Anexo:Imprimir/ História do Futuro

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Anexo:Imprimir/História do Futuro
História do Futuro por Padre Antônio Vieira

Índice Volume I
• Capítulo I: Declara-se a primeira parte do titulo desta História, e quão própria é da curiosidade humana a sua matéria. • Capítulo II: Segunda parte do titulo desta História; convidam-se os Portugueses à lição dela. • Capítulo III: Terceira parte do titulo e divisão de toda a História. • Capítulo IV: Utilidades da História do Futuro • Capítulo V: Segunda utilidade. • Capítulo VI: Terceira utilidade. • Capítulo VII: Última utilidade. • Capítulo VIII: Continua a mesma matéria • Capítulo IX: Verdade desta História. Declara-se o modo com que se pode conhecer e saber os futuros • Capítulo X: Resposta a uma objeção: mostra-se que o melhor comentador das profecias é o tempo. • Capítulo XI • Capítulo XII: Dá-se a razão por que em algumas partes desta História se não alegaram padres e seguiram exposições dos escritores modernos

Volume II
• Capítulo I • Capítulo II

Livro I
• Capítulo I: Mostra-se a Quinta Monarquia com a profecia de Daniel • Capítulo II: Segunda profecia de Daniel • Capítulo III

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Livro II
• • • • • • • • Introdução Capítulo I Capítulo II Capítulo III Capítulo IV Capítulo V Capítulo VI Capítulo VII

Plano da História do Futuro
História do Futuro (Volume I, Capítulo I: Declara-se a primeira parte do titulo desta História, e quão própria é da curiosidade humana a sua matéria.) por Padre Antônio Vieira

Nenhuma cousa se pode prometer à natureza humana mais conforme ao seu maior apetite, nem mais superior a toda a sua capacidade, que a notícia dos tempos e sucessos futuros; e isto é o que oferece a Portugal, à Europa e ao Mundo esta nova e nunca vista história. As outras histórias contam as cousas passadas, esta promete dizer as que estão por vir; as outras trazem à memória aqueles sucessos públicos que viu o Mundo; esta intenta manifestar ao Mundo aqueles segredos ocultos e escuríssimos que não chega a penetrar o entendimento. Levanta-se este assunto sobre toda a esfera da capacidade humana, porque Deus, que é a fonte de toda a sabedoria, posto que repartiu os tesouros dela tão liberalmente com os homens, e muito mais com o primeiro, sempre reservou para si a ciência dos futuros, como regalia própria da divindade. Como Deus por natureza seja eterno, é excelência gloriosa, não tanto de sua sabedoria, quanto de sua eternidade, que todos os futuros lhe sejam presentes; o homem, filho do tempo, reparte com o mesmo a sua ciência ou a sua ignorância; do presente sabe pouco, do passado menos e do futuro nada. A ciência dos futuros — disse Platão — é a que distingue os deuses dos homens, e daqui lhes veio sem dúvida aquele antiquíssimo apetite de serem como deuses. Aos primeiros homens, a quem Deus tinha infundido todas as ciências, nenhuma lhes faltava senão a dos futuros, e esta lhes prometeu o Demônio com a divindade, quando lhes disse: Eritis sicut Dii, scientes bonum et malum. Mas ainda que experimentaram o engano, não perderam o apetite. Esta foi a herança que nos ficou do Paraíso, este o fruto daquela árvore fatal, bem vedado e mal apetecido, mas por isso mais apetecido, porque vedado. Como é inclinação natural no homem apetecer o proibido e anelar ao negado, sempre o apetite e curiosidade humana está batendo às portas deste segredo, ignorando sem moléstia muitas cousas das que são, e afetando impaciente a ciência das que hão de ser. Por este meio veio o Demônio a conseguir que o homem lhe desse falsamente a divindade, que o mesmo demônio com igual falsidade lhe tinha prometido. E senão, pergunto: Quem foi o que introduziu no Mundo, sem algum medo, mas antes com aplauso, a adoração do Demônio? Quem fez que fosse tão freqüentado e consultado o ídolo de Apolo em Delfos? O de Júpiter em Babilônia? O de Juno em Cartago? O de Vênus no Egito? O de Dafne em Antioquia? O de Orfeu em Lesbo? O de Fauno em Itália? O de Hércules em Espanha, e infinitos outros em muitas partes? Não há dúvida que o desejo insaciável que os homens sempre tiveram de saber os futuros, e a falsa opinião dos oráculos com que o Demônio

