mais caudaloso...] Haec lege fidei manente. quando disse: Si quis sitit. et adjiciente quotidie ad iniquitatis ingenia.? Não me detenho em romancear as palavras. Cum autem venerit ille Spiritus veritatis.. (como imprudentemente fazem ainda em lugares igualmente claros de outras Escritas) fugindo para os tempos antigos. et ordinaretur. et ad perfectum produceretur disciplina.. teve por maior glória de sua grandeza fazer dos males bens. que o Espírito lhas ensinaria: Adhuc multa habeo vobis dicere: sed non potestis portare modo. como doutamente disse Santo Agostinho. mas. cum propterea Paracletum miserit Dominus. em que sempre mais vai crescendo a Igreja com os anos. que por menos capacidade dos discípulos deixou Cristo de lhas dizer. ut quoniam humana mediocritas omnia semel capere non poterat. e novas: trevas com que diminuir e escurecer a luz da. ab illo Vicario Domini Spiritu Sancto [. 74 . quanto mais caminha e mais se aparta de seu princípio. A luz que sai do Sol.Anexo:Imprimir/ História do Futuro com os mesmos resplendores da verdade. quanto mais distante. como havia o Espírito Santo de cessar em acrescentar sempre nela novas:luzes contra essas trevas. e esse .

Em segundo lugar. E como. Bèze e Wiclef. Ferdinando Vellocillo. nas AdverteAncias Teológicas sobre cinco Padres da Igreja. Não negamos. Adversus haeereses. dizíamos que os Padres não acertaram em tudo. deficiuntque interdum ac monstrum quandoque . em muitos lugares de seus Anais. nós também lançaremos a capa sobre esta matéria. lembrados porém da reverência que os filhos devem aos pais e da bênção que mereceram aqueles dois honrados filhos. caelestes. De Locis Theologicis. Melchior Cano.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A sabedoria da Igreja no alumiar é luz e no correr é rio. Sem e Jafet. deixaram de escrever algumas cousas com que a Igreja depois se foi alumiando e ilustrando. 75 Segunda Razão Discorre-se sobre as cousas que no tempo dos padres houve para alguns lugares dos Profetas não poderem ser entendidos inteiramente. Leiam e temam esta sentença os que culpam os que não querem ser culpados nela. quod quidam quasi ob reverentiam Patrum nollunt ab illis omissa attentare. quando voltaram as costas e apartaram os olhos do que em seu pai. et in aquas plurimas redundavit. rio daquela mesma fonte e luz daquele mesmo Sol que é Cristo. Afonso de Castro. VII cap. X de Ester: Parvus fons. sempre mais vestida de resplendores. subsanant et exsufftant. e outros. irridebit eos et Dominus subsanabit eos. e igualmente merecedores da eterna veneração. nec videantur aliquid ultra maiores praesumere. qui crevit in fluvium. stabilem perpetuamque constantiam servant. mas por zelo da verdade. e advirtam que tamb5ém é um dos Padres o que isto disse. necessidade de doutrina e cautela dos mesmos doutos que lessem as suas obras. otio torpent. sed qui habitat in coelis. bem assim como os que pintam cartas de marear sinalam no vastíssimo e profundíssimo Oceano os baixos (poucos e raríssimos. e as águas' os resplendores das luzes naquela milagrosa metamorfose que se conta no cap. e outros legítimos herdeiros do ímpio e irreverente Cam. como bem conclui o mesmo Ricardo Vitorino acima alegado: Sed nec illud tacite praetereo. bispo de Luca. sol com propriedade de fonte. Calvino. Nem isto se nos deve imputar a menos veneração dos mesmos Padres doutíssimos e santíssimos. suae. reliqui vero scriptores sancti inferiores et humani sunt. não é muito que nestas que eles não disseram. III. a confirmação de outras verdades e a resistência de outras batalhas próprias daqueles tempos. Sed inertiae. falemos e hajamos de falar sem eles. et in lucem solemque conversus est. e posto que pudéramos provar a verdade deste fundamento com a demonstração das cousas em que não acertaram. Este último no Liv. a Igreja luz com propriedade de rio. por sua sabedoria e santidade. deixando tão indigno assunto a Lutero. porque não querer descobrir nem saber o que eles não disseram. se se compararem com a imensidade de suas águas) para maior vigilância e segurança dos que as navegam. conservando juntamente as luzes e claridades das águas. Antônio Possevino. podia ser menos decente. Cristo. os quais eles escreveram não por menos reverência que tivessem aos antigos Padres. antes é vício da ociosidade que virtude da reverência. o Cardeal César Barónio. divini. no Aparato Sacro. et aliorum industriam in veritatis investigatione et inventione derident. Escreveram neste gênero doutissimamente Sixto Senense em todo o V e VI livro de sua Biblioteca Santa. hujusmodi velamen habentes. contudo. diz assim: Auctores canonici ut superni. por esta providência particular de Deus e pela dificuldade e escuridade de muitos lugares da Escritura. e pela aplicação dos Padres. que houve muitos autores católicos e pios. Noé. e por isso sempre mais alumiada. em cujos livros se podem ver por junto estes exemplos.

quanto dela se pode colher facilmente. e das opiniões. se em alguma cousa desacertaram. doutrina. senão depois de muitos anos de estudo e lição dos mesmos Padres. como alumiados por Deus. cerrar em alguma cousa é fraqueza de homens. escrevendo a Fortunaciano desta maneira: Neque enim quorumlibet disputationes quam vis catholicorum et laudutorum hominum. é presunção de demônios». quae illis debetur) aliquid in eorum scriptis improbare. Mas para que se veja a ocasião ou ocasiões que tiveram para não acertar com a verdadeira inteligência de algumas escrituras. Este é o modo (diz Santo Agostinho) com que eu leio os escritos dos outros e com que quero que sejam 1idos os meus. humana tentatio est. vel invidendo melioribus. não as devemos ler como escrituras canônicas. Jerônimo. nos ensinam no conhecimento que tinham de si e nós devemos ter de nós. e não eram anjos.: nimis autem amando sententiam suam. unde aliquid aliter sapere. podemos ler em prova deles outros dos mesmos Padres. mais digno de veneração por aquela obra que por todas as outras suas o qual prosseguindo a mesma sentença de Santo Agostinho no liv. acertar em tudo. quando acharmos por outra via a verdade. bem se segue que nenhum homem se pode livrar desta pensão da humanidade. II De Batismo. cujas palavras na Epístola a Teófilo. contra os erros de S. em que. Exemplo seja o prodigioso livro Das Retratações de Santo Agostinho. contra os Donatistas. mui louvados e estimados por sua ciência e. principalmente as dos Profetas. e querer defender seu parecer até romper a caridade e união da Igreja. De maneira que. direi agora o que da ponderação das mesmas escrituras proféticas e das exposições dos Padres sobre elas. como homens eram e podem errar:>> _ diz o Doutor Máximo. diabolica praesumptio est. E se o fundamento dos erros humanos é o efeito natural de serem os homens homens. e como os Santos Padres fossem obedientíssimos filhos da Igreja Católica. confessando com alta humildade e modéstia que podiam errar como os homens. é perfeição de anjo. João Hierosolimitano são estas: Scio me aliter habere Apostolos. Mas entre estes exemplos naturais da fragilidade humana. ut nobis non liceat (salva honorificentia. vel a nobis).Anexo:Imprimir/ História do Futuro pariunt propter convenientem ordinem. de tal sorte que nos não seja lícito (salva a reverência de suas pessoas). institutumque naturae. Jerônimo — Santo Agostinho. quod aliter senserint quam veritas habet. disseram a verdade em tudo. E ponho aqui (tanto de melhor vontade) esta minha advertência. reprovar e não seguir algumas cousas das que disseram. que é o fim para que isto supomos. quam se res habet. seguindo Santo Agostinho. e sem menos 76 . quam res se habet. ou também por nos. um de teologia escolástica e outro` da positiva — Santo Agostinho e S. atque respuere (si forte invenerimus. divino adjutorio vel ab aliis intellecta. In nullo autem aliter sapere. aliter reliquos tratores: illos semper vera dicere: istos in quibusdam ut homines aberrare>> «So os Apóstolos. por douto e sapientíssmo que seja. velut scripturas canonicas laudare debemus. cap. posto que sejam católicos. talis ego sum in scriptis aliorunt. quão verdadeiramente eram santos. como dissemos ou supomos. a cujo supremo juízo sujeitaram sempre todos os seus escritos. em que não acabei de cair de todo. quando eles escreveram. e por isso mesmo sapientíssimos Porem aqui as palavras de dois maiores Doutores. na epístola III. que eram comuns e recebidas entre os doutos. ou melhor entendida por outros. é argumento só de que foram homens. usque ad prescidendae communionis et condendi schismatis vel haeresis sacrilegium pervenire. assim dos escritos alheios como dos próprios.:» O mesmo sentia S. tenho colhido. angelica perfectio est. V diz assim com admirável piedade e juízo: Homines enim sumus. os outros homens. tales volo esse intellectores meorum: «As ciências e regulações dos autores.

et vana vanis defendunt. Hujus quoque erroris aperienda nobis origo est [. quod sic videri propler immensam latitudnem necesse est.quasi ut ingenia sua in malis rebus exerceant vel ostentent. Hanc igitur Coeli rotunditatem illud sequebatur. nec quomodo ab occasu ad Orientem remearent.] Quae igitur illos ad antipodas ratio perduxit? Videbant siderum cursus in occasum meantium. Até aqui Lactancio. campos tendat. era a falta que então havia no Mundo da verdadeira e exata cosmografia. quão impossível cousa lhes era acertarem naquele tempo. quae astra esse dicerent. ut nebula. do que nós hoje nos podemos rir dele. discorre assim: Quid illi. senão ainda inabitáveis Este sentimento. et montes pensiles faciant. não se rindo menos dos que naquele tempo tinham esta opinião. ut Terra in medio sinu ejus esset inclusa.quae non ab hominibus. em aquelas suposições. nisi quod eos interdum puto. que então (antes da experiência) tinham nome de razões. qui haec portenta defendunt. por sua matéria e elegância. neque enim fieri posset ut non esset rotundum. caeterisque animulibus incolatur: sic pendulos istos antipodas Coeli rotunditas adinvenit. a medio deferantur ut coelum petant. Descreve Lactâncio Firmiano que era um dos Padres. e a errada opinião. quod si ita esset. eram não só desertas. qui cum semel aberraverint. quae autem levia sunt. existimaverunt rotundum esse Mundum sicut pilam: et ex motu siderum opinati sunt coelum volvi. com o verdadeiro entendimento de alguns lugares dos Profetas que eles interpretaram em alheio e diferente sentido A primeira ocasião que os Padres tiveram para não poderem entender em seu tempo o sentido literal e histórico daqueles textos proféticos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro louvor de sua grandeza e sabedoria. Solemque. id est. e muito douto daquele tempo e zombando elegantissimamente dos que tinham a opinião contrária. et agros et maria. ut nulla sit pars Terrae. quomodo ergo non cadunt omnia in inferiorem illam cueli partem. etiam sequebatur illud extremum. et ad medium connexa sint omnia sicut radios videmus in rota. coelum autem ipsum in ornnes partes putarent esse devexum. Quod si esset. fumus. e muito 77 . Sic astra. qui credut esse homines quorum vestigia sint superiora quam capita? Aut ibi quae apud nos jacent inversa pendere? Fruges et arbores deorsum versas crescere. et urbes. que foi de muitos filósofos antigos se tinha entre os Padres por verdade muito certa e averiguada. não eram entre todos as mesmas razões filosóficas. Cum autem non prospicerent quce machinatio cursus eorum temperaret. volubilitate ipsa Mundi ad ortum referri. ou de que o globo da Terra não era perfeitamente esférico. ou de que as partes opostas às que naquele tempo se conheciam. montes erigat. em que alguns se afundavam. . ignis. maria consternat. ou fama de haver os que então já se chamavam antípodas Posto que os princípios por que os Padres os negavam. etiam ipsam terram globo similem. cum occiderirint. et grandinem sursum versus ca dere in terram? Et miratur aliquis in hortos pensiles ~nter seplem mira narrari. Quod si quaeras ab is. hanc respondent rerum esse naturam. Solem atque Lunam in aemdem partem semper occidere. Por isso não duvidei de copiar esta página de latim. Pluvias et nives. aut joci causa philosophari. quod rotundo conclusum teneretur. atque oriri semper ab eadem. ut pondera in medium ferantur. itaque et aereos orbes fabricati sunt quasi ad figuram Mundi. e hoje depois delas nos parecem ridículas. que para os que bem o entendem sei de certo não será larga. negando geralmente a opinião. aut prudentes et scios mendacia defendenda suscipere. necesse esse. ut in omnes Coeli partes eamdem faciem gerat. constanter in stultitia perseverant. Si autem rotunda etiam Terra esset. cum philosophi. Quid dicam de iis? Nescio. eosque caelarunt portentosis quibusdam simulacris. qui esse contrarios vestigiis nostris antipodas putant? Num aliquid loquuntur? Aut est quisquam tam ineptus.

que de todas as partes inclina para o centro.>> Este é o discurso de Lactâncio. assim que a imaginada rotundidade do céu foi a inventora destes antípodas pendurados. e não entendendo o modo por que esta máquina se governa. sendo que algumas vezes cuido que não dizem nem escrevem isto de siso. e não subir? E espantamo-nos que os hortos pênsiles se contêm entre as Sete Maravilhas do Mundo. como está: nesta em que vivemos. e assim fingiam que havia no céu vários orbes de matéria sólida como bronze. as defendem contudo para ostentar habilidade e engenho. e torneada desta maneira. só digo que. acomodando-se naturalmente a figura do corpo exterior e maior. depois de terem caído no primeiro erro. como haver antípodas. adversa pedibus nostris 78 . em que estavam esculpidas essas imagens e corpos portentosos. O que se haja de dizer de tais homens e de tais entendimentos. viam. que este céu que nos cobre. que agora se segue. primeiros descobridores de seus antípodas. ou pode haver homem de tão pouco juízo que se lhe meta na cabeça que há homens que andem com a cabeça para baixo. sobem direitas para as diversas partes do Céu. quando há filósofos que fazem campos pênsiles. defendendo umas cousas vãs com outras tão vãs como elas. perseveram constantemente na sua ignorância. em todas as partes. tem figura de uma abóbada (sendo que esta representação não a faz a figura do céu. Viam que o Sol. a que chamamos estrelas e planetas. ou cuidavam que viam. XVI De Civitate Dei. empregando tão bons entendimentos em tão más cousas. tiravam por segunda conseqüência que também havia de estar povoada de homens e de animais. id est. com palavras de tanta segurança como as seguintes: Quod vero et antipodas esse fabulantur. os quais impugna no livro das suas Categorias. a que chamam antípodas? Porventura dizem estes alguma cousa que tenha fundamento. assim como os raios de uma roda todos vão parar ao eixo. vieram a imaginar que o Mundo era redondo como uma bola. como o fogo. homines a contraria parte Terrae. e direitas. em que as torres e os telhados estão pendurados para baixo! Mas será bem que digamos a origem donde teve princípio este erro e que razão moveu ou levou estes homens a uma cousa tão irracional. posto que lhe não contentaram os seus fundamentos. assim as cousas pesadas vão buscar o meio. não o sei. senão o termo e fraqueza de nossa vista). mas no liv. de que a Terra está cercada. a Lua e estrelas. para que não fiquem com o sentimento de quão mal se pode trasladar à nossa língua a elegância da latina: «Que direi daqueles—diz Lactando—os quais tiveram para si que há no Mundo outros homens que andam com os pés virados para nós. senão por jogo e zombaria. porque o passarão mais brevemente. O mesmo peço eu que façam os que não têm necessidade de ver a tradução dela. Desta redondeza ou rotundidade do céu inferiam e assentavam que também a Terra era redonda. e que. hajam de descer aos ramos. mares pênsiles e cidades pênsiles. e como não caem por esses ares abaixo respondem que é o peso natural da Terra. para que soubéssemos o que naquele tempo se sabia do Mundo e para que saiba o mesmo Mundo quanto deve aos Portugueses. se lhes não despeguem da terra. E se perguntarmos aos defensores deste portento como pode ser que os homens que. dentro do qual estava metida. e feita redonda a Terra. os fumos. as cousas leves. e foi bem que o deixasse tão miudamente escrito. lá estejam dependuradas? Que as árvores cresçam para a parte inferior? Que a chuva caia para cima? E que os que hão-de colher os frutos. e que todas as cousas que aqui estão em pé. Santo Agostinho também teve a mesma opinião de Lactâncio. ubi Sol oritur quando occidit nobis. e que sabendo muito bem que tudo o que dizem são fábulas e mentiras. e. as névoas. saíam sempre do Oriente e entravam pelo Ocaso. resolve que se não deve crer que há antípodas. assim como do mesmo eixo saem os raios para a roda.Anexo:Imprimir/ História do Futuro menos para os que o não entendem. fingem com os pés para cima.

era um dos mais forçosos argumentos. et iterum: «quia itse super maria fundavit eum. por cima da imensidade do mar Oceano. historiadores e poetas. que antes da experiência parecia afirmarem ou definirem claramente que debaixo da terra não havia outra cousa mais que a água. e muitos anos e séculos depois em Procópio. e só o conjeturam por discursos. que tudo pode. S. com que os reprovadores da empresa do Infante Dom Henrique a impugnavam. ut etiam illic ex uno illo primo homine genus institueretur humanum. e tinham por impossível aquele descobrimento. ainda encarece mais este louvor nosso. segue-se que não há nem pode haver antípodas. A estas razões propriamente filosóficas e a este discurso. sed quasi ratiocinando conjectant: «E quanto à fábula dos que fingem que há antípodas — diz Santo Agostinho. notum reor. logo. Basílio e Santo Ambrósio. são descendentes de Adão. Assim o argumentava Procópio sobre o primeiro capítulo do Gênesis. e é grande absurdo dizer que os homens pudessem fazer tal navegação. e antes de Santo Agostinho. temperantur: eaeque ipsae inter se non perviae propter incendium sideris. uns fundando-se nas razões já referidas e todos naquela tão celebrada dos filósofos. como referem as nossas histórias. aquis vacua et denudata hominibus. João Crisóstomo. Este incêndio da zona tórrida ainda em tempos tão chegados aos nossos. e que Deus. cominus vapore torretur. A razão de Santo Agostinho com que negou os antípodas. disse o famoso e ilustríssimo africano dos Portugueses conquistadores depois de sua pátria: Nimisque absurdum est (são palavras suas no mesmo lugar) ut dicatur aliquos homines ex hac in illam partem Oceani immensitate trajecta. se os houvera. em Santo Hilário. homens da outra parte do Mundo. Assim o cuidou Tales Milézio. para mostrar sua onipotência tinha fundado a terra sobre a água. que não só faziam inabitável a zona tórrida. Neque hoc ulla historia cognitione didicisse se affirmant. parece se deviam entender assim.Anexo:Imprimir/ História do Futuro calcare vestigia. com muitos outros filósofos. onde o Sol lhes nasce a eles. dizendo: Quod autem universa Terra in aquis subsistat nec ulla sit pars ejus. quando se põe a nós. mas este é o maior louvor da nossa Nação (como disse um orador delas) que chegaram os Portugueses com a espada onde Santo Agostinho não chegou com o entendimento. nam sic docet Scriptura: «Quid expandit terram super aquis». que se a vista dos olhos não tivera ensinado o contrário. E verdadeiramente que as palavras de um e outro são tão claras. ainda antes de Lactâncio. porque o argumento em que se funda é este: Todos os homens que se propagaram e estenderam pelo Mundo. como consta da Escritura. sem saber de quem falava. navigare ac pervenire potuisse. em S. Esta mesma opinião foi comum entre os outros Padres da Igreja. como nós para os seus. nem seus autores o provam com alguma história que tal afirme. exusta flammis et cremata. Justino. mas supunham tão grande incêndio nela pela vizinhança do Sol. isto é. acrescentavam os Padres outras teológicas e alguns textos da Escritura Sagrada. em S. quae infra nos sita sit. se já naquele tempo estiveram escritas as histórias dos Portugueses. os quais referiam os tremores da Terra à inconstância deste fundamento de sua natureza tão 79 . um dos sete sábios de Grécia. Esta é a razão de Santo Agostinho e este o famoso elogio que. nulla ratione credendum est.>> Não dissera isto o sapientíssimo Doutor. Eutímio e outros. Teofilato. porque. é cousa que de nenhum modo se há-de crer. Circa duae tantum inter exustam et rigentes. e que pisam a terra com os pés voltados para os nossos. e assim a lemos expressa. haviam de ter passado a outra parte do Mundo. que de nenhum modo se podia passar: Media vero terrarum _ diz Plínio — qua Solis orbita est.» O primeiro lugar é do Salmo CXXXV e o segundo do Salmo XXIII.

psalmum dicite nomini ejus. que são aquelas que descobrimos. ut habitari posset. Todo o Salmo LXIV explica Basílio Ponce da nova conversão das Índias. Donde notou advertidamente Viegas. que são as que habitamos. e assim explica as palavras: «Exitus matutini et vespere>> pro hominibus qui habitant ubi exit dies et ubi exit nox. Mendonça e outros autores. quoniam terram itse fecit. o que fez a Providência Divina foi apartar a água de cima da terra e dar-lhe outro lugar. isto é superior a ela. et super fluvia praeparavit eum. et supereminere aquis fecit. conforme o lugar que se devia à sua dignidade e nobreza. porque.] sit Deus (diz Lorino). cantate Deo. porque. et appareat arida.Anexo:Imprimir/ História do Futuro pouco sólido. diz Genebrardo. 80 . Referem-se vários lugares dos Profetas que os expositores modernos entendem dos antípodas e conquistas de Portugal. Viegas. que é o que hoje tem o mar para que ficasse a terra superior a ele e pudesse produzir e ser habitada: Et dixit Deus: Congregentur aquae [.. e esta é a virtude que Deus deu às vozes da sua voz. a fez habitável. e por sua natureza devia estar. e não inferior e debaixo como de antes estava.. et timebunt qui habitant terminos a signis tuis exitus matutini et vespere delectabis.. omniumque in ea rerum [. e é Senhor de seus habitadores..] in locum unum. mas como por esta causa ficasse a terra vazia e inabitável. E porque é Senhor da Terra? Porque a fundou. comentando o verso IX: Turbabuntur gentes. e são tão próprios desta explicação muitos lugares dele. para mostrar que a Fé e conhecimento de Deus primeiro havia de vir às terras mais ocidentais. iter facite ei. E por que a terra por este modo ficou superior à água. Deus é o Senhor da Terra e de todos seus habitadores. entende pelos habitadores dos termos da terra as gentes orientais e ocidentais. fazendo que fosse superior ao mar e aos rios. conquistamos. antes do conhecimento dos antípodas.. mas depois que a experiência nos mostrou que debaixo ou da parte oposta a esta Terra há outros habitadores. orbis terrarumm et universi qui habitant in eo: quia ipse super maria fundavit eum. que são os antípodas. qui ascendit super Occasum.. e essa é a energia da palavra praeparavit. E não é muito que Lorino entendesse melhor este texto da terra e do mar que Procópio. qui ascendit super Coelum Coeli ad Orientem. pro Orientalibus et Occidentalibus. fazendo a terra superior à água. Repito o texto todo. porque Procópio não sabia que havia mar e terra habitada dos antípodas. como elemento que é mais nobre. e depois havia de passar às do Oriente. convertidas à Fé por meio da pregação dos Portugueses e descobertas por eles. mas vamos a outros lugares mais impossíveis de entender. assim Orientais como Ocidentais. que no mesmo Salmo tinha dito David: Cantate Deo. não puderam deixar de dizer o mesmo. e a água sobre a terra. como notou o texto: Terra autem erat inanis et vacua. que fala da conversão dos reinos e terras do Oriente. ecce dabit voci suae vocem virtutis. Dominus nomen illi. para que da conseqüência dele se veja melhor a verdade e clareza desta exposição: Domini est terra et plenitudo ejus. hoc est. cujo verdadeiro sentido é este: Quando Deus criou o Mundo. psallite Deo. Começando pelo mesmo David. alumiamos com a luz do Evangelho. psallite Domino. no princípio estava o elemento da terra coberto com o elemento da água. a preparou e acomodou a que se pudesse habitar: Ratio cur Dominus Terrae. às vozes dos seus pregadores: Ecce dabit voci suae vocem virtutis. a emenda deste engano nos ensinou também a entender aqueles textos de David. e Lorino sim. aquele verso do Salmo LXVII: Regna terrae. ainda os que não tiveram tal pensamento. que. Lorino. por isso diz David que a terra está sobre ela. isto é.

. expulso autem Aquilone.Anexo:Imprimir/ História do Futuro De maneira que os homens de quem aqui fala David. Salomão. Como se dissera: antes de se pregar o Evangelho a estas terras ou a estes mundos do Oriente é do Ocidente. et fluent aromata illius.. et veni. E porque para isto era necessário que o bravíssimo e indômito Oceano se sujeitasse aos homens e se deixasse arar de seus lenhos. E acrescenta com grande energia que multiplicaria o Senhor o enriquecê-la: Multiplicasti locupletare eum. Uns nos fins do Oriente. Como se dissesse Cristo. são aqueles que estão nos dois últimos fins e extremos da Terra. porque trata igualmente a todos: sanctum est templum tuum. que os outros estivessem às escuras (argumento que puseram os Japões a S. latitudinem aut profundumditatem maris. onde nasce o dia e onde nasce a noite. mas também no espírito de profecia. que é a Igreja: que saísse dele o Norte e viesse o Sul. Ou. E não carece de mistério e grande mistério. em muitos lugares dos seus Cânticos deixou também profetizadas estas maravilhas da nossa idade: neste sentido explicam alguns modernos aquelas palavras no cap.qui conturbas profundum maris. que sucedeu a David.. uma e outra. Segue-se logo no texto:. isto é. mas multiplicadamente rica: Multiplicasti etc. mirabile in aequitate. IV: Surge. que podemos dizer que a vossa Igreja é admirável na igualdade. qua totum ortum Ecclesiae. o que até aquele tempo não consentia. com admirável propriedade e energia. tendo-lhe já dado as maiores riquezas temporais. entendidas assim como soam. sonum fluctuum ejus. cavitatem. mulcens sonitum. Porém. Fala das missões que fazem àquelas partes os pregadores da Fé.sanctum est templum tuum. senão os mares de muito longe e de terras e gentes muito remotas: . ou como tem o hebreu: Maris rémotorum. como lê S. Francisco Xavier). podemos aplicar as palavras de Honório: Siquidem inauditam haeresim per malignos homines Draco mentibus fidelium infudit. diz o Profeta que visitaria Deus. também dizia David que fazia Deus esta mudança em suas ondas: .. et perfla hortum meum. dum universum haeresim per sapientes destruxit. Senhor. Jerônimo e Teodósio: compescens sedans. e outros nos fins do Ocidente. e vossa Igreja não guardáveis igualdade com os homens. Auster. sobre estes lhe havia de dar também as riquezas espirituais e a graça. que foi com estas palavras:. As quais palavras. e que entrassem na mesma Igreja as orações do Sul (que são as do Novo Mundo). que são os das Índias Orientais. que outra cousa dizem senão os interesses temporais que trazem as naus da Índia por estes espirituais que levam quando vêm carregadas dos aromas e espécies aromáticas daquelas partes? Assim o tinha dito o mesmo Salomão no verso antecedente. os diamantes. o proêmio com que David introduziu tudo o que até aqui temos dito. mirabile in aequitate. pois havendo tantos anos e tantos séculos que alumiastes a uns com a luz da Fé. por vossos ocultas juízos. que são os das Índias Ocidentais. declara o Profeta que não haviam de ser aqueles que lavam as terras e praias vizinhas a nós. falando do sen jardim. Esta terra. os rubis. que é mui próprio e verdadeiro. permitistes até agora. com que ficasse cada uma não só rica. que são as minas do ouro e prata.. as pérolas e outros tantos tesouros. depois que a Fé e o Evangelho.. e o conhecimento e culto do verdadeiro Deus têm passado os mares. Ao qual sentido. e diz: Emissiones 81 .spes omnium finium terrae et in mari longe. et fluent aromata illius. porque não duvidássemos que mares eram estes. como entraram por meio da Fé. e que a regaria como regou com a água do batismo: Visitasti terram et inebriasti eum. et de horto suo flagellis anathematis expulit. chegado às mais remotas nações do Oriente. que saíssem da Igreja as orações do Norte.. como se saíram nestes tempos por meio da heresia. porque. Aquilo. Finalmente. agora sim. não só na coroa. quasi quadam lepre vitiavit. parece que vós. sed Rex gloriae Chrisus suis auxilium praebuit. Auster intravit.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro tuae, paradisus malorum punicorum cum pomorum fructibus As vossas missões são um paraíso de que se não colhem frutos de árvores, senão frutos de frutos. Cum pomorum fructibus. Porque pelo fruto espiritual que vão fazer os missionários, vêm de lá os frutos temporais com que Portugal se enriquece. E se vão faltando os segundos frutos, é porque também vão faltando os primeiros, de que eles nascem. Mas que frutos são estes? Disse o mesmo Salomão: Cypri cum nardo, nardus et crocus, fistula et cinnamomum cum universis lignis Libati, myrrha, et aloe cum omnibus primi unguentis: A canela, a canafistola, o sândalo, o benjoim, as áquilas, os calambucos, e todo o outro gênero de espécies odoríferas e aromáticas, que são as mesmas que vêm da Índia. No cap. VII diz assim o mesmo Salomão, ou a Esposa, que é a Igreja, falando com seu Esposo Cristo: Mandragorae dederunt odorem. In portis nostris omnia poma: nova et vetera servavi tibi. As mandrigoras são os pregadores da Fé, como diz S. Gregório: Quid per mandragoram, herbam scilicet medicinalem et odoriferam, nisi virtus perfectorum intelligitur? Qui, dum imperfectorum infirmitatibus medentur in fide quam praedicant, id est. in portis Ecclesiae veri medici esse comprobantur. Com o cheiro destas mandrágoras e com a doutrina destes pregadores, [diz a Esposa] que ajuntou para seu Esposo os frutos novos aos velhos. Assim o interpretam os Setenta: Nova et vetera servavi tibi; porque aos cristãos antigos, que eram os da Europa, ajuntou a Igreja estes novos, que são os da nova gente que se descobriu no Oriente e no Ocidente, que são as portas de que fala a Esposa: In portis nostris. Uma porta por onde o Sol sai ao nosso hemisfério, que é a do Oriente, e outra por onde entra aos antípodas, que é a do Ocidente. Assim entendem este lugar alguns autores que refere Cornélio, resumindo todo o sentido dele nestas palavras: Nonulli per nova opinantur hic notari novi orbis inventionem et conversionem ad Chrstum. Novus enim hic orbis continet Peruanos, Mexicanos, Brasilios, Chilenses etc. est dimidium totius orbis, ut patet ex globo cosmográphico [...] jam per religiosos S. Dominici, S. Francisci et Societatis Jesus totus pene subjacet Ecclesiae Sic in India Orientali hoc saeculo et praecedenti mire per eosdem propagatur Fides apud Japones, ubi plurimi pro Fide certant usque ad martyria lentorum ignium apud Sinenses, Molucenses et Ceilanos. De maneira que os frutos novos que a Igreja, por meio do cheiro destas mandrágoras medicinais e odoríferas, ajuntou aos velhos e antigos, são os do Peru e México, do Brasil e Chile, e os do Japão e China, das Malucas e Ceilão; uns nas portas do Oriente, outros nas do Ocidente: Madragorae dederunt odorem suum. Parece que estavam esquecidos, mas não estavam senão guardados para este tempo: servavi. Em quase todo o cap. VIII repete Salomão a mesma conversão das Índias, e particularmente naquelas palavras: Soror nostra parva, et ubera no habet; quid faciemus sorori nostrae in die quando alloquenda est? Si murus est. aedificemus super eum propugnacula argentea; si ostium est. compingamus illud tabulis cedrinis. Até agora foi escuríssimo este lugar, mas são admiráveis os mistérios e mais admiráveis ainda as propriedades dele. Ludovico Legionense, nos comentários sobre este livro, entende por esta irmã mais moça da Esposa a Igreja da Gentilidade novamente convertida à Fé: ...sub persona hujus sororis natu minoris, et parum forma praestantis, cu`jus de collocatione sponsa solicitari dicitur, multi significantur populi atque gentes longe a nostro orbe remotae, ad Christum adducenda; nova quadam Evangelli tradendi ratione; hoc est significatur Hispanorum navigationibus reperti orbis, ejusque incolarum ad Christi. fidem nuper facta conversio. Ainda que a Igreja toda seja uma, como a destas novas gentilidades veio ao conhecimento de Cristo tanto depois, que não foram menos que mil e quinhentos anos, por isso lhe chama

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro Salomão irmã menor e pequena — Soror nostra parva est — não pela grandeza das terras e número das gentes, em que é maior ou, quando menos, igual a toda a Igreja antiga, mas pela menoridade do tempo e da idade em que se converteu. E diz com muita propriedade que não tem peitos: Et ubera non habet porque todos estes anos esteve falta do leite da verdadeira doutrina. E porque haver-se de desposar com Cristo esta nova Igreja era um negócio cheio de tantas dificuldades, assim pela distancia de tão remotas terras e navegação de tão desconhecidos mares, como principalmente pela resistência de suas nações, umas bárbaras, outras políticas e todas feras, armadas e belicosas, e tão superiores no número e multidão aos que lhes haviam de levar e introduzir a Fé, estas dificuldades representa a Igreja antiga a seu Esposo, Cristo, com aquelas palavras: Quid faciemus sorori nostrae in die quando alloquenda est? «Que faremos Senhor, quando chegar o tempo em que se há-de desposar convosco esta minha irmã menor?:>> Ao que responde Cristo com o antiquíssimo conselho de sua providência, dizendo: Si murus est. aedificemus super eum propugnacula argentea; si ostium, compingamus illud tabulis cedrinis. Quem não admirará nesta resposta os altíssimos conselhos da sabedoria e providência divina? Dispôs Deus desde a criação do Mundo que estas terras, assim por fora como por dentro, fossem enriquecidas de coisas preciosíssimas, para que o interesse dos homens facilitasse as dificuldades, que sem ele criam impossíveis de vencer. Como se dissera o Senhor: Ainda que a conquista da Fé tem muros que dificultem sua entrada nessas terras, também tem portas por onde poderá entrar; esses muros facilitá-los-emos com prata; essas portas abri-las-emos com cedros: Si murus, aedificemus propugnacula argentea; si ostium, compingamus illud tabulis cedrinis. Pela prata se entendem as minas e pelos cedros odoríferos as plantas preciosas; e as minas que essas terras têm em suas entranhas, e as plantas odoríferas e preciosas que nelas nascem, são os meios e incentivos que obrigaram o interesse humano a que se disponha a vencer todas essas dificuldades e abrir e franquear essas portas. E assim foi porque a prata, o ouro, os rubis, os diamantes, as esmeraldas, que aquelas terras criam e escondem em suas entranhas; as áquilas, os calambucos, o pau-brasil, o violeta, o ébano, a canela, o cravo e a pimenta, que nelas nascem, foram os incentivos do interesse tão poderoso com os homens, que grandemente facilitaram os perigos e os trabalhos da navegação e conquista de umas e outras Índias. Sendo certo que, se Deus com suma providência não enriquecera de todos estes tesouros aquelas terras, não bastaria só o zelo e amor da religião para introduzir nelas a Fé. O profeta Isaías, como profeta singularmente escolhido para historiar as maravilhas da lei evangélica, foi o que mais falou de nós e delas: no cap. XLIX diz assim: Ecce isti de longe venient, et ecce illi ab aquilone et mari, et isti de terra australi. Laudate, caeli, et exulta, terra, jubilate, montes, laudem, quia consolatus est Dominus populum suum, et pauperum quorum miserebitur. O qual lugar entende Cornélio à Lápide e Árias Montano da conversão da China, e o provam do original hebreu, o qual lêem de terra Senim, como verts S. Jerónimo, Símaco, Áquila, Teodósio, o Siro, o Arábio, e todos, e é o mesmo que de terra Sinorum, por ser este o modo de falar da língua hebréia, na qual os Galileus se chamam Gelilim, e os Judeus Jehudim, e os Assírios Assurim, e assim também os Chinas ou Sinas Sinim. E se replicarmos a este sentido que a China não é terra austral, senão oriental, e que se não pode verificar dela o termo de terra australi, respondem os mesmos autores que aludiu o Espírito Santo, que governava a pena de S. Jerónimo, à navegação dos Portugueses, os quais, quando vão para o Oriente, fazem a sua viagem direita ao Austro, navegando ao cabo da Boa Esperança: Sinae enim (dizem eles), qui proprie hic significantur, licet sint ad Orientem, dici tamen possum ad Austrum, quia Lusitani in Sinas

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro navigaturi, initio longo flexu, navigant ad Austrum, scilicet ex Lusitania usque ad promontorium Bonae Spei, quod uItimum est in continente et directe oppositum Austro. De maneira que, como os Portugueses eram os que haviam de levar a Fé à China, navegando ao Austro ou Sul, por isso o Espírito Santo chamou Austral à China, não pelo sítio, senão pelo rumo da navegação. Da mesma conversão dos Chinas fez outra vez menção Isaías no cap. XI, v. I4, o qual explica larga e eruditamente Malvenda, seguindo a Foreiro, ambos varões mui doutos da família dominicana. O mesmo Profeta Isaías no cap. LX: Qui sunt isti, qui ut nubes volant et quasi columbae ad fenestras suas? Me enim insulae expectant, et naves maris in principio, ut adducam filios tuos de longe; argentum eorum et aurum eorum cum eis, nomini Domini Dei tui et Sancto Israel, quia glorificavit te. Et aedificabunt filii peregrinorum muros tugs, et reges eorum ministrabunt tibi. Nestas palavras está profetizada admiravelmente a conversão das Índias Ocidentais; assim as explicam o mesmo Cornélio, Bózio, Aldrovando e outros, com bem notáveis propriedades. Chama o Profeta às Índias Ocidentais, ilhas: Me enim insulae expectant. Porque todas aquelas vastíssimas terras, em quanto se têm descoberto, estão rodeadas de mar, e bastava para se chamarem assim a imensidade de mares que as dividem do Mundo amigo; além de que estes terras no princípio eram chamadas com o nome de Antilhas, como se lê na história de seu descobrimento. As nuvens que voam a estes terras para as fertilizer—Qui sunt isti, qui ut nubes volant— são os pregadores do Evangelho, levados do vento pelo mar como nuvens; e chamam-se também pombas: Et sunt columbae ad fenestras suas; porque levam estes nuvens a água do baptismo sobre que desceu o Espírito Santo em figure de pomba, que são os dois termos que desde o princípio do Mundo andaram sempre juntos na significação do batismo. No I cap. do Gênesis: Spiritus Domini ferebatur super aquas, e no II de S. João: ...nisi quis renatus fuerit ex aqua et Spiritu Sancto. Mas o mesmo Bózio e Aldrovando, ainda advertiram no nome e semelhança de pomba outra propriedade mais aguda, tirada do descobrimento das mesmas Índias, de cujas terras e navegação foi o primeiro descobridor Cristóvão Colombo; e dizem que a isto aludiu o profeta, chamando Columbas ou Columbos a todos os que seguem a mesma derrota e navegação das Índias: Nomine columbae alludit ad Christophorum Columbum, qui nobis iter ad illas oras primus aperuit. Bem assim, ou muito melhor, e com mais verdade do que disseram os Gentios que os Argonautas, quando foram conquistar o velo de ouro a Colcos, levaram por guia uma pomba: Et qui movistis duo littora, cum rudis Argus Dux erat, ignoto missa columba mari. Os Potosis e outras minas de prata e ouro, que juntamente com as almas para a Igreja haviam de conquistar estes argonautas, também as não esqueceu o Profeta: Et adducam filios tuos de longe, argentum eorum et aurum eorum cum eis. Muito ouro, muita prata e muitos filhos para a Igreja, e tudo de muito longe; e porque não ficassem em silêncio as frotas das Índias: Et navis maris in principio; ou como lê Foreiro do hebreu: Et naves maris cum primaria, seu praetoria, que faziam esta navegação muitas naus, não divididas, senão em frota, com sua capitaina; finalmente, que homens peregrinos edificariam os muros da Igreja naquelas terras: Et aedificabunt filii peregrinorum muros tuos; e que os ministros de tudo isto seriam os mesmos reis, como fazem com tanta piedade os reis católicos: Et reges eorum ministrabunt tibi.

