Anexo:Imprimir/ História do Futuro

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Anexo:Imprimir/História do Futuro
História do Futuro por Padre Antônio Vieira

Índice Volume I
• Capítulo I: Declara-se a primeira parte do titulo desta História, e quão própria é da curiosidade humana a sua matéria. • Capítulo II: Segunda parte do titulo desta História; convidam-se os Portugueses à lição dela. • Capítulo III: Terceira parte do titulo e divisão de toda a História. • Capítulo IV: Utilidades da História do Futuro • Capítulo V: Segunda utilidade. • Capítulo VI: Terceira utilidade. • Capítulo VII: Última utilidade. • Capítulo VIII: Continua a mesma matéria • Capítulo IX: Verdade desta História. Declara-se o modo com que se pode conhecer e saber os futuros • Capítulo X: Resposta a uma objeção: mostra-se que o melhor comentador das profecias é o tempo. • Capítulo XI • Capítulo XII: Dá-se a razão por que em algumas partes desta História se não alegaram padres e seguiram exposições dos escritores modernos

Volume II
• Capítulo I • Capítulo II

Livro I
• Capítulo I: Mostra-se a Quinta Monarquia com a profecia de Daniel • Capítulo II: Segunda profecia de Daniel • Capítulo III

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Livro II
• • • • • • • • Introdução Capítulo I Capítulo II Capítulo III Capítulo IV Capítulo V Capítulo VI Capítulo VII

Plano da História do Futuro
História do Futuro (Volume I, Capítulo I: Declara-se a primeira parte do titulo desta História, e quão própria é da curiosidade humana a sua matéria.) por Padre Antônio Vieira

Nenhuma cousa se pode prometer à natureza humana mais conforme ao seu maior apetite, nem mais superior a toda a sua capacidade, que a notícia dos tempos e sucessos futuros; e isto é o que oferece a Portugal, à Europa e ao Mundo esta nova e nunca vista história. As outras histórias contam as cousas passadas, esta promete dizer as que estão por vir; as outras trazem à memória aqueles sucessos públicos que viu o Mundo; esta intenta manifestar ao Mundo aqueles segredos ocultos e escuríssimos que não chega a penetrar o entendimento. Levanta-se este assunto sobre toda a esfera da capacidade humana, porque Deus, que é a fonte de toda a sabedoria, posto que repartiu os tesouros dela tão liberalmente com os homens, e muito mais com o primeiro, sempre reservou para si a ciência dos futuros, como regalia própria da divindade. Como Deus por natureza seja eterno, é excelência gloriosa, não tanto de sua sabedoria, quanto de sua eternidade, que todos os futuros lhe sejam presentes; o homem, filho do tempo, reparte com o mesmo a sua ciência ou a sua ignorância; do presente sabe pouco, do passado menos e do futuro nada. A ciência dos futuros — disse Platão — é a que distingue os deuses dos homens, e daqui lhes veio sem dúvida aquele antiquíssimo apetite de serem como deuses. Aos primeiros homens, a quem Deus tinha infundido todas as ciências, nenhuma lhes faltava senão a dos futuros, e esta lhes prometeu o Demônio com a divindade, quando lhes disse: Eritis sicut Dii, scientes bonum et malum. Mas ainda que experimentaram o engano, não perderam o apetite. Esta foi a herança que nos ficou do Paraíso, este o fruto daquela árvore fatal, bem vedado e mal apetecido, mas por isso mais apetecido, porque vedado. Como é inclinação natural no homem apetecer o proibido e anelar ao negado, sempre o apetite e curiosidade humana está batendo às portas deste segredo, ignorando sem moléstia muitas cousas das que são, e afetando impaciente a ciência das que hão de ser. Por este meio veio o Demônio a conseguir que o homem lhe desse falsamente a divindade, que o mesmo demônio com igual falsidade lhe tinha prometido. E senão, pergunto: Quem foi o que introduziu no Mundo, sem algum medo, mas antes com aplauso, a adoração do Demônio? Quem fez que fosse tão freqüentado e consultado o ídolo de Apolo em Delfos? O de Júpiter em Babilônia? O de Juno em Cartago? O de Vênus no Egito? O de Dafne em Antioquia? O de Orfeu em Lesbo? O de Fauno em Itália? O de Hércules em Espanha, e infinitos outros em muitas partes? Não há dúvida que o desejo insaciável que os homens sempre tiveram de saber os futuros, e a falsa opinião dos oráculos com que o Demônio

Anexo:Imprimir/ História do Futuro respondia naquelas estátuas, foram os que todo este culto lhe granjearam, sendo certo que, se Deus, vindo ao Mundo, não emudecera (como emudeceu) os oráculos da Gentilidade, grande parte do que hoje é fé, fora ainda idolatria. Tão mal sofreram os homens que Deus reservasse para si a ciência dos futuros, que chegaram a dar às pedras a divindade própria de Deus, só porque Deus fizera própria da divindade esta ciência: antes queriam uma estátua que lhes dissesse os futuros, que um Deus que lhos encobria. Mas que direi das ciências ou ignorâncias das artes ou superstições que os homens inventaram desde a terra até o céu, levados deste apetite? Sobre os quatro elementos assentaram quatro artes de adivinhar os futuros, que tomaram os nomes dos seus próprios sujeitos: agromancia, que ensina a adivinhar pelas cousas da terra; a hidromancia, pelas da água; a aeromancia, pelas do ar, e a piromancia, pelas do fogo. Tão cegos seus autores no apetite vão daquela curiosidade, que, tendo-se perdido na terra os vestígios de tantas cousas passadas, cuidaram que na água, no ar e no fogo os podiam achar das futuras. No mesmo homem descobriram os homens dois livros sempre abertos e patentes, em que lessem ou soletrassem esta ciência. A fisionomia, nas feições do rosto; a quiromancia, nas raias da mão. Em um mapa tão pequeno, tão plano e tão liso como a palma da mão de um homem, inventaram os quiromantes não só linhas e caracteres distintos, senão montes levantados e divididos, e ali descrita a ordem e sucessão da vida e casos dela, os anos, as doenças e os perigos, os casamentos, as guerras, as dignidades, e todos os outros futuros prósperos ou adversos; arte certamente merecedora de ser verdadeira pois punha a nossa fortuna nas nossas mãos. Deixo a astrologia judiciária, tão celebrada no nascimento dos príncipes, em que os genetlíacos, sobre o fundamento de uma só hora ou instante da vida, levantam ou figura ou testemunhos a todos os Sucessos dela. Nem quero falar na triste e funesta nicromancia, que, freqüentando os cemitérios e sepulturas no mais escuro e secreto da noite, invoca com deprecações e conjuros as almas dos mortos para saber os futuros dos vivos. A este fim excogitaram tantos gêneros de sortilégios, como se na contingência da sorte se houvesse de achar a certeza; a este fim observaram os sonhos como se soubesse mais um homem dormindo do que sabia acordado; a este sentido consultavam as entranhas palpitantes dos animais, como se um bruto morto pudesse ensinar a tantos homens vivos. Com o mesmo apetite pediam respostas às fontes, aos rios, aos bosques e às penhas; com o mesmo inquiriam os cantos e vôos das aves, os mugidos dos animais, as folhas e movimentos das árvores, com o mesmo interpretavam os números, os nomes e as letras, os dias e os fumos, as sombras e as cores e não havia cousa tão baixa e tão miúda por onde os homens não imaginassem que podiam alcançar aquele segredo que Deus não quis que eles soubessem. O ranger da porta, o estalar do vidro, o cintilar da candeia, o topar do pé, o sacudir dos sapatos, tudo notavam como avisos da Providencia e temiam como presságios do futuro. Falo da cegueira e desatino dos tempos passados, por não envergonhar a nobreza da nossa Fé com a superstição dos presentes. Finalmente, a investigação deste tão apetecido segredo foi o estudo e disputa dos maiores e mais sinalados filósofos, de Sócrates, de Pitágoras, de Platão, de Aristóteles e do eloqüente Túlio, nos livros mais sublimes e doutos de todas suas obras. Esta era a teologia famosa dos Caldeus; este o grande mistério dos Egípcios; esta em Roma a religião dos áugures; esta em Judéia a seita dos Pitões e Aríolos; esta em Pérsia a ciência e profissão dos Magos; esta enfim do Céu até o Inferno, o maior desvelo dos sábios e maior ânsia e tropeço dos ignorantes; uns injuriando o Céu, e dando trato às estrelas para que digam o que não

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mas de impérios não já fundados. a foi buscar e se serviu de sua má arte. de vitórias não já vencidas. é o que se verá com admiração neste prodigioso mapa descrito: cousas e casos que ainda lhes falta muito para terem ser quanto mais Antigüidade. a mais estendida e continuada acaba nos tempos em que foi escrita. senão que se hão-de render e domar. nós escrevamos a do futuro para os presentes. escreveram os impérios. o apetite de conhecer o futuro! Mas o que mais que tudo encarece a tenacidade deste desejo. onde o passado se termina e o futuro começa. Esta nossa começa no tempo em que se escreve. e tentando os mesmos demônios. e tanto é hoje. No meio de um e outro hemisfério ficam os horizontes do tempo. outro inferior e invisível. pois. José. de nações não já domadas e rendidas. O que ignorou o mundo antigo. O mesmo Saul. e os mesmos que mais severamente negam o crédito às cousas prognosticadas. a mudança. nem com Lívio a dos Romanos. nem haja de bastar já para mais os desenganar e apartar dele: Genus hominum potentibus infidum. porque os amam. Assim foram retratos de Cristo Abel. por isso chamada do Futuro. Nós também havemos de falar de reinos e de impérios. quod in civitate nostra. porque os achem.Anexo:Imprimir/ História do Futuro podem. de ruínas de umas nações e exaltações de outras. que desterrou a Pitonisa. nem com os escritores portugueses as nossas. Impossível pintura parece antes dos originais retratar as cópias. à maior ânsia deste apetite e para correr a cortina aos maiores e mais ocultos segredos deste mistério. conta os sucessos futuros antes de sucederem. que com elas contendiam. de exércitos e de vitórias. et vetabitur semper et retinebitur. a grandeza. disse Tácito. na curiosidade humana. as repúblicas. como o Mundo. senão que vão sempre após eles. a opulência e felicidade. as conquistas. Oh que de cousas grandes e raras haverá que ver neste novo descobrimento! Aqueles historiadores que nomeamos e foram os mais célebres do Mundo. e descreve feitos heróicos e famosos. a qual nos irá descobrindo as novas regiões e os novos habitadores deste segundo hemisfério do tempo. nem com Cúrcio a dos Macedônios. folgam de ouvir e saber que se prognosticam. Desde este ponto toma seu princípio a nossa História. Não escrevemos com Beroso as antiguidades dos Assírios. a ruína ou daquelas mesmas nações. outros inquietando o Inferno (como dizia Samuel). Tanto foi em todas as idades do Mundo. Eles escreveram histórias do passado para os futuros. David. senão que se hão-de fundar. que são estes instantes do presente que imos vivendo. nem com Xenofonte a dos Persas. as vitórias. antes de a fama os publicar e de serem feitos. a declinação. 4 . as resoluções. para que revelem o que não sabem. que são os antípodas do passado. as batalhas. os conselhos. pomos hoje no teatro do Mundo esta nossa História. é considerar que. não tenha bastado nenhuma experiência. Isaac. O tempo. Para satisfazer. tem dois hemisférios: um superior e visível. que é o futuro. nem com Heródoto as dos Egípcios. sperantibus fallax. mas que se hão-de vencer. nem com Josofo a dos Hebreus. mas isto é o que fará o pincel da nossa História. antes do Verbo ser homem. sinal certo que não buscam os homens os futuros. que é o passado. continua por toda a duração do Mundo e acaba com o fim dele. mas escrevemos sem autor o que nenhum deles escreveu nem pôde escrever. as leis. nem com Tucídides a dos Gregos. ou de outras igualmente poderosas. enganados tão profundamente os homens pela falsidade e mentira de todas estas artes e seus ministros. o que não conheceu o moderno e o que não alcança o presente. Mede os tempos vindouros antes de virem. A história mais antiga começa no princípio do Mundo.

ignorada até aquele tempo de quase todos os homens. Jerônimo: Legant prius et postea 5 . não nua e secamente. Escreveu Moisés a história do princípio e criação do Mundo. escurecido com enigmas e contado ou cantado em frases próprias do espírito e estilo profético. paz. o Evangelho é a sua profecia aberta. a ordem e sucessão das cousas. não seguem a ordem dos casos e dos sucessos. altos conselhos. porque não guardam nelas estilo nem leis de histórias: não distinguem os tempos. de governos. é envolto em metáforas. de gentes. por isso. e não só novas. disfarçado em figuras. mas porque não terão semelhança com elas nenhumas das passadas. admirará o que nunca leu. vitórias. para glória de Cristo. porque são futuras. (quando o sofrer a matéria). lerá o que nunca ouviu. seguindo em estilo claro e que todos possam perceber. O mar é imenso. e depois de sabidas se tornaram a ler sem fastio. porque não haverá um historiador do futuro? Os profetas não chamaram história às suas profecias. E porque nós. conquistas. É de direito natural que ninguém seja condenado sem ser ouvido. Ouvirá o Mundo o que nunca viu. E com que espírito a escreveu? Respondem todos os Padres e Doutores que com espírito de profecia. tirará a salvamento a frágil barquinha: ela com maior ventura que Argos. senão vestidas e acompanhadas das suas circunstancias. Sós e solitariamente entramos nela (mais ainda que Noé no meio do dilúvio) sem companheiro nem guia. disseram S. Mas porque não cuide alguma curiosidade crítica que o nome do futuro não concorda nem se ajusta nem com o título de história. mas esperamos no Pai dos lumes (a cuja glória e de seu Filho servimos). mas de S. Do profeta Isaías. para triunfo da Igreja. de tempos. se leram sempre com gosto. a noite escuríssima. em tudo o que escrevemos. sem estrela nem farol. em lugar da benevolência que se costuma pedir aos leitores. confiança nos fica para esperar que não será ingrato aos leitores este nosso trabalho. sinalar províncias e cidades. Jerônimo e Santo Agostinho que mais escrevera história que profecia. e que será tão deleitosa ao gosto e ao juízo a História do Futuro. sendo novo e inaudito o argumento dela. só lhes quero pedir justiça. não assinalam os lugares. chamamos a esta narração História e História do Futuro. sem exemplar nem exemplo. portentosas conquistas. determinamos observar religiosa e pontualmente todas as leis da história. tempos novos. porque. saiba que nos pareceu chamar assim à esta nossa escritura. animosas resoluções. gentes novas. A sua profecia é o Evangelho fechado. que à notícia e inteligência deles. e pasmará assombrado do que nunca imaginou. Antes de abrir as velas ao vento (oh faça Deus que não seja tempestade!). Se já no Mundo houve um profeta do passado.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Hão-se de ler nesta História. para felicidade e paz universal do Mundo. as ondas confusas. mais acomodadas à majestade e admiração dos mistérios. com palavras não suas. de costumes. quanto é estranho ao papel o assunto e nome dela. triunfos e felicidades novas. conselhos e resoluções novas. sem ambição nem injúria de ambos os nomes. maravilhosas vitórias. isto só deseja e pede a todos a nova História do Futuro. para exaltação da Fé. de leis. empresas e façanhas novas. as nuvens espessas. que falou com maior ordem e maior clareza. sendo de cousas menores antigas e passadas. religiosas empresas. não individuam as pessoas. estados novos. nomear nações e ainda pessoas. governos novos. e quando tudo isto viram e tudo disseram. e nós com maior ousadia que Tífis. heróicas façanhas. costumes novos. também lhe era devido nome novo e não ouvido. mas leis novas. estranhas e espantosas mudanças de estados. E se as histórias daqueles escritores. e porque havemos de distinguir tempos e anos.

Declarou Daniel a Baltasar a escritura fatal da parede. assim como te digo a boa sem lisonja. Oh que temeroso futuro! Caiu Saul desmaiado. neste asseguramos breves desejos ao futuro. se nas letras que interpreto achara desgraças (bem poderá ser que as tenhas). e fora melhor cair em si que aos pés do Profeta.. que por não temer os futuros. História do Futuro (Volume I.. e que fosse reconhecido por Tetrarca de todo o império dos Assírios. eu me conto com Samuel entre os mortos. Mas era já a véspera do dia da morte. (com quem só falo agora) nem espero o teu agradecimento. Disse sem murmuração o satírico que taparam os reis a boca aos deuses. digno só por esta ação (se não foram as suas culpas sacrilégios) de que Deus lhe perdoara a vida. que tudo o que leio de ti são grandezas. os felizes e os infelizes.Cessant oracula Delphis. Saul achou a Samuel morto e Baltasar a Daniel vivo. Só isto fez Baltasar nos instantes que lhe restaram de vida. é revelar-lhe os futuros. e confirmou sempre a Daniel na mercê e lugar em que ele o tinha posto porque assim como profetizou que havia de perder o império o rei dos Assírios. Isto é o que deves . convidam-se os Portugueses à lição dela. E que lhe importou a Daniel esta tão triste interpretação? No mesmo ponto . Naquele prometemos grandes futuros ao desejo. que era faze-lo um dos quatro supremos ministros ou governadores da monarquia. Eu. Sucedeu vitorioso este príncipe na coroa de Baltasar. tudo que descubro melhoras.diz o texto. defendendo a sua versão dos sagrados Livros.) por Padre Antônio Vieira 6 No capítulo passado falamos com todo o Mundo. cumpriu-se a profecia e foi morto o rei. anunciou-lhe intrepidamente que naquela mesma noite havia de perder a vida e o império. se tanto prêmio se dá a uma profecia mortal e que tira impérios. Outros reis houve. Nem todos os futuros são para desejar. Se tanto vale o conhecimento de um futuro. «Amanhã serás comigo». O maior serviço que pode fazer um vassalo ao rei. porque um matava os profetas. porque há muitos futuros para temer. tudo o que alcanço felicidades. e se não há entre nós os vivos quem faça estas revelações. outro premiava as profecias. Sed siluit postquam reges timuere futura. e não queriam consultar os oráculos. Portugal. neste só com Portugal. Mas é tal a tua estrela (benignidade de Deus contigo deverá ser). Porque. . o profeta ao rei. e depois condenem» — assim dizia aquele grande mestre da Igreja. por não temer os futuros prósperos e adversos. eu te dissera a má fortuna sem receio. Capítulo II: Segunda parte do titulo desta História. e premiado assim o profeta. o morto ao vivo.. não se desengana.mandou Baltasar que o vestissem de púrpura e que lhe dessem o anel real. Todos fora felicidade antever. e quem busca o desengano tarde.. que seria se os prometera? Não faltou a este merecimento Dario Hidaspes rei dos Persas e dos Medos. os felizes para a esperança e os infelizes para a cautela. e achar-se-á. disse Samuel a Saul. nem temo a tua ingratidão.Anexo:Imprimir/ História do Futuro despiciant: «Leiam primeiro. busque-se entre os sepultados. ainda que tão infeliz. hoje adorada e de fé. então perseguida e impugnada. ajuntou também que o havia de ganhar o dos Persas e Medos: Divisum est regnum tuum et datum est Medis et Persis. quiseram antes ignorá-los. Et Superos vetuere loqui. se me não contas com Daniel entre os vivos.

Deus na Lei Escrita. mas todos eles morreram e foram sepultados no Egito. Esperavam. é um tormento desesperado o esperar. chegavam a ver o cumprimento do que tão longamente tinham esperado. primeiro se acabava a vida do que chegasse a esperança. como notaram grandes autores. affligit animam. são Inferno. e este é o comento breve de toda a História do Futuro. se nelas se promete o gosto. mas cansava-se tanto o desejo na paciência de esperar por elas. O Limbo chamava-se Inferno. nunca prometeu o Céu expressamente. se nelas se promete o Paraíso. Prometer o Céu para ir esperar por ele ao Limbo. Tais são as esperanças dilatadas. Por agora só digo que me não atrevera eu a prometer esperanças. por isso em nome segundo e mais declarado chamo a esta mesma escritura Esperanças de Portugal. reexpecta.Anexo:Imprimir/ História do Futuro esperar. disse a Verdade divina e o sabe e sente bem a experiência e paciência humana: ainda que seja muito segura. Assim conta esta queixa Isaías no capítulo XXVIII. e não é este o futuro da minha História. os filhos aos netos e nem estes. muito firme e muito bem fundada a esperança. e em que a nossa História há-de empregar todo o quinto livro. As esperanças da Terra de Promissão deixou-as Abraão a Isaac. Modicum ibi. mas quando há-de ver Portugal essas esperanças? Ponto é este que depois se há-de tratar muito de propósito. Não me tenha a minha Pátria por tão cruel. Deixaram os pais em testamento as esperanças aos filhos.. Para se avaliar a esperança. e isto o que te espera. 7 . reesperavam e desesperavam aqueles homens. porque em muitas cousas das que lhes prometiam as profecias. e que a volta ou estribilho da cantiga era: . as promessas dos antigos Profetas. há-se de medir o futuro. que pelas ruas e praças da corte se andavam cantando por riso as suas esperanças. assustar o desejo e embaraçar os mesmos alvoroços em que o tenho metido com estas esperanças: Spes qae differtur. Boa esperança para um cativo. reexpecta. e se lhes perguntavam quando. ainda que não fosse muito velho. Muito seguras eram. Mas vejo que o mesmo nome de Esperanças de Portugal lhe poderá com razão suspender o gosto. Isaac a Jacob e Jacob aos doze Patriarcas. De que me serve a esperança da liberdade. Se nelas se promete a vida. são promessas em que por então se dá o contrário do que se promete. sendo então as vidas mais compridas. são tormento. Modicum ibi. que lhe importam as esperanças da terra de Promissão? No cativeiro de Babilônia pregavam e prometiam os Profetas que Deus havia de levantar mão do castigo e restituir o povo à sua antiga liberdade.. Expecta. são morte. se primeiro se há-de acabar a vida? O mesmo podem argüir os que hoje vivem com estas esperanças. que vinham a ser fábula do vulgo em Jerusalém as esperanças das profecias. se não foram esperanças breves. Grandes são essas esperanças de Portugal. respondiam e afirmavam constantemente que dali a setenta anos. e tão seguras como a mesma palavra de Deus (que não pode mentir nem faltar)`. A quem há-de cobrir a terra do Egito. que eu lhas prometo. porque o que se não pode dar logo não se há-de prometer.expecta. e porque? Porque era um lugar onde se esperava tantos anos pelo Paraíso. que lhe houvesse de prometer martírios com nome de esperanças.

Sim. vós os que mereceis viver neste venturoso século! Esperai no Autor de tão estranhas promessas. disse no mesmo lugar alegado a mesma Verdade divina. Portugal será o assunto. ainda que não vivam muitos anos. Um futuro que está longe e outro futuro que está perto. Este segundo futuro é o da minha História. Não é privilégio este de qualquer profecia. dividiu os futuros em dois futuros: Neque instantia. Um profeta houve no Mundo mais que profeta. senão só de Portugal? A razão (perdoe o mesmo Mundo) é esta: porque a melhor parte dos venturosos futuros que se esperam. que idade tão decrépita. e a mais gloriosa deles.Anexo:Imprimir/ História do Futuro São Paulo. como se diz no mesmo título. e com quanto gosto deves aceitar a oferta que te faço desta nova História. tiram a vida. porque são mais que profecias. um futuro que há-de vir e outro futuro que já vem. E Portugal que com novidade inaudita lerá nesta História os 8 . que foi o grande precursor de Cristo. as esperanças que vem. desiderium veniens. e com que alvoroço e alegria pede a razão e amor natural que leias e consideres nela os seus e os teus futuros. Mas perguntar-me-á porventura alguma emulação estrangeira (que às naturais não respondo): se o império esperado. desafiando todas as criaturas. e que deixará de ser História do Futuro. um futuro que muito tempo há-de ser futuro — Neque futura — e outro futuro que brevemente há-de ser presente: Neque instantia. Lignurn vitae. há esperanças que vem. se nos prometem as felicidades futuras. Portugal o teatro. mas acrescentam os dias e os alentos dela: Spes quae differtur. Que vida haverá em Portugal tão cansada. affligit animam. será não só própria da Nação portuguesa. que à vista do cumprimento destas esperanças. também as hão-de mostrar presentes. et adesse monstravit. As esperanças que vem são o pomo da árvore da vida: Lignum vitae desiderium veniens. o Romano as de Roma e o Bárbaro as da sua nação. As esperanças que tardam. que quem vos deu as esperanças. O Grego lê com maior gosto as histórias de Grécia. Esperanças que hão-de ver os que vivem. mas viverão muitos anos os que as virem. ó Pátria minha. neque futura. Só digo que quando assim suceder. quão agradável te deve ser. porque o será do presente. o Batista prometeu o futuro com a vez. João entre todos os profetas deste Mundo? Porque os outros profetas prometeram a Cristo futuro. Vê agora. não torne atrás os anos para lograr tanto bem? Vivei. e entre elas os tempos. Assim como há esperanças que tardam. senão única e singularmente sua. é do Mundo. perderá esta nossa História gloriosamente o nome. Agora as prometem com a voz. porque lêem feitos seus e de seus antepassados . Mas este grande assunto fique para seu lugar. e estas as breves e deleitosas esperanças que a Portugal ofereço. E por que razão mereceu a singularidade deste nome S. Se houve um profeta que foi mais que profeta. A virtude maravilhosa daquele pomo era reparar e acrescentar a vida e remoçar aos que o comiam. porque não haverá também algumas profecias que sejam mais que profecias? Assim espero eu que o sejam aquelas em que se fundam as minhas esperanças e que. vivei. mas daquelas profecias de que se compõe esta História. as esperanças porque não serão também do Mundo. vos mostrará o cumprimento delas. Portugueses. aquele filósofo do terceiro Céu. depois as mostrarão com o dedo. mas não o viram. e mostrou o presente com o dedo — Cecinit ad futurum. e os instrumentos prodigiosos delas os Portugueses. Portugal o princípio e fim destas maravilhas. Portugal o centro. Lignum vitae. desiderium veniens. não só não tiram a vida. nem o mostraram presente.

porei brevemente aqui sua divisão. as esperanças. no terceiro. para que a matéria de uma vez se compreenda e saiba o leitor em suma o que lhe prometemos. senão do Mundo. será bem que digamos neste lugar o que o título da nossa História entende por Mundo. suas grandezas e felicidades. para os êmulos a inveja. Vós descobristes ao Mundo o que ele era. e. em que pesca. nos ambiciosos títulos dos impérios e imperadores. lede agora esta minha. no quarto. sem dor nem sentimento dos membros. com que descobristes novos mares e novas terras. no segundo. Maior cabo. como se foram sete rios. Tal é a História. que também é toda vossa. gentibus et linguis. e os demais chamados do Mundo. maior esperança. maior império. Os inimigos liam nela suas ruínas. dominando somente aquela parte não grande da extrema África. senão maior em tudo. Naqueles ditosos tempos (mas menos ditosos que os futuros) nenhuma cousa se lia no Mundo senão as navegações e conquistas de Portugueses. Alguns gemidos se hão-de ouvir entre vossos aplausos. Em nada é segundo e menor este meu descobrimento. maiores sempre nas vozes que no corpo e grandeza. se espraia em sete bocas. Portugueses. os meios por que se há-de introduzir. mas também estes fazem harmonia. assim era aquele império. que vos presente. Não lhe chamaram Salvador do Egito. com quanto maior aplauso e alvoroço será razão que o faca? Portentosas foram antigamente aquelas façanhas. porque toda se emprega em provar a esperança dum novo império. quando sai ao mar. não se poderá consertar um corpo tão grande. Divide-se a História do Futuro em sete partes ou livros: no primeiro se mostra que há-de haver no Mundo um novo império. que. Se são dos inimigos. Esta história era o silêncio de todas as historias. Estas sete cousas são as que há-de examinar. que. como se não houvera mais mundo que o Egito. para os inimigos será a dor. em que tempo. resolver e provar a nova História que escrevemos do Quinto Império do Mundo. entretanto. cujo exórdio é este: Nabuchodonosor. em que terra. para os amigos e companheiros o gosto e para vós então a glória. e destes a conhecer o Mundo ao mesmo Mundo. no sexto. no quinto. pelas razões que se verão a seu tempo. qui habitant in universa terra: . rex omnibus populis. chamamos quinto. os êmulos suas invejas e só Portugal suas glórias. que império há-de ser. não duvidavam intitular-se Josés do Mundo. costuma ter maior estrondo na voz que verdade na significação.Anexo:Imprimir/ História do Futuro seus e os dos seus vindouros. e eu vos descubro a vós o que haveis de ser. Entretanto. de tal maneira mediam a estreiteza de suas terras pela arrogância e inchação de seus vastos pensamentos.) por Padre Antônio Vieira 9 O que encerra a terceira parte do título desta História só se pode declarar inteiramente com o discurso de toda ela. Mas porque esta palavra Mundo. Assim como líeis então aquelas vossas histórias. Do império dos Assírios temos nas divinas letras uma provisão lançada no III capítulo do Profeta Daniel e mandada expedir pelo grande Nabucodonosor. que jaz entre os desertos de Numídia e os do Mar Vermelho. ao qual. com quanto maior gosto e contentamento. Capítulo III: Terceira parte do titulo e divisão de toda a História. e por isso na língua vossa. ó Portugueses. e também os Ptolemeus que lhes sucederam. Os Faraós do Egito. que estão fora de seu lugar. História do Futuro (Volume I. sendo um só rio. Imitavam a soberba de seu soberbo Nilo. no sétimo. Se se há-de restituir o Mundo à sua primitiva inteireza e natural formosura. Essa foi a desigualdade do nome que puseram os Egípcios ao seu restaurador José: Vocavit eum lingua aegyptiaca Salvatorem Mundi.

Mandou Augusto César matricular e: alistar seu império. o Tártaro e outros domínios bárbaros do nosso tempo. qui habitant in universa terra: Pax vobis multiplicetur. pelo ocidente com o mar de Cádis. seguindo a antiquíssima arrogância da Ásia.Anexo:Imprimir/ História do Futuro «Nabucodonosor. se lançarmos os compassos às terras que obedeciam a Nabucodonosor. et magnitudo tua [. De maneira que os reis persas.. rei. o China. et potestas tua usque ad terminos universae terrae. Esta era a demarcação das terras e estes os limites do império. Mas se examinarmos este mundo romano até onde se estendia. que se refere no VI capítulo de Daniel. sem demasiado encarecimento. e dizia o edito: Aliste-se o Mundo. Deixo o Mogor.. que se estendia da Índia até a Etiópia.. Contudo. qua sidus currit utrumque disse Petrônio. ainda que lhe deu por margens os Orientes: Subdit Oceanum sceptris. acharemos que da Ásia então conhecida tinha uma boa parte. passaram provisões e decretos a todo o Mundo. aut ita domita ut quiescat. e tanto menos 0 que significavam! Do império de Assuero (que era o dos Persas) diz o Texto Sagrado no primeiro capítulo da história de Ester. qua terra. mas os títulos não tinham limite. no cap. Assim nos consta por um decreto de Dario. acharemos que pelo oriente se fechava com o rio Tigres. Estes limites lhe prescreveu Claudiano. quantum distant a Tigride Gades. e Cícero. Tal era a opinião que Roma tinha de sua grandeza e tal o estilo que guardava em seus editos: . Inter se Tanais quantum Nilusque relinquunt. em que o Mundo andou sempre atado aos títulos da monarquia. que habitam em todo o Mundo. por estas pomposas palavras. que com a mesma majestade de títulos se chamam imperadores do Mundo. da Europa menos e do resto do Mundo nada. aut ita pacata ut victoria nostra imperioque laetetur. gentes e línguas. 10 . semelhantes em tudo às de Nabuco: Tunc Darius rex scripsit omnibus populis et gentibus et linguis. pelo meio-dia com o Nilo e pelo setentrião com o Danúbio e Reno. quae aut ita subacta sit ut vi non extet.. XIII de Ester. é cento e vinte e sete vezes maior que o império persiano: tão pouco se proporcionava a geografia dos títulos com a medida dos impérios! Que direi do império dos Romanos? Os termos que lhe sinalam seus escritores são as raias do Mundo: Orbem jam totum victor Romanus habebat Qua mare. da África pouco. veria facilmente que o Mundo. E o mesmo Daniel (que é mais) falando a este rei e acomodando-se aos estilos da sua corte e aos títulos magníficos de sua grandeza. a todos os povos. et margine coeli Clausit opes.exiit edictum à Caesare Augusto ut describeretur universus orbis. mas quem desenrolasse o mapa do Mundo e pusesse sobre ele os pergaminhos destas provisões. lhe diz assim no mesmo capítulo: Tu es rex qui magnificatus es et invaluisti.] pervenit usque ad Coelum. obedecendo àquela coroa 127 províncias. Mas bastavam estes três retalhos da terra para a soberba de Nabucodonosor revestir os títulos de seu império com o nome estrondoso de todo o Mundo. não duvidou firmar por sua própria mão. que tinha sujeito ao seu domínio o orbe universo: Cum universum orbem meae ditioni subjugassem. que professava mais verdade que os poetas: Nulla gens est. por serem senhores de 127 províncias. E o mesmo Assuero por outro decreto. Tão grande era a significação dos nomes.

do Romano) em muitos textos de um e outro direito se chama império do Mundo. e por aquela figura que os retóricos chamam sinédoque. não se pudesse defender com um só braço. Todos os reinos se unirão em um centro. Tal foi. entretanto. ainda que liberalmente lho concedamos. que chamamos Austral. A Abraão prometeu Deus as terras da Palestina mas conquistou-as a espada de Josué e defendeu-as a de seus sucessores. Os que querem o ruído e encher de algum modo o vazio destes grandes títulos. espera-se agora a quinta. senão por domínio e sujeição verdadeira. Bem sei que o império de Alemanha (envelhecidas relíquias. Quando o não conheceu. repartiu em diferentes sucessores o seu império.. e mais claramente do que o dissemos agora o provaremos depois. senão a justiça da espada. e esta será a peanha da cruz de Cristo.Mundus per ipsum factus est. o pensamento de Alexandre. Europa. e este o império que prometemos do Mundo. Resolveu Augusto com o senado pôr limites à grandeza do Império Romano. O Mundo de que falo é o Mundo. a paz lhe tirará o receio. Ásia. quintamque expectat sub meridionali cardine jacentem: O Mundo que conheceram os Antigos se dividiu em três partes: África. et 11 . et Mundus eum non cognovit. e Deus (que é fortuna sem inconstância) lhe conservará a grandeza. e este será o Mundo futuro. o qual. depois que se descobriu a América. scilicet. que é aquela terra incógnita.» Este foi o Mundo passado. não se pudesse governar com uma só cabeça. não chama a um pigmeu gigante nem a um braço homem. universum terraram orbem — diz Ortélio — veteres [. O Mundo que Deus criou. dizem. acrescentou-lhe a nossa idade esta quarta parte. Temeu César (se foi receio) que um corpo tão enormemente grande não se pudesse animar com um só espírito. damos por solução de todas a mão onipotente: Ut videant. mas não impérios. Entretanto. e este é o Mundo presente. sed in inventa America.. Europam et Asiam. se aos doutos ocorrem instancias e aos escrupulosos dúvidas. dizem que se entende por hipérbole ou exageração. negou-lhe o domínio.] in tres partes divisere: Africam. nem impérios titulares. e quase acabadas. dar-lhe-á a posse . ou não quis (se foi inveja) que viesse depois outro imperador mais venturoso. No livro sétimo examinaremos os fundamentos deste direito. mas já reconhecida. nomes tão alheios da modéstia como da verdade. o Mundo que o não conheceu. e naquele sentido em que disse S. quando o conhecer. mas também se sabe que os textos podem dar títulos. Tudo o que abraça o mar. an per invidiam. Este é o sujeito da nossa História. como todos os que até agora se chamaram impérios do Mundo. Aqui acaba o título desta História. para que nenhum lhe pudesse herdar o nome de Magno. todas as coroas se rematarão em uma só diadema. Não é nem poderá ser assim no império do Mundo que prometemos. Duvida Tácito se foi filha esta resolução do receio ou da inveja: Incertum metu.Anexo:Imprimir/ História do Futuro O Mundo do nosso prometido império não é Mundo neste sentido: não prometo mundos. tudo o que alumia o Sol. sciant et recogitent. em que se toma a parte pelo todo. não por nome ou título fantástico. eam pro quarta parte nostra aetas adjecit. e o Mundo que o há-de conhecer. O título desta História não fala por hipérboles nem sinédoques.. todas as cabeças obedecerão a uma suprema cabeça. Estes são os instrumentos humanos de que se serve (ainda quando obra divinamente) a providencia daquele supremo Senhor que o é do Mundo e dos exércitos. e destes três mundos unidos se formará (que assim o formou Deus) um Mundo inteiro. aquele Mundo. que trespassasse as balizas do que ele até então conquistara e fosse ou se chamasse maior que Augusto. vizinho à morte. tudo o que cobre e rodeia o Sol.. é certo que os impérios e os reinos não os dá nem os defende a espada da justiça. João: . será sujeito a este Quinto Império. a união lhe desfará a inveja.

acharemos que são em muito maior número os que escreveram das futuras: diferença que de nenhum modo fizera Deus.e não sabem com tão averiguada certeza). A mesma Majestade divina. leitor cristão. e se as esperanças que temos prometido foram só flores sem outro fruto mais que o alvoroço e alegria com que as felicidades grandes e próprias se costumam esperar. que foram muito menos os danos em que caíam os homens por lhes faltar a notícia do passado. outras utilidades necessárias ao governo e bem comum do gênero humano e ao particular de todos os homens. que aqueles que cegamente se precipitaram pela ignorância do futuro.. concorrem com particular influxo nesta nossa História e se acham juntos nela. agora que entramos na maior importância desta matéria. certamente eu suspendera logo a pena e a lançara da mão. desde seu princípio até hoje. inspiração e ainda força suave da mesma Providência os impulsos que a isto (não sem alguma violência) nos levaram. Capítulo IV: Utilidades da História do Futuro) por Padre Antônio Vieira 12 §I Se o fim desta escritura fora só a satisfação da curiosidade humana. mas de gastar nele o tempo e o cuidado.Anexo:Imprimir/ História do Futuro intelligant pariter quia manus Domini fecit hoc. quanto é mais poderosa e eficaz para mover os ânimos dos. tendo este meu trabalho por inútil. lugares e nações para lhes revelar antecedentemente o sucesso das cousas que estavam por vir. por que nos sujeitamos ao trabalho de tão molesto gênero de escritura. Paulo escritas para nossa doutrina. e entendendo que foram vontade. digo. pedimos com todo o afeto de coração. impertinente e ocioso. engenho e juízo eminentes. e por indigno não só de o comunicar ao Mundo. os quatro Evangelistas. e na Escrita. e se como tal empregaram nela sua indústria tantos sujeitos em ciência. esta nossa História do Futuro.Escrituras (sendo todas elas como diz S. E verdadeiramente que se os bens da ciência se colhem e conhecem melhor pelos males da ignorância. humildemente prostrados diante de seu infinito acatamento. porque não será igualmente útil e proveitosa. e o gosto ou lisonja daquele apetite com que a impaciência do nosso desejo se adianta em querer saber as cousas futuras. como foram os que em todos os tempos imortalizaram a memória deles com seus escritos. se sirva de nos comunicar aquela luz. História do Futuro (Volume I.. melhoria e reformação a que são encaminhados e dirigidos. cujos nomes . Josué. Mas se a história das cousas passadas (a que os sábios chamaram mestra da vida) tem esta e tantas. e ainda com vantagem. Em conseqüência desta verdade e em consideração das cousas que tenho disposto escrever. que a memória das alheias? Se em todos os Livros Sagrados contarmos os escritores de cousas passadas (como foram. que é o verdadeiro Autor de todas as . nas a única e total. a quem só pretende nos servir. esperando que será grato e aceito a Deus. que da noticiaria das passadas. achará facilmente quem discorrer pelos sucessos do Mundo. Samuel. que todos aqueles fins que sabemos teve a Providência Divina em diversos tempos. para que estes secretos de seu oculto juízo e conselho se descobrissem e publicassem ao Mundo e em todo ele produzissem proporcionadamente os efeitos de mudança. se não fora igual e ainda maior a utilidade que podemos e devemos tirar do conhecimento das cousas futuras. graça e espírito que para negócio tão árduo nos é . Moisés. homens a esperança das cousas próprias. Esta é não só a principal razão. Esdras e alguns outros. na Lei da Graça.

e em lugar de reverenciarem em . e para que Dario. como as outras nações. e logo ordenou a Providência divina que estivesse em Egito um José (posto que vendido e desterrado). que lhe declarasse o mistério dos sete anos da fartura e sete de fome. Como na terra do Egito não chove jamais e se regam e fertilizam os campos com as inundações do rio Nilo. quando e a quem é servido. e não o seu adorado Nilo.todos os sucessos a primeira causa. para que conheça o Mundo e Portugal. que o havia de receber. O primeiro motivo e mui principal por que Deus costuma revelar as cousas futuras (ou sejam benefícios ou castigos) muito tempo antes de sucederem. e se beije as mãos a si mesma. a mão onipotente de Deus é a que os distribui. que interpretasse ao rei os mistérios dela. disse discretamente Plínio que só os Egípcios não olhavam para o céu. nem Daniel que construísse as escrituras. ou ordenados para mais altos e ocultos fins por sua providência. que tire a Deus o que é de Deus. era o autor da abundância e da esterilidade. . 13 § II Primeira utilidade. com os olhos sempre no Céu e em Deus. Deus é o que dá e tira os reinos e os impérios. só adoram as segundas! Por isso mostra Deus a Faraó. tantos anos antes. e que haja quem as interprete antes do sucesso. e para que não haja ignorância tão cega nem ambição tão presumida. mas não houve até agora nem José que interpretasse os sonhos. como dizia Job. e que a ele havia de agradecer no benefício dos sete anos o remédio dos catorze. nem nós saberemos explicar a outros o pouco que por mercê do Céu temos alcançado e conhecido.Anexo:Imprimir/ História do Futuro necessário. nem menos poderemos descobrir e alcançar ao diante o muito que nos resta por conhecer. quais hão-de ser os da fome e quais os da fartura. pois só ele os pode determinar antes que sejam. porque Deus lho tirava. quando são. que nem esperando. levantam os olhos ao Céu. se Deus dispõe outra cousa. para que Baltasar. Os futuros portentosos do Mundo e Portugal. conhecesse que o perdia. e isto é o que eu começo a fazer (com a graça daquele Senhor que sempre se serve de instrumentos pequenos em cousas grandes). Arma-se assim a sabedoria eterna contra a natureza humana. porque Deus lho dava. é para que conheçam clara e firmemente os homens. para que conhecesse o bárbaro que Deus. Quis a mesma Providência. mas apareceu primeiro a sentença escrita no paço de Babilônia. ou porque não atribua a cousas naturais (e muito menos ao caso) os efeitos que vêm sentenciados como castigo por sua justiça. para que conheça a ignorante sabedoria do Egito que os meios da conservação ou ruína dos reinos. as sete vacas fracas e as sete robustas. nem o direito e herança de Baltasar para os conservar. entendesse que o recebia. e houve logo um Daniel (também cativo e desterrado). nem as armas de Dario para os adquirir. conhecendo e confessando que sem assistência deste soberano auxílio. rebelde e ingrata. por dar a César o que não é de César. ou porque se não levante a maiores com os benefícios divinos. sempre soberba. porque não esperavam de lá o sustento. E não bastam. muitos anos há que estão sonhados como os de Faraó e escritos como os de Baltasar. Oh quantos cristãos há egípcios.as sete espigas gradas e as sete falidas. de que há-de tratar a nossa História. que perdia o reino. que tudo são efeitos de seu poder e conselhos da sua providência. nem temendo. por isso quer a mesma Providência Divina que as sentenças estejam escritas antes da execução. que todas vêm dispensadas por sua mão. Foram mostradas a Faraó em sonhos . como acima dizíamos tirar o império a Baltasar e dá-lo a Dario.

a vitória que lhe havia de dar em batalha tão duvidosa e as armas de tanta glória com que o queria singularizar entre todos os reinos do Mundo. receoso porventura de que uma nação tão amiga da honra e da glória lhe quisesse roubar a sua. é a que há-de levantar e sublimar ao estado felicíssimo e glorioso que lhe está prometido. como tinha jurado aos seus maiores. favores e as mercês tão notáveis com que o determinava enobrecer: na primeira. no passado o verá vencido. na terceira. seria só o esquecimento ou desconhecimento do soberano Autor delas. Afonso Henriques. no presente e no futuro. Prometeu Deus de livrar os filhos de Israel do cativeiro do Egito. e prometidos juntamente os meios e instrumentos prodigiosos por onde há-de subir e ser levantado ao cume mais alto e sublime de toda a felicidade humana. de todos eles não entraram na Terra da Promissão nem chegaram a lograr a felicidade e descanso da segunda promessa mais que Josué e Calef. e o intérprete deste último e glorioso estado de Portugal já tenho dito quem é. e quão indigno de o ser. Quem considerar o Reino de Portugal no tempo passado. foi aquele velho. E o intérprete deste futuro que parecia tão impossível. apareceu o mesmo Cristo a El-Rei (que ainda o não era) D. e de tantos outros que logo se cumpriram e vão cumprindo. e muitos centos e ainda milhares de anos antes (como depois mostraremos). para que até por esta circunstancia conheçam os Portugueses que a mesma mão onipotente que há vinte e quatro anos conserva e defende tão constante e vitoriosamente o Reino de Portugal. E o embaixador e intérprete deste e de outros futuros. quando por nossa desgraça fôssemos tão injuriosamente ingratos a Deus. foi revelado o sucesso dela com todas suas circunstancias. e a Portugal reino. e posto que todas viram o cumprimento da primeira promessa. que é o tempo futuro. e de os levar e meter de posse da terra da Promissão. Antes da sua ressurreição. conseguindo milagrosamente a liberdade. e sacudiram sem sangue nem golpe de espada a sujeição de tão poderoso domínio. sendo contudo mais de seiscentos mil homens os que triunfaram de Faraó e passaram da outra parte do mar Vermelho. foram diante a explorar a terra. que todos vimos também.Anexo:Imprimir/ História do Futuro atribuindo à fortuna ou indústria humana o que se deve só à disposição divina. Considerem agora os Portugueses. e leiam tudo o que daqui por diante formos escrevendo com este pressuposto e importantíssima advertência: que. foi a nossa experiência. na segunda restituindo-o. escolhidos pelos Doze Tribos. e que era todo seu desde seu nascimento. e por isso mui proporcionado (segundo o estilo de Deus) para tão grande e dificultosa empresa. dois daqueles aventureiros que. que ou referíssemos os benefícios passados. se alguma cousa lhes poderia retardar o cumprimento destas promessas. também está prometido este terceiro e mais feliz estado do nosso Reino. para que conhecesse e não pudesse negar Portugal que devia a Deus a vitória e a coroa. Antes das glórias de Portugal. ou esperássemos os futuros de outra mão que a sua. que depois se viram cumpridos. desconhecido e retirado do Mundo o ermitão do campo de Ourique. e em todas estas três diferenças de tempos e estilos lhe revelou e mandou primeiro interpretar o. sublimando-o. Antes do nascimento de Portugal. Estilo foi este que sempre Deus usou com Portugal. Raro 14 . fazendo-o. para que conhecesse outra vez Portugal que a Deus e não a outrem devia a restituição da coroa que havia sessenta anos lhe caíra da cabeça ou lhe fora arrancada dela. no presente ressuscitado e no futuro glorioso. e lhe revelou como era servido de o fazei rei. não havendo quem ignorasse ou quem não tivesse lido que no ano de quarenta se havia de levantar em Portugal um rei novo e que se havia de chamar João.

era ingratidão suma. A primeira causa foi atribuírem a liberdade do cativeiro a Moisés. Se há algum tão invejoso dos bens da Pátria e tão inimigo de si mesmo. que queira retardar o curso de tão próspera e feliz jornada e acabar infelizmente. e ainda mais ignorante (sobre ímpia e blasfema). Para que conheça por nossa confissão todo o Mundo que são misericórdias suas e não obras do nosso poder. mas muitas vezes. abundante e cheia de todos os regalos e delícias». Moysi enim huic viro. tantos anos antes revelados por Deus. Assim o disseram também no mesmo capítulo e o apregoaram impiamente a altas vozes: Hi sunt dii tui. sejam privados de gozar a segunda. De maneira que quem tirou os filhos de Israel do Egito foi Deus. como os que restam para se ver. ao seu talento. Imos caminhando pelo deserto para a Terra da Promissão. mas nos homens que deviam dar a Deus toda a glória (pois toda era sua). et sciens dolorem ejus. da bondade e onipotência divina. por isso se vos escrevem aqui essa mesma liberdade. foi atribuírem a mesma liberdade ao ídolo que de seu ouro tinham fundido no deserto. e a Deus só louvemos e demos as graças. in terram quae fluit lacte et melle: «Vi — diz Deus — a aflição do meu povo. referirem-se a Moisés. se buscarmos no Texto Sagrado as causas deste desvio e dilação (a qual durou quarenta anos inteiros. Quem refere a glória dos bons sucessos ao seu valor. descendi ut liberem eum de manibus AEgyptorum. assim o disseram no cap. pois tão ingrata e impiamente interpretaram o benefício da primeira promessa. ainda antes de ver o fim desejado dela. Já Deus. Agora nos servem as duas. boa. e os que atribuem as obras de Deus e os benefícios (de que só a Ele se devem as graças) a Moisés e ao ídolo não merecem ter vida nem olhos para chegar a ver a Terra de Promissão. e não a darem a Deus toda. XXXII. assim os que já se viram. e que se podia vencer em poucos dias) acharemos que foram . já os vimos. e ouvi os seus clamores. qui nos eduxit de terra Aegypti. e porque sei com quão justa razão se queixam. povo descortês. porque. desci em pessoa a livrá-lo das mãos dos Egípcios e tirá-lo daquela terra para outra. ou a Moisés ou ao ídolo. quando lhe deu o ofício e a vara. Israel. et deducam de terra illa in terram bonam et spatiosam. sendo muito justo e muito justificado castigo que morram e acabem todos antes de chegar o prazo das felicidades. ingrato e blasfemo! Que Moisés e o vosso ídolo foram os que vos livraram do cativeiro do Egito?! Por certo que o não disse assim Deus ao mesmo Moisés. nos livrou do cativeiro. a Deus só as refiramos todas. e para que nós. como também Deus pelo honrar lhe dava esse nome. Eu não nego que em bom sentido se podia chamar Moisés libertador do cativeiro. era descortesia. A segunda. e pode ser que estejamos já muito perto dela.tanta repugnância sua instrumento de seus poderes: Vidi afflictionem populi mei in AEgypto et clamorem ejus audivi.três. e o fez com . e do último cumprimento das prometidas felicidades. atribuírem-na ao ídolo. dá a glória de Deus ao ídolo. já por mercê de Deus triunfamos de Faraó e do poder de seus exércitos. Portugueses. Basta. e que. como efeitos da providência. ao seu braço. que lhe hei-de dar. e quem fez os portentos e maravilhas foi Deus. não uma. negue a Deus o que é de Deus e atribua à liberdade as vitórias e o cumprimento das primeiras promessas que temos visto. espaçosa. depois diremos a terceira. mas bem merecido castigo. ignoramus quid acciderit. 15 . à sua ciência militar. afogados no Mar Vermelho de seu próprio sangue.Anexo:Imprimir/ História do Futuro exemplo de severidade na misericórdia de Deus . sendo a distancia do caminho breve. era blasfêmia. essas mesmas vitórias e esses mesmos sucessos. e quem abriu o Mar Vermelho e afogou nele Faraó e seus exércitos foi Deus. qui te eduxerunt de terra AEgypti.

ut habitare vos facerem. porque são dignos de o verem. prevaleceu o número contra a razão) (como as mais vezes sucede). de que Deus os havia de meter de posse daquela terra.. audiente me. Esta tão covarde incredulidade foi a última ou a última sem-razão com que acabou de se apurar a paciência divina. juntamente nascem dela e a corrompem.. ait Dominus. e que todos morressem primeiro e fossem sepultados naquele deserto. super quam levavi manum meam.facilitaram a conquista e animavam o povo a ela. E este conhecimento tão grato a Deus. não crer que se hão-de cumprir as outras. a confiança em Deus e o zelo e desejo puríssimo de sua glória. justo será que fechemos este com a terceira causa do castigo que ponderávamos. os outros. Assim o disse e assim se executou. e pois criam que Deus os não havia de meter de posse da Terra da Promissão. dando-lha em tudo e por tudo.. instavam que era impossível. senão crime de ingratidão grande contra o divino Autor dos mesmos benefícios. que ficarão para os capítulos seguintes. Deliberou o povo eleger capitão e voltar-se com ele ao cativeiro do Egito. como filhos da víbora. sicut locuti estis. que. se de mau coração) e vejam o perigo em que os pode meter ou tem metido a sua incredulidade: Sicut locuti estis. como pela valentia. bondade e fertilidade da terra. sic faciam vobis. A humildade e agradecimento. é o primeiro fruto e utilidade que da lição desta nossa História se pode tirar. a sua mesma incredulidade será a sua sentenc: já que o não creram. levar e meter de posse daquelas segundas promessas. e sobre tudo as promessas divinas tão repetidamente inculcadas. assim pela fortaleza e sitio das cidades. que aprendemos nas noticias de seus futuros. As palavras da queixa de Deus e da sentença. In solitudine hac jacebunt cadavera vestra. Diz Santo Agostinho (cujas excelentes palavras adiante citaremos) que. que . [.. tão importantemente para a vida como para a vista. não bastando a experiência de tantas vitórias passadas e de tantos sucessos e prodígios inauditos. Chegados os doze exploradores da Terra da Promissão.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Os inimigos que mais temo a Portugal são soberba e ingratidão. resolveu que fosse executada neles a sentença de sua própria incredulidade. E resoluto Deus a não sofrer mais tal gente. sempre são os meios seguros que nos hão-de sustentar. vê-lo-ão. concordaram todos na largueza. para crerem e confiarem que assim havia de ser. comparados com os Hebreus (diziam eles) pareciam gigantes. a desconfiança de nós. mas exceto Josué e Calef.] non intrabitis terram. sic faciam vobis. os que não crêem. não o verão. nem os perdoar ou dissimular como até ali tinha feito. forças e corpulências dos homens. vícios tão naturais da próspera fortuna.] Vivo ego. 16 Breve Advertência aos incrédulos Mas antes que passemos às outras utilidades.. e pode ser de grande exemplo para outra casta de gente. e a estes incrédulos e ingratos castiga justissimamente sua Providência. que. conformemente. que são os que a Escritura chama filhos da desconfiança. qae feci coram eis? [. XIV dos Números. a qual refere o Texto Sagrado no cap. foram estas: Usque quo detrahet mibi populus iste? Quosque non credent mihi in omnibus signis. com que não cheguem a ver nem gozar o que não querem crer de sua bondade: . Os que pela experiência do que têm visto crêem o que está prometido. que nenhum deles entrasse nela nem a visse. é não só pertinácia de incredulidade racional. não sei se de pouco.. depois de cumprida uma parte das promessas. Enfim. Leiam e pesem bem estas palavras de Deus os incrédulos e desanimados (vícios ambos. ou não querem crer.

Quando o lavrador quer plantar de novo em mata brava. mete primeiro o machado. e se veja restaurado o Universo! Maravilha é que há muitos anos está prometida para esta última idade do Mundo por aquele supremo Monarca. nem vê-las. guarda também ordinariamente nas felicidades desta. sic faciam vobis. justus autem in fide sua vivet. Quando o arquiteto quer fabricar de novo sobre edifício velho e arruinado. que tem por assento o trono de todo ele: Et dixit qui sedebut in throno: Ecce nova facio omnia. non erit recta anima ejus in semetipso. merecedoras ambas de que Deus as castigue com se conformar com elas: Sicut locuti estis. do nosso próprio coração nos conta Deus a sentença e de nossas próprias palavras a forma: Exore tuo te judico. tão grandes. tão maravilhosas e tão raras. arranca. e se não crêem que havemos de ver.tão felizes promessas. e depois sobre o novo alicerce levanta nova traça e novo edifício. non permanebitis — diz o profeta Isaías. será também para ele não gozá-las. antes que Deus vos replante e reedifique. É lei da liberalidade de Deus pagar a fé com a vista. alimpa. E porque ninguém o duvidasse . ut evellas. como ao Centurião. quae feci coram eis? Antes da experiência das primeiras maravilhas. fiat tibi. creiam que não hão-de viver: Si non credideritis. constância e consolação nos trabalhos. para que as não vejam. e mais necessária aos tempos próximos e presentes. terão vida para as verem. et destruas. ó reis. cava. arrasando e arrancando até os fundamentos. Quem crê que se hão-de cumprir aquelas . Olhem por si os incrédulos. fiat tibi. diz Deus: Sicut locuti estis. Quem quiser saber (segundo o estilo ordinário da justiça e providência divina) se há-de chegar a ver as felicidades que debaixo de sua palavra aqui lhe prometemos. quando quis plantar e edificar de novo. et plantes. para ele será o vê-las e gozá-las: Sicut creditisti. corta. quanto destruir. et dissites. por isso havemos de ver no Céu os mistérios que vemos na Terra. porque na guerra que Nabucodonosor fez a Jerusalém. queima. ó reinos! Quanto arrancar. et aedifices. morrerão. também começa derribando. desmerece a vista. campos e cidades.diz Deus nem terá a vida segura. é rebeldia de ingratidão e dureza da incredulidade. examine o seu coração e consulte a sua fé. Quem não crê. os que creram aos profetas com el-rei Iconias viveram. é a paciência. e ao que crê. perigos e calamidades com que há-de ser allito e purificado o Mundo. desfazendo. diz Cristo: Sicut credidisti. E aos que não crêem como os Israelitas do deserto. alguma desculpa parece que podia ter a incredulidade na fraqueza do receio e desconfiança humana. mas depois de cumpridas e vistas com os olhos tantas cousas. os que as não crerem. Assim o sentenciou o mesmo Deus outra vez em semelhante caso por boca do profeta Habacuc: Ecce qui incredulus est. quando as tem prometido: os que as crêem. e depois planta e semeia. tira-lhe Deus a vida. Aos que crêem. Ó gentes. et disperdas. E quem não crê que se hão-de cumprir. Assim o faz e fez sempre o supremo Criador e Artífice do Mundo. e os que não quiseram crer. derriba. a sua mesma fé lhe conservará a vida > Assim sucedeu. com el-rei Sedecias pereceram. quanto dissipar se verá em vossas terras. E este estilo que Deus costuma guardar na glória da outra vida. Capítulo V: Segunda utilidade. e para que não chegue a ver.) por Padre Antônio Vieira 17 A segunda utilidade desta História. Assim o disse e mandou notificar a todo o Mundo pelo profeta Jeremias: Ecce constitui te hodie super gentes et super regna. quanto perder. História do Futuro (Volume I. antes que chegue a esperada felicidade.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Quo usque non credent mihi in omnibus signis. <O incrédulo . não crer ainda as que estão por vir.

que ver-se cercada e combatida por todas as partes de poderosíssimos inimigos. e se é ele um dos reinos da Cristandade que merece ser mui renovado e reformado. e dando conta disso aos mesmos Esparcíatas. pelejar e vencer. e sem amigo nem aliado que a socorra? Neste estado se viram muitas vezes no tempo de seu governo os Macabeus. não pelo que ela tem de nossa. acrescenta logo o Evangelista Profeta: Haec verba fidelissima sunt et vera. Que maior trabalho ou perigo pode sobrevir a uma república. De maneira que. VIII se verá que sem atrevimento ou demasiada confiança podemos chamar a esta nossa História do Futuro livro santo. opressões e trabalhos. o julgue. assolações. porque a paciência tem a sua consolação na esperança. e todo o gênero de calamidades. sempre os livrou com maravilhosas vitórias e assistências do Céu. mas temos sempre em nossas mãos os Livros Santos. habentes solatio sanctos libros qui sunt in manibus nostris. tribulações. o mesmo Portugal o examine. se houver (como há-de haver primeiro) trabalhos. Para esta ocasião. não porque tenhamos necessidade dela e dos vossos socorros. do conhecimento e fé das cousas futuras. no cativeiro profetizou Miqueas. que nunca no povo de Israel concorreram tantos Profetas juntos como antes do cativeiro de Babilônia e no mesmo cativeiro. diz assim em uma epístola: Nos. A lição das Escrituras. Este é o fim. Daniel e Solonias. Mas. como temos vencido e vencemos a todos nossos inimigos. diz S. ou sejam para Portugal. Antes do cativeiro profetizaram por sua ordem Oseas. cum nullo horum indigeremus. de que Deus . e tão apertada sai a luz e se oferece ao Mundo este livro santo. É cousa muito digna de notar. ou para todos (como é mais certo) nenhuma cousa poderão ter os homens de maior consolação. ad nostram doctrinam scripta sunt. com que Deus costuma castigar. Isaías. Joel e Amos. emendar e domar a rebeldia dos corações humanos. ut per patientiam et consolationem Scrip turarum spem habeamus. os tristes consolação. ou para o resto do Mundo. a esperança tem o seu fundamento na fé e a fé nas Escrituras. pelas quais lhes não foi necessário valerem-se da confederação que naquele tempo tinham com os Romanos e Esparcíatas. misérias e açoites. que então governava o povo. guerras. e o fruto muito principal . só e desamparada. Ezequiel. posto que não nos faltam inimigos. se se conhece. do que a lição e condição desta História do Futuro. opressões. Habacuc Jeremias.Anexo:Imprimir/ História do Futuro como cousa tão nova e desusada. mas pelas escrituras originais de que foi tirada. maluimus mittere ad vos renovare fraternitatem et amicitiam: «Mandamos renovar por este nosso embaixador (diz Jonatas) a antiga amizade e confederação» que convosco fizeram nossos maiores. paciência. no qual acharão os aflitos alívio. No cap. e ele mesmo.para que elas se escreveram: Quaecumque scripta sunt. Paulo. Jónatas. Se deste trabalho e castigo pode também caber alguma parte a Portugal. nem remédio para o sofrimento e constante firmeza de tão fortes calamidades. constância e fortaleza. e com eles e com elas nos consolamos e animamos a resistir. sendo só doze os Profetas canônicos. tudo por meio da lição e fé das divinas promessas e consolação dos felicíssimos fins a que todos estes trabalhos e tribulações pela providência do Altíssimo são ordenadas. os atribulados esperança. lembrando-lhe que está escrito que o juízo e exemplo de Deus há-de começar por sua casa: Judicium incipiet a domo Dei. os dez deles tiveram por assunto e matéria muito principal de todas suas 18 . alívio. é a que mais que tudo nos pode consolar nos trabalhos. perigos. em que lemos as promessas divinas.

uns que as tivessem escrito no tempo passado. Assim o diz no primeiro capítulo da relação que fez desta jornada. e outros que as pregassem no presente. mais que a lição e interpretação das profecias. despojados de seus bens. XXIX do mesmo Profeta. Ordenou pois a providência e misericórdia divina. para que o povo não desmaiasse com o peso da aflição. como se pode ver no cap. que profetizaram no tempo do cativeiro.Anexo:Imprimir/ História do Futuro profecias o cativeiro de Babilônia. Foi mui particular neste caso entre todos os outros Profetas o zelo e diligência de Jeremias. companheiro de Jeremias. Ao menos não negará Portugal que. Bernardo que quando Deus alguma hora permitisse que o reino viesse a mãos e poder de rei estranho. na décima sexta geração atenuada. nem depois visto) foi porque nunca o povo e reino de Judá padeceu tão grande trabalho e calamidade como o cativeiro ou transmigração de Babilônia. filii Joachim. e lá oprimidos e tratados como escravos em duríssima servidão. mas que por misericórdia de Deus seria depois restituído à sua pátria. e anda no Texto Sagrado junta com as obras de Jeremias: Et legit Baruch verba libri hujus ad aures Jechoniae. que naquele tempo e estado tão calamitoso. e se será recebido e lido com o mesmo animo e afeto este nosso livro da História do Futuro. não seria por espaço mais que de sessenta anos. Levou este livro a Babilônia o Profeta Baruch. pudesse com o trabalho do cativeiro. onde padeceu grandes trabalhos. antes mui lembrado do que padeciam os desterrados de Babilônia. Os outros seis. O cativeiro e o tirano os oprimiam. prisões e perigos da vida por pregar e profetizar a verdade (pela qual finalmente morreu apedrejado). em que por termos muito claros e palavras de grande consolação lhes anunciava a liberdade e o tempo dela. que com ele vivia no cativeiro. os Profetas e as profecias os alentavam. Afonso Henriques e na promessa do santo ermitão. presos e. Lia-se no juramento de El-Rei D. tendo ficado em Jerusalém. nem outro alívio ou consolação a sua miséria. et ad aures universi populi venientis ad librum Não sei se terá a mesma fortuna. nenhuma outra apelação tinha a sua dor. e a esperança da liberdade e do ano dela. e do termo e fim do cativeiro que nelas se lia. sendo cativos. que o tempo desejado havia de chegar. profetizaram que o povo por seus pecados havia de ir cativo. que. e animado com a esperança da liberdade. Os quatro primeiros. no meio destas opressões e perigos próprios. insistiram constantemente em que ele havia de ter fim. que escreveram mais de seis anos antes daquele tempo. poria Deus os olhos de sua misericórdia no Reino. e nota o mesmo Baruch que todos com grande alvoroço corriam ao livro. determinando sinaladamente o ano da liberdade. A razão deste concurso tão extraordinário de Profetas e profecias (nunca antes. Lia-se na carta e tradição de S. e as esperanças dele se haviam de cumprir no ano 19 . porque. e com a brandura deste som os ferros se tornavam menos duros e os corações mais fortes. Lia-se nas célebres tradições de Gregório de Almeida no seu Portugal Restaurado. arrancados da pátria e levados a terras de bárbaros. regis Juda. houvesse muitos Profetas e muitas profecias. mas sei que nos trabalhos calamidades e aflições que há-de padecer o Mundo e pode ser cheguem também a Portugal. nem Portugal nem o Mundo poderá ter outro alívio nem outra consolação maior que a freqüente lição e consideração deste livro e das profecias e promessas do futuro que nele se verão escritas. leu-se em presença de El-Rei Iconias e publicamente de todo o povo. não esquecido dos alheios. escreveu um livro das suas profecias. no tempo da sua Babilônia e do cativeiro e opressões com que tantas vezes se viu tão maltratado e apertado. Cantavam-se as profecias ao som das cadeias.

E pois este remédio das profecias foi tão presente e eficaz para os trabalhos passados. e o último de todos. Eu não prometo nem espero infortúnios a Portugal. e nós o mostraremos em seu próprio lugar.] ut mederer contritis corde et praedicarem captivis indulgentiam [. o segundo. annum placabilem Domino. mas ou sejam de Portugal. Assim o liam os cativos de Babilônia. et ego scrpsi ad consolationem futurorum. e quão conforme com a vontade e intento de Deus. E assim como eles não tinham outro remédio na sua dor senão a esperança daquele desejado ano e a mudança daquela prometida coroa. do que faltem à providência. inspirasti mihi mysteria ejus. oleum gauudii pro luctu. Mas a que fim. Falando no mesmo cativeiro de Babilônia o mesmo profeta Isaías. era uma coroa trocada pelas antigas cinzas. diz Isaías.. apareceu ali S. E declarando mais em particular os remédios cordiais que lhes aplicava.. ordenou a Providência Divina que S.] et darem eis coronam pro cinere.Anexo:Imprimir/ História do Futuro sinalado de quarenta. e do alívio e consolação que com suas profecias haviam de ter em seus trabalhos aqueles cativos. e por que os Profetas antigos. antes confirmados com as mesmas profecias. com os olhos longos no suspirado ano de quarenta e na esperada coroa do novo rei português.. e ungiu-me com seu espírito. Ninguém ignora que as profecias do Apocalipse e mais ainda as que estão por cumprir) são próprias dos tempos que hoje correm e hão-de parar no fim do Mundo. para que como médico dos aflitos cativos de Babilônia. e o trabalho de escolher entre todas as profecias que pertencem a nossos 20 .. curasse com o talento de minhas promessas e profecias. Assim o dizem Padres e expositores.. a nas suas profecias. Este é o fim (posto que não só este) por que Deus revela as cousas futuras.. aliviávamos o peso do nosso jugo e consolávamos a pena do nosso cativeiro. razão tenho eu (e razão sobre a experiência) para esperar e confirmar que o será também para os futuros.] ut praedicarem annum placabilem Domino [. era um ano de indulgência e redenção. Senhor.. e eu escrevi as profecias deles para consolação dos vindouros e para que os vossos fiéis com os casos futuros se não perturbassem». aponta nomeadamente dois que mais parecem receitados para o nosso cativeiro que para o de Babilônia: o primeiro. assim nós. ne fideles tui propter futuros casus everterentur: «Vós. que foi S. pergunto. me revelastes aqueles mistérios. e assim o líamos nós também nas nossas. com que os lutos e tristezas passadas se convertessem em festas e alegrias: Et darem eis coronam pro cinere.] ut consolarem omnes 1ugentes [. ou da Cristandade.. em que o cativeiro se havia de acabar: Et praedicarem captivis indulgentiam. João. para todos lhes prometo este remédio: melhor é que sobejem os remédios à cautela. sejam os casos e profecias próprias dos nossos tempos e escritas só para eles. e no concurso de todas estas profecias se consolava e animava Portugal a ir vivendo ou durando até ver o cumprimento delas.. «Desceu sobre mim o Senhor. ou do Mundo os que pode causar nele a necessidade ou a adversidade dos tempos. E porque não pareça que argumento só de casos e profecias de tempos antigos. Querendo Cristo. que a santa ouvisse a resposta da boca do mesmo Profeta. como se lê no Livro VI de suas Revelações. estejam neles constantes. as escreveram: para que se veja quão justa e quão útil é. Domine. oleum gaudii pro luctu. a diligência com que eu me disponho. João tivesse aquelas revelações e escrevesse aquelas profecias? É pergunta esta de que foi respondida Santa Brígida.. João e disse desta maneira: Tu. por particular favor. diz com igual brandura e eloquência estas notáveis palavras: Spiritus Domini super me [. a tristeza e desmaio de seus corações».

não perca Josué nem seus soldados o animo. brame o mar. quis non timebit? «Quando bramir o leão. rompa-se o céu. as conquistas. sem ter por fiador a palavra divina. na fé e confiança das mesmas promessas se atreverão animosamente a empreendê-las. Quando as bramidos do leão se ouvirem em suas caixas e trombetas. se tiverem nas mãos as armas e no coração as profecias! Leo rugiet. que não temerá Portugal que é o David que tantas vezes lhe tem tirado das garras os seus cordeiros. ainda então os repreendeu de pouca confiança. Esta é a resposta do valor. e de as ajuntar. lendo. Não confie Portugal em si. nem ainda temeridade que se arrojasse a empreender a desigualdade de tamanhas guerras e a desproporção de tão imensas conquistas. de cujo som tremem os muros de Jericó e a cuja bateria nenhuma fortaleza resiste. quis non timebit? Dominus Deus locutus est quis non prophetabit ? Está o leão bramindo? Sim. os reinos. Leo rugiet. que agora é o tempo. que Deus há-de acudir por sua palavra. nem na terceira. que por isso nos tem prevenido com elas. Capítulo VI: Terceira utilidade. E porque o fruto deste benefício se pode colher nas novidades que promete este mesmo ano em que. Mas as promessas e as disposições divinas. recorram a Deus e a suas promessas. sendo certo que. que é o Sansão que tantas vezes o tem desqueixado. depois de os atemorizar com fantasmas. pois agora é o tempo de se ouvirem as profecias e de se saber e publicar o que Deus tem dito: Dominus Deus locutus est. que lhes estão prometidas. Assim lhes chamei. Mas se acaso (que pode ser) houver algum sucesso adverso (que também depois do milagre de Jericó houve nos campos de Hai). . está. lendo os príncipes da Cristandade. Oh! que bem armados esperarão o leão na campanha os nossos soldados. ou para mais exaltar sua onipotência. os triunfos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro tempos. seguro está o Reino em que ele e a palavra de Deus correm o mesmo perigo. soe também em nossos ouvidos por cima de todas elas. Escureça-se a noite. de que Deus se não agrada. porque são voz do Céu. Deixou Cristo aos discípulos lutar com a tempestade na primeira vigia. Ele pode mais que todos os poderes humanos. e quando na quarta.) por Padre Antônio Vieira 21 Finalmente (e é a terceira e não menor utilidade desta História). as vitórias. que é o Hércules que tantas vezes se tem vestido de seus despojos.tão singulares maravilhas e maravilhosas felicidades. quis non prophetabit? Estas são as trombetas do Céu. as coroas e o domínio e sujeição de nações tantas e tão dilatadas. pratiquem-nas todos. e pelejará seguro. o trovão de nossas profecias. Costuma a Providência Divina começar suas maravilhas por efeitos contrários. e mais particularmente aqueles que foram ou estão já escolhidas por Deus para instrumentos gloriosos de . digo. digo assim com o profeta Amos: Leo rugiet. História do Futuro (Volume I. que não temerá Portugal. quis non prophetabit? Falem todos nas profecias e entendam-nas todos. medidas só as forças da potência humana. e esta pode ser também a da arrogância. enfureçam-se os ventos. quem não tremerá?» Responderão com razão os nossos soldados que não temerão aqueles que tantas vezes os têm vencido. nenhuma razão haveria no Mundo que se atrevesse a aconselhar. e só uma cousa não pode. na segunda não lhos acudiu. ou para provar nossa fé. porque se não ofenda Deus. que não temerá Portugal. confie só no mesmo Deus e em suas promessas. que é faltar ao que tem prometido. no discurso da História do Futuro. somos entrados. ordenar e tirar à luz para o benefício público. os socorreu com sua presença. aplicando o remédio à ferida ou aos ameaços dela.