Anexo:Imprimir/ História do Futuro respondia naquelas estátuas, foram os que todo este culto lhe granjearam, sendo certo que, se Deus, vindo ao Mundo, não emudecera (como emudeceu) os oráculos da Gentilidade, grande parte do que hoje é fé, fora ainda idolatria. Tão mal sofreram os homens que Deus reservasse para si a ciência dos futuros, que chegaram a dar às pedras a divindade própria de Deus, só porque Deus fizera própria da divindade esta ciência: antes queriam uma estátua que lhes dissesse os futuros, que um Deus que lhos encobria. Mas que direi das ciências ou ignorâncias das artes ou superstições que os homens inventaram desde a terra até o céu, levados deste apetite? Sobre os quatro elementos assentaram quatro artes de adivinhar os futuros, que tomaram os nomes dos seus próprios sujeitos: agromancia, que ensina a adivinhar pelas cousas da terra; a hidromancia, pelas da água; a aeromancia, pelas do ar, e a piromancia, pelas do fogo. Tão cegos seus autores no apetite vão daquela curiosidade, que, tendo-se perdido na terra os vestígios de tantas cousas passadas, cuidaram que na água, no ar e no fogo os podiam achar das futuras. No mesmo homem descobriram os homens dois livros sempre abertos e patentes, em que lessem ou soletrassem esta ciência. A fisionomia, nas feições do rosto; a quiromancia, nas raias da mão. Em um mapa tão pequeno, tão plano e tão liso como a palma da mão de um homem, inventaram os quiromantes não só linhas e caracteres distintos, senão montes levantados e divididos, e ali descrita a ordem e sucessão da vida e casos dela, os anos, as doenças e os perigos, os casamentos, as guerras, as dignidades, e todos os outros futuros prósperos ou adversos; arte certamente merecedora de ser verdadeira pois punha a nossa fortuna nas nossas mãos. Deixo a astrologia judiciária, tão celebrada no nascimento dos príncipes, em que os genetlíacos, sobre o fundamento de uma só hora ou instante da vida, levantam ou figura ou testemunhos a todos os Sucessos dela. Nem quero falar na triste e funesta nicromancia, que, freqüentando os cemitérios e sepulturas no mais escuro e secreto da noite, invoca com deprecações e conjuros as almas dos mortos para saber os futuros dos vivos. A este fim excogitaram tantos gêneros de sortilégios, como se na contingência da sorte se houvesse de achar a certeza; a este fim observaram os sonhos como se soubesse mais um homem dormindo do que sabia acordado; a este sentido consultavam as entranhas palpitantes dos animais, como se um bruto morto pudesse ensinar a tantos homens vivos. Com o mesmo apetite pediam respostas às fontes, aos rios, aos bosques e às penhas; com o mesmo inquiriam os cantos e vôos das aves, os mugidos dos animais, as folhas e movimentos das árvores, com o mesmo interpretavam os números, os nomes e as letras, os dias e os fumos, as sombras e as cores e não havia cousa tão baixa e tão miúda por onde os homens não imaginassem que podiam alcançar aquele segredo que Deus não quis que eles soubessem. O ranger da porta, o estalar do vidro, o cintilar da candeia, o topar do pé, o sacudir dos sapatos, tudo notavam como avisos da Providencia e temiam como presságios do futuro. Falo da cegueira e desatino dos tempos passados, por não envergonhar a nobreza da nossa Fé com a superstição dos presentes. Finalmente, a investigação deste tão apetecido segredo foi o estudo e disputa dos maiores e mais sinalados filósofos, de Sócrates, de Pitágoras, de Platão, de Aristóteles e do eloqüente Túlio, nos livros mais sublimes e doutos de todas suas obras. Esta era a teologia famosa dos Caldeus; este o grande mistério dos Egípcios; esta em Roma a religião dos áugures; esta em Judéia a seita dos Pitões e Aríolos; esta em Pérsia a ciência e profissão dos Magos; esta enfim do Céu até o Inferno, o maior desvelo dos sábios e maior ânsia e tropeço dos ignorantes; uns injuriando o Céu, e dando trato às estrelas para que digam o que não

