Anexo:Imprimir/ História do Futuro

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Anexo:Imprimir/História do Futuro
História do Futuro por Padre Antônio Vieira

Índice Volume I
• Capítulo I: Declara-se a primeira parte do titulo desta História, e quão própria é da curiosidade humana a sua matéria. • Capítulo II: Segunda parte do titulo desta História; convidam-se os Portugueses à lição dela. • Capítulo III: Terceira parte do titulo e divisão de toda a História. • Capítulo IV: Utilidades da História do Futuro • Capítulo V: Segunda utilidade. • Capítulo VI: Terceira utilidade. • Capítulo VII: Última utilidade. • Capítulo VIII: Continua a mesma matéria • Capítulo IX: Verdade desta História. Declara-se o modo com que se pode conhecer e saber os futuros • Capítulo X: Resposta a uma objeção: mostra-se que o melhor comentador das profecias é o tempo. • Capítulo XI • Capítulo XII: Dá-se a razão por que em algumas partes desta História se não alegaram padres e seguiram exposições dos escritores modernos

Volume II
• Capítulo I • Capítulo II

Livro I
• Capítulo I: Mostra-se a Quinta Monarquia com a profecia de Daniel • Capítulo II: Segunda profecia de Daniel • Capítulo III

Anexo:Imprimir/ História do Futuro

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Livro II
• • • • • • • • Introdução Capítulo I Capítulo II Capítulo III Capítulo IV Capítulo V Capítulo VI Capítulo VII

Plano da História do Futuro
História do Futuro (Volume I, Capítulo I: Declara-se a primeira parte do titulo desta História, e quão própria é da curiosidade humana a sua matéria.) por Padre Antônio Vieira

Nenhuma cousa se pode prometer à natureza humana mais conforme ao seu maior apetite, nem mais superior a toda a sua capacidade, que a notícia dos tempos e sucessos futuros; e isto é o que oferece a Portugal, à Europa e ao Mundo esta nova e nunca vista história. As outras histórias contam as cousas passadas, esta promete dizer as que estão por vir; as outras trazem à memória aqueles sucessos públicos que viu o Mundo; esta intenta manifestar ao Mundo aqueles segredos ocultos e escuríssimos que não chega a penetrar o entendimento. Levanta-se este assunto sobre toda a esfera da capacidade humana, porque Deus, que é a fonte de toda a sabedoria, posto que repartiu os tesouros dela tão liberalmente com os homens, e muito mais com o primeiro, sempre reservou para si a ciência dos futuros, como regalia própria da divindade. Como Deus por natureza seja eterno, é excelência gloriosa, não tanto de sua sabedoria, quanto de sua eternidade, que todos os futuros lhe sejam presentes; o homem, filho do tempo, reparte com o mesmo a sua ciência ou a sua ignorância; do presente sabe pouco, do passado menos e do futuro nada. A ciência dos futuros — disse Platão — é a que distingue os deuses dos homens, e daqui lhes veio sem dúvida aquele antiquíssimo apetite de serem como deuses. Aos primeiros homens, a quem Deus tinha infundido todas as ciências, nenhuma lhes faltava senão a dos futuros, e esta lhes prometeu o Demônio com a divindade, quando lhes disse: Eritis sicut Dii, scientes bonum et malum. Mas ainda que experimentaram o engano, não perderam o apetite. Esta foi a herança que nos ficou do Paraíso, este o fruto daquela árvore fatal, bem vedado e mal apetecido, mas por isso mais apetecido, porque vedado. Como é inclinação natural no homem apetecer o proibido e anelar ao negado, sempre o apetite e curiosidade humana está batendo às portas deste segredo, ignorando sem moléstia muitas cousas das que são, e afetando impaciente a ciência das que hão de ser. Por este meio veio o Demônio a conseguir que o homem lhe desse falsamente a divindade, que o mesmo demônio com igual falsidade lhe tinha prometido. E senão, pergunto: Quem foi o que introduziu no Mundo, sem algum medo, mas antes com aplauso, a adoração do Demônio? Quem fez que fosse tão freqüentado e consultado o ídolo de Apolo em Delfos? O de Júpiter em Babilônia? O de Juno em Cartago? O de Vênus no Egito? O de Dafne em Antioquia? O de Orfeu em Lesbo? O de Fauno em Itália? O de Hércules em Espanha, e infinitos outros em muitas partes? Não há dúvida que o desejo insaciável que os homens sempre tiveram de saber os futuros, e a falsa opinião dos oráculos com que o Demônio

Anexo:Imprimir/ História do Futuro respondia naquelas estátuas, foram os que todo este culto lhe granjearam, sendo certo que, se Deus, vindo ao Mundo, não emudecera (como emudeceu) os oráculos da Gentilidade, grande parte do que hoje é fé, fora ainda idolatria. Tão mal sofreram os homens que Deus reservasse para si a ciência dos futuros, que chegaram a dar às pedras a divindade própria de Deus, só porque Deus fizera própria da divindade esta ciência: antes queriam uma estátua que lhes dissesse os futuros, que um Deus que lhos encobria. Mas que direi das ciências ou ignorâncias das artes ou superstições que os homens inventaram desde a terra até o céu, levados deste apetite? Sobre os quatro elementos assentaram quatro artes de adivinhar os futuros, que tomaram os nomes dos seus próprios sujeitos: agromancia, que ensina a adivinhar pelas cousas da terra; a hidromancia, pelas da água; a aeromancia, pelas do ar, e a piromancia, pelas do fogo. Tão cegos seus autores no apetite vão daquela curiosidade, que, tendo-se perdido na terra os vestígios de tantas cousas passadas, cuidaram que na água, no ar e no fogo os podiam achar das futuras. No mesmo homem descobriram os homens dois livros sempre abertos e patentes, em que lessem ou soletrassem esta ciência. A fisionomia, nas feições do rosto; a quiromancia, nas raias da mão. Em um mapa tão pequeno, tão plano e tão liso como a palma da mão de um homem, inventaram os quiromantes não só linhas e caracteres distintos, senão montes levantados e divididos, e ali descrita a ordem e sucessão da vida e casos dela, os anos, as doenças e os perigos, os casamentos, as guerras, as dignidades, e todos os outros futuros prósperos ou adversos; arte certamente merecedora de ser verdadeira pois punha a nossa fortuna nas nossas mãos. Deixo a astrologia judiciária, tão celebrada no nascimento dos príncipes, em que os genetlíacos, sobre o fundamento de uma só hora ou instante da vida, levantam ou figura ou testemunhos a todos os Sucessos dela. Nem quero falar na triste e funesta nicromancia, que, freqüentando os cemitérios e sepulturas no mais escuro e secreto da noite, invoca com deprecações e conjuros as almas dos mortos para saber os futuros dos vivos. A este fim excogitaram tantos gêneros de sortilégios, como se na contingência da sorte se houvesse de achar a certeza; a este fim observaram os sonhos como se soubesse mais um homem dormindo do que sabia acordado; a este sentido consultavam as entranhas palpitantes dos animais, como se um bruto morto pudesse ensinar a tantos homens vivos. Com o mesmo apetite pediam respostas às fontes, aos rios, aos bosques e às penhas; com o mesmo inquiriam os cantos e vôos das aves, os mugidos dos animais, as folhas e movimentos das árvores, com o mesmo interpretavam os números, os nomes e as letras, os dias e os fumos, as sombras e as cores e não havia cousa tão baixa e tão miúda por onde os homens não imaginassem que podiam alcançar aquele segredo que Deus não quis que eles soubessem. O ranger da porta, o estalar do vidro, o cintilar da candeia, o topar do pé, o sacudir dos sapatos, tudo notavam como avisos da Providencia e temiam como presságios do futuro. Falo da cegueira e desatino dos tempos passados, por não envergonhar a nobreza da nossa Fé com a superstição dos presentes. Finalmente, a investigação deste tão apetecido segredo foi o estudo e disputa dos maiores e mais sinalados filósofos, de Sócrates, de Pitágoras, de Platão, de Aristóteles e do eloqüente Túlio, nos livros mais sublimes e doutos de todas suas obras. Esta era a teologia famosa dos Caldeus; este o grande mistério dos Egípcios; esta em Roma a religião dos áugures; esta em Judéia a seita dos Pitões e Aríolos; esta em Pérsia a ciência e profissão dos Magos; esta enfim do Céu até o Inferno, o maior desvelo dos sábios e maior ânsia e tropeço dos ignorantes; uns injuriando o Céu, e dando trato às estrelas para que digam o que não

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Mede os tempos vindouros antes de virem. pois. Esta nossa começa no tempo em que se escreve. é o que se verá com admiração neste prodigioso mapa descrito: cousas e casos que ainda lhes falta muito para terem ser quanto mais Antigüidade. de vitórias não já vencidas. A história mais antiga começa no princípio do Mundo. nem com Josofo a dos Hebreus. antes do Verbo ser homem. et vetabitur semper et retinebitur. continua por toda a duração do Mundo e acaba com o fim dele. de exércitos e de vitórias. ou de outras igualmente poderosas. Para satisfazer. a grandeza. Assim foram retratos de Cristo Abel. mas de impérios não já fundados. senão que se hão-de fundar. Desde este ponto toma seu princípio a nossa História. porque os amam. a foi buscar e se serviu de sua má arte. os conselhos. sinal certo que não buscam os homens os futuros. nem com Cúrcio a dos Macedônios. e os mesmos que mais severamente negam o crédito às cousas prognosticadas. No meio de um e outro hemisfério ficam os horizontes do tempo. de nações não já domadas e rendidas. José. que são os antípodas do passado. mas escrevemos sem autor o que nenhum deles escreveu nem pôde escrever. a ruína ou daquelas mesmas nações. onde o passado se termina e o futuro começa. outro inferior e invisível. na curiosidade humana. o apetite de conhecer o futuro! Mas o que mais que tudo encarece a tenacidade deste desejo. Eles escreveram histórias do passado para os futuros. como o Mundo. e tanto é hoje. a mudança. conta os sucessos futuros antes de sucederem. que com elas contendiam. senão que vão sempre após eles. que desterrou a Pitonisa. nós escrevamos a do futuro para os presentes. à maior ânsia deste apetite e para correr a cortina aos maiores e mais ocultos segredos deste mistério. escreveram os impérios. Isaac. que são estes instantes do presente que imos vivendo. a qual nos irá descobrindo as novas regiões e os novos habitadores deste segundo hemisfério do tempo. quod in civitate nostra. Impossível pintura parece antes dos originais retratar as cópias. O mesmo Saul. e descreve feitos heróicos e famosos. que é o futuro. nem haja de bastar já para mais os desenganar e apartar dele: Genus hominum potentibus infidum. outros inquietando o Inferno (como dizia Samuel). nem com Tucídides a dos Gregos. a mais estendida e continuada acaba nos tempos em que foi escrita. de ruínas de umas nações e exaltações de outras. as vitórias. nem com os escritores portugueses as nossas. o que não conheceu o moderno e o que não alcança o presente. Nós também havemos de falar de reinos e de impérios. porque os achem. as batalhas. Não escrevemos com Beroso as antiguidades dos Assírios. enganados tão profundamente os homens pela falsidade e mentira de todas estas artes e seus ministros. as leis.Anexo:Imprimir/ História do Futuro podem. nem com Heródoto as dos Egípcios. por isso chamada do Futuro. tem dois hemisférios: um superior e visível. a declinação. as conquistas. senão que se hão-de render e domar. para que revelem o que não sabem. nem com Xenofonte a dos Persas. não tenha bastado nenhuma experiência. O que ignorou o mundo antigo. é considerar que. antes de a fama os publicar e de serem feitos. folgam de ouvir e saber que se prognosticam. pomos hoje no teatro do Mundo esta nossa História. as repúblicas. Tanto foi em todas as idades do Mundo. nem com Lívio a dos Romanos. mas isto é o que fará o pincel da nossa História. David. 4 . Oh que de cousas grandes e raras haverá que ver neste novo descobrimento! Aqueles historiadores que nomeamos e foram os mais célebres do Mundo. mas que se hão-de vencer. que é o passado. disse Tácito. as resoluções. O tempo. e tentando os mesmos demônios. a opulência e felicidade. sperantibus fallax.

para glória de Cristo. de governos. saiba que nos pareceu chamar assim à esta nossa escritura. não individuam as pessoas. porque não haverá um historiador do futuro? Os profetas não chamaram história às suas profecias. determinamos observar religiosa e pontualmente todas as leis da história. mas leis novas. E se as histórias daqueles escritores. só lhes quero pedir justiça. senão vestidas e acompanhadas das suas circunstancias. porque não guardam nelas estilo nem leis de histórias: não distinguem os tempos. portentosas conquistas. triunfos e felicidades novas. mas esperamos no Pai dos lumes (a cuja glória e de seu Filho servimos). por isso. nomear nações e ainda pessoas. as nuvens espessas. empresas e façanhas novas. Jerônimo e Santo Agostinho que mais escrevera história que profecia. que falou com maior ordem e maior clareza. a noite escuríssima. para felicidade e paz universal do Mundo. para triunfo da Igreja. de leis. mais acomodadas à majestade e admiração dos mistérios. porque são futuras. disfarçado em figuras. o Evangelho é a sua profecia aberta. estados novos. ignorada até aquele tempo de quase todos os homens. em tudo o que escrevemos. conselhos e resoluções novas. Do profeta Isaías. de tempos. gentes novas. a ordem e sucessão das cousas. em lugar da benevolência que se costuma pedir aos leitores. sem estrela nem farol. maravilhosas vitórias. governos novos. e quando tudo isto viram e tudo disseram. porque. chamamos a esta narração História e História do Futuro. conquistas. isto só deseja e pede a todos a nova História do Futuro. Jerônimo: Legant prius et postea 5 . Ouvirá o Mundo o que nunca viu. escurecido com enigmas e contado ou cantado em frases próprias do espírito e estilo profético. sendo de cousas menores antigas e passadas. admirará o que nunca leu. disseram S. e porque havemos de distinguir tempos e anos. sinalar províncias e cidades. E com que espírito a escreveu? Respondem todos os Padres e Doutores que com espírito de profecia. sem ambição nem injúria de ambos os nomes.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Hão-se de ler nesta História. também lhe era devido nome novo e não ouvido. para exaltação da Fé. sem exemplar nem exemplo. quanto é estranho ao papel o assunto e nome dela. e que será tão deleitosa ao gosto e ao juízo a História do Futuro. Antes de abrir as velas ao vento (oh faça Deus que não seja tempestade!). sendo novo e inaudito o argumento dela. heróicas façanhas. Se já no Mundo houve um profeta do passado. mas porque não terão semelhança com elas nenhumas das passadas. de costumes. seguindo em estilo claro e que todos possam perceber. com palavras não suas. mas de S. e pasmará assombrado do que nunca imaginou. É de direito natural que ninguém seja condenado sem ser ouvido. E porque nós. Mas porque não cuide alguma curiosidade crítica que o nome do futuro não concorda nem se ajusta nem com o título de história. não seguem a ordem dos casos e dos sucessos. Escreveu Moisés a história do princípio e criação do Mundo. e depois de sabidas se tornaram a ler sem fastio. vitórias. não nua e secamente. tirará a salvamento a frágil barquinha: ela com maior ventura que Argos. tempos novos. é envolto em metáforas. religiosas empresas. se leram sempre com gosto. A sua profecia é o Evangelho fechado. e nós com maior ousadia que Tífis. e não só novas. paz. as ondas confusas. costumes novos. não assinalam os lugares. altos conselhos. O mar é imenso. lerá o que nunca ouviu. animosas resoluções. (quando o sofrer a matéria). que à notícia e inteligência deles. estranhas e espantosas mudanças de estados. confiança nos fica para esperar que não será ingrato aos leitores este nosso trabalho. de gentes. Sós e solitariamente entramos nela (mais ainda que Noé no meio do dilúvio) sem companheiro nem guia.

Outros reis houve.. quiseram antes ignorá-los. ainda que tão infeliz. o morto ao vivo. os felizes e os infelizes. porque há muitos futuros para temer. que tudo o que leio de ti são grandezas. e não queriam consultar os oráculos. neste asseguramos breves desejos ao futuro. nem temo a tua ingratidão. defendendo a sua versão dos sagrados Livros. assim como te digo a boa sem lisonja. Oh que temeroso futuro! Caiu Saul desmaiado. não se desengana. Sucedeu vitorioso este príncipe na coroa de Baltasar. Mas é tal a tua estrela (benignidade de Deus contigo deverá ser). se me não contas com Daniel entre os vivos. e achar-se-á. anunciou-lhe intrepidamente que naquela mesma noite havia de perder a vida e o império. e fora melhor cair em si que aos pés do Profeta. Mas era já a véspera do dia da morte. se nas letras que interpreto achara desgraças (bem poderá ser que as tenhas). convidam-se os Portugueses à lição dela. «Amanhã serás comigo». Et Superos vetuere loqui. e confirmou sempre a Daniel na mercê e lugar em que ele o tinha posto porque assim como profetizou que havia de perder o império o rei dos Assírios. Eu. cumpriu-se a profecia e foi morto o rei..Anexo:Imprimir/ História do Futuro despiciant: «Leiam primeiro. eu te dissera a má fortuna sem receio. se tanto prêmio se dá a uma profecia mortal e que tira impérios. Sed siluit postquam reges timuere futura. Nem todos os futuros são para desejar. Disse sem murmuração o satírico que taparam os reis a boca aos deuses. O maior serviço que pode fazer um vassalo ao rei. e premiado assim o profeta. Portugal. Declarou Daniel a Baltasar a escritura fatal da parede. e se não há entre nós os vivos quem faça estas revelações. Só isto fez Baltasar nos instantes que lhe restaram de vida. digno só por esta ação (se não foram as suas culpas sacrilégios) de que Deus lhe perdoara a vida. então perseguida e impugnada. os felizes para a esperança e os infelizes para a cautela. Capítulo II: Segunda parte do titulo desta História. Isto é o que deves .mandou Baltasar que o vestissem de púrpura e que lhe dessem o anel real. tudo que descubro melhoras. outro premiava as profecias. que era faze-lo um dos quatro supremos ministros ou governadores da monarquia.) por Padre Antônio Vieira 6 No capítulo passado falamos com todo o Mundo. Naquele prometemos grandes futuros ao desejo. busque-se entre os sepultados. por não temer os futuros prósperos e adversos. é revelar-lhe os futuros. e depois condenem» — assim dizia aquele grande mestre da Igreja. e que fosse reconhecido por Tetrarca de todo o império dos Assírios. Porque. Se tanto vale o conhecimento de um futuro. . o profeta ao rei.. porque um matava os profetas. e quem busca o desengano tarde. disse Samuel a Saul. Todos fora felicidade antever. que seria se os prometera? Não faltou a este merecimento Dario Hidaspes rei dos Persas e dos Medos. tudo o que alcanço felicidades.diz o texto. E que lhe importou a Daniel esta tão triste interpretação? No mesmo ponto . História do Futuro (Volume I.. que por não temer os futuros. ajuntou também que o havia de ganhar o dos Persas e Medos: Divisum est regnum tuum et datum est Medis et Persis.Cessant oracula Delphis. hoje adorada e de fé. eu me conto com Samuel entre os mortos. Saul achou a Samuel morto e Baltasar a Daniel vivo. (com quem só falo agora) nem espero o teu agradecimento. neste só com Portugal.

as promessas dos antigos Profetas. são morte. e que a volta ou estribilho da cantiga era: . Deus na Lei Escrita. são promessas em que por então se dá o contrário do que se promete. chegavam a ver o cumprimento do que tão longamente tinham esperado. Por agora só digo que me não atrevera eu a prometer esperanças. reesperavam e desesperavam aqueles homens. Não me tenha a minha Pátria por tão cruel. que vinham a ser fábula do vulgo em Jerusalém as esperanças das profecias. mas todos eles morreram e foram sepultados no Egito. e este é o comento breve de toda a História do Futuro. assustar o desejo e embaraçar os mesmos alvoroços em que o tenho metido com estas esperanças: Spes qae differtur. e tão seguras como a mesma palavra de Deus (que não pode mentir nem faltar)`. As esperanças da Terra de Promissão deixou-as Abraão a Isaac. Esperavam. porque o que se não pode dar logo não se há-de prometer. e isto o que te espera. que pelas ruas e praças da corte se andavam cantando por riso as suas esperanças. Modicum ibi. respondiam e afirmavam constantemente que dali a setenta anos. os filhos aos netos e nem estes. se nelas se promete o Paraíso.Anexo:Imprimir/ História do Futuro esperar. são tormento. muito firme e muito bem fundada a esperança. 7 . se primeiro se há-de acabar a vida? O mesmo podem argüir os que hoje vivem com estas esperanças. Modicum ibi. que lhe importam as esperanças da terra de Promissão? No cativeiro de Babilônia pregavam e prometiam os Profetas que Deus havia de levantar mão do castigo e restituir o povo à sua antiga liberdade. Isaac a Jacob e Jacob aos doze Patriarcas. que eu lhas prometo. disse a Verdade divina e o sabe e sente bem a experiência e paciência humana: ainda que seja muito segura. é um tormento desesperado o esperar. Prometer o Céu para ir esperar por ele ao Limbo. Para se avaliar a esperança. De que me serve a esperança da liberdade. são Inferno. Tais são as esperanças dilatadas. Assim conta esta queixa Isaías no capítulo XXVIII. como notaram grandes autores. porque em muitas cousas das que lhes prometiam as profecias. nunca prometeu o Céu expressamente. e em que a nossa História há-de empregar todo o quinto livro. sendo então as vidas mais compridas. A quem há-de cobrir a terra do Egito. O Limbo chamava-se Inferno. reexpecta. mas quando há-de ver Portugal essas esperanças? Ponto é este que depois se há-de tratar muito de propósito. há-se de medir o futuro. Muito seguras eram. Grandes são essas esperanças de Portugal... mas cansava-se tanto o desejo na paciência de esperar por elas. se nelas se promete o gosto. Mas vejo que o mesmo nome de Esperanças de Portugal lhe poderá com razão suspender o gosto. Expecta.expecta. Se nelas se promete a vida. reexpecta. por isso em nome segundo e mais declarado chamo a esta mesma escritura Esperanças de Portugal. e porque? Porque era um lugar onde se esperava tantos anos pelo Paraíso. primeiro se acabava a vida do que chegasse a esperança. e se lhes perguntavam quando. Boa esperança para um cativo. que lhe houvesse de prometer martírios com nome de esperanças. se não foram esperanças breves. e não é este o futuro da minha História. ainda que não fosse muito velho. Deixaram os pais em testamento as esperanças aos filhos. affligit animam.

se nos prometem as felicidades futuras. depois as mostrarão com o dedo. as esperanças porque não serão também do Mundo. não torne atrás os anos para lograr tanto bem? Vivei. Mas este grande assunto fique para seu lugar. Assim como há esperanças que tardam. mas acrescentam os dias e os alentos dela: Spes quae differtur. affligit animam. porque não haverá também algumas profecias que sejam mais que profecias? Assim espero eu que o sejam aquelas em que se fundam as minhas esperanças e que. há esperanças que vem. que idade tão decrépita. Este segundo futuro é o da minha História. e com quanto gosto deves aceitar a oferta que te faço desta nova História. quão agradável te deve ser. Esperanças que hão-de ver os que vivem. tiram a vida. disse no mesmo lugar alegado a mesma Verdade divina. E Portugal que com novidade inaudita lerá nesta História os 8 . Vê agora. ainda que não vivam muitos anos. E por que razão mereceu a singularidade deste nome S. desafiando todas as criaturas. nem o mostraram presente. que à vista do cumprimento destas esperanças. Agora as prometem com a voz. mas viverão muitos anos os que as virem. um futuro que muito tempo há-de ser futuro — Neque futura — e outro futuro que brevemente há-de ser presente: Neque instantia. é do Mundo. vós os que mereceis viver neste venturoso século! Esperai no Autor de tão estranhas promessas. As esperanças que tardam. Sim. As esperanças que vem são o pomo da árvore da vida: Lignum vitae desiderium veniens. e entre elas os tempos. o Batista prometeu o futuro com a vez. Portugal o princípio e fim destas maravilhas. não só não tiram a vida. e mostrou o presente com o dedo — Cecinit ad futurum. e que deixará de ser História do Futuro. neque futura. vivei. aquele filósofo do terceiro Céu.Anexo:Imprimir/ História do Futuro São Paulo. e a mais gloriosa deles. e com que alvoroço e alegria pede a razão e amor natural que leias e consideres nela os seus e os teus futuros. perderá esta nossa História gloriosamente o nome. será não só própria da Nação portuguesa. que quem vos deu as esperanças. Portugueses. et adesse monstravit. Que vida haverá em Portugal tão cansada. senão só de Portugal? A razão (perdoe o mesmo Mundo) é esta: porque a melhor parte dos venturosos futuros que se esperam. desiderium veniens. mas não o viram. porque são mais que profecias. desiderium veniens. e estas as breves e deleitosas esperanças que a Portugal ofereço. Um futuro que está longe e outro futuro que está perto. um futuro que há-de vir e outro futuro que já vem. Se houve um profeta que foi mais que profeta. as esperanças que vem. como se diz no mesmo título. o Romano as de Roma e o Bárbaro as da sua nação. Portugal o centro. porque lêem feitos seus e de seus antepassados . Lignurn vitae. A virtude maravilhosa daquele pomo era reparar e acrescentar a vida e remoçar aos que o comiam. Portugal o teatro. que foi o grande precursor de Cristo. e os instrumentos prodigiosos delas os Portugueses. Só digo que quando assim suceder. porque o será do presente. ó Pátria minha. vos mostrará o cumprimento delas. João entre todos os profetas deste Mundo? Porque os outros profetas prometeram a Cristo futuro. senão única e singularmente sua. Mas perguntar-me-á porventura alguma emulação estrangeira (que às naturais não respondo): se o império esperado. dividiu os futuros em dois futuros: Neque instantia. Lignum vitae. mas daquelas profecias de que se compõe esta História. Portugal será o assunto. Não é privilégio este de qualquer profecia. O Grego lê com maior gosto as histórias de Grécia. Um profeta houve no Mundo mais que profeta. também as hão-de mostrar presentes.

de tal maneira mediam a estreiteza de suas terras pela arrogância e inchação de seus vastos pensamentos. para os êmulos a inveja. com quanto maior aplauso e alvoroço será razão que o faca? Portentosas foram antigamente aquelas façanhas. Estas sete cousas são as que há-de examinar. Naqueles ditosos tempos (mas menos ditosos que os futuros) nenhuma cousa se lia no Mundo senão as navegações e conquistas de Portugueses. no terceiro. assim era aquele império. as esperanças. dominando somente aquela parte não grande da extrema África. pelas razões que se verão a seu tempo. mas também estes fazem harmonia. nos ambiciosos títulos dos impérios e imperadores. que estão fora de seu lugar. no quarto. senão do Mundo. ó Portugueses. qui habitant in universa terra: . entretanto. gentibus et linguis. maior império. e por isso na língua vossa. para os amigos e companheiros o gosto e para vós então a glória. senão maior em tudo. Portugueses.Anexo:Imprimir/ História do Futuro seus e os dos seus vindouros. que vos presente. História do Futuro (Volume I. sendo um só rio. para os inimigos será a dor. os êmulos suas invejas e só Portugal suas glórias. que jaz entre os desertos de Numídia e os do Mar Vermelho. maiores sempre nas vozes que no corpo e grandeza. rex omnibus populis. no sétimo.) por Padre Antônio Vieira 9 O que encerra a terceira parte do título desta História só se pode declarar inteiramente com o discurso de toda ela. Se são dos inimigos. porei brevemente aqui sua divisão. Mas porque esta palavra Mundo. Maior cabo. quando sai ao mar. suas grandezas e felicidades. será bem que digamos neste lugar o que o título da nossa História entende por Mundo. chamamos quinto. que. para que a matéria de uma vez se compreenda e saiba o leitor em suma o que lhe prometemos. em que terra. e eu vos descubro a vós o que haveis de ser. Entretanto. no sexto. que também é toda vossa. os meios por que se há-de introduzir. Os inimigos liam nela suas ruínas. Em nada é segundo e menor este meu descobrimento. Imitavam a soberba de seu soberbo Nilo. Os Faraós do Egito. ao qual. resolver e provar a nova História que escrevemos do Quinto Império do Mundo. se espraia em sete bocas. Do império dos Assírios temos nas divinas letras uma provisão lançada no III capítulo do Profeta Daniel e mandada expedir pelo grande Nabucodonosor. e os demais chamados do Mundo. Capítulo III: Terceira parte do titulo e divisão de toda a História. não duvidavam intitular-se Josés do Mundo. não se poderá consertar um corpo tão grande. maior esperança. Vós descobristes ao Mundo o que ele era. no segundo. com que descobristes novos mares e novas terras. como se não houvera mais mundo que o Egito. e também os Ptolemeus que lhes sucederam. como se foram sete rios. cujo exórdio é este: Nabuchodonosor. que império há-de ser. com quanto maior gosto e contentamento. Se se há-de restituir o Mundo à sua primitiva inteireza e natural formosura. Esta história era o silêncio de todas as historias. e destes a conhecer o Mundo ao mesmo Mundo. Assim como líeis então aquelas vossas histórias. Essa foi a desigualdade do nome que puseram os Egípcios ao seu restaurador José: Vocavit eum lingua aegyptiaca Salvatorem Mundi. e. costuma ter maior estrondo na voz que verdade na significação. lede agora esta minha. porque toda se emprega em provar a esperança dum novo império. Tal é a História. em que pesca. no quinto. Alguns gemidos se hão-de ouvir entre vossos aplausos. sem dor nem sentimento dos membros. Não lhe chamaram Salvador do Egito. em que tempo. Divide-se a História do Futuro em sete partes ou livros: no primeiro se mostra que há-de haver no Mundo um novo império. que.

lhe diz assim no mesmo capítulo: Tu es rex qui magnificatus es et invaluisti. aut ita pacata ut victoria nostra imperioque laetetur. Assim nos consta por um decreto de Dario.. da África pouco. por serem senhores de 127 províncias.] pervenit usque ad Coelum. E o mesmo Assuero por outro decreto. que se estendia da Índia até a Etiópia. pelo meio-dia com o Nilo e pelo setentrião com o Danúbio e Reno. e tanto menos 0 que significavam! Do império de Assuero (que era o dos Persas) diz o Texto Sagrado no primeiro capítulo da história de Ester. o Tártaro e outros domínios bárbaros do nosso tempo. quantum distant a Tigride Gades. Esta era a demarcação das terras e estes os limites do império. não duvidou firmar por sua própria mão. Contudo. obedecendo àquela coroa 127 províncias.exiit edictum à Caesare Augusto ut describeretur universus orbis. Deixo o Mogor. gentes e línguas. veria facilmente que o Mundo. et margine coeli Clausit opes. é cento e vinte e sete vezes maior que o império persiano: tão pouco se proporcionava a geografia dos títulos com a medida dos impérios! Que direi do império dos Romanos? Os termos que lhe sinalam seus escritores são as raias do Mundo: Orbem jam totum victor Romanus habebat Qua mare. mas quem desenrolasse o mapa do Mundo e pusesse sobre ele os pergaminhos destas provisões. e dizia o edito: Aliste-se o Mundo. E o mesmo Daniel (que é mais) falando a este rei e acomodando-se aos estilos da sua corte e aos títulos magníficos de sua grandeza. aut ita domita ut quiescat. qua sidus currit utrumque disse Petrônio. qua terra. sem demasiado encarecimento. a todos os povos. Mandou Augusto César matricular e: alistar seu império. pelo ocidente com o mar de Cádis. acharemos que da Ásia então conhecida tinha uma boa parte. Tão grande era a significação dos nomes. De maneira que os reis persas. se lançarmos os compassos às terras que obedeciam a Nabucodonosor. et magnitudo tua [. que habitam em todo o Mundo. mas os títulos não tinham limite. rei. Estes limites lhe prescreveu Claudiano.. e Cícero. Mas bastavam estes três retalhos da terra para a soberba de Nabucodonosor revestir os títulos de seu império com o nome estrondoso de todo o Mundo.. Tal era a opinião que Roma tinha de sua grandeza e tal o estilo que guardava em seus editos: . por estas pomposas palavras. que tinha sujeito ao seu domínio o orbe universo: Cum universum orbem meae ditioni subjugassem. da Europa menos e do resto do Mundo nada. acharemos que pelo oriente se fechava com o rio Tigres. qui habitant in universa terra: Pax vobis multiplicetur. no cap. que com a mesma majestade de títulos se chamam imperadores do Mundo. Inter se Tanais quantum Nilusque relinquunt. Mas se examinarmos este mundo romano até onde se estendia. que se refere no VI capítulo de Daniel. quae aut ita subacta sit ut vi non extet. et potestas tua usque ad terminos universae terrae. em que o Mundo andou sempre atado aos títulos da monarquia. 10 . seguindo a antiquíssima arrogância da Ásia. ainda que lhe deu por margens os Orientes: Subdit Oceanum sceptris. XIII de Ester. o China.Anexo:Imprimir/ História do Futuro «Nabucodonosor. passaram provisões e decretos a todo o Mundo.. que professava mais verdade que os poetas: Nulla gens est. semelhantes em tudo às de Nabuco: Tunc Darius rex scripsit omnibus populis et gentibus et linguis.

todas as coroas se rematarão em uma só diadema. dar-lhe-á a posse . Temeu César (se foi receio) que um corpo tão enormemente grande não se pudesse animar com um só espírito. sciant et recogitent. é certo que os impérios e os reinos não os dá nem os defende a espada da justiça. Os que querem o ruído e encher de algum modo o vazio destes grandes títulos. mas também se sabe que os textos podem dar títulos. aquele Mundo. Duvida Tácito se foi filha esta resolução do receio ou da inveja: Incertum metu. todas as cabeças obedecerão a uma suprema cabeça. espera-se agora a quinta. será sujeito a este Quinto Império. e naquele sentido em que disse S. Ásia. repartiu em diferentes sucessores o seu império. nem impérios titulares. e este o império que prometemos do Mundo. não se pudesse governar com uma só cabeça. damos por solução de todas a mão onipotente: Ut videant. Este é o sujeito da nossa História. a paz lhe tirará o receio. e esta será a peanha da cruz de Cristo. nomes tão alheios da modéstia como da verdade. vizinho à morte. Europa. Tal foi. ou não quis (se foi inveja) que viesse depois outro imperador mais venturoso. para que nenhum lhe pudesse herdar o nome de Magno. senão por domínio e sujeição verdadeira.. Bem sei que o império de Alemanha (envelhecidas relíquias. sed in inventa America. e este será o Mundo futuro. O título desta História não fala por hipérboles nem sinédoques. quintamque expectat sub meridionali cardine jacentem: O Mundo que conheceram os Antigos se dividiu em três partes: África. que trespassasse as balizas do que ele até então conquistara e fosse ou se chamasse maior que Augusto.Mundus per ipsum factus est. em que se toma a parte pelo todo. e mais claramente do que o dissemos agora o provaremos depois. não chama a um pigmeu gigante nem a um braço homem.. como todos os que até agora se chamaram impérios do Mundo. mas já reconhecida. o qual. não se pudesse defender com um só braço. que é aquela terra incógnita. João: . mas não impérios. negou-lhe o domínio. e o Mundo que o há-de conhecer. Aqui acaba o título desta História.Anexo:Imprimir/ História do Futuro O Mundo do nosso prometido império não é Mundo neste sentido: não prometo mundos. do Romano) em muitos textos de um e outro direito se chama império do Mundo. ainda que liberalmente lho concedamos. a união lhe desfará a inveja. et Mundus eum non cognovit. o Mundo que o não conheceu. e Deus (que é fortuna sem inconstância) lhe conservará a grandeza. acrescentou-lhe a nossa idade esta quarta parte. O Mundo de que falo é o Mundo. Tudo o que abraça o mar. quando o conhecer. Não é nem poderá ser assim no império do Mundo que prometemos. scilicet. dizem. et 11 . Europam et Asiam. não por nome ou título fantástico. eam pro quarta parte nostra aetas adjecit. e destes três mundos unidos se formará (que assim o formou Deus) um Mundo inteiro. an per invidiam. Entretanto. O Mundo que Deus criou. que chamamos Austral. depois que se descobriu a América. A Abraão prometeu Deus as terras da Palestina mas conquistou-as a espada de Josué e defendeu-as a de seus sucessores.. e quase acabadas. e por aquela figura que os retóricos chamam sinédoque. e este é o Mundo presente. tudo o que cobre e rodeia o Sol. universum terraram orbem — diz Ortélio — veteres [. Quando o não conheceu. Resolveu Augusto com o senado pôr limites à grandeza do Império Romano. No livro sétimo examinaremos os fundamentos deste direito. senão a justiça da espada. Estes são os instrumentos humanos de que se serve (ainda quando obra divinamente) a providencia daquele supremo Senhor que o é do Mundo e dos exércitos. se aos doutos ocorrem instancias e aos escrupulosos dúvidas.] in tres partes divisere: Africam. entretanto.» Este foi o Mundo passado. Todos os reinos se unirão em um centro. tudo o que alumia o Sol. o pensamento de Alexandre.. dizem que se entende por hipérbole ou exageração.

mas de gastar nele o tempo e o cuidado. se não fora igual e ainda maior a utilidade que podemos e devemos tirar do conhecimento das cousas futuras. melhoria e reformação a que são encaminhados e dirigidos. lugares e nações para lhes revelar antecedentemente o sucesso das cousas que estavam por vir. A mesma Majestade divina. esta nossa História do Futuro. que todos aqueles fins que sabemos teve a Providência Divina em diversos tempos. cujos nomes . engenho e juízo eminentes. agora que entramos na maior importância desta matéria. História do Futuro (Volume I. Capítulo IV: Utilidades da História do Futuro) por Padre Antônio Vieira 12 §I Se o fim desta escritura fora só a satisfação da curiosidade humana. Paulo escritas para nossa doutrina. Esdras e alguns outros. que aqueles que cegamente se precipitaram pela ignorância do futuro. nas a única e total. e se as esperanças que temos prometido foram só flores sem outro fruto mais que o alvoroço e alegria com que as felicidades grandes e próprias se costumam esperar. na Lei da Graça. desde seu princípio até hoje.. concorrem com particular influxo nesta nossa História e se acham juntos nela. se sirva de nos comunicar aquela luz. esperando que será grato e aceito a Deus. e ainda com vantagem. E verdadeiramente que se os bens da ciência se colhem e conhecem melhor pelos males da ignorância. quanto é mais poderosa e eficaz para mover os ânimos dos. pedimos com todo o afeto de coração. graça e espírito que para negócio tão árduo nos é . e se como tal empregaram nela sua indústria tantos sujeitos em ciência.. digo. para que estes secretos de seu oculto juízo e conselho se descobrissem e publicassem ao Mundo e em todo ele produzissem proporcionadamente os efeitos de mudança.e não sabem com tão averiguada certeza). certamente eu suspendera logo a pena e a lançara da mão. Josué. que é o verdadeiro Autor de todas as . que da noticiaria das passadas. Samuel.Escrituras (sendo todas elas como diz S. que foram muito menos os danos em que caíam os homens por lhes faltar a notícia do passado. tendo este meu trabalho por inútil. e na Escrita. outras utilidades necessárias ao governo e bem comum do gênero humano e ao particular de todos os homens. que a memória das alheias? Se em todos os Livros Sagrados contarmos os escritores de cousas passadas (como foram. Mas se a história das cousas passadas (a que os sábios chamaram mestra da vida) tem esta e tantas. Em conseqüência desta verdade e em consideração das cousas que tenho disposto escrever. a quem só pretende nos servir. por que nos sujeitamos ao trabalho de tão molesto gênero de escritura.Anexo:Imprimir/ História do Futuro intelligant pariter quia manus Domini fecit hoc. inspiração e ainda força suave da mesma Providência os impulsos que a isto (não sem alguma violência) nos levaram. e por indigno não só de o comunicar ao Mundo. os quatro Evangelistas. e o gosto ou lisonja daquele apetite com que a impaciência do nosso desejo se adianta em querer saber as cousas futuras. e entendendo que foram vontade. homens a esperança das cousas próprias. Moisés. acharemos que são em muito maior número os que escreveram das futuras: diferença que de nenhum modo fizera Deus. achará facilmente quem discorrer pelos sucessos do Mundo. impertinente e ocioso. humildemente prostrados diante de seu infinito acatamento. Esta é não só a principal razão. como foram os que em todos os tempos imortalizaram a memória deles com seus escritos. porque não será igualmente útil e proveitosa. leitor cristão.

e que a ele havia de agradecer no benefício dos sete anos o remédio dos catorze. e houve logo um Daniel (também cativo e desterrado). para que conheça o Mundo e Portugal. ou porque se não levante a maiores com os benefícios divinos.as sete espigas gradas e as sete falidas. nem nós saberemos explicar a outros o pouco que por mercê do Céu temos alcançado e conhecido. conhecesse que o perdia. de que há-de tratar a nossa História. a mão onipotente de Deus é a que os distribui. as sete vacas fracas e as sete robustas. E não bastam. Os futuros portentosos do Mundo e Portugal. que perdia o reino. conhecendo e confessando que sem assistência deste soberano auxílio. como as outras nações. que interpretasse ao rei os mistérios dela. ou porque não atribua a cousas naturais (e muito menos ao caso) os efeitos que vêm sentenciados como castigo por sua justiça. mas apareceu primeiro a sentença escrita no paço de Babilônia. Quis a mesma Providência. e não o seu adorado Nilo. quando são. e em lugar de reverenciarem em . levantam os olhos ao Céu. como acima dizíamos tirar o império a Baltasar e dá-lo a Dario. pois só ele os pode determinar antes que sejam. nem Daniel que construísse as escrituras. Como na terra do Egito não chove jamais e se regam e fertilizam os campos com as inundações do rio Nilo. era o autor da abundância e da esterilidade. disse discretamente Plínio que só os Egípcios não olhavam para o céu. nem as armas de Dario para os adquirir.Anexo:Imprimir/ História do Futuro necessário. para que conhecesse o bárbaro que Deus. mas não houve até agora nem José que interpretasse os sonhos. quando e a quem é servido.todos os sucessos a primeira causa. e isto é o que eu começo a fazer (com a graça daquele Senhor que sempre se serve de instrumentos pequenos em cousas grandes). e se beije as mãos a si mesma. porque Deus lho dava. e para que Dario. Arma-se assim a sabedoria eterna contra a natureza humana. rebelde e ingrata. quais hão-de ser os da fome e quais os da fartura. Deus é o que dá e tira os reinos e os impérios. como dizia Job. para que Baltasar. que o havia de receber. Oh quantos cristãos há egípcios. Foram mostradas a Faraó em sonhos . que lhe declarasse o mistério dos sete anos da fartura e sete de fome. que todas vêm dispensadas por sua mão. por isso quer a mesma Providência Divina que as sentenças estejam escritas antes da execução. é para que conheçam clara e firmemente os homens. com os olhos sempre no Céu e em Deus. porque Deus lho tirava. tantos anos antes. nem temendo. por dar a César o que não é de César. e que haja quem as interprete antes do sucesso. e logo ordenou a Providência divina que estivesse em Egito um José (posto que vendido e desterrado). que tire a Deus o que é de Deus. só adoram as segundas! Por isso mostra Deus a Faraó. 13 § II Primeira utilidade. e para que não haja ignorância tão cega nem ambição tão presumida. se Deus dispõe outra cousa. . nem menos poderemos descobrir e alcançar ao diante o muito que nos resta por conhecer. que tudo são efeitos de seu poder e conselhos da sua providência. para que conheça a ignorante sabedoria do Egito que os meios da conservação ou ruína dos reinos. entendesse que o recebia. nem o direito e herança de Baltasar para os conservar. sempre soberba. que nem esperando. porque não esperavam de lá o sustento. O primeiro motivo e mui principal por que Deus costuma revelar as cousas futuras (ou sejam benefícios ou castigos) muito tempo antes de sucederem. ou ordenados para mais altos e ocultos fins por sua providência. muitos anos há que estão sonhados como os de Faraó e escritos como os de Baltasar.

foi aquele velho. se alguma cousa lhes poderia retardar o cumprimento destas promessas. foi a nossa experiência. e que era todo seu desde seu nascimento. também está prometido este terceiro e mais feliz estado do nosso Reino. conseguindo milagrosamente a liberdade. como tinha jurado aos seus maiores. Prometeu Deus de livrar os filhos de Israel do cativeiro do Egito. sublimando-o. e a Portugal reino. Estilo foi este que sempre Deus usou com Portugal. e lhe revelou como era servido de o fazei rei. e de tantos outros que logo se cumpriram e vão cumprindo. sendo contudo mais de seiscentos mil homens os que triunfaram de Faraó e passaram da outra parte do mar Vermelho. foram diante a explorar a terra. é a que há-de levantar e sublimar ao estado felicíssimo e glorioso que lhe está prometido. quando por nossa desgraça fôssemos tão injuriosamente ingratos a Deus. no presente ressuscitado e no futuro glorioso. foi revelado o sucesso dela com todas suas circunstancias. Quem considerar o Reino de Portugal no tempo passado. para que conhecesse e não pudesse negar Portugal que devia a Deus a vitória e a coroa. e quão indigno de o ser. Antes da sua ressurreição. E o intérprete deste futuro que parecia tão impossível. que todos vimos também. favores e as mercês tão notáveis com que o determinava enobrecer: na primeira. fazendo-o. que é o tempo futuro. não havendo quem ignorasse ou quem não tivesse lido que no ano de quarenta se havia de levantar em Portugal um rei novo e que se havia de chamar João. e prometidos juntamente os meios e instrumentos prodigiosos por onde há-de subir e ser levantado ao cume mais alto e sublime de toda a felicidade humana. ou esperássemos os futuros de outra mão que a sua. e muitos centos e ainda milhares de anos antes (como depois mostraremos). e de os levar e meter de posse da terra da Promissão. E o embaixador e intérprete deste e de outros futuros. a vitória que lhe havia de dar em batalha tão duvidosa e as armas de tanta glória com que o queria singularizar entre todos os reinos do Mundo. Afonso Henriques. e posto que todas viram o cumprimento da primeira promessa. escolhidos pelos Doze Tribos. dois daqueles aventureiros que. desconhecido e retirado do Mundo o ermitão do campo de Ourique. no presente e no futuro.Anexo:Imprimir/ História do Futuro atribuindo à fortuna ou indústria humana o que se deve só à disposição divina. seria só o esquecimento ou desconhecimento do soberano Autor delas. e sacudiram sem sangue nem golpe de espada a sujeição de tão poderoso domínio. Considerem agora os Portugueses. que depois se viram cumpridos. na terceira. receoso porventura de que uma nação tão amiga da honra e da glória lhe quisesse roubar a sua. que ou referíssemos os benefícios passados. Antes das glórias de Portugal. na segunda restituindo-o. Raro 14 . Antes do nascimento de Portugal. no passado o verá vencido. para que conhecesse outra vez Portugal que a Deus e não a outrem devia a restituição da coroa que havia sessenta anos lhe caíra da cabeça ou lhe fora arrancada dela. para que até por esta circunstancia conheçam os Portugueses que a mesma mão onipotente que há vinte e quatro anos conserva e defende tão constante e vitoriosamente o Reino de Portugal. de todos eles não entraram na Terra da Promissão nem chegaram a lograr a felicidade e descanso da segunda promessa mais que Josué e Calef. e o intérprete deste último e glorioso estado de Portugal já tenho dito quem é. e por isso mui proporcionado (segundo o estilo de Deus) para tão grande e dificultosa empresa. e em todas estas três diferenças de tempos e estilos lhe revelou e mandou primeiro interpretar o. apareceu o mesmo Cristo a El-Rei (que ainda o não era) D. e leiam tudo o que daqui por diante formos escrevendo com este pressuposto e importantíssima advertência: que.

sendo muito justo e muito justificado castigo que morram e acabem todos antes de chegar o prazo das felicidades. sejam privados de gozar a segunda. Eu não nego que em bom sentido se podia chamar Moisés libertador do cativeiro. atribuírem-na ao ídolo. et sciens dolorem ejus. abundante e cheia de todos os regalos e delícias». pois tão ingrata e impiamente interpretaram o benefício da primeira promessa. ao seu talento. depois diremos a terceira. e pode ser que estejamos já muito perto dela. ingrato e blasfemo! Que Moisés e o vosso ídolo foram os que vos livraram do cativeiro do Egito?! Por certo que o não disse assim Deus ao mesmo Moisés. Israel. se buscarmos no Texto Sagrado as causas deste desvio e dilação (a qual durou quarenta anos inteiros. Assim o disseram também no mesmo capítulo e o apregoaram impiamente a altas vozes: Hi sunt dii tui. como efeitos da providência. à sua ciência militar. espaçosa. ignoramus quid acciderit. sendo a distancia do caminho breve. e o fez com . Se há algum tão invejoso dos bens da Pátria e tão inimigo de si mesmo. in terram quae fluit lacte et melle: «Vi — diz Deus — a aflição do meu povo. boa. quando lhe deu o ofício e a vara. e ouvi os seus clamores. já os vimos. referirem-se a Moisés. qui te eduxerunt de terra AEgypti. Quem refere a glória dos bons sucessos ao seu valor. Imos caminhando pelo deserto para a Terra da Promissão. que lhe hei-de dar.Anexo:Imprimir/ História do Futuro exemplo de severidade na misericórdia de Deus . povo descortês. tantos anos antes revelados por Deus. assim os que já se viram. que queira retardar o curso de tão próspera e feliz jornada e acabar infelizmente. Basta. era ingratidão suma. ao seu braço. e ainda mais ignorante (sobre ímpia e blasfema). ainda antes de ver o fim desejado dela. 15 . não uma. nos livrou do cativeiro. mas bem merecido castigo. foi atribuírem a mesma liberdade ao ídolo que de seu ouro tinham fundido no deserto. por isso se vos escrevem aqui essa mesma liberdade. essas mesmas vitórias e esses mesmos sucessos. afogados no Mar Vermelho de seu próprio sangue. como os que restam para se ver.tanta repugnância sua instrumento de seus poderes: Vidi afflictionem populi mei in AEgypto et clamorem ejus audivi. e do último cumprimento das prometidas felicidades. desci em pessoa a livrá-lo das mãos dos Egípcios e tirá-lo daquela terra para outra. da bondade e onipotência divina. a Deus só as refiramos todas. já por mercê de Deus triunfamos de Faraó e do poder de seus exércitos. Portugueses. De maneira que quem tirou os filhos de Israel do Egito foi Deus. e que se podia vencer em poucos dias) acharemos que foram . Agora nos servem as duas. e quem fez os portentos e maravilhas foi Deus. Já Deus. mas nos homens que deviam dar a Deus toda a glória (pois toda era sua). e quem abriu o Mar Vermelho e afogou nele Faraó e seus exércitos foi Deus. et deducam de terra illa in terram bonam et spatiosam. ou a Moisés ou ao ídolo. e não a darem a Deus toda. negue a Deus o que é de Deus e atribua à liberdade as vitórias e o cumprimento das primeiras promessas que temos visto. dá a glória de Deus ao ídolo. mas muitas vezes. era blasfêmia. era descortesia. qui nos eduxit de terra Aegypti. A segunda. e porque sei com quão justa razão se queixam. XXXII. assim o disseram no cap. e os que atribuem as obras de Deus e os benefícios (de que só a Ele se devem as graças) a Moisés e ao ídolo não merecem ter vida nem olhos para chegar a ver a Terra de Promissão. Moysi enim huic viro. Para que conheça por nossa confissão todo o Mundo que são misericórdias suas e não obras do nosso poder. A primeira causa foi atribuírem a liberdade do cativeiro a Moisés. como também Deus pelo honrar lhe dava esse nome. e para que nós. e a Deus só louvemos e demos as graças. descendi ut liberem eum de manibus AEgyptorum.três. e que. porque.

e sobre tudo as promessas divinas tão repetidamente inculcadas. não sei se de pouco. os outros. a qual refere o Texto Sagrado no cap. As palavras da queixa de Deus e da sentença. [. depois de cumprida uma parte das promessas. a sua mesma incredulidade será a sua sentenc: já que o não creram. sic faciam vobis. sic faciam vobis. que são os que a Escritura chama filhos da desconfiança. vê-lo-ão. justo será que fechemos este com a terceira causa do castigo que ponderávamos. Leiam e pesem bem estas palavras de Deus os incrédulos e desanimados (vícios ambos. mas exceto Josué e Calef. que ficarão para os capítulos seguintes.] Vivo ego.. ut habitare vos facerem. sicut locuti estis. nem os perdoar ou dissimular como até ali tinha feito. que aprendemos nas noticias de seus futuros. como pela valentia. é não só pertinácia de incredulidade racional. comparados com os Hebreus (diziam eles) pareciam gigantes. In solitudine hac jacebunt cadavera vestra.. Chegados os doze exploradores da Terra da Promissão. Esta tão covarde incredulidade foi a última ou a última sem-razão com que acabou de se apurar a paciência divina. E este conhecimento tão grato a Deus. XIV dos Números.facilitaram a conquista e animavam o povo a ela. prevaleceu o número contra a razão) (como as mais vezes sucede). ou não querem crer. concordaram todos na largueza. que . ait Dominus. juntamente nascem dela e a corrompem. audiente me. assim pela fortaleza e sitio das cidades. forças e corpulências dos homens.. que. e pois criam que Deus os não havia de meter de posse da Terra da Promissão. porque são dignos de o verem. não o verão.. Diz Santo Agostinho (cujas excelentes palavras adiante citaremos) que. vícios tão naturais da próspera fortuna. que. conformemente. se de mau coração) e vejam o perigo em que os pode meter ou tem metido a sua incredulidade: Sicut locuti estis. não bastando a experiência de tantas vitórias passadas e de tantos sucessos e prodígios inauditos. não crer que se hão-de cumprir as outras. instavam que era impossível. qae feci coram eis? [. Deliberou o povo eleger capitão e voltar-se com ele ao cativeiro do Egito.] non intrabitis terram.. A humildade e agradecimento. sempre são os meios seguros que nos hão-de sustentar. a confiança em Deus e o zelo e desejo puríssimo de sua glória. como filhos da víbora. é o primeiro fruto e utilidade que da lição desta nossa História se pode tirar. que nenhum deles entrasse nela nem a visse. 16 Breve Advertência aos incrédulos Mas antes que passemos às outras utilidades. e pode ser de grande exemplo para outra casta de gente. com que não cheguem a ver nem gozar o que não querem crer de sua bondade: . levar e meter de posse daquelas segundas promessas. os que não crêem. para crerem e confiarem que assim havia de ser. super quam levavi manum meam. Enfim. tão importantemente para a vida como para a vista.. e que todos morressem primeiro e fossem sepultados naquele deserto. de que Deus os havia de meter de posse daquela terra. Os que pela experiência do que têm visto crêem o que está prometido. Assim o disse e assim se executou. a desconfiança de nós. E resoluto Deus a não sofrer mais tal gente. senão crime de ingratidão grande contra o divino Autor dos mesmos benefícios. dando-lha em tudo e por tudo. resolveu que fosse executada neles a sentença de sua própria incredulidade. bondade e fertilidade da terra. foram estas: Usque quo detrahet mibi populus iste? Quosque non credent mihi in omnibus signis. e a estes incrédulos e ingratos castiga justissimamente sua Providência.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Os inimigos que mais temo a Portugal são soberba e ingratidão.

arranca. e para que não chegue a ver. ó reis. antes que Deus vos replante e reedifique. como ao Centurião. guarda também ordinariamente nas felicidades desta. derriba. morrerão. Aos que crêem. quanto perder. e mais necessária aos tempos próximos e presentes. tão maravilhosas e tão raras. terão vida para as verem. História do Futuro (Volume I. non erit recta anima ejus in semetipso. porque na guerra que Nabucodonosor fez a Jerusalém. tira-lhe Deus a vida. non permanebitis — diz o profeta Isaías. para ele será o vê-las e gozá-las: Sicut creditisti. arrasando e arrancando até os fundamentos. Quando o arquiteto quer fabricar de novo sobre edifício velho e arruinado. Olhem por si os incrédulos. justus autem in fide sua vivet.) por Padre Antônio Vieira 17 A segunda utilidade desta História. examine o seu coração e consulte a sua fé. e ao que crê. quanto dissipar se verá em vossas terras. por isso havemos de ver no Céu os mistérios que vemos na Terra. Quem não crê. Quem quiser saber (segundo o estilo ordinário da justiça e providência divina) se há-de chegar a ver as felicidades que debaixo de sua palavra aqui lhe prometemos. alimpa. Assim o disse e mandou notificar a todo o Mundo pelo profeta Jeremias: Ecce constitui te hodie super gentes et super regna. fiat tibi. ó reinos! Quanto arrancar. Quem crê que se hão-de cumprir aquelas . Assim o faz e fez sempre o supremo Criador e Artífice do Mundo. os que creram aos profetas com el-rei Iconias viveram. desmerece a vista.tão felizes promessas. para que as não vejam. e se veja restaurado o Universo! Maravilha é que há muitos anos está prometida para esta última idade do Mundo por aquele supremo Monarca. antes que chegue a esperada felicidade. Ó gentes. creiam que não hão-de viver: Si non credideritis. E quem não crê que se hão-de cumprir. e depois planta e semeia. quando quis plantar e edificar de novo. é rebeldia de ingratidão e dureza da incredulidade. e depois sobre o novo alicerce levanta nova traça e novo edifício. <O incrédulo . et dissites. também começa derribando. os que as não crerem. perigos e calamidades com que há-de ser allito e purificado o Mundo. Capítulo V: Segunda utilidade. constância e consolação nos trabalhos. cava. a sua mesma fé lhe conservará a vida > Assim sucedeu. campos e cidades. e se não crêem que havemos de ver. quando as tem prometido: os que as crêem. e os que não quiseram crer. que tem por assento o trono de todo ele: Et dixit qui sedebut in throno: Ecce nova facio omnia. Assim o sentenciou o mesmo Deus outra vez em semelhante caso por boca do profeta Habacuc: Ecce qui incredulus est. alguma desculpa parece que podia ter a incredulidade na fraqueza do receio e desconfiança humana. mas depois de cumpridas e vistas com os olhos tantas cousas. E aos que não crêem como os Israelitas do deserto. quae feci coram eis? Antes da experiência das primeiras maravilhas.diz Deus nem terá a vida segura. diz Cristo: Sicut credidisti.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Quo usque non credent mihi in omnibus signis. não crer ainda as que estão por vir. será também para ele não gozá-las. et plantes. Quando o lavrador quer plantar de novo em mata brava. queima. É lei da liberalidade de Deus pagar a fé com a vista. fiat tibi. E este estilo que Deus costuma guardar na glória da outra vida. desfazendo. et aedifices. com el-rei Sedecias pereceram. nem vê-las. et disperdas. corta. é a paciência. merecedoras ambas de que Deus as castigue com se conformar com elas: Sicut locuti estis. et destruas. quanto destruir. mete primeiro o machado. tão grandes. do nosso próprio coração nos conta Deus a sentença e de nossas próprias palavras a forma: Exore tuo te judico. E porque ninguém o duvidasse . sic faciam vobis. ut evellas. diz Deus: Sicut locuti estis.

com que Deus costuma castigar. paciência. Isaías.para que elas se escreveram: Quaecumque scripta sunt. e dando conta disso aos mesmos Esparcíatas. e com eles e com elas nos consolamos e animamos a resistir. é a que mais que tudo nos pode consolar nos trabalhos. que nunca no povo de Israel concorreram tantos Profetas juntos como antes do cativeiro de Babilônia e no mesmo cativeiro. ou para o resto do Mundo. Se deste trabalho e castigo pode também caber alguma parte a Portugal. Jónatas. ou para todos (como é mais certo) nenhuma cousa poderão ter os homens de maior consolação. e se é ele um dos reinos da Cristandade que merece ser mui renovado e reformado. Joel e Amos. Ezequiel. os dez deles tiveram por assunto e matéria muito principal de todas suas 18 . habentes solatio sanctos libros qui sunt in manibus nostris. assolações. opressões e trabalhos. Que maior trabalho ou perigo pode sobrevir a uma república.Anexo:Imprimir/ História do Futuro como cousa tão nova e desusada. os atribulados esperança. do que a lição e condição desta História do Futuro. e todo o gênero de calamidades. em que lemos as promessas divinas. diz assim em uma epístola: Nos. no cativeiro profetizou Miqueas. maluimus mittere ad vos renovare fraternitatem et amicitiam: «Mandamos renovar por este nosso embaixador (diz Jonatas) a antiga amizade e confederação» que convosco fizeram nossos maiores. os tristes consolação. VIII se verá que sem atrevimento ou demasiada confiança podemos chamar a esta nossa História do Futuro livro santo. tribulações. De maneira que. alívio. Habacuc Jeremias. perigos. o mesmo Portugal o examine. no qual acharão os aflitos alívio. e ele mesmo. que então governava o povo. ut per patientiam et consolationem Scrip turarum spem habeamus. do conhecimento e fé das cousas futuras. se houver (como há-de haver primeiro) trabalhos. não pelo que ela tem de nossa. Para esta ocasião. se se conhece. pelejar e vencer. tudo por meio da lição e fé das divinas promessas e consolação dos felicíssimos fins a que todos estes trabalhos e tribulações pela providência do Altíssimo são ordenadas. ou sejam para Portugal. Daniel e Solonias. acrescenta logo o Evangelista Profeta: Haec verba fidelissima sunt et vera. a esperança tem o seu fundamento na fé e a fé nas Escrituras. opressões. emendar e domar a rebeldia dos corações humanos. É cousa muito digna de notar. não porque tenhamos necessidade dela e dos vossos socorros. posto que não nos faltam inimigos. lembrando-lhe que está escrito que o juízo e exemplo de Deus há-de começar por sua casa: Judicium incipiet a domo Dei. pelas quais lhes não foi necessário valerem-se da confederação que naquele tempo tinham com os Romanos e Esparcíatas. sempre os livrou com maravilhosas vitórias e assistências do Céu. e tão apertada sai a luz e se oferece ao Mundo este livro santo. misérias e açoites. sendo só doze os Profetas canônicos. Mas. porque a paciência tem a sua consolação na esperança. e o fruto muito principal . e sem amigo nem aliado que a socorra? Neste estado se viram muitas vezes no tempo de seu governo os Macabeus. Paulo. No cap. de que Deus . ad nostram doctrinam scripta sunt. Este é o fim. diz S. constância e fortaleza. que ver-se cercada e combatida por todas as partes de poderosíssimos inimigos. só e desamparada. o julgue. mas temos sempre em nossas mãos os Livros Santos. Antes do cativeiro profetizaram por sua ordem Oseas. cum nullo horum indigeremus. guerras. nem remédio para o sofrimento e constante firmeza de tão fortes calamidades. A lição das Escrituras. mas pelas escrituras originais de que foi tirada. como temos vencido e vencemos a todos nossos inimigos.

que naquele tempo e estado tão calamitoso. Lia-se na carta e tradição de S. Lia-se nas célebres tradições de Gregório de Almeida no seu Portugal Restaurado. Ao menos não negará Portugal que. e a esperança da liberdade e do ano dela. Cantavam-se as profecias ao som das cadeias. para que o povo não desmaiasse com o peso da aflição. prisões e perigos da vida por pregar e profetizar a verdade (pela qual finalmente morreu apedrejado). Ordenou pois a providência e misericórdia divina. despojados de seus bens. XXIX do mesmo Profeta. em que por termos muito claros e palavras de grande consolação lhes anunciava a liberdade e o tempo dela. Bernardo que quando Deus alguma hora permitisse que o reino viesse a mãos e poder de rei estranho. que o tempo desejado havia de chegar. e nota o mesmo Baruch que todos com grande alvoroço corriam ao livro. não seria por espaço mais que de sessenta anos. mais que a lição e interpretação das profecias. nem depois visto) foi porque nunca o povo e reino de Judá padeceu tão grande trabalho e calamidade como o cativeiro ou transmigração de Babilônia. Afonso Henriques e na promessa do santo ermitão. e anda no Texto Sagrado junta com as obras de Jeremias: Et legit Baruch verba libri hujus ad aures Jechoniae. houvesse muitos Profetas e muitas profecias. Os quatro primeiros. Foi mui particular neste caso entre todos os outros Profetas o zelo e diligência de Jeremias. que profetizaram no tempo do cativeiro.Anexo:Imprimir/ História do Futuro profecias o cativeiro de Babilônia. regis Juda. presos e. profetizaram que o povo por seus pecados havia de ir cativo. e do termo e fim do cativeiro que nelas se lia. uns que as tivessem escrito no tempo passado. pudesse com o trabalho do cativeiro. que. Assim o diz no primeiro capítulo da relação que fez desta jornada. mas que por misericórdia de Deus seria depois restituído à sua pátria. os Profetas e as profecias os alentavam. mas sei que nos trabalhos calamidades e aflições que há-de padecer o Mundo e pode ser cheguem também a Portugal. O cativeiro e o tirano os oprimiam. nenhuma outra apelação tinha a sua dor. porque. companheiro de Jeremias. antes mui lembrado do que padeciam os desterrados de Babilônia. nem Portugal nem o Mundo poderá ter outro alívio nem outra consolação maior que a freqüente lição e consideração deste livro e das profecias e promessas do futuro que nele se verão escritas. na décima sexta geração atenuada. escreveu um livro das suas profecias. A razão deste concurso tão extraordinário de Profetas e profecias (nunca antes. que com ele vivia no cativeiro. arrancados da pátria e levados a terras de bárbaros. e se será recebido e lido com o mesmo animo e afeto este nosso livro da História do Futuro. nem outro alívio ou consolação a sua miséria. et ad aures universi populi venientis ad librum Não sei se terá a mesma fortuna. onde padeceu grandes trabalhos. e as esperanças dele se haviam de cumprir no ano 19 . leu-se em presença de El-Rei Iconias e publicamente de todo o povo. e outros que as pregassem no presente. Levou este livro a Babilônia o Profeta Baruch. filii Joachim. e animado com a esperança da liberdade. e com a brandura deste som os ferros se tornavam menos duros e os corações mais fortes. e lá oprimidos e tratados como escravos em duríssima servidão. como se pode ver no cap. no meio destas opressões e perigos próprios. poria Deus os olhos de sua misericórdia no Reino. não esquecido dos alheios. Lia-se no juramento de El-Rei D. Os outros seis. determinando sinaladamente o ano da liberdade. sendo cativos. tendo ficado em Jerusalém. insistiram constantemente em que ele havia de ter fim. que escreveram mais de seis anos antes daquele tempo. no tempo da sua Babilônia e do cativeiro e opressões com que tantas vezes se viu tão maltratado e apertado.

inspirasti mihi mysteria ejus. era uma coroa trocada pelas antigas cinzas. que a santa ouvisse a resposta da boca do mesmo Profeta. João tivesse aquelas revelações e escrevesse aquelas profecias? É pergunta esta de que foi respondida Santa Brígida. o segundo. antes confirmados com as mesmas profecias. assim nós. Este é o fim (posto que não só este) por que Deus revela as cousas futuras.] ut praedicarem annum placabilem Domino [. João e disse desta maneira: Tu. e assim o líamos nós também nas nossas. oleum gaudii pro luctu. Eu não prometo nem espero infortúnios a Portugal. Falando no mesmo cativeiro de Babilônia o mesmo profeta Isaías. mas ou sejam de Portugal. e quão conforme com a vontade e intento de Deus. sejam os casos e profecias próprias dos nossos tempos e escritas só para eles. E porque não pareça que argumento só de casos e profecias de tempos antigos. e nós o mostraremos em seu próprio lugar. diz Isaías. para que como médico dos aflitos cativos de Babilônia.. curasse com o talento de minhas promessas e profecias. com os olhos longos no suspirado ano de quarenta e na esperada coroa do novo rei português. e eu escrevi as profecias deles para consolação dos vindouros e para que os vossos fiéis com os casos futuros se não perturbassem». a diligência com que eu me disponho. em que o cativeiro se havia de acabar: Et praedicarem captivis indulgentiam. a nas suas profecias. e por que os Profetas antigos. que foi S. e o trabalho de escolher entre todas as profecias que pertencem a nossos 20 . Assim o liam os cativos de Babilônia. ne fideles tui propter futuros casus everterentur: «Vós. e o último de todos. ordenou a Providência Divina que S. apareceu ali S. com que os lutos e tristezas passadas se convertessem em festas e alegrias: Et darem eis coronam pro cinere. as escreveram: para que se veja quão justa e quão útil é.. aliviávamos o peso do nosso jugo e consolávamos a pena do nosso cativeiro. e no concurso de todas estas profecias se consolava e animava Portugal a ir vivendo ou durando até ver o cumprimento delas. et ego scrpsi ad consolationem futurorum. e do alívio e consolação que com suas profecias haviam de ter em seus trabalhos aqueles cativos. E assim como eles não tinham outro remédio na sua dor senão a esperança daquele desejado ano e a mudança daquela prometida coroa.. para todos lhes prometo este remédio: melhor é que sobejem os remédios à cautela. João... ou da Cristandade. por particular favor. pergunto.] et darem eis coronam pro cinere. a tristeza e desmaio de seus corações». oleum gauudii pro luctu. era um ano de indulgência e redenção. aponta nomeadamente dois que mais parecem receitados para o nosso cativeiro que para o de Babilônia: o primeiro. diz com igual brandura e eloquência estas notáveis palavras: Spiritus Domini super me [. E pois este remédio das profecias foi tão presente e eficaz para os trabalhos passados.. do que faltem à providência.Anexo:Imprimir/ História do Futuro sinalado de quarenta. Ninguém ignora que as profecias do Apocalipse e mais ainda as que estão por cumprir) são próprias dos tempos que hoje correm e hão-de parar no fim do Mundo.] ut consolarem omnes 1ugentes [.. Querendo Cristo.. estejam neles constantes. ou do Mundo os que pode causar nele a necessidade ou a adversidade dos tempos.. Assim o dizem Padres e expositores. me revelastes aqueles mistérios. como se lê no Livro VI de suas Revelações. Senhor. «Desceu sobre mim o Senhor. Domine. Mas a que fim. e ungiu-me com seu espírito.. razão tenho eu (e razão sobre a experiência) para esperar e confirmar que o será também para os futuros. annum placabilem Domino. E declarando mais em particular os remédios cordiais que lhes aplicava.] ut mederer contritis corde et praedicarem captivis indulgentiam [.

está. que Deus há-de acudir por sua palavra. Oh! que bem armados esperarão o leão na campanha os nossos soldados. e esta pode ser também a da arrogância. os triunfos. lendo. somos entrados. quem não tremerá?» Responderão com razão os nossos soldados que não temerão aqueles que tantas vezes os têm vencido. ou para provar nossa fé. que é o Hércules que tantas vezes se tem vestido de seus despojos. de que Deus se não agrada. o trovão de nossas profecias. confie só no mesmo Deus e em suas promessas. Capítulo VI: Terceira utilidade. as coroas e o domínio e sujeição de nações tantas e tão dilatadas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro tempos. que não temerá Portugal. e pelejará seguro. nem ainda temeridade que se arrojasse a empreender a desigualdade de tamanhas guerras e a desproporção de tão imensas conquistas. seguro está o Reino em que ele e a palavra de Deus correm o mesmo perigo. Mas as promessas e as disposições divinas. quis non timebit? «Quando bramir o leão. Deixou Cristo aos discípulos lutar com a tempestade na primeira vigia. depois de os atemorizar com fantasmas. pois agora é o tempo de se ouvirem as profecias e de se saber e publicar o que Deus tem dito: Dominus Deus locutus est. que não temerá Portugal. que lhes estão prometidas. que não temerá Portugal que é o David que tantas vezes lhe tem tirado das garras os seus cordeiros. de cujo som tremem os muros de Jericó e a cuja bateria nenhuma fortaleza resiste. sem ter por fiador a palavra divina. Quando as bramidos do leão se ouvirem em suas caixas e trombetas. brame o mar. ainda então os repreendeu de pouca confiança. E porque o fruto deste benefício se pode colher nas novidades que promete este mesmo ano em que. sendo certo que. quis non prophetabit? Falem todos nas profecias e entendam-nas todos. que agora é o tempo. pratiquem-nas todos. que é faltar ao que tem prometido. Escureça-se a noite. recorram a Deus e a suas promessas. porque são voz do Céu.tão singulares maravilhas e maravilhosas felicidades. digo. aplicando o remédio à ferida ou aos ameaços dela. Leo rugiet. Assim lhes chamei. Mas se acaso (que pode ser) houver algum sucesso adverso (que também depois do milagre de Jericó houve nos campos de Hai). nenhuma razão haveria no Mundo que se atrevesse a aconselhar. e mais particularmente aqueles que foram ou estão já escolhidas por Deus para instrumentos gloriosos de . que é o Sansão que tantas vezes o tem desqueixado. os socorreu com sua presença. digo assim com o profeta Amos: Leo rugiet. os reinos. porque se não ofenda Deus. no discurso da História do Futuro. enfureçam-se os ventos. quis non prophetabit? Estas são as trombetas do Céu. lendo os príncipes da Cristandade. soe também em nossos ouvidos por cima de todas elas. Costuma a Providência Divina começar suas maravilhas por efeitos contrários. se tiverem nas mãos as armas e no coração as profecias! Leo rugiet. Ele pode mais que todos os poderes humanos. quis non timebit? Dominus Deus locutus est quis non prophetabit ? Está o leão bramindo? Sim.) por Padre Antônio Vieira 21 Finalmente (e é a terceira e não menor utilidade desta História). e quando na quarta. . e de as ajuntar. e só uma cousa não pode. não perca Josué nem seus soldados o animo. Não confie Portugal em si. na segunda não lhos acudiu. Esta é a resposta do valor. que por isso nos tem prevenido com elas. rompa-se o céu. História do Futuro (Volume I. as conquistas. ordenar e tirar à luz para o benefício público. medidas só as forças da potência humana. nem na terceira. ou para mais exaltar sua onipotência. as vitórias. na fé e confiança das mesmas promessas se atreverão animosamente a empreendê-las.