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e que esta obra é de minha mão: Ut videant et sciant quia manus Domini fecit hoc. ut videant et sciant. ele as descobriu. que levaram adiante o que ele começou. assim em outras ilhas. etc. Ego Dominus exaudiam eos [. LVIII fala Isaías das obras grandes que fará o homem misericordioso. fundamenta generationis. São Jerônimo. isto é. eu farei que se colha muito copioso e de todo o gênero: Dabo in solitudinem cedrum et spinam et myrtum. diz assim: Hoc etiam hodie in Japone. e de onde até agora se não colheu fruto. As palavras de Isaías são estas: Et aedificabuntur in te deserta saeculorum. de que tanto necessitam: Et terram inviam in rivos aquarum. de nenhum outro homem se podem entender à letra senão do nosso Infante santo (sic) D. cujo principal intento naquela empresa. O P. ponam in deserto abietem. São Cirilo. e como a major obra e a major misericórdia de sodas é tirar almas do Inferno. et non sunt: lingua eorum siti aruit. et terram inviam in rivos aquarum. tenham assento. na China.] non derelinquam eos. e de ilhas desertas que antigamente eram. como eram as Canárias e de Cabo Verde. et myrtum. Quantos pobres e miseráveis estão morrendo à sede por falta de água. geral da sua religião. e por mais que essas terras sejam sem caminho. et generationis suscitabis. No cap.. depois do reverendíssimo Cláudio Aquaviva. quando por meio da luz da Fé se lhes mostra o caminho da salvação. Dabo in solitudinem cedrum. como se tiram as dos Gentios. et spinam. foi o puro e piedoso zelo da dilatação da Fé e conversão da gentilidade. Para que entenda e conheça o Mundo quão poderoso sou. Primeiramente nele e por ele se povoaram os desertos dos séculos! porque muitas ilhas. eu abrirei caminho por onde a elas cheguem as águas. vós lançareis os fundamentos de uma e outra geração. as Terceiras ou dos Açores. que Deus havia de converter por meio da pregação do Evangelho. quia manus Domini fecit hoc. vivendo na gentilidade sem água do batismo? Mas eu (diz Deus) que também sou Senhor destes. mas não nos disseram que gentes estes fossem ou houvessem de ser. avertens semitas in quietem: «Em vós se povoarão os desertos dos séculos. porém os Doutores modernos nos dizem quais elas são. Cornélio. por tantos séculos estiveram desertas e incógnitas e despovoadas. porque as não conheciam. et vocaberis aedificator septum. vós sereis chamado edificador das cercas e fareis que os que sempre andam. os ouvirei e não me esquecerei deles: Ego Dominus exaudiam eos.. fazendo que fossem povoadas de homens. et in medio camporum fortes: ponam desertum in stagna aquarum. ulmum et buxum simul.. estão hoje tão povoadas e populosas. como era a ilha da Madeira. primeiro autor dos descobrimentos portugueses. lançou também os 85 . et recogitent. vamos agora às ilhas. aliisque Indiarum provinciis impleri magna laetitia conspicimus: que se cumpriu e está cumprindo esta profecia no Japão. Henrique. povoou e edificou.Anexo:Imprimir/ História do Futuro É também ilustre lugar em Isaías aquele do cap.. et intelligant pariter. que são as primeiras por onde os nossos descobrimentos começaram.e. como dizem sodas as nossas histórias. Henrique. bem ponderadas. que. continuadas depois pelos reis de Portugal. no Brasil. et lignum olivae. diz umas palavras o Profeta. XLI: Egeni et pauperes quaerunt aquas.» Tais foram em tudo as obras do Infante D. que desde o princípio do Mundo. Nestes seus montes e desertos secos e estéreis abrirei fontes e rios mui copiosos. que estavam povoadas de bárbaros. Aperiam in supinis collibus flumina. e tão enobrecidas de famosas cidades e suntuosos edifícios: Aedificabuntur in te deserta saeculorum. Até aqui andamos com Isaías pelas terras firmes. Brasilia. Procópio e Teodoreto entendem este texto da conversão das gentilidades. E assim como nestas ilhas ermas e desertas lançou este glorioso príncipe os primeiros fundamentos da geração humana. China.

edificador de cercas. que os lançou fora da primeira ilha. como vemos que passam os que lá vão. e por isso diz o Profeta que seria chamado o primeiro autor desta obra. dando os maninhos de Lavre. mas antes que escreva as suas palavras. Neque finis illus hucusque apparet.idem perfectum videinus in insults quas Tertieras vocant. Neste sentido tão próprio e literal explica Bózio este texto de Isaías. que há por bem ser aquela terra pastada de alimárias. fundando e edificando conventos de diversas ordens. et in stabulis ipsis habitabant. se aquietassem e tomassem assento. junto a Caruche. mas estes terras ermas foram as que pelo zelo e constância daquele príncipe se vêem hoje tão povoadas. e cativar gente tão mesquinha? Certo nós não sabemos outro. Hispaniae in Oceano adjacentibus Occidentem versus.. Boreamvel spectantibus idem contingit. a Lambert de Orches. Certo que outro exemplo lhe deu seu padre poucos dias há. O meio que para esta segunda e mais importante geração tomaram os religiosíssimos príncipes de Portugal. quase como admoestação de Deus. não cala o Profeta o fruto que desta santa indústria se seguiu em sodas estes gentilidades de bárbaros. senão infinitos outros. que Deus deu por pasto dos brutos. pois em tão poucos dias uma coelha multiplicou tanto. perdermos os amigos e parentes!» Isto é o que filosofavam e diziam os prudentes e políticos daquele tempo. que como animais andavam saltando de penedo em penedo. com obrigação de trazer a ele moradores estrangeiros de Alemanha. referindo o que desta empresa do Infante sentiam e murmuravam os que lhes parecia inútil e infrutuosa: <. As palavras prometidas de Bózio são as que se seguem: . ordem e política cristã. vel Austrum.os reis passados deste Reino (diziam eles) sempre dos reinos alheios para o seu trouxeram gente a este a fazer novas povoações. e não mando?` seus vassalos passar além-mar. cultivadas e ricas. senão virem eles encarentar o mantimento da terra e comerem nossos trabalhos. e por cobrarmos um comedor destes. como animais silvestres. como aqui notam alguns expositores. são os que hoje vivem com tanto assento.. similiter in Canariis. nós que proveito podemos ter de terra tão estéril e áspera. alemão. nem o modo de sua peleja. qui bestiarum modo prius incertis sedibus vagabantur. fazendo por meio da pregação e luz do Evangelho que esses bárbaros gentios conhecessem a Deus e fossem gerados em Cristo: Fundamenta generationis et generationis suscitabis.. e foi que.. a qual anda de penedo em penedo como cabras às pedradas contra quem os quer ofender. quas no mine Promontorii Viridis appellant. Sancti Laurentii. que os rompesse e povoasse. como sabemos que é a das Canárias. et generationis eorum. humanidade. e quando fosse tão bárbara. e não habitada por nós. et omnibus quae Africae littora respiciunt: amplius cunctis quas Oceanus aluit. Ascensionis. 86 . sive occidentem Solem. romper terras. que sempre são os instrumentos mais aparelhados que o Mundo e o Demônio têm para impedir as obras de Deus. que são. E quando quer que nestas terras de Guiné se achasse tanta gente como o Infante diz. excitantur fundamenta generationis. Oppida innumera et civitates pulcherrimae passim condutur in quibus constituuntur caetus hominum. e ele quer levar os naturais portugueses a povoar terras ermas por tantos perigos do mar. foi mandarem religiosos por sodas as conquistas. e vivessem como homens. sive orientem. quero pôr aqui as do nosso João de Barros. E estes bárbaros. as cercas e claustros das religiões: Et vocaberis aedificator septum Finalmente.Anexo:Imprimir/ História do Futuro fundamentos da geração divina. e não só eles. andando de antes vagamente pelas brenhas. não sabemos que gente é. de fome e sedes. de grande virtude e letras. E bem se viu quanto mais naturais são para eles que para nós. que isso quer dizer—Avertens semitas in quietem. latissimis etiam regionibus Indiarum.

insulin. acabou de o entender. Ludovico Legionense. mas chegando mais de perto à gente e terra ou província de que se entende a profecia. e aplica à navegação dos Portugueses o parafraste caldeu. o qual no mesmo liv. parece que os trazemos debaixo dos pés e que os pisamos. Java. e ilhas de muito longe. e no cap.» Aptosite in Indiam. e este é o que nós havemos de descobrir ou escrever aqui. das ilhas que os Portugueses conquistaram para Cristo. também os modernos não acertaram até agora com o sentido próprio. José da Costa. II cap. por estas palavras: Chaldeus interpres haec verba Isaiae in hunc modum reddidit: <<Vae terrae. Malucas e outras. que ultimamente se conheceram no Mundo com o descobrimento dos antípodas. por estarem quase cercadas uma do Mediterrâneo. ut aquila. mas Etiópia não está além de Etiópia. Cornélio teve para si que fala o profeta de Etiópia e do Preste João. Mas esta exposição e a de Mendonça e Rebelo (que entendem o texto geralmente da Índia Oriental). ilhas de longe. pisado as terras e navegado as águas de que fala este texto. ad gentem convulsam et dilaceratam.. outra do Oceano. cujus diripuerunt flumina terram ejus. pelas quais ilhas entendiam todos antigamente Itália e Espanha. Japão. como diz o texto. quae quondam remotarum gentium frequentibus navigationibus petebutur. dizendo que se entende da nova conversão à Fé daquelas terras e gentes também novas. Mas porque Isaías nesta sua descrição põe tantos sinais 87 . que é a terra que fica da outra banda da Etiópia. e nomeadamente de Ceilão. qui non audierunt de me. volans alis suis.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Até aqui este autor doutíssimo. XLIX: Audite. nem das gentes de que falava o Profeta. quae est trans flumina AEthiopiae. que ficaram debaixo de nós. Maldivas Socotorá. angeli veloces. tão versado nas Escrituras como na geografia e na história natural das Índias Ocidentais. LXVI: . ad quam veniunt cum navibus a terra longinqua. et nunc ab extremo Occidente Lusitanorum victricibus classibus aditur. mas verdadeiramente nem são ilhas. et attendite. germano e natural dela. Malvenda. como veremos e verão melhor os que tiverem lido as exposições antigas e modernas dele. entente dos Chinas e Japões. nem se podem chamar de Longe em comparação das que depois descobrimos.. têm contra si tudo o que logo diremos. Alartim del Rio e outros dizem (e bem). ad gentem expectantem et conculcatam. Chama a estes ilhas o Profeta. Arias Alontano. Trabalharam sempre muito os intérpretes antigos por acharem a verdadeira explicação e aplicação deste texto. que isso quer dizer a energia da palavra: Ad gentem conculcatam: gente pisada dos pés. quae etiam itsas sinarum oras praetervectae Japoniorum insulas tenent.ad insulas longe ad illos. com os outros que cita. e é este: Vae terrae cymbalo alarum. que. e é terra depois da qual não há outra: ad populum post quem non est alius. pelo havermos recebido de pessoa douta e versada nas Escrituras. havendo visto as gentes. Estes dois sinais tão manifestos só se podem verificar da América. Ponhamos fim a Isaías com um celebradíssimo texto do cap. ad populum terribilem. e notaram alguns com agudeza e propriedade. senão terra firme. Os comentadores modernos acertaram em comum com o entendimento da profecia. mas nem atinaram nem podiam atinar com ela porque não tiveram notícia nem da terra. Porque esta terra que descreve o Profeta está além da Etiópia trans flumina AEtiopiae. Frederico Lúmnio. XVIII. et vela sua extendunt. Tomás Bózio. e que não tem depois de si outra terra senão o vastíssimo mar do Sul. et in vasis papyri super aquas! Ite. porque os antípodas. quae mittit in mare legatos. que falou Isaías da América e Novo Mundo. e se prova fácil e claramente. e verdadeiramente o entendeu. populi de longe. III explica muitos outros lugares de Isaías. o qual foi sempre julgado por um dos mais dificultosos e escuros de todos os Profetas. como no cap. post quem non est alius. e com toda a propriedade são ilhas.

e assim é na geografia destas terras. Os Hebreus dizem&mdash. que o texto de Isaías se entende do Brasil. e é estilo e nobreza entre eles não poderem tomar nome senão depois de quebraram a cabeça a algum inimigo. muito mais particularmente naquele vastíssimo arquipélago do rio chamado Orelhana. todos com as raízes e troncos metidos na água. sendo as próprias mulheres as que guisam e convidam hóspedes a se regalarem com estas inumanas iguarias. e agora das Amazonas. que por ser tão pouco conhecida e menos nomeada nos escritores. sendo muito contados e muito estreitos os sítios mais altos que eles. que estando cercados os Bárbaros. detrás. porque em toda aquela terra. e tais são também os Brasis. mas porque assinala mindamente outros mais particulares e que não convêm a toda a gente e terra do Brasil. considerado o círculo que faz o globo terrestre. e posto que estes alagadiços sejam ordinários em toda aquela costa. A qual palavra&mdash. quase todos os campos estão alagados e cobertos de água doce. e muito distantes uns dos outros. que em respeito de Jerusalém. travessas e praças de água que a natureza deixou descobertas e desimpedidas do arvoredo. e nós dizemos. ou como verte e comenta Vatablo: terra. vê-se este destroço e roubo que os rios fizeram à terra. de que fazem os seus muros. que são estes homens uma gente a quem os rios lhe roubaram a sua terra: Cujus diripuerant flumina terram ejus. Fazem depois suas frautas dos mesmos ossos humanos. e mostravam aos nossos as panelas em que os haviam de cozinhar. Diz mais o Profeta que a gente desta terra é terrível: ad populum terribilem. e isto é o que agora hei-de mostrar. sendo raríssimos os lugares por espaço de cento.Anexo:Imprimir/ História do Futuro particulares e tantas diferenças individuantes. ainda que seja a alguma caveira desenterrada com outras cerimônias cruéis. será necessário que nós o digamos. que aquela (quais são os Brasis) que não só matam seus inimigos.de trans&mdash. por ruas. Diz pois o Profeta. navegando-se sempre por entre árvores espessíssimas de uma e outra parte. vivendo por esta causa não imediatamente sobre a terra. não se vendo em muitas jornadas mais que bosques. é outra vez necessário que nós também declaremos a província e gente em que eles todos se verificam. com grande diferença dos Europeus.gentem depilatam: gente sem pêlo. como notou Malvenda. senão em casas 88 . Digo primeiramente. mas depois de mortos os despedaçam e os comem e os assam. palmares e arvoredos altíssimos. quae est sita ultra AEthiopiam (quae AEthiopia scatet fluminibus) e o hebreu ao pé da letra tem de trans flumina AEthiopiae. sem nenhum horror. bárbaras e verdadeiramente terríveis. o Brasil fica imediatamente detrás de Etiópia. em que se possa tomar porto. subiam as mulheres às trincheiras ou paliçadas. e assim se viu muitas vezes naquelas guerras. é hebraísmo. em que os Índios possam assentar suas povoações. que claramente estão mostrando que não fala de toda a América ou Mundo Novo em comum. e não pode haver gente mais terrível entre todas as que têm figura humana. que pela maior parte não têm barba. Em lugar de gentem conculcatam. Estes são os sinais comuns que nos aponta o Profeta daquela terra e gente. e os cozem a este fim. que tão expressamente tinha falado nesta gente. duzentas e mais léguas. e no peito e pelo corpo têm a pele lisa e sem cabelo. semelhante ao da nossa língua. senão de alguma província particular dele. e esta gente e esta província mostraremos agora que é a que com toda a propriedade chamamos Maranhão.de trans&mdash. E é admirável a propriedade desta diferença. em que os rios são infinitos e os maiores e mais caudalosos do Mundo. não é muito que a falta de suas notícias lhe tivesse até agora escurecido e divertido a honra deste famoso oráculo do mais ilustre profeta. que tangem e trazem na boca. porque o Brasil é a terra que direitamente está além e da outra banda da Etiópia como diz o Profeta: quae est trans flumina AEthiopiae. cujas terras estão todas senhoreadas e afogadas das águas. e os autores alegados nos não dizem que província esta seja. lê o Sírio&mdash.

por cima dela se conservam e aparecem. por serem eles. que nos mesmos lugares sobre-aguados.>> 89 . Maianás e outras antigamente populosas gentes. nos frutos agrestes das árvores de que se sustentam. e também despedaçados. (que assim se chamavam os Pernambucanos) os arrancaram de suas pátrias. comunicando e confundindo em si as águas e como unindo e conjurando as forças para este roubo que fizeram àquela terra: Cujus diripuerunt flumina terram ejus. Goianás. Tanto assim que a principal nação daquela terra. como gente nascida e mais criada na água que na terra. outros. e só o Espírito Santo poderá recopilar em duas palavras a história e última fortuna daquela gente. os artífices ou os senhores das naus Diz pois Isaías que esta gente de que fala é um povo: Quae mittit in mare legatos et in vasis papyri super aquas: «Que manda de uma parte para outra seus negociantes em vasos de cascas de árvores sobre as águas. diferindo só as árvores das casas em que umas são de ramos verdes outras de palmas secas. porque as suas embarcações. os que isto fazem. e diz que os habitadores desta província são gente arrancada e despedaçada. assim porque foram ficando a pedaços em vários sítios como porque depois da vitória lhes foi necessário para conservarem o violento domínio. caindo para a parte do mar. ficando em suas próprias terras. que são as canoas. dividirem-se em colônias mui distantes uns dos outros. tomando o nome da mesma arte de navegar e das mesmas embarcações em que lá navegavam. ficando uma e outra gente arrancada e despedaçada: os vencedores arrancados. outros. porque caem todos na água. e muito particularmente pelo exercício e arte da navegação. porque os Tutinambás. e em muita quantidade de tartarugas e peixes-bois. se meteram pelo sertão. porque apenas dão passo que não seja com o remo na mão. e uns e outros gente despedaçada: gentem conculcatam et dilaceratam. que são os gados que pastam naqueles campos. de que os primeiros usavam. se ceva nos frutos delas. cuja colheita é muito 1impa. assim que uns e outros ficaram gente arrancada. se chamam na sua língua igara. porque. Desta sorte vivem os Nheengaíbas. onde fizeram assento. bem assim como as mesmas árvores. uns deles se sujeitaram. não sem novos inimigos que ainda mais os despedaçassem. e também e com muito maior razão despedaçados porque. e ali como soldados tão exercitados com o mais poderoso inimigo. e alguma caça de aves e montaria de porcos. toda esta se compõe do concurso de muitos outros rios. onde ficaram muitos. além de outro pescado menor. vieram sair às terras do Maranhão. ou os primeiros inventores da sua náutica. porque os tinham lançado de suas terras os Portugueses. em que eram e são os Maranhões mui sinalados entre os índios. Quando os Portugueses conquistaram as terras de Pernambuco.Anexo:Imprimir/ História do Futuro levantadas sobre esteios a que chamam juraus para que nas maiores enchentes passem as águas por baixo. que todos desembocam nele. os vencidos também ficaram arrancados. entre os lodos e raízes das árvores. de quem se diz com propriedade que andam mais com as mãos que com os pés. que tendo as raízes e troncos escondidos na água. ainda que o rio das Amazonas tenha fama de tão enorme grandeza. senão rios. ou certamente porque com sua indústria adiantaram muito a rudeza das embarcações bárbaras. com mais generosa resolução e determinados a não servir. Conhecidos já pela fortuna os descreve o Profeta. como se disséssemos os náuticos. restituindo-lhes os rios a terra que lhes roubaram. fizeram facilmente a seus habitadores o que nós lhes tínhamos feito a eles. Desta peregrinação e desta guerra se seguiram naquela gente os dois efeitos que sinala Isaías. ou juntamente com ele. e deste nome igara derivaram a denominação de Igaruanas. desenganados os Índios (que eram mui valentes e resistiram por muitos anos) que não podiam prevalecer contra as nossas armas. Continua Isaías a sua descrição. não podendo resistir. se chamam Igaruanas. E nota o Profeta que não é rio. muitos deles fugiram em magotes pelos matos e pelos rios tomando diferentes caminhos.

crotalos et inania cymbala pulsas.. como para os da guerra.Anexo:Imprimir/ História do Futuro As palavras do Profeta todas têm mistério e todas declaram muito a propriedade da gente de que fala. se chama na sua língua. Estes maracás eram propriamente os seus címbalos ou sinos. assim para os negócios da paz. senão tinham as notícias nem a língua dela? Para inteligência do verdadeiro entendimento deste texto ou enigma. foi Gabriel Palácio. mas antes de terem ferro despiam estes mesmos madeiros. com quem concorda o relativo quae. ou cretitáculos. em lugar de terrae cvmbalo alarum. Diz que as manda o povo. Depois que tiveram uso do ferro. de que o autor desta explicação viu alguma que tinha dezessete palmos de boca e cento de comprimento. e. porque é gente que não tem reis. depois que viram os sinos de que nós usamos. como são navios? e se são navios. delas formavam as suas embarcações. porque os nomes hebreus de que estas versões foram tiradas. porque o não tinham. como são sinos? Esta dificuldade foi até agora o torcedor de todos os entendimentos dos expositores sagrados. o mesmo arquipélago que dizemos.. e não adivinhavam nem podiam. cavam os troncos das árvores e fazem de um só madeiro muito grandes canoas. e de aqui veio o nome que os Portugueses lhe puseram de Grão-Pará ou Maranhão. dentro dos quais metiam seixos ou caroços de várias frutas. Se são sinos. E não faz dúvida dizer o profeta que estas embarcações iam ao mar: Qui mittit in mare. significa também qualquer instrumento com que se faz som e estrondo e tais eram os címbalos de que usavam antigamente os Gentios. cujos troncos são muito altos e direitos. por sua grandeza. Diz mais que vão sobre as águas em vasos de cascas de árvores. que se chamavam por nomes particulares sistros crotalos. porque Pará significa mar. mar. leram terrae navium alis. o que tudo quer dizer mar grande. maracás ou sinos de metal. lhes chamam itamaracás. diz assim: Fortasse indicus usus nominis cymbali antiquitas inolevit apud Hebraeos tempore Isaiae: 90 . como aqueles que falavam a adivinhar. vertendo em verso este mesmo lugar de Isaías: Vae tibi. ai da terra que tem sinos com asas. se há-de supor que a palavra latina cymbalum. que tudo isso quer dizer a palavra legatos. Isto suposto. o qual foi sempre o que maior trabalho deu aos intérpretes e os obrigou a dizerem cousas mui violentas e impróprias. e uma e outra cousa significam as palavras de Isaías. com que significamos os nossos sinos de metal. como se pode ver nos autores da língua latina. o expositor que mais foi rastejando o sentido verdadeiro que podia ter este enigma. e por nome geral cimbalos. além de entrarem com elas pelo mar Oceano. Os Setenta Intérpretes. quae reducem sistris cretitantibus apim Concelebras. no comentário literal deste lugar de Isaías. duros e acomodados a fazer muito estrondo e ruído. que está nas primeiras palavras deste texto: Vae terrae cymbalo alarum. que quer dizer. mas o mesmo povo e a mesma nação é a que elege aqueles que lhes parecem de melhor talento. porque. tirando-lhes as cascas assim inteiras. tanto assim que. Também se há-de supor que os Maranhões usavam de uns instrumentos a que chamavam maracás não de metal. de água doce. senão de cabaços ou cocos grandes. Assim o explicou eruditamente Carpenteio. Do que temos dito até aqui ficará mais fácil de entender aquele grande enigma do Profeta. mas como podia ser que entendessem o enigma da terra. servindo-se dos menores nas festas e nos bailes e dos maiores nas guerras. têm ambas as significações e querem dizer: Ai da terra que tem navios com asas. de 1600 anos a esta parte. o qual. ou. porque esta era a matéria e fábrica de suas embarcações.

como dissemos. Vatablo. Como aqueles gentios não tecem. grandes e todos vermelhos. derivado o nome da palavra mararacá. faziam um estrondo barbaramente bélico e horrível. gente da linha de linha. sem mistura de outra cor. navium alis. Os expositores todos dizem que estas asas eram as velas das embarcações e que são as asas dos navios. ficam pontual e perpendicularmente bem debaixo da Linha Equinocial. onde a Vulgata leu gentem expectantem expectantem. se não tivera a própria e verdadeira. A qual explicação pudera ser bem admitida. ornando com elas todo o gênero de armas. além do movimento natural das canoas e dos remeiros. chamavam àquelas canoas ou embarcações maiores maracàtim. E porque não faltasse a esta terra a demarcação ou arrumação. senão entre os mesmos Índios? Assim era e assim é. como diz Foreiro. e bolindo de indústria com eles. de que há infinita quantidade.Anexo:Imprimir/ História do Futuro «Porventura—diz ele—que no tempo de Isaías as embarcações dos Índios se chamariam entre os Hebreus sinos. porque não só levam empenadas as setas. quando iam às batalhas navais. que. Sanchez e outros muitos tão geralmente. Nem mais nem menos que os Romanos às suas galés de guerra deram nomes de rostratas. e principalmente quando vão à guerra. com que vem a concluir o Profeta 91 . que chamam rostros. Digo pois que fala o texto de verdadeiras asas de aves. quais eram ordinariamente as suas. significa entre eles sino. e este nome usam ainda hoje. a propriedade da letra hebréia. e quando a guerra era naval. senão também os arcos e rodelas. e as mesmas levavam penduradas dos gorupezes e maracás das proas. e assim como a palavra lineae se repete. e com ele nomeiam os nossos navios. e juntando a palavra tim com a palavra maracá. e porque a proa da canoa se chama tim. e a razão de darem este nome às suas maiores embarcações era porque. Assim que vem a dizer Isaías que a terra de que fala é terra que usa embarcações que têm nomes de sinos. destas penas se enfeitam quando se querem pôr bizarros. As maiores embarcações dos Maranhões chamam-se maracàtim. e por isso o Profeta diz que todas estas cousas via e notava como tão novas: chamam as lanças sinos e sinos com asas: Navius alis. porque os Maranhões são aqueles que. tirado também o nome ou metáfora dos bicos das aves. e estas são pontualmente os maracàtins dos Maranhões. punham na proa um destes maracás muito grandes. cymbalo alarum. como dizem os geógrafos. da sua altura. de que Isaías falava. é gentem lineae linea:. nem têm panos. que se chamassem sinos. empavezavam-se as canoas com asas vermelhas dos guarás. está também repetida no mesmo texto a palavra expectantem.» E porque não seria antes. atados aos gorupezes ou paus compridos. tirada a metáfora do nariz dos homens ou do bico das aves. pelas pontas de ferro agudas que levavam nas proas. Mas não está ainda explicada toda a dificuldade ou propriedade do enigma. além da Etiópia. sendo certo que o Profeta não havia de dar por sinal e divisa daquelas embarcações uma cousa tão comum e universal em todas. e as partaz anas de pau e pedra que chamam fanga-penas. que é propriedade por todos os títulos admirável. digo eu. é grande entre eles o uso das penas pela formosura das cores com que a natureza vestiu os pássaros. não porque este nome fosse usado entre os Hebreus. ou tomassem nome de sinos as embarcações dos índios. e deste modo fica decifrado e entendido o antiquíssimo e escuríssimo lugar e enigma de Isaías. que têm o mesmo nome. e particularmente o chamado guarás. conforme o poeta: Velorun pandimus alas. Pagnino. porque diz o Profeta que estas embarcações ou estes sinos eram sinos e embarcações com asas: cymbalo alarum.

Mas hoje estão ainda em pior fortuna. padecendo aquele vae do Profeta: Vae terra: cymbalo alarum. pela qual fortuna (como notou Santo Agostinho na morte dos infantes de Belém) não tiveram parte na morte de Cristo e conservaram sua antiga nobreza. quae in Bosphoro est. e que veio o mesmo Nabuco em pessoa a fazer esta guerra. esperando mais que todos os outros Brasis sessenta e cinco anos. ou desterrados ou trazidos por Nabuco. há duas opiniões entre os autores. que são as duas balizas que têm no meio a Portugal. que tanto tardou a todos os Americanos. do Infante Dom Henrique. Arias. a uma felicidade tão estranha. limite e fim. Esta mesma palavra Sepharad é nome com que os Hebreus chamam a Espanha. é conseqüência muito ajustada que da profecia do desterro passou. que passou a Espanha. tendo conquistado a Jerusalém e passado seus habitadores para Babilônia. qual é a que logo diremos. angeli veloces. Burgense. Toda a explicação é comum e certa entre todos os autores mais peritos da língua hebraica—Vatablo. foi fundação a insigne cidade de Toledo. como se pode ver do que de El-Rei Dom Manuel. e como o Profeta própria e literalmente falava neste lugar do mesmo cativeiro de Babilônia. de El-Rei Dom João o II. E esperam de se salvar os que de tantos danos e danos são causa? Muito largos temos sido na exposição deste texto. de que São Jerônimo verteu Bosphoro. esperando por este bem. como testemunham de uma parte as Colunas de Hércules e de outra o cabo de Finis Terrae. mais que todos eles. de El-Rei Dom João o III e de El-Rei Dom Sebastião escrevem seus historiadores. ficaram muitos em Espanha. Frei Luís de Leon. Deixo muitos outros lugares do Profeta Isaías. porque em Espanha está o estreito que divide a Europa de África e Espanha era o termo. que delas havia de ter princípio. Estrabo e outros graves autores. Mas sobre a transmigração de Jerusalém de que Abdias fala. Maqueda. No Brasil se começou a pregar a Fé no ano de 1550. para consolação dos mesmos desterrados. em que o descobriu Pedro Álvares Cabral. O Profeta Abdias em um só capítulo que escreveu também falou das conquistas de Portugal: El transmigratio Hierusalem. Desta transmigração pois (diz Montano e os mais acima alegados) se há-de entender o texto de Abdias. como refere Josefo. e deles. ad gentem expectantem. Pagnino. Diz agora o profeta Abdias que a transmigração de Jerusalém. que é exortar os pregadores evangélicos a que vão ser anjos da guarda daquela triste gente. o qual verdadeiramente se pode contar entre os cronistas de Portugal. Isidoro Clário e os demais. que tanto há mister quem a encaminhe como quem a defenda: Ite. limite e fim que os Antigos conheciam no Mundo. e no Maranhão no ano de 1615. que o primeiro e principal intento que neles tiveram nossos piedosíssimos reis. Destes hebreus. viria tempo em que possuísse as cidades do Austro. Assim querem também que de Nabuco traga seu apelido a ilustre família dos Osórios. em que o conquistou Alexandre de Moura. Malvenda e outros têm para si que fala da transmigração de Nabucodonosor o qual. de ali mandou parte deles para Espanha. Lirano. por ser parte desta província conquista sua. como escrevem muitas histórias de Espanha. significa termo. esperando. mas foi assim necessário por sua dificuldade e por não estar até hoje entendido. segundo fala muitas vezes nas espirituais conquistas dos Portugueses e nas gentes e nações que por seus pregadores se converteram à Fé. Escalona e outras. possidebit civitates Austri. 92 . expectantem: gente que está esperando. porque o estado da esperança se Lhes tem trocado no de desesperação.Anexo:Imprimir/ História do Futuro o seu principal e total intento. Porque entre todas as gentes do Brasil os Maranhões foram os últimos a quem chegaram as novas do Evangelho e o conhecimento do verdadeiro Deus. A palavra hebréia Sepharad. Árias Montano.

et colla gentium subjugantes. quem antiquum prophetam suscitavit Sanctus Jacobus Zebeduei filius. quod fuit impletum per Jacobum apostolum. que é a primeira parte da profecia. quae in Bosphoro est (diz Lirano) in hebraeo habetur in Cepharad. o moço e em presença de infinito povo. tirada de autores e memórias mui antigas. e discordam só na inteligência da transmigração de Jerusalém. Nosso Senhor. Cornélio. e que ali viera dar com outros cativos mandados de Babilônia por Nabucodonosor. que por isso não traduzimos. em seus discípulos. que são os que em Espanha receberam e conservaram sempre a Fé que ele lhes tinha pregado. E cumprida em Sant'Iago a transmigração de Jerusalém. o velho. batizou-o pouco depois. Até aqui esta maravilhosa história. na primeira parte da História Ecclesiastica Bracharense. depois chamado vulgarmente S. conciliando facilmente estas duas opiniões e mostrando que a profecia se entende mais particularmente de Portugal. ubi dicit Rabbi Sa. e dando-lhe o nome de Pedro. Vatablo. ibi fidem Christi primitus praedicantes.. id est in Hispania. diz desta maneira: Entrou em Braga o santo Apóstolo. vel Pyrrho. o qual. Bracharensem Episcopum. à parte direita pela costa da América ou Brasil. Fevardêncio e outros entendem por esta transmigração de Jerusalém a que fez Cristo. quando vieram pregar a ela. bispo do Porto. e particularmente de uma carta de Hugo. e ele por meio de seus discípulos a converteu toda à Fé e desterrou dela a Gentilidade: Et transmigratio Hierusalem. ou Samuel. mandando daquela cidade e espalhando por todo o Mundo seus Apóstolos. Antônio Caracciolo e outros. O fundamento que tenho para assim o dizer. Pedro de Rates. chamando por ele o ressuscitou em nome de Jesus Cristo. e a de Nabuco com o Apóstolo Malaquias. judeu de nação. porque de ambas as transmigrações foram os primeiros ministros da Fé que a plantaram em Portugal.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Nicolau de Lira.. de onde ela depois tão felizmente se transplantou às regiões do Austro. e outros que é a de Cristo pelos Apóstolos. e para entrar com estrondo de trovão (cujo filho o chamara Cristo. e dos fragmentos de Santo Atanásio. falando do Apóstolo Sant'Iago. se cumpriu a segunda parte dela. Hispaniarum praefecto. bispo de Saragoça. sendo estes os que depois de tantos séculos vieram a dominar e possuir as regiões do Austro: Possidebunt civitates Austri. De sorte que ambas as transmigrações de Jerusalém concorrem para a fé de Portugal: a de Cristo com o Apóstolo Santiago. magister meus. se foi a uma sepultura célebre. etc. Rodrigo da Cunha. seguindo esta segunda exposição. cuja rainha 93 . Assim o entendem também. entendendo uns que é a de Nabuco pelos Judeus passados à Espanha. digo que falou o Profeta de uma e outra transmigração. a quem vinha pregar e publicar por verdadeiro Deus. e à esquerda pela costa de África à Etiópia. De maneira que todos estes autores concordam em que a profecia da conquista das regiões do Austro se entende de Espanha. chamado Malaquias. e são as seguintes: Ego novi sanctum Petrum. porei aqui com as palavras do arcebispo D. José da Costa. o escolheu e tomou por primeiro e principal de todos seus discípulos. onde jacia enterrado de seiscentos anos um santo profeta. que foi a pedra fundamental depois do sagrado Apóstolo da Igreja de Portugal. o qual conheceu ao mesmo Pedro ressuscitado e escreveu o caso quase pelas mesmas palavras. Os filhos desta Igreja e herdeiros desta Fé foram os que dali a tantos anos dominaram com os estandartes dela as cidades e regiões do Austro. mas eu. que são propriissimamente as que correm de uma e outra parte do Oceano Austral. et ejus discipulos. Hic venerat cum duodecim tributus missis a Nabuchodonosore in Hispaniam Hierosolymis duce Nabucho-Cerdan. entre os quais coube Espanha a Sant'Iago.

evangelistae tui portabunt te. que era a obrigação do cargo e administração que tinha de governador da Ordem da Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo.. Os Portugueses foram aqueles cavaleiros a quem Cristo abriu o primeiro caminho pelo mar: Viam fecisti in mari equis tuis. com que por meio da sua cruz triunfou um dia da morte. que El-Rei D. possidebit civitates Austri. tem por assunto o triunfo de Cristo. faziam grande apreço de se armarem nela cavaleiros. a salvação: Et quadrigae tuae salvatio. senão para os salvar. ó Senhor.°. quae est in Hispania. do demônio e do pecado. furioso e indignado. por meio de cuja navegação e pregação sujeitou Cristo à obediência de seu império tantas gentes de ambos os mundos. E no v. E esperamos que seja novo complemento dela o domínio da terra indômita. Assim se cumpriu nos Portugueses a profecia de Abdias: Transmigratio. E mais abaixo no mesmo cap. soberbo. Henrique) outra cousa muito mais eficaz. e esta foi a primeira vitória de Cristo.. geralmente chamada Terra Austral.° . e os méritos de seu trabalho ficassem metidos na Ordem e Cavalaria de Cristo que ele governava. com as mãos levantadas o adorariam e reconheceriam por Senhor: Altitudo manus suas levavit. de que usou o Profeta (deixando à parte haver sido esta empresa dos primeiros descobrimentos e conquistas dos Portugueses). e que a guerra que com esta cavalaria havia de fazer. Os Portugueses. O mesmo Profeta o disse assim: Numquid in mari indignatio tua?» «Porventura.. e verdadeiramente não se podia dizer cousa mais apropriada aos Portugueses. Década I. para esta guerra dos Infiéis ordenou e novamente constituiu. hoc est. seu tresavo. senão ainda os estrangeiros. ou eles o sujeitaram também a Cristo. que também foi naval. 15. Isto quer dizer 0 Profeta no v.°: Viam fecisti in mari equis tuis. não era para matar os homens. há-de ser eterna a vossa indignação no mar?» E responde a esta sua pergunta. in luto aquarum multarum. 8.] que não só os mesmos Portugueses. e depois em vários tempos foi triunfando da idolatria e da gentilidade. E a primeira empresa e vitória desta cavalaria de Cristo foi a sujeição do mesmo mar bravo. como lemos que o fizeram alguns de Alemanha e Dinamarca. Que abriu Cristo caminho pelo mar à sua cavalaria. e estas são as terras de que no comento deste texto faz menção Cornélio: Americam. com que a despesa deste caso fosse própria dele e não taxada por outrem.) e que as suas alturas ou profundidades. Africam. A parte marítima deste triunfo. (Ibid. AEthiopiam. por si mesma e na opinião do Mundo tem [esta] cavalaria [tanto valimento. aqueles cavaleiros que pisaram as ondas do mar. que o mar submeteria suas ondas: Gurges aquarum transiit: que os abismos confessariam a potência de Cristo as vozes: Dedit abyssus vocem suam. e último deste Profeta. para que o reconhecesse e adorasse. que ou Cristo lhe sujeitou a eles. I. Dinis. do que eram os reinos de Fez e Marrocos. que é o 2° do liv. O Cântico de Habacuc. aquelas carroças que levavam pelo mar a Fé.a: Assentou em mudar esta conquista para outras partes mais remotas de Espanha. e salvando-os. que quero pôr aqui por suas próprias palavras): Mas ainda foi acerca dele (fala do Infante D. para que pisasse as ondas. Faz muito ao caso advertir o que escreve o nosso insigne historiador destas conquistas. conforme a disposição da sua providência. Mas para que se veja o grande mistério desta metáfora de cavalaria de Cristo. pertence principalmente aos Portugueses. como os cavalos pisam o lodo da terra: In Iuto aquarum multarum.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Sabá chamou Cristo Regina Austri.ascendes super equos tuos: et quadrigae tuae salvatio. Brasilicam. que é a matéria de todo o III cap. e as naus dos Portugueses. de cujo 94 . triunfar deles: Equitatio tua salus. diz Santo Agostinho. e este da sua cavalaria o primeiro triunfo.

senão a propriedade do caso. nem que maior nem mais justo temor deva causar aos que bem ponderarem esta obra. e que tanto adiantou em nossas Conquistas a glória de sua empresa. cognosceris. e para que os Portugueses conheçam quanto devem a Deus. e para que se não admirem quando lhes dissermos que os tem escolhido para outras maiores. não com outras despesas. diz o Profeta que faria Deus que se descobrisse e conhecesse o que até então estava oculto: In medio annorum notum facies. Francisco Xavier. por certo. De sorte que dizer o Profeta que Cristo havia de abrir caminho no mar à sua cavalaria. em fim se lembraria de sua misericórdia: Cum iratus fueris. traduzindo juntamente e explicando leram: Cum appropinquaverint anni.e Marcelo Mastrilli. para levar a salvação às terras e gentes que ela descobriu e conquistou. da Ordem dos Cavaleiros de Cristo de Portugal. In medio annorum notum facies: cum iratus fueris. E porque o maior ministro do Evangelho que se embarcou nas carroças desta cavalaria. que mais assombrasse e fizesse pasmar aos homens que o descobrimento do mesmo Mundo que tantos mil anos tinha estado incógnito e ignorado. Porque não houve obra de Deus. pois verdadeiramente esta admirável empresa foi obra. com que deu princípio a este cântico triunfal das vitórias de Cristo: Domine. Mas no meio desses compridíssimos anos. e a verdade da história e cumprimento da profecia. depois do princípio e criação do Mundo. para que a fosse dar por Cristo no Japão. não havendo outra entre todas as da Cristandade. misericordiae recordaberis. não pode haver melhor testemunho que o proêmio do mesmo Profeta. é cousa memorável e muito digna de se referir neste lugar. opus tuum in medio annoram vivifica illud. «Quando chegarem os anos determinados por vossa providência. como insigne cavaleiro desta santa cavalaria. in medio annorum vivifica illud. acrescentando por modo de glosa no mesmo texto: Consideravi opera tua. (começa ele) audivi auditionem tuam et timui. nem de que sobre os dotes da glória se vestisse o seu manto e a sua cruz. e que então tornaria o Senhor a vivificar e ressuscitar a sua obra: Opus tuum. que se possa gloriar de ter tão ilustre cavaleiro.:>> E este novo conhecimento que Deus deu àquelas nações por meio dos 95 . Quando Deus revelou ao Profeta e quando ouviu de sua boca o que havia de fazer aos vindouros. tanto mundo e tantas almas conquistou para o mesmo Céu. não de outro príncipe. diz que ficou cheio de temor e assombro ( assim o interpretaram os Setenta . se conta uma visão em que o mesmo santo apóstolo apareceu vestido com o manto branco da Ordem de Cristo e com cruz vermelha no peito. que a consideração dos ocultos juízos de Deus. com que por tantos séculos permitiu que tão grande parte do Mundo. senão com as rendas e tesouros da mesma cavalaria e serviços e merecimentos próprios dela. onde padeceu glorioso martírio. Francisco Xavier restituiu milagrosamente a vida. et expavi). Singular prerrogativa. senão de um que era propriamente administrador e governador da Ordem da Cavalaria de Cristo. que também ele foi cavaleiro da mesma Ordem. misericordiae recordaberis. Domine. cujos primeiros trabalhos foram os da navegação da costa de África e pregação da Fé em Moçambique. e que a empresa havia de ser a salvação das almas. não só tem a formosura da metáfora. então sereis conhecido. a quem S. tantas gentes e tanta s almas vivessem nas trevas da infidelidade. sem lhes amanhecerem as luzes da Fé. foi o grande Apóstolo da Índia S. Na História do P. Para confirmação de tudo isto. mas todo este favor do Céu merece uma cavalaria que tanto mar. tão breve noite para os corpos e tão comprida noite para as almas. Os Setenta. e feita. pelos escolher para instrumentos de obras tão admiráveis.Anexo:Imprimir/ História do Futuro tesouro podia pretender. e que tendo durado tantos séculos sua ira contra aquelas gentes idólatras.