. tendo por sem dúvida que havia de vencer. Bem sei que no dia em que nasceu Alexandre. e encaminhando para os alojamentos do inimigo. trava-se uma brava peleja dos mesmos Filisteus uns contra os outros. disse assim ao seu pajem da lança. O homem que a empreendeu era o maior capitão que criou a natureza. cuidando que eram os soldados de Saul. foi a famosa de Alexandre Magno. onde prognosticaram os Magos que naquele dia entrara no Mundo quem havia de ser o incêndio de toda Ásia. bastando só dois homens armados da confiança de uma profecia. filho de el-rei Saul. Para testemunho desta tão importante verdade e alento dos que a lerem. Tinham vindo sobre o povo de Israel os exércitos dos Filisteus com trinta mil carros de guerra e tanta multidão de soldados. e que havemos de prevalecer contra eles. chegaram perto e foram sentidos. a que os Hebreus chamavam Phurim. 22 . reconhecendo sua desigualdade para resistir a tão superior e excessivo poder. e que não convém acometer.Anexo:Imprimir/ História do Futuro antecedentemente conhecidas na previsão do futuro. porei aqui um só exemplo de guerras. atropelam-se. que não só compara a Escritura Sagrada q número deles com o da areia do mar. nem ele se atrevera ao que se atreveu. porque os tem entregues em nossas mãos. para que Jónatas entendesse a resposta do divino oráculo. As sentinelas que deram fé dos dois voltos. Ajustados os sinais nesta forma. mas não chamo eu a isto profecias. e na fé e confiança desta profecia. estava prometido pelos oráculos de Apolo Délfico o império de todo o Oriente. diz o mesmo texto que se tinham escondido pelas brenhas. seguem os Filisteus fugitivos. mas se não fora ajudado da profecia. aperfeiçoou a arte e acompanhou a fortuna. A maior e mais nobre conquista que até hoje se intentou e conseguiu no Mundo. interpretando-a (como verdadeiramente era) conforme o sinal que tinha posto. quae est in littore maris. Os Israelitas. avança animosamente às tendas dos Filisteus. trata de consultar a Deus por um modo de oráculo ou sorte. concordando em que eram hebreus dos que estavam metidos pelas covas.. pelas grutas. que só o acompanhava: Se quando formos sentidos do exército dos Filisteus. nem obrara e levara ao cabo o que obrou. levantaram a voz e disseram para eles: — Vinde cá. Também sei que a quem desatasse o nó gordiano que Alexandre cortou com a espada. pelas montanhas.sicut arena. que temos certa cousa que vos dizer. disserem as sentinelas: — Esperai por nós — é sinal que responde Deus que paremos. como são os vaticínios da Gentilidade. plurima. e voltam carregados de despojos. cresce a confusão. Conhecem-se enfim com imortal glória de Jónatas os autores de tão estupenda façanha.sabe inventar o medo e a necessidade. falaram entre si. outro de conquistas. toca-se arma. mas se as sentinelas disserem: — Vinde para cá — é sinal que responde Deus que acometamos. Fogem. pela qual a Providência divina naquele tempo costumava responder e significar os sucessos futuros.Neste estado de horror e miséria sai de noite o príncipe Jónatas. senão com a areia muita: . mas um e outro os maiores que até hoje se viram no Mundo. para porem em fugida o mais poderoso exército e alcançarem a mais desigual e prodigiosa vitória. Saem das covas os Israelitas. Não foi necessário mais. matam-se. perturbam-se os arraiais. formou o valor. começa ele e o companheiro a matar nos inimigos. ardeu o famosíssimo templo de Diana Efesina. pelas covas. nem assento considerações e verdades tão sérias sobre fundamentos de tão pouca subsistência. prosseguiram seu caminho. tudo facilitam e a tudo animam. pelas cisternas e por todos os outros lugares mais ocultos e secretos que ..

. tendo por sem dúvida que havia de vencer. tão alheia de sua grandeza e majestade. onde prognosticaram os Magos que naquele dia entrara no Mundo quem havia de ser o incêndio de toda Ásia. como são os vaticínios da Gentilidade. no liv. XI de suas Antigüidades. A maior e mais nobre conquista que até hoje se intentou e conseguiu no Mundo. revestido dos ornamentos pontificais. respondeu que ele não adorara aquele homem. para porem em fugida o mais poderoso exército e alcançarem a mais desigual e prodigiosa vitória. o ornato e a representação em que Deus lhe tinha aparecido em Dio. cidade de Macedônia. Propterea et 23 . que naquele tempo meditava.] Exinde arbitrar Divino iuvamine me directum Dariumque vixisse. revestido dos ornamentos pontificais. et Persarum traditurum potentiam: ideoque neminem alium in tali stola videns. incitavit me ut nequaqm negligerem. começa ele e o: companheiro a matar nos inimigos. nem ele se atrevera ao que se atreveu. saiu a o receber fora do templo D sumo sacerdote Jado. interpretando-a (como verdadeiramente era) conforme o sinal que tinha posto. cum huc advertissem. atropelam-se. e exortando-o a que empreendesse a conquista da Pérsia. sed confidenter transirem. cujus principa desse a resposta do divino oráculo. no liv. que. estava prometido pelos oráculos de Apolo Délfico o império de todo o Oriente. aperfeiçoou a arte e acompanhou a fortuna. Conhecem-se enfim com imortal glória de Jónatas os autores de tão estupenda façanha' bastando só dois homens armados da confiança de uma profecia. Bem sei que no dia em que nasceu Alexandre. porque reconhecera que aquele era o hábito. [. e voltam carregados de despojos. respondeu que ele não adorara aquele homem senão nele a Deus. mas não chamo eu a isto profecias. senão nele a Deus. lhe segurara a vitória. se lançara a seus pés e o adorara. cuidando que eram GS soldados de Saul. saiu a o receber fora do templo o sumo sacerdote Jado. matam-se. porque reconhecera que aquele era o hábito. tão alheia de sua grandeza e majestade. vendo-o. Dumque mecum cogitassem posse Asiam vincere. se lançara a seus pés e o adorara. toca-se arma cresce a confusão. As palavras de Alexandre (que é bem se veja a sua formalidade) são as seguintes: — Non hunc adoravi. e que Alexandre. habens visionis et probutionis nocturnae memoriam. entrando Alexandre em Jerusalém.. ardeu o famosíssimo templo de Diana Efesina. avança animosamente às tendas dos Filisteus. Conta Josefo. trava-se uma brava peleja dos mesmos Filisteus uns contra os outros. XI de suas Antigüidades. cujus principatus sacerdotii functus est. Também sei que a quem desatasse o nó gordiano que Alexandre cortou com a espada. Fogem. formou o valor. seguem GS Filisteus fugitivos. salutavi. e perguntado pela causa de tão desusada reverência. nem obrara e levara ao cabo o que obrou. cidade de Macedônia. sed Deum. que entrando Alexandre em Jerusalém. mas se não fora ajudado da profecia. sed Deum. e que Alexandre. e perguntado pela causa de tão desusada reverência. e na fé e confiança desta profecia. o homem que a empreendeu era o maior capitão que criou a natureza. virtutemque solvisse Persarum. o ornato e a representação em que Deus lhe tinha aparecido em Dio. foi a famosa de Alexandre Magno. que naquele tempo meditava.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Conta Josefo. perturbam-se os arraiais. Saem das covas os Israelitas. As palavras de Alexandre (que é bem se veja a sua formalidade) são as seguintes: Non hunc adoravi. adhuc in Dio civitate Macedoniae constitutus. lhe segurara a vitória. vendo-o. Nam per se ducturum meum exercitum dicebat. Nam per somnium in hujus modi eum habitu conspexi. nem assento considerações e verdades tão sérias sobre fundamentos de tão pouca subsistência. e exortando-o a que empreendesse a conquista da Pérsia.

Não parou aqui Alexandre.corde sperantur. et Darium regem Persarum et Medorum.. se 24 . referido e louvado por Plínio no liv. as quais províncias. Na visão da estátua de Nabuco. et interfecit reges terrae. constituit et praelia multa et oblinuit omnium munitiones. Saiu pois Alexandre da parte ocidental. animado e soprado do espírito das mesmas profecias e cheio da majestade delas. et accepit spolia mulitudinis gentium. No mesmo templo de Jerusalém. é a desigualdade do poder e o limitado aparato de guerra com que entrou em tão imensa empresa. II. pela velocidade com que vencia e sujeitava tudo. com que mereceu o nome e se fez verdadeiramente magno.percussit Alexander [. na segunda. que é a Macedônia.. antes de obrar todas estas maravilhas. que foi Alexandre. Gália. partiu Alexandre vitorioso para a conquista que lhe restava do mundo oriental.] qui primus regnavit in Graecia. VIII. entrando da volta desta jornada em Babilônia. e diz ali o Profeta que reinaria e se faria obedecer de todo o Mundo: Et regnum tertium aliud aereum. com dois cornos muito fortes. como refere Plutarco e o prova com graves autores. refere também Josefo que foram mostradas a Alexandre as profecias de Daniel. o qual sujeitou e uniu todo ao seu império. de Cartago Espanha. por isso tinha a testa dividida em dois cornos. saiu de Macedônia com menos de quarenta mil homens. referida no cap. VII. achou nela os embaixadores de África. o terceiro dos metais. Porém o que mais admira nas conquistas e vitórias de Alexandre. como é autor Clitarco. se lhe mandaram sujeitar e entregar espontaneamente e entre elas os mesmos Romanos (nome já naquele: tempo famoso no Mundo). sem pôr os pés na terra. Itália. do que depois se viu nas estátuas de Lisipo nem nas pinturas de Apeles. bastimentos só para trinta dias. o investira e derribara e metera debaixo dos pés. que fazem da nossa moeda quarenta e dois mil cruzados. Mas foram ainda mais em número e grandeza as nações que venceu e sujeitou Alexandre com a fama mais que com a espada. outro. que era o bronze. que foram os quatro reinos em que ele o repartiu entre seus capitães. não é muito que. quod imperabit universae terrae. o império dos Gregos. e depois de sua morte se dividiu em quatro. Sicília. acabando de se cumprir a profecia na última batalha do Tigranes. porque. significado no leopardo com quatro asas. III da História Natural. na primeira. dos Macabeus. o maioral das ovelhas. Tudo certifica ainda com palavras maiores o mesmo Texto Sagrado no exórdio do I Liv. o maioral das cabras. derribou e meteu debaixo dos pés o império dos Persas e Medos. O terceiro era Alexandre. particularmente aquela do cap..Anexo:Imprimir/ História do Futuro omnia quae meo. Conta ali o profeta que viu dois animais do campo: um.. Nestas duas figuras é certo que estava profetizado. o império dos Persas e Medos (como explicou o anjo a Daniel). e com setenta talentos para estipêndios. em obséquio e reconhecimento de sua potência. dizendo: . se tivesse visto a si mesmo melhor retratado nas profecias de Daniel. passando o Tauro e o Cáucaso e chegando até os fins do Ganges e praias do mar Índico. pertransiit usque ad fines terrae. Sardenha. porque não pararam aqui as profecias de Daniel na visão dos quatro animais referidos no cap. com um só corno entre os olhos (o qual depois de quebrado se dividiu em quatro). porque. investiu. que no princípio esteve unido em uma só pesca. pro ventura confido. correndo da parte do Ocidente contra o primeiro. et siluil terra in conspectu ejus. Em seguimento e confiança destas profecias. Mas como Alexandre. em que venceu e desbaratou de todo os exércitos de Dario e tomou ou se deixou saudar com o nome de Imperador da Ásia. e sem pôr os pés na terra. significava também o império de Alexandre. que eram então os últimos da terra de onde Hércules e o padre Líbero os tinham colocado. e que este segundo animal.

Na manhã. cumpriu e encheu Alexandre tudo o que cabia na mortalidade. mas como o velho ermitão. «Domado o Oriente e navegado o Oceano. intérprete da Divina Providência. a portuguesa. E de aqui se pode desculpar (cousa que não soube nem pôde advertir nenhum dos historiadores de Alexandre. indigna de um general prudente e muito mais de um rei. pisa glorioso as cinco coroas mauritanas e põe na cabeça.. sem reparar em que era tão desigual o partido. resolveu intrepidamente dar a batalha. mas ainda mostraram mais os poderes de sua influência na conquista. Era tão inumerável a multidão de Sarracenos que debaixo das luas de Ismael. confiança e não temeridade empenhar-se Alexandre nos perigos para conseguir as empresas. rompe os esquadrões. sustenta quatro vezes o peso imenso de todo seu poder. despoja. visto primeiro em sonhos e depois realmente ouvido e conhecido. aditoque Oceano. Quem duvida que foram mais estendidas e gloriosas as conquistas dos Portugueses que as de Alexandre Magno na mesma Índia? Desta conquista de Alexandre disse o seu grande historiador . 25 . donde Alexandre tinha saído.Oriente perdomito. se pode desculpar aquela mais temeridade que audácia (qualidade. se vira as navegações dos Portugueses no mesmo Oceano e suas conquistas no mesmo Oriente? Obrigação tinha em boa conseqüência de lhes chamar imortais. já rei. e dar exemplo de desprezo da vida a seus soldados para os animar às vitórias. rende. posto que honrosa. inundaram os campos de Guadiana com intento de tomar Portugal naquele dia fatalíssimo. como nas conquistas. mas a previsão e presciência de suas futuras vitórias e do império que lhe estava prometido. que para cada lança cristã havia no campo cem mouros. com que Alexandre empenhava sua pessoa e vida e se precipitava muitas vezes aos perigos por cousas leves. se deve a Filipe o ser Alexandre.:> Que dissera. acomete de fronte a fronte ao inimigo. com aquelas tão expressas e animosas palavras Vinces. deve a Daniel o ser Magno! Os exemplos que temos domésticos desta mesma utilidade. ou vencê-las. quidquid mortalitas cutiebut. Não chegaram os Portugueses só às ribeiras do Ganges. digo. não o domínio que ele tivesse sobre a fortuna — Quam solus omnium mortalium sub potestate habuit — como com discrição gentílica disse dele Cúrcio. cativa. e havia necessariamente de conquistar. et non vinceris — socorrido o animoso capitão e fortalecido o pequeno exército com esta promessa do Céu. e dos outros quatro reis mouros. triunfa. mas passaram e penetraram adiante muito maior comprimento e terras do que há do mesmo Ganges a Macedônia. desbarata o exército. o qual. impleret. pois.. fé era e não audácia. e libertada a Pátria. sendo tantos e tão excelentes). e seu valoroso príncipe duvidoso se aceitaria ou não a batalha. Isto obraram as profecias daquela noite na guerra. E como tinha a vida e as empresas firmadas por uma escritura de Deus ou por três escrituras. como Alexandre. não são menos admiráveis que os estranhos. assim nas batalhas. e ao mesmo Deus por fiador de sua palavra e promessas. e alcançada na mesma hora a vitória. da mesma noite em que tinha recebido a profecia. Alphonse. quando conquista o alheio e não defende o próprio). conforme as profecias de Daniel. Tanta parte teve a profecia nas ações deste grande capitão e no império deste grande monarca. das quais justamente se duvida (como pôs em questão Justino) se foi maior façanha o intentá-las. que justamente estavam temerosos os poucos portugueses. sendo a confiança ou o seguro de todos estes arrojamentos. o primeiro de nossa maior fortuna. de aqui. mata. lhe assegurou da parte de Deus a vitória.Anexo:Imprimir/ História do Futuro atrevesse a tão árduas e dificultosas empresas.

tão temeroso por seus tulões e tão infame por seus naufrágios. com mais pertinácia que com instancia? Mas não obraram todas estas proezas aqueles portugueses famosos por benefício só de seu valor. Com este oráculo divino mais fortalecido o espírito do Infante. Henrique. que fomes. mereceu que o mesmo Deus com uma voz do Céu o exortasse a levar por diante o começado. e esta fé os animava nos trabalhos. Que valor sesudo. e mais fortes guerras experimentaram nos naturais que resistência nos inimigos. no IV cap. Sabiam que tinha Cristo prometido a seu primeiro rei que os escolhera para argonautas apostólicos de seu Evangelho e para levarem seu nome e fundarem seu império entre gentes remotas e não conhecidas. seguindo seu exemplo e empresa. mas domaram o mesmo Oceano na sua maior largueza e profundidade. que por espaço de dez anos padeceram os primeiros descobrimentos das conquistas. que promontórios não contrastaram? Que gentes feras e belicosas não domaram? Que cidades e castelos fortes na terra? Que armadas poderosíssimas no mar não renderam? Que trabalhos. que frios. não longe senão dentro de 26 . Maiores contrastes tiveram ainda as conquistas de Portugal na nossa terra que nas estranhas.. e esta esperança a âncora e amarra firme. Assim se conta e escreve por fama e tradição daquele tempo. Ásia. e nela principalmente pretendia a glória de Deus. insistindo sempre e indo avante. como religiosíssimo príncipe que era. mas sujeitaram e fizeram tributárias mais coroas e mais reinos do que Poro tinha cidades. aonde ele é mais bravo e mais pujante. João I. valor e constância do Infante D. que mortes não sofreram e suportaram. que calores. posto que muito a devamos à ousadia do nosso valor. que não pudera conseguir sem o socorro da luz do Céu. esta luz do futuro era o norte que os guiava.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Não venceram só a Poro. e de todo o Reino. autor desta heróica empresa. Que perigos não desprezaram? Que dificuldades não venceram? Que terras. nos ganhou com sua constância as conquistas. o Pérsico. que climas. leia o grande cronista da Ásia. que sedes. o Malabárico. filho de El-Rei D. sem parar. e seus exércitos. que céus. sobre todos. e. valor. que mares. guia e esperança aos que. que tormentas. sem tornar atrás. o Sínico. Henrique. que por meio de tão dura porfia se haviam de alcançar. e conhecerá quantas obrigações deve Portugal e o Mundo ao sofrimento. não só pôde romper e abrir as portas tão cerradas do Oceano e deixá-las francas e patentes aos que depois vieram. que vigias. que é um seio ou braço do Oceano. esta última resolução que no ano de quarenta assombrou o Mundo. que nas mais desfeitas tempestades os tinha seguros. a levaram ao cabo. e restituir-se à sua liberdade. e contrastando com igual fortaleza o indômito furor do segundo e quarto elemento (que são o mar e o fogo). o Etiópico. conquistando-as primeiro em Portugal. que será sempre de feliz memória. mas dar animo. América. o qual. Finalmente. senão pela confiança e seguro de suas profecias. do que fossem conquistadas na África. Não navegaram só o mar Indico ou Eritreu. e aclamar novo rei. animado nas contradições e contrariedades presentes com o conhecimento e certeza dos sucessos futuros. Quem quiser ver com admiração a tormenta de contradições populares . vencidas as primeiras e maiores dificuldades. rei da Índia. prudente e bem aconselhado se havia de atrever a uma empresa tão cercada de dificuldades. do I liv. muito mais a deve o nosso valor à confiança de nossos vatícinios. Desta maneira o Infante D. sem ceder. para que até nesta parte deva Portugal as suas conquistas aos lumes e alentos da profecia. com promessa de seu favor e luz dos gloriosíssimos fins. esta confiança os sustentava nos perigos. que ventos. dilatação da Fé e conversão da Gentilidade. que doenças. como levantar-se contra o mais poderoso monarca do Mundo. mais poderoso e mais indômito: o Atlântico.

e muito maiores. e o zelo da liberdade. Segurou-lhes Deus as vitórias. ut praedicatores veritatis. pois tudo o que tínhamos vencido e conquistado em quinhentos anos. porque. indubitanter aggrederentur pauci multos. que nos tempos que hão-de vir (ou que já vêm) o esperam! Não se poderá compreender a grandeza e capacidade desta importância senão depois de lida toda a História do Futuro. João. Em todas as outras considerações foi mais desigual esta empresa que as que eu prometo ou hei-de prometer. quando lhe acrescentou as conquistas. vel quali etiam fine contenta. se debaixo desta fé cresceu. se não vença. infirmi nobiles. nenhuma tão defendida de dificuldades. e pergunte-se a si mesmo se se atreve a igualar estes paralelos. e a saudade do rei. Da conquista espiritual do Mundo se pode fazer bom argumento para a temporal. em todos os casos maiores que podem acontecer a um reino. se estendesse por seus sucessores em todo o Mundo. um reino de grandeza tão desigual. Não se pode dizer. este mesmo conhecimento os animava a quererem ser (como foram) os instrumentos gloriosos delas. e se a esta se atreveram poucos homens sem armas. e este seja entre todos o maior exemplo. sem soldados. contra tantos armados arrogantes. se não avance. inermes armatos. que nenhuma empresa pode haver tão desigual. a promessa que sempre a conservou nos corações. se debaixo desta fé se restaurou. a levantou a seu tempo nas vozes. pauci multos. sem socorros. sem estimação. que debaixo do escudo desta confiança se não intente. sem amigos. se não prossiga. fundada pelos Apóstolos. assim das nossas guerras como das nossas conquistas. a Pátria aos Portugueses. nem mais elegantemente. tome os compassos a Portugal e ao Mundo. vivi tamen spiritualiter mortuos. só porque no conhecimento das profecias tinham segura a 27 . lendo os soldados evangélicos naquelas profecias quão largamente se havia de propagar a mesma Igreja e quão prodigiosas vitórias havia de alcançar a Fé contra todos os inimigos. e Portugal a si mesmo. oh! quanto mais necessário lhe será a Portugal. que é o seu reino. o pudemos restaurar um dia. o Reino à Pátria. nobres e poderosos. quae jam fuerat apostolorum praedicatione funduta. nem mais certa. humiles superbos. alentados das promessas do Céu. em que o novo rei seria levantado. nenhuma tão armada de perigos. quando as restituiu a elas e se restituiu a si mesmo. e quanto mais útil e importante esta mesma fé e conhecimento de seus futuros sucessos para aquelas empresas novas. se debaixo desta fé nasceu.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Espanha. sem assistências. sobre sessenta anos de cativo e despojado. em que nunca se apagou o amor da Pátria. e ela foi a que deu o rei ao Reino. É porém. hujus cognitionis fidutia freti. Mas quem quiser desde logo fazer de algum modo a conjectura desta desproporção. sem poder. e quais foram as armas com que Deus os fortaleceu para que não temessem ou duvidassem a empresa e se dispusessem animosamente a tão estranha conquista? Advertiu com profundo juízo Primásio que fora o Apocalipse de S. Quis Deus que a Igreja. revelari oportuit — diz Primásio — qualiter esset latius propaganda. tão poderoso contra todos os impossíveis o conhecimento e fé do que há-de ser representado no espelho das profecias. quando recebeu a coroa. E se tanto tem valido e importado a Portugal o conhecimento de seus futuros. só e até de si mesmo dividido em tão distantes partes do Mundo? Mas como havia outros tantos anos que a profecia estava dando brados aos corações. se exceptuarmos a desproporção de poucos a muitos. dizendo e publicando a todos que o desejado tempo dela havia de chegar no ano felicíssimo de quarenta. sem aliados. sem armas. pois é mais forte a guerra e mais dura resistência a dos entendimentos que a dos braços. para que não duvidassem cometer as batalhas: Post exortum autem Ecolesiae. sem nobreza. na qual só se medirá bem a imensidade do objeto com a desigualdade do instrumento.

que um escudo formado por arte e sabedoria divina. Gregório escudo fortíssimo da presciência. mas pintarem-nas como haviam de ser ou como era bem que fossem. se reparam e se rebatem: Et nos tolerabilius mundi mula suscipmus. ainda que sejam poucos contra muitos? E digo na confiança das mesmas profecias. e todos os que lhes quiserem ser companheiros. e que golpes nos pode atirar com todas as forças de seu poder.praescientia. que trabalhos. senão 28 . mãe de Eneias. e achou o mais levantado e judicioso espírito de quantos escreveram em estilo poético. posta toda a confiança em Deus e em sua palavra.Clypei non enarrabile textum Illic res Italas. compondo e copiando os sucessos pelos oráculos e vaticínios dos profetas e pelas notícias próprias que tinha. no qual estivessem entalhados e descritos os mesmos sucessos futuros que se haviam de obrar naquela empresa. que perigos que não pisem. ao deus Vulcano lhe fabricasse umas armas divinas. este prodigioso livro do futuro.. com que vencesse os reis e sujeitasse as nações belicosíssimas que a dominavam. ) O ofício e obrigação dos poetas não é dizerem as cousas como foram. Que vem a ser esta nossa História do Futuro. a terra e o Mundo. Aeneid . que era a maior e principal peça delas. para conquistar as mais belicosas nações e para fundar o mais poderoso e dilatado império.Anexo:Imprimir/ História do Futuro felicidade e fim da empresa. e na confiança das mesmas profecias. se as empresas no mesmo escudo vão já resolutas. confiança e valor o peito que fosse coberto e defendido com ela. as armas se ilustram com a nobreza e a nobreza compete com a estimação e com a fama. 8. diz que abriu de subtilíssima escultura as histórias futuras das guerras e triunfos romanos. e no escudo. que conquista haverá que não empreendam. que pediu Vênus. e não vença e triunfe dos mais poderosos inimigos. si contra haec per prtescientiae clypeum munimur. que para vencer as mais dificultosas empresas. que não sustentemos nele com animosa constância? Quem haverá que debaixo deste escudo não empreenda as mais dificultosas conquistas. e com ele embraçado em uma mão e a espada na outra. Fecerat igni potens: illic genus omne futurae Stirpis ab Ascanio. Lerão os Portugueses. as batalhas vão já vencidas e os inimigos já triunfados? Fingiu o príncipe dos poetas latinos. com que entrasse armado na dificultosíssima conquista de Itália. nem que mais enchesse de ânimo. aqueles em quem o poder se iguala com as armas. nenhuma arma poderia haver mais forte. como um dos deuses que era participante dos segredos do supremo Júpiter. romanotumque triumphos. senão escudo da presciência .. nem mais impenetrável. Forjou Vulcano as armas. que impossíveis que não vençam? Ao conhecimento antecedente dos futuros chamou discretamente S. Haud vatum ignarus. que dificuldades que não desprezem. em que todas as adversidades e golpes do Mundo se sustentam. (Virgílio. purgnataque ordine bella. que perigos nos pode oferecer o mar. nem aceite as mais arriscadas batalhas. que pelos fados lhe estava prometido. porque uma boa parte da nossa História (como veremos em seu lugar) são as do mesmo Apocalipse. com que vitorioso fundasse naquelas terras o famosíssimo Império Romano. . clypeum? Armados com este escudo. Assim armou o grande poeta ao seu Enéias . não fabuloso. porque se não atreverão à mesma empresa. venturique inscius aevi. e este mesmo escudo.

e depois de averiguada e conhecida. que também a lição desta História pode ser igualmente útil e proveitosa aos inimigos. havendo tantas razões. o que nesta História do Futuro ofereço. para que o obrem. Portugueses.) por Padre Antônio Vieira 29 Entre as utilidades próprias a dos amigos. Oh quantos danos. voltando os olhos ao passado. Sobre tudo se verão nele a si mesmos e suas valorosas ações. Bem pudera conhecer Espanha. o discurso militar e político. e sem resistência. para o não serem) lerão aqui com boa conjectura as promessas e decretos divinos. como e quando é servido. um manifesto desengano de sua profecia. tenha também algum dia lugar neles a Fé. o que hão-de resolver. quisesse ler esta História do Futuro. Mas são já passados vinte e cinco Invernos. História do Futuro (Volume I. Duarte atava as mãos a Portugal e lhe tirava a cabeça com que haviam de ser governados na guerra. Imaginou Espanha que na prisão do Infante D. sem batalha. quanto sangue e perda de vidas. pela experiência. a vingança. que padecê-las dobradamente na dor e inveja dos êmulos. Dobrado de sete lâminas dizem que era aquele escudo. o que hão-de vencer. parecendo-lhes aos senhores Castelhanos. que não duraria a fantasia do nome mais que até a primeira Primavera. com os olhos limpos de toda a paixão e afeto. ceda-se e obedeça-se a Deus por conveniência. e não fingidos depois de experimentados os sucessos. conheça-se e examine-se a sua vontade pelos meios com que ela se costuma declarar. quantas despesas. Quando se soube em Madrid do rei que tinham aclamado os Portugueses no primeiro de Dezembro do ano de 640. retratem por elas vivamente os originais. não quero deixar de advertir por fim delas. ao nosso rei. como em espelho. para que em tudo lhe seja semelhante. em que sabem muito bem os campos de uma e outra parte o sangue de que mais vezes ficaram matizados. para que. em que a fama só de suas armas nos conquistasse. com estas cópias de morte-cor diante dos olhos. antevendo o que hão-de obrar. se. o apetite e o ódio. suponha-se que Deus é o que dá e tira os reinos. se quiserem abrir os olhos. quantas lágrimas e opressão de naturais e estrangeiros podia escusar Espanha. Capítulo VII: Última utilidade. e que com os muros de Milão tinha . quantos trabalhos. Nele verão os capitães de Portugal. senão escritos antes de sucederem. conhecendo que na guerra que continuam contra Portugal. e o que hão-de ser. Lerão aqui nossos vizinhos e confinantes (que muito a pesar meu sou forçado alguma vez a lhes chamar inimigos. o que hão-de conquistar. se. pelejam contra as disposições do supremo poder e combatem contra a firmeza de sua palavra. deixada a dissonância e escândalo deste nome. e sem ficção. para que o sejam. é propriamente. sem conselho.Anexo:Imprimir/ História do Futuro verdadeiro. chamavam-lhe por zombaria rei de um Inverno. e com tanto zelo e desejo de acertar com os caminhos de seu maior bem. e também o da nossa História. que Deus é o que desuniu de sua sujeição a Portugal. e Deus o que o sustenta desunido e o conserva vitorioso. ainda da mesma natureza. é publicado em sete livros. provada a verdade dos futuros com a experiência dos passados: e verão. quiserem antes ser companheiros de nossas felicidades. pois se lhe não pode resistir com força. em que inundações do Bétis e Guadiana não afogaram a Portugal. como é o animo com que ele se escreve! Não entre só nos conselhos de Estado a conveniência e reputação. e vinte e quatro Primaveras.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro sitiado a Portugal. Morreu enfim (ou foi morto) aquele príncipe, e nem por isso desmaiou o Reino, antes se armou de novo a justiça de sua causa com a sentença daquela inocência, e se endureceram e fortificaram mais os peitos com o horror e fealdade daquele exemplo. Voltou-se todo o peso da guerra contra Saul; maquinou-se contra a vida de El-Rei Dom João por tantos meios e instrumentos (e algum deles sobre indecente sacrilégio); parecia-lhe a Castela que, faltando a Portugal aquela grande alma, seria fácil a suas águias empolgarem no cadáver do Reino. Faltou El-Rei D. João ao Reino, sobre ter faltado de antes seu primogênito Teodósio, príncipe de tantas virtudes, opinião e esperanças; mas viu o Mundo, posto que o não quis ver Castela, que era o braço imortal o que defendia e conservava aos Portugueses. Sucedeu na menoridade do rei com tanta prudência e valor a regência da rainha-mãe, e à regência da rainha o governo felicíssimo de El-Rei D. Afonso, que Deus guarde, monarca de tão conhecida fortuna, que parece a traz a soldo nos exércitos. Fez Castela neste tempo os maiores esforços de seu poder, e para os poder fazer maiores, assim como por esta causa tinha já concluído ou comprado, a preço da própria reputação, a paz de Holanda, ajustou também a de França . Desembaraçadas em toda a parte as suas armas, chamou os espíritos de todo o corpo da monarquia aos dois braços com que Castela cerca a Portugal. Viram-se juntas contra ele em um exército Espanha, Alemanha, Itália, Flandres, com toda a flor militar, ciência e valor daquelas belicosas nações. Mas que resultas foram as desta tão estrondosa potência e dos progressos que com ela se tinham ameaçado a nós e prometido a Europa? Entrou a guerra dividida no ano de 62 por todas nossas províncias; em todas achou oposição igual e efeito superior. Uniu-se no ano seguinte com novo conselho o poder; acrescentou-se de gente de cavalos , de cabos, de aparatos bélicos ; escolheu-se para teatro daquela formidável campanha a província de Alentejo; começou a tragédia com prósperos e alegres passos, triunfando dos que não podiam resistir às armas castelhanas; mas o fim foi tão adverso, tão lastimoso e verdadeiramente trágico, como viu com admiração o Mundo e chorará eternamente Castela. Perdeu a batalha, o exército e a reputação; deixou a Portugal a vitória, a fama, os despojos, e só levou (como sempre) o desengano. Estes têm sido em vinte e cinco anos os efeitos do poder. Passemos aos da indústria. Entendeu Castela que não podia conquistar a Portugal sem Portugal; tratou de inclinar à sua devoção os grandes e os menores. Na constância houve diferença, mas nos efeitos nenhuma. O povo, cuja fortuna é inalterável, não padeceu alteração. Sendo tão livre e aberto em Portugal o mar como a terra, se não viu em tantos anos nenhum pastor que se passasse a Castela com duas ovelhas, nenhum pescador menos venturoso que aos seus portos derrotasse uma barca. Basta por exemplo ou desengano a famosa resolução do povo de Olivença , que com partido de poder ficar inteiro com casas e fazendas, se não achou em todo ele um só homem de espírito tão humilde, que aceitasse a sujeição. Perderam todos a Pátria pela lealdade, triunfou Castela das paredes e Portugal dos corações. Não viu Roma semelhante exemplo, e assim o celebrou um Jerônimo Petrucho poeta romano, com este epitáfio: Victor uterque manet, victoria dividit orbem: Alphonsus cives, saxa Philippus habet. Ainda deu muito a Castela em partir a vitória pelo meio: o vencedor conquistou pedras o vencido vassalos. De indústria se pudera perder á praça, só por lograr a fineza; e de indústria se pudera também não ganhar, só por não experimentar o desengano. Isto vence

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro Castela, quando vence. e assim se rende o povo de Portugal, quando se rende. A nobreza, em que tem maiores poderes o receio ou a esperança, como mais escrava da fortuna, não foi toda constante. Alguns grandes houve entre os grandes, uns que se passaram ao serviço de El-Rei D. Filipe, outros que com maior ousadia o quiseram servir em Portugal; a uns e outros castigou o mesmo braço da Providência, a estes com a vida, àqueles com o desterro. Até agora não tiveram outro prêmio, nem mereciam outro, porque Castela nem pode ressuscitar os primeiros, nem quis pagar os segundos. É fama que foi respondido à sua queixa que tinham feito o que deviam, mas ainda devem o que fizeram: cá perderam o que tinham, lá não ganharam o que esperavam; entre os Portugueses réus, entre os Castelhanos portugueses, que também é culpa. Isto é o que foram buscar a Castela todos os que lá se passaram — o desengano de seu discurso, o descrédito de sua resolução e o castigo de sua incredulidade; e ainda de lá nos mandam o exemplo de seu arrependimento. Levaram o que nos não faz falta, porque se levaram; e deixaram o que nos ajuda a defender, porque nos deixaram as suas rendas. A Portugal deixaram os despojos de suas casas, aos vindouros a memória de sua infidelidade e ao Mundo pregão de sua covardia. Tal foi o merecimento, tal o prêmio. Julgue agora Castela se terá esse interesse cobiçosos e este empenho imitadores. Dizia um dos primeiros embaixadores de Portugal em França (quando ainda havia quem impugnasse a esperança da nossa conservação), que, no caso em que a desgraça fosse tanta, antes se havia de entregar ao Turco que a Castela. Era o embaixador ministro de letras, e como um grande senhor francês lhe pedisse a razão deste seu dito, sendo católico e letrado, respondeu assim: -Porque eu em Turquia, se defender a Fé, serei mártir; se renegar, far-me-ão baxá: e em Castela Monsieur, nem baxá nem mártir. Foi muito celebrada a discrição da resposta, a que acrescentava galantaria a mesma pessoa do embaixador; porque era mui avultado de presença e tão bem lhe podia estar na cabeça o turbante, como na mão a palma. Nada mais venturosamente lhe sucederam a Castela as indústrias estrangeiras que as domésticas. todas desarmou em armas contra si mesma. Em Roma, impediu o provimento das mitras. mas os bagos se converteram em lanças e o que haviam de comer os pastores das ovelhas, comem os que as defendem dos lobos. Em Holanda, comprou os estorvos da paz, mas esta se retardou somente quando foi necessário para se recuperarem as Conquistas. Caso grande e de providência admirável! Em Inglaterra, se empenhou por divertir o parentesco; em França, capitulou que não pudéssemos ser socorridos. mas teve uma e outra diligência tão contrários efeitos, que se vêem hoje em Portugal as suas quinas tão acompanhadas das cruzes de Inglaterra, como assistida das lises de França. Unidas e complicadas estas três bandeiras, fazem um silogismo político, de tão segura como terrível conseqüência. Se só Portugal pôde resistir a Castela tantos anos, ajudado dos dois reinos mais poderosos da Europa, no mar e na terra, como não resistirá? O maior contrário que tem Espanha é o seu próprio poder. Quando se quis levantar sobre todos, se sujeitou à emulação de todos. Estes terá por si Portugal, enquanto ela for poderosa; se o não for, não os há mister. Os discursos da esperança (que é a última apelação de Castela) são os que mais lhe mentiram, porque os homens (quando assim lho concedamos) discorrem com a razão, e Deus obra sobre; ela. Todos os que nas matérias de Portugal se governaram pelo discurso, erraram e se perderam; e por aqui se perderam (ainda entre nós) os que na opinião dos homens eram de maior juízo. São obras e mistérios de Deus; quer Ele que se venerem com

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro a fé e não se profanem com o discurso. Por isso todas as esperanças que se assentaram sobre esta fé foram certas e todas as que se fundaram sobre o discurso, erradas. É natureza isto, e não milagre da palavra e promessa divinas: ...in verba tua super superavi — dizia aquele grande político de Deus, que não só esperava, mas sobreesperava nas promessas de sua palavra divina; porque há-de esperar nas promessas da palavra divina, sobre tudo o que promete a esperança do discurso humano. Assim o temos sempre visto em Portugal, com admirável crédito da fé e igual confusão da incredulidade. No tempo em que Portugal estava sujeito a Castela, nunca as forças juntas de ambas as coroas puderam resistir a Holanda; e de aqui inferia e esperava o discurso que muito menos poderia prevalecer só Portugal contra Holanda e contra Castela. Mas enganou-se o discurso. De Castela defendeu Portugal o Reino e de Holanda recuperou as Conquistas. Aquele fatal Pernambuco, sobre que tantas armadas se perderam e se perderam tantos generais, por não quererem aceitar a empresa sem competente exército, que discurso podia imaginar que, sem exército e sem armada, se restaurasse? E só com a vista fantástica de uma frota mercantil se rendeu Pernambuco em cinco dias, tendo-se conquistado pelos Holandeses com tanto sangue em dez anos, e conservando-se vinte e quatro. Menos esperava o discurso que se conquistasse Angola com tão desigual poder enviado a tão diferente fim; e conquistou-se contudo aquela tão importante parte de África contra todo o discurso e antes de toda a esperança. E porque se saiba mais distintamente quão grandes significações se contêm debaixo destes nomes tão pequenos — Pernambuco e Angola — o que se recuperou em Angola foram duas cidades, dois reinos, sete fortalezas, três conquistas a vassalagem de muitos reis e o riquíssimo comércio de África e América. Em Pernambuco recuperaram-se três cidades, oito vilas, catorze fortalezas, quatro capitanias, trezentas léguas de costa. Desafogou-se o Brasil, franquearam-se seus portos e mares, libertaram-se seus comércios, seguraram-se seus tesouros. Ambas estas empresas se venceram e todas estas terras se conquistaram em menos de nove dias, sendo necessário muitos meses só para se andarem. Quem nestes dois sucessos não reconhecer a força do braço de Deus, duvidar-se pode se o conhece. Assim assiste a Portugal dentro e fora, ao perto e ao longe, aquele supremo Senhor que está em toda a parte e que em todas as do Mundo o plantou e quer conservar. Bendita seja para sempre sua onipotência e bondade! Também esperava o discurso de Castela que os ânimos dos Portugueses, com a continuação da guerra e experiência de suas moléstias, se enfastiassem e suspirassem pela antiga e amada paz, cujo nome é tão doce e natural, e mais à vista de seu contrário; que as contribuições forçosas para o subsídio dos soldados e a licença e opressão dos mesmos soldados fossem carga intolerável aos povos; que os povos, depois de apagados aqueles primeiros fervores que traz consigo o desejo e alvoroço da novidade, com o tempo e seus acidentes se fossem entibiando, até se esfriarem de todo; que os pais se cansassem de dar os filhos e que a guerra detestada das mães (como lhe chamou o Lírico) fosse também detestada e aborrecida das Portuguesas, que, entre as outras mães, o costumam ser mais que todas no amor e na saudade. Mas também aqui mentiu a esperança e se enganou o discurso, porque os ânimos se acham hoje mais alentados, os fervores mais vivos, os corações mais resolutos, o amor ao rei, à Pátria e à Liberdade mais forte, mais firme e mais constante, e maior que todos os outros afetos da fazenda, dos filhos, da vida. Lembram-se os pais que davam os filhos para as guerras de Flandres, de Itália, de Catalunha e navegação das Índias de Castela, onde os perdiam para sempre; e querem

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não para o verem e lhe falarem. aquele discurso. Finalmente. Conhecem a grandeza desta estimável felicidade. onde recebem a glória de ouvir celebrar as ações de seu valor e feitos galhardos. contra os combates de uma potência tão desigual e superior como era a do maior monarca do Mundo. que os ouve e lhes responde. e que. ruína. 33 . Vêem o fruto de seus trabalhos e suores. sem mais diligência nem ação que o mesmo peso e grandeza de tão imenso contrário. que. Têm na memória que também antigamente pagavam. e não para a cobiça de ministros e exatores estranhos. sem a dura e insuportável pensão de o irem buscar a Madrid. e que o têm consigo e junto a si para o requerimento da justiça. sendo tão generosas as mães (nas quais este afeto é superior a toda a natureza). e ficaria oprimido e sepultado debaixo de seu próprio triunfo. Os povos não se cansam com os subsídios e contribuições. e toda a mudança impossível. e que não era possível aturar por muitos anos as despesas excessivas de uma guerra interior. se morrem na guerra. têm rei que lhes pague as vidas com larga remuneração de mercês e aumento de suas casas. e antes da experiência mui dificultosa solução. seria como o de Eleázaro contra a grandeza e corpulência do elefante. toda a promessa. do que eles em Portugal para se defenderem. toda a conveniência. do que os parem e criam para ela. que quando o valor dos Portugueses se atrevesse sobre suas forças. que os entende e o entendem. sendo toda da mesma Nação. para o prêmio do serviço. se havia de esgotar. Isto é o que só tem Castela. porque sabem quanto maiores e mais pesadas são as que se pagam em Castela para os conquistar. se havia lentamente de diminuir. e o que só pode esperar dos ânimos dos Portugueses. E por tal julgaram ainda aqueles políticos que sem ódio nem amor esperavam e prognosticavam o fim e mediam a desproporção de tão desigual empresa. que o dinheiro e cabedais. natural e necessariamente se havia de atenuar e enfraquecer. tinha mui forçosa conseqüência. havendo de sustentar as guerras e oposição de seus inimigos em todos eles. que a gente. e que então era tributo do cativeiro o que hoje é preço da liberdade. ainda caindo. esperava o discurso que Portugal. têm mostrado que só era sofístico e aparente. e que logram aquele estado ditoso de que se lembravam e falavam seus avós com tanta saudade e por que suspiravam seus pais com tantas ânsias. como Reino menor e dividido em todas as partes do Mundo. todo o perigo obrigação. e todo o preço para a conservação de tanto bem lhos parece barato todo o trabalho leve toda a dificuldade suave. e vêem estampados seus nomes e estendida por todo o Mundo sua fama. Mas Deus (a quem não queremos roubar a glória) e a mesma experiência natural e o concurso ordinário de suas causas. para o remédio da opressão. humana ou gentilicamente considerado. traição. sobretudo vêem a seu rei da sua Nação e da sua Língua. todo o pensamento que não seja desta perpetuidade. horror. com obrigação de alimentar aqueles membros tão distantes com sua própria substância. não tendo minas nem Potosis. tão viva e tão multiplicada em tantas províncias. tão contínua.Anexo:Imprimir/ História do Futuro antes dá-los para as fronteiras de Portugal. cercado dela por todas as partes. mas para o verem por fé. Verdadeiramente este discurso. os assistem e os têm consigo. e que concorrem com ele para o estabelecimento e honra de sua Pátria. onde os vêem. Pelo contrário. e em realidade falso. rei que os vê e se deixa ver. para o alívio da queixa. que os conhece e lhes sabe o nome. e não entrando na conta desta aritmética o poder e assistência de Deus. seria sobre ele. honrando-se (como é razão) de serem pais de tais filhos. que com igual alegria os choram e sepultam mortos gloriosamente na guerra.

a pompa. com que se sustentaram até agora. nunca tão grandes dotes. que eles mesmos com suas riquezas lhe subministram. quando a Primavera se acabou nos campos. o certo é que as rendas e cabedais do Reino. que no seguinte se não pusesse outro maior. só para se lavrarem outras de novo. e que se vestem mais para triunfar que para vencer. se não pudera alegar por testemunhas os mesmos que podiam ser partes. nenhum ano tão bizarro e tão luzido. E a verdade desta experiência se tem provado com mais sensíveis efeitos depois da paz universal das mesmas Conquistas. e estas são as minas do nosso Reino. riqueza e galhardia dos cabos mostra bem que vão às batalhas como a festas. mais se gasta em cobrir os vestidos que em cobrir os corpos. e tão abundante. Não me atrevera a falar com tanta largueza. nunca tantas. O ano passado. que capela. nunca tão grandes soldos. nunca tantas fábricas. tão notáveis por seu nome é grandeza como bizarros por seu luzimento. recebem os espíritos de que se animam. Nenhum ano se pôs em campo exército tão grande. não encarecer. ou outra mais oculta e superior. nunca tanto na abundância e regalo das mesas. Diga agora o algarismo de seu discurso. tão reais e tão sumptuosas festas. ao mesmo passo parece que ou crescem ou se manifestam novos tesouros. desfazendo-se e arruinando-se (com lástima) obras antigas e de grande arte e preço. onde sobeja e se dispende tanto com o supérfluo? Mais temo eu a Portugal os perigos da opulência. Mas por isso sobeja. cresceu e se aumentou tudo em Portugal. mais ricas. tanta família. Destes comércios lhe vêm as riquezas com que pode pagar e premiar 34 . mais preciosas e de mais polido artifício? Tudo isto do que sobeja da guerra. que altar. nunca tão grandes salários. antes se prova com evidente e milagrosa demonstração da experiência. com o tempo c continuação da guerra. Que templo. O menor gasto nos vestidos é o que se veste. ainda que do Reino. que no seguinte se não excedesse na bizarria e nas galas. as quais com igual liberalidade e interesse remetem hoje ao Reino toda aquela substância que o calor da guerra própria lhes consumia. mas lhe sobeja com que se sustentar a si e a todo o corpo. como do coração. que os danos da necessidade. As usuras de Deus são cento por um. se renovou outra vez no nosso exército. nunca tantos criados. porque só o silêncio os pode explicar. nunca tão grandes mercês. com que se acha Portugal mais rico e abundante que nunca das utilíssimas drogas de seus comércios. é tanta a cópia de alimento. que foi o último. tantos cavalos. Nunca tanto se gastou no primor e preço das galas. que a substância do Reino está hoje mais grossa. e desposas dela. A vulgaridade do ouro e prata só se estima pelo invento e pelo artífice. e não pelo preço. E ou seja esta a causa natural. estes os Potosis de Portugal. O mesmo que se vê na política bélica das campanhas. e se sustentam todos os anos. Passo em silêncio os imensos gastos do serviço e majestade do culto divino. mais florente e opu1enta que no princípio da guerra. para que pela divisa se conhecessem os soldados e ostentassem a competência de seu valor. membros tão remotos e tão vastos deste corpo político de Portugal. que não só tem suficiente matéria para formar os espíritos que com os membros mais distantes reparte. nunca tanto no asseio e ornamento das casas. que santuário. que neste mesmo tempo se não renovasse. não têm padecido a quebra e diminuição que o discurso lhes prognosticava. assim próprios como particulares. Com a guerra. crescendo mais os empenhos sempre. pois. que tudo quebranta e diminui. tanta era a variedade das cores com que os terços se matizavam e distinguiam. nunca tantos e tão magníficos edifícios. sempre mais e maiores exércitos. se admira na pacífica das cidades.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Porque as Conquistas (que era o primeiro reparo). se pode haver falta no necessário. tanto aparato.

animumque ferro. outros para pelejarem sem amor e com valor vendido. e assim se vêem hoje mais povoados seus lugares. com que as famílias se multiplicavam infinitamente. Os Portugueses. Ducit opes. e os mesmos que então se retiravam da guerra. Com verdade se podia dizer de Portugal o que dos Romanos disse o seu poeta: Per damna. de Nápoles. exército em Trás-os-Montes. e assim como o seu discurso errou as contas ao dinheiro. de Milão e de Alemanha. pela vida. onde nunca entrou ferro. que é a senhora da prata e de quem a recebe o resto do Mundo? Cuidou Castela que a Portugal havia de faltar o dinheiro. como passam. com grande vantagem de coração pelejam pelo rei. pelo contrário. e parece que foi posto em nossos tempos mais para declarar o vício da moeda. sendo a maior comodidade da guerra e multiplicação da gente a mesma estreiteza do Reino (que o discurso mal avaliava). Quem pudera nunca imaginar que chegasse a tal estado uma monarquia. nem arado. sem injúria dos soldados. também as errou à gente. e cada um por sua própria casa e fazenda. Bem sabem os doutos que o nome grego hipocrisia se deriva do fingimento do melhor metal. Ou tenha Portugal a qualidade da hidra ou a natureza das plantas. mais lavrados seus campos. lagos e terras. no princípio da guerra. têm hoje muitos filhos com que a sustentam e os sustentam com ela. mais freqüentadas suas estradas. que trafegavam seus comércios. e vê em si o que cuidou de nós. e poucos os que chegam. sem adultério dos metais e sem hipocrisia da moeda. brenhas. e até as serras. sem serem os Portugueses dentes de Cadmo. e justificar com os olhos do rei e do Reino as certidões mais seguras de seu valor. brotam dois na Primavera. pela honra. e não falsificadas. exército e dois exércitos na Beira. pela liberdade. antes delas os recebe o Reino com muitos e valentes soldados e experimentados capitães. que mareavam suas frotas. Desta maneira se acha Portugal cada dia mais fornecido de muitos e valentes soldados. E: se Castela quer conhecer as causas naturais desta filosofia. ou servir e merecer de novo. Assim se foram dobrando e crescendo sempre os nossos presídios. que não se alistassem nela senão mancebos livres. que militavam seus exércitos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro seus exércitos e com que os prêmios e as pagas sejam verdadeiras. ficam hoje dentro em Portugal. que lavravam seus campos. por benefício da qual os exércitos e províncias se podem dar 35 . per coedes ab ipso. onde nada lhes é estranho. e lei prudentíssima. assim os nossos exércitos: exército no Minho. Assim se converte e se multiplica em nova substância tudo o que come a guerra. abertas e cultivadas. como quem defende o alheio e conquista o que não há-de ser seu. a Portugal. exército e florentíssimo exército. As Conquistas com a paz não levam. sendo muitos os que se alistam e pagam. Todos os Portugueses que povoavam suas Índias. todos dentro em si e nas mesmas províncias e climas. muitos filhos por indústria dos pais se acolhiam na menoridade ao sagrado do matrimônio. e sempre mais numeroso e florente em Alentejo. que. que inteiravam seus presídios. que a mentira da virtude. e por cada ramo que faltou no Outono. ou vêm requerer o prêmio de seus antigos serviços. que freqüentavam seus portos. nem hão mister socorros. Foi lei. uns para se passarem logo. em que o pelejar e o morrer não é acidente senão natureza. pela Pátria. comprados e conduzidos com imensas despesas e perigos. A sombra desta imunidade. e o habitam e o enchem e o multiplicam. aparecem na seguinte duas. nascidos e criados entre o mesmo estrondo das armas. saiba que a sua reparação foi o primeiro princípio deste aumento. por cada cabeça que corta a guerra em uma campanha. e não trazidos por força de Sicília.

e se até agora me ouviram como homem a racionais. se os virem cometas. que. Levantou Deus no Mundo a Jeremias por seu ministro. Desta maneira não teme o valor português que lhe suceda como a Eleázaro com o elefante. Levantem pois os reis e os reinos os olhos. olhem para estes sinais do céu. Não duvido. tocariam a recolher seus capitães e exércitos e confessariam. e perecem muitos. a indústria. e se despenham. temam. na mais levantada fortuna. e se os virem estrelas. ainda que tremulassem vitoriosas suas católicas bandeiras. logrando vivo a glória de seu triunfo. acabassem de desistir de tão infrutuosa porfia. Isto é o que eu agora lhes quero persuadir e demonstrar. Mas deixados à parte os argumentos da razão e experiência. desistira da conquista de Ramoth Galaad. bem pudera eu esperar do juízo mais político de nossos competidores e seus conselheiros. ou como cometas tristes e funestos. abateriam a Deus. Veja e saiba Castela o que Deus tem prometido a Portugal. ut evellas. Capítulo VIII: Continua a mesma matéria) por Padre Antônio Vieira 36 Desenganado por estas evidências o poder. et destruas. mas que os há-de arruinar ou edificar com as suas profecias. destruas e dissipes a uns. profetizando a uns sua exaltação e a outros sua destruição e ruína. plantes e edifiques a outros. temera. ficando oprimido com a sua própria vitória. para que arranques. ou como astros benignos que influem e prometem suas felicidades. aparelhem-se sem remédio para sua ruína. ó Espanha.Anexo:Imprimir/ História do Futuro as mãos umas a outras. et plantes: «Hoje te ponho e constituo sobre as gentes e sobre os reinos. e aparecendo em toda a parte (como alma de Dido) aos Castelhanos com novo horror e assombro. História do Futuro (Volume I. pelo conhecimento de nossos futuros. obedeceriam com suma reverência aos divinos decretos. mas está certo que lhe há-de suceder como a David com o gigante. a profecia de Miqueas. e multiplicando-se por este modo um soldado em muitos soldados. e a comissão e ofício que lhe deu foi esta: Ecce constitui te hodie super gentes et super regna. crelam sem dúvida sua conservação e aumento: Ecce constitui te super gentes et super regna. Oh quantas guerras. et dissipes. e tudo o que podes esperar dele em sua conquista. que quando se opõem e encontram com as promessas divinas. rei de Israel. mas nunca mais certamente falsas. Estão os profetas e as profecias sobre às gentes e sobre os reinos. Se as profecias resolutamente dizem que os reinos se hão-de perder ou arruinar. e logo advertirá a vaidade do que suas esperanças lhe prometem. et aedifices. que influem e ameaçam suas ruínas.» Não quer dizer Deus que Jeremias há-de arruinar ou edificar reinos com a espada. oh quanto sangue. religião e piedade espanhola. Sempre são falsas e enganosas as esperanças humanas. Aqui verás os futuros de Portugal. Se Acab. esperem. subamos um ponto mais alto. Mas porque muitos reis esperam de onde deviam temer. e se dizem que se hão-de estabelecer e exaltar. em que tão . e um dos fins principais por que escrevo esta História. como devia temer. pelejando os mesmos soldados quase no mesmo tempo em diversos lugares. por isso erram. ouçam-me agora como cristão a católicos. o discurso e esperança espanhola. a desigualdade de sua maior potência contra os acenos da divina. ou quantos tesouros baldados poderiam poupar os reis. possam emendar o engano de suas esperanças presentes. que também a ti dedico e ofereço. se o seu católico príncipe e seus maiores conselhos se acabassem de persuadir que Deus tinha decretada a conservação e perpetuidade de Portugal. se no meio de seus conselhos pudessem pôr um espelho em que se vissem os futuros! Tal é este livro. e se perdem. nem alguém pode duvidar da fé. para que.

pelo qual geralmente se esperava. in qua atteniabitur proles. Dilectus es Domino. porque gemeu por espaço de sessenta anos debaixo da sujeição de Castela. e foi ocasião desta sujeição . estivesse sujeita a rei estranho. porque. com o recado de que lhe queria aparecer: Domine bono animo esto: vinces. Assim o diziam as profecias. e remido por um não esperado. sed propitius tibi Deus insperate ab insperato redimet: «Portugal por orfandade do sangue de seus reis. mas esta sujeição e este castigo. e que sua coroa. Afonso Henriques. como não devera nas promessas e lisonjas vãs de seus aduladores. que o cativeiro e sujeição dos Israelitas que ele tinha debaixo de seu império não queria Deus que durasse mais de sessenta anos. mas foi-lhe Deus propício. Sebastião e D. porque o redentor. não esperadamente. e que este termo e limite fosse o espaço só de sessenta anos. prudente e famoso rei de Babilônia! Entendeu este mesmo excelente príncipe. não quis o mesmo Deus que fosse perpétuo. e assim o provou com admirável consonância o cumprimento delas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro teimosamente insistia. e o rei conheceu tarde a temeridade de seu conselho. Henrique — faltaram sem deixar sucessão. religloso português da ordem de S. posuit enim super te et super semen tuum post te oculos misericordiae suae usque in decimam sextam generationem. Só faltou para total semelhança do caso de Babilônia e para imortal glória do Ciro de Espanha que a ação fosse voluntária e não violenta. Que diferente foi o de Ciro. No juramento autentico de El-Rei D. mas porque quis antes esperar. E tanto que estes se acabaram (sendo gentio idólatra). sem obrigação nem reconhecimento. mas porque El-Rei Sedecias. Domingos. S. (de cujo espírito profético se dará notícia em seu lugar) diz assim: Lusitania sanguine orbuta regio diu ingemiscet. e não dos Portugueses. sed in ipsa 37 . Não podem as armas dar a vitória a Acab quando nas profecias está segura Ramoth. fiado na potência de suas armas. porque dispôs com tão notáveis sucessos a execução de sua liberdade e foi remido não esperadamente. os restituiu todos livres à sua pátria.e destes gemidos ficar o Reino órfão de seus reis. fora cobiça e não razão tê-las por falsas na promessa da liberdade. em um dia perdeu a batalha. sua. em que se conta o miraculoso aparecimento de Cristo. será remido por um não esperado. Frei Gil. mas Deus lhe será propício e. quis antes experimentar a fortuna da guerra que vir a honestos partidos com os Assírios. senão por tempo determinado e limitado. senão dos mesmos Israelitas. Creu as profecias sem serem suas ou de seus oráculos. João o IV. tendo-as experimentado verdadeiras na sentença do cativeiro.» Gemeu Portugal muito tempo. passando-a de um rei gentio a um rei católico! Quis Deus por seus altos juízos que Portugal perdesse a soberania de seus antigos reis. Contentou-se o gentio com o que Deus se contentava e não quis perpetuar a servidão. gemerá por muito tempo. sem partido. et non vinceris. prevaleceram estes enfim como o profeta tinha prometido. quando por sua própria pessoa quis fundar o Reino de Portugal. porque muitos não esperavam. quando Deus tinha limitado anos ao castigo. pela mesma profecia que Jeremias e pelas de outros profetas. porque os dois últimos — D. a conquista a coroa a vida. antes desesperavam desta redenção. Oh que caso tão parecido ao nosso caso! Oh que ação tão digna de se santificar e fazer cristã. era outro e não el-rei D. sem interesse. ajuntando-se às outras de Espanha. Clamava a profecia de Jeremias ao rei e príncipes de Jerusalém que se acomodassem com Nabucodonosor contra o qual não podiam prevalecer. vinces. são bem notórias aquelas palavras mandadas anunciar ao rei pelo mesmo Senhor. Mas vamos às profecias do cativeiro e ao termo dos sessenta anos dele.

7. A décima sexta geração de El-Rei D. Bernardo. El-Rei D. me disse lhe certificasse eu da sua parte que a seu Reino de Portugal nunca faltariam reis portugueses. João II. João III. Afonso IV. 2. ficou por um fio. 14. El-Rei D. mas este temos por mais natural. sois amado de Deus porque pôs sobre vós e sobre vossa descendência os olhos de sua misericórdia até a décima sexta geração. 8. profetizou com admirável clareza o termo dos sessenta anos de castigo e a continuação e sucessão de reis portugueses. El-Rei D. Henrique. antes e depois dela. que chegue a termos de sessenta anos. sendo restituída (como foi) ao Duque D. Dinis. Rei D. mais fácil e mais conforme à mente da profecia e às circunstancias em que naquela ocasião se falava. o qual em recompensação desta. com quem tinha particular e íntima amizade e correspondência. mas nela atenuada tornará a pôr seus olhos. depois da descendência de El-Rei D. D. e fio tão delgado e atenuado como era a única casa de Bragança. S. D. Henrique. 38 10. 5. 16. El-Rei D. porque ainda que não quebrou de todo. conservada em muitos arquivos deste Reino e divulgada fora dele muitos anos antes da nossa restauração: «Dou as graças a Vossa Senhoria pela mercê e esmola que nos fez do sítio e terras de Alcobaça para os frades fazerem mosteiro em que sirvam a Deus. Afonso II. como se vê pelo catálogo seguinte: 1. El-Rei D. El-Rei D.» Até aqui a divina promessa. 11. El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei D. Bernardo». Fernando. Neste último rei se atenuou a descendência. E1-Rei D. João. Pedro I. João I. salvo se pela graveza de culpas por algum tempo o castigar. D. o II de Bragança. D. Por outros modos também verdadeiros se faz esta mesma conta. 13. Afonso III. vencereis e não sereis vencido. De Claraval. Sancho II. João. . D. na qual se atenuará a mesma descendência. 12. em uma carta escrita a El-Rei D. Mas neste fio único e tão delgado se veio a verificar que. Duarte irmão menor de D. como se devem contar. Duarte. tornaria Deus a por seus olhos nela. cujo cumprimento é tão manifesto. A carta é a que se segue. que quase não necessita de explicação. o IV de Portugal e décimo sétimo dos reis portugueses descendentes do primeiro Afonso. porque nela se restituiu a coroa que Cristo então lhe dava. 6. que no Céu lhe pagará. D. descendente do infante D. estai de bom animo: vencereis. de rei a rei e de coroa a coroa) foi o Cardeal D. a respeito das cousas presentes e futuras do Reino. Afonso Henriques. Afonso V. atenuada no décimo sexto rei. Sancho I. 3. 13 de Março de 1136.Anexo:Imprimir/ História do Futuro attenuata ipse respiciet et videbit: «Senhor. 4. Henrique. 9. Sebastião. Manuel. Afonso Henriques. Afonso Henriques (contando as gerações. 15. não será porém tão comprido o prazo deste castigo. D. D.

Outra carta temos do mesmo santo escrita ao mesmo rei. em que dá outro sinal manifesto (e também já cumprido). e pelo merecimento deste obséquio e rendimento à-vontade divina lhe deu Deus em um dia o império dos Assírios. e de tanto rendimento e obediência a Deus. rei ambicioso. e que Ciro. mas também se cumpriu muito pontualmente que o castigo não chegaria a termo de sessenta anos. João. Pois se Deus não quis que a sujeição de Portugal a Castela fosse perpétua. Tão liberal é Deus com os príncipes que não regateiam reinos nem estados com Ele. e que esta sujeição havia de ser a Castela. que adiante poremos. o meu Ciro. como o mesmo Ciro reconhece havê-lo recebido da sua mão. foi Ciro tão amado de Deus. Por aquele ato de generosidade e desinteresse. porque se não hão-de conformar os homens com seus soberanos decretos? E porque se não hão-de contentar com o que Deus se contentou? Porque se não verá no católico Ciro de Espanha um ato de tanta justiça e generosidade. reparem seus prudentes e católicos conselheiros que o não era menos naquele tempo. o meu Cristo. ou sessenta anos não completos. e que o termo destes sessenta anos havia de ser no ano de quarenta. como se viu no Ciro de Babilônia? Se Deus lhe deu o usufruto de Portugal por prazo somente de sessenta anos. que era a primeira monarquia e universal do Mundo. El-Rei D. religião e cristandade. Filipe o II foi jurado por rei de Portugal.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A condicional do castigo cumpriu-se por nossos pecados. com todas as outras circunstâncias tão miúdas e particulares. do tempo em que havia de faltar a coroa. porque El-Rei D. temer justissimamente que à resolução e porfia contrária sucedam 39 . nas cortes de Lisboa. a respeito dos sucessos futuros de Portugal. nas Cortes de Tomar. arrogante e gentio. Finalmente. em I3 de Dezembro de 640. como sucedeu ao mesmo Ciro. qual era o de Judéia (igual com pouca diferença de Portugal). e sua liberdade. com que enriqueça e sublime sua coroa e amplifique o império de sua monarquia. e por este Reino que Castela restituir ou consentir a Deus (pois Ele tem já restituído). podendo de outra maneira (para que não calemos esta verdade). lhe pode Deus dar outros maiores e mais dilatados. João: as profecias o disseram e os olhos o viram. IX deste livro) não só predisseram a sujeição do Reino a Castela. e que naquele ano seria levantado novo rei de Portugal e que este se chamaria D. e que havia o Reino de gemer debaixo da sujeição estranha. como se verá no mesmo lugar. porque se há-de querer chamar ao domínio e prescrever contra o Céu? Se lhe parece cousa dura arrancar de sua coroa uma jóia tão preciosa como o Reino de Portugal. e por um reino de tão poucas léguas de terra. Bernardo tinha profetizado. muitas pessoas (de cujo espírito. De maneira que por todas estas profecias consta claramente que ao Reino de Portugal haviam de faltar os reis portugueses e que esta falta havia de suceder no décimo sexto rei descendente de El-Rei D. mas que o fim de uma e princípio de outra havia de ser sinaladamente no ano de quarenta. Quanto mais que por este ato de consciência. o meu ungido. e que se havia de chamar D. que Espanha podia esperar do desinteresse deste ato. porque hão-de querer e porfiar os homens em que o seja? Se Deus limitou esta sujeição ao termo de sessenta anos. que lhe chamava o meu rei. nem duvidou de o demitir de seu império. trataremos larga e particularmente no cap. e que não havia de durar mais que sessenta anos não completos. que fazem 59 anos e cinco meses menos alguns dias. e que neste seria levantado pelos Portugueses rei novo. Afonso Henriques. João o IV. e estes são acabados. que sem dúvida deviam ser muito grandes. como S. em 26 de Abril do ano de I58I. dá em prêmio e recompensa a monarquia de todo o Mundo! Tais são os interesses (quando houvera algum maior que o de obedecer a Deus). nem menos conhecido e celebrado no Mundo o reino de Judá.

e são o exórdio de sua história: In anno primo Cyri. e obedeceu com efeito. e a estas profecias chama o rei sem fé preceito de Deu. a seus conselhos e a seus letrados ponderem. senão a seus próprios doutores e aos que mais duramente têm impugnado em nossos dias esta parte e defendido a contrária. e observou em matéria tão grave e de tanto peso e interesse de sua coroa. «No ano primeiro de Ciro. julgou que tinha obrigação de obedecer. imitação e memória. Dizem assim no I Livro de Esdras. Quero pôr aqui as palavras do Texto Sagrado.ut cornpleretur verbum Dominini ex ore Jeremiae. conforme o decreto ou preceito divino. diz: O Rei do Céu me deu e fez senhor de todos os reinos do Mundo e ele me mandou que lhe edificasse casa em Jerusalém. ascendat in Jerusalem. não queira imortalizar seu nome e religião com outro decreto semelhante. leia as profecias que neste livro vão escritas e já cumpridas. porque não dará Ciro um reino a Deus. rei dos Persas. etiam per scripturam. por serem mui dignas de toda a ponderação. e peço por reverência do mesmo Deus aos Reis Católicos. 40 . o rei e reino de Portugal. ainda quando fosse seu indubitavelmente? Mas o que eu só quero ponderar. quae est in Judaea. Se Espanha se quiser ver e compor a ele. a este gênero de preceito assim escrito. havia de ser o reino e povo hebreu libertado do cativeiro de Babilônia e restituído à sua Pátria. rei dos Persas (quem assim começou a reinar não podia deixar de ter tão felizes progressos). chama preceito de Deus neste seu edito. porque o primeiro foi Nabucodonosor. Siga-se a sua doutrina e não a minha advertência. Se por um ato de justiça. o segundo Baltasar e o terceiro Ciro. em que Ciro faz desistência do reino de Judéia e deixou aquele povo em sua liberdade. dicens: Haec dicit Cyrus. rei não católico. como dizem em suas provisões por graça de Deus. Leiam este decreto os reis e monarcas do Mundo. Quis est in vobis de universo populo ejus? Sit Deus illius cum ipso. etc. Lástima é que semelhante escritura não fosse de rei católico. Deus Caeli. et traduxit vocem in omni regno suo. no fim de sessenta anos. de que ele já era o terceiro possuidor. pelo que toda a pessoa que houver em meus estados pertencente àquele povo e reino. com tão pouco respeito ao mesmo Deus e à mesma graça armam seus exércitos contra os alheios. rei dos Persas (que só podia fazer uma ação tamanha e tão real um rei de espírito e espíritos mui levantados por Deus). Se Deus deu tantos reinos a Ciro. como era demitir de si um povo e um reino tão notável. ambição e desobediência também poderia tirar outra. rex Persarum: omnia regna terrae dedit mihi Dominus. et ipse praecepit mihi ut aedificarem ei domum in Jerusalem.. cabeça de Judéia. aqueles principalmente que. e mandou apregoar em todos seus reinos por escrito firmado de sua mão este decreto: «Ciro. E já a ordem das cousas naturais as teve menos dispostas a uma grande ruína..».Anexo:Imprimir/ História do Futuro efeitos também contrários. posto algum rei católico na mesma ocasião. e maior lástima será ainda que. e se pode tornar livremente para Jerusalém. cap. suscitavit Dominus spiritum Cyri. por um ato de justiça. levantou Deus o espírito de Ciro. sendo reis e possuindo os reinos. regis Persarum. o mesmo Deus seja com ela. veja quão legitimamente está restituído por elas. desinteresse e obediência dá Deus uma monarquia. coroa e liberdade. para se dar cumprimento à palavra divina declarada nas profecias de Jeremias. é o que Ciro. I. Não sei que possa haver mais claro espelho do nosso caso. posto que não intimado com outra autoridade ou solenidade. e não me creia a mim. Não teve Ciro outro preceito ou mandado particular de Deus (como notam todos os expositores) mais que as profecias em que estava anunciado que. regis Persarum.

trezentos anos e as de S. e sua mesma acusação seja um testemunho público e mais qualificado da justiça e justificação de nossa causa. que as tinha visto e lido. digale el Senor a que hora vendrá el dia siguiente. do conselho supremo de Aragão na sua História Real Sagrada. e três vezes trinta. de trezentos e de quinhentos anos antes. que para historiar o de Saul impugnando a eleição de El-Rei D. as de S. mais para contradizer o novo Reino de Portugal. segunda. Três cousas requer Palafoz. que a profecia não seja só uma. e que só podem ser ditadas e inspiradas por aquela sabedoria eterna a quem os futuros são presentes. VI deste anteprimeiro livro. que são as condições que propriamente se requerem para a verdadeira. que ayer era subdito y labrador. damos a Palafoz profecias. y ungido. 41 . e para que o mesmo rei ungido e eleito justifique sua jurisdição e se tenha por príncipe legítimo e chamado por Deus ao governo. diabólico ou angélico. y se tenga por principe legitimo y llamado de Dios al gobierno. as quais se poderão ver no cap. com maior elegância que decência. bispo de la Puebla de los Angeles. Afonso Henriques mais de quinhentos. senão algumas. Pues para cosa tan grande. ou três circunstâncias em uma. Bernardo e de El-Rei D. diz assim: Hazia-se una mudança tan grande en Israel. como as de Samuel foram três. haver profecia de ser Saul o destinado por Deus ao império. senão trinta profecias. suceda la profecia buelva-se otra vez dezir que aquel es el hombre. cujo nome se dissimula. escrita. para que. Verdadeiramente estas palavras do bispo Palafoz: Cum esset pontifex anni illius. el destinado al império. não só damos a Palafoz três profecias. vayanse a sus casas los Israelitas. unjale. que havia durado quinjentos años. senão de cento.Anexo:Imprimir/ História do Futuro D. buelva otra vez Samuel a la oracion. E quais são estas três cousas ou circunstancias? As mesmas que intervieram e sucederam na eleição e unção de Saul: Primeira. de tan rara y de tales y tan graves dependencias. Se Palafoz pede que a profecia não seja só uma senão algumas. Frei Gil. sendo ditas como as de Caifaz. João o IV. coh que el Profeta quede con quietud y sossiego de que áquello le mandò el Senor. fossem verificadas no mesmo príncipe e no mesmo Reino que ele queria impugnar e destruir. assim como estavam preditas e profetizadas. mas de futuros livres e contingentes. y começar el de los Reyes escogiase para principe un hombre. João de Palafoz e Mendonça. me parecem ditadas por algum espírito e intento superior. autênticas e justificadas com o testemunho universal do Mundo. y elegido jostifique la jorisdiccion. e ponderando augusta e doutamente os sinais com que se havia de justificar para ser legítima e de Deus. não só futuras. podia tantos anos prever nem conhecer sem revelação de Deus. E tais são as que pouco antes alegamos porque as últimas havia cem anos que estavam escritas. llevele a su casa. porque tantas são (se bem se distinguirem e contarem) as cousas diversas e profetizadas que ali se referem todas. e todas públicas. como se vê em tantos lugares. como as de Samuel. el que antes era compañero avian de venerarlo por rey. conozcale y reconozcale. que nenhum entendimento humano. como acabarse el gobierno de los Juezes. porque o afeto lhe fez corromper a pureza de seu estilo. com tão diverso e contrário intento. rigorosa e provada profecia. que são as mais qualificadas e livres de suspeita. justifique su vocacion con algunas profecias y senales de lo que le ha de succeder despues de ungido. terceira. para que a vocação do rei se justifique ser de Deus e para que os ministros que o ungiram (como Samuel e Saul) fiquem com quietacão e sossego de ser aquele o que Deus mandou ungir. Se Palafoz pede profecias. que essas profecias sucedam. duerman y piensem sobre ello. e não profecias daquele dia.

algumas delas cumpridas antes da restituição e coroação de El-Rei D João IV. fundador do Reino de Portugal.. esta casa es miña.. 42 . do Rey vejo (Vejo. D. En que aora acà me vejo. e não duvidando que dele falavam e dele se haviam de entender. Tal foi a eleição de Saul. e como avalia esta ação do rei. Mas vejamos de caminho que é o que diz Santo Isidoro. aplicando-as a primeira parte deste mesmo caso nosso. A tradução não é muito limada. que não façam menção delas seus autores. que a vocação daquele rei foi de Deus mandada e ordenada por ele e que a sua jurisdição é verdadeira e legítima. conforme a doutrina de Palafoz. Y dexar acá sua viña Y decir. para se justificar superabundantemente. porque temos mais qualificado autor e mais autorizado profeta. sendo o intento e o assunto ou tema daquela profecia predizer os sucessos futuros de Portugal depois de sua restauração.] tengo notada una. seu restaurador. porque. mas a explicação é muito própria. Não deixarei também de lembrar aqui que não são tão novas e desconhecidas em Castela as profecias ou esperanças de Portugal. vejo.. e não outro. bastando e sobejando a décima parte das profecias já cumpridas. cap IV. E seguir con gran desejo. João. semente de El-Rei D. que se lerão no discurso desta História. Afonso Henriques. o estoy sonando?) Simiente de rey Fernando Hazer un forte despejo. além de muitas outras que estão ainda por cumprir. de que se não deve duvidar (como também provaremos). e tal a de El-Rei D. e pela entrada dos reis castelhanos em Portugal. con harta particularidad. muito acomodada e muito bem deduzida. como de príncipe notoriamente chamado e destinado pelo mesmo Deus ao império. outras no mesmo caso e circunstancias de sua restituição. e comentando à margem o seu mesmo texto.. Finalmente. el aver de jutar-se aquel reyno de Portugal con el nuestro. com cujo efeito. põe as trovas seguintes: Vejo. arcediago de Cuellar na igreja de Segóvia. com grande quietação e sossego dos ânimos. Fernando. y [. y era aver leydo en] algunas prophecias como las de S. que foi seu neto Filipe II. João de Horosco e Covarrovias. no seu Tratado de la verdadeira y falsa profecia. diz assim: — «. en que a mi parecer se dixo mucho ha. se Palafoz pede que as mesmas profecias sejam provadas e confirmadas com o sucesso assim antes como depois de o rei ser eleito e ungido no alegado cap. se irá cada dia confirmando reais e mais a mesma verdade. e as demais desde aquele tempo até o ano de 663.desta manera tuvo yo noticia de [un çapatero en Portugal que fue tenido por propheta. Liv.Anexo:Imprimir/ História do Futuro como é sentença comum dos teólogos e se provará larga e demonstrativamente em seu lugar.» Até aqui no corpo do livro. como se tem visto foi princípio muito conveniente à ordem dos mesmos sucessos começar pela sujeição do mesmo Reino a Castela. tanto melhor. Isidoro. E se o verdadeiro profeta e primeiro autor desta profecia é Santo Isidoro. I. VI se verão as mesmas profecias declaradas e ajustadas com o sucesso. tal a de El-Rei D.

assim pelo direito comum da representação. porque não hão-de crer os Horoscos e Covarruvias castelhanos nesta segunda parte da mesma profecia. inquiriu por elas o tempo. Rei católico e descendente de católico. quando as profecias de Portugal profetizam que Portugal se há-de ajuntar a Castela. e esperar prevalecer contra elas por força de armas. Até aqui podia chegar a loucura e a cegueira de um mal aconselhado príncipe: crer a verdade das profecias. está bem profetizado. João. que porque vos vedes metido na casa alheia. como se dissera: Forte cousa é. e Castela também o sabe. porque às cousas feitas sem razão chamamos forte cousa. e não entendo agora como. do rei vejo. nem esta ilação a que eu quero inferir. como pela leis particulares do Reino. por isso haveis de dizer: «Esta casa é minha»?! Não debalde o santo arcebispo se espanta tanto de uma tal ação. Em seu lugar. e devendo preceder a todos os pretensores da coroa. se viesse por força introduzir na casa alheia. e não (como devera ser) de justiça. e este mesmo Santo Isidoro diz que o Reino se há-de restituir outra vez. Manuel e filha herdeira do Infante D. que nem Ele pode mentir. por antonomásia chamado o Rei Católico. ou estou sonhando? Mas o efeito mostrou que não era sonho. nenhuma cousa. o lugar do nascimento do Rei profetizado. digo. E pois o meterem se os Castelhanos em Portugal foi despejo. Conhecia Herodes a verdade das profecias. razão foi também que os fizessem despejar. vejo. porque foi despejo armado de poder e de exércitos. ainda duvida se era visão ou sonho: Vejo. e logo armou contra Ele a crueldade de seus exércitos. que em tom castelhano quer dizer desverguença. nem nós o podemos enganar. em que agora cá me vejo». assim como creram na primeira? De maneira que. e chamar-lhe despejo forte. Sei eu e sabe Portugal. queixas. Só se afogou Belém em sangue e nadou em lágrimas. que depois de a estar vendo com espírito profético. Basta. se isto. Mas se este mesmo autor. que não admitem à sucessão príncipe estrangeiro. um rei que era descendente de Fernando. que nenhum ódio nem interesse possa negar que são de Deus. Forte despejo foi aquele. Mas não é este o meu intento. Ora. vejo. Diz o Doutor Horosco e Covarrovias que nesta profecia está profetizado con harta particularidad. 43 . e que o seu rei se há-de chamar D. se verá tão demonstrada a sua verdade. mas ainda esta conseqüência é mais forte. neta legítima de El Rei D. Bem dito. lágrimas. Duarte. haver de juntar-se aquel reino de Portugal con el nuestro. nem o julgou assim o mesmo Santo Isidoro. e alegado o mesmo doutor.Anexo:Imprimir/ História do Futuro O nome que dá a esta ação Santo Isidoro é chamar-lhe despejo. sem mais razão nem justiça que meter-se nela e dizer: «Esta casa é minha. será indigno de todo o juízo porfiar ainda contra elas depois de tão conhecidas. quanto cuidado lá davam antes deste tempo e quanto temor se tinha de nossas profecias. são profecias. e que. ou lhe chama também forte. e profetizado no mesmo livro e no mesmo tempo. senão visão verdadeira. como tenho prometido. Senhores. e quando profetizam que Portugal se há-de tornar a separar de Castela e se há-de restituir à sua liberdade. depois delas cumpridas e qualificadas com tão maravilhosos efeitos se lhos tem perdido a reverência. posto que visão de um caso tão dificultoso de crer. não são profecias?! Não o havia de julgar o mesmo Horosco e o mesmo Covarruvias. e com muito maior particularidade. acabemos de crer a Deus. Este é o fim sem outro fruto de tão desesperadas resoluções: sangue inocente derramado. e despejo grande que estando em Portugal a senhora Dona Catarina. no ano de quarenta. em conseqüência. só se ouviram em Ramá e no Céu as queixas e lamentações de Raquel. Mas que efeito tiveram ou que façanhas obraram os exércitos de Herodes? Contra o rei e contra o reino que pretendia estorvar. e este mesmo texto.

em Portugal. e escalaram com tanta facilidade aquelas montanhas ou muralhas da natureza. as vitórias e outros maiores triunfos de Portugal estão também escritos com as mesmas letras e ditados pelo mesmo espírito. e conquistaram nas outras três partes do Mundo. Considere Castela contra quem peleja. então poderão conquistar Portugal. abalem. a liberdade e perpetuidade. em cujas pedras não esteja escrito com letras de bronze: Verbum Domini manet in aeternum. e aos trinta e dois reis que o acompanhavam. que esperança ou desesperação é pretender conquistar a Portugal? Oh. o Mundo e o mesmo Céu empíreo. clamores. porque estava destinado por Deus ao domínio de seu verdadeiro Senhor e firmado com sua palavra. na memorável batalha do Cano. tão novas e tão poderosas nações. porque não conquistaram a Ramoth? Perguntem a Benedad. do que vencer e sujeitar Portugal. acabe de entender que não peleja contra Portugal. bater. senão porque estava escrito? Pois se a conservação. mas fazer brecha na firmeza da palavra divina é impossível. quem quer guerrear contra Deus! 44 . derribem. e não pôde atalhar com tantos rios de sangue os progressos do que procurava impedir. porque não chegou a meter uma seta dentro dos muros de Jerusalém? Porque Ramath estava defendida com uma profecia de Miqueas. para sujeitar todas as quatro partes do Mundo e ainda para escalar. verba autem mea non praeteribunt. como depois se verá. Porque puderam romper os Portugueses os claustros impenetráveis do Oceano. como filhos do Sol. também foram ditadas. tantas. Não há muro tão gastado da Antigüidade e tão fraco em Portugal. sendo tanto o número de seus soldados. e não dos outros. sitiar as nossas cidades. porque uma e outra vez não conquistaram Samaria. que. sacudiram tão feliz e animosamente o jugo. com todo o estrondo de tantos mil carros de guerra e tão inumeráveis exércitos de pé e de cavalo. se se acham seus exércitos com forças e poder bastante para conquistar Europa. senão contra a firmeza da palavra e promessas divinas. senão porque estava escrito? Porque. Pelejem primeiro contra a firmeza da palavra de Deus batam. Talar as nossas campanhas. bem pode ser.Anexo:Imprimir/ História do Futuro lamentações. apartando os olhos por um pouco de Portugal. pelo mesmo espírito. a que o seu general chamou castelos de Milão. Perguntem a El-Rei José e a El-Rei Acab com as forças de dois tão poderosos reinos unidos. romperam um tão luzido e poderoso exército formado mais de capitães que de soldados. acabe de entender Castela quem defende Portugal e contra quem peleja! Com mui desigual inimigo se toma. que com um punhado de terra que cada um lançasse sobre ela (como eles diziam) a podiam sepultar? Perguntem ao soberbíssimo Senaquerib vencedor de tantas nações. defendido e armado como está com as promessas divinas: Coelum et terra transibunt. rei de Síria. Vassalos eram do mesmo Herodes todos os que morreram em Belém: cobriu de luto o reino próprio. e conhecerá quão impossível é a empresa a que aspira. estando sujeitos a Castela e debaixo de seus presídios. o Céu. com partido tão desigual. Samaria com uma profecia de Eliseu. vencer em batalha os nossos exércitos. senão porque estava escrito? Porque ontem. senão dos próprios vassalos. e em um dia restauraram sua liberdade. sendo de inferior autoridade. na Ásia e na América. Reparem os famosos capitães de Castela e considerem seus prudentíssimos e experimentados conselheiros. e depois dele rendido. sendo um Reino tão pequeno. e tirar dele a Júpiter pois saibam que mais fácil será conquistar Europa. desfaçam este castelo. minar. ouçam também as nossas. na África. Jerusalém com uma profecia de Isaías. escalar e arruinar as nossas muralhas. Mas deixados exemplos das Escrituras e profecias canônicas.