como são os vaticínios da Gentilidade. foi a famosa de Alexandre Magno. levantaram a voz e disseram para eles: — Vinde cá.Neste estado de horror e miséria sai de noite o príncipe Jónatas.sabe inventar o medo e a necessidade. aperfeiçoou a arte e acompanhou a fortuna. mas se não fora ajudado da profecia. tudo facilitam e a tudo animam. porei aqui um só exemplo de guerras. chegaram perto e foram sentidos. avança animosamente às tendas dos Filisteus.. perturbam-se os arraiais. plurima.Anexo:Imprimir/ História do Futuro antecedentemente conhecidas na previsão do futuro. para que Jónatas entendesse a resposta do divino oráculo. tendo por sem dúvida que havia de vencer. e que não convém acometer. porque os tem entregues em nossas mãos.. nem obrara e levara ao cabo o que obrou. Ajustados os sinais nesta forma. cresce a confusão. e na fé e confiança desta profecia. Conhecem-se enfim com imortal glória de Jónatas os autores de tão estupenda façanha. 22 . e encaminhando para os alojamentos do inimigo. As sentinelas que deram fé dos dois voltos. nem assento considerações e verdades tão sérias sobre fundamentos de tão pouca subsistência. toca-se arma. Tinham vindo sobre o povo de Israel os exércitos dos Filisteus com trinta mil carros de guerra e tanta multidão de soldados. pelas montanhas. nem ele se atrevera ao que se atreveu. quae est in littore maris. para porem em fugida o mais poderoso exército e alcançarem a mais desigual e prodigiosa vitória. que temos certa cousa que vos dizer. interpretando-a (como verdadeiramente era) conforme o sinal que tinha posto. disserem as sentinelas: — Esperai por nós — é sinal que responde Deus que paremos. . mas não chamo eu a isto profecias. pelas cisternas e por todos os outros lugares mais ocultos e secretos que . Não foi necessário mais. O homem que a empreendeu era o maior capitão que criou a natureza. matam-se. formou o valor. Para testemunho desta tão importante verdade e alento dos que a lerem. mas um e outro os maiores que até hoje se viram no Mundo. prosseguiram seu caminho. Também sei que a quem desatasse o nó gordiano que Alexandre cortou com a espada. ardeu o famosíssimo templo de Diana Efesina. outro de conquistas. A maior e mais nobre conquista que até hoje se intentou e conseguiu no Mundo. disse assim ao seu pajem da lança. e voltam carregados de despojos. trava-se uma brava peleja dos mesmos Filisteus uns contra os outros. a que os Hebreus chamavam Phurim. Fogem. trata de consultar a Deus por um modo de oráculo ou sorte. seguem os Filisteus fugitivos. Bem sei que no dia em que nasceu Alexandre. pelas covas. concordando em que eram hebreus dos que estavam metidos pelas covas. reconhecendo sua desigualdade para resistir a tão superior e excessivo poder. que só o acompanhava: Se quando formos sentidos do exército dos Filisteus.sicut arena. Saem das covas os Israelitas. diz o mesmo texto que se tinham escondido pelas brenhas. Os Israelitas. pela qual a Providência divina naquele tempo costumava responder e significar os sucessos futuros. e que havemos de prevalecer contra eles. atropelam-se. mas se as sentinelas disserem: — Vinde para cá — é sinal que responde Deus que acometamos. senão com a areia muita: . filho de el-rei Saul. pelas grutas. onde prognosticaram os Magos que naquele dia entrara no Mundo quem havia de ser o incêndio de toda Ásia. bastando só dois homens armados da confiança de uma profecia. estava prometido pelos oráculos de Apolo Délfico o império de todo o Oriente. falaram entre si. cuidando que eram os soldados de Saul. que não só compara a Escritura Sagrada q número deles com o da areia do mar. começa ele e o companheiro a matar nos inimigos.

revestido dos ornamentos pontificais. entrando Alexandre em Jerusalém. que naquele tempo meditava. Nam per se ducturum meum exercitum dicebat. e que Alexandre. vendo-o. nem ele se atrevera ao que se atreveu. adhuc in Dio civitate Macedoniae constitutus. lhe segurara a vitória. cujus principa desse a resposta do divino oráculo. que naquele tempo meditava. onde prognosticaram os Magos que naquele dia entrara no Mundo quem havia de ser o incêndio de toda Ásia. matam-se. no liv. e perguntado pela causa de tão desusada reverência. formou o valor. se lançara a seus pés e o adorara. As palavras de Alexandre (que é bem se veja a sua formalidade) são as seguintes: Non hunc adoravi. Fogem. A maior e mais nobre conquista que até hoje se intentou e conseguiu no Mundo. vendo-o. et Persarum traditurum potentiam: ideoque neminem alium in tali stola videns. o ornato e a representação em que Deus lhe tinha aparecido em Dio. e perguntado pela causa de tão desusada reverência.. salutavi. e na fé e confiança desta profecia. virtutemque solvisse Persarum. incitavit me ut nequaqm negligerem. no liv. cuidando que eram GS soldados de Saul. cujus principatus sacerdotii functus est. nem assento considerações e verdades tão sérias sobre fundamentos de tão pouca subsistência. sed confidenter transirem. cidade de Macedônia. Saem das covas os Israelitas. e exortando-o a que empreendesse a conquista da Pérsia.] Exinde arbitrar Divino iuvamine me directum Dariumque vixisse. ardeu o famosíssimo templo de Diana Efesina. tão alheia de sua grandeza e majestade. que. nem obrara e levara ao cabo o que obrou. sed Deum.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Conta Josefo. foi a famosa de Alexandre Magno. interpretando-a (como verdadeiramente era) conforme o sinal que tinha posto. porque reconhecera que aquele era o hábito. Conta Josefo. toca-se arma cresce a confusão. respondeu que ele não adorara aquele homem senão nele a Deus. Também sei que a quem desatasse o nó gordiano que Alexandre cortou com a espada. senão nele a Deus. começa ele e o: companheiro a matar nos inimigos. o homem que a empreendeu era o maior capitão que criou a natureza. As palavras de Alexandre (que é bem se veja a sua formalidade) são as seguintes: — Non hunc adoravi. tão alheia de sua grandeza e majestade. XI de suas Antigüidades. cidade de Macedônia. XI de suas Antigüidades. que entrando Alexandre em Jerusalém. Bem sei que no dia em que nasceu Alexandre. tendo por sem dúvida que havia de vencer. para porem em fugida o mais poderoso exército e alcançarem a mais desigual e prodigiosa vitória. sed Deum. se lançara a seus pés e o adorara. seguem GS Filisteus fugitivos. e que Alexandre. e voltam carregados de despojos. atropelam-se. habens visionis et probutionis nocturnae memoriam. trava-se uma brava peleja dos mesmos Filisteus uns contra os outros. e exortando-o a que empreendesse a conquista da Pérsia.. Nam per somnium in hujus modi eum habitu conspexi. saiu a o receber fora do templo o sumo sacerdote Jado. estava prometido pelos oráculos de Apolo Délfico o império de todo o Oriente. saiu a o receber fora do templo D sumo sacerdote Jado. mas não chamo eu a isto profecias. avança animosamente às tendas dos Filisteus. Dumque mecum cogitassem posse Asiam vincere. [. mas se não fora ajudado da profecia. perturbam-se os arraiais. cum huc advertissem. o ornato e a representação em que Deus lhe tinha aparecido em Dio. Conhecem-se enfim com imortal glória de Jónatas os autores de tão estupenda façanha' bastando só dois homens armados da confiança de uma profecia. respondeu que ele não adorara aquele homem. porque reconhecera que aquele era o hábito. Propterea et 23 . aperfeiçoou a arte e acompanhou a fortuna. como são os vaticínios da Gentilidade. revestido dos ornamentos pontificais. lhe segurara a vitória.

percussit Alexander [. quod imperabit universae terrae. saiu de Macedônia com menos de quarenta mil homens. significado no leopardo com quatro asas. dizendo: . Nestas duas figuras é certo que estava profetizado.. constituit et praelia multa et oblinuit omnium munitiones. como é autor Clitarco. Porém o que mais admira nas conquistas e vitórias de Alexandre. bastimentos só para trinta dias.Anexo:Imprimir/ História do Futuro omnia quae meo. III da História Natural. et interfecit reges terrae. o império dos Persas e Medos (como explicou o anjo a Daniel). Mas como Alexandre. com dois cornos muito fortes. VII.. derribou e meteu debaixo dos pés o império dos Persas e Medos. que eram então os últimos da terra de onde Hércules e o padre Líbero os tinham colocado. do que depois se viu nas estátuas de Lisipo nem nas pinturas de Apeles. et Darium regem Persarum et Medorum. que foi Alexandre. que fazem da nossa moeda quarenta e dois mil cruzados. achou nela os embaixadores de África. dos Macabeus. Sicília. com que mereceu o nome e se fez verdadeiramente magno. Saiu pois Alexandre da parte ocidental. Em seguimento e confiança destas profecias. Tudo certifica ainda com palavras maiores o mesmo Texto Sagrado no exórdio do I Liv. Itália.. e que este segundo animal. Conta ali o profeta que viu dois animais do campo: um. que era o bronze. porque não pararam aqui as profecias de Daniel na visão dos quatro animais referidos no cap..corde sperantur. o maioral das cabras. Na visão da estátua de Nabuco. o terceiro dos metais. que é a Macedônia. na segunda. na primeira. antes de obrar todas estas maravilhas. se 24 . pela velocidade com que vencia e sujeitava tudo. o investira e derribara e metera debaixo dos pés. e diz ali o Profeta que reinaria e se faria obedecer de todo o Mundo: Et regnum tertium aliud aereum. correndo da parte do Ocidente contra o primeiro. e sem pôr os pés na terra. Mas foram ainda mais em número e grandeza as nações que venceu e sujeitou Alexandre com a fama mais que com a espada. o maioral das ovelhas. como refere Plutarco e o prova com graves autores. se lhe mandaram sujeitar e entregar espontaneamente e entre elas os mesmos Romanos (nome já naquele: tempo famoso no Mundo). que no princípio esteve unido em uma só pesca. referida no cap. II. se tivesse visto a si mesmo melhor retratado nas profecias de Daniel. No mesmo templo de Jerusalém. pro ventura confido. e com setenta talentos para estipêndios. significava também o império de Alexandre. em obséquio e reconhecimento de sua potência. pertransiit usque ad fines terrae. que foram os quatro reinos em que ele o repartiu entre seus capitães. referido e louvado por Plínio no liv. porque. outro. investiu. passando o Tauro e o Cáucaso e chegando até os fins do Ganges e praias do mar Índico. Sardenha. porque. não é muito que. o qual sujeitou e uniu todo ao seu império. de Cartago Espanha. particularmente aquela do cap. acabando de se cumprir a profecia na última batalha do Tigranes. refere também Josefo que foram mostradas a Alexandre as profecias de Daniel. é a desigualdade do poder e o limitado aparato de guerra com que entrou em tão imensa empresa. Não parou aqui Alexandre.] qui primus regnavit in Graecia. o império dos Gregos. por isso tinha a testa dividida em dois cornos. animado e soprado do espírito das mesmas profecias e cheio da majestade delas. Gália. et siluil terra in conspectu ejus. em que venceu e desbaratou de todo os exércitos de Dario e tomou ou se deixou saudar com o nome de Imperador da Ásia. sem pôr os pés na terra. entrando da volta desta jornada em Babilônia. com um só corno entre os olhos (o qual depois de quebrado se dividiu em quatro). e depois de sua morte se dividiu em quatro. O terceiro era Alexandre. et accepit spolia mulitudinis gentium. VIII. partiu Alexandre vitorioso para a conquista que lhe restava do mundo oriental. as quais províncias.

não o domínio que ele tivesse sobre a fortuna — Quam solus omnium mortalium sub potestate habuit — como com discrição gentílica disse dele Cúrcio. Alphonse. e dos outros quatro reis mouros. com aquelas tão expressas e animosas palavras Vinces. visto primeiro em sonhos e depois realmente ouvido e conhecido. resolveu intrepidamente dar a batalha. conforme as profecias de Daniel.. triunfa. mas passaram e penetraram adiante muito maior comprimento e terras do que há do mesmo Ganges a Macedônia. despoja. se deve a Filipe o ser Alexandre.Anexo:Imprimir/ História do Futuro atrevesse a tão árduas e dificultosas empresas. com que Alexandre empenhava sua pessoa e vida e se precipitava muitas vezes aos perigos por cousas leves. E como tinha a vida e as empresas firmadas por uma escritura de Deus ou por três escrituras. o primeiro de nossa maior fortuna. que para cada lança cristã havia no campo cem mouros. Tanta parte teve a profecia nas ações deste grande capitão e no império deste grande monarca. intérprete da Divina Providência. sustenta quatro vezes o peso imenso de todo seu poder. deve a Daniel o ser Magno! Os exemplos que temos domésticos desta mesma utilidade. Não chegaram os Portugueses só às ribeiras do Ganges. Isto obraram as profecias daquela noite na guerra.:> Que dissera. confiança e não temeridade empenhar-se Alexandre nos perigos para conseguir as empresas. desbarata o exército. não são menos admiráveis que os estranhos. que justamente estavam temerosos os poucos portugueses. pois. da mesma noite em que tinha recebido a profecia. se vira as navegações dos Portugueses no mesmo Oceano e suas conquistas no mesmo Oriente? Obrigação tinha em boa conseqüência de lhes chamar imortais. e alcançada na mesma hora a vitória. mas a previsão e presciência de suas futuras vitórias e do império que lhe estava prometido. sem reparar em que era tão desigual o partido. digo. mas ainda mostraram mais os poderes de sua influência na conquista.Oriente perdomito. cumpriu e encheu Alexandre tudo o que cabia na mortalidade. aditoque Oceano. 25 . inundaram os campos de Guadiana com intento de tomar Portugal naquele dia fatalíssimo. como Alexandre. quando conquista o alheio e não defende o próprio). rompe os esquadrões. como nas conquistas. lhe assegurou da parte de Deus a vitória. mas como o velho ermitão. indigna de um general prudente e muito mais de um rei. de aqui. pisa glorioso as cinco coroas mauritanas e põe na cabeça. e ao mesmo Deus por fiador de sua palavra e promessas. sendo a confiança ou o seguro de todos estes arrojamentos. Quem duvida que foram mais estendidas e gloriosas as conquistas dos Portugueses que as de Alexandre Magno na mesma Índia? Desta conquista de Alexandre disse o seu grande historiador . e dar exemplo de desprezo da vida a seus soldados para os animar às vitórias. posto que honrosa. e libertada a Pátria. e havia necessariamente de conquistar. a portuguesa. e seu valoroso príncipe duvidoso se aceitaria ou não a batalha. donde Alexandre tinha saído. quidquid mortalitas cutiebut. «Domado o Oriente e navegado o Oceano. se pode desculpar aquela mais temeridade que audácia (qualidade. Era tão inumerável a multidão de Sarracenos que debaixo das luas de Ismael. fé era e não audácia. rende. das quais justamente se duvida (como pôs em questão Justino) se foi maior façanha o intentá-las. sendo tantos e tão excelentes). Na manhã. o qual.. impleret. E de aqui se pode desculpar (cousa que não soube nem pôde advertir nenhum dos historiadores de Alexandre. assim nas batalhas. mata. cativa. acomete de fronte a fronte ao inimigo. já rei. ou vencê-las. et non vinceris — socorrido o animoso capitão e fortalecido o pequeno exército com esta promessa do Céu.

e seus exércitos. mais poderoso e mais indômito: o Atlântico. que frios. mas dar animo. tão temeroso por seus tulões e tão infame por seus naufrágios. conquistando-as primeiro em Portugal. do que fossem conquistadas na África. sobre todos. que fomes. que não pudera conseguir sem o socorro da luz do Céu. e mais fortes guerras experimentaram nos naturais que resistência nos inimigos. esta última resolução que no ano de quarenta assombrou o Mundo. João I. o Sínico. que mares. seguindo seu exemplo e empresa. e esta esperança a âncora e amarra firme. que calores. e conhecerá quantas obrigações deve Portugal e o Mundo ao sofrimento. Desta maneira o Infante D. mereceu que o mesmo Deus com uma voz do Céu o exortasse a levar por diante o começado. Não navegaram só o mar Indico ou Eritreu. mas sujeitaram e fizeram tributárias mais coroas e mais reinos do que Poro tinha cidades. Henrique. Finalmente. autor desta heróica empresa. como religiosíssimo príncipe que era. que ventos. o Malabárico. Maiores contrastes tiveram ainda as conquistas de Portugal na nossa terra que nas estranhas. guia e esperança aos que. e nela principalmente pretendia a glória de Deus. para que até nesta parte deva Portugal as suas conquistas aos lumes e alentos da profecia. como levantar-se contra o mais poderoso monarca do Mundo. que é um seio ou braço do Oceano. posto que muito a devamos à ousadia do nosso valor. sem parar. o Etiópico. sem ceder. Com este oráculo divino mais fortalecido o espírito do Infante. Assim se conta e escreve por fama e tradição daquele tempo. que promontórios não contrastaram? Que gentes feras e belicosas não domaram? Que cidades e castelos fortes na terra? Que armadas poderosíssimas no mar não renderam? Que trabalhos. que por meio de tão dura porfia se haviam de alcançar. senão pela confiança e seguro de suas profecias. que tormentas. leia o grande cronista da Ásia. com mais pertinácia que com instancia? Mas não obraram todas estas proezas aqueles portugueses famosos por benefício só de seu valor. Que perigos não desprezaram? Que dificuldades não venceram? Que terras. que vigias. e de todo o Reino. prudente e bem aconselhado se havia de atrever a uma empresa tão cercada de dificuldades. América. vencidas as primeiras e maiores dificuldades. que será sempre de feliz memória. e restituir-se à sua liberdade. e.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Não venceram só a Poro. valor. sem tornar atrás. dilatação da Fé e conversão da Gentilidade. que climas. que mortes não sofreram e suportaram. esta confiança os sustentava nos perigos. valor e constância do Infante D. Henrique. não só pôde romper e abrir as portas tão cerradas do Oceano e deixá-las francas e patentes aos que depois vieram. que sedes. e esta fé os animava nos trabalhos. filho de El-Rei D. e contrastando com igual fortaleza o indômito furor do segundo e quarto elemento (que são o mar e o fogo). que nas mais desfeitas tempestades os tinha seguros. que doenças. o qual. mas domaram o mesmo Oceano na sua maior largueza e profundidade. nos ganhou com sua constância as conquistas. insistindo sempre e indo avante. rei da Índia. do I liv.. animado nas contradições e contrariedades presentes com o conhecimento e certeza dos sucessos futuros. que céus. muito mais a deve o nosso valor à confiança de nossos vatícinios. a levaram ao cabo. não longe senão dentro de 26 . Quem quiser ver com admiração a tormenta de contradições populares . esta luz do futuro era o norte que os guiava. o Pérsico. Que valor sesudo. aonde ele é mais bravo e mais pujante. que por espaço de dez anos padeceram os primeiros descobrimentos das conquistas. Sabiam que tinha Cristo prometido a seu primeiro rei que os escolhera para argonautas apostólicos de seu Evangelho e para levarem seu nome e fundarem seu império entre gentes remotas e não conhecidas. e aclamar novo rei. Ásia. com promessa de seu favor e luz dos gloriosíssimos fins. no IV cap.

e pergunte-se a si mesmo se se atreve a igualar estes paralelos. pauci multos. vel quali etiam fine contenta. e o zelo da liberdade. que nos tempos que hão-de vir (ou que já vêm) o esperam! Não se poderá compreender a grandeza e capacidade desta importância senão depois de lida toda a História do Futuro. sem nobreza.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Espanha. na qual só se medirá bem a imensidade do objeto com a desigualdade do instrumento. contra tantos armados arrogantes. se debaixo desta fé se restaurou. sem aliados. Da conquista espiritual do Mundo se pode fazer bom argumento para a temporal. sem poder. quando as restituiu a elas e se restituiu a si mesmo. um reino de grandeza tão desigual. nem mais elegantemente. alentados das promessas do Céu. porque. se estendesse por seus sucessores em todo o Mundo. assim das nossas guerras como das nossas conquistas. só porque no conhecimento das profecias tinham segura a 27 . só e até de si mesmo dividido em tão distantes partes do Mundo? Mas como havia outros tantos anos que a profecia estava dando brados aos corações. sobre sessenta anos de cativo e despojado. se debaixo desta fé nasceu. lendo os soldados evangélicos naquelas profecias quão largamente se havia de propagar a mesma Igreja e quão prodigiosas vitórias havia de alcançar a Fé contra todos os inimigos. humiles superbos. Não se pode dizer. e este seja entre todos o maior exemplo. hujus cognitionis fidutia freti. o pudemos restaurar um dia. Mas quem quiser desde logo fazer de algum modo a conjectura desta desproporção. e se a esta se atreveram poucos homens sem armas. e Portugal a si mesmo. quando recebeu a coroa. tome os compassos a Portugal e ao Mundo. e ela foi a que deu o rei ao Reino. o Reino à Pátria. nenhuma tão armada de perigos. que é o seu reino. em que o novo rei seria levantado. João. Segurou-lhes Deus as vitórias. vivi tamen spiritualiter mortuos. nobres e poderosos. É porém. para que não duvidassem cometer as batalhas: Post exortum autem Ecolesiae. e quais foram as armas com que Deus os fortaleceu para que não temessem ou duvidassem a empresa e se dispusessem animosamente a tão estranha conquista? Advertiu com profundo juízo Primásio que fora o Apocalipse de S. indubitanter aggrederentur pauci multos. que debaixo do escudo desta confiança se não intente. e muito maiores. sem socorros. fundada pelos Apóstolos. nenhuma tão defendida de dificuldades. se não prossiga. tão poderoso contra todos os impossíveis o conhecimento e fé do que há-de ser representado no espelho das profecias. revelari oportuit — diz Primásio — qualiter esset latius propaganda. se debaixo desta fé cresceu. dizendo e publicando a todos que o desejado tempo dela havia de chegar no ano felicíssimo de quarenta. se não vença. ut praedicatores veritatis. nem mais certa. e a saudade do rei. sem amigos. quae jam fuerat apostolorum praedicatione funduta. sem assistências. quando lhe acrescentou as conquistas. se exceptuarmos a desproporção de poucos a muitos. inermes armatos. a Pátria aos Portugueses. em que nunca se apagou o amor da Pátria. sem estimação. e quanto mais útil e importante esta mesma fé e conhecimento de seus futuros sucessos para aquelas empresas novas. a levantou a seu tempo nas vozes. este mesmo conhecimento os animava a quererem ser (como foram) os instrumentos gloriosos delas. infirmi nobiles. Quis Deus que a Igreja. em todos os casos maiores que podem acontecer a um reino. Em todas as outras considerações foi mais desigual esta empresa que as que eu prometo ou hei-de prometer. sem armas. sem soldados. que nenhuma empresa pode haver tão desigual. E se tanto tem valido e importado a Portugal o conhecimento de seus futuros. se não avance. a promessa que sempre a conservou nos corações. pois tudo o que tínhamos vencido e conquistado em quinhentos anos. oh! quanto mais necessário lhe será a Portugal. pois é mais forte a guerra e mais dura resistência a dos entendimentos que a dos braços.

Haud vatum ignarus. e que golpes nos pode atirar com todas as forças de seu poder. que trabalhos. que pelos fados lhe estava prometido. ao deus Vulcano lhe fabricasse umas armas divinas. posta toda a confiança em Deus e em sua palavra. este prodigioso livro do futuro. confiança e valor o peito que fosse coberto e defendido com ela. que perigos nos pode oferecer o mar. porque se não atreverão à mesma empresa. diz que abriu de subtilíssima escultura as histórias futuras das guerras e triunfos romanos. aqueles em quem o poder se iguala com as armas. como um dos deuses que era participante dos segredos do supremo Júpiter. e no escudo. as batalhas vão já vencidas e os inimigos já triunfados? Fingiu o príncipe dos poetas latinos. a terra e o Mundo. e não vença e triunfe dos mais poderosos inimigos. se as empresas no mesmo escudo vão já resolutas. venturique inscius aevi. com que vitorioso fundasse naquelas terras o famosíssimo Império Romano. as armas se ilustram com a nobreza e a nobreza compete com a estimação e com a fama. que impossíveis que não vençam? Ao conhecimento antecedente dos futuros chamou discretamente S. purgnataque ordine bella. que dificuldades que não desprezem.. nem mais impenetrável. clypeum? Armados com este escudo. que pediu Vênus. . se reparam e se rebatem: Et nos tolerabilius mundi mula suscipmus. que era a maior e principal peça delas. no qual estivessem entalhados e descritos os mesmos sucessos futuros que se haviam de obrar naquela empresa. e com ele embraçado em uma mão e a espada na outra. nem aceite as mais arriscadas batalhas. Gregório escudo fortíssimo da presciência. 8.praescientia. para conquistar as mais belicosas nações e para fundar o mais poderoso e dilatado império. Lerão os Portugueses. (Virgílio. senão 28 . que conquista haverá que não empreendam. com que entrasse armado na dificultosíssima conquista de Itália. Que vem a ser esta nossa História do Futuro. Assim armou o grande poeta ao seu Enéias . e este mesmo escudo. que um escudo formado por arte e sabedoria divina. nem que mais enchesse de ânimo. senão escudo da presciência . Fecerat igni potens: illic genus omne futurae Stirpis ab Ascanio. e na confiança das mesmas profecias. porque uma boa parte da nossa História (como veremos em seu lugar) são as do mesmo Apocalipse. ) O ofício e obrigação dos poetas não é dizerem as cousas como foram.Anexo:Imprimir/ História do Futuro felicidade e fim da empresa. com que vencesse os reis e sujeitasse as nações belicosíssimas que a dominavam. e achou o mais levantado e judicioso espírito de quantos escreveram em estilo poético. que para vencer as mais dificultosas empresas. nenhuma arma poderia haver mais forte. si contra haec per prtescientiae clypeum munimur. romanotumque triumphos. ainda que sejam poucos contra muitos? E digo na confiança das mesmas profecias. mãe de Eneias. que perigos que não pisem. e todos os que lhes quiserem ser companheiros.. compondo e copiando os sucessos pelos oráculos e vaticínios dos profetas e pelas notícias próprias que tinha. que não sustentemos nele com animosa constância? Quem haverá que debaixo deste escudo não empreenda as mais dificultosas conquistas. mas pintarem-nas como haviam de ser ou como era bem que fossem. Aeneid .Clypei non enarrabile textum Illic res Italas. em que todas as adversidades e golpes do Mundo se sustentam. Forjou Vulcano as armas. não fabuloso.

e que com os muros de Milão tinha . Quando se soube em Madrid do rei que tinham aclamado os Portugueses no primeiro de Dezembro do ano de 640. o apetite e o ódio. suponha-se que Deus é o que dá e tira os reinos. Duarte atava as mãos a Portugal e lhe tirava a cabeça com que haviam de ser governados na guerra. parecendo-lhes aos senhores Castelhanos. Sobre tudo se verão nele a si mesmos e suas valorosas ações.Anexo:Imprimir/ História do Futuro verdadeiro. Lerão aqui nossos vizinhos e confinantes (que muito a pesar meu sou forçado alguma vez a lhes chamar inimigos. quantos trabalhos. o que hão-de vencer. chamavam-lhe por zombaria rei de um Inverno. conheça-se e examine-se a sua vontade pelos meios com que ela se costuma declarar. não quero deixar de advertir por fim delas. e sem resistência. se. ceda-se e obedeça-se a Deus por conveniência. provada a verdade dos futuros com a experiência dos passados: e verão. conhecendo que na guerra que continuam contra Portugal. deixada a dissonância e escândalo deste nome. e sem ficção. para que o obrem. e não fingidos depois de experimentados os sucessos. Bem pudera conhecer Espanha. História do Futuro (Volume I. o que hão-de resolver. Imaginou Espanha que na prisão do Infante D. quanto sangue e perda de vidas. e depois de averiguada e conhecida. Oh quantos danos. em que a fama só de suas armas nos conquistasse. em que inundações do Bétis e Guadiana não afogaram a Portugal. para que o sejam. um manifesto desengano de sua profecia.) por Padre Antônio Vieira 29 Entre as utilidades próprias a dos amigos. Capítulo VII: Última utilidade. para que em tudo lhe seja semelhante. e o que hão-de ser. para o não serem) lerão aqui com boa conjectura as promessas e decretos divinos. o que nesta História do Futuro ofereço. a vingança. quisesse ler esta História do Futuro. voltando os olhos ao passado. que Deus é o que desuniu de sua sujeição a Portugal. pela experiência. o que hão-de conquistar. é publicado em sete livros. que padecê-las dobradamente na dor e inveja dos êmulos. é propriamente. com os olhos limpos de toda a paixão e afeto. ainda da mesma natureza. se quiserem abrir os olhos. Portugueses. retratem por elas vivamente os originais. para que. como é o animo com que ele se escreve! Não entre só nos conselhos de Estado a conveniência e reputação. havendo tantas razões. quantas despesas. pelejam contra as disposições do supremo poder e combatem contra a firmeza de sua palavra. que não duraria a fantasia do nome mais que até a primeira Primavera. quiserem antes ser companheiros de nossas felicidades. Dobrado de sete lâminas dizem que era aquele escudo. Mas são já passados vinte e cinco Invernos. ao nosso rei. pois se lhe não pode resistir com força. tenha também algum dia lugar neles a Fé. e Deus o que o sustenta desunido e o conserva vitorioso. e vinte e quatro Primaveras. sem conselho. como em espelho. se. e também o da nossa História. e com tanto zelo e desejo de acertar com os caminhos de seu maior bem. em que sabem muito bem os campos de uma e outra parte o sangue de que mais vezes ficaram matizados. como e quando é servido. que também a lição desta História pode ser igualmente útil e proveitosa aos inimigos. sem batalha. Nele verão os capitães de Portugal. senão escritos antes de sucederem. com estas cópias de morte-cor diante dos olhos. antevendo o que hão-de obrar. quantas lágrimas e opressão de naturais e estrangeiros podia escusar Espanha. o discurso militar e político.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro sitiado a Portugal. Morreu enfim (ou foi morto) aquele príncipe, e nem por isso desmaiou o Reino, antes se armou de novo a justiça de sua causa com a sentença daquela inocência, e se endureceram e fortificaram mais os peitos com o horror e fealdade daquele exemplo. Voltou-se todo o peso da guerra contra Saul; maquinou-se contra a vida de El-Rei Dom João por tantos meios e instrumentos (e algum deles sobre indecente sacrilégio); parecia-lhe a Castela que, faltando a Portugal aquela grande alma, seria fácil a suas águias empolgarem no cadáver do Reino. Faltou El-Rei D. João ao Reino, sobre ter faltado de antes seu primogênito Teodósio, príncipe de tantas virtudes, opinião e esperanças; mas viu o Mundo, posto que o não quis ver Castela, que era o braço imortal o que defendia e conservava aos Portugueses. Sucedeu na menoridade do rei com tanta prudência e valor a regência da rainha-mãe, e à regência da rainha o governo felicíssimo de El-Rei D. Afonso, que Deus guarde, monarca de tão conhecida fortuna, que parece a traz a soldo nos exércitos. Fez Castela neste tempo os maiores esforços de seu poder, e para os poder fazer maiores, assim como por esta causa tinha já concluído ou comprado, a preço da própria reputação, a paz de Holanda, ajustou também a de França . Desembaraçadas em toda a parte as suas armas, chamou os espíritos de todo o corpo da monarquia aos dois braços com que Castela cerca a Portugal. Viram-se juntas contra ele em um exército Espanha, Alemanha, Itália, Flandres, com toda a flor militar, ciência e valor daquelas belicosas nações. Mas que resultas foram as desta tão estrondosa potência e dos progressos que com ela se tinham ameaçado a nós e prometido a Europa? Entrou a guerra dividida no ano de 62 por todas nossas províncias; em todas achou oposição igual e efeito superior. Uniu-se no ano seguinte com novo conselho o poder; acrescentou-se de gente de cavalos , de cabos, de aparatos bélicos ; escolheu-se para teatro daquela formidável campanha a província de Alentejo; começou a tragédia com prósperos e alegres passos, triunfando dos que não podiam resistir às armas castelhanas; mas o fim foi tão adverso, tão lastimoso e verdadeiramente trágico, como viu com admiração o Mundo e chorará eternamente Castela. Perdeu a batalha, o exército e a reputação; deixou a Portugal a vitória, a fama, os despojos, e só levou (como sempre) o desengano. Estes têm sido em vinte e cinco anos os efeitos do poder. Passemos aos da indústria. Entendeu Castela que não podia conquistar a Portugal sem Portugal; tratou de inclinar à sua devoção os grandes e os menores. Na constância houve diferença, mas nos efeitos nenhuma. O povo, cuja fortuna é inalterável, não padeceu alteração. Sendo tão livre e aberto em Portugal o mar como a terra, se não viu em tantos anos nenhum pastor que se passasse a Castela com duas ovelhas, nenhum pescador menos venturoso que aos seus portos derrotasse uma barca. Basta por exemplo ou desengano a famosa resolução do povo de Olivença , que com partido de poder ficar inteiro com casas e fazendas, se não achou em todo ele um só homem de espírito tão humilde, que aceitasse a sujeição. Perderam todos a Pátria pela lealdade, triunfou Castela das paredes e Portugal dos corações. Não viu Roma semelhante exemplo, e assim o celebrou um Jerônimo Petrucho poeta romano, com este epitáfio: Victor uterque manet, victoria dividit orbem: Alphonsus cives, saxa Philippus habet. Ainda deu muito a Castela em partir a vitória pelo meio: o vencedor conquistou pedras o vencido vassalos. De indústria se pudera perder á praça, só por lograr a fineza; e de indústria se pudera também não ganhar, só por não experimentar o desengano. Isto vence

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro Castela, quando vence. e assim se rende o povo de Portugal, quando se rende. A nobreza, em que tem maiores poderes o receio ou a esperança, como mais escrava da fortuna, não foi toda constante. Alguns grandes houve entre os grandes, uns que se passaram ao serviço de El-Rei D. Filipe, outros que com maior ousadia o quiseram servir em Portugal; a uns e outros castigou o mesmo braço da Providência, a estes com a vida, àqueles com o desterro. Até agora não tiveram outro prêmio, nem mereciam outro, porque Castela nem pode ressuscitar os primeiros, nem quis pagar os segundos. É fama que foi respondido à sua queixa que tinham feito o que deviam, mas ainda devem o que fizeram: cá perderam o que tinham, lá não ganharam o que esperavam; entre os Portugueses réus, entre os Castelhanos portugueses, que também é culpa. Isto é o que foram buscar a Castela todos os que lá se passaram — o desengano de seu discurso, o descrédito de sua resolução e o castigo de sua incredulidade; e ainda de lá nos mandam o exemplo de seu arrependimento. Levaram o que nos não faz falta, porque se levaram; e deixaram o que nos ajuda a defender, porque nos deixaram as suas rendas. A Portugal deixaram os despojos de suas casas, aos vindouros a memória de sua infidelidade e ao Mundo pregão de sua covardia. Tal foi o merecimento, tal o prêmio. Julgue agora Castela se terá esse interesse cobiçosos e este empenho imitadores. Dizia um dos primeiros embaixadores de Portugal em França (quando ainda havia quem impugnasse a esperança da nossa conservação), que, no caso em que a desgraça fosse tanta, antes se havia de entregar ao Turco que a Castela. Era o embaixador ministro de letras, e como um grande senhor francês lhe pedisse a razão deste seu dito, sendo católico e letrado, respondeu assim: -Porque eu em Turquia, se defender a Fé, serei mártir; se renegar, far-me-ão baxá: e em Castela Monsieur, nem baxá nem mártir. Foi muito celebrada a discrição da resposta, a que acrescentava galantaria a mesma pessoa do embaixador; porque era mui avultado de presença e tão bem lhe podia estar na cabeça o turbante, como na mão a palma. Nada mais venturosamente lhe sucederam a Castela as indústrias estrangeiras que as domésticas. todas desarmou em armas contra si mesma. Em Roma, impediu o provimento das mitras. mas os bagos se converteram em lanças e o que haviam de comer os pastores das ovelhas, comem os que as defendem dos lobos. Em Holanda, comprou os estorvos da paz, mas esta se retardou somente quando foi necessário para se recuperarem as Conquistas. Caso grande e de providência admirável! Em Inglaterra, se empenhou por divertir o parentesco; em França, capitulou que não pudéssemos ser socorridos. mas teve uma e outra diligência tão contrários efeitos, que se vêem hoje em Portugal as suas quinas tão acompanhadas das cruzes de Inglaterra, como assistida das lises de França. Unidas e complicadas estas três bandeiras, fazem um silogismo político, de tão segura como terrível conseqüência. Se só Portugal pôde resistir a Castela tantos anos, ajudado dos dois reinos mais poderosos da Europa, no mar e na terra, como não resistirá? O maior contrário que tem Espanha é o seu próprio poder. Quando se quis levantar sobre todos, se sujeitou à emulação de todos. Estes terá por si Portugal, enquanto ela for poderosa; se o não for, não os há mister. Os discursos da esperança (que é a última apelação de Castela) são os que mais lhe mentiram, porque os homens (quando assim lho concedamos) discorrem com a razão, e Deus obra sobre; ela. Todos os que nas matérias de Portugal se governaram pelo discurso, erraram e se perderam; e por aqui se perderam (ainda entre nós) os que na opinião dos homens eram de maior juízo. São obras e mistérios de Deus; quer Ele que se venerem com

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro a fé e não se profanem com o discurso. Por isso todas as esperanças que se assentaram sobre esta fé foram certas e todas as que se fundaram sobre o discurso, erradas. É natureza isto, e não milagre da palavra e promessa divinas: ...in verba tua super superavi — dizia aquele grande político de Deus, que não só esperava, mas sobreesperava nas promessas de sua palavra divina; porque há-de esperar nas promessas da palavra divina, sobre tudo o que promete a esperança do discurso humano. Assim o temos sempre visto em Portugal, com admirável crédito da fé e igual confusão da incredulidade. No tempo em que Portugal estava sujeito a Castela, nunca as forças juntas de ambas as coroas puderam resistir a Holanda; e de aqui inferia e esperava o discurso que muito menos poderia prevalecer só Portugal contra Holanda e contra Castela. Mas enganou-se o discurso. De Castela defendeu Portugal o Reino e de Holanda recuperou as Conquistas. Aquele fatal Pernambuco, sobre que tantas armadas se perderam e se perderam tantos generais, por não quererem aceitar a empresa sem competente exército, que discurso podia imaginar que, sem exército e sem armada, se restaurasse? E só com a vista fantástica de uma frota mercantil se rendeu Pernambuco em cinco dias, tendo-se conquistado pelos Holandeses com tanto sangue em dez anos, e conservando-se vinte e quatro. Menos esperava o discurso que se conquistasse Angola com tão desigual poder enviado a tão diferente fim; e conquistou-se contudo aquela tão importante parte de África contra todo o discurso e antes de toda a esperança. E porque se saiba mais distintamente quão grandes significações se contêm debaixo destes nomes tão pequenos — Pernambuco e Angola — o que se recuperou em Angola foram duas cidades, dois reinos, sete fortalezas, três conquistas a vassalagem de muitos reis e o riquíssimo comércio de África e América. Em Pernambuco recuperaram-se três cidades, oito vilas, catorze fortalezas, quatro capitanias, trezentas léguas de costa. Desafogou-se o Brasil, franquearam-se seus portos e mares, libertaram-se seus comércios, seguraram-se seus tesouros. Ambas estas empresas se venceram e todas estas terras se conquistaram em menos de nove dias, sendo necessário muitos meses só para se andarem. Quem nestes dois sucessos não reconhecer a força do braço de Deus, duvidar-se pode se o conhece. Assim assiste a Portugal dentro e fora, ao perto e ao longe, aquele supremo Senhor que está em toda a parte e que em todas as do Mundo o plantou e quer conservar. Bendita seja para sempre sua onipotência e bondade! Também esperava o discurso de Castela que os ânimos dos Portugueses, com a continuação da guerra e experiência de suas moléstias, se enfastiassem e suspirassem pela antiga e amada paz, cujo nome é tão doce e natural, e mais à vista de seu contrário; que as contribuições forçosas para o subsídio dos soldados e a licença e opressão dos mesmos soldados fossem carga intolerável aos povos; que os povos, depois de apagados aqueles primeiros fervores que traz consigo o desejo e alvoroço da novidade, com o tempo e seus acidentes se fossem entibiando, até se esfriarem de todo; que os pais se cansassem de dar os filhos e que a guerra detestada das mães (como lhe chamou o Lírico) fosse também detestada e aborrecida das Portuguesas, que, entre as outras mães, o costumam ser mais que todas no amor e na saudade. Mas também aqui mentiu a esperança e se enganou o discurso, porque os ânimos se acham hoje mais alentados, os fervores mais vivos, os corações mais resolutos, o amor ao rei, à Pátria e à Liberdade mais forte, mais firme e mais constante, e maior que todos os outros afetos da fazenda, dos filhos, da vida. Lembram-se os pais que davam os filhos para as guerras de Flandres, de Itália, de Catalunha e navegação das Índias de Castela, onde os perdiam para sempre; e querem

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Mas Deus (a quem não queremos roubar a glória) e a mesma experiência natural e o concurso ordinário de suas causas. que com igual alegria os choram e sepultam mortos gloriosamente na guerra. humana ou gentilicamente considerado. todo o pensamento que não seja desta perpetuidade. havendo de sustentar as guerras e oposição de seus inimigos em todos eles. Conhecem a grandeza desta estimável felicidade. cercado dela por todas as partes. não tendo minas nem Potosis. natural e necessariamente se havia de atenuar e enfraquecer. sem mais diligência nem ação que o mesmo peso e grandeza de tão imenso contrário. e não entrando na conta desta aritmética o poder e assistência de Deus. Verdadeiramente este discurso. que os entende e o entendem. ruína. e que não era possível aturar por muitos anos as despesas excessivas de uma guerra interior. Pelo contrário. porque sabem quanto maiores e mais pesadas são as que se pagam em Castela para os conquistar. do que eles em Portugal para se defenderem. e que então era tributo do cativeiro o que hoje é preço da liberdade. horror. mas para o verem por fé. toda a conveniência. como Reino menor e dividido em todas as partes do Mundo. e o que só pode esperar dos ânimos dos Portugueses. sendo toda da mesma Nação.Anexo:Imprimir/ História do Futuro antes dá-los para as fronteiras de Portugal. E por tal julgaram ainda aqueles políticos que sem ódio nem amor esperavam e prognosticavam o fim e mediam a desproporção de tão desigual empresa. seria como o de Eleázaro contra a grandeza e corpulência do elefante. que o dinheiro e cabedais. e antes da experiência mui dificultosa solução. se havia de esgotar. tão viva e tão multiplicada em tantas províncias. que os ouve e lhes responde. honrando-se (como é razão) de serem pais de tais filhos. aquele discurso. rei que os vê e se deixa ver. Finalmente. seria sobre ele. contra os combates de uma potência tão desigual e superior como era a do maior monarca do Mundo. que. que quando o valor dos Portugueses se atrevesse sobre suas forças. e que logram aquele estado ditoso de que se lembravam e falavam seus avós com tanta saudade e por que suspiravam seus pais com tantas ânsias. para o remédio da opressão. e vêem estampados seus nomes e estendida por todo o Mundo sua fama. e que o têm consigo e junto a si para o requerimento da justiça. não para o verem e lhe falarem. os assistem e os têm consigo. têm mostrado que só era sofístico e aparente. para o alívio da queixa. sendo tão generosas as mães (nas quais este afeto é superior a toda a natureza). todo o perigo obrigação. tão contínua. e ficaria oprimido e sepultado debaixo de seu próprio triunfo. e todo o preço para a conservação de tanto bem lhos parece barato todo o trabalho leve toda a dificuldade suave. e toda a mudança impossível. toda a promessa. Vêem o fruto de seus trabalhos e suores. sem a dura e insuportável pensão de o irem buscar a Madrid. e que concorrem com ele para o estabelecimento e honra de sua Pátria. que os conhece e lhes sabe o nome. têm rei que lhes pague as vidas com larga remuneração de mercês e aumento de suas casas. que a gente. Os povos não se cansam com os subsídios e contribuições. se morrem na guerra. onde os vêem. traição. 33 . com obrigação de alimentar aqueles membros tão distantes com sua própria substância. esperava o discurso que Portugal. tinha mui forçosa conseqüência. Têm na memória que também antigamente pagavam. onde recebem a glória de ouvir celebrar as ações de seu valor e feitos galhardos. e em realidade falso. ainda caindo. para o prêmio do serviço. se havia lentamente de diminuir. do que os parem e criam para ela. Isto é o que só tem Castela. e não para a cobiça de ministros e exatores estranhos. sobretudo vêem a seu rei da sua Nação e da sua Língua. e que.

é tanta a cópia de alimento. que capela. Que templo. que os danos da necessidade. que no seguinte se não pusesse outro maior. sempre mais e maiores exércitos. e desposas dela. desfazendo-se e arruinando-se (com lástima) obras antigas e de grande arte e preço. nunca tantos criados. não têm padecido a quebra e diminuição que o discurso lhes prognosticava. Nunca tanto se gastou no primor e preço das galas. nunca tão grandes mercês. estes os Potosis de Portugal. como do coração. e que se vestem mais para triunfar que para vencer. e estas são as minas do nosso Reino. tão reais e tão sumptuosas festas. tanta era a variedade das cores com que os terços se matizavam e distinguiam. nenhum ano tão bizarro e tão luzido. com que se acha Portugal mais rico e abundante que nunca das utilíssimas drogas de seus comércios. a pompa. se pode haver falta no necessário. se admira na pacífica das cidades. Com a guerra. nunca tantas fábricas. nunca tanto no asseio e ornamento das casas. que no seguinte se não excedesse na bizarria e nas galas. mais florente e opu1enta que no princípio da guerra. que foi o último.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Porque as Conquistas (que era o primeiro reparo). recebem os espíritos de que se animam. assim próprios como particulares. tanto aparato. se não pudera alegar por testemunhas os mesmos que podiam ser partes. e se sustentam todos os anos. tanta família. O ano passado. mais ricas. ao mesmo passo parece que ou crescem ou se manifestam novos tesouros. que santuário. mais preciosas e de mais polido artifício? Tudo isto do que sobeja da guerra. quando a Primavera se acabou nos campos. nunca tantos e tão magníficos edifícios. crescendo mais os empenhos sempre. Mas por isso sobeja. Destes comércios lhe vêm as riquezas com que pode pagar e premiar 34 . nunca tão grandes dotes. antes se prova com evidente e milagrosa demonstração da experiência. O menor gasto nos vestidos é o que se veste. mas lhe sobeja com que se sustentar a si e a todo o corpo. A vulgaridade do ouro e prata só se estima pelo invento e pelo artífice. As usuras de Deus são cento por um. tantos cavalos. riqueza e galhardia dos cabos mostra bem que vão às batalhas como a festas. O mesmo que se vê na política bélica das campanhas. mais se gasta em cobrir os vestidos que em cobrir os corpos. que não só tem suficiente matéria para formar os espíritos que com os membros mais distantes reparte. com o tempo c continuação da guerra. tão notáveis por seu nome é grandeza como bizarros por seu luzimento. o certo é que as rendas e cabedais do Reino. nunca tanto na abundância e regalo das mesas. Diga agora o algarismo de seu discurso. com que se sustentaram até agora. porque só o silêncio os pode explicar. que neste mesmo tempo se não renovasse. onde sobeja e se dispende tanto com o supérfluo? Mais temo eu a Portugal os perigos da opulência. Nenhum ano se pôs em campo exército tão grande. e tão abundante. nunca tantas. E a verdade desta experiência se tem provado com mais sensíveis efeitos depois da paz universal das mesmas Conquistas. não encarecer. que tudo quebranta e diminui. cresceu e se aumentou tudo em Portugal. para que pela divisa se conhecessem os soldados e ostentassem a competência de seu valor. nunca tão grandes salários. só para se lavrarem outras de novo. E ou seja esta a causa natural. que altar. que a substância do Reino está hoje mais grossa. as quais com igual liberalidade e interesse remetem hoje ao Reino toda aquela substância que o calor da guerra própria lhes consumia. Não me atrevera a falar com tanta largueza. que eles mesmos com suas riquezas lhe subministram. pois. nunca tão grandes soldos. ainda que do Reino. e não pelo preço. se renovou outra vez no nosso exército. ou outra mais oculta e superior. Passo em silêncio os imensos gastos do serviço e majestade do culto divino. membros tão remotos e tão vastos deste corpo político de Portugal.

sem injúria dos soldados. por cada cabeça que corta a guerra em uma campanha. exército e florentíssimo exército. sem serem os Portugueses dentes de Cadmo. ou servir e merecer de novo. que mareavam suas frotas. que a mentira da virtude. nem arado. mais freqüentadas suas estradas. que é a senhora da prata e de quem a recebe o resto do Mundo? Cuidou Castela que a Portugal havia de faltar o dinheiro. e os mesmos que então se retiravam da guerra. brotam dois na Primavera. que não se alistassem nela senão mancebos livres. no princípio da guerra. e sempre mais numeroso e florente em Alentejo. abertas e cultivadas. nascidos e criados entre o mesmo estrondo das armas. e não trazidos por força de Sicília. pela vida. ou vêm requerer o prêmio de seus antigos serviços. sem adultério dos metais e sem hipocrisia da moeda. que freqüentavam seus portos. saiba que a sua reparação foi o primeiro princípio deste aumento. As Conquistas com a paz não levam. outros para pelejarem sem amor e com valor vendido. e lei prudentíssima. onde nada lhes é estranho. e vê em si o que cuidou de nós. e por cada ramo que faltou no Outono. todos dentro em si e nas mesmas províncias e climas. per coedes ab ipso. onde nunca entrou ferro. Todos os Portugueses que povoavam suas Índias. que lavravam seus campos. e poucos os que chegam. e o habitam e o enchem e o multiplicam. e assim como o seu discurso errou as contas ao dinheiro. muitos filhos por indústria dos pais se acolhiam na menoridade ao sagrado do matrimônio. e parece que foi posto em nossos tempos mais para declarar o vício da moeda. Assim se converte e se multiplica em nova substância tudo o que come a guerra. que militavam seus exércitos. e até as serras. comprados e conduzidos com imensas despesas e perigos. Com verdade se podia dizer de Portugal o que dos Romanos disse o seu poeta: Per damna. exército em Trás-os-Montes. e não falsificadas. E: se Castela quer conhecer as causas naturais desta filosofia. Ou tenha Portugal a qualidade da hidra ou a natureza das plantas. também as errou à gente. em que o pelejar e o morrer não é acidente senão natureza. com que as famílias se multiplicavam infinitamente. de Milão e de Alemanha. como passam. aparecem na seguinte duas. como quem defende o alheio e conquista o que não há-de ser seu. Ducit opes. e assim se vêem hoje mais povoados seus lugares. uns para se passarem logo. que inteiravam seus presídios. Desta maneira se acha Portugal cada dia mais fornecido de muitos e valentes soldados. e cada um por sua própria casa e fazenda. com grande vantagem de coração pelejam pelo rei. que. a Portugal. pela honra. pelo contrário. lagos e terras. pela Pátria. Assim se foram dobrando e crescendo sempre os nossos presídios. nem hão mister socorros. mais lavrados seus campos. Bem sabem os doutos que o nome grego hipocrisia se deriva do fingimento do melhor metal. Os Portugueses. têm hoje muitos filhos com que a sustentam e os sustentam com ela. A sombra desta imunidade. sendo a maior comodidade da guerra e multiplicação da gente a mesma estreiteza do Reino (que o discurso mal avaliava). Quem pudera nunca imaginar que chegasse a tal estado uma monarquia. e justificar com os olhos do rei e do Reino as certidões mais seguras de seu valor. assim os nossos exércitos: exército no Minho. animumque ferro. de Nápoles. por benefício da qual os exércitos e províncias se podem dar 35 . ficam hoje dentro em Portugal. que trafegavam seus comércios. pela liberdade. sendo muitos os que se alistam e pagam. brenhas. Foi lei.Anexo:Imprimir/ História do Futuro seus exércitos e com que os prêmios e as pagas sejam verdadeiras. antes delas os recebe o Reino com muitos e valentes soldados e experimentados capitães. exército e dois exércitos na Beira.

Levantem pois os reis e os reinos os olhos. Aqui verás os futuros de Portugal. bem pudera eu esperar do juízo mais político de nossos competidores e seus conselheiros. nem alguém pode duvidar da fé. profetizando a uns sua exaltação e a outros sua destruição e ruína. e se perdem. et dissipes. Oh quantas guerras. mas nunca mais certamente falsas. e se despenham. ficando oprimido com a sua própria vitória. para que arranques. obedeceriam com suma reverência aos divinos decretos. mas está certo que lhe há-de suceder como a David com o gigante. abateriam a Deus. religião e piedade espanhola. a profecia de Miqueas. rei de Israel. Se Acab. História do Futuro (Volume I. Estão os profetas e as profecias sobre às gentes e sobre os reinos. Levantou Deus no Mundo a Jeremias por seu ministro. temera. para que. acabassem de desistir de tão infrutuosa porfia. em que tão . et destruas. et aedifices. et plantes: «Hoje te ponho e constituo sobre as gentes e sobre os reinos. Não duvido. na mais levantada fortuna. ou quantos tesouros baldados poderiam poupar os reis. Mas deixados à parte os argumentos da razão e experiência. aparelhem-se sem remédio para sua ruína. ouçam-me agora como cristão a católicos. a indústria. e perecem muitos. crelam sem dúvida sua conservação e aumento: Ecce constitui te super gentes et super regna. e se os virem estrelas. e se dizem que se hão-de estabelecer e exaltar. por isso erram. que quando se opõem e encontram com as promessas divinas. Isto é o que eu agora lhes quero persuadir e demonstrar. plantes e edifiques a outros. Sempre são falsas e enganosas as esperanças humanas. e se até agora me ouviram como homem a racionais. oh quanto sangue. tocariam a recolher seus capitães e exércitos e confessariam.» Não quer dizer Deus que Jeremias há-de arruinar ou edificar reinos com a espada. ainda que tremulassem vitoriosas suas católicas bandeiras. e a comissão e ofício que lhe deu foi esta: Ecce constitui te hodie super gentes et super regna. pelo conhecimento de nossos futuros. mas que os há-de arruinar ou edificar com as suas profecias. e aparecendo em toda a parte (como alma de Dido) aos Castelhanos com novo horror e assombro. se os virem cometas. destruas e dissipes a uns. logrando vivo a glória de seu triunfo. o discurso e esperança espanhola. a desigualdade de sua maior potência contra os acenos da divina. Se as profecias resolutamente dizem que os reinos se hão-de perder ou arruinar. Capítulo VIII: Continua a mesma matéria) por Padre Antônio Vieira 36 Desenganado por estas evidências o poder. olhem para estes sinais do céu. desistira da conquista de Ramoth Galaad. ou como cometas tristes e funestos. se no meio de seus conselhos pudessem pôr um espelho em que se vissem os futuros! Tal é este livro. e logo advertirá a vaidade do que suas esperanças lhe prometem. que. como devia temer. ou como astros benignos que influem e prometem suas felicidades. esperem. e tudo o que podes esperar dele em sua conquista. e multiplicando-se por este modo um soldado em muitos soldados. possam emendar o engano de suas esperanças presentes. subamos um ponto mais alto.Anexo:Imprimir/ História do Futuro as mãos umas a outras. ut evellas. e um dos fins principais por que escrevo esta História. que também a ti dedico e ofereço. Desta maneira não teme o valor português que lhe suceda como a Eleázaro com o elefante. Veja e saiba Castela o que Deus tem prometido a Portugal. Mas porque muitos reis esperam de onde deviam temer. temam. se o seu católico príncipe e seus maiores conselhos se acabassem de persuadir que Deus tinha decretada a conservação e perpetuidade de Portugal. pelejando os mesmos soldados quase no mesmo tempo em diversos lugares. que influem e ameaçam suas ruínas. ó Espanha.

sem partido. e assim o provou com admirável consonância o cumprimento delas. será remido por um não esperado. pela mesma profecia que Jeremias e pelas de outros profetas. fora cobiça e não razão tê-las por falsas na promessa da liberdade. et non vinceris. não esperadamente. Dilectus es Domino. quando por sua própria pessoa quis fundar o Reino de Portugal. No juramento autentico de El-Rei D. porque o redentor. em um dia perdeu a batalha. ajuntando-se às outras de Espanha. quis antes experimentar a fortuna da guerra que vir a honestos partidos com os Assírios. em que se conta o miraculoso aparecimento de Cristo. que o cativeiro e sujeição dos Israelitas que ele tinha debaixo de seu império não queria Deus que durasse mais de sessenta anos. Que diferente foi o de Ciro. Assim o diziam as profecias. sua. Só faltou para total semelhança do caso de Babilônia e para imortal glória do Ciro de Espanha que a ação fosse voluntária e não violenta. e foi ocasião desta sujeição . a conquista a coroa a vida. sed in ipsa 37 .e destes gemidos ficar o Reino órfão de seus reis. sed propitius tibi Deus insperate ab insperato redimet: «Portugal por orfandade do sangue de seus reis. não quis o mesmo Deus que fosse perpétuo. e que sua coroa. E tanto que estes se acabaram (sendo gentio idólatra). estivesse sujeita a rei estranho.Anexo:Imprimir/ História do Futuro teimosamente insistia. religloso português da ordem de S. senão dos mesmos Israelitas. porque. tendo-as experimentado verdadeiras na sentença do cativeiro. mas esta sujeição e este castigo. Mas vamos às profecias do cativeiro e ao termo dos sessenta anos dele. quando Deus tinha limitado anos ao castigo. porque os dois últimos — D. Oh que caso tão parecido ao nosso caso! Oh que ação tão digna de se santificar e fazer cristã. Henrique — faltaram sem deixar sucessão. são bem notórias aquelas palavras mandadas anunciar ao rei pelo mesmo Senhor. gemerá por muito tempo. in qua atteniabitur proles. S. porque gemeu por espaço de sessenta anos debaixo da sujeição de Castela. posuit enim super te et super semen tuum post te oculos misericordiae suae usque in decimam sextam generationem. passando-a de um rei gentio a um rei católico! Quis Deus por seus altos juízos que Portugal perdesse a soberania de seus antigos reis. mas porque quis antes esperar. e remido por um não esperado. Sebastião e D. (de cujo espírito profético se dará notícia em seu lugar) diz assim: Lusitania sanguine orbuta regio diu ingemiscet. sem obrigação nem reconhecimento. e não dos Portugueses. Não podem as armas dar a vitória a Acab quando nas profecias está segura Ramoth.» Gemeu Portugal muito tempo. mas porque El-Rei Sedecias. era outro e não el-rei D. como não devera nas promessas e lisonjas vãs de seus aduladores. porque dispôs com tão notáveis sucessos a execução de sua liberdade e foi remido não esperadamente. vinces. João o IV. Domingos. sem interesse. mas Deus lhe será propício e. e que este termo e limite fosse o espaço só de sessenta anos. porque muitos não esperavam. pelo qual geralmente se esperava. fiado na potência de suas armas. Clamava a profecia de Jeremias ao rei e príncipes de Jerusalém que se acomodassem com Nabucodonosor contra o qual não podiam prevalecer. prevaleceram estes enfim como o profeta tinha prometido. os restituiu todos livres à sua pátria. Afonso Henriques. prudente e famoso rei de Babilônia! Entendeu este mesmo excelente príncipe. senão por tempo determinado e limitado. antes desesperavam desta redenção. Contentou-se o gentio com o que Deus se contentava e não quis perpetuar a servidão. com o recado de que lhe queria aparecer: Domine bono animo esto: vinces. Creu as profecias sem serem suas ou de seus oráculos. mas foi-lhe Deus propício. e o rei conheceu tarde a temeridade de seu conselho. Frei Gil.

que no Céu lhe pagará. S. Afonso IV. El-Rei D. 16. não será porém tão comprido o prazo deste castigo. em uma carta escrita a El-Rei D. 11. tornaria Deus a por seus olhos nela. 6. vencereis e não sereis vencido. 9. Por outros modos também verdadeiros se faz esta mesma conta.» Até aqui a divina promessa. salvo se pela graveza de culpas por algum tempo o castigar. João. sois amado de Deus porque pôs sobre vós e sobre vossa descendência os olhos de sua misericórdia até a décima sexta geração. 15. que quase não necessita de explicação. 2. D. A décima sexta geração de El-Rei D. o II de Bragança. 13. Afonso III. Bernardo. D. atenuada no décimo sexto rei. Duarte irmão menor de D. Duarte. D. D. que chegue a termos de sessenta anos. Fernando. Rei D. sendo restituída (como foi) ao Duque D. D. conservada em muitos arquivos deste Reino e divulgada fora dele muitos anos antes da nossa restauração: «Dou as graças a Vossa Senhoria pela mercê e esmola que nos fez do sítio e terras de Alcobaça para os frades fazerem mosteiro em que sirvam a Deus. como se devem contar. João. mais fácil e mais conforme à mente da profecia e às circunstancias em que naquela ocasião se falava. Afonso V. Sebastião. a respeito das cousas presentes e futuras do Reino. 7. Henrique. e fio tão delgado e atenuado como era a única casa de Bragança. com quem tinha particular e íntima amizade e correspondência. Neste último rei se atenuou a descendência. 4. Mas neste fio único e tão delgado se veio a verificar que. o IV de Portugal e décimo sétimo dos reis portugueses descendentes do primeiro Afonso. Pedro I. profetizou com admirável clareza o termo dos sessenta anos de castigo e a continuação e sucessão de reis portugueses. Afonso Henriques. 3. na qual se atenuará a mesma descendência. mas este temos por mais natural. D. D. o qual em recompensação desta. Afonso II. Dinis. El-Rei D. João III. D. cujo cumprimento é tão manifesto. Manuel. 13 de Março de 1136. El-Rei D. porque nela se restituiu a coroa que Cristo então lhe dava. Sancho II. El-Rei D. 14. Henrique. Bernardo». porque ainda que não quebrou de todo. estai de bom animo: vencereis. Afonso Henriques. 8. 38 10. mas nela atenuada tornará a pôr seus olhos. João I. E1-Rei D. El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei D. me disse lhe certificasse eu da sua parte que a seu Reino de Portugal nunca faltariam reis portugueses. Afonso Henriques (contando as gerações. como se vê pelo catálogo seguinte: 1. descendente do infante D. Sancho I. depois da descendência de El-Rei D. 12. El-Rei D. 5. . De Claraval. João II. de rei a rei e de coroa a coroa) foi o Cardeal D. ficou por um fio. El-Rei D.Anexo:Imprimir/ História do Futuro attenuata ipse respiciet et videbit: «Senhor. A carta é a que se segue. antes e depois dela. Henrique.

com que enriqueça e sublime sua coroa e amplifique o império de sua monarquia. trataremos larga e particularmente no cap. nem duvidou de o demitir de seu império. mas também se cumpriu muito pontualmente que o castigo não chegaria a termo de sessenta anos. que fazem 59 anos e cinco meses menos alguns dias. como S. como sucedeu ao mesmo Ciro. e que se havia de chamar D. do tempo em que havia de faltar a coroa. e que neste seria levantado pelos Portugueses rei novo. e de tanto rendimento e obediência a Deus. que sem dúvida deviam ser muito grandes. Finalmente. como se verá no mesmo lugar. e por um reino de tão poucas léguas de terra. nas Cortes de Tomar. Tão liberal é Deus com os príncipes que não regateiam reinos nem estados com Ele. Quanto mais que por este ato de consciência. Outra carta temos do mesmo santo escrita ao mesmo rei. religião e cristandade. temer justissimamente que à resolução e porfia contrária sucedam 39 . rei ambicioso. o meu Cristo. porque El-Rei D. e por este Reino que Castela restituir ou consentir a Deus (pois Ele tem já restituído). Por aquele ato de generosidade e desinteresse. reparem seus prudentes e católicos conselheiros que o não era menos naquele tempo. e que esta sujeição havia de ser a Castela. qual era o de Judéia (igual com pouca diferença de Portugal). porque se não hão-de conformar os homens com seus soberanos decretos? E porque se não hão-de contentar com o que Deus se contentou? Porque se não verá no católico Ciro de Espanha um ato de tanta justiça e generosidade. em I3 de Dezembro de 640. podendo de outra maneira (para que não calemos esta verdade). e que havia o Reino de gemer debaixo da sujeição estranha. muitas pessoas (de cujo espírito. Bernardo tinha profetizado. e que naquele ano seria levantado novo rei de Portugal e que este se chamaria D. como o mesmo Ciro reconhece havê-lo recebido da sua mão. e que o termo destes sessenta anos havia de ser no ano de quarenta. João o IV. dá em prêmio e recompensa a monarquia de todo o Mundo! Tais são os interesses (quando houvera algum maior que o de obedecer a Deus).Anexo:Imprimir/ História do Futuro A condicional do castigo cumpriu-se por nossos pecados. João: as profecias o disseram e os olhos o viram. porque hão-de querer e porfiar os homens em que o seja? Se Deus limitou esta sujeição ao termo de sessenta anos. como se viu no Ciro de Babilônia? Se Deus lhe deu o usufruto de Portugal por prazo somente de sessenta anos. com todas as outras circunstâncias tão miúdas e particulares. em 26 de Abril do ano de I58I. Pois se Deus não quis que a sujeição de Portugal a Castela fosse perpétua. que Espanha podia esperar do desinteresse deste ato. ou sessenta anos não completos. e sua liberdade. e pelo merecimento deste obséquio e rendimento à-vontade divina lhe deu Deus em um dia o império dos Assírios. arrogante e gentio. El-Rei D. o meu ungido. nas cortes de Lisboa. que era a primeira monarquia e universal do Mundo. a respeito dos sucessos futuros de Portugal. em que dá outro sinal manifesto (e também já cumprido). o meu Ciro. IX deste livro) não só predisseram a sujeição do Reino a Castela. nem menos conhecido e celebrado no Mundo o reino de Judá. De maneira que por todas estas profecias consta claramente que ao Reino de Portugal haviam de faltar os reis portugueses e que esta falta havia de suceder no décimo sexto rei descendente de El-Rei D. e que não havia de durar mais que sessenta anos não completos. e que Ciro. que lhe chamava o meu rei. Afonso Henriques. que adiante poremos. foi Ciro tão amado de Deus. porque se há-de querer chamar ao domínio e prescrever contra o Céu? Se lhe parece cousa dura arrancar de sua coroa uma jóia tão preciosa como o Reino de Portugal. lhe pode Deus dar outros maiores e mais dilatados. e estes são acabados. mas que o fim de uma e princípio de outra havia de ser sinaladamente no ano de quarenta. João. Filipe o II foi jurado por rei de Portugal.

diz: O Rei do Céu me deu e fez senhor de todos os reinos do Mundo e ele me mandou que lhe edificasse casa em Jerusalém. a este gênero de preceito assim escrito. e são o exórdio de sua história: In anno primo Cyri. «No ano primeiro de Ciro.. é o que Ciro. rei dos Persas (quem assim começou a reinar não podia deixar de ter tão felizes progressos). como era demitir de si um povo e um reino tão notável. a seus conselhos e a seus letrados ponderem. Deus Caeli. et traduxit vocem in omni regno suo. Não teve Ciro outro preceito ou mandado particular de Deus (como notam todos os expositores) mais que as profecias em que estava anunciado que. sendo reis e possuindo os reinos. dicens: Haec dicit Cyrus. levantou Deus o espírito de Ciro. o mesmo Deus seja com ela. rei dos Persas. ainda quando fosse seu indubitavelmente? Mas o que eu só quero ponderar. Quis est in vobis de universo populo ejus? Sit Deus illius cum ipso. rex Persarum: omnia regna terrae dedit mihi Dominus. Se Espanha se quiser ver e compor a ele. e não me creia a mim. aqueles principalmente que. Siga-se a sua doutrina e não a minha advertência. não queira imortalizar seu nome e religião com outro decreto semelhante. Leiam este decreto os reis e monarcas do Mundo. veja quão legitimamente está restituído por elas. havia de ser o reino e povo hebreu libertado do cativeiro de Babilônia e restituído à sua Pátria. e a estas profecias chama o rei sem fé preceito de Deu. com tão pouco respeito ao mesmo Deus e à mesma graça armam seus exércitos contra os alheios. etiam per scripturam. senão a seus próprios doutores e aos que mais duramente têm impugnado em nossos dias esta parte e defendido a contrária. 40 . rei dos Persas (que só podia fazer uma ação tamanha e tão real um rei de espírito e espíritos mui levantados por Deus). imitação e memória. o segundo Baltasar e o terceiro Ciro. por um ato de justiça. cap. quae est in Judaea. e maior lástima será ainda que. posto algum rei católico na mesma ocasião. Quero pôr aqui as palavras do Texto Sagrado. E já a ordem das cousas naturais as teve menos dispostas a uma grande ruína. leia as profecias que neste livro vão escritas e já cumpridas. e mandou apregoar em todos seus reinos por escrito firmado de sua mão este decreto: «Ciro.ut cornpleretur verbum Dominini ex ore Jeremiae. no fim de sessenta anos.». de que ele já era o terceiro possuidor. etc. porque não dará Ciro um reino a Deus. et ipse praecepit mihi ut aedificarem ei domum in Jerusalem. porque o primeiro foi Nabucodonosor. Lástima é que semelhante escritura não fosse de rei católico. I. ascendat in Jerusalem. regis Persarum. o rei e reino de Portugal. coroa e liberdade. suscitavit Dominus spiritum Cyri. e se pode tornar livremente para Jerusalém.. Não sei que possa haver mais claro espelho do nosso caso. e obedeceu com efeito. em que Ciro faz desistência do reino de Judéia e deixou aquele povo em sua liberdade. como dizem em suas provisões por graça de Deus. julgou que tinha obrigação de obedecer. por serem mui dignas de toda a ponderação. Se por um ato de justiça. chama preceito de Deus neste seu edito. e observou em matéria tão grave e de tanto peso e interesse de sua coroa. conforme o decreto ou preceito divino. para se dar cumprimento à palavra divina declarada nas profecias de Jeremias. Dizem assim no I Livro de Esdras. ambição e desobediência também poderia tirar outra. regis Persarum. posto que não intimado com outra autoridade ou solenidade. pelo que toda a pessoa que houver em meus estados pertencente àquele povo e reino. Se Deus deu tantos reinos a Ciro. cabeça de Judéia. e peço por reverência do mesmo Deus aos Reis Católicos. rei não católico.Anexo:Imprimir/ História do Futuro efeitos também contrários. desinteresse e obediência dá Deus uma monarquia.

e para que o mesmo rei ungido e eleito justifique sua jurisdição e se tenha por príncipe legítimo e chamado por Deus ao governo. justifique su vocacion con algunas profecias y senales de lo que le ha de succeder despues de ungido. digale el Senor a que hora vendrá el dia siguiente. Pues para cosa tan grande. e não profecias daquele dia. ou três circunstâncias em uma. que para historiar o de Saul impugnando a eleição de El-Rei D. Três cousas requer Palafoz. não só futuras. de tan rara y de tales y tan graves dependencias. rigorosa e provada profecia. cujo nome se dissimula. sendo ditas como as de Caifaz. damos a Palafoz profecias. senão algumas. assim como estavam preditas e profetizadas. diabólico ou angélico. me parecem ditadas por algum espírito e intento superior. com tão diverso e contrário intento. bispo de la Puebla de los Angeles. e sua mesma acusação seja um testemunho público e mais qualificado da justiça e justificação de nossa causa. que a profecia não seja só uma. buelva otra vez Samuel a la oracion. João de Palafoz e Mendonça. llevele a su casa. que são as condições que propriamente se requerem para a verdadeira. como se vê em tantos lugares. Frei Gil. e todas públicas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro D. diz assim: Hazia-se una mudança tan grande en Israel. que havia durado quinjentos años. haver profecia de ser Saul o destinado por Deus ao império. unjale. com maior elegância que decência. senão trinta profecias. E tais são as que pouco antes alegamos porque as últimas havia cem anos que estavam escritas. Afonso Henriques mais de quinhentos. como as de Samuel foram três. suceda la profecia buelva-se otra vez dezir que aquel es el hombre. y se tenga por principe legitimo y llamado de Dios al gobierno. Verdadeiramente estas palavras do bispo Palafoz: Cum esset pontifex anni illius. que essas profecias sucedam. do conselho supremo de Aragão na sua História Real Sagrada. el destinado al império. porque o afeto lhe fez corromper a pureza de seu estilo. João o IV. e ponderando augusta e doutamente os sinais com que se havia de justificar para ser legítima e de Deus. coh que el Profeta quede con quietud y sossiego de que áquello le mandò el Senor. trezentos anos e as de S. e que só podem ser ditadas e inspiradas por aquela sabedoria eterna a quem os futuros são presentes. que as tinha visto e lido. y ungido. senão de cento. Se Palafoz pede que a profecia não seja só uma senão algumas. fossem verificadas no mesmo príncipe e no mesmo Reino que ele queria impugnar e destruir. as de S. para que. segunda. autênticas e justificadas com o testemunho universal do Mundo. Bernardo e de El-Rei D. de trezentos e de quinhentos anos antes. as quais se poderão ver no cap. E quais são estas três cousas ou circunstancias? As mesmas que intervieram e sucederam na eleição e unção de Saul: Primeira. Se Palafoz pede profecias. 41 . que nenhum entendimento humano. y elegido jostifique la jorisdiccion. podia tantos anos prever nem conhecer sem revelação de Deus. conozcale y reconozcale. el que antes era compañero avian de venerarlo por rey. que ayer era subdito y labrador. y começar el de los Reyes escogiase para principe un hombre. para que a vocação do rei se justifique ser de Deus e para que os ministros que o ungiram (como Samuel e Saul) fiquem com quietacão e sossego de ser aquele o que Deus mandou ungir. como acabarse el gobierno de los Juezes. escrita. e três vezes trinta. mas de futuros livres e contingentes. como as de Samuel. mais para contradizer o novo Reino de Portugal. que são as mais qualificadas e livres de suspeita. não só damos a Palafoz três profecias. porque tantas são (se bem se distinguirem e contarem) as cousas diversas e profetizadas que ali se referem todas. duerman y piensem sobre ello. VI deste anteprimeiro livro. terceira. vayanse a sus casas los Israelitas.

põe as trovas seguintes: Vejo. com cujo efeito. E se o verdadeiro profeta e primeiro autor desta profecia é Santo Isidoro. João. en que a mi parecer se dixo mucho ha. o estoy sonando?) Simiente de rey Fernando Hazer un forte despejo. e comentando à margem o seu mesmo texto.» Até aqui no corpo do livro. para se justificar superabundantemente. vejo. muito acomodada e muito bem deduzida.. Y dexar acá sua viña Y decir. arcediago de Cuellar na igreja de Segóvia. Afonso Henriques. mas a explicação é muito própria.] tengo notada una. se irá cada dia confirmando reais e mais a mesma verdade. y [. tal a de El-Rei D. 42 .. seu restaurador. Isidoro. porque temos mais qualificado autor e mais autorizado profeta. tanto melhor. que foi seu neto Filipe II. esta casa es miña. com grande quietação e sossego dos ânimos.desta manera tuvo yo noticia de [un çapatero en Portugal que fue tenido por propheta. Finalmente. A tradução não é muito limada. e não duvidando que dele falavam e dele se haviam de entender. I. do Rey vejo (Vejo. D.Anexo:Imprimir/ História do Futuro como é sentença comum dos teólogos e se provará larga e demonstrativamente em seu lugar. além de muitas outras que estão ainda por cumprir. no seu Tratado de la verdadeira y falsa profecia. bastando e sobejando a décima parte das profecias já cumpridas. como se tem visto foi princípio muito conveniente à ordem dos mesmos sucessos começar pela sujeição do mesmo Reino a Castela. porque.. e tal a de El-Rei D. algumas delas cumpridas antes da restituição e coroação de El-Rei D João IV. Mas vejamos de caminho que é o que diz Santo Isidoro. E seguir con gran desejo. VI se verão as mesmas profecias declaradas e ajustadas com o sucesso. Tal foi a eleição de Saul. semente de El-Rei D. e como avalia esta ação do rei. Fernando. João de Horosco e Covarrovias. diz assim: — «. que se lerão no discurso desta História. conforme a doutrina de Palafoz. Liv. sendo o intento e o assunto ou tema daquela profecia predizer os sucessos futuros de Portugal depois de sua restauração. con harta particularidad. el aver de jutar-se aquel reyno de Portugal con el nuestro.. y era aver leydo en] algunas prophecias como las de S. de que se não deve duvidar (como também provaremos). outras no mesmo caso e circunstancias de sua restituição. que não façam menção delas seus autores. aplicando-as a primeira parte deste mesmo caso nosso. fundador do Reino de Portugal. e as demais desde aquele tempo até o ano de 663. e não outro. Não deixarei também de lembrar aqui que não são tão novas e desconhecidas em Castela as profecias ou esperanças de Portugal. se Palafoz pede que as mesmas profecias sejam provadas e confirmadas com o sucesso assim antes como depois de o rei ser eleito e ungido no alegado cap. e pela entrada dos reis castelhanos em Portugal. cap IV. En que aora acà me vejo. como de príncipe notoriamente chamado e destinado pelo mesmo Deus ao império. que a vocação daquele rei foi de Deus mandada e ordenada por ele e que a sua jurisdição é verdadeira e legítima.