isto é. Castro e Cornélio das nações que estão além do Tigres e do Eufrates. Nam AEthiopes qui ab ortu Solis sunt. Digo que de uma e outra terra.Ásia tinham o cabelo solto e corredio e os da África crespo e retorcido. Heródoto e outros. As palavras de Heródoto são estas: Hi AEthiopes. que pregassem a mesma Cruz. chamada por isso Etiópia. e no mesmo tempo chegaram os Portugueses. III. As quais palavras entendem Árias. ou por ele Deus) inde supplices mei. qui ex Africa. a qual distinção não não só é necessária para o entendimento de muitos lugares das Escrituras. donde era a mulher de Moisés. que verdadeiramente falam das gentes que estão além do rio da Etiópia: Ultra flumina AEthiopiae inde supplices mei. e com o tempo estava em algumas partes amortecida e em outras totalmente morta. e de quanto lhe merece Cristo. sed sono vocis dumtaxat. Lembre-se outra vez Portugal destas obrigações. tornareis a ressuscitar o vosso arco» (que é a sua cruz). dos Chinas. chegariam também de partes remotíssimas do Ocidente outros homens da sua cor. O Profeta Sofonias. e de uma e outra gente se pode entender. senão ainda dos historiadores e poetas antigos. que tinha começado pelos primeiros apóstolos que naquelas mesmas terras a pregaram. Lhes disse e mandou esculpir no pé dela. Tomé por seu apóstolo e Portugal não era de todo cristão. que quando o mar ali chegasse. debaixo do mesmo nome de Etiópia se compreendiam antigamente duas Etiópias: uma oriental. não se pode entender este texto das gentes orientais. dizendo: Suscitans suscitatis arcum. e outra ocidental. Senhor. comendo pouco a pouco a terra. tuum. que de outro modo se não podem bem entender. mas contra esta explicação parece que se opõem as primeiras palavras do texto. e já os Apóstolos plantavam as balizas da fé em seu nome e conheciam e pregavam que ele era o que havia de fazer cristão ao Mundo. e posto de um e outro modo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro nossos apóstolos e pregadores da sua Fé foi tornar a ressuscitar a mesma obra. então famosíssima. Logo. Cumpriu-se pontualmente a profecia. chegou ao lugar sinalado. que por meio das pregações dos Portugueses se haviam de ajoelhar diante dos altares de Cristo e lhe haviam de levar e oferecer seus dons em testemunho de o reconhecerem por seu Deus. censebantur cum Indiis specie nihil admodum a caeteris differentes. por meio de cuja pregação ressuscitaria também a Fé e as vitórias dela naquelas nações. segundo Estrabo. Tomé. que ainda tivesse a S. levantando uma cruz de pedra em lugar distante das praias. quando na cidade de Meliapor. qui sunt ab ortu Solis. Isto quer dizer: Opus tuum vivifica illud: ou. atque capillatura. que são todas aquelas terras que cerca o mar Oceano. S. desde Guiné até o mar Roxo. porque os da . e só se distinguiam uns dos outros no som da voz e no cabelo. crespissimos inter homines habent. na África. E o mesmo profeta mais abaixo se comenta a si mesmo. sempre o oráculo ou elogio deste Profeta nos fica em casa. Igual glória (e não sei se maior de Portugal) a da Índia. não menos que doze léguas. como são hoje os que se conservam com o mesmo nome na África. porque o mar. a mesma Fé e o mesmo Cristo que ele pregava. E a razão é porque. no cap. Assim o profetizou na Índia seu primeiro Apostolo. Éforo. como traslada Símaco: Reviviscere fac ipsum. Japões e outras gentes da Índia menos remotas. que estava na Ásia além do Tigres e Eufrates. 96 . permixtos crines. Por este argumento há outros autores que o entendem do Brasil e da América. segundo o que acima deixamos dito. «Vós. também falou mui particularmente neste glorioso assunto: Ultra flumina AEthiopiae (diz ele. filii dispersorum meorum deferent munus mihi. sub Pharnarzatre. Vatablo. De sorte que também havia Etíopes na Ásia.

diz que viu descer do Céu um anjo forte. que é o mar Oceano. era o rio Eufrates. ut praepararetur via regibus ab ortu Solis: Que «o sexto anjo derramou sua redoma sobre aquele grande rio Eufrates e que secou suas águas. X. no cap. por excelência os Portugueses. Não os nomeou por seu nome este autor. porém quando se ajuntem na história ou narração algumas diferenças que o determinem. insigne professor parisiense das Letras Sagradas. que é a Igreja. falando em geral dos Espanhóis e em particular dos Portugueses. deu o nome de seu pai às terras orientais. para aparelhar o caminho aos reis do Oriente». de que usa indistintamente o original hebreu. referido por Estrabo. (como neste lugar de Sofonias) se pode entender de qualquer das Etiópias. para que pudessem vir à Igreja. Não sou eu nem autor português (como quase todos os que até agora tenho alegado) o que isto digo. filho de Chus e neto de Cham. mas nomeou-os por suas obras. diz S. e outro melhor Eufrates. Donde se segue que quando na Escritura se acha este nome sem outra diferença. João: Et sextus angelus effudit phialam suam in flumen illud magnum Euphraten: et siccovit aquam ejus. E este grande Eufrates é aquele grande mar. João chamasse ao mar Eufrates. pelo qual se abriu caminho aos reis do Oriente. principalmente acompanhado daqueles dois epítetos de alusão a grandeza: Illud magnum Euphatem. o livro. cabeça da Igreja. o Evangelho explicado. não é muito que S. Assim como o Profeta Jeremias chamou ao Eufrates mar. e assim como uns e outros na língua latina se chamam AEthiopes. que nós pode ser expliquemos em outro lugar. 0 diz assim sobre este mesmo lugar do Apocacalipse. Os descendentes deste mesmo Membrot e deste mesmo Chus. e que pôs o pé esquerdo sobre a terra e o direito sobre o mar: Et posuit pedem suum dextrum super mare et sinistrum super terram. que está sobre o mar. 12. são. porque Membrot. do Apocalipse. onde habitou e povoou. Neste basta dizer que tinha na mão um livro aberto: Et habebut in manu sua libellum apertum. Mas debaixo das figuras deste enigma se significava outra melhor Jerusalém. e este impedimento diz S. navegando às regiões apartadas e remotas do nosso hemisfério. O maior impedimento de água que tinham os reis do Oriente para passar a Jerusalém.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Nem faça dúvida a esta distinção a palavra Chus. de modo que se pudesse passar o Eufrates a pé enxuto. senão o doutíssimo Genebrardo. No cap. entre todas as nações do Mundo. que é Roma. sem saírem da terra firme pregaram nela. como diz Éforo. os pregadores apostólicos que levam pelo Mundo ao mesmo Cristo e seu Evangelho. donde nós lemos AEthiopae. e os pés de seu corpo místico. pelo qual os Portugueses (maior façanha e ventura que a do outro Ciro) fizeram passagem a pé enxuto nas suas grandes naus da Índia. e a sua terra Ethiopia. João que se lhes havia tirar. que está sobre a terra. 97 . entre os quais o pé esquerdo. e é o mais honrado nome e de maior estimação que lhes podia dar. cujas insígnias descreve largamente . a quem só pertence a conversão dos reis do Oriente. então se há-de entender determinadamente ou só da Etiópia Oriental ou só da Ocidental. e os que depois passaram à África e a povoaram. como nós fizemos no texto de Isaías ultimamente referido. levam a elas a Fé de Cristo e a luz de seu Evangelho. donde se segue que o pé direito que Cristo pôs sobre o mar para esta gloriosa e evangélica empresa. para levarem nelas a Fé ao Oriente e trazerem tantos reis orientais à obediência e sujeição da Igreja. são aqueles que. levaram consigo o nome que tinham herdado de seu pai e de seu avô. o pé direito. por ser o mais profundo e mais caudaloso da Saia. O mesmo Evangelista Profeta S João. XVI. Este anjo forte (diz Pedro Bulêngero) é Cristo. os que. assim uns e outros na língua hebréia se chamam Chuteos e a sua terra Chus.

vemos que os reinos e regiões muito apartadas de nós. da cegueira e infelicidade em que viviam. Christi Jesu fidem susceperunt. de tal maneira os Índios abraçaram a doutrina cristã e católica. qui populi ad veteres Índias expectant. «Em cumprimento desta profecia (diz Bulêngero. dos sítios. adoram e servem. se têm passado à verdadeira religião. mas nem ainda presumidas ou imaginadas deles. pela indústria dos padres da Companhia de Jesus. se não sabiam que havia Japões? Como dos Chinas. permultique proceres et optimates sub anno Domini I564. em que entraram os príncipes e reis e muitos grandes senhores. seus exercícios e seus costumes. como podiam explicar as profecias dos antípodas? Se criam que a imensidade do mar Oceano não era navegável e tinham este pensamento por absurdo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro explicando-se com as palavras seguintes: Istud nostra memoria factum videmus. que adoravam nos ídolos aos demônios. nem suas histórias? Se declaram as terras pelos sítios. pelas minas e seus metais. se não sabiam que havia Peru nem Chile? Como haviam de interpretar os Profetas das ilhas desertas ou povoadas do Oceano. que as cidades se batizaram. e destas terras. pelos frutos. costumes. e totalmente abrasada e inabitável.000. deinde multa Indorum insulae et regiones christianam. e em outras muitas ilhas e terras. deixando o culto da idolatria no ano de I564. dos costumes. e destes mares. porque os Chinas. adorar e servir. depois que por meio da navegação do mar Oceano se quebrou o fabuloso encantamento dos negados antípodas e se descobriram tantas terras e gentes. das gentes. et integrae civitates sacro sunt ablutae baptismate. das terras. com que por meio dos pregadores de Cristo o haviam finalmente de conhecer. alegando a Súrio). propriedade. se não sabiam que havia China? Se os Profetas nas figuras enigmáticas dos seus oráculos se declaram pela natureza. Agora só pergunto: Como era possível que aqueles antigos e antiquíssimos autores explicassem neste sentido aos Profetas? Ou como podiam entender nem perceber que destas gentes. pelas árvores. falavam os seus oráculos e profecias? Se criam tão firme e assentadamente que não havia nem podia haver antípodas. das navegações. explicados por autores que escreveram de cem anos a esta parte. conhecem. receberam a Fé de Cristo em número de 8. suas propriedades. et infideles sunt. que pertencem às antigas Índias. pelos rios. Ali veremos as admiráveis propriedades e miudíssimas circunstâncias com que os mesmos Profetas falaram dos mares.>> Tão facilmente triunfa Cristo pela voz e espada dos Portugueses. nem lhes havia de vir ao pensamento que os Profetas falavam dos Americanos. das minas. se não sabiam que havia no Mundo tais ilhas? Como dos Etíopes ocidentais. com tanta glória da Igreja. e sobre tudo da Fé e luz do Evangelho. se não sabiam que havia América? Como dos Brasis. opera patrum Societatis nominis Jesu ad Christi religionem traducta sunt. catholicamque amplexerunt doctrinam. como haviam de interpretar as profecias dos habitadores da zona tórrida? Como haviam de cuidar. das ilhas. quae quidem regna a nobis longe dissita el incognitae regiones teterrimo daemonum cultui additae sunt. dos frutos. ad octo millia primum) et in his reges et princites. com o pé direito no mar e o livro na mão direita! No capítulo seguinte se verão muitos lugares de vários Profetas. Sinenses enim. não só incógnitas aos Antigos. como haviam de entender as profecias destas navegações e destes mares? Se queriam que a zona tórrida era um perpétuo incêndio. como haviam de vir em conhecimento dessas gentes e desses reinos os que não podiam saber sua natureza. se não havia Brasil? Como dos Peruanos e Chiles. como hoje. como podiam conhecer nem atinar com as terras os que não 98 . exercícios e histórias das gentes e reinos de que falam. dos rios. e são infiéis e gentios. (relicto daemonum cultu. das árvores. se não sabiam que havia tal Etiópia? Como dos Japões.

in insulis maris nomen Domini. Paulo que acomodou Deus e repartiu os séculos conforme os decretos da sua palavra. não quis o mesmo Deus que eles então a tivessem. E logo acrescentou: Secretum meum mihi. para que cousas invisíveis se fizessem visíveis: Fide intelligimus aptata esse saecula verbo Dei. e que depois chegasse um século em que se descobrissem e fossem visíveis.in doctrinis glorificate Dominum. secretum meum mihi: «Este segredo é só para mim. e mais o segredo delas. mas esta revelação. se não acerta mais que em comum e individualmente com algumas das terras e gentes de que os profetas falaram. porque era disposição mui assentada da sua providência que estas cousas se não soubessem. porque sabiam a geografia do seu mundo e não podiam saber nem adivinhar a do nosso. e assim como. de tais rios. Destas terras ultramarinas. e estivessem ocultas até àqueles tempos medidos e taxados por ele. e que a mesma Providência tinha decretado que se não soubessem por revelação? LAUS DEO 99 . depois do Mundo estar tão descoberto e conhecido. que seriam na confusão escuríssima da Antigüidade. este segredo é só para mim. é obrigação e força que digamos ou suponhamos dos teólogos antigos. nem menos decoro de sua erudição e grande sabedoria. esta luz e posto que fossem varões santíssimos e tão favorecidos de Deus. sendo ele mestre em Teologia: La falta de Geographia v la de otras artes liberales es causa que los teologos non atinem con el sentido de la divina Escritura. romana e espanhola. diz assim dos teólogos. falava Isaías. ut ex invisibilibus.. de tais árvores. Só por nova revelação e luz sobrenatural podiam conhecer os autores daquele tempo o que nós tão fácil e naturalmente conhecemos hoje. por onde não é muito que tanta parte do Mundo. nem de tais frutos? E se ainda hoje. e Deus não será senhor de reservar os seus. E se o conselho de Deus foi que o entendimento ou de todas ou de muitas cousas que ali contou o Profeta. assim se entenderam e descobriram também os segredos e mistérios de suas profecias. corrida esta cortina. quando disse no cap. e as gentes que o habitavam. depois de descobertas e conhecidas estas terras e estas gentes. que para eles fossem ocultas. sendo logo certo que estes segredos da Providência Divina se não podiam alcançar por ciência humana.Anexo:Imprimir/ História do Futuro tinham notícia de tais sítios. tem por título Pro ignorantiis. antes as contrárias delas se tinham por averiguadas e certas? Frei João de la Puente. que também trata destes novos descobrimentos ou triunfos da Fé e da conversão destas gentes. se ignorasse.» E se na mesma profecia estavam profetizadas as cousas.. se descobriram e manifestaram as terras e gentes de que tinham falado os Profetas. E isto que se não pode dizer dos teólogos do nosso tempo sem grande nota de sua ciência e diligência. encobertas e incógnitas. Diz o Apóstolo S. ainda por falta de notícias mais particulares e miúdas. de tais minas. XXIV: . como podia ser que contra a verdade infalível da profecia soubessem os Antigos deste segredo. estivessem ignoradas e invisíveis por tantos séculos. antes de chegar o tempo em que Deus tinha determinado de o revelar? O cântico do profeta Habacuc. incógnitas ou ignoradas? Podem os homens ocultar os seus segredos. por doutíssimos e sapientíssimos que fossem. Dei Israel. trabalhando por explicar de Espanha certo lugar de Isaías. naquele seu erudito livro da Conveniência das duas monarquias. sem agravo. que agravos ou descréditos é ou pode ser dos antigos sábios. como verdadeiramente eram. visibilia fiant. em que nenhuma destas cousas se sabia nem se imaginava. em que tinha decretado que se soubessem e descobrissem. e se terem escrito tantos livros de sua história natural e política.

e dos que em continuada sucessão se lhe foram seguindo até o tempo presente. posto que arruinada e combatida. o do Persa. Capítulo II) por Padre Antônio Vieira Correndo os anos de 1860 da criação do Mundo. sem fazer caso de muitos e grandes impérios que floresceram e haviam de florescer em vários tempos e lugares do Mundo. senão fundado e tirado das Escrituras divinas. Não durou. Capítulo I) por Padre Antônio Vieira Entrando a tratar do Quinto Império do Mundo (grande assunto deste nosso pequeno trabalho) para que procedamos com a distinção e clareza tão necessária em toda a história e muito mais neste gênero. o da Etiópia. História do Futuro (Volume II. os quais em espaço quase de quatro mil anos têm sido com este quatro. Belo. 3800 antes do presente de 1664 em que isto escrevemos. e sendo tantos mais os de nações bárbaras e políticas que em diversos tempos do Mundo se têm levantado e caído. o vastíssimo Império da China. pois pode ser mais breve a vida de um império que a de . de que foi o último Sardanapalo. Começou este Império dos Gregos depois pelos anos do Mundo 3672. a que depois com nome menos odioso chamaram Império. na África. tão estendido. na Europa. Esta sucessão e seu princípio foi desta maneira. com razão se deve duvidar e desejar saber a causa pôr que este nosso Império que prometemos recebe o numero de Quinto. se sustenta a grandeza. em que sem o nome. em respeito ou suposição dos quais este novo de que falamos se chama Quinto. foi o primeiro que ensinou ao Mundo e introduziu nele a tirania. entrando neste número Semearmos. a primeira cousa que se oferece para averiguar e saber é que impérios tenham sido ou hajam de ser os outros quatro. segundo Justiço. castigo tão merecido a sua soberba como necessário à propagação do gênero humano e à o mesma grandeza que aspiravam. o de Alemanha. em que sem a grandeza se continua o nome. conhecemos hoje nele muito maior número de impérios. 37 imperadores. tão unido. o do Mogor. Ao que respondemos breve e facilmente que este modo de contar não é nosso nem de algum outro historiador ou autor humano. contou por todos catorze imperadores. se o considerarmos como monarquia. Começou em Ciro. que foi o dos Gregos. cuja história profética. Na Ásia. acabou em Dario. e quais sejam em ordem os outros quatro que lhe deram este lugar ou este nome.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 100 História do Futuro (Volume II. e em todas estas três partes do Mundo o violento Império dos Turcos. durou. homem. filho do gigante Nembrot (posto que não faltam graves autores que fazem destes dois nomes o mesmo homem). mais que duzentos e trinta anos. teve. só trata do primeiro que se começou e levantou nele. Alexandre o começou e acabou em Alexandre. reduzindo a sujeição e obediência política a liberdade natural com que todos até aquele tempo nasciam. e o de Espanha. conforme Eusébio.um. depois que a confusão das línguas na torre de Babel dividiu seus fabricantes em diversas partes da terra. pois ainda nesta nossa idade tantos impérios. e pondo somente os olhos no mundo presente. Tantos anos tardou a ambição em romper o respeito àquela lei com que nos fez iguais a todas a natureza. perto de mil e trezentos anos. . Ao império dos Assírios sucedeu o dos Persas pelos anos da criação 3444. ainda durou menos. tão poderoso e formidável. Porque sem recorrer à memória dos tempos passados. Havendo. O terceiro Império. o dos Tártaros. para que vejam e conheçam as coroas quanto é grande a sua mortalidade. Foi este império de Belo o dos Assírios ou Babilônios.

Gregos e Romanos (como logo veremos) se deve chamar com a mesma razão e propriedade o Quinto Império do Mundo. de que foi o último outro Constantino de muito diferente fortuna. depois daquela divisão. e desde este tempo começaram as águias romanas a aparecer coroadas com duas cabeças. e o das Gregos se chama o terceiro. que hoje reina. Autores que dizem o mesmo. ao Pontífice passou o assento do Império . e. com sucessão de 35 imperadores até o grande Constantino. em que contou oitenta e quatro imperadores. cujo Império começou com este nome em Júlio César. o Grego ao Persa e o Persa ao Assírio. nos quais o Império. fundando nova corte em Constantinopla. porque. o qual. o qual se há-de seguir ao Império Romano na mesma forma de sucessão em que o Romano se seguiu ao Grego. experimentou nela grandes variedades. quando não fora tão necessária para o ponto em que estamos. e com grande valor e zelo da Cristandade está resistindo-se (queira o Céu que seja com melhor ventura!) a outro Maomete. porque sucedeu ao dos Assírios. ficando Roma como cabeça da Igreja. chamamos Império Quinto ao novo e futuro que mostrará o discurso desta nossa História. que vão citadas . e este (que foi o que mais permaneceu) continuou com desigual fortuna trezentos anos. se passou o governo a exarcas. dividiu o Império. trinta anos antes do nascimento de Cristo. porque sucedeu ao dos Assírios e dos Persas. Sustentou-se o Império Oriental por espaço de quatro mil anos. ficando fora da mesma ordem. sendo governado alguns anos por imperador com igual jurdição e majestade. e o dos Romanos se chama o quarto. em Império Oriental e Ocidental. passados e presentes. pois.a Alemanha. que eram ministros e como lugar-tenentes dos imperadores orientais. que começou no primeiro e há-de acabar no Quinto (que será também o último). o da Macedônia. o Império Romano com toda a inteireza de sua monarquia 400 anos.perdeu a vida e a cidade e sepultou consigo todo o Império. e o não pusemos no corpo da história por não embaraçar o desenho dela. posto que em matéria tão 101 . dentro em Constantinopla . Havia já neste tempo setecentos anos que Rômulo levantara junto ao rio Tibre aquelas primeiras choupanas que depois se chamaram Roma. se dividiu em três reinos: o da Ásia. até que. sempre era muito conveniente dar-se logo neste princípio. tem contado noventa imperadores até Fernando III. sendo sitiado e vencido por Maomete II. porque. como também nós a não fazemos. o do Egito. porque há-de suceder ao dos Assírios. O do Ocidente. Sucedeu esta mudança pelos anos de Cristo de 810.Anexo:Imprimir/ História do Futuro conservou-se unido somente oito. Durou. Persas. ao dos Persas e ao dos Gregos. assim este nosso Império. que foi o primeiro do Mundo. eleito Carlos Magno em imperador do Ocidente. antes deles acabados. diminuindo sempre em grandeza e majestade. por isso as Escrituras Sagradas não fazem menção nem memória alguma deles. por muitos que hajam sido. e porque todos os outros Impérios. para melhor entendimento de tudo o que se há-de dizer adiante. Nem eles. em tempo o Papa Lúcio TII. E assim como o Império dos Persas se chama o segundo Império. tiradas de diferentes lugares do Texto Sagrado.à margem. Tudo o que até aqui fica dito são suposições certas e sem dúvida. Em respeito pois e suposição destes quatro impérios. Estes são em breve suma os quatro Impérios que desde o primeiro que houve no Mundo se foram continuando e sucedendo até o presente. porque sucedeu ao dos Assírios. podem acrescentar número ou lagar ao novo Império com que mude ou exceda o que lhe damos de Quinto. até que. por grandes e poderosos que fossem. cuja notícia. o ajuntou Marco Antônio à grandeza romana. para melhor governo. governado e não defendido pela celebrada Cleópatra. ficaram fora da ordem desta sucessão.

sendo gentio. mas que adivinhar qual houvesse sido o sonho era segredo impossível de alcançar aos homens e reservado somente à sabedoria dos deuses. assim como outros príncipes que têm fé e desmerecem por sua negligência e descuido até o conhecimento natural dos presentes. mas porque o fez Deus particular profeta dos reinos e das monarquias. mas totalmente se esquecia quais foram. onde fora levado com El-Rei Joaquim no primeiro cativeiro ou transmigração dos Hebreus. Capítulo I: Mostra-se a Quinta Monarquia com a profecia de Daniel) por Padre Antônio Vieira 102 Já dissemos que os futuros livros ou contingentes (qual é o Império que prometemos) só são manifestos a Deus e a quem os quer revelar.que também entravam no número dos condenados. E como os tristes sábios respondessem outra vez que não sabiam nem podiam satisfazer ao rei no que deles queria. o sucesso de muitas cousas futuras. entre os quais. No ano antes de Redenção do Mundo 450. se o rei lhes manifestasse o que sonhara. os magos. História do Futuro (Volume II. Será pois a primeira pedra deste edifício uma grande profecia de Daniel. não . com toda a demonstração e certeza. Responderam os sábios que. em prêmio ou conseqüência deste cuidado mereceu que Deus lhe revelasse. mandou logo chamar os maiores sábios dos seus reinos. que eram os que pela observação das estrelas e outras professavam a ciência das cousas futuras. E assim. e somente lhes haviam de dar crédito no segundo e mais dificultoso. antes os argüiu com ela de falsos. Assim. devemos recorrer principalmente aos que a Fé nos ensina que foram verdadeiros profetas. Não se aquietou Nabuco com esta resposta dos sábios. Livro I. e tão arriscado não satisfazer aos reis até no impossível! Achava-se neste tempo em Babilônia Daniel. lhes declarou por si mesmo tudo o que lhe tinha sucedido. e mandou-lhes seriamente que não só lhe haviam de dizer logo a significação do sonho. E assim o faremos agora. enganadores e indignos de crédito. como também deixamos dito. o que resta e importa mostrar é que haja de haver sem dúvida este novo e prometido Império a que chamamos Quinto. o Império dos Assírios. ele e seus três companheiros. alegaremos nos capítulos seguintes. Viu pois Nabuco em sonhos uma visão admirável e portentosa. porque. grandes e prenhes de mistérios. tem o primeiro lugar Daniel. Nabucodonosor. . um dos últimos reis imperadores de Babilônia. Falaram assim. mandou que os levassem de sua presença e que neles e em todos os professores das mesmas artes se executasse logo a sentença de morte. porque todos eram gentios. se no primeiro e mais fácil eles mesmos confessavam sua ignorância? Que se resolvessem a dizer logo uma e outra cousa.Anexo:Imprimir/ História do Futuro averiguada e sem controvérsia não são necessários autores.pelo espírito de profecia que foi tão superiormente ilustrado. porque tinham . senão que ele e sus famílias morreriam todas. e depois de trazidos à sua presença. porque isso era a sua profissão e o mais a que se estendia a ciência humana. se não podiam saber o sonho. porque esta é a base e fundamento de toda a nossa História e assunto particular deste I Livro. com cuja apreensão e assombro acordou de tal maneira perturbado e confuso. Tão violentos são os apetites do poder supremo. os aríolos. Oro a Deus. como fica dito. os caldeus. estimulado igualmente do desejo e do temor que a mesma lembrança lhe causava. desvelado uma noite com os pensamentos da sua monarquia. para fundarmos bem a esperança deste grande futuro. que era.cousas prodigiosas. como haviam de conhecer a significação dos futuros. que somente se lembrava que acabava de sonha. irado grandemente Nabuco. senão também o que tinha sonhado. que era cousa passada. eles se obrigavam a declarar a significação de tudo.

em que Nabucodonosor naquele tempo reinava. rodeados de rústicos e tumulto popular. não por arte ou ciência minha. . de estatura alta e sublime e de aspecto terrível e temeroso. Rex. nem o lugar onde tivessem estado. o ferro. pelas palavras com que Daniel a referiu. Seguiu-se à história do sonho a interpretação dele. «Começaste a cuidar. a quem ele servia e que fora o autor daquele sonho. Parecia-te que vias defronte de ti uma estátua grande. Estando assim suspenso no que vias. e quando já a multidão dos sábios. diz Daniel. porém a pedra que tinha derrubado a estátua cresceu. cortada dele sem mãos. faz parar a execução Daniel. o que havia de suceder depois do tempo presente. as quais porventura puderam parecer menos necessárias ao nosso argumento. como deixamos notado. ocupou e encheu toda a terra». mas se podem convencer com elas por discurso até os mesmos Gentios. e porque este Império. e depois com igual admiração e espanto de todos lhe foi explicando parte por parte os mistérios e segredos futuros que tão prodigiosa visão em si encerrava. Oferece-se a declarar o sonho. te mostrou naquela visão tudo o que está para vir nos tempos futuros. se não por revelação sua. cogitare coepisti in strato tuo quid esset futurum post hoec. viste mais que se arrancava uma pedra de um monte. ó Rei. foi o primeiro e o princípio de todos os Impérios.Anexo:Imprimir/ História do Futuro estudado. mas nós as quisemos resumir brevemente aqui. as ciências de Caldeia. para crédito natural da mesma profecia. depois de confessar a insuficiência sua e de todo o saber humano. de que nós diremos agora somente o que pertencer ao ponto em que estamos. o podia revelar e a significação dele. A cabeça de ouro significava o Império dos Assírios. pois não só nos obrigam a que a creiamos por fé os que somos cristãos. lembrando-se outra vez de tudo pela mesma ordem com aquela espécie de memória a que os filósofos chamam reminiscência. por isso estava representado na cabeça. deitado no teu leito. e o Deus que só pode revelar os mistérios e segredos ocultos. et qui revelat misteria. a qual Nabuco de novo ia ouvindo e reconhecendo. que é o princípio do corpo. videbas et ecce quasi statua una grandis: statua illa magna et statura sublimis stabat contra te et intuitus ejus erat terribilis. os pés de ferro e de barro. e q. o peito e os braços de prata. dos joelhos de ferro. e fazendo-se um grande monte. folhe revelado pelo Céu o sonho e a interpretação dele. e todo este aparato de circunstâncias com o Texto Sagrado descreve o sucesso dela. 103 . o ouro. usque ad implevit universam terram. Este é o prólogo da primeira profecia de Daniel. Até aqui a relação do sonho. e nem aqueles metais apareceram mais. começavam a caminhar para o lugar do suplício. Tu. e se converteram em pó e cinza. a prata. etc. pede que o levem a Nabucodonosor. por mandado do mesmo rei. Então se desfizeram juntamente o barro. Hoc est somnium. A história do sonho. dando nos pés da estátua. e os diferentes metais de que era composta as mudanças que o mesmo Império havia de ter em diferentes tempos e para diferentes nações. o ventre até os joelhos de bronze. que é o primeiro entre todos os metais. ostendit tibi que ventura sunt. e no ouro. e mostrar como só o Deus verdadeiro. que foi levada dos ventos. e posto em sua presença e na dos maiores príncipes de Babilônia que o acompanhavam. A cabeça desta está tua era de ouro. o bronze. Rex. a derrubava. Disse pois Daniel que aquela grande estátua significava a sucessão do Império do Mundo. reservando o de mais (que é muito) para seus lugares. é a seguinte: Tu. primeiramente com assombro e pasmo do rei lhe contou muito miudamente por sua ordem a história do que tinha sonhado. e o que eu agora te direi.

assim como o ventre se segue depois do peito. um em Roma outro em Constantinopla. assim o Império Romano teve sobre si e em si o peso e grandeza de todos os outros impérios que nele se uniram e ajuntaram. e consta pela experiência e pelo testemunho . desfazer. sinalando-os nomeadamente por primeiro. e o mesmo Império dos Persas. significavam dez reinos. sujeitar e dominar todos os outros impérios.de todas as histórias. vencidos estes por Ciro. sem haver algum que lhe possa resistir. corta e doma os metais. significava o Império dos Romanos. e que se seguiu a eles. significava o Império dos Gregos. Mas não parava aqui a propriedade da semelhança. aprovado e seguido por todos os Padres e expositores deste lugar. quomodo ferrum comminuit et domat omnia.] et regnum erit velut ferrum.. que foi e é o quarto Império. assim como o ferro lima. E quadra maravilhosamente no Império Romano a figura das duas pernas e pés da estátua em que foi representado. em que se dividiam. na divisão de uma e outra perna da estátua se representava a divisão do Império Romano nos dois impérios. consta que o mesmo Império que primeiro foi dos Assírios. ou se segue imediatamente dela. diz particularmente Daniel que foi porque. na África e na Ásia possui o Turco. porque. recebido. que foi o segundo depois dos Assírios. que foi o terceiro depois dos Persas e se seguiu depois deles. ainda que Daniel na sua explicação do sonho não nomeou as três nações de Persas. ficaram verdadeiramente sendo estas duas partes do Império Romano como duas colunas naturais de ferro. com a qual divisão. passou aos Gregos. senão também das sagradas e divinas. na sua última declinação. e o mesmo Império dos Gregos. que é o terceiro metal. e assim como as pernas e pés são a última parte do corpo humano.retalhos do Império Romano. vencidos estes por vários capitães de Roma. assim os dez dedos. Assim como. sic comminuet et conteret omnia hoec. como 104 . Et regnum quartum erit velut ferrum. Gregos e Romanos. assim como o peito e braços se seguem à cabeça. e as partes ou membros de que aquele vastíssimo corpo na sua maior grandeza e potência se compunha. são umas divisões ou . que sucedeu aos três primeiros. passou e se incorporou no Império Romano. et regnum tertium aliud oereum [. não só porque. E este é o verdadeiro. por o dizer com mais propriedade e certeza. em que a grandeza do mesmo Império Romano. pondo um pé no Oriente outro no Ocidente. e tudo o que na Europa. em que não há discrepância nem dúvida alguma. que é o segundo metal. não só humanas. que é o quarto metal. segundo e terceiro reino: Et post te consurget regnum aliud minus te argenteum. como acima vimos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A prata. O bronze. foi causa de que o Império Romano se dividisse em dois impérios ou duas partes iguais do mesmo. restituindo-se outra vez a sua primeira liberdade e soberania. se havia de dividir. passou aos Persas. vencidos estes por Alexandre. sobre as quais toda a máquina daquele portentoso colosso se sustentava. Tudo o que até aqui fica dito é de fé. A razão ou mistério por que o Império Romano se representou no ferro. que sucessivamente se haviam de continuar uns aos outros.. Para cuja inteligência se deve notar que tudo o que hoje possuem os príncipes cristãos na Europa. mas porque o mesmo peso e grandeza. certo e indubitável sentido de interpretação de Daniel. as quais lhe foram tirando as mesmas nações que ele tinha sujeitado. O ferro finalmente. assim este é e há-de ser o último Império dos que naquela estátua se representavam. bate. assim como os pés da estátua sustentavam e tinham sobre si o peso e grandeza de toda ela. assim o Império Romano e o poder invencível de suas armas havia de abater. que os três reinos e impérios que sucessivamente se seguiram ao dos Assírios foram o dos Persas. o dos Gregos e o dos Romanos: ou. uns maiores outros menores. significava o Império dos Persas. disse porém expressamente que os três metais significavam três reinos.

outros menores. em outra profecia. essa mesma é a propriedade dos dedos. Castela França.Anexo:Imprimir/ História do Futuro hoje estão. E posto que Daniel nesta profecia não declara com tanta miudeza que a divisão do Império Romano há-de ser . Inglaterra. que outra cousa são ainda. E é tão verdadeira e tão antiga esta interpretação dos dez dedos da estátua. e porque. depois de tanta potência. Assim se dizia e escrevia então. Nas quais . partes sunt Imperii Romani tanquam rami ex una illa Imperii arbore decisi. E a mesma oposição tão bizarra com que as armas do Império nas fronteiras de Alemanha e Hungria. alii minores et imbecilliores futuri sint. sem ter perdido cousa alguma sua grandeza. Polônia e Estado ou Império Turco. Passa finalmente o mesmo Profeta a declarar o mistério ou significação do barro de que os dedos eram compostos em uma parte juntamente com outra de ferro. e o mesmo Imperador em pessoa estão hoje resistindo às invasões do Turco e poder otomano. porém. contra hereges e contra alguns príncipes cristãos. senão partes e 105 . Adjice. que é o estado em que o vemos. Hierônimo em que o Império Romano estava íntegro e potentíssimo. como depois veremos.. o que se tem visto e experimentado no Império Romano. commiscebuntur quidem humano semine. e nesta diz clara e expressamente que os dedos dos pés da estátua significam a divisão do Império: Porro quia vidisti pedum et digitorurn partem testæ figuli et partem ferream: regnum divisum erit. que é. e assim o estamos vendo hoje. sicuti ferrum misceri non potest testæ. pode ser entendida e percebida de todos. quorum alii maiores et potentiores. especifica este número. nas quais em defesa da própria e da Igreja têm pelejado os exércitos imperiais com grande valor. et sub Imperio Turcorum. Moscóvia. se bem contarmos os reinos em que hoje está dividido ou despedaçado o que antigamente foi e se chamava Império Romano.. havia de descair. Adverte. e alcançado de seus inimigos gloriosas vitórias. acharemos pontualmente que são dez reinos: Portugal. e depois dele outros muitos: por decem digitos partim ferreos et partim terreos significatur Romanum Imperium novissime iri in multa regna multosque reges.palavras diz Daniel que o barro dos pés dá estátua significava a debilidade e fraqueza a que o Império Romano. que compreende Alemanha e Itália. disciplina e constância. o Profeta que não eram os dedos totalmente de barro. por agora baste esta divisão que nós pusemos em primeiro lugar por ser mas fácil. Dinamarca. ao pé da letra. como nota neste lugar o mesmo autor alegado. allerum vero constantinopolitanum. quod omnia regna quæ nunc sunt apud Christianos. E se uns reinos destes são maiores. desde o tempo de sua maior declinação a esta parte. principalmente na sua última idade e declinação. porque. porque nesse mesmo estado de sua declinação. Quod autem vidisti ferrum mistum testæ ex luto. debilidade e fraqueza conservaria o Império algumas partes sólidas em que permanecesse a dureza e fortaleza do antigo ferro de que todo antes era formado. senão compostos parte de barro e parte de ferro. com a notícia vu1gar que se tem do Mundo. et parte fictiles: ex parte regnum erit solidum. et ex parte contritum. Ao diante dividiremos estes mesmos dedos da estátua em outras partes que temos por mais proporcionadas. e o mesmo Império Romano. Et digitos pedum ex parte ferreos. uns mais fortes outros menos. comprovando-se a verdade desta interpretação com a experiência e confirmando-se ser este o verdadeiro sentido da profecia com o cumprimento dela. sem reconhecerem sujeição nem obediência alguma ao Império Romano. Suécia.pontualmente em dez partes ou dez reinos. era opinião comum (como diz o mesmo santo) de todos os escritores eclesiásticos que o Império se havia de dividir em dez reinos. e diz assim: . sed non adhærebunt sibi. quod vidisti ferrum mistum testæ ex luto. Ad extremum (diz Perério) ex uno duplex factum est Imperium Romanum: alterum Latinorum seu Occidentis. que já antes dos tempos de S. Græcorum seu Orientis. em tantas ocasiões de guerras e batalhas contra Turcos.