Assim lho remoqueou Moisés. pelo desfazer e pelo tirar a quem foi dado. nem escurecer a grandeza de sua potência. mas a espada de Gedeão maneada pelo seu braço e pelo de Deus. Bem se viu neste caso. Notem muito estas últimas palavras os reis e seus conselheiros: At illi egressi erant in manu excelsa. como fez naquele dia. assistida deles. quão gravemente se ofende Deus de que ninguém presuma cativar a quem ele liberta.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Não é nem pode ser nossa intenção diminuir as forças de Espanha. senão é que o juízo divino os leva ao Mar Vermelho e os chama lá alguma oculta fatalidade. só Ele o pode derribar. acompanhado de Apolo mais forte é o de Páris. o que Ele levanta. Se a mão do Altíssimo é a que assistiu aos libertados. é certo que a imagem de Cristo crucificado despregou publicamente o braço as portas daquele santo português que tem por graça própria sua recuperar o perdido. e no mesmo ano em que Portugal se havia de levantar. como o podem os homens derribar? E se Deus prometeu que 45 . mão por mão e braço por braço. e que. Não foi só a espada de Gedeão a que com tão poucos soldados venceu os exércitos dos Madianitas. Senhores meus. Bem sabe Castela (sinal é que o sabe bem. nenhum poder humano pode prevalecer. só Deus o pode desfazer. bastou para livrar o povo de Israel do poder do grande rei Faraó o dedo de Deus. como o podem os homens desfazer? Se Deus o levantou. o estamparam assim seus escritos) bem sabe Castela (digo) que Portugal com singularidade única entre todos os reinos do Mundo foi reino dado. No dia memorável da restituição de Portugal (ou fosse milagre ou mistério). naqueles mesmos campos e naquela mesma província onde todos os anos trabalham e batalham os homens pelo derribar. Desengano. falemos e ouçamos como católicos. O que Deus faz. feito e levantado por Deus. mas contra a espada de Gedeão e de Deus. Contra a espada de Gedeão naturalmente parece que haviam de prevalecer os exércitos madianitas. Se Deus o deu. uniu o deus Apolo a mão de Páris com a sua e ambas juntas dispararam a seta fatal. at illi egressi erant in manu excelsa. et persecutus est filios Israel. Menos que o braço e menos que toda a mão de Deus. como o podem os homens tirar? Se Deus o fez. O dedo de Deus é este — lhe disseram os seus sábios: Digitus Dei est hic. Dizem as fábulas. em vão se cansa Faraó em tirar carruagens. mais forte é o de Aquiles. com significação não fabulosa mas verdadeira. como lhe tem resistido e prevalecido em tantos anos. quando eles saíram do cativeiro. quanto mais contra toda a mão. mas contra o Senhor dos exércitos. regis Egypti. cavalarias e exércitos contra eles. que tira os poderosos do trono e levanta a ele os humildes ou os humilhados. tão horrendo. a desigualdade de Portugal pode resistir e prevalecer contra Espanha. que quando Páris houve de ferir mortalmente o impenetrável corpo de Aquiles. tão conhecida do Mundo todo e tão temida e reverenciada de seus inimigos e invejada de seus êmulos. mas comparado o de Aquiles com o de Páris. que fosse necessário o braço de Deus a Portugal para se libertar da sua sujeição. Comparado o braço de Páris com o de Aquilles. que força dá que possa prevalecer. nem ainda resistir? Este é aquele braço onipotente. Não peleja Castela só contra os exércitos de Portugal. Mas é força que ela e nós confessemos que são maiores os poderes de Deus. juntamente: Gladius Domini et Gedeonis. quando escreveu aquela história: Induravit Dominus cor Pharaonis. mas não foi menos honra e autoridade de Castela. Contra o braço estendido de Deus. Grande glória é de Portugal ter em seu favor o braço de Deus. pois chega a o confessar. E verdadeiramente foi grande dureza de entendimento imaginar Faraó que podiam prevalecer seus exércitos contra um dedo da mão de Deus.

como tão prudente e tão católico capitão. nem ainda gentílico. costuma atravessar o Demônio aquela torpeza do Inferno. que não seja o mesmo Deus. o exército desbaratado. por racionais e por conselheiros. ainda quando houvesse muitos deuses. só o mesmo Deus os podia arruinar. tão verdadeiro e tão evidente se seguira desde aquele dia. os fortes rendidos. pelo qual o meu nome seja levado às nações estrangeiras. político. que funda e desfaz os reinos e os impérios e com tão especia1 solenidade fundou por sua própria Pessoa nos reis portugueses de Portugal.como o podem os homens arruinar? Acabem de conhecer os que se prezam de conhecer a Deus. quanto sangue que ao depois se derramou estivera guardado nas veias ou se tivera de uma e outra parte empregado em serviço daquele grande Senhor. e tenham-se por homens. porque é diverso de todos e de superior hierarquia. que são homens. obedecer a Deus e não resistir à sua vontade conhecida. antes se ganha a maior e mais qualificada de todas. Se este ditame tão são. disse: Ego aedificator et dissipator regnorum alque imperiorum sum. e quero em ti e em teus descendentes fundar um império para mim. para vaidade fantástica da opinião. mais justa. se viu tão inopinadamente de conquistador.:» Se Deus é o monarca supremo e universal. mas pelo que dirá o Mundo. Como se não estivéramos no mesmo Mundo em que ontem o mesmo monarca cedeu às Províncias Unidas dos Países-Baixos todos aqueles estados de que com tão diferentes direitos era herdeiro e legítimo senhor! Mas para o nosso caso não são necessários exemplos. e que os reinos fundados por um Deus. que não tem resposta. porque.como o poderá ser de outrem? E se Deus prometeu de o estabelecer — stabilire. os que seguirem os ditames deste conhecimento. em nenhum caso da paz e recíproca desistência das armas esteve mais segura e mais honrada a reputação de Espanha e de seu grande monarca. nem têm lugar. que o possa desfazer e dissipar? Ponderem-se muito aquelas três cláusulas — in te mibi stabilire. 46 . nunca se perde nem pode perder reputação. em ceder. aparecendo e falando ao seu primeiro rei. Esta foi a teologia com que os dois príncipes dos poetas no incêndio e destruição de Tróia introduziram ao Deus Neptuno. Se Deus o fundou em nós — in te — quem o poderá arrancar de nós? Se Deus o quis para si –mihi. Dizem que não convém à reputação do grande monarca das Espanhas desistir da empresa de Portugal. Na prodigiosa batalha das Linhas de Elvas. Naquela noite em que Cristo por sua própria Pessoa fundou o Reino de Portugal. as palavras com que se retirou. as trincheiras entradas. se a reputação consiste no juízo dos homens. que não estime e venere uma tal ação pela mais cristã. foram: — Contra Dios no valen manos. quem haverá. como há quem tanto à vista dos olhos de Deus queira triunfar sobre suas promessas e irritar seus decretos? Até a superstição dos Gentios conheceu a conseqüência desta verdade. os esquadrões rotos. nenhum juízo haverá no mundo católico. mais prudente. não pelo que ele é. contra o qual não valem mãos nem validos? Contra a evidência e fé desta razão. como eles falsamente ensinam. Pelo mesmo fundamento e único em que se funda todo este discurso.Anexo:Imprimir/ História do Futuro na décima sexta geração atenuada poria os olhos nela para o restituir. quando o duque-general. primeiro ministro de Espanha. que no da guerra presente. conquistado. batendo com o tridente os muros que ele mesmo tinha fundado. E quando concedêssemos aos políticos que. a que os homens com nome especioso e significação verdadeira infernal chamaram reputação. Volo enim in te et in semine tuo imperíum mihi stabilire ut deferatur nomen meum in exteras nationes: «Eu sou o fundador e destruidor dos reinos e dos impérios. se deviam arrastar tantos respeitos sólidos e verdadeiros.

o que respondeu foi: — Nescio Dominum et Israel non dimittam: «Não conheço esse Deus.quoniam locutus est Dominus. Seu neto Roboão entrou no império também inteiro. os pode dar e tirar inteiros quando lhe parecer. a honra e a reputação de todos estava tão empenhada. e muito mais a do mesmo rei? A razão foi uma só e esta que estou alegando: . porque entenderam que o interesse de obedecer a esta razão era o maior de todos os interesses. é tão indigna e tão afrontosa resistência. ela se ajustou em um dia sem o mediador Abner sem haver em todos os doze tribos um só homem que falasse uma palavra em contrário.. não só ficava salva a honra e a reputação. como acabamos de ver. nem vassalos que repugnassem ou respondessem. sendo ao parecer tão indignas as condições da paz. que. e terá enquanto durarem os Livros Sagrados. Assim como o vassalo nunca pode perder a honra e reputação. como Senhor absoluto dos reinos e dos impérios. ainda que se perdesse o mesmo estado. que desse liberdade ao povo de Israel. senão que o não conhecia. o tribo de Judá seguiu as partes de David. E se buscarmos a raiz desta verdadeira razão. Seu filho Salomão logrou o mesmo império inteiro pacificamente. e não hei-de demitir a Israel. que nenhuma razão de estado a pode justificar. em que os interesses. e deu parte dele a Jeroboão.. E porque Faraó o não fez assim. segurá-la e acrescentá-la muito. e a maior circunstancia do caso é que. e também dividi-los e parti-los quando é servido. que ontem era seu vassalo. a reputação que granjeou com aquela teimosa resolução é a que hoje tem no Mundo. passando todo a David. achá-la-emos. começou com parte do reino de Israel. de bárbaro. e contra esta proposta não houve rei. Propôs Abner aos tribos que a vontade de Deus era que David fosse rei. Resistir a uma razão tão evidente como a que diz — assim o quer Deus — . que ficara privado do reino de seu pai. de néscio. no supremo domínio de Deus. sem muito cavar. ainda que gentio e sem conhecimento de Deus. e os outros onze tribos obedeceram e juraram por seu rei a Isboseth. de obstinado de ímpio rei e de inimigo e destruidor (como foi por isso mesmo) de seu império. nem conselheiros. Depois da morte de El-Rei Saul. como o tinha declarado o profeta Samuel. nem ainda o mesmo Isboseth. senão ganhá-la. mas em seu reinado lho dividiu Deus. ainda que seja tão bárbaro e arrogante como Faraó e em matéria de tanto peso e interesse. Seguiram-se bravas guerras entre um e outro partido. mais heróica de quantas honraram a memória dos maiores príncipes. Mas que razões tão fortes e de tanta eficácia foram as que representou Abner para persuadir e concluir tão breve e subitamente um negócio tamanho. senão ganhá-la em obedecer ao rei. que havia tantos anos tinha debaixo de seu domínio. porque o príncipe que conhece a Deus. e que debaixo dela. assim o rei nunca a pode perder em obedecer a Deus. 47 . como demitir de si o domínio de uma nação inteira e tão populosa não pode duvidar de obedecer e se sujeitar à sua vontade. filho herdeiro do rei defunto. e depois inteirou-lhe Deus o império e reinou sobre toda a Judéia.Anexo:Imprimir/ História do Futuro mais generosa. e o fim notável em que vieram a parar foi que os onze tribos deixaram a Isboseth e voluntariamente se entregaram e sujeitaram todos a David. mas honrada a mesma honra. duraram sete anos. Quando Moisés foi notificar da parte de Deus a El-Rei Faraó. David.» Não disse que não queria obedecer a Deus.

Ó poderosíssimo monarca Filipe IV. Poder pôr em campo doze legiões de anjos. Abraão. Pelejaram os pastores de Abraão com os de Loth. cortar um retalho para vestir e coroar outro? Ah! se os reis e monarcas considerassem que as púrpuras que vestem lhas . senão de meu desejo. Mas se em toda a idade tem decência e decoro a gentileza desta resolução. e da púrpura inteira que tinha dado ou emprestado a um rei. os do tio com os do sobrinho. ainda em termos tão apertados. Note-se aqui. e parte a El-Rei Roboão. sempre é generosidade. quanto mais no caso presente. se lhe deixa dez? Oh! como se pode temer que chame Deus ingratidão ao que os homens chamam reputação! A maior reputação de um príncipe que conhece a Deus e reconhece seu supremo domínio. Seu neto Filipe IV entrou no império também inteiro. E se o profeta Ahías pôde partir a sua capa e dar parte dela a El-Rei Jeroboão. quem pode fazer e apertar a guerra. profetizando. por sua pouquidade não fazia número . que ficou a Roboão juntamente com o de Judá. nem pode exceder um príncipe essa mesma fortuna mais que não querendo o que pode. quando os anos o chamavam mais para o Céu. e note-se muito. é dizer como Héli ainda quando se visse despojado de tudo: Dominus est. e depois com a união e sujeição de Portugal. quod bonum est. é o maior seguro de sua reputação! Pedir paz quem se não pode defender da guerra.era outro Algarve em respeito de Portugal). mas dar a paz. o Grande! Dai licença para que tenham entrada a vossos ouvidos os ecos destas últimas cláusulas. honra. porque o tribo de Benjamim. senão porque a quer dar. quando lhe tire o mesmo Dono um reino. e destas doze deu dez a Jeroboão. que foi o que apartou a demanda. porque se não contentaria o Roboão de Espanha. não de meu discurso. em sinal de que Deus o queria fazer rei de dez tribos de Israel. E se esta razão. e mandar embainhar a espada a Pedro. As vozes de que eles se formam. tomou o profeta Ahías a sua capa cortada em doze partes. reputação e glória. nos maiores anos ainda é incomparavelmente maior. e depois Deus executando. porque não poderá Deus partir também a sua. em que a grandeza de Espanha e sua potência. Não pode dar mais a fortuna a um príncipe que poder o que quer. O grande poder é muito confiado. in oculis suis faciat. Filipe II começou a reinar com parte. inteirou-lhe Deus o império de toda Espanha. poderá ser menor crédito. foi a maior glória do poder supremo. não porque a há mister. não quis pelejar sobre a terra. é sempre verdadeira. Seu filho Filipe III logrou o mesmo império inteiro pacificamente. mas em seu reinado lho dividiu Deus.empresta Deus da sua guarda-roupa. e não poder querer o que Deus não quer. e deu a Portugal a parte que lhe pertencia.Anexo:Imprimir/ História do Futuro O mesmo sucedeu ao império de Espanha nos últimos três reis dela. para que representem o papel de reis enquanto ele for servido! E se o Roboão de Israel se contenta com que lhe tirem dez partes do Reino e lhe deixem uma (assim o diz expressamente o Texto Sagrado: Porro una tribus remanebit ei. Antes do Reino de Israel se dividir entre Reboão e Jeroboão. que não se escrevem com 48 . que os profetas são os que dividem os reinos e os que os repartem: eles os dividem primeiro. e se o Roboão de Israel (como dizia) se contenta com que lhe tirem dez tribos e lhe deixem uma só parte. ainda é um ponto mais alto sobre a grandeza. sabe O que conhece os corações.

Lembro-vos. Senhor. Declara-se o modo com que se pode conhecer e saber os futuros) por Padre Antônio Vieira 49 . Com esta obra tão consumada. História do Futuro (Volume I. Esta será a maior prenda do vosso amor. por estado muito abaixo da sua roda. e hoje é também vosso (posto que não vassalo) por afeto. gostai o fel e não o passeis da boca. seja parte do sacrifício a repartição das vesti duras e leve embora a túnica aquele a quem coube em sorte. mas ponham os reis diante dos olhos as letras e as balanças de Baltasar e examinem eles se os seus maiores se governaram pelos pareceres dos letrados. Senhor. Senhor. maior sereis no fim dela se ao de Grande acrescentardes o de Justo. Se vos parece amargoso este trago. E seria grande desgraça perder o Reino eterno por um temporal já perdido. Capítulo IX: Verdade desta História. Grande sinal é de predestinação de um príncipe que faça Deus por ele as restituições que nem seus predecessores fizeram. pois é aquele de que mais puramente se alimenta a Santa Madre Igreja e de que cabeça dela recebe os espíritos com que vivifica e anima seus mais distantes membros. com que se levassem purgados todos estes encargos. Ponde os olhos neste soberano exemplar. ou os letrados pelos interesses dos reis. de Ceilão. nem das vossas teme. como o Reino de Portugal e suas Conquistas: basta haver-se de dar a mesma conta de Ormuz. A maior façanha de Carlos. que tereis conselheiros de grandes letras. as interpretações podem ser da lisonja. e sobre cristão espanhol. do Brasil. Que se não derrame sangue cristão. Os textos são da justiça. pois sempre prezastes mais o de católico que o rei. por ama de tanto sangue derramado. perdidos pela desatenção dos ministros ou pela intenção (que será pior) dos políticos. O tratado de uma boa e justa paz podia ser uma bula de composição geral. de Malaca. sem dar a César o que é de César. nem ele havia de fazer. Senhor. a vos dizer de longe o que pode ser não tenhais ouvido de mais perto. Ouvi. o que ainda se pode derramar. e faça-se tudo diante de vossos olhos antes que os fecheis. Com um texto santo mal interpretado quis o Demônio despenhar a Cristo. este o troféu maior de vossas vitórias. vosso avô. que é rei e Senhor. Deixai a paz por herança a vossa esposa. Com todo este desinteresse me atrevo. com que coroou todas as suas. Não se pode pagar a Deus o que é de Deus. e por coração muito acima dela. para dar exemplo de morrer a príncipes. Felicidade é levar já abatida das contas que se hao-de dar a Deus uma partida tão grossa. a voz de um estrangeiro. Não queirais levar sobre vós e deixar sobre vossos filhos. porque vive fora da jurisdição da fortuna. Ouvi a voz de um homem que nem das felicidades de Portugal espera. e depois deste texto e desta interpretação. o que só importa. lhe ofereceu o reino que lhe não podia dar. firmai o título de rei com o de católico. que segurem e justifiquem as causas e tão dilatada e cruel guerra. podeis entregar a alma segura nas mãos do Padre. e de que todo os príncipes católicos O agradem. Com uma inclinação da cabeça podeis deixar pacificado o Mundo. o signo debaixo de que nascestes — e seja este o último suspiro do meu afeto: nascestes no dia em que morreu o Rei dos reis e Monarca supremo do Mundo. desinteressado vassalo que foi já vosso por sujeição. foi saber morrer. Merecestes na vida o título de Grande. Não duvido.Anexo:Imprimir/ História do Futuro outro fim mais que o de O agradar.

nec movit se de loco in quo erat. sosseguemos o escrúpulo ou receio (quando não seja o riso e o desprezo) dos que assim o podem imaginar. o Apóstolo S. e a ver claramente e com maior certeza tudo o que elas encobrem: Habemus firmiorem propheticum sermonem. e ninguém as pode ver senão alumiado da mesma luz. Lugar escuro e caliginoso é o futuro. quasi lucernae lucenti in caliginoso loco. foram aquelas do Egipto. a candeia que alumeia são as profecias. não aparece. e a dar passo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A primeira qualidade da história (quando não seja a sua essência) é a verdade. de que se pode dizer com toda a razão: Tenebrae erant super faciem abyssi Mas neste mesmo abismo de trevas. De maneira que pôs Deus a profecia como candeia na mão dos profetas. das quais diz o Texto Sagrado: Factae sunt tenebrae horribiles in universa terra Aegypti. e muitos passos nelas. donec dies elucescat: «Temos — diz o Príncipe dos Apóstolos — as profecias e palavras certíssimas dos profetas. alumiados e guiados da mesma luz os que não somos profetas. Tais são as trevas. porque só Deus a pode dar e a dá. Este é o modo com que. o que eles viram e conheceram com a sua. não coroa os nossos montes. e tão sua. e com a sua luz (ainda que luz pequena) entraremos no lugar caliginoso e escuríssimo dos futuros. e tal a escuridade do futuro. o que só agora podemos e devemos fazer é levar a candeia das profecias diante. pois a matéria é tanto para crer. E da profecia de Malaquias: Onus verbi Domini ad Israel in manu Malachiae. justo é que lhes mostremos primeiro os motivos da credulidade. As maiores trevas que se viram no Mundo. as quais devemos observar e atender. Confesso que entramos em um caos profundíssimo e escuríssimo. também se podem aproveitar da sua luz os que se chegarem a ela e a forem seguindo. não duvidamos da pia afeição de todos. até que amanheça o dia». E enquanto este sol. saberá contudo onde há-de pôr os pés. Trevas que faziam horror. nem basta estudo ou diligência alguma para a alcançar. trevas com que nada se via e trevas com que se não podia dar passo. seguindo sempre os raios deste farol divino. e porventura impossível na História do Futuro. e 50 . Serão pois as primeiras fontes desta nossa História. quando diz da profecia de Ageu: . e dizendo humilde a Deus com David: Lucerna pedibus meis verbum tuum. porque com o lume da profecia entravam nos lugares escuríssimos e secretíssimos dos futuros e viam neles claramente aquelas cousas para que todos os outros homens são cegos. antes que vamos mais por diante. e os porá mui seguros. se o espírito do Senhor (como esperamos) nos não faltar com a sua assistência. nemo vidit fratrem suum. Eu conheço e confesso que a não tenho. ou com que o Mundo se não viu. E geralmente das profecias de todos os profetas: Sicut locutus es de manu puerorum tuorum prophetarum. usando delas como de candeia luzente em lugar escuro e caliginoso. quando e a quem é servido: Non enim voluntate humana allata est ali quando prophetia. Por isso os Profetas na Sagrada Escritura se chamam por antonomásia Videntes. Pedro: Mas ainda que a candeia esteja na mão de outrem.. sed Spiritu Sancto inspirati locuti sunt sancti Dei homines — diz S. Nesta propriedade fala a Escritura. e far-se-á o que só Ele pode fazer: Fiat lux. et lumen semitis meis. como ali não faltou: Spiritus Domini ferebatur super aquas. para que. Contudo. havendo a nossa História de caminhar por passos tão escuros e dificultosos. Pedro nos ensinou a entrar nestas trevas sem medo. será razão que. que será muito formoso e alegre.factum est verbum Domini in manu Aggaei prophetae. dirá Deus o que so Ele pode dizer. cui benefactis attendentes. e porque esta parecerá muito dificultosa. et facta est lux. e veremos o que neles se passa. E pois pedimos aos leitores o assento da fé. o sol que há-de amanhecer é o cumprimento delas.. possamos entrar com eles no lugar escuro e caliginoso dos futuros e ver e conhecer com a luz não nossa.

falando das mesmas profecias e profetas. o Autor. evidentes e científicas. cujo assunto foi um só. Quer dizer S. senão as divinas. todos os outros. não em diversos. contêm ou muitas ou algumas cousas proféticas. ajustando. Sabedoria. Assim como os que escrevem anais ou histórias passadas e antiquíssimas. tira conclusões teológicas. recorrem aos autores mais antigos. diz assim no primeiro capítulo de sua primeira epístola: De qua salute exquisierunt atque scrutati sunt Prophetae qui de futura in vobis gratia prophetaverunt. o qual. ou juntamente doutrinais e históricos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro os primeiros e principais escritores a quem nela seguiremos todos ou quase todos os profetas canônicos. posto que não evidentes. é alheio da reverência que se deve aos oráculos divinos. com que vem a ser um só livro e um só Autor o que nela principalmente seguiremos: o livro. muito louvável e muito recomendado do mesmo Mestre Divino e seus sucessores. desde Isaías até Miqueas. concorreram para a fábrica deste novo edifício. devemos recorrer e buscar a verdade e notícias da nossa História nos autores dos tempos futuros. os Cantares e o Apocalipse. scrutantes in quod vel quale tempus significaret in eis spiritus Christi praenuntians eas quae. que são somente os Profetas. Eclesiástico e as Epístolas dos Apóstolos. há alguns que totalmente são proféticos. como a árvore em suas raízes. ainda que sejam meramente históricos. mais ou menos. Assim como a filosofia de princípios naturais evidentemente conhecidos tira conclusões certas. que nelas não estejam imediatamente expressados. Deus. nem atrevimento do entendimento e discurso humano. assim do Velho como do Novo Testamento. e todos os outros. exceto o profeta Jonas. E porque entre os outros Livros Sagrados. Nem este modo de discorrer sobre as profecias e revelações proféticas. quando servirem ou puderem servir (que não será pouco) ao conhecimento e inteligência dos tempos futuros. Pedro que os Profetas antigos. Reis. Christo sunt. Josué. depois de lhes serem revelados com lume sobrenatural e eles conhecerem e profetizaram mistérios futuros (como os da paixão e glórias de Cristo) sobre os mesmos mistérios e sobre as mesmas suas profecias inquiriam e especulavam de novo com o lume natural do discurso muitas circunstancias que lhes não 51 . de todos estes nos ajudaremos também. Deste modo crescem e se aumentam todas as ciências. como Provérbios. assim a teologia. Temos desta matéria um excelente texto do Apóstolo S. como os Salmos. também canônicos. ou cousa nova e desusada na Igreja e escola de Cristo. dispondo. antes estudo muito lícito. e estes são os que têm maior crédito e autoridade nas cousas daqueles tempos. e particularmente determinado à história dos Ninivitas. no qual modo de fábrica se não perde a primeira verdade dos fundamentos. Paralipamenon. Esdras e Macabeus. como o Levítico. e por isso se chamam e são ciências. segredos. Deuteronômio. passiones et posteriores glorias. para vir em conhecimento dos mistérios. Sobre estes fundamentos da primeira e suma Verdade entrará o discurso como arquiteto de toda esta grande fábrica. sucessos e tempos futuros. inferindo e acrescentando tudo aquilo que por conseqüência e razão natural se segue e infere dos mesmos princípios. dilatando-se e frutificando. Job e os Evangelhos. como o Gênesis. Josias. porque. pois só eles os conheceram. Pedro (primeira e infalível regra da Igreja). senão no mesmo corpo. Assim que podemos dizer em uma palavra que a primeira e principal fonte e os primeiros e principais fundamentos de toda esta nossa História é a Escritura Sagrada. Números. ou meramente doutrinais. de princípios sobrenaturais não evidentes mas certissimamente conhecidos. ordenando. combinando. assim nós que escrevemos do futuro. não só as naturais. mas vai crescendo. a Escritura. Eclesiastes. também científicas e ainda mais certas.

at ignorabant circumstantiam tem poris. Bem assim como o sol ou candeia (que era a nossa comparação) não só alumeia com a luz que está ao lume ou fogo que nela se sustenta. estudo e indústria própria. definite sciebant quo tempore veniret et quali. quae allaturus erat.. difundindo e estendendo a muitas cousas. as palavras que os pastores referiam ter ouvido aos anjos. a Ana a profetiza. Conferia a Senhora. quam brevi. É isto o que nós fazemos e devemos fazer. L: Scrutamini Scripturas.vel lectionis. das nações. isto é. Pedro nas palavras citadas: .. das repúblicas. vinham a estender e adiantar muito as mesmas profecias. quo statu Reipublicae Hebraeorum. é também necessária outra Segunda e nova luz para as entender a elas. dizendo por S. multiplicando e difundindo por todas as partes vizinhas e ainda distantes. João na cap. como as do tempo estado do Mundo em que os mesmos mistérios se haviam de obrar e as suas mesmas profecias haviam de suceder. vel disputationis. onde a versão siríaca tem: Nostra nobis: vaticinabantur. Atèqui Lorino. e ambos trazem em confirmacão o exemplo da Virgem Maria. por discurso natural. com o cuidado. Isso quer dizer: In quod vel quale tempus.proprie indicant. em que tempo significa a determinação do tempo certo em que as cousas hão-de suceder. e a palavra no qual tempo significa as qualidades e circunstâncias do mesmo tempo. quando o achou entre os doutores. Isto é o que literal e genuinamente significam aquelas palavras: «Exquisierunt et scrutati sunt. e ao mesmo Cristo Menino. e mais abaixo: Quibus revelatum est quia non sibimetipsis. Isto mesmo é o que se diz no cap. ou mais vizinho ou mais distante. e muito mais. O mesmo diz Salmeirão. da qual diz o Evangelho: Maria autem conservabat omnia verba haec conferens in corde suo. nec tamen salten omnes. Eplicabant quae Messias primum passurus. captivitatis. et ratiocinando. como diz o mesmo texto de S. Desta maneira. Esta segunda luz 52 . se hão-de ver e suceder no Mundo: Deprehendebant Prophetae instinctu spiritus Messiae ejusdem Messiae adventum et gratiae dona.qui de futura in vobis gratia prophetaverunt. A palavra. do cativeiro. da guerra. as que ouviu a Simeão. tempos. conforme a sua menor ou maior esfera.» Exquisitio et scrutatio (diz Lorino) . an belli. disputando e meditando.. sucessos e circunstâncias que nelas estavam ocultas e pela conferência e conseqüência do mesmo discurso se vão entendendo e descobrindo de novo. e os acontecimentos particulares da paz. assim o lume natural do discurso. com ser alumiada sobre todas as criaturas. que nas mesmas palavras não estavam expressamente declarados. razão é que nós como nossas as entendamos. XV dos Atos dos Apóstolos faziam os mais doutos cristãos da primitiva Igreja. E pois os Profetas profetizavam para nós e as cousas nossas. e assim como se há mister necessariamente a sua luz para conhecer os futuros. atque conjecturando disquirebant. e delas. com a luz que dela se vai produzindo. aut pacis. se vai propagando. Mas porque as profecias por sua natural escuridade não são fáceis de entender. o estado dos reinos. ambos doutissimos expositores deste lugar. aut libertatis. De sorte que. curam et studium et industriam naturalem vel meditationis. e o que Cristo mandou a todos que fizessem.. nossa Senhora. inferia e descobria outros mistérios ocultos e profundíssimos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro foram expressamente reveladas. pois de nós e para nós falam os Profetas. conhecendo delas e por elas muitas cousas que nelas imediatamente não estava reveladas. ajuntando o lume natural do d curso ao lume sobrenatural da pirofecia.. no sentido em que o digo vinham a inferir e alcançar pelo estudo e especulação natural e própria o que Deus lhes não tinha manifestado pela revelação sobrenatural e divina. da liberdade e outros semelhantes que no mesmo tempo. lendo.. senão também. vobis autem mintistrabant. quam postea gloriam consecuturus et collaturus etiam esset.

e não só falaremos nos autores e Profetas modernos e não canônicos. Por esta causa se não acharão porventura neste nosso discurso menos algumas que em nome de profecias andam entre o vulgo. merecido no juízo dos prudentes o nome e veneração de profecias ou predições verdadeiras. a que por isso chamamos Anteprimeiro. à imitação de Barónio e de outros autores. que grandemente depende do tempo e de outras semelhantes circunstâncias. como dos seguintes tempos. e é como alicerce de todo o edifício. tenham. sem certeza de autor e muito menos do espírito com que foram escritas. Não meteremos porém nesta conta senão aquelas profecias somente que. mas o único fundamento de toda a sua verdade. mas também com fio: as tochas para ver o escuro dos caminhos e o fio para entrar e sair pelo intricado deles. por ser este não só o principal. poderemos entrar neste labirinto com todo o aparato e prevenção de instrumentos com que se entrava seguramente no de Creta. e para vencer e facilitar estas duas dificuldades se inventou entrar nele. e muito mais.Anexo:Imprimir/ História do Futuro serão aqueles a quem Cristo chamou luz do Mundo: Vox estis lux Mundi. com uma breve relação também das mesmas pessoas (quando não forem geralmente mui conhecidas) pelo muito que importam todas estas notícias não só para a fé e crédito. na forma possível. senão igualmente nos antigos e sagrados. Também excitaremos a este fim e resolveremos várias questões muito importantes ao conhecimento das profecias. Isto é quanto às profecias e Profetas canônicos. senão ainda. candeia acesa: Neque enim accendunt lucernam et ponunt eum sub modio. e depois daqueles seus primitivos anos houve sempre novos profetas. Procuramos quanto nos foi possível que fosse mui exata esta diligência. com que alumiaremos as profecias. Por este modo entraremos também nós pelo escuro e intricado labirinto dos futuros. A este fim empregarei grande parte deste presente livro na qualificação do espírito profético que tiveram todos os autores do futuro que na História se hão-de alegar. que por palavra e escrito predispuseram muitas cousas futuras. para a inteligência e combinação das mesmas profecias. E posto que todo este tão largo Prolegómeno em rigor não seja História do Futuro. com que alumiaremos e descobriremos os futuros. mas diremos o tempo em que escreveram as obras proféticas que deles existam. por outras palavras. João). a inteireza ou corrupção com que se tem conservado. pela ordem que a necessidade ou ocasião o for pedindo. os quais seguiremos e alegaremos em tudo o que dissermos com estas duas luzes ou candeias: uma dos Doutores sagrados. experiência e opinião do Mundo. e esta será a própria matéria de todo este livro. aprovados e canonizados pela Igreja. E porque o Espírito Santo. ou pela santidade de seus autores. e sem o qual vã e não merecidamente lhe devemos prometer o crédito que de todos os que a lerem esperamos. que com menos necessidade o fizeram em 53 . Era aquele labirinto por uma parte muito escuro e por outra mui intricado. e em segundo os Padres Doutores da Igreja e expositores das Escrituras divinas. alumiados com o mesmo espírito. assim dos seus. depois de fechado o número dos livros e os escritores sagrados (o qual se cerrou no Apocalipse de S. ou por outros fundamentos sólidos da razão. o entendimento e o discurso de fio. senão preparação ou aparato para ela. As profecias e os Doutores nos servirão de tochas. e. pelas mesmas causas. e não só provaremos quanto for necessário o espírito da profecia destes autores. também estes darão matéria à nossa História. e outra as mesmas profecias. que são em primeiro lugar os Apóstolos sagrados. não deixou de ilustrar e ornar sua esposa a Igreja com o lume e dom da profecia. não só com tocha.

verdadeira com certeza de fé. 54 . merecendo. por natural conseqüência. todas elas estão cheias.Anexo:Imprimir/ História do Futuro suas histórias. le nestas. mas formada e como tecida deles. que as outras verdades sagradas que se contêm nas Escrituras. que esta História do Futuro é mais certa e mais verdadeira que todas elas (excetas somente as Histórias Sagradas). qual é a das conclusões teológicas que. e a mesma participarão. nem somente ciência. ficam dentro dos lates da probabilidade opinativa. verdadeira com certeza moral. não sendo totalmente fé. de cuja inteligência por sua clareza se não pode duvidar. nem perigo de poderem não ser. por melhor dizer. ou pelo consenso comum dos Padres. ainda que intervenha no discurso algum meio ou proposição científica. todas as outras conclusões que por natural e evidente conseqüência delas se deduzirem. segundo todas suas partes. será fundada na primeira e suma Verdade. nas do terceiro. ou por não averiguadas com tão evidente certeza (posto que sempre estabelecidas com bons e racionais fundamentos) ou por sua interpretação não ser tão manifesta ou recebida que não desfaça moralmente toda a razão de dúvida. Nas do primeiro gênero. ou por culpas ou sem culpa dos mesmos historiadores. nas do quarto. como as conseqüências que delas por formalização se deduzirem. por ir toda (como vai) não só fundada nos mesmos textos e sentenças da Escritura divina. porque as cousas que expressa e imediatamente se predizem nas profecias canônicas. ou teológica. que. o nome de história verdadeira. terão somente certeza provável naquele sentido em que dizemos provavelmente certas aquelas cousas de que há fundamentos prováveis para o serem. e pela maior parte até agora não tratadas. é certo que têm toda aquela certeza infalível e de fé. ou por estarem explicadas por escritores também canônicos por concílios. Estes quatro gêneros de verdade são os de que repartidamente se comporá toda a História do Futuro. verdadeira com certeza teológica. As outras cousas. sendo a excelência singular desta História que toda ela. a História do Futuro igualará na verdade e na certeza. porque. se não distinguirá delas. nas do segundo. por esta parte têm evidência. ou provável. ou canonicamente. posto que não em todas com igual grau de certeza. que será. como em Deus esperamos. são verdades segundas que participam a mesma certeza também infalível. esperamos que a matéria. como veremos que tenham toda a certeza moral. senão em parte. mas alheias e encontradas com a verdade. como também terão advertido os mais lidos e versados. que destas verdades assim profetizadas e conhecidas. assim o que imediatamente predizem. pelo modo já explicado. e conhecidamente supostas e falsas. muito brevemente. que é. por sua grande variedade e diligente erudição de cousas curiosas. por tradições. As profecias não canônicas podem ser tão evidentemente provadas por seus efeitos. De tudo o que fica dito ou prometido se colhe facilmente quanta será a verdade desta História. e por ambas tal certeza. assim nas antigas como nas modernas. Daqui inferimos sem injúria nem agravo de quantas histórias até hoje estão escritas no Mundo. o mesmo Deus. e que possa sem enfado entreter a expectação e desejo da mesma História. na forma que pouco antes dissemos. verdadeira com certeza provável. não será injucunda aos que a lerem. e ainda esta exceção se não deve entender em todo. se deduzirem. E digo que sem injúria nem agravo de todas as outras histórias humanas. que não é sujeita a erro ou falsidade. que é a que depois a fé e da ciência têm no juízo humano o maior assento. ou moral. não só de cousas incertas e improváveis. enquanto não sai a luz. pois são filhas e herdeiras da mesma Verdade de que tiveram seu nascimento Restam somente aquelas profecias que.

daquelas histórias de que temos verdadeira relação nas Escrituras Sagradas. ainda com maior evidência. Prova Tácito a verdade da sua história. quanto mais vão correndo. e não as sentenças sobre os processos. que também tinha longe as informações da verdade. com que formava os processos para as sentenças. e todos na tinta de escrever misturam as cores do seu afeto. com os quais cotejado. sobre a qual batalham tantas vezes os mesmos historiadores. que não vão envoltas em muitos erros. e nós para eles. a vingança. que o não incline só o respeito. senão supra candelabrum. que é mais. por ocasião do milagre da serpente: Cedaxt huic veritati. Quem quiser ver claramente a falsidade das histórias humanas. E Cícero. ou da ignorância. leia a mesma história por diferentes escritores. Romanos. Pedro. Egípcios. e desta é filha legítima a sua verdade. como são as de Noé. que com a candeia da profecia se podia entrar pela escuridade dos futuros e descobrir e conhecer o que neles está encoberto e enterrado. do Dilúvio. o que escteveram os Berosos. também há outros centos de anos . e principalmente a dos Hebreus. Não aponto erros em particular das histórias mais vizinhas a nossos tempos por reverência deles. e a nossa tirada do lume da profecia e acrescentada pelo lume da razão. o ódio. e como há tantos centos de anos que estão escritas estas profecias. Capítulo X: Resposta a uma objeção: mostra-se que o melhor comentador das profecias é o tempo. Jerônimo. Medos. Das dos Gregos e Romanos disse S. os Diodoros. Estes foram os pais da História humana. as dos Assírios. que mais merece nome de temeridade :que de confiança. e que ninguém contudo se atreveu até agora a entrar com ela por estes abismos e escundades do futuro. ou do seu ou de estranho príncipe? Todas as penas nasceram em carne e sangue. Persas. tam graeco quam romano stylo mendacis ficta miracula. e todos os outros historiadores daquelas nações e tempos. que não escreva por informações? E que informações há de homens. e porque fora matéria infinita.) por Padre Antônio Vieira 55 Assentamos com o Apóstolo S. mas nunca com conhecida vitória. que é a ignorancia e malícia humana. como em pedra de toque. empresa e ousadia. aos quais (que sempre serão mais de um) responderemos facilmente com o seu mesmo argumento. História do Futuro (Volume I. os Cúrcios. ou da malícia? Que historiador há de tão limpo coração e tão inteiro amador da verdade. que esta mesma candeia e luz das profecias há muitos centos de anos que está acesa. Gregos. da divisão das primeiras gentes. com ter longe as causas do ódio e amor. os Lívios. os Heródotos. sendo infalível que um só pode dizer a verdade e certo que nenhum a diz. a lisonja. Os futuros. mas de aí se convence contra ele. o amor. e desta mesma experiência e razões dela se qualifica claramente ser a nossa História do Futuro mais verdadeira que todas as do passado porque elas em grande parte foram tiradas da fonte da mentira. ou da alheia nação. apenas se acha cousa que não seja contradição da verdade. por mais diligente investigador que seja dos sucessos presentes ou passados. tanto mais se vão chegando para nós. e não sub modio. Mas isto mesmo se conhece. Mas sobre esta resolução se pode dizer e argüir contra nós.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Que historiador há ou pode haver. os Trogos. no capítulo antecedente. e verá como se encontram. ou da sua. se contradizem e se implicam no mesmo sucesso. Por isso Tertuliano lhe chamou com razão mendaciorum loquacíssimum. O certo é que só tinha perto a ambição de seu próprio juízo. como nós prometemos fazer. que são as duas fontes da verdade humana e divina. no livro primeiro das Leis: Apud Herodotum patrem Historiae et apud Theopompum sunt innumerabiles fabulae.

Com una candeia na mão pode-se ver o que há em uma casa. Cousa maravilhosa é. e conhecemos quão pequena. e ao perto alumeia. e que apenas se pode entender. 0 grande precursor de Cristo . Estava vendo a visão. ainda que tivessem acesa a mesma candeia.. nos nossos a fortuna da vizinhança. mas não se pode ver o que há em uma cidade. entendeu o que aquelas figuras significavam. Esta é a diferença que não nós. o mais pequeno de todos era Zaqueu que por si mesmo.erat lucerna lucens et ardens. e ainda que todos os outros Profetas anunciaram a Cristo. Ao longe viu só Moisés a sarça e o fogo. comparada com aqueles cedros do Líbano e com aquelas torres altíssimas. e um pouco mais. e disse que a iria ver. os outros diziam: — Há-de vir. Se estamos mais perto dos futuros com igual luz (ainda que não seja com igual vista). Pigmeus nos conhecemos em comparação daqueles gigantes que olharam antes de nós para as mesmas Escrituras. achando-se às escuras em muitos lugares das profecias. e estar em cima dos mais. aplicando a parábola de Cristo ao estudo da Sagrada Escritura. senão os nossos tempos. mas nós. Entre a multidão dos que acompanhavam e rodeavam a Cristo.eles viram. antes pode ser menor. porque eles com outros acabaram a obra que os outros sem eles não puderam nem podiam acabar: Sic erunt novissimi primi. como vive mos depois deles. disse Cristo. e com os pés no chão. mas subidos por merecimento seu e fortuna do tempo a tanta altura. e que disse? — Vadam et videbo visionem hanc magram: «Irei e verei esta grande visão».. porque os não veremos melhor? Assim o confessou Santo Agostiho com ter os olhos de águia o qual. porque vai muita diferença de ver as visões de Deus ao longe. como os cavadores da vinha que vieram na última hora puderam ser avantajados aos demais. Fizeram na última hora o que os outros não fizeram todo o dia. ou vê-las ao perto. viu melhor e mais claramente que todos. mas subido em cima da árvore. Mui bem medimos a nossa estatura. reservou a verdadeira inteligência delas para os vindouros. ao perto. para que dele se possa alcançar o que de outros se não alcança. Eles sem nós viram muito mais do que nós podemos ver sem eles. A mesma luz e a mesma candeia ao longe vê-se. As visões e revelações de Deus vêem-se melhor ao perto que ao longe: de longe viu Moisés a visão da sarça. Para ver com uma candeia. porque era candeia de mais perto. quão desigual) quão inferior é. pode suceder que os que vêm na última hora por felicidade da mesma 56 . Este é o modo com que os últimos podem vir a ser os primeiros. mas basta ser o último. não é muito que alcancemos e descubramos um pouco mais do que eles descobriram e alcançaram. não basta só que a candeia esteja acesa. é necessário que a distância seja proporcionada: Ut luceat omnibus qui in domo sunt. 0 último degrau da escada não é maior que os outros. e por isso nós nos atrevemos a fazer hoje o que os Antigos não fizeram. e ele disse: — Este é. porque a candeia de mais perto alumeia melhor. Non ergo undecima hora in vineam Domini ad operandum conductis nobis invidendum est — disse Lipomano na prefação de seus Comentários. Os que estudamos e trabalhamos na inteligência da Sagrada Escritura. mais ou menos todos cavamos e. não podia alcançar a ver o que os outros viam. Um pigmeu sobre um agigante pode ver mais que ele. fazem aos antigos: nos antigos reconhecemos a vantagem da sabedoria. o Baptista o mostrou melhor. e elas para os futuros. que tanto ornato. tanta grandeza e majestade acrescentaram ao edifício da Igreja. vemos hoje o que .Anexo:Imprimir/ História do Futuro que os futuros se vão chegando para elas. e sobre eles por benefício do tempo. Mas estes são os privilégios da última hora: Hi novissimi una hora fecerunt.

João Crisóstomo. se podem manifestar e entender. I428. cavando muito mais. Assim que bem pode um homem menor que todos descobrir e alcançar o que os grandes e eminentíssimos não descobriram. A quem se descobriu foi não menos que aos espíritos angélicos das mais superiores hierarquias do Céu: Ut innotescat principatibus et caelestiu. 0 último dos Apóstolos foi S. Aquele tesouro escondido de que falou Cristo no cap. e logra é fruto dos trabalhos e suores dos primeiros? Assim aconteceu no tesouro das profecias: cavaram uns e cavaram outros. porque costuma Deus ter algumas cousas encobertas e escondidas por muitos séculos. não descobriram. S. porque bem pode o último e o mínimo alcançar e descobrir os segredos que os primeiros e maiores não alcançaram. Nas quais palavras se devem ponderar muito quatro cousas: Que é o que se descobriu. e S. sucede vir um mais venturoso que. porque. cavam por muitos dias. e se confessa por mínimo de todos: Mihi omnium sanstorum minimo. Paulo. porque esta ventura não é privilégio dos entendimentos. e confessando-se por mínimo de todos. era o termo da navegação do mar Oceano junto somente à costa de África. tão temorosos aos navegantes. enquanto ele quer que estejam encobertos e escondidos. Quem o descobriu foi o último de todos os apóstolos 9 discípulos de Cristo. descendo sem trabalho ao profundo da mesma cova. e quando . quando chega o tempo determinado e predefinido por Deus para que seus segredos se conheçam e descubram no Mundo. diz Ruperto Tertuliano. ut innotescat principatibus et potestatibus in caelestibus per Ecclestam. O que se descobriu é um segredo escondido a todos os séculos passados: Sactamenti absconditi a soculis in Deo. secundum praefinitionem saeculorum.Anexo:Imprimir/ História do Futuro hora acabem. confessa ter recebido a graça de descobrir aos mesmos anjos do Céu os tesouros que lhes estavam escondidos: Mihi omnium sanctorum (diz ele na Epístola aos Efessos) minimo data est gratia hoec in gentibus evangelizare investigabiles divitias Christi. para conhecer e penetrar os segredos altíssimos de Deus. quem o descobriu. senão prerrogativa dos tempos. Mateus. Crisóstomo. ainda que seja de um anjo e de muitos anjos. quando se descobriu. e depois de estes cansados e desesperados. et illuminare omnes quae sit dispensatio sacramenti absconditi a saeculis in Deo. Jerônimo com mais estrita propriedade o entende particularmente das escrituras proféticas Quantas vezes os que trabalham no descobrimento de algum tesouro. o tornará ou não. que foi no ano da criação do Mundo I80I. et vilis invenit. que já o não alcançou. a qual sempre é do último Eis aqui como pode acontecer que descubram o tesouro os que cavam menos: Saepe abseptus quisquam. e cansaram todos e no cabo descobre o tesouro quais sem trabalho aquele ultimo para quem estava guardada tamanha ventura. Desde que Túbal começou a povoar Espanha. nem ouviu neste Mundo como os demais. que era provérbio entre eles (como escreve o nosso João de Barros): quem passar o cabo de Não. disse verdadeira e judiciosamente S. Finalmente. multiformis sapientia Dei. o cabo chamado de Não. conforme a ordem e disposição de sua Providência. até o de Cristo. a quem se descobriu. que é a Escritura Sagrada. meses e anos sem acharem o que buscam. só então. descubram com poucas enxadas o que muitos em muito tempo e com muito trabalho. Aparecia ao 57 . nem viu. quod magnus et sapiens vir praeterit. e cavando alguma cousa de novo descobre a poucas enxadadas e tesouro. XIII de S. em que se passaram mais de 3600 anos. se descobriu. sendo os mares que depois dele se seguiam. e de nenhum modo antes. porque não bastam as forças da sabedoria e entendimento criado. foi no século que Deus tinha predefinido e determinado: Secundum praefinitionem saeculorum. qui omnia creavit.

claude sermones et sigra librum. depois de um anjo lhe ter declarado grandes mistérios dos tempos futuros. o temerosíssimo Bojador do futuro. a hora em que Deus tinha limitado o curso de tanto receio. Não havia pensamento que ainda com imaginação (que a tudo se atreve) desse um passo seguro mais adiante naquele tão desusado caminho. foi o primeiro que. como todos tinham. diz breve e sentenciosamente: «E a este seu propósito se ajuntou a boa fortuna. Lusos. o que confusamente se representava adiante ao longo deste cabo. nem os Bacos. chamado Gil Eanes. para pisar todos esses impossíveis e para navegar segura e venturosamente os mares nunca de antes navegados. por melhor dizer. dispondo-se ousadamente ao rompimento de uma tamanha aventura. era a carranca medonha. de sombras. facilitada esta passagem. e haverá sobre a inteligência de seus mistérios grande variedade de ciências e opiniões. como pelo desengano de muitas experiências. usque ad tempus statutum. o qual é o que só tem poder para romper os sigilos e abrir e fazer 58 . de horrores.:>> Este é o sentido literal e verdadeiro destas palavras do anjo. de medos. e entendamos que se passou o cabo. de nuvens espessas. tanto por fama e horror comum. posto que elas são tão claras e expressas que não necessitam de comentador. Mas se agora virmos desfeitas estas névoas. plurimi pertransibunt et multiplex erit scientia: >>Tu. e isto por um piloto de tão pouco nome e uma tão pequena barquinha como a do seu limitado talento. venceu felizmente o cabo em uma barca.. de impossíveis. É admirável a este propósito um lugar do profeta Daniel. nas escrituras dos profetas. que pode o Bojador ser vencido. nem os Cipiões e Júlios de Roma.Anexo:Imprimir/ História do Futuro longe deste o cabo chamado Bojador. com que demonstrativa e indubitavelmente se persuade e convence esta verdade nos próprios termos da inteligência das profecias em que falamos. de cegueira. para que estejam fechadas e seladas até o tempo determinado por Deus. se reputava entre todos por empresa tão arriscada e impossível à indústria e poder humano. demos os louvores a Deus e às disposições de sua Providência. No cap. Mas quem ler o capítulo seguinte. nem os Aníbales de Cartago. mandou-lhe que fechasse e selasse o livro em que estavam escritas e lhe disse estas notáveis palavras: Tu autem. XII de Daniel. pelo muito que se metia dentro no mar. como se pode ver no IV capítulo da primeira Década. verá também como um homem português não de muito nome. fecharás e selarás o livro (em que escreveres estas cousas que tenho dito). Daniel. não havia historiador que de ali adiantasse um momento a conta de seus anos e dias. como se pode ver em todos os comentadores de Daniel. de escuridade. ou. era até agora o cabo de Não. dobrado este cabo. sondado este fundo e navegável e navegada a imensidade de mares que depois dele se seguem. porque chegou a hora. De maneira que. e param suas empresas e ainda seus pensamentos no cabo de Não. para atalhar todos esses receios. coberto de névoas. ao Mundo e ao mesmo Oceano que também o não navegado era navegável. Daniel. até que chegue o tempo determinado pela Providência divina. o qual feito ponderando o nosso grande historiador com seu costumado juízo. Mas quando chega a hora precisa do limite que Deus tem posto às cousas humanas. quebrou aquele antiquíssimo encantamento e mostrou com estranho desengano à Espanha. entretanto passarão muitos por elas. Ali donde chega o presente e começa o futuro. de passar aquele cabo Bojador. desvanecido este escuro.>> E verdadeiramente é assim: enquanto não chega a hora determinada por Deus. que ninguém as pode entender nem declarar. cuja passagem. Gedeões e Hércules de Espanha se atrevem a imaginar. basta Gil Eanes em uma barca para vencer todas essas dificuldades. há cousas de tal modo fechadas e seladas.

e assim se haviam ir entendendo. mas não todo Juntamente. sem que se possa entender onde irá parar. não porque os últimos sejam mais doutos ou de mais aguda vista. traçada e disposta maravilhosamente pelas idéias de sua Providência. e por isso naquele misterioso livro. E se quisermos especular a razão desta providencia. mas o certo e verdadeiro sentido delas sempre ficará oculto e escondido. com que vão seguindo e variando os tempos. os Teodoretos. et multiplex erit scientia. assim como eram diversas as profecias e diversos os efeitos e sucessos da Igreja e do Mundo. Bem assim como antes de se acabar de todo a noite. e para o qual reservou Deus a abertura dos seus sigilos? Signa librum usque ad tempus constitutum. que nelas estavam profetizadas. temos relatado este segredo da Providência divina. os Sanches. os Tertulianos. ou quando já forem chegando. muito doutas. com que o enredo os vai levando após si. senão igualmente com eles. Por quantos lugares passaram os Origgenes. em que a Igreja de Cristo se vai continuando mais claramente que em nenhum outro lugar das Escrituras. os Basílios. os Riberas? E por quantos passaram também estes. assim Meus. com que dispôs e tem decretado que as profecias se vão descobrindo e entendendo ordenada e sucessivamente aos mesmos passos. e não apartadas de seus efeitos. que nelas estavam ocultos e encerrados. foi um livro fechado e selado com sete selos o qual era o seu mesmo Apocalipse. Onde se deve advertir e notar que muitos homem ainda que sejam de grandes letras. cuidam que passam os livros.Anexo:Imprimir/ História do Futuro patentes as escrituras fechadas e declarar os mistérios futuros. mas porque lêem e estudam à luz da candeia. muito santas e muito várias. E assim como o primor e subtileza da arte cômica consiste principalmente daquela suspensão de entendimento e doce enleio dos sentidos. os Clementes. João. É este mundo um teatro. que depois entenderam melhor os que lhes foram sucedendo. os Cornélios. os Rupertos. ou a mais misteriosa de todas. os Jerônimos? Por quantos passaram os Hugos. e com grande aparato de cerimônias e efeitos admiráveis no céu e na terra. acharemos que não é outra senão a majestade da sabedoria e onipotência divina. sempre admirável em todas suas obras. foram-se rompendo estes selos e abrindo-se o livro. ou depois de chegarem. soberano Autor e Governador do Mundo e perfeitíssimo exemplar de toda a 59 . pelos resplendores da aurora se conhece a vizinhança do Sol. No Apocalipse (cujas profecias são próprias deste tempo). porque passarão todos por ele sem entenderem nem penetrarem Isto quer dizer: Plurimi pertransibunt. senão quando já vai chegando e se descobre subitamente entre a expectação e o aplauso. que é mais certo intérprete das profecias. encobrindo-se de indústria o fim da história. e passam por eles: Plurimi perransibunt. E enquanto este tempo não chega. o mistério destas pausas e intervalos era porque se haviam ir descobrindo as profecias que estavam escritas no livro. Entre as cousas muito misteriosas que viu S. ajudados e ensinados do tempo. assim também eram diversos os selos com que estavam fechados e diversos os tempos em que se haviam de abrir e manifestar. os Ricardos. sendo o mesmo tempo e os mesmos sucessos os que as abrissem e manifestassem. senão por passos e espaços: um selo primeiro e outros depois. antes que ele se veja descoberto nos horizontes. por mais doutos. De maneira que nas profecias estão encobertos os tempos e os efeitos. que depois en tenderam os Agostinhos. os homens as figuras que nele representam. pendentes sempre de um sucesso para outro sucesso. e nos tempos e nos efeitos estarão descobertas as profecias. sábios e santos que sejam os expositores daquelas profecias. dirão cousas muito discretas. que depois entenderam os Montanos. e a história verdadeira de seus sucessos uma comédia de Deus. não juntamente. ou mais vagarosos ou mais apressados. senão em diferentes tempos.

com que sua mesma clareza se nos faz escura. que assim o confessa. donec faciat et cormpleat cogitationem cordis sui: in novissimo dierum intelligetis ea. Daniel intellexi: Eu. intellexi in libris numerum annorum. em que ela se cumpria. e todas as gentes que a habitam. E que fez Deus. costuma atravessar entre elas e os nossos olhos umas certas nuvens. senão no primeiro ano de Dario. XX. XXV daquele profeta. se acabaram de cumprir no primeiro ano do império de Dario. para que umas palavras tão expressas e uma profecia tão clara possa parecer escura? Atravessa uma nuvem (como dizíamos) entre a profecia e os olhos. que foi o último dos mesmos setenta? Podia haver conta mais clara? Podia haver palavras mais expressas? Não Mas como é regra ordinária da Providência divina. ou pode fazer. o entendesse senão no último ano. onde. não de outrem. sendo Daniel. senão de si: In anno primo Darii. Daniel. se o não vira esento para maior admiração em um dos maiores profetas. diz ele. O tempo foi o que interpretou a . ut complerentur desolationis Hierusalem septuaginta anni: <<No ano primeiro de Dario. ainda quando as manda escrever primeiro pelos profetas. entendi nos livros o número de setenta anos.profecia. qui imperavit super regnum Chaldeorum. XXIII: Non revertetur furor Domini usque dum faciat et usque dum compleat cogitationem cordis sui: in novissimis diebus intelligetis consilium ejus. falando de suas profecias. descendente dos Medos. et servient omnes gentes istae regi Babylonis septuaginta annis:<<Toda esta terra (diz Jeremias. sendo Daniel um tão grande profeta. que as profecias se não entendam senão quando já tem chegado ou vai chegando o fim delas. E no cap. para nos ter sempre suspensos na expectação e pendentes de sua providência. quase pelas mesmas palavras: Non avertet iram indignationis Dominus. Agora entra o caso e a admiração: Esta profecia de Jeremias. de quo factus est sermo Domini ad Jeremiam prophetam. filho de Assuero. diz que se não entenderão senão nos últimos tempos do cumprimento delas: No cap. e com este véu. senão no último ano dos setenta. que teve o império dos Caldeus: Eu Daniel. porque assim o profetizou e o repete o mesmo Jeremias em dois lugares. não entendi a profecia tão clara de Jeremias. que não entendeu o número destes setenta anos. que Deus tinha revelado ao profeta Jeremias havia de durar a assolação de Jerusalém>> e cativeiro dos Judeus em Babilônia. senão quando Já tem chegado ou vêm chegando os fins deles. ego. e diz assim: Et erit uníversa terra haec in solitudinem et in stuporem.>> Estes setenta anos. sendo a profecia tão clara e o número dos setenta anos tão expresso. Pois se o termo de setenta anos estava profetizado com palavras tão claras e expressas como são aquelas de Jeremias: Et servsent omnes gentes istae regi Babylonis septuaginta annis. E é esta regra (com pouca exceção de casos) tão comum em Deus e seus decretos. e não Daniel. anno uno regni ejus. que nos não deixa compreender nem alcançar os segredos de seus intentos. sendo Daniel. por isso. Daniel. filii Asssueri. mas assim havia de ser. Eu o não crera. ou sobre os olhos ou sobre a profecia. não quis Deus que o mesmo Daniel. com pasmo e assombro do mundo. que. de semine Medorum.Anexo:Imprimir/ História do Futuro natureza e arte para manifestação de sua glória e admiração de sua sabedoria. é do cap. ainda quando as profecias são muito claras. servirão ao rei de Babilônia por espaço de setenta anos. E esta parece a energia daquela sua palavra: Ego. como consta da exata cronologia que se pode ver largamente provada em Perério e rios comentadores da profecia de Daniel. como diz Daniel. estando em Jerusalém) será assolada. de tal maneira nos encobre as cousas futuras. o claro por claríssimo que seja 60 . que Daniel afirma que entendeu no primeiro ano do império de Dario.

e verão a luz das profecias: ainda que a profecia seja candeia acesa. e com véu sobre os olhos! Peço e protesto a todos os que lerem esta História. é escura: . e tudo isto por beneficio do tempo. o tempo as gasta e as desfaz. ou que a não leiam.Anexo:Imprimir/ História do Futuro fica escuro. Que profecias mais claras que as da vinda de Cristo ao Mundo? E muito mais claras ainda depois de manifestas e provadas com os mesmos efeitos. porque têm os olhos cobertos com aquele antigo véu de Moisés. do tribo de Benjamim: Usque in hodiernum diem.. A mulher que buscava a dracma perdida não só acendeu a candeia. Capítulo XI) por Padre Antônio Vieira 61 Declara-se qual seja a novidade desta História. ou que tirem primeiro-o véu de sobre os olhos.. só eles os podem tirar. dizemos que é clara como a água. porque não há cousa mais clara. porque eles são os que querem ser cegos. cum legitur Moyses. por claras e claríssimas que sejam. até a água e escura. e que distinguimos melhor porque vemos mais perto. mas varreu a casa:. como eles.) everrit domum. e logo verão os olhos o que há nela. porque olhamos de mais alto. a esperança ou o temor. como lhes lançou em rosto o grande Paulo Judeu e semente de Abraão. ou se não querem entender. auferetur velamen.accendit lucernam. tirem-se os estorvos e impedimentos à luz. mas a casa não está varrida. velamen positum est super cor eortum. para que pudesse conhecer as maravilhas dos seus mistérios: Revela oculos meos. et considerabo mitrabilia de lege tua. De maneira que. Olhamos de mais alto. História do Futuro (Volume I. e se achará o que se busca. . por muito clara que nela esteja. mas os véus que os homens lançam sobre os próprios olhos. e contudo essa mesma água (como discretamente advertiu David). porque estamos mais chegados aos futuros.. a inveja ou a lisonja. se os cega o amor ou ódio. é necessário que revele também os olhos: Revela oculos meos. cum autem conversu fuerit ad Dominum. quando o primeiro intento e nega-la ou quando menos escurecê-la? As nuvens que Deus põe sobre a profecia. porque vemos sobre os passados.. porque todos os que cavaram neste tesouro e varreram esta casa. e tais são as profecias. Oh quantas profecias muito claras se não entendem.tenebrosa aqfxa in nubibgs aeris Em havendo nuvem em meio. Tirem o véu de sobre os olhos. como se pode entender a verdade da profecia. porque as quero remos ver por entre nuvens. Por isso pedia o mesmo David a Deus que lhe tirasse o véu dos olhos.. Quando queremos encarecer uma cousa de muito clara. varra-se e alimpe-se a casa. para o dizer melhor. resumindo toda a resposta da objeção. E contudo estas são as que mais obstinadamente nega a cegueira judaica. foram tirando impedimentos à vista. e achamos os impedimentos tirados. vemos de mais perto. ou. por novas. como se há-de ver com os olhos cobertos? Tire-se o impedimento à luz. e que as cousas novas. A candeia está acesa e muito clara. por providência do Senhor dos tempos. e logo se verão a candeia e mais o que ela alumeia. Como se hão-de entender as revelações com os entendimentos e olhos vendados? Não basta só que Deus tenha revelado os futuros. digo que descobrimos hoje mais. com uma nuvem diante. a vingança ou o interesse. et (... nem se quer achar. Se os olhos estão cobertos e escurecidos com o véu do afeto ou com a nuvem da paixão. e que trabalhamos menos porque achamos os impedimentos tirados. mas nem se busca. não desmerecem o crédito de sua verdade.