por antonomásia chamado o Rei Católico. um rei que era descendente de Fernando. ou lhe chama também forte. Até aqui podia chegar a loucura e a cegueira de um mal aconselhado príncipe: crer a verdade das profecias. que nem Ele pode mentir. senão visão verdadeira. no ano de quarenta. Senhores. e logo armou contra Ele a crueldade de seus exércitos. será indigno de todo o juízo porfiar ainda contra elas depois de tão conhecidas. que porque vos vedes metido na casa alheia. porque não hão-de crer os Horoscos e Covarruvias castelhanos nesta segunda parte da mesma profecia. se isto. como se dissera: Forte cousa é. Rei católico e descendente de católico. em que agora cá me vejo». do rei vejo. digo. mas ainda esta conseqüência é mais forte. Em seu lugar. e que. e este mesmo Santo Isidoro diz que o Reino se há-de restituir outra vez. razão foi também que os fizessem despejar. E pois o meterem se os Castelhanos em Portugal foi despejo. porque foi despejo armado de poder e de exércitos. e este mesmo texto. Manuel e filha herdeira do Infante D. e não entendo agora como. Diz o Doutor Horosco e Covarrovias que nesta profecia está profetizado con harta particularidad. ainda duvida se era visão ou sonho: Vejo. são profecias. Ora. não são profecias?! Não o havia de julgar o mesmo Horosco e o mesmo Covarruvias. Mas que efeito tiveram ou que façanhas obraram os exércitos de Herodes? Contra o rei e contra o reino que pretendia estorvar. como tenho prometido. Sei eu e sabe Portugal. Conhecia Herodes a verdade das profecias. Este é o fim sem outro fruto de tão desesperadas resoluções: sangue inocente derramado. Basta. posto que visão de um caso tão dificultoso de crer. sem mais razão nem justiça que meter-se nela e dizer: «Esta casa é minha. que em tom castelhano quer dizer desverguença. o lugar do nascimento do Rei profetizado. quanto cuidado lá davam antes deste tempo e quanto temor se tinha de nossas profecias. nem esta ilação a que eu quero inferir. queixas. Duarte. 43 . em conseqüência. depois delas cumpridas e qualificadas com tão maravilhosos efeitos se lhos tem perdido a reverência. ou estou sonhando? Mas o efeito mostrou que não era sonho. e alegado o mesmo doutor. inquiriu por elas o tempo. e devendo preceder a todos os pretensores da coroa. e não (como devera ser) de justiça. que nenhum ódio nem interesse possa negar que são de Deus. nenhuma cousa. nem o julgou assim o mesmo Santo Isidoro. e chamar-lhe despejo forte. assim pelo direito comum da representação. vejo. nem nós o podemos enganar. Mas não é este o meu intento. que não admitem à sucessão príncipe estrangeiro. quando as profecias de Portugal profetizam que Portugal se há-de ajuntar a Castela. neta legítima de El Rei D. acabemos de crer a Deus. que depois de a estar vendo com espírito profético. Bem dito.Anexo:Imprimir/ História do Futuro O nome que dá a esta ação Santo Isidoro é chamar-lhe despejo. está bem profetizado. João. Mas se este mesmo autor. lágrimas. se viesse por força introduzir na casa alheia. vejo. porque às cousas feitas sem razão chamamos forte cousa. e que o seu rei se há-de chamar D. e Castela também o sabe. Forte despejo foi aquele. e esperar prevalecer contra elas por força de armas. haver de juntar-se aquel reino de Portugal con el nuestro. se verá tão demonstrada a sua verdade. por isso haveis de dizer: «Esta casa é minha»?! Não debalde o santo arcebispo se espanta tanto de uma tal ação. e despejo grande que estando em Portugal a senhora Dona Catarina. e quando profetizam que Portugal se há-de tornar a separar de Castela e se há-de restituir à sua liberdade. Só se afogou Belém em sangue e nadou em lágrimas. e com muito maior particularidade. e profetizado no mesmo livro e no mesmo tempo. assim como creram na primeira? De maneira que. só se ouviram em Ramá e no Céu as queixas e lamentações de Raquel. como pela leis particulares do Reino.

e conhecerá quão impossível é a empresa a que aspira. porque não conquistaram a Ramoth? Perguntem a Benedad. com partido tão desigual. senão porque estava escrito? Porque ontem. Jerusalém com uma profecia de Isaías. acabe de entender Castela quem defende Portugal e contra quem peleja! Com mui desigual inimigo se toma. Pelejem primeiro contra a firmeza da palavra de Deus batam. quem quer guerrear contra Deus! 44 . acabe de entender que não peleja contra Portugal. vencer em batalha os nossos exércitos. apartando os olhos por um pouco de Portugal. Não há muro tão gastado da Antigüidade e tão fraco em Portugal. e aos trinta e dois reis que o acompanhavam. escalar e arruinar as nossas muralhas. e conquistaram nas outras três partes do Mundo. senão porque estava escrito? Porque. com todo o estrondo de tantos mil carros de guerra e tão inumeráveis exércitos de pé e de cavalo. bater. abalem. que com um punhado de terra que cada um lançasse sobre ela (como eles diziam) a podiam sepultar? Perguntem ao soberbíssimo Senaquerib vencedor de tantas nações. minar. em cujas pedras não esteja escrito com letras de bronze: Verbum Domini manet in aeternum. que esperança ou desesperação é pretender conquistar a Portugal? Oh. Samaria com uma profecia de Eliseu. ouçam também as nossas. sendo tanto o número de seus soldados. e tirar dele a Júpiter pois saibam que mais fácil será conquistar Europa. verba autem mea non praeteribunt. derribem. Considere Castela contra quem peleja. bem pode ser. senão dos próprios vassalos. a que o seu general chamou castelos de Milão. o Céu. Reparem os famosos capitães de Castela e considerem seus prudentíssimos e experimentados conselheiros. pelo mesmo espírito. Vassalos eram do mesmo Herodes todos os que morreram em Belém: cobriu de luto o reino próprio. do que vencer e sujeitar Portugal. tão novas e tão poderosas nações. sendo de inferior autoridade. porque não chegou a meter uma seta dentro dos muros de Jerusalém? Porque Ramath estava defendida com uma profecia de Miqueas. e escalaram com tanta facilidade aquelas montanhas ou muralhas da natureza. se se acham seus exércitos com forças e poder bastante para conquistar Europa. que. sacudiram tão feliz e animosamente o jugo. na Ásia e na América. na África. Mas deixados exemplos das Escrituras e profecias canônicas. Porque puderam romper os Portugueses os claustros impenetráveis do Oceano. senão porque estava escrito? Pois se a conservação. como depois se verá. clamores. o Mundo e o mesmo Céu empíreo. porque estava destinado por Deus ao domínio de seu verdadeiro Senhor e firmado com sua palavra. a liberdade e perpetuidade. as vitórias e outros maiores triunfos de Portugal estão também escritos com as mesmas letras e ditados pelo mesmo espírito. porque uma e outra vez não conquistaram Samaria. e não pôde atalhar com tantos rios de sangue os progressos do que procurava impedir. romperam um tão luzido e poderoso exército formado mais de capitães que de soldados. defendido e armado como está com as promessas divinas: Coelum et terra transibunt. também foram ditadas. Perguntem a El-Rei José e a El-Rei Acab com as forças de dois tão poderosos reinos unidos. tantas. mas fazer brecha na firmeza da palavra divina é impossível. estando sujeitos a Castela e debaixo de seus presídios. desfaçam este castelo. em Portugal. então poderão conquistar Portugal. e em um dia restauraram sua liberdade. rei de Síria. Talar as nossas campanhas. sendo um Reino tão pequeno. para sujeitar todas as quatro partes do Mundo e ainda para escalar. senão contra a firmeza da palavra e promessas divinas. como filhos do Sol.Anexo:Imprimir/ História do Futuro lamentações. na memorável batalha do Cano. e depois dele rendido. sitiar as nossas cidades. e não dos outros.

mas comparado o de Aquiles com o de Páris. quando escreveu aquela história: Induravit Dominus cor Pharaonis. acompanhado de Apolo mais forte é o de Páris. nem escurecer a grandeza de sua potência. Comparado o braço de Páris com o de Aquilles. o que Ele levanta. nem ainda resistir? Este é aquele braço onipotente. que força dá que possa prevalecer. Se Deus o deu. Notem muito estas últimas palavras os reis e seus conselheiros: At illi egressi erant in manu excelsa. naqueles mesmos campos e naquela mesma província onde todos os anos trabalham e batalham os homens pelo derribar. nenhum poder humano pode prevalecer. mas não foi menos honra e autoridade de Castela. mas a espada de Gedeão maneada pelo seu braço e pelo de Deus. senão é que o juízo divino os leva ao Mar Vermelho e os chama lá alguma oculta fatalidade. et persecutus est filios Israel. assistida deles. só Ele o pode derribar. como o podem os homens desfazer? Se Deus o levantou. falemos e ouçamos como católicos. O que Deus faz. regis Egypti. tão conhecida do Mundo todo e tão temida e reverenciada de seus inimigos e invejada de seus êmulos. como o podem os homens tirar? Se Deus o fez. Dizem as fábulas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Não é nem pode ser nossa intenção diminuir as forças de Espanha. só Deus o pode desfazer. que fosse necessário o braço de Deus a Portugal para se libertar da sua sujeição. quanto mais contra toda a mão. juntamente: Gladius Domini et Gedeonis. que quando Páris houve de ferir mortalmente o impenetrável corpo de Aquiles. Mas é força que ela e nós confessemos que são maiores os poderes de Deus. Se a mão do Altíssimo é a que assistiu aos libertados. a desigualdade de Portugal pode resistir e prevalecer contra Espanha. mas contra o Senhor dos exércitos. Senhores meus. E verdadeiramente foi grande dureza de entendimento imaginar Faraó que podiam prevalecer seus exércitos contra um dedo da mão de Deus. que tira os poderosos do trono e levanta a ele os humildes ou os humilhados. mão por mão e braço por braço. pois chega a o confessar. com significação não fabulosa mas verdadeira. quão gravemente se ofende Deus de que ninguém presuma cativar a quem ele liberta. Contra o braço estendido de Deus. como lhe tem resistido e prevalecido em tantos anos. como fez naquele dia. e que. pelo desfazer e pelo tirar a quem foi dado. Grande glória é de Portugal ter em seu favor o braço de Deus. como o podem os homens derribar? E se Deus prometeu que 45 . at illi egressi erant in manu excelsa. Assim lho remoqueou Moisés. Bem sabe Castela (sinal é que o sabe bem. o estamparam assim seus escritos) bem sabe Castela (digo) que Portugal com singularidade única entre todos os reinos do Mundo foi reino dado. é certo que a imagem de Cristo crucificado despregou publicamente o braço as portas daquele santo português que tem por graça própria sua recuperar o perdido. cavalarias e exércitos contra eles. Bem se viu neste caso. bastou para livrar o povo de Israel do poder do grande rei Faraó o dedo de Deus. mas contra a espada de Gedeão e de Deus. O dedo de Deus é este — lhe disseram os seus sábios: Digitus Dei est hic. Contra a espada de Gedeão naturalmente parece que haviam de prevalecer os exércitos madianitas. quando eles saíram do cativeiro. uniu o deus Apolo a mão de Páris com a sua e ambas juntas dispararam a seta fatal. em vão se cansa Faraó em tirar carruagens. feito e levantado por Deus. Menos que o braço e menos que toda a mão de Deus. Não peleja Castela só contra os exércitos de Portugal. Desengano. e no mesmo ano em que Portugal se havia de levantar. tão horrendo. Não foi só a espada de Gedeão a que com tão poucos soldados venceu os exércitos dos Madianitas. mais forte é o de Aquiles. No dia memorável da restituição de Portugal (ou fosse milagre ou mistério).

que não estime e venere uma tal ação pela mais cristã. mais prudente. as palavras com que se retirou. 46 . quanto sangue que ao depois se derramou estivera guardado nas veias ou se tivera de uma e outra parte empregado em serviço daquele grande Senhor. Como se não estivéramos no mesmo Mundo em que ontem o mesmo monarca cedeu às Províncias Unidas dos Países-Baixos todos aqueles estados de que com tão diferentes direitos era herdeiro e legítimo senhor! Mas para o nosso caso não são necessários exemplos. as trincheiras entradas. quando o duque-general. o exército desbaratado. nenhum juízo haverá no mundo católico. que não tem resposta. pelo qual o meu nome seja levado às nações estrangeiras. contra o qual não valem mãos nem validos? Contra a evidência e fé desta razão. Dizem que não convém à reputação do grande monarca das Espanhas desistir da empresa de Portugal. Na prodigiosa batalha das Linhas de Elvas. ainda quando houvesse muitos deuses.como o poderá ser de outrem? E se Deus prometeu de o estabelecer — stabilire. os esquadrões rotos.como o podem os homens arruinar? Acabem de conhecer os que se prezam de conhecer a Deus. E quando concedêssemos aos políticos que. foram: — Contra Dios no valen manos. os que seguirem os ditames deste conhecimento. como tão prudente e tão católico capitão. tão verdadeiro e tão evidente se seguira desde aquele dia. antes se ganha a maior e mais qualificada de todas. como há quem tanto à vista dos olhos de Deus queira triunfar sobre suas promessas e irritar seus decretos? Até a superstição dos Gentios conheceu a conseqüência desta verdade. se viu tão inopinadamente de conquistador. conquistado. por racionais e por conselheiros. nem ainda gentílico. Se Deus o fundou em nós — in te — quem o poderá arrancar de nós? Se Deus o quis para si –mihi. os fortes rendidos. que não seja o mesmo Deus. nunca se perde nem pode perder reputação. obedecer a Deus e não resistir à sua vontade conhecida. só o mesmo Deus os podia arruinar. em nenhum caso da paz e recíproca desistência das armas esteve mais segura e mais honrada a reputação de Espanha e de seu grande monarca. político. e quero em ti e em teus descendentes fundar um império para mim. Se este ditame tão são. mais justa. disse: Ego aedificator et dissipator regnorum alque imperiorum sum. porque é diverso de todos e de superior hierarquia. para vaidade fantástica da opinião. aparecendo e falando ao seu primeiro rei. que o possa desfazer e dissipar? Ponderem-se muito aquelas três cláusulas — in te mibi stabilire. Naquela noite em que Cristo por sua própria Pessoa fundou o Reino de Portugal.Anexo:Imprimir/ História do Futuro na décima sexta geração atenuada poria os olhos nela para o restituir. e tenham-se por homens. que funda e desfaz os reinos e os impérios e com tão especia1 solenidade fundou por sua própria Pessoa nos reis portugueses de Portugal. mas pelo que dirá o Mundo. e que os reinos fundados por um Deus.:» Se Deus é o monarca supremo e universal. a que os homens com nome especioso e significação verdadeira infernal chamaram reputação. Esta foi a teologia com que os dois príncipes dos poetas no incêndio e destruição de Tróia introduziram ao Deus Neptuno. Volo enim in te et in semine tuo imperíum mihi stabilire ut deferatur nomen meum in exteras nationes: «Eu sou o fundador e destruidor dos reinos e dos impérios. batendo com o tridente os muros que ele mesmo tinha fundado. que no da guerra presente. primeiro ministro de Espanha. costuma atravessar o Demônio aquela torpeza do Inferno. Pelo mesmo fundamento e único em que se funda todo este discurso. se deviam arrastar tantos respeitos sólidos e verdadeiros. se a reputação consiste no juízo dos homens. nem têm lugar. não pelo que ele é. em ceder. quem haverá. porque. que são homens. como eles falsamente ensinam.

Seguiram-se bravas guerras entre um e outro partido. que desse liberdade ao povo de Israel. David. Propôs Abner aos tribos que a vontade de Deus era que David fosse rei. e terá enquanto durarem os Livros Sagrados. de néscio. e que debaixo dela. senão que o não conhecia. Assim como o vassalo nunca pode perder a honra e reputação. achá-la-emos. e não hei-de demitir a Israel. mas honrada a mesma honra. como o tinha declarado o profeta Samuel.» Não disse que não queria obedecer a Deus. e o fim notável em que vieram a parar foi que os onze tribos deixaram a Isboseth e voluntariamente se entregaram e sujeitaram todos a David. a reputação que granjeou com aquela teimosa resolução é a que hoje tem no Mundo. nem ainda o mesmo Isboseth. como acabamos de ver. que havia tantos anos tinha debaixo de seu domínio. segurá-la e acrescentá-la muito.. nem conselheiros. e depois inteirou-lhe Deus o império e reinou sobre toda a Judéia.Anexo:Imprimir/ História do Futuro mais generosa. senão ganhá-la em obedecer ao rei. sendo ao parecer tão indignas as condições da paz. ainda que seja tão bárbaro e arrogante como Faraó e em matéria de tanto peso e interesse. mas em seu reinado lho dividiu Deus. que ontem era seu vassalo. nem vassalos que repugnassem ou respondessem. 47 . a honra e a reputação de todos estava tão empenhada. não só ficava salva a honra e a reputação. o tribo de Judá seguiu as partes de David. passando todo a David. no supremo domínio de Deus. e os outros onze tribos obedeceram e juraram por seu rei a Isboseth. senão ganhá-la. Seu filho Salomão logrou o mesmo império inteiro pacificamente. de bárbaro. mais heróica de quantas honraram a memória dos maiores príncipes. ainda que se perdesse o mesmo estado. Depois da morte de El-Rei Saul. assim o rei nunca a pode perder em obedecer a Deus.. como Senhor absoluto dos reinos e dos impérios. que nenhuma razão de estado a pode justificar. e deu parte dele a Jeroboão. Mas que razões tão fortes e de tanta eficácia foram as que representou Abner para persuadir e concluir tão breve e subitamente um negócio tamanho. como demitir de si o domínio de uma nação inteira e tão populosa não pode duvidar de obedecer e se sujeitar à sua vontade. porque entenderam que o interesse de obedecer a esta razão era o maior de todos os interesses. começou com parte do reino de Israel. ela se ajustou em um dia sem o mediador Abner sem haver em todos os doze tribos um só homem que falasse uma palavra em contrário. Resistir a uma razão tão evidente como a que diz — assim o quer Deus — . filho herdeiro do rei defunto. que ficara privado do reino de seu pai. sem muito cavar. porque o príncipe que conhece a Deus. e contra esta proposta não houve rei. o que respondeu foi: — Nescio Dominum et Israel non dimittam: «Não conheço esse Deus. E porque Faraó o não fez assim. em que os interesses. duraram sete anos.quoniam locutus est Dominus. e a maior circunstancia do caso é que. e muito mais a do mesmo rei? A razão foi uma só e esta que estou alegando: . ainda que gentio e sem conhecimento de Deus. Quando Moisés foi notificar da parte de Deus a El-Rei Faraó. de obstinado de ímpio rei e de inimigo e destruidor (como foi por isso mesmo) de seu império. E se buscarmos a raiz desta verdadeira razão. Seu neto Roboão entrou no império também inteiro. que. os pode dar e tirar inteiros quando lhe parecer. é tão indigna e tão afrontosa resistência. e também dividi-los e parti-los quando é servido.

é sempre verdadeira. que os profetas são os que dividem os reinos e os que os repartem: eles os dividem primeiro. os do tio com os do sobrinho. se lhe deixa dez? Oh! como se pode temer que chame Deus ingratidão ao que os homens chamam reputação! A maior reputação de um príncipe que conhece a Deus e reconhece seu supremo domínio. quem pode fazer e apertar a guerra. é dizer como Héli ainda quando se visse despojado de tudo: Dominus est. Ó poderosíssimo monarca Filipe IV. não de meu discurso. porque se não contentaria o Roboão de Espanha. nos maiores anos ainda é incomparavelmente maior. quando lhe tire o mesmo Dono um reino. E se esta razão. Seu filho Filipe III logrou o mesmo império inteiro pacificamente. Abraão. e mandar embainhar a espada a Pedro. Note-se aqui. foi a maior glória do poder supremo. Pelejaram os pastores de Abraão com os de Loth. mas em seu reinado lho dividiu Deus. e destas doze deu dez a Jeroboão. quanto mais no caso presente. que ficou a Roboão juntamente com o de Judá. porque não poderá Deus partir também a sua. sabe O que conhece os corações. e parte a El-Rei Roboão. que não se escrevem com 48 . Mas se em toda a idade tem decência e decoro a gentileza desta resolução. sempre é generosidade. e depois Deus executando. honra. nem pode exceder um príncipe essa mesma fortuna mais que não querendo o que pode. Poder pôr em campo doze legiões de anjos. ainda em termos tão apertados. Filipe II começou a reinar com parte. senão porque a quer dar. não quis pelejar sobre a terra. quod bonum est. senão de meu desejo. cortar um retalho para vestir e coroar outro? Ah! se os reis e monarcas considerassem que as púrpuras que vestem lhas . para que representem o papel de reis enquanto ele for servido! E se o Roboão de Israel se contenta com que lhe tirem dez partes do Reino e lhe deixem uma (assim o diz expressamente o Texto Sagrado: Porro una tribus remanebit ei. é o maior seguro de sua reputação! Pedir paz quem se não pode defender da guerra. O grande poder é muito confiado. em sinal de que Deus o queria fazer rei de dez tribos de Israel. que foi o que apartou a demanda.empresta Deus da sua guarda-roupa. quando os anos o chamavam mais para o Céu. não porque a há mister. e não poder querer o que Deus não quer.Anexo:Imprimir/ História do Futuro O mesmo sucedeu ao império de Espanha nos últimos três reis dela. e da púrpura inteira que tinha dado ou emprestado a um rei. em que a grandeza de Espanha e sua potência. e note-se muito. poderá ser menor crédito. E se o profeta Ahías pôde partir a sua capa e dar parte dela a El-Rei Jeroboão. As vozes de que eles se formam. e deu a Portugal a parte que lhe pertencia. e depois com a união e sujeição de Portugal. e se o Roboão de Israel (como dizia) se contenta com que lhe tirem dez tribos e lhe deixem uma só parte. mas dar a paz. profetizando. in oculis suis faciat. reputação e glória.era outro Algarve em respeito de Portugal). o Grande! Dai licença para que tenham entrada a vossos ouvidos os ecos destas últimas cláusulas. ainda é um ponto mais alto sobre a grandeza. Não pode dar mais a fortuna a um príncipe que poder o que quer. porque o tribo de Benjamim. por sua pouquidade não fazia número . Seu neto Filipe IV entrou no império também inteiro. inteirou-lhe Deus o império de toda Espanha. tomou o profeta Ahías a sua capa cortada em doze partes. Antes do Reino de Israel se dividir entre Reboão e Jeroboão.

E seria grande desgraça perder o Reino eterno por um temporal já perdido. Com esta obra tão consumada. perdidos pela desatenção dos ministros ou pela intenção (que será pior) dos políticos. nem das vossas teme. porque vive fora da jurisdição da fortuna. lhe ofereceu o reino que lhe não podia dar. Que se não derrame sangue cristão. a vos dizer de longe o que pode ser não tenhais ouvido de mais perto. Ouvi. o que ainda se pode derramar. as interpretações podem ser da lisonja. e hoje é também vosso (posto que não vassalo) por afeto. nem ele havia de fazer. desinteressado vassalo que foi já vosso por sujeição. Senhor. Grande sinal é de predestinação de um príncipe que faça Deus por ele as restituições que nem seus predecessores fizeram.Anexo:Imprimir/ História do Futuro outro fim mais que o de O agradar. e faça-se tudo diante de vossos olhos antes que os fecheis. Não se pode pagar a Deus o que é de Deus. sem dar a César o que é de César. este o troféu maior de vossas vitórias. Senhor. Com todo este desinteresse me atrevo. pois sempre prezastes mais o de católico que o rei. maior sereis no fim dela se ao de Grande acrescentardes o de Justo. Deixai a paz por herança a vossa esposa. como o Reino de Portugal e suas Conquistas: basta haver-se de dar a mesma conta de Ormuz. Se vos parece amargoso este trago. mas ponham os reis diante dos olhos as letras e as balanças de Baltasar e examinem eles se os seus maiores se governaram pelos pareceres dos letrados. ou os letrados pelos interesses dos reis. História do Futuro (Volume I. Senhor. e depois deste texto e desta interpretação. o signo debaixo de que nascestes — e seja este o último suspiro do meu afeto: nascestes no dia em que morreu o Rei dos reis e Monarca supremo do Mundo. Com uma inclinação da cabeça podeis deixar pacificado o Mundo. foi saber morrer. seja parte do sacrifício a repartição das vesti duras e leve embora a túnica aquele a quem coube em sorte. e sobre cristão espanhol. e de que todo os príncipes católicos O agradem. Senhor. Não duvido. podeis entregar a alma segura nas mãos do Padre. Os textos são da justiça. e por coração muito acima dela. pois é aquele de que mais puramente se alimenta a Santa Madre Igreja e de que cabeça dela recebe os espíritos com que vivifica e anima seus mais distantes membros. O tratado de uma boa e justa paz podia ser uma bula de composição geral. com que coroou todas as suas. a voz de um estrangeiro. do Brasil. Felicidade é levar já abatida das contas que se hao-de dar a Deus uma partida tão grossa. gostai o fel e não o passeis da boca. que segurem e justifiquem as causas e tão dilatada e cruel guerra. Não queirais levar sobre vós e deixar sobre vossos filhos. vosso avô. por ama de tanto sangue derramado. para dar exemplo de morrer a príncipes. Declara-se o modo com que se pode conhecer e saber os futuros) por Padre Antônio Vieira 49 . com que se levassem purgados todos estes encargos. que tereis conselheiros de grandes letras. que é rei e Senhor. Capítulo IX: Verdade desta História. Com um texto santo mal interpretado quis o Demônio despenhar a Cristo. de Ceilão. Ouvi a voz de um homem que nem das felicidades de Portugal espera. por estado muito abaixo da sua roda. Lembro-vos. firmai o título de rei com o de católico. A maior façanha de Carlos. o que só importa. Esta será a maior prenda do vosso amor. Merecestes na vida o título de Grande. de Malaca. Ponde os olhos neste soberano exemplar.

nemo vidit fratrem suum. foram aquelas do Egipto. e porventura impossível na História do Futuro.factum est verbum Domini in manu Aggaei prophetae. alumiados e guiados da mesma luz os que não somos profetas. Por isso os Profetas na Sagrada Escritura se chamam por antonomásia Videntes. o que eles viram e conheceram com a sua. as quais devemos observar e atender. o sol que há-de amanhecer é o cumprimento delas. e tal a escuridade do futuro. sed Spiritu Sancto inspirati locuti sunt sancti Dei homines — diz S. o que só agora podemos e devemos fazer é levar a candeia das profecias diante. E enquanto este sol.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A primeira qualidade da história (quando não seja a sua essência) é a verdade. será razão que. sosseguemos o escrúpulo ou receio (quando não seja o riso e o desprezo) dos que assim o podem imaginar. e veremos o que neles se passa... e porque esta parecerá muito dificultosa. e 50 . de que se pode dizer com toda a razão: Tenebrae erant super faciem abyssi Mas neste mesmo abismo de trevas. como ali não faltou: Spiritus Domini ferebatur super aquas. não aparece. Serão pois as primeiras fontes desta nossa História. Nesta propriedade fala a Escritura. Confesso que entramos em um caos profundíssimo e escuríssimo. saberá contudo onde há-de pôr os pés. Tais são as trevas. também se podem aproveitar da sua luz os que se chegarem a ela e a forem seguindo. quando e a quem é servido: Non enim voluntate humana allata est ali quando prophetia. havendo a nossa História de caminhar por passos tão escuros e dificultosos. et facta est lux. cui benefactis attendentes. antes que vamos mais por diante. quasi lucernae lucenti in caliginoso loco. e com a sua luz (ainda que luz pequena) entraremos no lugar caliginoso e escuríssimo dos futuros. e os porá mui seguros. E geralmente das profecias de todos os profetas: Sicut locutus es de manu puerorum tuorum prophetarum. pois a matéria é tanto para crer. Trevas que faziam horror. As maiores trevas que se viram no Mundo. não duvidamos da pia afeição de todos. e muitos passos nelas. e ninguém as pode ver senão alumiado da mesma luz. e far-se-á o que só Ele pode fazer: Fiat lux. quando diz da profecia de Ageu: . Lugar escuro e caliginoso é o futuro. para que. Este é o modo com que. trevas com que nada se via e trevas com que se não podia dar passo. Pedro: Mas ainda que a candeia esteja na mão de outrem. possamos entrar com eles no lugar escuro e caliginoso dos futuros e ver e conhecer com a luz não nossa. até que amanheça o dia». De maneira que pôs Deus a profecia como candeia na mão dos profetas. a candeia que alumeia são as profecias. E da profecia de Malaquias: Onus verbi Domini ad Israel in manu Malachiae. Pedro nos ensinou a entrar nestas trevas sem medo. justo é que lhes mostremos primeiro os motivos da credulidade. e a dar passo. e a ver claramente e com maior certeza tudo o que elas encobrem: Habemus firmiorem propheticum sermonem. se o espírito do Senhor (como esperamos) nos não faltar com a sua assistência. ou com que o Mundo se não viu. não coroa os nossos montes. Eu conheço e confesso que a não tenho. porque com o lume da profecia entravam nos lugares escuríssimos e secretíssimos dos futuros e viam neles claramente aquelas cousas para que todos os outros homens são cegos. E pois pedimos aos leitores o assento da fé. usando delas como de candeia luzente em lugar escuro e caliginoso. porque só Deus a pode dar e a dá. donec dies elucescat: «Temos — diz o Príncipe dos Apóstolos — as profecias e palavras certíssimas dos profetas. Contudo. que será muito formoso e alegre. e tão sua. das quais diz o Texto Sagrado: Factae sunt tenebrae horribiles in universa terra Aegypti. nem basta estudo ou diligência alguma para a alcançar. e dizendo humilde a Deus com David: Lucerna pedibus meis verbum tuum. et lumen semitis meis. dirá Deus o que so Ele pode dizer. seguindo sempre os raios deste farol divino. nec movit se de loco in quo erat. o Apóstolo S.

Eclesiastes. os Cantares e o Apocalipse. devemos recorrer e buscar a verdade e notícias da nossa História nos autores dos tempos futuros. e todos os outros. scrutantes in quod vel quale tempus significaret in eis spiritus Christi praenuntians eas quae. Assim como a filosofia de princípios naturais evidentemente conhecidos tira conclusões certas. Pedro que os Profetas antigos. também científicas e ainda mais certas. de princípios sobrenaturais não evidentes mas certissimamente conhecidos. Deus. Josias. inferindo e acrescentando tudo aquilo que por conseqüência e razão natural se segue e infere dos mesmos princípios. muito louvável e muito recomendado do mesmo Mestre Divino e seus sucessores. no qual modo de fábrica se não perde a primeira verdade dos fundamentos. não só as naturais. Esdras e Macabeus. Sobre estes fundamentos da primeira e suma Verdade entrará o discurso como arquiteto de toda esta grande fábrica. de todos estes nos ajudaremos também. antes estudo muito lícito. ordenando. segredos. mais ou menos. como o Gênesis. senão no mesmo corpo. assim do Velho como do Novo Testamento. Christo sunt. falando das mesmas profecias e profetas. para vir em conhecimento dos mistérios. há alguns que totalmente são proféticos. Assim que podemos dizer em uma palavra que a primeira e principal fonte e os primeiros e principais fundamentos de toda esta nossa História é a Escritura Sagrada. que são somente os Profetas. Paralipamenon. Assim como os que escrevem anais ou histórias passadas e antiquíssimas. quando servirem ou puderem servir (que não será pouco) ao conhecimento e inteligência dos tempos futuros. combinando. que nelas não estejam imediatamente expressados. e por isso se chamam e são ciências. assim nós que escrevemos do futuro. mas vai crescendo. tira conclusões teológicas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro os primeiros e principais escritores a quem nela seguiremos todos ou quase todos os profetas canônicos. nem atrevimento do entendimento e discurso humano. posto que não evidentes. senão as divinas. todos os outros. diz assim no primeiro capítulo de sua primeira epístola: De qua salute exquisierunt atque scrutati sunt Prophetae qui de futura in vobis gratia prophetaverunt. Temos desta matéria um excelente texto do Apóstolo S. com que vem a ser um só livro e um só Autor o que nela principalmente seguiremos: o livro. passiones et posteriores glorias. Números. como o Levítico. e particularmente determinado à história dos Ninivitas. como a árvore em suas raízes. Nem este modo de discorrer sobre as profecias e revelações proféticas. cujo assunto foi um só. ou meramente doutrinais. dilatando-se e frutificando. é alheio da reverência que se deve aos oráculos divinos. Josué. o Autor. evidentes e científicas. exceto o profeta Jonas. Reis. ajustando. também canônicos. Pedro (primeira e infalível regra da Igreja). assim a teologia. Deuteronômio. ou cousa nova e desusada na Igreja e escola de Cristo. ainda que sejam meramente históricos. Quer dizer S. E porque entre os outros Livros Sagrados. Job e os Evangelhos. contêm ou muitas ou algumas cousas proféticas. como os Salmos. sucessos e tempos futuros. como Provérbios. a Escritura. Eclesiástico e as Epístolas dos Apóstolos. Sabedoria. depois de lhes serem revelados com lume sobrenatural e eles conhecerem e profetizaram mistérios futuros (como os da paixão e glórias de Cristo) sobre os mesmos mistérios e sobre as mesmas suas profecias inquiriam e especulavam de novo com o lume natural do discurso muitas circunstancias que lhes não 51 . desde Isaías até Miqueas. pois só eles os conheceram. porque. ou juntamente doutrinais e históricos. Deste modo crescem e se aumentam todas as ciências. e estes são os que têm maior crédito e autoridade nas cousas daqueles tempos. não em diversos. dispondo. o qual. concorreram para a fábrica deste novo edifício. recorrem aos autores mais antigos.

curam et studium et industriam naturalem vel meditationis. ambos doutissimos expositores deste lugar. e ao mesmo Cristo Menino. Esta segunda luz 52 . da qual diz o Evangelho: Maria autem conservabat omnia verba haec conferens in corde suo. Isto mesmo é o que se diz no cap. et ratiocinando. tempos.. vel disputationis. e a palavra no qual tempo significa as qualidades e circunstâncias do mesmo tempo. Isso quer dizer: In quod vel quale tempus. Mas porque as profecias por sua natural escuridade não são fáceis de entender. difundindo e estendendo a muitas cousas. com o cuidado. assim o lume natural do discurso. as que ouviu a Simeão. no sentido em que o digo vinham a inferir e alcançar pelo estudo e especulação natural e própria o que Deus lhes não tinha manifestado pela revelação sobrenatural e divina. Desta maneira.» Exquisitio et scrutatio (diz Lorino) . Eplicabant quae Messias primum passurus. A palavra. L: Scrutamini Scripturas. De sorte que... Isto é o que literal e genuinamente significam aquelas palavras: «Exquisierunt et scrutati sunt. nec tamen salten omnes. quae allaturus erat. quam postea gloriam consecuturus et collaturus etiam esset. Conferia a Senhora. e assim como se há mister necessariamente a sua luz para conhecer os futuros. com ser alumiada sobre todas as criaturas. as palavras que os pastores referiam ter ouvido aos anjos. atque conjecturando disquirebant. pois de nós e para nós falam os Profetas. das nações. e os acontecimentos particulares da paz. que nas mesmas palavras não estavam expressamente declarados. E pois os Profetas profetizavam para nós e as cousas nossas. quando o achou entre os doutores. definite sciebant quo tempore veniret et quali. se vai propagando. inferia e descobria outros mistérios ocultos e profundíssimos.. e delas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro foram expressamente reveladas. em que tempo significa a determinação do tempo certo em que as cousas hão-de suceder. XV dos Atos dos Apóstolos faziam os mais doutos cristãos da primitiva Igreja. vinham a estender e adiantar muito as mesmas profecias.. como as do tempo estado do Mundo em que os mesmos mistérios se haviam de obrar e as suas mesmas profecias haviam de suceder. lendo. dizendo por S. razão é que nós como nossas as entendamos. onde a versão siríaca tem: Nostra nobis: vaticinabantur. disputando e meditando. por discurso natural. João na cap. isto é. sucessos e circunstâncias que nelas estavam ocultas e pela conferência e conseqüência do mesmo discurso se vão entendendo e descobrindo de novo. aut pacis. captivitatis. o estado dos reinos. quam brevi. Atèqui Lorino. an belli. quo statu Reipublicae Hebraeorum. a Ana a profetiza. com a luz que dela se vai produzindo.proprie indicant.qui de futura in vobis gratia prophetaverunt. ajuntando o lume natural do d curso ao lume sobrenatural da pirofecia. Pedro nas palavras citadas: . É isto o que nós fazemos e devemos fazer. conhecendo delas e por elas muitas cousas que nelas imediatamente não estava reveladas. nossa Senhora. at ignorabant circumstantiam tem poris. das repúblicas.. vobis autem mintistrabant. e ambos trazem em confirmacão o exemplo da Virgem Maria. e muito mais. da guerra. estudo e indústria própria. se hão-de ver e suceder no Mundo: Deprehendebant Prophetae instinctu spiritus Messiae ejusdem Messiae adventum et gratiae dona. como diz o mesmo texto de S. aut libertatis. O mesmo diz Salmeirão. do cativeiro.vel lectionis. senão também. é também necessária outra Segunda e nova luz para as entender a elas. e o que Cristo mandou a todos que fizessem. e mais abaixo: Quibus revelatum est quia non sibimetipsis. da liberdade e outros semelhantes que no mesmo tempo. conforme a sua menor ou maior esfera. Bem assim como o sol ou candeia (que era a nossa comparação) não só alumeia com a luz que está ao lume ou fogo que nela se sustenta. ou mais vizinho ou mais distante. multiplicando e difundindo por todas as partes vizinhas e ainda distantes.

com que alumiaremos as profecias. a inteireza ou corrupção com que se tem conservado. que são em primeiro lugar os Apóstolos sagrados. não só com tocha. também estes darão matéria à nossa História. candeia acesa: Neque enim accendunt lucernam et ponunt eum sub modio. tenham. Procuramos quanto nos foi possível que fosse mui exata esta diligência. alumiados com o mesmo espírito. poderemos entrar neste labirinto com todo o aparato e prevenção de instrumentos com que se entrava seguramente no de Creta. Por este modo entraremos também nós pelo escuro e intricado labirinto dos futuros. João). e muito mais. pela ordem que a necessidade ou ocasião o for pedindo. merecido no juízo dos prudentes o nome e veneração de profecias ou predições verdadeiras. que com menos necessidade o fizeram em 53 . o entendimento e o discurso de fio. e é como alicerce de todo o edifício. ou por outros fundamentos sólidos da razão. e esta será a própria matéria de todo este livro. senão igualmente nos antigos e sagrados. pelas mesmas causas. experiência e opinião do Mundo. mas o único fundamento de toda a sua verdade. que grandemente depende do tempo e de outras semelhantes circunstâncias. com que alumiaremos e descobriremos os futuros. para a inteligência e combinação das mesmas profecias. Por esta causa se não acharão porventura neste nosso discurso menos algumas que em nome de profecias andam entre o vulgo. A este fim empregarei grande parte deste presente livro na qualificação do espírito profético que tiveram todos os autores do futuro que na História se hão-de alegar. e outra as mesmas profecias. por outras palavras. na forma possível. E posto que todo este tão largo Prolegómeno em rigor não seja História do Futuro. mas diremos o tempo em que escreveram as obras proféticas que deles existam. e para vencer e facilitar estas duas dificuldades se inventou entrar nele. não deixou de ilustrar e ornar sua esposa a Igreja com o lume e dom da profecia. e não só provaremos quanto for necessário o espírito da profecia destes autores. As profecias e os Doutores nos servirão de tochas. senão preparação ou aparato para ela. e em segundo os Padres Doutores da Igreja e expositores das Escrituras divinas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro serão aqueles a quem Cristo chamou luz do Mundo: Vox estis lux Mundi. que por palavra e escrito predispuseram muitas cousas futuras. com uma breve relação também das mesmas pessoas (quando não forem geralmente mui conhecidas) pelo muito que importam todas estas notícias não só para a fé e crédito. senão ainda. à imitação de Barónio e de outros autores. e não só falaremos nos autores e Profetas modernos e não canônicos. sem certeza de autor e muito menos do espírito com que foram escritas. Também excitaremos a este fim e resolveremos várias questões muito importantes ao conhecimento das profecias. e sem o qual vã e não merecidamente lhe devemos prometer o crédito que de todos os que a lerem esperamos. E porque o Espírito Santo. os quais seguiremos e alegaremos em tudo o que dissermos com estas duas luzes ou candeias: uma dos Doutores sagrados. mas também com fio: as tochas para ver o escuro dos caminhos e o fio para entrar e sair pelo intricado deles. por ser este não só o principal. ou pela santidade de seus autores. como dos seguintes tempos. Era aquele labirinto por uma parte muito escuro e por outra mui intricado. a que por isso chamamos Anteprimeiro. Isto é quanto às profecias e Profetas canônicos. depois de fechado o número dos livros e os escritores sagrados (o qual se cerrou no Apocalipse de S. Não meteremos porém nesta conta senão aquelas profecias somente que. aprovados e canonizados pela Igreja. e. assim dos seus. e depois daqueles seus primitivos anos houve sempre novos profetas.

posto que não em todas com igual grau de certeza. ainda que intervenha no discurso algum meio ou proposição científica. ou por estarem explicadas por escritores também canônicos por concílios. nem somente ciência. que. todas elas estão cheias. merecendo. ou pelo consenso comum dos Padres. E digo que sem injúria nem agravo de todas as outras histórias humanas. o mesmo Deus. e pela maior parte até agora não tratadas. assim o que imediatamente predizem. e conhecidamente supostas e falsas. De tudo o que fica dito ou prometido se colhe facilmente quanta será a verdade desta História. na forma que pouco antes dissemos. ou teológica. esperamos que a matéria. porque as cousas que expressa e imediatamente se predizem nas profecias canônicas. Daqui inferimos sem injúria nem agravo de quantas histórias até hoje estão escritas no Mundo. e ainda esta exceção se não deve entender em todo. por sua grande variedade e diligente erudição de cousas curiosas. se deduzirem. é certo que têm toda aquela certeza infalível e de fé. como as conseqüências que delas por formalização se deduzirem. verdadeira com certeza de fé. ou provável. por melhor dizer.Anexo:Imprimir/ História do Futuro suas histórias. não será injucunda aos que a lerem. sendo a excelência singular desta História que toda ela. nem perigo de poderem não ser. verdadeira com certeza provável. são verdades segundas que participam a mesma certeza também infalível. ou por não averiguadas com tão evidente certeza (posto que sempre estabelecidas com bons e racionais fundamentos) ou por sua interpretação não ser tão manifesta ou recebida que não desfaça moralmente toda a razão de dúvida. segundo todas suas partes. será fundada na primeira e suma Verdade. ou canonicamente. que não é sujeita a erro ou falsidade. nas do quarto. de cuja inteligência por sua clareza se não pode duvidar. que as outras verdades sagradas que se contêm nas Escrituras. le nestas. enquanto não sai a luz. e por ambas tal certeza. que destas verdades assim profetizadas e conhecidas. qual é a das conclusões teológicas que. Nas do primeiro gênero. todas as outras conclusões que por natural e evidente conseqüência delas se deduzirem. pois são filhas e herdeiras da mesma Verdade de que tiveram seu nascimento Restam somente aquelas profecias que. assim nas antigas como nas modernas. por esta parte têm evidência. como também terão advertido os mais lidos e versados. ou por culpas ou sem culpa dos mesmos historiadores. nas do terceiro. verdadeira com certeza teológica. que será. nas do segundo. As outras cousas. como em Deus esperamos. por tradições. por ir toda (como vai) não só fundada nos mesmos textos e sentenças da Escritura divina. verdadeira com certeza moral. como veremos que tenham toda a certeza moral. porque. não sendo totalmente fé. muito brevemente. e a mesma participarão. terão somente certeza provável naquele sentido em que dizemos provavelmente certas aquelas cousas de que há fundamentos prováveis para o serem. Estes quatro gêneros de verdade são os de que repartidamente se comporá toda a História do Futuro. que é a que depois a fé e da ciência têm no juízo humano o maior assento. 54 . pelo modo já explicado. por natural conseqüência. ou moral. mas formada e como tecida deles. que é. ficam dentro dos lates da probabilidade opinativa. senão em parte. não só de cousas incertas e improváveis. se não distinguirá delas. As profecias não canônicas podem ser tão evidentemente provadas por seus efeitos. a História do Futuro igualará na verdade e na certeza. o nome de história verdadeira. que esta História do Futuro é mais certa e mais verdadeira que todas elas (excetas somente as Histórias Sagradas). mas alheias e encontradas com a verdade. e que possa sem enfado entreter a expectação e desejo da mesma História.

que o não incline só o respeito. o que escteveram os Berosos. por mais diligente investigador que seja dos sucessos presentes ou passados. se contradizem e se implicam no mesmo sucesso. mas de aí se convence contra ele. e principalmente a dos Hebreus. que mais merece nome de temeridade :que de confiança. Mas sobre esta resolução se pode dizer e argüir contra nós. Gregos. que não escreva por informações? E que informações há de homens. ou da ignorância. no livro primeiro das Leis: Apud Herodotum patrem Historiae et apud Theopompum sunt innumerabiles fabulae. com ter longe as causas do ódio e amor. Não aponto erros em particular das histórias mais vizinhas a nossos tempos por reverência deles. por ocasião do milagre da serpente: Cedaxt huic veritati. Capítulo X: Resposta a uma objeção: mostra-se que o melhor comentador das profecias é o tempo. Romanos. com que formava os processos para as sentenças. no capítulo antecedente. os Diodoros. e a nossa tirada do lume da profecia e acrescentada pelo lume da razão. aos quais (que sempre serão mais de um) responderemos facilmente com o seu mesmo argumento. do Dilúvio. ou da alheia nação. e verá como se encontram. tanto mais se vão chegando para nós. os Lívios. que são as duas fontes da verdade humana e divina. ou do seu ou de estranho príncipe? Todas as penas nasceram em carne e sangue. e desta mesma experiência e razões dela se qualifica claramente ser a nossa História do Futuro mais verdadeira que todas as do passado porque elas em grande parte foram tiradas da fonte da mentira. da divisão das primeiras gentes. ainda com maior evidência. como são as de Noé. Quem quiser ver claramente a falsidade das histórias humanas. e como há tantos centos de anos que estão escritas estas profecias. Por isso Tertuliano lhe chamou com razão mendaciorum loquacíssimum. o amor. com os quais cotejado. e todos os outros historiadores daquelas nações e tempos. empresa e ousadia. os Heródotos. E Cícero. Egípcios. e não sub modio. senão supra candelabrum. ou da sua. os Cúrcios.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Que historiador há ou pode haver. que não vão envoltas em muitos erros. apenas se acha cousa que não seja contradição da verdade. daquelas histórias de que temos verdadeira relação nas Escrituras Sagradas. sobre a qual batalham tantas vezes os mesmos historiadores. a lisonja. a vingança. Estes foram os pais da História humana. que esta mesma candeia e luz das profecias há muitos centos de anos que está acesa. e porque fora matéria infinita. Pedro. e todos na tinta de escrever misturam as cores do seu afeto. Os futuros. leia a mesma história por diferentes escritores. que é mais. e não as sentenças sobre os processos. Persas. O certo é que só tinha perto a ambição de seu próprio juízo. tam graeco quam romano stylo mendacis ficta miracula. que com a candeia da profecia se podia entrar pela escuridade dos futuros e descobrir e conhecer o que neles está encoberto e enterrado. Prova Tácito a verdade da sua história. sendo infalível que um só pode dizer a verdade e certo que nenhum a diz. também há outros centos de anos . Mas isto mesmo se conhece. que é a ignorancia e malícia humana. o ódio. como nós prometemos fazer. as dos Assírios. quanto mais vão correndo.) por Padre Antônio Vieira 55 Assentamos com o Apóstolo S. Das dos Gregos e Romanos disse S. como em pedra de toque. Jerônimo. História do Futuro (Volume I. e que ninguém contudo se atreveu até agora a entrar com ela por estes abismos e escundades do futuro. ou da malícia? Que historiador há de tão limpo coração e tão inteiro amador da verdade. e nós para eles. e desta é filha legítima a sua verdade. Medos. mas nunca com conhecida vitória. os Trogos. que também tinha longe as informações da verdade.

os outros diziam: — Há-de vir. e conhecemos quão pequena. mais ou menos todos cavamos e. A mesma luz e a mesma candeia ao longe vê-se. disse Cristo. viu melhor e mais claramente que todos. fazem aos antigos: nos antigos reconhecemos a vantagem da sabedoria. pode suceder que os que vêm na última hora por felicidade da mesma 56 . mas subido em cima da árvore. o mais pequeno de todos era Zaqueu que por si mesmo. Fizeram na última hora o que os outros não fizeram todo o dia. achando-se às escuras em muitos lugares das profecias. 0 grande precursor de Cristo . 0 último degrau da escada não é maior que os outros. e ele disse: — Este é. porque a candeia de mais perto alumeia melhor. e com os pés no chão. quão desigual) quão inferior é. vemos hoje o que . Os que estudamos e trabalhamos na inteligência da Sagrada Escritura. para que dele se possa alcançar o que de outros se não alcança. Um pigmeu sobre um agigante pode ver mais que ele. e que disse? — Vadam et videbo visionem hanc magram: «Irei e verei esta grande visão». antes pode ser menor. e ao perto alumeia. Entre a multidão dos que acompanhavam e rodeavam a Cristo. reservou a verdadeira inteligência delas para os vindouros.Anexo:Imprimir/ História do Futuro que os futuros se vão chegando para elas. Mas estes são os privilégios da última hora: Hi novissimi una hora fecerunt. mas não se pode ver o que há em uma cidade. Pigmeus nos conhecemos em comparação daqueles gigantes que olharam antes de nós para as mesmas Escrituras. e um pouco mais. não é muito que alcancemos e descubramos um pouco mais do que eles descobriram e alcançaram. tanta grandeza e majestade acrescentaram ao edifício da Igreja. e ainda que todos os outros Profetas anunciaram a Cristo. Para ver com uma candeia.erat lucerna lucens et ardens. porque os não veremos melhor? Assim o confessou Santo Agostiho com ter os olhos de águia o qual. entendeu o que aquelas figuras significavam. Non ergo undecima hora in vineam Domini ad operandum conductis nobis invidendum est — disse Lipomano na prefação de seus Comentários. Este é o modo com que os últimos podem vir a ser os primeiros. porque era candeia de mais perto. e estar em cima dos mais.eles viram. e por isso nós nos atrevemos a fazer hoje o que os Antigos não fizeram. ainda que tivessem acesa a mesma candeia. porque eles com outros acabaram a obra que os outros sem eles não puderam nem podiam acabar: Sic erunt novissimi primi. comparada com aqueles cedros do Líbano e com aquelas torres altíssimas.. aplicando a parábola de Cristo ao estudo da Sagrada Escritura. e sobre eles por benefício do tempo. como os cavadores da vinha que vieram na última hora puderam ser avantajados aos demais. e que apenas se pode entender. porque vai muita diferença de ver as visões de Deus ao longe. não basta só que a candeia esteja acesa. como vive mos depois deles. e disse que a iria ver. mas nós. ao perto. Eles sem nós viram muito mais do que nós podemos ver sem eles. o Baptista o mostrou melhor. senão os nossos tempos. ou vê-las ao perto. Cousa maravilhosa é. nos nossos a fortuna da vizinhança. Mui bem medimos a nossa estatura.. Ao longe viu só Moisés a sarça e o fogo. é necessário que a distância seja proporcionada: Ut luceat omnibus qui in domo sunt. não podia alcançar a ver o que os outros viam. que tanto ornato. As visões e revelações de Deus vêem-se melhor ao perto que ao longe: de longe viu Moisés a visão da sarça. Se estamos mais perto dos futuros com igual luz (ainda que não seja com igual vista). Estava vendo a visão. mas basta ser o último. mas subidos por merecimento seu e fortuna do tempo a tanta altura. e elas para os futuros. Com una candeia na mão pode-se ver o que há em uma casa. Esta é a diferença que não nós.

Assim que bem pode um homem menor que todos descobrir e alcançar o que os grandes e eminentíssimos não descobriram. cavando muito mais. que é a Escritura Sagrada. ainda que seja de um anjo e de muitos anjos. O que se descobriu é um segredo escondido a todos os séculos passados: Sactamenti absconditi a soculis in Deo. e confessando-se por mínimo de todos. a qual sempre é do último Eis aqui como pode acontecer que descubram o tesouro os que cavam menos: Saepe abseptus quisquam. sendo os mares que depois dele se seguiam. qui omnia creavit. foi no século que Deus tinha predefinido e determinado: Secundum praefinitionem saeculorum. Crisóstomo. que já o não alcançou. sucede vir um mais venturoso que. o cabo chamado de Não. quod magnus et sapiens vir praeterit. e depois de estes cansados e desesperados. a quem se descobriu. porque não bastam as forças da sabedoria e entendimento criado. disse verdadeira e judiciosamente S. e cavando alguma cousa de novo descobre a poucas enxadadas e tesouro. porque bem pode o último e o mínimo alcançar e descobrir os segredos que os primeiros e maiores não alcançaram. Aquele tesouro escondido de que falou Cristo no cap. se descobriu. que foi no ano da criação do Mundo I80I. I428. S. et illuminare omnes quae sit dispensatio sacramenti absconditi a saeculis in Deo. descubram com poucas enxadas o que muitos em muito tempo e com muito trabalho. em que se passaram mais de 3600 anos. meses e anos sem acharem o que buscam. conforme a ordem e disposição de sua Providência. e logra é fruto dos trabalhos e suores dos primeiros? Assim aconteceu no tesouro das profecias: cavaram uns e cavaram outros. não descobriram. enquanto ele quer que estejam encobertos e escondidos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro hora acabem. senão prerrogativa dos tempos. João Crisóstomo. quem o descobriu. Jerônimo com mais estrita propriedade o entende particularmente das escrituras proféticas Quantas vezes os que trabalham no descobrimento de algum tesouro. que era provérbio entre eles (como escreve o nosso João de Barros): quem passar o cabo de Não. e cansaram todos e no cabo descobre o tesouro quais sem trabalho aquele ultimo para quem estava guardada tamanha ventura. quando se descobriu. o tornará ou não. et vilis invenit. e S. só então. até o de Cristo. Paulo. porque. Aparecia ao 57 . XIII de S. porque esta ventura não é privilégio dos entendimentos. A quem se descobriu foi não menos que aos espíritos angélicos das mais superiores hierarquias do Céu: Ut innotescat principatibus et caelestiu. era o termo da navegação do mar Oceano junto somente à costa de África. confessa ter recebido a graça de descobrir aos mesmos anjos do Céu os tesouros que lhes estavam escondidos: Mihi omnium sanctorum (diz ele na Epístola aos Efessos) minimo data est gratia hoec in gentibus evangelizare investigabiles divitias Christi. nem ouviu neste Mundo como os demais. para conhecer e penetrar os segredos altíssimos de Deus. e de nenhum modo antes. Mateus. e se confessa por mínimo de todos: Mihi omnium sanstorum minimo. Desde que Túbal começou a povoar Espanha. diz Ruperto Tertuliano. 0 último dos Apóstolos foi S. e quando . secundum praefinitionem saeculorum. nem viu. tão temorosos aos navegantes. descendo sem trabalho ao profundo da mesma cova. Finalmente. quando chega o tempo determinado e predefinido por Deus para que seus segredos se conheçam e descubram no Mundo. Quem o descobriu foi o último de todos os apóstolos 9 discípulos de Cristo. Nas quais palavras se devem ponderar muito quatro cousas: Que é o que se descobriu. porque costuma Deus ter algumas cousas encobertas e escondidas por muitos séculos. cavam por muitos dias. se podem manifestar e entender. multiformis sapientia Dei. ut innotescat principatibus et potestatibus in caelestibus per Ecclestam.

não havia historiador que de ali adiantasse um momento a conta de seus anos e dias. posto que elas são tão claras e expressas que não necessitam de comentador. plurimi pertransibunt et multiplex erit scientia: >>Tu. e haverá sobre a inteligência de seus mistérios grande variedade de ciências e opiniões. Ali donde chega o presente e começa o futuro. de passar aquele cabo Bojador. chamado Gil Eanes. de escuridade. de medos. de impossíveis.. Mas quando chega a hora precisa do limite que Deus tem posto às cousas humanas. nem os Aníbales de Cartago. mandou-lhe que fechasse e selasse o livro em que estavam escritas e lhe disse estas notáveis palavras: Tu autem. porque chegou a hora. era a carranca medonha. quebrou aquele antiquíssimo encantamento e mostrou com estranho desengano à Espanha. e param suas empresas e ainda seus pensamentos no cabo de Não. depois de um anjo lhe ter declarado grandes mistérios dos tempos futuros. como se pode ver no IV capítulo da primeira Década. venceu felizmente o cabo em uma barca. demos os louvores a Deus e às disposições de sua Providência. ao Mundo e ao mesmo Oceano que também o não navegado era navegável. até que chegue o tempo determinado pela Providência divina. entretanto passarão muitos por elas. coberto de névoas. dispondo-se ousadamente ao rompimento de uma tamanha aventura. Daniel. nem os Bacos. Daniel. como todos tinham. como pelo desengano de muitas experiências. era até agora o cabo de Não. tanto por fama e horror comum. e entendamos que se passou o cabo. XII de Daniel.Anexo:Imprimir/ História do Futuro longe deste o cabo chamado Bojador. como se pode ver em todos os comentadores de Daniel. por melhor dizer. cuja passagem. nem os Cipiões e Júlios de Roma. basta Gil Eanes em uma barca para vencer todas essas dificuldades. foi o primeiro que. o que confusamente se representava adiante ao longo deste cabo. usque ad tempus statutum. sondado este fundo e navegável e navegada a imensidade de mares que depois dele se seguem. É admirável a este propósito um lugar do profeta Daniel.>> E verdadeiramente é assim: enquanto não chega a hora determinada por Deus. que ninguém as pode entender nem declarar. de nuvens espessas. se reputava entre todos por empresa tão arriscada e impossível à indústria e poder humano. fecharás e selarás o livro (em que escreveres estas cousas que tenho dito). para que estejam fechadas e seladas até o tempo determinado por Deus. Mas se agora virmos desfeitas estas névoas. o qual feito ponderando o nosso grande historiador com seu costumado juízo. para atalhar todos esses receios. a hora em que Deus tinha limitado o curso de tanto receio. No cap. nas escrituras dos profetas. de horrores. que pode o Bojador ser vencido. diz breve e sentenciosamente: «E a este seu propósito se ajuntou a boa fortuna.:>> Este é o sentido literal e verdadeiro destas palavras do anjo. para pisar todos esses impossíveis e para navegar segura e venturosamente os mares nunca de antes navegados. e isto por um piloto de tão pouco nome e uma tão pequena barquinha como a do seu limitado talento. dobrado este cabo. há cousas de tal modo fechadas e seladas. de sombras. o temerosíssimo Bojador do futuro. Mas quem ler o capítulo seguinte. claude sermones et sigra librum. verá também como um homem português não de muito nome. Gedeões e Hércules de Espanha se atrevem a imaginar. de cegueira. o qual é o que só tem poder para romper os sigilos e abrir e fazer 58 . De maneira que. ou. com que demonstrativa e indubitavelmente se persuade e convence esta verdade nos próprios termos da inteligência das profecias em que falamos. desvanecido este escuro. Não havia pensamento que ainda com imaginação (que a tudo se atreve) desse um passo seguro mais adiante naquele tão desusado caminho. pelo muito que se metia dentro no mar. Lusos. facilitada esta passagem.

Por quantos lugares passaram os Origgenes. e com grande aparato de cerimônias e efeitos admiráveis no céu e na terra. em que a Igreja de Cristo se vai continuando mais claramente que em nenhum outro lugar das Escrituras. e por isso naquele misterioso livro. porque passarão todos por ele sem entenderem nem penetrarem Isto quer dizer: Plurimi pertransibunt. e não apartadas de seus efeitos. os Riberas? E por quantos passaram também estes. mas não todo Juntamente. foram-se rompendo estes selos e abrindo-se o livro. Onde se deve advertir e notar que muitos homem ainda que sejam de grandes letras. senão quando já vai chegando e se descobre subitamente entre a expectação e o aplauso. os Clementes. que depois entenderam os Montanos. acharemos que não é outra senão a majestade da sabedoria e onipotência divina. assim também eram diversos os selos com que estavam fechados e diversos os tempos em que se haviam de abrir e manifestar. que depois entenderam melhor os que lhes foram sucedendo. encobrindo-se de indústria o fim da história. por mais doutos. João. No Apocalipse (cujas profecias são próprias deste tempo). pendentes sempre de um sucesso para outro sucesso. com que o enredo os vai levando após si. senão igualmente com eles. ou quando já forem chegando. os Tertulianos. os Teodoretos. Bem assim como antes de se acabar de todo a noite. e para o qual reservou Deus a abertura dos seus sigilos? Signa librum usque ad tempus constitutum. senão por passos e espaços: um selo primeiro e outros depois. senão em diferentes tempos. os homens as figuras que nele representam. traçada e disposta maravilhosamente pelas idéias de sua Providência. que nelas estavam profetizadas. sem que se possa entender onde irá parar. E assim como o primor e subtileza da arte cômica consiste principalmente daquela suspensão de entendimento e doce enleio dos sentidos. não porque os últimos sejam mais doutos ou de mais aguda vista. assim Meus. e nos tempos e nos efeitos estarão descobertas as profecias. os Jerônimos? Por quantos passaram os Hugos. os Sanches. pelos resplendores da aurora se conhece a vizinhança do Sol. cuidam que passam os livros. muito doutas. ajudados e ensinados do tempo. ou depois de chegarem. não juntamente. com que vão seguindo e variando os tempos. Entre as cousas muito misteriosas que viu S. sábios e santos que sejam os expositores daquelas profecias. et multiplex erit scientia. É este mundo um teatro. sendo o mesmo tempo e os mesmos sucessos os que as abrissem e manifestassem. o mistério destas pausas e intervalos era porque se haviam ir descobrindo as profecias que estavam escritas no livro. com que dispôs e tem decretado que as profecias se vão descobrindo e entendendo ordenada e sucessivamente aos mesmos passos. que nelas estavam ocultos e encerrados. muito santas e muito várias. sempre admirável em todas suas obras. assim como eram diversas as profecias e diversos os efeitos e sucessos da Igreja e do Mundo. soberano Autor e Governador do Mundo e perfeitíssimo exemplar de toda a 59 . dirão cousas muito discretas. que é mais certo intérprete das profecias. mas porque lêem e estudam à luz da candeia.Anexo:Imprimir/ História do Futuro patentes as escrituras fechadas e declarar os mistérios futuros. ou a mais misteriosa de todas. os Ricardos. e passam por eles: Plurimi perransibunt. E se quisermos especular a razão desta providencia. que depois en tenderam os Agostinhos. E enquanto este tempo não chega. os Cornélios. foi um livro fechado e selado com sete selos o qual era o seu mesmo Apocalipse. os Basílios. temos relatado este segredo da Providência divina. os Rupertos. De maneira que nas profecias estão encobertos os tempos e os efeitos. mas o certo e verdadeiro sentido delas sempre ficará oculto e escondido. ou mais vagarosos ou mais apressados. antes que ele se veja descoberto nos horizontes. e assim se haviam ir entendendo. e a história verdadeira de seus sucessos uma comédia de Deus.

que Deus tinha revelado ao profeta Jeremias havia de durar a assolação de Jerusalém>> e cativeiro dos Judeus em Babilônia. se acabaram de cumprir no primeiro ano do império de Dario. senão de si: In anno primo Darii. ainda quando as manda escrever primeiro pelos profetas. mas assim havia de ser. de quo factus est sermo Domini ad Jeremiam prophetam. porque assim o profetizou e o repete o mesmo Jeremias em dois lugares. Eu o não crera. O tempo foi o que interpretou a . onde. é do cap. que foi o último dos mesmos setenta? Podia haver conta mais clara? Podia haver palavras mais expressas? Não Mas como é regra ordinária da Providência divina. que assim o confessa. e não Daniel. senão quando Já tem chegado ou vêm chegando os fins deles. diz que se não entenderão senão nos últimos tempos do cumprimento delas: No cap. não de outrem. e diz assim: Et erit uníversa terra haec in solitudinem et in stuporem. para que umas palavras tão expressas e uma profecia tão clara possa parecer escura? Atravessa uma nuvem (como dizíamos) entre a profecia e os olhos. E que fez Deus. XXV daquele profeta. em que ela se cumpria. com que sua mesma clareza se nos faz escura. por isso. ou pode fazer. que nos não deixa compreender nem alcançar os segredos de seus intentos. e com este véu. E esta parece a energia daquela sua palavra: Ego. intellexi in libris numerum annorum. Daniel.profecia. se o não vira esento para maior admiração em um dos maiores profetas. que as profecias se não entendam senão quando já tem chegado ou vai chegando o fim delas. senão no primeiro ano de Dario. Daniel. costuma atravessar entre elas e os nossos olhos umas certas nuvens. senão no último ano dos setenta. sendo a profecia tão clara e o número dos setenta anos tão expresso. anno uno regni ejus. não entendi a profecia tão clara de Jeremias. o entendesse senão no último ano. ut complerentur desolationis Hierusalem septuaginta anni: <<No ano primeiro de Dario. que Daniel afirma que entendeu no primeiro ano do império de Dario. E no cap. ou sobre os olhos ou sobre a profecia. ego. filii Asssueri. como consta da exata cronologia que se pode ver largamente provada em Perério e rios comentadores da profecia de Daniel. sendo Daniel. XX. Agora entra o caso e a admiração: Esta profecia de Jeremias. para nos ter sempre suspensos na expectação e pendentes de sua providência. quase pelas mesmas palavras: Non avertet iram indignationis Dominus. que não entendeu o número destes setenta anos. que teve o império dos Caldeus: Eu Daniel. ainda quando as profecias são muito claras. filho de Assuero. qui imperavit super regnum Chaldeorum. servirão ao rei de Babilônia por espaço de setenta anos. donec faciat et cormpleat cogitationem cordis sui: in novissimo dierum intelligetis ea. et servient omnes gentes istae regi Babylonis septuaginta annis:<<Toda esta terra (diz Jeremias. Daniel intellexi: Eu. sendo Daniel um tão grande profeta.>> Estes setenta anos. como diz Daniel. com pasmo e assombro do mundo. falando de suas profecias. não quis Deus que o mesmo Daniel. XXIII: Non revertetur furor Domini usque dum faciat et usque dum compleat cogitationem cordis sui: in novissimis diebus intelligetis consilium ejus. sendo Daniel. estando em Jerusalém) será assolada. E é esta regra (com pouca exceção de casos) tão comum em Deus e seus decretos. de tal maneira nos encobre as cousas futuras. de semine Medorum. diz ele. entendi nos livros o número de setenta anos. o claro por claríssimo que seja 60 . e todas as gentes que a habitam. descendente dos Medos. que.Anexo:Imprimir/ História do Futuro natureza e arte para manifestação de sua glória e admiração de sua sabedoria. Pois se o termo de setenta anos estava profetizado com palavras tão claras e expressas como são aquelas de Jeremias: Et servsent omnes gentes istae regi Babylonis septuaginta annis.

não desmerecem o crédito de sua verdade. Oh quantas profecias muito claras se não entendem. porque estamos mais chegados aos futuros. e contudo essa mesma água (como discretamente advertiu David). cum legitur Moyses.accendit lucernam. mas varreu a casa:. Que profecias mais claras que as da vinda de Cristo ao Mundo? E muito mais claras ainda depois de manifestas e provadas com os mesmos efeitos. Por isso pedia o mesmo David a Deus que lhe tirasse o véu dos olhos. et considerabo mitrabilia de lege tua. por muito clara que nela esteja.. foram tirando impedimentos à vista. a esperança ou o temor. A candeia está acesa e muito clara.) everrit domum. até a água e escura. et (. ou se não querem entender.tenebrosa aqfxa in nubibgs aeris Em havendo nuvem em meio. auferetur velamen. e que as cousas novas. para que pudesse conhecer as maravilhas dos seus mistérios: Revela oculos meos... porque vemos sobre os passados.. Como se hão-de entender as revelações com os entendimentos e olhos vendados? Não basta só que Deus tenha revelado os futuros. Se os olhos estão cobertos e escurecidos com o véu do afeto ou com a nuvem da paixão. é escura: . porque têm os olhos cobertos com aquele antigo véu de Moisés. e logo verão os olhos o que há nela. E contudo estas são as que mais obstinadamente nega a cegueira judaica. Olhamos de mais alto. Quando queremos encarecer uma cousa de muito clara. resumindo toda a resposta da objeção. mas os véus que os homens lançam sobre os próprios olhos. nem se quer achar. A mulher que buscava a dracma perdida não só acendeu a candeia. velamen positum est super cor eortum. ou que tirem primeiro-o véu de sobre os olhos. varra-se e alimpe-se a casa. e se achará o que se busca. mas a casa não está varrida. o tempo as gasta e as desfaz. mas nem se busca. porque não há cousa mais clara. e que distinguimos melhor porque vemos mais perto.. a vingança ou o interesse. e achamos os impedimentos tirados. De maneira que. ou. como lhes lançou em rosto o grande Paulo Judeu e semente de Abraão. porque todos os que cavaram neste tesouro e varreram esta casa.. se os cega o amor ou ódio. como se há-de ver com os olhos cobertos? Tire-se o impedimento à luz. quando o primeiro intento e nega-la ou quando menos escurecê-la? As nuvens que Deus põe sobre a profecia. porque olhamos de mais alto. por claras e claríssimas que sejam. como se pode entender a verdade da profecia. dizemos que é clara como a água. . do tribo de Benjamim: Usque in hodiernum diem. com uma nuvem diante. como eles. e tudo isto por beneficio do tempo. tirem-se os estorvos e impedimentos à luz.Anexo:Imprimir/ História do Futuro fica escuro. para o dizer melhor. e tais são as profecias. por providência do Senhor dos tempos. e com véu sobre os olhos! Peço e protesto a todos os que lerem esta História. Tirem o véu de sobre os olhos. e verão a luz das profecias: ainda que a profecia seja candeia acesa. porque as quero remos ver por entre nuvens. a inveja ou a lisonja.. cum autem conversu fuerit ad Dominum. digo que descobrimos hoje mais. e logo se verão a candeia e mais o que ela alumeia. e que trabalhamos menos porque achamos os impedimentos tirados. é necessário que revele também os olhos: Revela oculos meos. só eles os podem tirar. ou que a não leiam. Capítulo XI) por Padre Antônio Vieira 61 Declara-se qual seja a novidade desta História. porque eles são os que querem ser cegos. História do Futuro (Volume I. por novas. vemos de mais perto.

tão estranhada quando nova. cousa alguma que encontre a Fé ou doutrina da Igreja. que hoje adoptamos por canónica. escritas não a outrem. Jerônimo com igual engenho. senão pela maior luz da Igreja. Santo Agostinho. nos Soares. como os outros escritores. contanto que não tenha. Jerônimo na versão da Sagrada Bíblia.. e todos os outros padres que antes e depois destes escreveram contra Gentios. por estas palavras:: Porro quod dicis non debuisse me interpretari post veteres. Gregório. Prudêncio. como por graça de Deus não tem... não por Gentios ou hereges. respondo com as mesmas vossas palavras: Todos os expositores dos Livros Sagrados. te quoque in eis falli potuisse credendum est. elegante e engenhosamente Santo Agostinho. se por si mesma lhe for devida. bem advertimos que metíamos as armas nas mãos aos críticos. e não é. S. que acusações não padeceu antigamente (e padece ainda hoje) dos hereges. superfuum est te voluisse explanare quod i11is latere non potuit: «!Quanto à versão das Escrituras Sagradas na língua latina. quomodo tu post eos ausus es disserere. Mas o maior exemplo de todos neste caso é o daquela divina obra de S. Pensão é muito antiga das cousas boas e grandes serem acusadas de novas.] respondeat mihi prudentia tua. Lactancio. quando o seja. et hac lege post priores nullus loqui audebit. ao qual respondeu S. Jerônimo: De vertendis autem in latinam linguam sanctis litteris laborare te nollem [ ] aut obscura sunt. qui nos in Domino praecesserunt et qui Scripturas Sanctas interpretati sunt. et novo utens syllogismo [. nos Barónios. e verdadeiramente com vitória. e pelo qual. mas são estas armas já tão velhas e ferrugentas. Arnóbio. A mesma Lei de Cristo chamada por sua novidade evangélica. quod illis latere non potuit [. porque ou elas são escuras ou manifestas..] tuo tibi sermone respondeo: omnes veteres tractatores. nem só por quaisquer católicos. nos Platins. que nos precederam no Senhor. ainda que a novidade da nossa História fora qual se supõe. Se escuras. quare tu post tantos ac tales scriptores et interpretes in explanatione Psalmorgm diversa senseris? Si enim obscurt sunt Psalmi. Si obscura. Se o que era escuro. Agostinho — que eu me não devia cansar em interpretar as Escrituras depois dos antigos intérpretes delas. ac per hoc utroque modo superflua erit interpretatio tua. A primeira instituição da vida monástica. S. para que não falemos nos Waldenses. João Crisóstomo. te quoque in eis falli potuisse creditur.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Quando no princípio deste livro prometemos cousas novas aos curiosos. e se manifestas.si manifesta. Jerônimo a S. 0 reparo da novidade não é crime de que ela tema ser acusada. alius de eo scribendi non habebit licentiam. ou o que era manifesto. sendo o estado mais santo da Igreja Católica. «Quanto ao que me dizeis—diz S. e para isso usais daquele novo silogismo. ou interpretaram o que era escuro. Responda-me logo vossa 62 . pela novidade do hábito e modo de vida! Digam-no as apologias de S. si manifesti. Si enim obscura sunt. Bernardo Santo Tomás. quod illi explanare non potuerunt? Si manifesta. nos Belarminos. como vos atreveis também a declarar o que eles não puderam? Se o que era manifesto. ponha em risco o crédito da sua verdade. supérfluo trabalho é cansar-vos em querer fazer entender o que eles não podiam deixar de ter entendido. Boaventura. senão ao mesmo S. zelo e elegância. Até aqui zelosa. obra é — diz o santo— em que eu não quisera que vós empregásseis o vosso trabalho. superfluum est te voluisse disserere. aut manifesta. com razão se crê que também vos podeis enganar na sua interpretação. supérflua diligência é quererdes vós explicar o que os outros não podem deixar de ter entendido». aut manifesta. illos in eis falli potuisse non creditur. Quero pôr aqui as palavras deste grande e santíssimo doutor. que não há muito que temer seus golpes. et quodcumque alius occupaverit. em quantos Evros e tribunais de Gentios e Judeus foi terminada pela glória deste título! Acusação foi de que a defendeu Tertuliano. S.