Significam os dedos dos pés da estátua as últimas extremidades do Império Romano e a sua duração. e formaram novos reinos. as . os quais. as mulheres e meninos cativos e transmigrados para a Turquia. corte do Império. e que sangue mais repetidamente unido por multiplicados casamentos que o de Áustria e Castela? E que pessoa real há também em que mais apertadamente estejam atados estes vínculos e mais dobrados todos estes respeitos que na de El-Rei Filipe IV. e ainda o que se derrama. em que o sangue que de uma e outra parte se defende. que ramo há que seja mais próprio daquele tronco. sicuti ferrum misceri non potest testæ. ainda que em si mesmos sejam muito poderosos e fortes.pelo matrimônio se uniram. porque não são os dos pés da estátua ou os dos dedos dos pés.» A tanta miudeza como isto desceu o Profeta. se desuniram e tiraram de sua sujeição. se amarram contra si. e quantas vezes se liaram os mesmos príncipes entre si por meio de recíprocos casamentos. e o mesmo de Castela ou Espanha. vemo-lo todo infelizmente convertido contra Portugal. viu-se no casamento de Pompeu com Júlia. Que casa real há no Mundo mais ligada com a do Império. mas tão resumido sempre. filha de Octávio. primo do Imperador. E porque não cuidasse alguém que a união que se perdeu pela separação das coroas se recuperou e supriu pela conjuração do sangue. o de Inglaterra e da Suécia. cunhado do Imperador.Anexo:Imprimir/ História do Futuro partes muito sólidas daquele mesmo ferro? Mas vindo às partes de barro: estas são (diz Daniel) aquelas províncias e nações que. sed non adhærebunt sibi «mas nem por isso se unirão nem ligarão entre si». em respeito porém do Império de que se apartaram e que tanto desuniram e enfraqueceram com sua separação. em respeito do Império Romano. genro do Imperador? Considere agora o Mundo o estado em que o mesmo Imperador se achou no ano passado e em que se acha no presente. antes. não tenha cada um dos outros príncipes quase iguais partes nele? E que guerras vimos ou sabemos entre estas coroas. não são nem se podem chamar senão partes de barro. E tal é hoje o Reino de França. se gota por gota lhe distinguirem o sangue. e sendo estes muitas vezes eleitos das mesmas famílias que do Império se apartaram. dizendo: Commiscebuntur quidem humano semine «misturar-se-ão e ligar-se-ão no sangue». mas por isso mesmo infelizmente! Se este ferro se unira ao Império contra o 106 . sendo partes do antigo Império Romano. filha de Júlio César. não seja o mesmo? Tão misturado anda o sangue nestas últimas relíquias do Império Romano. e neste mesmo tempo em que o ferro de Espanha se havia de unir todo ao ferro do Império. os templos e pessoas dedicadas ao templo em abomináveis sacrilégios profanados. «bem como o ferro se não pode unir nem ligar com o barro. e no de Marco Antônio com Octávia. quão facilmente se desatam. Mas não são estes exemplos tão antigos os de que fala a profecia de Daniel. os homens barbaramente mortos a sangue-frio. Quantas vezes se intentou na Europa que entre os imperadores e reis da Cristandade se estabelecesse uma liga firme. os campos talados. e verdadeiramente se possam chamar partes de ferro. abrasados e feitos em cinzas. acrescentando em todas estas circunstâncias novas e admiráveis confirmações à verdade da sua Profecia. e por isso o mesmo império tão enfraquecido! Nasceu juntamente com Roma esta fatal desunião contra o respeito do sangue em Rômulo e Remo. se eu me não engano. depois de profanados. no mesmo dia em que isto estou escrevendo se está cumprindo esta profecia. e quase. as cidades destruídas.mesmas mãos que. casando os imperadores nas casas reais dos outros príncipes e os reis na dos imperadores. interpondo-se para isso a autoridade dos Sumos Pontífices. batendo às portas de Praga. com os poderosos exércitos do Turco metidos dentro na Áustria. acode Daniel a esta objeção. e. sem jamais se conseguir a união desejada! Que imperador ou que rei houve na Cristandade há muitos anos que. e.

quoniam tu potuisti aperire hoc sacramentum.as chagas de Cristo! Este é o barro dos pés da estátua. O que fez Nabuco no mesmo tempo. como sucedeu ou há-de suceder aos demais. «Verdadeiramente o Deus que adoras. e este é o sonho que tiveste e esta a verdade de sua interpretação -. quæ ventura sunt postea. nem haver de ser conquistado. e mando que lhe oferecessem incenso e sacrifício. acrescenta imediatamente o que Nabucodonosor lhe fez e o que lhe disse. tinham obrigação de ser mais unidas »— commiscebuntur quidem humano semine »— isto é. «Tanto que o rei acabou de ouvir a Daniel. ó Rei. dissipado ou destruído. desde a cabeça até os pés da estátua. levantam-se os de Alemanha e chamam-se todos a Castela contra Portugal. da Religião. e quanto de maior exemplo para todos os príncipes católicos e de menor escândalo para os hereges e para os mesmos Turcos se o sangue espanhol. Este Império os há-de desfazer e aniquilar a todos.Daniel explica e pondera na mesma fraqueza. e tão valoroso. esta é a queixa que . pois tu. segundo.. que faria se lhe dissesse ser e1e o senhor do 107 . prostrou-se diante dele e adorou-o com o rosto em terra. sem haver de vir jamais por acontecimento algum a domínio ou poder estranho. no campo de Portugal e Castela. et Danielem adoravit. terceiro e quarto império. e ele só há-de permanecer para sempre. o qual. O que lhe disse foi: Vere Deus vester Deus deorum est. continuou e concluiu desta maneira: In diebus autem regnorum illorum etc. significa um novo e quinto Império que o Deus do Céu há-de levantar no Mundo nos últimos dias dos outros quatro. barro há-de ser também no presente. ó Daniel. é o Deus dos deuses e a Senhor dos reis. para que triunfem nas bandeiras otomanas as luas de Mafoma. e da mesma cabeça dela. a quem tão de perto ameaça este golpe! Mas quando todo o poder de Espanha se havia de achar unido contra o Turco em socorro de Alemanha e Itália. depois das palavras ultimamente referidas. Estas são as cousas futuras que Deus te quis mostrar. Quer dizer: aquela pedra. ó Rei. e se conquistem e sejam vencidas nas portuguesas . segue-se agora ver o quinto na mesma história do sonho de Nabuco e na mesma interpretação de Daniel. e o que só conhece e revela as mistérios escondidos aos homens. mas nas últimas extremidades do Império Romano e nos seus maiores apertos e trabalhos não se acharam parentes nem aderentes »— sed non adhærebunt sibi. esta é a fraqueza das extremidades do Império Romano. que viste arrancar e descer do monte. casará o Imperador Fernando com Maria. mas. alumiado por ele. et hostias et incensum præcepit ut sacrificarent ei..» Se isto fez Nabucodonosor a Daniel. casará Filipe IV com Leonor. quando lhe disse que seu império se havia de acabar e passar outros quatro. pudeste declarar este grande segredo e sacramento. mostrando que a principal causa de toda ela é a desunião daquelas partes que por serem mais conjuntas em sangue e parentesco. Temos visto até aqui. porque se desune dele em tal ocasião e se converte contra Portugal. que de uma é outra parte se desperdiça. et revelans mysteria. Depois de contar Daniel toda esta prodigiosa história. que derrubou a estátua e desfez em pó e cinza todo o preço e dureza de seus metais. se empregara com glória imortal de ambas as coroas em defesa da Fé. e ainda antes de dizer estas palavras. filha de Fernando. com lástima e lágrimas da Igreja. é barro. o primeiro. Barro e barro quebradiço. fora ferro.. foi o ano passado e. da Cristandade. refere o mesmo texto em as seguintes: Tunc rex Nabuchodonosor cecidit in faciem suam. despovoam-se os presídios de Itália. et Dominus regnum.et verum est somnium et fidelis interpretatio ejus.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Turco. por mais que se mostre ou ameace ferro. Quanto melhor e mais católica ação fora. irmã de el-Rei Filipe IV.

. Livro I. velando) viu. Mas este ponto ficará para seu tempo e para seu lugar. que a primeira. e depois no das sete espigas gradas e sete falidas. espantosa e muito forte. porque assim se infere por bom discurso. que sucedeu a Nabuco no Império dos Assírios ou Caldeus. et sic dicebant ei: Surge.. primeiro no sonho das paveias dos onze irmãos que adoravam a sua. Assim mostrou antigamente a José suas felicidades. Passados 47 anos depois daquela visão (que foi o ano 54 do último cativeiro de Babilônia). et alas habebat quasi avis. porque assim o lemos nas Escrituras. que ainda hoje dura. que os quatro ventos principais se davam batalha no meio do mar e levantavam uma horrível e furiosa tempestade. e depois no do Sol e nas estrelas que lhe faziam a mesma adoração. História do Futuro (Volume II. significar por repetidas visões o mesmo mistério e por diferentes figuras a mesma revelação. mas o mar assim perturbado e temeroso não era mais que o teatro em que haviam de sair a representar quatro figuras horrendas. e tinha quatro asas como ave e quatro cabeças. em outro sonho e em outras figuras lhe fez segunda vez a mesma representação.». profeta chama bestas grantes: . no sonho de Nabucodonosor e na visão daquela estátua. digo. primeiro no sonho das sete vacas robustas e sete fracas. ou fosse. et sublata est de terra. viu o Profeta Danie1 em uma visão de noite. antes mais portentosa em tudo e mais notável. aspiciebam donec evulsæ sunt ale ejus. «Depois desta saiu a terceira besta semelhante a leopardo. e não levou assim muito tempo. pôs o Profeta nela os olhos. diz o Profeta e por fim de todas entrou «a quarta besta. há-de haver um novo e melhor império que há-de ser o quinto e último. acordado. Assim mostrou a El-Rei Faraó os sete anos da fartura e os outros sete da fome.» Post hæc aspiciebam.Anexo:Imprimir/ História do Futuro quinto? Naquele tempo pagava-se a interpretação de uma profecia infeliz com adorações e sacrifícios hoje pagam-se as interpretações felicíssimas com opróbrios e calúnias. Tinha os dentes de ferro grandes com que comia e despedaçava . porque assim o mostrou o sucesso dos tempos. até que lhe foram tiradas ou arrancadas as asas. comede carnes plurimas. e depois do quarto. «Saiu a segunda besta semelhante a um urso. et tres ordines erant in ore ejus. E assim nos tempos em que agora imos. et quator bestiæ grandes ascendebant de mari diversæ inter se. et ecc alia quasi pardus. Vejam lá os leões se lhes tira Deus as asas para [que] sejam homens! Prima [bestia] quasi leæna et alas habebat aquilæ. depois de revelar Deus a Daniel o secreto do Quinto Império. Esta suposição é de fé. et in dentibus ejus. depois dos três impérios dos Assírios. entre os quais trazia três bocados. Durava ainda a noite. é de experiência. tinha três ordens de dentes. «Saiu a primeira besta semelhante a uma leoa com asas de águia. nada menos misteriosa e cheia de circunstâncias. E logo levantou as mãos da terra e se pôs em pé e ficou em figura de homem. que já passaram. Capítulo II: Segunda profecia de Daniel) por Padre Antônio Vieira 108 Não é cousa nova em Deus quando revela cousas grandes. a que o. horrível. e diziam-lhe que comesse e se fartasse de carne» Et ecce bestia alia similis urso in parte stetit. quatuor super se et quator capita erant in bestia et potestas data est ei. et cor hominis datum est ei. como outros suspeitam. Persas e Gregos. et super pedes quasi homo stetit. reinando já nela Baltasar. firmou-se sobre os pés e parou. como tem a opinião mais comum dos Doutores. e é de razão. que é o romano.et ecce quatuor venti coeli pugnabant in mari magno. O que deste somente quero recolher e deixa assentado é que. (ou fosse dormindo e em sonhos. e foi-lhe dado grande poder.

Daniel via que de entre as dez pontas da quarta besta saía uma ponta menor que as outras. Torna a dizer o Profeta que «ainda durava a noite e viu vir rodeado de nuvens do céu um como filho do homem. grandeza e majestade. et in conspectu ejus obtulerunt eum. o qual acabado. Era mui diferente de todas as outras bestas. «levantou Daniel os olhos ao céu e viu que se armava um tribunal de juízo. Et dedit ei potestatem et honorem et regnum. Esta é pontualmente a relação de todo o sonho ou história enigmática. e tinha na testa dez pontas». A primeira sentença ou execução que saiu deste juízo foi que à primeira. Enquanto tudo isto notava. segunda e terceira besta se tirasse todo o poder. et Antiquus dierum sedit: vestimentum ejus candidum quasi nix. porque nunca jamais lhe será tirado» Aspiciebam ergo in visione noctis. para que todos os povos e todos os tribos. porque «viu o Profeta que fora morta violentamente. Acabou também a quarta besta. como também outras circunstâncias desta mesma visão que expenderemos em seus lugares. rapidusque egrediebatur a facie ejus. cheguei-me a um dos ministros que ali 109 . E ele lhe deu o poder. aquele como arminhos. et perisset cortus ejus. et omnes populi. vieram os livros e abriram-se». cujo cabelo era todo branco. a qual obrou grandes estragos e outras cousas prodigiosas. a matéria do trono era fogo. e todas as línguas o obedeçam e sirvam. Fluvius igneus. para onde o reservamos. descrito ou construído ao pé da letra. a honra e reino de todo o Mundo. tribus et linguæ itsi servient: potestas ejus. Post hæc aspiciebam in visione noctis. Trouxeram-se cadeiras e assentou-se em um alto trono um velho de venerável ancianidade. et traditum esse ad comburendum igni. Os ministros que lhe assistiam de uma e outra parte eram milhares de milhares. Thronus ejus flammæ ignis: rotæ ejus ignis accensus. o qual chegou ao trono do Antigo de Dias e o ofereceram em sua presença. quod non cortumpetur.Anexo:Imprimir/ História do Futuro tudo o que lhe caía da boca ou não queria comer pisava com os pés. representada nele. cheio com grande aparato de horror. e que fora entregue ao fogo para ser queimado». acabaram. Et vidi quoniam interfecta esset bestia. et usque ad Antiquum dierum pervenit. estas como neve. aliarum quoque bestiarum ablata esset potestas. comedens atque comminuens. «Com a qual (diz Daniel) ficou o meu espírito assombrado e cheio de horror. e por isso repetimos as palavras do texto: Aspiciebam donec throni positi sunt. não ficando de tanta grandeza e bravosidade mais cinzas. Este é o aparato daquele tribunal e juízo. potestas æterna quæ non auferetur. et regnum ejus. e que todo aquele grande corpo perecera. et tempora vitæ constituta essent eis usque ad tempus et tempus. como fazemos. eterno também o reino. umas rodas sobre que o trono estava levantado também fogo. quas videram ante eam. et fortis nimis. dentes ferreos habebat magnos. a quem o Profeta chama Antigo dos dias. et decies millies centena millia assistebant ei: judicium sedit. Este seu poder será eterno. E volvendo eu no pensamento que significariam aquelas cousas. et libri aperti sunt. para maior crédito da verdade em tudo o mais que imos referindo. E continuando o que pertence a este. e de fogo também um rio arrebentado que da boca lhe saía. assentaram-se os conselheiros ou juizes assessores. et reliqua pedibus suis conculcans: dissimilis autem erat ceteris bestiis. et ecce bestia Quarta terribilis atque mirabilis. limitando-se a cada uma o tempo determinado de sua duração. cuja narração e mistérios pertencem ao Livro V desta nossa História. et capili capitis ejus quasi lana munda. et cornua decem. Millia millium ministrabant ei. e brancas as roupas de que estava vestido. et ecce cum nubibus coeli quasi filius hominis veniebat.

Da mesma maneira a duração da estátua dos impérios era composta de diferentes idades. Mas. e suprindo com a exposição dos Doutores o que eles calaram. Por isso viu o Rei não quatro estátuas senão uma só estátua. que é o tempo dos Gregos. e assim como da quatro corpos dos quatro impérios se formou um corpo. quæ consurgent de terra. antes que passemos adiante. o qual não há de ter mudança nem variedade. não como quatro corpos ou quatro indivíduos. nem que tempestades se levantaram no mar antes de sair nele as quatro bestas. guerras e perturbações que se costumam experimentar no mesmo Mundo. et obtinebunt regnum usque in sæculum et sæculum sæculorum. referindo a dita interpretação. mas todos os expositores concordam em que o mar significava o Mundo. movimentos. E ele o fez assim e me ensinou a interpretação e mistérios de tudo o que tinha visto». declarando todas as figuras dela pela mesma ordem com que foram saindo. Porque Deus. summatimque perstringens ait. no sonho de Nabucodonosor. exprimindo com grande particularidade e miudeza tudo o que pertence a ele. que é o tempo dos Persas. porque dos quatro impérios já passaram totalmente os três. porém. que é o 110 . também está na última declinação. nos dias daqueles impérios. o dos Persas e o dos Gregos. Não declara Daniel que ventos fossem aqueles.Anexo:Imprimir/ História do Futuro assistiam. Hæ quatuor bestiæ magnæ quator sunt regna. passa em silêncio algumas circunstâncias dela. esta monarquia não é futura se não passada. Até aqui o mesmo Profeta. que e a demonstração do Quinto Império. porque há-de durar para sempre. representou todos os quatro impérios. satisfaremos um argumento que nos fica no texto de Daniel. donde segue que com toda a verdade se pode afirmar que sucederá nos dias daqueles Reinos o que sucede nos dias de qualquer deles. E a razão de passar por aquelas circunstâncias tão brevemente ou foi porque as supôs bastantemente declaradas na visão do segundo capítulo ou sonho de Nabucodonosor que acabamos de explicar. Diz o texto que levantará Deus esta nova monarquia in diebus regnorum illorum. que são o dos Assírios. advertindo o que o Profeta e seu intérprete exprimiram. ou certamente porque as julgou de menos importância ao seu interesse principal. senão como um só corpo ou um só indivíduo. foi idade de prata. que sucessivamente se haviam de levantar no Mundo depois dos quais se havia de seguir outro quinto reino ou império. a quarta. porque não deixemos o inimigo nas costas. que é o tempo dos Assírios foi idade de ouro. foi idade de bronze. sobre a qual nos explicaremos mais particularmente. a segunda. pedindo-lhe me quisesse declarar o verdadeiro sentido delas. Logo. propriedade e verdade que acontece nos dias daquele homem. a terceira. Daniel somnium vidit. nem outro reino algum ou império que lhe suceda. Suscipient autem regnum sancti Dei altissimi. Esta é a interpretação em comum que deu o intérprete do Céu a toda a visão. o qual. que o mesmo intérprete chama Reino dos Santos do Altíssimo. quando nele se levantam novos impérios. que é o Romano. como agora veremos. assim das quatro durações dos quatro impérios se há-de compor uma só duração. e os ventos e tempestades que o alteram as alterações. Exemplo: a vida de um homem compõe-se de muitas idades. et somninm scribens brevi sermone comprehendit. coligido porém tudo imediatamente do mesmo que dizem. Respondo que o Profeta na sua interpretação se acomodou com grande propriedade à figura do enigma que declarava. e o quarto. e o que acontece em qualquer destas idades se diz com toda. sem dúvida para não exceder a brevidade que no princípio deste capítulo tinha prometido. Primeiramente diz Daniel (ou disse a Daniel o seu intérprete) que «aquelas quatro bestas grandes significavam quatro reinos ou quatro impérios. A sua primeira idade.

cada tiro ou parelha de diferentes cores. Até aqui a interpretação do Anjo. mas na frase do mesmo texto chama aos da primeira carroça ruivos. que sucedeu a Nabuco. e destes os mais fortes trataram de discorrer por toda a Terra. pela quarta remendados. os vários saíram contra as do Sul. na qual e na visão do Profeta seguiremos a comum sentença dos Doutores. iam sucedendo as profecias. e que os cavalos negros tinham saído contra as terras do Norte. Vendo estas carroças Zacarias e não entendendo o que significavam. que é este último tempo dos mesmos Romanos. aos da terceira brancos. se servia sempre das armas de todas as nações. pela segunda murzelos. pela terceira pombos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro primeiro Império dos Romanos. ou porque este anjo falasse mais culto que o de Daniel. e Deus multiplicando as revelações. a quinta. ao uso daqueles tempos. como tão poderosas . assim parece que se deve construir o texto na forma da nossa cavalaria. e após eles os brancos. mas sempre mostrando pela mesma forma primeiro os quatro impérios e depois o quinto. que sucedeu a Baltasar. Capítulo III) por Padre Antônio Vieira 111 Prova-se o mesmo contra outra profecia de Zacarias Assim como Deus dobrou as visões. História do Futuro (Volume II. e que com licença do Dominador a tinham passeado toda. A primeira profecia de Daniel foi a mesma de Nabucodonosor. ou porque Zacarias se entendia por dentro com e1e acham os Doutores que explicou um enigma com outro. aos da segunda negros. viu que do meio de dois montes de bronze saíam quatro carroças puxadas por quatro cavalos. e a mesma sucessão de impérios que revelou a Daniel em umas figuras a mostra agora ao Profeta Zacarias em outras. para que com toda a verdade e com toda a propriedade se verifique havê-lo Deus de levantar nos dias daqueles reinos. es1a terceira de &carias em tempo de Hidaspes. Mas. principalmente destas quatro. Pela primeira tiravam cavalos melados. e foram estes impérios representados ao Profeta em figura de carroças. porque Deus. aos da quarta vários. Livro I. diz que o perguntou a um anjo que falava dentro nele. assim dobrou também as testemunhas . como decrépita. Respondeu pois o Anjo que aquelas quatro carroças (dos montes não disse nada) eram quatro ventos doces que assistiam ao dominador da Terra para executarem suas ordens. senão que ainda está por vir. Estas carroças diz o Anjo que estavam prontas como ventos para execução dos mandados do Dominador da terra. e estes entre os outros diz que eram os mais fortes. in diebus regnorum illorum. foi idade de ferro. porque. Assim que o Império que promete Daniel não é império já passado. para mostrar a violência e velocidade com que seus fundadores conquistariam e sujeitariam por armas os reinos terras e gentes de que se haviam de formar os ditos impérios. daquela estátua ou daqueles reinos se haja de levantar o Quinto Império. que é desta maneira: estas carroças significam os mesmos quatro impérios que Deus mostrou a Daniel. a segunda em tempo de Baltasar. e mais trabalho tem dado aos expositores deste lugar a declaração do Anjo que a visão do Profeta. assim como iam sucedendo os reis. E basta que nesta última idade. como supremo Senhor dos Exércitos. Diz pois o Profeta Zacarias. a principal força dos exércitos consistia nas carroças armada que eram as que faziam maior estrago na guerra como se vê nos casos tão celebrados. De modo que. é idade de ferro e barro. e declarados pelo Anjo em metáfora de ventos. no capítulo VI da sua profecia. levantando os olhos (ou levantado-lhos Deus da atenção das cousas presentes para a visão das futuras).

Vespasiano. e tiravam por ela cavalos negros. diz que foi para o Sul. não duvidou de adorar no templo ao pontífice Jada. e tiravam por ela cavalos ruivos. Trajano. tinha condenado a morrer em um dia com crueldade inaudita toda a nação hebréia. e que isto foi o que Deus e o Anjo quiseram significar ao Profeta. e assim consta das histórias. quando El-Rei Assuero. A segunda carroça. e depois da vitória chamada actíaca. que são os Persas. Tibério. fins e todos os sucessos desses Impérios tão ajustados com as propriedades das figuras que as representavam. não tinha necessidade de intérprete nem declaração. porque os Romanos. e assim sucedeu. Ultimamente diz que os cavalos mais fortes ou os robustíssimos da quarta carroça quiseram correr e passear toda a Terra. Augusto. Estes robustíssimos dos Romanos foram os seus maiores capitães e imperadores. a dos cavalos brancos. E a quarta carroça. Vespasiano. princípios. os quais por altos e imutáveis são comparáveis aos dois montes de bronze donde saíam as carroças. junto à mesma Babilônia onde Alexandre. como Júlio César. César. A primeira carroça representava o Império dos Assírios. Calígula. E posto que os Romanos absolutamente não conquistaram o Mundo como é em si. e ali acabou o Império dos Assírios. principalmente naquela grande aflição. e da consonância e harmonia dos tempos. e assim foi. principalmente no cativeiro de setenta anos a que eles com razão chamavam fornalhas da Babilônia. diz o Anjo que caminhou para as terras do Norte. e mais que todos Alexandre Magno. e que a correram e passearam. fundador daquele império. dos cavalos negros. De toda esta combinação das histórias com a profecia. porque. porque também os Persas afligiram e foram lutuosos aos Hebreus. porque os Persas devastaram e ocuparam a Babilônia que fica para a parte do Norte da Judéia. como escreve Suetónio. 112 . cuja majestade. Cláudio. Teodósio.Anexo:Imprimir/ História do Futuro para a execução de seus divinos decretos. como Pompeu. A terceira carroça representava o Império dos Gregos e tiravam por ela cavalos brancos. que é admirável confirmação de serem significados nas quatro carroças os quatro impérios. se faz certo e evidente argumento de que esta interpretação é a sólida e verdadeira. que com sua potência e vitórias se fizeram senhores do Mundo e o meteram debaixo dos pés. assim no ódio como na benevolência. marido de Ester. que já havia muito tempo florescia. Augusto. último imperador dos Persas. e primeiro que tudo se deve muito notar que da primeira carroça não disse cousa alguma. em que Augusto desbaratou a Cleópatra e Marco Antônio. Finalmente. e ali acabou o Império dos Gregos. porque os Gregos venceram e destruíram a Dario. cor pacífica e alegre. uns amigos e propícios. A terceira carroça. exceto Antíoco (cuja tirania também serviu de matéria gloriosa aos triunfos dos Macabeus) os outros príncipes gregos sempre foram benéficos aos Hebreus. nações. cuja fundação e sucessos estavam ainda por vir. porque os Romanos passaram por várias vezes à conquista do Egito. assolações e incêndios com que os Assírios conquistaram destruíram e abrasaram o povo hebreu. cor de tristeza e luto. lugares. outros inimigos. como a primeira carroça significava o Império dos Assírios. A segunda carroça representava o Império dos Persas. diz que foi atrás da primeira. e tiravam por ela cavalos vários. perseguidores e cruéis. que é cor de fogo. Pompeu. dos cavalos vários. Restam por explicar os diferentes caminhos que disse o Anjo fizeram estas carroças. E assim declarou somente o Anjo os três impérios seguintes. porque nunca chegaram à América. Nero. a quarta carroça representava o Império Romano. Adriano. Porque. foram vários para com os Hebreus. Tito. etc. que fica ao sul de Judéia. e assim se verificou nos Romanos. como escreve José. como Cipião. como escreve Crítio e Plutarco. reduziu o mesmo Egito a província. para significar os danos. que mais é uma metade que parte do Mundo. tomou o nome de Rei da Ásia. persuadido pelos enganos de Amão. Constantino.

os quais Godos. E diz que aqueles robustíssimos de que fala o Anjo são os Espanhóis. senão contra os ventos. e todas as partes de que ele se compôs e inteirou quando esteve em sua maior grandeza. como fizeram ao Imperador Maximino contra os Partos e a Constantino contra Licínio. as quais palavras comentando. pelas vitórias do Oriente a que o mesmo Cornélio chama ad miraculum usque illustres. senão do povo romano. Franceses e os demais. ut describeretur universus orbis.Anexo:Imprimir/ História do Futuro contudo diz o Anjo que correram e passearam todo o Mundo no mesmo sentido em que Augusto. quer que não só nas terras do Mundo Antigo. E posto que qualquer destas razões e muito mais todas juntas são bastantes para que sem impropriedade se possa entender os Portugueses debaixo do nome de Romanos. verdadeiramente valentíssimos. etc. mandou que todo o Mundo se alistasse. a que venceram e contrastaram. pela união e comércio destas duas nações. et partem ferream. assim em Portugal. e que de nenhum modo. Vê-se claramente esta verdade na primeira profecia de Daniel. com razão não é admitida de Cornélio à lápide. como se vê em S. como já tinha notado Ribeira. ao que não obstava serem de diferente nação.boca de um anjo os mais fortes de todos os Romanos. onde viviam os presídios romanos. audacíssimos e fortíssimos. uti fecerunt Hispani. E para este autor perfilhar ou acomodar aos Romanos. regnum divisum erit. Angli. no sentido desta profecia. Assim o interpretou o mesmo Daniel: Porro quia vidisti pedum et digitorum partem testæ figuli. para explicar a palavra per omnem terram em toda a sua largueza. ainda que essas mesmas partes depois se desunissem do mesmo Império e lhe negassem obediência. e que o barro e o ferro não estavam unidos. como muitos romanos de Portugueses. e nas da Índia Oriental. Mas esta aplicação. onde se diz que os pés e dedos da estátua eram compostos de ferro e barro. os quais entendem Império Romano todo o corpo íntegro do dito Império. conforme a profecia. que. não pelejando contra os homens. e verdadeiros cidadãos romanos. e que esses se haviam de desunir da sujeição e obediência do mesmo Império. contra o Sol. Além de que muitos portugueses eram filhos e netos dos Romanos. Poloni. Ingleses. pois conquistaram estas regiões novas e incógnitas. como violenta e trazida de tão longe. Paulo. sibique proprios reges crearunt. contra os mares. Contudo. alegando que era cidadão romano e que só no tribunal de César podia ser julgado. sendo hebreu. digo que os Portugueses e todos os Espanhóis se podem e devem entender debaixo do nome de Romanos. Cornélio diz assim: Potissimum vero divisum fuit hoc regnum ideoque enervatum cum variæ gentes ab ejus obedientia se subduxerunt. como nas guerras dos mesmos Romanos. como os antigos Romanos. Mas Sanchez. contra o Céu. e parte não só do Império. ajudando a defesa e conquista do Império. que. Polacos. sendo antes sujeitos aos 113 . Mundo Novo. o fundamento principal sólido e certo desta interpretação é ser esta a mente e sentido em que falaram os mesmos Profetas. parece lhe competiam. senão nas da América. estas vitórias próprias dos Espanhóis. nação um título tão honrado como serem chamados por . porque esta glória que Sanchez dá aos Espanhóis toca pela maior e melhor parte aos Portugueses. onde os Portugueses iam servir e merecer debaixo de suas bandeiras. por não deixar perder a nossa. que impugna facilmente. leva o direito desta herança à origem que os Reis de Espanha trazem dos Godos. no seu edicto do tempo do nascimento de Cristo. na qual divisão de dedos e desunião de metais se significava que o Império Romano se havia de dividir em muitos reinos e senhorios menores. foram estipendiários dos Romanos e pelejaram debaixo de suas bandeiras. contra todos elementos e contra a mesma natureza. porque Espanha e Portugal foram colônias dos Romanos. nunca conquistada nem ainda conhecidas pelos Romanos. De maneira que a divisão dos dedos e a desunião dos metais dos pés da estátua significava os reinos dos Espanhóis. apelou para o César. Franci.

senão cortada toda da mesma peça. História do Futuro (Volume II. ele a pedra sobre que sustentou os braços levantados de Moisés. Mas contudo (que é o nosso intento) ainda assim divididos e desunidos se computam e reputam por parte da mesma estátua e do mesmo Império Romano. aqueles homens. quando se lhe abriu o Céu e viu a escada. derrubou a estátua e desfez os quatro impérios dos Assírios. para que a profecia se entenda dos Espanhóis e Portugueses.Anexo:Imprimir/ História do Futuro imperadores romanos. em significação de que por meio e virtude de Cristo havemos de vencer o Mundo e o Demônio. Persas. pois não é cerzida de pedaços ou retalhos das Escrituras. resolução e esforço que a dos Castelhanos. Capítulo I) por Padre Antônio Vieira É conclusão certa e de fé que este Quinto Império de que falamos. e entre os Espanhóis muito particularmente os Portugueses. os fortes dos Romanos foram os Cipiões. arrancada do monte. lhes negaram a sujeição e se desuniram. considerando todo o corpo do Império Romano e todas suas empresas. o qual infundiu todo e descansou sobre Cristo. Livro II.. Ele foi a pedra que no deserto matou a sede aos filhos de Israel e os acompanhou até a terra da Promissão. que são os sete dons do Espírito Santo. quando venceu os exércitos de Amalec. e depois cresceu e a sua grandeza ocupou e encheu toda a Terra. foi empresa de muito maior valor. segue-se que digamos que Império há-de ser: e assim o faremos em todo este II Livro. Primeiramente aquela pedra que derrubou a estátua e desfez as quatro monarquias figuradas nos quatro metais. perambulate terram: et perambalaverunt terram. et dixit: Ite. et quærebant ire et discurrere per omnem terram. ainda desunidos dele. os Césares. e a pedra fundamental e provada sobre que se fundaram na Lei antiga a Igreja de Sion e na nova a do mesmo Cristo. e entre esses Espanhóis os fortíssimos dos fortíssimos foram os Portugueses. Ele foi a pedra com que David derrubou ao gigante. é o Império de Cristo e dos Cristãos. para fundar e levantar o seu . o qual em outros muitos lugares da Sagrada Escritura se chama Pedra. Estes foram os Espanhóis. Não somos nós que o dizemos. os Augustos. pela distancia remotíssima das terras. História do Futuro (Volume II. senão o anjo que falava em Zacarias: Qui autem erant robustissimi. Introdução) por Padre Antônio Vieira 114 Em que se mostra que Império há-de ser este. porque realmente são partes daquele corpo e daquele todo. a que uniu os dois povos gentílicos e judaico. que eram os mais fortes e valentes de todos. Prova-se dos mesmos textos e profecias já alegadas. e sobre ela sete olhos. exierunt. Assim que. deles. Gregos e Romanos. anunciado e prometido pelos Profetas. pela dificuldade de navegações. mas que intentaram discorrer e passear toda a redondeza da Terra. ainda que não sejam romanos. ele finalmente a pedra angular. Que o Quinto Império é o Império de Cristo e dos Cristãos. Ele foi a pedra que viu Zacarias. Livro II. para maior clareza e firmeza dela. porque a conquista dos mares e terras do Oriente. é Cristo. era justo. sobre as quais fundaremos tudo o que dissermos nesta história. os Pompeus. Finalmente.. Destas nações pois e destes reinos de que se compunha o Império Romano. Suposto como deixamos assentado que há-de haver no Mundo um quinto e novo Império. Esta pedra pois foi a que. Ele foi a pedra sobre que adormeceu Jacob. os fortíssimos foram os Espanhóis. super lapidem unum septem oculi. não se contentaram só com as terras dos outros impérios. pelo valor e potência das nações que se conquistaram. pela diferença dos climas.

posto que tão superiormente suprida com a divina. senão quase homem-quasi filius hominis. os quais acertam em dizer que nesta pedra está profetizado o Reino do Messias. Teodoreto. para denotar o Profeta que entre este homem e os outros homens havia diferença: os outros são puros homens. assim que aquele quasi significa a falta de substância humana. na segunda com o nome particular de Filho do Homem. Assim o dizem conformemente neste lugar não só todos os Padres e expositores católicos. donde desceu Cristo quanto a divindade. Senhora Nossa.. S. Diz Daniel que esta pedra caiu de um alto monte. da qual o Verbo se dignou tomar e unir a si a humanidade. e a opinião comum de todos os Padres e Doutores. E este monte ou é o Céu e o seio do Eterno Padre. que a pedra foi arrancada ou cortada do monte sem mãos: Lapis abscissus de monte sine manibus. sublimada como monte altíssimo sobre todas as criaturas. etc. Communis est Patrum sententia et multorum ex Hebræis quibus accedit Chaldeus sermonem hic esse de Messsiah.. et usque ad. Assim o notou o mesmo S. e erram somente em não crerem que o Messias é Cristo. como interpreta S. De maneira que na primeira visão foi Cristo.. sendo verdadeiro homem. Só reparou Maldonado que não se chama Cristo neste lugar Filho do Homem absolutamente. senão ainda muitos hebreus.. porque são todos. como explica S. ou é a nação hebraica. não lhe chama por isso o Profeta homem. Agostinho. arrancada dele sem mãos. Cristo é homem e Deus juntamente. que sem ódio escreveram antes de Cristo. Ruperto e muitos outros Padres. De sorte que a pessoa a quem foi dado por Deus o Quinto Império de que Danie1 fala neste lugar (como vimos) era o Filho do Homem. Na segunda visão de Daniel ainda consta mais claramente e por termos mais expressos que este Império é o de Cristo.et dabit ei potestatem et honorem et regnum.Anexo:Imprimir/ História do Futuro sobre todos eles. Quem havia de duvidar que em um quasi cabia uma distancia infinita? A terceira visão de Zacarias confirma ainda com maior propriedade ser Cristo o Senhor deste Império. diz o doutissimo Sanchez. Hierónimo. filho de Josedec significavam o mesmo Império Quinto profetizado por Daniel: e que seja Cristo o soberaníssimo Monarca que Zacarias viu coroar naquela figura. Não repito os autores desta explicação. na terceira com o nome propriíssimo de Jesus. sendo quasi filius hominis. toda foi obra sobrenatural e divina. Jesus filii Josedeci: e em todas estas três visões em que Deus revelou aos seus Profetas a 115 . suprindo o Espírito Santo e a virtude do Altíssimo o que nela faltou de concurso humano. S. não tiveram parte mãos de homem.. S. ou finalmente é a Virgem Maria. Júlio. não só o confessa a Igreja Universal na aplicação deste lugar. Agostinho. significado com o nome comum e metafórico de pedra. Já dissemos que a coroa ou coroas que foram postas sobre a cabeça de Jesus. Ambrósio. Epilanio. levantada naquele tempo como monte entre todas as outras nações do Mundo.Antiquum dierum pervenit: . com a qual concorda admiravelmente a advertência de Daniel. senão também os hereges e até mesmo Rabinos. Esta é a sentença comum e mais recebida dos Padres e expositores deste lugar. E que cousa há mais certa e freqüente no Evangelho que chamar-se Cristo Filho do Homem? Quem dicunt homines esse filium hominis? Væ autem homini illi per quem filis hominis tradetur! Tunc videbunt filius hominis venientem in nubibus cæli. como a mais perfeita e excelente de todas. Ireneu.. porque na geração temporal de Cristo. S. posto que tivesse a mesma natureza como eles.et ecce (diz o Profeta) cum nubibs cæli quasi filius hominis veniebat. E porque Deus não havia de ter subsistência humana como os outros homens. e porque o texto é tão claro que não há mister intérpretes.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro grandeza e majestade futura do Quinto Império. chamando a este Quinto Império Regnum Christi e Christianoram. E escreveu aos cristãos de Roma: Omnibus qui sunt Romæ dilectis Dei. E no 27: Regnum autem. em nome de alguns cristãos que estavam em serviço do Imperador que então era Nero: Salutant vos omnes Sancti maxime autem qui de Cæsaris domo sunt: «saúdam-vos. et omnes reges servient ei et obedient. conforme o texto da Epístola ad Corinthios: In ecclesiis Sanctorm doceo. os fundamentais de toda ela. Muitas cousas e muito grandes disse nestas palavras o Anjo. diz. ea ad Regnum Christi et Christianorm accommodari. onde Deus para consolação dos fiéis quis que nos ficasse expressa e revelada esta tão gloriosa verdade. as quais ficam reservadas para se explicarem em seus lugares por agora só nos serve (o que diz e repete tantas vezes o Anjo) que aquele mesmo Reino que o eterno Padre deu ou há-de dar a seu filho Cristo é o Reino e o Império dos Santos. senão frase muito corrente e ordinária em toda ela. quæ de illo quinto Regno tam præclara et gloriosa prædix Daniel. lhes mostrou . isto é. perguntou o mesmo Profeta a um dos anjos que assistiam ao trono a significação das cousas que via. vocatis Sanctis. Reino de Cristo e dos Cristãos. no título ou sobrescrito da carta diz assim: Omnibus Sanctis in Christo qui sunt Philippis «a todos os Santos em Cristo que estão em Philippis». representando Cristo os grandes males que Saulo tinha feito contra os Cristãos: Quanta mala Sanctis tuis fecerit. et tempus advenit. e os quatro a que ele devia de suceder. e assim lemos no capítulo IX dos Atos dos Apóstolos que usou da mesma frase Ananias. cujus regnum. como dizia. a quem ele chama o Antigo dos dias dera ao Filho do Homem aquele novo reino ou império. Depois de referir Daniel como Deus Padre. exortando aos mesmos Romanos a que socorressem com suas esmolas aos cristãos necessitados: Necessitatibus Sanctorum communicantes. Mas porque no princípio deste capítulo dissemos que o Quinto Império era o Império de Cristo e dos. detur populo sanctorum Altissimi. Deinceps (diz ele) pagnandum nobis est cum Judæis qui Christianis infensi infestique et iniquo animo ferentes. que são. se entendam e devam entender os Cristãos não é só explicação de intérpretes da Escritura. Paulo. E saudando aos Filipenses no fim da epístola citada. Cristãos. de que usa Daniel. et regnum obtinuerunt sancti. e revelou também que o Senhor e o Monarca deste Império havia de ser Cristo. et judicium dedit sanctis Excelsi. Assim o diz expressamente sobre estas palavras de Daniel o seu grande comentador Perério. escrevendo aos cristãos da cidade de Filipe. S. mas porque tudo o que havemos de dizer nesta história será uma continuada prova e confirmação dela. dos Cristãos. Com muitos outros textos da Escritura pudéramos confirmar esta mesma conclusão.. e principalmente os que estão em casa de César». todos os Santos. e ele lhe disse por três vezes que o reino e império que vira dar ao Filho do Homem era o reino e império que os santos do Altíssimo haviam de ter neste Mundo. em Macedônia. regnum sempiternum est. 116 . et magnitudo regni quæ est subter omne cælum. Finalmente este era o ordinário modo de falar da primitiva Igreja. tornemos à segunda visão de Daniel. bastem os textos alegados. E no verso : Donec vénit Antiquus dierum. E na mesma epístola. No verso 18 daquele capítulo (que é o VII) diz assim: Suscitient autem regnum Sancti Dei altissimi: et oblinebunt regnum usque in sæculum et sacculum sæculorum. et potestas. E que pelo nome de Santos. etc. E a este uso se chamaram as igrejas dos Cristãos igrejas dos Santos. et dierum.

cidades. lapis autem qui percusserat statuam factus est mons magnus. E posto que os autores desta sentença mais supõem que aprovam. clara e manifestamente se segue que não há-de ser império da Terra. bem assim como já antes de Daniel o tinha profetizado com o mesmo espírito Isaías: Et vocabunt eos populus sanctus. Capítulo II) por Padre Antônio Vieira 117 Pergunta-se se este Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser neste Mundo ou no outro. Paulo no princípio da Epístola aos Romanos. os quais. desta maneira: Antes que a pedra cortada do monte (que é Deus e o seu Império) crescesse a toda aquela sua grandeza (diz Teodoreto). hão-de ter um com o mesmo Mundo. nullusque locus inventus est eis. Livro II. e todos. Os reinos deste Mundo todos de sua própria natureza são corruptíveis. de que fala Daniel. com a mesma frase com que depois se nomeou a Cristo. nós aprovaremos e demonstraremos com os textos das mesmas visões. e chamando ao Reino dos Cristãos Reino dos Santos. o Teodoreto. não há-de ser neste Mundo. que é em próprios termos o que depois se viu na Igreja e o que diz aqui o Anjo: Regnum autem et potestas detur populo sanctorum. se o Reino e Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser perpétuo. chamados de Jesus Cristo e chamados santos. Deu motivo a esta questão. e entre os latinos. Regnum quod non corrumpetur. com a mesma frase com que depois se nomearam os Cristãos. sem haver mais que a memória deles. é que este Reino e Império de Cristo e dos Cristãos profetizado por Daniel (qualquer que haja de ser) é Império da Terra e na Terra. areæ quæ rapta sunt vento. redempti a Domino. História do Futuro (Volume II. argentum et aurum. assim como de Cristo se chamavam cristãos. já todos os outros reinos e impérios do Mundo estavam derrubados e caídos. incorruptíve1 e eterno. os quais concordavam com a verdade da nossa História em dizerem com os demais que o Quinto Império é o de Cristo e dos Cristãos. nem se poder achar ou conhecer o lugar onde tivessem estado. et redacta quasi in favillam æstiva. já o vento os tinha levado pelos ares. E este é o sentido em que Daniel e o Anjo falaram naquela visão chamando a Cristo Filho do Homem. como dizem expressamente as palavras de ambos os textos: Regnum quod in eternum non dissipabitur. Tertuliano. Fundam a sua opinião nas mesmas visões de Daniel. e muito mais na segunda. senão do Céu. Sendo logo certo como é que os reinos. fundado na mesma visão. argumenta assim Este Reino ou Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser Reino perpétuo. E ambos estes nomes e as etimologias deles compreendeu S. e já tinham desaparecido totalmente do Mundo. o qual é de fé que se há-de acabar. como consta do texto: Tunc contrita sunt pariter ferrum. Regnu sempiternum. Regnum usque in sæculum et sæculum sceculorum. repúblicas e impérios do Mundo se não hão-de desfazer em cinza. por mais que durem e permaneçam. nem se hão-de acabar. Tertuliano. testa. em que lhe chama Vocati Jesu Christi et vocatis Sanctis. segue-se que o Império de Cristo e dos Cristãos. senão quando se desfizer e acabar o mesmo Mundo na última ruína dele. incorruptível e eterno. entre os Padres gregos. mas que tem para si que há-de ser este Império no Céu e não na Terra. E aquele povo remido por Deus será chamado publicamente Povo santo. assim da Lei santa de Cristo se chamaram santos. æs. e recebida e seguida como certa de todos os expositores. senão no outro. Logo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A razão deste nome é tomada da santidade da Lei de Cristo que professam os Cristãos. Contudo a sentença comum dos Santos. desfeito em pó e em cinza. e aquela sua grandeza prodigiosa e que há-de crescer. .

bem se colhe que há-de ser Império da Terra e não do Céu. mas com tanta discrepância de tempos. nem podemos negar que este Reino e Império de Cristo e dos Cristãos há-de durar também com o mesmo Cristo e os mesmos Cristãos depois de bem-aventurados por toda a eternidade no Céu. desde aquele ponto. mas nem por isso há-de deixar de ter na Terra a grandeza que nestes textos lhe é profetizada e prometida. antes a razão de haver de ter tanta grandeza no Céu. quæ est subter omne cælum. os quais o hão-de servir e lhe hão-de obedecer: et omnes reges servient ei et obedient. Lapis autem qui percusserat statuam factus est mons magnus et implevit universam terram. este é o mais ordinário sentir de todos os expositores de Daniel. que est subter omne cælum. no Céu consumada e perfeitíssima. Se a pedra. Nas palavras que se seguem a estas declara mais em particular Danie1 (ou o Anjo por ele) quem hão-de ser os súbditos deste Império. não é império do Céu nem depois de acabado o Mundo. que são os Cristãos. senão de debaixo do Céu: magnitudo regni. os quais dizem que este Reino e Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser incoado na Terra e consumado no Céu. se fez um grande monte. e na Terra é que há-de ser servido e obedecido e reconhecida de 118 . na primeira visão. que derribou os outros impérios. detur populo sanctorurn Altissimi. Desta maneira se concilia e concorda facilmente a opinião de Tertuliano e Tedoreto com a verdade da nossa. Não negamos. segue-se que esse crescimento há-de ser neste Mundo e não no outro. não há-de haver mais homens que vão ao Céu. porém. Da Terra é logo este Império. é o poder e grandeza de todos os reinos que há debaixo do Céu. o qual grande monte encheu e ocupou toda a Terra. cresceu? Logo. e só se goza o prêmio do que se obedeceu. depois de acabado o Mundo e depois do Dia de Juízo. do que se serviu e do que se mereceu na Terra. Infiro agora assim: Esta pedra e este Império de Cristo. nem se merece. detur populo sanctorum Altissimi. Não há-de crescer nem pode crescer no número dos homens. Mas para que são conseqüências. e diz em nova confirmação do que dizemos. Logo. é porque a terá primeiro na Terra. que agora só trataremos qual seja em comum o deste Império. cada um há-de receber por inteiro toda a glória devida a seus merecimentos. dizendo que este Reino havia de ser no Céu e não na Terra. porque o Reino e Império de Cristo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Daquela pedra que representava a Cristo e seu Império. pois posto se entenda e saiba que não é assim. porque no Céu não se serve. depois de acabado o Mundo. diz Daniel. como se deve ao estado do Céu. Regnum autem et potestas et magnitudo regni. nem se obedece. Os termos da segunda visão de Daniel ainda são (se podem ser) mais evidentes. e crescer a uma grandeza tão imensa. que serão todos os reis do Mundo. Se os reis hão-de servir e obedecer a este Império. adverte e nota sinaladamente o Profeta que não é Reino do Céu. «0 Reino ou Império que se há-de dar ao povo dos Santos do Altíssimo. porque. se o Reino de Cristo e dos Cristãos há-de crescer depois daquele tempo. assim se acabou o tempo de mais alcançar. bem claro se mostra que é Império da Terra e não do Céu e que na Terra e não no Céu há-de ter toda esta sua grandeza. e como se acabou o tempo de mais merecer. se as mesmas palavras do texto o dizem claramente? Factus est mons magnus et implevit universam terram. crescendo. não há-de crescer nem pode crescer na glória dos bem-aventurados. porque. como veremos em seu lugar. e este é o Império profetizado de Cristo. de nenhum modo há-de crescer nem pode crescer. que cresceu e se fez um monte tão grande que ocupou e encheu toda a terra.» Podia-se dizer cousa mais clara? Parece que estava antevendo Daniel que havia de haver quem interpretasse esta sua visão em diferente sentido do que ele a escrevia.