Santo Agostinho. pela novidade do hábito e modo de vida! Digam-no as apologias de S. alius de eo scribendi non habebit licentiam. supérflua diligência é quererdes vós explicar o que os outros não podem deixar de ter entendido». S. Se o que era escuro. que não há muito que temer seus golpes. te quoque in eis falli potuisse creditur. e para isso usais daquele novo silogismo. illos in eis falli potuisse non creditur. obra é — diz o santo— em que eu não quisera que vós empregásseis o vosso trabalho. porque ou elas são escuras ou manifestas.] respondeat mihi prudentia tua. Jerônimo: De vertendis autem in latinam linguam sanctis litteris laborare te nollem [ ] aut obscura sunt. ao qual respondeu S. ou o que era manifesto. A primeira instituição da vida monástica. Boaventura. A mesma Lei de Cristo chamada por sua novidade evangélica. Lactancio. e pelo qual. Si enim obscura sunt. superfluum est te voluisse disserere. superfuum est te voluisse explanare quod i11is latere non potuit: «!Quanto à versão das Escrituras Sagradas na língua latina. nem só por quaisquer católicos. si manifesti. Jerônimo com igual engenho. não por Gentios ou hereges. com razão se crê que também vos podeis enganar na sua interpretação. que hoje adoptamos por canónica. Gregório. et quodcumque alius occupaverit. senão ao mesmo S. tão estranhada quando nova. como os outros escritores.si manifesta. zelo e elegância. sendo o estado mais santo da Igreja Católica. que nos precederam no Senhor. cousa alguma que encontre a Fé ou doutrina da Igreja. Se escuras. e todos os outros padres que antes e depois destes escreveram contra Gentios. Agostinho — que eu me não devia cansar em interpretar as Escrituras depois dos antigos intérpretes delas. nos Platins. nos Barónios. mas são estas armas já tão velhas e ferrugentas. Prudêncio. quod illi explanare non potuerunt? Si manifesta. escritas não a outrem.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Quando no princípio deste livro prometemos cousas novas aos curiosos. supérfluo trabalho é cansar-vos em querer fazer entender o que eles não podiam deixar de ter entendido. e se manifestas. aut manifesta. nos Soares. quomodo tu post eos ausus es disserere.. por estas palavras:: Porro quod dicis non debuisse me interpretari post veteres. como por graça de Deus não tem. respondo com as mesmas vossas palavras: Todos os expositores dos Livros Sagrados. elegante e engenhosamente Santo Agostinho.. aut manifesta. Arnóbio. para que não falemos nos Waldenses. Jerônimo na versão da Sagrada Bíblia. nos Belarminos. ponha em risco o crédito da sua verdade. et novo utens syllogismo [. S. te quoque in eis falli potuisse credendum est. quare tu post tantos ac tales scriptores et interpretes in explanatione Psalmorgm diversa senseris? Si enim obscurt sunt Psalmi. ac per hoc utroque modo superflua erit interpretatio tua. Bernardo Santo Tomás. 0 reparo da novidade não é crime de que ela tema ser acusada. qui nos in Domino praecesserunt et qui Scripturas Sanctas interpretati sunt. e verdadeiramente com vitória. senão pela maior luz da Igreja. bem advertimos que metíamos as armas nas mãos aos críticos. quod illis latere non potuit [. «Quanto ao que me dizeis—diz S.] tuo tibi sermone respondeo: omnes veteres tractatores.. Si obscura. S. em quantos Evros e tribunais de Gentios e Judeus foi terminada pela glória deste título! Acusação foi de que a defendeu Tertuliano. Jerônimo a S. se por si mesma lhe for devida. Pensão é muito antiga das cousas boas e grandes serem acusadas de novas. e não é. quando o seja. et hac lege post priores nullus loqui audebit. João Crisóstomo. Mas o maior exemplo de todos neste caso é o daquela divina obra de S. como vos atreveis também a declarar o que eles não puderam? Se o que era manifesto. ou interpretaram o que era escuro. Quero pôr aqui as palavras deste grande e santíssimo doutor. contanto que não tenha. que acusações não padeceu antigamente (e padece ainda hoje) dos hereges. Responda-me logo vossa 62 . Até aqui zelosa.. ainda que a novidade da nossa História fora qual se supõe.

senão entre os maiores zeladores e defensores dela. que não há cousa debaixo do Sol que não fosse nova. Mas destes mesmos exemplos se convence claramente quão frívolas são e pouco eficazes as acusações do que se estranha por novo. e aquele que as começou sem autor. a qual hoje é de fé. et obtrectarorum meorum latratibus patens. Jerônimo escreveu em defesa daquela nova versão da Sagrada Escritura. e há menos de dois mil que os deuses que vós adoráveis ainda não tinham cento. inveterescet hoc quoque. por ser mais novo. todos por ignorância. que a queriam fazer não menos que herética. que vivos. e é de fé católica. et quod hodie exemplis tuemur inter exempla erit. nem o Novo perde a perfeição e excelência que tem sobre o Velho. porque ainda não tem quatrocentos anos. Acudia S. e isto S. mas sobre esta lhe argüía Rufino e outros homens doutos tais calúnias. nem se deve perguntar o quando. e tanto que um se adiantar à exposição de algum Livro Sagrado.» Isto dizia Santo Agostinho a S. qui me asserunt in septuaginta interpretum sugillatione. como se só os antigos fossem católicos e a verdade sem cãs não fosse verdade. coeterarum Italiae gentium post latinos. nova fuere: plebei magistratus post patricios. que do trono ou cadeira de Salomão. que hoje . e se a vossa superstição é velha. senão o como se escreveram. e se são claros e manifestos. quae nunc vetustissima creduntur. por ser mais antigo. também se deve entender que vós vos podeis enganar na sua inteligência. tiveram princípio. As trevas foram mais antigas que o Sol e os animais que o homem. é antiqüíssima e mui venerada. escolha parece mais de cela vinária. e diz assim contra Rufino: Periculosum opus certe. ninguém poderá falar depois dos primeiros. E verdadeiramente é assim: quantas cousas são hoje exemplos que começaram sem exemplo? Todas as opiniões ou verdades que se escreveram. E notem os leitores que são estas palavras de uma das apologias que S. lhes granjeia a triste fortuna de serem mais venerados ou melhor conhecidos depois da morte. Assim que os reparos da novidade são pensão (como dizia) das cousas boas e grandes. foi o primeiro que lhes deu a autoridade. tempo houve em que também foi nova. se os Salmos são escuros. Discretamente. que não fosse nova em algum tempo? Diz Salomão que não há cousa nova debaixo do Sol. argumentava Arnóbio contra os Gentios. e ainda é mais universalmente certo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro prudência: com razão. nova pro veteribus cudere. Não tinha esta de S. Jerônimo a S. O Testamento Velho não é mais perfeito que o Novo. e não só entre os inimigos e impugnadores da verdade. e só porque põe os autores delas mais longe dos olhos da inveja. A antigüidade das obras é um acidente extrínseco que nem tira nem acrescenta validade. e ainda os Salmos não estão bastantemente interpretados. muitos por malícia. Jerônimo à queixa da sua nova versão. A mais nova entre todas as do Mundo foi o mesmo Mundo. tempo virá em que seja velha. Dizeis que a religião cristã é nova. Uns o faziam por zelo. para que se veja quais são os juízos dos homens e quão impugnadas que costumam ser as obras de que Deus se quer servir. Jerônimo sobre a novidade de sua versão. e depois dela se escreveram infinitas outras mais novas. outros por inveja. a que dá o crédito e autoridade aos escritores. Agostinho sobre a novidade da sua exposição dos Salmos. 63 . Com a mesma energia disse o imperador Cláudio ao senado: Omnia. porque antepor o velho ao novo só pelos anos. ita ingenium quasi vinum probantes. latini post plebeios. Se a nossa religião é nova. Patres conscripti. que hoje se chama Vulgata. logo nenhum outro terá licença para escrever sobre ele. depois de tantos e tais intérpretes. senão a razão. Que cousa há hoje tão antiga. vos atrevestes na exposição dos Salmos a sentir diversamente do que eles sentiam? Porque. supérflua é e não necessária a vossa interpretação E segundo esta lei. Jerônimo outro reparo mais que a glória de ser sua e nova. Não é o tempo.

non praeripuisse mihi videntur quae dici poterant. Meminisse est rem commissam memoriae custodire. que vem a ser. que será naquele pego imenso e profundíssimo das divinas) Mas ouçamos também aos antigos delas. sed non peregerunt. porque havemos nós de esperar e afrontar tanto a nossa idade e os homens dela. et inventum inventa non obstant. nem a admirável sabedoria e cópia do mesmo Aristóteles pôde apagar os fogosos espíritos de tantos filósofos que depois dele e sobre ele escreveram. alumiados só pelo lume da razão. e só lhes damos licença para decorarem e repetirem o que disseram os passados? Se assim fora. não é. sed aperuisse. aliud scire. E Marco Túlio. que descobrir e saber nelas. na epist. ainda teriam muito que dizer na mesma filosofia moral em que ele tanto e tão sutilmente disse. at contra scire. que cuidemos que já não podem adiantar as ciências nem dizer e acrescentar sobre elas cousa de novo? Sêneca floresceu nos tempos de Nero. escreve ou ensina a Lucilo desta maneira: Multum adhuc restat operis. sendo ambos eminentíssimos nas suas artes não duvidaram confessar que havia ainda muito mais que andar. como dizem os Italianos dos Alemães. grande afronta aos homens e à nossa idade. que muito é que se atreva a dizer alguma cousa nova a nossa idade. ou é porque têm para si que já se não podem dizer cousas novas. como bem disse o mesmo Sêneca. formando um perfeito orador no livro Orator: Nec vero Aristotelem in philosophia deterruit a scribendo amplitudo Platonis. utrum ad consumptam materiam. sed multum interest. dizia confiadamente. mas ainda nos deixam seus grandes talentos em que exercitar os nossos. se bem apontamos os fundamentos destes impugnadores d a novidade e as razões daquela dura lei com que forçosamente querem que sigamos em tudo os antigos e adoremos as suas pisadas. que todos se ocupam na erudição do passado. por boas contas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro E verdadeiramente que. porque havemos de querer abreviar as mãos do Autor dela e cuidarmos que já não podem falar de novo os homens presentes. ou que não há capacidade nos modernos para as poderem descobrir e dizer. debalde nos deu Deus o entendimento. 64 . que inventar. Se o primeiro..] Multum egerunt. grande injúria fazem à verdade e às ciências.. Séneca. em que era ainda maior a soberba e presunção que a ciência. dezesseis séculos antes deste nosso. saber. LXIV. et toties ad magistratum respicere. Estes tais haviam de ter a testa virada para as costas. e estes velhos eram aqueles varões veneráveis da primeira antigüidade — Seth. E se isto é assim nas ciências humanas. qui ante nos fuerunt. e se lhes deve o primeiro louvor. Porque. Enoch. multumque restabit. David que veio ao mundo 3000 anos depois de sua criação. post mille secula. se ainda lhe restam por sua confissão novecentos e oitenta e quatro séculos (se tantos durar o Mundo) para dizer e inventar muito de novo sobre o mesmo Sêneca? Se depois do divino Platão (como pondera Túlio) não acovardaram os seus escritos a Aristóteles para que não escrevesse. Muito alcançaram os Antigos. sendo por comum aprovação do Mundo um dos maiores engenhos que produziu a Grécia e a mesma natureza. nec ab exemplari pendere. pois nos bastava a memória. E se estes. Mas não me ouçam a mim. E começando pelos Gentios. Noe. se o segundo. E na epístola LXXIX:: Et qui praeesserant. praecludetur occasio aliqua adhuc adjiciendi. nec ulli nato. é lembrar-se: Aliud est meminisse. e se ele conheceu que os que nascessem de ali a mil séculos. saber só o que os Antigos souberam. que soubera e entendera mais que todos os velhos: Super senes intelexi. [. nec ipse Aristoteles admirabili quadam scientia et copia caeterorum studia restrinxit Até aqui estes dois gentios. an ad subactam accedas: crescit in dies. ouçam aos mesmos antigos. sem descobrir nem inventar cousa nova. Mathusalem. est et sua facere quemque.

na Apologia acima citada . penetrou tão alta mente o espírito interior da Teologia Mística e Ascética. acrescentando. depois dos Euquérios. Desde a criação do Mundo até a reparação dele. que floresceu muito depois do mesmo Lactancio e a quem prece deram os Hipólitos. os Arnóbios. os Justinos. quam Prophetae in Omnipotentis Dei scientia eruditi sunt: «Ao passo que iam procedendo os tempos —diz S. depois dos outros dois Gregórios. E convertendo-se no fim contra os vituperadores dos inventos novos. os Cirilos. dos Teodoretos. os Teófilos.quae si hominibus aequaliter datur. José. que veio ao Mundo para lhe dar melhor cabeça do que seu juízo e errados juízos merecem. dos Padres e Doutores sagrados. quod possumus. Gregório— ia juntamente crescendo a sabedoria dos antigos Padres. que são o sabor dos entendimentos se contentam os homens com a vulgaridade ou velhice dos manjares usados: Nam cum nova semper expectant voluntates. porque. os Hieroteus. os Apóstolos mais que os profetas». e. depois dos Hesíquios. sendo o apetite ou gula humana tão ambiciosa de novos e esquisitos sabores. o renome de doutor Máximo. depois de um Crisóstomo. que mereceu na eminência delas. os Policarpos. dos Leões. os Profetas mais que Moysés. ilustrando e escrevendo muitas cousas de novo os que vinham depois. Papa: Per incrementa temporum crevit scientia spiritualium Patrum. dos Fulgêncios. dos Máximos. sed post priorum studia in domo Domini. Moyses soube mais das cousas divinas que Abraão. passados os tempos de Cristo e de sua vida. plus Prophetae. no Liv. occupari ab antecedentibus non potest. os Orígenes. Nazianzeno e Niceno. com novos e maiores resplendores. Não é consideração minha. a quem tinham precedido os Dionisios Areopagitas. os Epifânios. conhecendo sempre mais de Deus os segundos que os primeiros. com o qual nenhum outro estado da Igreja se pode comparar). estas palavras: Quid igitur? Damnamus veteres? Minime. Lactancio Firmiano. quam Moyses. laboramus. por consenso e pregão universal da igreja. se experimenta depois na segunda. dos Procópios. só nas ciências. E o mesmo que tinha sucedido naquela primeira e antiga igreja. os Basílios. et gulae earum vicina maria non sufficiant. de que ela tinha sido figura. em que se contaram quatro mil anos. cur in solo studio scripturarum veteri sapore contentis sunt ? São Gregório Magno. as ciências divinas. senão doutrina de S. de um Ambrósio e de um Agostinho. II: Divinarum Institutionum. sempre os homens se foram excedendo na sabedoria divina. que por aplauso comum do Concílio oitavo toletano foi preferido a todos os Doutores na doutrina ética e moral. os Atanásios. Mas nem por isso depois de tantos e tão esclarecidos lumes da Igreja deixaram de espalhar nela. os Ireneus. dos Boécios. estranha muito que. nova e mais perfeita em que hoje estamos. ainda que fossem diminuindo na idade. em que a sabedoria eterna viveu humanada no Mundo entre os homens (que foi um parêntesis excessivo e infinito de luz. o que é mais que tudo. dos Cassiodoros. Jerônimo. contra Rufino. Moisés Josué. dos Crisólogos. com aquele famoso elogio: In ethicis assertionibus praecunctis merito praeferendus. os Tertulianos. novos raios de novas luzes os três ilustríssimos 65 . sempre foram também crescendo. os Ciprianos. Isaac Jacob.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Abraão. os Clementes Alexandrinos. diz assim: Nec qui nos illis temporibus antecessunt. nos séculos que depois foram sucedendo. sobre o que tinham sabido e ensinado os mais antigos. escreve o santo Doutor com a modéstia com que costumam falar os homens maiores. e do mesmo Jerônimo. dos Atanásios. aumentou e adiantou tanto o estudo das divinas letras. os Inácios. Gregório. Melquisedech.depois dos Clímacos. os Taumaturgos. Padre dos primeiros séculos da Igreja. em todos os séculos seguintes. plus namque Moyses quam Abraham. Samuel e tantos outros de igual sabedoria e nome. dos Cassianos. dos Paulinos. S. dos Pascásios. plus A postoli.

diz assim no prólogo de um deles: Non est magnum. si potes. os Eutímios. os Caetanos. os Lugos. os Valenças. um Bernardo. passado o cabo de Boa Esperança. que mais parecem novas que renovadas. dada a bênção a Jacob. se tem confirmado pela grandeza e liberalidade de Deus em todos os séculos. que será na esfera da sabedoria e da verdade. haja mais que dizer. entre os quais Ricardo Vitorino. sed sicut Deus produxit novos fructus ad recreationem hominis exterioris. É porventura o saber e dizer patrimônio só da Antigüidade e morgado como o de Isaac que. cuja imensa e infinita circunferência só a pode abraçar 0 que é imenso e compreender O que é infinito? Se depois dos antiquíssimos tiveram que descobrir os menos antigos. senão fonte de luzes. Mas se Deus para sustento e gosto dos corpos. nome singular. nisi quod ab antiquissimis patribus acceperunt. aliquid addere possumus [. e digo isto por aqueles que nada admitem nem lhes é aceito. e depois de tanto escrito. a tirasse a todos os outros de novos descobrimentos? E se depois deste famoso círculo do Universo. os Rupertos. E porque é matéria impossível e número sem conto. um Alexandre de Ales e o famosíssimo e subtilíssimo Scoto. os Elísios. que foi pelos anos de mil e trezentos a esta parte. que se pode com razão dizer do Mundo o que Deus disse a Abraão do firmamento: Numera stellas. depois de cheios eles. e depois dos que já não eram os primeiros. as cercou de tão luminosas e resplandecentes estrelas. si in uno aliquo.] haec propter illos dicta sunt. ainda ficaram mares e terras incógnitas que prometem novas empresas e novos argonautas. e desde aquele tempo. os Anselmos.. porque não cuidarão que também as ciências podem produzir cousas novas para alimento e recreação das almas?» Não se podia explicar com mais clara comparação nem provar-se com mais eficaz argumento. vel mirum. os Teofilatos. não só luz. senão o que primeiro foi recebido pelos antiquíssimos Padres. como foram um Alberto Magno. e depois de tanto estudado e sabido. os Bedas. os Sofrónios. e muitos outros. ainda depois de tanto dito. qui nihil acceptant. porque não quererão os adoradores ou aduladores da Antigüidade que. porque não só alumiou a Divina Providência pouco depois o Mundo todo com aquelas duas tochas claríssimas e santíssimas de teologia — Santo Tomás e São Boaventura — mas antes e depois deles. mais que estudar e saber? 66 . os Canísios. que em alguma matéria das que escrevemos. com mais repetidos exemplos que nos passados. mais que escrever. os Soutos. os Belarminos. se se pode ainda sobre os Antigos dizer alguma cousa de novo.. produz inacessivelmente todos os anos tantos frutos novos. os Molinas. Digam agora os reprovadores das que eles chamam novidades. fiquem em silêncio (por mais que tão grande brado deram nas escolas) os Vasques. non credunt scientias impertiri ad innovandos sensus hominis interioris: «Não se tenha por cousa grande — diz Ricardo — nem merecedora de admiração. os Toledos. que em outra idade podiam ter nome de primeiros planetas. os Medinas. os Damascenos. não fica outra para Esau? São os antigos como os cântaros da Sareftana (comparação de que usa Ruperto) que. tiveram que inventar mais que os segundos. os Soares. defendendo modestamente alguma novidade que se acharia em seus livros. Eugenio e Ildefonso.Anexo:Imprimir/ História do Futuro espanhóis — Isidoro. e não correu mais o óleo? Houve neste grande oceano de ciências alguma nau Vitória que desse volta a todo o mar? ou algum Gama que. os Vitórias. as quais depois deste doutíssimo século se multiplicaram em tanto número. para aumento ou competência de suas mesmas luzes. parou a fonte milagrosa. em cujos felicíssimos e imensos escritos se vêem tão adiantadas as letras divinas. possamos acrescentar alguma cousa de novo.

sem contradição dos mesmos para quem as faz. ampliorem scilicet rerum notitiam promittens et ipse posteris. O grande P. e col sapere insieme Ne' cuori enflati i suoi veneni sparti. como também predisse outro profeta: . nem grande sem inveja: . que também lhe tinha escrito lastimado da mesma chaga. Marone Et sua riserunt saecula Maeonidem. Não ha cousa boa sem contradição. dicens: Super omnes docentes me intellexi.signum cui contradicetur.. o que ficou aos vindouros para poderem saber e dizer de novo. quando disse: Ecce nova facio omnia.Che come crebber l'arti. dizia que daria de alvíssaras o que sabia. sendo aquele a quem o Baptista não era digno de desatar a correia do sapato.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Como temo que os que condenam as cousas novas. Até aqui São Bernardo. mas querer precisamente que nos atemos em tudo aos passados. se lhe dessem o que ignorava. Si veterem ingrati Pompeii quaerimus umbram Et laudant Catulli vilia templa senes Ennius et lectus salvo tibi. Roma. do que tiveram e alcançaram os Antigos. O covarde temerário ao valente. e cada um condena o que não tem. Sed et propheta Daniel: pertransibunt. A cousa mais nova que Deus fez no Mundo. E esta novidade foi o alvo das maiores contradições. assegura firmemente aos vindouros que poderão ter maiores notícias das cousas. e pode ser que muito remendadas! O avarento chama pródigo ao liberal. porque nem Deus pode fazer cousa de novo. que afirmou que soubera mais que os passados. crueldade que só se lê de Mezêncio. e nenhum careceu de quem lhas impugnasse. escrevendo a Hugo de São Vítor. outro de Daniel. Praeferat antiquos semper ut illa novis.. diziam que era um dos Profetas antigos. porque todos disseram cousas novas. O distraído hipócrita ao modesto. isto é. que tanto tinha em si do que os Antigos souberam. Mas antes de Petrarca o tinha dito em Roma o nosso discreto espanhol: Esse quid hoc dicam. Todos os grandes engenhos tiveram sempre esta queixa. são aquelas que Deus tem prometido que há-de fazer. Crebbe l'invidia. ou adocemos a dureza deste rigor com o melífluo Bernardo. mores. ait plurimi et multiplex erit scientia.. Et sua quod rarus tempora lector amat? Hi sunt invidiae nimirum. sendo ele a luz de todos os Profetas. e o prova e refere em dois textos ou dois exemplos: um de David. por não confessar o que lhe falta. o qual. Fechemos este discurso. é querer atar os vivos aos mortos. foi aquela de que disse o Profeta: Creavit Dominus novum super terram: faemina circumdabit virum. vivis quod fama negatur. que prometeu saberiam mais os futuros: David quoque super doctores suos et seniores donum sibi intelligentiae audacter praesumit. Os que mais queriam louvar a Cristo. Regule. Se acaso houver quem as impugne e contradiga. como sempre falou pela boca da Escritura.. e todos se armaram destas apologias. 67 .e Soares. Todas as cousas novas que se disserem nesta História. e Herodes se persuadia que não podia ser senão o Baptista ressuscitado. são aqueles que não podem dizer senão as muito velhas.

arietem [. ut novam extraneum ingenium. mas para aqueles bárbaros. como isto possa ser. Quando os Romanos a primeira vez bateram os muros de Cartago com o aríete ou carneiro militar. recolhendo todos estes exemplos. cuja foi esta advertência: ... outras a distancia. não há cousa nova. et aries jam romanus in muros quondam suos auderet stupuere illico Carthaginienses. outras a ignorância. porque chegaram mais tarde à nossa terra. as pêras. também recebida em nossos dias. por isso os últimos e mais distantes se chamam novíssimos. não foi criada juntamente com Ásia. e viu tanta cousa nova. illa dicitur Carthago studiis asperrima belli. Tantum aevi longinqua valet mutare vetustas.. Quando Adão saiu flamante das mãos de Deus. senão novas por antiquíssimas. e tais serão as desta História. ainda que não eram novas as quantidades. a quem Cristo abriu os olhos. ele era o novo. com África e com Europa? E contudo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Mas para que não pareça que defendo as cousas novas. mas estas tiveram este nome. mas como havia muitos anos que gozavam da altíssima paz. e todas eram mais antigas que ele. por não ser necessário este escudo à minha História respondendo à objeção da novidade dela. como pouco há dizia Salomão.] cum autem ultimarent tempora patriae. é chamada Mundo Novo. as uvas e também as frotas novas. não tivera ocasião o preceito. não por novo. Porventura aquela metade do Mundo a que chamavam quarta parte. umas cousas faz novas o esquecimento. porque se não 68 . já havia cores e luz. como se vêem cada dia tantas novidades no Mundo? São novidades de cousas não novas. que com tão continuado aplauso do Mundo os fez sólidos e incorruptíveis. digo que em toda essa novidade. nenhuma cousa direi de novo. Nem eram elas as novas. porque se não sabem. porque se não vêem. A novidade da nossa História há-de ser mais dos leitores que dela. velho e muito antigo.] nemini umquam adhuc libratum. com ser tão grande. Nas ciências nascem poucas verdades. e sendo cousa antiga e sua. os figos. A nova opinião dos céus fluidos. mas ainda que esta História seja toda de cousas tão novas. nem por isso ela será nova. De maneira que o aríete. a tinha por novidade. :Ê uma História nova sem nenhuma novidade. que somos os sábios. porque as apalpava. depois de serem velhice no Egito. foram novidade em Roma. Muitas novidades se verão nesta nossa História não novas por novas. senão por esquecido. Ao terceiro dia da criação produziu a terra todas as árvores carregadas dos seus frutos. porque a América esteve tanto tempo oculta. nem tentação o pecado. senão por muito antigo. e uma perpétua novidade sem nenhuma cousa de novo.. As pirâmides e obeliscos que assombraram com tão nova e desusada grandeza o foro romano (com boa vénia dos Padres Conscritos). parecia instrumento novo aos mesmos Cartagineses. primeiro foi que a antiga de Aristóteles. ficaram os Cartagineses assombrados com a novidade daquela máquina. porque os primeiros inventores daquele bravo instrumento tinham sido os mesmos Cartagineses. Propriedade é dos futuros serem sempre novos todos. esquecia-se Cartago do que inventara Cartago. prima omnium armasse in oscillum penduli impetus [. Para aquele cego de seu nascimento. senão esquecimento. não por novo. Todos os frutos nasceram igualmente naquele dia. Se não fora assim. porque se não lembram. novo para nós. explicarei por alguns exemplos.. mas não havia olhos. Se no Mundo. porque as não via. abriu os olhos. foram novas as cores. as mais delas ressuscitam.. e não era novidade. de que Cartago tinha sido a primeira inventora. outras a escuridade. Quero dizê-lo com palavras do grande Tertuliano. Serão novas neste nosso livro cousas que foram primeiro que as que hoje se têm por antigas. Assim que.

assim no certo como no provável. De Deus. casa nova. outros pelo que são. folgara eu que se pudera dizer dele com Vincêncio Lirinense: Per te posteritas gratulatur intellectum. A verdade e as ciências.. como dizíamos. nisi maluisset meritorum ordinem servare. tiram do seu tesouro as cousas novas e mais as velhas. e de todas estas novidades sem novidade.] profert de thesauro suo nova et vetera: «Os doutos quando escrevem. não é só obséquio e piedade. mas este louvor.germana divinitas nec de novitate nec de vetustate. não é elogio da antigüidade... senão obrigação e respeito). digo com indiferença o que ensinou Cristo: . em que não tem jurisdição o tempo. no vinho madureza. Todos dizem que os Antigos merecem maior louvor. porque as velhas são alheias. mas verdadeiro: . nem se repare se é novo. E quanto ao louvor que renunciamos facilmente. nem se atenda se é velho. e é assim. Merecem maior louvor os Antigos. mas só se considere se é ou pode ser verdade: Nec de novitate nec de vetustate. senão as novas e as velhas. impropriamente se chamam novas ou velhas. Se fora outro o autor desta História. quad ante vetustas non intellectum venerabutur. para alumiar e penetrar com sua luz. ainda que o merecêramos. e segui-los como havemos de seguir em tudo. E como a verdade da nossa História toda (como vimos) tenha o seu princípio em Deus. História do Futuro (Volume I. no amigo constância. uns se conservam pelo que foram. Saber as velhas e inventar as novas. Mais defendida está Roma com os muros de Urbano. quam temporum. alumiaremos muitas escuras. contudo. as novas do merecimento. senão da novidade. sed de sua veritate censetur. melhores são as novas. vestido novo. posto que nem sempre se conhecem igualmente. amigo velho. pedimos aos que a lerem que. disse Tertuliano judiciosamente que nem é velho nem novo. que com os de Beluário. porque as avaliou a suma justiça pelo merecimento e não pelo tempo: Non dixit vetera et nova. porque foram os primeiros inventores das cousas. absolutamente nas cousas que se consomem com o tempo. em uns se admira a antigüidade. logo da novidade é o louvor. descobriremos muitas ocultas. o escuro das profecias.. quod utique dixisset. certamente entre umas e outras não se pode dar regra certa. porque em tudo o que escreveram foram alumiados pelo Espírito Santo. porque se não buscam. Lembraremos nela muitas cousas esquecidas. no navio e na casa perigo. Mas notou Santo Agostinho que não disse Cristo as velhas e as novas.scriba doctus [. se bem se considera. A velhice no ouro é preço. isto parece que é ser douto. pois o mereceram. as novas nossas. depois dos Apóstolos (os quais não entram nesta controvérsia. dando o primeiro lugar às novas. porque sempre são. quando as descobriram de novo. no vestido pobreza. vinho velho. haverá muito nesta nossa História. O tempo umas cousas melhora e outras corrompe: ouro velho. E por não deixarmos sem juízo a controvérsia disputada entre as cousas novas e as velhas. como Padres e lumes da Igreja. As cousas velhas são do tempo.. sed de sua veritate censeatur. e posto que o nosso desejo fora levar sempre diante dos olhos esta segunda tocha. sempre foram e sempre hão-de ser as mesmas. que por essência é sabedoria e verdade. porque não é nem será possível seguir em algumas cousas das que dizemos ou . em outros se logra a fortaleza. poremos à vista muitas distantes e procuraremos saber muitas ignoradas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro alcançam. navio novo.. outras a negligência. Capítulo XII: Dá-se a razão por que em algumas partes desta História se não alegaram padres e seguiram exposições dos escritores modernos) por Padre Antônio Vieira 69 Ainda que o nosso intento é seguir em quanto nos for possível as pisadas dos antigos Padres.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro dissemos este nosso intento e desejo, pede a razão e ordem da mesma Escritura que, antes de passar mais adiante, desfaçamos este reparo, para o que os menos doutos ou mais escrupulosos não topem nele e levem desde logo entendidas as causas do que fizermos e os fundamentos, licença ou autoridade com que o fazemos. Ver-se-á em algumas partes desta História, que ou não alegamos Padres antigos, ou nos desviamos da explicação que deram a alguns lugares da Escritura, o que não fazemos senão com grandes razões, sem ofensa da reverência que lhes devemos nem da verdade que seguimos, antes para maior segurança e fundamento dela, a qual é o nosso intento e obrigação buscar e descobrir adonde quer que se ache, antepondo este respeito a qualquer outro, pois à verdade se deve o maior de todos. As razões que nos movem e obrigam são três: a primeira, porque os Doutores antigos não disseram tudo; segunda, porque não acertaram em tudo; terceira, porque não concordam em tudo. E com qualquer destes casos nos pode ser. não só lícito e conveniente, senão ainda necessário seguir o que se julgar por mais verdadeiro; porque nas cousas que não disseram, é forçoso falar sem eles; nas cousas em que não acertaram, é obrigação apartar deles; e nas cousas em que não concordaram, é livre seguir a qualquer deles; e também será livre e lícito deixar a todos, se assim parecer, como logo explicaremos.

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Prova-se a primeira razão
Primeiramente é certo que os Padres antigos não disseram tudo, e se prova claramente com a experiência e lição de seus próprios livros, nos quais se não acha memória de muitas cousas grandes e doutas, achadas e acrescentadas depois, não só nas outras ciências divinas, mas na inteligência das mesmas Escrituras Sagradas, e particularmente nas dos profetas, que nos tempos mais chegados a nós se descobriram, disputaram e entenderam como se lêem nos escritores modernos; e posto que para os 5 versados na lição de uns e outros bastava esta suposição somente apontada, porei aqui para os demais as palavras de dois grandes doutores, Castro e Canísio, ambos do século antecedente a este nosso, e ambos diligentíssimos investigadores da antigüidade e doutíssimos na erudição da Escritura, Concílios e Padres, os quais expressamente afirmam que muitas cousas se sabem e entendem hoje que foram ignoradas dos Padres antigos, como fala Castro ou incógnitas a eles, como mais certamente diz Canisio. As palavras deste segundo, no livro primeiro De Beata Virgine, cap. VII, são as seguintes: Demum habuerint Patres suorum temporum rationem quibus multa vel prorsus incognita erant, vel obscura neque satis evoluta, quae posteris diligentius excutienda, et clarius illustranda, explicandaque non sine certo Dei consilio reliquebantur... E Castro, no Liv. I Adversus haereses, cap. II, depois de provar o mesmo com o lugar do cap. VI dos Cantares, que abaixo citaremos, conclui assim: Quo sit, ut multa nunc sciamus, qae, a primis Patribus aut dubitata, aut prorsus ignorata fsuerunt. A qual diferença se não conheceu só com a comprida experiência dos nossos tempos, senão já nos mesmos Padres se conhecia, como muitos deles escreveram, e particularmente entre os da primeira idade, Tertuliano, e entre os da última Ricardo Vitorino, cujas palavras de ambos referiremos neste mesmo capítulo. A razão de muitas cousas que hoje se sabem serem incógnitas aos Padres antigos, se pode considerar, ou da parte de Deus, ou da parte das mesmas cousas. Da parte das mesmas cousas, nos não devemos admirar que lhes fossem incógnitas, por serem muitas delas dificultosas, escuras e mui recônditas nas Escrituras Sagradas e enigmas dos profetas, as quais se não podiam entender e penetrar só com a agudeza dos entendimentos, por sublimes e sublimíssimos que fossem, em quanto não estavam assistidos de outras notícias

Anexo:Imprimir/ História do Futuro e circunstancias, que só se descobrem com o tempo e adquirem com larga experiência. Excelente exemplo é nesta matéria o das ciências é artes, ainda naturais, as quais em seus princípios e rudimentos foram imperfeitas, e com os anos, experiência e exercício se vêem hoje sublimadas a tão eminente perfeição, como a náutica, a bélica, a música a arquitetura, a geografia, a hidrografia e todas ás outras matemáticas, e muito em particular a cronologia, de que neste mesmo capítulo falaremos. E assim como estas mesmas ciências e artes cresceram e se apuraram muito com o socorro e aparelho de esquisitos instrumentos, que nelas se inventaram, como foi na náutica o astrolábio, a agulha e o admirável segredo da pedra de cevar. e na bélica o terribilíssimo e subtilíssimo invento da pólvora, que deu alma e ser a tantos e tão notáveis instrumentos de guerra, assim também puderam crescer e aumentar-se muito as ciências divinas e chegar à perfeição e eminência em que hoje se vêem com os instrumentos próprios delas, que é a multidão de livros espalhados e facilitados por todo o Mundo pelo beneficio da impressão, com que a doutrina e ciência particular dos homens insignes se faz comum a todos em tão distantes lugares, não sendo menor a comodidade dos mestres, que são instrumentos vivos das ciências, no concurso de tantas e tão diversas universidades, teatros e oficinas públicas de toda a sabedoria; comodidade de que no tempo dos Padres se carecia, sendo necessário ao Doutor Máximo, São Jerônimo, como ele mesmo escreve, copiar com imenso trabalho os livros por sua própria mão e peregrinar à Grécia à Palestina, ao Egipto e às Gálias para recolher os escritos de S. Hilário, ouvir a S. Gregório Nazianzeno, a Dídimo e aos mestres mais peritos na língua hebraica; inconvenientes que só podia vencer e contrastar um tão alentado espírito e zelo de servir à Igreja, como do grande Jerônimo, digno tanto de imortal louvor pela eminência de sua sabedoria, como pelos gloriosos trabalhos e suores com que a adquiriu e conquistou. Da parte dos mesmos Padres se deve igualmente considerar, que deixaram de especular e dizer muitas cousas de grande importância que depois se souberam e escreveram, porque se acomodaram à necessidade dos tempos em que viviam. Todo o intento dos Padres antigos era provar a verdade da encarnação do Filho de Deus e o mistério de sua cruz, a qual na cegueira dos Judeus (como diz S. Paulo) se reputava por escândalo e na ignorância dos Gentios por estultícia. E como esta era a guerra e a conquista daqueles tempos, todas armas da Sagrada Escritura se forjavam e acostavam contra esta resistência, e por isso os primeiros Padres e seus sucessores nenhuma cousa buscavam nos Livros Sagrados, não só proféticos, senão ainda nos históricos, mais que os mistérios de Cristo. É bom testemunho desta verdade o que diz Ruperto a Tristérico, arcebispo coloniense, do prólogo dos seus Comentários sobre os Profetas menores: Scito me Pater mi sicut in caeteris Scripturis, ita et in volumine duodecim Prophetarum operam dedisse, ad quaerendum Christum. E como isto é o que só buscavam para escrever, isto é o que só achavam ou o que só escreviam, seguindo os sentidos alegóricos e místicos e deixando ou insistindo menos nos literais, como se vê ordinariamente em todas as exposições dos Padres, que todas se empregam na alegoria, tocando muitas vezes só leve e superficialmente a letra, e talvez não sem alguma impropriedade e violência. Assim o notaram entre os mesmos Padres alguns mais modernos que antigos e outros menos antigos que antiqüíssimos: dos primeiros, é Ricardo de São Vitor, contemporâneo de S. Bernardo, no Prólogo sobre o Profeta Ezequiel, onde confessa que se aparta de São Gregório, por se não chegar ao sentido literal do texto; dos segundos, é o mesmo São Gregório, Padre do sexto século depois de Cristo, no Proémio sobre o Livro dos Reis, onde diz que lhe foi necessário em algumas partes não seguir os Padres mais antigos, por não

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro faltar ao fio conseqüência e verdadeira interpretação da história. As palavras de São Gregório não refiro aqui, porque terão seu lugar mais abaixo; as de Ricardo depois de referir com os antigos Padres ocupavam seu estudo principal na alegoria, são estas: Hinc contigisse arbitror, ut litterae expositionem is obscuriobus quibusdam locis antiqui Patres tacile praeterirent, vel paulo negligentius tracterent, qui si plenius insistirent, multo perfectius procul dubio quam aliqui ex modernis, id potuissent. Quer dizer que os Padres antigos, por aplicarem toda a sua industria e engenho no sentido alegórico das Escrituras, ou passaram totalmente em silêncio, ou trataram menos diligentemente alguns lugares mais escuros delas, sendo certo, segundo eram dotados de altíssimos engenhos e enriquecidos de muita ciência e erudição, que, se insistissem no sentido genuíno e literal do texto, o poderiam conseguir mais perfeitamente que qualquer dos modernos. De maneira que, segundo a verdade desta advertência, vem a ser a diferença entre os Padres antigos e os comentadores modernos das Escrituras, a mesma que houve naqueles dois homens do Evangelho, ambos ricos e venturosos: um que achou o tesouro e deu quanto tinha por comprar o campo em que ele estava; outro que, buscando so margaritas e achando uma preciosíssima, empregou também nela quanto tinha. Os Padres antigos, que buscavam só nas Escrituras a Cristo e nesta preciosíssima margarita empregavam todo o cabedal do seu estudo, os modernos, que se não determinam no tesouro das Escrituras a um só gênero de riquezas, acham, além da mesma margarita, muitas outras pedras também preciosas, e tiram daquele tesouro (como dizia Cristo) nova et vetera, riquezas novas e velhas: as velhas, que são as notícias das verdades já passadas; as novas, que são o conhecimento das outras futuras. Finalmente se deve considerar este silêncio das cousas que não disseram os Padres, da parte de Deus, o qual com particular providência não quis que eles por então as soubessem e escrevessem, para que a Igreja, nossa mãe, se parecesse com seu Esposo, e, conforme os anos e idade, fosse também crescendo em luz e sabedoria. Assim o notou, além de muitos outros teólogos, o mesmo Canísio, continuando o lugar acima citado: Quae posteris diligentius excutienda et clarius illustranda explicandaque, non sine certo Dei consilio relinquebantur non vero homini tantum, sed etiam Ecclesiae Christi tempus auget sapientiam, et Spiritus Sanctus aliam atque aliam doctrinae lucem patefacit No cap. VI dos Cantares, onde o Esposo é Cristo e a esposa a Igreja estão profetizados os progressos que ala havia de ter, e se comparam com extremada propriedade à luz da aurora: Quae est ista , quae progreditur, quasi aurora consurgens? Porque assim como a aurora nasce das trevas da noite e começa na primeira luz, e nela vai sempre crescendo de menor para maior claridade assim a Igreja, nascida nas trevas da ignorância e infidelidade começou em menos luz de sabedoria e vai sempre crescendo e aumentando-se mais e mais de resplendor, de claridade, que são os termos que usa S. Paulo na Segunda epístola aos Coríntios:Nos vero omnes, revelata facie, gloriam Domini speculantes, in eamdem imaginem transformamur a claritate in claritatem. Fala o Apóstolo do véu da infidelidade com que os Judeus têm cobertos os olhos para não ver a Cristo, e diz que se compõe a Igreja, tirado pela Fé aquele véu, com os olhos abertos e desempedidos por meio da própria especulação e estudo, imos crescendo de claridade em claridade, não já passando das trevas à luz, senão de uma luz para outra, sempre maior e mais clara, transformando-se por este modo a Igreja na imagem do seu mesmo Esposo, Cristo. Porque, assim como Cristo, posto que sua sabedoria foi sempre igual e a mesma (em quanto Deus infinita e em quanto

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sapientia — disse doutamente Vincencio Lirinense. não só alumia a Igreja 73 . crescendo sempre nela ao passo que ia crescendo nos anos. senão os que hoje e nos tempos mais chegados a nós se chamam modernos Porque assim como nos anos de Cristo houve infância. et multum vehementerque proficiat.. que são os membros de que o seu corpo e os raios de que a sua luz se compõe. do que tinha sido nos menores. o qual. da puerícia e da adolescência da Igreja foram os modernos e da ciência moderna. Dizem que Cristo é o sol da Igreja e aquela primeira verdadeira luz: quae illuminat omnem hominem venientem in hunc mundum. própria e rigorosamente falando. que não fosse mais sábia a Igreja nos maiores anos. alumia e quenta mais aos que lhe ficam mais vizinhos e menos aos que estão mais remotos e mais distantes. como expressamente disse São Paulo. a ciência e a sabedoria pelos mesmos graus do tempo com que vão passando os anos. Donde segue que os Doutores da infância. De sorte que vai crescendo a inteligência. porque a Igreja não se compõe das paredes mortas. transformando-se na sua imagem e retratando-se nele e por ele. tam singulorum quam omium. por segundo mestre de sua escola. com que o corpo místico dela vai crescendo e aumentando-se sempre mais. falando dos mesmos Doutores:. contudo. que é o corpo místico do mesmo Cristo. nem foi crescendo dos nossos anos para os primeiros. não são os passados. igualmente Deus como ele. a não mostrou toda junta. os séculos e a idade. E seria não só contra a ordem da natureza. tam unius hominis quam totius Ecclessiae. nos atos exteriores e manifestação dela ao Mundo. porque ainda Cristo corporalmente se apartou dos homens. in virum perfectum in mensuram aetatis plenitudinis Christi. com a mesma e não diferente luz. assim nos anos e duração da Igreja há a mesma distinção e sucessão de idades. bem assim como a luz do Sol material.alios autem pastores et doctores. aetatum ac saecolorum gradibus intelligentia. in aedificationem corporis Christi donec occurramus omnes in unitatem fidei et agnitionis Filii Dei. à medida que cresce nos anos e na idade: Crescat igitur oportet. vai sempre crescendo mais e mais na luz e na sabedoria. e qualquer outra. senão contra a decência da mesma idade. até chegar a encher a perfeição ou medida da mesma idade de Cristo. tanto os raios da sua luz são mais tênues. como diz o evangelista São Lucas: Proficiebat sapientia et aetate. nem aqueles que vulgarmente são chamados os antigos. Donde se deve reparar e advertir (cousa que devera já estar mui notada e advertida) que os Doutores antigos e mais velhos. Mas a aparência desta razão é tão falsa como todas as de seus autores. Dizem contra isto os hereges (como notou Banhes) que a Igreja não está hoje mais alumiada. scientia. senão os presentes. e da ciência mais antiga. senão dos primeiros para os nossos. Também deixou em seu lugar. e depois idade perfeita. mais escassos e menos intensos. e do mesmo Sol tiram o argumento desta cegueira. senão que a foi dispensando por partes. e que.Anexo:Imprimir/ História do Futuro homem consumadíssima). senão cada vez menos. quanto mais se vão apartando os nossos tempos do tempo em que Cristo viveu entre os homens. senão nos homens e doutores particulares. e isto não só na Igreja universal e em comum. ad consummationem sanctorum in opus ministerii. puerícia e adolescência. e os Doutores da idade maior e mais provecta da Igreja são os mais velhos e mais antigos. como prometeu a todos os verdadeiros discipulos de sua doutrina quando lhes disse: Ecce ego vobiscum sum usque ad consummationem saeculi. assim a Igreja. espiritualmente e por particular e invisível assistência sempre ficou com eles e os assistirá (dentro porém da sua Igreja) ate o fim do Mundo. argumento desta sua cegueira. ao Espírito Santo. senão dos membros vivos.

a que o mesmo Cristo comparou sua doutrina. vivae.quod ad meliora proficitur. ab illo Vicario Domini Spiritu Sancto [. com que se faz mais largo. Qui credit in me sicut dicit Scriptura. quod intellectus reformatur.] Haec lege fidei manente. 74 . quanto mais distante.. et ad perfectum produceretur disciplina. et adjiciente quotidie ad iniquitatis ingenia.. que o Espírito lhas ensinaria: Adhuc multa habeo vobis dicere: sed non potestis portare modo. Cum autem venerit ille Spiritus veritatis. porque isso em suma tudo o que até agora temos dito. ensinando e declarando aquelas ocultas e altíssimas verdades.] Quae est ergo Paracleti administratio nisi haec quod disciplina dirigitur. quem accepturi erant credentes in eum. etc Se o Demônio sempre obra e não desiste de acrescentar cada dia novos erros e novos enganos com que impugnar. são em suma tudo o que até agora temos dito. cum propterea Paracletum miserit Dominus. (como imprudentemente fazem ainda em lugares igualmente claros de outras Escritas) fugindo para os tempos antigos. flumina de ventre ejus fluent aquae. é o bem que tira de tão grande mal aquela sapientíssima Providência. quando disse: Si quis sitit. em que sempre mais vai crescendo a Igreja com os anos. e novas: trevas com que diminuir e escurecer a luz da. sola immobilis et irreformabilis [. de que o nosso século tem sido mais fecundo e abundante que todos até hoje. quod Scripturar revelantur. aut proficere destiterit.. mais se vai enfraquecendo e diminuindo.. veniat ad me et bibat.. que por menos capacidade dos discípulos deixou Cristo de lhas dizer. paulatim dirigeretur. porque vai recebendo novas correntes e novas águas. docebit vos omnem veritatem. operante scilicet et proficiente usque in finem gratia Dei. Assim que os que quiserem reconhecer os aumentos da sabedoria. (para: que o Judeu não duvide da assistência do Espírito Santo à Igreja e cabeça dela). como havia o Espírito Santo de cessar em acrescentar sempre nela novas:luzes contra essas trevas. como doutamente disse Santo Agostinho. mas. A luz que sai do Sol. em que eles confessam que a Igreja esteve verdadeiramente alumiada. ut quoniam humana mediocritas omnia semel capere non poterat.Anexo:Imprimir/ História do Futuro com os mesmos resplendores da verdade.? Não me detenho em romancear as palavras. não devem tomar à semelhança do Sol` e da luz. tanto mais se engrossa. ouçam ao antiquíssimo Tertuliano: Regula quidem fidei una omnino est. quando por si mesmo os ensinava. entrando sempre nela as puríssimas correntes da doutrina de tantos Doutores católicos e sapientíssimos. Tal é a sabedoria da Igreja. caetera iam disciplinae et conversationis admittunt novitatem correctionis. verdade e resplendor da Igreja. mais caudaloso. que cada dia a aumentam com novos e tão excelentes escritos em uma e outra teologia. segundo a disposição de sua providência. Quale est enim ut diabolo semper operante et adjiciente quotidie ad iniquitatis ingenia opus Dei aut cessaverit. os vai descobrindo maiores a seu tempo. novas verdades contra esses erros. dizendo-lhes porém. que. quanto mais caminha e mais se aparta de seu princípio. teve por maior glória de sua grandeza fazer dos males bens. et ordinaretur. senão a da fonte e do no. por isso disse São Paulo: Oportet haereses esse. e esse . nova claridade contra esses enganos e novas vitórias contra esse inimigo e seus sequazes? Em sua mesma cegueira tem o herege a prova da maior luz da Igreja. E porque a perfídia herética se nos não queira acolher por pés. que não permitir os males. Hoc autem dixit de spiritu. mais profundo. mas o rio que nasce da fonte. só peço se pondere aquela nova e bem achada razão de Tertuliano: Quale est enim ut diabolo semper operante.

deficiuntque interdum ac monstrum quandoque . e pela aplicação dos Padres. quod quidam quasi ob reverentiam Patrum nollunt ab illis omissa attentare. 75 Segunda Razão Discorre-se sobre as cousas que no tempo dos padres houve para alguns lugares dos Profetas não poderem ser entendidos inteiramente. diz assim: Auctores canonici ut superni. quando voltaram as costas e apartaram os olhos do que em seu pai. X de Ester: Parvus fons. divini. no Aparato Sacro. se se compararem com a imensidade de suas águas) para maior vigilância e segurança dos que as navegam. mas por zelo da verdade. necessidade de doutrina e cautela dos mesmos doutos que lessem as suas obras. hujusmodi velamen habentes. bem assim como os que pintam cartas de marear sinalam no vastíssimo e profundíssimo Oceano os baixos (poucos e raríssimos. rio daquela mesma fonte e luz daquele mesmo Sol que é Cristo. não é muito que nestas que eles não disseram. Nem isto se nos deve imputar a menos veneração dos mesmos Padres doutíssimos e santíssimos. Não negamos. por esta providência particular de Deus e pela dificuldade e escuridade de muitos lugares da Escritura. et in aquas plurimas redundavit. e outros. falemos e hajamos de falar sem eles. em muitos lugares de seus Anais. por sua sabedoria e santidade. e posto que pudéramos provar a verdade deste fundamento com a demonstração das cousas em que não acertaram. Sem e Jafet. que houve muitos autores católicos e pios. suae. Ferdinando Vellocillo. sempre mais vestida de resplendores. a confirmação de outras verdades e a resistência de outras batalhas próprias daqueles tempos. e as águas' os resplendores das luzes naquela milagrosa metamorfose que se conta no cap. os quais eles escreveram não por menos reverência que tivessem aos antigos Padres. Noé. Este último no Liv. sed qui habitat in coelis. VII cap. contudo. nas AdverteAncias Teológicas sobre cinco Padres da Igreja. Afonso de Castro. Adversus haeereses. sol com propriedade de fonte. a Igreja luz com propriedade de rio. dizíamos que os Padres não acertaram em tudo. et aliorum industriam in veritatis investigatione et inventione derident. subsanant et exsufftant. Cristo. e igualmente merecedores da eterna veneração. e outros legítimos herdeiros do ímpio e irreverente Cam. nós também lançaremos a capa sobre esta matéria. reliqui vero scriptores sancti inferiores et humani sunt. deixando tão indigno assunto a Lutero. conservando juntamente as luzes e claridades das águas. Antônio Possevino. et in lucem solemque conversus est. antes é vício da ociosidade que virtude da reverência. otio torpent. nec videantur aliquid ultra maiores praesumere. Calvino. lembrados porém da reverência que os filhos devem aos pais e da bênção que mereceram aqueles dois honrados filhos. De Locis Theologicis. Sed inertiae. qui crevit in fluvium. em cujos livros se podem ver por junto estes exemplos. Melchior Cano. o Cardeal César Barónio. e advirtam que tamb5ém é um dos Padres o que isto disse. irridebit eos et Dominus subsanabit eos. bispo de Luca. deixaram de escrever algumas cousas com que a Igreja depois se foi alumiando e ilustrando. podia ser menos decente. Leiam e temam esta sentença os que culpam os que não querem ser culpados nela. porque não querer descobrir nem saber o que eles não disseram. stabilem perpetuamque constantiam servant. Escreveram neste gênero doutissimamente Sixto Senense em todo o V e VI livro de sua Biblioteca Santa. Em segundo lugar. Bèze e Wiclef. caelestes. e por isso sempre mais alumiada. E como. III.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A sabedoria da Igreja no alumiar é luz e no correr é rio. como bem conclui o mesmo Ricardo Vitorino acima alegado: Sed nec illud tacite praetereo.

escrevendo a Fortunaciano desta maneira: Neque enim quorumlibet disputationes quam vis catholicorum et laudutorum hominum. quando acharmos por outra via a verdade. tenho colhido. aliter reliquos tratores: illos semper vera dicere: istos in quibusdam ut homines aberrare>> «So os Apóstolos. é argumento só de que foram homens. vel invidendo melioribus. II De Batismo. acertar em tudo. se em alguma cousa desacertaram. os outros homens. cap. quando eles escreveram. seguindo Santo Agostinho. Mas para que se veja a ocasião ou ocasiões que tiveram para não acertar com a verdadeira inteligência de algumas escrituras. Este é o modo (diz Santo Agostinho) com que eu leio os escritos dos outros e com que quero que sejam 1idos os meus. e sem menos 76 . em que não acabei de cair de todo. de tal sorte que nos não seja lícito (salva a reverência de suas pessoas). divino adjutorio vel ab aliis intellecta. contra os erros de S. na epístola III. mais digno de veneração por aquela obra que por todas as outras suas o qual prosseguindo a mesma sentença de Santo Agostinho no liv. Jerônimo. E ponho aqui (tanto de melhor vontade) esta minha advertência. institutumque naturae. como homens eram e podem errar:>> _ diz o Doutor Máximo. atque respuere (si forte invenerimus. ut nobis non liceat (salva honorificentia. diabolica praesumptio est.Anexo:Imprimir/ História do Futuro pariunt propter convenientem ordinem. assim dos escritos alheios como dos próprios. vel a nobis). e querer defender seu parecer até romper a caridade e união da Igreja. usque ad prescidendae communionis et condendi schismatis vel haeresis sacrilegium pervenire. e como os Santos Padres fossem obedientíssimos filhos da Igreja Católica. em que. reprovar e não seguir algumas cousas das que disseram. a cujo supremo juízo sujeitaram sempre todos os seus escritos. quão verdadeiramente eram santos. que é o fim para que isto supomos. talis ego sum in scriptis aliorunt. doutrina. quanto dela se pode colher facilmente. quae illis debetur) aliquid in eorum scriptis improbare. direi agora o que da ponderação das mesmas escrituras proféticas e das exposições dos Padres sobre elas. e não eram anjos. In nullo autem aliter sapere. quod aliter senserint quam veritas habet. velut scripturas canonicas laudare debemus. Mas entre estes exemplos naturais da fragilidade humana. Jerônimo — Santo Agostinho. cerrar em alguma cousa é fraqueza de homens. bem se segue que nenhum homem se pode livrar desta pensão da humanidade. como alumiados por Deus. ou melhor entendida por outros. confessando com alta humildade e modéstia que podiam errar como os homens. cujas palavras na Epístola a Teófilo. disseram a verdade em tudo. E se o fundamento dos erros humanos é o efeito natural de serem os homens homens. ou também por nos. quam res se habet. De maneira que. e por isso mesmo sapientíssimos Porem aqui as palavras de dois maiores Doutores.:» O mesmo sentia S. Exemplo seja o prodigioso livro Das Retratações de Santo Agostinho. podemos ler em prova deles outros dos mesmos Padres. João Hierosolimitano são estas: Scio me aliter habere Apostolos. como dissemos ou supomos. unde aliquid aliter sapere. tales volo esse intellectores meorum: «As ciências e regulações dos autores. posto que sejam católicos. por douto e sapientíssmo que seja. é perfeição de anjo. que eram comuns e recebidas entre os doutos. nos ensinam no conhecimento que tinham de si e nós devemos ter de nós. contra os Donatistas. angelica perfectio est. mui louvados e estimados por sua ciência e. quam se res habet. um de teologia escolástica e outro` da positiva — Santo Agostinho e S. humana tentatio est. é presunção de demônios». senão depois de muitos anos de estudo e lição dos mesmos Padres.: nimis autem amando sententiam suam. V diz assim com admirável piedade e juízo: Homines enim sumus. não as devemos ler como escrituras canônicas. principalmente as dos Profetas. e das opiniões.

e hoje depois delas nos parecem ridículas.quae non ab hominibus. Hanc igitur Coeli rotunditatem illud sequebatur. Descreve Lactâncio Firmiano que era um dos Padres. negando geralmente a opinião. e muito 77 . que foi de muitos filósofos antigos se tinha entre os Padres por verdade muito certa e averiguada.] Quae igitur illos ad antipodas ratio perduxit? Videbant siderum cursus in occasum meantium. quod rotundo conclusum teneretur. que então (antes da experiência) tinham nome de razões. do que nós hoje nos podemos rir dele. Hujus quoque erroris aperienda nobis origo est [. cum occiderirint. fumus. e a errada opinião. Solem atque Lunam in aemdem partem semper occidere. et agros et maria. constanter in stultitia perseverant. atque oriri semper ab eadem. discorre assim: Quid illi. existimaverunt rotundum esse Mundum sicut pilam: et ex motu siderum opinati sunt coelum volvi. necesse esse.Anexo:Imprimir/ História do Futuro louvor de sua grandeza e sabedoria. ut nulla sit pars Terrae. qui cum semel aberraverint. Si autem rotunda etiam Terra esset. a medio deferantur ut coelum petant. qui esse contrarios vestigiis nostris antipodas putant? Num aliquid loquuntur? Aut est quisquam tam ineptus. ut pondera in medium ferantur. nisi quod eos interdum puto. et ad medium connexa sint omnia sicut radios videmus in rota. e muito douto daquele tempo e zombando elegantissimamente dos que tinham a opinião contrária. et grandinem sursum versus ca dere in terram? Et miratur aliquis in hortos pensiles ~nter seplem mira narrari. volubilitate ipsa Mundi ad ortum referri. aut prudentes et scios mendacia defendenda suscipere. Quid dicam de iis? Nescio. maria consternat. não eram entre todos as mesmas razões filosóficas. id est. quod si ita esset. em aquelas suposições. eram não só desertas. Solemque. aut joci causa philosophari. que para os que bem o entendem sei de certo não será larga. Sic astra. era a falta que então havia no Mundo da verdadeira e exata cosmografia. senão ainda inabitáveis Este sentimento. ut Terra in medio sinu ejus esset inclusa. . coelum autem ipsum in ornnes partes putarent esse devexum. ou de que as partes opostas às que naquele tempo se conheciam. nec quomodo ab occasu ad Orientem remearent. quão impossível cousa lhes era acertarem naquele tempo. et urbes. etiam ipsam terram globo similem. com o verdadeiro entendimento de alguns lugares dos Profetas que eles interpretaram em alheio e diferente sentido A primeira ocasião que os Padres tiveram para não poderem entender em seu tempo o sentido literal e histórico daqueles textos proféticos. et vana vanis defendunt. não se rindo menos dos que naquele tempo tinham esta opinião. quomodo ergo non cadunt omnia in inferiorem illam cueli partem.quasi ut ingenia sua in malis rebus exerceant vel ostentent. ou fama de haver os que então já se chamavam antípodas Posto que os princípios por que os Padres os negavam. ut nebula. Cum autem non prospicerent quce machinatio cursus eorum temperaret. itaque et aereos orbes fabricati sunt quasi ad figuram Mundi. neque enim fieri posset ut non esset rotundum. cum philosophi. quae astra esse dicerent. Por isso não duvidei de copiar esta página de latim. campos tendat. quod sic videri propler immensam latitudnem necesse est. ignis. et montes pensiles faciant. Quod si quaeras ab is. Até aqui Lactancio. ou de que o globo da Terra não era perfeitamente esférico. montes erigat. ut in omnes Coeli partes eamdem faciem gerat. caeterisque animulibus incolatur: sic pendulos istos antipodas Coeli rotunditas adinvenit. qui haec portenta defendunt. eosque caelarunt portentosis quibusdam simulacris. quae autem levia sunt. em que alguns se afundavam. Pluvias et nives. hanc respondent rerum esse naturam. por sua matéria e elegância. etiam sequebatur illud extremum. Quod si esset. qui credut esse homines quorum vestigia sint superiora quam capita? Aut ibi quae apud nos jacent inversa pendere? Fruges et arbores deorsum versas crescere.

e feita redonda a Terra. e assim fingiam que havia no céu vários orbes de matéria sólida como bronze. O mesmo peço eu que façam os que não têm necessidade de ver a tradução dela. e direitas. as defendem contudo para ostentar habilidade e engenho. e que. primeiros descobridores de seus antípodas. tiravam por segunda conseqüência que também havia de estar povoada de homens e de animais. Desta redondeza ou rotundidade do céu inferiam e assentavam que também a Terra era redonda. assim como os raios de uma roda todos vão parar ao eixo. em todas as partes. que este céu que nos cobre. em que as torres e os telhados estão pendurados para baixo! Mas será bem que digamos a origem donde teve princípio este erro e que razão moveu ou levou estes homens a uma cousa tão irracional. senão o termo e fraqueza de nossa vista). as cousas leves. id est. depois de terem caído no primeiro erro. perseveram constantemente na sua ignorância. a que chamam antípodas? Porventura dizem estes alguma cousa que tenha fundamento. que agora se segue. vieram a imaginar que o Mundo era redondo como uma bola. empregando tão bons entendimentos em tão más cousas. Viam que o Sol. assim que a imaginada rotundidade do céu foi a inventora destes antípodas pendurados. porque o passarão mais brevemente. e como não caem por esses ares abaixo respondem que é o peso natural da Terra. Santo Agostinho também teve a mesma opinião de Lactâncio. e torneada desta maneira. não o sei. E se perguntarmos aos defensores deste portento como pode ser que os homens que. quando há filósofos que fazem campos pênsiles. só digo que. lá estejam dependuradas? Que as árvores cresçam para a parte inferior? Que a chuva caia para cima? E que os que hão-de colher os frutos. como o fogo. assim as cousas pesadas vão buscar o meio. resolve que se não deve crer que há antípodas. a Lua e estrelas. viam. as névoas. e. e que sabendo muito bem que tudo o que dizem são fábulas e mentiras.>> Este é o discurso de Lactâncio. com palavras de tanta segurança como as seguintes: Quod vero et antipodas esse fabulantur. senão por jogo e zombaria. hajam de descer aos ramos. tem figura de uma abóbada (sendo que esta representação não a faz a figura do céu. ou cuidavam que viam. sobem direitas para as diversas partes do Céu. como haver antípodas. saíam sempre do Oriente e entravam pelo Ocaso. ou pode haver homem de tão pouco juízo que se lhe meta na cabeça que há homens que andem com a cabeça para baixo. mas no liv. defendendo umas cousas vãs com outras tão vãs como elas. XVI De Civitate Dei. dentro do qual estava metida. ubi Sol oritur quando occidit nobis. posto que lhe não contentaram os seus fundamentos. O que se haja de dizer de tais homens e de tais entendimentos. acomodando-se naturalmente a figura do corpo exterior e maior. os quais impugna no livro das suas Categorias. em que estavam esculpidas essas imagens e corpos portentosos. a que chamamos estrelas e planetas. e não subir? E espantamo-nos que os hortos pênsiles se contêm entre as Sete Maravilhas do Mundo. os fumos. e que todas as cousas que aqui estão em pé. mares pênsiles e cidades pênsiles. e não entendendo o modo por que esta máquina se governa. assim como do mesmo eixo saem os raios para a roda. sendo que algumas vezes cuido que não dizem nem escrevem isto de siso. fingem com os pés para cima. de que a Terra está cercada. como está: nesta em que vivemos. adversa pedibus nostris 78 . se lhes não despeguem da terra.Anexo:Imprimir/ História do Futuro menos para os que o não entendem. e foi bem que o deixasse tão miudamente escrito. para que não fiquem com o sentimento de quão mal se pode trasladar à nossa língua a elegância da latina: «Que direi daqueles—diz Lactando—os quais tiveram para si que há no Mundo outros homens que andam com os pés virados para nós. homines a contraria parte Terrae. que de todas as partes inclina para o centro. para que soubéssemos o que naquele tempo se sabia do Mundo e para que saiba o mesmo Mundo quanto deve aos Portugueses.

era um dos mais forçosos argumentos. onde o Sol lhes nasce a eles. haviam de ter passado a outra parte do Mundo. com muitos outros filósofos. sed quasi ratiocinando conjectant: «E quanto à fábula dos que fingem que há antípodas — diz Santo Agostinho. aquis vacua et denudata hominibus. A razão de Santo Agostinho com que negou os antípodas. E verdadeiramente que as palavras de um e outro são tão claras. porque o argumento em que se funda é este: Todos os homens que se propagaram e estenderam pelo Mundo. ainda encarece mais este louvor nosso. S. Basílio e Santo Ambrósio. navigare ac pervenire potuisse.Anexo:Imprimir/ História do Futuro calcare vestigia.» O primeiro lugar é do Salmo CXXXV e o segundo do Salmo XXIII. et iterum: «quia itse super maria fundavit eum. acrescentavam os Padres outras teológicas e alguns textos da Escritura Sagrada. e assim a lemos expressa. em S. cominus vapore torretur. que de nenhum modo se podia passar: Media vero terrarum _ diz Plínio — qua Solis orbita est. uns fundando-se nas razões já referidas e todos naquela tão celebrada dos filósofos. como referem as nossas histórias. nulla ratione credendum est. é cousa que de nenhum modo se há-de crer. ut etiam illic ex uno illo primo homine genus institueretur humanum. Esta é a razão de Santo Agostinho e este o famoso elogio que. e é grande absurdo dizer que os homens pudessem fazer tal navegação. notum reor. Eutímio e outros. Teofilato. homens da outra parte do Mundo. Justino. Neque hoc ulla historia cognitione didicisse se affirmant. isto é. parece se deviam entender assim. com que os reprovadores da empresa do Infante Dom Henrique a impugnavam. logo. em S. Circa duae tantum inter exustam et rigentes. para mostrar sua onipotência tinha fundado a terra sobre a água. os quais referiam os tremores da Terra à inconstância deste fundamento de sua natureza tão 79 . que tudo pode. mas este é o maior louvor da nossa Nação (como disse um orador delas) que chegaram os Portugueses com a espada onde Santo Agostinho não chegou com o entendimento. um dos sete sábios de Grécia. segue-se que não há nem pode haver antípodas. e muitos anos e séculos depois em Procópio. e só o conjeturam por discursos. A estas razões propriamente filosóficas e a este discurso. temperantur: eaeque ipsae inter se non perviae propter incendium sideris. nem seus autores o provam com alguma história que tal afirme. que se a vista dos olhos não tivera ensinado o contrário. e antes de Santo Agostinho. João Crisóstomo. e tinham por impossível aquele descobrimento. mas supunham tão grande incêndio nela pela vizinhança do Sol. nam sic docet Scriptura: «Quid expandit terram super aquis». disse o famoso e ilustríssimo africano dos Portugueses conquistadores depois de sua pátria: Nimisque absurdum est (são palavras suas no mesmo lugar) ut dicatur aliquos homines ex hac in illam partem Oceani immensitate trajecta. e que pisam a terra com os pés voltados para os nossos. por cima da imensidade do mar Oceano.>> Não dissera isto o sapientíssimo Doutor. Esta mesma opinião foi comum entre os outros Padres da Igreja. quando se põe a nós. se os houvera. exusta flammis et cremata. Este incêndio da zona tórrida ainda em tempos tão chegados aos nossos. são descendentes de Adão. dizendo: Quod autem universa Terra in aquis subsistat nec ulla sit pars ejus. como nós para os seus. que antes da experiência parecia afirmarem ou definirem claramente que debaixo da terra não havia outra cousa mais que a água. e que Deus. se já naquele tempo estiveram escritas as histórias dos Portugueses. como consta da Escritura. quae infra nos sita sit. Assim o cuidou Tales Milézio. Assim o argumentava Procópio sobre o primeiro capítulo do Gênesis. ainda antes de Lactâncio. que não só faziam inabitável a zona tórrida. historiadores e poetas. sem saber de quem falava. em Santo Hilário. porque.

omniumque in ea rerum [. Dominus nomen illi. que são os antípodas. não puderam deixar de dizer o mesmo. conforme o lugar que se devia à sua dignidade e nobreza. e não inferior e debaixo como de antes estava.. porque. et supereminere aquis fecit. qui ascendit super Coelum Coeli ad Orientem. mas como por esta causa ficasse a terra vazia e inabitável. hoc est. Viegas. aquele verso do Salmo LXVII: Regna terrae. e assim explica as palavras: «Exitus matutini et vespere>> pro hominibus qui habitant ubi exit dies et ubi exit nox. qui ascendit super Occasum. mas depois que a experiência nos mostrou que debaixo ou da parte oposta a esta Terra há outros habitadores. que é o que hoje tem o mar para que ficasse a terra superior a ele e pudesse produzir e ser habitada: Et dixit Deus: Congregentur aquae [. e por sua natureza devia estar. que no mesmo Salmo tinha dito David: Cantate Deo. no princípio estava o elemento da terra coberto com o elemento da água. Donde notou advertidamente Viegas. fazendo que fosse superior ao mar e aos rios. psalmum dicite nomini ejus. Deus é o Senhor da Terra e de todos seus habitadores. Todo o Salmo LXIV explica Basílio Ponce da nova conversão das Índias. isto é superior a ela.. a fez habitável. E não é muito que Lorino entendesse melhor este texto da terra e do mar que Procópio.] in locum unum. Referem-se vários lugares dos Profetas que os expositores modernos entendem dos antípodas e conquistas de Portugal. mas vamos a outros lugares mais impossíveis de entender. e essa é a energia da palavra praeparavit. às vozes dos seus pregadores: Ecce dabit voci suae vocem virtutis. porque Procópio não sabia que havia mar e terra habitada dos antípodas. como notou o texto: Terra autem erat inanis et vacua. por isso diz David que a terra está sobre ela. como elemento que é mais nobre. que. e é Senhor de seus habitadores. E por que a terra por este modo ficou superior à água. iter facite ei. entende pelos habitadores dos termos da terra as gentes orientais e ocidentais. cantate Deo. antes do conhecimento dos antípodas. para mostrar que a Fé e conhecimento de Deus primeiro havia de vir às terras mais ocidentais. e a água sobre a terra.. cujo verdadeiro sentido é este: Quando Deus criou o Mundo.. fazendo a terra superior à água. a emenda deste engano nos ensinou também a entender aqueles textos de David. quoniam terram itse fecit. a preparou e acomodou a que se pudesse habitar: Ratio cur Dominus Terrae. e esta é a virtude que Deus deu às vozes da sua voz. isto é. psallite Deo. pro Orientalibus et Occidentalibus. e são tão próprios desta explicação muitos lugares dele. e Lorino sim. et appareat arida.] sit Deus (diz Lorino).. e depois havia de passar às do Oriente. que são as que habitamos. Repito o texto todo. et super fluvia praeparavit eum. diz Genebrardo. E porque é Senhor da Terra? Porque a fundou. alumiamos com a luz do Evangelho. et timebunt qui habitant terminos a signis tuis exitus matutini et vespere delectabis. Mendonça e outros autores. Começando pelo mesmo David. orbis terrarumm et universi qui habitant in eo: quia ipse super maria fundavit eum. ecce dabit voci suae vocem virtutis. 80 . que são aquelas que descobrimos. porque.Anexo:Imprimir/ História do Futuro pouco sólido. conquistamos. Lorino. convertidas à Fé por meio da pregação dos Portugueses e descobertas por eles. o que fez a Providência Divina foi apartar a água de cima da terra e dar-lhe outro lugar. assim Orientais como Ocidentais. que fala da conversão dos reinos e terras do Oriente. ainda os que não tiveram tal pensamento. psallite Domino.. comentando o verso IX: Turbabuntur gentes. para que da conseqüência dele se veja melhor a verdade e clareza desta exposição: Domini est terra et plenitudo ejus. ut habitari posset.