E notem os leitores que são estas palavras de uma das apologias que S. O Testamento Velho não é mais perfeito que o Novo. tempo virá em que seja velha. e tanto que um se adiantar à exposição de algum Livro Sagrado.» Isto dizia Santo Agostinho a S. argumentava Arnóbio contra os Gentios. ita ingenium quasi vinum probantes. Jerônimo à queixa da sua nova versão. A antigüidade das obras é um acidente extrínseco que nem tira nem acrescenta validade. Jerônimo escreveu em defesa daquela nova versão da Sagrada Escritura. Jerônimo outro reparo mais que a glória de ser sua e nova. por ser mais antigo. outros por inveja. e se a vossa superstição é velha. Jerônimo a S. nem se deve perguntar o quando. nova fuere: plebei magistratus post patricios. vos atrevestes na exposição dos Salmos a sentir diversamente do que eles sentiam? Porque. supérflua é e não necessária a vossa interpretação E segundo esta lei. Não tinha esta de S. inveterescet hoc quoque. ninguém poderá falar depois dos primeiros. que vivos. senão entre os maiores zeladores e defensores dela. lhes granjeia a triste fortuna de serem mais venerados ou melhor conhecidos depois da morte. senão o como se escreveram. e ainda os Salmos não estão bastantemente interpretados. e é de fé católica. coeterarum Italiae gentium post latinos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro prudência: com razão. é antiqüíssima e mui venerada. As trevas foram mais antigas que o Sol e os animais que o homem. porque ainda não tem quatrocentos anos. todos por ignorância. Se a nossa religião é nova. que hoje se chama Vulgata. que hoje . que a queriam fazer não menos que herética. logo nenhum outro terá licença para escrever sobre ele. Acudia S. e isto S. Patres conscripti. A mais nova entre todas as do Mundo foi o mesmo Mundo. Agostinho sobre a novidade da sua exposição dos Salmos. latini post plebeios. para que se veja quais são os juízos dos homens e quão impugnadas que costumam ser as obras de que Deus se quer servir. Que cousa há hoje tão antiga. Discretamente. et obtrectarorum meorum latratibus patens. Mas destes mesmos exemplos se convence claramente quão frívolas são e pouco eficazes as acusações do que se estranha por novo. porque antepor o velho ao novo só pelos anos. e há menos de dois mil que os deuses que vós adoráveis ainda não tinham cento. E verdadeiramente é assim: quantas cousas são hoje exemplos que começaram sem exemplo? Todas as opiniões ou verdades que se escreveram. mas sobre esta lhe argüía Rufino e outros homens doutos tais calúnias. Com a mesma energia disse o imperador Cláudio ao senado: Omnia. se os Salmos são escuros. e depois dela se escreveram infinitas outras mais novas. Jerônimo sobre a novidade de sua versão. Dizeis que a religião cristã é nova. tiveram princípio. nova pro veteribus cudere. e diz assim contra Rufino: Periculosum opus certe. e ainda é mais universalmente certo. a qual hoje é de fé. que não fosse nova em algum tempo? Diz Salomão que não há cousa nova debaixo do Sol. e só porque põe os autores delas mais longe dos olhos da inveja. nem o Novo perde a perfeição e excelência que tem sobre o Velho. por ser mais novo. que não há cousa debaixo do Sol que não fosse nova. também se deve entender que vós vos podeis enganar na sua inteligência. Não é o tempo. que do trono ou cadeira de Salomão. 63 . depois de tantos e tais intérpretes. a que dá o crédito e autoridade aos escritores. e não só entre os inimigos e impugnadores da verdade. quae nunc vetustissima creduntur. Assim que os reparos da novidade são pensão (como dizia) das cousas boas e grandes. qui me asserunt in septuaginta interpretum sugillatione. tempo houve em que também foi nova. muitos por malícia. como se só os antigos fossem católicos e a verdade sem cãs não fosse verdade. e se são claros e manifestos. foi o primeiro que lhes deu a autoridade. et quod hodie exemplis tuemur inter exempla erit. escolha parece mais de cela vinária. Uns o faziam por zelo. e aquele que as começou sem autor. senão a razão.

Séneca. et toties ad magistratum respicere. e estes velhos eram aqueles varões veneráveis da primeira antigüidade — Seth. Muito alcançaram os Antigos. Mas não me ouçam a mim. sem descobrir nem inventar cousa nova. sed aperuisse. et inventum inventa non obstant. sendo por comum aprovação do Mundo um dos maiores engenhos que produziu a Grécia e a mesma natureza. ou que não há capacidade nos modernos para as poderem descobrir e dizer. dezesseis séculos antes deste nosso. nec ulli nato. ouçam aos mesmos antigos. Enoch. at contra scire.. formando um perfeito orador no livro Orator: Nec vero Aristotelem in philosophia deterruit a scribendo amplitudo Platonis. utrum ad consumptam materiam. sed multum interest. saber só o que os Antigos souberam. não é. David que veio ao mundo 3000 anos depois de sua criação. E Marco Túlio. Estes tais haviam de ter a testa virada para as costas. qui ante nos fuerunt. LXIV. post mille secula. é lembrar-se: Aliud est meminisse. que todos se ocupam na erudição do passado. nem a admirável sabedoria e cópia do mesmo Aristóteles pôde apagar os fogosos espíritos de tantos filósofos que depois dele e sobre ele escreveram. como dizem os Italianos dos Alemães. grande injúria fazem à verdade e às ciências. se bem apontamos os fundamentos destes impugnadores d a novidade e as razões daquela dura lei com que forçosamente querem que sigamos em tudo os antigos e adoremos as suas pisadas. E se estes. que descobrir e saber nelas. 64 . Mathusalem. que soubera e entendera mais que todos os velhos: Super senes intelexi. como bem disse o mesmo Sêneca. E se isto é assim nas ciências humanas. an ad subactam accedas: crescit in dies.] Multum egerunt. E na epístola LXXIX:: Et qui praeesserant. na epist. ou é porque têm para si que já se não podem dizer cousas novas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro E verdadeiramente que. alumiados só pelo lume da razão. Noe. Porque. ainda teriam muito que dizer na mesma filosofia moral em que ele tanto e tão sutilmente disse. se o segundo. e se lhes deve o primeiro louvor. non praeripuisse mihi videntur quae dici poterant. que cuidemos que já não podem adiantar as ciências nem dizer e acrescentar sobre elas cousa de novo? Sêneca floresceu nos tempos de Nero. grande afronta aos homens e à nossa idade. Se o primeiro. sed non peregerunt. escreve ou ensina a Lucilo desta maneira: Multum adhuc restat operis. porque havemos de querer abreviar as mãos do Autor dela e cuidarmos que já não podem falar de novo os homens presentes. [. e se ele conheceu que os que nascessem de ali a mil séculos. que será naquele pego imenso e profundíssimo das divinas) Mas ouçamos também aos antigos delas. E começando pelos Gentios. Meminisse est rem commissam memoriae custodire. praecludetur occasio aliqua adhuc adjiciendi. est et sua facere quemque.. e só lhes damos licença para decorarem e repetirem o que disseram os passados? Se assim fora. nec ab exemplari pendere. que muito é que se atreva a dizer alguma cousa nova a nossa idade. por boas contas. nec ipse Aristoteles admirabili quadam scientia et copia caeterorum studia restrinxit Até aqui estes dois gentios. debalde nos deu Deus o entendimento. multumque restabit. se ainda lhe restam por sua confissão novecentos e oitenta e quatro séculos (se tantos durar o Mundo) para dizer e inventar muito de novo sobre o mesmo Sêneca? Se depois do divino Platão (como pondera Túlio) não acovardaram os seus escritos a Aristóteles para que não escrevesse. mas ainda nos deixam seus grandes talentos em que exercitar os nossos. que inventar. saber. sendo ambos eminentíssimos nas suas artes não duvidaram confessar que havia ainda muito mais que andar. porque havemos nós de esperar e afrontar tanto a nossa idade e os homens dela. pois nos bastava a memória. em que era ainda maior a soberba e presunção que a ciência. dizia confiadamente. aliud scire. que vem a ser.

depois dos Hesíquios. os Epifânios. Jerônimo. que por aplauso comum do Concílio oitavo toletano foi preferido a todos os Doutores na doutrina ética e moral. Gregório— ia juntamente crescendo a sabedoria dos antigos Padres. os Apóstolos mais que os profetas». dos Teodoretos. sobre o que tinham sabido e ensinado os mais antigos. os Taumaturgos. os Hieroteus. senão doutrina de S. diz assim: Nec qui nos illis temporibus antecessunt. plus namque Moyses quam Abraham. de um Ambrósio e de um Agostinho. a quem tinham precedido os Dionisios Areopagitas. estas palavras: Quid igitur? Damnamus veteres? Minime. quam Prophetae in Omnipotentis Dei scientia eruditi sunt: «Ao passo que iam procedendo os tempos —diz S. na Apologia acima citada . os Orígenes. dos Cassianos. plus A postoli. ilustrando e escrevendo muitas cousas de novo os que vinham depois. e do mesmo Jerônimo. dos Máximos. dos Cassiodoros. depois de um Crisóstomo. Padre dos primeiros séculos da Igreja. os Clementes Alexandrinos. por consenso e pregão universal da igreja. em que se contaram quatro mil anos. et gulae earum vicina maria non sufficiant. Mas nem por isso depois de tantos e tão esclarecidos lumes da Igreja deixaram de espalhar nela. de que ela tinha sido figura. Não é consideração minha. depois dos outros dois Gregórios. escreve o santo Doutor com a modéstia com que costumam falar os homens maiores. novos raios de novas luzes os três ilustríssimos 65 . Desde a criação do Mundo até a reparação dele. dos Pascásios. sempre os homens se foram excedendo na sabedoria divina. o que é mais que tudo. occupari ab antecedentibus non potest. sed post priorum studia in domo Domini. os Profetas mais que Moysés. penetrou tão alta mente o espírito interior da Teologia Mística e Ascética. dos Paulinos. ainda que fossem diminuindo na idade. contra Rufino. sendo o apetite ou gula humana tão ambiciosa de novos e esquisitos sabores. os Inácios. José. Samuel e tantos outros de igual sabedoria e nome. passados os tempos de Cristo e de sua vida.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Abraão. depois dos Euquérios. dos Atanásios. dos Crisólogos. os Arnóbios. acrescentando. E convertendo-se no fim contra os vituperadores dos inventos novos. com o qual nenhum outro estado da Igreja se pode comparar). dos Padres e Doutores sagrados. os Tertulianos. nova e mais perfeita em que hoje estamos. dos Fulgêncios. os Atanásios. cur in solo studio scripturarum veteri sapore contentis sunt ? São Gregório Magno. os Ireneus. Lactancio Firmiano. porque. quod possumus. sempre foram também crescendo. que são o sabor dos entendimentos se contentam os homens com a vulgaridade ou velhice dos manjares usados: Nam cum nova semper expectant voluntates. S. os Ciprianos. só nas ciências. Moisés Josué. E o mesmo que tinha sucedido naquela primeira e antiga igreja. conhecendo sempre mais de Deus os segundos que os primeiros. se experimenta depois na segunda. II: Divinarum Institutionum. dos Procópios. Isaac Jacob. no Liv. os Justinos. dos Boécios. o renome de doutor Máximo. Nazianzeno e Niceno. e. com novos e maiores resplendores. que floresceu muito depois do mesmo Lactancio e a quem prece deram os Hipólitos. os Policarpos. os Teófilos. as ciências divinas.quae si hominibus aequaliter datur. Melquisedech. Moyses soube mais das cousas divinas que Abraão. plus Prophetae. laboramus. quam Moyses. os Cirilos. Papa: Per incrementa temporum crevit scientia spiritualium Patrum. em que a sabedoria eterna viveu humanada no Mundo entre os homens (que foi um parêntesis excessivo e infinito de luz. aumentou e adiantou tanto o estudo das divinas letras. com aquele famoso elogio: In ethicis assertionibus praecunctis merito praeferendus. nos séculos que depois foram sucedendo. dos Leões.depois dos Clímacos. que veio ao Mundo para lhe dar melhor cabeça do que seu juízo e errados juízos merecem. os Basílios. estranha muito que. que mereceu na eminência delas. Gregório. em todos os séculos seguintes.

que em outra idade podiam ter nome de primeiros planetas. não só luz. com mais repetidos exemplos que nos passados. os Elísios.. que foi pelos anos de mil e trezentos a esta parte. produz inacessivelmente todos os anos tantos frutos novos. porque não só alumiou a Divina Providência pouco depois o Mundo todo com aquelas duas tochas claríssimas e santíssimas de teologia — Santo Tomás e São Boaventura — mas antes e depois deles.] haec propter illos dicta sunt. os Teofilatos. sed sicut Deus produxit novos fructus ad recreationem hominis exterioris. os Bedas. os Caetanos. entre os quais Ricardo Vitorino. e depois dos que já não eram os primeiros. os Anselmos. os Sofrónios. os Rupertos. os Toledos. mais que escrever. que se pode com razão dizer do Mundo o que Deus disse a Abraão do firmamento: Numera stellas. que em alguma matéria das que escrevemos. parou a fonte milagrosa. nome singular. ainda depois de tanto dito. Eugenio e Ildefonso. que será na esfera da sabedoria e da verdade. E porque é matéria impossível e número sem conto. porque não cuidarão que também as ciências podem produzir cousas novas para alimento e recreação das almas?» Não se podia explicar com mais clara comparação nem provar-se com mais eficaz argumento. senão o que primeiro foi recebido pelos antiquíssimos Padres. senão fonte de luzes. Mas se Deus para sustento e gosto dos corpos. as cercou de tão luminosas e resplandecentes estrelas. porque não quererão os adoradores ou aduladores da Antigüidade que. os Vitórias. os Soares. fiquem em silêncio (por mais que tão grande brado deram nas escolas) os Vasques. os Soutos. e não correu mais o óleo? Houve neste grande oceano de ciências alguma nau Vitória que desse volta a todo o mar? ou algum Gama que. non credunt scientias impertiri ad innovandos sensus hominis interioris: «Não se tenha por cousa grande — diz Ricardo — nem merecedora de admiração. os Belarminos. um Bernardo. si in uno aliquo. os Damascenos. possamos acrescentar alguma cousa de novo. para aumento ou competência de suas mesmas luzes. as quais depois deste doutíssimo século se multiplicaram em tanto número. passado o cabo de Boa Esperança. cuja imensa e infinita circunferência só a pode abraçar 0 que é imenso e compreender O que é infinito? Se depois dos antiquíssimos tiveram que descobrir os menos antigos. em cujos felicíssimos e imensos escritos se vêem tão adiantadas as letras divinas. os Medinas. tiveram que inventar mais que os segundos. os Lugos. que mais parecem novas que renovadas. os Eutímios. si potes. e depois de tanto escrito. não fica outra para Esau? São os antigos como os cântaros da Sareftana (comparação de que usa Ruperto) que. e muitos outros. ainda ficaram mares e terras incógnitas que prometem novas empresas e novos argonautas. dada a bênção a Jacob. defendendo modestamente alguma novidade que se acharia em seus livros. vel mirum. a tirasse a todos os outros de novos descobrimentos? E se depois deste famoso círculo do Universo. nisi quod ab antiquissimis patribus acceperunt. os Canísios. se se pode ainda sobre os Antigos dizer alguma cousa de novo. os Valenças. qui nihil acceptant. Digam agora os reprovadores das que eles chamam novidades. um Alexandre de Ales e o famosíssimo e subtilíssimo Scoto. aliquid addere possumus [. É porventura o saber e dizer patrimônio só da Antigüidade e morgado como o de Isaac que. e depois de tanto estudado e sabido. como foram um Alberto Magno. se tem confirmado pela grandeza e liberalidade de Deus em todos os séculos. depois de cheios eles. diz assim no prólogo de um deles: Non est magnum.. e desde aquele tempo. os Molinas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro espanhóis — Isidoro. mais que estudar e saber? 66 . e digo isto por aqueles que nada admitem nem lhes é aceito. haja mais que dizer.

que tanto tinha em si do que os Antigos souberam. são aqueles que não podem dizer senão as muito velhas. Mas antes de Petrarca o tinha dito em Roma o nosso discreto espanhol: Esse quid hoc dicam.Che come crebber l'arti. Marone Et sua riserunt saecula Maeonidem. se lhe dessem o que ignorava. Os que mais queriam louvar a Cristo. quando disse: Ecce nova facio omnia. O distraído hipócrita ao modesto. Todos os grandes engenhos tiveram sempre esta queixa. foi aquela de que disse o Profeta: Creavit Dominus novum super terram: faemina circumdabit virum. Roma. e Herodes se persuadia que não podia ser senão o Baptista ressuscitado. A cousa mais nova que Deus fez no Mundo. Sed et propheta Daniel: pertransibunt. é querer atar os vivos aos mortos. e cada um condena o que não tem. dizia que daria de alvíssaras o que sabia. sendo aquele a quem o Baptista não era digno de desatar a correia do sapato. ait plurimi et multiplex erit scientia. Todas as cousas novas que se disserem nesta História..Anexo:Imprimir/ História do Futuro Como temo que os que condenam as cousas novas. Crebbe l'invidia. mas querer precisamente que nos atemos em tudo aos passados. e pode ser que muito remendadas! O avarento chama pródigo ao liberal. Praeferat antiquos semper ut illa novis. crueldade que só se lê de Mezêncio. assegura firmemente aos vindouros que poderão ter maiores notícias das cousas. o qual. Não ha cousa boa sem contradição. isto é. do que tiveram e alcançaram os Antigos. nem grande sem inveja: .. e todos se armaram destas apologias. sendo ele a luz de todos os Profetas. mores. e o prova e refere em dois textos ou dois exemplos: um de David. dicens: Super omnes docentes me intellexi. que também lhe tinha escrito lastimado da mesma chaga. vivis quod fama negatur. Até aqui São Bernardo. 67 .e Soares.signum cui contradicetur. Regule. escrevendo a Hugo de São Vítor. Et sua quod rarus tempora lector amat? Hi sunt invidiae nimirum. que prometeu saberiam mais os futuros: David quoque super doctores suos et seniores donum sibi intelligentiae audacter praesumit. ou adocemos a dureza deste rigor com o melífluo Bernardo. ampliorem scilicet rerum notitiam promittens et ipse posteris. outro de Daniel. E esta novidade foi o alvo das maiores contradições. Si veterem ingrati Pompeii quaerimus umbram Et laudant Catulli vilia templa senes Ennius et lectus salvo tibi. O grande P. porque nem Deus pode fazer cousa de novo. diziam que era um dos Profetas antigos. que afirmou que soubera mais que os passados.. são aquelas que Deus tem prometido que há-de fazer. Se acaso houver quem as impugne e contradiga. e nenhum careceu de quem lhas impugnasse.. sem contradição dos mesmos para quem as faz. por não confessar o que lhe falta. e col sapere insieme Ne' cuori enflati i suoi veneni sparti. como sempre falou pela boca da Escritura. O covarde temerário ao valente. o que ficou aos vindouros para poderem saber e dizer de novo. como também predisse outro profeta: . Fechemos este discurso. porque todos disseram cousas novas.

nem por isso ela será nova. primeiro foi que a antiga de Aristóteles. nem tentação o pecado. ele era o novo. porque se não vêem. e todas eram mais antigas que ele. mas estas tiveram este nome. e não era novidade. Se não fora assim. por não ser necessário este escudo à minha História respondendo à objeção da novidade dela. mas não havia olhos. de que Cartago tinha sido a primeira inventora. Quando Adão saiu flamante das mãos de Deus. Nem eram elas as novas.] cum autem ultimarent tempora patriae. é chamada Mundo Novo. Quero dizê-lo com palavras do grande Tertuliano. outras a distancia. porque as apalpava. parecia instrumento novo aos mesmos Cartagineses. senão esquecimento. senão por muito antigo. depois de serem velhice no Egito. Para aquele cego de seu nascimento. velho e muito antigo. A nova opinião dos céus fluidos. Quando os Romanos a primeira vez bateram os muros de Cartago com o aríete ou carneiro militar. a tinha por novidade. também recebida em nossos dias.] nemini umquam adhuc libratum. porque se não 68 . digo que em toda essa novidade. e viu tanta cousa nova. e tais serão as desta História. outras a ignorância. Se no Mundo. com ser tão grande. outras a escuridade. não por novo. a quem Cristo abriu os olhos. Muitas novidades se verão nesta nossa História não novas por novas. as uvas e também as frotas novas. Todos os frutos nasceram igualmente naquele dia. mas para aqueles bárbaros. ainda que não eram novas as quantidades. não há cousa nova. Porventura aquela metade do Mundo a que chamavam quarta parte. Nas ciências nascem poucas verdades. já havia cores e luz... como isto possa ser. mas ainda que esta História seja toda de cousas tão novas. As pirâmides e obeliscos que assombraram com tão nova e desusada grandeza o foro romano (com boa vénia dos Padres Conscritos). e uma perpétua novidade sem nenhuma cousa de novo.. Tantum aevi longinqua valet mutare vetustas.. não por novo. as pêras. novo para nós. porque se não sabem.arietem [. umas cousas faz novas o esquecimento. senão por esquecido. prima omnium armasse in oscillum penduli impetus [. as mais delas ressuscitam. explicarei por alguns exemplos. foram novas as cores. com África e com Europa? E contudo. como pouco há dizia Salomão. porque as não via. Propriedade é dos futuros serem sempre novos todos. porque se não lembram. et aries jam romanus in muros quondam suos auderet stupuere illico Carthaginienses. não foi criada juntamente com Ásia. Ao terceiro dia da criação produziu a terra todas as árvores carregadas dos seus frutos. A novidade da nossa História há-de ser mais dos leitores que dela. Assim que. esquecia-se Cartago do que inventara Cartago. ut novam extraneum ingenium. porque chegaram mais tarde à nossa terra. cuja foi esta advertência: . recolhendo todos estes exemplos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Mas para que não pareça que defendo as cousas novas. :Ê uma História nova sem nenhuma novidade. porque os primeiros inventores daquele bravo instrumento tinham sido os mesmos Cartagineses. abriu os olhos. porque a América esteve tanto tempo oculta. nenhuma cousa direi de novo. não tivera ocasião o preceito. senão novas por antiquíssimas. como se vêem cada dia tantas novidades no Mundo? São novidades de cousas não novas. Serão novas neste nosso livro cousas que foram primeiro que as que hoje se têm por antigas. que somos os sábios. os figos. por isso os últimos e mais distantes se chamam novíssimos. foram novidade em Roma. De maneira que o aríete. ficaram os Cartagineses assombrados com a novidade daquela máquina. illa dicitur Carthago studiis asperrima belli.. e sendo cousa antiga e sua.. mas como havia muitos anos que gozavam da altíssima paz. que com tão continuado aplauso do Mundo os fez sólidos e incorruptíveis.

Todos dizem que os Antigos merecem maior louvor. assim no certo como no provável. porque as velhas são alheias. as novas nossas.. As cousas velhas são do tempo. quad ante vetustas non intellectum venerabutur.germana divinitas nec de novitate nec de vetustate. A verdade e as ciências. e de todas estas novidades sem novidade. quando as descobriram de novo. senão obrigação e respeito).] profert de thesauro suo nova et vetera: «Os doutos quando escrevem. Saber as velhas e inventar as novas. E quanto ao louvor que renunciamos facilmente. e posto que o nosso desejo fora levar sempre diante dos olhos esta segunda tocha. não é só obséquio e piedade. outros pelo que são. Capítulo XII: Dá-se a razão por que em algumas partes desta História se não alegaram padres e seguiram exposições dos escritores modernos) por Padre Antônio Vieira 69 Ainda que o nosso intento é seguir em quanto nos for possível as pisadas dos antigos Padres. E como a verdade da nossa História toda (como vimos) tenha o seu princípio em Deus. se bem se considera. nem se repare se é novo. no vestido pobreza. uns se conservam pelo que foram. depois dos Apóstolos (os quais não entram nesta controvérsia. disse Tertuliano judiciosamente que nem é velho nem novo. absolutamente nas cousas que se consomem com o tempo.. porque se não buscam. isto parece que é ser douto. porque não é nem será possível seguir em algumas cousas das que dizemos ou .scriba doctus [. Lembraremos nela muitas cousas esquecidas. no vinho madureza. Mais defendida está Roma com os muros de Urbano. como Padres e lumes da Igreja. vinho velho. melhores são as novas. poremos à vista muitas distantes e procuraremos saber muitas ignoradas. porque em tudo o que escreveram foram alumiados pelo Espírito Santo. Se fora outro o autor desta História. porque as avaliou a suma justiça pelo merecimento e não pelo tempo: Non dixit vetera et nova. porque foram os primeiros inventores das cousas. e segui-los como havemos de seguir em tudo. mas este louvor. nem se atenda se é velho. nisi maluisset meritorum ordinem servare. De Deus. em uns se admira a antigüidade. sed de sua veritate censetur. pedimos aos que a lerem que. Merecem maior louvor os Antigos. logo da novidade é o louvor. História do Futuro (Volume I. senão da novidade. senão as novas e as velhas. no amigo constância. certamente entre umas e outras não se pode dar regra certa. digo com indiferença o que ensinou Cristo: . O tempo umas cousas melhora e outras corrompe: ouro velho. E por não deixarmos sem juízo a controvérsia disputada entre as cousas novas e as velhas. haverá muito nesta nossa História. o escuro das profecias. mas só se considere se é ou pode ser verdade: Nec de novitate nec de vetustate. no navio e na casa perigo. outras a negligência. as novas do merecimento. para alumiar e penetrar com sua luz... dando o primeiro lugar às novas. descobriremos muitas ocultas. ainda que o merecêramos. tiram do seu tesouro as cousas novas e mais as velhas. sempre foram e sempre hão-de ser as mesmas. alumiaremos muitas escuras. A velhice no ouro é preço. como dizíamos. que por essência é sabedoria e verdade. porque sempre são. que com os de Beluário.. sed de sua veritate censeatur. mas verdadeiro: . quam temporum. quod utique dixisset. pois o mereceram. vestido novo. amigo velho. Mas notou Santo Agostinho que não disse Cristo as velhas e as novas. e é assim. em outros se logra a fortaleza. impropriamente se chamam novas ou velhas. casa nova.Anexo:Imprimir/ História do Futuro alcançam. não é elogio da antigüidade. posto que nem sempre se conhecem igualmente. contudo. folgara eu que se pudera dizer dele com Vincêncio Lirinense: Per te posteritas gratulatur intellectum. navio novo. em que não tem jurisdição o tempo..

Anexo:Imprimir/ História do Futuro dissemos este nosso intento e desejo, pede a razão e ordem da mesma Escritura que, antes de passar mais adiante, desfaçamos este reparo, para o que os menos doutos ou mais escrupulosos não topem nele e levem desde logo entendidas as causas do que fizermos e os fundamentos, licença ou autoridade com que o fazemos. Ver-se-á em algumas partes desta História, que ou não alegamos Padres antigos, ou nos desviamos da explicação que deram a alguns lugares da Escritura, o que não fazemos senão com grandes razões, sem ofensa da reverência que lhes devemos nem da verdade que seguimos, antes para maior segurança e fundamento dela, a qual é o nosso intento e obrigação buscar e descobrir adonde quer que se ache, antepondo este respeito a qualquer outro, pois à verdade se deve o maior de todos. As razões que nos movem e obrigam são três: a primeira, porque os Doutores antigos não disseram tudo; segunda, porque não acertaram em tudo; terceira, porque não concordam em tudo. E com qualquer destes casos nos pode ser. não só lícito e conveniente, senão ainda necessário seguir o que se julgar por mais verdadeiro; porque nas cousas que não disseram, é forçoso falar sem eles; nas cousas em que não acertaram, é obrigação apartar deles; e nas cousas em que não concordaram, é livre seguir a qualquer deles; e também será livre e lícito deixar a todos, se assim parecer, como logo explicaremos.

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Prova-se a primeira razão
Primeiramente é certo que os Padres antigos não disseram tudo, e se prova claramente com a experiência e lição de seus próprios livros, nos quais se não acha memória de muitas cousas grandes e doutas, achadas e acrescentadas depois, não só nas outras ciências divinas, mas na inteligência das mesmas Escrituras Sagradas, e particularmente nas dos profetas, que nos tempos mais chegados a nós se descobriram, disputaram e entenderam como se lêem nos escritores modernos; e posto que para os 5 versados na lição de uns e outros bastava esta suposição somente apontada, porei aqui para os demais as palavras de dois grandes doutores, Castro e Canísio, ambos do século antecedente a este nosso, e ambos diligentíssimos investigadores da antigüidade e doutíssimos na erudição da Escritura, Concílios e Padres, os quais expressamente afirmam que muitas cousas se sabem e entendem hoje que foram ignoradas dos Padres antigos, como fala Castro ou incógnitas a eles, como mais certamente diz Canisio. As palavras deste segundo, no livro primeiro De Beata Virgine, cap. VII, são as seguintes: Demum habuerint Patres suorum temporum rationem quibus multa vel prorsus incognita erant, vel obscura neque satis evoluta, quae posteris diligentius excutienda, et clarius illustranda, explicandaque non sine certo Dei consilio reliquebantur... E Castro, no Liv. I Adversus haereses, cap. II, depois de provar o mesmo com o lugar do cap. VI dos Cantares, que abaixo citaremos, conclui assim: Quo sit, ut multa nunc sciamus, qae, a primis Patribus aut dubitata, aut prorsus ignorata fsuerunt. A qual diferença se não conheceu só com a comprida experiência dos nossos tempos, senão já nos mesmos Padres se conhecia, como muitos deles escreveram, e particularmente entre os da primeira idade, Tertuliano, e entre os da última Ricardo Vitorino, cujas palavras de ambos referiremos neste mesmo capítulo. A razão de muitas cousas que hoje se sabem serem incógnitas aos Padres antigos, se pode considerar, ou da parte de Deus, ou da parte das mesmas cousas. Da parte das mesmas cousas, nos não devemos admirar que lhes fossem incógnitas, por serem muitas delas dificultosas, escuras e mui recônditas nas Escrituras Sagradas e enigmas dos profetas, as quais se não podiam entender e penetrar só com a agudeza dos entendimentos, por sublimes e sublimíssimos que fossem, em quanto não estavam assistidos de outras notícias

Anexo:Imprimir/ História do Futuro e circunstancias, que só se descobrem com o tempo e adquirem com larga experiência. Excelente exemplo é nesta matéria o das ciências é artes, ainda naturais, as quais em seus princípios e rudimentos foram imperfeitas, e com os anos, experiência e exercício se vêem hoje sublimadas a tão eminente perfeição, como a náutica, a bélica, a música a arquitetura, a geografia, a hidrografia e todas ás outras matemáticas, e muito em particular a cronologia, de que neste mesmo capítulo falaremos. E assim como estas mesmas ciências e artes cresceram e se apuraram muito com o socorro e aparelho de esquisitos instrumentos, que nelas se inventaram, como foi na náutica o astrolábio, a agulha e o admirável segredo da pedra de cevar. e na bélica o terribilíssimo e subtilíssimo invento da pólvora, que deu alma e ser a tantos e tão notáveis instrumentos de guerra, assim também puderam crescer e aumentar-se muito as ciências divinas e chegar à perfeição e eminência em que hoje se vêem com os instrumentos próprios delas, que é a multidão de livros espalhados e facilitados por todo o Mundo pelo beneficio da impressão, com que a doutrina e ciência particular dos homens insignes se faz comum a todos em tão distantes lugares, não sendo menor a comodidade dos mestres, que são instrumentos vivos das ciências, no concurso de tantas e tão diversas universidades, teatros e oficinas públicas de toda a sabedoria; comodidade de que no tempo dos Padres se carecia, sendo necessário ao Doutor Máximo, São Jerônimo, como ele mesmo escreve, copiar com imenso trabalho os livros por sua própria mão e peregrinar à Grécia à Palestina, ao Egipto e às Gálias para recolher os escritos de S. Hilário, ouvir a S. Gregório Nazianzeno, a Dídimo e aos mestres mais peritos na língua hebraica; inconvenientes que só podia vencer e contrastar um tão alentado espírito e zelo de servir à Igreja, como do grande Jerônimo, digno tanto de imortal louvor pela eminência de sua sabedoria, como pelos gloriosos trabalhos e suores com que a adquiriu e conquistou. Da parte dos mesmos Padres se deve igualmente considerar, que deixaram de especular e dizer muitas cousas de grande importância que depois se souberam e escreveram, porque se acomodaram à necessidade dos tempos em que viviam. Todo o intento dos Padres antigos era provar a verdade da encarnação do Filho de Deus e o mistério de sua cruz, a qual na cegueira dos Judeus (como diz S. Paulo) se reputava por escândalo e na ignorância dos Gentios por estultícia. E como esta era a guerra e a conquista daqueles tempos, todas armas da Sagrada Escritura se forjavam e acostavam contra esta resistência, e por isso os primeiros Padres e seus sucessores nenhuma cousa buscavam nos Livros Sagrados, não só proféticos, senão ainda nos históricos, mais que os mistérios de Cristo. É bom testemunho desta verdade o que diz Ruperto a Tristérico, arcebispo coloniense, do prólogo dos seus Comentários sobre os Profetas menores: Scito me Pater mi sicut in caeteris Scripturis, ita et in volumine duodecim Prophetarum operam dedisse, ad quaerendum Christum. E como isto é o que só buscavam para escrever, isto é o que só achavam ou o que só escreviam, seguindo os sentidos alegóricos e místicos e deixando ou insistindo menos nos literais, como se vê ordinariamente em todas as exposições dos Padres, que todas se empregam na alegoria, tocando muitas vezes só leve e superficialmente a letra, e talvez não sem alguma impropriedade e violência. Assim o notaram entre os mesmos Padres alguns mais modernos que antigos e outros menos antigos que antiqüíssimos: dos primeiros, é Ricardo de São Vitor, contemporâneo de S. Bernardo, no Prólogo sobre o Profeta Ezequiel, onde confessa que se aparta de São Gregório, por se não chegar ao sentido literal do texto; dos segundos, é o mesmo São Gregório, Padre do sexto século depois de Cristo, no Proémio sobre o Livro dos Reis, onde diz que lhe foi necessário em algumas partes não seguir os Padres mais antigos, por não

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro faltar ao fio conseqüência e verdadeira interpretação da história. As palavras de São Gregório não refiro aqui, porque terão seu lugar mais abaixo; as de Ricardo depois de referir com os antigos Padres ocupavam seu estudo principal na alegoria, são estas: Hinc contigisse arbitror, ut litterae expositionem is obscuriobus quibusdam locis antiqui Patres tacile praeterirent, vel paulo negligentius tracterent, qui si plenius insistirent, multo perfectius procul dubio quam aliqui ex modernis, id potuissent. Quer dizer que os Padres antigos, por aplicarem toda a sua industria e engenho no sentido alegórico das Escrituras, ou passaram totalmente em silêncio, ou trataram menos diligentemente alguns lugares mais escuros delas, sendo certo, segundo eram dotados de altíssimos engenhos e enriquecidos de muita ciência e erudição, que, se insistissem no sentido genuíno e literal do texto, o poderiam conseguir mais perfeitamente que qualquer dos modernos. De maneira que, segundo a verdade desta advertência, vem a ser a diferença entre os Padres antigos e os comentadores modernos das Escrituras, a mesma que houve naqueles dois homens do Evangelho, ambos ricos e venturosos: um que achou o tesouro e deu quanto tinha por comprar o campo em que ele estava; outro que, buscando so margaritas e achando uma preciosíssima, empregou também nela quanto tinha. Os Padres antigos, que buscavam só nas Escrituras a Cristo e nesta preciosíssima margarita empregavam todo o cabedal do seu estudo, os modernos, que se não determinam no tesouro das Escrituras a um só gênero de riquezas, acham, além da mesma margarita, muitas outras pedras também preciosas, e tiram daquele tesouro (como dizia Cristo) nova et vetera, riquezas novas e velhas: as velhas, que são as notícias das verdades já passadas; as novas, que são o conhecimento das outras futuras. Finalmente se deve considerar este silêncio das cousas que não disseram os Padres, da parte de Deus, o qual com particular providência não quis que eles por então as soubessem e escrevessem, para que a Igreja, nossa mãe, se parecesse com seu Esposo, e, conforme os anos e idade, fosse também crescendo em luz e sabedoria. Assim o notou, além de muitos outros teólogos, o mesmo Canísio, continuando o lugar acima citado: Quae posteris diligentius excutienda et clarius illustranda explicandaque, non sine certo Dei consilio relinquebantur non vero homini tantum, sed etiam Ecclesiae Christi tempus auget sapientiam, et Spiritus Sanctus aliam atque aliam doctrinae lucem patefacit No cap. VI dos Cantares, onde o Esposo é Cristo e a esposa a Igreja estão profetizados os progressos que ala havia de ter, e se comparam com extremada propriedade à luz da aurora: Quae est ista , quae progreditur, quasi aurora consurgens? Porque assim como a aurora nasce das trevas da noite e começa na primeira luz, e nela vai sempre crescendo de menor para maior claridade assim a Igreja, nascida nas trevas da ignorância e infidelidade começou em menos luz de sabedoria e vai sempre crescendo e aumentando-se mais e mais de resplendor, de claridade, que são os termos que usa S. Paulo na Segunda epístola aos Coríntios:Nos vero omnes, revelata facie, gloriam Domini speculantes, in eamdem imaginem transformamur a claritate in claritatem. Fala o Apóstolo do véu da infidelidade com que os Judeus têm cobertos os olhos para não ver a Cristo, e diz que se compõe a Igreja, tirado pela Fé aquele véu, com os olhos abertos e desempedidos por meio da própria especulação e estudo, imos crescendo de claridade em claridade, não já passando das trevas à luz, senão de uma luz para outra, sempre maior e mais clara, transformando-se por este modo a Igreja na imagem do seu mesmo Esposo, Cristo. Porque, assim como Cristo, posto que sua sabedoria foi sempre igual e a mesma (em quanto Deus infinita e em quanto

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e os Doutores da idade maior e mais provecta da Igreja são os mais velhos e mais antigos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro homem consumadíssima). à medida que cresce nos anos e na idade: Crescat igitur oportet. bem assim como a luz do Sol material. porque a Igreja não se compõe das paredes mortas. Mas a aparência desta razão é tão falsa como todas as de seus autores. a ciência e a sabedoria pelos mesmos graus do tempo com que vão passando os anos. espiritualmente e por particular e invisível assistência sempre ficou com eles e os assistirá (dentro porém da sua Igreja) ate o fim do Mundo. senão cada vez menos. E seria não só contra a ordem da natureza. e do mesmo Sol tiram o argumento desta cegueira. como prometeu a todos os verdadeiros discipulos de sua doutrina quando lhes disse: Ecce ego vobiscum sum usque ad consummationem saeculi. Dizem que Cristo é o sol da Igreja e aquela primeira verdadeira luz: quae illuminat omnem hominem venientem in hunc mundum. in aedificationem corporis Christi donec occurramus omnes in unitatem fidei et agnitionis Filii Dei. como expressamente disse São Paulo. e que. Dizem contra isto os hereges (como notou Banhes) que a Igreja não está hoje mais alumiada. transformando-se na sua imagem e retratando-se nele e por ele. nos atos exteriores e manifestação dela ao Mundo. senão os que hoje e nos tempos mais chegados a nós se chamam modernos Porque assim como nos anos de Cristo houve infância. e da ciência mais antiga. própria e rigorosamente falando. alumia e quenta mais aos que lhe ficam mais vizinhos e menos aos que estão mais remotos e mais distantes. crescendo sempre nela ao passo que ia crescendo nos anos. por segundo mestre de sua escola. Também deixou em seu lugar. vai sempre crescendo mais e mais na luz e na sabedoria. et multum vehementerque proficiat. senão os presentes. tanto os raios da sua luz são mais tênues. que não fosse mais sábia a Igreja nos maiores anos. que é o corpo místico do mesmo Cristo. não só alumia a Igreja 73 .. igualmente Deus como ele. nem foi crescendo dos nossos anos para os primeiros. nem aqueles que vulgarmente são chamados os antigos. a não mostrou toda junta. com que o corpo místico dela vai crescendo e aumentando-se sempre mais. tam unius hominis quam totius Ecclessiae. in virum perfectum in mensuram aetatis plenitudinis Christi. até chegar a encher a perfeição ou medida da mesma idade de Cristo. o qual. contudo. sapientia — disse doutamente Vincencio Lirinense. porque ainda Cristo corporalmente se apartou dos homens. ad consummationem sanctorum in opus ministerii. De sorte que vai crescendo a inteligência. mais escassos e menos intensos. e depois idade perfeita. e qualquer outra. tam singulorum quam omium.alios autem pastores et doctores. senão dos membros vivos. os séculos e a idade. senão dos primeiros para os nossos. puerícia e adolescência. senão nos homens e doutores particulares. quanto mais se vão apartando os nossos tempos do tempo em que Cristo viveu entre os homens. senão contra a decência da mesma idade. scientia. Donde se deve reparar e advertir (cousa que devera já estar mui notada e advertida) que os Doutores antigos e mais velhos. assim a Igreja. argumento desta sua cegueira. que são os membros de que o seu corpo e os raios de que a sua luz se compõe. não são os passados. aetatum ac saecolorum gradibus intelligentia. do que tinha sido nos menores. Donde segue que os Doutores da infância. da puerícia e da adolescência da Igreja foram os modernos e da ciência moderna. como diz o evangelista São Lucas: Proficiebat sapientia et aetate. senão que a foi dispensando por partes. falando dos mesmos Doutores:. ao Espírito Santo. assim nos anos e duração da Igreja há a mesma distinção e sucessão de idades. com a mesma e não diferente luz. e isto não só na Igreja universal e em comum.

etc Se o Demônio sempre obra e não desiste de acrescentar cada dia novos erros e novos enganos com que impugnar. quando por si mesmo os ensinava. como havia o Espírito Santo de cessar em acrescentar sempre nela novas:luzes contra essas trevas. não devem tomar à semelhança do Sol` e da luz. quando disse: Si quis sitit. cum propterea Paracletum miserit Dominus. ut quoniam humana mediocritas omnia semel capere non poterat.. Cum autem venerit ille Spiritus veritatis. porque vai recebendo novas correntes e novas águas. que por menos capacidade dos discípulos deixou Cristo de lhas dizer.? Não me detenho em romancear as palavras. são em suma tudo o que até agora temos dito. por isso disse São Paulo: Oportet haereses esse. Hoc autem dixit de spiritu. sola immobilis et irreformabilis [. dizendo-lhes porém. et ordinaretur. quanto mais caminha e mais se aparta de seu princípio. com que se faz mais largo. Assim que os que quiserem reconhecer os aumentos da sabedoria. mais profundo. só peço se pondere aquela nova e bem achada razão de Tertuliano: Quale est enim ut diabolo semper operante. em que sempre mais vai crescendo a Igreja com os anos. entrando sempre nela as puríssimas correntes da doutrina de tantos Doutores católicos e sapientíssimos. que o Espírito lhas ensinaria: Adhuc multa habeo vobis dicere: sed non potestis portare modo. quod Scripturar revelantur. novas verdades contra esses erros. ab illo Vicario Domini Spiritu Sancto [. porque isso em suma tudo o que até agora temos dito. mas. como doutamente disse Santo Agostinho. nova claridade contra esses enganos e novas vitórias contra esse inimigo e seus sequazes? Em sua mesma cegueira tem o herege a prova da maior luz da Igreja. ouçam ao antiquíssimo Tertuliano: Regula quidem fidei una omnino est.. ensinando e declarando aquelas ocultas e altíssimas verdades. é o bem que tira de tão grande mal aquela sapientíssima Providência. docebit vos omnem veritatem. flumina de ventre ejus fluent aquae. mais caudaloso. mais se vai enfraquecendo e diminuindo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro com os mesmos resplendores da verdade.] Quae est ergo Paracleti administratio nisi haec quod disciplina dirigitur. a que o mesmo Cristo comparou sua doutrina. verdade e resplendor da Igreja. quem accepturi erant credentes in eum. de que o nosso século tem sido mais fecundo e abundante que todos até hoje. e esse . Qui credit in me sicut dicit Scriptura. veniat ad me et bibat. em que eles confessam que a Igreja esteve verdadeiramente alumiada. quanto mais distante. vivae. os vai descobrindo maiores a seu tempo. tanto mais se engrossa. que não permitir os males. (como imprudentemente fazem ainda em lugares igualmente claros de outras Escritas) fugindo para os tempos antigos.quod ad meliora proficitur. senão a da fonte e do no. 74 . aut proficere destiterit. mas o rio que nasce da fonte. et adjiciente quotidie ad iniquitatis ingenia. caetera iam disciplinae et conversationis admittunt novitatem correctionis. segundo a disposição de sua providência. A luz que sai do Sol. paulatim dirigeretur. E porque a perfídia herética se nos não queira acolher por pés. et ad perfectum produceretur disciplina. que.. teve por maior glória de sua grandeza fazer dos males bens. operante scilicet et proficiente usque in finem gratia Dei.. Quale est enim ut diabolo semper operante et adjiciente quotidie ad iniquitatis ingenia opus Dei aut cessaverit.. que cada dia a aumentam com novos e tão excelentes escritos em uma e outra teologia. (para: que o Judeu não duvide da assistência do Espírito Santo à Igreja e cabeça dela).] Haec lege fidei manente. quod intellectus reformatur. e novas: trevas com que diminuir e escurecer a luz da. Tal é a sabedoria da Igreja.

Noé. a confirmação de outras verdades e a resistência de outras batalhas próprias daqueles tempos. Em segundo lugar. em muitos lugares de seus Anais. e pela aplicação dos Padres. subsanant et exsufftant. no Aparato Sacro. por esta providência particular de Deus e pela dificuldade e escuridade de muitos lugares da Escritura. et in aquas plurimas redundavit. X de Ester: Parvus fons. suae. nas AdverteAncias Teológicas sobre cinco Padres da Igreja. contudo. Escreveram neste gênero doutissimamente Sixto Senense em todo o V e VI livro de sua Biblioteca Santa. divini. Não negamos. VII cap. diz assim: Auctores canonici ut superni. otio torpent. os quais eles escreveram não por menos reverência que tivessem aos antigos Padres. Ferdinando Vellocillo. necessidade de doutrina e cautela dos mesmos doutos que lessem as suas obras. qui crevit in fluvium. deixaram de escrever algumas cousas com que a Igreja depois se foi alumiando e ilustrando. Antônio Possevino.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A sabedoria da Igreja no alumiar é luz e no correr é rio. mas por zelo da verdade. bem assim como os que pintam cartas de marear sinalam no vastíssimo e profundíssimo Oceano os baixos (poucos e raríssimos. quando voltaram as costas e apartaram os olhos do que em seu pai. lembrados porém da reverência que os filhos devem aos pais e da bênção que mereceram aqueles dois honrados filhos. porque não querer descobrir nem saber o que eles não disseram. III. Cristo. como bem conclui o mesmo Ricardo Vitorino acima alegado: Sed nec illud tacite praetereo. Leiam e temam esta sentença os que culpam os que não querem ser culpados nela. et in lucem solemque conversus est. hujusmodi velamen habentes. por sua sabedoria e santidade. Nem isto se nos deve imputar a menos veneração dos mesmos Padres doutíssimos e santíssimos. Melchior Cano. stabilem perpetuamque constantiam servant. se se compararem com a imensidade de suas águas) para maior vigilância e segurança dos que as navegam. reliqui vero scriptores sancti inferiores et humani sunt. deficiuntque interdum ac monstrum quandoque . falemos e hajamos de falar sem eles. e igualmente merecedores da eterna veneração. Calvino. quod quidam quasi ob reverentiam Patrum nollunt ab illis omissa attentare. E como. deixando tão indigno assunto a Lutero. que houve muitos autores católicos e pios. e as águas' os resplendores das luzes naquela milagrosa metamorfose que se conta no cap. e posto que pudéramos provar a verdade deste fundamento com a demonstração das cousas em que não acertaram. sempre mais vestida de resplendores. Bèze e Wiclef. a Igreja luz com propriedade de rio. Sed inertiae. conservando juntamente as luzes e claridades das águas. antes é vício da ociosidade que virtude da reverência. podia ser menos decente. e por isso sempre mais alumiada. nós também lançaremos a capa sobre esta matéria. e advirtam que tamb5ém é um dos Padres o que isto disse. Este último no Liv. e outros. dizíamos que os Padres não acertaram em tudo. o Cardeal César Barónio. sed qui habitat in coelis. Sem e Jafet. nec videantur aliquid ultra maiores praesumere. Afonso de Castro. caelestes. não é muito que nestas que eles não disseram. De Locis Theologicis. e outros legítimos herdeiros do ímpio e irreverente Cam. bispo de Luca. em cujos livros se podem ver por junto estes exemplos. rio daquela mesma fonte e luz daquele mesmo Sol que é Cristo. 75 Segunda Razão Discorre-se sobre as cousas que no tempo dos padres houve para alguns lugares dos Profetas não poderem ser entendidos inteiramente. sol com propriedade de fonte. irridebit eos et Dominus subsanabit eos. et aliorum industriam in veritatis investigatione et inventione derident. Adversus haeereses.

é presunção de demônios». se em alguma cousa desacertaram. E ponho aqui (tanto de melhor vontade) esta minha advertência. quae illis debetur) aliquid in eorum scriptis improbare. ut nobis non liceat (salva honorificentia. ou também por nos. a cujo supremo juízo sujeitaram sempre todos os seus escritos. assim dos escritos alheios como dos próprios. II De Batismo. angelica perfectio est. João Hierosolimitano são estas: Scio me aliter habere Apostolos. usque ad prescidendae communionis et condendi schismatis vel haeresis sacrilegium pervenire. talis ego sum in scriptis aliorunt. acertar em tudo. podemos ler em prova deles outros dos mesmos Padres. quod aliter senserint quam veritas habet. cujas palavras na Epístola a Teófilo. velut scripturas canonicas laudare debemus. quando eles escreveram. Mas para que se veja a ocasião ou ocasiões que tiveram para não acertar com a verdadeira inteligência de algumas escrituras. tales volo esse intellectores meorum: «As ciências e regulações dos autores. e como os Santos Padres fossem obedientíssimos filhos da Igreja Católica. contra os erros de S. Jerônimo. e das opiniões. de tal sorte que nos não seja lícito (salva a reverência de suas pessoas). um de teologia escolástica e outro` da positiva — Santo Agostinho e S. reprovar e não seguir algumas cousas das que disseram. ou melhor entendida por outros. direi agora o que da ponderação das mesmas escrituras proféticas e das exposições dos Padres sobre elas. contra os Donatistas. quando acharmos por outra via a verdade. aliter reliquos tratores: illos semper vera dicere: istos in quibusdam ut homines aberrare>> «So os Apóstolos. que é o fim para que isto supomos. E se o fundamento dos erros humanos é o efeito natural de serem os homens homens. institutumque naturae. diabolica praesumptio est. como alumiados por Deus. na epístola III.Anexo:Imprimir/ História do Futuro pariunt propter convenientem ordinem. confessando com alta humildade e modéstia que podiam errar como os homens. Jerônimo — Santo Agostinho. nos ensinam no conhecimento que tinham de si e nós devemos ter de nós. V diz assim com admirável piedade e juízo: Homines enim sumus. e não eram anjos. unde aliquid aliter sapere. divino adjutorio vel ab aliis intellecta. cerrar em alguma cousa é fraqueza de homens. Este é o modo (diz Santo Agostinho) com que eu leio os escritos dos outros e com que quero que sejam 1idos os meus. quam res se habet. posto que sejam católicos. bem se segue que nenhum homem se pode livrar desta pensão da humanidade. seguindo Santo Agostinho. quam se res habet. não as devemos ler como escrituras canônicas. por douto e sapientíssmo que seja. é perfeição de anjo. Exemplo seja o prodigioso livro Das Retratações de Santo Agostinho. e sem menos 76 . senão depois de muitos anos de estudo e lição dos mesmos Padres. doutrina. tenho colhido.: nimis autem amando sententiam suam. mais digno de veneração por aquela obra que por todas as outras suas o qual prosseguindo a mesma sentença de Santo Agostinho no liv. vel invidendo melioribus. como homens eram e podem errar:>> _ diz o Doutor Máximo. atque respuere (si forte invenerimus. principalmente as dos Profetas. In nullo autem aliter sapere. é argumento só de que foram homens. vel a nobis). e querer defender seu parecer até romper a caridade e união da Igreja. e por isso mesmo sapientíssimos Porem aqui as palavras de dois maiores Doutores. quão verdadeiramente eram santos. escrevendo a Fortunaciano desta maneira: Neque enim quorumlibet disputationes quam vis catholicorum et laudutorum hominum. disseram a verdade em tudo. que eram comuns e recebidas entre os doutos. mui louvados e estimados por sua ciência e. humana tentatio est.:» O mesmo sentia S. quanto dela se pode colher facilmente. em que não acabei de cair de todo. Mas entre estes exemplos naturais da fragilidade humana. os outros homens. em que. como dissemos ou supomos. De maneira que. cap.

et grandinem sursum versus ca dere in terram? Et miratur aliquis in hortos pensiles ~nter seplem mira narrari. qui esse contrarios vestigiis nostris antipodas putant? Num aliquid loquuntur? Aut est quisquam tam ineptus. com o verdadeiro entendimento de alguns lugares dos Profetas que eles interpretaram em alheio e diferente sentido A primeira ocasião que os Padres tiveram para não poderem entender em seu tempo o sentido literal e histórico daqueles textos proféticos. campos tendat. Hujus quoque erroris aperienda nobis origo est [. etiam sequebatur illud extremum. fumus. hanc respondent rerum esse naturam. existimaverunt rotundum esse Mundum sicut pilam: et ex motu siderum opinati sunt coelum volvi. que para os que bem o entendem sei de certo não será larga. ut nulla sit pars Terrae. que foi de muitos filósofos antigos se tinha entre os Padres por verdade muito certa e averiguada. etiam ipsam terram globo similem. atque oriri semper ab eadem. id est. nec quomodo ab occasu ad Orientem remearent. e muito 77 . qui haec portenta defendunt. neque enim fieri posset ut non esset rotundum. ut nebula. et ad medium connexa sint omnia sicut radios videmus in rota. eram não só desertas. maria consternat. et agros et maria. ut in omnes Coeli partes eamdem faciem gerat.] Quae igitur illos ad antipodas ratio perduxit? Videbant siderum cursus in occasum meantium. Pluvias et nives. quae astra esse dicerent. Hanc igitur Coeli rotunditatem illud sequebatur. Até aqui Lactancio. por sua matéria e elegância. ut pondera in medium ferantur. quomodo ergo non cadunt omnia in inferiorem illam cueli partem. eosque caelarunt portentosis quibusdam simulacris. caeterisque animulibus incolatur: sic pendulos istos antipodas Coeli rotunditas adinvenit. não eram entre todos as mesmas razões filosóficas. aut joci causa philosophari. Quid dicam de iis? Nescio. era a falta que então havia no Mundo da verdadeira e exata cosmografia. volubilitate ipsa Mundi ad ortum referri. itaque et aereos orbes fabricati sunt quasi ad figuram Mundi. Cum autem non prospicerent quce machinatio cursus eorum temperaret. aut prudentes et scios mendacia defendenda suscipere. et urbes. necesse esse. discorre assim: Quid illi.quasi ut ingenia sua in malis rebus exerceant vel ostentent. quod si ita esset.Anexo:Imprimir/ História do Futuro louvor de sua grandeza e sabedoria. constanter in stultitia perseverant. Si autem rotunda etiam Terra esset. senão ainda inabitáveis Este sentimento. ou de que o globo da Terra não era perfeitamente esférico. negando geralmente a opinião. do que nós hoje nos podemos rir dele. Descreve Lactâncio Firmiano que era um dos Padres. ou de que as partes opostas às que naquele tempo se conheciam. ut Terra in medio sinu ejus esset inclusa. em que alguns se afundavam. cum philosophi. e hoje depois delas nos parecem ridículas. montes erigat. Quod si quaeras ab is. qui credut esse homines quorum vestigia sint superiora quam capita? Aut ibi quae apud nos jacent inversa pendere? Fruges et arbores deorsum versas crescere. e a errada opinião. et montes pensiles faciant. . Quod si esset. não se rindo menos dos que naquele tempo tinham esta opinião. coelum autem ipsum in ornnes partes putarent esse devexum. Solemque. quae autem levia sunt. ignis. nisi quod eos interdum puto. cum occiderirint. Por isso não duvidei de copiar esta página de latim. quão impossível cousa lhes era acertarem naquele tempo. Solem atque Lunam in aemdem partem semper occidere. qui cum semel aberraverint. quod rotundo conclusum teneretur. quod sic videri propler immensam latitudnem necesse est.quae non ab hominibus. Sic astra. et vana vanis defendunt. a medio deferantur ut coelum petant. e muito douto daquele tempo e zombando elegantissimamente dos que tinham a opinião contrária. ou fama de haver os que então já se chamavam antípodas Posto que os princípios por que os Padres os negavam. em aquelas suposições. que então (antes da experiência) tinham nome de razões.

assim como os raios de uma roda todos vão parar ao eixo. E se perguntarmos aos defensores deste portento como pode ser que os homens que. primeiros descobridores de seus antípodas. e que todas as cousas que aqui estão em pé. senão o termo e fraqueza de nossa vista). id est. em todas as partes. adversa pedibus nostris 78 . e feita redonda a Terra. e foi bem que o deixasse tão miudamente escrito. que de todas as partes inclina para o centro. as cousas leves. porque o passarão mais brevemente. hajam de descer aos ramos. não o sei. e que. em que as torres e os telhados estão pendurados para baixo! Mas será bem que digamos a origem donde teve princípio este erro e que razão moveu ou levou estes homens a uma cousa tão irracional. fingem com os pés para cima. assim as cousas pesadas vão buscar o meio. de que a Terra está cercada. como está: nesta em que vivemos. quando há filósofos que fazem campos pênsiles.>> Este é o discurso de Lactâncio. O mesmo peço eu que façam os que não têm necessidade de ver a tradução dela. e direitas. só digo que. a Lua e estrelas. as névoas. Desta redondeza ou rotundidade do céu inferiam e assentavam que também a Terra era redonda. mares pênsiles e cidades pênsiles. assim que a imaginada rotundidade do céu foi a inventora destes antípodas pendurados. acomodando-se naturalmente a figura do corpo exterior e maior. que agora se segue. e não entendendo o modo por que esta máquina se governa. vieram a imaginar que o Mundo era redondo como uma bola. tiravam por segunda conseqüência que também havia de estar povoada de homens e de animais. ubi Sol oritur quando occidit nobis.Anexo:Imprimir/ História do Futuro menos para os que o não entendem. e torneada desta maneira. mas no liv. tem figura de uma abóbada (sendo que esta representação não a faz a figura do céu. os quais impugna no livro das suas Categorias. as defendem contudo para ostentar habilidade e engenho. Viam que o Sol. a que chamamos estrelas e planetas. e assim fingiam que havia no céu vários orbes de matéria sólida como bronze. como o fogo. para que não fiquem com o sentimento de quão mal se pode trasladar à nossa língua a elegância da latina: «Que direi daqueles—diz Lactando—os quais tiveram para si que há no Mundo outros homens que andam com os pés virados para nós. O que se haja de dizer de tais homens e de tais entendimentos. e. dentro do qual estava metida. Santo Agostinho também teve a mesma opinião de Lactâncio. se lhes não despeguem da terra. lá estejam dependuradas? Que as árvores cresçam para a parte inferior? Que a chuva caia para cima? E que os que hão-de colher os frutos. com palavras de tanta segurança como as seguintes: Quod vero et antipodas esse fabulantur. que este céu que nos cobre. empregando tão bons entendimentos em tão más cousas. viam. sobem direitas para as diversas partes do Céu. e que sabendo muito bem que tudo o que dizem são fábulas e mentiras. resolve que se não deve crer que há antípodas. e como não caem por esses ares abaixo respondem que é o peso natural da Terra. defendendo umas cousas vãs com outras tão vãs como elas. para que soubéssemos o que naquele tempo se sabia do Mundo e para que saiba o mesmo Mundo quanto deve aos Portugueses. senão por jogo e zombaria. perseveram constantemente na sua ignorância. depois de terem caído no primeiro erro. a que chamam antípodas? Porventura dizem estes alguma cousa que tenha fundamento. XVI De Civitate Dei. e não subir? E espantamo-nos que os hortos pênsiles se contêm entre as Sete Maravilhas do Mundo. em que estavam esculpidas essas imagens e corpos portentosos. os fumos. como haver antípodas. sendo que algumas vezes cuido que não dizem nem escrevem isto de siso. ou pode haver homem de tão pouco juízo que se lhe meta na cabeça que há homens que andem com a cabeça para baixo. ou cuidavam que viam. posto que lhe não contentaram os seus fundamentos. assim como do mesmo eixo saem os raios para a roda. saíam sempre do Oriente e entravam pelo Ocaso. homines a contraria parte Terrae.

Teofilato. mas este é o maior louvor da nossa Nação (como disse um orador delas) que chegaram os Portugueses com a espada onde Santo Agostinho não chegou com o entendimento. João Crisóstomo. e que Deus. segue-se que não há nem pode haver antípodas.>> Não dissera isto o sapientíssimo Doutor. como nós para os seus.» O primeiro lugar é do Salmo CXXXV e o segundo do Salmo XXIII. logo. quando se põe a nós. A estas razões propriamente filosóficas e a este discurso. os quais referiam os tremores da Terra à inconstância deste fundamento de sua natureza tão 79 . por cima da imensidade do mar Oceano. nulla ratione credendum est. aquis vacua et denudata hominibus. e assim a lemos expressa. Esta mesma opinião foi comum entre os outros Padres da Igreja. uns fundando-se nas razões já referidas e todos naquela tão celebrada dos filósofos. exusta flammis et cremata. isto é. cominus vapore torretur. porque. ainda encarece mais este louvor nosso. em S. E verdadeiramente que as palavras de um e outro são tão claras. com que os reprovadores da empresa do Infante Dom Henrique a impugnavam. é cousa que de nenhum modo se há-de crer. ainda antes de Lactâncio. são descendentes de Adão. Eutímio e outros. onde o Sol lhes nasce a eles. haviam de ter passado a outra parte do Mundo. temperantur: eaeque ipsae inter se non perviae propter incendium sideris. Justino. nem seus autores o provam com alguma história que tal afirme. A razão de Santo Agostinho com que negou os antípodas. Circa duae tantum inter exustam et rigentes. que tudo pode. e tinham por impossível aquele descobrimento. Basílio e Santo Ambrósio. era um dos mais forçosos argumentos. mas supunham tão grande incêndio nela pela vizinhança do Sol. em S. parece se deviam entender assim. disse o famoso e ilustríssimo africano dos Portugueses conquistadores depois de sua pátria: Nimisque absurdum est (são palavras suas no mesmo lugar) ut dicatur aliquos homines ex hac in illam partem Oceani immensitate trajecta. Este incêndio da zona tórrida ainda em tempos tão chegados aos nossos. S. Esta é a razão de Santo Agostinho e este o famoso elogio que. notum reor. se os houvera. ut etiam illic ex uno illo primo homine genus institueretur humanum. para mostrar sua onipotência tinha fundado a terra sobre a água.Anexo:Imprimir/ História do Futuro calcare vestigia. homens da outra parte do Mundo. Assim o argumentava Procópio sobre o primeiro capítulo do Gênesis. e é grande absurdo dizer que os homens pudessem fazer tal navegação. et iterum: «quia itse super maria fundavit eum. em Santo Hilário. dizendo: Quod autem universa Terra in aquis subsistat nec ulla sit pars ejus. um dos sete sábios de Grécia. Assim o cuidou Tales Milézio. Neque hoc ulla historia cognitione didicisse se affirmant. sed quasi ratiocinando conjectant: «E quanto à fábula dos que fingem que há antípodas — diz Santo Agostinho. se já naquele tempo estiveram escritas as histórias dos Portugueses. e só o conjeturam por discursos. que de nenhum modo se podia passar: Media vero terrarum _ diz Plínio — qua Solis orbita est. e antes de Santo Agostinho. com muitos outros filósofos. como referem as nossas histórias. e que pisam a terra com os pés voltados para os nossos. nam sic docet Scriptura: «Quid expandit terram super aquis». que não só faziam inabitável a zona tórrida. sem saber de quem falava. quae infra nos sita sit. acrescentavam os Padres outras teológicas e alguns textos da Escritura Sagrada. porque o argumento em que se funda é este: Todos os homens que se propagaram e estenderam pelo Mundo. e muitos anos e séculos depois em Procópio. como consta da Escritura. que se a vista dos olhos não tivera ensinado o contrário. historiadores e poetas. navigare ac pervenire potuisse. que antes da experiência parecia afirmarem ou definirem claramente que debaixo da terra não havia outra cousa mais que a água.