119 . Entretanto basta saber-se que a palavra eterno tem este mesmo sentido e limitação em muitos lugares da Escritura. e não se achou mais o lugar onde estivessem. como se vê no exemplo de Judas. e a dos Persas pela sucessão dos Gregos. Fluvius igneus. não só pode embaraçar a verdade da nossa sentença. comentando as palavras subter omne cælum. como legitimo senhor e herdeiro dele. e quando se diz que ficaram desfeitas em pó e desapareceram. et Antiquus dierum sedit vestimentum ejus candidum quasi nix. as quais nem cada uma por si nem todas juntas compreenderão nunca toda a grandeza da Terra. mas confirmar na contrária os autores e seguidores dela. Mas se entendermos o texto de Daniel da duração somente que o Império de Cristo e dos Cristãos há de ser neste Mundo.a sobre o Gênesis. e para meter de posse e o entregar a Cristo. senão que estão demonstrando o vigor e majestade do juízo final. porque sucederam outros nele.Anexo:Imprimir/ História do Futuro todos os reis dela. Ao argumento de Tertuliano que se fundava na eternidade do Quinto Império. rapidusque egrediebatur a facie ejus. como notou S. cidade e gentes das ditas monarquias se haviam de acabar e extinguir totalmente (como há-de acontecer a todo o Mundo no Dia de Juízo) senão que havia de se acabar seu mando. da assistência dos anjos. se o Reino e Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser depois do juízo final. que depois veremos quanto há-de ser. não só parece que significam. Matias. Agostinho na Questão 3I. Mas para que tiremos todo o escrúpulo aos outros razão será não passe sem satisfação uma grande dúvida que. como bem advertiu Cornélio. em que Cristo há-de vir julgar os vivos e os mortos no fim do Mundo. sive in omni plaga cælo subjecta. seu império. etc. do fogo.non inventus est locus ejus-que «se não achou mais o seu lugar». e consta que sucedeu em seu lugar S. e juízo rigoroso e de grande majestade. Ao de Teodoreto dizemos que o texto de Daniel só fala das quatro monarquias representadas nos quatro metais da estátua. mas digo com a mesma certeza que este juízo não é o juízo final. Respondo que é certo falar neste lugar o Profeta de juízo. já temos dito que a continuação dele no Céu há-de ser verdadeiramente eterna em toda a propriedade e largueza da significação desta palavra. id est in omni terra. e foram voadas do vento. et capilli captis ejus quasi lana munda. et decies millies centena millia assistebant ei. dos livros que se abriram e do mesmo nome de juízo. judicium sedit et libri aperti sunt. de quem fala a Escritura pelos mesmos termos. seu poder. pela palavra eternidade não se entende rigorosamente duração sem fim. e aos professores de sua fé e obediência. e juízo de Deus. pouco atrás citadas: Non quæ est super. sua soberania. Millia millium ministrabant ei. não quer dizer que as terras. E estas palavras por todas as circunstâncias do trono. e a dos Gregos pela sucessão dos Romanos e se acabará também a dos Romanos pela sucessão do Quinto Império. por ser fundada nas mesmas palavras do texto de Daniel. como verdadeiramente se acabou a dos Assírios pela sucessão dos Persas. senão do outro. Logo. e mostraremos mais largamente quando escrevermos a duração do Quinto Império. e assim o entendem mais ordinariamente os expositores desta visão. sed quæ est subter omne cælum. E isto quer dizer em frase da Escritura . que são os Cristãos. thronus ejus flammæ ignis rotæ ejus ignis accensus. senão um juízo particular. senão continuação e permanência de muito tempo. Aspiciebam (diz Daniel na segunda visão) donec throni positi sunt. Responder aos seus argumentos é igualmente fácil. em que o Padre Eterno há-de tirar o Reino e Império universal do Mundo ao tirano ou tiranos que então o possuírem.. claramente se convence que ano é nem há-de ser Império desde Mundo. seu filho.

perguntamos agora se este Império de Cristo há-de ser espiritual ou temporal. espiritual no governo. e todos os expositores de ambos os Testamentos. que é o último fim do homem. como o que têm os príncipes católicos sobre os seus reinos e províncias. e com a doutrina e ações de sua vida e morte. e suposto que .quanto ao modo como em seu lugar veremos) é império espiritual. ou pode ser espiritual ou temporal. para que a graça prevalecesse contra a natureza e o amor de Deus pudesse mais que o do sangue. cujo poder e jurdição se ordena a governar os fiéis membros e súbditos da Igreja. em quanto este fim particular e mediato se ordena ao último fim. Reino e Império espiritual? Foi Reino e Império espiritual no fim e causas de sua instituição. diremos primeiramente que este Império de Cristo (o qual não há-de ser diferente do que hoje é. como acabamos de resolver. temporal. que é o fim particular de todas as comunidades humanas. e que nos deixou o seu amor e o nosso contentamento. que este Império de Cristo e dos Cristãos. todos os teólogos antigos e modernos. e sendo todas elas ordenadas só à salvação e perfeição dos homens e dirigidas e encaminhadas ao Céu. o perdão das injúrias. ainda nesta suposição nos resta averiguar um ponto de grande importância e de cuja decisão depende o maior fundamento de todo este nosso discurso. Porque. finalmente que abriu sete fontes de graça e ou que instituiu sete sacramentos perpétuos e ficou Ele conosco perpetuamente em sacramento. que veio apartar os pais dos filhos e os filhos dos pais. para que se acendesse nela a claridade que tão apagada estava. que morreu por nós. a conseguir a bem-aventurança. e em seu nascimento foi aclamado Rei e em sua morte intitulado Rei. cujo reino lhes pregou e prometeu sempre. uma não usada. Livro II. os interesses da esmola. e se demonstra com o mesmo mistério da Encarnação e fim com que Cristo veio ao Mundo. se perguntarmos aos Evangelistas (deixando o testemunho das outras Escrituras) que fez Cristo e que ensinou com a palavra e com o exemplo. a eternidade do Inferno. Capítulo III) por Padre Antônio Vieira Se este Império de Cristo no Mundo é espiritual ou temporal Assentado. a verdadeira amizade com os inimigos. que veio encher e informar a lei e animar a letra com o espírito. Assim o ensinam e ensinaram sempre conformemente todos os Padres e Doutores da Igreja. senão . espiritual no uso.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 120 História do Futuro (Volume II. o preço e imortalidade da alma. que veio lançar fogo na terra. nem que maior demonstração ou evidência de ser o Reino e Império deste santíssimo e soberaníssimo Rei. que maior sentimento se pode desejar. que se dirige a governar os vassalos por meio de leis prudentes e justas. que dizemos há de ser na Terra. dos Cristãos católicos. Sendo pois estas as ações daquele Senhor a quem antes de vir ao Mundo todos os profetas chamaram Pai. lho abriu e mereceu com seu sangue. Isto posto. Porque este Império de Cristo. desde o dia em que nasceu até à hora em que expirou na cruz. que pregou o Reino do Céu. dir-nos-ão que veio ensinar aos homens a ciência da saúde e salvação. que veio ser luz do Mundo e alumiar os que vêm a ele. de que falam as profecias alegadas. a virtude da humildade e a da castidade. que nos lavou com o seu sangue. onde reinava e se intitulava príncipe. e começando pela conclusão em que não há resistência nem dificuldade. é principalmente o da Terra e não o do Céu. outra não conhecida no Mundo. que veio vencer o demônio e lançá-lo do Mundo. o rigor do juízo. espiritual nas leis. que ensinou o desprezo das riquezas. nas execuções e no exercício. espiritual como o que hoje tem o Sumo Pontífice. e estando até aquele tempo fechado.

resta examinar agora se é também império temporal.. de que lhe háde vir a firmeza: ut confirmet illud et corroboret in judicio et justitia. Finalmente.Ego autem constitutus sum rex ab eo.intende. o mesmo Cristo »— confessando a Pilatos que era rei »— Tu dicis quia rex sum ego ... poder ou principado de Cristo. o Arcebispo primaz é juntamente Bispo e Senhor de Braga. todas espirituais. No Salmo XLIV descreve o mesmo Profeta as prosperidades e progressos do Reino de Cristo: . mas logo declara o gênero de armas. Assim vemos que o Sumo Pontífice. assim por serem todos. mas logo aponta os fundamentos espirituais também. Zacarias no capítulo IX descreve o triunfo de Cristo aclamado por rei na entrada de Jerusalém: Ecce Rex tuus veniet tibi. mas logo lhe chama rei e salvador justo. em Alemanha. prospere procede et regna. ipse pauper et ascendens super asinam.Anexo:Imprimir/ História do Futuro dizemos há-de ser sempre o mesmo (nem é decente nem seria crível outra cousa). três dos eleitores do Império são príncipes eclesiásticos e senhores temporais de seus estados.. domínio. e notam bem advertida e doutamente estes autores que todas as vezes que os textos da Escritura Sagrada falam no Reino. Isaias. como porque alegaremos muitos no capítulo seguinte. no capítulo IX. pobre e humilde: Justus et salvator. estreite e determine ao espiritual somente. no capítulo XXIII. E depois . mas logo limita a significação do ofício ou dignidade. No Salmo II chama David a Cristo Rei constituído por Deus . e somente lhe concedem ou admitem nele o puramente espiritual.super solium David et super regnum ejus sedebit in eternum. tendo o domínio espiritual de toda a Igreja. et deducet te mirabiliter dextera tua. celebra o Reino e sabedoria de Cristo Rei: . com que há-de conquistar o Mundo: Propter veritatem et mansuetudinem et justitiam . e no nosso reino. anuncia o mesmo Reino de Cristo e sua perpetuidade: .. Muitos e graves teólogos seguem de tal maneira a parte negativa que exclui totalmente do Império de Cristo toda a jurdição. bem assim como aquele que os príncipes eclesiásticos têm sobre suas igrejas ou ovelhas (posto que por modo mais sublime e excelente) mas de nenhum como aquele que os senhores e príncipes seculares têm sobre seus estados e vassalos. Livro II. como acabamos de resolver. Suposto pois que o Reino e Império de Cristo seja espiritual. como dissemos. em qualquer tempo futuro será e há-de ser também espiritual. Jeremias. Fundam primeiramente esta sua sentença em muitos lugares da Escritura e particularmente em todos aqueles com que no capítulo passado mostramos o seu nome e título de Rei. de modo que um outro domínio bem pode sem repugnância alguma convir e ajustar-se no mesmo sujeito. Capítulo IV) por Padre Antônio Vieira 121 Examina-se se o Reino e Império de Cristo é também temporal. que os Profetas davam a Cristo.. Não alegamos aos autores desta doutrina. sempre acrescentam alguma explicação ou limitação com que o nome geral de Rei e Senhor se distinga ou aliene da significação de poder temporal. Império. História do Futuro (Volume II.acrescentou logo que o seu Reino era para dar testemunho da verdade ao Mundo: Ego in hoc veni in mundum ut testimonium perhibeam veritati. dizendo que para pregar seus preceitos-praedicans praeceptum ejus. e se limite.regnabit rex et sapiens erit. poder e domínio temporal. Refere-se a opinião negativa O império e domínio temporal é certo que de sua natureza não exclui nem implica com o temporal. mas logo determina os efeitos dessa sabedoria que hão-de ser encaminhados todos à salvação: In diebus illis salvabitur Juda. é também senhor e príncipe temporal do estado que chamam eclesiástico.

entre os quais porventura não é o que tem granjeado menos votos a esta opinião errada aquela palavra temporal. Sobretudo está por esta parte aquele claríssimo oráculo de Cristo: Regnum meum non est hoc mundo . com que parece aos autores desta sentença que não só estabelecem de todo a certeza dela. e havia de estar sempre oculto e encoberto aos homens. Argumentam ou decorrem assim: Se Cristo foi Rei temporal. deixasse o domínio das suas herdades. nem para o exemplo da doutrina era necessário. salvus erit: fé. porque a jurdição de fazer ou eleger rei está na comunidade dos homens. parece que traz consigo alguma dureza e dissonância. como dizem menos provavelmente alguns autores. os mesmos reis e as mesmas temporalidades? Se a perfeição cristã que Cristo veio ensinar aos homens consistia em deixar tudo e seguir em pobreza e humildade a Cristo pobre e humilde. se ele vinha como vimos a confundir com seu exemplo o mesmo Mundo. a qual. Segue-se logo que o Reino e Império de Cristo é espiritual somente. com que o elegessem por Rei e Senhor de 122 . era necessário que todos os homens e comunidades do Mundo se unissem em um consentimento. nem para o fim do ofício. domínio e potestade-Data est mihi omnis potestas in Cælo in Terra-a conseqüência que tirou deste poder tão universal foi: Euntes in mundum universum prædicantes Evangelium omni creaturæ. mas que convencem e desfazem a probabilidade de qualquer outra. e para o exercício e uso que nunca teve realmente inútil e ocioso? Estas razões ou admirações. qui crediderit et baptizatus fuerit. Por direito natural não. De que servia a Cristo (dizem) o nome ou jurdição de Rei temporal do Mundo. batismo e salvação dos homens. o império. o domínio. como dizia com esta renunciação de todos os bens. porque Cristo não era filho nem herdeiro de rei. maior exemplo e ainda maior circunstância de perfeição saber-se que o renunciara Cristo. declarando aos Apóstolos com a maior majestade de palavras que podia ser a grandeza de seu império. Finalmente. que não são muitas vezes as que menos persuadem. das quais palavras podemos dizer: Quid adhuc egemus testibus? A eficácia destes textos se acrescenta a de muitas razões e argumentos. como vimos. sem nos obrigarem a que os entendamos do Reino ou Império temporal. como alguns dizem? Com que liberdade ou com que confiança havia de aconselhar ou mandar Cristo a certo mancebo que. podendo tê-lo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro de ressuscitado. se houvera tal direito. se no mesmo tempo o mestre desta perfeição retivesse o domínio de toda a Terra? Para que se há-de admitir logo o nome deste Império temporal em Cristo. a majestade de todo ele? E se esta majestade. e quando menos se podem interpretar assim. porque. Por direito divino também não. se nem para o decoro da pessoa. constara pelas Escrituras. por direito humano não. e de nenhum modo temporal. este império e este domínio não havia de ter (como nunca teve com Cristo) uso ou exercício público.o meu Reino não é deste Mundo. construída com o Império de Cristo e pronunciada aos ouvidos mais religiosos e espirituais. e dado que fosse legítimo sucessor do Reino de Israel. ou foi Rei por direito natural. honras e haveres do Mundo. ou por direito humano. e ainda que o pedira. que dizer-se que o tivera e conservara. se entendem do Reino espiritual ou celeste. a herança de um reino particular não lhe dava direito para o império de todo o Mundo. e para Cristo ser respectivamente Rei universal de todo o Mundo por esta via. por não dizer indecência. ou por direito divino. todos. não seria maior autoridade. se fecham e apertam eficazmente com um discurso fundido em todos os princípios gerais de direito. e posto que muitos textos da Escritura falem de Cristo como Rei e lhe dêem o nome e título de Rei. se queria ser perfeito.

nem querem fazer menos espiritual o Mundo. Francisco de Cristo. a opinião do Reino temporal de Cristo e da Conceição imaculada de sua Mãe se acompanharam no mesmo tempo na mesma fortuna. Capítulo V) por Padre Antônio Vieira 123 Propõe-se e defende-se a opinião afirmativa Se escrevêramos menos há de cem anos. acabou-se de conhecer que com e1e se não davam armas. quanto a Igreja mais cresce. E são estes: Hermas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro todas. Adrião Fino. na ocasião em que alguns deles lho quiseram dar. o que nunca houve. sucederam àqueles teólogos de grande espírito outros de grandes espíritos. que não eram os que pior tratavam seus corpos os que isto diziam. João Crisóstomo. porventura que não puséramos aqui tão confiadamente este capitulo. Mas. Não fazem menos santo a Cristo. Letmatio. já têm vencido Mitigou-se com os dias e com a consideração o horror daquele nome temporal. O primeiro que se alega é Santo Agostinho em muitos lugares. parecendo-lhes cousa indigna. que era a terra onde Cristo vivia. Os Padres que isto disseram e seguiram querem alguns que sejam todos. e o que nos tempos passados é duvidoso. Gregório. fugiu deles e do mesmo título. e ambas ao fim. antes se tiravam . como disse S. e o ter em sua própria essência eminentemente as idéias de todas elas? Antes . o ser senhor e criador de todas as cousas corporais. nos futuros se sabe. Logo se não foi Rei temporal. antes sabemos que os príncipes e povo de Judéia. Driedo. falam. nem por sucessão natural. S. os que reconhecem em Cristo o domínio temporal dele. ainda não tinham escrito. João Parisiense. que os teólogos que hoje têm maior fama nas escolas. com outras galantarias. e diz o doutíssimo Maldonado que esta é a sentença comum dos melhores teólogos que assim o disseram. entre os quais o mais claro (ou o que parece) é este: Populi personam figurate gerebat homo ille.aos inimigos (porque também na Teologia se deve entender: Omnia dat qui justa negat). Porventura ofende a Deus. Jerônimo. e antes dele Sábio. Ambrósio. quando ele escreveu. nem . e muito contra o decoro da bem-aventurança.por doação ou nomeação divina. tão celebrado nas Escrituras.parte Soto. nem por eleição humana. e resolveu-se que não eram menos espirituais os que admitiam no Império de Cristo o nome de temporal. Melchior Flávio. se não têm ainda triunfado. que houvessem de aparecer diante de Deus as nossas almas com vestidos tão indecentes como são os corpos. non carnaliter sed spiritualiter regnaturo. Atanásio. por termos tão indiferentes. História do Futuro (Volume II. se conjuraram contra ele e lhe tiraram a vida. para crédito de Maldonado e nosso. Abulense e Waldense. porém. e diz S. e posto que também se citem por esta . O douto leitor julgará se são os melhores. Castro. mas alegam-se e podem-se alegar no mesmo sentido S. Nenhum dos outros Padres fala em termos de tanta expressão. que Vasques os alega (e diz que assim se devem alegar) pela parte contrária. Ao menos confessa Vasques que da doutrina dos Padres não se pode convencer o contrário. Livro II. Tertuliano. só porque não tomasse o nome de Rei. Teófilo e outros. S. Vitória. Advirta-se. mais se alumia. de nenhum modo foi nem pode ser temporal. qui populus regnum fuerat amissurus Christo Domino nostro per Novum Testamentum. Nem sempre é maior espiritualidade o que mais opõem ao corpo. e que o mesmo Senhor. scilicet Saul. Bertolameu de Medina. em quanto Deus. Jansénio. se não espiritual e somente qual acima dissemos. Os Origenistas chamavam por escárnio pelusiotas aos que seguem a fé de que todos havemos de ressuscitar em nossos corpos. e se escondeu em um monte para escapar daquela violência. bem se conclui que o Reino e Império de Cristo.

não queremos dizer que é o seu Império sujeito às mudanças e inconstâncias do tempo. isto o que não admitem os Padres. em que chama a Cristo Príncipe dos reis da Terra e Rei dos reis e Senhor dos senhores. Princeps regnum terrae. Arnico. sublime e independente de todos. Valença. nem que receba a grandeza e majestade da pompa e aparato vão das cousas exteriores do Mundo. Salazar. Carçosa. que por serem tão particulares os quero referir aqui: Verum Jesus Christus Deus ac Salvator noster fuerit vere ac proprie Dominus et Rex totius Orbis. e os vamos juntamente impugnando e desfazendo. com poder de dispor delas a seu arbítrio. E para que demonstremos a verdade desta nossa crença. Peres. onde era catedrático de Scoto. porque o contrário devia fazer manifesta violência à significação da palavra Rei. atque adeo tenporalis: tam vere et proprie quam Philippus 2dus temporis rex est Hispaniarum. Durando. no capítulo I. se eles não foram diante. Navarro. sobre todas as cousas criadas. non tantum spiritualis rex ac dominus. como se pode ver nos lugares citados à margem. porque há-de ser menos decência em Deus Homem? Quando chamamos Império temporal ao de Cristo. mais perfeito e mais excelente domínio. Justiniano. Vasques. eo quod illis in omnem usum potest citra alicujus injuriam uti. S. Hurtado Arriaga. e se é regra certa. na Universidade de Salamanca. Caspense. dos quais este último já no ano de 1586. e do império temporal de Cristo. Este é o sentido em que falam com pouca diferença de palavras todos os teólogos referidos. et unusquisque hominum dominus est suarum rerum. em dois lugares do Apocalipse.Anexo:Imprimir/ História do Futuro deixava de ser Deus. quando disse: Regnum meum non est de hoc mundo. e no capítulo XIX. Bacónio e outros. A que podemos acrescentar o do maior Profeta da Lei da Graça. Agostinho. sed et verus ac absolutus et proprius. Waldense. Os quais textos e todos os mais se não podem entender própria e naturalmente senão do Reino temporal de Cristo. que as palavras da Sagrada Escritura se não hão-de interpretar em sentido metafórico e 124 . Ludòvico Tena. Verga. para dar por provada e acreditada com o Mundo uma verdade tão necessária e importante como depois veremos. em que Cristo tão repetida e expressamente é chamado Rei por boca de todos os Profetas antigos. que é perfeição em Deus Deus (digamo-lo assim). mas absoluto soberano. como ensina S. Scoto. sobre todos os reis. e os dois Mendonças insignes de Portugal e Castela. é um domínio soberano e supremo sobre todos os homens. excitou e defendeu galhardamente esta questão nos termos seguintes. pelos mesmos princípios e fundamentos da opinião contrária. atque omnium rerurm creatarum. a que podemos ajuntar muitos juristas de grande nome. a qual em toda a Escritura Sagrada significa Rei temporal. e isto o que explicou o mesmo Cristo. Molina. fazendo e desfazendo leis castigando e premiando. se assim não fora. o Cardeal Lugo. não dependente como eles das criaturas. secundum quod homo est. antes com muito maior. Almaino e os três já nomeados Abulense. dando e tirando reinos. O Cardeal Toledo. antes dos quais tinham seguido e ensinado a mesma doutrina Santo Antonino. Lacerda. Tomás. Os teólogos que isto assentam por conclusão é S. Seguem a estes três lumes outros muitos que o puderam ser da Telogia. O Império que dão ou reconhecem em Cristo os que admitem e veneram nele o nome de temporal. e isto é só o que negam as Escrituras. o Cardeal Hostiense. e bastava ter escrito estes três grandes nomes. Pois o domínio soberano. com jurdição tão própria e direta sobre todo o Mundo como a que os reis particulares têm sobre seus vassalos e reinos. como o Cardeal Turrecremata. Rex regnum et Dominus dominantium. Cornelio. João Evangelista. a que o mesmo Mundo quando fala com mais siso chama com razão temporalidades. Soares. seja o primeiro o testemunho das mesmas Escrituras alegadas.

os mesmos nomes de Rei e Reino. que maior prova se podia desejar que a da estátua de Nabuco. bem se segue que a pedra que os derrubou e desfez. para maior demonstração da mesma verdade. tantas vezes celebrados e cantados pelos Profetas. nós. segue-se que o de Supremo Rei significa o temporal. falando do Império de Cristo. sem sair das mesmas profecias e textos fundamentais desta história. João.persuadir facilmente a qualquer entendimento fácil e dócil. nos obrigam a conceder e confessar que em toda sua propriedade significam Rei e Reino temporal. Logo. e teve juntamente o império temporal. e impérios verdadeiramente temporais. que tivesse ou tenha Cristo todo o poder. se se entenderem na sua significação própria e natural. Agostinho no Tratado XXII sobre S. que pertencia ao temporal. sem manifesta implicação. que é uma tão grande parte desse todo. não só esperamos de a confirmar eficazmente na mesma certeza. quando respondermos a estas leves objeções da parte contrária. senão uma de prata e outra de ouro. Estes são os textos mais eficazes e expressos com que os teólogos costumam provar a verdade do Império temporal de Cristo. não mística senão literal. deixou dito e publicado ao Mundo que seu Eterno Pai lhe tinha dado todo o poder no Céu e na Terra: Data est mihi omnis potestas in Cælo et in Terra. senão quando. E por isso não eram ambas de ouro. como neste capítulo se irá vendo. antes de subir ao Céu.Anexo:Imprimir/ História do Futuro figurativo. antes muita honra. como prova S. seguindo as regras do direito. e porque uma delas foi de prata e outra de ouro? A razão. porque de outra maneira se não de dizer nem entender. pois lhe faltaria nesse caso o poder temporal. ou ambas de prata. se é certo (como é de fé) que aqueles quatro metais significavam quatro impérios sucessivos. já vimos que a coroação de Jesus. mais precioso e mais sublime que o império temporal. nenhuma cousa exclui. que é o que mais propriamente se chama império no Céu. figura do Reino e Império de Cristo. E posto que baste cada um deles. que o Reino e o Sacerdócio em Cristo são dignidades e jurdições distintas. Porque o Reino espiritual de Cristo se distingue do Sacerdócio do mesmo Cristo. Finalmente. pois se não segue de assim o entendermos inconveniente algum ou dissidência contra aquela grandeza e majestade de Cristo. 125 . em que só podia haver dúvida. se seguisse algum grande inconveniente ou absurdo contra a doutrina da mesma Escritura recebida pela Igreja. para significar a diferença e preço daqueles dois impérios ou jurdições. E. senão duas: uma como Supremo Sacerdote. e nós mostraremos largamente no capítulo seguinte. A esta confirmação geral da significação da palavra Rei acrescenta o Padre Soares outra. glória e autoridade. mas de lhe acrescentar com a nova luz deles nova evidência. filho de Josedec significa a dignidade suprema do Império de Cristo. e outra como Supremo Rei. e que o império espiritual significado no ouro era mais alto. sua e da Igreja. para . se o nome de Supremo Sacerdote significa o Reino e Império espiritual. cujos metais desfez a pedra em pó e em cinza? Porque. começando pela profecia de Zacarias. o mesmo Cristo. Teve logo Cristo o império espiritual. Agora pergunto porque foi coroado não com uma senão com duas coroas. que é própria da pessoa de Cristo. e consta das Sagradas Escrituras. não só significa Império espiritual. que pertencia ao Império espiritual. E quanto ao império temporal. que é o que com toda a propriedade se chama império na Terra. dizem comumente os expositores que foi porque Cristo não teve uma só coroa. E quem diz todo. tomado na propriedade e natureza de sua significação. e que eficazmente convence o sentido em que se deve tomar a mesma palavra.

no qual Império hão-de entrar e ser incorporados todos os reis e reinos do Mundo. pois vemos que reinou antigamente Cristo espiritualmente em todo o Império Romano. para não admitirmos. parece que o domínio real de Cristo se limita e determina ordinariamente a fins e obras espirituais. e conservam o nome de cristãos. cantando sobre sua loucura por boca da Igreja: Crudelis Herodes. E se nos lugares da Escritura alegados pelos autores da opinião contrária. de todos os reinos e de todas as repúblicas temporais. o qual. senão o Império temporal. Deum regem venire quid times? non eritit mortalia qui Regna dat cælestia? sendo pois certo que o Reino e Império de Cristo derrubou ou há-de derrubar todos os impérios do Mundo. como bem tem mostrado a experiência no mesmo Império espiritual de Cristo. pelo qual se intitula com toda a propriedade Rex regnum et dominus dominantium. posto que seja espiritual e espiritualíssimo. Nem menos se confirma a mesma verdade com a segunda visão de Daniel (Daniel VII) na qual lemos que. e este o Reino e Império de Cristo. e reina também hoje espiritualmente em todos os reinos que do mesmo Império Romano nasceram e se dividiram. e assim como a palavra regnum e dominantium é sem dúvida que significa reis e senhores temporais. o que não faz nem pode fazer o Império espiritual. de nenhum modo se enfraquece com este indício ou argumento a verdade da nossa sentença. para Deus dar o Império ao Filho do Homem. é necessário que tenha oposição e contrariedade com ele acerca das mesmas cousas. assim a palavra rex e dominus significa rei e senhor também temporal. o império do Filho do Homem ou de Cristo naquela visão é o mesmo Império universal que hão-de ter os Cristãos na Terra. e esta oposição e contrariedade só se acha nos impérios temporais entre si. arruínam e desfazem uns aos outros. Segue-se logo com evidência que o Império de Cristo. que lhes há-de tirar essa soberania temporal. antes com ela se confirma e estabelece mais. como melhor se entenderá pelo discurso de tudo o que diremos. Para um império derrubar e desfazer a outro. a que eles já estão sujeitos. quanto mais se estabelecia e crescia a dos Imperadores. com manifesta violência da Escritura e repugnância do entendimento. como expressamente se colhe que o império de Cristo não é só espiritual. donde eles antes estiveram. E este foi o erro. não desfez os impérios e reinos dos príncipes temporais. ignorância e engano de que sempre os fiéis notaram e motejaram a Herodes. e que rex e dominus têm uma significação e regnum e dominantium outra. composto de todos os impérios. não é ou há-de ser o Império espiritual de Cristo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro senão também temporal. em que era significado o Império Romano. tiveram. antes de receberem a sujeição de Cristo. o que de nenhuma maneira era necessário se o Reino e Império de Cristo fora somente espiritual. crescendo e estabelecendo-se mais a grandeza e majestade da Igreja e dos Pontífices. porque só impérios temporais se derrubam. porque nós não dizemos que o Reino e Império de Cristo 126 . tão cantado e celebrado nos oráculos dos Profetas. mandou primeiro queimar a quarta besta das vinte pontas. quando adiante explicarmos o tempo da ruína desta estátua e outras circunstâncias dela. e não espirituais. não haja de ser também temporal? Este é. Finalmente. que são impérios verdadeiramente temporais. depois de comunicado a seus vigários os Sumos Pontífices. e em outros que também lhes pudéramos ajuntar. Como se pode logo duvidar que este imenso e portentoso Império. e nem por isso deixam de ter o mesmo domínio e soberania temporal que. senão temporal! E tudo isto se verá mais claramente. e não entre o império espiritual e temporal. ocupando e enchendo toda a Terra. como consta do mesmo texto de Daniel. e todos os reinos temporais que dela nasceram. antes ajudou muito e se ajudou de seus aumentos. que na mesma sentença e na mesma palavra se varia o sentido e suposição dela.

damos por testemunhas os mesmos livros dos Padres. XVII. porque estes têm por fim a conservação e felicidade da Terra. qui possessionem sibi vindicat. diz. sed talis ut homines reges faceret. E S. que é geral para muitas matérias.Anexo:Imprimir/ História do Futuro é espiritual. Vindo às autoridades (como dizem) dos Padres concedemos facilmente que são poucos os lugares de seus escritos em que se ache expressamente e em próprios termos o Reino temporal de Cristo. Jerônimo. mas porque deste não quis ter exercício aquele Senhor que era juntamente Senhor e Mestre. sed regni Cæsaris se non esse hostem ostendit. ceterarunque rerum omnium. Cipriano Adversus Judaeos cap. E mais claramente que todos S. para maior clareza da doutrina escolástica. Lib. cap. Dos quais termos se abstêm ainda hoje os que escrevem com estilo mais polido e levantado. e isto é ser império de Cristo e dos Cristãos. no Livro IV. como nos primeiros tempos da Igreja faziam aqueles santíssimos e doutíssimos Padres. como dizem as palavras tão repetidas do nosso texto. cap. XXVI. Cui enim alteri dictum est: «Postula a me. como também se não acha o da graça santificante do mesmo Cristo. ponderando o lugar do nascimento de Cristo. inculcadas e persuadidas as virtudes que pertencem ao Reino espiritual de Cristo. nam secundum potestatem in propria venit. S. et dabo tibi gentes hæreditatem tuam et possessionem tuem terminos terræ?»Possessionem et dominium cede huic. e para que nos livros dos autores cristãos se não achasse menos a propriedade e majestade da eloquência que tanto se venera nos escritores gentios. non data possessio. quia -ejus regnum terrenum non est.Non tu ille de quo Propheta: «Et erit omnis terra possessio ejus?» Christus hic est. Não faltam contudo lugares muito ilustres aos Padres. explicando as palavras de Cristo: Regnum meum non est de hoc mundo. sed caeli et terra:. recebidas entre os teólogos. pois esse Reino e não outro é o que há-de ser eterno e glorioso no Céu. e 127 . tu curam ilius habe. . S. nos quais também se acharam freqüentemente louvadas. E S. no Livro III De consideratione escrevendo ao Papa Eugénio: Dispensatio tibi super illum credita est. et jure creaturæ et merito redemptionis et dono patris. para convidarem a todos a lerem de boa vontade e com gosto seus escritos.. sobre os Evangelhos. explicando muitos deles com palavras menos latinas (por não dizer bárbaras) qual é a palavra temporal. sobre Jeremias. non secundum potestatem sed secundum naturam. e outras cousas de igual importância e dignidade. Bernardo. v. Ireneu. IV. conhecendo e tendo pela maior excelência deste felicíssimo Reino. S. na Homilia VIII. Agostinho. senão ainda em quanto temporal. senão que é espiritual e temporal juntamente. diz assim: Regem se esse non negat. no Tratado XIV sobre o mesmo Evangelista: Erat quidem Rex non talis qualis ab hominibus fit. mas porque em seu tempo não estavam em uso aqueles termos que depois inventou a Teologia. e o de Cristo e dos Cristãos a do Céu. não porque os santos tivessem diferente parecer. Desta razão. Outras muitas sentenças semelhantes a estas se vêem em outros Santos Padres da mesma e maior antigüidade. Gregório. e os principais e maiores exemplos que nos quis deixar foram do desprezo dele. no Livro XII sobre S. Não próprio senão alheio:Alienum. que não só em quanto espiritual. não porque aqueles santos negassem à universalidade de seu Império o domínio temporal. V. Hilário sobre o Salmo II. se ordena ao fim último e sobrenatural da bem-aventurança. João. como S. dos quais porei aqui os que bastem a responder a estes e confirmar a verdade da nossa. em que falavam do Império temporal de Cristo com termos Não menos expressos que os que se alegam pela parte contrária. distinta da união hipostática.. Cirilo. e nisto se distingue dos reinos meramente políticos e humanos. S. XXII.

e os segundos fingindo as propriedades de Deus humanado conforme sua vaidade e apetite. no Sermão I De nativitate Virginis: Quandoquidem Christus rex est qui natus est ex virgine idemque et Dominus et Deus. e só não tinha os acidentes da vaidade e falsa grandeza com que se sustentam os outros reinos do Mundo. João Crisóstomo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro S. dicens: «Domini est terra et plenitudo ejus. et regira domina et deipara proprie et vere censetur. XI. Bernardo. Senhora nossa. reconhecem e veneram na Virgem. não quanto ao poder. Neque enim hastas. exércitos. quale mundi hujs reges habere conspicimus. E S. os primeiros interpretando erradamente as Escrituras. Atanásio. ut non traderer Judæis. ea propter et mater quæ eum genuit. grandeza e majestade exterior de rei temporal. non enim istum neque alium quempiam circa se habuit ornatum. o Império e Monarquia universal de Cristo.. Aos quais com razão podemos acrescentar todos aqueles autores antigos e modernos que. eosque despectabiles secum circumducendo. regina cælorum et domina mundi jure esse probutur. neque clypeatas ostendit militum catervas: non equos regalibus phaleris insignes. galas. Esse aparato e pompa exterior de riquezas. E se alguns dos mesmos Santos Padres . império ou domínio. non cunas auro ostroque fulgentes. sicut Propheta testatur. o império e domínio de todo o Mundo. Basta. e não o império e domínio dele sobre todo o Mundo. Lucas. e este é o sentido próprio e germano em que Cristo disse a Pilatos: Regnum meum non est de hoc mundo. Ambrósio no Livro III. em que. senão quanto ao temporal e da Terra. no sentir comum dos Padres. por isso é tão freqüente nos escritos dos Padres a diferença do seu Reino aos reinos do Mundo. principal mente em livro s apologéticos ou tratados. cum certe non istius regni ille rex esset. criados. 128 . não só quanto ao Reino espiritual e do Céu. Como logo explicou na mesma razão que deu do que tinha dito: Si ex hoc mundo esset regnum meum. como gente costumada a fazer deuses à sua vontade. diz assim elegantemente: Quonam pato magi ex stella illa Judaeorum regem illum esse didicerut. e quão sem controvérsia. sobre S. um lugar de S. porque o Reino de Cristo verdadeiramente era deste Mundo e de todo o Mundo. cavalos. O mesmo S. palácios. parece que diziam e ensinavam o contrário (como verdadeiramente parece). no Sermão sobre as palavras do Apocalipse . orbis terrarum et universi qui habitant in eo». coches. senão quanto ao aparato. senão de hoc mundo. Serm. por todos os Padres que pudéramos trazer em comprovação desta nossa advertência. ministri utique mei decertarent. o qual os Judeus esperavam e os Gentios desejavam em Cristo.. não negando a Cristo Rei. como dizíamos. E S. quia filius ejus in primo instanti suæ conceptionis monarchiam totius promeruit et obtinuit uriversi. Bernardino de Sena. Dos quais lugares todos e muito mais claramente destes últimos se mostra quão assentada cousa era. no Tomo I. é o que os Santos negavam no Império de Cristo. falando do Rei que vieram adorar a Belém os reis e da diferença humilde de seu estado. a título de Mãe de Cristo. E como a controvérsia e disputa daqueles tempos era contra este escândalo dos Judeus e contra esta estultícia dos Gentios. que são os nomes injuriosos ou gloriosos com que uns e outros afrontavam a cruz e humildade de Cristo. Nihil quippe tale monstravit. deve-se advertir que falavam do Reino de Cristo. o domínio e império ainda temporal sobre todo e1e. mas engrandecendo esse mesmo império pelo desprezo da pompa e aparato vão em que põem os reis da Terra sua grandeza e majestade.signum: Maria (diz) eo quod mater Dei est. cap. I: Virgo beatissima omnem hujus murdi meruit principatum et regnum. sed vilem hanc prorsus vitam egit ac pauperem: duodecim tantummodo homines. Onde se deve notar que não disse Cristo: Regnum meum non est hujus mundi.