Finalmente. não só na coroa. isto é. dum universum haeresim per sapientes destruxit. onde nasce o dia e onde nasce a noite. uma e outra. Fala das missões que fazem àquelas partes os pregadores da Fé. sonum fluctuum ejus. et fluent aromata illius. ou como tem o hebreu: Maris rémotorum. mirabile in aequitate. latitudinem aut profundumditatem maris. qua totum ortum Ecclesiae.. Aquilo. sed Rex gloriae Chrisus suis auxilium praebuit. chegado às mais remotas nações do Oriente. o que até aquele tempo não consentia. parece que vós. e que a regaria como regou com a água do batismo: Visitasti terram et inebriasti eum. mas multiplicadamente rica: Multiplicasti etc. declara o Profeta que não haviam de ser aqueles que lavam as terras e praias vizinhas a nós. Auster intravit. tendo-lhe já dado as maiores riquezas temporais. por vossos ocultas juízos.. senão os mares de muito longe e de terras e gentes muito remotas: .. entendidas assim como soam. et veni.Anexo:Imprimir/ História do Futuro De maneira que os homens de quem aqui fala David. que é a Igreja: que saísse dele o Norte e viesse o Sul. et perfla hortum meum. que são as minas do ouro e prata. que os outros estivessem às escuras (argumento que puseram os Japões a S.. porque trata igualmente a todos: sanctum est templum tuum. IV: Surge. que sucedeu a David. Senhor. Ou. E não carece de mistério e grande mistério. que saíssem da Igreja as orações do Norte. E porque para isto era necessário que o bravíssimo e indômito Oceano se sujeitasse aos homens e se deixasse arar de seus lenhos. permitistes até agora.. que outra cousa dizem senão os interesses temporais que trazem as naus da Índia por estes espirituais que levam quando vêm carregadas dos aromas e espécies aromáticas daquelas partes? Assim o tinha dito o mesmo Salomão no verso antecedente. como entraram por meio da Fé. com que ficasse cada uma não só rica. Uns nos fins do Oriente. e vossa Igreja não guardáveis igualdade com os homens. os rubis. o proêmio com que David introduziu tudo o que até aqui temos dito. Auster. pois havendo tantos anos e tantos séculos que alumiastes a uns com a luz da Fé. expulso autem Aquilone. Ao qual sentido. Esta terra. que foi com estas palavras:. podemos aplicar as palavras de Honório: Siquidem inauditam haeresim per malignos homines Draco mentibus fidelium infudit. As quais palavras. e o conhecimento e culto do verdadeiro Deus têm passado os mares. Francisco Xavier). Jerônimo e Teodósio: compescens sedans. Salomão. são aqueles que estão nos dois últimos fins e extremos da Terra. e diz: Emissiones 81 . também dizia David que fazia Deus esta mudança em suas ondas: . Como se dissera: antes de se pregar o Evangelho a estas terras ou a estes mundos do Oriente é do Ocidente. diz o Profeta que visitaria Deus. mirabile in aequitate. e outros nos fins do Ocidente. sobre estes lhe havia de dar também as riquezas espirituais e a graça. que é mui próprio e verdadeiro. agora sim. porque.. que são os das Índias Orientais. et de horto suo flagellis anathematis expulit. E acrescenta com grande energia que multiplicaria o Senhor o enriquecê-la: Multiplicasti locupletare eum. que podemos dizer que a vossa Igreja é admirável na igualdade. Porém. mulcens sonitum.spes omnium finium terrae et in mari longe. et fluent aromata illius.qui conturbas profundum maris. depois que a Fé e o Evangelho. em muitos lugares dos seus Cânticos deixou também profetizadas estas maravilhas da nossa idade: neste sentido explicam alguns modernos aquelas palavras no cap. cavitatem. mas também no espírito de profecia. as pérolas e outros tantos tesouros. como lê S. com admirável propriedade e energia. os diamantes. falando do sen jardim. Como se dissesse Cristo. como se saíram nestes tempos por meio da heresia. Segue-se logo no texto:. e que entrassem na mesma Igreja as orações do Sul (que são as do Novo Mundo). porque não duvidássemos que mares eram estes. quasi quadam lepre vitiavit.sanctum est templum tuum.. que são os das Índias Ocidentais.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro tuae, paradisus malorum punicorum cum pomorum fructibus As vossas missões são um paraíso de que se não colhem frutos de árvores, senão frutos de frutos. Cum pomorum fructibus. Porque pelo fruto espiritual que vão fazer os missionários, vêm de lá os frutos temporais com que Portugal se enriquece. E se vão faltando os segundos frutos, é porque também vão faltando os primeiros, de que eles nascem. Mas que frutos são estes? Disse o mesmo Salomão: Cypri cum nardo, nardus et crocus, fistula et cinnamomum cum universis lignis Libati, myrrha, et aloe cum omnibus primi unguentis: A canela, a canafistola, o sândalo, o benjoim, as áquilas, os calambucos, e todo o outro gênero de espécies odoríferas e aromáticas, que são as mesmas que vêm da Índia. No cap. VII diz assim o mesmo Salomão, ou a Esposa, que é a Igreja, falando com seu Esposo Cristo: Mandragorae dederunt odorem. In portis nostris omnia poma: nova et vetera servavi tibi. As mandrigoras são os pregadores da Fé, como diz S. Gregório: Quid per mandragoram, herbam scilicet medicinalem et odoriferam, nisi virtus perfectorum intelligitur? Qui, dum imperfectorum infirmitatibus medentur in fide quam praedicant, id est. in portis Ecclesiae veri medici esse comprobantur. Com o cheiro destas mandrágoras e com a doutrina destes pregadores, [diz a Esposa] que ajuntou para seu Esposo os frutos novos aos velhos. Assim o interpretam os Setenta: Nova et vetera servavi tibi; porque aos cristãos antigos, que eram os da Europa, ajuntou a Igreja estes novos, que são os da nova gente que se descobriu no Oriente e no Ocidente, que são as portas de que fala a Esposa: In portis nostris. Uma porta por onde o Sol sai ao nosso hemisfério, que é a do Oriente, e outra por onde entra aos antípodas, que é a do Ocidente. Assim entendem este lugar alguns autores que refere Cornélio, resumindo todo o sentido dele nestas palavras: Nonulli per nova opinantur hic notari novi orbis inventionem et conversionem ad Chrstum. Novus enim hic orbis continet Peruanos, Mexicanos, Brasilios, Chilenses etc. est dimidium totius orbis, ut patet ex globo cosmográphico [...] jam per religiosos S. Dominici, S. Francisci et Societatis Jesus totus pene subjacet Ecclesiae Sic in India Orientali hoc saeculo et praecedenti mire per eosdem propagatur Fides apud Japones, ubi plurimi pro Fide certant usque ad martyria lentorum ignium apud Sinenses, Molucenses et Ceilanos. De maneira que os frutos novos que a Igreja, por meio do cheiro destas mandrágoras medicinais e odoríferas, ajuntou aos velhos e antigos, são os do Peru e México, do Brasil e Chile, e os do Japão e China, das Malucas e Ceilão; uns nas portas do Oriente, outros nas do Ocidente: Madragorae dederunt odorem suum. Parece que estavam esquecidos, mas não estavam senão guardados para este tempo: servavi. Em quase todo o cap. VIII repete Salomão a mesma conversão das Índias, e particularmente naquelas palavras: Soror nostra parva, et ubera no habet; quid faciemus sorori nostrae in die quando alloquenda est? Si murus est. aedificemus super eum propugnacula argentea; si ostium est. compingamus illud tabulis cedrinis. Até agora foi escuríssimo este lugar, mas são admiráveis os mistérios e mais admiráveis ainda as propriedades dele. Ludovico Legionense, nos comentários sobre este livro, entende por esta irmã mais moça da Esposa a Igreja da Gentilidade novamente convertida à Fé: ...sub persona hujus sororis natu minoris, et parum forma praestantis, cu`jus de collocatione sponsa solicitari dicitur, multi significantur populi atque gentes longe a nostro orbe remotae, ad Christum adducenda; nova quadam Evangelli tradendi ratione; hoc est significatur Hispanorum navigationibus reperti orbis, ejusque incolarum ad Christi. fidem nuper facta conversio. Ainda que a Igreja toda seja uma, como a destas novas gentilidades veio ao conhecimento de Cristo tanto depois, que não foram menos que mil e quinhentos anos, por isso lhe chama

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro Salomão irmã menor e pequena — Soror nostra parva est — não pela grandeza das terras e número das gentes, em que é maior ou, quando menos, igual a toda a Igreja antiga, mas pela menoridade do tempo e da idade em que se converteu. E diz com muita propriedade que não tem peitos: Et ubera non habet porque todos estes anos esteve falta do leite da verdadeira doutrina. E porque haver-se de desposar com Cristo esta nova Igreja era um negócio cheio de tantas dificuldades, assim pela distancia de tão remotas terras e navegação de tão desconhecidos mares, como principalmente pela resistência de suas nações, umas bárbaras, outras políticas e todas feras, armadas e belicosas, e tão superiores no número e multidão aos que lhes haviam de levar e introduzir a Fé, estas dificuldades representa a Igreja antiga a seu Esposo, Cristo, com aquelas palavras: Quid faciemus sorori nostrae in die quando alloquenda est? «Que faremos Senhor, quando chegar o tempo em que se há-de desposar convosco esta minha irmã menor?:>> Ao que responde Cristo com o antiquíssimo conselho de sua providência, dizendo: Si murus est. aedificemus super eum propugnacula argentea; si ostium, compingamus illud tabulis cedrinis. Quem não admirará nesta resposta os altíssimos conselhos da sabedoria e providência divina? Dispôs Deus desde a criação do Mundo que estas terras, assim por fora como por dentro, fossem enriquecidas de coisas preciosíssimas, para que o interesse dos homens facilitasse as dificuldades, que sem ele criam impossíveis de vencer. Como se dissera o Senhor: Ainda que a conquista da Fé tem muros que dificultem sua entrada nessas terras, também tem portas por onde poderá entrar; esses muros facilitá-los-emos com prata; essas portas abri-las-emos com cedros: Si murus, aedificemus propugnacula argentea; si ostium, compingamus illud tabulis cedrinis. Pela prata se entendem as minas e pelos cedros odoríferos as plantas preciosas; e as minas que essas terras têm em suas entranhas, e as plantas odoríferas e preciosas que nelas nascem, são os meios e incentivos que obrigaram o interesse humano a que se disponha a vencer todas essas dificuldades e abrir e franquear essas portas. E assim foi porque a prata, o ouro, os rubis, os diamantes, as esmeraldas, que aquelas terras criam e escondem em suas entranhas; as áquilas, os calambucos, o pau-brasil, o violeta, o ébano, a canela, o cravo e a pimenta, que nelas nascem, foram os incentivos do interesse tão poderoso com os homens, que grandemente facilitaram os perigos e os trabalhos da navegação e conquista de umas e outras Índias. Sendo certo que, se Deus com suma providência não enriquecera de todos estes tesouros aquelas terras, não bastaria só o zelo e amor da religião para introduzir nelas a Fé. O profeta Isaías, como profeta singularmente escolhido para historiar as maravilhas da lei evangélica, foi o que mais falou de nós e delas: no cap. XLIX diz assim: Ecce isti de longe venient, et ecce illi ab aquilone et mari, et isti de terra australi. Laudate, caeli, et exulta, terra, jubilate, montes, laudem, quia consolatus est Dominus populum suum, et pauperum quorum miserebitur. O qual lugar entende Cornélio à Lápide e Árias Montano da conversão da China, e o provam do original hebreu, o qual lêem de terra Senim, como verts S. Jerónimo, Símaco, Áquila, Teodósio, o Siro, o Arábio, e todos, e é o mesmo que de terra Sinorum, por ser este o modo de falar da língua hebréia, na qual os Galileus se chamam Gelilim, e os Judeus Jehudim, e os Assírios Assurim, e assim também os Chinas ou Sinas Sinim. E se replicarmos a este sentido que a China não é terra austral, senão oriental, e que se não pode verificar dela o termo de terra australi, respondem os mesmos autores que aludiu o Espírito Santo, que governava a pena de S. Jerónimo, à navegação dos Portugueses, os quais, quando vão para o Oriente, fazem a sua viagem direita ao Austro, navegando ao cabo da Boa Esperança: Sinae enim (dizem eles), qui proprie hic significantur, licet sint ad Orientem, dici tamen possum ad Austrum, quia Lusitani in Sinas

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro navigaturi, initio longo flexu, navigant ad Austrum, scilicet ex Lusitania usque ad promontorium Bonae Spei, quod uItimum est in continente et directe oppositum Austro. De maneira que, como os Portugueses eram os que haviam de levar a Fé à China, navegando ao Austro ou Sul, por isso o Espírito Santo chamou Austral à China, não pelo sítio, senão pelo rumo da navegação. Da mesma conversão dos Chinas fez outra vez menção Isaías no cap. XI, v. I4, o qual explica larga e eruditamente Malvenda, seguindo a Foreiro, ambos varões mui doutos da família dominicana. O mesmo Profeta Isaías no cap. LX: Qui sunt isti, qui ut nubes volant et quasi columbae ad fenestras suas? Me enim insulae expectant, et naves maris in principio, ut adducam filios tuos de longe; argentum eorum et aurum eorum cum eis, nomini Domini Dei tui et Sancto Israel, quia glorificavit te. Et aedificabunt filii peregrinorum muros tugs, et reges eorum ministrabunt tibi. Nestas palavras está profetizada admiravelmente a conversão das Índias Ocidentais; assim as explicam o mesmo Cornélio, Bózio, Aldrovando e outros, com bem notáveis propriedades. Chama o Profeta às Índias Ocidentais, ilhas: Me enim insulae expectant. Porque todas aquelas vastíssimas terras, em quanto se têm descoberto, estão rodeadas de mar, e bastava para se chamarem assim a imensidade de mares que as dividem do Mundo amigo; além de que estes terras no princípio eram chamadas com o nome de Antilhas, como se lê na história de seu descobrimento. As nuvens que voam a estes terras para as fertilizer—Qui sunt isti, qui ut nubes volant— são os pregadores do Evangelho, levados do vento pelo mar como nuvens; e chamam-se também pombas: Et sunt columbae ad fenestras suas; porque levam estes nuvens a água do baptismo sobre que desceu o Espírito Santo em figure de pomba, que são os dois termos que desde o princípio do Mundo andaram sempre juntos na significação do batismo. No I cap. do Gênesis: Spiritus Domini ferebatur super aquas, e no II de S. João: ...nisi quis renatus fuerit ex aqua et Spiritu Sancto. Mas o mesmo Bózio e Aldrovando, ainda advertiram no nome e semelhança de pomba outra propriedade mais aguda, tirada do descobrimento das mesmas Índias, de cujas terras e navegação foi o primeiro descobridor Cristóvão Colombo; e dizem que a isto aludiu o profeta, chamando Columbas ou Columbos a todos os que seguem a mesma derrota e navegação das Índias: Nomine columbae alludit ad Christophorum Columbum, qui nobis iter ad illas oras primus aperuit. Bem assim, ou muito melhor, e com mais verdade do que disseram os Gentios que os Argonautas, quando foram conquistar o velo de ouro a Colcos, levaram por guia uma pomba: Et qui movistis duo littora, cum rudis Argus Dux erat, ignoto missa columba mari. Os Potosis e outras minas de prata e ouro, que juntamente com as almas para a Igreja haviam de conquistar estes argonautas, também as não esqueceu o Profeta: Et adducam filios tuos de longe, argentum eorum et aurum eorum cum eis. Muito ouro, muita prata e muitos filhos para a Igreja, e tudo de muito longe; e porque não ficassem em silêncio as frotas das Índias: Et navis maris in principio; ou como lê Foreiro do hebreu: Et naves maris cum primaria, seu praetoria, que faziam esta navegação muitas naus, não divididas, senão em frota, com sua capitaina; finalmente, que homens peregrinos edificariam os muros da Igreja naquelas terras: Et aedificabunt filii peregrinorum muros tuos; e que os ministros de tudo isto seriam os mesmos reis, como fazem com tanta piedade os reis católicos: Et reges eorum ministrabunt tibi.

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de que tanto necessitam: Et terram inviam in rivos aquarum. e tão enobrecidas de famosas cidades e suntuosos edifícios: Aedificabuntur in te deserta saeculorum. diz assim: Hoc etiam hodie in Japone. et myrtum. O P. Ego Dominus exaudiam eos [. isto é. ponam in deserto abietem. como dizem sodas as nossas histórias. et terram inviam in rivos aquarum. XLI: Egeni et pauperes quaerunt aquas. e que esta obra é de minha mão: Ut videant et sciant quia manus Domini fecit hoc. eu farei que se colha muito copioso e de todo o gênero: Dabo in solitudinem cedrum et spinam et myrtum.. foi o puro e piedoso zelo da dilatação da Fé e conversão da gentilidade. et intelligant pariter. e de ilhas desertas que antigamente eram. Brasilia. et generationis suscitabis.e. que estavam povoadas de bárbaros. bem ponderadas. fundamenta generationis. que desde o princípio do Mundo. et recogitent. Cornélio... geral da sua religião. Procópio e Teodoreto entendem este texto da conversão das gentilidades. como se tiram as dos Gentios. fazendo que fossem povoadas de homens. avertens semitas in quietem: «Em vós se povoarão os desertos dos séculos. Aperiam in supinis collibus flumina.. cujo principal intento naquela empresa. vamos agora às ilhas. que. depois do reverendíssimo Cláudio Aquaviva. e por mais que essas terras sejam sem caminho. na China. et lignum olivae. primeiro autor dos descobrimentos portugueses. eu abrirei caminho por onde a elas cheguem as águas. Primeiramente nele e por ele se povoaram os desertos dos séculos! porque muitas ilhas. Henrique.Anexo:Imprimir/ História do Futuro É também ilustre lugar em Isaías aquele do cap. et in medio camporum fortes: ponam desertum in stagna aquarum. aliisque Indiarum provinciis impleri magna laetitia conspicimus: que se cumpriu e está cumprindo esta profecia no Japão. Dabo in solitudinem cedrum. São Cirilo. e como a major obra e a major misericórdia de sodas é tirar almas do Inferno.» Tais foram em tudo as obras do Infante D. por tantos séculos estiveram desertas e incógnitas e despovoadas. etc. estão hoje tão povoadas e populosas. continuadas depois pelos reis de Portugal. As palavras de Isaías são estas: Et aedificabuntur in te deserta saeculorum. LVIII fala Isaías das obras grandes que fará o homem misericordioso. como era a ilha da Madeira. assim em outras ilhas. porque as não conheciam. ulmum et buxum simul. Para que entenda e conheça o Mundo quão poderoso sou. tenham assento. povoou e edificou. os ouvirei e não me esquecerei deles: Ego Dominus exaudiam eos. No cap. as Terceiras ou dos Açores. Quantos pobres e miseráveis estão morrendo à sede por falta de água. Nestes seus montes e desertos secos e estéreis abrirei fontes e rios mui copiosos. mas não nos disseram que gentes estes fossem ou houvessem de ser. et non sunt: lingua eorum siti aruit. vós sereis chamado edificador das cercas e fareis que os que sempre andam. quando por meio da luz da Fé se lhes mostra o caminho da salvação. ele as descobriu. vivendo na gentilidade sem água do batismo? Mas eu (diz Deus) que também sou Senhor destes. que levaram adiante o que ele começou. ut videant et sciant. que são as primeiras por onde os nossos descobrimentos começaram. et vocaberis aedificator septum. São Jerônimo. de nenhum outro homem se podem entender à letra senão do nosso Infante santo (sic) D. vós lançareis os fundamentos de uma e outra geração. quia manus Domini fecit hoc. China.] non derelinquam eos. que Deus havia de converter por meio da pregação do Evangelho. et spinam. E assim como nestas ilhas ermas e desertas lançou este glorioso príncipe os primeiros fundamentos da geração humana. diz umas palavras o Profeta. e de onde até agora se não colheu fruto. no Brasil. como eram as Canárias e de Cabo Verde. Henrique. Até aqui andamos com Isaías pelas terras firmes. lançou também os 85 . porém os Doutores modernos nos dizem quais elas são.

similiter in Canariis. senão virem eles encarentar o mantimento da terra e comerem nossos trabalhos. não cala o Profeta o fruto que desta santa indústria se seguiu em sodas estes gentilidades de bárbaros.. O meio que para esta segunda e mais importante geração tomaram os religiosíssimos príncipes de Portugal. com obrigação de trazer a ele moradores estrangeiros de Alemanha. junto a Caruche. excitantur fundamenta generationis. alemão. como aqui notam alguns expositores. que Deus deu por pasto dos brutos. ordem e política cristã. humanidade. e foi que.idem perfectum videinus in insults quas Tertieras vocant. Neste sentido tão próprio e literal explica Bózio este texto de Isaías. andando de antes vagamente pelas brenhas.os reis passados deste Reino (diziam eles) sempre dos reinos alheios para o seu trouxeram gente a este a fazer novas povoações.. 86 . et in stabulis ipsis habitabant. Oppida innumera et civitates pulcherrimae passim condutur in quibus constituuntur caetus hominum. não sabemos que gente é. e vivessem como homens. que como animais andavam saltando de penedo em penedo. que os lançou fora da primeira ilha. e ele quer levar os naturais portugueses a povoar terras ermas por tantos perigos do mar. como animais silvestres. se aquietassem e tomassem assento. e não mando?` seus vassalos passar além-mar. sive occidentem Solem. foi mandarem religiosos por sodas as conquistas. são os que hoje vivem com tanto assento. As palavras prometidas de Bózio são as que se seguem: . sive orientem. nós que proveito podemos ter de terra tão estéril e áspera. e por isso diz o Profeta que seria chamado o primeiro autor desta obra. E quando quer que nestas terras de Guiné se achasse tanta gente como o Infante diz. qui bestiarum modo prius incertis sedibus vagabantur. as cercas e claustros das religiões: Et vocaberis aedificator septum Finalmente. Hispaniae in Oceano adjacentibus Occidentem versus. E bem se viu quanto mais naturais são para eles que para nós. Neque finis illus hucusque apparet. a Lambert de Orches. Boreamvel spectantibus idem contingit. Ascensionis. a qual anda de penedo em penedo como cabras às pedradas contra quem os quer ofender. quero pôr aqui as do nosso João de Barros. E estes bárbaros. Certo que outro exemplo lhe deu seu padre poucos dias há.. senão infinitos outros. edificador de cercas. pois em tão poucos dias uma coelha multiplicou tanto. e quando fosse tão bárbara. fazendo por meio da pregação e luz do Evangelho que esses bárbaros gentios conhecessem a Deus e fossem gerados em Cristo: Fundamenta generationis et generationis suscitabis. que os rompesse e povoasse. e por cobrarmos um comedor destes. de grande virtude e letras. e cativar gente tão mesquinha? Certo nós não sabemos outro. cultivadas e ricas. de fome e sedes. e não habitada por nós. nem o modo de sua peleja. mas antes que escreva as suas palavras. et omnibus quae Africae littora respiciunt: amplius cunctis quas Oceanus aluit. como vemos que passam os que lá vão.Anexo:Imprimir/ História do Futuro fundamentos da geração divina. perdermos os amigos e parentes!» Isto é o que filosofavam e diziam os prudentes e políticos daquele tempo. referindo o que desta empresa do Infante sentiam e murmuravam os que lhes parecia inútil e infrutuosa: <. que isso quer dizer—Avertens semitas in quietem. latissimis etiam regionibus Indiarum. Sancti Laurentii. que há por bem ser aquela terra pastada de alimárias. et generationis eorum. quase como admoestação de Deus. e não só eles. romper terras. vel Austrum. fundando e edificando conventos de diversas ordens. que sempre são os instrumentos mais aparelhados que o Mundo e o Demônio têm para impedir as obras de Deus. dando os maninhos de Lavre. mas estes terras ermas foram as que pelo zelo e constância daquele príncipe se vêem hoje tão povoadas. que são. como sabemos que é a das Canárias.. quas no mine Promontorii Viridis appellant.

nem se podem chamar de Longe em comparação das que depois descobrimos. Tomás Bózio. volans alis suis. XLIX: Audite. também os modernos não acertaram até agora com o sentido próprio. quae mittit in mare legatos. Alartim del Rio e outros dizem (e bem). Porque esta terra que descreve o Profeta está além da Etiópia trans flumina AEtiopiae.. nem das gentes de que falava o Profeta. Mas esta exposição e a de Mendonça e Rebelo (que entendem o texto geralmente da Índia Oriental). Os comentadores modernos acertaram em comum com o entendimento da profecia. et nunc ab extremo Occidente Lusitanorum victricibus classibus aditur.» Aptosite in Indiam. mas verdadeiramente nem são ilhas. ut aquila. XVIII. ilhas de longe. quae etiam itsas sinarum oras praetervectae Japoniorum insulas tenent. Ponhamos fim a Isaías com um celebradíssimo texto do cap. pisado as terras e navegado as águas de que fala este texto. et in vasis papyri super aquas! Ite. e notaram alguns com agudeza e propriedade. por estas palavras: Chaldeus interpres haec verba Isaiae in hunc modum reddidit: <<Vae terrae. acabou de o entender. pelas quais ilhas entendiam todos antigamente Itália e Espanha. pelo havermos recebido de pessoa douta e versada nas Escrituras. Estes dois sinais tão manifestos só se podem verificar da América. mas nem atinaram nem podiam atinar com ela porque não tiveram notícia nem da terra. por estarem quase cercadas uma do Mediterrâneo. Frederico Lúmnio. III explica muitos outros lugares de Isaías. que. qui non audierunt de me. Malucas e outras. et attendite. e no cap. LXVI: . José da Costa. mas chegando mais de perto à gente e terra ou província de que se entende a profecia. têm contra si tudo o que logo diremos.. angeli veloces. et vela sua extendunt. e com toda a propriedade são ilhas. outra do Oceano. ad gentem expectantem et conculcatam. que isso quer dizer a energia da palavra: Ad gentem conculcatam: gente pisada dos pés. Cornélio teve para si que fala o profeta de Etiópia e do Preste João. e é terra depois da qual não há outra: ad populum post quem non est alius. cujus diripuerunt flumina terram ejus. o qual foi sempre julgado por um dos mais dificultosos e escuros de todos os Profetas. que ultimamente se conheceram no Mundo com o descobrimento dos antípodas. o qual no mesmo liv. populi de longe. e ilhas de muito longe. como veremos e verão melhor os que tiverem lido as exposições antigas e modernas dele. post quem non est alius. Java. Ludovico Legionense. quae est trans flumina AEthiopiae. que é a terra que fica da outra banda da Etiópia. dizendo que se entende da nova conversão à Fé daquelas terras e gentes também novas. Chama a estes ilhas o Profeta.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Até aqui este autor doutíssimo. Arias Alontano. II cap. que ficaram debaixo de nós. Maldivas Socotorá. das ilhas que os Portugueses conquistaram para Cristo. e aplica à navegação dos Portugueses o parafraste caldeu. senão terra firme. que falou Isaías da América e Novo Mundo. e verdadeiramente o entendeu.ad insulas longe ad illos. ad gentem convulsam et dilaceratam. com os outros que cita. Trabalharam sempre muito os intérpretes antigos por acharem a verdadeira explicação e aplicação deste texto. e nomeadamente de Ceilão. e que não tem depois de si outra terra senão o vastíssimo mar do Sul. ad quam veniunt cum navibus a terra longinqua. Mas porque Isaías nesta sua descrição põe tantos sinais 87 . ad populum terribilem. porque os antípodas. e se prova fácil e claramente. como diz o texto. e é este: Vae terrae cymbalo alarum. tão versado nas Escrituras como na geografia e na história natural das Índias Ocidentais. Japão. insulin. germano e natural dela. e este é o que nós havemos de descobrir ou escrever aqui. quae quondam remotarum gentium frequentibus navigationibus petebutur. havendo visto as gentes. entente dos Chinas e Japões. mas Etiópia não está além de Etiópia. parece que os trazemos debaixo dos pés e que os pisamos. como no cap. Malvenda.

em que os rios são infinitos e os maiores e mais caudalosos do Mundo. que tão expressamente tinha falado nesta gente. que tangem e trazem na boca. vê-se este destroço e roubo que os rios fizeram à terra. que estando cercados os Bárbaros. bárbaras e verdadeiramente terríveis. Estes são os sinais comuns que nos aponta o Profeta daquela terra e gente. e assim se viu muitas vezes naquelas guerras. subiam as mulheres às trincheiras ou paliçadas. e posto que estes alagadiços sejam ordinários em toda aquela costa. e os cozem a este fim. muito mais particularmente naquele vastíssimo arquipélago do rio chamado Orelhana. mas depois de mortos os despedaçam e os comem e os assam. E é admirável a propriedade desta diferença. e mostravam aos nossos as panelas em que os haviam de cozinhar. cujas terras estão todas senhoreadas e afogadas das águas. quae est sita ultra AEthiopiam (quae AEthiopia scatet fluminibus) e o hebreu ao pé da letra tem de trans flumina AEthiopiae.Anexo:Imprimir/ História do Futuro particulares e tantas diferenças individuantes. todos com as raízes e troncos metidos na água. quase todos os campos estão alagados e cobertos de água doce. e no peito e pelo corpo têm a pele lisa e sem cabelo. ou como verte e comenta Vatablo: terra. sendo muito contados e muito estreitos os sítios mais altos que eles. que claramente estão mostrando que não fala de toda a América ou Mundo Novo em comum. Diz mais o Profeta que a gente desta terra é terrível: ad populum terribilem. com grande diferença dos Europeus. e os autores alegados nos não dizem que província esta seja. A qual palavra&mdash. e assim é na geografia destas terras. Em lugar de gentem conculcatam. considerado o círculo que faz o globo terrestre. por ruas. e isto é o que agora hei-de mostrar. não é muito que a falta de suas notícias lhe tivesse até agora escurecido e divertido a honra deste famoso oráculo do mais ilustre profeta. que são estes homens uma gente a quem os rios lhe roubaram a sua terra: Cujus diripuerant flumina terram ejus. porque o Brasil é a terra que direitamente está além e da outra banda da Etiópia como diz o Profeta: quae est trans flumina AEthiopiae.gentem depilatam: gente sem pêlo. sendo raríssimos os lugares por espaço de cento. não se vendo em muitas jornadas mais que bosques. porque em toda aquela terra. Fazem depois suas frautas dos mesmos ossos humanos. ainda que seja a alguma caveira desenterrada com outras cerimônias cruéis. em que se possa tomar porto. senão de alguma província particular dele. será necessário que nós o digamos. sem nenhum horror. Diz pois o Profeta. Os Hebreus dizem&mdash. é outra vez necessário que nós também declaremos a província e gente em que eles todos se verificam. e nós dizemos.de trans&mdash. que em respeito de Jerusalém.de trans&mdash. e tais são também os Brasis. o Brasil fica imediatamente detrás de Etiópia. em que os Índios possam assentar suas povoações. lê o Sírio&mdash. que pela maior parte não têm barba. sendo as próprias mulheres as que guisam e convidam hóspedes a se regalarem com estas inumanas iguarias. e esta gente e esta província mostraremos agora que é a que com toda a propriedade chamamos Maranhão. que aquela (quais são os Brasis) que não só matam seus inimigos. e não pode haver gente mais terrível entre todas as que têm figura humana. e muito distantes uns dos outros. mas porque assinala mindamente outros mais particulares e que não convêm a toda a gente e terra do Brasil. que por ser tão pouco conhecida e menos nomeada nos escritores. palmares e arvoredos altíssimos. Digo primeiramente. de que fazem os seus muros. e é estilo e nobreza entre eles não poderem tomar nome senão depois de quebraram a cabeça a algum inimigo. como notou Malvenda. que o texto de Isaías se entende do Brasil. detrás. duzentas e mais léguas. vivendo por esta causa não imediatamente sobre a terra. senão em casas 88 . e agora das Amazonas. travessas e praças de água que a natureza deixou descobertas e desimpedidas do arvoredo. navegando-se sempre por entre árvores espessíssimas de uma e outra parte. semelhante ao da nossa língua. é hebraísmo.

em que eram e são os Maranhões mui sinalados entre os índios. porque os tinham lançado de suas terras os Portugueses. com mais generosa resolução e determinados a não servir. bem assim como as mesmas árvores.>> 89 . ou juntamente com ele. Tanto assim que a principal nação daquela terra. ou certamente porque com sua indústria adiantaram muito a rudeza das embarcações bárbaras. Maianás e outras antigamente populosas gentes. onde ficaram muitos. não sem novos inimigos que ainda mais os despedaçassem. diferindo só as árvores das casas em que umas são de ramos verdes outras de palmas secas. e muito particularmente pelo exercício e arte da navegação. e diz que os habitadores desta província são gente arrancada e despedaçada. que todos desembocam nele. e só o Espírito Santo poderá recopilar em duas palavras a história e última fortuna daquela gente. fizeram facilmente a seus habitadores o que nós lhes tínhamos feito a eles. caindo para a parte do mar. porque apenas dão passo que não seja com o remo na mão. entre os lodos e raízes das árvores. outros. ou os primeiros inventores da sua náutica. os que isto fazem. (que assim se chamavam os Pernambucanos) os arrancaram de suas pátrias. e também e com muito maior razão despedaçados porque. vieram sair às terras do Maranhão. assim porque foram ficando a pedaços em vários sítios como porque depois da vitória lhes foi necessário para conservarem o violento domínio. Desta sorte vivem os Nheengaíbas. porque os Tutinambás. que são as canoas. porque. por cima dela se conservam e aparecem. que tendo as raízes e troncos escondidos na água. os vencidos também ficaram arrancados. dividirem-se em colônias mui distantes uns dos outros. e alguma caça de aves e montaria de porcos. assim que uns e outros ficaram gente arrancada. comunicando e confundindo em si as águas e como unindo e conjurando as forças para este roubo que fizeram àquela terra: Cujus diripuerunt flumina terram ejus. como se disséssemos os náuticos. outros. Quando os Portugueses conquistaram as terras de Pernambuco. Conhecidos já pela fortuna os descreve o Profeta. onde fizeram assento. cuja colheita é muito 1impa. ainda que o rio das Amazonas tenha fama de tão enorme grandeza. de quem se diz com propriedade que andam mais com as mãos que com os pés. restituindo-lhes os rios a terra que lhes roubaram. que nos mesmos lugares sobre-aguados.Anexo:Imprimir/ História do Futuro levantadas sobre esteios a que chamam juraus para que nas maiores enchentes passem as águas por baixo. desenganados os Índios (que eram mui valentes e resistiram por muitos anos) que não podiam prevalecer contra as nossas armas. porque caem todos na água. ficando em suas próprias terras. os artífices ou os senhores das naus Diz pois Isaías que esta gente de que fala é um povo: Quae mittit in mare legatos et in vasis papyri super aquas: «Que manda de uma parte para outra seus negociantes em vasos de cascas de árvores sobre as águas. toda esta se compõe do concurso de muitos outros rios. e ali como soldados tão exercitados com o mais poderoso inimigo. E nota o Profeta que não é rio. e deste nome igara derivaram a denominação de Igaruanas. se chamam na sua língua igara. se ceva nos frutos delas. muitos deles fugiram em magotes pelos matos e pelos rios tomando diferentes caminhos. uns deles se sujeitaram. Continua Isaías a sua descrição. Goianás. como gente nascida e mais criada na água que na terra. e uns e outros gente despedaçada: gentem conculcatam et dilaceratam. Desta peregrinação e desta guerra se seguiram naquela gente os dois efeitos que sinala Isaías. nos frutos agrestes das árvores de que se sustentam. senão rios. além de outro pescado menor. se meteram pelo sertão. não podendo resistir. por serem eles. e em muita quantidade de tartarugas e peixes-bois. e também despedaçados. porque as suas embarcações. que são os gados que pastam naqueles campos. se chamam Igaruanas. tomando o nome da mesma arte de navegar e das mesmas embarcações em que lá navegavam. de que os primeiros usavam. ficando uma e outra gente arrancada e despedaçada: os vencedores arrancados.

que quer dizer. ou cretitáculos. servindo-se dos menores nas festas e nos bailes e dos maiores nas guerras. e uma e outra cousa significam as palavras de Isaías. se há-de supor que a palavra latina cymbalum. o que tudo quer dizer mar grande. porque o não tinham. Estes maracás eram propriamente os seus címbalos ou sinos. Diz mais que vão sobre as águas em vasos de cascas de árvores. Se são sinos. mar. crotalos et inania cymbala pulsas. porque é gente que não tem reis. com quem concorda o relativo quae. maracás ou sinos de metal.Anexo:Imprimir/ História do Futuro As palavras do Profeta todas têm mistério e todas declaram muito a propriedade da gente de que fala. no comentário literal deste lugar de Isaías. em lugar de terrae cvmbalo alarum. e de aqui veio o nome que os Portugueses lhe puseram de Grão-Pará ou Maranhão. senão tinham as notícias nem a língua dela? Para inteligência do verdadeiro entendimento deste texto ou enigma. significa também qualquer instrumento com que se faz som e estrondo e tais eram os címbalos de que usavam antigamente os Gentios. o qual foi sempre o que maior trabalho deu aos intérpretes e os obrigou a dizerem cousas mui violentas e impróprias. de água doce. de que o autor desta explicação viu alguma que tinha dezessete palmos de boca e cento de comprimento. E não faz dúvida dizer o profeta que estas embarcações iam ao mar: Qui mittit in mare. leram terrae navium alis. Diz que as manda o povo. por sua grandeza. que está nas primeiras palavras deste texto: Vae terrae cymbalo alarum. porque. porque os nomes hebreus de que estas versões foram tiradas. cujos troncos são muito altos e direitos.. diz assim: Fortasse indicus usus nominis cymbali antiquitas inolevit apud Hebraeos tempore Isaiae: 90 . delas formavam as suas embarcações. porque Pará significa mar. ai da terra que tem sinos com asas. tirando-lhes as cascas assim inteiras. foi Gabriel Palácio. lhes chamam itamaracás. senão de cabaços ou cocos grandes. e por nome geral cimbalos. se chama na sua língua. Isto suposto. que tudo isso quer dizer a palavra legatos. como para os da guerra. quae reducem sistris cretitantibus apim Concelebras. mas o mesmo povo e a mesma nação é a que elege aqueles que lhes parecem de melhor talento. cavam os troncos das árvores e fazem de um só madeiro muito grandes canoas. assim para os negócios da paz. mas como podia ser que entendessem o enigma da terra. como são navios? e se são navios. têm ambas as significações e querem dizer: Ai da terra que tem navios com asas. depois que viram os sinos de que nós usamos. Depois que tiveram uso do ferro. Os Setenta Intérpretes. porque esta era a matéria e fábrica de suas embarcações. e. ou. dentro dos quais metiam seixos ou caroços de várias frutas. e não adivinhavam nem podiam. Também se há-de supor que os Maranhões usavam de uns instrumentos a que chamavam maracás não de metal. vertendo em verso este mesmo lugar de Isaías: Vae tibi. tanto assim que. Do que temos dito até aqui ficará mais fácil de entender aquele grande enigma do Profeta. duros e acomodados a fazer muito estrondo e ruído. que se chamavam por nomes particulares sistros crotalos. o qual. com que significamos os nossos sinos de metal.. mas antes de terem ferro despiam estes mesmos madeiros. Assim o explicou eruditamente Carpenteio. o expositor que mais foi rastejando o sentido verdadeiro que podia ter este enigma. além de entrarem com elas pelo mar Oceano. como são sinos? Esta dificuldade foi até agora o torcedor de todos os entendimentos dos expositores sagrados. como se pode ver nos autores da língua latina. como aqueles que falavam a adivinhar. o mesmo arquipélago que dizemos. de 1600 anos a esta parte.

punham na proa um destes maracás muito grandes. e deste modo fica decifrado e entendido o antiquíssimo e escuríssimo lugar e enigma de Isaías. gente da linha de linha. grandes e todos vermelhos. e principalmente quando vão à guerra. onde a Vulgata leu gentem expectantem expectantem. tirada a metáfora do nariz dos homens ou do bico das aves.Anexo:Imprimir/ História do Futuro «Porventura—diz ele—que no tempo de Isaías as embarcações dos Índios se chamariam entre os Hebreus sinos. de que há infinita quantidade. e as mesmas levavam penduradas dos gorupezes e maracás das proas. Os expositores todos dizem que estas asas eram as velas das embarcações e que são as asas dos navios. que chamam rostros. Mas não está ainda explicada toda a dificuldade ou propriedade do enigma. senão também os arcos e rodelas. da sua altura. ornando com elas todo o gênero de armas. ficam pontual e perpendicularmente bem debaixo da Linha Equinocial. quando iam às batalhas navais. tirado também o nome ou metáfora dos bicos das aves. e estas são pontualmente os maracàtins dos Maranhões. digo eu. porque não só levam empenadas as setas. e as partaz anas de pau e pedra que chamam fanga-penas.» E porque não seria antes. e a razão de darem este nome às suas maiores embarcações era porque. faziam um estrondo barbaramente bélico e horrível. se não tivera a própria e verdadeira. está também repetida no mesmo texto a palavra expectantem. chamavam àquelas canoas ou embarcações maiores maracàtim. conforme o poeta: Velorun pandimus alas. que têm o mesmo nome. empavezavam-se as canoas com asas vermelhas dos guarás. e este nome usam ainda hoje. é gentem lineae linea:. sem mistura de outra cor. além da Etiópia. destas penas se enfeitam quando se querem pôr bizarros. e particularmente o chamado guarás. Assim que vem a dizer Isaías que a terra de que fala é terra que usa embarcações que têm nomes de sinos. além do movimento natural das canoas e dos remeiros. é grande entre eles o uso das penas pela formosura das cores com que a natureza vestiu os pássaros. A qual explicação pudera ser bem admitida. com que vem a concluir o Profeta 91 . e bolindo de indústria com eles. navium alis. significa entre eles sino. Sanchez e outros muitos tão geralmente. nem têm panos. e porque a proa da canoa se chama tim. senão entre os mesmos Índios? Assim era e assim é. e quando a guerra era naval. Vatablo. e juntando a palavra tim com a palavra maracá. como dissemos. porque os Maranhões são aqueles que. Como aqueles gentios não tecem. quais eram ordinariamente as suas. Pagnino. como diz Foreiro. As maiores embarcações dos Maranhões chamam-se maracàtim. não porque este nome fosse usado entre os Hebreus. pelas pontas de ferro agudas que levavam nas proas. Digo pois que fala o texto de verdadeiras asas de aves. Nem mais nem menos que os Romanos às suas galés de guerra deram nomes de rostratas. E porque não faltasse a esta terra a demarcação ou arrumação. como dizem os geógrafos. que é propriedade por todos os títulos admirável. atados aos gorupezes ou paus compridos. que se chamassem sinos. porque diz o Profeta que estas embarcações ou estes sinos eram sinos e embarcações com asas: cymbalo alarum. e assim como a palavra lineae se repete. que. derivado o nome da palavra mararacá. a propriedade da letra hebréia. e com ele nomeiam os nossos navios. sendo certo que o Profeta não havia de dar por sinal e divisa daquelas embarcações uma cousa tão comum e universal em todas. cymbalo alarum. de que Isaías falava. ou tomassem nome de sinos as embarcações dos índios. e por isso o Profeta diz que todas estas cousas via e notava como tão novas: chamam as lanças sinos e sinos com asas: Navius alis.

possidebit civitates Austri. segundo fala muitas vezes nas espirituais conquistas dos Portugueses e nas gentes e nações que por seus pregadores se converteram à Fé. que o primeiro e principal intento que neles tiveram nossos piedosíssimos reis. que são as duas balizas que têm no meio a Portugal.Anexo:Imprimir/ História do Futuro o seu principal e total intento. No Brasil se começou a pregar a Fé no ano de 1550. Assim querem também que de Nabuco traga seu apelido a ilustre família dos Osórios. Escalona e outras. por ser parte desta província conquista sua. e que veio o mesmo Nabuco em pessoa a fazer esta guerra. esperando mais que todos os outros Brasis sessenta e cinco anos. há duas opiniões entre os autores. que delas havia de ter princípio. Destes hebreus. Isidoro Clário e os demais. e no Maranhão no ano de 1615. em que o conquistou Alexandre de Moura. que é exortar os pregadores evangélicos a que vão ser anjos da guarda daquela triste gente. e deles. padecendo aquele vae do Profeta: Vae terra: cymbalo alarum. como refere Josefo. a uma felicidade tão estranha. é conseqüência muito ajustada que da profecia do desterro passou. esperando. Desta transmigração pois (diz Montano e os mais acima alegados) se há-de entender o texto de Abdias. Pagnino. Toda a explicação é comum e certa entre todos os autores mais peritos da língua hebraica—Vatablo. Mas hoje estão ainda em pior fortuna. Deixo muitos outros lugares do Profeta Isaías. Maqueda. de ali mandou parte deles para Espanha. Frei Luís de Leon. angeli veloces. Porque entre todas as gentes do Brasil os Maranhões foram os últimos a quem chegaram as novas do Evangelho e o conhecimento do verdadeiro Deus. 92 . expectantem: gente que está esperando. foi fundação a insigne cidade de Toledo. que tanto há mister quem a encaminhe como quem a defenda: Ite. como testemunham de uma parte as Colunas de Hércules e de outra o cabo de Finis Terrae. que passou a Espanha. para consolação dos mesmos desterrados. quae in Bosphoro est. ou desterrados ou trazidos por Nabuco. Árias Montano. Diz agora o profeta Abdias que a transmigração de Jerusalém. qual é a que logo diremos. de El-Rei Dom João o II. significa termo. como se pode ver do que de El-Rei Dom Manuel. Mas sobre a transmigração de Jerusalém de que Abdias fala. em que o descobriu Pedro Álvares Cabral. tendo conquistado a Jerusalém e passado seus habitadores para Babilônia. Arias. ficaram muitos em Espanha. e como o Profeta própria e literalmente falava neste lugar do mesmo cativeiro de Babilônia. Esta mesma palavra Sepharad é nome com que os Hebreus chamam a Espanha. E esperam de se salvar os que de tantos danos e danos são causa? Muito largos temos sido na exposição deste texto. esperando por este bem. de que São Jerônimo verteu Bosphoro. Burgense. o qual verdadeiramente se pode contar entre os cronistas de Portugal. pela qual fortuna (como notou Santo Agostinho na morte dos infantes de Belém) não tiveram parte na morte de Cristo e conservaram sua antiga nobreza. limite e fim. mas foi assim necessário por sua dificuldade e por não estar até hoje entendido. porque em Espanha está o estreito que divide a Europa de África e Espanha era o termo. do Infante Dom Henrique. como escrevem muitas histórias de Espanha. A palavra hebréia Sepharad. Malvenda e outros têm para si que fala da transmigração de Nabucodonosor o qual. Lirano. mais que todos eles. ad gentem expectantem. limite e fim que os Antigos conheciam no Mundo. Estrabo e outros graves autores. porque o estado da esperança se Lhes tem trocado no de desesperação. de El-Rei Dom João o III e de El-Rei Dom Sebastião escrevem seus historiadores. O Profeta Abdias em um só capítulo que escreveu também falou das conquistas de Portugal: El transmigratio Hierusalem. que tanto tardou a todos os Americanos. viria tempo em que possuísse as cidades do Austro.

chamado Malaquias.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Nicolau de Lira. et colla gentium subjugantes. chamando por ele o ressuscitou em nome de Jesus Cristo. Assim o entendem também. e ele por meio de seus discípulos a converteu toda à Fé e desterrou dela a Gentilidade: Et transmigratio Hierusalem. e particularmente de uma carta de Hugo. id est in Hispania. Os filhos desta Igreja e herdeiros desta Fé foram os que dali a tantos anos dominaram com os estandartes dela as cidades e regiões do Austro. a quem vinha pregar e publicar por verdadeiro Deus. que é a primeira parte da profecia. porque de ambas as transmigrações foram os primeiros ministros da Fé que a plantaram em Portugal. em seus discípulos. ou Samuel. mas eu. Nosso Senhor. entre os quais coube Espanha a Sant'Iago. falando do Apóstolo Sant'Iago. tirada de autores e memórias mui antigas. conciliando facilmente estas duas opiniões e mostrando que a profecia se entende mais particularmente de Portugal. Vatablo. Hic venerat cum duodecim tributus missis a Nabuchodonosore in Hispaniam Hierosolymis duce Nabucho-Cerdan. que foi a pedra fundamental depois do sagrado Apóstolo da Igreja de Portugal. e que ali viera dar com outros cativos mandados de Babilônia por Nabucodonosor. vel Pyrrho. E cumprida em Sant'Iago a transmigração de Jerusalém. et ejus discipulos. bispo do Porto. depois chamado vulgarmente S. quem antiquum prophetam suscitavit Sanctus Jacobus Zebeduei filius. sendo estes os que depois de tantos séculos vieram a dominar e possuir as regiões do Austro: Possidebunt civitates Austri. etc. Fevardêncio e outros entendem por esta transmigração de Jerusalém a que fez Cristo. se cumpriu a segunda parte dela. entendendo uns que é a de Nabuco pelos Judeus passados à Espanha. cuja rainha 93 . que são os que em Espanha receberam e conservaram sempre a Fé que ele lhes tinha pregado. batizou-o pouco depois. onde jacia enterrado de seiscentos anos um santo profeta. e à esquerda pela costa de África à Etiópia. De sorte que ambas as transmigrações de Jerusalém concorrem para a fé de Portugal: a de Cristo com o Apóstolo Santiago. Bracharensem Episcopum. e são as seguintes: Ego novi sanctum Petrum. diz desta maneira: Entrou em Braga o santo Apóstolo. que por isso não traduzimos. O fundamento que tenho para assim o dizer. Pedro de Rates. o moço e em presença de infinito povo. o qual. Hispaniarum praefecto. seguindo esta segunda exposição. ibi fidem Christi primitus praedicantes. Antônio Caracciolo e outros.. e outros que é a de Cristo pelos Apóstolos. se foi a uma sepultura célebre. judeu de nação. de onde ela depois tão felizmente se transplantou às regiões do Austro. De maneira que todos estes autores concordam em que a profecia da conquista das regiões do Austro se entende de Espanha. o velho. Cornélio. o qual conheceu ao mesmo Pedro ressuscitado e escreveu o caso quase pelas mesmas palavras. quae in Bosphoro est (diz Lirano) in hebraeo habetur in Cepharad. Até aqui esta maravilhosa história. na primeira parte da História Ecclesiastica Bracharense. o escolheu e tomou por primeiro e principal de todos seus discípulos. Rodrigo da Cunha. bispo de Saragoça. mandando daquela cidade e espalhando por todo o Mundo seus Apóstolos. à parte direita pela costa da América ou Brasil. e discordam só na inteligência da transmigração de Jerusalém. e dando-lhe o nome de Pedro. porei aqui com as palavras do arcebispo D.. magister meus. e dos fragmentos de Santo Atanásio. que são propriissimamente as que correm de uma e outra parte do Oceano Austral. digo que falou o Profeta de uma e outra transmigração. e para entrar com estrondo de trovão (cujo filho o chamara Cristo. quod fuit impletum per Jacobum apostolum. ubi dicit Rabbi Sa. e a de Nabuco com o Apóstolo Malaquias. quando vieram pregar a ela. José da Costa.

do demônio e do pecado. que também foi naval. que o mar submeteria suas ondas: Gurges aquarum transiit: que os abismos confessariam a potência de Cristo as vozes: Dedit abyssus vocem suam.. que é o 2° do liv. que El-Rei D. aqueles cavaleiros que pisaram as ondas do mar. (Ibid. que ou Cristo lhe sujeitou a eles. por si mesma e na opinião do Mundo tem [esta] cavalaria [tanto valimento. com as mãos levantadas o adorariam e reconheceriam por Senhor: Altitudo manus suas levavit. senão ainda os estrangeiros. Assim se cumpriu nos Portugueses a profecia de Abdias: Transmigratio. não era para matar os homens.] que não só os mesmos Portugueses. 15. Dinis. Brasilicam.. Os Portugueses. para esta guerra dos Infiéis ordenou e novamente constituiu. senão para os salvar. Década I.ascendes super equos tuos: et quadrigae tuae salvatio. para que pisasse as ondas.. como os cavalos pisam o lodo da terra: In Iuto aquarum multarum. E mais abaixo no mesmo cap. furioso e indignado. e último deste Profeta. e as naus dos Portugueses. Henrique) outra cousa muito mais eficaz. tem por assunto o triunfo de Cristo. triunfar deles: Equitatio tua salus. seu tresavo. e estas são as terras de que no comento deste texto faz menção Cornélio: Americam. in luto aquarum multarum. Faz muito ao caso advertir o que escreve o nosso insigne historiador destas conquistas.°: Viam fecisti in mari equis tuis. hoc est. de que usou o Profeta (deixando à parte haver sido esta empresa dos primeiros descobrimentos e conquistas dos Portugueses). e que a guerra que com esta cavalaria havia de fazer. que é a matéria de todo o III cap. I. soberbo. há-de ser eterna a vossa indignação no mar?» E responde a esta sua pergunta. 8. E esperamos que seja novo complemento dela o domínio da terra indômita. E no v. AEthiopiam. ou eles o sujeitaram também a Cristo.° . O Cântico de Habacuc. Isto quer dizer 0 Profeta no v. Mas para que se veja o grande mistério desta metáfora de cavalaria de Cristo. com que por meio da sua cruz triunfou um dia da morte. e os méritos de seu trabalho ficassem metidos na Ordem e Cavalaria de Cristo que ele governava. como lemos que o fizeram alguns de Alemanha e Dinamarca. diz Santo Agostinho. para que o reconhecesse e adorasse. e verdadeiramente não se podia dizer cousa mais apropriada aos Portugueses. faziam grande apreço de se armarem nela cavaleiros. do que eram os reinos de Fez e Marrocos. e este da sua cavalaria o primeiro triunfo. aquelas carroças que levavam pelo mar a Fé. e salvando-os. possidebit civitates Austri. Os Portugueses foram aqueles cavaleiros a quem Cristo abriu o primeiro caminho pelo mar: Viam fecisti in mari equis tuis. de cujo 94 . com que a despesa deste caso fosse própria dele e não taxada por outrem. E a primeira empresa e vitória desta cavalaria de Cristo foi a sujeição do mesmo mar bravo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Sabá chamou Cristo Regina Austri. a salvação: Et quadrigae tuae salvatio. O mesmo Profeta o disse assim: Numquid in mari indignatio tua?» «Porventura. Que abriu Cristo caminho pelo mar à sua cavalaria.) e que as suas alturas ou profundidades. Africam. que quero pôr aqui por suas próprias palavras): Mas ainda foi acerca dele (fala do Infante D.a: Assentou em mudar esta conquista para outras partes mais remotas de Espanha. pertence principalmente aos Portugueses. por meio de cuja navegação e pregação sujeitou Cristo à obediência de seu império tantas gentes de ambos os mundos. quae est in Hispania. evangelistae tui portabunt te. que era a obrigação do cargo e administração que tinha de governador da Ordem da Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo. e esta foi a primeira vitória de Cristo. geralmente chamada Terra Austral.°. e depois em vários tempos foi triunfando da idolatria e da gentilidade. A parte marítima deste triunfo. conforme a disposição da sua providência. ó Senhor.

não só tem a formosura da metáfora. e que tanto adiantou em nossas Conquistas a glória de sua empresa.:>> E este novo conhecimento que Deus deu àquelas nações por meio dos 95 . cujos primeiros trabalhos foram os da navegação da costa de África e pregação da Fé em Moçambique. que mais assombrasse e fizesse pasmar aos homens que o descobrimento do mesmo Mundo que tantos mil anos tinha estado incógnito e ignorado. com que deu princípio a este cântico triunfal das vitórias de Cristo: Domine. Os Setenta. acrescentando por modo de glosa no mesmo texto: Consideravi opera tua. senão a propriedade do caso. para levar a salvação às terras e gentes que ela descobriu e conquistou. não pode haver melhor testemunho que o proêmio do mesmo Profeta. misericordiae recordaberis. E porque o maior ministro do Evangelho que se embarcou nas carroças desta cavalaria. a quem S. e para que se não admirem quando lhes dissermos que os tem escolhido para outras maiores. nem de que sobre os dotes da glória se vestisse o seu manto e a sua cruz. senão com as rendas e tesouros da mesma cavalaria e serviços e merecimentos próprios dela. sem lhes amanhecerem as luzes da Fé. De sorte que dizer o Profeta que Cristo havia de abrir caminho no mar à sua cavalaria. traduzindo juntamente e explicando leram: Cum appropinquaverint anni. e para que os Portugueses conheçam quanto devem a Deus.Anexo:Imprimir/ História do Futuro tesouro podia pretender. e feita. da Ordem dos Cavaleiros de Cristo de Portugal. se conta uma visão em que o mesmo santo apóstolo apareceu vestido com o manto branco da Ordem de Cristo e com cruz vermelha no peito. onde padeceu glorioso martírio. et expavi). não havendo outra entre todas as da Cristandade. nem que maior nem mais justo temor deva causar aos que bem ponderarem esta obra. que a consideração dos ocultos juízos de Deus. foi o grande Apóstolo da Índia S. pelos escolher para instrumentos de obras tão admiráveis. Porque não houve obra de Deus. e que a empresa havia de ser a salvação das almas. não de outro príncipe. e que então tornaria o Senhor a vivificar e ressuscitar a sua obra: Opus tuum. In medio annorum notum facies: cum iratus fueris. que também ele foi cavaleiro da mesma Ordem. Francisco Xavier restituiu milagrosamente a vida. então sereis conhecido. que se possa gloriar de ter tão ilustre cavaleiro. não com outras despesas. tantas gentes e tanta s almas vivessem nas trevas da infidelidade. pois verdadeiramente esta admirável empresa foi obra. «Quando chegarem os anos determinados por vossa providência. com que por tantos séculos permitiu que tão grande parte do Mundo. Francisco Xavier. tanto mundo e tantas almas conquistou para o mesmo Céu. Na História do P. e a verdade da história e cumprimento da profecia. (começa ele) audivi auditionem tuam et timui. opus tuum in medio annoram vivifica illud. diz que ficou cheio de temor e assombro ( assim o interpretaram os Setenta . cognosceris. mas todo este favor do Céu merece uma cavalaria que tanto mar. diz o Profeta que faria Deus que se descobrisse e conhecesse o que até então estava oculto: In medio annorum notum facies. por certo. tão breve noite para os corpos e tão comprida noite para as almas. como insigne cavaleiro desta santa cavalaria. em fim se lembraria de sua misericórdia: Cum iratus fueris. senão de um que era propriamente administrador e governador da Ordem da Cavalaria de Cristo. é cousa memorável e muito digna de se referir neste lugar. Quando Deus revelou ao Profeta e quando ouviu de sua boca o que havia de fazer aos vindouros. misericordiae recordaberis. depois do princípio e criação do Mundo. Para confirmação de tudo isto.e Marcelo Mastrilli. Mas no meio desses compridíssimos anos. Domine. para que a fosse dar por Cristo no Japão. in medio annorum vivifica illud. Singular prerrogativa. e que tendo durado tantos séculos sua ira contra aquelas gentes idólatras.

Assim o profetizou na Índia seu primeiro Apostolo. Igual glória (e não sei se maior de Portugal) a da Índia. chegou ao lugar sinalado. sempre o oráculo ou elogio deste Profeta nos fica em casa. Castro e Cornélio das nações que estão além do Tigres e do Eufrates. e já os Apóstolos plantavam as balizas da fé em seu nome e conheciam e pregavam que ele era o que havia de fazer cristão ao Mundo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro nossos apóstolos e pregadores da sua Fé foi tornar a ressuscitar a mesma obra. Lembre-se outra vez Portugal destas obrigações. desde Guiné até o mar Roxo. porque o mar. porque os da . segundo o que acima deixamos dito. chamada por isso Etiópia. filii dispersorum meorum deferent munus mihi. O Profeta Sofonias. «Vós. que de outro modo se não podem bem entender. isto é. E o mesmo profeta mais abaixo se comenta a si mesmo. que ainda tivesse a S. crespissimos inter homines habent. III. e só se distinguiam uns dos outros no som da voz e no cabelo. que verdadeiramente falam das gentes que estão além do rio da Etiópia: Ultra flumina AEthiopiae inde supplices mei. comendo pouco a pouco a terra. As palavras de Heródoto são estas: Hi AEthiopes. Éforo. que por meio das pregações dos Portugueses se haviam de ajoelhar diante dos altares de Cristo e lhe haviam de levar e oferecer seus dons em testemunho de o reconhecerem por seu Deus. donde era a mulher de Moisés. De sorte que também havia Etíopes na Ásia. então famosíssima. como são hoje os que se conservam com o mesmo nome na África. segundo Estrabo. Heródoto e outros. por meio de cuja pregação ressuscitaria também a Fé e as vitórias dela naquelas nações. que são todas aquelas terras que cerca o mar Oceano. como traslada Símaco: Reviviscere fac ipsum. dos Chinas. e de quanto lhe merece Cristo. Tomé. permixtos crines. que estava na Ásia além do Tigres e Eufrates. Lhes disse e mandou esculpir no pé dela. Logo. a mesma Fé e o mesmo Cristo que ele pregava. ou por ele Deus) inde supplices mei. quando na cidade de Meliapor. a qual distinção não não só é necessária para o entendimento de muitos lugares das Escrituras. Digo que de uma e outra terra. que tinha começado pelos primeiros apóstolos que naquelas mesmas terras a pregaram. e outra ocidental. tornareis a ressuscitar o vosso arco» (que é a sua cruz). atque capillatura. dizendo: Suscitans suscitatis arcum. não se pode entender este texto das gentes orientais. Cumpriu-se pontualmente a profecia. Japões e outras gentes da Índia menos remotas. no cap. qui ex Africa. levantando uma cruz de pedra em lugar distante das praias. Por este argumento há outros autores que o entendem do Brasil e da América.Ásia tinham o cabelo solto e corredio e os da África crespo e retorcido. que pregassem a mesma Cruz. debaixo do mesmo nome de Etiópia se compreendiam antigamente duas Etiópias: uma oriental. que quando o mar ali chegasse. e no mesmo tempo chegaram os Portugueses. mas contra esta explicação parece que se opõem as primeiras palavras do texto. Vatablo. Isto quer dizer: Opus tuum vivifica illud: ou. chegariam também de partes remotíssimas do Ocidente outros homens da sua cor. na África. tuum. não menos que doze léguas. também falou mui particularmente neste glorioso assunto: Ultra flumina AEthiopiae (diz ele. e com o tempo estava em algumas partes amortecida e em outras totalmente morta. sub Pharnarzatre. Senhor. e de uma e outra gente se pode entender. sed sono vocis dumtaxat. S. qui sunt ab ortu Solis. censebantur cum Indiis specie nihil admodum a caeteris differentes. As quais palavras entendem Árias. 96 . senão ainda dos historiadores e poetas antigos. Tomé por seu apóstolo e Portugal não era de todo cristão. E a razão é porque. Nam AEthiopes qui ab ortu Solis sunt. e posto de um e outro modo.

para aparelhar o caminho aos reis do Oriente». por ser o mais profundo e mais caudaloso da Saia. então se há-de entender determinadamente ou só da Etiópia Oriental ou só da Ocidental. para levarem nelas a Fé ao Oriente e trazerem tantos reis orientais à obediência e sujeição da Igreja. senão o doutíssimo Genebrardo. e a sua terra Ethiopia. Este anjo forte (diz Pedro Bulêngero) é Cristo. diz S. que é a Igreja. principalmente acompanhado daqueles dois epítetos de alusão a grandeza: Illud magnum Euphatem. e é o mais honrado nome e de maior estimação que lhes podia dar. de que usa indistintamente o original hebreu. e os que depois passaram à África e a povoaram. O maior impedimento de água que tinham os reis do Oriente para passar a Jerusalém.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Nem faça dúvida a esta distinção a palavra Chus. Os descendentes deste mesmo Membrot e deste mesmo Chus. o Evangelho explicado. filho de Chus e neto de Cham. Neste basta dizer que tinha na mão um livro aberto: Et habebut in manu sua libellum apertum. deu o nome de seu pai às terras orientais. cabeça da Igreja. os pregadores apostólicos que levam pelo Mundo ao mesmo Cristo e seu Evangelho. por excelência os Portugueses. não é muito que S. e este impedimento diz S. como diz Éforo. pelo qual se abriu caminho aos reis do Oriente. que nós pode ser expliquemos em outro lugar. donde se segue que o pé direito que Cristo pôs sobre o mar para esta gloriosa e evangélica empresa. João que se lhes havia tirar. que está sobre a terra. o livro. são. XVI. Mas debaixo das figuras deste enigma se significava outra melhor Jerusalém. assim uns e outros na língua hebréia se chamam Chuteos e a sua terra Chus. entre todas as nações do Mundo. como nós fizemos no texto de Isaías ultimamente referido. 0 diz assim sobre este mesmo lugar do Apocacalipse. donde nós lemos AEthiopae. entre os quais o pé esquerdo. Assim como o Profeta Jeremias chamou ao Eufrates mar. de modo que se pudesse passar o Eufrates a pé enxuto. João: Et sextus angelus effudit phialam suam in flumen illud magnum Euphraten: et siccovit aquam ejus. o pé direito. porque Membrot. que é o mar Oceano. os que. que está sobre o mar. e os pés de seu corpo místico. mas nomeou-os por suas obras. para que pudessem vir à Igreja. No cap. Não sou eu nem autor português (como quase todos os que até agora tenho alegado) o que isto digo. que é Roma. levaram consigo o nome que tinham herdado de seu pai e de seu avô. levam a elas a Fé de Cristo e a luz de seu Evangelho. Não os nomeou por seu nome este autor. cujas insígnias descreve largamente . 97 . e assim como uns e outros na língua latina se chamam AEthiopes. são aqueles que. e outro melhor Eufrates. João chamasse ao mar Eufrates. O mesmo Evangelista Profeta S João. X. Donde se segue que quando na Escritura se acha este nome sem outra diferença. (como neste lugar de Sofonias) se pode entender de qualquer das Etiópias. pelo qual os Portugueses (maior façanha e ventura que a do outro Ciro) fizeram passagem a pé enxuto nas suas grandes naus da Índia. falando em geral dos Espanhóis e em particular dos Portugueses. onde habitou e povoou. ut praepararetur via regibus ab ortu Solis: Que «o sexto anjo derramou sua redoma sobre aquele grande rio Eufrates e que secou suas águas. insigne professor parisiense das Letras Sagradas. referido por Estrabo. a quem só pertence a conversão dos reis do Oriente. sem saírem da terra firme pregaram nela. 12. navegando às regiões apartadas e remotas do nosso hemisfério. diz que viu descer do Céu um anjo forte. E este grande Eufrates é aquele grande mar. do Apocalipse. e que pôs o pé esquerdo sobre a terra e o direito sobre o mar: Et posuit pedem suum dextrum super mare et sinistrum super terram. era o rio Eufrates. no cap. porém quando se ajuntem na história ou narração algumas diferenças que o determinem.

permultique proceres et optimates sub anno Domini I564. como haviam de entender as profecias destas navegações e destes mares? Se queriam que a zona tórrida era um perpétuo incêndio. pelas minas e seus metais. falavam os seus oráculos e profecias? Se criam tão firme e assentadamente que não havia nem podia haver antípodas. nem suas histórias? Se declaram as terras pelos sítios. suas propriedades. explicados por autores que escreveram de cem anos a esta parte. et infideles sunt. das árvores. se não sabiam que havia América? Como dos Brasis. dos rios. das gentes. Ali veremos as admiráveis propriedades e miudíssimas circunstâncias com que os mesmos Profetas falaram dos mares. das minas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro explicando-se com as palavras seguintes: Istud nostra memoria factum videmus.000. se têm passado à verdadeira religião. et integrae civitates sacro sunt ablutae baptismate. costumes. alegando a Súrio). adoram e servem. como haviam de interpretar as profecias dos habitadores da zona tórrida? Como haviam de cuidar. mas nem ainda presumidas ou imaginadas deles. seus exercícios e seus costumes. com o pé direito no mar e o livro na mão direita! No capítulo seguinte se verão muitos lugares de vários Profetas. e são infiéis e gentios. «Em cumprimento desta profecia (diz Bulêngero. se não havia Brasil? Como dos Peruanos e Chiles. em que entraram os príncipes e reis e muitos grandes senhores. dos costumes. de tal maneira os Índios abraçaram a doutrina cristã e católica. quae quidem regna a nobis longe dissita el incognitae regiones teterrimo daemonum cultui additae sunt. porque os Chinas. pelos frutos. e em outras muitas ilhas e terras. como haviam de vir em conhecimento dessas gentes e desses reinos os que não podiam saber sua natureza. das ilhas. das terras. com que por meio dos pregadores de Cristo o haviam finalmente de conhecer. que pertencem às antigas Índias. se não sabiam que havia tal Etiópia? Como dos Japões. adorar e servir. receberam a Fé de Cristo em número de 8.>> Tão facilmente triunfa Cristo pela voz e espada dos Portugueses. pelos rios. dos frutos. deinde multa Indorum insulae et regiones christianam. qui populi ad veteres Índias expectant. e sobre tudo da Fé e luz do Evangelho. e destas terras. se não sabiam que havia Peru nem Chile? Como haviam de interpretar os Profetas das ilhas desertas ou povoadas do Oceano. depois que por meio da navegação do mar Oceano se quebrou o fabuloso encantamento dos negados antípodas e se descobriram tantas terras e gentes. (relicto daemonum cultu. não só incógnitas aos Antigos. deixando o culto da idolatria no ano de I564. como podiam explicar as profecias dos antípodas? Se criam que a imensidade do mar Oceano não era navegável e tinham este pensamento por absurdo. que as cidades se batizaram. opera patrum Societatis nominis Jesu ad Christi religionem traducta sunt. Sinenses enim. Christi Jesu fidem susceperunt. da cegueira e infelicidade em que viviam. vemos que os reinos e regiões muito apartadas de nós. que adoravam nos ídolos aos demônios. como hoje. nem lhes havia de vir ao pensamento que os Profetas falavam dos Americanos. se não sabiam que havia China? Se os Profetas nas figuras enigmáticas dos seus oráculos se declaram pela natureza. e totalmente abrasada e inabitável. como podiam conhecer nem atinar com as terras os que não 98 . e destes mares. pelas árvores. catholicamque amplexerunt doctrinam. Agora só pergunto: Como era possível que aqueles antigos e antiquíssimos autores explicassem neste sentido aos Profetas? Ou como podiam entender nem perceber que destas gentes. propriedade. se não sabiam que havia Japões? Como dos Chinas. se não sabiam que havia no Mundo tais ilhas? Como dos Etíopes ocidentais. pela indústria dos padres da Companhia de Jesus. dos sítios. com tanta glória da Igreja. ad octo millia primum) et in his reges et princites. conhecem. exercícios e histórias das gentes e reinos de que falam. das navegações.

e Deus não será senhor de reservar os seus. em que nenhuma destas cousas se sabia nem se imaginava. que para eles fossem ocultas. é obrigação e força que digamos ou suponhamos dos teólogos antigos. nem de tais frutos? E se ainda hoje. que agravos ou descréditos é ou pode ser dos antigos sábios. como verdadeiramente eram. estivessem ignoradas e invisíveis por tantos séculos. de tais árvores. visibilia fiant. Paulo que acomodou Deus e repartiu os séculos conforme os decretos da sua palavra. Destas terras ultramarinas. e as gentes que o habitavam. assim se entenderam e descobriram também os segredos e mistérios de suas profecias. se ignorasse. antes de chegar o tempo em que Deus tinha determinado de o revelar? O cântico do profeta Habacuc. porque sabiam a geografia do seu mundo e não podiam saber nem adivinhar a do nosso. este segredo é só para mim. mas esta revelação. ut ex invisibilibus. de tais minas. em que tinha decretado que se soubessem e descobrissem. E logo acrescentou: Secretum meum mihi.. e que depois chegasse um século em que se descobrissem e fossem visíveis.Anexo:Imprimir/ História do Futuro tinham notícia de tais sítios. e assim como. in insulis maris nomen Domini.» E se na mesma profecia estavam profetizadas as cousas. romana e espanhola.. para que cousas invisíveis se fizessem visíveis: Fide intelligimus aptata esse saecula verbo Dei. E se o conselho de Deus foi que o entendimento ou de todas ou de muitas cousas que ali contou o Profeta. por onde não é muito que tanta parte do Mundo. incógnitas ou ignoradas? Podem os homens ocultar os seus segredos. quando disse no cap. depois de descobertas e conhecidas estas terras e estas gentes. que também trata destes novos descobrimentos ou triunfos da Fé e da conversão destas gentes. encobertas e incógnitas. corrida esta cortina. se descobriram e manifestaram as terras e gentes de que tinham falado os Profetas. e mais o segredo delas.in doctrinis glorificate Dominum. e estivessem ocultas até àqueles tempos medidos e taxados por ele. depois do Mundo estar tão descoberto e conhecido. Só por nova revelação e luz sobrenatural podiam conhecer os autores daquele tempo o que nós tão fácil e naturalmente conhecemos hoje. falava Isaías. sem agravo. ainda por falta de notícias mais particulares e miúdas. sendo ele mestre em Teologia: La falta de Geographia v la de otras artes liberales es causa que los teologos non atinem con el sentido de la divina Escritura. por doutíssimos e sapientíssimos que fossem. e que a mesma Providência tinha decretado que se não soubessem por revelação? LAUS DEO 99 . Diz o Apóstolo S. esta luz e posto que fossem varões santíssimos e tão favorecidos de Deus. porque era disposição mui assentada da sua providência que estas cousas se não soubessem. trabalhando por explicar de Espanha certo lugar de Isaías. de tais rios. nem menos decoro de sua erudição e grande sabedoria. que seriam na confusão escuríssima da Antigüidade. não quis o mesmo Deus que eles então a tivessem. E isto que se não pode dizer dos teólogos do nosso tempo sem grande nota de sua ciência e diligência. secretum meum mihi: «Este segredo é só para mim. sendo logo certo que estes segredos da Providência Divina se não podiam alcançar por ciência humana. Dei Israel. e se terem escrito tantos livros de sua história natural e política. tem por título Pro ignorantiis. XXIV: . como podia ser que contra a verdade infalível da profecia soubessem os Antigos deste segredo. diz assim dos teólogos. antes as contrárias delas se tinham por averiguadas e certas? Frei João de la Puente. se não acerta mais que em comum e individualmente com algumas das terras e gentes de que os profetas falaram. naquele seu erudito livro da Conveniência das duas monarquias.

perto de mil e trezentos anos. Porque sem recorrer à memória dos tempos passados. O terceiro Império. e quais sejam em ordem os outros quatro que lhe deram este lugar ou este nome. o da Etiópia. se o considerarmos como monarquia. em respeito ou suposição dos quais este novo de que falamos se chama Quinto. Na Ásia. . a que depois com nome menos odioso chamaram Império. entrando neste número Semearmos. segundo Justiço. o de Alemanha. contou por todos catorze imperadores. pois pode ser mais breve a vida de um império que a de . Havendo. só trata do primeiro que se começou e levantou nele. Alexandre o começou e acabou em Alexandre. a primeira cousa que se oferece para averiguar e saber é que impérios tenham sido ou hajam de ser os outros quatro. acabou em Dario. o vastíssimo Império da China. o do Persa. foi o primeiro que ensinou ao Mundo e introduziu nele a tirania. Ao império dos Assírios sucedeu o dos Persas pelos anos da criação 3444. conhecemos hoje nele muito maior número de impérios. sem fazer caso de muitos e grandes impérios que floresceram e haviam de florescer em vários tempos e lugares do Mundo. senão fundado e tirado das Escrituras divinas. Tantos anos tardou a ambição em romper o respeito àquela lei com que nos fez iguais a todas a natureza. 37 imperadores. com razão se deve duvidar e desejar saber a causa pôr que este nosso Império que prometemos recebe o numero de Quinto. tão poderoso e formidável. homem. que foi o dos Gregos. Belo. o dos Tártaros. de que foi o último Sardanapalo. Começou este Império dos Gregos depois pelos anos do Mundo 3672. ainda durou menos. reduzindo a sujeição e obediência política a liberdade natural com que todos até aquele tempo nasciam. na Europa. Ao que respondemos breve e facilmente que este modo de contar não é nosso nem de algum outro historiador ou autor humano. Começou em Ciro.um. e pondo somente os olhos no mundo presente. em que sem o nome. Esta sucessão e seu princípio foi desta maneira. castigo tão merecido a sua soberba como necessário à propagação do gênero humano e à o mesma grandeza que aspiravam. e sendo tantos mais os de nações bárbaras e políticas que em diversos tempos do Mundo se têm levantado e caído. e o de Espanha. posto que arruinada e combatida. tão unido. e dos que em continuada sucessão se lhe foram seguindo até o tempo presente. se sustenta a grandeza. mais que duzentos e trinta anos. pois ainda nesta nossa idade tantos impérios. depois que a confusão das línguas na torre de Babel dividiu seus fabricantes em diversas partes da terra. filho do gigante Nembrot (posto que não faltam graves autores que fazem destes dois nomes o mesmo homem). Não durou. durou. na África. conforme Eusébio. História do Futuro (Volume II. os quais em espaço quase de quatro mil anos têm sido com este quatro. 3800 antes do presente de 1664 em que isto escrevemos. e em todas estas três partes do Mundo o violento Império dos Turcos. Capítulo II) por Padre Antônio Vieira Correndo os anos de 1860 da criação do Mundo. o do Mogor. Capítulo I) por Padre Antônio Vieira Entrando a tratar do Quinto Império do Mundo (grande assunto deste nosso pequeno trabalho) para que procedamos com a distinção e clareza tão necessária em toda a história e muito mais neste gênero. Foi este império de Belo o dos Assírios ou Babilônios. cuja história profética.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 100 História do Futuro (Volume II. tão estendido. teve. em que sem a grandeza se continua o nome. para que vejam e conheçam as coroas quanto é grande a sua mortalidade.