. et appareat arida. mas como por esta causa ficasse a terra vazia e inabitável. às vozes dos seus pregadores: Ecce dabit voci suae vocem virtutis. e esta é a virtude que Deus deu às vozes da sua voz. cujo verdadeiro sentido é este: Quando Deus criou o Mundo. isto é superior a ela. hoc est. a emenda deste engano nos ensinou também a entender aqueles textos de David. diz Genebrardo. para mostrar que a Fé e conhecimento de Deus primeiro havia de vir às terras mais ocidentais. Começando pelo mesmo David. a preparou e acomodou a que se pudesse habitar: Ratio cur Dominus Terrae. para que da conseqüência dele se veja melhor a verdade e clareza desta exposição: Domini est terra et plenitudo ejus. orbis terrarumm et universi qui habitant in eo: quia ipse super maria fundavit eum. ainda os que não tiveram tal pensamento. ecce dabit voci suae vocem virtutis.. conquistamos. que fala da conversão dos reinos e terras do Oriente. ut habitari posset. e são tão próprios desta explicação muitos lugares dele. iter facite ei. Repito o texto todo. porque Procópio não sabia que havia mar e terra habitada dos antípodas. que são aquelas que descobrimos. e por sua natureza devia estar. fazendo a terra superior à água. assim Orientais como Ocidentais. antes do conhecimento dos antípodas. cantate Deo. quoniam terram itse fecit. 80 . convertidas à Fé por meio da pregação dos Portugueses e descobertas por eles. E porque é Senhor da Terra? Porque a fundou. qui ascendit super Occasum.. et supereminere aquis fecit. Todo o Salmo LXIV explica Basílio Ponce da nova conversão das Índias. psalmum dicite nomini ejus. qui ascendit super Coelum Coeli ad Orientem.. e é Senhor de seus habitadores. conforme o lugar que se devia à sua dignidade e nobreza. e assim explica as palavras: «Exitus matutini et vespere>> pro hominibus qui habitant ubi exit dies et ubi exit nox. que no mesmo Salmo tinha dito David: Cantate Deo. porque. Viegas. e não inferior e debaixo como de antes estava. alumiamos com a luz do Evangelho. e essa é a energia da palavra praeparavit. como elemento que é mais nobre. E não é muito que Lorino entendesse melhor este texto da terra e do mar que Procópio. Deus é o Senhor da Terra e de todos seus habitadores. Donde notou advertidamente Viegas. e a água sobre a terra. a fez habitável. omniumque in ea rerum [. porque. psallite Domino.Anexo:Imprimir/ História do Futuro pouco sólido. e depois havia de passar às do Oriente. Lorino. comentando o verso IX: Turbabuntur gentes. et super fluvia praeparavit eum. no princípio estava o elemento da terra coberto com o elemento da água. que são os antípodas. psallite Deo. fazendo que fosse superior ao mar e aos rios. mas depois que a experiência nos mostrou que debaixo ou da parte oposta a esta Terra há outros habitadores. entende pelos habitadores dos termos da terra as gentes orientais e ocidentais. mas vamos a outros lugares mais impossíveis de entender. E por que a terra por este modo ficou superior à água.. por isso diz David que a terra está sobre ela. o que fez a Providência Divina foi apartar a água de cima da terra e dar-lhe outro lugar.] sit Deus (diz Lorino).] in locum unum. Dominus nomen illi. Mendonça e outros autores. que é o que hoje tem o mar para que ficasse a terra superior a ele e pudesse produzir e ser habitada: Et dixit Deus: Congregentur aquae [. e Lorino sim. pro Orientalibus et Occidentalibus. como notou o texto: Terra autem erat inanis et vacua. isto é. aquele verso do Salmo LXVII: Regna terrae. que são as que habitamos. et timebunt qui habitant terminos a signis tuis exitus matutini et vespere delectabis. que.. Referem-se vários lugares dos Profetas que os expositores modernos entendem dos antípodas e conquistas de Portugal. não puderam deixar de dizer o mesmo.

o que até aquele tempo não consentia. Senhor. latitudinem aut profundumditatem maris. Auster. E porque para isto era necessário que o bravíssimo e indômito Oceano se sujeitasse aos homens e se deixasse arar de seus lenhos.qui conturbas profundum maris. tendo-lhe já dado as maiores riquezas temporais. também dizia David que fazia Deus esta mudança em suas ondas: . sobre estes lhe havia de dar também as riquezas espirituais e a graça. entendidas assim como soam. os diamantes. E acrescenta com grande energia que multiplicaria o Senhor o enriquecê-la: Multiplicasti locupletare eum. e que entrassem na mesma Igreja as orações do Sul (que são as do Novo Mundo). quasi quadam lepre vitiavit. e o conhecimento e culto do verdadeiro Deus têm passado os mares. IV: Surge. que são as minas do ouro e prata. et de horto suo flagellis anathematis expulit.. agora sim. porque trata igualmente a todos: sanctum est templum tuum. et perfla hortum meum. podemos aplicar as palavras de Honório: Siquidem inauditam haeresim per malignos homines Draco mentibus fidelium infudit. et fluent aromata illius. que os outros estivessem às escuras (argumento que puseram os Japões a S. parece que vós. que são os das Índias Ocidentais. como entraram por meio da Fé. senão os mares de muito longe e de terras e gentes muito remotas: . mirabile in aequitate.sanctum est templum tuum. são aqueles que estão nos dois últimos fins e extremos da Terra. por vossos ocultas juízos. E não carece de mistério e grande mistério. Uns nos fins do Oriente. permitistes até agora. porque não duvidássemos que mares eram estes. Segue-se logo no texto:. Fala das missões que fazem àquelas partes os pregadores da Fé. Auster intravit. o proêmio com que David introduziu tudo o que até aqui temos dito. sonum fluctuum ejus. falando do sen jardim. não só na coroa. mas multiplicadamente rica: Multiplicasti etc. Aquilo. porque. que podemos dizer que a vossa Igreja é admirável na igualdade. et veni. Ou.. que são os das Índias Orientais. e outros nos fins do Ocidente. que saíssem da Igreja as orações do Norte. mas também no espírito de profecia. os rubis. onde nasce o dia e onde nasce a noite. diz o Profeta que visitaria Deus.spes omnium finium terrae et in mari longe. sed Rex gloriae Chrisus suis auxilium praebuit. que é a Igreja: que saísse dele o Norte e viesse o Sul. e vossa Igreja não guardáveis igualdade com os homens. que outra cousa dizem senão os interesses temporais que trazem as naus da Índia por estes espirituais que levam quando vêm carregadas dos aromas e espécies aromáticas daquelas partes? Assim o tinha dito o mesmo Salomão no verso antecedente.. em muitos lugares dos seus Cânticos deixou também profetizadas estas maravilhas da nossa idade: neste sentido explicam alguns modernos aquelas palavras no cap. Como se dissera: antes de se pregar o Evangelho a estas terras ou a estes mundos do Oriente é do Ocidente. As quais palavras.. isto é.. Porém.. Esta terra. Jerônimo e Teodósio: compescens sedans. expulso autem Aquilone. como se saíram nestes tempos por meio da heresia. com admirável propriedade e energia.Anexo:Imprimir/ História do Futuro De maneira que os homens de quem aqui fala David. como lê S. que sucedeu a David. cavitatem. Ao qual sentido.. Francisco Xavier). uma e outra. dum universum haeresim per sapientes destruxit. Como se dissesse Cristo. chegado às mais remotas nações do Oriente. as pérolas e outros tantos tesouros. Salomão. que é mui próprio e verdadeiro. ou como tem o hebreu: Maris rémotorum. qua totum ortum Ecclesiae. e diz: Emissiones 81 . et fluent aromata illius. depois que a Fé e o Evangelho. Finalmente. declara o Profeta que não haviam de ser aqueles que lavam as terras e praias vizinhas a nós. e que a regaria como regou com a água do batismo: Visitasti terram et inebriasti eum. mulcens sonitum. que foi com estas palavras:. mirabile in aequitate. com que ficasse cada uma não só rica. pois havendo tantos anos e tantos séculos que alumiastes a uns com a luz da Fé.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro tuae, paradisus malorum punicorum cum pomorum fructibus As vossas missões são um paraíso de que se não colhem frutos de árvores, senão frutos de frutos. Cum pomorum fructibus. Porque pelo fruto espiritual que vão fazer os missionários, vêm de lá os frutos temporais com que Portugal se enriquece. E se vão faltando os segundos frutos, é porque também vão faltando os primeiros, de que eles nascem. Mas que frutos são estes? Disse o mesmo Salomão: Cypri cum nardo, nardus et crocus, fistula et cinnamomum cum universis lignis Libati, myrrha, et aloe cum omnibus primi unguentis: A canela, a canafistola, o sândalo, o benjoim, as áquilas, os calambucos, e todo o outro gênero de espécies odoríferas e aromáticas, que são as mesmas que vêm da Índia. No cap. VII diz assim o mesmo Salomão, ou a Esposa, que é a Igreja, falando com seu Esposo Cristo: Mandragorae dederunt odorem. In portis nostris omnia poma: nova et vetera servavi tibi. As mandrigoras são os pregadores da Fé, como diz S. Gregório: Quid per mandragoram, herbam scilicet medicinalem et odoriferam, nisi virtus perfectorum intelligitur? Qui, dum imperfectorum infirmitatibus medentur in fide quam praedicant, id est. in portis Ecclesiae veri medici esse comprobantur. Com o cheiro destas mandrágoras e com a doutrina destes pregadores, [diz a Esposa] que ajuntou para seu Esposo os frutos novos aos velhos. Assim o interpretam os Setenta: Nova et vetera servavi tibi; porque aos cristãos antigos, que eram os da Europa, ajuntou a Igreja estes novos, que são os da nova gente que se descobriu no Oriente e no Ocidente, que são as portas de que fala a Esposa: In portis nostris. Uma porta por onde o Sol sai ao nosso hemisfério, que é a do Oriente, e outra por onde entra aos antípodas, que é a do Ocidente. Assim entendem este lugar alguns autores que refere Cornélio, resumindo todo o sentido dele nestas palavras: Nonulli per nova opinantur hic notari novi orbis inventionem et conversionem ad Chrstum. Novus enim hic orbis continet Peruanos, Mexicanos, Brasilios, Chilenses etc. est dimidium totius orbis, ut patet ex globo cosmográphico [...] jam per religiosos S. Dominici, S. Francisci et Societatis Jesus totus pene subjacet Ecclesiae Sic in India Orientali hoc saeculo et praecedenti mire per eosdem propagatur Fides apud Japones, ubi plurimi pro Fide certant usque ad martyria lentorum ignium apud Sinenses, Molucenses et Ceilanos. De maneira que os frutos novos que a Igreja, por meio do cheiro destas mandrágoras medicinais e odoríferas, ajuntou aos velhos e antigos, são os do Peru e México, do Brasil e Chile, e os do Japão e China, das Malucas e Ceilão; uns nas portas do Oriente, outros nas do Ocidente: Madragorae dederunt odorem suum. Parece que estavam esquecidos, mas não estavam senão guardados para este tempo: servavi. Em quase todo o cap. VIII repete Salomão a mesma conversão das Índias, e particularmente naquelas palavras: Soror nostra parva, et ubera no habet; quid faciemus sorori nostrae in die quando alloquenda est? Si murus est. aedificemus super eum propugnacula argentea; si ostium est. compingamus illud tabulis cedrinis. Até agora foi escuríssimo este lugar, mas são admiráveis os mistérios e mais admiráveis ainda as propriedades dele. Ludovico Legionense, nos comentários sobre este livro, entende por esta irmã mais moça da Esposa a Igreja da Gentilidade novamente convertida à Fé: ...sub persona hujus sororis natu minoris, et parum forma praestantis, cu`jus de collocatione sponsa solicitari dicitur, multi significantur populi atque gentes longe a nostro orbe remotae, ad Christum adducenda; nova quadam Evangelli tradendi ratione; hoc est significatur Hispanorum navigationibus reperti orbis, ejusque incolarum ad Christi. fidem nuper facta conversio. Ainda que a Igreja toda seja uma, como a destas novas gentilidades veio ao conhecimento de Cristo tanto depois, que não foram menos que mil e quinhentos anos, por isso lhe chama

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro Salomão irmã menor e pequena — Soror nostra parva est — não pela grandeza das terras e número das gentes, em que é maior ou, quando menos, igual a toda a Igreja antiga, mas pela menoridade do tempo e da idade em que se converteu. E diz com muita propriedade que não tem peitos: Et ubera non habet porque todos estes anos esteve falta do leite da verdadeira doutrina. E porque haver-se de desposar com Cristo esta nova Igreja era um negócio cheio de tantas dificuldades, assim pela distancia de tão remotas terras e navegação de tão desconhecidos mares, como principalmente pela resistência de suas nações, umas bárbaras, outras políticas e todas feras, armadas e belicosas, e tão superiores no número e multidão aos que lhes haviam de levar e introduzir a Fé, estas dificuldades representa a Igreja antiga a seu Esposo, Cristo, com aquelas palavras: Quid faciemus sorori nostrae in die quando alloquenda est? «Que faremos Senhor, quando chegar o tempo em que se há-de desposar convosco esta minha irmã menor?:>> Ao que responde Cristo com o antiquíssimo conselho de sua providência, dizendo: Si murus est. aedificemus super eum propugnacula argentea; si ostium, compingamus illud tabulis cedrinis. Quem não admirará nesta resposta os altíssimos conselhos da sabedoria e providência divina? Dispôs Deus desde a criação do Mundo que estas terras, assim por fora como por dentro, fossem enriquecidas de coisas preciosíssimas, para que o interesse dos homens facilitasse as dificuldades, que sem ele criam impossíveis de vencer. Como se dissera o Senhor: Ainda que a conquista da Fé tem muros que dificultem sua entrada nessas terras, também tem portas por onde poderá entrar; esses muros facilitá-los-emos com prata; essas portas abri-las-emos com cedros: Si murus, aedificemus propugnacula argentea; si ostium, compingamus illud tabulis cedrinis. Pela prata se entendem as minas e pelos cedros odoríferos as plantas preciosas; e as minas que essas terras têm em suas entranhas, e as plantas odoríferas e preciosas que nelas nascem, são os meios e incentivos que obrigaram o interesse humano a que se disponha a vencer todas essas dificuldades e abrir e franquear essas portas. E assim foi porque a prata, o ouro, os rubis, os diamantes, as esmeraldas, que aquelas terras criam e escondem em suas entranhas; as áquilas, os calambucos, o pau-brasil, o violeta, o ébano, a canela, o cravo e a pimenta, que nelas nascem, foram os incentivos do interesse tão poderoso com os homens, que grandemente facilitaram os perigos e os trabalhos da navegação e conquista de umas e outras Índias. Sendo certo que, se Deus com suma providência não enriquecera de todos estes tesouros aquelas terras, não bastaria só o zelo e amor da religião para introduzir nelas a Fé. O profeta Isaías, como profeta singularmente escolhido para historiar as maravilhas da lei evangélica, foi o que mais falou de nós e delas: no cap. XLIX diz assim: Ecce isti de longe venient, et ecce illi ab aquilone et mari, et isti de terra australi. Laudate, caeli, et exulta, terra, jubilate, montes, laudem, quia consolatus est Dominus populum suum, et pauperum quorum miserebitur. O qual lugar entende Cornélio à Lápide e Árias Montano da conversão da China, e o provam do original hebreu, o qual lêem de terra Senim, como verts S. Jerónimo, Símaco, Áquila, Teodósio, o Siro, o Arábio, e todos, e é o mesmo que de terra Sinorum, por ser este o modo de falar da língua hebréia, na qual os Galileus se chamam Gelilim, e os Judeus Jehudim, e os Assírios Assurim, e assim também os Chinas ou Sinas Sinim. E se replicarmos a este sentido que a China não é terra austral, senão oriental, e que se não pode verificar dela o termo de terra australi, respondem os mesmos autores que aludiu o Espírito Santo, que governava a pena de S. Jerónimo, à navegação dos Portugueses, os quais, quando vão para o Oriente, fazem a sua viagem direita ao Austro, navegando ao cabo da Boa Esperança: Sinae enim (dizem eles), qui proprie hic significantur, licet sint ad Orientem, dici tamen possum ad Austrum, quia Lusitani in Sinas

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro navigaturi, initio longo flexu, navigant ad Austrum, scilicet ex Lusitania usque ad promontorium Bonae Spei, quod uItimum est in continente et directe oppositum Austro. De maneira que, como os Portugueses eram os que haviam de levar a Fé à China, navegando ao Austro ou Sul, por isso o Espírito Santo chamou Austral à China, não pelo sítio, senão pelo rumo da navegação. Da mesma conversão dos Chinas fez outra vez menção Isaías no cap. XI, v. I4, o qual explica larga e eruditamente Malvenda, seguindo a Foreiro, ambos varões mui doutos da família dominicana. O mesmo Profeta Isaías no cap. LX: Qui sunt isti, qui ut nubes volant et quasi columbae ad fenestras suas? Me enim insulae expectant, et naves maris in principio, ut adducam filios tuos de longe; argentum eorum et aurum eorum cum eis, nomini Domini Dei tui et Sancto Israel, quia glorificavit te. Et aedificabunt filii peregrinorum muros tugs, et reges eorum ministrabunt tibi. Nestas palavras está profetizada admiravelmente a conversão das Índias Ocidentais; assim as explicam o mesmo Cornélio, Bózio, Aldrovando e outros, com bem notáveis propriedades. Chama o Profeta às Índias Ocidentais, ilhas: Me enim insulae expectant. Porque todas aquelas vastíssimas terras, em quanto se têm descoberto, estão rodeadas de mar, e bastava para se chamarem assim a imensidade de mares que as dividem do Mundo amigo; além de que estes terras no princípio eram chamadas com o nome de Antilhas, como se lê na história de seu descobrimento. As nuvens que voam a estes terras para as fertilizer—Qui sunt isti, qui ut nubes volant— são os pregadores do Evangelho, levados do vento pelo mar como nuvens; e chamam-se também pombas: Et sunt columbae ad fenestras suas; porque levam estes nuvens a água do baptismo sobre que desceu o Espírito Santo em figure de pomba, que são os dois termos que desde o princípio do Mundo andaram sempre juntos na significação do batismo. No I cap. do Gênesis: Spiritus Domini ferebatur super aquas, e no II de S. João: ...nisi quis renatus fuerit ex aqua et Spiritu Sancto. Mas o mesmo Bózio e Aldrovando, ainda advertiram no nome e semelhança de pomba outra propriedade mais aguda, tirada do descobrimento das mesmas Índias, de cujas terras e navegação foi o primeiro descobridor Cristóvão Colombo; e dizem que a isto aludiu o profeta, chamando Columbas ou Columbos a todos os que seguem a mesma derrota e navegação das Índias: Nomine columbae alludit ad Christophorum Columbum, qui nobis iter ad illas oras primus aperuit. Bem assim, ou muito melhor, e com mais verdade do que disseram os Gentios que os Argonautas, quando foram conquistar o velo de ouro a Colcos, levaram por guia uma pomba: Et qui movistis duo littora, cum rudis Argus Dux erat, ignoto missa columba mari. Os Potosis e outras minas de prata e ouro, que juntamente com as almas para a Igreja haviam de conquistar estes argonautas, também as não esqueceu o Profeta: Et adducam filios tuos de longe, argentum eorum et aurum eorum cum eis. Muito ouro, muita prata e muitos filhos para a Igreja, e tudo de muito longe; e porque não ficassem em silêncio as frotas das Índias: Et navis maris in principio; ou como lê Foreiro do hebreu: Et naves maris cum primaria, seu praetoria, que faziam esta navegação muitas naus, não divididas, senão em frota, com sua capitaina; finalmente, que homens peregrinos edificariam os muros da Igreja naquelas terras: Et aedificabunt filii peregrinorum muros tuos; e que os ministros de tudo isto seriam os mesmos reis, como fazem com tanta piedade os reis católicos: Et reges eorum ministrabunt tibi.

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porque as não conheciam. Até aqui andamos com Isaías pelas terras firmes.. que. por tantos séculos estiveram desertas e incógnitas e despovoadas. No cap. como dizem sodas as nossas histórias. cujo principal intento naquela empresa. de que tanto necessitam: Et terram inviam in rivos aquarum. vivendo na gentilidade sem água do batismo? Mas eu (diz Deus) que também sou Senhor destes.Anexo:Imprimir/ História do Futuro É também ilustre lugar em Isaías aquele do cap. Procópio e Teodoreto entendem este texto da conversão das gentilidades. bem ponderadas. As palavras de Isaías são estas: Et aedificabuntur in te deserta saeculorum. Brasilia. Quantos pobres e miseráveis estão morrendo à sede por falta de água. lançou também os 85 . China. et myrtum. XLI: Egeni et pauperes quaerunt aquas.. estão hoje tão povoadas e populosas. que estavam povoadas de bárbaros. et intelligant pariter. povoou e edificou.] non derelinquam eos. geral da sua religião. ut videant et sciant. et in medio camporum fortes: ponam desertum in stagna aquarum. et terram inviam in rivos aquarum. et vocaberis aedificator septum. Para que entenda e conheça o Mundo quão poderoso sou. tenham assento. depois do reverendíssimo Cláudio Aquaviva. que desde o princípio do Mundo. avertens semitas in quietem: «Em vós se povoarão os desertos dos séculos. e como a major obra e a major misericórdia de sodas é tirar almas do Inferno. isto é. et spinam. e de ilhas desertas que antigamente eram. vós sereis chamado edificador das cercas e fareis que os que sempre andam. ponam in deserto abietem. de nenhum outro homem se podem entender à letra senão do nosso Infante santo (sic) D. e que esta obra é de minha mão: Ut videant et sciant quia manus Domini fecit hoc. e por mais que essas terras sejam sem caminho. LVIII fala Isaías das obras grandes que fará o homem misericordioso. São Jerônimo. ulmum et buxum simul. como se tiram as dos Gentios. et non sunt: lingua eorum siti aruit. diz assim: Hoc etiam hodie in Japone. que são as primeiras por onde os nossos descobrimentos começaram. Nestes seus montes e desertos secos e estéreis abrirei fontes e rios mui copiosos. Primeiramente nele e por ele se povoaram os desertos dos séculos! porque muitas ilhas. na China. et recogitent.. quando por meio da luz da Fé se lhes mostra o caminho da salvação. vamos agora às ilhas. eu abrirei caminho por onde a elas cheguem as águas. O P. continuadas depois pelos reis de Portugal. fundamenta generationis. assim em outras ilhas. fazendo que fossem povoadas de homens. Henrique. foi o puro e piedoso zelo da dilatação da Fé e conversão da gentilidade. como eram as Canárias e de Cabo Verde. eu farei que se colha muito copioso e de todo o gênero: Dabo in solitudinem cedrum et spinam et myrtum. que Deus havia de converter por meio da pregação do Evangelho. e de onde até agora se não colheu fruto. os ouvirei e não me esquecerei deles: Ego Dominus exaudiam eos. São Cirilo. Ego Dominus exaudiam eos [. Dabo in solitudinem cedrum. como era a ilha da Madeira. vós lançareis os fundamentos de uma e outra geração. E assim como nestas ilhas ermas e desertas lançou este glorioso príncipe os primeiros fundamentos da geração humana.. et lignum olivae. que levaram adiante o que ele começou. et generationis suscitabis. no Brasil. etc.» Tais foram em tudo as obras do Infante D. quia manus Domini fecit hoc. Aperiam in supinis collibus flumina. primeiro autor dos descobrimentos portugueses. as Terceiras ou dos Açores. diz umas palavras o Profeta. mas não nos disseram que gentes estes fossem ou houvessem de ser. ele as descobriu. aliisque Indiarum provinciis impleri magna laetitia conspicimus: que se cumpriu e está cumprindo esta profecia no Japão.e. e tão enobrecidas de famosas cidades e suntuosos edifícios: Aedificabuntur in te deserta saeculorum. Henrique. porém os Doutores modernos nos dizem quais elas são. Cornélio.

e vivessem como homens. mas antes que escreva as suas palavras. latissimis etiam regionibus Indiarum. e ele quer levar os naturais portugueses a povoar terras ermas por tantos perigos do mar. quase como admoestação de Deus. de grande virtude e letras. ordem e política cristã. foi mandarem religiosos por sodas as conquistas. excitantur fundamenta generationis. romper terras. com obrigação de trazer a ele moradores estrangeiros de Alemanha. As palavras prometidas de Bózio são as que se seguem: . humanidade.os reis passados deste Reino (diziam eles) sempre dos reinos alheios para o seu trouxeram gente a este a fazer novas povoações. junto a Caruche. não cala o Profeta o fruto que desta santa indústria se seguiu em sodas estes gentilidades de bárbaros. quas no mine Promontorii Viridis appellant. senão infinitos outros. Oppida innumera et civitates pulcherrimae passim condutur in quibus constituuntur caetus hominum.Anexo:Imprimir/ História do Futuro fundamentos da geração divina. que Deus deu por pasto dos brutos. qui bestiarum modo prius incertis sedibus vagabantur. as cercas e claustros das religiões: Et vocaberis aedificator septum Finalmente. perdermos os amigos e parentes!» Isto é o que filosofavam e diziam os prudentes e políticos daquele tempo. O meio que para esta segunda e mais importante geração tomaram os religiosíssimos príncipes de Portugal. e não habitada por nós. que sempre são os instrumentos mais aparelhados que o Mundo e o Demônio têm para impedir as obras de Deus. E quando quer que nestas terras de Guiné se achasse tanta gente como o Infante diz. andando de antes vagamente pelas brenhas. E bem se viu quanto mais naturais são para eles que para nós. se aquietassem e tomassem assento. sive orientem. são os que hoje vivem com tanto assento. e quando fosse tão bárbara. que os lançou fora da primeira ilha. alemão. que são. Sancti Laurentii. Hispaniae in Oceano adjacentibus Occidentem versus. edificador de cercas. referindo o que desta empresa do Infante sentiam e murmuravam os que lhes parecia inútil e infrutuosa: <. e não mando?` seus vassalos passar além-mar. pois em tão poucos dias uma coelha multiplicou tanto. et generationis eorum. et in stabulis ipsis habitabant. que há por bem ser aquela terra pastada de alimárias. nós que proveito podemos ter de terra tão estéril e áspera. e não só eles. fazendo por meio da pregação e luz do Evangelho que esses bárbaros gentios conhecessem a Deus e fossem gerados em Cristo: Fundamenta generationis et generationis suscitabis.. dando os maninhos de Lavre. nem o modo de sua peleja. 86 . a Lambert de Orches. a qual anda de penedo em penedo como cabras às pedradas contra quem os quer ofender. como vemos que passam os que lá vão. como aqui notam alguns expositores. como animais silvestres. E estes bárbaros. Ascensionis. como sabemos que é a das Canárias.idem perfectum videinus in insults quas Tertieras vocant. fundando e edificando conventos de diversas ordens. de fome e sedes. sive occidentem Solem. Neque finis illus hucusque apparet. similiter in Canariis. e por cobrarmos um comedor destes... Neste sentido tão próprio e literal explica Bózio este texto de Isaías. Certo que outro exemplo lhe deu seu padre poucos dias há. quero pôr aqui as do nosso João de Barros. et omnibus quae Africae littora respiciunt: amplius cunctis quas Oceanus aluit. vel Austrum. e foi que. e cativar gente tão mesquinha? Certo nós não sabemos outro.. não sabemos que gente é. Boreamvel spectantibus idem contingit. que isso quer dizer—Avertens semitas in quietem. cultivadas e ricas. senão virem eles encarentar o mantimento da terra e comerem nossos trabalhos. que os rompesse e povoasse. e por isso diz o Profeta que seria chamado o primeiro autor desta obra. mas estes terras ermas foram as que pelo zelo e constância daquele príncipe se vêem hoje tão povoadas. que como animais andavam saltando de penedo em penedo.

Mas porque Isaías nesta sua descrição põe tantos sinais 87 . têm contra si tudo o que logo diremos. Arias Alontano. Os comentadores modernos acertaram em comum com o entendimento da profecia. que falou Isaías da América e Novo Mundo. ut aquila. Japão. pelo havermos recebido de pessoa douta e versada nas Escrituras. Ponhamos fim a Isaías com um celebradíssimo texto do cap. XLIX: Audite. o qual foi sempre julgado por um dos mais dificultosos e escuros de todos os Profetas. pisado as terras e navegado as águas de que fala este texto. como veremos e verão melhor os que tiverem lido as exposições antigas e modernas dele. que ultimamente se conheceram no Mundo com o descobrimento dos antípodas. cujus diripuerunt flumina terram ejus. Estes dois sinais tão manifestos só se podem verificar da América. e é este: Vae terrae cymbalo alarum. Frederico Lúmnio. ad quam veniunt cum navibus a terra longinqua. Alartim del Rio e outros dizem (e bem). e notaram alguns com agudeza e propriedade. quae mittit in mare legatos. Malvenda.» Aptosite in Indiam. et attendite. e ilhas de muito longe. nem das gentes de que falava o Profeta. ad gentem expectantem et conculcatam. post quem non est alius. porque os antípodas. entente dos Chinas e Japões. das ilhas que os Portugueses conquistaram para Cristo. e aplica à navegação dos Portugueses o parafraste caldeu. qui non audierunt de me. com os outros que cita. volans alis suis. parece que os trazemos debaixo dos pés e que os pisamos. como no cap. LXVI: . populi de longe. pelas quais ilhas entendiam todos antigamente Itália e Espanha. outra do Oceano. angeli veloces. et in vasis papyri super aquas! Ite. et vela sua extendunt. e verdadeiramente o entendeu. Ludovico Legionense. quae quondam remotarum gentium frequentibus navigationibus petebutur. insulin. acabou de o entender. o qual no mesmo liv. et nunc ab extremo Occidente Lusitanorum victricibus classibus aditur. e com toda a propriedade são ilhas. também os modernos não acertaram até agora com o sentido próprio. e é terra depois da qual não há outra: ad populum post quem non est alius. quae est trans flumina AEthiopiae.. e nomeadamente de Ceilão. e que não tem depois de si outra terra senão o vastíssimo mar do Sul. ilhas de longe. como diz o texto. que ficaram debaixo de nós.ad insulas longe ad illos. germano e natural dela. que. e este é o que nós havemos de descobrir ou escrever aqui. nem se podem chamar de Longe em comparação das que depois descobrimos. que é a terra que fica da outra banda da Etiópia. Cornélio teve para si que fala o profeta de Etiópia e do Preste João. Malucas e outras. havendo visto as gentes. por estarem quase cercadas uma do Mediterrâneo. quae etiam itsas sinarum oras praetervectae Japoniorum insulas tenent. mas Etiópia não está além de Etiópia. Tomás Bózio. e se prova fácil e claramente. mas chegando mais de perto à gente e terra ou província de que se entende a profecia. Porque esta terra que descreve o Profeta está além da Etiópia trans flumina AEtiopiae. mas nem atinaram nem podiam atinar com ela porque não tiveram notícia nem da terra. Chama a estes ilhas o Profeta. que isso quer dizer a energia da palavra: Ad gentem conculcatam: gente pisada dos pés. tão versado nas Escrituras como na geografia e na história natural das Índias Ocidentais.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Até aqui este autor doutíssimo. por estas palavras: Chaldeus interpres haec verba Isaiae in hunc modum reddidit: <<Vae terrae. XVIII. Mas esta exposição e a de Mendonça e Rebelo (que entendem o texto geralmente da Índia Oriental). José da Costa. Trabalharam sempre muito os intérpretes antigos por acharem a verdadeira explicação e aplicação deste texto. mas verdadeiramente nem são ilhas. dizendo que se entende da nova conversão à Fé daquelas terras e gentes também novas. ad populum terribilem. II cap. senão terra firme. III explica muitos outros lugares de Isaías. e no cap.. ad gentem convulsam et dilaceratam. Maldivas Socotorá. Java.

é outra vez necessário que nós também declaremos a província e gente em que eles todos se verificam. que tangem e trazem na boca. muito mais particularmente naquele vastíssimo arquipélago do rio chamado Orelhana. senão em casas 88 . vivendo por esta causa não imediatamente sobre a terra. e agora das Amazonas. e é estilo e nobreza entre eles não poderem tomar nome senão depois de quebraram a cabeça a algum inimigo. mas depois de mortos os despedaçam e os comem e os assam. que aquela (quais são os Brasis) que não só matam seus inimigos. quase todos os campos estão alagados e cobertos de água doce. porque em toda aquela terra. ou como verte e comenta Vatablo: terra. sem nenhum horror. semelhante ao da nossa língua. e muito distantes uns dos outros. não é muito que a falta de suas notícias lhe tivesse até agora escurecido e divertido a honra deste famoso oráculo do mais ilustre profeta. palmares e arvoredos altíssimos. navegando-se sempre por entre árvores espessíssimas de uma e outra parte. cujas terras estão todas senhoreadas e afogadas das águas. vê-se este destroço e roubo que os rios fizeram à terra. que são estes homens uma gente a quem os rios lhe roubaram a sua terra: Cujus diripuerant flumina terram ejus. porque o Brasil é a terra que direitamente está além e da outra banda da Etiópia como diz o Profeta: quae est trans flumina AEthiopiae. senão de alguma província particular dele. Estes são os sinais comuns que nos aponta o Profeta daquela terra e gente. sendo raríssimos os lugares por espaço de cento. e assim é na geografia destas terras. ainda que seja a alguma caveira desenterrada com outras cerimônias cruéis. E é admirável a propriedade desta diferença. Diz mais o Profeta que a gente desta terra é terrível: ad populum terribilem. não se vendo em muitas jornadas mais que bosques.Anexo:Imprimir/ História do Futuro particulares e tantas diferenças individuantes. quae est sita ultra AEthiopiam (quae AEthiopia scatet fluminibus) e o hebreu ao pé da letra tem de trans flumina AEthiopiae. que tão expressamente tinha falado nesta gente. Digo primeiramente. por ruas. mas porque assinala mindamente outros mais particulares e que não convêm a toda a gente e terra do Brasil. Fazem depois suas frautas dos mesmos ossos humanos. e não pode haver gente mais terrível entre todas as que têm figura humana. e mostravam aos nossos as panelas em que os haviam de cozinhar. em que os Índios possam assentar suas povoações. sendo muito contados e muito estreitos os sítios mais altos que eles. A qual palavra&mdash. em que os rios são infinitos e os maiores e mais caudalosos do Mundo. lê o Sírio&mdash. detrás. sendo as próprias mulheres as que guisam e convidam hóspedes a se regalarem com estas inumanas iguarias. e esta gente e esta província mostraremos agora que é a que com toda a propriedade chamamos Maranhão. e tais são também os Brasis. e assim se viu muitas vezes naquelas guerras. como notou Malvenda. Em lugar de gentem conculcatam. que o texto de Isaías se entende do Brasil. que claramente estão mostrando que não fala de toda a América ou Mundo Novo em comum. e isto é o que agora hei-de mostrar. será necessário que nós o digamos. travessas e praças de água que a natureza deixou descobertas e desimpedidas do arvoredo. e nós dizemos. todos com as raízes e troncos metidos na água. em que se possa tomar porto. que em respeito de Jerusalém. e os cozem a este fim. Diz pois o Profeta.gentem depilatam: gente sem pêlo. o Brasil fica imediatamente detrás de Etiópia. é hebraísmo. e os autores alegados nos não dizem que província esta seja. que pela maior parte não têm barba. Os Hebreus dizem&mdash.de trans&mdash. considerado o círculo que faz o globo terrestre. com grande diferença dos Europeus. que por ser tão pouco conhecida e menos nomeada nos escritores. duzentas e mais léguas. e posto que estes alagadiços sejam ordinários em toda aquela costa. bárbaras e verdadeiramente terríveis. de que fazem os seus muros.de trans&mdash. e no peito e pelo corpo têm a pele lisa e sem cabelo. subiam as mulheres às trincheiras ou paliçadas. que estando cercados os Bárbaros.

que todos desembocam nele. que tendo as raízes e troncos escondidos na água. vieram sair às terras do Maranhão. senão rios. porque caem todos na água. e em muita quantidade de tartarugas e peixes-bois. que são os gados que pastam naqueles campos. fizeram facilmente a seus habitadores o que nós lhes tínhamos feito a eles. os vencidos também ficaram arrancados. toda esta se compõe do concurso de muitos outros rios. de que os primeiros usavam. e deste nome igara derivaram a denominação de Igaruanas. e ali como soldados tão exercitados com o mais poderoso inimigo. e diz que os habitadores desta província são gente arrancada e despedaçada. Desta peregrinação e desta guerra se seguiram naquela gente os dois efeitos que sinala Isaías. tomando o nome da mesma arte de navegar e das mesmas embarcações em que lá navegavam. ainda que o rio das Amazonas tenha fama de tão enorme grandeza. E nota o Profeta que não é rio. se meteram pelo sertão. como gente nascida e mais criada na água que na terra. cuja colheita é muito 1impa. os artífices ou os senhores das naus Diz pois Isaías que esta gente de que fala é um povo: Quae mittit in mare legatos et in vasis papyri super aquas: «Que manda de uma parte para outra seus negociantes em vasos de cascas de árvores sobre as águas. ou certamente porque com sua indústria adiantaram muito a rudeza das embarcações bárbaras. e só o Espírito Santo poderá recopilar em duas palavras a história e última fortuna daquela gente. porque os Tutinambás. (que assim se chamavam os Pernambucanos) os arrancaram de suas pátrias. Maianás e outras antigamente populosas gentes. com mais generosa resolução e determinados a não servir. por serem eles. ficando uma e outra gente arrancada e despedaçada: os vencedores arrancados. porque as suas embarcações. que são as canoas. e alguma caça de aves e montaria de porcos. porque apenas dão passo que não seja com o remo na mão. assim que uns e outros ficaram gente arrancada. onde ficaram muitos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro levantadas sobre esteios a que chamam juraus para que nas maiores enchentes passem as águas por baixo. e também despedaçados. porque. e muito particularmente pelo exercício e arte da navegação. bem assim como as mesmas árvores. ou juntamente com ele. Goianás. nos frutos agrestes das árvores de que se sustentam. e também e com muito maior razão despedaçados porque. que nos mesmos lugares sobre-aguados. não sem novos inimigos que ainda mais os despedaçassem. muitos deles fugiram em magotes pelos matos e pelos rios tomando diferentes caminhos. ou os primeiros inventores da sua náutica. Continua Isaías a sua descrição. outros. e uns e outros gente despedaçada: gentem conculcatam et dilaceratam. entre os lodos e raízes das árvores. de quem se diz com propriedade que andam mais com as mãos que com os pés. além de outro pescado menor. comunicando e confundindo em si as águas e como unindo e conjurando as forças para este roubo que fizeram àquela terra: Cujus diripuerunt flumina terram ejus. em que eram e são os Maranhões mui sinalados entre os índios. Tanto assim que a principal nação daquela terra. uns deles se sujeitaram. se chamam na sua língua igara. desenganados os Índios (que eram mui valentes e resistiram por muitos anos) que não podiam prevalecer contra as nossas armas. outros. diferindo só as árvores das casas em que umas são de ramos verdes outras de palmas secas. os que isto fazem. Conhecidos já pela fortuna os descreve o Profeta. como se disséssemos os náuticos. por cima dela se conservam e aparecem. ficando em suas próprias terras. não podendo resistir. dividirem-se em colônias mui distantes uns dos outros. onde fizeram assento. Quando os Portugueses conquistaram as terras de Pernambuco. assim porque foram ficando a pedaços em vários sítios como porque depois da vitória lhes foi necessário para conservarem o violento domínio. se chamam Igaruanas.>> 89 . restituindo-lhes os rios a terra que lhes roubaram. Desta sorte vivem os Nheengaíbas. caindo para a parte do mar. se ceva nos frutos delas. porque os tinham lançado de suas terras os Portugueses.

dentro dos quais metiam seixos ou caroços de várias frutas. tanto assim que. Diz que as manda o povo. Também se há-de supor que os Maranhões usavam de uns instrumentos a que chamavam maracás não de metal. em lugar de terrae cvmbalo alarum. como para os da guerra. Assim o explicou eruditamente Carpenteio. Do que temos dito até aqui ficará mais fácil de entender aquele grande enigma do Profeta.Anexo:Imprimir/ História do Futuro As palavras do Profeta todas têm mistério e todas declaram muito a propriedade da gente de que fala. o que tudo quer dizer mar grande. maracás ou sinos de metal. crotalos et inania cymbala pulsas. como são sinos? Esta dificuldade foi até agora o torcedor de todos os entendimentos dos expositores sagrados. Depois que tiveram uso do ferro. e de aqui veio o nome que os Portugueses lhe puseram de Grão-Pará ou Maranhão. como se pode ver nos autores da língua latina. ou. Os Setenta Intérpretes. o mesmo arquipélago que dizemos. mas como podia ser que entendessem o enigma da terra. duros e acomodados a fazer muito estrondo e ruído. têm ambas as significações e querem dizer: Ai da terra que tem navios com asas. mas antes de terem ferro despiam estes mesmos madeiros. que quer dizer. e. por sua grandeza. que se chamavam por nomes particulares sistros crotalos. porque é gente que não tem reis. no comentário literal deste lugar de Isaías. como são navios? e se são navios. significa também qualquer instrumento com que se faz som e estrondo e tais eram os címbalos de que usavam antigamente os Gentios. com quem concorda o relativo quae. de água doce. delas formavam as suas embarcações. Se são sinos. E não faz dúvida dizer o profeta que estas embarcações iam ao mar: Qui mittit in mare. com que significamos os nossos sinos de metal. cavam os troncos das árvores e fazem de um só madeiro muito grandes canoas. e por nome geral cimbalos. o qual foi sempre o que maior trabalho deu aos intérpretes e os obrigou a dizerem cousas mui violentas e impróprias. se chama na sua língua. de 1600 anos a esta parte. ai da terra que tem sinos com asas. que está nas primeiras palavras deste texto: Vae terrae cymbalo alarum. o expositor que mais foi rastejando o sentido verdadeiro que podia ter este enigma. Estes maracás eram propriamente os seus címbalos ou sinos. porque Pará significa mar. e uma e outra cousa significam as palavras de Isaías. depois que viram os sinos de que nós usamos. além de entrarem com elas pelo mar Oceano. o qual. de que o autor desta explicação viu alguma que tinha dezessete palmos de boca e cento de comprimento. mar. ou cretitáculos. se há-de supor que a palavra latina cymbalum. Isto suposto. foi Gabriel Palácio. lhes chamam itamaracás. mas o mesmo povo e a mesma nação é a que elege aqueles que lhes parecem de melhor talento. porque os nomes hebreus de que estas versões foram tiradas. senão de cabaços ou cocos grandes. servindo-se dos menores nas festas e nos bailes e dos maiores nas guerras. senão tinham as notícias nem a língua dela? Para inteligência do verdadeiro entendimento deste texto ou enigma. vertendo em verso este mesmo lugar de Isaías: Vae tibi. leram terrae navium alis. cujos troncos são muito altos e direitos. porque. e não adivinhavam nem podiam. como aqueles que falavam a adivinhar. assim para os negócios da paz. Diz mais que vão sobre as águas em vasos de cascas de árvores. porque esta era a matéria e fábrica de suas embarcações. diz assim: Fortasse indicus usus nominis cymbali antiquitas inolevit apud Hebraeos tempore Isaiae: 90 .. porque o não tinham. quae reducem sistris cretitantibus apim Concelebras. tirando-lhes as cascas assim inteiras. que tudo isso quer dizer a palavra legatos..

quais eram ordinariamente as suas. e particularmente o chamado guarás. Nem mais nem menos que os Romanos às suas galés de guerra deram nomes de rostratas. que chamam rostros. atados aos gorupezes ou paus compridos. Mas não está ainda explicada toda a dificuldade ou propriedade do enigma.Anexo:Imprimir/ História do Futuro «Porventura—diz ele—que no tempo de Isaías as embarcações dos Índios se chamariam entre os Hebreus sinos. ou tomassem nome de sinos as embarcações dos índios. Os expositores todos dizem que estas asas eram as velas das embarcações e que são as asas dos navios. conforme o poeta: Velorun pandimus alas. As maiores embarcações dos Maranhões chamam-se maracàtim. sem mistura de outra cor. além da Etiópia. tirado também o nome ou metáfora dos bicos das aves. e assim como a palavra lineae se repete. é grande entre eles o uso das penas pela formosura das cores com que a natureza vestiu os pássaros. e deste modo fica decifrado e entendido o antiquíssimo e escuríssimo lugar e enigma de Isaías. pelas pontas de ferro agudas que levavam nas proas.» E porque não seria antes. tirada a metáfora do nariz dos homens ou do bico das aves. com que vem a concluir o Profeta 91 . cymbalo alarum. Pagnino. faziam um estrondo barbaramente bélico e horrível. Sanchez e outros muitos tão geralmente. chamavam àquelas canoas ou embarcações maiores maracàtim. ornando com elas todo o gênero de armas. ficam pontual e perpendicularmente bem debaixo da Linha Equinocial. senão entre os mesmos Índios? Assim era e assim é. gente da linha de linha. punham na proa um destes maracás muito grandes. Digo pois que fala o texto de verdadeiras asas de aves. derivado o nome da palavra mararacá. grandes e todos vermelhos. digo eu. de que há infinita quantidade. E porque não faltasse a esta terra a demarcação ou arrumação. da sua altura. que. e a razão de darem este nome às suas maiores embarcações era porque. e as partaz anas de pau e pedra que chamam fanga-penas. não porque este nome fosse usado entre os Hebreus. empavezavam-se as canoas com asas vermelhas dos guarás. e este nome usam ainda hoje. Como aqueles gentios não tecem. porque não só levam empenadas as setas. e as mesmas levavam penduradas dos gorupezes e maracás das proas. senão também os arcos e rodelas. porque os Maranhões são aqueles que. que é propriedade por todos os títulos admirável. nem têm panos. e bolindo de indústria com eles. de que Isaías falava. porque diz o Profeta que estas embarcações ou estes sinos eram sinos e embarcações com asas: cymbalo alarum. como diz Foreiro. e com ele nomeiam os nossos navios. significa entre eles sino. e principalmente quando vão à guerra. como dizem os geógrafos. destas penas se enfeitam quando se querem pôr bizarros. como dissemos. e porque a proa da canoa se chama tim. quando iam às batalhas navais. além do movimento natural das canoas e dos remeiros. Vatablo. A qual explicação pudera ser bem admitida. e quando a guerra era naval. que têm o mesmo nome. que se chamassem sinos. está também repetida no mesmo texto a palavra expectantem. Assim que vem a dizer Isaías que a terra de que fala é terra que usa embarcações que têm nomes de sinos. a propriedade da letra hebréia. e juntando a palavra tim com a palavra maracá. sendo certo que o Profeta não havia de dar por sinal e divisa daquelas embarcações uma cousa tão comum e universal em todas. onde a Vulgata leu gentem expectantem expectantem. se não tivera a própria e verdadeira. e por isso o Profeta diz que todas estas cousas via e notava como tão novas: chamam as lanças sinos e sinos com asas: Navius alis. e estas são pontualmente os maracàtins dos Maranhões. é gentem lineae linea:. navium alis.

Malvenda e outros têm para si que fala da transmigração de Nabucodonosor o qual. porque o estado da esperança se Lhes tem trocado no de desesperação. Árias Montano. e deles. do Infante Dom Henrique. esperando mais que todos os outros Brasis sessenta e cinco anos. esperando. limite e fim. Porque entre todas as gentes do Brasil os Maranhões foram os últimos a quem chegaram as novas do Evangelho e o conhecimento do verdadeiro Deus. que é exortar os pregadores evangélicos a que vão ser anjos da guarda daquela triste gente. limite e fim que os Antigos conheciam no Mundo. que passou a Espanha. de que São Jerônimo verteu Bosphoro. Frei Luís de Leon. Deixo muitos outros lugares do Profeta Isaías. o qual verdadeiramente se pode contar entre os cronistas de Portugal. O Profeta Abdias em um só capítulo que escreveu também falou das conquistas de Portugal: El transmigratio Hierusalem. que tanto há mister quem a encaminhe como quem a defenda: Ite. mais que todos eles. Maqueda. a uma felicidade tão estranha. por ser parte desta província conquista sua. esperando por este bem. padecendo aquele vae do Profeta: Vae terra: cymbalo alarum. Lirano. A palavra hebréia Sepharad.Anexo:Imprimir/ História do Futuro o seu principal e total intento. pela qual fortuna (como notou Santo Agostinho na morte dos infantes de Belém) não tiveram parte na morte de Cristo e conservaram sua antiga nobreza. como testemunham de uma parte as Colunas de Hércules e de outra o cabo de Finis Terrae. Burgense. em que o descobriu Pedro Álvares Cabral. significa termo. que são as duas balizas que têm no meio a Portugal. quae in Bosphoro est. de El-Rei Dom João o III e de El-Rei Dom Sebastião escrevem seus historiadores. Esta mesma palavra Sepharad é nome com que os Hebreus chamam a Espanha. angeli veloces. possidebit civitates Austri. Isidoro Clário e os demais. No Brasil se começou a pregar a Fé no ano de 1550. Pagnino. de El-Rei Dom João o II. 92 . E esperam de se salvar os que de tantos danos e danos são causa? Muito largos temos sido na exposição deste texto. ficaram muitos em Espanha. foi fundação a insigne cidade de Toledo. Mas hoje estão ainda em pior fortuna. tendo conquistado a Jerusalém e passado seus habitadores para Babilônia. mas foi assim necessário por sua dificuldade e por não estar até hoje entendido. Assim querem também que de Nabuco traga seu apelido a ilustre família dos Osórios. Estrabo e outros graves autores. expectantem: gente que está esperando. Mas sobre a transmigração de Jerusalém de que Abdias fala. para consolação dos mesmos desterrados. porque em Espanha está o estreito que divide a Europa de África e Espanha era o termo. Escalona e outras. de ali mandou parte deles para Espanha. como escrevem muitas histórias de Espanha. como refere Josefo. que o primeiro e principal intento que neles tiveram nossos piedosíssimos reis. há duas opiniões entre os autores. e como o Profeta própria e literalmente falava neste lugar do mesmo cativeiro de Babilônia. e que veio o mesmo Nabuco em pessoa a fazer esta guerra. que tanto tardou a todos os Americanos. viria tempo em que possuísse as cidades do Austro. como se pode ver do que de El-Rei Dom Manuel. ad gentem expectantem. Arias. Desta transmigração pois (diz Montano e os mais acima alegados) se há-de entender o texto de Abdias. em que o conquistou Alexandre de Moura. Diz agora o profeta Abdias que a transmigração de Jerusalém. que delas havia de ter princípio. qual é a que logo diremos. é conseqüência muito ajustada que da profecia do desterro passou. Toda a explicação é comum e certa entre todos os autores mais peritos da língua hebraica—Vatablo. ou desterrados ou trazidos por Nabuco. e no Maranhão no ano de 1615. Destes hebreus. segundo fala muitas vezes nas espirituais conquistas dos Portugueses e nas gentes e nações que por seus pregadores se converteram à Fé.

e ele por meio de seus discípulos a converteu toda à Fé e desterrou dela a Gentilidade: Et transmigratio Hierusalem. em seus discípulos.. depois chamado vulgarmente S. e à esquerda pela costa de África à Etiópia. Pedro de Rates. na primeira parte da História Ecclesiastica Bracharense. Rodrigo da Cunha. Vatablo. a quem vinha pregar e publicar por verdadeiro Deus. quod fuit impletum per Jacobum apostolum. e discordam só na inteligência da transmigração de Jerusalém. et ejus discipulos. Antônio Caracciolo e outros. à parte direita pela costa da América ou Brasil. onde jacia enterrado de seiscentos anos um santo profeta. e outros que é a de Cristo pelos Apóstolos. id est in Hispania. Assim o entendem também. o moço e em presença de infinito povo. Fevardêncio e outros entendem por esta transmigração de Jerusalém a que fez Cristo. e a de Nabuco com o Apóstolo Malaquias. e são as seguintes: Ego novi sanctum Petrum. de onde ela depois tão felizmente se transplantou às regiões do Austro. e que ali viera dar com outros cativos mandados de Babilônia por Nabucodonosor. se cumpriu a segunda parte dela. e particularmente de uma carta de Hugo. magister meus. chamando por ele o ressuscitou em nome de Jesus Cristo. falando do Apóstolo Sant'Iago. quem antiquum prophetam suscitavit Sanctus Jacobus Zebeduei filius. conciliando facilmente estas duas opiniões e mostrando que a profecia se entende mais particularmente de Portugal. e para entrar com estrondo de trovão (cujo filho o chamara Cristo. o qual conheceu ao mesmo Pedro ressuscitado e escreveu o caso quase pelas mesmas palavras. mandando daquela cidade e espalhando por todo o Mundo seus Apóstolos. tirada de autores e memórias mui antigas. José da Costa. o qual. porque de ambas as transmigrações foram os primeiros ministros da Fé que a plantaram em Portugal. De sorte que ambas as transmigrações de Jerusalém concorrem para a fé de Portugal: a de Cristo com o Apóstolo Santiago. diz desta maneira: Entrou em Braga o santo Apóstolo. quae in Bosphoro est (diz Lirano) in hebraeo habetur in Cepharad. vel Pyrrho. porei aqui com as palavras do arcebispo D.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Nicolau de Lira. que são os que em Espanha receberam e conservaram sempre a Fé que ele lhes tinha pregado. seguindo esta segunda exposição. que foi a pedra fundamental depois do sagrado Apóstolo da Igreja de Portugal. ibi fidem Christi primitus praedicantes. que por isso não traduzimos. ou Samuel. chamado Malaquias. o escolheu e tomou por primeiro e principal de todos seus discípulos. que são propriissimamente as que correm de uma e outra parte do Oceano Austral. sendo estes os que depois de tantos séculos vieram a dominar e possuir as regiões do Austro: Possidebunt civitates Austri. cuja rainha 93 . ubi dicit Rabbi Sa. O fundamento que tenho para assim o dizer. entendendo uns que é a de Nabuco pelos Judeus passados à Espanha. Nosso Senhor. digo que falou o Profeta de uma e outra transmigração. entre os quais coube Espanha a Sant'Iago. De maneira que todos estes autores concordam em que a profecia da conquista das regiões do Austro se entende de Espanha. bispo de Saragoça. Hispaniarum praefecto. Cornélio. batizou-o pouco depois. Hic venerat cum duodecim tributus missis a Nabuchodonosore in Hispaniam Hierosolymis duce Nabucho-Cerdan. mas eu.. Até aqui esta maravilhosa história. o velho. etc. et colla gentium subjugantes. quando vieram pregar a ela. e dos fragmentos de Santo Atanásio. Bracharensem Episcopum. bispo do Porto. E cumprida em Sant'Iago a transmigração de Jerusalém. que é a primeira parte da profecia. se foi a uma sepultura célebre. e dando-lhe o nome de Pedro. judeu de nação. Os filhos desta Igreja e herdeiros desta Fé foram os que dali a tantos anos dominaram com os estandartes dela as cidades e regiões do Austro.

para esta guerra dos Infiéis ordenou e novamente constituiu. e os méritos de seu trabalho ficassem metidos na Ordem e Cavalaria de Cristo que ele governava. soberbo. furioso e indignado. E no v. aquelas carroças que levavam pelo mar a Fé. e verdadeiramente não se podia dizer cousa mais apropriada aos Portugueses. que El-Rei D. ó Senhor. 8. quae est in Hispania. seu tresavo. Isto quer dizer 0 Profeta no v. como os cavalos pisam o lodo da terra: In Iuto aquarum multarum. evangelistae tui portabunt te. geralmente chamada Terra Austral. do demônio e do pecado. ou eles o sujeitaram também a Cristo. Dinis. Mas para que se veja o grande mistério desta metáfora de cavalaria de Cristo. Faz muito ao caso advertir o que escreve o nosso insigne historiador destas conquistas. com as mãos levantadas o adorariam e reconheceriam por Senhor: Altitudo manus suas levavit. hoc est. (Ibid. com que por meio da sua cruz triunfou um dia da morte. O mesmo Profeta o disse assim: Numquid in mari indignatio tua?» «Porventura. Henrique) outra cousa muito mais eficaz.ascendes super equos tuos: et quadrigae tuae salvatio. e salvando-os. Brasilicam. senão ainda os estrangeiros. e estas são as terras de que no comento deste texto faz menção Cornélio: Americam. e último deste Profeta. para que o reconhecesse e adorasse. senão para os salvar. há-de ser eterna a vossa indignação no mar?» E responde a esta sua pergunta. que ou Cristo lhe sujeitou a eles. Os Portugueses. que o mar submeteria suas ondas: Gurges aquarum transiit: que os abismos confessariam a potência de Cristo as vozes: Dedit abyssus vocem suam.°. e esta foi a primeira vitória de Cristo. que quero pôr aqui por suas próprias palavras): Mas ainda foi acerca dele (fala do Infante D. não era para matar os homens. Africam. do que eram os reinos de Fez e Marrocos. AEthiopiam. Década I. e que a guerra que com esta cavalaria havia de fazer.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Sabá chamou Cristo Regina Austri. I.°: Viam fecisti in mari equis tuis. in luto aquarum multarum. aqueles cavaleiros que pisaram as ondas do mar. a salvação: Et quadrigae tuae salvatio.. de cujo 94 . conforme a disposição da sua providência. para que pisasse as ondas. A parte marítima deste triunfo. como lemos que o fizeram alguns de Alemanha e Dinamarca.) e que as suas alturas ou profundidades. Que abriu Cristo caminho pelo mar à sua cavalaria. faziam grande apreço de se armarem nela cavaleiros. e as naus dos Portugueses. triunfar deles: Equitatio tua salus. diz Santo Agostinho. Assim se cumpriu nos Portugueses a profecia de Abdias: Transmigratio. Os Portugueses foram aqueles cavaleiros a quem Cristo abriu o primeiro caminho pelo mar: Viam fecisti in mari equis tuis. O Cântico de Habacuc.] que não só os mesmos Portugueses. E a primeira empresa e vitória desta cavalaria de Cristo foi a sujeição do mesmo mar bravo. pertence principalmente aos Portugueses. tem por assunto o triunfo de Cristo. que é a matéria de todo o III cap.a: Assentou em mudar esta conquista para outras partes mais remotas de Espanha. e depois em vários tempos foi triunfando da idolatria e da gentilidade. que é o 2° do liv. de que usou o Profeta (deixando à parte haver sido esta empresa dos primeiros descobrimentos e conquistas dos Portugueses). que era a obrigação do cargo e administração que tinha de governador da Ordem da Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo.. 15. E esperamos que seja novo complemento dela o domínio da terra indômita. e este da sua cavalaria o primeiro triunfo. por si mesma e na opinião do Mundo tem [esta] cavalaria [tanto valimento.. que também foi naval. E mais abaixo no mesmo cap. possidebit civitates Austri. por meio de cuja navegação e pregação sujeitou Cristo à obediência de seu império tantas gentes de ambos os mundos. com que a despesa deste caso fosse própria dele e não taxada por outrem.° .

não de outro príncipe.:>> E este novo conhecimento que Deus deu àquelas nações por meio dos 95 . senão com as rendas e tesouros da mesma cavalaria e serviços e merecimentos próprios dela. e que a empresa havia de ser a salvação das almas. Francisco Xavier restituiu milagrosamente a vida. se conta uma visão em que o mesmo santo apóstolo apareceu vestido com o manto branco da Ordem de Cristo e com cruz vermelha no peito. acrescentando por modo de glosa no mesmo texto: Consideravi opera tua. Para confirmação de tudo isto. onde padeceu glorioso martírio. senão a propriedade do caso. nem de que sobre os dotes da glória se vestisse o seu manto e a sua cruz. et expavi). Os Setenta. De sorte que dizer o Profeta que Cristo havia de abrir caminho no mar à sua cavalaria. não pode haver melhor testemunho que o proêmio do mesmo Profeta. senão de um que era propriamente administrador e governador da Ordem da Cavalaria de Cristo. cognosceris. tão breve noite para os corpos e tão comprida noite para as almas. e que tendo durado tantos séculos sua ira contra aquelas gentes idólatras. E porque o maior ministro do Evangelho que se embarcou nas carroças desta cavalaria. que se possa gloriar de ter tão ilustre cavaleiro. traduzindo juntamente e explicando leram: Cum appropinquaverint anni. Mas no meio desses compridíssimos anos. não havendo outra entre todas as da Cristandade. cujos primeiros trabalhos foram os da navegação da costa de África e pregação da Fé em Moçambique. Francisco Xavier. «Quando chegarem os anos determinados por vossa providência. misericordiae recordaberis. pois verdadeiramente esta admirável empresa foi obra. foi o grande Apóstolo da Índia S. In medio annorum notum facies: cum iratus fueris. então sereis conhecido. tantas gentes e tanta s almas vivessem nas trevas da infidelidade. que mais assombrasse e fizesse pasmar aos homens que o descobrimento do mesmo Mundo que tantos mil anos tinha estado incógnito e ignorado. por certo. a quem S. depois do princípio e criação do Mundo. e para que se não admirem quando lhes dissermos que os tem escolhido para outras maiores. in medio annorum vivifica illud. e que então tornaria o Senhor a vivificar e ressuscitar a sua obra: Opus tuum. não com outras despesas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro tesouro podia pretender. e a verdade da história e cumprimento da profecia. sem lhes amanhecerem as luzes da Fé. misericordiae recordaberis. com que deu princípio a este cântico triunfal das vitórias de Cristo: Domine. e que tanto adiantou em nossas Conquistas a glória de sua empresa. Porque não houve obra de Deus.e Marcelo Mastrilli. diz o Profeta que faria Deus que se descobrisse e conhecesse o que até então estava oculto: In medio annorum notum facies. Singular prerrogativa. e feita. para que a fosse dar por Cristo no Japão. Na História do P. para levar a salvação às terras e gentes que ela descobriu e conquistou. nem que maior nem mais justo temor deva causar aos que bem ponderarem esta obra. tanto mundo e tantas almas conquistou para o mesmo Céu. (começa ele) audivi auditionem tuam et timui. Domine. pelos escolher para instrumentos de obras tão admiráveis. não só tem a formosura da metáfora. mas todo este favor do Céu merece uma cavalaria que tanto mar. que a consideração dos ocultos juízos de Deus. Quando Deus revelou ao Profeta e quando ouviu de sua boca o que havia de fazer aos vindouros. diz que ficou cheio de temor e assombro ( assim o interpretaram os Setenta . com que por tantos séculos permitiu que tão grande parte do Mundo. da Ordem dos Cavaleiros de Cristo de Portugal. é cousa memorável e muito digna de se referir neste lugar. como insigne cavaleiro desta santa cavalaria. que também ele foi cavaleiro da mesma Ordem. e para que os Portugueses conheçam quanto devem a Deus. em fim se lembraria de sua misericórdia: Cum iratus fueris. opus tuum in medio annoram vivifica illud.

Tomé. crespissimos inter homines habent. que estava na Ásia além do Tigres e Eufrates.Anexo:Imprimir/ História do Futuro nossos apóstolos e pregadores da sua Fé foi tornar a ressuscitar a mesma obra. e de uma e outra gente se pode entender. e no mesmo tempo chegaram os Portugueses. qui ex Africa. porque os da . qui sunt ab ortu Solis. E a razão é porque. que de outro modo se não podem bem entender. Logo. então famosíssima. e já os Apóstolos plantavam as balizas da fé em seu nome e conheciam e pregavam que ele era o que havia de fazer cristão ao Mundo. mas contra esta explicação parece que se opõem as primeiras palavras do texto. e só se distinguiam uns dos outros no som da voz e no cabelo. e com o tempo estava em algumas partes amortecida e em outras totalmente morta. que pregassem a mesma Cruz. tuum. As palavras de Heródoto são estas: Hi AEthiopes. como são hoje os que se conservam com o mesmo nome na África. III.Ásia tinham o cabelo solto e corredio e os da África crespo e retorcido. que tinha começado pelos primeiros apóstolos que naquelas mesmas terras a pregaram. como traslada Símaco: Reviviscere fac ipsum. sed sono vocis dumtaxat. dos Chinas. Lhes disse e mandou esculpir no pé dela. O Profeta Sofonias. por meio de cuja pregação ressuscitaria também a Fé e as vitórias dela naquelas nações. e de quanto lhe merece Cristo. debaixo do mesmo nome de Etiópia se compreendiam antigamente duas Etiópias: uma oriental. levantando uma cruz de pedra em lugar distante das praias. «Vós. Senhor. que ainda tivesse a S. na África. não menos que doze léguas. Tomé por seu apóstolo e Portugal não era de todo cristão. segundo o que acima deixamos dito. isto é. comendo pouco a pouco a terra. Heródoto e outros. Vatablo. senão ainda dos historiadores e poetas antigos. Isto quer dizer: Opus tuum vivifica illud: ou. chegou ao lugar sinalado. a mesma Fé e o mesmo Cristo que ele pregava. porque o mar. atque capillatura. no cap. S. As quais palavras entendem Árias. que verdadeiramente falam das gentes que estão além do rio da Etiópia: Ultra flumina AEthiopiae inde supplices mei. ou por ele Deus) inde supplices mei. que são todas aquelas terras que cerca o mar Oceano. E o mesmo profeta mais abaixo se comenta a si mesmo. sub Pharnarzatre. tornareis a ressuscitar o vosso arco» (que é a sua cruz). também falou mui particularmente neste glorioso assunto: Ultra flumina AEthiopiae (diz ele. permixtos crines. que quando o mar ali chegasse. donde era a mulher de Moisés. sempre o oráculo ou elogio deste Profeta nos fica em casa. Por este argumento há outros autores que o entendem do Brasil e da América. quando na cidade de Meliapor. Assim o profetizou na Índia seu primeiro Apostolo. chegariam também de partes remotíssimas do Ocidente outros homens da sua cor. a qual distinção não não só é necessária para o entendimento de muitos lugares das Escrituras. De sorte que também havia Etíopes na Ásia. Lembre-se outra vez Portugal destas obrigações. segundo Estrabo. 96 . censebantur cum Indiis specie nihil admodum a caeteris differentes. que por meio das pregações dos Portugueses se haviam de ajoelhar diante dos altares de Cristo e lhe haviam de levar e oferecer seus dons em testemunho de o reconhecerem por seu Deus. dizendo: Suscitans suscitatis arcum. e outra ocidental. desde Guiné até o mar Roxo. Éforo. Castro e Cornélio das nações que estão além do Tigres e do Eufrates. Japões e outras gentes da Índia menos remotas. Digo que de uma e outra terra. e posto de um e outro modo. Cumpriu-se pontualmente a profecia. Igual glória (e não sei se maior de Portugal) a da Índia. chamada por isso Etiópia. não se pode entender este texto das gentes orientais. filii dispersorum meorum deferent munus mihi. Nam AEthiopes qui ab ortu Solis sunt.

XVI. levaram consigo o nome que tinham herdado de seu pai e de seu avô. navegando às regiões apartadas e remotas do nosso hemisfério. e este impedimento diz S. senão o doutíssimo Genebrardo. entre todas as nações do Mundo. como diz Éforo. a quem só pertence a conversão dos reis do Oriente. Neste basta dizer que tinha na mão um livro aberto: Et habebut in manu sua libellum apertum. O mesmo Evangelista Profeta S João. pelo qual os Portugueses (maior façanha e ventura que a do outro Ciro) fizeram passagem a pé enxuto nas suas grandes naus da Índia. entre os quais o pé esquerdo. o Evangelho explicado. João chamasse ao mar Eufrates. diz que viu descer do Céu um anjo forte. Não sou eu nem autor português (como quase todos os que até agora tenho alegado) o que isto digo. assim uns e outros na língua hebréia se chamam Chuteos e a sua terra Chus. E este grande Eufrates é aquele grande mar. no cap. que é o mar Oceano. que é Roma. Este anjo forte (diz Pedro Bulêngero) é Cristo. e outro melhor Eufrates. principalmente acompanhado daqueles dois epítetos de alusão a grandeza: Illud magnum Euphatem. que nós pode ser expliquemos em outro lugar. e a sua terra Ethiopia. Não os nomeou por seu nome este autor. o livro. cujas insígnias descreve largamente . ut praepararetur via regibus ab ortu Solis: Que «o sexto anjo derramou sua redoma sobre aquele grande rio Eufrates e que secou suas águas. porém quando se ajuntem na história ou narração algumas diferenças que o determinem. referido por Estrabo. e assim como uns e outros na língua latina se chamam AEthiopes. No cap. 0 diz assim sobre este mesmo lugar do Apocacalipse. para aparelhar o caminho aos reis do Oriente». que é a Igreja. mas nomeou-os por suas obras. para levarem nelas a Fé ao Oriente e trazerem tantos reis orientais à obediência e sujeição da Igreja. falando em geral dos Espanhóis e em particular dos Portugueses. era o rio Eufrates. levam a elas a Fé de Cristo e a luz de seu Evangelho. pelo qual se abriu caminho aos reis do Oriente. por excelência os Portugueses. Assim como o Profeta Jeremias chamou ao Eufrates mar. João: Et sextus angelus effudit phialam suam in flumen illud magnum Euphraten: et siccovit aquam ejus. de que usa indistintamente o original hebreu. e que pôs o pé esquerdo sobre a terra e o direito sobre o mar: Et posuit pedem suum dextrum super mare et sinistrum super terram. então se há-de entender determinadamente ou só da Etiópia Oriental ou só da Ocidental. X. cabeça da Igreja. os pregadores apostólicos que levam pelo Mundo ao mesmo Cristo e seu Evangelho. (como neste lugar de Sofonias) se pode entender de qualquer das Etiópias. os que. para que pudessem vir à Igreja. e os que depois passaram à África e a povoaram. que está sobre o mar. Donde se segue que quando na Escritura se acha este nome sem outra diferença. que está sobre a terra. e é o mais honrado nome e de maior estimação que lhes podia dar. porque Membrot. o pé direito. donde se segue que o pé direito que Cristo pôs sobre o mar para esta gloriosa e evangélica empresa. 97 . insigne professor parisiense das Letras Sagradas. O maior impedimento de água que tinham os reis do Oriente para passar a Jerusalém. como nós fizemos no texto de Isaías ultimamente referido. Os descendentes deste mesmo Membrot e deste mesmo Chus. João que se lhes havia tirar. 12.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Nem faça dúvida a esta distinção a palavra Chus. filho de Chus e neto de Cham. deu o nome de seu pai às terras orientais. donde nós lemos AEthiopae. e os pés de seu corpo místico. diz S. do Apocalipse. onde habitou e povoou. sem saírem da terra firme pregaram nela. são. de modo que se pudesse passar o Eufrates a pé enxuto. Mas debaixo das figuras deste enigma se significava outra melhor Jerusalém. são aqueles que. por ser o mais profundo e mais caudaloso da Saia. não é muito que S.

das árvores. propriedade. Sinenses enim. «Em cumprimento desta profecia (diz Bulêngero.000. quae quidem regna a nobis longe dissita el incognitae regiones teterrimo daemonum cultui additae sunt. das gentes. Ali veremos as admiráveis propriedades e miudíssimas circunstâncias com que os mesmos Profetas falaram dos mares. das minas. e destes mares. que adoravam nos ídolos aos demônios. que pertencem às antigas Índias. dos rios. se não sabiam que havia no Mundo tais ilhas? Como dos Etíopes ocidentais. falavam os seus oráculos e profecias? Se criam tão firme e assentadamente que não havia nem podia haver antípodas. se não sabiam que havia tal Etiópia? Como dos Japões. costumes. como haviam de vir em conhecimento dessas gentes e desses reinos os que não podiam saber sua natureza. e em outras muitas ilhas e terras. (relicto daemonum cultu. dos sítios. dos frutos. se não sabiam que havia China? Se os Profetas nas figuras enigmáticas dos seus oráculos se declaram pela natureza. como haviam de entender as profecias destas navegações e destes mares? Se queriam que a zona tórrida era um perpétuo incêndio. adoram e servem. seus exercícios e seus costumes. e são infiéis e gentios. se não sabiam que havia Japões? Como dos Chinas. pelos frutos. mas nem ainda presumidas ou imaginadas deles. receberam a Fé de Cristo em número de 8. e totalmente abrasada e inabitável.>> Tão facilmente triunfa Cristo pela voz e espada dos Portugueses. dos costumes. explicados por autores que escreveram de cem anos a esta parte. pelos rios. opera patrum Societatis nominis Jesu ad Christi religionem traducta sunt.Anexo:Imprimir/ História do Futuro explicando-se com as palavras seguintes: Istud nostra memoria factum videmus. como haviam de interpretar as profecias dos habitadores da zona tórrida? Como haviam de cuidar. das ilhas. de tal maneira os Índios abraçaram a doutrina cristã e católica. nem suas histórias? Se declaram as terras pelos sítios. com o pé direito no mar e o livro na mão direita! No capítulo seguinte se verão muitos lugares de vários Profetas. Agora só pergunto: Como era possível que aqueles antigos e antiquíssimos autores explicassem neste sentido aos Profetas? Ou como podiam entender nem perceber que destas gentes. Christi Jesu fidem susceperunt. conhecem. como podiam explicar as profecias dos antípodas? Se criam que a imensidade do mar Oceano não era navegável e tinham este pensamento por absurdo. vemos que os reinos e regiões muito apartadas de nós. que as cidades se batizaram. e sobre tudo da Fé e luz do Evangelho. como podiam conhecer nem atinar com as terras os que não 98 . se não sabiam que havia América? Como dos Brasis. das terras. e destas terras. se não sabiam que havia Peru nem Chile? Como haviam de interpretar os Profetas das ilhas desertas ou povoadas do Oceano. não só incógnitas aos Antigos. catholicamque amplexerunt doctrinam. alegando a Súrio). das navegações. pela indústria dos padres da Companhia de Jesus. suas propriedades. permultique proceres et optimates sub anno Domini I564. deinde multa Indorum insulae et regiones christianam. da cegueira e infelicidade em que viviam. deixando o culto da idolatria no ano de I564. ad octo millia primum) et in his reges et princites. qui populi ad veteres Índias expectant. exercícios e histórias das gentes e reinos de que falam. se têm passado à verdadeira religião. adorar e servir. como hoje. se não havia Brasil? Como dos Peruanos e Chiles. em que entraram os príncipes e reis e muitos grandes senhores. porque os Chinas. et infideles sunt. depois que por meio da navegação do mar Oceano se quebrou o fabuloso encantamento dos negados antípodas e se descobriram tantas terras e gentes. com que por meio dos pregadores de Cristo o haviam finalmente de conhecer. pelas minas e seus metais. et integrae civitates sacro sunt ablutae baptismate. com tanta glória da Igreja. nem lhes havia de vir ao pensamento que os Profetas falavam dos Americanos. pelas árvores.

assim se entenderam e descobriram também os segredos e mistérios de suas profecias. antes de chegar o tempo em que Deus tinha determinado de o revelar? O cântico do profeta Habacuc. para que cousas invisíveis se fizessem visíveis: Fide intelligimus aptata esse saecula verbo Dei. sendo logo certo que estes segredos da Providência Divina se não podiam alcançar por ciência humana. de tais árvores. em que nenhuma destas cousas se sabia nem se imaginava. de tais minas. e assim como.Anexo:Imprimir/ História do Futuro tinham notícia de tais sítios.. Destas terras ultramarinas. que agravos ou descréditos é ou pode ser dos antigos sábios. não quis o mesmo Deus que eles então a tivessem. diz assim dos teólogos.. Diz o Apóstolo S. XXIV: . e que depois chegasse um século em que se descobrissem e fossem visíveis. de tais rios. incógnitas ou ignoradas? Podem os homens ocultar os seus segredos. naquele seu erudito livro da Conveniência das duas monarquias. antes as contrárias delas se tinham por averiguadas e certas? Frei João de la Puente. quando disse no cap. este segredo é só para mim. tem por título Pro ignorantiis.» E se na mesma profecia estavam profetizadas as cousas. E se o conselho de Deus foi que o entendimento ou de todas ou de muitas cousas que ali contou o Profeta. trabalhando por explicar de Espanha certo lugar de Isaías. e se terem escrito tantos livros de sua história natural e política. é obrigação e força que digamos ou suponhamos dos teólogos antigos. e as gentes que o habitavam. se ignorasse. falava Isaías. nem menos decoro de sua erudição e grande sabedoria. como verdadeiramente eram. que também trata destes novos descobrimentos ou triunfos da Fé e da conversão destas gentes. se descobriram e manifestaram as terras e gentes de que tinham falado os Profetas. em que tinha decretado que se soubessem e descobrissem. ainda por falta de notícias mais particulares e miúdas. Dei Israel. esta luz e posto que fossem varões santíssimos e tão favorecidos de Deus. porque era disposição mui assentada da sua providência que estas cousas se não soubessem. porque sabiam a geografia do seu mundo e não podiam saber nem adivinhar a do nosso. se não acerta mais que em comum e individualmente com algumas das terras e gentes de que os profetas falaram. depois de descobertas e conhecidas estas terras e estas gentes. e mais o segredo delas. mas esta revelação. e Deus não será senhor de reservar os seus. nem de tais frutos? E se ainda hoje. depois do Mundo estar tão descoberto e conhecido. e que a mesma Providência tinha decretado que se não soubessem por revelação? LAUS DEO 99 . in insulis maris nomen Domini. sem agravo. encobertas e incógnitas. romana e espanhola. secretum meum mihi: «Este segredo é só para mim. por onde não é muito que tanta parte do Mundo. corrida esta cortina. E isto que se não pode dizer dos teólogos do nosso tempo sem grande nota de sua ciência e diligência. Paulo que acomodou Deus e repartiu os séculos conforme os decretos da sua palavra. Só por nova revelação e luz sobrenatural podiam conhecer os autores daquele tempo o que nós tão fácil e naturalmente conhecemos hoje. e estivessem ocultas até àqueles tempos medidos e taxados por ele. ut ex invisibilibus. que para eles fossem ocultas. por doutíssimos e sapientíssimos que fossem. visibilia fiant. sendo ele mestre em Teologia: La falta de Geographia v la de otras artes liberales es causa que los teologos non atinem con el sentido de la divina Escritura. E logo acrescentou: Secretum meum mihi. estivessem ignoradas e invisíveis por tantos séculos. como podia ser que contra a verdade infalível da profecia soubessem os Antigos deste segredo. que seriam na confusão escuríssima da Antigüidade.in doctrinis glorificate Dominum.

para que vejam e conheçam as coroas quanto é grande a sua mortalidade. Começou em Ciro. sem fazer caso de muitos e grandes impérios que floresceram e haviam de florescer em vários tempos e lugares do Mundo. conhecemos hoje nele muito maior número de impérios. O terceiro Império. Porque sem recorrer à memória dos tempos passados. conforme Eusébio. mais que duzentos e trinta anos. 37 imperadores.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 100 História do Futuro (Volume II. e pondo somente os olhos no mundo presente. Havendo. Não durou. tão poderoso e formidável. Começou este Império dos Gregos depois pelos anos do Mundo 3672. e dos que em continuada sucessão se lhe foram seguindo até o tempo presente. Capítulo II) por Padre Antônio Vieira Correndo os anos de 1860 da criação do Mundo. acabou em Dario. na África. foi o primeiro que ensinou ao Mundo e introduziu nele a tirania. com razão se deve duvidar e desejar saber a causa pôr que este nosso Império que prometemos recebe o numero de Quinto. . na Europa. em respeito ou suposição dos quais este novo de que falamos se chama Quinto. Ao que respondemos breve e facilmente que este modo de contar não é nosso nem de algum outro historiador ou autor humano. Tantos anos tardou a ambição em romper o respeito àquela lei com que nos fez iguais a todas a natureza. filho do gigante Nembrot (posto que não faltam graves autores que fazem destes dois nomes o mesmo homem). Alexandre o começou e acabou em Alexandre. em que sem o nome. e o de Espanha. se sustenta a grandeza. História do Futuro (Volume II. Na Ásia. posto que arruinada e combatida. a que depois com nome menos odioso chamaram Império. se o considerarmos como monarquia. só trata do primeiro que se começou e levantou nele. em que sem a grandeza se continua o nome. depois que a confusão das línguas na torre de Babel dividiu seus fabricantes em diversas partes da terra. 3800 antes do presente de 1664 em que isto escrevemos. Ao império dos Assírios sucedeu o dos Persas pelos anos da criação 3444. Esta sucessão e seu princípio foi desta maneira. tão unido. perto de mil e trezentos anos. teve. senão fundado e tirado das Escrituras divinas. o dos Tártaros. o vastíssimo Império da China. o da Etiópia. de que foi o último Sardanapalo. Foi este império de Belo o dos Assírios ou Babilônios. o de Alemanha. os quais em espaço quase de quatro mil anos têm sido com este quatro. cuja história profética. durou. ainda durou menos. pois pode ser mais breve a vida de um império que a de .um. reduzindo a sujeição e obediência política a liberdade natural com que todos até aquele tempo nasciam. a primeira cousa que se oferece para averiguar e saber é que impérios tenham sido ou hajam de ser os outros quatro. e quais sejam em ordem os outros quatro que lhe deram este lugar ou este nome. segundo Justiço. Belo. entrando neste número Semearmos. o do Mogor. homem. tão estendido. o do Persa. e em todas estas três partes do Mundo o violento Império dos Turcos. que foi o dos Gregos. pois ainda nesta nossa idade tantos impérios. e sendo tantos mais os de nações bárbaras e políticas que em diversos tempos do Mundo se têm levantado e caído. contou por todos catorze imperadores. Capítulo I) por Padre Antônio Vieira Entrando a tratar do Quinto Império do Mundo (grande assunto deste nosso pequeno trabalho) para que procedamos com a distinção e clareza tão necessária em toda a história e muito mais neste gênero. castigo tão merecido a sua soberba como necessário à propagação do gênero humano e à o mesma grandeza que aspiravam.

o qual se há-de seguir ao Império Romano na mesma forma de sucessão em que o Romano se seguiu ao Grego. e desde este tempo começaram as águias romanas a aparecer coroadas com duas cabeças. Sucedeu esta mudança pelos anos de Cristo de 810. e o não pusemos no corpo da história por não embaraçar o desenho dela. e com grande valor e zelo da Cristandade está resistindo-se (queira o Céu que seja com melhor ventura!) a outro Maomete.perdeu a vida e a cidade e sepultou consigo todo o Império. porque sucedeu ao dos Assírios. eleito Carlos Magno em imperador do Ocidente. sempre era muito conveniente dar-se logo neste princípio. governado e não defendido pela celebrada Cleópatra. e este (que foi o que mais permaneceu) continuou com desigual fortuna trezentos anos. ficando fora da mesma ordem. de que foi o último outro Constantino de muito diferente fortuna. para melhor governo. dentro em Constantinopla . até que. posto que em matéria tão 101 . o do Egito. tem contado noventa imperadores até Fernando III. por isso as Escrituras Sagradas não fazem menção nem memória alguma deles. passados e presentes.à margem. cujo Império começou com este nome em Júlio César. fundando nova corte em Constantinopla. Em respeito pois e suposição destes quatro impérios. Tudo o que até aqui fica dito são suposições certas e sem dúvida. se dividiu em três reinos: o da Ásia. em Império Oriental e Ocidental. para melhor entendimento de tudo o que se há-de dizer adiante.a Alemanha. Estes são em breve suma os quatro Impérios que desde o primeiro que houve no Mundo se foram continuando e sucedendo até o presente. tiradas de diferentes lugares do Texto Sagrado. o da Macedônia. trinta anos antes do nascimento de Cristo. Persas. que hoje reina. pois. o Império Romano com toda a inteireza de sua monarquia 400 anos. porque. o Grego ao Persa e o Persa ao Assírio. diminuindo sempre em grandeza e majestade. porque sucedeu ao dos Assírios e dos Persas. ficaram fora da ordem desta sucessão. depois daquela divisão. e o das Gregos se chama o terceiro. e porque todos os outros Impérios. chamamos Império Quinto ao novo e futuro que mostrará o discurso desta nossa História. Sustentou-se o Império Oriental por espaço de quatro mil anos. O do Ocidente. quando não fora tão necessária para o ponto em que estamos. e. em que contou oitenta e quatro imperadores. sendo sitiado e vencido por Maomete II. ficando Roma como cabeça da Igreja. Gregos e Romanos (como logo veremos) se deve chamar com a mesma razão e propriedade o Quinto Império do Mundo. Durou. se passou o governo a exarcas. o ajuntou Marco Antônio à grandeza romana. até que. sendo governado alguns anos por imperador com igual jurdição e majestade. que foi o primeiro do Mundo. o qual. E assim como o Império dos Persas se chama o segundo Império. cuja notícia. ao Pontífice passou o assento do Império . Autores que dizem o mesmo. dividiu o Império. porque sucedeu ao dos Assírios. porque.Anexo:Imprimir/ História do Futuro conservou-se unido somente oito. que vão citadas . nos quais o Império. por muitos que hajam sido. que começou no primeiro e há-de acabar no Quinto (que será também o último). Nem eles. por grandes e poderosos que fossem. Havia já neste tempo setecentos anos que Rômulo levantara junto ao rio Tibre aquelas primeiras choupanas que depois se chamaram Roma. que eram ministros e como lugar-tenentes dos imperadores orientais. assim este nosso Império. como também nós a não fazemos. porque há-de suceder ao dos Assírios. ao dos Persas e ao dos Gregos. com sucessão de 35 imperadores até o grande Constantino. podem acrescentar número ou lagar ao novo Império com que mude ou exceda o que lhe damos de Quinto. experimentou nela grandes variedades. antes deles acabados. em tempo o Papa Lúcio TII. e o dos Romanos se chama o quarto.

pelo espírito de profecia que foi tão superiormente ilustrado. como também deixamos dito.Anexo:Imprimir/ História do Futuro averiguada e sem controvérsia não são necessários autores. . porque tinham . senão também o que tinha sonhado. o sucesso de muitas cousas futuras. Oro a Deus. se o rei lhes manifestasse o que sonhara. que era. enganadores e indignos de crédito. sendo gentio. desvelado uma noite com os pensamentos da sua monarquia. Nabucodonosor. e somente lhes haviam de dar crédito no segundo e mais dificultoso. Responderam os sábios que. os aríolos. que era cousa passada. irado grandemente Nabuco. Falaram assim. em prêmio ou conseqüência deste cuidado mereceu que Deus lhe revelasse. que somente se lembrava que acabava de sonha. Tão violentos são os apetites do poder supremo. os caldeus. tem o primeiro lugar Daniel. lhes declarou por si mesmo tudo o que lhe tinha sucedido. como fica dito. se não podiam saber o sonho. Não se aquietou Nabuco com esta resposta dos sábios. para fundarmos bem a esperança deste grande futuro. devemos recorrer principalmente aos que a Fé nos ensina que foram verdadeiros profetas. e mandou-lhes seriamente que não só lhe haviam de dizer logo a significação do sonho. onde fora levado com El-Rei Joaquim no primeiro cativeiro ou transmigração dos Hebreus. mandou logo chamar os maiores sábios dos seus reinos. como haviam de conhecer a significação dos futuros. Assim. História do Futuro (Volume II.que também entravam no número dos condenados. não . Capítulo I: Mostra-se a Quinta Monarquia com a profecia de Daniel) por Padre Antônio Vieira 102 Já dissemos que os futuros livros ou contingentes (qual é o Império que prometemos) só são manifestos a Deus e a quem os quer revelar. porque isso era a sua profissão e o mais a que se estendia a ciência humana. estimulado igualmente do desejo e do temor que a mesma lembrança lhe causava. E assim. com toda a demonstração e certeza. antes os argüiu com ela de falsos. o que resta e importa mostrar é que haja de haver sem dúvida este novo e prometido Império a que chamamos Quinto. Livro I. ele e seus três companheiros. porque esta é a base e fundamento de toda a nossa História e assunto particular deste I Livro. o Império dos Assírios. porque todos eram gentios. e depois de trazidos à sua presença. mandou que os levassem de sua presença e que neles e em todos os professores das mesmas artes se executasse logo a sentença de morte. eles se obrigavam a declarar a significação de tudo. entre os quais. No ano antes de Redenção do Mundo 450. assim como outros príncipes que têm fé e desmerecem por sua negligência e descuido até o conhecimento natural dos presentes. Será pois a primeira pedra deste edifício uma grande profecia de Daniel. um dos últimos reis imperadores de Babilônia. e tão arriscado não satisfazer aos reis até no impossível! Achava-se neste tempo em Babilônia Daniel. mas totalmente se esquecia quais foram. com cuja apreensão e assombro acordou de tal maneira perturbado e confuso. que eram os que pela observação das estrelas e outras professavam a ciência das cousas futuras. se no primeiro e mais fácil eles mesmos confessavam sua ignorância? Que se resolvessem a dizer logo uma e outra cousa. Viu pois Nabuco em sonhos uma visão admirável e portentosa. alegaremos nos capítulos seguintes. os magos. E como os tristes sábios respondessem outra vez que não sabiam nem podiam satisfazer ao rei no que deles queria. porque. mas porque o fez Deus particular profeta dos reinos e das monarquias. grandes e prenhes de mistérios. mas que adivinhar qual houvesse sido o sonho era segredo impossível de alcançar aos homens e reservado somente à sabedoria dos deuses.cousas prodigiosas. senão que ele e sus famílias morreriam todas. E assim o faremos agora.

de que nós diremos agora somente o que pertencer ao ponto em que estamos. Rex. ó Rei. mas nós as quisemos resumir brevemente aqui. se não por revelação sua. Oferece-se a declarar o sonho. o bronze. Parecia-te que vias defronte de ti uma estátua grande. de estatura alta e sublime e de aspecto terrível e temeroso. Tu. nem o lugar onde tivessem estado. para crédito natural da mesma profecia. que é o princípio do corpo. os pés de ferro e de barro. e fazendo-se um grande monte. que foi levada dos ventos. o ouro. lembrando-se outra vez de tudo pela mesma ordem com aquela espécie de memória a que os filósofos chamam reminiscência. e nem aqueles metais apareceram mais. A história do sonho. cortada dele sem mãos. A cabeça desta está tua era de ouro. pois não só nos obrigam a que a creiamos por fé os que somos cristãos. é a seguinte: Tu. usque ad implevit universam terram. em que Nabucodonosor naquele tempo reinava. Até aqui a relação do sonho. pede que o levem a Nabucodonosor. porém a pedra que tinha derrubado a estátua cresceu. foi o primeiro e o princípio de todos os Impérios. que é o primeiro entre todos os metais. Então se desfizeram juntamente o barro. reservando o de mais (que é muito) para seus lugares. por isso estava representado na cabeça. etc. o ferro. faz parar a execução Daniel.Anexo:Imprimir/ História do Futuro estudado. as quais porventura puderam parecer menos necessárias ao nosso argumento. e se converteram em pó e cinza. o que havia de suceder depois do tempo presente. a prata. Rex. não por arte ou ciência minha. primeiramente com assombro e pasmo do rei lhe contou muito miudamente por sua ordem a história do que tinha sonhado. et qui revelat misteria. mas se podem convencer com elas por discurso até os mesmos Gentios. o ventre até os joelhos de bronze. como deixamos notado. e depois com igual admiração e espanto de todos lhe foi explicando parte por parte os mistérios e segredos futuros que tão prodigiosa visão em si encerrava. pelas palavras com que Daniel a referiu. começavam a caminhar para o lugar do suplício. Hoc est somnium. e quando já a multidão dos sábios. ocupou e encheu toda a terra». a quem ele servia e que fora o autor daquele sonho. e porque este Império. cogitare coepisti in strato tuo quid esset futurum post hoec. o podia revelar e a significação dele. e q. viste mais que se arrancava uma pedra de um monte. folhe revelado pelo Céu o sonho e a interpretação dele. Estando assim suspenso no que vias. e todo este aparato de circunstâncias com o Texto Sagrado descreve o sucesso dela. rodeados de rústicos e tumulto popular. o peito e os braços de prata. dos joelhos de ferro. e posto em sua presença e na dos maiores príncipes de Babilônia que o acompanhavam. Seguiu-se à história do sonho a interpretação dele. videbas et ecce quasi statua una grandis: statua illa magna et statura sublimis stabat contra te et intuitus ejus erat terribilis. e mostrar como só o Deus verdadeiro. te mostrou naquela visão tudo o que está para vir nos tempos futuros. a qual Nabuco de novo ia ouvindo e reconhecendo. . depois de confessar a insuficiência sua e de todo o saber humano. as ciências de Caldeia. Este é o prólogo da primeira profecia de Daniel. deitado no teu leito. dando nos pés da estátua. a derrubava. A cabeça de ouro significava o Império dos Assírios. e o Deus que só pode revelar os mistérios e segredos ocultos. e os diferentes metais de que era composta as mudanças que o mesmo Império havia de ter em diferentes tempos e para diferentes nações. por mandado do mesmo rei. Disse pois Daniel que aquela grande estátua significava a sucessão do Império do Mundo. e no ouro. «Começaste a cuidar. diz Daniel. ostendit tibi que ventura sunt. e o que eu agora te direi. 103 .