pertence ao mesmo Cristo em quanto homem o domínio e império universal de tudo o criado. apontam-se os títulos e razões do Reino temporal de Cristo O principal fundamento dos que não admitem no Reino de Cristo o império e domínio temporal. mas ungido por natureza. os títulos por que é devido e compete a Cristo em quanto homem o Império e domínio supremo. Assim o disse o mesmo Deus por boca do Profeta Rei: Postula a me et dabo tibi gentes hæreditatem tuam et possessionem tuam terminos terræ. o quarto por compra. in femore. o sexto por eleição e aceitação de todos os homens. sendo Cristo filho natural de Deus. e para que se veja manifestamente a debilidade deste fundamento e tragamos à nossa sentença os mesmos autores que em seguimento deles abraçam a contrária. na parábola da vinha: Hic est hæres. sem algum outro concurso ou condição extrínseca. é Cristo Rei e universal Monarca do Mundo por natureza. ou por ser quem era. e de outros grandes Padres que. a qual se inclui essencialmente na natureza de Cristo. escrito. porque por meio da união da divindade à humanidade. nós veneramos nela a autoridade de David. Por isso Cristo no Apocalipse trazia o título de Rex regnum e Dominus dominantium. da parte de Deus nem da parte dos homens. que significa a geração humana. porque o ser ungido por Rei e universal Monarca do Mundo não lhe pertencia por imposição divina ou humana. venite et occidamus eum. e não o de Cristo. Capítulo VI) por Padre Antônio Vieira Prossegue a mesma matéria. para mostrar que o ser rei de todos os reis e senhor de todos os senhores lhe convinha e era seu por sua própria natureza. que quer dizer salvador. oleo laetitiae pre consortibus tuis e a explicação de S. de que Deus é absoluto Senhor. Gregório Nasianzeno. como iremos mostrando pela mesma ordem. Este é o único fundamento do Padre Vasques. E por isso o nome que lhe puseram na circuncisão foi de Jesus. não reconheceu na unção da união hipostática mais que a propriedade e energia da metáfora. senão por natureza própria sua. ou por ela (sem ninguém o constituir) é Rei e Senhor e Monarca supremo de todos os reis. não só espiritual.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 129 História do Futuro (Volume II. Do qual Vasques diz Salazar que foi o primeiro a quem a Teologia deve os sólidos e verdadeiros princípios em que fundou o Império temporal de Cristo. E posto que Arriaga. é por não haver título. que assim o disse no Salmo XLIV: Unxit te Deus. senão também temporal de todo o Mundo. como também no seguinte: . E neste título convêm todos os teólogos acima alegados. o terceiro por doação. E S. conforme o texto de S. e por ela fica constituído. Salvador por obediência. como eles dizem. assim o entenderam. o quinto por guerra justa. como diz o texto. Deus tuus. Primeiramente. São estes títulos seis. Paulo. O segundo título do Império de Cristo é por herança. E o mesmo Cristo. todos legítimos e conforme o direito: o primeiro por natureza. Paulo — quod si filius et haeres — lhe pertence a Cristo o título de herdeiro do domínio e império universal do Mundo. E assim como antigamente se faziam ou consagravam os reis pelo óleo que eram ungidos. Agostinho e S. apontaremos e provaremos aqui. porque. falando também de Cristo: Quem haeredem universorum per quem fecit et sæcula. assim a união hipostática em Cristo foi uma verdadeira e própria unção com que juntamente com o ser e a natureza recebeu o poder e a Monarquia do Mundo. ao qual compita e seja devido aquele domínio. Livro II. Porei suas palavras no capítulo seguinte pelas não repetir duas vezes. o segundo por herança. de todos os reinos e de todos os impérios do Mundo. com a maior brevidade que nos for possível. a quem geralmente seguiram todos os que depois dele escreveram. que quer dizer ungido. por não faltar ao costume de impugnar tudo.

e o alcançaram e ensinaram antes deles. como agora mostrarei. sed si cuiquam maxime competiit Christo. quem semper expectaverunt sibi regem f ore in lege promissum. antes. e este consentimento comum nunca jamais o houve no Mundo. porém. Paulo de Cristo. senão verdadeiramente escravos seus. prometendo aos que fizerem esta detença não perderão o fruto do tempo que nela gastarem. João. com que Cristo. mas ao primeiro domínio se segue necessária e naturalmente o segundo. Judæi (diz o texto) consenserunt eum Simonem esse ducem suum [. era esperado de todo aquele povo como seu verdadeiro Rei e Senhor. como acima dizíamos. capítulo III. Contudo digo que não faltou ao Império e Monarquia universal de Cristo este último título do consentimento e aceitação universal dos homens. eleição ou aceitação. e Platão no Diálogo de Regno e nos livros — De republica.. no capítulo III: Sciens quia omnia dedit ei pater in manus. como dizem alguns teólogos. assim como o que é senhor do escravo fica juntamente sendo de todos os seus bens. O mesmo Cristo no capítulo. Mas em Cristo parece que não pode ter 1ugar este título porque.. E no capítulo. o poder e jurdição suprema de eleger e nomear príncipe.prova desta geral aceitação e consentimento com que todo o povo hebreu tinha recebido por seu Rei ao prometido Messias.. quando querem viver juntos e politicamente. aceitação e expectação geral. arrostando a opinião de muitos e graves autores. Alberto Pighio (para que de todo não entremos neste novo caminho sem alguma guia) no Livro V da Hierarchia Ecclesiastica. e de grande glória não só de Cristo mas nossa. e no salmo. o título em que funda este direito é o consentimento.] 130 . por ser pensamento novo e matéria até agora não tratada.: Data est mihi omnis potestas in cælo et in terra. O Anjo à Senhora.. verdadeiro Messias. por lume natural. traz o mesmo Alberto Pighio a história do Livro I dos Macabeus. a cujo Reino e direito não queriam prejudicar. não é possível havê-lo. S. pois verão por grandes notícias e não vulgares da Antigüidade quão certa e concertadamente concorre a novidade e verdade desta nossa consideração ao maior estabelecimento do Reino de Cristo. Aristóteles no Livro III das Políticas. Nec Pilato (diz este autor) nec Caesari ullum legitimum jus in regnum Judaeorum. em cujas comunidades. parece que cai mais imediatamente sobre os homens que sobre o Mundo. era necessário que os mesmos homens conviessem todos este consentimento. no Salmo pouco antes alegado: Dabo tibi gentes hæreditatem tuam. à qual é necessário abrir os alicerces e lançar os primeiros e sólidos fundamentos. comprados com o preço de seu sangue: empti enim estis pretio magno: O sexto e último título do Império de Cristo dizíamos que era por consentimento. E para . no I capítulo da Epístola aos Hebreus. que o seriam somente até que viesse o Messias. sendo o Monarca universal de todo o Mundo e de todos os homens. no capítulo II de S. aceitação e como eleição de todas as nações do Mundo. as quais palavras entende S. E peço licença aos que quiserem ler este discurso para meditar um pouco mais nele. os quais têm para si que Cristo foi legitimo Rei do Reino de Israel. o de doação. Este título é o mais natural e jurídico entre os homens... O título da compra. assim no Velho como no Novo Testamento. o qual se acha mais expresso que todos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro É o terceiro título. Capítulo XIV. prometido aos primeiros Patriarcas da sua nação.. que é o quarto. que pelo título da Redenção não só ficamos vassalos deste soberaníssimo Monarca. Lucas: Dabit illi dominus Deus sedem David patris ejus et regnabit in domo Jacob.: Omni subjecisti sub pedibus ejus. Assim o tem a comum sentença de todos os juristas teólogos.. E é conclusão certa na teologia. pôs Deus. como autor da natureza.: Omnia mihi tradita sunt a Patre meo. em que se refere como os Judeus por consentimento comum elegeram por seu príncipe Simão e seus descendentes com a cláusula.

como entendem uniformemente todos os autores católicos. e como tal o esperava. nam ad ejus usque aduentum Simoni atque e jus posteritati regnum stabilierunt. Sobre as quais palavras conclui assim o dito autor: Vides omnium Judeorum votis et expectatione semper expectatum Christum et Messiam in lege promissum. diz assim: Non auferetur sceptrum de Juda et dux de femore ejus. nam cum ardentissime Messiam expectarent. donec veniat qui mittendus est. entenderam também sempre todos os Hebreus. desejo e consentimento comum com que era esperado de todos por seu legítimo. capítulo II. e a mesma espectação acerca do Reino e Monarquia universal de Cristo sobre todos eles.. como logo mostraremos. no. em respeito de todo o Mundo e de todos os homens e nações dele. et ipse erit expectatio gentium: «Não faltará o cetro de Judá nem príncipe de sua descendência até que venha o que há-de ser mandado. que é o ponto e suposição em que fundamos este novo título. apontarei somente dois. velut expresse protestantes in ejus praejudcium et injuriam nihl se velle facere. porque assim o explicou S. capítulo XII): . falando do Messias prometido. ideo pblico totius gentis decreto in ipsum sua suffragia conjecerant et in regem elegerant. e o mesmo desejo. o mesmo desejo e a mesma espectação. Alonço de Mendoça acima citado. na bênção que lançou Jacob a seu filho Juda. pela espectação. quod illi adventanti legitimo jure deberi significaverunt. nam dicunt ex consensu et quasi electione populi judaici Christum fuisse illius gentis regem. assim como em respeito do Reino de Israel. assim concorreu e concorre o mesmo título no Reino e Monarquia universal de Cristo. como consta da História Sagrada. deixados outros muitos textos de menor clareza. Assim explica em próprios termos esta sentença de Alberto Pighio. porque todas estas circunstâncias e condições concorrem no exemplo alegado (o qual não é semelhante se não o mesmo) e o mesmo temos nas eleições dos dois primeiros reis de Israel. ungido. prometido e dado por Deus. e depois novamente aceitos. et tenacissime crederent regem itsum futurum temporalem. et veniet desideratus cunctis 131 . Paulo na Epistola aos Hebreus. espectação e como eleição com que todo o povo judaico tinha aceitado como seu verdadeiro Rei o futuro Messias. referindo-se a Pighio) alio titulo Christi regnum ab aduersariis vindicant. De toda esta sentença assim entendida me não serve mais que o exemplo e o modo de dizer ou filosofar. Saul e Daniel. e antes da vinda de Cristo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro in aeternum. cujas palavras quero também referir aqui. aclamados e cada um deles ungido pelo mesmo povo. De maneira que o título com que tão grande teólogo e jurista defende o direito de Cristo ao Reino de Israel é aquele geral consentimento.. que se não podiam desejar nem ainda fingir mais expressos. E que em todos os homens e nações do Mundo houvesse geralmente o mesmo consentimento comum. falando da mesma vinda de Cristo (como é de fé que falava. no qual. O primeiro é do capítulo penúltimo do Gênesis.» E o Profeta Ageu. concorreu ou pode concorrer em Cristo o título da aceitação e como eleição geral daquele povo. os quais por primeiro foram ungidos pelo Profeta Samuel por mandado de Deus. regem sibi fore. et movebo omnes gentes. porque não pareça a acomodação da dita sentença levada de algum modo por nós ao intento em que nos serve: Alii (diz Mendoça. e este será a espectação das gentes. supremo e verdadeiro Rei. no I e II Livro dos Reis. nos quais houve o mesmo consentimento comum. Nem impede ou encontra a verdade ou legitimidade deste título o ser o mesmo Rei Cristo primeiro eleito. e digo que. donec surgat propheta fidelis.ego commovebo caelum et terram et mare et aridam.

antes de Cristo vir ao Mundo. o vinham adorar e reconhecer. senão somente aos Hebreus.muito menos todas elas. e moverei todas as gentes e virá o desejado de todas elas» De sorte que. pois antes de Cristo vir ao Mundo. outros os fazem da Pérsia. e não só por Rei particular dos Judeus. conforme profecia de David: Reges Tharsis et insula numera offerent. e como tal o esperavam todos. e por isso como a rei verdadeiramente seu. quando não façam alguma violência aos mesmos textos. e por isso como o Rei verdadeiro e Senhor universal de todos os reinos e de todas as nações do Mundo. senão o esperado e desejado de todos os povos e de todas as gentes. Mas de qualquer modo que seja. reges Arabum et Saba dona adducent. Esta é a razão e o mistério por que os três reis do Oriente (em que se representavam. Pois se eram reis gentios. Porque aquelas palavras reges Tharsis et insule. É tão forçoso e ao parecer tão evidente este argumento que. não só a hebréia. veniet desideratus cunctis gentibus. vieram adorar Cristo e oferecer-lhe tributos. 132 . senão por Monarquia universal de todas as outras nações e reinos do Mundo. o que se não verifica sem grande impropriedade nos reis da Arábia e Sabeia com respeito da Palestina. esperassem e desejassem o Messias antes da sua vinda. e de nenhum modo sujeitos ao domínio da república hebréia. outros da Etiópia. Eu tenho por mais provável que ao menos parte deles eram de regiões mais distantes. que razão ou motivo tiveram para vir adorar um menino que eles mesmo conheciam e diziam que era Rei dos Judeus? Ubi est qui natus est rex Judaeorum? A razão e motivo que tiveram foi (como bem notou Almaino) porque sabiam e criam que aquele rei dos Judeus novamente nascido não era rei particular (como os outros reis hebreus) de uma só nação ou de um só reino. S. e render-lhe a devida obediência e vassalagem: debitam ei seu vero eorum regi et domino prestantes obedientiam. Sobre a nação daqueles reis. as quais. não só era Ele o desejado e esperado do povo de Israel. vencidos da força dele os maiores intérpretes da Escritura. outros da Média. as três partes do Mundo até aquele tempo conhecido) sendo gentios. e por certo modo de eleição segunda e humana escolhido depois de Deus para seu futuro Rei e Senhor. senão as dos gentios a tinham aceitado e querido. Monarca e Senhor universal de todos os reinos e de todas as nações. e argüir contra esta nossa suposição (como argüiu S. De sorte que antes de Cristo nascer e aparecer no Mundo. o mar e todo o Mundo. Agostinho contra este último texto) que não podia ser que as nações dos Gentios. e verdadeiramente da nossa Índia Oriental. excogitavam aos dois textos referidos as explicações que neles se podem ver. e quando somente estava profetizado e prometido já às nações do Universo. com que as nações dos Gentios todas (geral e moralmente falando) ao menos algum tempo esperassem e desejassem a vinda do prometido e futuro Rei. conforme a significação mais recebida. porque todos o esperavam por seu Rei e natural Senhor. Daqui a um pouco (diz Deus) «moverei o céu e a terra. Jerônimo quer que fossem da Arábia Feliz. e se eram só de uma ou de diferentes nações.Anexo:Imprimir/ História do Futuro gentibus. porque aquele erit expectatio gentium e aquele veniet desideratus cunctis gentibus verdadeiramente significam própria espectação e próprio desejo. senão Rei. o certo e sem controvérsia é que todos eram reis gentios. como diz a glossa. querem dizer reis ultramarinos. nem a fé ou a esperança de que havia de vir se tinha anuncia do ou manifestado às nações dos Gentios. Só vejo que podem reparar com muita razão os doutos. ao menos não enchem o sentido de suas palavras. há variedade entre os Doutores. e era desejada de todos a sua vinda: Ipse erit expectatio gentium. e .

E para que se veja que não era cousa impossível nem dificultosa ser a vinda do Messias desejada e esperada geralmente de todas as nações gentílicas. Eutímio. Jerônimo. etc. junto ao mar Oceano. quae per generationes studiorum hominum patribus referentibus filiis suis habebatur deducta. como se vê nos termos que falaram os discípulos ou embaixadores do Baptista. irscripta nomine Seth. ver em Orígenes. . cujos três filhos. Audivi aliquos (diz ele) referentes de quadam scriptura. no qual. no Sermão 157. ou a todas ou a quase todas as nações de todo o que naquele tempo se chamava Mundo. Até aqui este autor. João Crisóstomo. que entre os Gentios se conservava. quoniam erat quaedam gens sita in ipso principio Orientis juxta Oceanum. pois é certo que com a mudança das línguas não perderam os homens a memória nem a ciência. Procópio. enquanto se conservou unido. e que só refere a fama. também com elas se espalhou pelo mesmo Mundo aquela noticia e esperança recebida de seus antepassados. apud quos ferebutur quaedam scriptura. sed potius delectante. O outro meio por onde os Gentios puderam vir em conhecimento da vinda e império universal do Messias. tomando esta tradição mais perto da fonte. que encheram o Mundo. S. mas com efeito chegou. sobre S. mostrarei aqui os modos e os meios mais prováveis e certos por onde o conhecimento e esperança do futuro Messias não só podia chegar. erant isti de genere Noe. Mas temos para maior confirmação dele o testemunho de S. e os dons que se haviam levar e oferecer ao Rei nascido que ela significava. o qual se conservava em uma nação das últimas partes do Oriente. antes aprova a tradição do futuro Messias. e depois que na Torre de Babel se dividiram os homens e as línguas. Teofilato. depois de Abel. não nega. Leão Papa. et muneribus ei hujusmodi offerendis. Máximo. e que todas estas notícias se tinham conservado entre os doutos e estudiosos daquela gente por tradição de pais a filhos. de apparitura hac stella. S. porém. o qual querem muitos que seja S. e assim se cumpriu uma e outra profecia. que os Judeus esperavam. e referindo-se aos tempos de Set. S.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Assim é e assim foi. an alium expectatamus? 133 . e que neste livro estava descrita a aparição futura daquela estrela. derivada desde Noé. que o nome com que vulgarmente chamavam ao Messias era o Esperado. sed de prisca sanctorum traditione majorum. quando perguntavam a Cristo: Tu es qui venturus es. foi a grande comunicação que em todas as partes do Mundo tiveram sempre com os mesmos Gentios. Mateus. declarando o meio por onde os magos puderam entender que a estrela significava o Messias e que este havia de nascer na Judéia. chamado o Imperfeito. S. e se começaram novas nações. Este discurso é tão natural que não havia mister autor. Sem. et si non certa tamen non destruente fidem. E posto que não tem por certo aquele livro. continuou também unida a mesma tradição. Anselmo. Cam e Jafet foram os segundos povoadores do gênero humano. Non chaldea arte.S. Tomás e S. II. como se pode. filho terceiro de Adão. S. Esta é a opinião comum dos Padres. por ser de tão duvidosa antiguidade. ou o que há-de vir. Pedro Crisólogo. o qual. E o autor do Imperfeito na humildade. e assim digo se devem entender ambas em toda a capacidade do seu sentido próprio e natural. diz que tinham aprendido e sabido assim por doutrina e tradição de seus maiores. entre os quais era tão vulgar e celebrada aquela esperança. Gregório Nasianzeno. O primeiro meio é a tradição continuada desde Adão até Noé. Basílio. e os mesmos Gentios com os Judeus. Ambrósio. conta haver ouvido de certo livro escrito com o nome do mesmo Set. cujas palavras citaremos depois. e da nova estrela que havia de anunciar o seu nascimento. Cipriano. S. por deixar imperfeita e não acabada a obra que comeu.

e se conformam com o exemplo da Rainha de Sabá. em ti se vêem homens brancos. Pontos. iam contar e ensinar a suas terras e príncipes o que dele tinham ouvido e aprendido. et ipse fundavit eam Altissimus? Dominus narrabit in scripturis populorum et principum. em ti se acham todos os homens de África. Asianos. homens de todas as cores. soubemos que acudiram ao convento e ouviram a primeira pregação de S. depois de ouvir a Salomão. Que gloriosas cousas se contam de ti (diz David) e se escrevem nas escrituras de todos os povos. horum qui ferunt in ea. cap. que. que seria no tempo de seu filho Salomão. porque conhecem a Cristo. ainda havia de ter o mesmo Salomão um descendente que fosse mais sábio e maior que ele. pois só no dia de Pentecoste. mas também as passeiam os príncipes — populorum et principum! Mas o que sobretudo é digno de maior memória. Mesopotamios. como os Etíopes. como são tantos outros estrangeiros. et Babylonis scientium me. 134 . que isso quer dizer homo et homo. Ecce alienigenæ et Tyrus et populus AEthiopum hi fuerunt illic. que é mais. dezessete gêneros de homens de línguas e nações diferentes — Partos. em ti homens de todas as outras cores meãs. Mas quando nos faltavam estes testemunhos do Testamento Velho. Capadoces. depois de edificado o templo. et ab universis regibus terræ qui audiebant sapientiam ejus. Elamitas. Et veniebant de cunctis populis ad audiendam sapientiam Salomonis. sendo tão admirável a sabedoria e grandeza de Salomão. homens de todas as nações e partes do Mundo. e de todas estas gentes. E quem poderá duvidar que um dos principais mistérios que Salomão ensinava naquela cadeira universal do Mundo era o da fé e esperança do futuro Messias. é que todos estes. Frígios. diz o Texto Sagrado no III Livro dos Reis. vindo a ti. IV. e como tal concorriam a ela de todas as partes infinitas gentes de todas as nações e ainda de todas as cores. aprendem o que dantes ignoravam. porque o mesmo Cristo é o que falava neste Salmo por boca de David. como dizem comumente todos os intérpretes. bastava um só do nosso para abundantíssima prova das muitas nações de Gentios que vinham ordinariamente e residiam em Jerusalém. e que a maior maravilha que levavam para contar em suas terras os que tinham ouvido aquele famoso oráculo era que. Persas. que por isso se chamava Umbellicus terrae. como são os de Etiópia. em ti os da Europa.. Isto é o que tanto celebrava David naquela cidade em cuja fundação e formosura tinha ele tão grande parte: Glorosa dicta sunt de te. depois de ouvirem e admirarem em presença a sabedoria de Salomão. como são os asiáticos. ó cidade santa. filho e descendente seu. Panfílios. ao som daquele trovão do céu. ó cidade de Deus! Em ti se acham todas as diferenças de homens. Numquid Sion dicet: Homo et homo natus est in ea. como os Tírios. que vinham de todos os povos e de todos os reis da Terra a Jerusalém pessoas enviadas por eles (que é certo seriam os maiores sábios dos mesmos povos e reinos) os quais. primeira maravilha do mesmo Mundo. não só freqüentam tuas ruas os do povo. como são os de Babilônia. e sabem o que dantes não sabiam. plusquam Salamone! Assim o dizem expressamente neste lugar . quando menos. E se no tempo de David era tão freqüentada a cidade de Jerusalém de todas as nações do Mundo. Memor ero Rahab. Pedro. Este é o sentido literal das palavras scientium me. homens de todas as línguas. e o que sobretudo te faz gloriosa. em ti homens negros. foi a primeira que pregou nesta fé e esperança do Messias no seu Império de Etiópia. Judeus. e muito mais a segunda. que era uma protestação pública dos que a professavam. se o mesmo Salomão não fora maior maravilha! Para ver e ouvir estas duas maravilhas.. e em sinal da mesma fé introduziu em todo ele a circuncisão. civitas Dei.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Era Jerusalém antigamente a mais formosa cidade e o maior império do Mundo situado no meio de todo ele. em ti os da Ásia. Medos.

Africanos. Cretenses. se não fundasse tanto no receio de sua multidão que no medo de suas profecias. enfim. à Terra de Promissão. et senes ejus prudentiam doceret. que foi em Abraão. et de regno ad populum alterum. a Jacob em Mesopotâmia. Com os Assírios 135 . porventura até aquele tempo mal cridas. entraram livres. de entradas. dos Gregos e dos Romanos. Passados. dos Persas. que senhoreavam o Mundo. e não conservava a quarta parte da grandeza a que nos tempos de sua maior opulência tinha chegado. para que fossem três pregadores daquele primeiro Evangelho. pusesse escola de sua sabedoria. II dos Atos dos Apóstolos) audivimus unusquisqe linguam nostram in qua nati sumus? Parthi et Medi. de confederações. ou como três evangelistas que anunciassem às gentes a boa nova da mercê grande que Deus tinha . et AElamitæ. de presentes e de outros tratos e correspondências políticas. Judaeam et Cappadociam. e algumas vezes mais estreita do que quiseram. que chamavam com nome geral prosélitos. quæ est circa Cyrenen.prometido fazer a todas. filhos de Jacob e cabeças dos tribos. Isaac e Jacob a vinda do Messias. Pontum et Asiam. et AEgyptum et partes Liyæ. prometendo-lhes que em sua descendência seriam abençoadas todas as nações do Mundo: Benedicentur in semine tuo omnes gentes terrae. de pazes. que quer dizer novos. e no mesmo tempo pôs a Providência divina aqueles três Patriarcas em diferentes nações e províncias: a Abraão em Canaã. primeiro tronco e pai de toda ela. concorreram e floresceram no mesmo tempo os quatro impérios ou monarquias dos Assírios. cidade de Jerusalém e o povo e república dos Hebreus estava quase arruinada. saíram vencedores. e já pode ser que a crueldade de Faraó. que seria nos tempos passados? Mas se importou muito para se estender a notícia do Messias por todo o Mundo a comunicação que os Gentios tinham com os Judeus em suas próprias terras. et qui habitant Mesopotamiam. e que aí por mandado do rei. Assim trouxe Deus naquele tempo pelo Mundo estas quatro testemunhas de suas promessas de reino em reino e de nação em nação. quando isto aconteceu. como diz David. Mas no tempo daquele comprido cativeiro Não havia casa no Egito em que o cativo não fosse mestre do senhor. Revelou Deus por três vezes sucessivamente a Abraão. de guerras. assim como hoje os judeus convertidos à Fé de Cristo se chamam cristãos-novos . Judaei quoque et proselyti. Cretes et Arabes. como notou o mesmo Profeta: Et pertransierunt de gente in gentem. já a. e com todas elas tiveram grande comunicação os Hebreus. Onde se deve muito advertir que. et advene Romani. Ajuntou depois disto a fome em Egito os doze irmãos. Arabes e outros convertidos das gentilidades. E se agora era tão freqüentada de nações estrangeiras. onde tivesse por ouvintes todos os príncipes e sábios egiptianos: Ut erudiret principes ejus sicut semetipsum. As maravilhas que depois viram nos Egípcios é certo que acrescentariam fé às esperanças dos Hebreus. audivimus eos loquentes nostris linguis magnalia Dei. E porque ao numero dos três Evangelhos não faltasse o primeiro. Romanos. como a de Herodes. Cirenos. Phrygiam et Pamphiliam. continuaram cativos. muito mais ajudou e adiantou a mesma notícia a muito maior comunicação e freqüência que os mesmos Judeus tinham e continuaram sempre nas terras dos Gentios.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Egipcios. Et quomodo nos ( diziam todos estes no cap. a Isaac em Gerara. onde permaneceram até verem o cumprimento delas em Cristo. desde que nasceu e começou no Mundo a nação hebréia. que passaram entre as quatro nações imperantes e o reino ou povo hebreu. Todas as histórias sagradas estão cheias de embaixadas. permitiu a mesma Providência que por extraordinários caminhos fosse José levado ao Egito.

porém. como escreve Paulo Orósio. que concorreram com Ciro. e não cabendo nos estreitos limites da sua própria terra. de Neemias. com que eram levados e transmigrados a terras e regiões estranhas cousa poucas vezes vista em nações inteiras. E notam comumente os Padres e expositores que ordenou ou permitiu a Providência divina este desterro ou dispersão geral de todos os cristãos de Jerusalém pelas cidades e lugares daquelas províncias. foi o de Salmanasar. quae erat Jerosolymis. Heliodoro. que concorreram com diversos cônsules de Roma. Com os Gregos. cuja largura e comprimento. de que se nomeia na Escritura Sagrada somente Lúcio. com Demétrio. com Ful. de Zorobadel. no tempo de El-Rei Oseas . ficasse tão crescida e arreigada. Assim lemos no cap. como lemos nos mesmos Livros dos Macabeus. por este meio tão natural e ao parecer não pretendido. como consta das mesmas capitulações feitas entre uma e outra nação. Severo Sulpício e outros autores latinos e hebreus.Anexo:Imprimir/ História do Futuro notemos de Ezequias. de Simão e Jónatas. que estavam bem no coração de toda a Ásia. que muitos deles se dividiram por todas as terras orientais 136 . em tempo de Jeconias. como consta do IV Livro dos Reis e da história de Judite. com os dois Antíocos. tiveram muito particular trato e comunicação os Judeus. e juntamente instruídos e alumiados os Gentios. crescendo e multiplicando-se a nação hebréia. é certo. com Salmanasar. de Joaquim e do sacerdote Eliacim. et omnes dispersi sunt per regiones Judae et Samariae:. que concorreram com Alexandre Magno. de que já dissemos. E a razão desta providência foi para que. não falando no do Egito. A primeira foi dar-lhes muitos filhos e pouca terra. no qual foram levados os dez tribos desde Judéia até as terras dos Medos e dos Assírios. se espalhasse e estendesse por todas as nações do Mundo. VIII dos Atos dos Apóstolos que se levantou uma grande perseguição na igreja de Jerusalém. de Esdras. com Nabucodonosor e com Baltasar. Prometeu Deus a Abraão que multiplicaria sua descendência como o pó da terra e como as estrelas do céu. de Judas Macabeu. não chegava a oitenta léguas da nossa medida. Com o mesmo fim ordenou a sabedoria e justiça divina que os maiores e mais gerais castigos daquela nação fossem desterros e cativeiros. como consta do I e II Livro dos Macabeus. com os Romanos. Finalmente. e levasse a elas a primeira luz da fé de Deus e da esperança de Cristo: e este é o mistério ou a energia de primeiro se haverem de multiplicar como pó e depois como estrelas. de Acáz. mandadas pelos Romanos à Judéia. de Oseas. E não só com estes quatro estendidíssimos impérios. que Deus deu e repartiu aos doze tribos para sua habitação foi a terra chamada de Promissão. O primeiro e principal desterro e cativeiro. de Simão e Jónatas. juntamente com eles assim espalhados ou semeados por aquelas terras. como consta do I e II Livro de Esdras e da História de Ester. e posto que o maior corpo daquela gente teve o sucesso que depois se verá. como adiante largamente contaremos. A terra. Ptolemeu e Trifon. concorrendo Deus para este fim com disposições de mui particular providência. escritas em tábuas de bronze. e foi assim que de doze netos de Abraão se formaram os tribos e destes cresceu e se multiplicou a mais numerosa nação que jamais houve no Mundo de um só sangue. em tempo do Sumo Sacerdote Jado. Com os Persas. para que o alumiassem no meio das trevas em que todo estava. com Dario e com Assuero. se plantasse nelas a Fé e depois. gue concorreram com Berodac. para que. por ocasião da qual se dividiram e espalharam os Cristãos por todas as regiões e terras de Judéia e Samaria: Facta est in illa die persecutio magna in ecclesia. mas com todas as nações do Mundo. em tempo de Judas Macabeu. tomada em sua maior extensão. para que por este meio ficassem castigados os Judeus. de Matatias.

E destes temos o testemunho da Sagrada Escritura no cap. onde em nossos tempos depois de 2300 anos. Não só entre a gente popular mas nos maiores ministros e príncipes. onde os mesmos Hebreus estavam cativos. X de suas visões). e nos fardos de mercadoria que levavam. Nos autem (diz o edicto) a pessimo mortalium Judaeos neci destinatos. comprando e vendendo. E aqui se entenderá o mistério com que um dos anjos custódios da nação hebréia. metia também a sua o Salvador do Mundo. como filhos alfim daquele pai que. como se vê nas palavras do edicto de El-Rei Assuero ou Artaxerxes. e com eles a fé do verdadeiro Deus. que por malícia e vingança de um mau e soberbo privado — Aman — contra a mesma nação se tinha mandado executar. Princeps autem regni Persarum restitit mihi viginti et uno diebus. sem uns nem outros o pretenderem. que professavam. lhe deu por causa da dilação daquele despacho a resistência que fizera por muitos dias diante de Deus o Anjo Custódio do reino dos Persas. metendo-lhes em casa.. pela fé e conhecimento das cousas divinas que de sua conversação e doutrina (ainda sem particular estudo) se lhes pregavam. que. na qual se permitia (posto que não se justificava) para com as nações estrangeiras. com que mandou revogar a sentença de morte. et filios altissimi et maximi semperque viventis Dei. e levados a Babilônia.Anexo:Imprimir/ História do Futuro daquela vastíssima parte do Mundo. e fazer-se patrão e senhor do maior morgado do Mundo. se vê claramente quão grande fruto faziam com sua presença nas terras onde estavam cativos e desterrados. fez sua fortuna. de que é bom exemplo a China. e o gênio indústria e inclinação tão particular que teve sempre esta nação ao comércio e mercancia. ou desejo de adquirir riquezas. Cuidava Benjamim que só levava trigo no seu saco. honra e sujeição ao verdadeiro Deus que os Judeus adoravam. Desta inclinação dos Judeus se serviu a Providência divina para os levar suavemente às terras e regiões mais remotas. e levava nele o trigo e mais o cálix de José. e com tão pouco cabedal como uma escudela de lentilhas soube adquirir por indústria o que lhe tinha negado a natureza. e nos mesmos imperadores supremos. orando ele apertadamente pela liberdade do povo. sendo aquele império dividido em 127 províncias. em todas elas e em todas suas cidades estavam espalhados os Judeus.] sed alieno. que era esse o nome de José no Egito: Vocabit eum lingua egyptiaca Salvatorem Mundi. XVI do Livro de Estér. as drogas do Céu entre as mercadorias da Terra. se achavam judeus daquela transmigração com todos os sinais dela.. e os introduzir e misturar com todas as nações. em tempo de El-Rei Joaquim. para que esta maior liberdade ou impunidade de adquirir ou multiplicar fazenda fora de sua pátria os convidasse a sair dela e os arrebatasse voluntariamente às terras estranhas onde com eles se transplantasse a verdadeira fé. conhecimento. et usque hodie custoditur. Nas quais palavras. era o grande proveito espiritual que os gentios persas conseguiam com a presença e comunicação dos Judeus. E a razão desta resistência. cheias todas de fé. que falava com o Profeta Daniel (como se lê no cap. XXIII do Deuteronômio: Non fænerabis fratri tuo ad usuram [. 137 . Assim saíam de Judéia os mercadores. que era droga naquele tempo que só nascia em Judéia. sed e contrario justis utentes legibus. penetrando até as províncias de que então nem muitos anos depois houve notícia. qual era Assuero ou Artaxerxes que firmou aquele edicto. cujus beneficio et patribus nostris et nobis regnum est traditum. como neste lugar notam todos os expositores modernos. O segundo foi no tempo de Nabucodonosor. Nem se deve passar em silêncio a cobiça natural dos Judeus. em que os dois tribos que haviam ficado foram também cativos. como escreve o Padre Trigantio nas suas Relações da China. in nulla penitus culpa reperimus. E já pode ser (se o pensamento me não engana) que fosse este o intento de Deus naquela lei do cap.

as teve abertas e francas? O primeiro rei de Portugal que se intitulou rei do comércio da Etiopia. quando quer passar a religião de um reino a outros. E em quantas províncias achou o Evangelho fechadas as portas e. houve de caminhar (como é tradição) por cima das ondas. como muitos querem. e Eneias levava às costas a Anquises. era urna droga que só se dava então naquela terra. querendo pregar na China. mas sei que não é cousa nova em Deus. como direitos ou gabelas daquela mercadoria? Não me atreverei a o afirmar assim. Assim entravam os negociantes hebreus em Judéia ricos e acrescentados com as drogas mais preciosas de todo o Mundo. diamantes. Africa. ou fosse. Quando voltavam. quando iam. por serem da mesma nação. na Pérsia. a salvação. E se estes dois autores. nos enriqueceu com o que trazia do Céu. e assim deu princípio àquele admirável comércio em que depois. e o que principalmente levavam de Judéia para o mesmo Mundo. que levou do Brasil à Índia o Evangelho. ou fosse Ofir a Índia. posto que tão alegados e seguidos de todos os que escrevem. que muito mais ricas iam do que voltavam.pela riqueza e opulência de suas minas Isto vinha buscar a cobiça. Josefo. Tomé. na Arábia e na Etiópia. S. porque não teve quem o levasse. e aquilo vinha trazer a Providência. diz que a maior parte de todas as ilhas e terras firmes maritimas e mediterraneas da Asia. traziam ouro. diz que a nação hebréia tinha cheia toda a redondeza da Terra: orbem terrarum replevit. e o comércio leva às costas os pregadores. traçou que o pregador entrasse como negociante. a nossa Espanha. Assim começou Deus a espalhar o conhecimento de sua Fé pelo Mundo. sendo certo então o que depois vimos nas frotas das nossas Índias. ou fosse a América.Anexo:Imprimir/ História do Futuro E que seria se a este título justificasse Deus as usuras que permitia aos Hebreus nas outras nações. Isto levaram as frotas celebradas del-Rei Salomão quando navegavam a terras de Ofir. rubis. a esperança do Céu. depois que o comércio bateu a elas. saiba que os mesmos testemunhos se leram nas Escrituras Sagradas ainda com palavras mais universais e de maior encarecimento. mediterraneas. Asia. da África e da Europa eram habitadas de Judeus: Itaque si exorat mea Patria tuam clementiam præpter ipsam. a graça. insulares. os sacramentos. as verdades do Evangelho. no Livro XI de suas Antiguidades. diz assim a Relação ou Relatório de suas 138 . sitas in diversis orbis tractibus. os desterros e a estreiteza da terra própria foram as três ocasiões principais por que os Judeus se saíam e Deus os derramava por todas as terras e nações do Mundo. parecerem a alguém suspeitosos e dignos de menos crédito. se não era a terra de Israel. quando não havia comércio. para que a Fé tivesse lugar como mercadoria. Anquises levava os deuses na mão. alias civitatis demereberis plurimas. pérolas. e o comércio leva os pregadores. e o segundo Apóstolo do Oriente. Quando os deuses de Tróia passaram a Itália. que era a Fé e conhecimento de Deus. No edito que passou Assuero para que morressem todos os Judeus sujeitos às terras de seu Império. De maneira que o comércio. prata. E Filo Hebreu. Se não houvesse mercadores que fossem buscar a umas e outras Índias os tesouros da terra. naquele memorial ou livro que intitula De Legatione ad Caium. Naaman Siro trouxe de Damasco as suas azêmolas com carga de ricos presentes para oferecer a Eliseu e levou-as carregadas de terra de Israel. Arábia. Europa. meter neles a Fé às costas do interesse. quem havia de passar lá os pregadores que levam os do Céu? Os pregadores levam o Evangelho. tomando de nós o que tínhamos na Terra. levavam a Fé de Cristo. porque era santa aquela terra. Pérsia e dia foi o que introduziu a Fé na Índia. maritimas. Os pregadores levam a Fé aos reinos estranhos. império famosíssimo já naquela idade .