como também nós a não fazemos. por muitos que hajam sido. por isso as Escrituras Sagradas não fazem menção nem memória alguma deles. dividiu o Império. para melhor governo. chamamos Império Quinto ao novo e futuro que mostrará o discurso desta nossa História. se dividiu em três reinos: o da Ásia. ficando fora da mesma ordem. O do Ocidente. o Grego ao Persa e o Persa ao Assírio. porque. governado e não defendido pela celebrada Cleópatra. assim este nosso Império. o ajuntou Marco Antônio à grandeza romana. porque há-de suceder ao dos Assírios. sendo sitiado e vencido por Maomete II. se passou o governo a exarcas. em que contou oitenta e quatro imperadores. e o das Gregos se chama o terceiro. tem contado noventa imperadores até Fernando III. E assim como o Império dos Persas se chama o segundo Império. quando não fora tão necessária para o ponto em que estamos. e porque todos os outros Impérios. eleito Carlos Magno em imperador do Ocidente.perdeu a vida e a cidade e sepultou consigo todo o Império. e. até que. depois daquela divisão. em Império Oriental e Ocidental. e com grande valor e zelo da Cristandade está resistindo-se (queira o Céu que seja com melhor ventura!) a outro Maomete. porque sucedeu ao dos Assírios e dos Persas. e o não pusemos no corpo da história por não embaraçar o desenho dela.à margem. pois. o qual. posto que em matéria tão 101 . antes deles acabados. que vão citadas . ao dos Persas e ao dos Gregos. que hoje reina. por grandes e poderosos que fossem. Gregos e Romanos (como logo veremos) se deve chamar com a mesma razão e propriedade o Quinto Império do Mundo. cuja notícia. Persas. porque sucedeu ao dos Assírios. o Império Romano com toda a inteireza de sua monarquia 400 anos. para melhor entendimento de tudo o que se há-de dizer adiante. e o dos Romanos se chama o quarto. sempre era muito conveniente dar-se logo neste princípio. até que. Em respeito pois e suposição destes quatro impérios. podem acrescentar número ou lagar ao novo Império com que mude ou exceda o que lhe damos de Quinto. cujo Império começou com este nome em Júlio César.a Alemanha. fundando nova corte em Constantinopla. Tudo o que até aqui fica dito são suposições certas e sem dúvida. e este (que foi o que mais permaneceu) continuou com desigual fortuna trezentos anos. Havia já neste tempo setecentos anos que Rômulo levantara junto ao rio Tibre aquelas primeiras choupanas que depois se chamaram Roma. Sustentou-se o Império Oriental por espaço de quatro mil anos. o qual se há-de seguir ao Império Romano na mesma forma de sucessão em que o Romano se seguiu ao Grego. o do Egito. de que foi o último outro Constantino de muito diferente fortuna. Nem eles. trinta anos antes do nascimento de Cristo. sendo governado alguns anos por imperador com igual jurdição e majestade. tiradas de diferentes lugares do Texto Sagrado. Autores que dizem o mesmo. porque sucedeu ao dos Assírios. dentro em Constantinopla . ficaram fora da ordem desta sucessão. que foi o primeiro do Mundo. ficando Roma como cabeça da Igreja. experimentou nela grandes variedades. nos quais o Império. diminuindo sempre em grandeza e majestade. Sucedeu esta mudança pelos anos de Cristo de 810. e desde este tempo começaram as águias romanas a aparecer coroadas com duas cabeças. com sucessão de 35 imperadores até o grande Constantino. que começou no primeiro e há-de acabar no Quinto (que será também o último). que eram ministros e como lugar-tenentes dos imperadores orientais. Durou. ao Pontífice passou o assento do Império . em tempo o Papa Lúcio TII.Anexo:Imprimir/ História do Futuro conservou-se unido somente oito. o da Macedônia. porque. Estes são em breve suma os quatro Impérios que desde o primeiro que houve no Mundo se foram continuando e sucedendo até o presente. passados e presentes.

sendo gentio. E assim o faremos agora. como também deixamos dito. o sucesso de muitas cousas futuras. Responderam os sábios que. porque. lhes declarou por si mesmo tudo o que lhe tinha sucedido. que somente se lembrava que acabava de sonha. devemos recorrer principalmente aos que a Fé nos ensina que foram verdadeiros profetas. Livro I. tem o primeiro lugar Daniel. Será pois a primeira pedra deste edifício uma grande profecia de Daniel. ele e seus três companheiros. para fundarmos bem a esperança deste grande futuro. Capítulo I: Mostra-se a Quinta Monarquia com a profecia de Daniel) por Padre Antônio Vieira 102 Já dissemos que os futuros livros ou contingentes (qual é o Império que prometemos) só são manifestos a Deus e a quem os quer revelar. como haviam de conhecer a significação dos futuros. Viu pois Nabuco em sonhos uma visão admirável e portentosa. e somente lhes haviam de dar crédito no segundo e mais dificultoso. porque todos eram gentios. porque esta é a base e fundamento de toda a nossa História e assunto particular deste I Livro. mandou que os levassem de sua presença e que neles e em todos os professores das mesmas artes se executasse logo a sentença de morte. porque isso era a sua profissão e o mais a que se estendia a ciência humana. senão também o que tinha sonhado.pelo espírito de profecia que foi tão superiormente ilustrado. estimulado igualmente do desejo e do temor que a mesma lembrança lhe causava. Assim. mas totalmente se esquecia quais foram. e mandou-lhes seriamente que não só lhe haviam de dizer logo a significação do sonho. que era. desvelado uma noite com os pensamentos da sua monarquia. E assim. com cuja apreensão e assombro acordou de tal maneira perturbado e confuso. em prêmio ou conseqüência deste cuidado mereceu que Deus lhe revelasse. grandes e prenhes de mistérios. . os magos. mandou logo chamar os maiores sábios dos seus reinos. mas porque o fez Deus particular profeta dos reinos e das monarquias. onde fora levado com El-Rei Joaquim no primeiro cativeiro ou transmigração dos Hebreus. alegaremos nos capítulos seguintes. Não se aquietou Nabuco com esta resposta dos sábios. enganadores e indignos de crédito. se no primeiro e mais fácil eles mesmos confessavam sua ignorância? Que se resolvessem a dizer logo uma e outra cousa. que eram os que pela observação das estrelas e outras professavam a ciência das cousas futuras. Nabucodonosor. Tão violentos são os apetites do poder supremo. não . se o rei lhes manifestasse o que sonhara. os aríolos. os caldeus. que era cousa passada. Oro a Deus. assim como outros príncipes que têm fé e desmerecem por sua negligência e descuido até o conhecimento natural dos presentes. E como os tristes sábios respondessem outra vez que não sabiam nem podiam satisfazer ao rei no que deles queria. irado grandemente Nabuco. o que resta e importa mostrar é que haja de haver sem dúvida este novo e prometido Império a que chamamos Quinto. com toda a demonstração e certeza. No ano antes de Redenção do Mundo 450. História do Futuro (Volume II. se não podiam saber o sonho. mas que adivinhar qual houvesse sido o sonho era segredo impossível de alcançar aos homens e reservado somente à sabedoria dos deuses. porque tinham .Anexo:Imprimir/ História do Futuro averiguada e sem controvérsia não são necessários autores. como fica dito. e tão arriscado não satisfazer aos reis até no impossível! Achava-se neste tempo em Babilônia Daniel. um dos últimos reis imperadores de Babilônia. Falaram assim. o Império dos Assírios. antes os argüiu com ela de falsos.que também entravam no número dos condenados. senão que ele e sus famílias morreriam todas. e depois de trazidos à sua presença. eles se obrigavam a declarar a significação de tudo. entre os quais.cousas prodigiosas.

e no ouro. A cabeça de ouro significava o Império dos Assírios. ostendit tibi que ventura sunt. os pés de ferro e de barro. e fazendo-se um grande monte. cortada dele sem mãos. o ouro. por isso estava representado na cabeça. reservando o de mais (que é muito) para seus lugares. faz parar a execução Daniel. de que nós diremos agora somente o que pertencer ao ponto em que estamos. e o Deus que só pode revelar os mistérios e segredos ocultos. e quando já a multidão dos sábios. por mandado do mesmo rei. Tu. e depois com igual admiração e espanto de todos lhe foi explicando parte por parte os mistérios e segredos futuros que tão prodigiosa visão em si encerrava. Rex. de estatura alta e sublime e de aspecto terrível e temeroso. folhe revelado pelo Céu o sonho e a interpretação dele. etc. te mostrou naquela visão tudo o que está para vir nos tempos futuros. que é o princípio do corpo. Rex. primeiramente com assombro e pasmo do rei lhe contou muito miudamente por sua ordem a história do que tinha sonhado. e todo este aparato de circunstâncias com o Texto Sagrado descreve o sucesso dela. e posto em sua presença e na dos maiores príncipes de Babilônia que o acompanhavam. mas se podem convencer com elas por discurso até os mesmos Gentios. lembrando-se outra vez de tudo pela mesma ordem com aquela espécie de memória a que os filósofos chamam reminiscência. Parecia-te que vias defronte de ti uma estátua grande. o bronze. ocupou e encheu toda a terra». videbas et ecce quasi statua una grandis: statua illa magna et statura sublimis stabat contra te et intuitus ejus erat terribilis. o que havia de suceder depois do tempo presente. a quem ele servia e que fora o autor daquele sonho. Hoc est somnium. porém a pedra que tinha derrubado a estátua cresceu. o peito e os braços de prata. que foi levada dos ventos. dando nos pés da estátua. depois de confessar a insuficiência sua e de todo o saber humano. mas nós as quisemos resumir brevemente aqui. usque ad implevit universam terram. Até aqui a relação do sonho. não por arte ou ciência minha. cogitare coepisti in strato tuo quid esset futurum post hoec. a derrubava. 103 . e os diferentes metais de que era composta as mudanças que o mesmo Império havia de ter em diferentes tempos e para diferentes nações. para crédito natural da mesma profecia. é a seguinte: Tu. e nem aqueles metais apareceram mais. que é o primeiro entre todos os metais. A cabeça desta está tua era de ouro. e q. «Começaste a cuidar. et qui revelat misteria. deitado no teu leito. começavam a caminhar para o lugar do suplício. Disse pois Daniel que aquela grande estátua significava a sucessão do Império do Mundo. o ferro. diz Daniel. e se converteram em pó e cinza. pois não só nos obrigam a que a creiamos por fé os que somos cristãos. Seguiu-se à história do sonho a interpretação dele. como deixamos notado. pelas palavras com que Daniel a referiu. as quais porventura puderam parecer menos necessárias ao nosso argumento. e mostrar como só o Deus verdadeiro. Estando assim suspenso no que vias. Então se desfizeram juntamente o barro. a prata. as ciências de Caldeia. A história do sonho. nem o lugar onde tivessem estado. a qual Nabuco de novo ia ouvindo e reconhecendo. viste mais que se arrancava uma pedra de um monte. o ventre até os joelhos de bronze. e o que eu agora te direi. dos joelhos de ferro. Este é o prólogo da primeira profecia de Daniel. se não por revelação sua. em que Nabucodonosor naquele tempo reinava.Anexo:Imprimir/ História do Futuro estudado. foi o primeiro e o princípio de todos os Impérios. pede que o levem a Nabucodonosor. ó Rei. . e porque este Império. o podia revelar e a significação dele. Oferece-se a declarar o sonho. rodeados de rústicos e tumulto popular.

e que se seguiu a eles. por o dizer com mais propriedade e certeza. A razão ou mistério por que o Império Romano se representou no ferro. e assim como as pernas e pés são a última parte do corpo humano. e consta pela experiência e pelo testemunho . se havia de dividir. que os três reinos e impérios que sucessivamente se seguiram ao dos Assírios foram o dos Persas. quomodo ferrum comminuit et domat omnia. E quadra maravilhosamente no Império Romano a figura das duas pernas e pés da estátua em que foi representado. não só porque. passou e se incorporou no Império Romano. ainda que Daniel na sua explicação do sonho não nomeou as três nações de Persas. em que não há discrepância nem dúvida alguma. assim os dez dedos. em que se dividiam. significava o Império dos Persas. que é o quarto metal.. uns maiores outros menores. et regnum tertium aliud oereum [. recebido. sobre as quais toda a máquina daquele portentoso colosso se sustentava. corta e doma os metais. vencidos estes por Ciro. um em Roma outro em Constantinopla. que foi o terceiro depois dos Persas e se seguiu depois deles. como acima vimos. e o mesmo Império dos Persas. que foi o segundo depois dos Assírios.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A prata. assim o Império Romano e o poder invencível de suas armas havia de abater. foi causa de que o Império Romano se dividisse em dois impérios ou duas partes iguais do mesmo. significava o Império dos Romanos. sem haver algum que lhe possa resistir. aprovado e seguido por todos os Padres e expositores deste lugar. senão também das sagradas e divinas. assim como o ventre se segue depois do peito. não só humanas. na África e na Ásia possui o Turco. e as partes ou membros de que aquele vastíssimo corpo na sua maior grandeza e potência se compunha. passou aos Persas. que sucedeu aos três primeiros. que é o segundo metal. Tudo o que até aqui fica dito é de fé. significavam dez reinos. assim como o peito e braços se seguem à cabeça. Assim como. E este é o verdadeiro. restituindo-se outra vez a sua primeira liberdade e soberania. Mas não parava aqui a propriedade da semelhança. sujeitar e dominar todos os outros impérios. segundo e terceiro reino: Et post te consurget regnum aliud minus te argenteum. assim este é e há-de ser o último Império dos que naquela estátua se representavam. que é o terceiro metal. mas porque o mesmo peso e grandeza. ou se segue imediatamente dela. na divisão de uma e outra perna da estátua se representava a divisão do Império Romano nos dois impérios. em que a grandeza do mesmo Império Romano. assim o Império Romano teve sobre si e em si o peso e grandeza de todos os outros impérios que nele se uniram e ajuntaram. certo e indubitável sentido de interpretação de Daniel. Gregos e Romanos. sinalando-os nomeadamente por primeiro. desfazer. diz particularmente Daniel que foi porque. que sucessivamente se haviam de continuar uns aos outros. Para cuja inteligência se deve notar que tudo o que hoje possuem os príncipes cristãos na Europa. vencidos estes por Alexandre. vencidos estes por vários capitães de Roma. ficaram verdadeiramente sendo estas duas partes do Império Romano como duas colunas naturais de ferro. consta que o mesmo Império que primeiro foi dos Assírios. são umas divisões ou . sic comminuet et conteret omnia hoec. significava o Império dos Gregos.de todas as histórias. na sua última declinação. passou aos Gregos. disse porém expressamente que os três metais significavam três reinos. como 104 .. O bronze. e tudo o que na Europa. O ferro finalmente. com a qual divisão. assim como os pés da estátua sustentavam e tinham sobre si o peso e grandeza de toda ela. o dos Gregos e o dos Romanos: ou. que foi e é o quarto Império. porque. as quais lhe foram tirando as mesmas nações que ele tinha sujeitado. bate.retalhos do Império Romano. Et regnum quartum erit velut ferrum. assim como o ferro lima. e o mesmo Império dos Gregos.] et regnum erit velut ferrum. pondo um pé no Oriente outro no Ocidente.

havia de descair. Adjice. porém. se bem contarmos os reinos em que hoje está dividido ou despedaçado o que antigamente foi e se chamava Império Romano. E se uns reinos destes são maiores.Anexo:Imprimir/ História do Futuro hoje estão. et sub Imperio Turcorum. pode ser entendida e percebida de todos. que outra cousa são ainda. Castela França. e o mesmo Imperador em pessoa estão hoje resistindo às invasões do Turco e poder otomano. Dinamarca. Hierônimo em que o Império Romano estava íntegro e potentíssimo. Polônia e Estado ou Império Turco. Suécia. essa mesma é a propriedade dos dedos. porque. sem ter perdido cousa alguma sua grandeza. e assim o estamos vendo hoje. era opinião comum (como diz o mesmo santo) de todos os escritores eclesiásticos que o Império se havia de dividir em dez reinos. sicuti ferrum misceri non potest testæ. que já antes dos tempos de S. o Profeta que não eram os dedos totalmente de barro. que é. E é tão verdadeira e tão antiga esta interpretação dos dez dedos da estátua. em tantas ocasiões de guerras e batalhas contra Turcos. desde o tempo de sua maior declinação a esta parte.palavras diz Daniel que o barro dos pés dá estátua significava a debilidade e fraqueza a que o Império Romano. com a notícia vu1gar que se tem do Mundo. contra hereges e contra alguns príncipes cristãos. como nota neste lugar o mesmo autor alegado. Ao diante dividiremos estes mesmos dedos da estátua em outras partes que temos por mais proporcionadas. commiscebuntur quidem humano semine. debilidade e fraqueza conservaria o Império algumas partes sólidas em que permanecesse a dureza e fortaleza do antigo ferro de que todo antes era formado. Græcorum seu Orientis. Adverte. senão compostos parte de barro e parte de ferro. nas quais em defesa da própria e da Igreja têm pelejado os exércitos imperiais com grande valor.pontualmente em dez partes ou dez reinos. disciplina e constância.. Et digitos pedum ex parte ferreos. Ad extremum (diz Perério) ex uno duplex factum est Imperium Romanum: alterum Latinorum seu Occidentis. comprovando-se a verdade desta interpretação com a experiência e confirmando-se ser este o verdadeiro sentido da profecia com o cumprimento dela. allerum vero constantinopolitanum. ao pé da letra. especifica este número. e depois dele outros muitos: por decem digitos partim ferreos et partim terreos significatur Romanum Imperium novissime iri in multa regna multosque reges. senão partes e 105 . e diz assim: . que é o estado em que o vemos. por agora baste esta divisão que nós pusemos em primeiro lugar por ser mas fácil. quod vidisti ferrum mistum testæ ex luto. que compreende Alemanha e Itália. Quod autem vidisti ferrum mistum testæ ex luto. uns mais fortes outros menos. et parte fictiles: ex parte regnum erit solidum. sem reconhecerem sujeição nem obediência alguma ao Império Romano. E a mesma oposição tão bizarra com que as armas do Império nas fronteiras de Alemanha e Hungria. Assim se dizia e escrevia então. sed non adhærebunt sibi. e nesta diz clara e expressamente que os dedos dos pés da estátua significam a divisão do Império: Porro quia vidisti pedum et digitorurn partem testæ figuli et partem ferream: regnum divisum erit. Nas quais . outros menores. Moscóvia. et ex parte contritum. principalmente na sua última idade e declinação. acharemos pontualmente que são dez reinos: Portugal. quorum alii maiores et potentiores. em outra profecia. Passa finalmente o mesmo Profeta a declarar o mistério ou significação do barro de que os dedos eram compostos em uma parte juntamente com outra de ferro. E posto que Daniel nesta profecia não declara com tanta miudeza que a divisão do Império Romano há-de ser . porque nesse mesmo estado de sua declinação. o que se tem visto e experimentado no Império Romano. e alcançado de seus inimigos gloriosas vitórias. partes sunt Imperii Romani tanquam rami ex una illa Imperii arbore decisi. como depois veremos. quod omnia regna quæ nunc sunt apud Christianos. depois de tanta potência.. alii minores et imbecilliores futuri sint. e porque. e o mesmo Império Romano. Inglaterra.

os quais. se eu me não engano. e formaram novos reinos. casando os imperadores nas casas reais dos outros príncipes e os reis na dos imperadores. e verdadeiramente se possam chamar partes de ferro. porque não são os dos pés da estátua ou os dos dedos dos pés. Mas não são estes exemplos tão antigos os de que fala a profecia de Daniel. não são nem se podem chamar senão partes de barro. e sendo estes muitas vezes eleitos das mesmas famílias que do Império se apartaram. vemo-lo todo infelizmente convertido contra Portugal. primo do Imperador.mesmas mãos que. genro do Imperador? Considere agora o Mundo o estado em que o mesmo Imperador se achou no ano passado e em que se acha no presente. e.Anexo:Imprimir/ História do Futuro partes muito sólidas daquele mesmo ferro? Mas vindo às partes de barro: estas são (diz Daniel) aquelas províncias e nações que. em que o sangue que de uma e outra parte se defende. as cidades destruídas. e por isso o mesmo império tão enfraquecido! Nasceu juntamente com Roma esta fatal desunião contra o respeito do sangue em Rômulo e Remo. acode Daniel a esta objeção. dizendo: Commiscebuntur quidem humano semine «misturar-se-ão e ligar-se-ão no sangue». mas tão resumido sempre. não tenha cada um dos outros príncipes quase iguais partes nele? E que guerras vimos ou sabemos entre estas coroas. abrasados e feitos em cinzas. acrescentando em todas estas circunstâncias novas e admiráveis confirmações à verdade da sua Profecia. em respeito do Império Romano. e no de Marco Antônio com Octávia. E porque não cuidasse alguém que a união que se perdeu pela separação das coroas se recuperou e supriu pela conjuração do sangue. sem jamais se conseguir a união desejada! Que imperador ou que rei houve na Cristandade há muitos anos que. se amarram contra si. depois de profanados. o de Inglaterra e da Suécia. ainda que em si mesmos sejam muito poderosos e fortes. se desuniram e tiraram de sua sujeição. «bem como o ferro se não pode unir nem ligar com o barro. os homens barbaramente mortos a sangue-frio.» A tanta miudeza como isto desceu o Profeta. viu-se no casamento de Pompeu com Júlia. filha de Júlio César. com os poderosos exércitos do Turco metidos dentro na Áustria. e quase. E tal é hoje o Reino de França.pelo matrimônio se uniram. filha de Octávio. e quantas vezes se liaram os mesmos príncipes entre si por meio de recíprocos casamentos. que ramo há que seja mais próprio daquele tronco. no mesmo dia em que isto estou escrevendo se está cumprindo esta profecia. interpondo-se para isso a autoridade dos Sumos Pontífices. sicuti ferrum misceri non potest testæ. e que sangue mais repetidamente unido por multiplicados casamentos que o de Áustria e Castela? E que pessoa real há também em que mais apertadamente estejam atados estes vínculos e mais dobrados todos estes respeitos que na de El-Rei Filipe IV. corte do Império. as mulheres e meninos cativos e transmigrados para a Turquia. as . mas por isso mesmo infelizmente! Se este ferro se unira ao Império contra o 106 . Quantas vezes se intentou na Europa que entre os imperadores e reis da Cristandade se estabelecesse uma liga firme. e. e ainda o que se derrama. os templos e pessoas dedicadas ao templo em abomináveis sacrilégios profanados. e neste mesmo tempo em que o ferro de Espanha se havia de unir todo ao ferro do Império. os campos talados. cunhado do Imperador. quão facilmente se desatam. sed non adhærebunt sibi «mas nem por isso se unirão nem ligarão entre si». se gota por gota lhe distinguirem o sangue. antes. batendo às portas de Praga. Que casa real há no Mundo mais ligada com a do Império. Significam os dedos dos pés da estátua as últimas extremidades do Império Romano e a sua duração. em respeito porém do Império de que se apartaram e que tanto desuniram e enfraqueceram com sua separação. não seja o mesmo? Tão misturado anda o sangue nestas últimas relíquias do Império Romano. sendo partes do antigo Império Romano. e o mesmo de Castela ou Espanha.

que viste arrancar e descer do monte. Barro e barro quebradiço. que derrubou a estátua e desfez em pó e cinza todo o preço e dureza de seus metais. mas. o primeiro. esta é a queixa que . mostrando que a principal causa de toda ela é a desunião daquelas partes que por serem mais conjuntas em sangue e parentesco. quoniam tu potuisti aperire hoc sacramentum. como sucedeu ou há-de suceder aos demais. O que fez Nabuco no mesmo tempo. se empregara com glória imortal de ambas as coroas em defesa da Fé. foi o ano passado e. ó Rei.Daniel explica e pondera na mesma fraqueza. levantam-se os de Alemanha e chamam-se todos a Castela contra Portugal. da Cristandade. depois das palavras ultimamente referidas. é barro. e o que só conhece e revela as mistérios escondidos aos homens. refere o mesmo texto em as seguintes: Tunc rex Nabuchodonosor cecidit in faciem suam. por mais que se mostre ou ameace ferro. para que triunfem nas bandeiras otomanas as luas de Mafoma. Quer dizer: aquela pedra. significa um novo e quinto Império que o Deus do Céu há-de levantar no Mundo nos últimos dias dos outros quatro. nem haver de ser conquistado. acrescenta imediatamente o que Nabucodonosor lhe fez e o que lhe disse. «Verdadeiramente o Deus que adoras. o qual. O que lhe disse foi: Vere Deus vester Deus deorum est. pois tu. barro há-de ser também no presente. segue-se agora ver o quinto na mesma história do sonho de Nabuco e na mesma interpretação de Daniel. casará o Imperador Fernando com Maria. pudeste declarar este grande segredo e sacramento.. et Danielem adoravit. Temos visto até aqui. que de uma é outra parte se desperdiça. casará Filipe IV com Leonor. e ele só há-de permanecer para sempre. esta é a fraqueza das extremidades do Império Romano. continuou e concluiu desta maneira: In diebus autem regnorum illorum etc. alumiado por ele. e quanto de maior exemplo para todos os príncipes católicos e de menor escândalo para os hereges e para os mesmos Turcos se o sangue espanhol. é o Deus dos deuses e a Senhor dos reis. desde a cabeça até os pés da estátua. et revelans mysteria. fora ferro. Este Império os há-de desfazer e aniquilar a todos. Quanto melhor e mais católica ação fora. tinham obrigação de ser mais unidas »— commiscebuntur quidem humano semine »— isto é. e tão valoroso. e ainda antes de dizer estas palavras.. e este é o sonho que tiveste e esta a verdade de sua interpretação -. da Religião. et hostias et incensum præcepit ut sacrificarent ei. despovoam-se os presídios de Itália. mas nas últimas extremidades do Império Romano e nos seus maiores apertos e trabalhos não se acharam parentes nem aderentes »— sed non adhærebunt sibi. quando lhe disse que seu império se havia de acabar e passar outros quatro. a quem tão de perto ameaça este golpe! Mas quando todo o poder de Espanha se havia de achar unido contra o Turco em socorro de Alemanha e Itália. e se conquistem e sejam vencidas nas portuguesas . terceiro e quarto império. Estas são as cousas futuras que Deus te quis mostrar. Depois de contar Daniel toda esta prodigiosa história. sem haver de vir jamais por acontecimento algum a domínio ou poder estranho. ó Rei. dissipado ou destruído. no campo de Portugal e Castela.as chagas de Cristo! Este é o barro dos pés da estátua. e da mesma cabeça dela. prostrou-se diante dele e adorou-o com o rosto em terra.. «Tanto que o rei acabou de ouvir a Daniel. com lástima e lágrimas da Igreja. que faria se lhe dissesse ser e1e o senhor do 107 .» Se isto fez Nabucodonosor a Daniel. quæ ventura sunt postea. filha de Fernando.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Turco. segundo. ó Daniel. e mando que lhe oferecessem incenso e sacrifício.et verum est somnium et fidelis interpretatio ejus. et Dominus regnum. porque se desune dele em tal ocasião e se converte contra Portugal. irmã de el-Rei Filipe IV.

como tem a opinião mais comum dos Doutores. Durava ainda a noite. Livro I. primeiro no sonho das paveias dos onze irmãos que adoravam a sua. E assim nos tempos em que agora imos. antes mais portentosa em tudo e mais notável. e não levou assim muito tempo. em outro sonho e em outras figuras lhe fez segunda vez a mesma representação. et tres ordines erant in ore ejus. et alas habebat quasi avis. firmou-se sobre os pés e parou. que já passaram. Tinha os dentes de ferro grandes com que comia e despedaçava . diz o Profeta e por fim de todas entrou «a quarta besta. profeta chama bestas grantes: . aspiciebam donec evulsæ sunt ale ejus. que sucedeu a Nabuco no Império dos Assírios ou Caldeus. Vejam lá os leões se lhes tira Deus as asas para [que] sejam homens! Prima [bestia] quasi leæna et alas habebat aquilæ. e é de razão. «Saiu a segunda besta semelhante a um urso. et sic dicebant ei: Surge. reinando já nela Baltasar. Persas e Gregos. porque assim se infere por bom discurso. a que o. velando) viu. acordado. ou fosse. et sublata est de terra. que a primeira. et super pedes quasi homo stetit. até que lhe foram tiradas ou arrancadas as asas. que ainda hoje dura. viu o Profeta Danie1 em uma visão de noite... há-de haver um novo e melhor império que há-de ser o quinto e último. horrível. «Saiu a primeira besta semelhante a uma leoa com asas de águia. História do Futuro (Volume II. é de experiência. primeiro no sonho das sete vacas robustas e sete fracas. nada menos misteriosa e cheia de circunstâncias. Mas este ponto ficará para seu tempo e para seu lugar. como outros suspeitam. «Depois desta saiu a terceira besta semelhante a leopardo. digo. Assim mostrou a El-Rei Faraó os sete anos da fartura e os outros sete da fome. et cor hominis datum est ei. depois dos três impérios dos Assírios. e depois do quarto. quatuor super se et quator capita erant in bestia et potestas data est ei. comede carnes plurimas.». que é o romano. (ou fosse dormindo e em sonhos. entre os quais trazia três bocados.» Post hæc aspiciebam. e depois no das sete espigas gradas e sete falidas. Assim mostrou antigamente a José suas felicidades. porque assim o mostrou o sucesso dos tempos. Esta suposição é de fé. pôs o Profeta nela os olhos. depois de revelar Deus a Daniel o secreto do Quinto Império. e foi-lhe dado grande poder. O que deste somente quero recolher e deixa assentado é que. e tinha quatro asas como ave e quatro cabeças. significar por repetidas visões o mesmo mistério e por diferentes figuras a mesma revelação. mas o mar assim perturbado e temeroso não era mais que o teatro em que haviam de sair a representar quatro figuras horrendas. Passados 47 anos depois daquela visão (que foi o ano 54 do último cativeiro de Babilônia). et quator bestiæ grandes ascendebant de mari diversæ inter se. Capítulo II: Segunda profecia de Daniel) por Padre Antônio Vieira 108 Não é cousa nova em Deus quando revela cousas grandes. E logo levantou as mãos da terra e se pôs em pé e ficou em figura de homem. et ecc alia quasi pardus. no sonho de Nabucodonosor e na visão daquela estátua. tinha três ordens de dentes. espantosa e muito forte. que os quatro ventos principais se davam batalha no meio do mar e levantavam uma horrível e furiosa tempestade.Anexo:Imprimir/ História do Futuro quinto? Naquele tempo pagava-se a interpretação de uma profecia infeliz com adorações e sacrifícios hoje pagam-se as interpretações felicíssimas com opróbrios e calúnias.et ecce quatuor venti coeli pugnabant in mari magno. e diziam-lhe que comesse e se fartasse de carne» Et ecce bestia alia similis urso in parte stetit. et in dentibus ejus. porque assim o lemos nas Escrituras. e depois no do Sol e nas estrelas que lhe faziam a mesma adoração.

Este seu poder será eterno. Este é o aparato daquele tribunal e juízo. a matéria do trono era fogo. et Antiquus dierum sedit: vestimentum ejus candidum quasi nix. a honra e reino de todo o Mundo. E volvendo eu no pensamento que significariam aquelas cousas. et ecce bestia Quarta terribilis atque mirabilis. segunda e terceira besta se tirasse todo o poder. para onde o reservamos. Post hæc aspiciebam in visione noctis. et fortis nimis. e tinha na testa dez pontas». et omnes populi. Daniel via que de entre as dez pontas da quarta besta saía uma ponta menor que as outras. et in conspectu ejus obtulerunt eum. Esta é pontualmente a relação de todo o sonho ou história enigmática. potestas æterna quæ non auferetur. comedens atque comminuens. e de fogo também um rio arrebentado que da boca lhe saía. Trouxeram-se cadeiras e assentou-se em um alto trono um velho de venerável ancianidade. eterno também o reino. porque «viu o Profeta que fora morta violentamente. Et dedit ei potestatem et honorem et regnum. Os ministros que lhe assistiam de uma e outra parte eram milhares de milhares. como fazemos. não ficando de tanta grandeza e bravosidade mais cinzas. o qual chegou ao trono do Antigo de Dias e o ofereceram em sua presença. para maior crédito da verdade em tudo o mais que imos referindo. et usque ad Antiquum dierum pervenit. e brancas as roupas de que estava vestido. tribus et linguæ itsi servient: potestas ejus. dentes ferreos habebat magnos. aquele como arminhos. cheio com grande aparato de horror. quas videram ante eam. o qual acabado. E continuando o que pertence a este. vieram os livros e abriram-se». et decies millies centena millia assistebant ei: judicium sedit. et ecce cum nubibus coeli quasi filius hominis veniebat.Anexo:Imprimir/ História do Futuro tudo o que lhe caía da boca ou não queria comer pisava com os pés. e que fora entregue ao fogo para ser queimado». et perisset cortus ejus. et traditum esse ad comburendum igni. a quem o Profeta chama Antigo dos dias. Torna a dizer o Profeta que «ainda durava a noite e viu vir rodeado de nuvens do céu um como filho do homem. Fluvius igneus. porque nunca jamais lhe será tirado» Aspiciebam ergo in visione noctis. e que todo aquele grande corpo perecera. aliarum quoque bestiarum ablata esset potestas. limitando-se a cada uma o tempo determinado de sua duração. Era mui diferente de todas as outras bestas. Et vidi quoniam interfecta esset bestia. e todas as línguas o obedeçam e sirvam. cujo cabelo era todo branco. Enquanto tudo isto notava. a qual obrou grandes estragos e outras cousas prodigiosas. umas rodas sobre que o trono estava levantado também fogo. et capili capitis ejus quasi lana munda. para que todos os povos e todos os tribos. grandeza e majestade. Thronus ejus flammæ ignis: rotæ ejus ignis accensus. et regnum ejus. rapidusque egrediebatur a facie ejus. acabaram. «Com a qual (diz Daniel) ficou o meu espírito assombrado e cheio de horror. e por isso repetimos as palavras do texto: Aspiciebam donec throni positi sunt. A primeira sentença ou execução que saiu deste juízo foi que à primeira. E ele lhe deu o poder. cheguei-me a um dos ministros que ali 109 . como também outras circunstâncias desta mesma visão que expenderemos em seus lugares. Millia millium ministrabant ei. estas como neve. et cornua decem. descrito ou construído ao pé da letra. cuja narração e mistérios pertencem ao Livro V desta nossa História. assentaram-se os conselheiros ou juizes assessores. «levantou Daniel os olhos ao céu e viu que se armava um tribunal de juízo. quod non cortumpetur. Acabou também a quarta besta. et reliqua pedibus suis conculcans: dissimilis autem erat ceteris bestiis. et tempora vitæ constituta essent eis usque ad tempus et tempus. et libri aperti sunt. representada nele.

declarando todas as figuras dela pela mesma ordem com que foram saindo. como agora veremos. Primeiramente diz Daniel (ou disse a Daniel o seu intérprete) que «aquelas quatro bestas grandes significavam quatro reinos ou quatro impérios. que é o Romano. que e a demonstração do Quinto Império. que é o tempo dos Assírios foi idade de ouro. e o que acontece em qualquer destas idades se diz com toda. que o mesmo intérprete chama Reino dos Santos do Altíssimo. E ele o fez assim e me ensinou a interpretação e mistérios de tudo o que tinha visto». donde segue que com toda a verdade se pode afirmar que sucederá nos dias daqueles Reinos o que sucede nos dias de qualquer deles. nem que tempestades se levantaram no mar antes de sair nele as quatro bestas. porém. e suprindo com a exposição dos Doutores o que eles calaram. exprimindo com grande particularidade e miudeza tudo o que pertence a ele. senão como um só corpo ou um só indivíduo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro assistiam. não como quatro corpos ou quatro indivíduos. que é o 110 . mas todos os expositores concordam em que o mar significava o Mundo. Daniel somnium vidit. e assim como da quatro corpos dos quatro impérios se formou um corpo. a segunda. também está na última declinação. et obtinebunt regnum usque in sæculum et sæculum sæculorum. representou todos os quatro impérios. e o quarto. o qual não há de ter mudança nem variedade. Por isso viu o Rei não quatro estátuas senão uma só estátua. Porque Deus. que é o tempo dos Gregos. o qual. passa em silêncio algumas circunstâncias dela. e os ventos e tempestades que o alteram as alterações. nem outro reino algum ou império que lhe suceda. Não declara Daniel que ventos fossem aqueles. A sua primeira idade. que são o dos Assírios. ou certamente porque as julgou de menos importância ao seu interesse principal. que sucessivamente se haviam de levantar no Mundo depois dos quais se havia de seguir outro quinto reino ou império. Suscipient autem regnum sancti Dei altissimi. propriedade e verdade que acontece nos dias daquele homem. sobre a qual nos explicaremos mais particularmente. Até aqui o mesmo Profeta. a terceira. que é o tempo dos Persas. o dos Persas e o dos Gregos. porque dos quatro impérios já passaram totalmente os três. antes que passemos adiante. Esta é a interpretação em comum que deu o intérprete do Céu a toda a visão. a quarta. et somninm scribens brevi sermone comprehendit. Da mesma maneira a duração da estátua dos impérios era composta de diferentes idades. porque não deixemos o inimigo nas costas. coligido porém tudo imediatamente do mesmo que dizem. porque há-de durar para sempre. quæ consurgent de terra. esta monarquia não é futura se não passada. E a razão de passar por aquelas circunstâncias tão brevemente ou foi porque as supôs bastantemente declaradas na visão do segundo capítulo ou sonho de Nabucodonosor que acabamos de explicar. movimentos. summatimque perstringens ait. assim das quatro durações dos quatro impérios se há-de compor uma só duração. Hæ quatuor bestiæ magnæ quator sunt regna. Mas. nos dias daqueles impérios. Logo. no sonho de Nabucodonosor. sem dúvida para não exceder a brevidade que no princípio deste capítulo tinha prometido. Diz o texto que levantará Deus esta nova monarquia in diebus regnorum illorum. advertindo o que o Profeta e seu intérprete exprimiram. Respondo que o Profeta na sua interpretação se acomodou com grande propriedade à figura do enigma que declarava. referindo a dita interpretação. Exemplo: a vida de um homem compõe-se de muitas idades. foi idade de bronze. satisfaremos um argumento que nos fica no texto de Daniel. foi idade de prata. guerras e perturbações que se costumam experimentar no mesmo Mundo. quando nele se levantam novos impérios. pedindo-lhe me quisesse declarar o verdadeiro sentido delas.

como supremo Senhor dos Exércitos. E basta que nesta última idade. Assim que o Império que promete Daniel não é império já passado. e foram estes impérios representados ao Profeta em figura de carroças. Respondeu pois o Anjo que aquelas quatro carroças (dos montes não disse nada) eram quatro ventos doces que assistiam ao dominador da Terra para executarem suas ordens. aos da segunda negros. para mostrar a violência e velocidade com que seus fundadores conquistariam e sujeitariam por armas os reinos terras e gentes de que se haviam de formar os ditos impérios. e que com licença do Dominador a tinham passeado toda. os vários saíram contra as do Sul. e mais trabalho tem dado aos expositores deste lugar a declaração do Anjo que a visão do Profeta. e após eles os brancos. Mas. como tão poderosas . in diebus regnorum illorum. foi idade de ferro. ou porque Zacarias se entendia por dentro com e1e acham os Doutores que explicou um enigma com outro. mas sempre mostrando pela mesma forma primeiro os quatro impérios e depois o quinto. a principal força dos exércitos consistia nas carroças armada que eram as que faziam maior estrago na guerra como se vê nos casos tão celebrados. Livro I. es1a terceira de &carias em tempo de Hidaspes. na qual e na visão do Profeta seguiremos a comum sentença dos Doutores. mas na frase do mesmo texto chama aos da primeira carroça ruivos. Capítulo III) por Padre Antônio Vieira 111 Prova-se o mesmo contra outra profecia de Zacarias Assim como Deus dobrou as visões. ou porque este anjo falasse mais culto que o de Daniel. aos da quarta vários. Diz pois o Profeta Zacarias. Até aqui a interpretação do Anjo. principalmente destas quatro. daquela estátua ou daqueles reinos se haja de levantar o Quinto Império. e a mesma sucessão de impérios que revelou a Daniel em umas figuras a mostra agora ao Profeta Zacarias em outras. Vendo estas carroças Zacarias e não entendendo o que significavam. pela segunda murzelos. A primeira profecia de Daniel foi a mesma de Nabucodonosor. para que com toda a verdade e com toda a propriedade se verifique havê-lo Deus de levantar nos dias daqueles reinos. ao uso daqueles tempos. diz que o perguntou a um anjo que falava dentro nele. História do Futuro (Volume II. que é desta maneira: estas carroças significam os mesmos quatro impérios que Deus mostrou a Daniel. levantando os olhos (ou levantado-lhos Deus da atenção das cousas presentes para a visão das futuras). pela quarta remendados. que sucedeu a Baltasar. assim dobrou também as testemunhas . porque. a segunda em tempo de Baltasar. assim parece que se deve construir o texto na forma da nossa cavalaria. e estes entre os outros diz que eram os mais fortes. e destes os mais fortes trataram de discorrer por toda a Terra. e que os cavalos negros tinham saído contra as terras do Norte. De modo que. aos da terceira brancos. Pela primeira tiravam cavalos melados. assim como iam sucedendo os reis. iam sucedendo as profecias. viu que do meio de dois montes de bronze saíam quatro carroças puxadas por quatro cavalos. e Deus multiplicando as revelações. cada tiro ou parelha de diferentes cores. e declarados pelo Anjo em metáfora de ventos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro primeiro Império dos Romanos. a quinta. porque Deus. se servia sempre das armas de todas as nações. que sucedeu a Nabuco. que é este último tempo dos mesmos Romanos. pela terceira pombos. senão que ainda está por vir. Estas carroças diz o Anjo que estavam prontas como ventos para execução dos mandados do Dominador da terra. como decrépita. no capítulo VI da sua profecia. é idade de ferro e barro.

e que a correram e passearam. diz o Anjo que caminhou para as terras do Norte. e ali acabou o Império dos Assírios. Teodósio. que fica ao sul de Judéia. quando El-Rei Assuero. os quais por altos e imutáveis são comparáveis aos dois montes de bronze donde saíam as carroças. e assim se verificou nos Romanos. como escreve José. diz que foi para o Sul. como Cipião. porque os Romanos. marido de Ester. porque os Persas devastaram e ocuparam a Babilônia que fica para a parte do Norte da Judéia. a dos cavalos brancos. cuja majestade. Calígula. lugares. uns amigos e propícios. principalmente no cativeiro de setenta anos a que eles com razão chamavam fornalhas da Babilônia. que é cor de fogo. De toda esta combinação das histórias com a profecia. Vespasiano. e tiravam por ela cavalos negros. cor pacífica e alegre. Nero. A primeira carroça representava o Império dos Assírios. e tiravam por ela cavalos vários. 112 . Adriano. porque nunca chegaram à América. e da consonância e harmonia dos tempos. dos cavalos negros. e primeiro que tudo se deve muito notar que da primeira carroça não disse cousa alguma. e assim consta das histórias. exceto Antíoco (cuja tirania também serviu de matéria gloriosa aos triunfos dos Macabeus) os outros príncipes gregos sempre foram benéficos aos Hebreus. Finalmente. como Pompeu. E a quarta carroça. Tibério. A terceira carroça representava o Império dos Gregos e tiravam por ela cavalos brancos. etc. principalmente naquela grande aflição. que mais é uma metade que parte do Mundo. Cláudio. perseguidores e cruéis. dos cavalos vários. e tiravam por ela cavalos ruivos. Ultimamente diz que os cavalos mais fortes ou os robustíssimos da quarta carroça quiseram correr e passear toda a Terra. último imperador dos Persas. Constantino. como escreve Suetónio. reduziu o mesmo Egito a província. tomou o nome de Rei da Ásia. cuja fundação e sucessos estavam ainda por vir. Vespasiano. e mais que todos Alexandre Magno. como a primeira carroça significava o Império dos Assírios. diz que foi atrás da primeira. que é admirável confirmação de serem significados nas quatro carroças os quatro impérios. que com sua potência e vitórias se fizeram senhores do Mundo e o meteram debaixo dos pés. para significar os danos. como escreve Crítio e Plutarco. e assim foi. Porque. A segunda carroça representava o Império dos Persas. foram vários para com os Hebreus. Pompeu. que já havia muito tempo florescia. e que isto foi o que Deus e o Anjo quiseram significar ao Profeta.Anexo:Imprimir/ História do Futuro para a execução de seus divinos decretos. A terceira carroça. princípios. César. que são os Persas. nações. assim no ódio como na benevolência. Augusto. fins e todos os sucessos desses Impérios tão ajustados com as propriedades das figuras que as representavam. persuadido pelos enganos de Amão. e depois da vitória chamada actíaca. porque os Gregos venceram e destruíram a Dario. não tinha necessidade de intérprete nem declaração. não duvidou de adorar no templo ao pontífice Jada. outros inimigos. junto à mesma Babilônia onde Alexandre. Tito. E assim declarou somente o Anjo os três impérios seguintes. em que Augusto desbaratou a Cleópatra e Marco Antônio. a quarta carroça representava o Império Romano. Estes robustíssimos dos Romanos foram os seus maiores capitães e imperadores. Trajano. assolações e incêndios com que os Assírios conquistaram destruíram e abrasaram o povo hebreu. A segunda carroça. Restam por explicar os diferentes caminhos que disse o Anjo fizeram estas carroças. e ali acabou o Império dos Gregos. se faz certo e evidente argumento de que esta interpretação é a sólida e verdadeira. Augusto. e assim sucedeu. tinha condenado a morrer em um dia com crueldade inaudita toda a nação hebréia. fundador daquele império. porque. cor de tristeza e luto. porque os Romanos passaram por várias vezes à conquista do Egito. como Júlio César. porque também os Persas afligiram e foram lutuosos aos Hebreus. E posto que os Romanos absolutamente não conquistaram o Mundo como é em si.

contra todos elementos e contra a mesma natureza. regnum divisum erit. E diz que aqueles robustíssimos de que fala o Anjo são os Espanhóis. digo que os Portugueses e todos os Espanhóis se podem e devem entender debaixo do nome de Romanos. onde se diz que os pés e dedos da estátua eram compostos de ferro e barro. Vê-se claramente esta verdade na primeira profecia de Daniel. onde os Portugueses iam servir e merecer debaixo de suas bandeiras. e todas as partes de que ele se compôs e inteirou quando esteve em sua maior grandeza. ao que não obstava serem de diferente nação. Cornélio diz assim: Potissimum vero divisum fuit hoc regnum ideoque enervatum cum variæ gentes ab ejus obedientia se subduxerunt. E para este autor perfilhar ou acomodar aos Romanos. e que esses se haviam de desunir da sujeição e obediência do mesmo Império. conforme a profecia. ajudando a defesa e conquista do Império. os quais entendem Império Romano todo o corpo íntegro do dito Império. mandou que todo o Mundo se alistasse. a que venceram e contrastaram. não pelejando contra os homens. contra o Sol. pois conquistaram estas regiões novas e incógnitas. como já tinha notado Ribeira. porque esta glória que Sanchez dá aos Espanhóis toca pela maior e melhor parte aos Portugueses. Paulo. senão nas da América. onde viviam os presídios romanos. no seu edicto do tempo do nascimento de Cristo. ut describeretur universus orbis. no sentido desta profecia. audacíssimos e fortíssimos. estas vitórias próprias dos Espanhóis. como se vê em S. et partem ferream. De maneira que a divisão dos dedos e a desunião dos metais dos pés da estátua significava os reinos dos Espanhóis.boca de um anjo os mais fortes de todos os Romanos. porque Espanha e Portugal foram colônias dos Romanos. que. e verdadeiros cidadãos romanos. nação um título tão honrado como serem chamados por .Anexo:Imprimir/ História do Futuro contudo diz o Anjo que correram e passearam todo o Mundo no mesmo sentido em que Augusto. como fizeram ao Imperador Maximino contra os Partos e a Constantino contra Licínio. etc. Poloni. que. E posto que qualquer destas razões e muito mais todas juntas são bastantes para que sem impropriedade se possa entender os Portugueses debaixo do nome de Romanos. Polacos. sendo hebreu. e que de nenhum modo. Franci. com razão não é admitida de Cornélio à lápide. como nas guerras dos mesmos Romanos. senão contra os ventos. Franceses e os demais. por não deixar perder a nossa. apelou para o César. e parte não só do Império. Angli. leva o direito desta herança à origem que os Reis de Espanha trazem dos Godos. foram estipendiários dos Romanos e pelejaram debaixo de suas bandeiras. senão do povo romano. Mundo Novo. nunca conquistada nem ainda conhecidas pelos Romanos. e nas da Índia Oriental. Assim o interpretou o mesmo Daniel: Porro quia vidisti pedum et digitorum partem testæ figuli. e que o barro e o ferro não estavam unidos. Ingleses. o fundamento principal sólido e certo desta interpretação é ser esta a mente e sentido em que falaram os mesmos Profetas. contra os mares. sibique proprios reges crearunt. como os antigos Romanos. as quais palavras comentando. pela união e comércio destas duas nações. Além de que muitos portugueses eram filhos e netos dos Romanos. pelas vitórias do Oriente a que o mesmo Cornélio chama ad miraculum usque illustres. sendo antes sujeitos aos 113 . Contudo. uti fecerunt Hispani. que impugna facilmente. como violenta e trazida de tão longe. quer que não só nas terras do Mundo Antigo. como muitos romanos de Portugueses. parece lhe competiam. os quais Godos. assim em Portugal. verdadeiramente valentíssimos. na qual divisão de dedos e desunião de metais se significava que o Império Romano se havia de dividir em muitos reinos e senhorios menores. alegando que era cidadão romano e que só no tribunal de César podia ser julgado. Mas esta aplicação. ainda que essas mesmas partes depois se desunissem do mesmo Império e lhe negassem obediência. para explicar a palavra per omnem terram em toda a sua largueza. contra o Céu. Mas Sanchez.

et dixit: Ite. História do Futuro (Volume II. os Pompeus. Estes foram os Espanhóis. Livro II. e a pedra fundamental e provada sobre que se fundaram na Lei antiga a Igreja de Sion e na nova a do mesmo Cristo. é Cristo. segue-se que digamos que Império há-de ser: e assim o faremos em todo este II Livro. em significação de que por meio e virtude de Cristo havemos de vencer o Mundo e o Demônio. ainda desunidos dele. Ele foi a pedra sobre que adormeceu Jacob. Esta pedra pois foi a que. ele a pedra sobre que sustentou os braços levantados de Moisés. pela diferença dos climas. Mas contudo (que é o nosso intento) ainda assim divididos e desunidos se computam e reputam por parte da mesma estátua e do mesmo Império Romano. quando se lhe abriu o Céu e viu a escada. os Augustos. os fortes dos Romanos foram os Cipiões. Capítulo I) por Padre Antônio Vieira É conclusão certa e de fé que este Quinto Império de que falamos. pela dificuldade de navegações. considerando todo o corpo do Império Romano e todas suas empresas. Ele foi a pedra com que David derrubou ao gigante. Não somos nós que o dizemos. a que uniu os dois povos gentílicos e judaico. e sobre ela sete olhos. pelo valor e potência das nações que se conquistaram. lhes negaram a sujeição e se desuniram. o qual em outros muitos lugares da Sagrada Escritura se chama Pedra. derrubou a estátua e desfez os quatro impérios dos Assírios. é o Império de Cristo e dos Cristãos. Primeiramente aquela pedra que derrubou a estátua e desfez as quatro monarquias figuradas nos quatro metais. mas que intentaram discorrer e passear toda a redondeza da Terra. que são os sete dons do Espírito Santo. porque a conquista dos mares e terras do Oriente. Suposto como deixamos assentado que há-de haver no Mundo um quinto e novo Império.Anexo:Imprimir/ História do Futuro imperadores romanos. pois não é cerzida de pedaços ou retalhos das Escrituras. Finalmente. anunciado e prometido pelos Profetas.. Ele foi a pedra que no deserto matou a sede aos filhos de Israel e os acompanhou até a terra da Promissão. quando venceu os exércitos de Amalec. perambulate terram: et perambalaverunt terram. super lapidem unum septem oculi. Destas nações pois e destes reinos de que se compunha o Império Romano. porque realmente são partes daquele corpo e daquele todo. aqueles homens. não se contentaram só com as terras dos outros impérios. Livro II. exierunt. e entre esses Espanhóis os fortíssimos dos fortíssimos foram os Portugueses. senão cortada toda da mesma peça. Ele foi a pedra que viu Zacarias. foi empresa de muito maior valor. arrancada do monte. ainda que não sejam romanos. e depois cresceu e a sua grandeza ocupou e encheu toda a Terra. era justo. Introdução) por Padre Antônio Vieira 114 Em que se mostra que Império há-de ser este. os Césares. os fortíssimos foram os Espanhóis. Que o Quinto Império é o Império de Cristo e dos Cristãos. para fundar e levantar o seu . o qual infundiu todo e descansou sobre Cristo.. que eram os mais fortes e valentes de todos. ele finalmente a pedra angular. sobre as quais fundaremos tudo o que dissermos nesta história. Persas. Prova-se dos mesmos textos e profecias já alegadas. resolução e esforço que a dos Castelhanos. e entre os Espanhóis muito particularmente os Portugueses. senão o anjo que falava em Zacarias: Qui autem erant robustissimi. para maior clareza e firmeza dela. deles. História do Futuro (Volume II. Assim que. et quærebant ire et discurrere per omnem terram. pela distancia remotíssima das terras. para que a profecia se entenda dos Espanhóis e Portugueses. Gregos e Romanos.

Na segunda visão de Daniel ainda consta mais claramente e por termos mais expressos que este Império é o de Cristo.. sublimada como monte altíssimo sobre todas as criaturas. Não repito os autores desta explicação. donde desceu Cristo quanto a divindade. e erram somente em não crerem que o Messias é Cristo. com a qual concorda admiravelmente a advertência de Daniel. Já dissemos que a coroa ou coroas que foram postas sobre a cabeça de Jesus. S. Teodoreto. Ambrósio. suprindo o Espírito Santo e a virtude do Altíssimo o que nela faltou de concurso humano. Senhora Nossa. levantada naquele tempo como monte entre todas as outras nações do Mundo. significado com o nome comum e metafórico de pedra.. Agostinho. Cristo é homem e Deus juntamente. toda foi obra sobrenatural e divina. assim que aquele quasi significa a falta de substância humana. da qual o Verbo se dignou tomar e unir a si a humanidade. como interpreta S. ou é a nação hebraica. não só o confessa a Igreja Universal na aplicação deste lugar.et ecce (diz o Profeta) cum nubibs cæli quasi filius hominis veniebat. senão ainda muitos hebreus. posto que tivesse a mesma natureza como eles. não tiveram parte mãos de homem. S.et dabit ei potestatem et honorem et regnum. Epilanio. arrancada dele sem mãos. que a pedra foi arrancada ou cortada do monte sem mãos: Lapis abscissus de monte sine manibus. Communis est Patrum sententia et multorum ex Hebræis quibus accedit Chaldeus sermonem hic esse de Messsiah. como explica S. Hierónimo. De maneira que na primeira visão foi Cristo. senão também os hereges e até mesmo Rabinos. que sem ódio escreveram antes de Cristo. os quais acertam em dizer que nesta pedra está profetizado o Reino do Messias. filho de Josedec significavam o mesmo Império Quinto profetizado por Daniel: e que seja Cristo o soberaníssimo Monarca que Zacarias viu coroar naquela figura. E porque Deus não havia de ter subsistência humana como os outros homens. Quem havia de duvidar que em um quasi cabia uma distancia infinita? A terceira visão de Zacarias confirma ainda com maior propriedade ser Cristo o Senhor deste Império.. sendo verdadeiro homem. Só reparou Maldonado que não se chama Cristo neste lugar Filho do Homem absolutamente. na terceira com o nome propriíssimo de Jesus. posto que tão superiormente suprida com a divina.Antiquum dierum pervenit: . Esta é a sentença comum e mais recebida dos Padres e expositores deste lugar. S. não lhe chama por isso o Profeta homem.. porque são todos. E que cousa há mais certa e freqüente no Evangelho que chamar-se Cristo Filho do Homem? Quem dicunt homines esse filium hominis? Væ autem homini illi per quem filis hominis tradetur! Tunc videbunt filius hominis venientem in nubibus cæli.. porque na geração temporal de Cristo. De sorte que a pessoa a quem foi dado por Deus o Quinto Império de que Danie1 fala neste lugar (como vimos) era o Filho do Homem. como a mais perfeita e excelente de todas. Agostinho. ou finalmente é a Virgem Maria. Jesus filii Josedeci: e em todas estas três visões em que Deus revelou aos seus Profetas a 115 . diz o doutissimo Sanchez. e a opinião comum de todos os Padres e Doutores. Ireneu.Anexo:Imprimir/ História do Futuro sobre todos eles. E este monte ou é o Céu e o seio do Eterno Padre. Ruperto e muitos outros Padres. et usque ad. Júlio. S. senão quase homem-quasi filius hominis.. sendo quasi filius hominis. e porque o texto é tão claro que não há mister intérpretes. para denotar o Profeta que entre este homem e os outros homens havia diferença: os outros são puros homens. Assim o notou o mesmo S. etc. na segunda com o nome particular de Filho do Homem. Assim o dizem conformemente neste lugar não só todos os Padres e expositores católicos. Diz Daniel que esta pedra caiu de um alto monte.

. ea ad Regnum Christi et Christianorm accommodari. E no 27: Regnum autem. bastem os textos alegados. de que usa Daniel. escrevendo aos cristãos da cidade de Filipe. et regnum obtinuerunt sancti. no título ou sobrescrito da carta diz assim: Omnibus Sanctis in Christo qui sunt Philippis «a todos os Santos em Cristo que estão em Philippis». e os quatro a que ele devia de suceder. conforme o texto da Epístola ad Corinthios: In ecclesiis Sanctorm doceo. Reino de Cristo e dos Cristãos. etc. exortando aos mesmos Romanos a que socorressem com suas esmolas aos cristãos necessitados: Necessitatibus Sanctorum communicantes. No verso 18 daquele capítulo (que é o VII) diz assim: Suscitient autem regnum Sancti Dei altissimi: et oblinebunt regnum usque in sæculum et sacculum sæculorum. Finalmente este era o ordinário modo de falar da primitiva Igreja. Muitas cousas e muito grandes disse nestas palavras o Anjo. et potestas. et judicium dedit sanctis Excelsi. perguntou o mesmo Profeta a um dos anjos que assistiam ao trono a significação das cousas que via. tornemos à segunda visão de Daniel. as quais ficam reservadas para se explicarem em seus lugares por agora só nos serve (o que diz e repete tantas vezes o Anjo) que aquele mesmo Reino que o eterno Padre deu ou há-de dar a seu filho Cristo é o Reino e o Império dos Santos. os fundamentais de toda ela. e principalmente os que estão em casa de César». Com muitos outros textos da Escritura pudéramos confirmar esta mesma conclusão. em nome de alguns cristãos que estavam em serviço do Imperador que então era Nero: Salutant vos omnes Sancti maxime autem qui de Cæsaris domo sunt: «saúdam-vos. que são. et omnes reges servient ei et obedient. representando Cristo os grandes males que Saulo tinha feito contra os Cristãos: Quanta mala Sanctis tuis fecerit. e revelou também que o Senhor e o Monarca deste Império havia de ser Cristo. mas porque tudo o que havemos de dizer nesta história será uma continuada prova e confirmação dela. a quem ele chama o Antigo dos dias dera ao Filho do Homem aquele novo reino ou império. E saudando aos Filipenses no fim da epístola citada. 116 . onde Deus para consolação dos fiéis quis que nos ficasse expressa e revelada esta tão gloriosa verdade. lhes mostrou . E escreveu aos cristãos de Roma: Omnibus qui sunt Romæ dilectis Dei. et magnitudo regni quæ est subter omne cælum. Cristãos. Depois de referir Daniel como Deus Padre. et dierum. como dizia. vocatis Sanctis. e ele lhe disse por três vezes que o reino e império que vira dar ao Filho do Homem era o reino e império que os santos do Altíssimo haviam de ter neste Mundo. cujus regnum. Assim o diz expressamente sobre estas palavras de Daniel o seu grande comentador Perério. e assim lemos no capítulo IX dos Atos dos Apóstolos que usou da mesma frase Ananias. E que pelo nome de Santos. dos Cristãos. todos os Santos. isto é. E a este uso se chamaram as igrejas dos Cristãos igrejas dos Santos. et tempus advenit. Paulo. chamando a este Quinto Império Regnum Christi e Christianoram. Deinceps (diz ele) pagnandum nobis est cum Judæis qui Christianis infensi infestique et iniquo animo ferentes. regnum sempiternum est. senão frase muito corrente e ordinária em toda ela. diz. Mas porque no princípio deste capítulo dissemos que o Quinto Império era o Império de Cristo e dos. em Macedônia. E na mesma epístola. detur populo sanctorum Altissimi.Anexo:Imprimir/ História do Futuro grandeza e majestade futura do Quinto Império. S. E no verso : Donec vénit Antiquus dierum. se entendam e devam entender os Cristãos não é só explicação de intérpretes da Escritura. quæ de illo quinto Regno tam præclara et gloriosa prædix Daniel.

senão do Céu. desfeito em pó e em cinza. de que fala Daniel. E posto que os autores desta sentença mais supõem que aprovam. Os reinos deste Mundo todos de sua própria natureza são corruptíveis. Fundam a sua opinião nas mesmas visões de Daniel. entre os Padres gregos. lapis autem qui percusserat statuam factus est mons magnus. Logo. o qual é de fé que se há-de acabar. nós aprovaremos e demonstraremos com os textos das mesmas visões. chamados de Jesus Cristo e chamados santos. argumenta assim Este Reino ou Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser Reino perpétuo. Regnu sempiternum. Deu motivo a esta questão. repúblicas e impérios do Mundo se não hão-de desfazer em cinza. hão-de ter um com o mesmo Mundo. nem se hão-de acabar. e todos. Capítulo II) por Padre Antônio Vieira 117 Pergunta-se se este Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser neste Mundo ou no outro. não há-de ser neste Mundo. por mais que durem e permaneçam. em que lhe chama Vocati Jesu Christi et vocatis Sanctis. e entre os latinos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A razão deste nome é tomada da santidade da Lei de Cristo que professam os Cristãos. os quais. incorruptíve1 e eterno. se o Reino e Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser perpétuo. que é em próprios termos o que depois se viu na Igreja e o que diz aqui o Anjo: Regnum autem et potestas detur populo sanctorum. æs. Tertuliano. Contudo a sentença comum dos Santos. o Teodoreto. com a mesma frase com que depois se nomearam os Cristãos. mas que tem para si que há-de ser este Império no Céu e não na Terra. E aquele povo remido por Deus será chamado publicamente Povo santo. Sendo logo certo como é que os reinos. História do Futuro (Volume II. argentum et aurum. nullusque locus inventus est eis. e já tinham desaparecido totalmente do Mundo. E ambos estes nomes e as etimologias deles compreendeu S. segue-se que o Império de Cristo e dos Cristãos. fundado na mesma visão. Regnum quod non corrumpetur. como dizem expressamente as palavras de ambos os textos: Regnum quod in eternum non dissipabitur. e chamando ao Reino dos Cristãos Reino dos Santos. Tertuliano. nem se poder achar ou conhecer o lugar onde tivessem estado. cidades. Paulo no princípio da Epístola aos Romanos. é que este Reino e Império de Cristo e dos Cristãos profetizado por Daniel (qualquer que haja de ser) é Império da Terra e na Terra. como consta do texto: Tunc contrita sunt pariter ferrum. sem haver mais que a memória deles. desta maneira: Antes que a pedra cortada do monte (que é Deus e o seu Império) crescesse a toda aquela sua grandeza (diz Teodoreto). senão no outro. E este é o sentido em que Daniel e o Anjo falaram naquela visão chamando a Cristo Filho do Homem. et redacta quasi in favillam æstiva. os quais concordavam com a verdade da nossa História em dizerem com os demais que o Quinto Império é o de Cristo e dos Cristãos. e aquela sua grandeza prodigiosa e que há-de crescer. bem assim como já antes de Daniel o tinha profetizado com o mesmo espírito Isaías: Et vocabunt eos populus sanctus. e recebida e seguida como certa de todos os expositores. areæ quæ rapta sunt vento. redempti a Domino. já o vento os tinha levado pelos ares. senão quando se desfizer e acabar o mesmo Mundo na última ruína dele. assim da Lei santa de Cristo se chamaram santos. Regnum usque in sæculum et sæculum sceculorum. com a mesma frase com que depois se nomeou a Cristo. e muito mais na segunda. . testa. já todos os outros reinos e impérios do Mundo estavam derrubados e caídos. incorruptível e eterno. assim como de Cristo se chamavam cristãos. clara e manifestamente se segue que não há-de ser império da Terra. Livro II.

e crescer a uma grandeza tão imensa. porque o Reino e Império de Cristo. que agora só trataremos qual seja em comum o deste Império. dizendo que este Reino havia de ser no Céu e não na Terra. porque. detur populo sanctorurn Altissimi. e na Terra é que há-de ser servido e obedecido e reconhecida de 118 . quæ est subter omne cælum. Mas para que são conseqüências. Regnum autem et potestas et magnitudo regni. que são os Cristãos. de nenhum modo há-de crescer nem pode crescer. como se deve ao estado do Céu. depois de acabado o Mundo. nem podemos negar que este Reino e Império de Cristo e dos Cristãos há-de durar também com o mesmo Cristo e os mesmos Cristãos depois de bem-aventurados por toda a eternidade no Céu.» Podia-se dizer cousa mais clara? Parece que estava antevendo Daniel que havia de haver quem interpretasse esta sua visão em diferente sentido do que ele a escrevia. adverte e nota sinaladamente o Profeta que não é Reino do Céu. pois posto se entenda e saiba que não é assim. não há-de haver mais homens que vão ao Céu. Não há-de crescer nem pode crescer no número dos homens. mas nem por isso há-de deixar de ter na Terra a grandeza que nestes textos lhe é profetizada e prometida. porém. nem se obedece. não é império do Céu nem depois de acabado o Mundo. senão de debaixo do Céu: magnitudo regni. os quais o hão-de servir e lhe hão-de obedecer: et omnes reges servient ei et obedient. não há-de crescer nem pode crescer na glória dos bem-aventurados. que cresceu e se fez um monte tão grande que ocupou e encheu toda a terra. no Céu consumada e perfeitíssima. cresceu? Logo. os quais dizem que este Reino e Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser incoado na Terra e consumado no Céu. Nas palavras que se seguem a estas declara mais em particular Danie1 (ou o Anjo por ele) quem hão-de ser os súbditos deste Império. porque. «0 Reino ou Império que se há-de dar ao povo dos Santos do Altíssimo. Se a pedra. bem se colhe que há-de ser Império da Terra e não do Céu. cada um há-de receber por inteiro toda a glória devida a seus merecimentos. bem claro se mostra que é Império da Terra e não do Céu e que na Terra e não no Céu há-de ter toda esta sua grandeza. e este é o Império profetizado de Cristo. Logo. Não negamos. que derribou os outros impérios. antes a razão de haver de ter tanta grandeza no Céu. depois de acabado o Mundo e depois do Dia de Juízo. Lapis autem qui percusserat statuam factus est mons magnus et implevit universam terram. e como se acabou o tempo de mais merecer. Infiro agora assim: Esta pedra e este Império de Cristo. que est subter omne cælum. na primeira visão. desde aquele ponto. se o Reino de Cristo e dos Cristãos há-de crescer depois daquele tempo. como veremos em seu lugar. crescendo. se fez um grande monte. é porque a terá primeiro na Terra. o qual grande monte encheu e ocupou toda a Terra. e diz em nova confirmação do que dizemos. segue-se que esse crescimento há-de ser neste Mundo e não no outro. Os termos da segunda visão de Daniel ainda são (se podem ser) mais evidentes. assim se acabou o tempo de mais alcançar. e só se goza o prêmio do que se obedeceu. este é o mais ordinário sentir de todos os expositores de Daniel. mas com tanta discrepância de tempos. se as mesmas palavras do texto o dizem claramente? Factus est mons magnus et implevit universam terram. Desta maneira se concilia e concorda facilmente a opinião de Tertuliano e Tedoreto com a verdade da nossa.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Daquela pedra que representava a Cristo e seu Império. diz Daniel. Da Terra é logo este Império. porque no Céu não se serve. detur populo sanctorum Altissimi. do que se serviu e do que se mereceu na Terra. Se os reis hão-de servir e obedecer a este Império. nem se merece. que serão todos os reis do Mundo. é o poder e grandeza de todos os reinos que há debaixo do Céu.

senão do outro. 119 . etc.non inventus est locus ejus-que «se não achou mais o seu lugar». por ser fundada nas mesmas palavras do texto de Daniel. e juízo rigoroso e de grande majestade. de quem fala a Escritura pelos mesmos termos. senão um juízo particular. Respondo que é certo falar neste lugar o Profeta de juízo. como notou S. dos livros que se abriram e do mesmo nome de juízo. Ao argumento de Tertuliano que se fundava na eternidade do Quinto Império. claramente se convence que ano é nem há-de ser Império desde Mundo. Logo. sive in omni plaga cælo subjecta. as quais nem cada uma por si nem todas juntas compreenderão nunca toda a grandeza da Terra. et capilli captis ejus quasi lana munda. Mas se entendermos o texto de Daniel da duração somente que o Império de Cristo e dos Cristãos há de ser neste Mundo. seu filho.a sobre o Gênesis. E isto quer dizer em frase da Escritura . Matias. em que Cristo há-de vir julgar os vivos e os mortos no fim do Mundo. e a dos Gregos pela sucessão dos Romanos e se acabará também a dos Romanos pela sucessão do Quinto Império. senão que estão demonstrando o vigor e majestade do juízo final. já temos dito que a continuação dele no Céu há-de ser verdadeiramente eterna em toda a propriedade e largueza da significação desta palavra. Responder aos seus argumentos é igualmente fácil. senão continuação e permanência de muito tempo. e mostraremos mais largamente quando escrevermos a duração do Quinto Império. cidade e gentes das ditas monarquias se haviam de acabar e extinguir totalmente (como há-de acontecer a todo o Mundo no Dia de Juízo) senão que havia de se acabar seu mando. e para meter de posse e o entregar a Cristo. não só pode embaraçar a verdade da nossa sentença. como legitimo senhor e herdeiro dele.. não quer dizer que as terras. do fogo. seu império. Ao de Teodoreto dizemos que o texto de Daniel só fala das quatro monarquias representadas nos quatro metais da estátua. Agostinho na Questão 3I. e quando se diz que ficaram desfeitas em pó e desapareceram. e foram voadas do vento. judicium sedit et libri aperti sunt. thronus ejus flammæ ignis rotæ ejus ignis accensus. pela palavra eternidade não se entende rigorosamente duração sem fim. Mas para que tiremos todo o escrúpulo aos outros razão será não passe sem satisfação uma grande dúvida que. sed quæ est subter omne cælum. id est in omni terra. em que o Padre Eterno há-de tirar o Reino e Império universal do Mundo ao tirano ou tiranos que então o possuírem. sua soberania. comentando as palavras subter omne cælum. se o Reino e Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser depois do juízo final. que depois veremos quanto há-de ser. como se vê no exemplo de Judas. mas confirmar na contrária os autores e seguidores dela. porque sucederam outros nele. como bem advertiu Cornélio. et decies millies centena millia assistebant ei. e consta que sucedeu em seu lugar S. mas digo com a mesma certeza que este juízo não é o juízo final. e assim o entendem mais ordinariamente os expositores desta visão. et Antiquus dierum sedit vestimentum ejus candidum quasi nix. que são os Cristãos. Millia millium ministrabant ei. Aspiciebam (diz Daniel na segunda visão) donec throni positi sunt. da assistência dos anjos. E estas palavras por todas as circunstâncias do trono. e aos professores de sua fé e obediência.Anexo:Imprimir/ História do Futuro todos os reis dela. como verdadeiramente se acabou a dos Assírios pela sucessão dos Persas. e a dos Persas pela sucessão dos Gregos. Entretanto basta saber-se que a palavra eterno tem este mesmo sentido e limitação em muitos lugares da Escritura. seu poder. Fluvius igneus. e juízo de Deus. rapidusque egrediebatur a facie ejus. e não se achou mais o lugar onde estivessem. pouco atrás citadas: Non quæ est super. não só parece que significam.

temporal. é principalmente o da Terra e não o do Céu. em quanto este fim particular e mediato se ordena ao último fim. para que se acendesse nela a claridade que tão apagada estava. Isto posto. de que falam as profecias alegadas. nem que maior demonstração ou evidência de ser o Reino e Império deste santíssimo e soberaníssimo Rei. o rigor do juízo. os interesses da esmola. e em seu nascimento foi aclamado Rei e em sua morte intitulado Rei. a eternidade do Inferno. finalmente que abriu sete fontes de graça e ou que instituiu sete sacramentos perpétuos e ficou Ele conosco perpetuamente em sacramento. diremos primeiramente que este Império de Cristo (o qual não há-de ser diferente do que hoje é. lho abriu e mereceu com seu sangue. e se demonstra com o mesmo mistério da Encarnação e fim com que Cristo veio ao Mundo. todos os teólogos antigos e modernos. que veio lançar fogo na terra. que dizemos há de ser na Terra. que veio encher e informar a lei e animar a letra com o espírito. perguntamos agora se este Império de Cristo há-de ser espiritual ou temporal. que se dirige a governar os vassalos por meio de leis prudentes e justas. o perdão das injúrias. se perguntarmos aos Evangelistas (deixando o testemunho das outras Escrituras) que fez Cristo e que ensinou com a palavra e com o exemplo.quanto ao modo como em seu lugar veremos) é império espiritual. espiritual como o que hoje tem o Sumo Pontífice. que veio apartar os pais dos filhos e os filhos dos pais. que é o último fim do homem. cujo poder e jurdição se ordena a governar os fiéis membros e súbditos da Igreja. que é o fim particular de todas as comunidades humanas. cujo reino lhes pregou e prometeu sempre. a conseguir a bem-aventurança. e todos os expositores de ambos os Testamentos. e suposto que . Porque este Império de Cristo. que ensinou o desprezo das riquezas. desde o dia em que nasceu até à hora em que expirou na cruz. e começando pela conclusão em que não há resistência nem dificuldade. Sendo pois estas as ações daquele Senhor a quem antes de vir ao Mundo todos os profetas chamaram Pai. e que nos deixou o seu amor e o nosso contentamento. Assim o ensinam e ensinaram sempre conformemente todos os Padres e Doutores da Igreja. dir-nos-ão que veio ensinar aos homens a ciência da saúde e salvação. que nos lavou com o seu sangue. que morreu por nós. Reino e Império espiritual? Foi Reino e Império espiritual no fim e causas de sua instituição. outra não conhecida no Mundo. espiritual no uso. Livro II. espiritual no governo. como acabamos de resolver. e estando até aquele tempo fechado. que veio vencer o demônio e lançá-lo do Mundo. e com a doutrina e ações de sua vida e morte. Capítulo III) por Padre Antônio Vieira Se este Império de Cristo no Mundo é espiritual ou temporal Assentado. que este Império de Cristo e dos Cristãos. como o que têm os príncipes católicos sobre os seus reinos e províncias. que pregou o Reino do Céu. Porque. onde reinava e se intitulava príncipe. que maior sentimento se pode desejar. para que a graça prevalecesse contra a natureza e o amor de Deus pudesse mais que o do sangue. espiritual nas leis. ainda nesta suposição nos resta averiguar um ponto de grande importância e de cuja decisão depende o maior fundamento de todo este nosso discurso. a virtude da humildade e a da castidade. e sendo todas elas ordenadas só à salvação e perfeição dos homens e dirigidas e encaminhadas ao Céu. a verdadeira amizade com os inimigos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 120 História do Futuro (Volume II. que veio ser luz do Mundo e alumiar os que vêm a ele. dos Cristãos católicos. nas execuções e no exercício. o preço e imortalidade da alma. uma não usada. senão . ou pode ser espiritual ou temporal.

mas logo declara o gênero de armas. Império. todas espirituais.intende.regnabit rex et sapiens erit.super solium David et super regnum ejus sedebit in eternum. no capítulo IX. estreite e determine ao espiritual somente. Não alegamos aos autores desta doutrina... ipse pauper et ascendens super asinam. em qualquer tempo futuro será e há-de ser também espiritual. E depois . anuncia o mesmo Reino de Cristo e sua perpetuidade: . no capítulo XXIII. assim por serem todos. e somente lhe concedem ou admitem nele o puramente espiritual.. como porque alegaremos muitos no capítulo seguinte. o mesmo Cristo »— confessando a Pilatos que era rei »— Tu dicis quia rex sum ego . o Arcebispo primaz é juntamente Bispo e Senhor de Braga. mas logo limita a significação do ofício ou dignidade. mas logo aponta os fundamentos espirituais também. como dissemos. de modo que um outro domínio bem pode sem repugnância alguma convir e ajustar-se no mesmo sujeito. com que há-de conquistar o Mundo: Propter veritatem et mansuetudinem et justitiam .acrescentou logo que o seu Reino era para dar testemunho da verdade ao Mundo: Ego in hoc veni in mundum ut testimonium perhibeam veritati. Fundam primeiramente esta sua sentença em muitos lugares da Escritura e particularmente em todos aqueles com que no capítulo passado mostramos o seu nome e título de Rei. dizendo que para pregar seus preceitos-praedicans praeceptum ejus. que os Profetas davam a Cristo. Suposto pois que o Reino e Império de Cristo seja espiritual. e no nosso reino. Assim vemos que o Sumo Pontífice.. Refere-se a opinião negativa O império e domínio temporal é certo que de sua natureza não exclui nem implica com o temporal. História do Futuro (Volume II. mas logo determina os efeitos dessa sabedoria que hão-de ser encaminhados todos à salvação: In diebus illis salvabitur Juda. poder e domínio temporal. é também senhor e príncipe temporal do estado que chamam eclesiástico. Zacarias no capítulo IX descreve o triunfo de Cristo aclamado por rei na entrada de Jerusalém: Ecce Rex tuus veniet tibi. de que lhe háde vir a firmeza: ut confirmet illud et corroboret in judicio et justitia. Muitos e graves teólogos seguem de tal maneira a parte negativa que exclui totalmente do Império de Cristo toda a jurdição. domínio. Finalmente. Isaias.Anexo:Imprimir/ História do Futuro dizemos há-de ser sempre o mesmo (nem é decente nem seria crível outra cousa). et deducet te mirabiliter dextera tua. mas logo lhe chama rei e salvador justo. bem assim como aquele que os príncipes eclesiásticos têm sobre suas igrejas ou ovelhas (posto que por modo mais sublime e excelente) mas de nenhum como aquele que os senhores e príncipes seculares têm sobre seus estados e vassalos. tendo o domínio espiritual de toda a Igreja. em Alemanha. três dos eleitores do Império são príncipes eclesiásticos e senhores temporais de seus estados.Ego autem constitutus sum rex ab eo. celebra o Reino e sabedoria de Cristo Rei: . No Salmo II chama David a Cristo Rei constituído por Deus . como acabamos de resolver.. sempre acrescentam alguma explicação ou limitação com que o nome geral de Rei e Senhor se distinga ou aliene da significação de poder temporal. e se limite. pobre e humilde: Justus et salvator. resta examinar agora se é também império temporal. No Salmo XLIV descreve o mesmo Profeta as prosperidades e progressos do Reino de Cristo: . Jeremias.. prospere procede et regna. poder ou principado de Cristo. Livro II. Capítulo IV) por Padre Antônio Vieira 121 Examina-se se o Reino e Império de Cristo é também temporal. e notam bem advertida e doutamente estes autores que todas as vezes que os textos da Escritura Sagrada falam no Reino.