O ferro finalmente. significava o Império dos Gregos. diz particularmente Daniel que foi porque. Et regnum quartum erit velut ferrum. Para cuja inteligência se deve notar que tudo o que hoje possuem os príncipes cristãos na Europa. ou se segue imediatamente dela. que foi e é o quarto Império. Tudo o que até aqui fica dito é de fé. e que se seguiu a eles. Mas não parava aqui a propriedade da semelhança. E este é o verdadeiro.] et regnum erit velut ferrum. que é o segundo metal. O bronze. em que a grandeza do mesmo Império Romano. Assim como. porque. consta que o mesmo Império que primeiro foi dos Assírios.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A prata. assim como os pés da estátua sustentavam e tinham sobre si o peso e grandeza de toda ela. assim como o ferro lima. disse porém expressamente que os três metais significavam três reinos. assim como o peito e braços se seguem à cabeça. foi causa de que o Império Romano se dividisse em dois impérios ou duas partes iguais do mesmo. passou aos Gregos. não só humanas. e o mesmo Império dos Persas. aprovado e seguido por todos os Padres e expositores deste lugar. um em Roma outro em Constantinopla. que os três reinos e impérios que sucessivamente se seguiram ao dos Assírios foram o dos Persas. bate. segundo e terceiro reino: Et post te consurget regnum aliud minus te argenteum. são umas divisões ou . sem haver algum que lhe possa resistir.. e tudo o que na Europa. se havia de dividir. sujeitar e dominar todos os outros impérios. por o dizer com mais propriedade e certeza. mas porque o mesmo peso e grandeza. como 104 .retalhos do Império Romano. uns maiores outros menores. pondo um pé no Oriente outro no Ocidente. vencidos estes por Ciro. sobre as quais toda a máquina daquele portentoso colosso se sustentava. sic comminuet et conteret omnia hoec. passou e se incorporou no Império Romano. que foi o terceiro depois dos Persas e se seguiu depois deles. e as partes ou membros de que aquele vastíssimo corpo na sua maior grandeza e potência se compunha. assim o Império Romano teve sobre si e em si o peso e grandeza de todos os outros impérios que nele se uniram e ajuntaram. na África e na Ásia possui o Turco. restituindo-se outra vez a sua primeira liberdade e soberania. vencidos estes por Alexandre. as quais lhe foram tirando as mesmas nações que ele tinha sujeitado. A razão ou mistério por que o Império Romano se representou no ferro. com a qual divisão. e consta pela experiência e pelo testemunho . E quadra maravilhosamente no Império Romano a figura das duas pernas e pés da estátua em que foi representado. ainda que Daniel na sua explicação do sonho não nomeou as três nações de Persas. como acima vimos. assim como o ventre se segue depois do peito. e o mesmo Império dos Gregos. que é o terceiro metal. assim os dez dedos. assim este é e há-de ser o último Império dos que naquela estátua se representavam. e assim como as pernas e pés são a última parte do corpo humano. que é o quarto metal. passou aos Persas. et regnum tertium aliud oereum [.de todas as histórias. certo e indubitável sentido de interpretação de Daniel. senão também das sagradas e divinas.. desfazer. Gregos e Romanos. quomodo ferrum comminuit et domat omnia. que foi o segundo depois dos Assírios. sinalando-os nomeadamente por primeiro. ficaram verdadeiramente sendo estas duas partes do Império Romano como duas colunas naturais de ferro. significava o Império dos Romanos. corta e doma os metais. em que se dividiam. na sua última declinação. que sucedeu aos três primeiros. em que não há discrepância nem dúvida alguma. significavam dez reinos. vencidos estes por vários capitães de Roma. recebido. não só porque. na divisão de uma e outra perna da estátua se representava a divisão do Império Romano nos dois impérios. que sucessivamente se haviam de continuar uns aos outros. assim o Império Romano e o poder invencível de suas armas havia de abater. o dos Gregos e o dos Romanos: ou. significava o Império dos Persas.

nas quais em defesa da própria e da Igreja têm pelejado os exércitos imperiais com grande valor. que é. allerum vero constantinopolitanum. e depois dele outros muitos: por decem digitos partim ferreos et partim terreos significatur Romanum Imperium novissime iri in multa regna multosque reges. quorum alii maiores et potentiores. pode ser entendida e percebida de todos. e porque. E é tão verdadeira e tão antiga esta interpretação dos dez dedos da estátua. Adverte. comprovando-se a verdade desta interpretação com a experiência e confirmando-se ser este o verdadeiro sentido da profecia com o cumprimento dela. E a mesma oposição tão bizarra com que as armas do Império nas fronteiras de Alemanha e Hungria. que compreende Alemanha e Itália. alii minores et imbecilliores futuri sint. como depois veremos. Inglaterra. Castela França. com a notícia vu1gar que se tem do Mundo. et parte fictiles: ex parte regnum erit solidum. et sub Imperio Turcorum. uns mais fortes outros menos. e o mesmo Imperador em pessoa estão hoje resistindo às invasões do Turco e poder otomano. especifica este número.palavras diz Daniel que o barro dos pés dá estátua significava a debilidade e fraqueza a que o Império Romano. ao pé da letra. o Profeta que não eram os dedos totalmente de barro. porque. Ad extremum (diz Perério) ex uno duplex factum est Imperium Romanum: alterum Latinorum seu Occidentis. e alcançado de seus inimigos gloriosas vitórias. e o mesmo Império Romano. E posto que Daniel nesta profecia não declara com tanta miudeza que a divisão do Império Romano há-de ser .. que outra cousa são ainda. era opinião comum (como diz o mesmo santo) de todos os escritores eclesiásticos que o Império se havia de dividir em dez reinos. quod vidisti ferrum mistum testæ ex luto.Anexo:Imprimir/ História do Futuro hoje estão. que é o estado em que o vemos. porque nesse mesmo estado de sua declinação. porém. senão compostos parte de barro e parte de ferro. Polônia e Estado ou Império Turco. por agora baste esta divisão que nós pusemos em primeiro lugar por ser mas fácil. como nota neste lugar o mesmo autor alegado. e nesta diz clara e expressamente que os dedos dos pés da estátua significam a divisão do Império: Porro quia vidisti pedum et digitorurn partem testæ figuli et partem ferream: regnum divisum erit. o que se tem visto e experimentado no Império Romano. sem ter perdido cousa alguma sua grandeza. sicuti ferrum misceri non potest testæ. acharemos pontualmente que são dez reinos: Portugal. et ex parte contritum. Græcorum seu Orientis. em outra profecia. Dinamarca. outros menores. principalmente na sua última idade e declinação. Suécia. Quod autem vidisti ferrum mistum testæ ex luto. depois de tanta potência. que já antes dos tempos de S. havia de descair. se bem contarmos os reinos em que hoje está dividido ou despedaçado o que antigamente foi e se chamava Império Romano. Ao diante dividiremos estes mesmos dedos da estátua em outras partes que temos por mais proporcionadas. debilidade e fraqueza conservaria o Império algumas partes sólidas em que permanecesse a dureza e fortaleza do antigo ferro de que todo antes era formado. e diz assim: . Et digitos pedum ex parte ferreos. Nas quais . sem reconhecerem sujeição nem obediência alguma ao Império Romano. commiscebuntur quidem humano semine. quod omnia regna quæ nunc sunt apud Christianos. sed non adhærebunt sibi. em tantas ocasiões de guerras e batalhas contra Turcos. partes sunt Imperii Romani tanquam rami ex una illa Imperii arbore decisi. Hierônimo em que o Império Romano estava íntegro e potentíssimo. E se uns reinos destes são maiores. Passa finalmente o mesmo Profeta a declarar o mistério ou significação do barro de que os dedos eram compostos em uma parte juntamente com outra de ferro. disciplina e constância. essa mesma é a propriedade dos dedos. desde o tempo de sua maior declinação a esta parte. e assim o estamos vendo hoje.pontualmente em dez partes ou dez reinos. Assim se dizia e escrevia então. Moscóvia.. Adjice. contra hereges e contra alguns príncipes cristãos. senão partes e 105 .

«bem como o ferro se não pode unir nem ligar com o barro. o de Inglaterra e da Suécia. abrasados e feitos em cinzas. cunhado do Imperador. em respeito porém do Império de que se apartaram e que tanto desuniram e enfraqueceram com sua separação. em respeito do Império Romano. e por isso o mesmo império tão enfraquecido! Nasceu juntamente com Roma esta fatal desunião contra o respeito do sangue em Rômulo e Remo. os campos talados. que ramo há que seja mais próprio daquele tronco. com os poderosos exércitos do Turco metidos dentro na Áustria. e formaram novos reinos. as . casando os imperadores nas casas reais dos outros príncipes e os reis na dos imperadores. Quantas vezes se intentou na Europa que entre os imperadores e reis da Cristandade se estabelecesse uma liga firme. porque não são os dos pés da estátua ou os dos dedos dos pés. e quase. se amarram contra si.Anexo:Imprimir/ História do Futuro partes muito sólidas daquele mesmo ferro? Mas vindo às partes de barro: estas são (diz Daniel) aquelas províncias e nações que. quão facilmente se desatam. e. corte do Império. as cidades destruídas. e ainda o que se derrama. e o mesmo de Castela ou Espanha. mas por isso mesmo infelizmente! Se este ferro se unira ao Império contra o 106 .» A tanta miudeza como isto desceu o Profeta. sicuti ferrum misceri non potest testæ. antes. Significam os dedos dos pés da estátua as últimas extremidades do Império Romano e a sua duração. não tenha cada um dos outros príncipes quase iguais partes nele? E que guerras vimos ou sabemos entre estas coroas. filha de Júlio César. dizendo: Commiscebuntur quidem humano semine «misturar-se-ão e ligar-se-ão no sangue». e verdadeiramente se possam chamar partes de ferro. vemo-lo todo infelizmente convertido contra Portugal. e neste mesmo tempo em que o ferro de Espanha se havia de unir todo ao ferro do Império. os templos e pessoas dedicadas ao templo em abomináveis sacrilégios profanados. E tal é hoje o Reino de França. depois de profanados. Que casa real há no Mundo mais ligada com a do Império. ainda que em si mesmos sejam muito poderosos e fortes. e no de Marco Antônio com Octávia. se gota por gota lhe distinguirem o sangue. não seja o mesmo? Tão misturado anda o sangue nestas últimas relíquias do Império Romano. interpondo-se para isso a autoridade dos Sumos Pontífices. viu-se no casamento de Pompeu com Júlia.pelo matrimônio se uniram. acrescentando em todas estas circunstâncias novas e admiráveis confirmações à verdade da sua Profecia. e que sangue mais repetidamente unido por multiplicados casamentos que o de Áustria e Castela? E que pessoa real há também em que mais apertadamente estejam atados estes vínculos e mais dobrados todos estes respeitos que na de El-Rei Filipe IV. sem jamais se conseguir a união desejada! Que imperador ou que rei houve na Cristandade há muitos anos que. primo do Imperador. batendo às portas de Praga. em que o sangue que de uma e outra parte se defende. e sendo estes muitas vezes eleitos das mesmas famílias que do Império se apartaram. os homens barbaramente mortos a sangue-frio. não são nem se podem chamar senão partes de barro. Mas não são estes exemplos tão antigos os de que fala a profecia de Daniel. se desuniram e tiraram de sua sujeição. se eu me não engano.mesmas mãos que. genro do Imperador? Considere agora o Mundo o estado em que o mesmo Imperador se achou no ano passado e em que se acha no presente. os quais. mas tão resumido sempre. filha de Octávio. sendo partes do antigo Império Romano. e. sed non adhærebunt sibi «mas nem por isso se unirão nem ligarão entre si». no mesmo dia em que isto estou escrevendo se está cumprindo esta profecia. acode Daniel a esta objeção. e quantas vezes se liaram os mesmos príncipes entre si por meio de recíprocos casamentos. as mulheres e meninos cativos e transmigrados para a Turquia. E porque não cuidasse alguém que a união que se perdeu pela separação das coroas se recuperou e supriu pela conjuração do sangue.

terceiro e quarto império. foi o ano passado e. pudeste declarar este grande segredo e sacramento. nem haver de ser conquistado. mas nas últimas extremidades do Império Romano e nos seus maiores apertos e trabalhos não se acharam parentes nem aderentes »— sed non adhærebunt sibi. e mando que lhe oferecessem incenso e sacrifício. Temos visto até aqui. ó Rei. para que triunfem nas bandeiras otomanas as luas de Mafoma. acrescenta imediatamente o que Nabucodonosor lhe fez e o que lhe disse. tinham obrigação de ser mais unidas »— commiscebuntur quidem humano semine »— isto é. barro há-de ser também no presente. despovoam-se os presídios de Itália. porque se desune dele em tal ocasião e se converte contra Portugal. «Verdadeiramente o Deus que adoras. et Danielem adoravit. da Cristandade. e ainda antes de dizer estas palavras. e o que só conhece e revela as mistérios escondidos aos homens. refere o mesmo texto em as seguintes: Tunc rex Nabuchodonosor cecidit in faciem suam. e se conquistem e sejam vencidas nas portuguesas . Este Império os há-de desfazer e aniquilar a todos. irmã de el-Rei Filipe IV. casará o Imperador Fernando com Maria. é o Deus dos deuses e a Senhor dos reis. o qual. e tão valoroso. no campo de Portugal e Castela. pois tu. e este é o sonho que tiveste e esta a verdade de sua interpretação -. que faria se lhe dissesse ser e1e o senhor do 107 . et Dominus regnum. a quem tão de perto ameaça este golpe! Mas quando todo o poder de Espanha se havia de achar unido contra o Turco em socorro de Alemanha e Itália. fora ferro. mostrando que a principal causa de toda ela é a desunião daquelas partes que por serem mais conjuntas em sangue e parentesco. por mais que se mostre ou ameace ferro. depois das palavras ultimamente referidas. «Tanto que o rei acabou de ouvir a Daniel. esta é a fraqueza das extremidades do Império Romano. da Religião. segundo. significa um novo e quinto Império que o Deus do Céu há-de levantar no Mundo nos últimos dias dos outros quatro. mas. é barro. prostrou-se diante dele e adorou-o com o rosto em terra. continuou e concluiu desta maneira: In diebus autem regnorum illorum etc. filha de Fernando. sem haver de vir jamais por acontecimento algum a domínio ou poder estranho. ó Rei. O que fez Nabuco no mesmo tempo. Quer dizer: aquela pedra. se empregara com glória imortal de ambas as coroas em defesa da Fé..Anexo:Imprimir/ História do Futuro Turco. casará Filipe IV com Leonor. e ele só há-de permanecer para sempre. desde a cabeça até os pés da estátua. et hostias et incensum præcepit ut sacrificarent ei. quando lhe disse que seu império se havia de acabar e passar outros quatro. ó Daniel.. Estas são as cousas futuras que Deus te quis mostrar. Depois de contar Daniel toda esta prodigiosa história. esta é a queixa que . quoniam tu potuisti aperire hoc sacramentum. et revelans mysteria.et verum est somnium et fidelis interpretatio ejus.as chagas de Cristo! Este é o barro dos pés da estátua. dissipado ou destruído. O que lhe disse foi: Vere Deus vester Deus deorum est. Quanto melhor e mais católica ação fora. e quanto de maior exemplo para todos os príncipes católicos e de menor escândalo para os hereges e para os mesmos Turcos se o sangue espanhol. segue-se agora ver o quinto na mesma história do sonho de Nabuco e na mesma interpretação de Daniel. que de uma é outra parte se desperdiça.» Se isto fez Nabucodonosor a Daniel. e da mesma cabeça dela. que derrubou a estátua e desfez em pó e cinza todo o preço e dureza de seus metais.. Barro e barro quebradiço. com lástima e lágrimas da Igreja. alumiado por ele. o primeiro. que viste arrancar e descer do monte.Daniel explica e pondera na mesma fraqueza. quæ ventura sunt postea. levantam-se os de Alemanha e chamam-se todos a Castela contra Portugal. como sucedeu ou há-de suceder aos demais.

reinando já nela Baltasar. primeiro no sonho das paveias dos onze irmãos que adoravam a sua. como tem a opinião mais comum dos Doutores. e depois no do Sol e nas estrelas que lhe faziam a mesma adoração. a que o.et ecce quatuor venti coeli pugnabant in mari magno.. et sublata est de terra. antes mais portentosa em tudo e mais notável. et alas habebat quasi avis. firmou-se sobre os pés e parou. e foi-lhe dado grande poder.». História do Futuro (Volume II. «Depois desta saiu a terceira besta semelhante a leopardo. digo. e depois no das sete espigas gradas e sete falidas. em outro sonho e em outras figuras lhe fez segunda vez a mesma representação. Mas este ponto ficará para seu tempo e para seu lugar. depois dos três impérios dos Assírios. Esta suposição é de fé. Capítulo II: Segunda profecia de Daniel) por Padre Antônio Vieira 108 Não é cousa nova em Deus quando revela cousas grandes. e é de razão. Tinha os dentes de ferro grandes com que comia e despedaçava . (ou fosse dormindo e em sonhos. E logo levantou as mãos da terra e se pôs em pé e ficou em figura de homem. que ainda hoje dura. e depois do quarto. velando) viu. entre os quais trazia três bocados. que a primeira. et in dentibus ejus. diz o Profeta e por fim de todas entrou «a quarta besta. et sic dicebant ei: Surge. porque assim se infere por bom discurso. que os quatro ventos principais se davam batalha no meio do mar e levantavam uma horrível e furiosa tempestade. e não levou assim muito tempo. E assim nos tempos em que agora imos. viu o Profeta Danie1 em uma visão de noite. primeiro no sonho das sete vacas robustas e sete fracas. nada menos misteriosa e cheia de circunstâncias. profeta chama bestas grantes: . espantosa e muito forte. comede carnes plurimas. Passados 47 anos depois daquela visão (que foi o ano 54 do último cativeiro de Babilônia).Anexo:Imprimir/ História do Futuro quinto? Naquele tempo pagava-se a interpretação de uma profecia infeliz com adorações e sacrifícios hoje pagam-se as interpretações felicíssimas com opróbrios e calúnias. et quator bestiæ grandes ascendebant de mari diversæ inter se. que é o romano. et super pedes quasi homo stetit. significar por repetidas visões o mesmo mistério e por diferentes figuras a mesma revelação. Durava ainda a noite. porque assim o mostrou o sucesso dos tempos. é de experiência. há-de haver um novo e melhor império que há-de ser o quinto e último. que já passaram. Assim mostrou a El-Rei Faraó os sete anos da fartura e os outros sete da fome. O que deste somente quero recolher e deixa assentado é que..» Post hæc aspiciebam. Persas e Gregos. quatuor super se et quator capita erant in bestia et potestas data est ei. «Saiu a segunda besta semelhante a um urso. no sonho de Nabucodonosor e na visão daquela estátua. e diziam-lhe que comesse e se fartasse de carne» Et ecce bestia alia similis urso in parte stetit. ou fosse. pôs o Profeta nela os olhos. como outros suspeitam. até que lhe foram tiradas ou arrancadas as asas. horrível. acordado. que sucedeu a Nabuco no Império dos Assírios ou Caldeus. et ecc alia quasi pardus. depois de revelar Deus a Daniel o secreto do Quinto Império. «Saiu a primeira besta semelhante a uma leoa com asas de águia. mas o mar assim perturbado e temeroso não era mais que o teatro em que haviam de sair a representar quatro figuras horrendas. tinha três ordens de dentes. e tinha quatro asas como ave e quatro cabeças. Livro I. Assim mostrou antigamente a José suas felicidades. aspiciebam donec evulsæ sunt ale ejus. et cor hominis datum est ei. Vejam lá os leões se lhes tira Deus as asas para [que] sejam homens! Prima [bestia] quasi leæna et alas habebat aquilæ. et tres ordines erant in ore ejus. porque assim o lemos nas Escrituras.

A primeira sentença ou execução que saiu deste juízo foi que à primeira. «Com a qual (diz Daniel) ficou o meu espírito assombrado e cheio de horror.Anexo:Imprimir/ História do Futuro tudo o que lhe caía da boca ou não queria comer pisava com os pés. e que todo aquele grande corpo perecera. Torna a dizer o Profeta que «ainda durava a noite e viu vir rodeado de nuvens do céu um como filho do homem. Este é o aparato daquele tribunal e juízo. para maior crédito da verdade em tudo o mais que imos referindo. eterno também o reino. como fazemos. segunda e terceira besta se tirasse todo o poder. tribus et linguæ itsi servient: potestas ejus. vieram os livros e abriram-se». et perisset cortus ejus. e brancas as roupas de que estava vestido. cheguei-me a um dos ministros que ali 109 . et traditum esse ad comburendum igni. a qual obrou grandes estragos e outras cousas prodigiosas. o qual chegou ao trono do Antigo de Dias e o ofereceram em sua presença. para onde o reservamos. estas como neve. Et dedit ei potestatem et honorem et regnum. aquele como arminhos. et decies millies centena millia assistebant ei: judicium sedit. potestas æterna quæ non auferetur. e por isso repetimos as palavras do texto: Aspiciebam donec throni positi sunt. «levantou Daniel os olhos ao céu e viu que se armava um tribunal de juízo. Post hæc aspiciebam in visione noctis. cuja narração e mistérios pertencem ao Livro V desta nossa História. quod non cortumpetur. et ecce bestia Quarta terribilis atque mirabilis. et libri aperti sunt. Acabou também a quarta besta. e que fora entregue ao fogo para ser queimado». Et vidi quoniam interfecta esset bestia. cheio com grande aparato de horror. limitando-se a cada uma o tempo determinado de sua duração. et omnes populi. et capili capitis ejus quasi lana munda. quas videram ante eam. E continuando o que pertence a este. o qual acabado. E volvendo eu no pensamento que significariam aquelas cousas. et regnum ejus. a quem o Profeta chama Antigo dos dias. representada nele. grandeza e majestade. a honra e reino de todo o Mundo. et usque ad Antiquum dierum pervenit. porque nunca jamais lhe será tirado» Aspiciebam ergo in visione noctis. cujo cabelo era todo branco. e todas as línguas o obedeçam e sirvam. Daniel via que de entre as dez pontas da quarta besta saía uma ponta menor que as outras. acabaram. Era mui diferente de todas as outras bestas. comedens atque comminuens. umas rodas sobre que o trono estava levantado também fogo. a matéria do trono era fogo. Os ministros que lhe assistiam de uma e outra parte eram milhares de milhares. porque «viu o Profeta que fora morta violentamente. rapidusque egrediebatur a facie ejus. et ecce cum nubibus coeli quasi filius hominis veniebat. E ele lhe deu o poder. não ficando de tanta grandeza e bravosidade mais cinzas. e de fogo também um rio arrebentado que da boca lhe saía. descrito ou construído ao pé da letra. para que todos os povos e todos os tribos. assentaram-se os conselheiros ou juizes assessores. Trouxeram-se cadeiras e assentou-se em um alto trono um velho de venerável ancianidade. et reliqua pedibus suis conculcans: dissimilis autem erat ceteris bestiis. et cornua decem. e tinha na testa dez pontas». aliarum quoque bestiarum ablata esset potestas. Millia millium ministrabant ei. Esta é pontualmente a relação de todo o sonho ou história enigmática. et fortis nimis. Fluvius igneus. como também outras circunstâncias desta mesma visão que expenderemos em seus lugares. dentes ferreos habebat magnos. Thronus ejus flammæ ignis: rotæ ejus ignis accensus. et Antiquus dierum sedit: vestimentum ejus candidum quasi nix. et tempora vitæ constituta essent eis usque ad tempus et tempus. et in conspectu ejus obtulerunt eum. Este seu poder será eterno. Enquanto tudo isto notava.

porque dos quatro impérios já passaram totalmente os três. mas todos os expositores concordam em que o mar significava o Mundo. senão como um só corpo ou um só indivíduo. nem que tempestades se levantaram no mar antes de sair nele as quatro bestas. movimentos. donde segue que com toda a verdade se pode afirmar que sucederá nos dias daqueles Reinos o que sucede nos dias de qualquer deles. referindo a dita interpretação. Logo. Esta é a interpretação em comum que deu o intérprete do Céu a toda a visão. o qual. e o que acontece em qualquer destas idades se diz com toda. ou certamente porque as julgou de menos importância ao seu interesse principal. que o mesmo intérprete chama Reino dos Santos do Altíssimo. et obtinebunt regnum usque in sæculum et sæculum sæculorum. representou todos os quatro impérios. Porque Deus. Não declara Daniel que ventos fossem aqueles. porém. guerras e perturbações que se costumam experimentar no mesmo Mundo. sobre a qual nos explicaremos mais particularmente. Exemplo: a vida de um homem compõe-se de muitas idades. E a razão de passar por aquelas circunstâncias tão brevemente ou foi porque as supôs bastantemente declaradas na visão do segundo capítulo ou sonho de Nabucodonosor que acabamos de explicar. foi idade de bronze. A sua primeira idade. que é o tempo dos Persas. propriedade e verdade que acontece nos dias daquele homem. que sucessivamente se haviam de levantar no Mundo depois dos quais se havia de seguir outro quinto reino ou império. que é o Romano. que são o dos Assírios. Mas. passa em silêncio algumas circunstâncias dela. e os ventos e tempestades que o alteram as alterações. a segunda. e suprindo com a exposição dos Doutores o que eles calaram. sem dúvida para não exceder a brevidade que no princípio deste capítulo tinha prometido. que é o 110 . o dos Persas e o dos Gregos. satisfaremos um argumento que nos fica no texto de Daniel. porque não deixemos o inimigo nas costas. também está na última declinação. que e a demonstração do Quinto Império. coligido porém tudo imediatamente do mesmo que dizem. exprimindo com grande particularidade e miudeza tudo o que pertence a ele. E ele o fez assim e me ensinou a interpretação e mistérios de tudo o que tinha visto». assim das quatro durações dos quatro impérios se há-de compor uma só duração. a terceira. a quarta. Respondo que o Profeta na sua interpretação se acomodou com grande propriedade à figura do enigma que declarava. Diz o texto que levantará Deus esta nova monarquia in diebus regnorum illorum. como agora veremos. Da mesma maneira a duração da estátua dos impérios era composta de diferentes idades. Primeiramente diz Daniel (ou disse a Daniel o seu intérprete) que «aquelas quatro bestas grandes significavam quatro reinos ou quatro impérios. o qual não há de ter mudança nem variedade. no sonho de Nabucodonosor. foi idade de prata. pedindo-lhe me quisesse declarar o verdadeiro sentido delas. que é o tempo dos Gregos. quando nele se levantam novos impérios. summatimque perstringens ait.Anexo:Imprimir/ História do Futuro assistiam. esta monarquia não é futura se não passada. Hæ quatuor bestiæ magnæ quator sunt regna. não como quatro corpos ou quatro indivíduos. nem outro reino algum ou império que lhe suceda. porque há-de durar para sempre. et somninm scribens brevi sermone comprehendit. Até aqui o mesmo Profeta. nos dias daqueles impérios. Por isso viu o Rei não quatro estátuas senão uma só estátua. antes que passemos adiante. advertindo o que o Profeta e seu intérprete exprimiram. e assim como da quatro corpos dos quatro impérios se formou um corpo. e o quarto. Suscipient autem regnum sancti Dei altissimi. declarando todas as figuras dela pela mesma ordem com que foram saindo. Daniel somnium vidit. que é o tempo dos Assírios foi idade de ouro. quæ consurgent de terra.

como decrépita. levantando os olhos (ou levantado-lhos Deus da atenção das cousas presentes para a visão das futuras). diz que o perguntou a um anjo que falava dentro nele. na qual e na visão do Profeta seguiremos a comum sentença dos Doutores. A primeira profecia de Daniel foi a mesma de Nabucodonosor. para que com toda a verdade e com toda a propriedade se verifique havê-lo Deus de levantar nos dias daqueles reinos. daquela estátua ou daqueles reinos se haja de levantar o Quinto Império. De modo que. Livro I. ao uso daqueles tempos. Respondeu pois o Anjo que aquelas quatro carroças (dos montes não disse nada) eram quatro ventos doces que assistiam ao dominador da Terra para executarem suas ordens. a quinta. e foram estes impérios representados ao Profeta em figura de carroças. assim dobrou também as testemunhas . aos da quarta vários. mas na frase do mesmo texto chama aos da primeira carroça ruivos. Pela primeira tiravam cavalos melados. viu que do meio de dois montes de bronze saíam quatro carroças puxadas por quatro cavalos. que sucedeu a Baltasar. e que com licença do Dominador a tinham passeado toda. como supremo Senhor dos Exércitos. senão que ainda está por vir. que é desta maneira: estas carroças significam os mesmos quatro impérios que Deus mostrou a Daniel. cada tiro ou parelha de diferentes cores. no capítulo VI da sua profecia. assim como iam sucedendo os reis. Estas carroças diz o Anjo que estavam prontas como ventos para execução dos mandados do Dominador da terra. Capítulo III) por Padre Antônio Vieira 111 Prova-se o mesmo contra outra profecia de Zacarias Assim como Deus dobrou as visões. porque Deus. pela segunda murzelos. Assim que o Império que promete Daniel não é império já passado. e que os cavalos negros tinham saído contra as terras do Norte. Vendo estas carroças Zacarias e não entendendo o que significavam. pela quarta remendados. iam sucedendo as profecias. e a mesma sucessão de impérios que revelou a Daniel em umas figuras a mostra agora ao Profeta Zacarias em outras. es1a terceira de &carias em tempo de Hidaspes. é idade de ferro e barro. mas sempre mostrando pela mesma forma primeiro os quatro impérios e depois o quinto. História do Futuro (Volume II. Mas. pela terceira pombos. e mais trabalho tem dado aos expositores deste lugar a declaração do Anjo que a visão do Profeta. ou porque Zacarias se entendia por dentro com e1e acham os Doutores que explicou um enigma com outro. in diebus regnorum illorum. porque. aos da segunda negros. ou porque este anjo falasse mais culto que o de Daniel. e estes entre os outros diz que eram os mais fortes. como tão poderosas . que sucedeu a Nabuco. a segunda em tempo de Baltasar. E basta que nesta última idade. os vários saíram contra as do Sul. e destes os mais fortes trataram de discorrer por toda a Terra. e declarados pelo Anjo em metáfora de ventos. e Deus multiplicando as revelações. a principal força dos exércitos consistia nas carroças armada que eram as que faziam maior estrago na guerra como se vê nos casos tão celebrados. que é este último tempo dos mesmos Romanos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro primeiro Império dos Romanos. para mostrar a violência e velocidade com que seus fundadores conquistariam e sujeitariam por armas os reinos terras e gentes de que se haviam de formar os ditos impérios. e após eles os brancos. principalmente destas quatro. foi idade de ferro. assim parece que se deve construir o texto na forma da nossa cavalaria. Diz pois o Profeta Zacarias. aos da terceira brancos. Até aqui a interpretação do Anjo. se servia sempre das armas de todas as nações.

e da consonância e harmonia dos tempos. Constantino. que fica ao sul de Judéia. que com sua potência e vitórias se fizeram senhores do Mundo e o meteram debaixo dos pés. Estes robustíssimos dos Romanos foram os seus maiores capitães e imperadores. como Júlio César. e mais que todos Alexandre Magno. para significar os danos. foram vários para com os Hebreus. A terceira carroça. se faz certo e evidente argumento de que esta interpretação é a sólida e verdadeira. e assim foi. A segunda carroça representava o Império dos Persas. lugares. assolações e incêndios com que os Assírios conquistaram destruíram e abrasaram o povo hebreu. Tibério. diz o Anjo que caminhou para as terras do Norte. E a quarta carroça. que é cor de fogo. porque os Gregos venceram e destruíram a Dario. a quarta carroça representava o Império Romano. Adriano. César. não tinha necessidade de intérprete nem declaração. porque os Romanos passaram por várias vezes à conquista do Egito. e depois da vitória chamada actíaca. cor pacífica e alegre. Finalmente. e que a correram e passearam. 112 . Vespasiano. E assim declarou somente o Anjo os três impérios seguintes. porque os Romanos. principalmente naquela grande aflição. Augusto. Porque. porque também os Persas afligiram e foram lutuosos aos Hebreus. perseguidores e cruéis. dos cavalos negros. A segunda carroça. etc. os quais por altos e imutáveis são comparáveis aos dois montes de bronze donde saíam as carroças. cor de tristeza e luto. porque os Persas devastaram e ocuparam a Babilônia que fica para a parte do Norte da Judéia. De toda esta combinação das histórias com a profecia. em que Augusto desbaratou a Cleópatra e Marco Antônio. e assim consta das histórias. persuadido pelos enganos de Amão.Anexo:Imprimir/ História do Futuro para a execução de seus divinos decretos. marido de Ester. Teodósio. reduziu o mesmo Egito a província. e tiravam por ela cavalos ruivos. cuja majestade. fundador daquele império. Restam por explicar os diferentes caminhos que disse o Anjo fizeram estas carroças. como Pompeu. diz que foi atrás da primeira. Augusto. e primeiro que tudo se deve muito notar que da primeira carroça não disse cousa alguma. Pompeu. não duvidou de adorar no templo ao pontífice Jada. Ultimamente diz que os cavalos mais fortes ou os robustíssimos da quarta carroça quiseram correr e passear toda a Terra. e assim sucedeu. e tiravam por ela cavalos negros. e ali acabou o Império dos Gregos. a dos cavalos brancos. principalmente no cativeiro de setenta anos a que eles com razão chamavam fornalhas da Babilônia. como escreve José. Vespasiano. quando El-Rei Assuero. uns amigos e propícios. Trajano. como Cipião. como escreve Crítio e Plutarco. e tiravam por ela cavalos vários. outros inimigos. e que isto foi o que Deus e o Anjo quiseram significar ao Profeta. Nero. junto à mesma Babilônia onde Alexandre. E posto que os Romanos absolutamente não conquistaram o Mundo como é em si. como a primeira carroça significava o Império dos Assírios. que é admirável confirmação de serem significados nas quatro carroças os quatro impérios. último imperador dos Persas. que já havia muito tempo florescia. diz que foi para o Sul. princípios. que são os Persas. fins e todos os sucessos desses Impérios tão ajustados com as propriedades das figuras que as representavam. tomou o nome de Rei da Ásia. e assim se verificou nos Romanos. porque nunca chegaram à América. como escreve Suetónio. exceto Antíoco (cuja tirania também serviu de matéria gloriosa aos triunfos dos Macabeus) os outros príncipes gregos sempre foram benéficos aos Hebreus. tinha condenado a morrer em um dia com crueldade inaudita toda a nação hebréia. cuja fundação e sucessos estavam ainda por vir. A terceira carroça representava o Império dos Gregos e tiravam por ela cavalos brancos. Cláudio. que mais é uma metade que parte do Mundo. A primeira carroça representava o Império dos Assírios. porque. assim no ódio como na benevolência. Calígula. nações. dos cavalos vários. Tito. e ali acabou o Império dos Assírios.

o fundamento principal sólido e certo desta interpretação é ser esta a mente e sentido em que falaram os mesmos Profetas. e que esses se haviam de desunir da sujeição e obediência do mesmo Império. et partem ferream. Mundo Novo. porque Espanha e Portugal foram colônias dos Romanos. não pelejando contra os homens. sibique proprios reges crearunt. ao que não obstava serem de diferente nação. que. como nas guerras dos mesmos Romanos. e parte não só do Império. Poloni. verdadeiramente valentíssimos. onde os Portugueses iam servir e merecer debaixo de suas bandeiras. E posto que qualquer destas razões e muito mais todas juntas são bastantes para que sem impropriedade se possa entender os Portugueses debaixo do nome de Romanos.boca de um anjo os mais fortes de todos os Romanos. que. como muitos romanos de Portugueses. pela união e comércio destas duas nações. regnum divisum erit. E diz que aqueles robustíssimos de que fala o Anjo são os Espanhóis. na qual divisão de dedos e desunião de metais se significava que o Império Romano se havia de dividir em muitos reinos e senhorios menores. como fizeram ao Imperador Maximino contra os Partos e a Constantino contra Licínio. Cornélio diz assim: Potissimum vero divisum fuit hoc regnum ideoque enervatum cum variæ gentes ab ejus obedientia se subduxerunt. nunca conquistada nem ainda conhecidas pelos Romanos. com razão não é admitida de Cornélio à lápide. Polacos. e todas as partes de que ele se compôs e inteirou quando esteve em sua maior grandeza. onde se diz que os pés e dedos da estátua eram compostos de ferro e barro. e que de nenhum modo. ut describeretur universus orbis. estas vitórias próprias dos Espanhóis. senão do povo romano. leva o direito desta herança à origem que os Reis de Espanha trazem dos Godos. quer que não só nas terras do Mundo Antigo. alegando que era cidadão romano e que só no tribunal de César podia ser julgado. contra o Sol. conforme a profecia. sendo hebreu. contra o Céu. nação um título tão honrado como serem chamados por . Franceses e os demais. como se vê em S. Ingleses. De maneira que a divisão dos dedos e a desunião dos metais dos pés da estátua significava os reinos dos Espanhóis. senão contra os ventos. por não deixar perder a nossa. Mas esta aplicação. no seu edicto do tempo do nascimento de Cristo. pois conquistaram estas regiões novas e incógnitas. parece lhe competiam. pelas vitórias do Oriente a que o mesmo Cornélio chama ad miraculum usque illustres. os quais entendem Império Romano todo o corpo íntegro do dito Império. os quais Godos. a que venceram e contrastaram. ajudando a defesa e conquista do Império. senão nas da América. como já tinha notado Ribeira. uti fecerunt Hispani. e que o barro e o ferro não estavam unidos. contra os mares. etc. digo que os Portugueses e todos os Espanhóis se podem e devem entender debaixo do nome de Romanos. Vê-se claramente esta verdade na primeira profecia de Daniel. assim em Portugal. as quais palavras comentando. para explicar a palavra per omnem terram em toda a sua largueza. e verdadeiros cidadãos romanos. Angli. apelou para o César. contra todos elementos e contra a mesma natureza. foram estipendiários dos Romanos e pelejaram debaixo de suas bandeiras. ainda que essas mesmas partes depois se desunissem do mesmo Império e lhe negassem obediência. mandou que todo o Mundo se alistasse. sendo antes sujeitos aos 113 . porque esta glória que Sanchez dá aos Espanhóis toca pela maior e melhor parte aos Portugueses.Anexo:Imprimir/ História do Futuro contudo diz o Anjo que correram e passearam todo o Mundo no mesmo sentido em que Augusto. no sentido desta profecia. e nas da Índia Oriental. Paulo. como os antigos Romanos. Contudo. onde viviam os presídios romanos. que impugna facilmente. como violenta e trazida de tão longe. audacíssimos e fortíssimos. Assim o interpretou o mesmo Daniel: Porro quia vidisti pedum et digitorum partem testæ figuli. E para este autor perfilhar ou acomodar aos Romanos. Além de que muitos portugueses eram filhos e netos dos Romanos. Franci. Mas Sanchez.

aqueles homens. Livro II. Capítulo I) por Padre Antônio Vieira É conclusão certa e de fé que este Quinto Império de que falamos. o qual infundiu todo e descansou sobre Cristo. super lapidem unum septem oculi. quando se lhe abriu o Céu e viu a escada. derrubou a estátua e desfez os quatro impérios dos Assírios. deles. o qual em outros muitos lugares da Sagrada Escritura se chama Pedra. pela dificuldade de navegações. resolução e esforço que a dos Castelhanos. ainda desunidos dele. os fortes dos Romanos foram os Cipiões. os Pompeus. os fortíssimos foram os Espanhóis. arrancada do monte. que são os sete dons do Espírito Santo. Que o Quinto Império é o Império de Cristo e dos Cristãos. Esta pedra pois foi a que. Estes foram os Espanhóis. pela diferença dos climas. que eram os mais fortes e valentes de todos. porque a conquista dos mares e terras do Oriente. e sobre ela sete olhos. e entre os Espanhóis muito particularmente os Portugueses. anunciado e prometido pelos Profetas. para maior clareza e firmeza dela. Livro II. Ele foi a pedra que no deserto matou a sede aos filhos de Israel e os acompanhou até a terra da Promissão. Introdução) por Padre Antônio Vieira 114 Em que se mostra que Império há-de ser este. ele a pedra sobre que sustentou os braços levantados de Moisés. os Augustos. Prova-se dos mesmos textos e profecias já alegadas. Ele foi a pedra sobre que adormeceu Jacob. Persas. Suposto como deixamos assentado que há-de haver no Mundo um quinto e novo Império. História do Futuro (Volume II. e entre esses Espanhóis os fortíssimos dos fortíssimos foram os Portugueses. foi empresa de muito maior valor. pela distancia remotíssima das terras.. ainda que não sejam romanos. em significação de que por meio e virtude de Cristo havemos de vencer o Mundo e o Demônio. et dixit: Ite. Primeiramente aquela pedra que derrubou a estátua e desfez as quatro monarquias figuradas nos quatro metais. pelo valor e potência das nações que se conquistaram. perambulate terram: et perambalaverunt terram. segue-se que digamos que Império há-de ser: e assim o faremos em todo este II Livro.. lhes negaram a sujeição e se desuniram. Não somos nós que o dizemos. ele finalmente a pedra angular. quando venceu os exércitos de Amalec. é o Império de Cristo e dos Cristãos. considerando todo o corpo do Império Romano e todas suas empresas. Mas contudo (que é o nosso intento) ainda assim divididos e desunidos se computam e reputam por parte da mesma estátua e do mesmo Império Romano. senão o anjo que falava em Zacarias: Qui autem erant robustissimi. a que uniu os dois povos gentílicos e judaico. era justo. exierunt. Finalmente. et quærebant ire et discurrere per omnem terram. História do Futuro (Volume II. não se contentaram só com as terras dos outros impérios. é Cristo. mas que intentaram discorrer e passear toda a redondeza da Terra. sobre as quais fundaremos tudo o que dissermos nesta história. Ele foi a pedra que viu Zacarias. porque realmente são partes daquele corpo e daquele todo. Destas nações pois e destes reinos de que se compunha o Império Romano. pois não é cerzida de pedaços ou retalhos das Escrituras. e a pedra fundamental e provada sobre que se fundaram na Lei antiga a Igreja de Sion e na nova a do mesmo Cristo. Assim que. Gregos e Romanos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro imperadores romanos. senão cortada toda da mesma peça. Ele foi a pedra com que David derrubou ao gigante. os Césares. para fundar e levantar o seu . para que a profecia se entenda dos Espanhóis e Portugueses. e depois cresceu e a sua grandeza ocupou e encheu toda a Terra.

Agostinho.. senão quase homem-quasi filius hominis. toda foi obra sobrenatural e divina. diz o doutissimo Sanchez. Ambrósio. filho de Josedec significavam o mesmo Império Quinto profetizado por Daniel: e que seja Cristo o soberaníssimo Monarca que Zacarias viu coroar naquela figura. De sorte que a pessoa a quem foi dado por Deus o Quinto Império de que Danie1 fala neste lugar (como vimos) era o Filho do Homem. e a opinião comum de todos os Padres e Doutores. sendo quasi filius hominis. levantada naquele tempo como monte entre todas as outras nações do Mundo. Júlio. et usque ad. Epilanio. senão também os hereges e até mesmo Rabinos. E que cousa há mais certa e freqüente no Evangelho que chamar-se Cristo Filho do Homem? Quem dicunt homines esse filium hominis? Væ autem homini illi per quem filis hominis tradetur! Tunc videbunt filius hominis venientem in nubibus cæli. Quem havia de duvidar que em um quasi cabia uma distancia infinita? A terceira visão de Zacarias confirma ainda com maior propriedade ser Cristo o Senhor deste Império. significado com o nome comum e metafórico de pedra. como interpreta S. S. Na segunda visão de Daniel ainda consta mais claramente e por termos mais expressos que este Império é o de Cristo.. ou finalmente é a Virgem Maria. Esta é a sentença comum e mais recebida dos Padres e expositores deste lugar. Assim o notou o mesmo S.. sendo verdadeiro homem. os quais acertam em dizer que nesta pedra está profetizado o Reino do Messias..Anexo:Imprimir/ História do Futuro sobre todos eles. posto que tão superiormente suprida com a divina. arrancada dele sem mãos. Ireneu. não tiveram parte mãos de homem. posto que tivesse a mesma natureza como eles. não lhe chama por isso o Profeta homem. S. ou é a nação hebraica. senão ainda muitos hebreus. e erram somente em não crerem que o Messias é Cristo.Antiquum dierum pervenit: . Só reparou Maldonado que não se chama Cristo neste lugar Filho do Homem absolutamente. Já dissemos que a coroa ou coroas que foram postas sobre a cabeça de Jesus. como explica S.. porque são todos. na terceira com o nome propriíssimo de Jesus. sublimada como monte altíssimo sobre todas as criaturas. na segunda com o nome particular de Filho do Homem. S.et ecce (diz o Profeta) cum nubibs cæli quasi filius hominis veniebat. Teodoreto. da qual o Verbo se dignou tomar e unir a si a humanidade. assim que aquele quasi significa a falta de substância humana. Diz Daniel que esta pedra caiu de um alto monte. Senhora Nossa. não só o confessa a Igreja Universal na aplicação deste lugar. donde desceu Cristo quanto a divindade. para denotar o Profeta que entre este homem e os outros homens havia diferença: os outros são puros homens. Não repito os autores desta explicação. como a mais perfeita e excelente de todas. E porque Deus não havia de ter subsistência humana como os outros homens. que sem ódio escreveram antes de Cristo. e porque o texto é tão claro que não há mister intérpretes. Assim o dizem conformemente neste lugar não só todos os Padres e expositores católicos.. que a pedra foi arrancada ou cortada do monte sem mãos: Lapis abscissus de monte sine manibus. Cristo é homem e Deus juntamente. Ruperto e muitos outros Padres. Jesus filii Josedeci: e em todas estas três visões em que Deus revelou aos seus Profetas a 115 . Communis est Patrum sententia et multorum ex Hebræis quibus accedit Chaldeus sermonem hic esse de Messsiah. etc. com a qual concorda admiravelmente a advertência de Daniel. Hierónimo. S. E este monte ou é o Céu e o seio do Eterno Padre. Agostinho. suprindo o Espírito Santo e a virtude do Altíssimo o que nela faltou de concurso humano. porque na geração temporal de Cristo. De maneira que na primeira visão foi Cristo.et dabit ei potestatem et honorem et regnum.

Deinceps (diz ele) pagnandum nobis est cum Judæis qui Christianis infensi infestique et iniquo animo ferentes. bastem os textos alegados. e revelou também que o Senhor e o Monarca deste Império havia de ser Cristo. Assim o diz expressamente sobre estas palavras de Daniel o seu grande comentador Perério. cujus regnum. et omnes reges servient ei et obedient. que são. diz. e assim lemos no capítulo IX dos Atos dos Apóstolos que usou da mesma frase Ananias. S. Paulo. Finalmente este era o ordinário modo de falar da primitiva Igreja. perguntou o mesmo Profeta a um dos anjos que assistiam ao trono a significação das cousas que via. No verso 18 daquele capítulo (que é o VII) diz assim: Suscitient autem regnum Sancti Dei altissimi: et oblinebunt regnum usque in sæculum et sacculum sæculorum. em nome de alguns cristãos que estavam em serviço do Imperador que então era Nero: Salutant vos omnes Sancti maxime autem qui de Cæsaris domo sunt: «saúdam-vos. Com muitos outros textos da Escritura pudéramos confirmar esta mesma conclusão. Mas porque no princípio deste capítulo dissemos que o Quinto Império era o Império de Cristo e dos. E no 27: Regnum autem. representando Cristo os grandes males que Saulo tinha feito contra os Cristãos: Quanta mala Sanctis tuis fecerit. Depois de referir Daniel como Deus Padre. exortando aos mesmos Romanos a que socorressem com suas esmolas aos cristãos necessitados: Necessitatibus Sanctorum communicantes. de que usa Daniel. todos os Santos. E a este uso se chamaram as igrejas dos Cristãos igrejas dos Santos. escrevendo aos cristãos da cidade de Filipe. e principalmente os que estão em casa de César». onde Deus para consolação dos fiéis quis que nos ficasse expressa e revelada esta tão gloriosa verdade. chamando a este Quinto Império Regnum Christi e Christianoram. et magnitudo regni quæ est subter omne cælum. Cristãos. 116 . conforme o texto da Epístola ad Corinthios: In ecclesiis Sanctorm doceo. lhes mostrou . no título ou sobrescrito da carta diz assim: Omnibus Sanctis in Christo qui sunt Philippis «a todos os Santos em Cristo que estão em Philippis». et dierum. et regnum obtinuerunt sancti. ea ad Regnum Christi et Christianorm accommodari. e ele lhe disse por três vezes que o reino e império que vira dar ao Filho do Homem era o reino e império que os santos do Altíssimo haviam de ter neste Mundo. quæ de illo quinto Regno tam præclara et gloriosa prædix Daniel. em Macedônia. vocatis Sanctis. E escreveu aos cristãos de Roma: Omnibus qui sunt Romæ dilectis Dei. e os quatro a que ele devia de suceder. E no verso : Donec vénit Antiquus dierum. mas porque tudo o que havemos de dizer nesta história será uma continuada prova e confirmação dela. Reino de Cristo e dos Cristãos. et potestas. se entendam e devam entender os Cristãos não é só explicação de intérpretes da Escritura..Anexo:Imprimir/ História do Futuro grandeza e majestade futura do Quinto Império. como dizia. a quem ele chama o Antigo dos dias dera ao Filho do Homem aquele novo reino ou império. tornemos à segunda visão de Daniel. Muitas cousas e muito grandes disse nestas palavras o Anjo. detur populo sanctorum Altissimi. senão frase muito corrente e ordinária em toda ela. etc. os fundamentais de toda ela. et tempus advenit. as quais ficam reservadas para se explicarem em seus lugares por agora só nos serve (o que diz e repete tantas vezes o Anjo) que aquele mesmo Reino que o eterno Padre deu ou há-de dar a seu filho Cristo é o Reino e o Império dos Santos. E saudando aos Filipenses no fim da epístola citada. regnum sempiternum est. E que pelo nome de Santos. dos Cristãos. et judicium dedit sanctis Excelsi. isto é. E na mesma epístola.

e muito mais na segunda. E este é o sentido em que Daniel e o Anjo falaram naquela visão chamando a Cristo Filho do Homem. nós aprovaremos e demonstraremos com os textos das mesmas visões. incorruptíve1 e eterno. Os reinos deste Mundo todos de sua própria natureza são corruptíveis. é que este Reino e Império de Cristo e dos Cristãos profetizado por Daniel (qualquer que haja de ser) é Império da Terra e na Terra. Capítulo II) por Padre Antônio Vieira 117 Pergunta-se se este Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser neste Mundo ou no outro. com a mesma frase com que depois se nomeou a Cristo. redempti a Domino. assim como de Cristo se chamavam cristãos. e chamando ao Reino dos Cristãos Reino dos Santos. sem haver mais que a memória deles. et redacta quasi in favillam æstiva. Tertuliano. æs. o Teodoreto.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A razão deste nome é tomada da santidade da Lei de Cristo que professam os Cristãos. os quais concordavam com a verdade da nossa História em dizerem com os demais que o Quinto Império é o de Cristo e dos Cristãos. testa. senão quando se desfizer e acabar o mesmo Mundo na última ruína dele. se o Reino e Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser perpétuo. chamados de Jesus Cristo e chamados santos. entre os Padres gregos. Deu motivo a esta questão. que é em próprios termos o que depois se viu na Igreja e o que diz aqui o Anjo: Regnum autem et potestas detur populo sanctorum. E aquele povo remido por Deus será chamado publicamente Povo santo. E posto que os autores desta sentença mais supõem que aprovam. os quais. argumenta assim Este Reino ou Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser Reino perpétuo. Fundam a sua opinião nas mesmas visões de Daniel. hão-de ter um com o mesmo Mundo. o qual é de fé que se há-de acabar. História do Futuro (Volume II. não há-de ser neste Mundo. Contudo a sentença comum dos Santos. Logo. e recebida e seguida como certa de todos os expositores. bem assim como já antes de Daniel o tinha profetizado com o mesmo espírito Isaías: Et vocabunt eos populus sanctus. cidades. já todos os outros reinos e impérios do Mundo estavam derrubados e caídos. clara e manifestamente se segue que não há-de ser império da Terra. de que fala Daniel. e já tinham desaparecido totalmente do Mundo. e todos. em que lhe chama Vocati Jesu Christi et vocatis Sanctis. Livro II. Regnum usque in sæculum et sæculum sceculorum. E ambos estes nomes e as etimologias deles compreendeu S. já o vento os tinha levado pelos ares. como dizem expressamente as palavras de ambos os textos: Regnum quod in eternum non dissipabitur. Paulo no princípio da Epístola aos Romanos. senão do Céu. Sendo logo certo como é que os reinos. Regnum quod non corrumpetur. desfeito em pó e em cinza. . com a mesma frase com que depois se nomearam os Cristãos. nem se hão-de acabar. senão no outro. Tertuliano. lapis autem qui percusserat statuam factus est mons magnus. nem se poder achar ou conhecer o lugar onde tivessem estado. e entre os latinos. mas que tem para si que há-de ser este Império no Céu e não na Terra. desta maneira: Antes que a pedra cortada do monte (que é Deus e o seu Império) crescesse a toda aquela sua grandeza (diz Teodoreto). incorruptível e eterno. segue-se que o Império de Cristo e dos Cristãos. assim da Lei santa de Cristo se chamaram santos. repúblicas e impérios do Mundo se não hão-de desfazer em cinza. nullusque locus inventus est eis. argentum et aurum. fundado na mesma visão. como consta do texto: Tunc contrita sunt pariter ferrum. por mais que durem e permaneçam. areæ quæ rapta sunt vento. e aquela sua grandeza prodigiosa e que há-de crescer. Regnu sempiternum.

na primeira visão. de nenhum modo há-de crescer nem pode crescer. e diz em nova confirmação do que dizemos. depois de acabado o Mundo e depois do Dia de Juízo. cada um há-de receber por inteiro toda a glória devida a seus merecimentos. detur populo sanctorum Altissimi. que derribou os outros impérios. os quais o hão-de servir e lhe hão-de obedecer: et omnes reges servient ei et obedient. adverte e nota sinaladamente o Profeta que não é Reino do Céu. nem se obedece. se fez um grande monte. bem se colhe que há-de ser Império da Terra e não do Céu. mas com tanta discrepância de tempos. Se a pedra. porém. é o poder e grandeza de todos os reinos que há debaixo do Céu. não é império do Céu nem depois de acabado o Mundo. cresceu? Logo. porque. Não negamos. se o Reino de Cristo e dos Cristãos há-de crescer depois daquele tempo. depois de acabado o Mundo. não há-de crescer nem pode crescer na glória dos bem-aventurados.» Podia-se dizer cousa mais clara? Parece que estava antevendo Daniel que havia de haver quem interpretasse esta sua visão em diferente sentido do que ele a escrevia. porque o Reino e Império de Cristo. que serão todos os reis do Mundo. Nas palavras que se seguem a estas declara mais em particular Danie1 (ou o Anjo por ele) quem hão-de ser os súbditos deste Império. desde aquele ponto. que est subter omne cælum. Não há-de crescer nem pode crescer no número dos homens. dizendo que este Reino havia de ser no Céu e não na Terra. este é o mais ordinário sentir de todos os expositores de Daniel. do que se serviu e do que se mereceu na Terra. Se os reis hão-de servir e obedecer a este Império. Lapis autem qui percusserat statuam factus est mons magnus et implevit universam terram. Infiro agora assim: Esta pedra e este Império de Cristo. segue-se que esse crescimento há-de ser neste Mundo e não no outro. que agora só trataremos qual seja em comum o deste Império. se as mesmas palavras do texto o dizem claramente? Factus est mons magnus et implevit universam terram. e como se acabou o tempo de mais merecer. é porque a terá primeiro na Terra. Mas para que são conseqüências. como se deve ao estado do Céu. Regnum autem et potestas et magnitudo regni. no Céu consumada e perfeitíssima. não há-de haver mais homens que vão ao Céu. e na Terra é que há-de ser servido e obedecido e reconhecida de 118 . Da Terra é logo este Império. senão de debaixo do Céu: magnitudo regni. nem se merece. o qual grande monte encheu e ocupou toda a Terra. antes a razão de haver de ter tanta grandeza no Céu. que cresceu e se fez um monte tão grande que ocupou e encheu toda a terra. nem podemos negar que este Reino e Império de Cristo e dos Cristãos há-de durar também com o mesmo Cristo e os mesmos Cristãos depois de bem-aventurados por toda a eternidade no Céu. pois posto se entenda e saiba que não é assim. crescendo. mas nem por isso há-de deixar de ter na Terra a grandeza que nestes textos lhe é profetizada e prometida. e crescer a uma grandeza tão imensa. quæ est subter omne cælum. porque. e só se goza o prêmio do que se obedeceu. e este é o Império profetizado de Cristo. Os termos da segunda visão de Daniel ainda são (se podem ser) mais evidentes. como veremos em seu lugar. bem claro se mostra que é Império da Terra e não do Céu e que na Terra e não no Céu há-de ter toda esta sua grandeza. porque no Céu não se serve. Desta maneira se concilia e concorda facilmente a opinião de Tertuliano e Tedoreto com a verdade da nossa. «0 Reino ou Império que se há-de dar ao povo dos Santos do Altíssimo. Logo. assim se acabou o tempo de mais alcançar. diz Daniel. detur populo sanctorurn Altissimi. os quais dizem que este Reino e Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser incoado na Terra e consumado no Céu.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Daquela pedra que representava a Cristo e seu Império. que são os Cristãos.

et decies millies centena millia assistebant ei. cidade e gentes das ditas monarquias se haviam de acabar e extinguir totalmente (como há-de acontecer a todo o Mundo no Dia de Juízo) senão que havia de se acabar seu mando. que depois veremos quanto há-de ser. Respondo que é certo falar neste lugar o Profeta de juízo. já temos dito que a continuação dele no Céu há-de ser verdadeiramente eterna em toda a propriedade e largueza da significação desta palavra. em que Cristo há-de vir julgar os vivos e os mortos no fim do Mundo. senão um juízo particular. 119 . e quando se diz que ficaram desfeitas em pó e desapareceram. mas confirmar na contrária os autores e seguidores dela. Aspiciebam (diz Daniel na segunda visão) donec throni positi sunt. que são os Cristãos.a sobre o Gênesis. rapidusque egrediebatur a facie ejus. em que o Padre Eterno há-de tirar o Reino e Império universal do Mundo ao tirano ou tiranos que então o possuírem. thronus ejus flammæ ignis rotæ ejus ignis accensus. Matias. E isto quer dizer em frase da Escritura . e a dos Gregos pela sucessão dos Romanos e se acabará também a dos Romanos pela sucessão do Quinto Império. e foram voadas do vento. e assim o entendem mais ordinariamente os expositores desta visão. Mas para que tiremos todo o escrúpulo aos outros razão será não passe sem satisfação uma grande dúvida que. e juízo de Deus. et capilli captis ejus quasi lana munda. judicium sedit et libri aperti sunt..Anexo:Imprimir/ História do Futuro todos os reis dela. E estas palavras por todas as circunstâncias do trono. como bem advertiu Cornélio. Fluvius igneus. não quer dizer que as terras. pouco atrás citadas: Non quæ est super. da assistência dos anjos. etc. senão que estão demonstrando o vigor e majestade do juízo final. claramente se convence que ano é nem há-de ser Império desde Mundo. como se vê no exemplo de Judas. seu poder. como notou S. Mas se entendermos o texto de Daniel da duração somente que o Império de Cristo e dos Cristãos há de ser neste Mundo. Agostinho na Questão 3I. sed quæ est subter omne cælum. seu império. senão continuação e permanência de muito tempo. Ao de Teodoreto dizemos que o texto de Daniel só fala das quatro monarquias representadas nos quatro metais da estátua. e juízo rigoroso e de grande majestade. seu filho. Logo. não só pode embaraçar a verdade da nossa sentença. Ao argumento de Tertuliano que se fundava na eternidade do Quinto Império. e a dos Persas pela sucessão dos Gregos. e mostraremos mais largamente quando escrevermos a duração do Quinto Império. e aos professores de sua fé e obediência. não só parece que significam. e consta que sucedeu em seu lugar S. et Antiquus dierum sedit vestimentum ejus candidum quasi nix. id est in omni terra. do fogo. de quem fala a Escritura pelos mesmos termos. comentando as palavras subter omne cælum. senão do outro. se o Reino e Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser depois do juízo final. e para meter de posse e o entregar a Cristo. Entretanto basta saber-se que a palavra eterno tem este mesmo sentido e limitação em muitos lugares da Escritura. Millia millium ministrabant ei. sive in omni plaga cælo subjecta. dos livros que se abriram e do mesmo nome de juízo. por ser fundada nas mesmas palavras do texto de Daniel. como legitimo senhor e herdeiro dele. porque sucederam outros nele. sua soberania. pela palavra eternidade não se entende rigorosamente duração sem fim. as quais nem cada uma por si nem todas juntas compreenderão nunca toda a grandeza da Terra. e não se achou mais o lugar onde estivessem. como verdadeiramente se acabou a dos Assírios pela sucessão dos Persas. Responder aos seus argumentos é igualmente fácil.non inventus est locus ejus-que «se não achou mais o seu lugar». mas digo com a mesma certeza que este juízo não é o juízo final.

que é o fim particular de todas as comunidades humanas. uma não usada. como o que têm os príncipes católicos sobre os seus reinos e províncias. espiritual como o que hoje tem o Sumo Pontífice. Assim o ensinam e ensinaram sempre conformemente todos os Padres e Doutores da Igreja. de que falam as profecias alegadas. que veio lançar fogo na terra. Reino e Império espiritual? Foi Reino e Império espiritual no fim e causas de sua instituição. onde reinava e se intitulava príncipe. finalmente que abriu sete fontes de graça e ou que instituiu sete sacramentos perpétuos e ficou Ele conosco perpetuamente em sacramento. e que nos deixou o seu amor e o nosso contentamento. Livro II. nem que maior demonstração ou evidência de ser o Reino e Império deste santíssimo e soberaníssimo Rei. em quanto este fim particular e mediato se ordena ao último fim. e suposto que . que é o último fim do homem. espiritual no governo. Sendo pois estas as ações daquele Senhor a quem antes de vir ao Mundo todos os profetas chamaram Pai. que veio encher e informar a lei e animar a letra com o espírito.quanto ao modo como em seu lugar veremos) é império espiritual. outra não conhecida no Mundo. diremos primeiramente que este Império de Cristo (o qual não há-de ser diferente do que hoje é. senão . é principalmente o da Terra e não o do Céu. e começando pela conclusão em que não há resistência nem dificuldade. que se dirige a governar os vassalos por meio de leis prudentes e justas. desde o dia em que nasceu até à hora em que expirou na cruz. a verdadeira amizade com os inimigos. perguntamos agora se este Império de Cristo há-de ser espiritual ou temporal. para que se acendesse nela a claridade que tão apagada estava. o rigor do juízo. que nos lavou com o seu sangue. ainda nesta suposição nos resta averiguar um ponto de grande importância e de cuja decisão depende o maior fundamento de todo este nosso discurso. que dizemos há de ser na Terra. temporal. todos os teólogos antigos e modernos. Capítulo III) por Padre Antônio Vieira Se este Império de Cristo no Mundo é espiritual ou temporal Assentado. dos Cristãos católicos. que ensinou o desprezo das riquezas. que morreu por nós. cujo poder e jurdição se ordena a governar os fiéis membros e súbditos da Igreja. a eternidade do Inferno. lho abriu e mereceu com seu sangue. que veio vencer o demônio e lançá-lo do Mundo. ou pode ser espiritual ou temporal. para que a graça prevalecesse contra a natureza e o amor de Deus pudesse mais que o do sangue. espiritual no uso. Porque. o perdão das injúrias. que pregou o Reino do Céu. os interesses da esmola. cujo reino lhes pregou e prometeu sempre. se perguntarmos aos Evangelistas (deixando o testemunho das outras Escrituras) que fez Cristo e que ensinou com a palavra e com o exemplo. como acabamos de resolver. o preço e imortalidade da alma. que maior sentimento se pode desejar. e com a doutrina e ações de sua vida e morte. a conseguir a bem-aventurança. e em seu nascimento foi aclamado Rei e em sua morte intitulado Rei. nas execuções e no exercício. Isto posto. e estando até aquele tempo fechado. que veio ser luz do Mundo e alumiar os que vêm a ele. que veio apartar os pais dos filhos e os filhos dos pais. Porque este Império de Cristo. a virtude da humildade e a da castidade. dir-nos-ão que veio ensinar aos homens a ciência da saúde e salvação. e se demonstra com o mesmo mistério da Encarnação e fim com que Cristo veio ao Mundo. e todos os expositores de ambos os Testamentos. espiritual nas leis.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 120 História do Futuro (Volume II. e sendo todas elas ordenadas só à salvação e perfeição dos homens e dirigidas e encaminhadas ao Céu. que este Império de Cristo e dos Cristãos.

como acabamos de resolver. três dos eleitores do Império são príncipes eclesiásticos e senhores temporais de seus estados. E depois . Finalmente. Capítulo IV) por Padre Antônio Vieira 121 Examina-se se o Reino e Império de Cristo é também temporal. que os Profetas davam a Cristo. e somente lhe concedem ou admitem nele o puramente espiritual.. No Salmo XLIV descreve o mesmo Profeta as prosperidades e progressos do Reino de Cristo: . de que lhe háde vir a firmeza: ut confirmet illud et corroboret in judicio et justitia. ipse pauper et ascendens super asinam. e notam bem advertida e doutamente estes autores que todas as vezes que os textos da Escritura Sagrada falam no Reino.intende. mas logo determina os efeitos dessa sabedoria que hão-de ser encaminhados todos à salvação: In diebus illis salvabitur Juda. sempre acrescentam alguma explicação ou limitação com que o nome geral de Rei e Senhor se distinga ou aliene da significação de poder temporal.regnabit rex et sapiens erit. Refere-se a opinião negativa O império e domínio temporal é certo que de sua natureza não exclui nem implica com o temporal. mas logo aponta os fundamentos espirituais também. et deducet te mirabiliter dextera tua. em Alemanha. Zacarias no capítulo IX descreve o triunfo de Cristo aclamado por rei na entrada de Jerusalém: Ecce Rex tuus veniet tibi. com que há-de conquistar o Mundo: Propter veritatem et mansuetudinem et justitiam . mas logo lhe chama rei e salvador justo. poder e domínio temporal.. tendo o domínio espiritual de toda a Igreja. pobre e humilde: Justus et salvator. Livro II. Não alegamos aos autores desta doutrina. é também senhor e príncipe temporal do estado que chamam eclesiástico. Assim vemos que o Sumo Pontífice. mas logo limita a significação do ofício ou dignidade.super solium David et super regnum ejus sedebit in eternum. Jeremias.acrescentou logo que o seu Reino era para dar testemunho da verdade ao Mundo: Ego in hoc veni in mundum ut testimonium perhibeam veritati. dizendo que para pregar seus preceitos-praedicans praeceptum ejus. prospere procede et regna. bem assim como aquele que os príncipes eclesiásticos têm sobre suas igrejas ou ovelhas (posto que por modo mais sublime e excelente) mas de nenhum como aquele que os senhores e príncipes seculares têm sobre seus estados e vassalos. Império... Suposto pois que o Reino e Império de Cristo seja espiritual. resta examinar agora se é também império temporal. Muitos e graves teólogos seguem de tal maneira a parte negativa que exclui totalmente do Império de Cristo toda a jurdição. como porque alegaremos muitos no capítulo seguinte. História do Futuro (Volume II.Ego autem constitutus sum rex ab eo. como dissemos. mas logo declara o gênero de armas. o mesmo Cristo »— confessando a Pilatos que era rei »— Tu dicis quia rex sum ego . no capítulo XXIII. poder ou principado de Cristo. e no nosso reino. estreite e determine ao espiritual somente. no capítulo IX. assim por serem todos.. Isaias. No Salmo II chama David a Cristo Rei constituído por Deus . o Arcebispo primaz é juntamente Bispo e Senhor de Braga.Anexo:Imprimir/ História do Futuro dizemos há-de ser sempre o mesmo (nem é decente nem seria crível outra cousa). e se limite. em qualquer tempo futuro será e há-de ser também espiritual. domínio. de modo que um outro domínio bem pode sem repugnância alguma convir e ajustar-se no mesmo sujeito. celebra o Reino e sabedoria de Cristo Rei: . anuncia o mesmo Reino de Cristo e sua perpetuidade: . todas espirituais. Fundam primeiramente esta sua sentença em muitos lugares da Escritura e particularmente em todos aqueles com que no capítulo passado mostramos o seu nome e título de Rei..