E no capítulo VI do mesmo livro se faz expressa menção das sinagogas diferentes que dizíamos: Surrexuntur autem quidam de Synagoga. e ali se tinham as pregações. et per sabbata tria disserebat eis de Scripturis. o assento dos tribunais. como hoje é Roma da Nova. mas no qual texto. senão que cada uma das comunidades dos Judeus pertencentes a estas províncias tinham a sua sinagoga própria. homens religiosos de todas as nações que cobre o céu. et Cirenensium et Alexandrinorum. mas se mostra também com a mesma clareza que os efeitos dessa dispersão era ser pública e notória a todas as nações e reis e a todo o gênero humano a nova lei e nova Fé diferente de todas as outras que os mesmos Judeus professavam. et universarum concordiam natonum sua dissensione violaret. reino corte ou povo notáve1 onde houvesse tanto número de Judeus que só ó que deles assistiam em 139 . e sobretudo era a cabeça da Igreja da Lei Velha. ainda que vivessem em outros reinos. jussimas etc. e que com a novidade de suas leis perturbavam a paz de todas as gentes e de todas as nações:omnium gentiam et universarum nationum. gente por natureza tenacíssima dos seus costumes e ritos. E era tanto o número destas sinagogas em Jerusalém. as disputas. nostrisque jussionibus contraire. e assim como todos os reinos e repúblicas da Cristandade têm seus embaixadores. como advertiu S. as quais sinagogas não eram propriamente igrejas como as nossas (porque o templo era um só e comum a todos. e ainda hospitais da mesma nação. e que desobedeciam os mandados dos reis e eram rebeldes contra todo o gênero humano: adversus omne genus humanum. como refere Lorino. agentes requerentes e igrejas particulares em Roma. Era Jerusalém naquele tempo (e muito mais antes daquele tempo) a corte dos rei. que quando ultimamente foi destruída aquela cega cidade por Tito e Vespasiano. à qual estavam sujeitos todos os Judeus e professores da mesma Fé. Quod cum didicissemus. separada e particular. et turbare subjectarum nobis provinciarum pacem atque concordiam. Asiáticos e Alexandrinos. se acharam nela. que era terra de gentios sujeitos a El-Rei Arctas. como se vê das provisões de S. nas quais palavras se diz votada e expressamente que o povo hebreu naquele tempo estava espalhado por todo o Mundo:In toto orbe terrarum populum esse dispersum. as quais ele foi buscar a Jerusalém contra os Judeus de Damasco. mas eram umas casas grandes e públicas. não se há-de entender que uma só sinagoga fosse dos Libertinos.» para cuja inteligência se deve supor que todos os hebreus que viviam longe de Judéia em diferentes nações. E estas culpas assim relatadas que vêm a ser senão um testemunho público e autêntico de tudo o que imos provando? Porque não só consta delas estarem os Judeus espalhados por todo o Mundo. et contra omnium gentium consuetudinem faciens. Cirenenses. e todas as outras conferências das cousas espirituais ou eclesiásticas. quae appellatur libertínorum. Crisóstomo e outros Doutores. quatrocentas e oitenta sinagogas. Cilicianos. se pode ser ainda mais notáveis: Erant autem in Hierusalem habitantes judaei viri religiosi ex omni natione quæ sub caelo: «Havia em Jerusalém (diz S. videntes unam gentem rebellem adversus omne hominum genus perversis uti legibus. No I capítulo dos Atos dos Apóstolos temos outro testemunho sagrado igualmente universal e por termos.. como se conta no capítulo XVII dos Atos o fazia ou costumava fazer S. a universidade das letras. nem podia ser mais que um conforme a lei). et eorum qui erant a Cilicia et Asia. cada uma de diferente nação. reinos ou cidades populosas tinham em Jerusalém suas sinagogas particulares e distintas. qui novis uteretur legibus. Paulo. assim e muito mais se observava o mesmo uso entre os Judeus. Paulo: Secundum consuetudinem autem Paulus introivit ad eos. Lucas) muitos judeus moradores da mesma cidade. província. onde se ajuntavam principalmente aos sábados. os conselhos. regnum jussa contemneret.Anexo:Imprimir/ História do Futuro culpas: In toto orbe terrarum populum esse dispersum.

no Sermão de dia de Pentecoste. e depois que está convertido. porém. e o davam a conhecer aos Gentios. comunicação e exemplo. e este foi o mistério daquela erudita ignorância. Mateus. ao qual os Gentios chamavam Deus incerto. passou-o em silêncio e disse que lhe não era lícito pronunciá-lo: De quo mihi dicere non est fas. ut faciatis unum proselytum: et cum fuerit factus. e juntamente se prova que com estas suas peregrinações e navegações levavam pelo mesmo Mundo a Fé do verdadeiro Deus. Saturno. ensinados pelos Judeus. Conheciam. levantados entre as gentes mais políticas e celebradas da Gentilidade. consagrado ao Deus não conhecido — Ignoto Deo — o qual Deus não conhecido. «Cercais o mar e a terra para converter um gentio à Fé. criador do Céu e da Terra. era o verdadeiro Deus. vós seis um Deus escondido. Tal era aquele altar que S. Marte. nem faltavam em diversas partes do Mundo padrões desta mesma verdade. diz assim: circuitis mare et aridam. peregrinavam e navegavam por todas as terras e mares do Mundo.» Na qual sentença de Cristo se vê principalmente como os Judeus rodeavam mar e terra. repreendendo a hipocrisia dos escribas e fariseus. e que estes monumentos de Religião e este conhecimento de Deus não conhecido se tivesse derivado aos Gentios da doutrina e trato com os Judeus. o conhecimento da Fé de Deus e esperança de Cristo. os Gentios. mas o Deus dos Judeus não era conhecido de nome.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Jerusalém pudessem formar corpo e comunidade distinta. desta companhia se lhes pegara. Daqui se tira o novo e eficaz argumento de quão espalhados e multiplicados estavam os Judeus por todas as partes do Mundo. na Arábia. como escreve o Cardeal Barónio. Paulo achou em Atenas. vindo a tratar do nome de Deus. como logo lhes declarou o mesmo Apóstolo. que este Deus desconhecido a quem não sabiam o nome era o Deus que criara todas as cousas. facitis eum filium gehennæ duplo quam vos. E estes eram aqueles a quem S. porque lhes estava proibido tomarem na boca o nome de Deus. dos quais convertiam alguns. Desta verdade temos em prova (que não é só suspeita ou conjectura nossa) o testemunho e autoridade do mesmo Cristo no capítulo XXIII de S. aludindo a esta proibição: «Verdadeiramente. Deus absconditus et Salvator — dizia Isaías a Deus. com que. onde. Destes altares havia outros. senão também por indústria e estudo particular de alguns judeus mais zelosos. Mas nesta mesma incerteza com que falou no Deus criador do Mundo. no Livro II de suas Antiguidades. isto é. Vere tu es Deus abconditus. os quais com desejo de aumentar a sua religião e o culto do verdadeiro Deus. porque 140 . isto é. na nossa Espanha e em outras províncias nobres da Ásia e da Europa. ensinai-lhes tais doutrinas que o fazeis mais filho do Inferno do que vós sois. não o nomeou nem determinou o Deus que o criara. nome que se não podia falar nem dizer. Senhor.» E Josefo. provam-no agudamente alguns autores. dizendo-o só absoluta e incertamente: Quisquis fuit ille deorum «quem quer que foi o Deus» que o criou. descrevendo Ovídio a criação do Mundo. e por isso se chamava Inefável. ensinavam e afeiçoavam a ela os gentios. e não só pelo trato. este poeta declarou ser ele o Deus que adoravam os Judeus. Porque os deuses dos Gentios eram conhecidos pelos seus nomes particulares de Júpiter. posto que depois a viciavam os escribas e fariseus do tempo de Cristo com a má doutrina e exemplo que lhes ensinavam. se não por zelo e cuidado particular da Religião. mas Deus que escondido e desconhecido salvais. Pedro. chamou judeus de longe: Vobis enim est repromisio et filiis vestris et omnibus qui longe sunt Vivendo pois os Judeus tão misturados e travados com todas as nações dos gentios. nas Gálias. e finalmente que Não se fazia isto acaso e por ocasião do trato. com o mesmo título de não conhecido. como dizíamos.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro não tinha nome particular com que fosse conhecido e se distinguisse dos outros deuses. Lucas no capítulo X. E para que concluamos este discurso com uma advertência em tal matéria digna de muito reparo. ·os quais consta do capítulo X do mesmo livro e do capítulo XLVIII dos Gênesis. igualou o número dos seus discípulos ao das nações e gentes do Mundo.designavit Dominus et alios septuginta duos et misit illos binos ante faciem suam. No qual número alude Moisés aos filhos de Israel. que mandou diante de si: . para que levassem por todo ele o conhecimento de Deus e a nova de que o Messias era já vindo. responde S. mediu o número dos filhos de Israel. Constituit terminos populorum juxta numerum filiorum Israel. chamando aos Judeus os adoradores de Deus incerto: Cultrix incerti Judæa Dei. Tratou Cristo de dispor a pregação do Evangelho e conversão do Mundo. respondendo a cada um deles uma nação: Quando dividebut Altissimus gentes. 141 . quando Deus. conhecido debaixo do nome de incógnito. E a nova e promessa de que o Messias havia de vir é explicação admirável de outros setenta e dois intérpretes da divina palavra. E dois discípulos. in omnem civitatem et locum.. em correspondência também dos doze filhos de Jacob e dos doze tribos de Israel. introduzindo-se o verdadeiro Deus nas outras nações e andando nelas como disfarçado. com o de todas as outras nações e gentes do mesmo Mundo. porque eles eram os que haviam de levar e semear entre todas elas o conhecimento do verdadeiro Deus. os quais também concordam em que as línguas e nações em que Deus dividiu os homens (como se colhe do capítulo X do Gênesis. que sempre é semelhante a si mesma em casos semelhantes. Jerônimo. Destas. quando separabat filios Adam. que entraram no Egito. E se buscarmos nos expositores sagrados o mistério e proporção deste número. porque esse era o fim e ofício para que foram destinados a todas as nações e tomados e repartidos conforme o número delas. quae ingressæ sunt in AEgyptum. Agora pergunto: E que mistério ou que intento teve a Providência Divina em igualar o número de todas as nações ao dos primeiros hebreus e não em outro tempo ou ocasião. fez aquela divisão conforme o número dos filhos de Israel. em que se referem as famílias dos descendentes de Noé) foram setenta e duas. na confusão da Torre de Babel. senão quando a primeira vez se ajuntaram com os Gentios? O mistério e razão desta providência foi sem dúvida porque tinha Deus destinado aos Judeus para mestres da Fé dos Gentios naquela primeira Igreja. no capítulo XXXII do Deuteronômio diz Moisés que. Assim entendem este lugar todos os Padres e intérpretes. fuere septuaginta. no princípio da Lei da Graça. ficam pontualmente setenta. chamando neste lugar aos filhos de Israel anjos ou embaixadores de Deus. se se tirarem a hebréia e egípcia. quo erat ipse venturus. e. como escreve S. por serem outras tantas (como dizíamos) as nações do Mundo. assim como Cristo. que foram setenta e dois estes novos precursores e embaixadores de Cristo. depois de nomeados os doze Apóstolos. E era conveniente e necessário para este soberano fim que fossem tantos os mestres quantas eram as nações. Temos a confirmação deste pensamento na mesma Providência Divina. dividiu a todos os filhos de Adão em diversas nações e línguas. e crido com o sobrenome de incerto. E estes foram os primeiros rudimentos da Fé que os Judeus semearam entre os Gentios. que são os Hebreus. assim Deus. no princípio da Lei Escrita. e com ele a sentença comum dos intérpretes. os quais. Assim o disse Claudiano. que já estavam unidas e se comunicavam. queria trazer (como trouxe) ao conhecimento da Fé. De maneira que. em lugar de — juxta numerum filiorum Israel — tresladaram — juxta numerum Angelorum Dei »— . que o Senhor. por meio da sua pregação e doutrina. que foram setenta almas: Omnes animæ domus Jacob. elegeu sinaladamente setenta e dois. também poeta latino e gentio..

assim os Assírios. que são também as nossas: Omnes itaque substâncias omnesque materias.Anexo:Imprimir/ História do Futuro O terceiro meio de providência particular com que pôde chegar facilmente e chegou naquele tempo aos Gentios o conhecimento da fé e esperança de Cristo. os Caldeus. a origem. e verá o que delas tomaram. achariam facilmente que não só foram escritas pela lei e observância dos Hebreus. e ainda as mesmas cidades e algumas das gentes. «Tudo o que compôs o estilo dos vossos escritores — dizia Tertuliano aos Gentios — a substância. tendo sempre que entender. Com razão chamou Clemente Alexandrino a Platão o Moisés de Atenas — Moyses Atlicus — porque de Moisés foram tirados todos aqueles lumes que deram a Platão em suas obras nome de divino. dispondo-o assim a Providência. É certo que. historiarum causas et memoriarum . Não lhes podia suceder então às Escrituras divinas o que depois lhes aconteceu com Jerônimo. Aos livros de Moisés se seguiram os outros sagrados. aos Egípcios da África e aos Gregos da Europa. de Moisés. elas o desvelo dos entendidos. em as fazer escuras. as histórias das gentes e das cidades insignes. tudo vencem em muitos séculos de Antigüidade os livros de nossas profecias. os Eveus. os Eteus. Até aqui Tertuliano. venas veterani cujusque styli vestri. assim os Ismaelitas. Agostinho) philosophi gentium nondum erant. os Amorreus. os Egípcios. para que. os Madianitas. e não faltam grandes conjecturas para se crer que Moisés foi aquele prodigioso Mercúrio a quem os Antigos celebraram com o nome de Trimegisto. ipsas denique effigies literarum indices custodesque rerum. a matéria. Quem quiser saber facilmente quão estudadas eram dos Gentios as Escrituras. os vossos sacrifícios. O primeiro livro que viu o Mundo foi o Pentateuco. porque. origines. a que outro fim se faz neles tão freqüente memória de todas as outras nações do Mundo e seus sucessos? Assim temos os Cananeus. os Medos. os Amonitas. os Gregos. delas imitaram e sobre elas fingiram. os Moabitas. inquam. Este livro foi o que fez aos Caldeus mestres da Ásia. os Tírios. dos seus historiadores e ainda dos seus poetas. senão também para lição e estudo de todas as outras nações. fossem uma e muitas vezes lidas. porque ainda não tinha gostado sua doçura. a ordem. Deos vestros. Elas só eram o estudo dos sábios. e os vossos mesmos deuses (e não digo nisto mais senão menos) os vossos templos. os Filisteus. et (puto adhuc minus dicimus) ipsos. sendo um só o Povo de Deus. quando as deixou pela suavidade de Túlio. ainda vencem em Antigüidade os mais antigos filósofos e escritores gentios. Esse foi um dos mistérios de Deus. ipsa templa. de cujos sucessos se não achasse alguma memória no 142 . ordines.. gentes etiam plurasque et urbes insignes. os Persas. para que mais se estendessem por toda a parte e fossem mais celebradas suas notícias. in quo videtur thesaurus collocatus totius Judaici Sacramenti. e os autores que escreveram aqueles livros todos do mesmo Povo. verá quanto as não largavam das mãos. tomou este soberbo e ingrato filósofo a sabedoria mais sublime que o fez o maior da Grécia. os Macedônios. Sírios. que são entre todos quase os últimos. leia com atenção os livros dos seus filósofos. as causas e memórias do que escreveram e até a forma das letras e imagens dos caracteres. et inde etiam nostri. sæculis vincit. et sacra unius interim prophetae scrinium. os Gabaonitas. et oracula. que tudo governa. E não havia antes de Cristo província conhecida ou cidade de grande nome no Mundo. só estes se liam em todo ele. os vossos oráculos. e tudo foi tomado do tesouro das escrituras judaicas. Tempore nostrorum prophetarum (diz S. os Romanos. os Amalecitas. os Jebuseus. se os versados nas divinas Escrituras considerassem diligentemente a matéria delas e a traça e harmonia com que foram ditadas pelo Espírito Santo.. que assim lhe chamou Aristóteles. os Etíopes. foram as Escrituras Sagradas. E como só estes livros havia no Mundo. os dos Profetas. os Fereses. Deste rústico. os Sidónios. elas o entretenimento dos curiosos.

onde estavam conhecendo seus nomes e lendo as fortunas? Bastava só para mover a curiosidade universal de todas as gentes à lição dos livros Sagrados. porquanto trato do doce e não do útil. a da vara de Moisés em serpente. que não exceda uma só voz de Josué. a da mulher de Lot em estátua. que igualem em grandeza e variedade de casos admiráveis a menor parte ou sombra do que se refere nas histórias sagradas? Narraverunt mihi iniqui fabulationes. tão ignorado entre todos os sábios. mas dos fingidos e fabulosos. uma tragédia como a de Aman. e um Elias voando pelos ares em um carro de quatro cavalos. que livros se escreveram jamais. e depois de serpente convertida outra vez em vara? Descreveram as fábulas o dilúvio. serem só eles os que revelaram e descobriram o Mundo o segredo de seu primeiro princípio. nem confiança para o salvar nela.de repente. as rodas e os cavalos tudo de fogo? Que semelhança tiveram aquelas máquinas que se levantaram com nome de maravilhas do Mundo com a portentosa grandeza das que lemos nas Escrituras? Que estátua como a de Nabuco. que jardins como os de Assuero. mas só em nove capítulos de Isaías lemos sinaladamente as profecias de onze nações diferentes. comendo serpentes. assim dos passados nas histórias. sem pôr monte sobre monte. só do que leva o apetite e não do que move a razão. Não falo já de Daniel. parava os rios. de que fugira o Inferno? Que disse das respostas duvidosas do seu Apolo. uma novela ou enredo como a de José? Em que teatro dos Gentios se representaram aparências de tanto artifício como um paraíso terreal sumido no meio do Mundo. que dividia os mares. que palácio encantado como o templo de Salomão. que se iguale com a harpa de David. a divisão das terras. edificado de seus fundamentos sem nele se ouvir o golpe de martelo? Um pavilhão que de dia cobria do sol seiscentas mil famílias. que carroça como a de Ezequiel. como dos futuros nas profecias. Que se podia inventar de maior pasmo aos ouvidos. o carro. Qual poeta se impôs ou traçou jamais uma comédia como a de Job. nem arrimaram escadas ao céu. que falou universalmente de todos os maiores impérios. Mas quando nenhum destes tesouros houvera depositado e encerrado nelas. não digo dos que professam verdade.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Testamento Velho. falando somente do que pertence à história. Que disse a Gentilidade da cítara de Orfeu. que se pareça com os oráculos sempre certos do propiciatório? Que disse das vozes de Eudimião. como a de Jacob? Que metamorfoses ou transformações fingiram como a de Nabucodonosor. uma tocha que de noite as alumiava. do que tudo houvera perpétua ignorância nos homens. obedecida da Lua e do mesmo Sol? O caduceu tão celebrado do seu Mercúrio que comparação teve com os poderes da vara de Moisés. já dissemos que se chamava coluna. um Datão e Abiron tragados da terra. a origem das línguas. E que nação destas haveria que não lesse com grande atenção e cuidado os oráculos daquele famoso profeta. fazia caminhar os montes? Onde se lê tal agravo de onipotência como no tenente daquela vara em quem foi culpa tirar fontes de um penhasco com dois golpes. o nascimento das nações. também ouvidas da Lua. dizia Daniel. porque o podia fazer com uma palavra? Não digo nada dos documentas da Escritura. convertido em bruto. chamadas cada urna por seu nome a ouvir a sentença e a saber da boca de Deus o que lhe estava por vir. mas não tiveram fantasia para meter todo o Mundo em uma arca. que ouvir falar um jumento com Balaão e uma serpente com Eva? Que se podia 143 . e mais ainda não tinha sido o que depois dele se escreveu. a ordem e cronologia dos tempos. Que gigantes fabulosos filhos da terra se atreveram a edificar uma torre como a de Babel. um Enoc desaparecido . se não estivera revelado nas Escrituras. que coluna como a do Deserto. sed non ut lex tua.

arrancando um dente da mesma queixada. aquele que. com uma queixada de um jumento. encomendado com maior ventura à própria mãe para que o criassem a seus peitos? Que maravilha como a da sarça verde e sem arder no meio das chamas. restaurador vítima da sua pátria. Mas que direi das façanhas e cavalarias que. e de entre a lenha e a espada escapando vivo? Que caso tão bem tecido como o de Moisés infante. tomando posto nos braços da Princesa do Egito. Segundo Sansão. sepultou debaixo dele todos os idólatras. porque dedicou todos a Deus. metendo-se intrepidamente com a espada debaixo de um elefante armado. só com trombetas e luzes em cântaros de barro? Que bateria como a dos muros de Jericó. vencedor de trinta e um reis. matou com ele em um dia seiscentos filisteus. a dos meninos de Babilônia tomando fresco na fornalha. Assim obedecem os elementos a quem assim triunfa dos homens. que ver o monstro marinho engolir a Jonas. quando entrou pelas portas de Betúlia com a cabeça de Olofernes. deleitam e suspendem tanto a curiosidade dos homens? Que desafio como o de David. atado sete vezes. que. matou. Mas deixando a guerra. fez brotar dela uma fonte. e depois ficou ali não sei se diga morto. derrubados com os instrumentos dos músicos do templo! Que emboscada como a de Abimelec em que os bosques e as sombras caminhavam juntamente e os soldados com eles? Que vitória como a de Jónatas. em que um só capitão com um só soldado. que Hércules Tebano como Sansão. que comer em uma iguaria todos os banquetes e gostar em um só maná todos os sabores? Que se podia imaginar de maior suspensão e assombro à vista. mil de seus inimigos e ainda matara mais. desde seu nascimento. em campo aberto. Fique à trombeta da fama Josué. dando com o templo em terra. se não fugiram todos? Teve sede Sansão. primeiro foi matador de sua sepultura. e a da serpente do Deserto dando vida aos mordidos só com olharem para ela? Que prudência como a de Salomão em mandar partir o menino para conhecer a mãe verdadeira? Que engenho como o 144 . preso dentro da cidade de Gaza. ainda conhecidas por falsas. levado ao templo dos Filistinos. e o fortíssimo Macabeu. desembarcá-lo a fera vivo nas praias de Nínive? Como estes são os prodígios que se encontram a cada página nos Livros Sagrados. Todas estas forças tinha este bizarro mancebo em sete cabelos. foi Sangar capitão do mesmo povo depois de juiz. aquele que. e juiz depois de lavrador. aquele que. e. de uma só rompeu as cordas e nervos como se foram teias de aranha. e deixou semeando com seus corpos o campo que andava lavrando. e ver dali a três dias surgir a baleia. ver levá-lo consigo ao fundo e desaparecer. lançou a mão direita e esquerda a duas colunas. quebrou com as mãos os ferrolhos e lançou às costas as portas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro fingir de maior lisonja e admiração ao gosto. mas lavrador que. já entregue à fúria do Nilo na barquinha ou naufrágio de vimes. e tão venturoso como o de Isaac posto já sobre o altar. cansado de matar. que história tão admirável como a da casta Susana? Que sacrifício tão lastimoso como o da filha de Jepta. aquele que. pôs em fugida e desbarato o exército inumerável dos Filisteus? Que triunfo como o da galharda Judite. Paremos no valente Eleásaro. fazendo montante do arado. o sangue e o estrondo das armas. se mortalmente oprimido do peso de tamanha vitória. a de Daniel comendo e não comido no lago dos leões. em que degolou de um golpe todo aquele seu exército? Mas passando nós a encontros de maiores forças em que pelejaram os braços e não a indústria. com uma funda e um cajado contra o gigante coberto de ferro? Que batalha como a de Gedeão.

O Salmo II. XLVI e XLVII. E deixando à parte os lugares mais escuros (que esses não os entendiam os Gentios sem intérprete) como se viu no eunuco da rainha Cândaces. e de Cristo em quanto Rei e Senhor do Mundo. que não visse e conhecesse que era prometido naquelas palavras um Rei futuro. o 54. como todas. o 9. de uma só ou algumas nações. a quem estes podiam perguntar a interpretação quando quisessem) o cap. e não Rei como os que costumava ver no Mundo. entre os Gentios. LXVII e LXXXVIII. que gentio havia de haver. tudo raro. XCV. vê-se clara e naturalmente da matéria das mesmas Escrituras.Anexo:Imprimir/ História do Futuro de Jacob em meter as cores pelos olhos das mães. como dissemos. 2. para pintar os cordeiros antes de nascerem? Que indústria como a de Daniel em semear de noite o templo de cinza. os Salmos e os livros de Moisés: Necesse est impleri omnia quae scripta sunt in lege Moysi et prophetis et psalmis de me. todos estes catorze salmos têm por principal assunto o Império do Messias. sem beberem daquelas fontes esta esperança. que como as de David com Saul e as de Cusai com Aquitofel? Tudo nas divinas Escrituras é divino. o II. os dois textos de Daniel. XCVI. XCVII. a clareza com que está apregoado e a pompa e majestade de palavras com que está engrandecido o Reino de Cristo. o 35. Nos Salmos de David. que. o Salmo XCII. e fora matéria imensa de prosseguir e impossível de compreender querer levar por diante os princípios deste não intentado discurso. E quão impossível cousa seja poderem ler os Gentios as Escrituras Sagradas. o Salmo XLV. e com termos que Não admitem outro sentido nem interpretação. senão de todas as gentes e reinos do Universo? E quando todas as outras profecias tivessem alguma escuridade que eles não pudessem entender ou interpretar por si mesmos. de Etiópia (se bem havia muitos hebreus. ainda que fosse sem fé. no estilo e disposição das escrituras do Testamento Velho (tão diversas nesta parte das do Testamento Novo) temperando a alteza e majestade de seus mistérios com o sabor de tantas verdades gostosas e com a variedade de tantas maravilhas tão novas e tão notáveis. e muitos outros de todos os Profetas. por bárbaro e ignorante que fosse. para mostrar de dia nas pegadas dos sacerdotes e seus filhos que eles e não o ídolo eram os que comiam as ofertas? Que subtilezas de Estado tão bem entendidas como as dos Livros dos Reis. disse Cristo aos discípulos que falavam mais particularmente na sua vinda ao Mundo: os Profetas. e como este foi o altíssimo conselho da Providência Divina. fundamentais desta nossa História. como ele era a quem tão de perto tocava aquela felicidade e a quem particularmente estava prometida. o Salmo CII. que não fizesse conceito do que diziam? Mas basta ao nosso intento que o fizessem os doutos e os entendidos. o Salmo XLI. o Salmo IX. Três partes da Escritura. foram ordenadas à vinda de Cristo. para que. o 65 e o 66 de Isaías. tudo maravilhoso. 145 . convidados com o cevo da curiosidade os que ainda não deviam àqueles livros outros melhores respeitos. apenas se acha cláusula em muitas delas que não esteja anunciando esta vinda e este Reino. o 52. mais aludidos que contados. Bastem estes poucos exemplos. é cousa maravilhosa a freqüência com que está repetido. o 53. aprendessem por eles a Fé de Deus e juntamente as esperanças de Cristo. para que deles possa entender o leitor (que é o que só lhe pretendemos persuadir) quão fraca seria a todas as nações dos Gentios a lição dos Livros Sagrados quando chegassem a suas mãos. em que o Reino universal daquele futuro Monarca está expresso e declarado com palavras tão vulgares e tão significativas. o Salmo LVIII. que homem os podia ler com juízo e entendimento.

a primeira vez que Deus apareceu a Abraão e o mandou sair da pátria. tão alheio do lume da razão e tão gentio. e no capítulo XVIII torna a referir Deus esta mesma promessa: . No capítulo XII. e em Jacob. que lendo no Salmo II: Dabo tibi gentes hæreditatem tuam et possessionem tuam ter minos terræ. podia ler estes textos ou ouvir estes pregões tão expressos e declarados do domínio daquele futuro Rei sobre todos os Reis e nações do Mundo. as suas terras e as suas coroas. e foi insigne profeta de Cristo. A qual promessa tornou Deus a ratifica quarta e quinta vez em Isaac. Era Job verdadeiramente gentio. que era o esperado Rei e Messias do Mundo. ao menos não conhecesse aquela esperança? Deixo de ponderar mais lugares de David. et ipse erit expectatio gentium. e particularmente os livros de Moisés. donec veniat qui mittendus est. sempre pelas mesmas palavras..a alegação de Cristo). senão clara e distintamente pelo seu próprio nome de Gentios. senão na de um seu descendente: Benedicentur in semine tuo omnes gentes terrae. e não por termos enigmáticos ou metafísicos. não podiam deixar de vir em conhecimento. com que as nações gentílicas puderam conhecer.. e no Salmo LXXI: Adorabunt eum omes reges terræ. natural da terra de Hus. lhe prometeu que seriam abendiçoadas nele todas as nações da terra: In te benedicentur universæ cognationes terræ. vinte nove vezes lhes repete e inculca o mesmo Daniel esta gloriosa sujeição. eram as que haviam de ser sujeitas a este grande Império. se não cresse aquela Fé. o prometido Messias. Em Isaac no capítulo XXVI: Benedicertur in semsa tuo omnes gentes terræ. et excelsus super omnes populos. no capítulo XLIX do mesmo livro dos Gênesis está o famoso texto já referido um dos dois em que fundamos todo este discurso: Non auferetur sceptrum de Juda. De sorte que em um só livro de Moisés tinham os Gentios seis profecias claras e que claramente falavam com eles. idumeu de nação. que não podiam deixar de ser lidas deles com grande advertência e recebidos com grande aplauso. nas quais se lhes prometia por boca de Deus que seriam abendiçoadas em um homem da descendência de Abraão. filho. digo. Assim que.cum benedicendae sint in illo omnes nationes terræ. os livros de Moisés (que era a 3. e em Jacob. que todos o desejassem e esperassem todos. no capítulo XXVIII: Benedicentur in semine tuo cuntae tribus terræ. omnes gentes servient ei. e no Salmo XCVIII: Dominus in Sion magnus. Que gentio podia haver tão rude. etenim correxit orbem terrae. e no capítulo XXII. e no Salmo XXI: Adorabunt in conspectu ejus universæ familiæ gentium. os dos Salmos e os dos Profetas. em toda esta História. Finalmente. Seja o primeiro exemplo desta luz aquele grande varão mais conhecido pelo testemunho da paciência que pelo lume da profecia. com declaração que não seria na sua pessoa. mas tão dirigidas e encaminhadas todas as nações. e tal conhecimento de Cristo. que gentio. foram muitas revelações particulares daquele mistério com que Deus em diferentes tempos alumiou por si mesmo a vários homens e mulheres de toda a Gentilidade. e com efeito conheceram. O quarto e último meio e mais imediato da Providência Divina. Job. a quem conheceu por universal Redentor: Et scio quod Redemptor mous 146 . nomeadamente dos mesmos Gentios.Anexo:Imprimir/ História do Futuro E porque não duvidassem os Gentios que eles. quoniam Domini est regnum. posto que sejam principalmente históricos e não proféticos. e no Salmo XCV: [Dicite] in gentibus quia Dominus regnavit. neto do mesmo Abraão. falando com eles nomeadamente. finalmente. lhe promete Deus terceira vez a mesma bênção. do Gênesis. lendo os Gentios como liam as Escrituras. que. não só têm por ocasião da mesma história muitas profecias e promessas desta esperança. porque o faremos muitas vezes. em prêmio da resolução e obediência com que Abraão não duvidou de sacrificar seu filho.

» As quais palavras foram sempre entendidas. Este Balaão. que em tempos futuros havia de imperar no Mundo e havia de sujeitar a seu domínio todas as nações dele. por cujo meio a uns e outros fossem manifestos os conselhos divinos. Máximo: Nemo [. qui novit doctrinam Altissimi et visionem Omnipotentis vidit) profetizou claramente de Cristo e de seu império naquele texto. potuit Gentilis agnoscere. intuebo.. Os amigos de Job também eram gentios de outras províncias vizinhas. Quer dizer este autor (e o confirma com o que disseram das Sibilas Lactanio Firmiano e S. suum votum et totam illam futuram seriem praesertim ad salatem mortalium spectantem. e muito famosa. trazia sempre guardada no seio: Reposita est haec spes mea in sinu meo». e esta esperança. principalmente aqueles que para a salvação universal do Mundo eram necessários. illum. e como todos fossem reis e senhores de suas terras (assim lhes chama o Texto Sagrado no capítulo I de Tobias) com aquela suprema autoridade e com o conhecimento e sabedoria que tinham do Céu . si revelante Deo praenuntiare potuit.. assim pelos Hebreus. de um Rei descendente da casa de Jacob. E digo que não só os Hebreus entendiam assim este lugar. como pelos Gentios. pela qual memória ou notícia (diz o mesmo santo) informados os Reis Magos. este gentio. et consurget virga de Israel. como consta da mesma história e do que eles disseram nela.tão celebrado no capítulo XXIV dos Números: Videbo eum. mas não agora. se aos Hebreus pelos Profetas. sicut Israeli per prophetas. olharei para ele. et in carne mea videbo Deum meum.. Quer dizer: «Vê-lo-ei. nas Anotações que fez sobre o original grego dos oráculos sibilinos: Sic prarsus sentio Deum totius universitatis opificem et administrum aeternum. porque. Das Sibilas (profetizas também da Gentilidade) diz assim Xisto Betuleu. e levantar-se-á o ceptro de Israel. senão mau gentio.Anexo:Imprimir/ História do Futuro vivit. sed non prope: orietur stella ex Jacob. puderam argüir do aparecimento da nova estrela o nascimento do novo Rei: . de que se ve facilmente quão notória era no Mundo e quão pública entre os Gentios esta esperança. e também alumiados da mesma fé e confirmados na mesma esperança.] miretur netivitatem dominicam agnovise Chaldaeos quam utique. Similiter et Job—diz Santo Agostinho— eximius prophetarum. assim como os Hebreus tiveram os seus Profetas. conforme a ordem e disposição eterna de sua providência. sed non modo. Notem-se bem estas últimas palavras. e em quem esperou ver a Deus vestido de carne: In carne mea videbo deum meum. já se vê quão ensinados teriam nela a todos seus vassalos. principalmente das que pertencem a Cristo. ita gentibus per Sibyllas ostendere voluisse per idem numen fatidicum.ad intelligendam miraculum signi potuerunt Magi etiam de antiquis Baluam praenuntiationibus commoveri scientes alim esse praedictum et celebri memoria diffamatam. et percutiet duces Moab. quod de illo tempore prophetavit quia Christi deitas habitum nostrae carnis induta est. mas também os Gentios. mas não de perto. tivessem também os Gentios os seus. a memória desta profecia. por ser muito célebre entre eles a notícia deste oráculo. vencerá todos os capitães dos Gentios e sujeitará todas as nações do Mundo. (o qual não duvidou de se chamar a si mesmo auditor sermonum Dei. Agostinho) que comunicou Deus o espírito de profecia a estas famosas mulheres. ou aos Gentios pelas Sibilas.. ou difamada (como diz S. respondo que em muitas cousas particulares. Leão Papa). Dele diz S. vastabitque omnes filios Seth. como ele diz. falaram com termos de 147 . e quão pública seria entre eles a esperança de Cristo Balaão (cujo espírito profético é tão vulgar que não tem necessidade de provas) não só foi gentio. nascerá a estrela de Jacob. E se alguém perguntar curiosamente a quem e por cu]a boca falou Deus mais claramente.

e acabou de dominar o Império Romano. as últimas relíquias de poder em que se conservava o Grego não passaram mais que doze anos. e nós deixamos de os pôr aqui. De muitos lugares e exemplos que pudera trazer desta diferença. e assim foi. no Livro XVIII De Civitate Dei. sem tomar outra licença mais que a de desatar a última letra em duas. Salvador cruz. compreendeu e cumpriu felizmente com todas estas dificuldades. propriedade que falta em muitas outras versões latinas. aqueles livros. qui totius orbis Omnia sceculorum per tempora sceptra tenebit. Estes versos estão em toda a sua propriedade no texto grego. cujo artifício é lerem-se pelas primeiras letras.. C e S. traduzida por Xisto Betuleu. são trinta e cinco e a sentença é esta: Jesus Christus. gazamque retostam. (lacuna do original) No Livro VIII (que é o último) tem a mesma Sibila outros versos mais notáveis do gênero daqueles que os Gregos chamaram acrósticos. XXIII. É a seguinte: Judicii metuet sudans presagia tellus Et Rex ceternus magno descendet Olympo Sublimis carnem mundumque ut judicet. omnem.Anexo:Imprimir/ História do Futuro maior clareza as Sibilas do que os Profetas. antes quão impossível cousa era lerem eles. e não terem notícia da Messias e da esperança e promessa de sua vinda. tão galante é a frase com que o Santo declara o mal falado e mal medido daqueles versos. e fazer de um X. porque não guardam a ordem das letras iniciais. a soberania de seu supremo poder e a Monarquia Universal de seu Reino sobre todos os cetros e coroas do Mundo. Filho de Deus. Rejicient simulacta viri. S. os quais copia este naquele lugar. A de João Bongro. Não se podia descrever com maior clareza o tempo e circunstâncias do nascimento de Cristo. No fim do Livro II diz a Sibila Eritrea estes versos: Sed postquam Roma AEgyptum reget imperioque Fraenabit. debaixo do qual se havia de renovar e restaurar o Mundo. como liam. Carnifer ille homines judex inquiret in omnes. como consta da. Horrida terra vias caeli spinceque tenebunt. e conceito de um Rei e de um Império futuro. servator Crux Jesus Cristo. diz que a primeira versão que chegou a suas mãos deste acróstico era em versos mal latinos. Dei filius. pois. cap. e que se não podiam ter em pé: Versibus male latinis et non stantibus. Rex etenim sanctus veniet. formando ao menos um conceito comum. Depois diz que o Procônsul Flaviano lhe mostrou outros mais conformes às leis da gramática e da poesia. supremo cum Sanctis tempore mundi. porque depois da vitória de Augusto César. para que se veja quão fácil era aos Gentios o conhecimento de Cristo pelos livros ou oráculos das Sibilas. até o nascimento de Cristo. em que venceu a Marco António e Cleópatra no Egito. e não se poderão traduzir na língua latina com o motivo daquelas letras sem alguma variedade. porei somente aqui dois. Diz que nasceria este Rei e daria princípio a seu Império quando Roma dominasse e governasse o Egito. Agostinho.. 148 . Ille domus caecas et Ditis claustra refringet. summi tum summa potentia regni Regis inextincti mortalibus exorietur. Os versos. Unum suscipient numen pravique bonique Summum. e formar-se com elas alguma sentença. nome ou inscrição particular. como se pode ver facilmente de uns e outros livros.