Argumentam ou decorrem assim: Se Cristo foi Rei temporal. Por direito divino também não. mas que convencem e desfazem a probabilidade de qualquer outra. se nem para o decoro da pessoa. como dizem menos provavelmente alguns autores. a herança de um reino particular não lhe dava direito para o império de todo o Mundo. declarando aos Apóstolos com a maior majestade de palavras que podia ser a grandeza de seu império. a majestade de todo ele? E se esta majestade. qui crediderit et baptizatus fuerit. das quais palavras podemos dizer: Quid adhuc egemus testibus? A eficácia destes textos se acrescenta a de muitas razões e argumentos. salvus erit: fé. todos. que dizer-se que o tivera e conservara. honras e haveres do Mundo. se ele vinha como vimos a confundir com seu exemplo o mesmo Mundo. com que parece aos autores desta sentença que não só estabelecem de todo a certeza dela. se queria ser perfeito. Por direito natural não. e ainda que o pedira. Segue-se logo que o Reino e Império de Cristo é espiritual somente. porque. com que o elegessem por Rei e Senhor de 122 . Sobretudo está por esta parte aquele claríssimo oráculo de Cristo: Regnum meum non est hoc mundo . nem para o fim do ofício. como alguns dizem? Com que liberdade ou com que confiança havia de aconselhar ou mandar Cristo a certo mancebo que. como dizia com esta renunciação de todos os bens. ou por direito humano. deixasse o domínio das suas herdades. se entendem do Reino espiritual ou celeste. De que servia a Cristo (dizem) o nome ou jurdição de Rei temporal do Mundo. se no mesmo tempo o mestre desta perfeição retivesse o domínio de toda a Terra? Para que se há-de admitir logo o nome deste Império temporal em Cristo. batismo e salvação dos homens. se houvera tal direito. sem nos obrigarem a que os entendamos do Reino ou Império temporal. que não são muitas vezes as que menos persuadem. o império. não seria maior autoridade. por não dizer indecência. e quando menos se podem interpretar assim. e para Cristo ser respectivamente Rei universal de todo o Mundo por esta via. por direito humano não. e posto que muitos textos da Escritura falem de Cristo como Rei e lhe dêem o nome e título de Rei. podendo tê-lo. Finalmente. o domínio. e para o exercício e uso que nunca teve realmente inútil e ocioso? Estas razões ou admirações. constara pelas Escrituras. ou por direito divino. porque Cristo não era filho nem herdeiro de rei. se fecham e apertam eficazmente com um discurso fundido em todos os princípios gerais de direito. os mesmos reis e as mesmas temporalidades? Se a perfeição cristã que Cristo veio ensinar aos homens consistia em deixar tudo e seguir em pobreza e humildade a Cristo pobre e humilde.o meu Reino não é deste Mundo. como vimos. ou foi Rei por direito natural. maior exemplo e ainda maior circunstância de perfeição saber-se que o renunciara Cristo. a qual. porque a jurdição de fazer ou eleger rei está na comunidade dos homens. este império e este domínio não havia de ter (como nunca teve com Cristo) uso ou exercício público. e de nenhum modo temporal. e dado que fosse legítimo sucessor do Reino de Israel. parece que traz consigo alguma dureza e dissonância. e havia de estar sempre oculto e encoberto aos homens. domínio e potestade-Data est mihi omnis potestas in Cælo in Terra-a conseqüência que tirou deste poder tão universal foi: Euntes in mundum universum prædicantes Evangelium omni creaturæ.Anexo:Imprimir/ História do Futuro de ressuscitado. construída com o Império de Cristo e pronunciada aos ouvidos mais religiosos e espirituais. nem para o exemplo da doutrina era necessário. entre os quais porventura não é o que tem granjeado menos votos a esta opinião errada aquela palavra temporal. era necessário que todos os homens e comunidades do Mundo se unissem em um consentimento.

falam. a opinião do Reino temporal de Cristo e da Conceição imaculada de sua Mãe se acompanharam no mesmo tempo na mesma fortuna. Mas. Atanásio. Gregório. parecendo-lhes cousa indigna. e o que nos tempos passados é duvidoso. Francisco de Cristo. que Vasques os alega (e diz que assim se devem alegar) pela parte contrária. que era a terra onde Cristo vivia.aos inimigos (porque também na Teologia se deve entender: Omnia dat qui justa negat). Castro. Ao menos confessa Vasques que da doutrina dos Padres não se pode convencer o contrário. de nenhum modo foi nem pode ser temporal. já têm vencido Mitigou-se com os dias e com a consideração o horror daquele nome temporal. tão celebrado nas Escrituras. Nenhum dos outros Padres fala em termos de tanta expressão. Os Origenistas chamavam por escárnio pelusiotas aos que seguem a fé de que todos havemos de ressuscitar em nossos corpos. antes se tiravam . nem por eleição humana. como disse S. qui populus regnum fuerat amissurus Christo Domino nostro per Novum Testamentum. fugiu deles e do mesmo título. só porque não tomasse o nome de Rei. Os Padres que isto disseram e seguiram querem alguns que sejam todos. quando ele escreveu. non carnaliter sed spiritualiter regnaturo. Advirta-se. se não espiritual e somente qual acima dissemos. Driedo. Letmatio. mais se alumia. Não fazem menos santo a Cristo. na ocasião em que alguns deles lho quiseram dar. O primeiro que se alega é Santo Agostinho em muitos lugares. acabou-se de conhecer que com e1e se não davam armas. para crédito de Maldonado e nosso. mas alegam-se e podem-se alegar no mesmo sentido S. S.por doação ou nomeação divina. Vitória. por termos tão indiferentes. entre os quais o mais claro (ou o que parece) é este: Populi personam figurate gerebat homo ille. e antes dele Sábio. com outras galantarias. o que nunca houve. Nem sempre é maior espiritualidade o que mais opõem ao corpo. bem se conclui que o Reino e Império de Cristo. e resolveu-se que não eram menos espirituais os que admitiam no Império de Cristo o nome de temporal. scilicet Saul. quanto a Igreja mais cresce. e que o mesmo Senhor. E são estes: Hermas. História do Futuro (Volume II. Abulense e Waldense. Capítulo V) por Padre Antônio Vieira 123 Propõe-se e defende-se a opinião afirmativa Se escrevêramos menos há de cem anos. e o ter em sua própria essência eminentemente as idéias de todas elas? Antes . João Crisóstomo. O douto leitor julgará se são os melhores. Ambrósio. e se escondeu em um monte para escapar daquela violência. nem por sucessão natural.parte Soto. S. se não têm ainda triunfado. e diz S. Melchior Flávio. Jansénio. Logo se não foi Rei temporal. e ambas ao fim. antes sabemos que os príncipes e povo de Judéia. porém. nem . e muito contra o decoro da bem-aventurança. Livro II. Tertuliano. que os teólogos que hoje têm maior fama nas escolas. se conjuraram contra ele e lhe tiraram a vida. ainda não tinham escrito. e diz o doutíssimo Maldonado que esta é a sentença comum dos melhores teólogos que assim o disseram. nem querem fazer menos espiritual o Mundo. que houvessem de aparecer diante de Deus as nossas almas com vestidos tão indecentes como são os corpos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro todas. João Parisiense. Adrião Fino. Teófilo e outros. Jerônimo. porventura que não puséramos aqui tão confiadamente este capitulo. Porventura ofende a Deus. nos futuros se sabe. em quanto Deus. Bertolameu de Medina. o ser senhor e criador de todas as cousas corporais. sucederam àqueles teólogos de grande espírito outros de grandes espíritos. e posto que também se citem por esta . que não eram os que pior tratavam seus corpos os que isto diziam. os que reconhecem em Cristo o domínio temporal dele.

sed et verus ac absolutus et proprius. mais perfeito e mais excelente domínio. para dar por provada e acreditada com o Mundo uma verdade tão necessária e importante como depois veremos. onde era catedrático de Scoto. o Cardeal Lugo. como se pode ver nos lugares citados à margem. em que chama a Cristo Príncipe dos reis da Terra e Rei dos reis e Senhor dos senhores. com jurdição tão própria e direta sobre todo o Mundo como a que os reis particulares têm sobre seus vassalos e reinos. e os vamos juntamente impugnando e desfazendo. non tantum spiritualis rex ac dominus. et unusquisque hominum dominus est suarum rerum. E para que demonstremos a verdade desta nossa crença. O Cardeal Toledo. Scoto. com poder de dispor delas a seu arbítrio. Pois o domínio soberano. Peres. isto o que não admitem os Padres. e se é regra certa. Soares. atque omnium rerurm creatarum. Hurtado Arriaga. João Evangelista. Verga. secundum quod homo est. Os teólogos que isto assentam por conclusão é S. Caspense. Molina. Ludòvico Tena. dando e tirando reinos. o Cardeal Hostiense. a qual em toda a Escritura Sagrada significa Rei temporal. sobre todas as cousas criadas. Agostinho. Valença. se eles não foram diante. Salazar. como o Cardeal Turrecremata. não dependente como eles das criaturas. que é perfeição em Deus Deus (digamo-lo assim). que as palavras da Sagrada Escritura se não hão-de interpretar em sentido metafórico e 124 . e isto o que explicou o mesmo Cristo. e do império temporal de Cristo. S. porque há-de ser menos decência em Deus Homem? Quando chamamos Império temporal ao de Cristo. dos quais este último já no ano de 1586. Lacerda. Este é o sentido em que falam com pouca diferença de palavras todos os teólogos referidos. na Universidade de Salamanca. Waldense. antes dos quais tinham seguido e ensinado a mesma doutrina Santo Antonino. é um domínio soberano e supremo sobre todos os homens. eo quod illis in omnem usum potest citra alicujus injuriam uti. Vasques. não queremos dizer que é o seu Império sujeito às mudanças e inconstâncias do tempo. Arnico. e no capítulo XIX. e isto é só o que negam as Escrituras. Justiniano. Rex regnum et Dominus dominantium. Os quais textos e todos os mais se não podem entender própria e naturalmente senão do Reino temporal de Cristo. se assim não fora. Seguem a estes três lumes outros muitos que o puderam ser da Telogia. que por serem tão particulares os quero referir aqui: Verum Jesus Christus Deus ac Salvator noster fuerit vere ac proprie Dominus et Rex totius Orbis. Carçosa. porque o contrário devia fazer manifesta violência à significação da palavra Rei. Princeps regnum terrae. nem que receba a grandeza e majestade da pompa e aparato vão das cousas exteriores do Mundo. seja o primeiro o testemunho das mesmas Escrituras alegadas. como ensina S. em dois lugares do Apocalipse. pelos mesmos princípios e fundamentos da opinião contrária. sobre todos os reis. Durando. mas absoluto soberano.Anexo:Imprimir/ História do Futuro deixava de ser Deus. em que Cristo tão repetida e expressamente é chamado Rei por boca de todos os Profetas antigos. e bastava ter escrito estes três grandes nomes. excitou e defendeu galhardamente esta questão nos termos seguintes. quando disse: Regnum meum non est de hoc mundo. no capítulo I. antes com muito maior. Tomás. fazendo e desfazendo leis castigando e premiando. a que o mesmo Mundo quando fala com mais siso chama com razão temporalidades. A que podemos acrescentar o do maior Profeta da Lei da Graça. a que podemos ajuntar muitos juristas de grande nome. atque adeo tenporalis: tam vere et proprie quam Philippus 2dus temporis rex est Hispaniarum. Bacónio e outros. Almaino e os três já nomeados Abulense. Navarro. Cornelio. sublime e independente de todos. e os dois Mendonças insignes de Portugal e Castela. O Império que dão ou reconhecem em Cristo os que admitem e veneram nele o nome de temporal.

que é o que com toda a propriedade se chama império na Terra. que é o que mais propriamente se chama império no Céu.Anexo:Imprimir/ História do Futuro figurativo. e porque uma delas foi de prata e outra de ouro? A razão. Logo. e que o império espiritual significado no ouro era mais alto. senão quando. se se entenderem na sua significação própria e natural. em que só podia haver dúvida. quando respondermos a estas leves objeções da parte contrária. Teve logo Cristo o império espiritual. já vimos que a coroação de Jesus. A esta confirmação geral da significação da palavra Rei acrescenta o Padre Soares outra. sua e da Igreja. e consta das Sagradas Escrituras. ou ambas de prata. não só significa Império espiritual. se seguisse algum grande inconveniente ou absurdo contra a doutrina da mesma Escritura recebida pela Igreja. os mesmos nomes de Rei e Reino. tantas vezes celebrados e cantados pelos Profetas. senão uma de prata e outra de ouro. e impérios verdadeiramente temporais. não só esperamos de a confirmar eficazmente na mesma certeza. Agora pergunto porque foi coroado não com uma senão com duas coroas. nenhuma cousa exclui. se é certo (como é de fé) que aqueles quatro metais significavam quatro impérios sucessivos. pois lhe faltaria nesse caso o poder temporal. João. seguindo as regras do direito. pois se não segue de assim o entendermos inconveniente algum ou dissidência contra aquela grandeza e majestade de Cristo. sem manifesta implicação. o mesmo Cristo. falando do Império de Cristo.persuadir facilmente a qualquer entendimento fácil e dócil. e teve juntamente o império temporal. mais precioso e mais sublime que o império temporal. tomado na propriedade e natureza de sua significação. E quanto ao império temporal. senão duas: uma como Supremo Sacerdote. filho de Josedec significa a dignidade suprema do Império de Cristo. e outra como Supremo Rei. sem sair das mesmas profecias e textos fundamentais desta história. Agostinho no Tratado XXII sobre S. mas de lhe acrescentar com a nova luz deles nova evidência. E quem diz todo. para . que pertencia ao temporal. Estes são os textos mais eficazes e expressos com que os teólogos costumam provar a verdade do Império temporal de Cristo. bem se segue que a pedra que os derrubou e desfez. nos obrigam a conceder e confessar que em toda sua propriedade significam Rei e Reino temporal. glória e autoridade. que maior prova se podia desejar que a da estátua de Nabuco. E posto que baste cada um deles. antes de subir ao Céu. como prova S. antes muita honra. que tivesse ou tenha Cristo todo o poder. E por isso não eram ambas de ouro. começando pela profecia de Zacarias. 125 . deixou dito e publicado ao Mundo que seu Eterno Pai lhe tinha dado todo o poder no Céu e na Terra: Data est mihi omnis potestas in Cælo et in Terra. Porque o Reino espiritual de Cristo se distingue do Sacerdócio do mesmo Cristo. se o nome de Supremo Sacerdote significa o Reino e Império espiritual. e nós mostraremos largamente no capítulo seguinte. figura do Reino e Império de Cristo. nós. E. porque de outra maneira se não de dizer nem entender. e que eficazmente convence o sentido em que se deve tomar a mesma palavra. que é própria da pessoa de Cristo. não mística senão literal. que pertencia ao Império espiritual. segue-se que o de Supremo Rei significa o temporal. como neste capítulo se irá vendo. para maior demonstração da mesma verdade. para significar a diferença e preço daqueles dois impérios ou jurdições. Finalmente. cujos metais desfez a pedra em pó e em cinza? Porque. que o Reino e o Sacerdócio em Cristo são dignidades e jurdições distintas. dizem comumente os expositores que foi porque Cristo não teve uma só coroa. que é uma tão grande parte desse todo.

Para um império derrubar e desfazer a outro. o império do Filho do Homem ou de Cristo naquela visão é o mesmo Império universal que hão-de ter os Cristãos na Terra. e nem por isso deixam de ter o mesmo domínio e soberania temporal que. E este foi o erro. não haja de ser também temporal? Este é. o qual. como bem tem mostrado a experiência no mesmo Império espiritual de Cristo. que lhes há-de tirar essa soberania temporal. de nenhum modo se enfraquece com este indício ou argumento a verdade da nossa sentença. em que era significado o Império Romano. senão o Império temporal. Segue-se logo com evidência que o Império de Cristo. pelo qual se intitula com toda a propriedade Rex regnum et dominus dominantium. e esta oposição e contrariedade só se acha nos impérios temporais entre si. ocupando e enchendo toda a Terra. donde eles antes estiveram. Como se pode logo duvidar que este imenso e portentoso Império. que na mesma sentença e na mesma palavra se varia o sentido e suposição dela. e em outros que também lhes pudéramos ajuntar. e não entre o império espiritual e temporal. o que não faz nem pode fazer o Império espiritual. mandou primeiro queimar a quarta besta das vinte pontas. e este o Reino e Império de Cristo. crescendo e estabelecendo-se mais a grandeza e majestade da Igreja e dos Pontífices. para Deus dar o Império ao Filho do Homem. senão temporal! E tudo isto se verá mais claramente. e reina também hoje espiritualmente em todos os reinos que do mesmo Império Romano nasceram e se dividiram. e todos os reinos temporais que dela nasceram. para não admitirmos. cantando sobre sua loucura por boca da Igreja: Crudelis Herodes. quanto mais se estabelecia e crescia a dos Imperadores. é necessário que tenha oposição e contrariedade com ele acerca das mesmas cousas. tão cantado e celebrado nos oráculos dos Profetas. composto de todos os impérios. não desfez os impérios e reinos dos príncipes temporais. Finalmente. posto que seja espiritual e espiritualíssimo. de todos os reinos e de todas as repúblicas temporais. depois de comunicado a seus vigários os Sumos Pontífices. Nem menos se confirma a mesma verdade com a segunda visão de Daniel (Daniel VII) na qual lemos que. quando adiante explicarmos o tempo da ruína desta estátua e outras circunstâncias dela. E se nos lugares da Escritura alegados pelos autores da opinião contrária. porque só impérios temporais se derrubam. e conservam o nome de cristãos. como consta do mesmo texto de Daniel. tiveram. não é ou há-de ser o Império espiritual de Cristo. e que rex e dominus têm uma significação e regnum e dominantium outra. no qual Império hão-de entrar e ser incorporados todos os reis e reinos do Mundo. assim a palavra rex e dominus significa rei e senhor também temporal. e não espirituais. e assim como a palavra regnum e dominantium é sem dúvida que significa reis e senhores temporais. antes ajudou muito e se ajudou de seus aumentos. porque nós não dizemos que o Reino e Império de Cristo 126 . como melhor se entenderá pelo discurso de tudo o que diremos. que são impérios verdadeiramente temporais. antes com ela se confirma e estabelece mais. Deum regem venire quid times? non eritit mortalia qui Regna dat cælestia? sendo pois certo que o Reino e Império de Cristo derrubou ou há-de derrubar todos os impérios do Mundo. antes de receberem a sujeição de Cristo. arruínam e desfazem uns aos outros. ignorância e engano de que sempre os fiéis notaram e motejaram a Herodes. a que eles já estão sujeitos. como expressamente se colhe que o império de Cristo não é só espiritual. pois vemos que reinou antigamente Cristo espiritualmente em todo o Império Romano. parece que o domínio real de Cristo se limita e determina ordinariamente a fins e obras espirituais.Anexo:Imprimir/ História do Futuro senão também temporal. o que de nenhuma maneira era necessário se o Reino e Império de Cristo fora somente espiritual. com manifesta violência da Escritura e repugnância do entendimento.

Agostinho. Cipriano Adversus Judaeos cap. para convidarem a todos a lerem de boa vontade e com gosto seus escritos. explicando as palavras de Cristo: Regnum meum non est de hoc mundo. senão ainda em quanto temporal. dos quais porei aqui os que bastem a responder a estes e confirmar a verdade da nossa. e outras cousas de igual importância e dignidade. não porque os santos tivessem diferente parecer. recebidas entre os teólogos. Bernardo. cap. como dizem as palavras tão repetidas do nosso texto. S. ceterarunque rerum omnium. E S. XXVI. ponderando o lugar do nascimento de Cristo. mas porque em seu tempo não estavam em uso aqueles termos que depois inventou a Teologia. Cirilo. qui possessionem sibi vindicat. sed regni Cæsaris se non esse hostem ostendit. no Livro III De consideratione escrevendo ao Papa Eugénio: Dispensatio tibi super illum credita est. v. XXII. nam secundum potestatem in propria venit. cap. pois esse Reino e não outro é o que há-de ser eterno e glorioso no Céu. S.Anexo:Imprimir/ História do Futuro é espiritual. Vindo às autoridades (como dizem) dos Padres concedemos facilmente que são poucos os lugares de seus escritos em que se ache expressamente e em próprios termos o Reino temporal de Cristo. . diz. Dos quais termos se abstêm ainda hoje os que escrevem com estilo mais polido e levantado. Hilário sobre o Salmo II. sobre Jeremias. et dabo tibi gentes hæreditatem tuam et possessionem tuem terminos terræ?»Possessionem et dominium cede huic. diz assim: Regem se esse non negat. E mais claramente que todos S. nos quais também se acharam freqüentemente louvadas. que não só em quanto espiritual. quia -ejus regnum terrenum non est. inculcadas e persuadidas as virtudes que pertencem ao Reino espiritual de Cristo. senão que é espiritual e temporal juntamente. e para que nos livros dos autores cristãos se não achasse menos a propriedade e majestade da eloquência que tanto se venera nos escritores gentios. na Homilia VIII. S. V. mas porque deste não quis ter exercício aquele Senhor que era juntamente Senhor e Mestre. explicando muitos deles com palavras menos latinas (por não dizer bárbaras) qual é a palavra temporal. porque estes têm por fim a conservação e felicidade da Terra. Ireneu. Não próprio senão alheio:Alienum. E S. XVII. tu curam ilius habe. e isto é ser império de Cristo e dos Cristãos. no Livro XII sobre S. S. sed caeli et terra:. como S. Desta razão... Gregório. Cui enim alteri dictum est: «Postula a me. sed talis ut homines reges faceret. non data possessio. e o de Cristo e dos Cristãos a do Céu. Jerônimo. et jure creaturæ et merito redemptionis et dono patris. damos por testemunhas os mesmos livros dos Padres. no Livro IV. para maior clareza da doutrina escolástica. e nisto se distingue dos reinos meramente políticos e humanos. Não faltam contudo lugares muito ilustres aos Padres. e 127 . sobre os Evangelhos. Outras muitas sentenças semelhantes a estas se vêem em outros Santos Padres da mesma e maior antigüidade. se ordena ao fim último e sobrenatural da bem-aventurança. em que falavam do Império temporal de Cristo com termos Não menos expressos que os que se alegam pela parte contrária. como nos primeiros tempos da Igreja faziam aqueles santíssimos e doutíssimos Padres. não porque aqueles santos negassem à universalidade de seu Império o domínio temporal. non secundum potestatem sed secundum naturam.Non tu ille de quo Propheta: «Et erit omnis terra possessio ejus?» Christus hic est. e os principais e maiores exemplos que nos quis deixar foram do desprezo dele. como também se não acha o da graça santificante do mesmo Cristo. Lib. que é geral para muitas matérias. distinta da união hipostática. IV. João. conhecendo e tendo pela maior excelência deste felicíssimo Reino. no Tratado XIV sobre o mesmo Evangelista: Erat quidem Rex non talis qualis ab hominibus fit.

grandeza e majestade exterior de rei temporal. João Crisóstomo. Bernardino de Sena. o domínio e império ainda temporal sobre todo e1e. criados. falando do Rei que vieram adorar a Belém os reis e da diferença humilde de seu estado. a título de Mãe de Cristo. Atanásio. mas engrandecendo esse mesmo império pelo desprezo da pompa e aparato vão em que põem os reis da Terra sua grandeza e majestade. Ambrósio no Livro III. o Império e Monarquia universal de Cristo. principal mente em livro s apologéticos ou tratados. Bernardo. os primeiros interpretando erradamente as Escrituras. Senhora nossa. cum certe non istius regni ille rex esset. neque clypeatas ostendit militum catervas: non equos regalibus phaleris insignes. diz assim elegantemente: Quonam pato magi ex stella illa Judaeorum regem illum esse didicerut. dicens: «Domini est terra et plenitudo ejus. E se alguns dos mesmos Santos Padres . E S. no Sermão I De nativitate Virginis: Quandoquidem Christus rex est qui natus est ex virgine idemque et Dominus et Deus. O mesmo S. Serm. Lucas. reconhecem e veneram na Virgem. por todos os Padres que pudéramos trazer em comprovação desta nossa advertência. galas. et regira domina et deipara proprie et vere censetur. não negando a Cristo Rei. orbis terrarum et universi qui habitant in eo». senão quanto ao aparato. não só quanto ao Reino espiritual e do Céu. Basta. porque o Reino de Cristo verdadeiramente era deste Mundo e de todo o Mundo. sed vilem hanc prorsus vitam egit ac pauperem: duodecim tantummodo homines. ministri utique mei decertarent. cap. como dizíamos. sobre S. ut non traderer Judæis. e quão sem controvérsia. regina cælorum et domina mundi jure esse probutur. e este é o sentido próprio e germano em que Cristo disse a Pilatos: Regnum meum non est de hoc mundo. no Tomo I. parece que diziam e ensinavam o contrário (como verdadeiramente parece). Nihil quippe tale monstravit. E S. e os segundos fingindo as propriedades de Deus humanado conforme sua vaidade e apetite. Esse aparato e pompa exterior de riquezas. como gente costumada a fazer deuses à sua vontade. deve-se advertir que falavam do Reino de Cristo. Aos quais com razão podemos acrescentar todos aqueles autores antigos e modernos que. é o que os Santos negavam no Império de Cristo. E como a controvérsia e disputa daqueles tempos era contra este escândalo dos Judeus e contra esta estultícia dos Gentios. non cunas auro ostroque fulgentes. Neque enim hastas. Onde se deve notar que não disse Cristo: Regnum meum non est hujus mundi. ea propter et mater quæ eum genuit.signum: Maria (diz) eo quod mater Dei est. quia filius ejus in primo instanti suæ conceptionis monarchiam totius promeruit et obtinuit uriversi. e só não tinha os acidentes da vaidade e falsa grandeza com que se sustentam os outros reinos do Mundo. coches. no sentir comum dos Padres. no Sermão sobre as palavras do Apocalipse .Anexo:Imprimir/ História do Futuro S. sicut Propheta testatur. Como logo explicou na mesma razão que deu do que tinha dito: Si ex hoc mundo esset regnum meum.. quale mundi hujs reges habere conspicimus. não quanto ao poder. XI.. que são os nomes injuriosos ou gloriosos com que uns e outros afrontavam a cruz e humildade de Cristo. I: Virgo beatissima omnem hujus murdi meruit principatum et regnum. senão quanto ao temporal e da Terra. Dos quais lugares todos e muito mais claramente destes últimos se mostra quão assentada cousa era. um lugar de S. exércitos. por isso é tão freqüente nos escritos dos Padres a diferença do seu Reino aos reinos do Mundo. 128 . império ou domínio. em que. non enim istum neque alium quempiam circa se habuit ornatum. o qual os Judeus esperavam e os Gentios desejavam em Cristo. o império e domínio de todo o Mundo. palácios. e não o império e domínio dele sobre todo o Mundo. senão de hoc mundo. eosque despectabiles secum circumducendo. cavalos.

e de outros grandes Padres que. de que Deus é absoluto Senhor. Agostinho e S.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 129 História do Futuro (Volume II. o sexto por eleição e aceitação de todos os homens. mas ungido por natureza. Por isso Cristo no Apocalipse trazia o título de Rex regnum e Dominus dominantium. E por isso o nome que lhe puseram na circuncisão foi de Jesus. porque o ser ungido por Rei e universal Monarca do Mundo não lhe pertencia por imposição divina ou humana. E neste título convêm todos os teólogos acima alegados. a qual se inclui essencialmente na natureza de Cristo. Do qual Vasques diz Salazar que foi o primeiro a quem a Teologia deve os sólidos e verdadeiros princípios em que fundou o Império temporal de Cristo. conforme o texto de S. ou por ela (sem ninguém o constituir) é Rei e Senhor e Monarca supremo de todos os reis. São estes títulos seis. é Cristo Rei e universal Monarca do Mundo por natureza. E o mesmo Cristo. escrito. e não o de Cristo. apontam-se os títulos e razões do Reino temporal de Cristo O principal fundamento dos que não admitem no Reino de Cristo o império e domínio temporal. como diz o texto. porque por meio da união da divindade à humanidade. senão por natureza própria sua. porque. Paulo — quod si filius et haeres — lhe pertence a Cristo o título de herdeiro do domínio e império universal do Mundo. falando também de Cristo: Quem haeredem universorum per quem fecit et sæcula. e por ela fica constituído. O segundo título do Império de Cristo é por herança. Assim o disse o mesmo Deus por boca do Profeta Rei: Postula a me et dabo tibi gentes hæreditatem tuam et possessionem tuam terminos terræ. Gregório Nasianzeno. sendo Cristo filho natural de Deus. sem algum outro concurso ou condição extrínseca. assim a união hipostática em Cristo foi uma verdadeira e própria unção com que juntamente com o ser e a natureza recebeu o poder e a Monarquia do Mundo. in femore. Salvador por obediência. Paulo. apontaremos e provaremos aqui. de todos os reinos e de todos os impérios do Mundo. a quem geralmente seguiram todos os que depois dele escreveram. pertence ao mesmo Cristo em quanto homem o domínio e império universal de tudo o criado. o quarto por compra. como também no seguinte: . Livro II. os títulos por que é devido e compete a Cristo em quanto homem o Império e domínio supremo. o segundo por herança. Porei suas palavras no capítulo seguinte pelas não repetir duas vezes. o terceiro por doação. senão também temporal de todo o Mundo. que quer dizer salvador. Deus tuus. que significa a geração humana. não só espiritual. Primeiramente. com a maior brevidade que nos for possível. Capítulo VI) por Padre Antônio Vieira Prossegue a mesma matéria. ou por ser quem era. Este é o único fundamento do Padre Vasques. na parábola da vinha: Hic est hæres. E posto que Arriaga. que quer dizer ungido. que assim o disse no Salmo XLIV: Unxit te Deus. como eles dizem. venite et occidamus eum. E S. E assim como antigamente se faziam ou consagravam os reis pelo óleo que eram ungidos. nós veneramos nela a autoridade de David. como iremos mostrando pela mesma ordem. é por não haver título. não reconheceu na unção da união hipostática mais que a propriedade e energia da metáfora. o quinto por guerra justa. e para que se veja manifestamente a debilidade deste fundamento e tragamos à nossa sentença os mesmos autores que em seguimento deles abraçam a contrária. por não faltar ao costume de impugnar tudo. ao qual compita e seja devido aquele domínio. oleo laetitiae pre consortibus tuis e a explicação de S. para mostrar que o ser rei de todos os reis e senhor de todos os senhores lhe convinha e era seu por sua própria natureza. todos legítimos e conforme o direito: o primeiro por natureza. da parte de Deus nem da parte dos homens. assim o entenderam.

que é o quarto..: Omnia mihi tradita sunt a Patre meo.] 130 . assim no Velho como no Novo Testamento. porém. não é possível havê-lo. a cujo Reino e direito não queriam prejudicar. no capítulo III: Sciens quia omnia dedit ei pater in manus.. prometido aos primeiros Patriarcas da sua nação. em que se refere como os Judeus por consentimento comum elegeram por seu príncipe Simão e seus descendentes com a cláusula. E no capítulo. Lucas: Dabit illi dominus Deus sedem David patris ejus et regnabit in domo Jacob. e este consentimento comum nunca jamais o houve no Mundo. com que Cristo. como agora mostrarei. Aristóteles no Livro III das Políticas. Paulo de Cristo. no I capítulo da Epístola aos Hebreus. por lume natural. O Anjo à Senhora. o título em que funda este direito é o consentimento. comprados com o preço de seu sangue: empti enim estis pretio magno: O sexto e último título do Império de Cristo dizíamos que era por consentimento.. e de grande glória não só de Cristo mas nossa. Este título é o mais natural e jurídico entre os homens. Assim o tem a comum sentença de todos os juristas teólogos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro É o terceiro título. que o seriam somente até que viesse o Messias. traz o mesmo Alberto Pighio a história do Livro I dos Macabeus. quando querem viver juntos e politicamente. o de doação. parece que cai mais imediatamente sobre os homens que sobre o Mundo. pois verão por grandes notícias e não vulgares da Antigüidade quão certa e concertadamente concorre a novidade e verdade desta nossa consideração ao maior estabelecimento do Reino de Cristo. como dizem alguns teólogos. O mesmo Cristo no capítulo. era necessário que os mesmos homens conviessem todos este consentimento. E peço licença aos que quiserem ler este discurso para meditar um pouco mais nele. e no salmo. e Platão no Diálogo de Regno e nos livros — De republica. era esperado de todo aquele povo como seu verdadeiro Rei e Senhor. prometendo aos que fizerem esta detença não perderão o fruto do tempo que nela gastarem. como acima dizíamos. O título da compra.. S. mas ao primeiro domínio se segue necessária e naturalmente o segundo.: Data est mihi omnis potestas in cælo et in terra.prova desta geral aceitação e consentimento com que todo o povo hebreu tinha recebido por seu Rei ao prometido Messias. João. sed si cuiquam maxime competiit Christo. aceitação e expectação geral. o qual se acha mais expresso que todos.. que pelo título da Redenção não só ficamos vassalos deste soberaníssimo Monarca. senão verdadeiramente escravos seus. E é conclusão certa na teologia.: Omni subjecisti sub pedibus ejus. no Salmo pouco antes alegado: Dabo tibi gentes hæreditatem tuam. quem semper expectaverunt sibi regem f ore in lege promissum. Capítulo XIV. Contudo digo que não faltou ao Império e Monarquia universal de Cristo este último título do consentimento e aceitação universal dos homens. Mas em Cristo parece que não pode ter 1ugar este título porque.. eleição ou aceitação. Alberto Pighio (para que de todo não entremos neste novo caminho sem alguma guia) no Livro V da Hierarchia Ecclesiastica. verdadeiro Messias. E para . as quais palavras entende S. Judæi (diz o texto) consenserunt eum Simonem esse ducem suum [. arrostando a opinião de muitos e graves autores.. por ser pensamento novo e matéria até agora não tratada. assim como o que é senhor do escravo fica juntamente sendo de todos os seus bens. o poder e jurdição suprema de eleger e nomear príncipe. Nec Pilato (diz este autor) nec Caesari ullum legitimum jus in regnum Judaeorum. sendo o Monarca universal de todo o Mundo e de todos os homens. os quais têm para si que Cristo foi legitimo Rei do Reino de Israel. antes. em cujas comunidades.. como autor da natureza. e o alcançaram e ensinaram antes deles. aceitação e como eleição de todas as nações do Mundo. à qual é necessário abrir os alicerces e lançar os primeiros e sólidos fundamentos. capítulo III. no capítulo II de S. pôs Deus.

no I e II Livro dos Reis. assim concorreu e concorre o mesmo título no Reino e Monarquia universal de Cristo. deixados outros muitos textos de menor clareza. donec veniat qui mittendus est. regem sibi fore. et movebo omnes gentes. assim como em respeito do Reino de Israel. ideo pblico totius gentis decreto in ipsum sua suffragia conjecerant et in regem elegerant.ego commovebo caelum et terram et mare et aridam. porque não pareça a acomodação da dita sentença levada de algum modo por nós ao intento em que nos serve: Alii (diz Mendoça. aclamados e cada um deles ungido pelo mesmo povo. apontarei somente dois. Assim explica em próprios termos esta sentença de Alberto Pighio. nam ad ejus usque aduentum Simoni atque e jus posteritati regnum stabilierunt. entenderam também sempre todos os Hebreus. supremo e verdadeiro Rei. que é o ponto e suposição em que fundamos este novo título. nam dicunt ex consensu et quasi electione populi judaici Christum fuisse illius gentis regem. espectação e como eleição com que todo o povo judaico tinha aceitado como seu verdadeiro Rei o futuro Messias. Sobre as quais palavras conclui assim o dito autor: Vides omnium Judeorum votis et expectatione semper expectatum Christum et Messiam in lege promissum. et ipse erit expectatio gentium: «Não faltará o cetro de Judá nem príncipe de sua descendência até que venha o que há-de ser mandado. Nem impede ou encontra a verdade ou legitimidade deste título o ser o mesmo Rei Cristo primeiro eleito. De toda esta sentença assim entendida me não serve mais que o exemplo e o modo de dizer ou filosofar. na bênção que lançou Jacob a seu filho Juda. Saul e Daniel. O primeiro é do capítulo penúltimo do Gênesis. e o mesmo desejo.. no qual. De maneira que o título com que tão grande teólogo e jurista defende o direito de Cristo ao Reino de Israel é aquele geral consentimento. falando da mesma vinda de Cristo (como é de fé que falava. os quais por primeiro foram ungidos pelo Profeta Samuel por mandado de Deus. referindo-se a Pighio) alio titulo Christi regnum ab aduersariis vindicant. pela espectação. concorreu ou pode concorrer em Cristo o título da aceitação e como eleição geral daquele povo. velut expresse protestantes in ejus praejudcium et injuriam nihl se velle facere. e este será a espectação das gentes. quod illi adventanti legitimo jure deberi significaverunt. e a mesma espectação acerca do Reino e Monarquia universal de Cristo sobre todos eles. porque assim o explicou S. como consta da História Sagrada. como entendem uniformemente todos os autores católicos. Paulo na Epistola aos Hebreus.» E o Profeta Ageu. no. Alonço de Mendoça acima citado.Anexo:Imprimir/ História do Futuro in aeternum. et tenacissime crederent regem itsum futurum temporalem. o mesmo desejo e a mesma espectação.. prometido e dado por Deus. ungido. nos quais houve o mesmo consentimento comum. nam cum ardentissime Messiam expectarent. capítulo XII): . e antes da vinda de Cristo. desejo e consentimento comum com que era esperado de todos por seu legítimo. et veniet desideratus cunctis 131 . E que em todos os homens e nações do Mundo houvesse geralmente o mesmo consentimento comum. diz assim: Non auferetur sceptrum de Juda et dux de femore ejus. e depois novamente aceitos. cujas palavras quero também referir aqui. que se não podiam desejar nem ainda fingir mais expressos. e como tal o esperava. como logo mostraremos. donec surgat propheta fidelis. falando do Messias prometido. porque todas estas circunstâncias e condições concorrem no exemplo alegado (o qual não é semelhante se não o mesmo) e o mesmo temos nas eleições dos dois primeiros reis de Israel. em respeito de todo o Mundo e de todos os homens e nações dele. capítulo II. e digo que.

e . há variedade entre os Doutores. as quais. É tão forçoso e ao parecer tão evidente este argumento que. querem dizer reis ultramarinos. esperassem e desejassem o Messias antes da sua vinda. senão o esperado e desejado de todos os povos e de todas as gentes. Só vejo que podem reparar com muita razão os doutos. Jerônimo quer que fossem da Arábia Feliz. e argüir contra esta nossa suposição (como argüiu S. outros da Etiópia. reges Arabum et Saba dona adducent. senão Rei. pois antes de Cristo vir ao Mundo. e quando somente estava profetizado e prometido já às nações do Universo. vieram adorar Cristo e oferecer-lhe tributos. nem a fé ou a esperança de que havia de vir se tinha anuncia do ou manifestado às nações dos Gentios. conforme profecia de David: Reges Tharsis et insula numera offerent. e não só por Rei particular dos Judeus. e moverei todas as gentes e virá o desejado de todas elas» De sorte que. porque aquele erit expectatio gentium e aquele veniet desideratus cunctis gentibus verdadeiramente significam própria espectação e próprio desejo. S. Agostinho contra este último texto) que não podia ser que as nações dos Gentios. e como tal o esperavam todos. e render-lhe a devida obediência e vassalagem: debitam ei seu vero eorum regi et domino prestantes obedientiam. 132 . senão somente aos Hebreus. Esta é a razão e o mistério por que os três reis do Oriente (em que se representavam. veniet desideratus cunctis gentibus. Eu tenho por mais provável que ao menos parte deles eram de regiões mais distantes. e verdadeiramente da nossa Índia Oriental. Mas de qualquer modo que seja. com que as nações dos Gentios todas (geral e moralmente falando) ao menos algum tempo esperassem e desejassem a vinda do prometido e futuro Rei. De sorte que antes de Cristo nascer e aparecer no Mundo. o mar e todo o Mundo. o certo e sem controvérsia é que todos eram reis gentios. Pois se eram reis gentios.Anexo:Imprimir/ História do Futuro gentibus. como diz a glossa. e era desejada de todos a sua vinda: Ipse erit expectatio gentium. Monarca e Senhor universal de todos os reinos e de todas as nações. outros da Média. senão as dos gentios a tinham aceitado e querido. não só era Ele o desejado e esperado do povo de Israel. porque todos o esperavam por seu Rei e natural Senhor. ao menos não enchem o sentido de suas palavras. vencidos da força dele os maiores intérpretes da Escritura. e por certo modo de eleição segunda e humana escolhido depois de Deus para seu futuro Rei e Senhor. o que se não verifica sem grande impropriedade nos reis da Arábia e Sabeia com respeito da Palestina. e por isso como a rei verdadeiramente seu. quando não façam alguma violência aos mesmos textos. e por isso como o Rei verdadeiro e Senhor universal de todos os reinos e de todas as nações do Mundo. e de nenhum modo sujeitos ao domínio da república hebréia. antes de Cristo vir ao Mundo. o vinham adorar e reconhecer. outros os fazem da Pérsia. senão por Monarquia universal de todas as outras nações e reinos do Mundo. e se eram só de uma ou de diferentes nações. Daqui a um pouco (diz Deus) «moverei o céu e a terra.muito menos todas elas. as três partes do Mundo até aquele tempo conhecido) sendo gentios. não só a hebréia. que razão ou motivo tiveram para vir adorar um menino que eles mesmo conheciam e diziam que era Rei dos Judeus? Ubi est qui natus est rex Judaeorum? A razão e motivo que tiveram foi (como bem notou Almaino) porque sabiam e criam que aquele rei dos Judeus novamente nascido não era rei particular (como os outros reis hebreus) de uma só nação ou de um só reino. excogitavam aos dois textos referidos as explicações que neles se podem ver. Porque aquelas palavras reges Tharsis et insule. conforme a significação mais recebida. Sobre a nação daqueles reis.

Leão Papa. quae per generationes studiorum hominum patribus referentibus filiis suis habebatur deducta. mas com efeito chegou. sobre S. enquanto se conservou unido. etc. o qual se conservava em uma nação das últimas partes do Oriente. e da nova estrela que havia de anunciar o seu nascimento. S. Procópio. o qual querem muitos que seja S. Pedro Crisólogo. que entre os Gentios se conservava. e assim se cumpriu uma e outra profecia. ver em Orígenes. foi a grande comunicação que em todas as partes do Mundo tiveram sempre com os mesmos Gentios. diz que tinham aprendido e sabido assim por doutrina e tradição de seus maiores. o qual. Tomás e S. de apparitura hac stella. Esta é a opinião comum dos Padres. Este discurso é tão natural que não havia mister autor. declarando o meio por onde os magos puderam entender que a estrela significava o Messias e que este havia de nascer na Judéia. junto ao mar Oceano. conta haver ouvido de certo livro escrito com o nome do mesmo Set. irscripta nomine Seth. e os mesmos Gentios com os Judeus. e que só refere a fama. e os dons que se haviam levar e oferecer ao Rei nascido que ela significava. como se pode. e se começaram novas nações. e depois que na Torre de Babel se dividiram os homens e as línguas. Audivi aliquos (diz ele) referentes de quadam scriptura. cujas palavras citaremos depois. no Sermão 157. Cam e Jafet foram os segundos povoadores do gênero humano. ou a todas ou a quase todas as nações de todo o que naquele tempo se chamava Mundo. quando perguntavam a Cristo: Tu es qui venturus es. continuou também unida a mesma tradição.S.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Assim é e assim foi. também com elas se espalhou pelo mesmo Mundo aquela noticia e esperança recebida de seus antepassados. como se vê nos termos que falaram os discípulos ou embaixadores do Baptista. por deixar imperfeita e não acabada a obra que comeu. e que todas estas notícias se tinham conservado entre os doutos e estudiosos daquela gente por tradição de pais a filhos. Mateus. E posto que não tem por certo aquele livro. tomando esta tradição mais perto da fonte. no qual. O primeiro meio é a tradição continuada desde Adão até Noé. mostrarei aqui os modos e os meios mais prováveis e certos por onde o conhecimento e esperança do futuro Messias não só podia chegar. Eutímio. filho terceiro de Adão. pois é certo que com a mudança das línguas não perderam os homens a memória nem a ciência. que os Judeus esperavam. S. cujos três filhos. não nega. E para que se veja que não era cousa impossível nem dificultosa ser a vinda do Messias desejada e esperada geralmente de todas as nações gentílicas. et muneribus ei hujusmodi offerendis. sed de prisca sanctorum traditione majorum. Jerônimo. S. O outro meio por onde os Gentios puderam vir em conhecimento da vinda e império universal do Messias. Non chaldea arte. por ser de tão duvidosa antiguidade. . antes aprova a tradição do futuro Messias. entre os quais era tão vulgar e celebrada aquela esperança. S. e que neste livro estava descrita a aparição futura daquela estrela. e referindo-se aos tempos de Set. Mas temos para maior confirmação dele o testemunho de S. derivada desde Noé. E o autor do Imperfeito na humildade. apud quos ferebutur quaedam scriptura. que o nome com que vulgarmente chamavam ao Messias era o Esperado. ou o que há-de vir. S. porém. sed potius delectante. II. Anselmo. e assim digo se devem entender ambas em toda a capacidade do seu sentido próprio e natural. Sem. que encheram o Mundo. depois de Abel. Máximo. Teofilato. Cipriano. quoniam erat quaedam gens sita in ipso principio Orientis juxta Oceanum. João Crisóstomo. an alium expectatamus? 133 . Basílio. erant isti de genere Noe. S. et si non certa tamen non destruente fidem. Ambrósio. Gregório Nasianzeno. chamado o Imperfeito. Até aqui este autor.

IV. et ab universis regibus terræ qui audiebant sapientiam ejus. Este é o sentido literal das palavras scientium me. em ti os da Europa. primeira maravilha do mesmo Mundo. como os Tírios. horum qui ferunt in ea. foi a primeira que pregou nesta fé e esperança do Messias no seu Império de Etiópia. Ecce alienigenæ et Tyrus et populus AEthiopum hi fuerunt illic. Elamitas. plusquam Salamone! Assim o dizem expressamente neste lugar . como são tantos outros estrangeiros. cap. e se conformam com o exemplo da Rainha de Sabá. porque o mesmo Cristo é o que falava neste Salmo por boca de David. aprendem o que dantes ignoravam. E se no tempo de David era tão freqüentada a cidade de Jerusalém de todas as nações do Mundo. E quem poderá duvidar que um dos principais mistérios que Salomão ensinava naquela cadeira universal do Mundo era o da fé e esperança do futuro Messias. pois só no dia de Pentecoste. filho e descendente seu. Capadoces. como dizem comumente todos os intérpretes. diz o Texto Sagrado no III Livro dos Reis. como os Etíopes.. ao som daquele trovão do céu. e em sinal da mesma fé introduziu em todo ele a circuncisão. Medos. Pedro. que vinham de todos os povos e de todos os reis da Terra a Jerusalém pessoas enviadas por eles (que é certo seriam os maiores sábios dos mesmos povos e reinos) os quais. Pontos. ó cidade santa. 134 . Mesopotamios. como são os asiáticos. e muito mais a segunda. homens de todas as nações e partes do Mundo.. e que a maior maravilha que levavam para contar em suas terras os que tinham ouvido aquele famoso oráculo era que. depois de ouvir a Salomão. soubemos que acudiram ao convento e ouviram a primeira pregação de S. iam contar e ensinar a suas terras e príncipes o que dele tinham ouvido e aprendido. dezessete gêneros de homens de línguas e nações diferentes — Partos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Era Jerusalém antigamente a mais formosa cidade e o maior império do Mundo situado no meio de todo ele. é que todos estes. Mas quando nos faltavam estes testemunhos do Testamento Velho. et ipse fundavit eam Altissimus? Dominus narrabit in scripturis populorum et principum. sendo tão admirável a sabedoria e grandeza de Salomão. Isto é o que tanto celebrava David naquela cidade em cuja fundação e formosura tinha ele tão grande parte: Glorosa dicta sunt de te. como são os de Etiópia. vindo a ti. e como tal concorriam a ela de todas as partes infinitas gentes de todas as nações e ainda de todas as cores. Asianos. bastava um só do nosso para abundantíssima prova das muitas nações de Gentios que vinham ordinariamente e residiam em Jerusalém. Frígios. Numquid Sion dicet: Homo et homo natus est in ea. como são os de Babilônia. em ti homens negros. e sabem o que dantes não sabiam. porque conhecem a Cristo. que era uma protestação pública dos que a professavam. homens de todas as cores. em ti os da Ásia. que seria no tempo de seu filho Salomão. e de todas estas gentes. Panfílios. que é mais. em ti homens de todas as outras cores meãs. depois de ouvirem e admirarem em presença a sabedoria de Salomão. não só freqüentam tuas ruas os do povo. Que gloriosas cousas se contam de ti (diz David) e se escrevem nas escrituras de todos os povos. ainda havia de ter o mesmo Salomão um descendente que fosse mais sábio e maior que ele. Judeus. Memor ero Rahab. que por isso se chamava Umbellicus terrae. Et veniebant de cunctis populis ad audiendam sapientiam Salomonis. que. mas também as passeiam os príncipes — populorum et principum! Mas o que sobretudo é digno de maior memória. et Babylonis scientium me. civitas Dei. em ti se acham todos os homens de África. homens de todas as línguas. se o mesmo Salomão não fora maior maravilha! Para ver e ouvir estas duas maravilhas. ó cidade de Deus! Em ti se acham todas as diferenças de homens. em ti se vêem homens brancos. quando menos. Persas. e o que sobretudo te faz gloriosa. que isso quer dizer homo et homo. depois de edificado o templo.

de entradas. Judaei quoque et proselyti. Mas no tempo daquele comprido cativeiro Não havia casa no Egito em que o cativo não fosse mestre do senhor. que chamavam com nome geral prosélitos. Com os Assírios 135 . de guerras. à Terra de Promissão. de presentes e de outros tratos e correspondências políticas. dos Persas. Cretenses. Ajuntou depois disto a fome em Egito os doze irmãos. et de regno ad populum alterum. que senhoreavam o Mundo. Onde se deve muito advertir que. como notou o mesmo Profeta: Et pertransierunt de gente in gentem. entraram livres. muito mais ajudou e adiantou a mesma notícia a muito maior comunicação e freqüência que os mesmos Judeus tinham e continuaram sempre nas terras dos Gentios. enfim. E se agora era tão freqüentada de nações estrangeiras. audivimus eos loquentes nostris linguis magnalia Dei. porventura até aquele tempo mal cridas. filhos de Jacob e cabeças dos tribos. já a. a Jacob em Mesopotâmia. quæ est circa Cyrenen. Africanos.prometido fazer a todas. Revelou Deus por três vezes sucessivamente a Abraão. et AEgyptum et partes Liyæ. e com todas elas tiveram grande comunicação os Hebreus. que seria nos tempos passados? Mas se importou muito para se estender a notícia do Messias por todo o Mundo a comunicação que os Gentios tinham com os Judeus em suas próprias terras. Pontum et Asiam. Passados. de pazes. e não conservava a quarta parte da grandeza a que nos tempos de sua maior opulência tinha chegado. et senes ejus prudentiam doceret. pusesse escola de sua sabedoria. Et quomodo nos ( diziam todos estes no cap. e já pode ser que a crueldade de Faraó. et AElamitæ. cidade de Jerusalém e o povo e república dos Hebreus estava quase arruinada. desde que nasceu e começou no Mundo a nação hebréia. como a de Herodes. concorreram e floresceram no mesmo tempo os quatro impérios ou monarquias dos Assírios. assim como hoje os judeus convertidos à Fé de Cristo se chamam cristãos-novos . primeiro tronco e pai de toda ela. que passaram entre as quatro nações imperantes e o reino ou povo hebreu. saíram vencedores. II dos Atos dos Apóstolos) audivimus unusquisqe linguam nostram in qua nati sumus? Parthi et Medi. Assim trouxe Deus naquele tempo pelo Mundo estas quatro testemunhas de suas promessas de reino em reino e de nação em nação. E porque ao numero dos três Evangelhos não faltasse o primeiro. para que fossem três pregadores daquele primeiro Evangelho. e algumas vezes mais estreita do que quiseram. a Isaac em Gerara. As maravilhas que depois viram nos Egípcios é certo que acrescentariam fé às esperanças dos Hebreus. Judaeam et Cappadociam. permitiu a mesma Providência que por extraordinários caminhos fosse José levado ao Egito. ou como três evangelistas que anunciassem às gentes a boa nova da mercê grande que Deus tinha . que foi em Abraão. Isaac e Jacob a vinda do Messias. Romanos. de confederações. et qui habitant Mesopotamiam. et advene Romani. dos Gregos e dos Romanos. se não fundasse tanto no receio de sua multidão que no medo de suas profecias.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Egipcios. quando isto aconteceu. e que aí por mandado do rei. e no mesmo tempo pôs a Providência divina aqueles três Patriarcas em diferentes nações e províncias: a Abraão em Canaã. Cirenos. Cretes et Arabes. continuaram cativos. onde permaneceram até verem o cumprimento delas em Cristo. que quer dizer novos. como diz David. Phrygiam et Pamphiliam. prometendo-lhes que em sua descendência seriam abençoadas todas as nações do Mundo: Benedicentur in semine tuo omnes gentes terrae. onde tivesse por ouvintes todos os príncipes e sábios egiptianos: Ut erudiret principes ejus sicut semetipsum. Arabes e outros convertidos das gentilidades. Todas as histórias sagradas estão cheias de embaixadas.

Finalmente. para que por este meio ficassem castigados os Judeus. de Joaquim e do sacerdote Eliacim. no tempo de El-Rei Oseas . que concorreram com Ciro. e juntamente instruídos e alumiados os Gentios. em tempo de Judas Macabeu. que concorreram com diversos cônsules de Roma. com os dois Antíocos. escritas em tábuas de bronze. que Deus deu e repartiu aos doze tribos para sua habitação foi a terra chamada de Promissão. com Dario e com Assuero. A primeira foi dar-lhes muitos filhos e pouca terra. não chegava a oitenta léguas da nossa medida. gue concorreram com Berodac. como consta das mesmas capitulações feitas entre uma e outra nação. por ocasião da qual se dividiram e espalharam os Cristãos por todas as regiões e terras de Judéia e Samaria: Facta est in illa die persecutio magna in ecclesia. de que se nomeia na Escritura Sagrada somente Lúcio. com Demétrio. como consta do I e II Livro de Esdras e da História de Ester. de Esdras. Prometeu Deus a Abraão que multiplicaria sua descendência como o pó da terra e como as estrelas do céu. juntamente com eles assim espalhados ou semeados por aquelas terras. tomada em sua maior extensão. tiveram muito particular trato e comunicação os Judeus. E a razão desta providência foi para que. de Acáz. de Oseas. Com os Gregos. de Judas Macabeu. quae erat Jerosolymis. não falando no do Egito. e não cabendo nos estreitos limites da sua própria terra. no qual foram levados os dez tribos desde Judéia até as terras dos Medos e dos Assírios. crescendo e multiplicando-se a nação hebréia. com Ful. que estavam bem no coração de toda a Ásia. Ptolemeu e Trifon. com que eram levados e transmigrados a terras e regiões estranhas cousa poucas vezes vista em nações inteiras. cuja largura e comprimento. e foi assim que de doze netos de Abraão se formaram os tribos e destes cresceu e se multiplicou a mais numerosa nação que jamais houve no Mundo de um só sangue. com Nabucodonosor e com Baltasar. de Simão e Jónatas. como adiante largamente contaremos. que concorreram com Alexandre Magno. et omnes dispersi sunt per regiones Judae et Samariae:. de Matatias. mas com todas as nações do Mundo. para que o alumiassem no meio das trevas em que todo estava. em tempo de Jeconias. E notam comumente os Padres e expositores que ordenou ou permitiu a Providência divina este desterro ou dispersão geral de todos os cristãos de Jerusalém pelas cidades e lugares daquelas províncias. como lemos nos mesmos Livros dos Macabeus. como consta do I e II Livro dos Macabeus. de Zorobadel. em tempo do Sumo Sacerdote Jado. VIII dos Atos dos Apóstolos que se levantou uma grande perseguição na igreja de Jerusalém. e posto que o maior corpo daquela gente teve o sucesso que depois se verá. Com os Persas. Severo Sulpício e outros autores latinos e hebreus. se espalhasse e estendesse por todas as nações do Mundo. com Salmanasar. por este meio tão natural e ao parecer não pretendido. porém. foi o de Salmanasar. mandadas pelos Romanos à Judéia. Assim lemos no cap. como escreve Paulo Orósio. E não só com estes quatro estendidíssimos impérios.Anexo:Imprimir/ História do Futuro notemos de Ezequias. ficasse tão crescida e arreigada. O primeiro e principal desterro e cativeiro. Com o mesmo fim ordenou a sabedoria e justiça divina que os maiores e mais gerais castigos daquela nação fossem desterros e cativeiros. para que. e levasse a elas a primeira luz da fé de Deus e da esperança de Cristo: e este é o mistério ou a energia de primeiro se haverem de multiplicar como pó e depois como estrelas. se plantasse nelas a Fé e depois. de Neemias. concorrendo Deus para este fim com disposições de mui particular providência. como consta do IV Livro dos Reis e da história de Judite. é certo. que muitos deles se dividiram por todas as terras orientais 136 . de Simão e Jónatas. Heliodoro. de que já dissemos. A terra. com os Romanos.

sed e contrario justis utentes legibus. penetrando até as províncias de que então nem muitos anos depois houve notícia. e levados a Babilônia. em que os dois tribos que haviam ficado foram também cativos. se achavam judeus daquela transmigração com todos os sinais dela. com que mandou revogar a sentença de morte. Cuidava Benjamim que só levava trigo no seu saco. na qual se permitia (posto que não se justificava) para com as nações estrangeiras. orando ele apertadamente pela liberdade do povo. et usque hodie custoditur. se vê claramente quão grande fruto faziam com sua presença nas terras onde estavam cativos e desterrados. que por malícia e vingança de um mau e soberbo privado — Aman — contra a mesma nação se tinha mandado executar. em todas elas e em todas suas cidades estavam espalhados os Judeus. e com eles a fé do verdadeiro Deus. E já pode ser (se o pensamento me não engana) que fosse este o intento de Deus naquela lei do cap. Nos autem (diz o edicto) a pessimo mortalium Judaeos neci destinatos. que falava com o Profeta Daniel (como se lê no cap. como escreve o Padre Trigantio nas suas Relações da China. comprando e vendendo. O segundo foi no tempo de Nabucodonosor. Nem se deve passar em silêncio a cobiça natural dos Judeus. Princeps autem regni Persarum restitit mihi viginti et uno diebus. e com tão pouco cabedal como uma escudela de lentilhas soube adquirir por indústria o que lhe tinha negado a natureza. lhe deu por causa da dilação daquele despacho a resistência que fizera por muitos dias diante de Deus o Anjo Custódio do reino dos Persas.. et filios altissimi et maximi semperque viventis Dei. qual era Assuero ou Artaxerxes que firmou aquele edicto. e levava nele o trigo e mais o cálix de José. como se vê nas palavras do edicto de El-Rei Assuero ou Artaxerxes. XVI do Livro de Estér. de que é bom exemplo a China. XXIII do Deuteronômio: Non fænerabis fratri tuo ad usuram [. que era droga naquele tempo que só nascia em Judéia. e o gênio indústria e inclinação tão particular que teve sempre esta nação ao comércio e mercancia. em tempo de El-Rei Joaquim.. metia também a sua o Salvador do Mundo. as drogas do Céu entre as mercadorias da Terra. Assim saíam de Judéia os mercadores. cheias todas de fé. que era esse o nome de José no Egito: Vocabit eum lingua egyptiaca Salvatorem Mundi. como neste lugar notam todos os expositores modernos. fez sua fortuna. e fazer-se patrão e senhor do maior morgado do Mundo. que. Não só entre a gente popular mas nos maiores ministros e príncipes. X de suas visões). in nulla penitus culpa reperimus. E a razão desta resistência. sem uns nem outros o pretenderem. conhecimento. metendo-lhes em casa. E destes temos o testemunho da Sagrada Escritura no cap. Nas quais palavras.] sed alieno.Anexo:Imprimir/ História do Futuro daquela vastíssima parte do Mundo. pela fé e conhecimento das cousas divinas que de sua conversação e doutrina (ainda sem particular estudo) se lhes pregavam. onde os mesmos Hebreus estavam cativos. ou desejo de adquirir riquezas. e nos fardos de mercadoria que levavam. honra e sujeição ao verdadeiro Deus que os Judeus adoravam. onde em nossos tempos depois de 2300 anos. 137 . como filhos alfim daquele pai que. para que esta maior liberdade ou impunidade de adquirir ou multiplicar fazenda fora de sua pátria os convidasse a sair dela e os arrebatasse voluntariamente às terras estranhas onde com eles se transplantasse a verdadeira fé. sendo aquele império dividido em 127 províncias. cujus beneficio et patribus nostris et nobis regnum est traditum. e nos mesmos imperadores supremos. era o grande proveito espiritual que os gentios persas conseguiam com a presença e comunicação dos Judeus. E aqui se entenderá o mistério com que um dos anjos custódios da nação hebréia. e os introduzir e misturar com todas as nações. que professavam. Desta inclinação dos Judeus se serviu a Providência divina para os levar suavemente às terras e regiões mais remotas.

por serem da mesma nação. No edito que passou Assuero para que morressem todos os Judeus sujeitos às terras de seu Império. os desterros e a estreiteza da terra própria foram as três ocasiões principais por que os Judeus se saíam e Deus os derramava por todas as terras e nações do Mundo. no Livro XI de suas Antiguidades. para que a Fé tivesse lugar como mercadoria. e o que principalmente levavam de Judéia para o mesmo Mundo. pérolas. traziam ouro. alias civitatis demereberis plurimas. meter neles a Fé às costas do interesse. Se não houvesse mercadores que fossem buscar a umas e outras Índias os tesouros da terra. maritimas. diz que a nação hebréia tinha cheia toda a redondeza da Terra: orbem terrarum replevit. rubis. houve de caminhar (como é tradição) por cima das ondas. Europa. mediterraneas. S. saiba que os mesmos testemunhos se leram nas Escrituras Sagradas ainda com palavras mais universais e de maior encarecimento. naquele memorial ou livro que intitula De Legatione ad Caium. império famosíssimo já naquela idade . as verdades do Evangelho. De maneira que o comércio. porque não teve quem o levasse. E se estes dois autores.Anexo:Imprimir/ História do Futuro E que seria se a este título justificasse Deus as usuras que permitia aos Hebreus nas outras nações. depois que o comércio bateu a elas. levavam a Fé de Cristo. Arábia. na Arábia e na Etiópia. era urna droga que só se dava então naquela terra. Asia. Africa. e o comércio leva às costas os pregadores. traçou que o pregador entrasse como negociante. sendo certo então o que depois vimos nas frotas das nossas Índias. Tomé. que muito mais ricas iam do que voltavam. parecerem a alguém suspeitosos e dignos de menos crédito. diz que a maior parte de todas as ilhas e terras firmes maritimas e mediterraneas da Asia. querendo pregar na China. Josefo. quando quer passar a religião de um reino a outros. Naaman Siro trouxe de Damasco as suas azêmolas com carga de ricos presentes para oferecer a Eliseu e levou-as carregadas de terra de Israel. diamantes. Os pregadores levam a Fé aos reinos estranhos. na Pérsia. Pérsia e dia foi o que introduziu a Fé na Índia. Isto levaram as frotas celebradas del-Rei Salomão quando navegavam a terras de Ofir. sitas in diversis orbis tractibus. prata. a salvação. Quando os deuses de Tróia passaram a Itália. quando não havia comércio. e assim deu princípio àquele admirável comércio em que depois. e Eneias levava às costas a Anquises. que era a Fé e conhecimento de Deus. a graça. Quando voltavam. quem havia de passar lá os pregadores que levam os do Céu? Os pregadores levam o Evangelho.pela riqueza e opulência de suas minas Isto vinha buscar a cobiça. e aquilo vinha trazer a Providência. da África e da Europa eram habitadas de Judeus: Itaque si exorat mea Patria tuam clementiam præpter ipsam. ou fosse. ou fosse a América. E Filo Hebreu. Anquises levava os deuses na mão. como direitos ou gabelas daquela mercadoria? Não me atreverei a o afirmar assim. nos enriqueceu com o que trazia do Céu. E em quantas províncias achou o Evangelho fechadas as portas e. e o comércio leva os pregadores. ou fosse Ofir a Índia. Assim começou Deus a espalhar o conhecimento de sua Fé pelo Mundo. Assim entravam os negociantes hebreus em Judéia ricos e acrescentados com as drogas mais preciosas de todo o Mundo. se não era a terra de Israel. quando iam. os sacramentos. tomando de nós o que tínhamos na Terra. diz assim a Relação ou Relatório de suas 138 . que levou do Brasil à Índia o Evangelho. a esperança do Céu. porque era santa aquela terra. e o segundo Apóstolo do Oriente. como muitos querem. posto que tão alegados e seguidos de todos os que escrevem. mas sei que não é cousa nova em Deus. as teve abertas e francas? O primeiro rei de Portugal que se intitulou rei do comércio da Etiopia. a nossa Espanha. insulares.

regnum jussa contemneret. et contra omnium gentium consuetudinem faciens. ainda que vivessem em outros reinos. o assento dos tribunais. Quod cum didicissemus. Paulo: Secundum consuetudinem autem Paulus introivit ad eos. Cirenenses. se pode ser ainda mais notáveis: Erant autem in Hierusalem habitantes judaei viri religiosi ex omni natione quæ sub caelo: «Havia em Jerusalém (diz S. e sobretudo era a cabeça da Igreja da Lei Velha. cada uma de diferente nação. e assim como todos os reinos e repúblicas da Cristandade têm seus embaixadores. nostrisque jussionibus contraire. como hoje é Roma da Nova. Paulo. a universidade das letras.Anexo:Imprimir/ História do Futuro culpas: In toto orbe terrarum populum esse dispersum. E era tanto o número destas sinagogas em Jerusalém. separada e particular. e ainda hospitais da mesma nação. e ali se tinham as pregações. as quais sinagogas não eram propriamente igrejas como as nossas (porque o templo era um só e comum a todos. nem podia ser mais que um conforme a lei). gente por natureza tenacíssima dos seus costumes e ritos.» para cuja inteligência se deve supor que todos os hebreus que viviam longe de Judéia em diferentes nações. mas eram umas casas grandes e públicas. as disputas. Asiáticos e Alexandrinos. et turbare subjectarum nobis provinciarum pacem atque concordiam. onde se ajuntavam principalmente aos sábados. e que com a novidade de suas leis perturbavam a paz de todas as gentes e de todas as nações:omnium gentiam et universarum nationum. Lucas) muitos judeus moradores da mesma cidade. mas se mostra também com a mesma clareza que os efeitos dessa dispersão era ser pública e notória a todas as nações e reis e a todo o gênero humano a nova lei e nova Fé diferente de todas as outras que os mesmos Judeus professavam. agentes requerentes e igrejas particulares em Roma. No I capítulo dos Atos dos Apóstolos temos outro testemunho sagrado igualmente universal e por termos. et per sabbata tria disserebat eis de Scripturis. os conselhos.. qui novis uteretur legibus. como advertiu S. que quando ultimamente foi destruída aquela cega cidade por Tito e Vespasiano. videntes unam gentem rebellem adversus omne hominum genus perversis uti legibus. mas no qual texto. Era Jerusalém naquele tempo (e muito mais antes daquele tempo) a corte dos rei. nas quais palavras se diz votada e expressamente que o povo hebreu naquele tempo estava espalhado por todo o Mundo:In toto orbe terrarum populum esse dispersum. E no capítulo VI do mesmo livro se faz expressa menção das sinagogas diferentes que dizíamos: Surrexuntur autem quidam de Synagoga. não se há-de entender que uma só sinagoga fosse dos Libertinos. quae appellatur libertínorum. e que desobedeciam os mandados dos reis e eram rebeldes contra todo o gênero humano: adversus omne genus humanum. se acharam nela. et universarum concordiam natonum sua dissensione violaret. Crisóstomo e outros Doutores. como se vê das provisões de S. à qual estavam sujeitos todos os Judeus e professores da mesma Fé. E estas culpas assim relatadas que vêm a ser senão um testemunho público e autêntico de tudo o que imos provando? Porque não só consta delas estarem os Judeus espalhados por todo o Mundo. reino corte ou povo notáve1 onde houvesse tanto número de Judeus que só ó que deles assistiam em 139 . que era terra de gentios sujeitos a El-Rei Arctas. como refere Lorino. província. quatrocentas e oitenta sinagogas. reinos ou cidades populosas tinham em Jerusalém suas sinagogas particulares e distintas. Cilicianos. assim e muito mais se observava o mesmo uso entre os Judeus. senão que cada uma das comunidades dos Judeus pertencentes a estas províncias tinham a sua sinagoga própria. homens religiosos de todas as nações que cobre o céu. e todas as outras conferências das cousas espirituais ou eclesiásticas. et eorum qui erant a Cilicia et Asia. et Cirenensium et Alexandrinorum. jussimas etc. as quais ele foi buscar a Jerusalém contra os Judeus de Damasco. como se conta no capítulo XVII dos Atos o fazia ou costumava fazer S.