se nem para o decoro da pessoa. a majestade de todo ele? E se esta majestade. ou por direito humano. se entendem do Reino espiritual ou celeste. não seria maior autoridade. todos. Sobretudo está por esta parte aquele claríssimo oráculo de Cristo: Regnum meum non est hoc mundo . o império. ou por direito divino. como vimos. mas que convencem e desfazem a probabilidade de qualquer outra. se fecham e apertam eficazmente com um discurso fundido em todos os princípios gerais de direito. constara pelas Escrituras. construída com o Império de Cristo e pronunciada aos ouvidos mais religiosos e espirituais. como alguns dizem? Com que liberdade ou com que confiança havia de aconselhar ou mandar Cristo a certo mancebo que. nem para o fim do ofício. Argumentam ou decorrem assim: Se Cristo foi Rei temporal. e para Cristo ser respectivamente Rei universal de todo o Mundo por esta via. a herança de um reino particular não lhe dava direito para o império de todo o Mundo. Por direito natural não. se no mesmo tempo o mestre desta perfeição retivesse o domínio de toda a Terra? Para que se há-de admitir logo o nome deste Império temporal em Cristo. das quais palavras podemos dizer: Quid adhuc egemus testibus? A eficácia destes textos se acrescenta a de muitas razões e argumentos.o meu Reino não é deste Mundo. por direito humano não. e ainda que o pedira. como dizem menos provavelmente alguns autores. porque Cristo não era filho nem herdeiro de rei. como dizia com esta renunciação de todos os bens. declarando aos Apóstolos com a maior majestade de palavras que podia ser a grandeza de seu império. nem para o exemplo da doutrina era necessário. e dado que fosse legítimo sucessor do Reino de Israel. este império e este domínio não havia de ter (como nunca teve com Cristo) uso ou exercício público. porque a jurdição de fazer ou eleger rei está na comunidade dos homens. com que o elegessem por Rei e Senhor de 122 . que dizer-se que o tivera e conservara. e posto que muitos textos da Escritura falem de Cristo como Rei e lhe dêem o nome e título de Rei. salvus erit: fé. honras e haveres do Mundo. maior exemplo e ainda maior circunstância de perfeição saber-se que o renunciara Cristo. deixasse o domínio das suas herdades. podendo tê-lo. Segue-se logo que o Reino e Império de Cristo é espiritual somente. Finalmente. era necessário que todos os homens e comunidades do Mundo se unissem em um consentimento. sem nos obrigarem a que os entendamos do Reino ou Império temporal. ou foi Rei por direito natural. porque.Anexo:Imprimir/ História do Futuro de ressuscitado. De que servia a Cristo (dizem) o nome ou jurdição de Rei temporal do Mundo. Por direito divino também não. entre os quais porventura não é o que tem granjeado menos votos a esta opinião errada aquela palavra temporal. e quando menos se podem interpretar assim. domínio e potestade-Data est mihi omnis potestas in Cælo in Terra-a conseqüência que tirou deste poder tão universal foi: Euntes in mundum universum prædicantes Evangelium omni creaturæ. batismo e salvação dos homens. que não são muitas vezes as que menos persuadem. e para o exercício e uso que nunca teve realmente inútil e ocioso? Estas razões ou admirações. qui crediderit et baptizatus fuerit. o domínio. a qual. se houvera tal direito. parece que traz consigo alguma dureza e dissonância. e havia de estar sempre oculto e encoberto aos homens. com que parece aos autores desta sentença que não só estabelecem de todo a certeza dela. por não dizer indecência. se queria ser perfeito. e de nenhum modo temporal. os mesmos reis e as mesmas temporalidades? Se a perfeição cristã que Cristo veio ensinar aos homens consistia em deixar tudo e seguir em pobreza e humildade a Cristo pobre e humilde. se ele vinha como vimos a confundir com seu exemplo o mesmo Mundo.

se conjuraram contra ele e lhe tiraram a vida. que houvessem de aparecer diante de Deus as nossas almas com vestidos tão indecentes como são os corpos. só porque não tomasse o nome de Rei. Jansénio. o ser senhor e criador de todas as cousas corporais. já têm vencido Mitigou-se com os dias e com a consideração o horror daquele nome temporal.Anexo:Imprimir/ História do Futuro todas. antes se tiravam . e diz o doutíssimo Maldonado que esta é a sentença comum dos melhores teólogos que assim o disseram. e muito contra o decoro da bem-aventurança. ainda não tinham escrito. em quanto Deus. e ambas ao fim. falam. Ambrósio. Nenhum dos outros Padres fala em termos de tanta expressão. nem por sucessão natural. Os Padres que isto disseram e seguiram querem alguns que sejam todos. Tertuliano. parecendo-lhes cousa indigna. S. non carnaliter sed spiritualiter regnaturo. com outras galantarias. Ao menos confessa Vasques que da doutrina dos Padres não se pode convencer o contrário. Adrião Fino. nem por eleição humana. para crédito de Maldonado e nosso. Castro. como disse S. e o que nos tempos passados é duvidoso. Os Origenistas chamavam por escárnio pelusiotas aos que seguem a fé de que todos havemos de ressuscitar em nossos corpos. antes sabemos que os príncipes e povo de Judéia. Não fazem menos santo a Cristo. nem . mais se alumia. qui populus regnum fuerat amissurus Christo Domino nostro per Novum Testamentum. Teófilo e outros. João Parisiense. Logo se não foi Rei temporal. nos futuros se sabe. História do Futuro (Volume II. João Crisóstomo. entre os quais o mais claro (ou o que parece) é este: Populi personam figurate gerebat homo ille. Capítulo V) por Padre Antônio Vieira 123 Propõe-se e defende-se a opinião afirmativa Se escrevêramos menos há de cem anos.aos inimigos (porque também na Teologia se deve entender: Omnia dat qui justa negat). e o ter em sua própria essência eminentemente as idéias de todas elas? Antes . Melchior Flávio. bem se conclui que o Reino e Império de Cristo. Abulense e Waldense. Vitória. que Vasques os alega (e diz que assim se devem alegar) pela parte contrária. Nem sempre é maior espiritualidade o que mais opõem ao corpo.por doação ou nomeação divina. sucederam àqueles teólogos de grande espírito outros de grandes espíritos. acabou-se de conhecer que com e1e se não davam armas. S. e se escondeu em um monte para escapar daquela violência. E são estes: Hermas. que os teólogos que hoje têm maior fama nas escolas. O douto leitor julgará se são os melhores. Mas. Jerônimo. por termos tão indiferentes. scilicet Saul. que era a terra onde Cristo vivia. mas alegam-se e podem-se alegar no mesmo sentido S. Bertolameu de Medina. Advirta-se. e diz S.parte Soto. quando ele escreveu. Livro II. Gregório. fugiu deles e do mesmo título. nem querem fazer menos espiritual o Mundo. O primeiro que se alega é Santo Agostinho em muitos lugares. quanto a Igreja mais cresce. se não espiritual e somente qual acima dissemos. e posto que também se citem por esta . na ocasião em que alguns deles lho quiseram dar. porventura que não puséramos aqui tão confiadamente este capitulo. o que nunca houve. e que o mesmo Senhor. os que reconhecem em Cristo o domínio temporal dele. Francisco de Cristo. e antes dele Sábio. Atanásio. se não têm ainda triunfado. porém. Letmatio. tão celebrado nas Escrituras. de nenhum modo foi nem pode ser temporal. e resolveu-se que não eram menos espirituais os que admitiam no Império de Cristo o nome de temporal. que não eram os que pior tratavam seus corpos os que isto diziam. Driedo. a opinião do Reino temporal de Cristo e da Conceição imaculada de sua Mãe se acompanharam no mesmo tempo na mesma fortuna. Porventura ofende a Deus.

excitou e defendeu galhardamente esta questão nos termos seguintes. e os vamos juntamente impugnando e desfazendo. Scoto. atque omnium rerurm creatarum. e isto é só o que negam as Escrituras. que é perfeição em Deus Deus (digamo-lo assim). pelos mesmos princípios e fundamentos da opinião contrária. eo quod illis in omnem usum potest citra alicujus injuriam uti. non tantum spiritualis rex ac dominus. Ludòvico Tena. Salazar. Lacerda. Bacónio e outros. e isto o que explicou o mesmo Cristo. atque adeo tenporalis: tam vere et proprie quam Philippus 2dus temporis rex est Hispaniarum. antes com muito maior. e do império temporal de Cristo. não dependente como eles das criaturas. Molina. mais perfeito e mais excelente domínio. secundum quod homo est. Almaino e os três já nomeados Abulense. sobre todas as cousas criadas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro deixava de ser Deus. sobre todos os reis. nem que receba a grandeza e majestade da pompa e aparato vão das cousas exteriores do Mundo. e no capítulo XIX. Arnico. a qual em toda a Escritura Sagrada significa Rei temporal. antes dos quais tinham seguido e ensinado a mesma doutrina Santo Antonino. Pois o domínio soberano. e os dois Mendonças insignes de Portugal e Castela. como ensina S. isto o que não admitem os Padres. em que chama a Cristo Príncipe dos reis da Terra e Rei dos reis e Senhor dos senhores. como o Cardeal Turrecremata. Rex regnum et Dominus dominantium. no capítulo I. dos quais este último já no ano de 1586. na Universidade de Salamanca. Hurtado Arriaga. seja o primeiro o testemunho das mesmas Escrituras alegadas. sublime e independente de todos. E para que demonstremos a verdade desta nossa crença. Os quais textos e todos os mais se não podem entender própria e naturalmente senão do Reino temporal de Cristo. com jurdição tão própria e direta sobre todo o Mundo como a que os reis particulares têm sobre seus vassalos e reinos. João Evangelista. Navarro. Waldense. é um domínio soberano e supremo sobre todos os homens. não queremos dizer que é o seu Império sujeito às mudanças e inconstâncias do tempo. Verga. O Cardeal Toledo. em dois lugares do Apocalipse. o Cardeal Hostiense. o Cardeal Lugo. a que o mesmo Mundo quando fala com mais siso chama com razão temporalidades. Vasques. Durando. porque há-de ser menos decência em Deus Homem? Quando chamamos Império temporal ao de Cristo. Seguem a estes três lumes outros muitos que o puderam ser da Telogia. et unusquisque hominum dominus est suarum rerum. como se pode ver nos lugares citados à margem. Justiniano. onde era catedrático de Scoto. com poder de dispor delas a seu arbítrio. O Império que dão ou reconhecem em Cristo os que admitem e veneram nele o nome de temporal. em que Cristo tão repetida e expressamente é chamado Rei por boca de todos os Profetas antigos. para dar por provada e acreditada com o Mundo uma verdade tão necessária e importante como depois veremos. A que podemos acrescentar o do maior Profeta da Lei da Graça. Princeps regnum terrae. Os teólogos que isto assentam por conclusão é S. Cornelio. que as palavras da Sagrada Escritura se não hão-de interpretar em sentido metafórico e 124 . que por serem tão particulares os quero referir aqui: Verum Jesus Christus Deus ac Salvator noster fuerit vere ac proprie Dominus et Rex totius Orbis. Caspense. fazendo e desfazendo leis castigando e premiando. Soares. dando e tirando reinos. se eles não foram diante. e bastava ter escrito estes três grandes nomes. e se é regra certa. Valença. se assim não fora. sed et verus ac absolutus et proprius. S. mas absoluto soberano. Este é o sentido em que falam com pouca diferença de palavras todos os teólogos referidos. Agostinho. Carçosa. porque o contrário devia fazer manifesta violência à significação da palavra Rei. Peres. a que podemos ajuntar muitos juristas de grande nome. quando disse: Regnum meum non est de hoc mundo. Tomás.

falando do Império de Cristo. e consta das Sagradas Escrituras. dizem comumente os expositores que foi porque Cristo não teve uma só coroa. sem sair das mesmas profecias e textos fundamentais desta história. para . pois se não segue de assim o entendermos inconveniente algum ou dissidência contra aquela grandeza e majestade de Cristo. para maior demonstração da mesma verdade. sua e da Igreja. antes de subir ao Céu. Estes são os textos mais eficazes e expressos com que os teólogos costumam provar a verdade do Império temporal de Cristo. Agora pergunto porque foi coroado não com uma senão com duas coroas. tomado na propriedade e natureza de sua significação. mas de lhe acrescentar com a nova luz deles nova evidência. e teve juntamente o império temporal. e porque uma delas foi de prata e outra de ouro? A razão. que maior prova se podia desejar que a da estátua de Nabuco. começando pela profecia de Zacarias. glória e autoridade. João. não só significa Império espiritual. seguindo as regras do direito. se o nome de Supremo Sacerdote significa o Reino e Império espiritual. deixou dito e publicado ao Mundo que seu Eterno Pai lhe tinha dado todo o poder no Céu e na Terra: Data est mihi omnis potestas in Cælo et in Terra. E quanto ao império temporal. senão uma de prata e outra de ouro. senão duas: uma como Supremo Sacerdote. Logo. nos obrigam a conceder e confessar que em toda sua propriedade significam Rei e Reino temporal. como neste capítulo se irá vendo. quando respondermos a estas leves objeções da parte contrária.persuadir facilmente a qualquer entendimento fácil e dócil. filho de Josedec significa a dignidade suprema do Império de Cristo. mais precioso e mais sublime que o império temporal. nenhuma cousa exclui. não mística senão literal. senão quando. bem se segue que a pedra que os derrubou e desfez. como prova S. A esta confirmação geral da significação da palavra Rei acrescenta o Padre Soares outra. cujos metais desfez a pedra em pó e em cinza? Porque. Porque o Reino espiritual de Cristo se distingue do Sacerdócio do mesmo Cristo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro figurativo. porque de outra maneira se não de dizer nem entender. que é uma tão grande parte desse todo. nós. em que só podia haver dúvida. E. o mesmo Cristo. se é certo (como é de fé) que aqueles quatro metais significavam quatro impérios sucessivos. sem manifesta implicação. pois lhe faltaria nesse caso o poder temporal. e que eficazmente convence o sentido em que se deve tomar a mesma palavra. E quem diz todo. que é própria da pessoa de Cristo. figura do Reino e Império de Cristo. e outra como Supremo Rei. antes muita honra. não só esperamos de a confirmar eficazmente na mesma certeza. e nós mostraremos largamente no capítulo seguinte. e impérios verdadeiramente temporais. que é o que mais propriamente se chama império no Céu. 125 . tantas vezes celebrados e cantados pelos Profetas. que tivesse ou tenha Cristo todo o poder. se se entenderem na sua significação própria e natural. que o Reino e o Sacerdócio em Cristo são dignidades e jurdições distintas. segue-se que o de Supremo Rei significa o temporal. e que o império espiritual significado no ouro era mais alto. que pertencia ao Império espiritual. que pertencia ao temporal. ou ambas de prata. Agostinho no Tratado XXII sobre S. para significar a diferença e preço daqueles dois impérios ou jurdições. se seguisse algum grande inconveniente ou absurdo contra a doutrina da mesma Escritura recebida pela Igreja. que é o que com toda a propriedade se chama império na Terra. E posto que baste cada um deles. E por isso não eram ambas de ouro. Teve logo Cristo o império espiritual. os mesmos nomes de Rei e Reino. já vimos que a coroação de Jesus. Finalmente.

que na mesma sentença e na mesma palavra se varia o sentido e suposição dela. o império do Filho do Homem ou de Cristo naquela visão é o mesmo Império universal que hão-de ter os Cristãos na Terra. o que não faz nem pode fazer o Império espiritual. Para um império derrubar e desfazer a outro. e não entre o império espiritual e temporal. cantando sobre sua loucura por boca da Igreja: Crudelis Herodes. e nem por isso deixam de ter o mesmo domínio e soberania temporal que. ocupando e enchendo toda a Terra. mandou primeiro queimar a quarta besta das vinte pontas. E este foi o erro. que são impérios verdadeiramente temporais. de todos os reinos e de todas as repúblicas temporais. donde eles antes estiveram. e conservam o nome de cristãos. com manifesta violência da Escritura e repugnância do entendimento. ignorância e engano de que sempre os fiéis notaram e motejaram a Herodes. e assim como a palavra regnum e dominantium é sem dúvida que significa reis e senhores temporais. arruínam e desfazem uns aos outros. para não admitirmos. antes com ela se confirma e estabelece mais. e reina também hoje espiritualmente em todos os reinos que do mesmo Império Romano nasceram e se dividiram. senão temporal! E tudo isto se verá mais claramente. não desfez os impérios e reinos dos príncipes temporais. posto que seja espiritual e espiritualíssimo. tiveram. no qual Império hão-de entrar e ser incorporados todos os reis e reinos do Mundo. e todos os reinos temporais que dela nasceram. pois vemos que reinou antigamente Cristo espiritualmente em todo o Império Romano. o que de nenhuma maneira era necessário se o Reino e Império de Cristo fora somente espiritual. a que eles já estão sujeitos. E se nos lugares da Escritura alegados pelos autores da opinião contrária. como bem tem mostrado a experiência no mesmo Império espiritual de Cristo. antes ajudou muito e se ajudou de seus aumentos. para Deus dar o Império ao Filho do Homem. porque só impérios temporais se derrubam. composto de todos os impérios. quanto mais se estabelecia e crescia a dos Imperadores. depois de comunicado a seus vigários os Sumos Pontífices. Nem menos se confirma a mesma verdade com a segunda visão de Daniel (Daniel VII) na qual lemos que. como consta do mesmo texto de Daniel. Deum regem venire quid times? non eritit mortalia qui Regna dat cælestia? sendo pois certo que o Reino e Império de Cristo derrubou ou há-de derrubar todos os impérios do Mundo. que lhes há-de tirar essa soberania temporal. o qual. pelo qual se intitula com toda a propriedade Rex regnum et dominus dominantium. Como se pode logo duvidar que este imenso e portentoso Império. e que rex e dominus têm uma significação e regnum e dominantium outra. como expressamente se colhe que o império de Cristo não é só espiritual. não é ou há-de ser o Império espiritual de Cristo. como melhor se entenderá pelo discurso de tudo o que diremos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro senão também temporal. Finalmente. não haja de ser também temporal? Este é. e em outros que também lhes pudéramos ajuntar. antes de receberem a sujeição de Cristo. assim a palavra rex e dominus significa rei e senhor também temporal. e este o Reino e Império de Cristo. porque nós não dizemos que o Reino e Império de Cristo 126 . crescendo e estabelecendo-se mais a grandeza e majestade da Igreja e dos Pontífices. e esta oposição e contrariedade só se acha nos impérios temporais entre si. quando adiante explicarmos o tempo da ruína desta estátua e outras circunstâncias dela. é necessário que tenha oposição e contrariedade com ele acerca das mesmas cousas. senão o Império temporal. Segue-se logo com evidência que o Império de Cristo. parece que o domínio real de Cristo se limita e determina ordinariamente a fins e obras espirituais. de nenhum modo se enfraquece com este indício ou argumento a verdade da nossa sentença. em que era significado o Império Romano. e não espirituais. tão cantado e celebrado nos oráculos dos Profetas.

e os principais e maiores exemplos que nos quis deixar foram do desprezo dele. XVII. cap. e nisto se distingue dos reinos meramente políticos e humanos. quia -ejus regnum terrenum non est. para convidarem a todos a lerem de boa vontade e com gosto seus escritos. mas porque em seu tempo não estavam em uso aqueles termos que depois inventou a Teologia. Ireneu. Cirilo. e para que nos livros dos autores cristãos se não achasse menos a propriedade e majestade da eloquência que tanto se venera nos escritores gentios. como dizem as palavras tão repetidas do nosso texto. Jerônimo. dos quais porei aqui os que bastem a responder a estes e confirmar a verdade da nossa. no Livro III De consideratione escrevendo ao Papa Eugénio: Dispensatio tibi super illum credita est. explicando as palavras de Cristo: Regnum meum non est de hoc mundo. IV. e o de Cristo e dos Cristãos a do Céu. porque estes têm por fim a conservação e felicidade da Terra. sobre os Evangelhos. damos por testemunhas os mesmos livros dos Padres. recebidas entre os teólogos. S. João. Não próprio senão alheio:Alienum. S. explicando muitos deles com palavras menos latinas (por não dizer bárbaras) qual é a palavra temporal.. mas porque deste não quis ter exercício aquele Senhor que era juntamente Senhor e Mestre. no Livro XII sobre S. Cipriano Adversus Judaeos cap. pois esse Reino e não outro é o que há-de ser eterno e glorioso no Céu. non data possessio. sed caeli et terra:. Agostinho. senão ainda em quanto temporal. diz. e outras cousas de igual importância e dignidade. Dos quais termos se abstêm ainda hoje os que escrevem com estilo mais polido e levantado.Anexo:Imprimir/ História do Futuro é espiritual. no Tratado XIV sobre o mesmo Evangelista: Erat quidem Rex non talis qualis ab hominibus fit. ponderando o lugar do nascimento de Cristo. Outras muitas sentenças semelhantes a estas se vêem em outros Santos Padres da mesma e maior antigüidade. como também se não acha o da graça santificante do mesmo Cristo. et jure creaturæ et merito redemptionis et dono patris. não porque aqueles santos negassem à universalidade de seu Império o domínio temporal. et dabo tibi gentes hæreditatem tuam et possessionem tuem terminos terræ?»Possessionem et dominium cede huic. XXII. diz assim: Regem se esse non negat. tu curam ilius habe. Bernardo. senão que é espiritual e temporal juntamente. Hilário sobre o Salmo II. como nos primeiros tempos da Igreja faziam aqueles santíssimos e doutíssimos Padres. distinta da união hipostática. na Homilia VIII. Não faltam contudo lugares muito ilustres aos Padres. XXVI. v. e isto é ser império de Cristo e dos Cristãos. V. E S. qui possessionem sibi vindicat. ceterarunque rerum omnium.. sed regni Cæsaris se non esse hostem ostendit. inculcadas e persuadidas as virtudes que pertencem ao Reino espiritual de Cristo. como S. em que falavam do Império temporal de Cristo com termos Não menos expressos que os que se alegam pela parte contrária. Lib.Non tu ille de quo Propheta: «Et erit omnis terra possessio ejus?» Christus hic est. que é geral para muitas matérias. Gregório. nam secundum potestatem in propria venit. sobre Jeremias. conhecendo e tendo pela maior excelência deste felicíssimo Reino. não porque os santos tivessem diferente parecer. E mais claramente que todos S. non secundum potestatem sed secundum naturam. sed talis ut homines reges faceret. e 127 . se ordena ao fim último e sobrenatural da bem-aventurança. Vindo às autoridades (como dizem) dos Padres concedemos facilmente que são poucos os lugares de seus escritos em que se ache expressamente e em próprios termos o Reino temporal de Cristo. cap. Desta razão. para maior clareza da doutrina escolástica. Cui enim alteri dictum est: «Postula a me. S. E S. . no Livro IV. nos quais também se acharam freqüentemente louvadas. que não só em quanto espiritual. S.

exércitos.signum: Maria (diz) eo quod mater Dei est. e não o império e domínio dele sobre todo o Mundo. sed vilem hanc prorsus vitam egit ac pauperem: duodecim tantummodo homines. cavalos. Bernardo. Serm. palácios. quia filius ejus in primo instanti suæ conceptionis monarchiam totius promeruit et obtinuit uriversi. XI.Anexo:Imprimir/ História do Futuro S. grandeza e majestade exterior de rei temporal. E como a controvérsia e disputa daqueles tempos era contra este escândalo dos Judeus e contra esta estultícia dos Gentios. Esse aparato e pompa exterior de riquezas. não só quanto ao Reino espiritual e do Céu. sicut Propheta testatur. senão quanto ao temporal e da Terra. não negando a Cristo Rei. Dos quais lugares todos e muito mais claramente destes últimos se mostra quão assentada cousa era. parece que diziam e ensinavam o contrário (como verdadeiramente parece). como dizíamos. e só não tinha os acidentes da vaidade e falsa grandeza com que se sustentam os outros reinos do Mundo. non enim istum neque alium quempiam circa se habuit ornatum. como gente costumada a fazer deuses à sua vontade. E se alguns dos mesmos Santos Padres . no Tomo I. dicens: «Domini est terra et plenitudo ejus. império ou domínio. João Crisóstomo. et regira domina et deipara proprie et vere censetur. em que. Basta. Lucas.. Nihil quippe tale monstravit. E S. O mesmo S. senão quanto ao aparato. quale mundi hujs reges habere conspicimus. no sentir comum dos Padres. regina cælorum et domina mundi jure esse probutur. Aos quais com razão podemos acrescentar todos aqueles autores antigos e modernos que. 128 . diz assim elegantemente: Quonam pato magi ex stella illa Judaeorum regem illum esse didicerut. sobre S. coches. neque clypeatas ostendit militum catervas: non equos regalibus phaleris insignes. reconhecem e veneram na Virgem. ut non traderer Judæis. e quão sem controvérsia. o Império e Monarquia universal de Cristo. orbis terrarum et universi qui habitant in eo». mas engrandecendo esse mesmo império pelo desprezo da pompa e aparato vão em que põem os reis da Terra sua grandeza e majestade.. E S. no Sermão sobre as palavras do Apocalipse . por todos os Padres que pudéramos trazer em comprovação desta nossa advertência. deve-se advertir que falavam do Reino de Cristo. é o que os Santos negavam no Império de Cristo. os primeiros interpretando erradamente as Escrituras. Ambrósio no Livro III. galas. I: Virgo beatissima omnem hujus murdi meruit principatum et regnum. eosque despectabiles secum circumducendo. criados. non cunas auro ostroque fulgentes. cap. Neque enim hastas. porque o Reino de Cristo verdadeiramente era deste Mundo e de todo o Mundo. o qual os Judeus esperavam e os Gentios desejavam em Cristo. o império e domínio de todo o Mundo. Como logo explicou na mesma razão que deu do que tinha dito: Si ex hoc mundo esset regnum meum. Bernardino de Sena. principal mente em livro s apologéticos ou tratados. e os segundos fingindo as propriedades de Deus humanado conforme sua vaidade e apetite. Senhora nossa. falando do Rei que vieram adorar a Belém os reis e da diferença humilde de seu estado. que são os nomes injuriosos ou gloriosos com que uns e outros afrontavam a cruz e humildade de Cristo. ministri utique mei decertarent. o domínio e império ainda temporal sobre todo e1e. no Sermão I De nativitate Virginis: Quandoquidem Christus rex est qui natus est ex virgine idemque et Dominus et Deus. a título de Mãe de Cristo. Atanásio. por isso é tão freqüente nos escritos dos Padres a diferença do seu Reino aos reinos do Mundo. e este é o sentido próprio e germano em que Cristo disse a Pilatos: Regnum meum non est de hoc mundo. ea propter et mater quæ eum genuit. cum certe non istius regni ille rex esset. não quanto ao poder. um lugar de S. Onde se deve notar que não disse Cristo: Regnum meum non est hujus mundi. senão de hoc mundo.

ou por ela (sem ninguém o constituir) é Rei e Senhor e Monarca supremo de todos os reis. de que Deus é absoluto Senhor. Agostinho e S. pertence ao mesmo Cristo em quanto homem o domínio e império universal de tudo o criado. não só espiritual. assim a união hipostática em Cristo foi uma verdadeira e própria unção com que juntamente com o ser e a natureza recebeu o poder e a Monarquia do Mundo. com a maior brevidade que nos for possível. e não o de Cristo. na parábola da vinha: Hic est hæres. mas ungido por natureza. o terceiro por doação. escrito. de todos os reinos e de todos os impérios do Mundo. Por isso Cristo no Apocalipse trazia o título de Rex regnum e Dominus dominantium. sem algum outro concurso ou condição extrínseca. senão por natureza própria sua. como iremos mostrando pela mesma ordem. que significa a geração humana. da parte de Deus nem da parte dos homens. o quarto por compra. como diz o texto. Livro II. Salvador por obediência. E assim como antigamente se faziam ou consagravam os reis pelo óleo que eram ungidos. é por não haver título. Porei suas palavras no capítulo seguinte pelas não repetir duas vezes. E por isso o nome que lhe puseram na circuncisão foi de Jesus. nós veneramos nela a autoridade de David. Este é o único fundamento do Padre Vasques. o quinto por guerra justa. porque.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 129 História do Futuro (Volume II. assim o entenderam. e para que se veja manifestamente a debilidade deste fundamento e tragamos à nossa sentença os mesmos autores que em seguimento deles abraçam a contrária. Assim o disse o mesmo Deus por boca do Profeta Rei: Postula a me et dabo tibi gentes hæreditatem tuam et possessionem tuam terminos terræ. Paulo — quod si filius et haeres — lhe pertence a Cristo o título de herdeiro do domínio e império universal do Mundo. o sexto por eleição e aceitação de todos os homens. como eles dizem. Paulo. sendo Cristo filho natural de Deus. por não faltar ao costume de impugnar tudo. Gregório Nasianzeno. oleo laetitiae pre consortibus tuis e a explicação de S. a quem geralmente seguiram todos os que depois dele escreveram. E o mesmo Cristo. E posto que Arriaga. não reconheceu na unção da união hipostática mais que a propriedade e energia da metáfora. para mostrar que o ser rei de todos os reis e senhor de todos os senhores lhe convinha e era seu por sua própria natureza. conforme o texto de S. ou por ser quem era. apontaremos e provaremos aqui. que quer dizer ungido. que assim o disse no Salmo XLIV: Unxit te Deus. falando também de Cristo: Quem haeredem universorum per quem fecit et sæcula. porque por meio da união da divindade à humanidade. e por ela fica constituído. ao qual compita e seja devido aquele domínio. como também no seguinte: . venite et occidamus eum. e de outros grandes Padres que. o segundo por herança. Primeiramente. a qual se inclui essencialmente na natureza de Cristo. porque o ser ungido por Rei e universal Monarca do Mundo não lhe pertencia por imposição divina ou humana. São estes títulos seis. in femore. Deus tuus. os títulos por que é devido e compete a Cristo em quanto homem o Império e domínio supremo. O segundo título do Império de Cristo é por herança. que quer dizer salvador. Do qual Vasques diz Salazar que foi o primeiro a quem a Teologia deve os sólidos e verdadeiros princípios em que fundou o Império temporal de Cristo. apontam-se os títulos e razões do Reino temporal de Cristo O principal fundamento dos que não admitem no Reino de Cristo o império e domínio temporal. senão também temporal de todo o Mundo. todos legítimos e conforme o direito: o primeiro por natureza. E S. é Cristo Rei e universal Monarca do Mundo por natureza. E neste título convêm todos os teólogos acima alegados. Capítulo VI) por Padre Antônio Vieira Prossegue a mesma matéria.

O mesmo Cristo no capítulo. pois verão por grandes notícias e não vulgares da Antigüidade quão certa e concertadamente concorre a novidade e verdade desta nossa consideração ao maior estabelecimento do Reino de Cristo. E peço licença aos que quiserem ler este discurso para meditar um pouco mais nele... o poder e jurdição suprema de eleger e nomear príncipe.. Nec Pilato (diz este autor) nec Caesari ullum legitimum jus in regnum Judaeorum. eleição ou aceitação. as quais palavras entende S. não é possível havê-lo. Lucas: Dabit illi dominus Deus sedem David patris ejus et regnabit in domo Jacob.Anexo:Imprimir/ História do Futuro É o terceiro título. e o alcançaram e ensinaram antes deles. Alberto Pighio (para que de todo não entremos neste novo caminho sem alguma guia) no Livro V da Hierarchia Ecclesiastica. em cujas comunidades. que é o quarto. e de grande glória não só de Cristo mas nossa. Assim o tem a comum sentença de todos os juristas teólogos. prometendo aos que fizerem esta detença não perderão o fruto do tempo que nela gastarem.: Omnia mihi tradita sunt a Patre meo. parece que cai mais imediatamente sobre os homens que sobre o Mundo. assim como o que é senhor do escravo fica juntamente sendo de todos os seus bens. por ser pensamento novo e matéria até agora não tratada. quem semper expectaverunt sibi regem f ore in lege promissum. capítulo III. comprados com o preço de seu sangue: empti enim estis pretio magno: O sexto e último título do Império de Cristo dizíamos que era por consentimento. o de doação. em que se refere como os Judeus por consentimento comum elegeram por seu príncipe Simão e seus descendentes com a cláusula. era necessário que os mesmos homens conviessem todos este consentimento. como agora mostrarei. no capítulo II de S. O título da compra. era esperado de todo aquele povo como seu verdadeiro Rei e Senhor. traz o mesmo Alberto Pighio a história do Livro I dos Macabeus.: Data est mihi omnis potestas in cælo et in terra. no Salmo pouco antes alegado: Dabo tibi gentes hæreditatem tuam. o qual se acha mais expresso que todos. com que Cristo. Mas em Cristo parece que não pode ter 1ugar este título porque.. E no capítulo.] 130 . porém. no capítulo III: Sciens quia omnia dedit ei pater in manus. aceitação e como eleição de todas as nações do Mundo. E para . assim no Velho como no Novo Testamento. E é conclusão certa na teologia. que o seriam somente até que viesse o Messias. O Anjo à Senhora. o título em que funda este direito é o consentimento.. senão verdadeiramente escravos seus. Aristóteles no Livro III das Políticas. João. sendo o Monarca universal de todo o Mundo e de todos os homens. aceitação e expectação geral. e este consentimento comum nunca jamais o houve no Mundo. como acima dizíamos. Paulo de Cristo. a cujo Reino e direito não queriam prejudicar. sed si cuiquam maxime competiit Christo. Judæi (diz o texto) consenserunt eum Simonem esse ducem suum [. como dizem alguns teólogos. pôs Deus. como autor da natureza. antes. arrostando a opinião de muitos e graves autores.prova desta geral aceitação e consentimento com que todo o povo hebreu tinha recebido por seu Rei ao prometido Messias. quando querem viver juntos e politicamente. Contudo digo que não faltou ao Império e Monarquia universal de Cristo este último título do consentimento e aceitação universal dos homens. Capítulo XIV. verdadeiro Messias. à qual é necessário abrir os alicerces e lançar os primeiros e sólidos fundamentos.. os quais têm para si que Cristo foi legitimo Rei do Reino de Israel.. por lume natural. S. no I capítulo da Epístola aos Hebreus.. prometido aos primeiros Patriarcas da sua nação. e no salmo. mas ao primeiro domínio se segue necessária e naturalmente o segundo.: Omni subjecisti sub pedibus ejus. que pelo título da Redenção não só ficamos vassalos deste soberaníssimo Monarca. Este título é o mais natural e jurídico entre os homens. e Platão no Diálogo de Regno e nos livros — De republica.

porque não pareça a acomodação da dita sentença levada de algum modo por nós ao intento em que nos serve: Alii (diz Mendoça. Alonço de Mendoça acima citado. em respeito de todo o Mundo e de todos os homens e nações dele. donec veniat qui mittendus est. Saul e Daniel. porque assim o explicou S. et movebo omnes gentes. et ipse erit expectatio gentium: «Não faltará o cetro de Judá nem príncipe de sua descendência até que venha o que há-de ser mandado. supremo e verdadeiro Rei. concorreu ou pode concorrer em Cristo o título da aceitação e como eleição geral daquele povo. capítulo XII): . e a mesma espectação acerca do Reino e Monarquia universal de Cristo sobre todos eles. o mesmo desejo e a mesma espectação. falando do Messias prometido. porque todas estas circunstâncias e condições concorrem no exemplo alegado (o qual não é semelhante se não o mesmo) e o mesmo temos nas eleições dos dois primeiros reis de Israel. Assim explica em próprios termos esta sentença de Alberto Pighio. nam dicunt ex consensu et quasi electione populi judaici Christum fuisse illius gentis regem.. espectação e como eleição com que todo o povo judaico tinha aceitado como seu verdadeiro Rei o futuro Messias. E que em todos os homens e nações do Mundo houvesse geralmente o mesmo consentimento comum. ungido. que se não podiam desejar nem ainda fingir mais expressos. De maneira que o título com que tão grande teólogo e jurista defende o direito de Cristo ao Reino de Israel é aquele geral consentimento. velut expresse protestantes in ejus praejudcium et injuriam nihl se velle facere. e digo que. e depois novamente aceitos. no. entenderam também sempre todos os Hebreus. deixados outros muitos textos de menor clareza. diz assim: Non auferetur sceptrum de Juda et dux de femore ejus. et tenacissime crederent regem itsum futurum temporalem. nos quais houve o mesmo consentimento comum. regem sibi fore. assim concorreu e concorre o mesmo título no Reino e Monarquia universal de Cristo. apontarei somente dois. O primeiro é do capítulo penúltimo do Gênesis. no qual. Nem impede ou encontra a verdade ou legitimidade deste título o ser o mesmo Rei Cristo primeiro eleito. desejo e consentimento comum com que era esperado de todos por seu legítimo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro in aeternum. como consta da História Sagrada. no I e II Livro dos Reis. como logo mostraremos. que é o ponto e suposição em que fundamos este novo título. e este será a espectação das gentes. cujas palavras quero também referir aqui. nam ad ejus usque aduentum Simoni atque e jus posteritati regnum stabilierunt. e como tal o esperava. prometido e dado por Deus. De toda esta sentença assim entendida me não serve mais que o exemplo e o modo de dizer ou filosofar. donec surgat propheta fidelis. referindo-se a Pighio) alio titulo Christi regnum ab aduersariis vindicant. Sobre as quais palavras conclui assim o dito autor: Vides omnium Judeorum votis et expectatione semper expectatum Christum et Messiam in lege promissum. capítulo II. quod illi adventanti legitimo jure deberi significaverunt. na bênção que lançou Jacob a seu filho Juda. nam cum ardentissime Messiam expectarent. falando da mesma vinda de Cristo (como é de fé que falava. aclamados e cada um deles ungido pelo mesmo povo. ideo pblico totius gentis decreto in ipsum sua suffragia conjecerant et in regem elegerant. et veniet desideratus cunctis 131 . pela espectação. os quais por primeiro foram ungidos pelo Profeta Samuel por mandado de Deus.ego commovebo caelum et terram et mare et aridam. assim como em respeito do Reino de Israel. e o mesmo desejo.» E o Profeta Ageu.. e antes da vinda de Cristo. como entendem uniformemente todos os autores católicos. Paulo na Epistola aos Hebreus.

ao menos não enchem o sentido de suas palavras. o mar e todo o Mundo. e era desejada de todos a sua vinda: Ipse erit expectatio gentium. 132 . excogitavam aos dois textos referidos as explicações que neles se podem ver. Jerônimo quer que fossem da Arábia Feliz. e argüir contra esta nossa suposição (como argüiu S. e moverei todas as gentes e virá o desejado de todas elas» De sorte que. vieram adorar Cristo e oferecer-lhe tributos. e verdadeiramente da nossa Índia Oriental. o vinham adorar e reconhecer. e por isso como a rei verdadeiramente seu. e se eram só de uma ou de diferentes nações. querem dizer reis ultramarinos. o certo e sem controvérsia é que todos eram reis gentios. Agostinho contra este último texto) que não podia ser que as nações dos Gentios. como diz a glossa. nem a fé ou a esperança de que havia de vir se tinha anuncia do ou manifestado às nações dos Gentios. S. senão por Monarquia universal de todas as outras nações e reinos do Mundo. Daqui a um pouco (diz Deus) «moverei o céu e a terra. pois antes de Cristo vir ao Mundo. quando não façam alguma violência aos mesmos textos. as três partes do Mundo até aquele tempo conhecido) sendo gentios. veniet desideratus cunctis gentibus. conforme profecia de David: Reges Tharsis et insula numera offerent. vencidos da força dele os maiores intérpretes da Escritura. não só era Ele o desejado e esperado do povo de Israel. senão Rei. com que as nações dos Gentios todas (geral e moralmente falando) ao menos algum tempo esperassem e desejassem a vinda do prometido e futuro Rei. que razão ou motivo tiveram para vir adorar um menino que eles mesmo conheciam e diziam que era Rei dos Judeus? Ubi est qui natus est rex Judaeorum? A razão e motivo que tiveram foi (como bem notou Almaino) porque sabiam e criam que aquele rei dos Judeus novamente nascido não era rei particular (como os outros reis hebreus) de uma só nação ou de um só reino. reges Arabum et Saba dona adducent. outros da Média.Anexo:Imprimir/ História do Futuro gentibus. outros os fazem da Pérsia. porque todos o esperavam por seu Rei e natural Senhor. e por certo modo de eleição segunda e humana escolhido depois de Deus para seu futuro Rei e Senhor. Mas de qualquer modo que seja. De sorte que antes de Cristo nascer e aparecer no Mundo. e quando somente estava profetizado e prometido já às nações do Universo. Monarca e Senhor universal de todos os reinos e de todas as nações. não só a hebréia. outros da Etiópia. o que se não verifica sem grande impropriedade nos reis da Arábia e Sabeia com respeito da Palestina. É tão forçoso e ao parecer tão evidente este argumento que. Pois se eram reis gentios. e render-lhe a devida obediência e vassalagem: debitam ei seu vero eorum regi et domino prestantes obedientiam. e de nenhum modo sujeitos ao domínio da república hebréia. as quais. esperassem e desejassem o Messias antes da sua vinda. Esta é a razão e o mistério por que os três reis do Oriente (em que se representavam. senão o esperado e desejado de todos os povos e de todas as gentes. Só vejo que podem reparar com muita razão os doutos. Sobre a nação daqueles reis. Porque aquelas palavras reges Tharsis et insule. senão as dos gentios a tinham aceitado e querido. porque aquele erit expectatio gentium e aquele veniet desideratus cunctis gentibus verdadeiramente significam própria espectação e próprio desejo. Eu tenho por mais provável que ao menos parte deles eram de regiões mais distantes. e não só por Rei particular dos Judeus. senão somente aos Hebreus. há variedade entre os Doutores. e . conforme a significação mais recebida.muito menos todas elas. e como tal o esperavam todos. antes de Cristo vir ao Mundo. e por isso como o Rei verdadeiro e Senhor universal de todos os reinos e de todas as nações do Mundo.

mas com efeito chegou. ou o que há-de vir. Anselmo. irscripta nomine Seth. Basílio. ver em Orígenes. não nega. porém. junto ao mar Oceano. S. Non chaldea arte. Até aqui este autor. Máximo. derivada desde Noé. etc. filho terceiro de Adão. Tomás e S. diz que tinham aprendido e sabido assim por doutrina e tradição de seus maiores. o qual. Ambrósio. Eutímio. continuou também unida a mesma tradição. e os mesmos Gentios com os Judeus. O primeiro meio é a tradição continuada desde Adão até Noé. ou a todas ou a quase todas as nações de todo o que naquele tempo se chamava Mundo. por deixar imperfeita e não acabada a obra que comeu. sobre S. antes aprova a tradição do futuro Messias. pois é certo que com a mudança das línguas não perderam os homens a memória nem a ciência. apud quos ferebutur quaedam scriptura. Gregório Nasianzeno. declarando o meio por onde os magos puderam entender que a estrela significava o Messias e que este havia de nascer na Judéia. e que só refere a fama. também com elas se espalhou pelo mesmo Mundo aquela noticia e esperança recebida de seus antepassados. II. o qual querem muitos que seja S. e assim se cumpriu uma e outra profecia. e se começaram novas nações. an alium expectatamus? 133 . S. e os dons que se haviam levar e oferecer ao Rei nascido que ela significava. S. e que todas estas notícias se tinham conservado entre os doutos e estudiosos daquela gente por tradição de pais a filhos. E o autor do Imperfeito na humildade. Cipriano. S. e referindo-se aos tempos de Set. e assim digo se devem entender ambas em toda a capacidade do seu sentido próprio e natural. por ser de tão duvidosa antiguidade. Sem. E posto que não tem por certo aquele livro. quoniam erat quaedam gens sita in ipso principio Orientis juxta Oceanum. e depois que na Torre de Babel se dividiram os homens e as línguas. Leão Papa. e da nova estrela que havia de anunciar o seu nascimento. sed potius delectante. conta haver ouvido de certo livro escrito com o nome do mesmo Set.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Assim é e assim foi. Este discurso é tão natural que não havia mister autor. Jerônimo. João Crisóstomo. e que neste livro estava descrita a aparição futura daquela estrela. o qual se conservava em uma nação das últimas partes do Oriente. S. E para que se veja que não era cousa impossível nem dificultosa ser a vinda do Messias desejada e esperada geralmente de todas as nações gentílicas. depois de Abel. que entre os Gentios se conservava. erant isti de genere Noe. sed de prisca sanctorum traditione majorum. foi a grande comunicação que em todas as partes do Mundo tiveram sempre com os mesmos Gentios. et muneribus ei hujusmodi offerendis. de apparitura hac stella. .S. no qual. como se pode. enquanto se conservou unido. que os Judeus esperavam. que o nome com que vulgarmente chamavam ao Messias era o Esperado. Pedro Crisólogo. que encheram o Mundo. Procópio. tomando esta tradição mais perto da fonte. cujas palavras citaremos depois. S. quae per generationes studiorum hominum patribus referentibus filiis suis habebatur deducta. como se vê nos termos que falaram os discípulos ou embaixadores do Baptista. no Sermão 157. Audivi aliquos (diz ele) referentes de quadam scriptura. cujos três filhos. Esta é a opinião comum dos Padres. O outro meio por onde os Gentios puderam vir em conhecimento da vinda e império universal do Messias. mostrarei aqui os modos e os meios mais prováveis e certos por onde o conhecimento e esperança do futuro Messias não só podia chegar. Mateus. Mas temos para maior confirmação dele o testemunho de S. Cam e Jafet foram os segundos povoadores do gênero humano. chamado o Imperfeito. entre os quais era tão vulgar e celebrada aquela esperança. Teofilato. et si non certa tamen non destruente fidem. quando perguntavam a Cristo: Tu es qui venturus es.

como os Etíopes. Mas quando nos faltavam estes testemunhos do Testamento Velho. e que a maior maravilha que levavam para contar em suas terras os que tinham ouvido aquele famoso oráculo era que. et Babylonis scientium me. Persas. porque conhecem a Cristo. diz o Texto Sagrado no III Livro dos Reis. IV. e sabem o que dantes não sabiam.. plusquam Salamone! Assim o dizem expressamente neste lugar . mas também as passeiam os príncipes — populorum et principum! Mas o que sobretudo é digno de maior memória. que. et ab universis regibus terræ qui audiebant sapientiam ejus. Pontos. pois só no dia de Pentecoste.. homens de todas as línguas. que é mais. como dizem comumente todos os intérpretes. como são os de Babilônia. não só freqüentam tuas ruas os do povo. Panfílios. sendo tão admirável a sabedoria e grandeza de Salomão. Memor ero Rahab. como são os asiáticos. Numquid Sion dicet: Homo et homo natus est in ea. E se no tempo de David era tão freqüentada a cidade de Jerusalém de todas as nações do Mundo. que era uma protestação pública dos que a professavam. Frígios. soubemos que acudiram ao convento e ouviram a primeira pregação de S. e muito mais a segunda. Que gloriosas cousas se contam de ti (diz David) e se escrevem nas escrituras de todos os povos. quando menos. é que todos estes. ainda havia de ter o mesmo Salomão um descendente que fosse mais sábio e maior que ele. como os Tírios. dezessete gêneros de homens de línguas e nações diferentes — Partos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Era Jerusalém antigamente a mais formosa cidade e o maior império do Mundo situado no meio de todo ele. que por isso se chamava Umbellicus terrae. E quem poderá duvidar que um dos principais mistérios que Salomão ensinava naquela cadeira universal do Mundo era o da fé e esperança do futuro Messias. et ipse fundavit eam Altissimus? Dominus narrabit in scripturis populorum et principum. Elamitas. Judeus. iam contar e ensinar a suas terras e príncipes o que dele tinham ouvido e aprendido. homens de todas as cores. que seria no tempo de seu filho Salomão. Asianos. Este é o sentido literal das palavras scientium me. Isto é o que tanto celebrava David naquela cidade em cuja fundação e formosura tinha ele tão grande parte: Glorosa dicta sunt de te. e o que sobretudo te faz gloriosa. que isso quer dizer homo et homo. em ti se vêem homens brancos. em ti homens negros. depois de ouvir a Salomão. e se conformam com o exemplo da Rainha de Sabá. que vinham de todos os povos e de todos os reis da Terra a Jerusalém pessoas enviadas por eles (que é certo seriam os maiores sábios dos mesmos povos e reinos) os quais. Pedro. Medos. aprendem o que dantes ignoravam. homens de todas as nações e partes do Mundo. Mesopotamios. primeira maravilha do mesmo Mundo. 134 . ó cidade santa. se o mesmo Salomão não fora maior maravilha! Para ver e ouvir estas duas maravilhas. e de todas estas gentes. e em sinal da mesma fé introduziu em todo ele a circuncisão. ó cidade de Deus! Em ti se acham todas as diferenças de homens. depois de edificado o templo. como são os de Etiópia. vindo a ti. porque o mesmo Cristo é o que falava neste Salmo por boca de David. cap. ao som daquele trovão do céu. depois de ouvirem e admirarem em presença a sabedoria de Salomão. bastava um só do nosso para abundantíssima prova das muitas nações de Gentios que vinham ordinariamente e residiam em Jerusalém. Et veniebant de cunctis populis ad audiendam sapientiam Salomonis. em ti os da Ásia. em ti os da Europa. civitas Dei. como são tantos outros estrangeiros. Capadoces. filho e descendente seu. em ti se acham todos os homens de África. em ti homens de todas as outras cores meãs. e como tal concorriam a ela de todas as partes infinitas gentes de todas as nações e ainda de todas as cores. foi a primeira que pregou nesta fé e esperança do Messias no seu Império de Etiópia. horum qui ferunt in ea. Ecce alienigenæ et Tyrus et populus AEthiopum hi fuerunt illic.

Com os Assírios 135 . como notou o mesmo Profeta: Et pertransierunt de gente in gentem. ou como três evangelistas que anunciassem às gentes a boa nova da mercê grande que Deus tinha . que chamavam com nome geral prosélitos. dos Persas. e com todas elas tiveram grande comunicação os Hebreus. Ajuntou depois disto a fome em Egito os doze irmãos. porventura até aquele tempo mal cridas. e que aí por mandado do rei. Et quomodo nos ( diziam todos estes no cap. já a. Romanos. Assim trouxe Deus naquele tempo pelo Mundo estas quatro testemunhas de suas promessas de reino em reino e de nação em nação. de guerras. Mas no tempo daquele comprido cativeiro Não havia casa no Egito em que o cativo não fosse mestre do senhor. enfim. Pontum et Asiam. se não fundasse tanto no receio de sua multidão que no medo de suas profecias. Judaei quoque et proselyti. filhos de Jacob e cabeças dos tribos. a Isaac em Gerara. a Jacob em Mesopotâmia. para que fossem três pregadores daquele primeiro Evangelho. et de regno ad populum alterum. onde tivesse por ouvintes todos os príncipes e sábios egiptianos: Ut erudiret principes ejus sicut semetipsum. primeiro tronco e pai de toda ela. Cretes et Arabes. entraram livres. que passaram entre as quatro nações imperantes e o reino ou povo hebreu. como diz David. dos Gregos e dos Romanos. As maravilhas que depois viram nos Egípcios é certo que acrescentariam fé às esperanças dos Hebreus. et AElamitæ. e não conservava a quarta parte da grandeza a que nos tempos de sua maior opulência tinha chegado.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Egipcios. Onde se deve muito advertir que. que seria nos tempos passados? Mas se importou muito para se estender a notícia do Messias por todo o Mundo a comunicação que os Gentios tinham com os Judeus em suas próprias terras. quæ est circa Cyrenen. permitiu a mesma Providência que por extraordinários caminhos fosse José levado ao Egito. II dos Atos dos Apóstolos) audivimus unusquisqe linguam nostram in qua nati sumus? Parthi et Medi. e algumas vezes mais estreita do que quiseram. Cretenses. Cirenos. à Terra de Promissão. e no mesmo tempo pôs a Providência divina aqueles três Patriarcas em diferentes nações e províncias: a Abraão em Canaã. E porque ao numero dos três Evangelhos não faltasse o primeiro. muito mais ajudou e adiantou a mesma notícia a muito maior comunicação e freqüência que os mesmos Judeus tinham e continuaram sempre nas terras dos Gentios. saíram vencedores. pusesse escola de sua sabedoria. Passados. que senhoreavam o Mundo. de pazes. assim como hoje os judeus convertidos à Fé de Cristo se chamam cristãos-novos . Phrygiam et Pamphiliam. continuaram cativos.prometido fazer a todas. et senes ejus prudentiam doceret. onde permaneceram até verem o cumprimento delas em Cristo. de presentes e de outros tratos e correspondências políticas. audivimus eos loquentes nostris linguis magnalia Dei. et AEgyptum et partes Liyæ. concorreram e floresceram no mesmo tempo os quatro impérios ou monarquias dos Assírios. Isaac e Jacob a vinda do Messias. que quer dizer novos. Africanos. desde que nasceu e começou no Mundo a nação hebréia. et advene Romani. que foi em Abraão. E se agora era tão freqüentada de nações estrangeiras. prometendo-lhes que em sua descendência seriam abençoadas todas as nações do Mundo: Benedicentur in semine tuo omnes gentes terrae. quando isto aconteceu. Todas as histórias sagradas estão cheias de embaixadas. et qui habitant Mesopotamiam. de confederações. Revelou Deus por três vezes sucessivamente a Abraão. de entradas. como a de Herodes. Arabes e outros convertidos das gentilidades. cidade de Jerusalém e o povo e república dos Hebreus estava quase arruinada. Judaeam et Cappadociam. e já pode ser que a crueldade de Faraó.

para que o alumiassem no meio das trevas em que todo estava. gue concorreram com Berodac. de Judas Macabeu. crescendo e multiplicando-se a nação hebréia. que estavam bem no coração de toda a Ásia. ficasse tão crescida e arreigada. porém. Ptolemeu e Trifon. com os Romanos. com Demétrio. no tempo de El-Rei Oseas . de Matatias. VIII dos Atos dos Apóstolos que se levantou uma grande perseguição na igreja de Jerusalém. O primeiro e principal desterro e cativeiro. cuja largura e comprimento. que Deus deu e repartiu aos doze tribos para sua habitação foi a terra chamada de Promissão. Heliodoro. que concorreram com diversos cônsules de Roma. com que eram levados e transmigrados a terras e regiões estranhas cousa poucas vezes vista em nações inteiras. e posto que o maior corpo daquela gente teve o sucesso que depois se verá. no qual foram levados os dez tribos desde Judéia até as terras dos Medos e dos Assírios. em tempo do Sumo Sacerdote Jado. com os dois Antíocos. A terra. mas com todas as nações do Mundo. como consta do I e II Livro de Esdras e da História de Ester. que concorreram com Alexandre Magno. como lemos nos mesmos Livros dos Macabeus. tomada em sua maior extensão. com Salmanasar. com Ful. e juntamente instruídos e alumiados os Gentios. Prometeu Deus a Abraão que multiplicaria sua descendência como o pó da terra e como as estrelas do céu. para que por este meio ficassem castigados os Judeus. como escreve Paulo Orósio. que muitos deles se dividiram por todas as terras orientais 136 . de Esdras. com Nabucodonosor e com Baltasar. em tempo de Jeconias. de que já dissemos. foi o de Salmanasar.Anexo:Imprimir/ História do Futuro notemos de Ezequias. com Dario e com Assuero. não chegava a oitenta léguas da nossa medida. E a razão desta providência foi para que. Com os Gregos. de Neemias. Assim lemos no cap. quae erat Jerosolymis. em tempo de Judas Macabeu. de Oseas. A primeira foi dar-lhes muitos filhos e pouca terra. para que. de Simão e Jónatas. tiveram muito particular trato e comunicação os Judeus. é certo. de Acáz. E não só com estes quatro estendidíssimos impérios. Com o mesmo fim ordenou a sabedoria e justiça divina que os maiores e mais gerais castigos daquela nação fossem desterros e cativeiros. et omnes dispersi sunt per regiones Judae et Samariae:. que concorreram com Ciro. de que se nomeia na Escritura Sagrada somente Lúcio. se espalhasse e estendesse por todas as nações do Mundo. escritas em tábuas de bronze. e foi assim que de doze netos de Abraão se formaram os tribos e destes cresceu e se multiplicou a mais numerosa nação que jamais houve no Mundo de um só sangue. de Zorobadel. como consta das mesmas capitulações feitas entre uma e outra nação. concorrendo Deus para este fim com disposições de mui particular providência. juntamente com eles assim espalhados ou semeados por aquelas terras. Com os Persas. se plantasse nelas a Fé e depois. por este meio tão natural e ao parecer não pretendido. como consta do I e II Livro dos Macabeus. de Simão e Jónatas. e levasse a elas a primeira luz da fé de Deus e da esperança de Cristo: e este é o mistério ou a energia de primeiro se haverem de multiplicar como pó e depois como estrelas. de Joaquim e do sacerdote Eliacim. mandadas pelos Romanos à Judéia. Finalmente. e não cabendo nos estreitos limites da sua própria terra. Severo Sulpício e outros autores latinos e hebreus. não falando no do Egito. como consta do IV Livro dos Reis e da história de Judite. E notam comumente os Padres e expositores que ordenou ou permitiu a Providência divina este desterro ou dispersão geral de todos os cristãos de Jerusalém pelas cidades e lugares daquelas províncias. por ocasião da qual se dividiram e espalharam os Cristãos por todas as regiões e terras de Judéia e Samaria: Facta est in illa die persecutio magna in ecclesia. como adiante largamente contaremos.

E a razão desta resistência. se vê claramente quão grande fruto faziam com sua presença nas terras onde estavam cativos e desterrados. 137 . com que mandou revogar a sentença de morte. ou desejo de adquirir riquezas. metia também a sua o Salvador do Mundo. cheias todas de fé. em tempo de El-Rei Joaquim. sendo aquele império dividido em 127 províncias. et usque hodie custoditur. que professavam. onde os mesmos Hebreus estavam cativos. em todas elas e em todas suas cidades estavam espalhados os Judeus. et filios altissimi et maximi semperque viventis Dei. que por malícia e vingança de um mau e soberbo privado — Aman — contra a mesma nação se tinha mandado executar.Anexo:Imprimir/ História do Futuro daquela vastíssima parte do Mundo. O segundo foi no tempo de Nabucodonosor. X de suas visões). e fazer-se patrão e senhor do maior morgado do Mundo. Princeps autem regni Persarum restitit mihi viginti et uno diebus..] sed alieno. qual era Assuero ou Artaxerxes que firmou aquele edicto. e o gênio indústria e inclinação tão particular que teve sempre esta nação ao comércio e mercancia. como filhos alfim daquele pai que. Desta inclinação dos Judeus se serviu a Providência divina para os levar suavemente às terras e regiões mais remotas. honra e sujeição ao verdadeiro Deus que os Judeus adoravam. Nas quais palavras. e nos mesmos imperadores supremos. como se vê nas palavras do edicto de El-Rei Assuero ou Artaxerxes. E destes temos o testemunho da Sagrada Escritura no cap. Não só entre a gente popular mas nos maiores ministros e príncipes. E já pode ser (se o pensamento me não engana) que fosse este o intento de Deus naquela lei do cap. que era droga naquele tempo que só nascia em Judéia. penetrando até as províncias de que então nem muitos anos depois houve notícia. que falava com o Profeta Daniel (como se lê no cap.. e nos fardos de mercadoria que levavam. conhecimento. e com tão pouco cabedal como uma escudela de lentilhas soube adquirir por indústria o que lhe tinha negado a natureza. metendo-lhes em casa. XVI do Livro de Estér. que. XXIII do Deuteronômio: Non fænerabis fratri tuo ad usuram [. para que esta maior liberdade ou impunidade de adquirir ou multiplicar fazenda fora de sua pátria os convidasse a sair dela e os arrebatasse voluntariamente às terras estranhas onde com eles se transplantasse a verdadeira fé. pela fé e conhecimento das cousas divinas que de sua conversação e doutrina (ainda sem particular estudo) se lhes pregavam. lhe deu por causa da dilação daquele despacho a resistência que fizera por muitos dias diante de Deus o Anjo Custódio do reino dos Persas. se achavam judeus daquela transmigração com todos os sinais dela. sem uns nem outros o pretenderem. era o grande proveito espiritual que os gentios persas conseguiam com a presença e comunicação dos Judeus. in nulla penitus culpa reperimus. de que é bom exemplo a China. como neste lugar notam todos os expositores modernos. as drogas do Céu entre as mercadorias da Terra. e os introduzir e misturar com todas as nações. cujus beneficio et patribus nostris et nobis regnum est traditum. sed e contrario justis utentes legibus. Nem se deve passar em silêncio a cobiça natural dos Judeus. e levados a Babilônia. como escreve o Padre Trigantio nas suas Relações da China. E aqui se entenderá o mistério com que um dos anjos custódios da nação hebréia. onde em nossos tempos depois de 2300 anos. comprando e vendendo. e com eles a fé do verdadeiro Deus. fez sua fortuna. e levava nele o trigo e mais o cálix de José. Nos autem (diz o edicto) a pessimo mortalium Judaeos neci destinatos. Cuidava Benjamim que só levava trigo no seu saco. na qual se permitia (posto que não se justificava) para com as nações estrangeiras. orando ele apertadamente pela liberdade do povo. em que os dois tribos que haviam ficado foram também cativos. Assim saíam de Judéia os mercadores. que era esse o nome de José no Egito: Vocabit eum lingua egyptiaca Salvatorem Mundi.

como muitos querem. ou fosse a América. da África e da Europa eram habitadas de Judeus: Itaque si exorat mea Patria tuam clementiam præpter ipsam. na Pérsia. Isto levaram as frotas celebradas del-Rei Salomão quando navegavam a terras de Ofir. como direitos ou gabelas daquela mercadoria? Não me atreverei a o afirmar assim. que levou do Brasil à Índia o Evangelho. se não era a terra de Israel. que era a Fé e conhecimento de Deus. mas sei que não é cousa nova em Deus. parecerem a alguém suspeitosos e dignos de menos crédito. maritimas. por serem da mesma nação. e Eneias levava às costas a Anquises. quando não havia comércio. saiba que os mesmos testemunhos se leram nas Escrituras Sagradas ainda com palavras mais universais e de maior encarecimento. na Arábia e na Etiópia. diamantes. querendo pregar na China. porque era santa aquela terra. ou fosse Ofir a Índia. a nossa Espanha. as teve abertas e francas? O primeiro rei de Portugal que se intitulou rei do comércio da Etiopia. sitas in diversis orbis tractibus. E se estes dois autores. Josefo. traziam ouro. a esperança do Céu. os sacramentos. pérolas. Assim começou Deus a espalhar o conhecimento de sua Fé pelo Mundo. Arábia. mediterraneas. Se não houvesse mercadores que fossem buscar a umas e outras Índias os tesouros da terra. Naaman Siro trouxe de Damasco as suas azêmolas com carga de ricos presentes para oferecer a Eliseu e levou-as carregadas de terra de Israel. porque não teve quem o levasse. traçou que o pregador entrasse como negociante. meter neles a Fé às costas do interesse. Africa. para que a Fé tivesse lugar como mercadoria. Tomé. e o comércio leva os pregadores. império famosíssimo já naquela idade . nos enriqueceu com o que trazia do Céu. rubis. Os pregadores levam a Fé aos reinos estranhos. Assim entravam os negociantes hebreus em Judéia ricos e acrescentados com as drogas mais preciosas de todo o Mundo. no Livro XI de suas Antiguidades. depois que o comércio bateu a elas. diz assim a Relação ou Relatório de suas 138 .pela riqueza e opulência de suas minas Isto vinha buscar a cobiça. tomando de nós o que tínhamos na Terra. sendo certo então o que depois vimos nas frotas das nossas Índias. E em quantas províncias achou o Evangelho fechadas as portas e. diz que a nação hebréia tinha cheia toda a redondeza da Terra: orbem terrarum replevit. No edito que passou Assuero para que morressem todos os Judeus sujeitos às terras de seu Império. quando iam. S. E Filo Hebreu. que muito mais ricas iam do que voltavam. a graça. Europa. e o comércio leva às costas os pregadores.Anexo:Imprimir/ História do Futuro E que seria se a este título justificasse Deus as usuras que permitia aos Hebreus nas outras nações. diz que a maior parte de todas as ilhas e terras firmes maritimas e mediterraneas da Asia. Asia. Pérsia e dia foi o que introduziu a Fé na Índia. naquele memorial ou livro que intitula De Legatione ad Caium. e o que principalmente levavam de Judéia para o mesmo Mundo. houve de caminhar (como é tradição) por cima das ondas. Quando voltavam. posto que tão alegados e seguidos de todos os que escrevem. alias civitatis demereberis plurimas. insulares. ou fosse. e aquilo vinha trazer a Providência. era urna droga que só se dava então naquela terra. prata. levavam a Fé de Cristo. quem havia de passar lá os pregadores que levam os do Céu? Os pregadores levam o Evangelho. e o segundo Apóstolo do Oriente. as verdades do Evangelho. os desterros e a estreiteza da terra própria foram as três ocasiões principais por que os Judeus se saíam e Deus os derramava por todas as terras e nações do Mundo. e assim deu princípio àquele admirável comércio em que depois. De maneira que o comércio. quando quer passar a religião de um reino a outros. Quando os deuses de Tróia passaram a Itália. a salvação. Anquises levava os deuses na mão.

. como se vê das provisões de S. Era Jerusalém naquele tempo (e muito mais antes daquele tempo) a corte dos rei. quae appellatur libertínorum. onde se ajuntavam principalmente aos sábados. et eorum qui erant a Cilicia et Asia. nas quais palavras se diz votada e expressamente que o povo hebreu naquele tempo estava espalhado por todo o Mundo:In toto orbe terrarum populum esse dispersum. reino corte ou povo notáve1 onde houvesse tanto número de Judeus que só ó que deles assistiam em 139 . nem podia ser mais que um conforme a lei). e ali se tinham as pregações. separada e particular. E era tanto o número destas sinagogas em Jerusalém. Lucas) muitos judeus moradores da mesma cidade. assim e muito mais se observava o mesmo uso entre os Judeus. e todas as outras conferências das cousas espirituais ou eclesiásticas. gente por natureza tenacíssima dos seus costumes e ritos. como advertiu S. cada uma de diferente nação. et contra omnium gentium consuetudinem faciens. Paulo: Secundum consuetudinem autem Paulus introivit ad eos. Cilicianos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro culpas: In toto orbe terrarum populum esse dispersum. se pode ser ainda mais notáveis: Erant autem in Hierusalem habitantes judaei viri religiosi ex omni natione quæ sub caelo: «Havia em Jerusalém (diz S. como hoje é Roma da Nova. o assento dos tribunais. e que desobedeciam os mandados dos reis e eram rebeldes contra todo o gênero humano: adversus omne genus humanum.» para cuja inteligência se deve supor que todos os hebreus que viviam longe de Judéia em diferentes nações. e que com a novidade de suas leis perturbavam a paz de todas as gentes e de todas as nações:omnium gentiam et universarum nationum. a universidade das letras. Quod cum didicissemus. que quando ultimamente foi destruída aquela cega cidade por Tito e Vespasiano. mas se mostra também com a mesma clareza que os efeitos dessa dispersão era ser pública e notória a todas as nações e reis e a todo o gênero humano a nova lei e nova Fé diferente de todas as outras que os mesmos Judeus professavam. No I capítulo dos Atos dos Apóstolos temos outro testemunho sagrado igualmente universal e por termos. as quais sinagogas não eram propriamente igrejas como as nossas (porque o templo era um só e comum a todos. Cirenenses. província. à qual estavam sujeitos todos os Judeus e professores da mesma Fé. et Cirenensium et Alexandrinorum. como se conta no capítulo XVII dos Atos o fazia ou costumava fazer S. Crisóstomo e outros Doutores. reinos ou cidades populosas tinham em Jerusalém suas sinagogas particulares e distintas. et per sabbata tria disserebat eis de Scripturis. nostrisque jussionibus contraire. que era terra de gentios sujeitos a El-Rei Arctas. Paulo. como refere Lorino. E no capítulo VI do mesmo livro se faz expressa menção das sinagogas diferentes que dizíamos: Surrexuntur autem quidam de Synagoga. senão que cada uma das comunidades dos Judeus pertencentes a estas províncias tinham a sua sinagoga própria. E estas culpas assim relatadas que vêm a ser senão um testemunho público e autêntico de tudo o que imos provando? Porque não só consta delas estarem os Judeus espalhados por todo o Mundo. homens religiosos de todas as nações que cobre o céu. e sobretudo era a cabeça da Igreja da Lei Velha. qui novis uteretur legibus. mas eram umas casas grandes e públicas. et universarum concordiam natonum sua dissensione violaret. Asiáticos e Alexandrinos. agentes requerentes e igrejas particulares em Roma. e ainda hospitais da mesma nação. jussimas etc. mas no qual texto. não se há-de entender que uma só sinagoga fosse dos Libertinos. et turbare subjectarum nobis provinciarum pacem atque concordiam. se acharam nela. regnum jussa contemneret. ainda que vivessem em outros reinos. e assim como todos os reinos e repúblicas da Cristandade têm seus embaixadores. quatrocentas e oitenta sinagogas. videntes unam gentem rebellem adversus omne hominum genus perversis uti legibus. as disputas. as quais ele foi buscar a Jerusalém contra os Judeus de Damasco. os conselhos.

mas Deus que escondido e desconhecido salvais. Destes altares havia outros. este poeta declarou ser ele o Deus que adoravam os Judeus. Mas nesta mesma incerteza com que falou no Deus criador do Mundo. onde. E estes eram aqueles a quem S. facitis eum filium gehennæ duplo quam vos. isto é.» E Josefo. como logo lhes declarou o mesmo Apóstolo. mas o Deus dos Judeus não era conhecido de nome. levantados entre as gentes mais políticas e celebradas da Gentilidade. chamou judeus de longe: Vobis enim est repromisio et filiis vestris et omnibus qui longe sunt Vivendo pois os Judeus tão misturados e travados com todas as nações dos gentios. dizendo-o só absoluta e incertamente: Quisquis fuit ille deorum «quem quer que foi o Deus» que o criou. Porque os deuses dos Gentios eram conhecidos pelos seus nomes particulares de Júpiter. ao qual os Gentios chamavam Deus incerto. e que estes monumentos de Religião e este conhecimento de Deus não conhecido se tivesse derivado aos Gentios da doutrina e trato com os Judeus. ensinai-lhes tais doutrinas que o fazeis mais filho do Inferno do que vós sois. repreendendo a hipocrisia dos escribas e fariseus. peregrinavam e navegavam por todas as terras e mares do Mundo. porque 140 . e este foi o mistério daquela erudita ignorância. «Cercais o mar e a terra para converter um gentio à Fé. Pedro. como escreve o Cardeal Barónio. o conhecimento da Fé de Deus e esperança de Cristo. provam-no agudamente alguns autores. criador do Céu e da Terra. e por isso se chamava Inefável. descrevendo Ovídio a criação do Mundo. e o davam a conhecer aos Gentios. Senhor. diz assim: circuitis mare et aridam. com o mesmo título de não conhecido. Tal era aquele altar que S. no Livro II de suas Antiguidades. vós seis um Deus escondido. que este Deus desconhecido a quem não sabiam o nome era o Deus que criara todas as cousas. posto que depois a viciavam os escribas e fariseus do tempo de Cristo com a má doutrina e exemplo que lhes ensinavam. e não só pelo trato. como dizíamos. era o verdadeiro Deus. vindo a tratar do nome de Deus. porque lhes estava proibido tomarem na boca o nome de Deus. desta companhia se lhes pegara. no Sermão de dia de Pentecoste. Conheciam. com que. ensinados pelos Judeus. Mateus. senão também por indústria e estudo particular de alguns judeus mais zelosos. e juntamente se prova que com estas suas peregrinações e navegações levavam pelo mesmo Mundo a Fé do verdadeiro Deus. consagrado ao Deus não conhecido — Ignoto Deo — o qual Deus não conhecido. Desta verdade temos em prova (que não é só suspeita ou conjectura nossa) o testemunho e autoridade do mesmo Cristo no capítulo XXIII de S. ut faciatis unum proselytum: et cum fuerit factus. Deus absconditus et Salvator — dizia Isaías a Deus. e depois que está convertido. ensinavam e afeiçoavam a ela os gentios. Saturno. comunicação e exemplo. nas Gálias. nome que se não podia falar nem dizer. passou-o em silêncio e disse que lhe não era lícito pronunciá-lo: De quo mihi dicere non est fas. os Gentios. Vere tu es Deus abconditus. se não por zelo e cuidado particular da Religião. dos quais convertiam alguns.» Na qual sentença de Cristo se vê principalmente como os Judeus rodeavam mar e terra. na nossa Espanha e em outras províncias nobres da Ásia e da Europa. na Arábia. nem faltavam em diversas partes do Mundo padrões desta mesma verdade.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Jerusalém pudessem formar corpo e comunidade distinta. não o nomeou nem determinou o Deus que o criara. Marte. os quais com desejo de aumentar a sua religião e o culto do verdadeiro Deus. Paulo achou em Atenas. e finalmente que Não se fazia isto acaso e por ocasião do trato. isto é. aludindo a esta proibição: «Verdadeiramente. porém. Daqui se tira o novo e eficaz argumento de quão espalhados e multiplicados estavam os Judeus por todas as partes do Mundo.

com o de todas as outras nações e gentes do mesmo Mundo. por serem outras tantas (como dizíamos) as nações do Mundo. E para que concluamos este discurso com uma advertência em tal matéria digna de muito reparo. no princípio da Lei da Graça. como escreve S. E dois discípulos. Jerônimo. quae ingressæ sunt in AEgyptum. fez aquela divisão conforme o número dos filhos de Israel. No qual número alude Moisés aos filhos de Israel. por meio da sua pregação e doutrina. mediu o número dos filhos de Israel.. Tratou Cristo de dispor a pregação do Evangelho e conversão do Mundo. senão quando a primeira vez se ajuntaram com os Gentios? O mistério e razão desta providência foi sem dúvida porque tinha Deus destinado aos Judeus para mestres da Fé dos Gentios naquela primeira Igreja. e.. assim Deus. e crido com o sobrenome de incerto. na confusão da Torre de Babel. introduzindo-se o verdadeiro Deus nas outras nações e andando nelas como disfarçado. que já estavam unidas e se comunicavam. Assim entendem este lugar todos os Padres e intérpretes. chamando aos Judeus os adoradores de Deus incerto: Cultrix incerti Judæa Dei. igualou o número dos seus discípulos ao das nações e gentes do Mundo. também poeta latino e gentio. Assim o disse Claudiano. E se buscarmos nos expositores sagrados o mistério e proporção deste número. Destas. para que levassem por todo ele o conhecimento de Deus e a nova de que o Messias era já vindo. no princípio da Lei Escrita. fuere septuaginta. respondendo a cada um deles uma nação: Quando dividebut Altissimus gentes. que foram setenta almas: Omnes animæ domus Jacob. Temos a confirmação deste pensamento na mesma Providência Divina. 141 . responde S. os quais. elegeu sinaladamente setenta e dois. dividiu a todos os filhos de Adão em diversas nações e línguas. Lucas no capítulo X. quo erat ipse venturus. E a nova e promessa de que o Messias havia de vir é explicação admirável de outros setenta e dois intérpretes da divina palavra. in omnem civitatem et locum. que foram setenta e dois estes novos precursores e embaixadores de Cristo. que mandou diante de si: . no capítulo XXXII do Deuteronômio diz Moisés que. ·os quais consta do capítulo X do mesmo livro e do capítulo XLVIII dos Gênesis. E estes foram os primeiros rudimentos da Fé que os Judeus semearam entre os Gentios. Constituit terminos populorum juxta numerum filiorum Israel. os quais também concordam em que as línguas e nações em que Deus dividiu os homens (como se colhe do capítulo X do Gênesis. assim como Cristo. e com ele a sentença comum dos intérpretes. em correspondência também dos doze filhos de Jacob e dos doze tribos de Israel. porque eles eram os que haviam de levar e semear entre todas elas o conhecimento do verdadeiro Deus. que sempre é semelhante a si mesma em casos semelhantes. De maneira que. queria trazer (como trouxe) ao conhecimento da Fé. quando separabat filios Adam. se se tirarem a hebréia e egípcia. ficam pontualmente setenta.designavit Dominus et alios septuginta duos et misit illos binos ante faciem suam. conhecido debaixo do nome de incógnito. E era conveniente e necessário para este soberano fim que fossem tantos os mestres quantas eram as nações. porque esse era o fim e ofício para que foram destinados a todas as nações e tomados e repartidos conforme o número delas. em que se referem as famílias dos descendentes de Noé) foram setenta e duas. chamando neste lugar aos filhos de Israel anjos ou embaixadores de Deus. depois de nomeados os doze Apóstolos. que são os Hebreus. quando Deus.Anexo:Imprimir/ História do Futuro não tinha nome particular com que fosse conhecido e se distinguisse dos outros deuses. em lugar de — juxta numerum filiorum Israel — tresladaram — juxta numerum Angelorum Dei »— . que entraram no Egito. Agora pergunto: E que mistério ou que intento teve a Providência Divina em igualar o número de todas as nações ao dos primeiros hebreus e não em outro tempo ou ocasião. que o Senhor.