Insurgent valles. é a vinda de Cristo a julgar o . com todas as circunstâncias de grandeza. E mais abaixo se lê a pregação do Baptista.Mundo. Paulo. Não falou com palavras mais claras S. Erumnae et stridor dentis regnabit ubique. consident ardua montis.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Sanctior a mortis jam nexu libera lucem Turba hominum cernet. Velivago nulli cernentur in aequore nautae. no livro II De Divinatione. mortalibus ipsis In terris similis. em suma. scelerosos flamma piabit Ultrix bertetuum: mala quae quicumque patravit Sontica suppressitque diu. Destes mesmos versos faz menção Eusébio Cesariense na Vida de Constantino Magno. argentea luna peribit. majestade e horror que pertencem ao aparato e execução do juízo. Mateus: Verum cum quaedam vox per deserta locorum Nuncia mortales veniet. Rore bonos lustrans bisseni fontis ab unda: Virgaque qua pecori dat ferrea jura magister Carminis auspiciis qui crimina morte piabit Servator Rex arternus Deus ipse patescit. quando disse: In similitudinem hominum factus et habitu inventus ut homo. e Marco Túlio. Atque Dei solio sistetur judicis omnis Turba ducum regumque. Luxus sublimis mortales deseret oras. pluet tum sulphure et igni Omnibus extabunt ligni vexilla verendi Robur et auxilium populo exoptata fidéli: Certa pio generi vita. vaga lympha Solis arescet ripis. quase pelas mesmas palavras de S. Vastam terra chaos stygio monstrabit hiatu. Succendet terram fulmen. producent in auras Deteget et turbis Deus obsita corda tenebris. Ipsum deficiet solis decus astra colore Fusco obducentur. Immensos colles aequabunt marmora campi. que morreu cinquenta anos antes do nascimento de Cristo. natus Patris omnipotentis Corpore vestitus. O sentido dos versos. O mistério da encarnação está com tanta e maior clareza no Livro I dos mesmos oráculos das Sibilas: Tunc ad mortales veniet. quae clamet ad omnes 149 . ast offensa malignis. fontesque dehiscent: Et tuba de caelo tristis clangore sonabit Raucisono mundi clades pereuntis acerbas.

poder e majestade de quem era e de quem o mandara ao Mundo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Ut rectos faciant calles. Sic ait: est illam caelestis gratia mo11i Leniit afiatu: tum virginitatis amatrix Perpetuae magno subito correpta stupore Atque metu trepida pressit formidine mentem. que instituiu e administrou. 150 . as enfermidades que curou milagrosamente. placidis pedibus calcando. açoitado e afrontado com mãos sacrílegas em seu próprio rosto. diz no mesmo lugar: Et brevis egressus Mariae de Virginis alvo Exorta est nova lux. aparecimento da estrela e adoração dos Reis.] Perque feret tacitus cotaphos ne forte sciatur Quis sit. Ut nunquam doincets peccent in jura. Finalmente. assim como tinha declarado o do Anjo. Virgo. Placabit ventos dicto sternetque profundum Insanum. até lhe pôr a coroa (como se esta fora o fim e assunto do seu poema) conclui com estes versos: Ergo ad judicium veniet diciti memor hujus. depois que teve (como ele diz) maiores as mãos. resumindo todas as obras de Cristo. renati. E porque não faltasse com todas estas circunstâncias. a sujeição com que lhe obedeceram os ventos. o sacramento do batismo. Ac primum cortpus Gabriel ostendit honestum Nuncius. o império que exercitou sobre todas a criaturas. horrentemque feret de vepre coronam. e coroado por escárnio com coroa de espinhos.. Deum premio intemerata pudico. fideque. Ad virosa genas praedebit sputa prudentes Verberibusque sacrum tradet proscindere tergum [Viriginem enim castam tradet mortalibus ipse. mortalibus unde locutum Venerit. O nome da Virgem. Collustrans lympha manibus senioribus (?) omnes Cuncta jubens faciet morboque medebitur omni. Persimilem formam portans in Virginis alvum. alegria e pasmo dos pastores. cujus. até o presépio de Belém. compreendendo admiravelmente em tão poucas regras o nascimento virginal de Cristo. sobre as ondas. A embaixada do Anjo à Virgem com o mesmo nome de Gabriel descreve a Sibila no Livro VIII por estas palavras: E caelo veniens mortales induit artus. como da sua Paixão. hinc tali affatur sermone puellam: Accipe. E pelo mesmo estilo vai prosseguindo a história da encarnação. a paciência e humildade com que sofreu ser cuspido. Até aqui a Sibila. assim da vida santíssima. dissimulando debaixo de tantas injúrias a grandeza. os mares que pisou andando placidamente.. segundo as leis da história. animosque refurgent A vitiis et aqua lustrentur corpora cuncta.

nascidos e criados entre os resplandores da Fé e conhecimento de Deus. se acomodou à cegueira com que os Judeus haviam de negar a Cristo. e não nas de Aganipe ou Hipocrene. foi verdadeiramente escrita e dedicada a Cristo. quanto a lemos elegantemente profetizada na IV Égloga de Virgilio. para que o não condenasse a superstição romana como violador da divindade dos deuses.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Tanta como esta é a clareza com que falaram de Cristo as Sibilas. encobrindo e envolvendo o vigilantíssimo Poeta a verdade desta sua fé e pensamento com as figuras e metáforas daquele seu Mecenas. por permissão ou castigo. quae eis ad Christi lumen quasi proluceret: ut quod hic durat. E assim a primeira e mais relevante de todas se funda na união hipostática com que a humanidade sagrada de Cristo está unida ao Divino Verbo. e que debaixo da metáfora de Asínio. era tão vulgar e famosa entre os Gentios a esperança daquele novo Rei e da idade dourada que havia de trazer ao Mundo com seu felicíssimo Reino. quod idem de gentibus dicere non licet. Quem tiver curiosidade de ver a alegoria de toda a Égloga aplicada e explicada de Cristo. conhecido pelos oráculos das Sibilas. qual se não acha maior nem ainda igual nos Profetas. pertinaciae poenas darent.e Lacerda. que nem ainda do mesmo César se puderam dizer sem nota de demasiada adulação e indigna de um tão eminente juízo como o de Virgílio. veritatem occuluerit. que morreu treze dias antes do nascimento de Cristo. veja nos Antigos ao mesmo. qui carminum horum sensum altius sub conspectum divinitatis Dei scrutantur. filho do Eterno Padre. Desta mesma opinião de Eusébio são outros muitos autores. Eusébio Cesareense. et quae jam olim inde a majoribus de diis credita fuiissent. id oraculorum perspicuitate compensaretur? Accedit eo quod (quemadmodum scitur ex Isaia) voluit Deus Judaeis obscuriorem esse Christi adventum. aos quais era necessário se falasse com maior clareza do que aos Hebreus. e sobre todos (lacuna no original). ut in eum obscurarent alque ita sua. rejiceret. e carecendo aqueles de toda a luz e doutrina. Por meio destes oráculos das Sibilas.. Intelligimus autem (diz Eusobio) dicta haec manifeste simul et obscure per allegorias prolata iis. quod Mose et cetera disciplina carebant. tendo também estes ali tantos mestres que os pudessem alumiar e ensinar. Nonne (são as palavras de Castálio) quae de Christo gentibus praedicta sunt ea clariora esse oportuit. Se já não foi (como considera o mesmo autor e o prova com Isaías) que a escuridade dos Profetas. innuere quomodo Poeta. e cita nela os oráculos da Sibila Cumea: Ultima Cumaei venit jam carminis aetas. posto que 151 . como se vê em Platão e Aristóteles. talhado verdadeiramente para poeta de Cristo. e certo são tão extraordinariamente grandes as cousas que o príncipe dos poetas diz naquele poema bucólico. ne quis eorum qui in regio orbe denominabantur. para que entendêssemos que as Sibilas foram as Musas Sicélides que exercitaram cousas maiores.. Sendo a razão desta providência (como bem notou Castálio) a rudeza e ignorância das cousas divinas em que viviam os Gentios. e dos Modernos ao P. filho de Polion. os quais constantemente se persuadem que o sujeito da IV Égloga virgiliana não foi outro senão Cristo. que andavam nas mãos de todos. e que destas fontes bebeu aqueles levantados espíritos. principalmente dos sábios. é de opinião que esta quarta Égloga de Virgílio é toda alegórica... que de versos de Virgílio teceu e compôs felizmente toda a vida de Cristo As razões mais fundamentais e sólidas com que se persuade e converte a verdade deste império temporal de Cristo são as que imediatamente se tiram dos mesmos títulos que acabamos de declarar. culpare posset quod contra patrias leges scriberet. no já citado livro da Vida de Constantino Magno. e a claridade das Sibilas à fé com que os Gentios o haviam de crer.

outra é o merecimento infinito de Cristo. tomou a carne e não contraiu o pecado. se não ainda em quanto homem. v. que facilmente se consideram muito convenientes todas ao decoro e majestade de Cristo. se pôde e não quis. E se Cristo não foi filho de Adão escravo. e um ou outro pensamento fora blasfêmia contra o onipotente amor de tão divino Pai. como as que pertencem ao corpo. em conseqüência do qual merecimento se ajuntou a ele a vontade eficaz divina. assim sobre as cousas e ações concernentes ao espírito. Lucas em Adão. por filho de David. como cabeça dos homens que são compostos de carne e espírito. Mateus começa em David. por filho de Adão. sem exclusão de poder.. Estas razões capitais se podem ajudar e revestir de várias congruências. e se. senão de Adão inocente. não digo já àquele segundo Adão que veio restaurar as ruínas do primeiro. melhor que Salomão lhe foi devido o cetro de Israel. A Adão deu Deus o império universal do Mundo com sujeição e otediência a todas as criaturas dele. e ainda alguma conseqüência indigna e de menos decoro. melhor que Caim e Abel. composto não só de espírito. do Profeta Zacarias. Como negaria logo Deus este mesmo poder. inseparável a todas as suas ações.Anexo:Imprimir/ História do Futuro esta mais se pode chamar natureza que razão. o qual. que antes da falta dele se podem arguir conhecidos inconvenientes. que se deve conceber e admitir na soberana pessoa de Cristo todos aqueles atributos de poder. senão àquele que é imagem e retrato perfeitíssimo de sua sustância: Ipse est enim imago Patris et figura substantiae ejus? Haverá quem se atreva a dizer ou presumir que foi menor o poder de Cristo no Mundo que o de Adão ou que teve Adão poder que faltasse a Cristo? A carne de Adão que tomou Cristo não foi de Adão pecador. et volatilibus caeli. foi inveja. e como investidora absoluta desta suprema e universal potestade. autoridade e soberania alguma. se não de carne. ita eum (Pater) et regem spirituum et corporum etiam fecerit. porque não reteria ao menos o que não perdeu em seu Pai? A geração de Cristo escrita por S. grandeza e majestade. que sem implicação nem indecência se podem considerar nela. que não só em quanto Deus. assim que as razões fundamentais do império temporal de Cristo são três: o ser quem é. se não de Adão senhor. pelo qual lhe eram devidas todas as dignidades e grandezas humanas. Porque o império espiritual de 152 . porque se lhe há-de negar o do Mundo? Finalmente.. que foi o princípio efetivo donde manou e se derivou a Cristo a comunicação liberalíssima. Se os Trajanos e outros imperadores e príncipes do Mundo deram seus impérios e reinos inteiros aos estranhos que adotaram por filhos. antes.ut sicut ipse e corpore et spiritu compositus erat. como havemos de crer nem imaginar que desse Deus só uma parte de seu império e domínio a Cristo. et bestiis terrae. e por S. por Cristo ser verdadeiro e inteiro homem. senão inteiro. que é razão de si mesma. comentando o capítulo IX. o seu merecimento e a vontade divina. e tão fora está deste perigo o império e domínio temporal que admitimos em Cristo. porque. só por ser feito a sua imagem e semelhança: Faciamus hominem ad imaginem et similitudinem nostram. como advertiu o Apóstolo. ut praesit piscibus maris.. porque todos lhe são infinitamente devidos. ut tam late ipsius regnum et imperium pateret quam ipsius Dei. é princípio geral e recebido de todos os teólogos. se não também o temporal que é próprio das corpos: . foi muito conveniente que não só tivesse o Império espiritual que pertence às almas. e seu filho natural e verdadeiro e unigênito? Se quis e não pôde (como em semelhante caso argumentava Agostinho) foi fraqueza. não era justo que tivesse sobre eles o domínio partido. 9. como doutamente disse Stuniga.

O domínio universal que Cristo tinha do Mundo era o que mais subiu de preço os quilates de sua pobreza. logo. por santos e espirituais que sejam. não era necessário exercitar todos os atos particulares delas. para Cristo ser perfeitíssimo mestre e exemplar de todas as virtudes. Porque aquele domínio supremo e universal de todas as cousas fundava-se imediatamente. virtude pode ser. filius autem hominis non habet ubi caput reclinet. que era ser este ato incompatível com a natureza e essência do mesmo Cristo. só tem poder e jurdição indireta sobre as cousas e ações temporais. segue-se que não só não teve o uso das cousas temporais. por supremo e universal que seja. e poder dizer com verdade: Vulpes foveas habent et volucres caeli nidos. alguns que o querem ser. de que Cristo professou ser mestre. nem mais exemplo em Cristo. nós nos contentaremos com que os autores deste escrúpulo. senão desfazê-lo. Não ter uso das cousas do Mundo quem não tem ou teve domínio delas. não consiste só na mortificação ou temperança do uso das cousas temporais. havia outra razão mais forçosa e necessária. ainda que os tivesse ensinado. enquanto estas se ordenam ou subordinam ao fim e conservação das espirituais: e no caso ou suposição em que Cristo somente fosse Rei espiritual. digo outra vez que na pobreza de Cristo. pobre na vida. porém senhor absoluto de tudo quanto há e pode haver no Mundo. se não principalmente na renunciação do domínio delas. necessariamente havemos de dizer e confessar. mas quem queira ser e parecer filho de pobres: Quis est hic et laudabimus eum? Só Cristo e quem tem muito de Cristo. cum te percusserint in una maxilla. se não que também careceu do domínio de todas. E quanto ao reparo da pobreza e desprezo das cousas temporais que Cristo veio ensinar ao Mundo. ainda os mais desprezadores do Mundo! Mas replicam a esta resposta os autores da contrária opinião. que o não poderia fazer livre e absolutamente a seu arbítrio e sem licença do dono dela (se comodamente o pudesse fazer de outra sorte): Indignum autem videtur (conclui o grande Doutor) haec et similia de Christi potestate sentire. e pobre sobretudo na eleição de pais pobres. antes acudiu à calunia de que falsa e sacrilegamente o argüiam. e que espiritual e temporalmente lhe são todos os homens e todas as cousas sujeitas. E pois é certo que foi Cristo consumadíssimo exemplar de todas as virtudes. Não era menos mestre nem menos exemplar Cristo da paciência do que o foi da pobreza. em boa teologia. se contentem com o que se contentou este Monarca temporal do Mundo: imitem a pobreza de Cristo. e muito particularmente desta . e sendo uma das mais altas proposições de sua doutrina na matéria do sofrimento. não ofereceu o Senhor a outra face. no desprezo e abdicação deste domínio é que devia Cristo dar-nos o exemplo da perfeita pobreza. praebe illi et alleram sabemos contudo que. Mas deixada esta estrada geral. quando deram a Cristo a bofetada em presença do Pontífice Caifás. se Cristo quisesse mandar a um homem ou a um anjo uma ação meramente temporal alheia (ainda que fosse para obrar um milagre). oh! que exemplo. como dissemos. oh! que pasmo. e era não só 153 . pobre na morte. e ter menos uso do mesmo Mundo do que os bichinhos da terra. oh! que confusão para os homens. segue-se (como doutamente infere o Padre Soares) que. quanto a renunciação do domínio. na união hipostática. pobre no nascimento. e não queiram mais pobreza. que não é somente espiritual o império e domínio que Cristo tem sobre o Mundo. e dizem que a pobreza evangélica. Sendo logo este sentimento indigno do poder e majestade de Cristo e da soberania de sua pessoa.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Cristo. Muitos há que querem parecer pobres. mas virtude que parece fortuna ou necessidade. se não também temporal. Primeiramente digo que. porque não é nosso intento divertir o argumento.

a jurdição pelo exercício. porque Cristo. como dizíamos da parte contrária. e também muitos da nossa. como quem teve só o domínio e senhorio dele. não todos mas só os que impugnam a nossa sentença. ad. conforme o texto de David: Et nunc. Art. de S.Anexo:Imprimir/ História do Futuro propriedade inseparável. I: Potestas judicis secuta est in Christo regiam dignitatem. logo não teve poder real. porque o ofício de julgar é parte da dignidade de Rei. que vinha a ser totalmente ocioso este império temporal que consideramos em Cristo. O que podia só fazer Cristo era privar-se do uso dele. Porque tão boa conseqüência é esta: Cristo não teve exercício de rei. quia filius hominis est. nem em quanto Rei nem em quanto Senhor. Tomás na Questão LIX. porque neiga contraditòriamente o texto de S. se chama nomeadamente Rei: Tunc dicet Rex his qui a dexteris ejus erunt etc. Resolvem os defensores da opinião contrária. e ao supremo bispo e supremo prelado. descrevendo o supremo e último ato de juízo em que há-de sentenciar o Mundo. sendo de Fé a premissa. Lucas. pedindo dois irmãos a Cristo que julgasse certa dúvida que tinham entre si. posto que o Santo Doutor a não exprima. sed omne judicium dedit filio. Finalmente. para que ponhamos o selo à confirmação desta nossa sentença e acabemos de desfazer as razões ou admirações. que Cristo em toda a sua vida. A premissa é de Fé. nem se serviu de cousa alguma do Mundo. E daqui inferem. e o direito (do modo que pode ser) pela posse. intelligite: erudimini qui judicatis terram. senão parte intrínseca dela. porque a potestade judiciária em Cristo foi conseqüência da dignidade real. e por conseguinte nulo. Reges. e assim como Cristo não podia renunciar nem abdicar de si a própria natureza. logo não teve poder judicial. não só devia dar exemplo aos religiosos que professam renunciar o domínio dos bens temporais senão também aos prelados e bispos. como expressamente ensina S. Antes daqui se forma novo argumento em confirmação da verdade da nossa sentença. E a razão desta ordem natural é. ou colhe demasiadamente ou nada. o Senhor lhes respondeu: Quis me constituit judicem super vos? E a conclusão é contra a Fé. para que no mesmo exemplar aprendessem os religiosos a mortificação do uso e os prelados a moderação do domínio. Por isso o mesmo Cristo. senão também os amigos. Temos neste ponto contra nós não só os inimigos. conserva o domínio e administração dos bens e só periga ou pode perigar na imoderação ou excesso do uso deles. IV. que. assim (diz o Padre Vasquez) não podia renunciar nem demitir de si o direito soberano domínio. Quanto mais qnue ainda no caso em que fora possível na pessoa de Cristo a renunciação do domínio temporal de todas as cousas. E se é certo e de Fé que Cristo tem esta parte da jurdição e dignidade real. porventura que era mais conveniente ao mesmo exemplo do Mundo conservar o domínio sem o uso. como esta: Cristo não teve exercício de juiz. como mestre e exemplar da perfeição evangélica. porque lemos no capítulo XII. E nesta segunda conseqüência. conforme aquele princípio vulgar da filosofia: Frustra est potentia quae non reducitur ad actum Mas começando pela forma desta conseqüência. porque nem fez ato que fosse próprio da dignidade real. Foi logo convenientíssimo que em Cristo se ajuntasse o sumo domínio e o sumo desprezo e abstinência das cousas do Mundo. que renunciar o uso e mais o domínio. e assim o fez tão perfeita e perfeitissimamente como sabemos. é contra a Fé a conclusão. provemos demonstrativamente a causa pelos efeitos. dizem muito douta e conseqüentemente que. a potência pelos atos. cujo estado. sendo de maior perfeição. porque havemos de ser tão estreitos de coração que lha não concedamos toda? Os que admitem ou veneram conosco em Cristo o título e domínio de rei e concedem contudo que não teve exercício dele. não teve exercício algum do império temporal. Paulo: Pater non judicat quemquam. ainda 154 .

não indouta nem indiscretamente. como se vê claramente em muitos lugares e exemplos do Evangelho. e o ouro como a rei. que foi o não querer usar Cristo do mesmo domínio. que. perguntemos a S. ainda que o domínio temporal de Cristo não teve aqueles atos ou exercício positivo que costuma ter nos reis e príncipes da terra. e assim cantou Arato. nem por isso se deve julgar aquele poder por baldado e ocioso. a mirra como a homem. Ambrósio para que quis e mandou Cristo aos Apóstolos que comprassem espadas. e contudo ninguém a nega nem pode negar em Cristo. e não só quanto a jurdicão e domínio. não porque pública e continuadamente o professasse Cristo. porém nós. porque muitas vezes o mais nobre e o mais generoso uso do poder é não querer usar dele. que para poder dizer. depois do maior ato de humildade: Si ergo ego dominus et magister? Desta maneira respondem (e podem responder os que seguem que Cristo não teve exercício algum do império e domínio temporal. e por última confirmação da nossa opinião mostraremos. Bem assim como na humanidade do mesmo Cristo é certo que houve alguma potência. porque serve. Nesta conformidade entendem todos os Padres o mistério das três espécies de ouro. como foi Cristo Rei e Senhor temporal do Mundo. de maneira que neste sentido (que nem é vulgar nem violento) podemos dizer que não careceu Cristo do uso do domínio temporal que nele consideramos. que eram próprios só do legítimo Rei e verdadeiro Senhor do Mundo. de ornar e mais aperfeiçoar o sujeito. e que o uso que teve daquele domínio foi a privação do mesmo uso. E se não. pelo que respondemos negando a suposição. naquele verso que tão 155 . O primeiro seja mandar Cristo. se não em quanto Rei. poeta cristão da primeira Igreja. que os Reis ofereceram: o incenso como a Deus. ainda que não tivesse outro uso mais que não querer o poderosíssimo Senhor usá-lo. como fazem os reis da Terra. tanto que entrou neste Mundo. senão quanto ao uso e exercício dela. E ter o domínio para poder e não querer usar dele (que é um ato heróico de humanidade e modéstia. mas não queria.Anexo:Imprimir/ História do Futuro que a dignidade e jurdição real em Cristo não tivesse ato ou exercício algum em sua vida. nem o haja de ter em outro tempo. para maior exemplo e doutrina nossa? Onde mais bem empregado e aplicado o domínio. chamar os Reis do Oriente pela estrela. não só em quanto Deus. Persistindo na mesma suposição. para que o viessem reconhecer e adorar por Rei. porque o seria o domínio de Cristo. se não mui gloriosamente exercitado. E se aquelas espadas só para este uso não foram ociosas. Para este uso ou desuso quis Cristo a procuração das espadas. ou não querer usar dele. a que podemos chamar negativo. por atos próprios de jurdição e domínio. como falam os filósofos. incenso e mirra. não só em ato primo (como diz a frase dos Teólogos) senão em ato segundo. temos por certo o contrário. se lhes havia de mandar que as deixassem estar na bainha? e responde o grande Doutor que foi para mostrar Cristo que se podia defender e vingar de seus inimigos. Item em receber os tributos que lhe ofereceram os mesmos Reis em reconhecimento da soberania suprema de sua majestade. teve porém um ato excelentíssimo e um exercício contínuo. o qual necessariamente supõe o mesmo domínio) não é tê-lo ocioso. mas porque exercitou alguns atos particulares de império e domínio. porque é perfeição natural da Humanidade. ponderando devagar a história evangélica. como eles mesmos disseram: Ubi est qui natus est Rex Judaeorum? Vidimus enim stellam ejus in Oriente et venimus adorare eum. se pode também dizer. que nunca teve nem havia de ter ato (qual é a potência que há nos indivíduos para a conservação da espécie). ainda que fosse a preço das mesmas túnicas com que andavam cobertos. nunca visto até então no Mundo.

Jerônimo: Aurum. Sacerdote Supremo. Livro II. S. como senhor supremo de todos. e não só do Reino de Cristo absolutamente. Reges Arabum et Saba dona adducent. omnes gentes servient ei. na sua Relatio Theologica de universali Christi Regno. de ungido por Deus. se compõem. et adorabunt eum omnes Regeç terrae. a entrada dos mesmos reis em Jerusalém. quando anunciaram aos pastores: Quia natus est vobis hodie salvator qui est Christus dominus. a coroa de Cristo. E em comprovação deste Reino de Cristo. e mandá-los como súbditos e novos embaixadores seus. que era o lugar onde aquela cidade estava situada? A mesma publicação fizeram os Anjos nos montes e campos de Judéia. nas cortes e aldeias. da qual publicação foram os mesmos pastores os terceiros pregoeiros. aos grandes e aos pequenos. que divulgaram por toda a parte o que tinham visto. Que ato pois mais próprio e positivo de rei. como se colhe claramente do texto de S. e outra coroa de universal Senhor e Legislador in temporalibus. et justitiam tuam filio Regis. et de his quae dicta erant a pastoribus ad ipsos. no Salmo que começa: Deus. e no meio do mesmo Mundo. como larga e eruditamente prova Alonço de Mendoça. Este Salmo se entende literalmente do Reino de Cristo. Finalmente. de anjos. diremos por última conclusão que o Império de Cristo é juntamente espiritual e temporal. judicium tuum Regi da. assinalando-lhes o caminho por onde haviam de ir? Mas passemos do nascimento de Cristo aos dias mais chegados à sua morte. para que vejamos como. Ambrósio. segundo a qual se chama propriamente Supremo Rei. in civitate David. de reis. se mostrou e publicou Rei e senhor de todo ele História do Futuro (Volume II. segundo estas duas jurdições. que mandar-se publicar por tal. com quatro pregões tão públicos e tão notáveis. Recolhendo tudo o que tão largamente temos disputado (que foi necessário ser tão largamente) e reduzindo a concórdia quanto pode ser as opiniões de todos os Doutores. de estrelas. ser ele o Rei prometido aos Patriarcas e anunciado dos Profetas. alega David profeticamente no mesmo Salmo a adoração e tributos dos Reis do Oriente: Reges Tharsis et insulae numera offerent. Lucas:Et omnes qui audierunt mirati sunt. E muito antes David. com que o mesmo Rei se mandou apregoar na praça mais universal de todo ele. se não do Reino e Império temporal. de descendente de David. e que. thus. e o comum consenso de todos os Padres e da mesma Igreja. . myrrham regique hominique Deoque. mas declararam também por to das as circunstancias de salvador. e ultimamente desobrigá-los da palavra que tinham dado a El-Rei Herodes. E a Igreja. S. respondendo·toda a milícia do Céu: Gloria in altissimis Deo ed in terra paz huminibus! Nas quais palavras todas não só apregoaram o nascimento e chegada ao Mundo do novo Rei. e da paz que trazia consigo. Jerónimo. se não um pregão público e um Real! Real! por Cristo Rei do Mundo. myrrham etaurum regium. Capítulo VII) por Padre Antônio Vieira 156 Conclui-se que o Reino de Cristo é espiritual e temporal juntamente. que era Jerusalém. nas cidades e nos campos. no Hino da Epifania: Thus. conforme a explicação de S.Anexo:Imprimir/ História do Futuro bem pareceu a S. que havia de salvar e dominar o Mundo. Agostinho. posto que alguns pareçam entre si contrários. entrando e saindo do Mundo. de pastores. perguntando publicamente: Ubi est qui natus est Rex? que outra cousa foi. e receber adorações e tributos dos mesmos reis. ambas supremas.

e Zacarias viu o Reino e a pessoa. fosse lavada de coroas e de tiaras. foi ungido por sumo sacerdote Arão. como gravemente notou e expressamente disse S. posto que não viu nem lhe foi mostrado a quem se havia de dar. ou estas duas coroas. Daniel viu o Reino e a pessoa que o havia de dominar. como consta do I capítulo de S. porque dos 157 . prior in donis major in imperio. Agostinho no livro II de Consensu Evangelisarum. e a que Isaac quis também dar a seu primogênito Esaú. Nestas duas descendências de Arão do tribo de Levi e de David do tribo de Judá. se conservou sempre o reino e sacerdócio. havia de dar também Jacob a seu primogênito Ruben a mesma bênção. ipsam quoque Mariam de stirpe David a liquam consanguinitatem duxisse dubitare utique non debemus. mas. e por indústria de Rabeca foi dada a Jacob.. foi privado dela. e o número e distinção das coroas. até que a tiara e a coroa. non crescas. e que a tela de que se havia de vestir o Verbo. para que visse o Mundo que. ficando em Judá a benção do reino. Conforme a este direito de sucessão. Lucas. tu fortitudo mea et principum doloris mei. se uniram outra vez em Cristo. Supremo Sacerdote e Supremo Rei. depois de o perder Saul. em castigo da irreverência que tinha cometido contra o tálamo de seu pai. Estas eram aquelas bênçãos tão celebradas e tão pleiteadas que os Patriarcas davam a seus filhos. e um e outro vinculado aos primogênitos. Firmissime tenendum est carnem Christi ex utroque genere propagatam. como depois se cumpriu. que era do tribo de Judá. pois fica contada no I Livro Para maior inteligência desta matéria havemos de supor que. o qual mistério (para maior propriedade e majestade dele) se observou até nos escritores da mesma genealogia de Cristo. in quibus personis apud illum populum Hebraeorum etiam mystica unctio figurabutur. ainda a título de geração natural. os quais. e este o Reino que Nabucodonosor também tinha visto encher o Mundo. como lhe disse o mesmo Jacob: Ruben. rnajor in imperio. et regum et sacerdotum. andou sempre o morgado temporal unido com o sacerdócio.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Este é o Reino universal que Daniel veio dar ao Filho do Homem (que é Cristo). porque na instituicão do Tabernáculo. unindo-se por verdadeira geração no sangue santíssimo de Cristo e sua mãe o tribo real de Judá e o sacerdotal de Levi. effusus es sicut aqua. Desde este tempo se dividiram estas duas dignidades que haviam de estar juntas no morgado ou maioria de um só império (major in império) e o reino e o sacerdócio. que havia de andar encabeçado no primogênito de Ruben. se repartiu em dois filhos do mesmo Jacob. deste tempo da Lei da Natureza. insinuante Luca. De maneira que ordenou a Providência Divina que na geração e ascendência de Cristo se tecesse o tribo sacerdotal de Levi com o tribo real de Judá. Torno a repetir o texto e suponho a história. que foram Judá e Levi. Daqui se entende maravilhosamente o mistério da ascendência e primogenitores de Cristo. que precedeu ao Templo. era ele o herdeiro legítimo do reino e do sacerdócio. como foi a que Abraão deu a seu primogênito Isaac. foi ungido por rei de Israel David. e de ambos se compõe o império (assim o natural como o figurativo) que Ruben tinha perdido. quam dicit de filiabus Aaron. quando se desposou com a natureza humana. e na instituição do reino. Mateus e do III de S. quod cognata ejus esset Elisabeth. porque Nabucodonosor viu somente o Reino e sua grandeza. Este é o que viu mais distintamente que todos Zacarias na sua terceira visão. como direito descendente daqueles sacerdotes e daqueles reis que só eram feitos por Deus.. e em Levi a do sacerdócio. capítulo II. que era do tribo de Levi. Cujus feminae quoniam nec sacerdotale genus tacotur. Cum autem evidenter dicat Apostolus Paulus: ex semine David secundum carnem Christum. primogenitus meus. foram reis e sacerdotes. quia ascendisti cubile patris tui et maculasti stratum ejus. prior in donis.

e chama-se Cristo ungido. depois de S. pertence o homem. como foi ungido Eliseu. como ungido. como. Gregório Papa. que é o animal do sacrifício. Agostinho no livro e capítulo pouco antes citado: Firmissime tenendum est carnem Christi ex utroque genere propagatam et regum et sacerdotum. O nome de Cristo e de Messias. senão pela unção interior. foram duas firmas ou assinados públicos de um e outro império sacerdotal e real. in quibus personis illum populum Hebraeorum etiam mystica unctio figurabutur. Quinto Império do Mundo . que eram as duas maiores. com que o mesmo Senhor foi chamado e conhecido. pertence o boi. Um e outro nome. e chama-se Cristo ungido. que escreveu a geração sacerdotal. e o de Profeta. que é nome grego. a S. que para este lugar reservamos: S. und e Christi nomen elucet tanto ante etiam illa evidentissima significatione praenuntiatum Resolve-se quando começou este Império de Cristo e propõe-se acerca dele uma grande dificuldade. porque foi ungido por Rei e Sacerdote Supremo. História do Futuro (Plano da História do Futuro) por Padre Antônio Vieira 158 Cópia do Ms. com que o mesmo Deus o ungiu na união da divindade com a humanidade. como diz S. qui dicitur Christus. História do futuro. e com todas estas unções foi ungido Cristo. João no capítulo I. quer dizer ungido. ambos têm a mesma significação. Três ofícios achamos na Escritura Sagrada. E agora poremos aqui as autoridades dos Padres. assim o de Cristo como o de Messias. temporal e espiritual. Lucas. Da unção de profeta já dissemos no capítulo VII do I Livro. não porque fosse ungido com aquela cerimônia exterior com que os reis e sacerdotes eram ungidos por mãos dos homens. como acima dizíamos. antes e depois de vir ao Mundo. e Cristo. André a S. e referindo as palavras de S. da Biblioteca Nacional Maquinações de Antonio Vieira jesuíta. que escreveu a geração real. tomo II p. chrisma. id est. são aquelas por que Cristo principalmente se chama ungido. Pedro: Invenimus Messiam (quod est interpretatum Christus) e esta foi uma das erudições em que a Samaritana se mostrou tão letrada: Scio quia Messias venit. 89. entre si unidos. que é o rei dos animais.Anexo:Imprimir/ História do Futuro quatro animais do carro de Ezequiel que significam os quatro evangelistas. Mateus. e a S. Jerônimo e S. que se davam com a cerimônia da unção: o de rei. Esperança de Portugal. que é nome hebreu. A de Rei e a de Sacerdote Supremo. Porque Messias. porque foi ungido Arão. notam comumente todos os Doutores.

ou o do Turco? Resp. Livro Segundo Definição do V Império.a Se o Império Romano há-de durar até a vinda do Anticristo? Resp.a Se o Império de Cristo na Terra é espiritual ou temporal? Resp. que dizemos ser o Quinto.a Se o dito Império é diverso e totalmente distinto do IV Império do Mundo. afirm.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 159 Livro Primeiro Nome. a que chamamos o Quinto? Resp. Questão 4. afirm. que da Terra.a Que Império seja este. afirm. Questão 2. afirm Questão 5.? Resp. Questão 3. é o Império do Céu ou da Terra? Resp.a Se no Capitulo I de Daniel é significado o Império do Anticristo na figura do chamado_ Cornuparvulum? ou o do Anticristo. Questão 3. pode haver no Mundo outro Império que se chame o Quinto? Resp.: Até o de Cristo. e declaração dele Questão 1.a Se o Império de Cristo. que foi o Romano? Resp. afirm.a Se na suposição que o Império Romano há-de durar até o Anticristo. Questão 2. verdade e fundamento deste Império Questão 1. .a Se na Sagrada Escritura está revelado algum Império. que se deva chamar o V. que é espiritual e temporal juntamente.

que pelos príncipes temporais cristãos.a Se há-de Cristo ainda ter alguma hora o exercício do dito império. ou se é possível? Resp. Questão 6. mas que nunca há-de ter o dito exercício pessoal. Questão 5. por sua própria pessoa . e qual seja? Resp.a Se no dito Império espiritual e temporal de Cristo se distingue o domínio. que tem o exercício. afirm. que pelo Sumo Pontífice e mais ministros da Igreja. mas o mediato. Questão 9.a Por que pessoa ou pessoas tem Cristo o exercício mediato do império temporal? Resp. que é possível.a Em que consiste a posse do dito Império? Resp. e vai continuando em todos os que têm a mesma fé. que começou desde os primeiros que creram em Cri st o .a Se teve Cristo exercício do dito império em quanto temporal? Resp. e como se continuou a dita posse? Resp. imediato não. assim espiritual como temporal.a Se teve Cristo exercício do dito Império em quanto espiritual? Resp. e começou desde o primeiro instante da sua encarnação. Questão 12.a Qual seja o dito domínio do Império de Cristo. que é.a Por que pessoa ou pessoas tem Cristo o exercício mediato do império espiritual? Resp. e quando começou? Resp.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 160 Questão 4. problem.a Se tem Cristo hoje exercício do dito império temporal e espiritual. Questão 13. . Questão 7.. que tem sobre todo o Mundo e sobre todos os homens. Questão 10. afirm. posse. Questão 11. que consiste em ser conhecido por fé e obedecido.a Quando começou. Questão 8. exercício? Resp.

que por muitos fundamentos.a Quanta haja de ser a grandeza do Império de Cristo no dito estado? Resp. por autoridade e por razão.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 161 Livro Terceiro Grandeza e felicidades do dito Império Questão 1. sobre todas as gentes e sobre todos os reinos. . que há-de ter outro estado mais perfeito.a Se este Reino e Império de Cristo há-de continuar sempre no estado presente. Questão 8. afirm. meios e instrumentos com que se há-de conseguir o estado consumado do dito Império. Questão 2.a Se hão-de ser todos cristãos no dito estado? Resp. que simultanea e permanente.a Se hão-de ser todos pela maior parte justos no dito estado? Resp. afirm. Questão 7.a Se há-de haver no dito estado paz universal? E em todo o Mundo? Resp. completo e consumado.a Se a dita grandeza há-de ser simultanea e permanente ou sucessiva? Resp. Questão 4. Livro Quarto Causas. Questão 3. Questão 5. que pelas Escrituras. que universal. ou há-de ter outro e mais perfeito? Resp. Questão 6.a Como se prova este estado mais perfeito e consumado do Império de Cristo? Resp.a Porque a opinião do dito estado não é comum de todos os Padres e Doutores? Resp. afirm.

Questão 6. Questão 7.a Se convertidos universalmente os Judeus hão-de ser restituidos à sua Pátria? Resp. a extinção do Turco. Questão 10. Questão 2.a Se nesta conversão dos Judeus hão-de entrar também os Dez Tribos perdidos? Resp. afirm.a Se o primeiro meio da consumação do dito estado seja a conversão universal de todos os homens à Fé de Cristo e a extirpacão de todas as heresias do Mundo? Resp. Questão 3.a Se por meio da dita conversão universal se há-de consumar a união dos dois povos. Questão 8.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 162 Questão 1. afirm. Questão 4. a extirpacão da seita de Mafona? Resp. afirm. afirm.a Se podem os Judeus 1icitamente esperar esta restituição mediante a Fé de Cristo? Resp.a Como se prova em especial a conversão dos Judeus e a extirpação do Judaísmo? Resp. que pelas Escrituras e Doutores. Questão 9. que pelas Escrituras e Doutores. gentílico e o judaico? Resp. Questão 5.a Como se prova em especial a conversão. afirm. que pelas Escrituras e Doutores. e a extirpação de todas as heresias? Resp.a Como se prova em especial a conversão de todos os gentios e a extinpação da idolatria? Resp.a Como se prova em especial a conversão de todos os hereges.a Se é conveniente ao bem da Igreja que a opinião da dita esperança se pratique? Resp. que pelas Escrituras e Doutores. afirm. .

Anexo:Imprimir/ História do Futuro

163

Questão 11.a
Se então se cumprirá a profecia do texto—et erit unum ovile et pastor?—Resp. afirm.

Questão 12.a
Se a causa principal eficiente da dita conversão universal será o Eterno Padre? Resp. afirm.

Questão 13.a
Se concorrerá para a dita conversão o Espírito Santo com especial e nova uncão da divina graça? Resp. afirm.

Questão 14.a
Que parte terá nesta obra a autoridade e intercessão de Cristo e da Virgem Santíssima? Resp. que muito grande.

Questão 15.a
Se o instrumento principal humano da dita conversão será o sumo pontífice santo e muitos pregadores evangélicos? Resp. afirm.

Questão 16.a
Se concorrerá para a dita conversão algum príncipe temporal, com a sua autoridade, o seu poder e as suas armas? Resp. afirm.

Questão 17.a
Se este príncipe temporal será imperador e monarca universal do Mundo? Resp. afirm.

Questão 18.a
Se o dito imperador universal se poderá chamar Vigário de Cristo no temporal? Resp. afirm.

Livro Quinto
Tempo, duração e ordem do dito Império

Questão 1.a
Se o estado consumado do Quinto Império há-de ser antes ou depois do Anticristo? Resp. que antes.

Questão 2.a
Qual dos dois povos se há-de converter primeiro universalmente, para a consumação do dito I:npério, se o gentílico, se o judaico? Resp. que o gentílico.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro

164

Questão 3.a
Quanta seja a duração do dito Império, depois de consumado? Resp. que até o fim do Mundo.

Questão 4.a
Quando há-de começar a dita consumação do Império de Cristo? Resp. que na extinção do Império turco.

Questão 5.a
Se do tempo presente até o da vinda do Anticristo pode e há-de correr um grande número de séculos? Resp. afirm.

Livro Sexto
Terra em que se há-de fundar o dito Império em quanto temporal, e qual há-de ser a cabeça dele

Questão 1.a
Se o dito Império temporal há-de ser na Europa ou em alguma das outras quatro partes do Mundo? Resp. que há-de ser na Europa.

Questão 2.a
Em que província da Europa se há-de fundar o dito Império temporal de Cristo ? Resp. que em Espanha.

Questão 3.a
Em que reino de Espanha se há-de fundar o dito Império? Resp. que em Lisboa.

Livro Sétimo
Pessoa que será o primeiro Imperador instrumento temporal do dito Império

Questão 1.a
Se a dita pessoa que seja imperador será o imperador de Alemanha? Resp. negativ.

Questão 2.a
Se a dita pessoa há-de ser El-Rei Cristianíssimo de França? Resp. negativ.

Questão 3.a
Se a dita pessoa há-de ser El-Rei Católico de Espanha? Resp. negativ.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro

165

Questão 4.a
Se a dita pessoa há-de ser o Sereníssimo Rei de Portugal? Resp. afirm .

Questão 5.a
Se o Rei de Portugal há-de ser El-Rei D. Sebastião? Resp. negativ.

Questão 6.a
Se o dito Rei de Portugal há-de ser El-Rei D. João IV? Resp. problem.

Questão 7.a
Se o dito Rei de Portugal há-de ser El-Rei D. Afonso ou o Infante D. Pedro? Responde-se: Vejo subir um Infante
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and follow this License in all other respects regarding verbatim copying of that document. and replace the individual copies of this License in the various documents with a single copy that is included in the collection. in or on a volume of a storage or distribution medium. sublicense or distribute the Document is void. COLLECTIONS OF DOCUMENTS You may make a collection consisting of the Document and other documents released under this License. but you may include translations of some or all Invariant Sections in addition to the original versions of these Invariant Sections. but may differ in detail to address new problems or concerns. is called an "aggregate" if the copyright resulting from the compilation is not used to limit the legal rights of the compilation's users beyond what the individual works permit. this License does not apply to the other works in the aggregate which are not themselves derivative works of the Document. the requirement (section 4) to Preserve its Title (section 1) will typically require changing the actual title. If the Document specifies that a particular numbered version of this License "or any later version" applies to it. If the Document does not specify a version number of this License. "Dedications". modify. and all the license notices in the Document. provided that you also include the original English version of this License and the original versions of those notices and disclaimers. you may choose any version ever published (not as a draft) by the Free Software Foundation. 8. 7. AGGREGATION WITH INDEPENDENT WORKS A compilation of the Document or its derivatives with other separate and independent documents or works. If a section in the Document is Entitled "Acknowledgements". sublicense.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 6. provided you insert a copy of this License into the extracted document. See 169 http:/ / www. Any other attempt to copy. In case of a disagreement between the translation and the original version of this License or a notice or disclaimer. Replacing Invariant Sections with translations requires special permission from their copyright holders. you have the option of following the terms and conditions either of that specified version or of any later version that has been published (not as a draft) by the Free Software Foundation. Each version of the License is given a distinguishing version number. FUTURE REVISIONS OF THIS LICENSE The Free Software Foundation may publish new. org/ copyleft/ . gnu. and will automatically terminate your rights under this License. modify. or rights. and any Warranty Disclaimers. 10. You may extract a single document from such a collection. from you under this License will not have their licenses terminated so long as such parties remain in full compliance. When the Document is included in an aggregate. TRANSLATION Translation is considered a kind of modification. 9. then if the Document is less than one half of the entire aggregate. You may include a translation of this License. or distribute the Document except as expressly provided for under this License. provided that you follow the rules of this License for verbatim copying of each of the documents in all other respects. However. so you may distribute translations of the Document under the terms of section 4. the Document's Cover Texts may be placed on covers that bracket the Document within the aggregate. or "History". Otherwise they must appear on printed covers that bracket the whole aggregate. and distribute it individually under this License. How to use this License for your documents . the original version will prevail. parties who have received copies. or the electronic equivalent of covers if the Document is in electronic form. revised versions of the GNU Free Documentation License from time to time. Such new versions will be similar in spirit to the present version. If the Cover Text requirement of section 3 is applicable to these copies of the Document. TERMINATION You may not copy.

2 or any later version published by the Free Software Foundation. or some other combination of the three. 170 Referências [1] http:/ / www.Texts. such as the GNU General Public License. no Front-Cover Texts. to permit their use in free software. and no Back-Cover Texts. distribute and/or modify this document under the terms of the GNU Free Documentation License.Anexo:Imprimir/ História do Futuro To use this License in a document you have written.. replace the "with. Version 1. If you have Invariant Sections without Cover Texts.." line with this: with the Invariant Sections being LIST THEIR TITLES. html . If you have Invariant Sections. with the Front-Cover Texts being LIST. A copy of the license is included in the section entitled "GNU Free Documentation License". Permission is granted to copy. with no Invariant Sections. org/ copyleft/ fdl. Front-Cover Texts and Back-Cover Texts. gnu. and with the Back-Cover Texts being LIST. merge those two alternatives to suit the situation. If your document contains nontrivial examples of program code. we recommend releasing these examples in parallel under your choice of free software license. include a copy of the License in the document and put the following copyright and license notices just after the title page: Copyright (c) YEAR YOUR NAME.

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