Desta verdade temos em prova (que não é só suspeita ou conjectura nossa) o testemunho e autoridade do mesmo Cristo no capítulo XXIII de S. provam-no agudamente alguns autores. mas o Deus dos Judeus não era conhecido de nome. não o nomeou nem determinou o Deus que o criara. «Cercais o mar e a terra para converter um gentio à Fé. no Livro II de suas Antiguidades. Daqui se tira o novo e eficaz argumento de quão espalhados e multiplicados estavam os Judeus por todas as partes do Mundo. Tal era aquele altar que S. ut faciatis unum proselytum: et cum fuerit factus. ensinados pelos Judeus. como escreve o Cardeal Barónio. dizendo-o só absoluta e incertamente: Quisquis fuit ille deorum «quem quer que foi o Deus» que o criou. facitis eum filium gehennæ duplo quam vos. Saturno. posto que depois a viciavam os escribas e fariseus do tempo de Cristo com a má doutrina e exemplo que lhes ensinavam. Paulo achou em Atenas. vós seis um Deus escondido. onde. nome que se não podia falar nem dizer. com que. porém. e o davam a conhecer aos Gentios.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Jerusalém pudessem formar corpo e comunidade distinta. como dizíamos. Deus absconditus et Salvator — dizia Isaías a Deus. o conhecimento da Fé de Deus e esperança de Cristo. Conheciam. nas Gálias. e depois que está convertido. e finalmente que Não se fazia isto acaso e por ocasião do trato. que este Deus desconhecido a quem não sabiam o nome era o Deus que criara todas as cousas. Marte. os Gentios. ensinavam e afeiçoavam a ela os gentios. Mas nesta mesma incerteza com que falou no Deus criador do Mundo. descrevendo Ovídio a criação do Mundo. e não só pelo trato. Porque os deuses dos Gentios eram conhecidos pelos seus nomes particulares de Júpiter. senão também por indústria e estudo particular de alguns judeus mais zelosos. era o verdadeiro Deus. vindo a tratar do nome de Deus. E estes eram aqueles a quem S. comunicação e exemplo. chamou judeus de longe: Vobis enim est repromisio et filiis vestris et omnibus qui longe sunt Vivendo pois os Judeus tão misturados e travados com todas as nações dos gentios. passou-o em silêncio e disse que lhe não era lícito pronunciá-lo: De quo mihi dicere non est fas. dos quais convertiam alguns. no Sermão de dia de Pentecoste. na Arábia. criador do Céu e da Terra. este poeta declarou ser ele o Deus que adoravam os Judeus. consagrado ao Deus não conhecido — Ignoto Deo — o qual Deus não conhecido. e por isso se chamava Inefável. Pedro. repreendendo a hipocrisia dos escribas e fariseus. os quais com desejo de aumentar a sua religião e o culto do verdadeiro Deus. porque lhes estava proibido tomarem na boca o nome de Deus. na nossa Espanha e em outras províncias nobres da Ásia e da Europa.» Na qual sentença de Cristo se vê principalmente como os Judeus rodeavam mar e terra. diz assim: circuitis mare et aridam. e juntamente se prova que com estas suas peregrinações e navegações levavam pelo mesmo Mundo a Fé do verdadeiro Deus. Destes altares havia outros. peregrinavam e navegavam por todas as terras e mares do Mundo. como logo lhes declarou o mesmo Apóstolo. Senhor. se não por zelo e cuidado particular da Religião. e que estes monumentos de Religião e este conhecimento de Deus não conhecido se tivesse derivado aos Gentios da doutrina e trato com os Judeus. ensinai-lhes tais doutrinas que o fazeis mais filho do Inferno do que vós sois. isto é. desta companhia se lhes pegara. ao qual os Gentios chamavam Deus incerto. nem faltavam em diversas partes do Mundo padrões desta mesma verdade. Mateus. aludindo a esta proibição: «Verdadeiramente. Vere tu es Deus abconditus. e este foi o mistério daquela erudita ignorância. isto é. com o mesmo título de não conhecido.» E Josefo. levantados entre as gentes mais políticas e celebradas da Gentilidade. mas Deus que escondido e desconhecido salvais. porque 140 .

os quais também concordam em que as línguas e nações em que Deus dividiu os homens (como se colhe do capítulo X do Gênesis. ·os quais consta do capítulo X do mesmo livro e do capítulo XLVIII dos Gênesis. e. E dois discípulos. No qual número alude Moisés aos filhos de Israel. De maneira que. quo erat ipse venturus. que são os Hebreus. depois de nomeados os doze Apóstolos. por meio da sua pregação e doutrina. porque esse era o fim e ofício para que foram destinados a todas as nações e tomados e repartidos conforme o número delas.. in omnem civitatem et locum.designavit Dominus et alios septuginta duos et misit illos binos ante faciem suam. que foram setenta almas: Omnes animæ domus Jacob. quando Deus. quae ingressæ sunt in AEgyptum. introduzindo-se o verdadeiro Deus nas outras nações e andando nelas como disfarçado. E a nova e promessa de que o Messias havia de vir é explicação admirável de outros setenta e dois intérpretes da divina palavra. chamando aos Judeus os adoradores de Deus incerto: Cultrix incerti Judæa Dei. E estes foram os primeiros rudimentos da Fé que os Judeus semearam entre os Gentios. conhecido debaixo do nome de incógnito. em correspondência também dos doze filhos de Jacob e dos doze tribos de Israel. no capítulo XXXII do Deuteronômio diz Moisés que. queria trazer (como trouxe) ao conhecimento da Fé.Anexo:Imprimir/ História do Futuro não tinha nome particular com que fosse conhecido e se distinguisse dos outros deuses. como escreve S. mediu o número dos filhos de Israel. no princípio da Lei da Graça. Tratou Cristo de dispor a pregação do Evangelho e conversão do Mundo. com o de todas as outras nações e gentes do mesmo Mundo. responde S. Destas. porque eles eram os que haviam de levar e semear entre todas elas o conhecimento do verdadeiro Deus. que sempre é semelhante a si mesma em casos semelhantes. para que levassem por todo ele o conhecimento de Deus e a nova de que o Messias era já vindo. assim como Cristo. E para que concluamos este discurso com uma advertência em tal matéria digna de muito reparo. Agora pergunto: E que mistério ou que intento teve a Providência Divina em igualar o número de todas as nações ao dos primeiros hebreus e não em outro tempo ou ocasião. elegeu sinaladamente setenta e dois. igualou o número dos seus discípulos ao das nações e gentes do Mundo. que foram setenta e dois estes novos precursores e embaixadores de Cristo. se se tirarem a hebréia e egípcia. dividiu a todos os filhos de Adão em diversas nações e línguas. senão quando a primeira vez se ajuntaram com os Gentios? O mistério e razão desta providência foi sem dúvida porque tinha Deus destinado aos Judeus para mestres da Fé dos Gentios naquela primeira Igreja. e com ele a sentença comum dos intérpretes. Jerônimo. que entraram no Egito. Temos a confirmação deste pensamento na mesma Providência Divina. chamando neste lugar aos filhos de Israel anjos ou embaixadores de Deus.. fez aquela divisão conforme o número dos filhos de Israel. assim Deus. E era conveniente e necessário para este soberano fim que fossem tantos os mestres quantas eram as nações. E se buscarmos nos expositores sagrados o mistério e proporção deste número. que já estavam unidas e se comunicavam. em que se referem as famílias dos descendentes de Noé) foram setenta e duas. os quais. respondendo a cada um deles uma nação: Quando dividebut Altissimus gentes. em lugar de — juxta numerum filiorum Israel — tresladaram — juxta numerum Angelorum Dei »— . que o Senhor. ficam pontualmente setenta. na confusão da Torre de Babel. fuere septuaginta. 141 . Lucas no capítulo X. Constituit terminos populorum juxta numerum filiorum Israel. e crido com o sobrenome de incerto. que mandou diante de si: . Assim entendem este lugar todos os Padres e intérpretes. Assim o disse Claudiano. por serem outras tantas (como dizíamos) as nações do Mundo. no princípio da Lei Escrita. também poeta latino e gentio. quando separabat filios Adam.

e verá o que delas tomaram. et oracula. os Amorreus. só estes se liam em todo ele. os Fereses. que assim lhe chamou Aristóteles. os Amalecitas. inquam. os Moabitas. verá quanto as não largavam das mãos. os Jebuseus. É certo que. tomou este soberbo e ingrato filósofo a sabedoria mais sublime que o fez o maior da Grécia. que são entre todos quase os últimos. venas veterani cujusque styli vestri. para que. e não faltam grandes conjecturas para se crer que Moisés foi aquele prodigioso Mercúrio a quem os Antigos celebraram com o nome de Trimegisto. os Eveus. os Amonitas. ipsa templa. assim os Assírios. O primeiro livro que viu o Mundo foi o Pentateuco. os Gabaonitas. de Moisés. senão também para lição e estudo de todas as outras nações. para que mais se estendessem por toda a parte e fossem mais celebradas suas notícias. os Medos. porque. ainda vencem em Antigüidade os mais antigos filósofos e escritores gentios. Aos livros de Moisés se seguiram os outros sagrados. que são também as nossas: Omnes itaque substâncias omnesque materias. os Filisteus. dispondo-o assim a Providência. e ainda as mesmas cidades e algumas das gentes. aos Egípcios da África e aos Gregos da Europa. a origem. os Tírios. delas imitaram e sobre elas fingiram. sæculis vincit.Anexo:Imprimir/ História do Futuro O terceiro meio de providência particular com que pôde chegar facilmente e chegou naquele tempo aos Gentios o conhecimento da fé e esperança de Cristo. Com razão chamou Clemente Alexandrino a Platão o Moisés de Atenas — Moyses Atlicus — porque de Moisés foram tirados todos aqueles lumes que deram a Platão em suas obras nome de divino. tudo vencem em muitos séculos de Antigüidade os livros de nossas profecias. e os vossos mesmos deuses (e não digo nisto mais senão menos) os vossos templos. os vossos oráculos. Não lhes podia suceder então às Escrituras divinas o que depois lhes aconteceu com Jerônimo. leia com atenção os livros dos seus filósofos. quando as deixou pela suavidade de Túlio. E como só estes livros havia no Mundo. foram as Escrituras Sagradas. Elas só eram o estudo dos sábios.. Esse foi um dos mistérios de Deus. as causas e memórias do que escreveram e até a forma das letras e imagens dos caracteres. os Caldeus. tendo sempre que entender. a matéria. Agostinho) philosophi gentium nondum erant. «Tudo o que compôs o estilo dos vossos escritores — dizia Tertuliano aos Gentios — a substância. historiarum causas et memoriarum . gentes etiam plurasque et urbes insignes. ipsas denique effigies literarum indices custodesque rerum. Tempore nostrorum prophetarum (diz S. Este livro foi o que fez aos Caldeus mestres da Ásia. Sírios. os vossos sacrifícios. de cujos sucessos se não achasse alguma memória no 142 . ordines. e tudo foi tomado do tesouro das escrituras judaicas. a que outro fim se faz neles tão freqüente memória de todas as outras nações do Mundo e seus sucessos? Assim temos os Cananeus. achariam facilmente que não só foram escritas pela lei e observância dos Hebreus. os Eteus. as histórias das gentes e das cidades insignes. os Sidónios. os Etíopes. dos seus historiadores e ainda dos seus poetas. os Egípcios. assim os Ismaelitas. Deos vestros. e os autores que escreveram aqueles livros todos do mesmo Povo. sendo um só o Povo de Deus.. et sacra unius interim prophetae scrinium. et (puto adhuc minus dicimus) ipsos. se os versados nas divinas Escrituras considerassem diligentemente a matéria delas e a traça e harmonia com que foram ditadas pelo Espírito Santo. Quem quiser saber facilmente quão estudadas eram dos Gentios as Escrituras. os Madianitas. os Macedônios. elas o desvelo dos entendidos. os Persas. os Gregos. Deste rústico. a ordem. origines. os Romanos. em as fazer escuras. et inde etiam nostri. que tudo governa. E não havia antes de Cristo província conhecida ou cidade de grande nome no Mundo. in quo videtur thesaurus collocatus totius Judaici Sacramenti. fossem uma e muitas vezes lidas. porque ainda não tinha gostado sua doçura. Até aqui Tertuliano. os dos Profetas. elas o entretenimento dos curiosos.

mas não tiveram fantasia para meter todo o Mundo em uma arca.de repente. que coluna como a do Deserto. E que nação destas haveria que não lesse com grande atenção e cuidado os oráculos daquele famoso profeta. um Datão e Abiron tragados da terra. o carro. assim dos passados nas histórias. convertido em bruto. e mais ainda não tinha sido o que depois dele se escreveu. Que gigantes fabulosos filhos da terra se atreveram a edificar uma torre como a de Babel. parava os rios. falando somente do que pertence à história. Qual poeta se impôs ou traçou jamais uma comédia como a de Job. porque o podia fazer com uma palavra? Não digo nada dos documentas da Escritura. que jardins como os de Assuero. que carroça como a de Ezequiel. só do que leva o apetite e não do que move a razão. tão ignorado entre todos os sábios. dizia Daniel. mas só em nove capítulos de Isaías lemos sinaladamente as profecias de onze nações diferentes. a ordem e cronologia dos tempos. que falou universalmente de todos os maiores impérios. porquanto trato do doce e não do útil. já dissemos que se chamava coluna. comendo serpentes. e um Elias voando pelos ares em um carro de quatro cavalos. também ouvidas da Lua. chamadas cada urna por seu nome a ouvir a sentença e a saber da boca de Deus o que lhe estava por vir. Mas quando nenhum destes tesouros houvera depositado e encerrado nelas. que palácio encantado como o templo de Salomão. a da vara de Moisés em serpente. a da mulher de Lot em estátua. edificado de seus fundamentos sem nele se ouvir o golpe de martelo? Um pavilhão que de dia cobria do sol seiscentas mil famílias. que não exceda uma só voz de Josué. como dos futuros nas profecias. mas dos fingidos e fabulosos. de que fugira o Inferno? Que disse das respostas duvidosas do seu Apolo. onde estavam conhecendo seus nomes e lendo as fortunas? Bastava só para mover a curiosidade universal de todas as gentes à lição dos livros Sagrados. e depois de serpente convertida outra vez em vara? Descreveram as fábulas o dilúvio. que se pareça com os oráculos sempre certos do propiciatório? Que disse das vozes de Eudimião.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Testamento Velho. um Enoc desaparecido . nem confiança para o salvar nela. não digo dos que professam verdade. Que disse a Gentilidade da cítara de Orfeu. sed non ut lex tua. como a de Jacob? Que metamorfoses ou transformações fingiram como a de Nabucodonosor. Não falo já de Daniel. nem arrimaram escadas ao céu. uma tragédia como a de Aman. a origem das línguas. o nascimento das nações. que se iguale com a harpa de David. que livros se escreveram jamais. uma tocha que de noite as alumiava. que ouvir falar um jumento com Balaão e uma serpente com Eva? Que se podia 143 . que dividia os mares. Que se podia inventar de maior pasmo aos ouvidos. se não estivera revelado nas Escrituras. do que tudo houvera perpétua ignorância nos homens. obedecida da Lua e do mesmo Sol? O caduceu tão celebrado do seu Mercúrio que comparação teve com os poderes da vara de Moisés. que igualem em grandeza e variedade de casos admiráveis a menor parte ou sombra do que se refere nas histórias sagradas? Narraverunt mihi iniqui fabulationes. as rodas e os cavalos tudo de fogo? Que semelhança tiveram aquelas máquinas que se levantaram com nome de maravilhas do Mundo com a portentosa grandeza das que lemos nas Escrituras? Que estátua como a de Nabuco. sem pôr monte sobre monte. serem só eles os que revelaram e descobriram o Mundo o segredo de seu primeiro princípio. uma novela ou enredo como a de José? Em que teatro dos Gentios se representaram aparências de tanto artifício como um paraíso terreal sumido no meio do Mundo. a divisão das terras. fazia caminhar os montes? Onde se lê tal agravo de onipotência como no tenente daquela vara em quem foi culpa tirar fontes de um penhasco com dois golpes.

Paremos no valente Eleásaro. que história tão admirável como a da casta Susana? Que sacrifício tão lastimoso como o da filha de Jepta. em campo aberto. se não fugiram todos? Teve sede Sansão. deleitam e suspendem tanto a curiosidade dos homens? Que desafio como o de David. e ver dali a três dias surgir a baleia. arrancando um dente da mesma queixada. em que degolou de um golpe todo aquele seu exército? Mas passando nós a encontros de maiores forças em que pelejaram os braços e não a indústria. Fique à trombeta da fama Josué. se mortalmente oprimido do peso de tamanha vitória. porque dedicou todos a Deus. fez brotar dela uma fonte. mil de seus inimigos e ainda matara mais. desembarcá-lo a fera vivo nas praias de Nínive? Como estes são os prodígios que se encontram a cada página nos Livros Sagrados. aquele que. preso dentro da cidade de Gaza. fazendo montante do arado. e juiz depois de lavrador. e deixou semeando com seus corpos o campo que andava lavrando. só com trombetas e luzes em cântaros de barro? Que bateria como a dos muros de Jericó. que Hércules Tebano como Sansão. Segundo Sansão. ver levá-lo consigo ao fundo e desaparecer. e. aquele que. e a da serpente do Deserto dando vida aos mordidos só com olharem para ela? Que prudência como a de Salomão em mandar partir o menino para conhecer a mãe verdadeira? Que engenho como o 144 . quando entrou pelas portas de Betúlia com a cabeça de Olofernes. matou com ele em um dia seiscentos filisteus. levado ao templo dos Filistinos. cansado de matar. desde seu nascimento. com uma queixada de um jumento. ainda conhecidas por falsas. que. lançou a mão direita e esquerda a duas colunas. encomendado com maior ventura à própria mãe para que o criassem a seus peitos? Que maravilha como a da sarça verde e sem arder no meio das chamas. matou. pôs em fugida e desbarato o exército inumerável dos Filisteus? Que triunfo como o da galharda Judite. Todas estas forças tinha este bizarro mancebo em sete cabelos. já entregue à fúria do Nilo na barquinha ou naufrágio de vimes. o sangue e o estrondo das armas. de uma só rompeu as cordas e nervos como se foram teias de aranha. aquele que. e de entre a lenha e a espada escapando vivo? Que caso tão bem tecido como o de Moisés infante. e o fortíssimo Macabeu. restaurador vítima da sua pátria. atado sete vezes. dando com o templo em terra. que ver o monstro marinho engolir a Jonas. com uma funda e um cajado contra o gigante coberto de ferro? Que batalha como a de Gedeão. vencedor de trinta e um reis. que comer em uma iguaria todos os banquetes e gostar em um só maná todos os sabores? Que se podia imaginar de maior suspensão e assombro à vista. foi Sangar capitão do mesmo povo depois de juiz. derrubados com os instrumentos dos músicos do templo! Que emboscada como a de Abimelec em que os bosques e as sombras caminhavam juntamente e os soldados com eles? Que vitória como a de Jónatas. em que um só capitão com um só soldado. e tão venturoso como o de Isaac posto já sobre o altar. primeiro foi matador de sua sepultura. sepultou debaixo dele todos os idólatras. Mas que direi das façanhas e cavalarias que. a de Daniel comendo e não comido no lago dos leões. Mas deixando a guerra. quebrou com as mãos os ferrolhos e lançou às costas as portas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro fingir de maior lisonja e admiração ao gosto. Assim obedecem os elementos a quem assim triunfa dos homens. aquele que. e depois ficou ali não sei se diga morto. metendo-se intrepidamente com a espada debaixo de um elefante armado. a dos meninos de Babilônia tomando fresco na fornalha. mas lavrador que. tomando posto nos braços da Princesa do Egito.

o Salmo LVIII. 2. fundamentais desta nossa História. foram ordenadas à vinda de Cristo. XLVI e XLVII. o 54. e muitos outros de todos os Profetas. o II. mais aludidos que contados. o Salmo XLV. de Etiópia (se bem havia muitos hebreus. senão de todas as gentes e reinos do Universo? E quando todas as outras profecias tivessem alguma escuridade que eles não pudessem entender ou interpretar por si mesmos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro de Jacob em meter as cores pelos olhos das mães. que homem os podia ler com juízo e entendimento. 145 . para que. Bastem estes poucos exemplos. o 9. O Salmo II. disse Cristo aos discípulos que falavam mais particularmente na sua vinda ao Mundo: os Profetas. Nos Salmos de David. sem beberem daquelas fontes esta esperança. a quem estes podiam perguntar a interpretação quando quisessem) o cap. os Salmos e os livros de Moisés: Necesse est impleri omnia quae scripta sunt in lege Moysi et prophetis et psalmis de me. como todas. o Salmo XLI. convidados com o cevo da curiosidade os que ainda não deviam àqueles livros outros melhores respeitos. que. o Salmo CII. aprendessem por eles a Fé de Deus e juntamente as esperanças de Cristo. E quão impossível cousa seja poderem ler os Gentios as Escrituras Sagradas. o 52. é cousa maravilhosa a freqüência com que está repetido. de uma só ou algumas nações. tudo raro. o Salmo IX. para mostrar de dia nas pegadas dos sacerdotes e seus filhos que eles e não o ídolo eram os que comiam as ofertas? Que subtilezas de Estado tão bem entendidas como as dos Livros dos Reis. o Salmo XCII. e não Rei como os que costumava ver no Mundo. vê-se clara e naturalmente da matéria das mesmas Escrituras. ainda que fosse sem fé. como dissemos. que como as de David com Saul e as de Cusai com Aquitofel? Tudo nas divinas Escrituras é divino. o 53. todos estes catorze salmos têm por principal assunto o Império do Messias. para pintar os cordeiros antes de nascerem? Que indústria como a de Daniel em semear de noite o templo de cinza. apenas se acha cláusula em muitas delas que não esteja anunciando esta vinda e este Reino. XCVII. para que deles possa entender o leitor (que é o que só lhe pretendemos persuadir) quão fraca seria a todas as nações dos Gentios a lição dos Livros Sagrados quando chegassem a suas mãos. que não fizesse conceito do que diziam? Mas basta ao nosso intento que o fizessem os doutos e os entendidos. em que o Reino universal daquele futuro Monarca está expresso e declarado com palavras tão vulgares e tão significativas. e fora matéria imensa de prosseguir e impossível de compreender querer levar por diante os princípios deste não intentado discurso. tudo maravilhoso. como ele era a quem tão de perto tocava aquela felicidade e a quem particularmente estava prometida. e de Cristo em quanto Rei e Senhor do Mundo. o 35. entre os Gentios. os dois textos de Daniel. LXVII e LXXXVIII. e como este foi o altíssimo conselho da Providência Divina. E deixando à parte os lugares mais escuros (que esses não os entendiam os Gentios sem intérprete) como se viu no eunuco da rainha Cândaces. que não visse e conhecesse que era prometido naquelas palavras um Rei futuro. Três partes da Escritura. que gentio havia de haver. no estilo e disposição das escrituras do Testamento Velho (tão diversas nesta parte das do Testamento Novo) temperando a alteza e majestade de seus mistérios com o sabor de tantas verdades gostosas e com a variedade de tantas maravilhas tão novas e tão notáveis. XCV. e com termos que Não admitem outro sentido nem interpretação. por bárbaro e ignorante que fosse. a clareza com que está apregoado e a pompa e majestade de palavras com que está engrandecido o Reino de Cristo. o 65 e o 66 de Isaías. XCVI.

finalmente. e no Salmo XCVIII: Dominus in Sion magnus..Anexo:Imprimir/ História do Futuro E porque não duvidassem os Gentios que eles. A qual promessa tornou Deus a ratifica quarta e quinta vez em Isaac. que todos o desejassem e esperassem todos. se não cresse aquela Fé. as suas terras e as suas coroas. donec veniat qui mittendus est. o prometido Messias. e não por termos enigmáticos ou metafísicos. eram as que haviam de ser sujeitas a este grande Império. vinte nove vezes lhes repete e inculca o mesmo Daniel esta gloriosa sujeição. Em Isaac no capítulo XXVI: Benedicertur in semsa tuo omnes gentes terræ. posto que sejam principalmente históricos e não proféticos. no capítulo XXVIII: Benedicentur in semine tuo cuntae tribus terræ. que não podiam deixar de ser lidas deles com grande advertência e recebidos com grande aplauso. em toda esta História. nas quais se lhes prometia por boca de Deus que seriam abendiçoadas em um homem da descendência de Abraão.a alegação de Cristo). filho. digo. sempre pelas mesmas palavras. no capítulo XLIX do mesmo livro dos Gênesis está o famoso texto já referido um dos dois em que fundamos todo este discurso: Non auferetur sceptrum de Juda. omnes gentes servient ei. e foi insigne profeta de Cristo. e em Jacob. tão alheio do lume da razão e tão gentio. e no Salmo XXI: Adorabunt in conspectu ejus universæ familiæ gentium. que. foram muitas revelações particulares daquele mistério com que Deus em diferentes tempos alumiou por si mesmo a vários homens e mulheres de toda a Gentilidade. mas tão dirigidas e encaminhadas todas as nações. et excelsus super omnes populos. e com efeito conheceram. Job. neto do mesmo Abraão. a quem conheceu por universal Redentor: Et scio quod Redemptor mous 146 . nomeadamente dos mesmos Gentios. lendo os Gentios como liam as Escrituras. lhe promete Deus terceira vez a mesma bênção. não só têm por ocasião da mesma história muitas profecias e promessas desta esperança. e no capítulo XXII. porque o faremos muitas vezes. lhe prometeu que seriam abendiçoadas nele todas as nações da terra: In te benedicentur universæ cognationes terræ.cum benedicendae sint in illo omnes nationes terræ. etenim correxit orbem terrae. em prêmio da resolução e obediência com que Abraão não duvidou de sacrificar seu filho. De sorte que em um só livro de Moisés tinham os Gentios seis profecias claras e que claramente falavam com eles.. ao menos não conhecesse aquela esperança? Deixo de ponderar mais lugares de David. natural da terra de Hus. que era o esperado Rei e Messias do Mundo. senão na de um seu descendente: Benedicentur in semine tuo omnes gentes terrae. e particularmente os livros de Moisés. Era Job verdadeiramente gentio. e em Jacob. podia ler estes textos ou ouvir estes pregões tão expressos e declarados do domínio daquele futuro Rei sobre todos os Reis e nações do Mundo. No capítulo XII. e tal conhecimento de Cristo. não podiam deixar de vir em conhecimento. e no Salmo LXXI: Adorabunt eum omes reges terræ. e no Salmo XCV: [Dicite] in gentibus quia Dominus regnavit. falando com eles nomeadamente. que gentio. Que gentio podia haver tão rude. a primeira vez que Deus apareceu a Abraão e o mandou sair da pátria. Finalmente. com declaração que não seria na sua pessoa. idumeu de nação. senão clara e distintamente pelo seu próprio nome de Gentios. Assim que. et ipse erit expectatio gentium. e no capítulo XVIII torna a referir Deus esta mesma promessa: . com que as nações gentílicas puderam conhecer. do Gênesis. quoniam Domini est regnum. os dos Salmos e os dos Profetas. que lendo no Salmo II: Dabo tibi gentes hæreditatem tuam et possessionem tuam ter minos terræ. Seja o primeiro exemplo desta luz aquele grande varão mais conhecido pelo testemunho da paciência que pelo lume da profecia. O quarto e último meio e mais imediato da Providência Divina. os livros de Moisés (que era a 3.

Os amigos de Job também eram gentios de outras províncias vizinhas. Quer dizer: «Vê-lo-ei. puderam argüir do aparecimento da nova estrela o nascimento do novo Rei: . já se vê quão ensinados teriam nela a todos seus vassalos. Similiter et Job—diz Santo Agostinho— eximius prophetarum. e levantar-se-á o ceptro de Israel. Dele diz S.Anexo:Imprimir/ História do Futuro vivit. Agostinho) que comunicou Deus o espírito de profecia a estas famosas mulheres. nascerá a estrela de Jacob. qui novit doctrinam Altissimi et visionem Omnipotentis vidit) profetizou claramente de Cristo e de seu império naquele texto. por cujo meio a uns e outros fossem manifestos os conselhos divinos. de um Rei descendente da casa de Jacob. Leão Papa). Máximo: Nemo [.tão celebrado no capítulo XXIV dos Números: Videbo eum.. conforme a ordem e disposição eterna de sua providência. (o qual não duvidou de se chamar a si mesmo auditor sermonum Dei. quod de illo tempore prophetavit quia Christi deitas habitum nostrae carnis induta est. potuit Gentilis agnoscere. tivessem também os Gentios os seus. falaram com termos de 147 . e quão pública seria entre eles a esperança de Cristo Balaão (cujo espírito profético é tão vulgar que não tem necessidade de provas) não só foi gentio. que em tempos futuros havia de imperar no Mundo e havia de sujeitar a seu domínio todas as nações dele. e como todos fossem reis e senhores de suas terras (assim lhes chama o Texto Sagrado no capítulo I de Tobias) com aquela suprema autoridade e com o conhecimento e sabedoria que tinham do Céu . mas não de perto. et consurget virga de Israel. e muito famosa. como pelos Gentios. respondo que em muitas cousas particulares. sed non modo. illum. Das Sibilas (profetizas também da Gentilidade) diz assim Xisto Betuleu. principalmente das que pertencem a Cristo. Quer dizer este autor (e o confirma com o que disseram das Sibilas Lactanio Firmiano e S. E digo que não só os Hebreus entendiam assim este lugar. por ser muito célebre entre eles a notícia deste oráculo. intuebo.. si revelante Deo praenuntiare potuit. e em quem esperou ver a Deus vestido de carne: In carne mea videbo deum meum.] miretur netivitatem dominicam agnovise Chaldaeos quam utique. e esta esperança. assim pelos Hebreus. como ele diz. vastabitque omnes filios Seth.. mas também os Gentios. suum votum et totam illam futuram seriem praesertim ad salatem mortalium spectantem. pela qual memória ou notícia (diz o mesmo santo) informados os Reis Magos. e também alumiados da mesma fé e confirmados na mesma esperança. nas Anotações que fez sobre o original grego dos oráculos sibilinos: Sic prarsus sentio Deum totius universitatis opificem et administrum aeternum. ou aos Gentios pelas Sibilas. Este Balaão.» As quais palavras foram sempre entendidas. assim como os Hebreus tiveram os seus Profetas. este gentio. et in carne mea videbo Deum meum. sicut Israeli per prophetas. olharei para ele.. principalmente aqueles que para a salvação universal do Mundo eram necessários. mas não agora. se aos Hebreus pelos Profetas. sed non prope: orietur stella ex Jacob. como consta da mesma história e do que eles disseram nela. ou difamada (como diz S. trazia sempre guardada no seio: Reposita est haec spes mea in sinu meo». E se alguém perguntar curiosamente a quem e por cu]a boca falou Deus mais claramente. vencerá todos os capitães dos Gentios e sujeitará todas as nações do Mundo. de que se ve facilmente quão notória era no Mundo e quão pública entre os Gentios esta esperança.ad intelligendam miraculum signi potuerunt Magi etiam de antiquis Baluam praenuntiationibus commoveri scientes alim esse praedictum et celebri memoria diffamatam. senão mau gentio. ita gentibus per Sibyllas ostendere voluisse per idem numen fatidicum. Notem-se bem estas últimas palavras. porque. a memória desta profecia. et percutiet duces Moab.

XXIII. e fazer de um X. em que venceu a Marco António e Cleópatra no Egito. aqueles livros. cujo artifício é lerem-se pelas primeiras letras. e acabou de dominar o Império Romano. Ille domus caecas et Ditis claustra refringet. Não se podia descrever com maior clareza o tempo e circunstâncias do nascimento de Cristo. e assim foi. tão galante é a frase com que o Santo declara o mal falado e mal medido daqueles versos. De muitos lugares e exemplos que pudera trazer desta diferença. debaixo do qual se havia de renovar e restaurar o Mundo. Depois diz que o Procônsul Flaviano lhe mostrou outros mais conformes às leis da gramática e da poesia. Filho de Deus. servator Crux Jesus Cristo. A de João Bongro. no Livro XVIII De Civitate Dei. Diz que nasceria este Rei e daria princípio a seu Império quando Roma dominasse e governasse o Egito. são trinta e cinco e a sentença é esta: Jesus Christus. qui totius orbis Omnia sceculorum per tempora sceptra tenebit. compreendeu e cumpriu felizmente com todas estas dificuldades. e nós deixamos de os pôr aqui. Carnifer ille homines judex inquiret in omnes. C e S. formando ao menos um conceito comum. supremo cum Sanctis tempore mundi. (lacuna do original) No Livro VIII (que é o último) tem a mesma Sibila outros versos mais notáveis do gênero daqueles que os Gregos chamaram acrósticos. pois. S. Horrida terra vias caeli spinceque tenebunt. diz que a primeira versão que chegou a suas mãos deste acróstico era em versos mal latinos. e não terem notícia da Messias e da esperança e promessa de sua vinda. Unum suscipient numen pravique bonique Summum. os quais copia este naquele lugar. Salvador cruz. No fim do Livro II diz a Sibila Eritrea estes versos: Sed postquam Roma AEgyptum reget imperioque Fraenabit. Os versos. como consta da.. para que se veja quão fácil era aos Gentios o conhecimento de Cristo pelos livros ou oráculos das Sibilas. porque não guardam a ordem das letras iniciais. cap. Agostinho. até o nascimento de Cristo. antes quão impossível cousa era lerem eles. e não se poderão traduzir na língua latina com o motivo daquelas letras sem alguma variedade. propriedade que falta em muitas outras versões latinas. 148 . e que se não podiam ter em pé: Versibus male latinis et non stantibus. nome ou inscrição particular. como se pode ver facilmente de uns e outros livros. sem tomar outra licença mais que a de desatar a última letra em duas. Dei filius. e conceito de um Rei e de um Império futuro. Estes versos estão em toda a sua propriedade no texto grego.Anexo:Imprimir/ História do Futuro maior clareza as Sibilas do que os Profetas. Rex etenim sanctus veniet. as últimas relíquias de poder em que se conservava o Grego não passaram mais que doze anos. a soberania de seu supremo poder e a Monarquia Universal de seu Reino sobre todos os cetros e coroas do Mundo. É a seguinte: Judicii metuet sudans presagia tellus Et Rex ceternus magno descendet Olympo Sublimis carnem mundumque ut judicet. como liam. e formar-se com elas alguma sentença. gazamque retostam. Rejicient simulacta viri. porque depois da vitória de Augusto César. traduzida por Xisto Betuleu. porei somente aqui dois. summi tum summa potentia regni Regis inextincti mortalibus exorietur.. omnem.

natus Patris omnipotentis Corpore vestitus. no livro II De Divinatione. Velivago nulli cernentur in aequore nautae. O sentido dos versos. Vastam terra chaos stygio monstrabit hiatu. Atque Dei solio sistetur judicis omnis Turba ducum regumque. mortalibus ipsis In terris similis. que morreu cinquenta anos antes do nascimento de Cristo. Não falou com palavras mais claras S.Mundo. quase pelas mesmas palavras de S. E mais abaixo se lê a pregação do Baptista. argentea luna peribit. consident ardua montis. fontesque dehiscent: Et tuba de caelo tristis clangore sonabit Raucisono mundi clades pereuntis acerbas. Insurgent valles. quando disse: In similitudinem hominum factus et habitu inventus ut homo. Erumnae et stridor dentis regnabit ubique. Luxus sublimis mortales deseret oras. pluet tum sulphure et igni Omnibus extabunt ligni vexilla verendi Robur et auxilium populo exoptata fidéli: Certa pio generi vita. é a vinda de Cristo a julgar o . Immensos colles aequabunt marmora campi. em suma. quae clamet ad omnes 149 . Succendet terram fulmen. Mateus: Verum cum quaedam vox per deserta locorum Nuncia mortales veniet. majestade e horror que pertencem ao aparato e execução do juízo. Ipsum deficiet solis decus astra colore Fusco obducentur. com todas as circunstâncias de grandeza.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Sanctior a mortis jam nexu libera lucem Turba hominum cernet. ast offensa malignis. O mistério da encarnação está com tanta e maior clareza no Livro I dos mesmos oráculos das Sibilas: Tunc ad mortales veniet. scelerosos flamma piabit Ultrix bertetuum: mala quae quicumque patravit Sontica suppressitque diu. vaga lympha Solis arescet ripis. Destes mesmos versos faz menção Eusébio Cesariense na Vida de Constantino Magno. Rore bonos lustrans bisseni fontis ab unda: Virgaque qua pecori dat ferrea jura magister Carminis auspiciis qui crimina morte piabit Servator Rex arternus Deus ipse patescit. producent in auras Deteget et turbis Deus obsita corda tenebris. Paulo. e Marco Túlio.

diz no mesmo lugar: Et brevis egressus Mariae de Virginis alvo Exorta est nova lux.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Ut rectos faciant calles. as enfermidades que curou milagrosamente. até o presépio de Belém. horrentemque feret de vepre coronam. compreendendo admiravelmente em tão poucas regras o nascimento virginal de Cristo. hinc tali affatur sermone puellam: Accipe. assim como tinha declarado o do Anjo. E pelo mesmo estilo vai prosseguindo a história da encarnação. açoitado e afrontado com mãos sacrílegas em seu próprio rosto. sobre as ondas. mortalibus unde locutum Venerit.. como da sua Paixão. Até aqui a Sibila. a sujeição com que lhe obedeceram os ventos. 150 . cujus. renati. alegria e pasmo dos pastores. Finalmente. poder e majestade de quem era e de quem o mandara ao Mundo. Placabit ventos dicto sternetque profundum Insanum. o sacramento do batismo. placidis pedibus calcando. a paciência e humildade com que sofreu ser cuspido. A embaixada do Anjo à Virgem com o mesmo nome de Gabriel descreve a Sibila no Livro VIII por estas palavras: E caelo veniens mortales induit artus. Sic ait: est illam caelestis gratia mo11i Leniit afiatu: tum virginitatis amatrix Perpetuae magno subito correpta stupore Atque metu trepida pressit formidine mentem. fideque. segundo as leis da história. depois que teve (como ele diz) maiores as mãos. dissimulando debaixo de tantas injúrias a grandeza. assim da vida santíssima.] Perque feret tacitus cotaphos ne forte sciatur Quis sit. Persimilem formam portans in Virginis alvum. Virgo. que instituiu e administrou. Ut nunquam doincets peccent in jura. animosque refurgent A vitiis et aqua lustrentur corpora cuncta. Collustrans lympha manibus senioribus (?) omnes Cuncta jubens faciet morboque medebitur omni. os mares que pisou andando placidamente. o império que exercitou sobre todas a criaturas. e coroado por escárnio com coroa de espinhos. aparecimento da estrela e adoração dos Reis.. Ac primum cortpus Gabriel ostendit honestum Nuncius. O nome da Virgem. Ad virosa genas praedebit sputa prudentes Verberibusque sacrum tradet proscindere tergum [Viriginem enim castam tradet mortalibus ipse. Deum premio intemerata pudico. resumindo todas as obras de Cristo. E porque não faltasse com todas estas circunstâncias. até lhe pôr a coroa (como se esta fora o fim e assunto do seu poema) conclui com estes versos: Ergo ad judicium veniet diciti memor hujus.

. por permissão ou castigo. filho do Eterno Padre. e sobre todos (lacuna no original).. rejiceret. id oraculorum perspicuitate compensaretur? Accedit eo quod (quemadmodum scitur ex Isaia) voluit Deus Judaeis obscuriorem esse Christi adventum. E assim a primeira e mais relevante de todas se funda na união hipostática com que a humanidade sagrada de Cristo está unida ao Divino Verbo. quod idem de gentibus dicere non licet. é de opinião que esta quarta Égloga de Virgílio é toda alegórica. e cita nela os oráculos da Sibila Cumea: Ultima Cumaei venit jam carminis aetas.. Desta mesma opinião de Eusébio são outros muitos autores. e a claridade das Sibilas à fé com que os Gentios o haviam de crer. tendo também estes ali tantos mestres que os pudessem alumiar e ensinar. talhado verdadeiramente para poeta de Cristo. e não nas de Aganipe ou Hipocrene. posto que 151 . filho de Polion. qual se não acha maior nem ainda igual nos Profetas. principalmente dos sábios. e que destas fontes bebeu aqueles levantados espíritos. os quais constantemente se persuadem que o sujeito da IV Égloga virgiliana não foi outro senão Cristo. conhecido pelos oráculos das Sibilas. era tão vulgar e famosa entre os Gentios a esperança daquele novo Rei e da idade dourada que havia de trazer ao Mundo com seu felicíssimo Reino. quanto a lemos elegantemente profetizada na IV Égloga de Virgilio. que de versos de Virgílio teceu e compôs felizmente toda a vida de Cristo As razões mais fundamentais e sólidas com que se persuade e converte a verdade deste império temporal de Cristo são as que imediatamente se tiram dos mesmos títulos que acabamos de declarar. e carecendo aqueles de toda a luz e doutrina. qui carminum horum sensum altius sub conspectum divinitatis Dei scrutantur. que nem ainda do mesmo César se puderam dizer sem nota de demasiada adulação e indigna de um tão eminente juízo como o de Virgílio. quae eis ad Christi lumen quasi proluceret: ut quod hic durat. culpare posset quod contra patrias leges scriberet. e dos Modernos ao P. no já citado livro da Vida de Constantino Magno. et quae jam olim inde a majoribus de diis credita fuiissent. e que debaixo da metáfora de Asínio. para que o não condenasse a superstição romana como violador da divindade dos deuses. e certo são tão extraordinariamente grandes as cousas que o príncipe dos poetas diz naquele poema bucólico. que morreu treze dias antes do nascimento de Cristo. se acomodou à cegueira com que os Judeus haviam de negar a Cristo. nascidos e criados entre os resplandores da Fé e conhecimento de Deus. pertinaciae poenas darent.. Por meio destes oráculos das Sibilas. Quem tiver curiosidade de ver a alegoria de toda a Égloga aplicada e explicada de Cristo. ut in eum obscurarent alque ita sua. veja nos Antigos ao mesmo. que andavam nas mãos de todos. encobrindo e envolvendo o vigilantíssimo Poeta a verdade desta sua fé e pensamento com as figuras e metáforas daquele seu Mecenas. Nonne (são as palavras de Castálio) quae de Christo gentibus praedicta sunt ea clariora esse oportuit. Sendo a razão desta providência (como bem notou Castálio) a rudeza e ignorância das cousas divinas em que viviam os Gentios. Eusébio Cesareense. para que entendêssemos que as Sibilas foram as Musas Sicélides que exercitaram cousas maiores. foi verdadeiramente escrita e dedicada a Cristo. Intelligimus autem (diz Eusobio) dicta haec manifeste simul et obscure per allegorias prolata iis. como se vê em Platão e Aristóteles. Se já não foi (como considera o mesmo autor e o prova com Isaías) que a escuridade dos Profetas. veritatem occuluerit. aos quais era necessário se falasse com maior clareza do que aos Hebreus. innuere quomodo Poeta. ne quis eorum qui in regio orbe denominabantur.e Lacerda. quod Mose et cetera disciplina carebant.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Tanta como esta é a clareza com que falaram de Cristo as Sibilas.

se não de carne. não era justo que tivesse sobre eles o domínio partido. que não só em quanto Deus. foi inveja. por Cristo ser verdadeiro e inteiro homem. assim que as razões fundamentais do império temporal de Cristo são três: o ser quem é. autoridade e soberania alguma.. que foi o princípio efetivo donde manou e se derivou a Cristo a comunicação liberalíssima. et volatilibus caeli. senão de Adão inocente. porque. ut praesit piscibus maris. se não de Adão senhor. do Profeta Zacarias. que facilmente se consideram muito convenientes todas ao decoro e majestade de Cristo. porque não reteria ao menos o que não perdeu em seu Pai? A geração de Cristo escrita por S. v. ita eum (Pater) et regem spirituum et corporum etiam fecerit. comentando o capítulo IX. grandeza e majestade. assim sobre as cousas e ações concernentes ao espírito. só por ser feito a sua imagem e semelhança: Faciamus hominem ad imaginem et similitudinem nostram. em conseqüência do qual merecimento se ajuntou a ele a vontade eficaz divina.. senão inteiro. outra é o merecimento infinito de Cristo. como as que pertencem ao corpo. e tão fora está deste perigo o império e domínio temporal que admitimos em Cristo. como cabeça dos homens que são compostos de carne e espírito. por filho de Adão. composto não só de espírito. que sem implicação nem indecência se podem considerar nela. e se. é princípio geral e recebido de todos os teólogos. Estas razões capitais se podem ajudar e revestir de várias congruências. melhor que Salomão lhe foi devido o cetro de Israel. pelo qual lhe eram devidas todas as dignidades e grandezas humanas. A Adão deu Deus o império universal do Mundo com sujeição e otediência a todas as criaturas dele. e ainda alguma conseqüência indigna e de menos decoro. inseparável a todas as suas ações. porque todos lhe são infinitamente devidos. e por S. Porque o império espiritual de 152 . como havemos de crer nem imaginar que desse Deus só uma parte de seu império e domínio a Cristo. como advertiu o Apóstolo. antes. que é razão de si mesma. se não ainda em quanto homem. e seu filho natural e verdadeiro e unigênito? Se quis e não pôde (como em semelhante caso argumentava Agostinho) foi fraqueza. o qual. se pôde e não quis. se não também o temporal que é próprio das corpos: . Mateus começa em David. porque se lhe há-de negar o do Mundo? Finalmente. não digo já àquele segundo Adão que veio restaurar as ruínas do primeiro. e como investidora absoluta desta suprema e universal potestade. ut tam late ipsius regnum et imperium pateret quam ipsius Dei. que se deve conceber e admitir na soberana pessoa de Cristo todos aqueles atributos de poder. que antes da falta dele se podem arguir conhecidos inconvenientes.Anexo:Imprimir/ História do Futuro esta mais se pode chamar natureza que razão. por filho de David. Como negaria logo Deus este mesmo poder.. o seu merecimento e a vontade divina. Se os Trajanos e outros imperadores e príncipes do Mundo deram seus impérios e reinos inteiros aos estranhos que adotaram por filhos. melhor que Caim e Abel. E se Cristo não foi filho de Adão escravo. senão àquele que é imagem e retrato perfeitíssimo de sua sustância: Ipse est enim imago Patris et figura substantiae ejus? Haverá quem se atreva a dizer ou presumir que foi menor o poder de Cristo no Mundo que o de Adão ou que teve Adão poder que faltasse a Cristo? A carne de Adão que tomou Cristo não foi de Adão pecador. et bestiis terrae. como doutamente disse Stuniga. sem exclusão de poder.ut sicut ipse e corpore et spiritu compositus erat. foi muito conveniente que não só tivesse o Império espiritual que pertence às almas. 9. tomou a carne e não contraiu o pecado. Lucas em Adão. e um ou outro pensamento fora blasfêmia contra o onipotente amor de tão divino Pai.

necessariamente havemos de dizer e confessar. por supremo e universal que seja. na união hipostática. Porque aquele domínio supremo e universal de todas as cousas fundava-se imediatamente. oh! que confusão para os homens. pobre na morte. e era não só 153 . segue-se que não só não teve o uso das cousas temporais. e não queiram mais pobreza. senão desfazê-lo. digo outra vez que na pobreza de Cristo. E quanto ao reparo da pobreza e desprezo das cousas temporais que Cristo veio ensinar ao Mundo. porém senhor absoluto de tudo quanto há e pode haver no Mundo. oh! que exemplo. segue-se (como doutamente infere o Padre Soares) que. Primeiramente digo que. virtude pode ser. logo. pobre no nascimento. não era necessário exercitar todos os atos particulares delas. que não é somente espiritual o império e domínio que Cristo tem sobre o Mundo. Não ter uso das cousas do Mundo quem não tem ou teve domínio delas. ainda os mais desprezadores do Mundo! Mas replicam a esta resposta os autores da contrária opinião. se não também temporal. havia outra razão mais forçosa e necessária. O domínio universal que Cristo tinha do Mundo era o que mais subiu de preço os quilates de sua pobreza. por santos e espirituais que sejam. não ofereceu o Senhor a outra face. praebe illi et alleram sabemos contudo que. e que espiritual e temporalmente lhe são todos os homens e todas as cousas sujeitas. quando deram a Cristo a bofetada em presença do Pontífice Caifás. nós nos contentaremos com que os autores deste escrúpulo. Muitos há que querem parecer pobres. e pobre sobretudo na eleição de pais pobres. e sendo uma das mais altas proposições de sua doutrina na matéria do sofrimento. de que Cristo professou ser mestre. para Cristo ser perfeitíssimo mestre e exemplar de todas as virtudes. se não que também careceu do domínio de todas. ainda que os tivesse ensinado. alguns que o querem ser. pobre na vida. como dissemos. mas quem queira ser e parecer filho de pobres: Quis est hic et laudabimus eum? Só Cristo e quem tem muito de Cristo. se Cristo quisesse mandar a um homem ou a um anjo uma ação meramente temporal alheia (ainda que fosse para obrar um milagre). que o não poderia fazer livre e absolutamente a seu arbítrio e sem licença do dono dela (se comodamente o pudesse fazer de outra sorte): Indignum autem videtur (conclui o grande Doutor) haec et similia de Christi potestate sentire. antes acudiu à calunia de que falsa e sacrilegamente o argüiam. oh! que pasmo. e ter menos uso do mesmo Mundo do que os bichinhos da terra. quanto a renunciação do domínio. em boa teologia. E pois é certo que foi Cristo consumadíssimo exemplar de todas as virtudes. e dizem que a pobreza evangélica.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Cristo. se não principalmente na renunciação do domínio delas. e poder dizer com verdade: Vulpes foveas habent et volucres caeli nidos. Mas deixada esta estrada geral. não consiste só na mortificação ou temperança do uso das cousas temporais. enquanto estas se ordenam ou subordinam ao fim e conservação das espirituais: e no caso ou suposição em que Cristo somente fosse Rei espiritual. e muito particularmente desta . cum te percusserint in una maxilla. no desprezo e abdicação deste domínio é que devia Cristo dar-nos o exemplo da perfeita pobreza. mas virtude que parece fortuna ou necessidade. nem mais exemplo em Cristo. que era ser este ato incompatível com a natureza e essência do mesmo Cristo. Não era menos mestre nem menos exemplar Cristo da paciência do que o foi da pobreza. Sendo logo este sentimento indigno do poder e majestade de Cristo e da soberania de sua pessoa. porque não é nosso intento divertir o argumento. se contentem com o que se contentou este Monarca temporal do Mundo: imitem a pobreza de Cristo. só tem poder e jurdição indireta sobre as cousas e ações temporais. filius autem hominis non habet ubi caput reclinet.

porque havemos de ser tão estreitos de coração que lha não concedamos toda? Os que admitem ou veneram conosco em Cristo o título e domínio de rei e concedem contudo que não teve exercício dele. posto que o Santo Doutor a não exprima. que vinha a ser totalmente ocioso este império temporal que consideramos em Cristo. Finalmente. assim (diz o Padre Vasquez) não podia renunciar nem demitir de si o direito soberano domínio. para que no mesmo exemplar aprendessem os religiosos a mortificação do uso e os prelados a moderação do domínio. Quanto mais qnue ainda no caso em que fora possível na pessoa de Cristo a renunciação do domínio temporal de todas as cousas. logo não teve poder judicial. sed omne judicium dedit filio. porque a potestade judiciária em Cristo foi conseqüência da dignidade real. E daqui inferem. pedindo dois irmãos a Cristo que julgasse certa dúvida que tinham entre si. porque Cristo. Reges. conserva o domínio e administração dos bens e só periga ou pode perigar na imoderação ou excesso do uso deles. que renunciar o uso e mais o domínio. senão também os amigos. Paulo: Pater non judicat quemquam. porventura que era mais conveniente ao mesmo exemplo do Mundo conservar o domínio sem o uso. intelligite: erudimini qui judicatis terram. Tomás na Questão LIX. descrevendo o supremo e último ato de juízo em que há-de sentenciar o Mundo. Porque tão boa conseqüência é esta: Cristo não teve exercício de rei. e também muitos da nossa. IV. e o direito (do modo que pode ser) pela posse. Temos neste ponto contra nós não só os inimigos. se chama nomeadamente Rei: Tunc dicet Rex his qui a dexteris ejus erunt etc. porque o ofício de julgar é parte da dignidade de Rei. como mestre e exemplar da perfeição evangélica. para que ponhamos o selo à confirmação desta nossa sentença e acabemos de desfazer as razões ou admirações. logo não teve poder real. quia filius hominis est. A premissa é de Fé. sendo de maior perfeição. I: Potestas judicis secuta est in Christo regiam dignitatem. e ao supremo bispo e supremo prelado. provemos demonstrativamente a causa pelos efeitos. não teve exercício algum do império temporal. como esta: Cristo não teve exercício de juiz. porque neiga contraditòriamente o texto de S. o Senhor lhes respondeu: Quis me constituit judicem super vos? E a conclusão é contra a Fé. Art. Por isso o mesmo Cristo. e por conseguinte nulo. Resolvem os defensores da opinião contrária. sendo de Fé a premissa. cujo estado. conforme o texto de David: Et nunc. nem em quanto Rei nem em quanto Senhor.Anexo:Imprimir/ História do Futuro propriedade inseparável. O que podia só fazer Cristo era privar-se do uso dele. Foi logo convenientíssimo que em Cristo se ajuntasse o sumo domínio e o sumo desprezo e abstinência das cousas do Mundo. a jurdição pelo exercício. porque lemos no capítulo XII. E nesta segunda conseqüência. dizem muito douta e conseqüentemente que. ou colhe demasiadamente ou nada. e assim como Cristo não podia renunciar nem abdicar de si a própria natureza. que. como expressamente ensina S. como quem teve só o domínio e senhorio dele. e assim o fez tão perfeita e perfeitissimamente como sabemos. senão parte intrínseca dela. porque nem fez ato que fosse próprio da dignidade real. ad. nem se serviu de cousa alguma do Mundo. conforme aquele princípio vulgar da filosofia: Frustra est potentia quae non reducitur ad actum Mas começando pela forma desta conseqüência. E se é certo e de Fé que Cristo tem esta parte da jurdição e dignidade real. não só devia dar exemplo aos religiosos que professam renunciar o domínio dos bens temporais senão também aos prelados e bispos. é contra a Fé a conclusão. de S. a potência pelos atos. Antes daqui se forma novo argumento em confirmação da verdade da nossa sentença. ainda 154 . como dizíamos da parte contrária. E a razão desta ordem natural é. Lucas. que Cristo em toda a sua vida. não todos mas só os que impugnam a nossa sentença.

que para poder dizer. e contudo ninguém a nega nem pode negar em Cristo. temos por certo o contrário. porém nós. que os Reis ofereceram: o incenso como a Deus. por atos próprios de jurdição e domínio. que. e que o uso que teve daquele domínio foi a privação do mesmo uso. como foi Cristo Rei e Senhor temporal do Mundo. nem por isso se deve julgar aquele poder por baldado e ocioso. ou não querer usar dele. não só em ato primo (como diz a frase dos Teólogos) senão em ato segundo. poeta cristão da primeira Igreja. porque serve. ainda que não tivesse outro uso mais que não querer o poderosíssimo Senhor usá-lo. naquele verso que tão 155 . se não mui gloriosamente exercitado. Ambrósio para que quis e mandou Cristo aos Apóstolos que comprassem espadas. e assim cantou Arato. e o ouro como a rei. que eram próprios só do legítimo Rei e verdadeiro Senhor do Mundo. ainda que fosse a preço das mesmas túnicas com que andavam cobertos. como se vê claramente em muitos lugares e exemplos do Evangelho. não só em quanto Deus. não porque pública e continuadamente o professasse Cristo. de ornar e mais aperfeiçoar o sujeito. como falam os filósofos. incenso e mirra. se pode também dizer. como eles mesmos disseram: Ubi est qui natus est Rex Judaeorum? Vidimus enim stellam ejus in Oriente et venimus adorare eum. porque o seria o domínio de Cristo. depois do maior ato de humildade: Si ergo ego dominus et magister? Desta maneira respondem (e podem responder os que seguem que Cristo não teve exercício algum do império e domínio temporal. nunca visto até então no Mundo. Bem assim como na humanidade do mesmo Cristo é certo que houve alguma potência. se lhes havia de mandar que as deixassem estar na bainha? e responde o grande Doutor que foi para mostrar Cristo que se podia defender e vingar de seus inimigos. chamar os Reis do Oriente pela estrela. E se aquelas espadas só para este uso não foram ociosas. nem o haja de ter em outro tempo. tanto que entrou neste Mundo. Nesta conformidade entendem todos os Padres o mistério das três espécies de ouro. porque muitas vezes o mais nobre e o mais generoso uso do poder é não querer usar dele. se não em quanto Rei. ponderando devagar a história evangélica. teve porém um ato excelentíssimo e um exercício contínuo. e por última confirmação da nossa opinião mostraremos. que foi o não querer usar Cristo do mesmo domínio. Item em receber os tributos que lhe ofereceram os mesmos Reis em reconhecimento da soberania suprema de sua majestade. a que podemos chamar negativo. para que o viessem reconhecer e adorar por Rei. de maneira que neste sentido (que nem é vulgar nem violento) podemos dizer que não careceu Cristo do uso do domínio temporal que nele consideramos. para maior exemplo e doutrina nossa? Onde mais bem empregado e aplicado o domínio. Para este uso ou desuso quis Cristo a procuração das espadas. a mirra como a homem. senão quanto ao uso e exercício dela. porque é perfeição natural da Humanidade. ainda que o domínio temporal de Cristo não teve aqueles atos ou exercício positivo que costuma ter nos reis e príncipes da terra. pelo que respondemos negando a suposição. e não só quanto a jurdicão e domínio. não indouta nem indiscretamente. que nunca teve nem havia de ter ato (qual é a potência que há nos indivíduos para a conservação da espécie). como fazem os reis da Terra. mas não queria. o qual necessariamente supõe o mesmo domínio) não é tê-lo ocioso. Persistindo na mesma suposição. E ter o domínio para poder e não querer usar dele (que é um ato heróico de humanidade e modéstia. mas porque exercitou alguns atos particulares de império e domínio. O primeiro seja mandar Cristo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro que a dignidade e jurdição real em Cristo não tivesse ato ou exercício algum em sua vida. E se não. perguntemos a S.

e o comum consenso de todos os Padres e da mesma Igreja. de pastores. e outra coroa de universal Senhor e Legislador in temporalibus. judicium tuum Regi da. entrando e saindo do Mundo. nas cortes e aldeias. se compõem. et justitiam tuam filio Regis. segundo a qual se chama propriamente Supremo Rei. segundo estas duas jurdições. e não só do Reino de Cristo absolutamente. quando anunciaram aos pastores: Quia natus est vobis hodie salvator qui est Christus dominus. e receber adorações e tributos dos mesmos reis. S. ambas supremas. et de his quae dicta erant a pastoribus ad ipsos. E a Igreja. in civitate David. posto que alguns pareçam entre si contrários. Recolhendo tudo o que tão largamente temos disputado (que foi necessário ser tão largamente) e reduzindo a concórdia quanto pode ser as opiniões de todos os Doutores. E muito antes David. Ambrósio. Que ato pois mais próprio e positivo de rei. que divulgaram por toda a parte o que tinham visto. ser ele o Rei prometido aos Patriarcas e anunciado dos Profetas. S. perguntando publicamente: Ubi est qui natus est Rex? que outra cousa foi. na sua Relatio Theologica de universali Christi Regno. diremos por última conclusão que o Império de Cristo é juntamente espiritual e temporal. nas cidades e nos campos. se não um pregão público e um Real! Real! por Cristo Rei do Mundo. Lucas:Et omnes qui audierunt mirati sunt. no Hino da Epifania: Thus. no Salmo que começa: Deus. de anjos. respondendo·toda a milícia do Céu: Gloria in altissimis Deo ed in terra paz huminibus! Nas quais palavras todas não só apregoaram o nascimento e chegada ao Mundo do novo Rei. de reis. se não do Reino e Império temporal. com quatro pregões tão públicos e tão notáveis. e mandá-los como súbditos e novos embaixadores seus. como se colhe claramente do texto de S. de descendente de David. Jerônimo: Aurum. a entrada dos mesmos reis em Jerusalém. alega David profeticamente no mesmo Salmo a adoração e tributos dos Reis do Oriente: Reges Tharsis et insulae numera offerent. aos grandes e aos pequenos. Jerónimo. de ungido por Deus. de estrelas. se mostrou e publicou Rei e senhor de todo ele História do Futuro (Volume II. et adorabunt eum omnes Regeç terrae. myrrham regique hominique Deoque. thus. e ultimamente desobrigá-los da palavra que tinham dado a El-Rei Herodes. Finalmente. como larga e eruditamente prova Alonço de Mendoça. conforme a explicação de S. myrrham etaurum regium. Agostinho. assinalando-lhes o caminho por onde haviam de ir? Mas passemos do nascimento de Cristo aos dias mais chegados à sua morte.Anexo:Imprimir/ História do Futuro bem pareceu a S. Este Salmo se entende literalmente do Reino de Cristo. da qual publicação foram os mesmos pastores os terceiros pregoeiros. e que. Capítulo VII) por Padre Antônio Vieira 156 Conclui-se que o Reino de Cristo é espiritual e temporal juntamente. a coroa de Cristo. Reges Arabum et Saba dona adducent. que era Jerusalém. mas declararam também por to das as circunstancias de salvador. e no meio do mesmo Mundo. . e da paz que trazia consigo. Livro II. E em comprovação deste Reino de Cristo. como senhor supremo de todos. para que vejamos como. Sacerdote Supremo. omnes gentes servient ei. que era o lugar onde aquela cidade estava situada? A mesma publicação fizeram os Anjos nos montes e campos de Judéia. com que o mesmo Rei se mandou apregoar na praça mais universal de todo ele. que mandar-se publicar por tal. que havia de salvar e dominar o Mundo.

foram reis e sacerdotes. prior in donis major in imperio. rnajor in imperio. Daqui se entende maravilhosamente o mistério da ascendência e primogenitores de Cristo. ficando em Judá a benção do reino. effusus es sicut aqua. Estas eram aquelas bênçãos tão celebradas e tão pleiteadas que os Patriarcas davam a seus filhos. andou sempre o morgado temporal unido com o sacerdócio. Nestas duas descendências de Arão do tribo de Levi e de David do tribo de Judá. mas. e a que Isaac quis também dar a seu primogênito Esaú. prior in donis. o qual mistério (para maior propriedade e majestade dele) se observou até nos escritores da mesma genealogia de Cristo. quam dicit de filiabus Aaron. como foi a que Abraão deu a seu primogênito Isaac. tu fortitudo mea et principum doloris mei. até que a tiara e a coroa. fosse lavada de coroas e de tiaras. Lucas. Cujus feminae quoniam nec sacerdotale genus tacotur. posto que não viu nem lhe foi mostrado a quem se havia de dar. ipsam quoque Mariam de stirpe David a liquam consanguinitatem duxisse dubitare utique non debemus. foi ungido por rei de Israel David. deste tempo da Lei da Natureza. capítulo II. depois de o perder Saul. havia de dar também Jacob a seu primogênito Ruben a mesma bênção. e de ambos se compõe o império (assim o natural como o figurativo) que Ruben tinha perdido. e um e outro vinculado aos primogênitos. era ele o herdeiro legítimo do reino e do sacerdócio. se repartiu em dois filhos do mesmo Jacob. e este o Reino que Nabucodonosor também tinha visto encher o Mundo.. Mateus e do III de S. insinuante Luca. Este é o que viu mais distintamente que todos Zacarias na sua terceira visão. ou estas duas coroas. como depois se cumpriu. que era do tribo de Levi. pois fica contada no I Livro Para maior inteligência desta matéria havemos de supor que. Firmissime tenendum est carnem Christi ex utroque genere propagatam. que era do tribo de Judá. porque dos 157 . primogenitus meus. Torno a repetir o texto e suponho a história. Supremo Sacerdote e Supremo Rei. De maneira que ordenou a Providência Divina que na geração e ascendência de Cristo se tecesse o tribo sacerdotal de Levi com o tribo real de Judá. non crescas. e em Levi a do sacerdócio. para que visse o Mundo que. Conforme a este direito de sucessão. foi privado dela. porque Nabucodonosor viu somente o Reino e sua grandeza. in quibus personis apud illum populum Hebraeorum etiam mystica unctio figurabutur. ainda a título de geração natural. como gravemente notou e expressamente disse S. e o número e distinção das coroas. quando se desposou com a natureza humana. como direito descendente daqueles sacerdotes e daqueles reis que só eram feitos por Deus. quod cognata ejus esset Elisabeth. Agostinho no livro II de Consensu Evangelisarum. e na instituição do reino. e por indústria de Rabeca foi dada a Jacob. foi ungido por sumo sacerdote Arão. que havia de andar encabeçado no primogênito de Ruben.. quia ascendisti cubile patris tui et maculasti stratum ejus. e Zacarias viu o Reino e a pessoa. como consta do I capítulo de S. porque na instituicão do Tabernáculo. como lhe disse o mesmo Jacob: Ruben. Daniel viu o Reino e a pessoa que o havia de dominar.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Este é o Reino universal que Daniel veio dar ao Filho do Homem (que é Cristo). Desde este tempo se dividiram estas duas dignidades que haviam de estar juntas no morgado ou maioria de um só império (major in império) e o reino e o sacerdócio. et regum et sacerdotum. que precedeu ao Templo. e que a tela de que se havia de vestir o Verbo. se uniram outra vez em Cristo. os quais. Cum autem evidenter dicat Apostolus Paulus: ex semine David secundum carnem Christum. que foram Judá e Levi. se conservou sempre o reino e sacerdócio. unindo-se por verdadeira geração no sangue santíssimo de Cristo e sua mãe o tribo real de Judá e o sacerdotal de Levi. em castigo da irreverência que tinha cometido contra o tálamo de seu pai.

Da unção de profeta já dissemos no capítulo VII do I Livro. História do Futuro (Plano da História do Futuro) por Padre Antônio Vieira 158 Cópia do Ms. porque foi ungido Arão. entre si unidos. Porque Messias. e chama-se Cristo ungido. com que o mesmo Deus o ungiu na união da divindade com a humanidade. Mateus. senão pela unção interior. que eram as duas maiores. Quinto Império do Mundo . da Biblioteca Nacional Maquinações de Antonio Vieira jesuíta. Um e outro nome. que se davam com a cerimônia da unção: o de rei. João no capítulo I. André a S. chrisma. que é nome hebreu. como acima dizíamos. História do futuro. que escreveu a geração real.Anexo:Imprimir/ História do Futuro quatro animais do carro de Ezequiel que significam os quatro evangelistas. como ungido. e Cristo. antes e depois de vir ao Mundo. e a S. e referindo as palavras de S. foram duas firmas ou assinados públicos de um e outro império sacerdotal e real. ambos têm a mesma significação. Lucas. que para este lugar reservamos: S. Três ofícios achamos na Escritura Sagrada. e o de Profeta. como diz S. 89. in quibus personis illum populum Hebraeorum etiam mystica unctio figurabutur. qui dicitur Christus. porque foi ungido por Rei e Sacerdote Supremo. e chama-se Cristo ungido. como. como foi ungido Eliseu. que é o animal do sacrifício. A de Rei e a de Sacerdote Supremo. pertence o boi. que é nome grego. são aquelas por que Cristo principalmente se chama ungido. depois de S. Esperança de Portugal. Gregório Papa. pertence o homem. que é o rei dos animais. O nome de Cristo e de Messias. Jerônimo e S. quer dizer ungido. id est. a S. E agora poremos aqui as autoridades dos Padres. temporal e espiritual. und e Christi nomen elucet tanto ante etiam illa evidentissima significatione praenuntiatum Resolve-se quando começou este Império de Cristo e propõe-se acerca dele uma grande dificuldade. tomo II p. que escreveu a geração sacerdotal. Agostinho no livro e capítulo pouco antes citado: Firmissime tenendum est carnem Christi ex utroque genere propagatam et regum et sacerdotum. e com todas estas unções foi ungido Cristo. com que o mesmo Senhor foi chamado e conhecido. Pedro: Invenimus Messiam (quod est interpretatum Christus) e esta foi uma das erudições em que a Samaritana se mostrou tão letrada: Scio quia Messias venit. notam comumente todos os Doutores. assim o de Cristo como o de Messias. não porque fosse ungido com aquela cerimônia exterior com que os reis e sacerdotes eram ungidos por mãos dos homens.

a que chamamos o Quinto? Resp. afirm. que da Terra.a Se o dito Império é diverso e totalmente distinto do IV Império do Mundo. verdade e fundamento deste Império Questão 1.a Se o Império de Cristo na Terra é espiritual ou temporal? Resp. Livro Segundo Definição do V Império.: Até o de Cristo. afirm.a Se o Império Romano há-de durar até a vinda do Anticristo? Resp. que foi o Romano? Resp. Questão 2.a Que Império seja este.a Se no Capitulo I de Daniel é significado o Império do Anticristo na figura do chamado_ Cornuparvulum? ou o do Anticristo. Questão 4.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 159 Livro Primeiro Nome. e declaração dele Questão 1. Questão 3.a Se na Sagrada Escritura está revelado algum Império. afirm. . afirm. pode haver no Mundo outro Império que se chame o Quinto? Resp. é o Império do Céu ou da Terra? Resp. afirm Questão 5.a Se o Império de Cristo. que se deva chamar o V. Questão 3.a Se na suposição que o Império Romano há-de durar até o Anticristo. que dizemos ser o Quinto. que é espiritual e temporal juntamente.? Resp. Questão 2. ou o do Turco? Resp.

mas o mediato. problem.a Qual seja o dito domínio do Império de Cristo. que é. e vai continuando em todos os que têm a mesma fé. Questão 10. que consiste em ser conhecido por fé e obedecido. Questão 13. e começou desde o primeiro instante da sua encarnação. e como se continuou a dita posse? Resp. afirm.a Por que pessoa ou pessoas tem Cristo o exercício mediato do império temporal? Resp. exercício? Resp. imediato não.a Se tem Cristo hoje exercício do dito império temporal e espiritual. Questão 12.a Se há-de Cristo ainda ter alguma hora o exercício do dito império.a Se no dito Império espiritual e temporal de Cristo se distingue o domínio. que é possível. Questão 8.. que tem sobre todo o Mundo e sobre todos os homens. que pelos príncipes temporais cristãos. posse. que pelo Sumo Pontífice e mais ministros da Igreja.a Se teve Cristo exercício do dito império em quanto temporal? Resp. e quando começou? Resp. Questão 9. afirm. Questão 11. Questão 7.a Quando começou. que começou desde os primeiros que creram em Cri st o . ou se é possível? Resp. e qual seja? Resp.a Se teve Cristo exercício do dito Império em quanto espiritual? Resp. que tem o exercício. .a Por que pessoa ou pessoas tem Cristo o exercício mediato do império espiritual? Resp.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 160 Questão 4. por sua própria pessoa . assim espiritual como temporal.a Em que consiste a posse do dito Império? Resp. Questão 6. mas que nunca há-de ter o dito exercício pessoal. Questão 5.

. por autoridade e por razão. Questão 8.a Se a dita grandeza há-de ser simultanea e permanente ou sucessiva? Resp. Questão 7. Livro Quarto Causas.a Como se prova este estado mais perfeito e consumado do Império de Cristo? Resp. afirm. sobre todas as gentes e sobre todos os reinos. Questão 2. afirm. meios e instrumentos com que se há-de conseguir o estado consumado do dito Império.a Se hão-de ser todos pela maior parte justos no dito estado? Resp. que há-de ter outro estado mais perfeito.a Se hão-de ser todos cristãos no dito estado? Resp. ou há-de ter outro e mais perfeito? Resp. Questão 5.a Se há-de haver no dito estado paz universal? E em todo o Mundo? Resp.a Porque a opinião do dito estado não é comum de todos os Padres e Doutores? Resp.a Se este Reino e Império de Cristo há-de continuar sempre no estado presente.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 161 Livro Terceiro Grandeza e felicidades do dito Império Questão 1. Questão 3. Questão 4.a Quanta haja de ser a grandeza do Império de Cristo no dito estado? Resp. que universal. Questão 6. afirm. completo e consumado. que por muitos fundamentos. que pelas Escrituras. que simultanea e permanente.

a Se é conveniente ao bem da Igreja que a opinião da dita esperança se pratique? Resp. a extinção do Turco.a Como se prova em especial a conversão de todos os hereges. afirm. Questão 6. a extirpacão da seita de Mafona? Resp.a Se por meio da dita conversão universal se há-de consumar a união dos dois povos. que pelas Escrituras e Doutores. Questão 3. afirm.a Se convertidos universalmente os Judeus hão-de ser restituidos à sua Pátria? Resp. afirm. Questão 8. afirm. que pelas Escrituras e Doutores. .a Como se prova em especial a conversão de todos os gentios e a extinpação da idolatria? Resp. Questão 7. gentílico e o judaico? Resp. que pelas Escrituras e Doutores.a Se podem os Judeus 1icitamente esperar esta restituição mediante a Fé de Cristo? Resp. Questão 9. Questão 10.a Como se prova em especial a conversão. Questão 5. Questão 2. e a extirpação de todas as heresias? Resp. Questão 4.a Se nesta conversão dos Judeus hão-de entrar também os Dez Tribos perdidos? Resp. afirm.a Se o primeiro meio da consumação do dito estado seja a conversão universal de todos os homens à Fé de Cristo e a extirpacão de todas as heresias do Mundo? Resp. afirm.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 162 Questão 1. que pelas Escrituras e Doutores.a Como se prova em especial a conversão dos Judeus e a extirpação do Judaísmo? Resp.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro

163

Questão 11.a
Se então se cumprirá a profecia do texto—et erit unum ovile et pastor?—Resp. afirm.

Questão 12.a
Se a causa principal eficiente da dita conversão universal será o Eterno Padre? Resp. afirm.

Questão 13.a
Se concorrerá para a dita conversão o Espírito Santo com especial e nova uncão da divina graça? Resp. afirm.

Questão 14.a
Que parte terá nesta obra a autoridade e intercessão de Cristo e da Virgem Santíssima? Resp. que muito grande.

Questão 15.a
Se o instrumento principal humano da dita conversão será o sumo pontífice santo e muitos pregadores evangélicos? Resp. afirm.

Questão 16.a
Se concorrerá para a dita conversão algum príncipe temporal, com a sua autoridade, o seu poder e as suas armas? Resp. afirm.

Questão 17.a
Se este príncipe temporal será imperador e monarca universal do Mundo? Resp. afirm.

Questão 18.a
Se o dito imperador universal se poderá chamar Vigário de Cristo no temporal? Resp. afirm.

Livro Quinto
Tempo, duração e ordem do dito Império

Questão 1.a
Se o estado consumado do Quinto Império há-de ser antes ou depois do Anticristo? Resp. que antes.

Questão 2.a
Qual dos dois povos se há-de converter primeiro universalmente, para a consumação do dito I:npério, se o gentílico, se o judaico? Resp. que o gentílico.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro

164

Questão 3.a
Quanta seja a duração do dito Império, depois de consumado? Resp. que até o fim do Mundo.

Questão 4.a
Quando há-de começar a dita consumação do Império de Cristo? Resp. que na extinção do Império turco.

Questão 5.a
Se do tempo presente até o da vinda do Anticristo pode e há-de correr um grande número de séculos? Resp. afirm.

Livro Sexto
Terra em que se há-de fundar o dito Império em quanto temporal, e qual há-de ser a cabeça dele

Questão 1.a
Se o dito Império temporal há-de ser na Europa ou em alguma das outras quatro partes do Mundo? Resp. que há-de ser na Europa.

Questão 2.a
Em que província da Europa se há-de fundar o dito Império temporal de Cristo ? Resp. que em Espanha.

Questão 3.a
Em que reino de Espanha se há-de fundar o dito Império? Resp. que em Lisboa.

Livro Sétimo
Pessoa que será o primeiro Imperador instrumento temporal do dito Império

Questão 1.a
Se a dita pessoa que seja imperador será o imperador de Alemanha? Resp. negativ.

Questão 2.a
Se a dita pessoa há-de ser El-Rei Cristianíssimo de França? Resp. negativ.

Questão 3.a
Se a dita pessoa há-de ser El-Rei Católico de Espanha? Resp. negativ.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro

165

Questão 4.a
Se a dita pessoa há-de ser o Sereníssimo Rei de Portugal? Resp. afirm .

Questão 5.a
Se o Rei de Portugal há-de ser El-Rei D. Sebastião? Resp. negativ.

Questão 6.a
Se o dito Rei de Portugal há-de ser El-Rei D. João IV? Resp. problem.

Questão 7.a
Se o dito Rei de Portugal há-de ser El-Rei D. Afonso ou o Infante D. Pedro? Responde-se: Vejo subir um Infante
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org/ copyleft/ fdl.Fontes. html 172 . licenças e editores da imagem Licença GNU Free Documentation License http:/ / www. gnu.

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