E como só estes livros havia no Mundo. origines. se os versados nas divinas Escrituras considerassem diligentemente a matéria delas e a traça e harmonia com que foram ditadas pelo Espírito Santo. assim os Ismaelitas. Deste rústico. dispondo-o assim a Providência. porque ainda não tinha gostado sua doçura. e não faltam grandes conjecturas para se crer que Moisés foi aquele prodigioso Mercúrio a quem os Antigos celebraram com o nome de Trimegisto. as histórias das gentes e das cidades insignes. aos Egípcios da África e aos Gregos da Europa. os Macedônios. os Persas. os Tírios. ainda vencem em Antigüidade os mais antigos filósofos e escritores gentios. tomou este soberbo e ingrato filósofo a sabedoria mais sublime que o fez o maior da Grécia. E não havia antes de Cristo província conhecida ou cidade de grande nome no Mundo. os Eveus. que tudo governa. foram as Escrituras Sagradas. os Caldeus. só estes se liam em todo ele. os Fereses. ordines. et (puto adhuc minus dicimus) ipsos. a origem. elas o entretenimento dos curiosos. dos seus historiadores e ainda dos seus poetas. de Moisés. fossem uma e muitas vezes lidas. que assim lhe chamou Aristóteles. Com razão chamou Clemente Alexandrino a Platão o Moisés de Atenas — Moyses Atlicus — porque de Moisés foram tirados todos aqueles lumes que deram a Platão em suas obras nome de divino. tudo vencem em muitos séculos de Antigüidade os livros de nossas profecias. os Egípcios. os Jebuseus. quando as deixou pela suavidade de Túlio. e ainda as mesmas cidades e algumas das gentes. delas imitaram e sobre elas fingiram. Este livro foi o que fez aos Caldeus mestres da Ásia. et oracula. os Amalecitas. para que mais se estendessem por toda a parte e fossem mais celebradas suas notícias. a que outro fim se faz neles tão freqüente memória de todas as outras nações do Mundo e seus sucessos? Assim temos os Cananeus. gentes etiam plurasque et urbes insignes. de cujos sucessos se não achasse alguma memória no 142 . os Gregos. os Madianitas. os vossos sacrifícios. elas o desvelo dos entendidos. os Gabaonitas. as causas e memórias do que escreveram e até a forma das letras e imagens dos caracteres. Sírios. É certo que. verá quanto as não largavam das mãos. Deos vestros. os vossos oráculos. sæculis vincit. e os autores que escreveram aqueles livros todos do mesmo Povo. leia com atenção os livros dos seus filósofos. et sacra unius interim prophetae scrinium. e verá o que delas tomaram. e tudo foi tomado do tesouro das escrituras judaicas. que são também as nossas: Omnes itaque substâncias omnesque materias. senão também para lição e estudo de todas as outras nações. os Romanos. os Eteus. Não lhes podia suceder então às Escrituras divinas o que depois lhes aconteceu com Jerônimo. em as fazer escuras. Até aqui Tertuliano. a matéria. Quem quiser saber facilmente quão estudadas eram dos Gentios as Escrituras. os Amorreus. in quo videtur thesaurus collocatus totius Judaici Sacramenti. os Amonitas.. os Sidónios. Agostinho) philosophi gentium nondum erant. O primeiro livro que viu o Mundo foi o Pentateuco. venas veterani cujusque styli vestri. os Medos. a ordem. para que. Tempore nostrorum prophetarum (diz S. Aos livros de Moisés se seguiram os outros sagrados. historiarum causas et memoriarum . achariam facilmente que não só foram escritas pela lei e observância dos Hebreus. que são entre todos quase os últimos. inquam. tendo sempre que entender. ipsa templa. os dos Profetas. «Tudo o que compôs o estilo dos vossos escritores — dizia Tertuliano aos Gentios — a substância. os Filisteus. et inde etiam nostri.. Elas só eram o estudo dos sábios. assim os Assírios. ipsas denique effigies literarum indices custodesque rerum. e os vossos mesmos deuses (e não digo nisto mais senão menos) os vossos templos. Esse foi um dos mistérios de Deus. os Etíopes. os Moabitas. sendo um só o Povo de Deus. porque.Anexo:Imprimir/ História do Futuro O terceiro meio de providência particular com que pôde chegar facilmente e chegou naquele tempo aos Gentios o conhecimento da fé e esperança de Cristo.

sem pôr monte sobre monte. falando somente do que pertence à história. que dividia os mares. obedecida da Lua e do mesmo Sol? O caduceu tão celebrado do seu Mercúrio que comparação teve com os poderes da vara de Moisés. um Datão e Abiron tragados da terra. e mais ainda não tinha sido o que depois dele se escreveu. a da vara de Moisés em serpente. porque o podia fazer com uma palavra? Não digo nada dos documentas da Escritura. uma novela ou enredo como a de José? Em que teatro dos Gentios se representaram aparências de tanto artifício como um paraíso terreal sumido no meio do Mundo. mas não tiveram fantasia para meter todo o Mundo em uma arca. parava os rios. como dos futuros nas profecias. mas dos fingidos e fabulosos. as rodas e os cavalos tudo de fogo? Que semelhança tiveram aquelas máquinas que se levantaram com nome de maravilhas do Mundo com a portentosa grandeza das que lemos nas Escrituras? Que estátua como a de Nabuco. edificado de seus fundamentos sem nele se ouvir o golpe de martelo? Um pavilhão que de dia cobria do sol seiscentas mil famílias. e depois de serpente convertida outra vez em vara? Descreveram as fábulas o dilúvio. que carroça como a de Ezequiel. que palácio encantado como o templo de Salomão. a divisão das terras. o nascimento das nações. nem arrimaram escadas ao céu. porquanto trato do doce e não do útil. uma tragédia como a de Aman. convertido em bruto. se não estivera revelado nas Escrituras. uma tocha que de noite as alumiava. que se pareça com os oráculos sempre certos do propiciatório? Que disse das vozes de Eudimião. que não exceda uma só voz de Josué. Que disse a Gentilidade da cítara de Orfeu. também ouvidas da Lua. não digo dos que professam verdade. um Enoc desaparecido . de que fugira o Inferno? Que disse das respostas duvidosas do seu Apolo. que se iguale com a harpa de David. comendo serpentes. que falou universalmente de todos os maiores impérios. que jardins como os de Assuero. que coluna como a do Deserto. Mas quando nenhum destes tesouros houvera depositado e encerrado nelas. a ordem e cronologia dos tempos. a origem das línguas. tão ignorado entre todos os sábios. dizia Daniel. E que nação destas haveria que não lesse com grande atenção e cuidado os oráculos daquele famoso profeta. só do que leva o apetite e não do que move a razão. onde estavam conhecendo seus nomes e lendo as fortunas? Bastava só para mover a curiosidade universal de todas as gentes à lição dos livros Sagrados. e um Elias voando pelos ares em um carro de quatro cavalos. sed non ut lex tua. Que gigantes fabulosos filhos da terra se atreveram a edificar uma torre como a de Babel. nem confiança para o salvar nela. como a de Jacob? Que metamorfoses ou transformações fingiram como a de Nabucodonosor. Qual poeta se impôs ou traçou jamais uma comédia como a de Job. que livros se escreveram jamais. fazia caminhar os montes? Onde se lê tal agravo de onipotência como no tenente daquela vara em quem foi culpa tirar fontes de um penhasco com dois golpes. do que tudo houvera perpétua ignorância nos homens. o carro. já dissemos que se chamava coluna.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Testamento Velho. serem só eles os que revelaram e descobriram o Mundo o segredo de seu primeiro princípio. Não falo já de Daniel. Que se podia inventar de maior pasmo aos ouvidos. mas só em nove capítulos de Isaías lemos sinaladamente as profecias de onze nações diferentes. que ouvir falar um jumento com Balaão e uma serpente com Eva? Que se podia 143 . que igualem em grandeza e variedade de casos admiráveis a menor parte ou sombra do que se refere nas histórias sagradas? Narraverunt mihi iniqui fabulationes. assim dos passados nas histórias. a da mulher de Lot em estátua. chamadas cada urna por seu nome a ouvir a sentença e a saber da boca de Deus o que lhe estava por vir.de repente.

vencedor de trinta e um reis. atado sete vezes. deleitam e suspendem tanto a curiosidade dos homens? Que desafio como o de David. fez brotar dela uma fonte. matou. mas lavrador que. Segundo Sansão. dando com o templo em terra. primeiro foi matador de sua sepultura. com uma funda e um cajado contra o gigante coberto de ferro? Que batalha como a de Gedeão. arrancando um dente da mesma queixada. matou com ele em um dia seiscentos filisteus. que comer em uma iguaria todos os banquetes e gostar em um só maná todos os sabores? Que se podia imaginar de maior suspensão e assombro à vista. ainda conhecidas por falsas. lançou a mão direita e esquerda a duas colunas. em campo aberto. quando entrou pelas portas de Betúlia com a cabeça de Olofernes. e depois ficou ali não sei se diga morto. fazendo montante do arado. e juiz depois de lavrador. se mortalmente oprimido do peso de tamanha vitória. aquele que.Anexo:Imprimir/ História do Futuro fingir de maior lisonja e admiração ao gosto. quebrou com as mãos os ferrolhos e lançou às costas as portas. se não fugiram todos? Teve sede Sansão. e o fortíssimo Macabeu. sepultou debaixo dele todos os idólatras. derrubados com os instrumentos dos músicos do templo! Que emboscada como a de Abimelec em que os bosques e as sombras caminhavam juntamente e os soldados com eles? Que vitória como a de Jónatas. aquele que. e. cansado de matar. encomendado com maior ventura à própria mãe para que o criassem a seus peitos? Que maravilha como a da sarça verde e sem arder no meio das chamas. a dos meninos de Babilônia tomando fresco na fornalha. e deixou semeando com seus corpos o campo que andava lavrando. tomando posto nos braços da Princesa do Egito. só com trombetas e luzes em cântaros de barro? Que bateria como a dos muros de Jericó. Mas que direi das façanhas e cavalarias que. aquele que. e de entre a lenha e a espada escapando vivo? Que caso tão bem tecido como o de Moisés infante. Fique à trombeta da fama Josué. em que degolou de um golpe todo aquele seu exército? Mas passando nós a encontros de maiores forças em que pelejaram os braços e não a indústria. porque dedicou todos a Deus. Todas estas forças tinha este bizarro mancebo em sete cabelos. em que um só capitão com um só soldado. mil de seus inimigos e ainda matara mais. levado ao templo dos Filistinos. restaurador vítima da sua pátria. que Hércules Tebano como Sansão. e ver dali a três dias surgir a baleia. Assim obedecem os elementos a quem assim triunfa dos homens. de uma só rompeu as cordas e nervos como se foram teias de aranha. que história tão admirável como a da casta Susana? Que sacrifício tão lastimoso como o da filha de Jepta. pôs em fugida e desbarato o exército inumerável dos Filisteus? Que triunfo como o da galharda Judite. e a da serpente do Deserto dando vida aos mordidos só com olharem para ela? Que prudência como a de Salomão em mandar partir o menino para conhecer a mãe verdadeira? Que engenho como o 144 . ver levá-lo consigo ao fundo e desaparecer. o sangue e o estrondo das armas. com uma queixada de um jumento. preso dentro da cidade de Gaza. e tão venturoso como o de Isaac posto já sobre o altar. foi Sangar capitão do mesmo povo depois de juiz. que. desembarcá-lo a fera vivo nas praias de Nínive? Como estes são os prodígios que se encontram a cada página nos Livros Sagrados. já entregue à fúria do Nilo na barquinha ou naufrágio de vimes. Paremos no valente Eleásaro. metendo-se intrepidamente com a espada debaixo de um elefante armado. desde seu nascimento. Mas deixando a guerra. a de Daniel comendo e não comido no lago dos leões. que ver o monstro marinho engolir a Jonas. aquele que.

o 53. e com termos que Não admitem outro sentido nem interpretação. como ele era a quem tão de perto tocava aquela felicidade e a quem particularmente estava prometida. XCVI. como dissemos. o Salmo IX. como todas. no estilo e disposição das escrituras do Testamento Velho (tão diversas nesta parte das do Testamento Novo) temperando a alteza e majestade de seus mistérios com o sabor de tantas verdades gostosas e com a variedade de tantas maravilhas tão novas e tão notáveis. o 54.Anexo:Imprimir/ História do Futuro de Jacob em meter as cores pelos olhos das mães. para que deles possa entender o leitor (que é o que só lhe pretendemos persuadir) quão fraca seria a todas as nações dos Gentios a lição dos Livros Sagrados quando chegassem a suas mãos. o Salmo XLI. apenas se acha cláusula em muitas delas que não esteja anunciando esta vinda e este Reino. vê-se clara e naturalmente da matéria das mesmas Escrituras. de Etiópia (se bem havia muitos hebreus. 145 . fundamentais desta nossa História. em que o Reino universal daquele futuro Monarca está expresso e declarado com palavras tão vulgares e tão significativas. Bastem estes poucos exemplos. entre os Gentios. que como as de David com Saul e as de Cusai com Aquitofel? Tudo nas divinas Escrituras é divino. os dois textos de Daniel. tudo raro. o Salmo XLV. que. para pintar os cordeiros antes de nascerem? Que indústria como a de Daniel em semear de noite o templo de cinza. o II. E deixando à parte os lugares mais escuros (que esses não os entendiam os Gentios sem intérprete) como se viu no eunuco da rainha Cândaces. Nos Salmos de David. que não fizesse conceito do que diziam? Mas basta ao nosso intento que o fizessem os doutos e os entendidos. que não visse e conhecesse que era prometido naquelas palavras um Rei futuro. a clareza com que está apregoado e a pompa e majestade de palavras com que está engrandecido o Reino de Cristo. os Salmos e os livros de Moisés: Necesse est impleri omnia quae scripta sunt in lege Moysi et prophetis et psalmis de me. e como este foi o altíssimo conselho da Providência Divina. o 35. ainda que fosse sem fé. mais aludidos que contados. e muitos outros de todos os Profetas. XLVI e XLVII. aprendessem por eles a Fé de Deus e juntamente as esperanças de Cristo. o Salmo CII. o 52. senão de todas as gentes e reinos do Universo? E quando todas as outras profecias tivessem alguma escuridade que eles não pudessem entender ou interpretar por si mesmos. o 65 e o 66 de Isaías. para mostrar de dia nas pegadas dos sacerdotes e seus filhos que eles e não o ídolo eram os que comiam as ofertas? Que subtilezas de Estado tão bem entendidas como as dos Livros dos Reis. sem beberem daquelas fontes esta esperança. o 9. 2. de uma só ou algumas nações. LXVII e LXXXVIII. todos estes catorze salmos têm por principal assunto o Império do Messias. para que. foram ordenadas à vinda de Cristo. XCVII. O Salmo II. Três partes da Escritura. disse Cristo aos discípulos que falavam mais particularmente na sua vinda ao Mundo: os Profetas. o Salmo LVIII. convidados com o cevo da curiosidade os que ainda não deviam àqueles livros outros melhores respeitos. é cousa maravilhosa a freqüência com que está repetido. que homem os podia ler com juízo e entendimento. XCV. e de Cristo em quanto Rei e Senhor do Mundo. E quão impossível cousa seja poderem ler os Gentios as Escrituras Sagradas. a quem estes podiam perguntar a interpretação quando quisessem) o cap. o Salmo XCII. e não Rei como os que costumava ver no Mundo. que gentio havia de haver. por bárbaro e ignorante que fosse. tudo maravilhoso. e fora matéria imensa de prosseguir e impossível de compreender querer levar por diante os princípios deste não intentado discurso.

e particularmente os livros de Moisés. omnes gentes servient ei. e foi insigne profeta de Cristo. e no Salmo XCV: [Dicite] in gentibus quia Dominus regnavit.Anexo:Imprimir/ História do Futuro E porque não duvidassem os Gentios que eles. e no Salmo XCVIII: Dominus in Sion magnus. Era Job verdadeiramente gentio. eram as que haviam de ser sujeitas a este grande Império. e no capítulo XXII. senão na de um seu descendente: Benedicentur in semine tuo omnes gentes terrae. as suas terras e as suas coroas. finalmente. vinte nove vezes lhes repete e inculca o mesmo Daniel esta gloriosa sujeição. lendo os Gentios como liam as Escrituras. Finalmente.. não só têm por ocasião da mesma história muitas profecias e promessas desta esperança. com que as nações gentílicas puderam conhecer. lhe promete Deus terceira vez a mesma bênção. e no Salmo XXI: Adorabunt in conspectu ejus universæ familiæ gentium. que era o esperado Rei e Messias do Mundo. Que gentio podia haver tão rude. Assim que. et ipse erit expectatio gentium. Em Isaac no capítulo XXVI: Benedicertur in semsa tuo omnes gentes terræ. posto que sejam principalmente históricos e não proféticos. Job. quoniam Domini est regnum. e no Salmo LXXI: Adorabunt eum omes reges terræ. que gentio.a alegação de Cristo). não podiam deixar de vir em conhecimento. que lendo no Salmo II: Dabo tibi gentes hæreditatem tuam et possessionem tuam ter minos terræ. etenim correxit orbem terrae. que não podiam deixar de ser lidas deles com grande advertência e recebidos com grande aplauso. nomeadamente dos mesmos Gentios. e em Jacob. em prêmio da resolução e obediência com que Abraão não duvidou de sacrificar seu filho.. a quem conheceu por universal Redentor: Et scio quod Redemptor mous 146 . idumeu de nação. com declaração que não seria na sua pessoa. senão clara e distintamente pelo seu próprio nome de Gentios. os dos Salmos e os dos Profetas. ao menos não conhecesse aquela esperança? Deixo de ponderar mais lugares de David. neto do mesmo Abraão. A qual promessa tornou Deus a ratifica quarta e quinta vez em Isaac.cum benedicendae sint in illo omnes nationes terræ. que. a primeira vez que Deus apareceu a Abraão e o mandou sair da pátria. tão alheio do lume da razão e tão gentio. Seja o primeiro exemplo desta luz aquele grande varão mais conhecido pelo testemunho da paciência que pelo lume da profecia. falando com eles nomeadamente. em toda esta História. No capítulo XII. e em Jacob. mas tão dirigidas e encaminhadas todas as nações. lhe prometeu que seriam abendiçoadas nele todas as nações da terra: In te benedicentur universæ cognationes terræ. que todos o desejassem e esperassem todos. O quarto e último meio e mais imediato da Providência Divina. e tal conhecimento de Cristo. podia ler estes textos ou ouvir estes pregões tão expressos e declarados do domínio daquele futuro Rei sobre todos os Reis e nações do Mundo. no capítulo XXVIII: Benedicentur in semine tuo cuntae tribus terræ. e com efeito conheceram. sempre pelas mesmas palavras. nas quais se lhes prometia por boca de Deus que seriam abendiçoadas em um homem da descendência de Abraão. foram muitas revelações particulares daquele mistério com que Deus em diferentes tempos alumiou por si mesmo a vários homens e mulheres de toda a Gentilidade. do Gênesis. donec veniat qui mittendus est. e no capítulo XVIII torna a referir Deus esta mesma promessa: . natural da terra de Hus. De sorte que em um só livro de Moisés tinham os Gentios seis profecias claras e que claramente falavam com eles. et excelsus super omnes populos. os livros de Moisés (que era a 3. filho. se não cresse aquela Fé. porque o faremos muitas vezes. o prometido Messias. e não por termos enigmáticos ou metafísicos. no capítulo XLIX do mesmo livro dos Gênesis está o famoso texto já referido um dos dois em que fundamos todo este discurso: Non auferetur sceptrum de Juda. digo.

tivessem também os Gentios os seus. suum votum et totam illam futuram seriem praesertim ad salatem mortalium spectantem. Notem-se bem estas últimas palavras. ita gentibus per Sibyllas ostendere voluisse per idem numen fatidicum. e quão pública seria entre eles a esperança de Cristo Balaão (cujo espírito profético é tão vulgar que não tem necessidade de provas) não só foi gentio. que em tempos futuros havia de imperar no Mundo e havia de sujeitar a seu domínio todas as nações dele. este gentio. ou difamada (como diz S.. e muito famosa. quod de illo tempore prophetavit quia Christi deitas habitum nostrae carnis induta est. mas não de perto. e como todos fossem reis e senhores de suas terras (assim lhes chama o Texto Sagrado no capítulo I de Tobias) com aquela suprema autoridade e com o conhecimento e sabedoria que tinham do Céu . illum. E digo que não só os Hebreus entendiam assim este lugar. Agostinho) que comunicou Deus o espírito de profecia a estas famosas mulheres. e em quem esperou ver a Deus vestido de carne: In carne mea videbo deum meum. se aos Hebreus pelos Profetas. de que se ve facilmente quão notória era no Mundo e quão pública entre os Gentios esta esperança. falaram com termos de 147 . sed non prope: orietur stella ex Jacob. assim pelos Hebreus.. porque. (o qual não duvidou de se chamar a si mesmo auditor sermonum Dei. ou aos Gentios pelas Sibilas. Os amigos de Job também eram gentios de outras províncias vizinhas. nascerá a estrela de Jacob. pela qual memória ou notícia (diz o mesmo santo) informados os Reis Magos. mas também os Gentios. como ele diz. olharei para ele. já se vê quão ensinados teriam nela a todos seus vassalos.tão celebrado no capítulo XXIV dos Números: Videbo eum. puderam argüir do aparecimento da nova estrela o nascimento do novo Rei: . Leão Papa). como pelos Gentios.. intuebo. sicut Israeli per prophetas. Quer dizer: «Vê-lo-ei.ad intelligendam miraculum signi potuerunt Magi etiam de antiquis Baluam praenuntiationibus commoveri scientes alim esse praedictum et celebri memoria diffamatam. E se alguém perguntar curiosamente a quem e por cu]a boca falou Deus mais claramente.» As quais palavras foram sempre entendidas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro vivit. a memória desta profecia. principalmente das que pertencem a Cristo. assim como os Hebreus tiveram os seus Profetas. e também alumiados da mesma fé e confirmados na mesma esperança. e levantar-se-á o ceptro de Israel. qui novit doctrinam Altissimi et visionem Omnipotentis vidit) profetizou claramente de Cristo e de seu império naquele texto. de um Rei descendente da casa de Jacob. nas Anotações que fez sobre o original grego dos oráculos sibilinos: Sic prarsus sentio Deum totius universitatis opificem et administrum aeternum. et in carne mea videbo Deum meum. si revelante Deo praenuntiare potuit. mas não agora. et percutiet duces Moab. por ser muito célebre entre eles a notícia deste oráculo. vencerá todos os capitães dos Gentios e sujeitará todas as nações do Mundo. conforme a ordem e disposição eterna de sua providência.] miretur netivitatem dominicam agnovise Chaldaeos quam utique. por cujo meio a uns e outros fossem manifestos os conselhos divinos. como consta da mesma história e do que eles disseram nela. senão mau gentio. Máximo: Nemo [. principalmente aqueles que para a salvação universal do Mundo eram necessários. trazia sempre guardada no seio: Reposita est haec spes mea in sinu meo». Similiter et Job—diz Santo Agostinho— eximius prophetarum. sed non modo. respondo que em muitas cousas particulares.. Das Sibilas (profetizas também da Gentilidade) diz assim Xisto Betuleu. Dele diz S. vastabitque omnes filios Seth. Quer dizer este autor (e o confirma com o que disseram das Sibilas Lactanio Firmiano e S. et consurget virga de Israel. Este Balaão. potuit Gentilis agnoscere. e esta esperança.

S. cujo artifício é lerem-se pelas primeiras letras. e assim foi. (lacuna do original) No Livro VIII (que é o último) tem a mesma Sibila outros versos mais notáveis do gênero daqueles que os Gregos chamaram acrósticos. Depois diz que o Procônsul Flaviano lhe mostrou outros mais conformes às leis da gramática e da poesia. porque não guardam a ordem das letras iniciais. Salvador cruz.. omnem. traduzida por Xisto Betuleu. servator Crux Jesus Cristo. a soberania de seu supremo poder e a Monarquia Universal de seu Reino sobre todos os cetros e coroas do Mundo. os quais copia este naquele lugar. e nós deixamos de os pôr aqui. É a seguinte: Judicii metuet sudans presagia tellus Et Rex ceternus magno descendet Olympo Sublimis carnem mundumque ut judicet. como liam. sem tomar outra licença mais que a de desatar a última letra em duas. em que venceu a Marco António e Cleópatra no Egito. Estes versos estão em toda a sua propriedade no texto grego. Unum suscipient numen pravique bonique Summum. aqueles livros. Carnifer ille homines judex inquiret in omnes. A de João Bongro. para que se veja quão fácil era aos Gentios o conhecimento de Cristo pelos livros ou oráculos das Sibilas. tão galante é a frase com que o Santo declara o mal falado e mal medido daqueles versos. Os versos. e conceito de um Rei e de um Império futuro. Diz que nasceria este Rei e daria princípio a seu Império quando Roma dominasse e governasse o Egito. debaixo do qual se havia de renovar e restaurar o Mundo. no Livro XVIII De Civitate Dei. C e S. até o nascimento de Cristo. cap. porei somente aqui dois. como consta da. e não se poderão traduzir na língua latina com o motivo daquelas letras sem alguma variedade. qui totius orbis Omnia sceculorum per tempora sceptra tenebit. e acabou de dominar o Império Romano. Ille domus caecas et Ditis claustra refringet. e não terem notícia da Messias e da esperança e promessa de sua vinda. gazamque retostam. porque depois da vitória de Augusto César. as últimas relíquias de poder em que se conservava o Grego não passaram mais que doze anos. Não se podia descrever com maior clareza o tempo e circunstâncias do nascimento de Cristo. De muitos lugares e exemplos que pudera trazer desta diferença. e formar-se com elas alguma sentença. formando ao menos um conceito comum. diz que a primeira versão que chegou a suas mãos deste acróstico era em versos mal latinos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro maior clareza as Sibilas do que os Profetas. supremo cum Sanctis tempore mundi. antes quão impossível cousa era lerem eles. compreendeu e cumpriu felizmente com todas estas dificuldades. Horrida terra vias caeli spinceque tenebunt. Agostinho. Rejicient simulacta viri. XXIII. e que se não podiam ter em pé: Versibus male latinis et non stantibus. 148 . Rex etenim sanctus veniet. Dei filius. No fim do Livro II diz a Sibila Eritrea estes versos: Sed postquam Roma AEgyptum reget imperioque Fraenabit.. são trinta e cinco e a sentença é esta: Jesus Christus. nome ou inscrição particular. e fazer de um X. pois. como se pode ver facilmente de uns e outros livros. propriedade que falta em muitas outras versões latinas. summi tum summa potentia regni Regis inextincti mortalibus exorietur. Filho de Deus.

Erumnae et stridor dentis regnabit ubique. Não falou com palavras mais claras S. Succendet terram fulmen. argentea luna peribit. mortalibus ipsis In terris similis. Destes mesmos versos faz menção Eusébio Cesariense na Vida de Constantino Magno. Velivago nulli cernentur in aequore nautae. producent in auras Deteget et turbis Deus obsita corda tenebris. Ipsum deficiet solis decus astra colore Fusco obducentur. ast offensa malignis. quando disse: In similitudinem hominum factus et habitu inventus ut homo. no livro II De Divinatione. é a vinda de Cristo a julgar o .Anexo:Imprimir/ História do Futuro Sanctior a mortis jam nexu libera lucem Turba hominum cernet. consident ardua montis. com todas as circunstâncias de grandeza. quae clamet ad omnes 149 . Insurgent valles. pluet tum sulphure et igni Omnibus extabunt ligni vexilla verendi Robur et auxilium populo exoptata fidéli: Certa pio generi vita. scelerosos flamma piabit Ultrix bertetuum: mala quae quicumque patravit Sontica suppressitque diu. O mistério da encarnação está com tanta e maior clareza no Livro I dos mesmos oráculos das Sibilas: Tunc ad mortales veniet. Atque Dei solio sistetur judicis omnis Turba ducum regumque. E mais abaixo se lê a pregação do Baptista. fontesque dehiscent: Et tuba de caelo tristis clangore sonabit Raucisono mundi clades pereuntis acerbas. O sentido dos versos. em suma. que morreu cinquenta anos antes do nascimento de Cristo.Mundo. Mateus: Verum cum quaedam vox per deserta locorum Nuncia mortales veniet. e Marco Túlio. natus Patris omnipotentis Corpore vestitus. vaga lympha Solis arescet ripis. quase pelas mesmas palavras de S. Vastam terra chaos stygio monstrabit hiatu. Luxus sublimis mortales deseret oras. Immensos colles aequabunt marmora campi. Paulo. Rore bonos lustrans bisseni fontis ab unda: Virgaque qua pecori dat ferrea jura magister Carminis auspiciis qui crimina morte piabit Servator Rex arternus Deus ipse patescit. majestade e horror que pertencem ao aparato e execução do juízo.

sobre as ondas. O nome da Virgem. Placabit ventos dicto sternetque profundum Insanum.. cujus. segundo as leis da história. Sic ait: est illam caelestis gratia mo11i Leniit afiatu: tum virginitatis amatrix Perpetuae magno subito correpta stupore Atque metu trepida pressit formidine mentem. horrentemque feret de vepre coronam. Deum premio intemerata pudico. Collustrans lympha manibus senioribus (?) omnes Cuncta jubens faciet morboque medebitur omni.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Ut rectos faciant calles. mortalibus unde locutum Venerit. A embaixada do Anjo à Virgem com o mesmo nome de Gabriel descreve a Sibila no Livro VIII por estas palavras: E caelo veniens mortales induit artus. que instituiu e administrou. E porque não faltasse com todas estas circunstâncias. o império que exercitou sobre todas a criaturas. renati. resumindo todas as obras de Cristo. hinc tali affatur sermone puellam: Accipe. aparecimento da estrela e adoração dos Reis. compreendendo admiravelmente em tão poucas regras o nascimento virginal de Cristo. as enfermidades que curou milagrosamente. alegria e pasmo dos pastores. depois que teve (como ele diz) maiores as mãos. a paciência e humildade com que sofreu ser cuspido. açoitado e afrontado com mãos sacrílegas em seu próprio rosto. e coroado por escárnio com coroa de espinhos. Virgo. até o presépio de Belém. como da sua Paixão. fideque. animosque refurgent A vitiis et aqua lustrentur corpora cuncta. Ut nunquam doincets peccent in jura..] Perque feret tacitus cotaphos ne forte sciatur Quis sit. dissimulando debaixo de tantas injúrias a grandeza. poder e majestade de quem era e de quem o mandara ao Mundo. Finalmente. E pelo mesmo estilo vai prosseguindo a história da encarnação. Até aqui a Sibila. diz no mesmo lugar: Et brevis egressus Mariae de Virginis alvo Exorta est nova lux. o sacramento do batismo. Persimilem formam portans in Virginis alvum. placidis pedibus calcando. a sujeição com que lhe obedeceram os ventos. os mares que pisou andando placidamente. até lhe pôr a coroa (como se esta fora o fim e assunto do seu poema) conclui com estes versos: Ergo ad judicium veniet diciti memor hujus. assim da vida santíssima. 150 . assim como tinha declarado o do Anjo. Ad virosa genas praedebit sputa prudentes Verberibusque sacrum tradet proscindere tergum [Viriginem enim castam tradet mortalibus ipse. Ac primum cortpus Gabriel ostendit honestum Nuncius.

ne quis eorum qui in regio orbe denominabantur.. e que debaixo da metáfora de Asínio. posto que 151 . para que entendêssemos que as Sibilas foram as Musas Sicélides que exercitaram cousas maiores. filho do Eterno Padre. e sobre todos (lacuna no original). e certo são tão extraordinariamente grandes as cousas que o príncipe dos poetas diz naquele poema bucólico. talhado verdadeiramente para poeta de Cristo. Eusébio Cesareense. Intelligimus autem (diz Eusobio) dicta haec manifeste simul et obscure per allegorias prolata iis. qui carminum horum sensum altius sub conspectum divinitatis Dei scrutantur. que morreu treze dias antes do nascimento de Cristo. quae eis ad Christi lumen quasi proluceret: ut quod hic durat. innuere quomodo Poeta. E assim a primeira e mais relevante de todas se funda na união hipostática com que a humanidade sagrada de Cristo está unida ao Divino Verbo. que nem ainda do mesmo César se puderam dizer sem nota de demasiada adulação e indigna de um tão eminente juízo como o de Virgílio. que andavam nas mãos de todos. no já citado livro da Vida de Constantino Magno. é de opinião que esta quarta Égloga de Virgílio é toda alegórica. Desta mesma opinião de Eusébio são outros muitos autores. para que o não condenasse a superstição romana como violador da divindade dos deuses. encobrindo e envolvendo o vigilantíssimo Poeta a verdade desta sua fé e pensamento com as figuras e metáforas daquele seu Mecenas. por permissão ou castigo. como se vê em Platão e Aristóteles. e não nas de Aganipe ou Hipocrene. foi verdadeiramente escrita e dedicada a Cristo. Se já não foi (como considera o mesmo autor e o prova com Isaías) que a escuridade dos Profetas. nascidos e criados entre os resplandores da Fé e conhecimento de Deus. Por meio destes oráculos das Sibilas. rejiceret. era tão vulgar e famosa entre os Gentios a esperança daquele novo Rei e da idade dourada que havia de trazer ao Mundo com seu felicíssimo Reino. se acomodou à cegueira com que os Judeus haviam de negar a Cristo.. principalmente dos sábios. e carecendo aqueles de toda a luz e doutrina. ut in eum obscurarent alque ita sua.e Lacerda. e dos Modernos ao P. quod Mose et cetera disciplina carebant. pertinaciae poenas darent. Sendo a razão desta providência (como bem notou Castálio) a rudeza e ignorância das cousas divinas em que viviam os Gentios. que de versos de Virgílio teceu e compôs felizmente toda a vida de Cristo As razões mais fundamentais e sólidas com que se persuade e converte a verdade deste império temporal de Cristo são as que imediatamente se tiram dos mesmos títulos que acabamos de declarar. os quais constantemente se persuadem que o sujeito da IV Égloga virgiliana não foi outro senão Cristo. e que destas fontes bebeu aqueles levantados espíritos. Nonne (são as palavras de Castálio) quae de Christo gentibus praedicta sunt ea clariora esse oportuit. e a claridade das Sibilas à fé com que os Gentios o haviam de crer. veritatem occuluerit.. id oraculorum perspicuitate compensaretur? Accedit eo quod (quemadmodum scitur ex Isaia) voluit Deus Judaeis obscuriorem esse Christi adventum. aos quais era necessário se falasse com maior clareza do que aos Hebreus. conhecido pelos oráculos das Sibilas. filho de Polion. quod idem de gentibus dicere non licet. qual se não acha maior nem ainda igual nos Profetas. et quae jam olim inde a majoribus de diis credita fuiissent. tendo também estes ali tantos mestres que os pudessem alumiar e ensinar. veja nos Antigos ao mesmo. Quem tiver curiosidade de ver a alegoria de toda a Égloga aplicada e explicada de Cristo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Tanta como esta é a clareza com que falaram de Cristo as Sibilas. culpare posset quod contra patrias leges scriberet.. e cita nela os oráculos da Sibila Cumea: Ultima Cumaei venit jam carminis aetas. quanto a lemos elegantemente profetizada na IV Égloga de Virgilio.

e se. porque. e tão fora está deste perigo o império e domínio temporal que admitimos em Cristo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro esta mais se pode chamar natureza que razão. Lucas em Adão. do Profeta Zacarias. que sem implicação nem indecência se podem considerar nela. Se os Trajanos e outros imperadores e príncipes do Mundo deram seus impérios e reinos inteiros aos estranhos que adotaram por filhos. comentando o capítulo IX. Estas razões capitais se podem ajudar e revestir de várias congruências. antes. outra é o merecimento infinito de Cristo. et volatilibus caeli. por filho de Adão. Mateus começa em David. senão àquele que é imagem e retrato perfeitíssimo de sua sustância: Ipse est enim imago Patris et figura substantiae ejus? Haverá quem se atreva a dizer ou presumir que foi menor o poder de Cristo no Mundo que o de Adão ou que teve Adão poder que faltasse a Cristo? A carne de Adão que tomou Cristo não foi de Adão pecador. se não ainda em quanto homem. por Cristo ser verdadeiro e inteiro homem. o seu merecimento e a vontade divina. E se Cristo não foi filho de Adão escravo. que foi o princípio efetivo donde manou e se derivou a Cristo a comunicação liberalíssima. em conseqüência do qual merecimento se ajuntou a ele a vontade eficaz divina. que não só em quanto Deus. que se deve conceber e admitir na soberana pessoa de Cristo todos aqueles atributos de poder. como doutamente disse Stuniga. Como negaria logo Deus este mesmo poder. assim sobre as cousas e ações concernentes ao espírito. como advertiu o Apóstolo. foi muito conveniente que não só tivesse o Império espiritual que pertence às almas. et bestiis terrae. não era justo que tivesse sobre eles o domínio partido. composto não só de espírito. o qual. como as que pertencem ao corpo. melhor que Caim e Abel. inseparável a todas as suas ações. que é razão de si mesma. e por S. foi inveja. melhor que Salomão lhe foi devido o cetro de Israel.. assim que as razões fundamentais do império temporal de Cristo são três: o ser quem é. sem exclusão de poder. senão de Adão inocente. porque se lhe há-de negar o do Mundo? Finalmente. autoridade e soberania alguma. senão inteiro. como cabeça dos homens que são compostos de carne e espírito. A Adão deu Deus o império universal do Mundo com sujeição e otediência a todas as criaturas dele..ut sicut ipse e corpore et spiritu compositus erat. porque não reteria ao menos o que não perdeu em seu Pai? A geração de Cristo escrita por S. é princípio geral e recebido de todos os teólogos. e ainda alguma conseqüência indigna e de menos decoro. se não de carne. se não de Adão senhor. ita eum (Pater) et regem spirituum et corporum etiam fecerit. como havemos de crer nem imaginar que desse Deus só uma parte de seu império e domínio a Cristo. pelo qual lhe eram devidas todas as dignidades e grandezas humanas.. grandeza e majestade. porque todos lhe são infinitamente devidos. e seu filho natural e verdadeiro e unigênito? Se quis e não pôde (como em semelhante caso argumentava Agostinho) foi fraqueza. que antes da falta dele se podem arguir conhecidos inconvenientes. v. 9. e um ou outro pensamento fora blasfêmia contra o onipotente amor de tão divino Pai. por filho de David. Porque o império espiritual de 152 . ut tam late ipsius regnum et imperium pateret quam ipsius Dei. só por ser feito a sua imagem e semelhança: Faciamus hominem ad imaginem et similitudinem nostram. que facilmente se consideram muito convenientes todas ao decoro e majestade de Cristo. tomou a carne e não contraiu o pecado. se pôde e não quis. se não também o temporal que é próprio das corpos: . ut praesit piscibus maris. não digo já àquele segundo Adão que veio restaurar as ruínas do primeiro. e como investidora absoluta desta suprema e universal potestade.

antes acudiu à calunia de que falsa e sacrilegamente o argüiam. que o não poderia fazer livre e absolutamente a seu arbítrio e sem licença do dono dela (se comodamente o pudesse fazer de outra sorte): Indignum autem videtur (conclui o grande Doutor) haec et similia de Christi potestate sentire. senão desfazê-lo. e dizem que a pobreza evangélica. não era necessário exercitar todos os atos particulares delas. quanto a renunciação do domínio. em boa teologia. se Cristo quisesse mandar a um homem ou a um anjo uma ação meramente temporal alheia (ainda que fosse para obrar um milagre). quando deram a Cristo a bofetada em presença do Pontífice Caifás. pobre no nascimento. e muito particularmente desta . Sendo logo este sentimento indigno do poder e majestade de Cristo e da soberania de sua pessoa. e pobre sobretudo na eleição de pais pobres. e era não só 153 . se não também temporal. necessariamente havemos de dizer e confessar. praebe illi et alleram sabemos contudo que. havia outra razão mais forçosa e necessária. e não queiram mais pobreza. de que Cristo professou ser mestre. oh! que confusão para os homens. por supremo e universal que seja. O domínio universal que Cristo tinha do Mundo era o que mais subiu de preço os quilates de sua pobreza. que era ser este ato incompatível com a natureza e essência do mesmo Cristo. porém senhor absoluto de tudo quanto há e pode haver no Mundo. alguns que o querem ser. pobre na morte. como dissemos. e sendo uma das mais altas proposições de sua doutrina na matéria do sofrimento. virtude pode ser. ainda que os tivesse ensinado. para Cristo ser perfeitíssimo mestre e exemplar de todas as virtudes. Porque aquele domínio supremo e universal de todas as cousas fundava-se imediatamente. se não que também careceu do domínio de todas. oh! que exemplo. enquanto estas se ordenam ou subordinam ao fim e conservação das espirituais: e no caso ou suposição em que Cristo somente fosse Rei espiritual. só tem poder e jurdição indireta sobre as cousas e ações temporais. filius autem hominis non habet ubi caput reclinet. nem mais exemplo em Cristo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Cristo. pobre na vida. E quanto ao reparo da pobreza e desprezo das cousas temporais que Cristo veio ensinar ao Mundo. porque não é nosso intento divertir o argumento. e poder dizer com verdade: Vulpes foveas habent et volucres caeli nidos. Não ter uso das cousas do Mundo quem não tem ou teve domínio delas. não consiste só na mortificação ou temperança do uso das cousas temporais. se contentem com o que se contentou este Monarca temporal do Mundo: imitem a pobreza de Cristo. oh! que pasmo. e que espiritual e temporalmente lhe são todos os homens e todas as cousas sujeitas. mas quem queira ser e parecer filho de pobres: Quis est hic et laudabimus eum? Só Cristo e quem tem muito de Cristo. mas virtude que parece fortuna ou necessidade. segue-se que não só não teve o uso das cousas temporais. na união hipostática. Muitos há que querem parecer pobres. nós nos contentaremos com que os autores deste escrúpulo. ainda os mais desprezadores do Mundo! Mas replicam a esta resposta os autores da contrária opinião. logo. no desprezo e abdicação deste domínio é que devia Cristo dar-nos o exemplo da perfeita pobreza. que não é somente espiritual o império e domínio que Cristo tem sobre o Mundo. se não principalmente na renunciação do domínio delas. E pois é certo que foi Cristo consumadíssimo exemplar de todas as virtudes. e ter menos uso do mesmo Mundo do que os bichinhos da terra. cum te percusserint in una maxilla. Não era menos mestre nem menos exemplar Cristo da paciência do que o foi da pobreza. segue-se (como doutamente infere o Padre Soares) que. Primeiramente digo que. não ofereceu o Senhor a outra face. Mas deixada esta estrada geral. por santos e espirituais que sejam. digo outra vez que na pobreza de Cristo.

nem em quanto Rei nem em quanto Senhor. Quanto mais qnue ainda no caso em que fora possível na pessoa de Cristo a renunciação do domínio temporal de todas as cousas. posto que o Santo Doutor a não exprima. que renunciar o uso e mais o domínio. conforme o texto de David: Et nunc. porque nem fez ato que fosse próprio da dignidade real. O que podia só fazer Cristo era privar-se do uso dele. Finalmente. quia filius hominis est. Porque tão boa conseqüência é esta: Cristo não teve exercício de rei. como dizíamos da parte contrária. Art. Temos neste ponto contra nós não só os inimigos. provemos demonstrativamente a causa pelos efeitos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro propriedade inseparável. conforme aquele princípio vulgar da filosofia: Frustra est potentia quae non reducitur ad actum Mas começando pela forma desta conseqüência. sendo de Fé a premissa. como mestre e exemplar da perfeição evangélica. Por isso o mesmo Cristo. para que no mesmo exemplar aprendessem os religiosos a mortificação do uso e os prelados a moderação do domínio. Resolvem os defensores da opinião contrária. não todos mas só os que impugnam a nossa sentença. intelligite: erudimini qui judicatis terram. como esta: Cristo não teve exercício de juiz. não só devia dar exemplo aos religiosos que professam renunciar o domínio dos bens temporais senão também aos prelados e bispos. o Senhor lhes respondeu: Quis me constituit judicem super vos? E a conclusão é contra a Fé. logo não teve poder judicial. porque neiga contraditòriamente o texto de S. e por conseguinte nulo. e assim como Cristo não podia renunciar nem abdicar de si a própria natureza. e ao supremo bispo e supremo prelado. e assim o fez tão perfeita e perfeitissimamente como sabemos. dizem muito douta e conseqüentemente que. ainda 154 . logo não teve poder real. que. IV. ad. porque o ofício de julgar é parte da dignidade de Rei. Reges. de S. Tomás na Questão LIX. que vinha a ser totalmente ocioso este império temporal que consideramos em Cristo. assim (diz o Padre Vasquez) não podia renunciar nem demitir de si o direito soberano domínio. conserva o domínio e administração dos bens e só periga ou pode perigar na imoderação ou excesso do uso deles. a jurdição pelo exercício. E daqui inferem. para que ponhamos o selo à confirmação desta nossa sentença e acabemos de desfazer as razões ou admirações. porventura que era mais conveniente ao mesmo exemplo do Mundo conservar o domínio sem o uso. ou colhe demasiadamente ou nada. senão também os amigos. senão parte intrínseca dela. se chama nomeadamente Rei: Tunc dicet Rex his qui a dexteris ejus erunt etc. Paulo: Pater non judicat quemquam. e o direito (do modo que pode ser) pela posse. Foi logo convenientíssimo que em Cristo se ajuntasse o sumo domínio e o sumo desprezo e abstinência das cousas do Mundo. descrevendo o supremo e último ato de juízo em que há-de sentenciar o Mundo. sed omne judicium dedit filio. cujo estado. como expressamente ensina S. nem se serviu de cousa alguma do Mundo. Antes daqui se forma novo argumento em confirmação da verdade da nossa sentença. Lucas. e também muitos da nossa. I: Potestas judicis secuta est in Christo regiam dignitatem. porque havemos de ser tão estreitos de coração que lha não concedamos toda? Os que admitem ou veneram conosco em Cristo o título e domínio de rei e concedem contudo que não teve exercício dele. E se é certo e de Fé que Cristo tem esta parte da jurdição e dignidade real. que Cristo em toda a sua vida. A premissa é de Fé. porque a potestade judiciária em Cristo foi conseqüência da dignidade real. a potência pelos atos. é contra a Fé a conclusão. não teve exercício algum do império temporal. sendo de maior perfeição. E nesta segunda conseqüência. pedindo dois irmãos a Cristo que julgasse certa dúvida que tinham entre si. porque Cristo. porque lemos no capítulo XII. E a razão desta ordem natural é. como quem teve só o domínio e senhorio dele.

Persistindo na mesma suposição. E ter o domínio para poder e não querer usar dele (que é um ato heróico de humanidade e modéstia. Bem assim como na humanidade do mesmo Cristo é certo que houve alguma potência. que eram próprios só do legítimo Rei e verdadeiro Senhor do Mundo. se não em quanto Rei. nem o haja de ter em outro tempo. porém nós. ainda que o domínio temporal de Cristo não teve aqueles atos ou exercício positivo que costuma ter nos reis e príncipes da terra. como eles mesmos disseram: Ubi est qui natus est Rex Judaeorum? Vidimus enim stellam ejus in Oriente et venimus adorare eum. Para este uso ou desuso quis Cristo a procuração das espadas. como se vê claramente em muitos lugares e exemplos do Evangelho. tanto que entrou neste Mundo. temos por certo o contrário. que foi o não querer usar Cristo do mesmo domínio. como foi Cristo Rei e Senhor temporal do Mundo. que para poder dizer. O primeiro seja mandar Cristo. ou não querer usar dele. E se aquelas espadas só para este uso não foram ociosas. Item em receber os tributos que lhe ofereceram os mesmos Reis em reconhecimento da soberania suprema de sua majestade. mas não queria. poeta cristão da primeira Igreja. nem por isso se deve julgar aquele poder por baldado e ocioso. nunca visto até então no Mundo. porque é perfeição natural da Humanidade. E se não. a que podemos chamar negativo. por atos próprios de jurdição e domínio. porque o seria o domínio de Cristo. perguntemos a S. ponderando devagar a história evangélica. se pode também dizer. de maneira que neste sentido (que nem é vulgar nem violento) podemos dizer que não careceu Cristo do uso do domínio temporal que nele consideramos. que. senão quanto ao uso e exercício dela. e por última confirmação da nossa opinião mostraremos. e não só quanto a jurdicão e domínio. Ambrósio para que quis e mandou Cristo aos Apóstolos que comprassem espadas. incenso e mirra. como fazem os reis da Terra. mas porque exercitou alguns atos particulares de império e domínio. e assim cantou Arato. para que o viessem reconhecer e adorar por Rei. de ornar e mais aperfeiçoar o sujeito. não só em quanto Deus. porque muitas vezes o mais nobre e o mais generoso uso do poder é não querer usar dele. Nesta conformidade entendem todos os Padres o mistério das três espécies de ouro. o qual necessariamente supõe o mesmo domínio) não é tê-lo ocioso. que os Reis ofereceram: o incenso como a Deus. se não mui gloriosamente exercitado. se lhes havia de mandar que as deixassem estar na bainha? e responde o grande Doutor que foi para mostrar Cristo que se podia defender e vingar de seus inimigos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro que a dignidade e jurdição real em Cristo não tivesse ato ou exercício algum em sua vida. que nunca teve nem havia de ter ato (qual é a potência que há nos indivíduos para a conservação da espécie). como falam os filósofos. chamar os Reis do Oriente pela estrela. pelo que respondemos negando a suposição. naquele verso que tão 155 . porque serve. ainda que fosse a preço das mesmas túnicas com que andavam cobertos. e contudo ninguém a nega nem pode negar em Cristo. teve porém um ato excelentíssimo e um exercício contínuo. não só em ato primo (como diz a frase dos Teólogos) senão em ato segundo. e o ouro como a rei. ainda que não tivesse outro uso mais que não querer o poderosíssimo Senhor usá-lo. não indouta nem indiscretamente. a mirra como a homem. depois do maior ato de humildade: Si ergo ego dominus et magister? Desta maneira respondem (e podem responder os que seguem que Cristo não teve exercício algum do império e domínio temporal. não porque pública e continuadamente o professasse Cristo. e que o uso que teve daquele domínio foi a privação do mesmo uso. para maior exemplo e doutrina nossa? Onde mais bem empregado e aplicado o domínio.

a entrada dos mesmos reis em Jerusalém. Lucas:Et omnes qui audierunt mirati sunt. ser ele o Rei prometido aos Patriarcas e anunciado dos Profetas. Que ato pois mais próprio e positivo de rei. como se colhe claramente do texto de S. se mostrou e publicou Rei e senhor de todo ele História do Futuro (Volume II. se compõem. Reges Arabum et Saba dona adducent. ambas supremas. nas cortes e aldeias. segundo estas duas jurdições. Jerônimo: Aurum. mas declararam também por to das as circunstancias de salvador. de pastores. Jerónimo. S. perguntando publicamente: Ubi est qui natus est Rex? que outra cousa foi. E a Igreja. omnes gentes servient ei. no Salmo que começa: Deus. e o comum consenso de todos os Padres e da mesma Igreja. a coroa de Cristo. Sacerdote Supremo. de descendente de David. entrando e saindo do Mundo. segundo a qual se chama propriamente Supremo Rei. et adorabunt eum omnes Regeç terrae. myrrham etaurum regium. nas cidades e nos campos. Este Salmo se entende literalmente do Reino de Cristo. de ungido por Deus. alega David profeticamente no mesmo Salmo a adoração e tributos dos Reis do Oriente: Reges Tharsis et insulae numera offerent. com quatro pregões tão públicos e tão notáveis. e outra coroa de universal Senhor e Legislador in temporalibus. . e que. de estrelas. e da paz que trazia consigo. da qual publicação foram os mesmos pastores os terceiros pregoeiros. E em comprovação deste Reino de Cristo. in civitate David. e receber adorações e tributos dos mesmos reis. no Hino da Epifania: Thus. de anjos. e não só do Reino de Cristo absolutamente. Finalmente. Livro II. myrrham regique hominique Deoque. que havia de salvar e dominar o Mundo. que era o lugar onde aquela cidade estava situada? A mesma publicação fizeram os Anjos nos montes e campos de Judéia. assinalando-lhes o caminho por onde haviam de ir? Mas passemos do nascimento de Cristo aos dias mais chegados à sua morte. como senhor supremo de todos. Ambrósio. thus. na sua Relatio Theologica de universali Christi Regno. se não um pregão público e um Real! Real! por Cristo Rei do Mundo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro bem pareceu a S. se não do Reino e Império temporal. conforme a explicação de S. quando anunciaram aos pastores: Quia natus est vobis hodie salvator qui est Christus dominus. S. diremos por última conclusão que o Império de Cristo é juntamente espiritual e temporal. et de his quae dicta erant a pastoribus ad ipsos. de reis. judicium tuum Regi da. e no meio do mesmo Mundo. e mandá-los como súbditos e novos embaixadores seus. E muito antes David. respondendo·toda a milícia do Céu: Gloria in altissimis Deo ed in terra paz huminibus! Nas quais palavras todas não só apregoaram o nascimento e chegada ao Mundo do novo Rei. et justitiam tuam filio Regis. para que vejamos como. posto que alguns pareçam entre si contrários. que mandar-se publicar por tal. como larga e eruditamente prova Alonço de Mendoça. Agostinho. Capítulo VII) por Padre Antônio Vieira 156 Conclui-se que o Reino de Cristo é espiritual e temporal juntamente. que divulgaram por toda a parte o que tinham visto. aos grandes e aos pequenos. com que o mesmo Rei se mandou apregoar na praça mais universal de todo ele. e ultimamente desobrigá-los da palavra que tinham dado a El-Rei Herodes. que era Jerusalém. Recolhendo tudo o que tão largamente temos disputado (que foi necessário ser tão largamente) e reduzindo a concórdia quanto pode ser as opiniões de todos os Doutores.

e Zacarias viu o Reino e a pessoa. andou sempre o morgado temporal unido com o sacerdócio. Daniel viu o Reino e a pessoa que o havia de dominar. e um e outro vinculado aos primogênitos. havia de dar também Jacob a seu primogênito Ruben a mesma bênção. e na instituição do reino. Este é o que viu mais distintamente que todos Zacarias na sua terceira visão. effusus es sicut aqua. como direito descendente daqueles sacerdotes e daqueles reis que só eram feitos por Deus. mas. Daqui se entende maravilhosamente o mistério da ascendência e primogenitores de Cristo. Torno a repetir o texto e suponho a história. como gravemente notou e expressamente disse S. porque na instituicão do Tabernáculo. Conforme a este direito de sucessão. como foi a que Abraão deu a seu primogênito Isaac. et regum et sacerdotum. e em Levi a do sacerdócio. e este o Reino que Nabucodonosor também tinha visto encher o Mundo. quam dicit de filiabus Aaron. se conservou sempre o reino e sacerdócio.. unindo-se por verdadeira geração no sangue santíssimo de Cristo e sua mãe o tribo real de Judá e o sacerdotal de Levi.. e a que Isaac quis também dar a seu primogênito Esaú. Estas eram aquelas bênçãos tão celebradas e tão pleiteadas que os Patriarcas davam a seus filhos. era ele o herdeiro legítimo do reino e do sacerdócio. tu fortitudo mea et principum doloris mei. posto que não viu nem lhe foi mostrado a quem se havia de dar. que era do tribo de Judá. depois de o perder Saul. o qual mistério (para maior propriedade e majestade dele) se observou até nos escritores da mesma genealogia de Cristo. que havia de andar encabeçado no primogênito de Ruben. rnajor in imperio. Firmissime tenendum est carnem Christi ex utroque genere propagatam. ainda a título de geração natural. ipsam quoque Mariam de stirpe David a liquam consanguinitatem duxisse dubitare utique non debemus. como depois se cumpriu. ou estas duas coroas. e por indústria de Rabeca foi dada a Jacob. que era do tribo de Levi. foi ungido por sumo sacerdote Arão. non crescas. que precedeu ao Templo. Mateus e do III de S. quando se desposou com a natureza humana. insinuante Luca. Desde este tempo se dividiram estas duas dignidades que haviam de estar juntas no morgado ou maioria de um só império (major in império) e o reino e o sacerdócio. porque dos 157 . capítulo II. deste tempo da Lei da Natureza. in quibus personis apud illum populum Hebraeorum etiam mystica unctio figurabutur. pois fica contada no I Livro Para maior inteligência desta matéria havemos de supor que. e de ambos se compõe o império (assim o natural como o figurativo) que Ruben tinha perdido. em castigo da irreverência que tinha cometido contra o tálamo de seu pai. ficando em Judá a benção do reino. quod cognata ejus esset Elisabeth. Lucas. para que visse o Mundo que. fosse lavada de coroas e de tiaras. como consta do I capítulo de S. foi ungido por rei de Israel David. Nestas duas descendências de Arão do tribo de Levi e de David do tribo de Judá. como lhe disse o mesmo Jacob: Ruben. Cum autem evidenter dicat Apostolus Paulus: ex semine David secundum carnem Christum. De maneira que ordenou a Providência Divina que na geração e ascendência de Cristo se tecesse o tribo sacerdotal de Levi com o tribo real de Judá. Cujus feminae quoniam nec sacerdotale genus tacotur. e o número e distinção das coroas. quia ascendisti cubile patris tui et maculasti stratum ejus. prior in donis. os quais. e que a tela de que se havia de vestir o Verbo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Este é o Reino universal que Daniel veio dar ao Filho do Homem (que é Cristo). porque Nabucodonosor viu somente o Reino e sua grandeza. foi privado dela. Supremo Sacerdote e Supremo Rei. prior in donis major in imperio. até que a tiara e a coroa. que foram Judá e Levi. Agostinho no livro II de Consensu Evangelisarum. foram reis e sacerdotes. se uniram outra vez em Cristo. se repartiu em dois filhos do mesmo Jacob. primogenitus meus.

Três ofícios achamos na Escritura Sagrada. entre si unidos. que para este lugar reservamos: S. Gregório Papa. chrisma. e chama-se Cristo ungido. 89. quer dizer ungido. id est. João no capítulo I. Esperança de Portugal. temporal e espiritual. notam comumente todos os Doutores. André a S. O nome de Cristo e de Messias. E agora poremos aqui as autoridades dos Padres. Quinto Império do Mundo . que é o animal do sacrifício. História do futuro. como foi ungido Eliseu. História do Futuro (Plano da História do Futuro) por Padre Antônio Vieira 158 Cópia do Ms. que escreveu a geração sacerdotal. tomo II p. e com todas estas unções foi ungido Cristo. e referindo as palavras de S. foram duas firmas ou assinados públicos de um e outro império sacerdotal e real. assim o de Cristo como o de Messias. und e Christi nomen elucet tanto ante etiam illa evidentissima significatione praenuntiatum Resolve-se quando começou este Império de Cristo e propõe-se acerca dele uma grande dificuldade. que se davam com a cerimônia da unção: o de rei. Da unção de profeta já dissemos no capítulo VII do I Livro. que é nome grego. como diz S. não porque fosse ungido com aquela cerimônia exterior com que os reis e sacerdotes eram ungidos por mãos dos homens. Agostinho no livro e capítulo pouco antes citado: Firmissime tenendum est carnem Christi ex utroque genere propagatam et regum et sacerdotum. como ungido. da Biblioteca Nacional Maquinações de Antonio Vieira jesuíta. Pedro: Invenimus Messiam (quod est interpretatum Christus) e esta foi uma das erudições em que a Samaritana se mostrou tão letrada: Scio quia Messias venit. com que o mesmo Senhor foi chamado e conhecido. e chama-se Cristo ungido. Jerônimo e S. depois de S. pertence o homem. e o de Profeta. in quibus personis illum populum Hebraeorum etiam mystica unctio figurabutur. que escreveu a geração real. com que o mesmo Deus o ungiu na união da divindade com a humanidade. Um e outro nome. como acima dizíamos. Porque Messias. como. antes e depois de vir ao Mundo. Lucas. qui dicitur Christus. que é o rei dos animais. senão pela unção interior. porque foi ungido por Rei e Sacerdote Supremo. pertence o boi. A de Rei e a de Sacerdote Supremo. e Cristo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro quatro animais do carro de Ezequiel que significam os quatro evangelistas. que é nome hebreu. Mateus. que eram as duas maiores. porque foi ungido Arão. a S. e a S. ambos têm a mesma significação. são aquelas por que Cristo principalmente se chama ungido.

a Se na Sagrada Escritura está revelado algum Império. que é espiritual e temporal juntamente. e declaração dele Questão 1. afirm. a que chamamos o Quinto? Resp.: Até o de Cristo. é o Império do Céu ou da Terra? Resp.a Que Império seja este. verdade e fundamento deste Império Questão 1.a Se na suposição que o Império Romano há-de durar até o Anticristo. Questão 2.a Se o Império de Cristo na Terra é espiritual ou temporal? Resp. afirm.a Se no Capitulo I de Daniel é significado o Império do Anticristo na figura do chamado_ Cornuparvulum? ou o do Anticristo. . Questão 2.? Resp. afirm Questão 5. Livro Segundo Definição do V Império. que dizemos ser o Quinto. Questão 4.a Se o Império de Cristo. que da Terra. que se deva chamar o V. Questão 3. ou o do Turco? Resp. afirm. que foi o Romano? Resp.a Se o dito Império é diverso e totalmente distinto do IV Império do Mundo.a Se o Império Romano há-de durar até a vinda do Anticristo? Resp. Questão 3. afirm.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 159 Livro Primeiro Nome. pode haver no Mundo outro Império que se chame o Quinto? Resp.

. Questão 12. afirm.a Por que pessoa ou pessoas tem Cristo o exercício mediato do império temporal? Resp. mas o mediato.a Se no dito Império espiritual e temporal de Cristo se distingue o domínio. que tem o exercício. que consiste em ser conhecido por fé e obedecido. e qual seja? Resp. Questão 11.a Se teve Cristo exercício do dito Império em quanto espiritual? Resp.a Qual seja o dito domínio do Império de Cristo. mas que nunca há-de ter o dito exercício pessoal. afirm.a Quando começou.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 160 Questão 4. que pelo Sumo Pontífice e mais ministros da Igreja. e vai continuando em todos os que têm a mesma fé.a Se teve Cristo exercício do dito império em quanto temporal? Resp. Questão 5. Questão 10. Questão 6. que pelos príncipes temporais cristãos. que começou desde os primeiros que creram em Cri st o . Questão 8. que é. e começou desde o primeiro instante da sua encarnação.a Em que consiste a posse do dito Império? Resp. Questão 7.. que tem sobre todo o Mundo e sobre todos os homens.a Se há-de Cristo ainda ter alguma hora o exercício do dito império. posse. por sua própria pessoa . imediato não. Questão 13.a Por que pessoa ou pessoas tem Cristo o exercício mediato do império espiritual? Resp. exercício? Resp. problem. ou se é possível? Resp. e como se continuou a dita posse? Resp.a Se tem Cristo hoje exercício do dito império temporal e espiritual. assim espiritual como temporal. e quando começou? Resp. Questão 9. que é possível.

Questão 2. Questão 3.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 161 Livro Terceiro Grandeza e felicidades do dito Império Questão 1.a Se este Reino e Império de Cristo há-de continuar sempre no estado presente.a Se a dita grandeza há-de ser simultanea e permanente ou sucessiva? Resp. que simultanea e permanente.a Se hão-de ser todos cristãos no dito estado? Resp. Questão 7. meios e instrumentos com que se há-de conseguir o estado consumado do dito Império.a Se hão-de ser todos pela maior parte justos no dito estado? Resp.a Porque a opinião do dito estado não é comum de todos os Padres e Doutores? Resp. ou há-de ter outro e mais perfeito? Resp. sobre todas as gentes e sobre todos os reinos. afirm. completo e consumado. Questão 6. que por muitos fundamentos. Livro Quarto Causas. afirm. Questão 5.a Como se prova este estado mais perfeito e consumado do Império de Cristo? Resp. por autoridade e por razão. que pelas Escrituras. que há-de ter outro estado mais perfeito. Questão 4. Questão 8. que universal. afirm.a Se há-de haver no dito estado paz universal? E em todo o Mundo? Resp.a Quanta haja de ser a grandeza do Império de Cristo no dito estado? Resp. .

Questão 4. afirm. Questão 2. afirm. que pelas Escrituras e Doutores.a Como se prova em especial a conversão dos Judeus e a extirpação do Judaísmo? Resp. Questão 8.a Se por meio da dita conversão universal se há-de consumar a união dos dois povos. Questão 10.a Se podem os Judeus 1icitamente esperar esta restituição mediante a Fé de Cristo? Resp.a Como se prova em especial a conversão de todos os hereges. gentílico e o judaico? Resp. e a extirpação de todas as heresias? Resp. . que pelas Escrituras e Doutores. afirm.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 162 Questão 1. que pelas Escrituras e Doutores. afirm. a extirpacão da seita de Mafona? Resp. afirm. Questão 7. Questão 5. Questão 3. que pelas Escrituras e Doutores. Questão 9. afirm.a Se é conveniente ao bem da Igreja que a opinião da dita esperança se pratique? Resp.a Se nesta conversão dos Judeus hão-de entrar também os Dez Tribos perdidos? Resp. a extinção do Turco.a Como se prova em especial a conversão de todos os gentios e a extinpação da idolatria? Resp.a Se o primeiro meio da consumação do dito estado seja a conversão universal de todos os homens à Fé de Cristo e a extirpacão de todas as heresias do Mundo? Resp.a Como se prova em especial a conversão.a Se convertidos universalmente os Judeus hão-de ser restituidos à sua Pátria? Resp. Questão 6.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro

163

Questão 11.a
Se então se cumprirá a profecia do texto—et erit unum ovile et pastor?—Resp. afirm.

Questão 12.a
Se a causa principal eficiente da dita conversão universal será o Eterno Padre? Resp. afirm.

Questão 13.a
Se concorrerá para a dita conversão o Espírito Santo com especial e nova uncão da divina graça? Resp. afirm.

Questão 14.a
Que parte terá nesta obra a autoridade e intercessão de Cristo e da Virgem Santíssima? Resp. que muito grande.

Questão 15.a
Se o instrumento principal humano da dita conversão será o sumo pontífice santo e muitos pregadores evangélicos? Resp. afirm.

Questão 16.a
Se concorrerá para a dita conversão algum príncipe temporal, com a sua autoridade, o seu poder e as suas armas? Resp. afirm.

Questão 17.a
Se este príncipe temporal será imperador e monarca universal do Mundo? Resp. afirm.

Questão 18.a
Se o dito imperador universal se poderá chamar Vigário de Cristo no temporal? Resp. afirm.

Livro Quinto
Tempo, duração e ordem do dito Império

Questão 1.a
Se o estado consumado do Quinto Império há-de ser antes ou depois do Anticristo? Resp. que antes.

Questão 2.a
Qual dos dois povos se há-de converter primeiro universalmente, para a consumação do dito I:npério, se o gentílico, se o judaico? Resp. que o gentílico.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro

164

Questão 3.a
Quanta seja a duração do dito Império, depois de consumado? Resp. que até o fim do Mundo.

Questão 4.a
Quando há-de começar a dita consumação do Império de Cristo? Resp. que na extinção do Império turco.

Questão 5.a
Se do tempo presente até o da vinda do Anticristo pode e há-de correr um grande número de séculos? Resp. afirm.

Livro Sexto
Terra em que se há-de fundar o dito Império em quanto temporal, e qual há-de ser a cabeça dele

Questão 1.a
Se o dito Império temporal há-de ser na Europa ou em alguma das outras quatro partes do Mundo? Resp. que há-de ser na Europa.

Questão 2.a
Em que província da Europa se há-de fundar o dito Império temporal de Cristo ? Resp. que em Espanha.

Questão 3.a
Em que reino de Espanha se há-de fundar o dito Império? Resp. que em Lisboa.

Livro Sétimo
Pessoa que será o primeiro Imperador instrumento temporal do dito Império

Questão 1.a
Se a dita pessoa que seja imperador será o imperador de Alemanha? Resp. negativ.

Questão 2.a
Se a dita pessoa há-de ser El-Rei Cristianíssimo de França? Resp. negativ.

Questão 3.a
Se a dita pessoa há-de ser El-Rei Católico de Espanha? Resp. negativ.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro

165

Questão 4.a
Se a dita pessoa há-de ser o Sereníssimo Rei de Portugal? Resp. afirm .

Questão 5.a
Se o Rei de Portugal há-de ser El-Rei D. Sebastião? Resp. negativ.

Questão 6.a
Se o dito Rei de Portugal há-de ser El-Rei D. João IV? Resp. problem.

Questão 7.a
Se o dito Rei de Portugal há-de ser El-Rei D. Afonso ou o Infante D. Pedro? Responde-se: Vejo subir um Infante
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and distribute it individually under this License. 10. or rights. and all the license notices in the Document. provided that you also include the original English version of this License and the original versions of those notices and disclaimers. In case of a disagreement between the translation and the original version of this License or a notice or disclaimer. Each version of the License is given a distinguishing version number. AGGREGATION WITH INDEPENDENT WORKS A compilation of the Document or its derivatives with other separate and independent documents or works. If the Document does not specify a version number of this License. If a section in the Document is Entitled "Acknowledgements". If the Cover Text requirement of section 3 is applicable to these copies of the Document. so you may distribute translations of the Document under the terms of section 4. provided you insert a copy of this License into the extracted document. FUTURE REVISIONS OF THIS LICENSE The Free Software Foundation may publish new. 8. but you may include translations of some or all Invariant Sections in addition to the original versions of these Invariant Sections. Otherwise they must appear on printed covers that bracket the whole aggregate. or distribute the Document except as expressly provided for under this License. or the electronic equivalent of covers if the Document is in electronic form. Any other attempt to copy. and any Warranty Disclaimers. "Dedications". modify. sublicense or distribute the Document is void. If the Document specifies that a particular numbered version of this License "or any later version" applies to it. 9. the requirement (section 4) to Preserve its Title (section 1) will typically require changing the actual title. and replace the individual copies of this License in the various documents with a single copy that is included in the collection. the original version will prevail. See 169 http:/ / www. How to use this License for your documents . from you under this License will not have their licenses terminated so long as such parties remain in full compliance. in or on a volume of a storage or distribution medium. then if the Document is less than one half of the entire aggregate. However. Such new versions will be similar in spirit to the present version. and follow this License in all other respects regarding verbatim copying of that document. sublicense. Replacing Invariant Sections with translations requires special permission from their copyright holders. parties who have received copies. You may include a translation of this License.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 6. or "History". You may extract a single document from such a collection. TRANSLATION Translation is considered a kind of modification. gnu. modify. you have the option of following the terms and conditions either of that specified version or of any later version that has been published (not as a draft) by the Free Software Foundation. is called an "aggregate" if the copyright resulting from the compilation is not used to limit the legal rights of the compilation's users beyond what the individual works permit. provided that you follow the rules of this License for verbatim copying of each of the documents in all other respects. org/ copyleft/ . revised versions of the GNU Free Documentation License from time to time. COLLECTIONS OF DOCUMENTS You may make a collection consisting of the Document and other documents released under this License. the Document's Cover Texts may be placed on covers that bracket the Document within the aggregate. When the Document is included in an aggregate. but may differ in detail to address new problems or concerns. you may choose any version ever published (not as a draft) by the Free Software Foundation. and will automatically terminate your rights under this License. TERMINATION You may not copy. 7. this License does not apply to the other works in the aggregate which are not themselves derivative works of the Document.

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