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as conquistas. Esta nossa começa no tempo em que se escreve. O tempo. nós escrevamos a do futuro para os presentes. como o Mundo. à maior ânsia deste apetite e para correr a cortina aos maiores e mais ocultos segredos deste mistério. disse Tácito. tem dois hemisférios: um superior e visível. nem com Lívio a dos Romanos. Impossível pintura parece antes dos originais retratar as cópias. as repúblicas. nem com Josofo a dos Hebreus. Eles escreveram histórias do passado para os futuros. 4 . quod in civitate nostra. nem com os escritores portugueses as nossas. escreveram os impérios. onde o passado se termina e o futuro começa. as batalhas. a ruína ou daquelas mesmas nações. não tenha bastado nenhuma experiência. ou de outras igualmente poderosas. mas escrevemos sem autor o que nenhum deles escreveu nem pôde escrever. para que revelem o que não sabem. que são os antípodas do passado. Assim foram retratos de Cristo Abel. as leis. porque os achem. Oh que de cousas grandes e raras haverá que ver neste novo descobrimento! Aqueles historiadores que nomeamos e foram os mais célebres do Mundo. é considerar que. a declinação. continua por toda a duração do Mundo e acaba com o fim dele. que é o passado. e tentando os mesmos demônios. e descreve feitos heróicos e famosos. nem haja de bastar já para mais os desenganar e apartar dele: Genus hominum potentibus infidum. conta os sucessos futuros antes de sucederem. as resoluções. pois. O mesmo Saul. de vitórias não já vencidas. a mais estendida e continuada acaba nos tempos em que foi escrita. mas isto é o que fará o pincel da nossa História. de nações não já domadas e rendidas. Para satisfazer. David. o que não conheceu o moderno e o que não alcança o presente. o apetite de conhecer o futuro! Mas o que mais que tudo encarece a tenacidade deste desejo. de ruínas de umas nações e exaltações de outras. e tanto é hoje. antes do Verbo ser homem. a grandeza. Nós também havemos de falar de reinos e de impérios. No meio de um e outro hemisfério ficam os horizontes do tempo. Mede os tempos vindouros antes de virem. et vetabitur semper et retinebitur. é o que se verá com admiração neste prodigioso mapa descrito: cousas e casos que ainda lhes falta muito para terem ser quanto mais Antigüidade. as vitórias. que são estes instantes do presente que imos vivendo. que com elas contendiam. a foi buscar e se serviu de sua má arte. nem com Heródoto as dos Egípcios. senão que se hão-de fundar. de exércitos e de vitórias. outro inferior e invisível. nem com Cúrcio a dos Macedônios. porque os amam. Isaac. os conselhos. mas que se hão-de vencer. a opulência e felicidade. José. por isso chamada do Futuro. Não escrevemos com Beroso as antiguidades dos Assírios. Desde este ponto toma seu princípio a nossa História. mas de impérios não já fundados. nem com Tucídides a dos Gregos. senão que vão sempre após eles. Tanto foi em todas as idades do Mundo. enganados tão profundamente os homens pela falsidade e mentira de todas estas artes e seus ministros. O que ignorou o mundo antigo. A história mais antiga começa no princípio do Mundo. que desterrou a Pitonisa. antes de a fama os publicar e de serem feitos. folgam de ouvir e saber que se prognosticam. pomos hoje no teatro do Mundo esta nossa História. que é o futuro. a mudança. sperantibus fallax. e os mesmos que mais severamente negam o crédito às cousas prognosticadas. outros inquietando o Inferno (como dizia Samuel). nem com Xenofonte a dos Persas. na curiosidade humana. senão que se hão-de render e domar. sinal certo que não buscam os homens os futuros. a qual nos irá descobrindo as novas regiões e os novos habitadores deste segundo hemisfério do tempo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro podem.

sendo de cousas menores antigas e passadas. heróicas façanhas. para triunfo da Igreja. por isso. de gentes. para glória de Cristo. não nua e secamente. se leram sempre com gosto. triunfos e felicidades novas. porque não haverá um historiador do futuro? Os profetas não chamaram história às suas profecias. e depois de sabidas se tornaram a ler sem fastio. isto só deseja e pede a todos a nova História do Futuro. para exaltação da Fé. estranhas e espantosas mudanças de estados. confiança nos fica para esperar que não será ingrato aos leitores este nosso trabalho. animosas resoluções. Do profeta Isaías. determinamos observar religiosa e pontualmente todas as leis da história. também lhe era devido nome novo e não ouvido. e porque havemos de distinguir tempos e anos. O mar é imenso. sem exemplar nem exemplo. e não só novas. (quando o sofrer a matéria). mas esperamos no Pai dos lumes (a cuja glória e de seu Filho servimos). Se já no Mundo houve um profeta do passado. de governos. sendo novo e inaudito o argumento dela. ignorada até aquele tempo de quase todos os homens. governos novos. disseram S. Antes de abrir as velas ao vento (oh faça Deus que não seja tempestade!). de costumes. E se as histórias daqueles escritores. que à notícia e inteligência deles.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Hão-se de ler nesta História. Mas porque não cuide alguma curiosidade crítica que o nome do futuro não concorda nem se ajusta nem com o título de história. conquistas. não individuam as pessoas. as nuvens espessas. Ouvirá o Mundo o que nunca viu. que falou com maior ordem e maior clareza. só lhes quero pedir justiça. A sua profecia é o Evangelho fechado. conselhos e resoluções novas. e nós com maior ousadia que Tífis. é envolto em metáforas. em lugar da benevolência que se costuma pedir aos leitores. quanto é estranho ao papel o assunto e nome dela. Jerônimo e Santo Agostinho que mais escrevera história que profecia. tempos novos. e quando tudo isto viram e tudo disseram. a noite escuríssima. vitórias. religiosas empresas. sem estrela nem farol. de tempos. gentes novas. com palavras não suas. estados novos. disfarçado em figuras. mas leis novas. sem ambição nem injúria de ambos os nomes. e pasmará assombrado do que nunca imaginou. E porque nós. chamamos a esta narração História e História do Futuro. tirará a salvamento a frágil barquinha: ela com maior ventura que Argos. o Evangelho é a sua profecia aberta. e que será tão deleitosa ao gosto e ao juízo a História do Futuro. em tudo o que escrevemos. não assinalam os lugares. paz. portentosas conquistas. altos conselhos. mas porque não terão semelhança com elas nenhumas das passadas. Sós e solitariamente entramos nela (mais ainda que Noé no meio do dilúvio) sem companheiro nem guia. E com que espírito a escreveu? Respondem todos os Padres e Doutores que com espírito de profecia. a ordem e sucessão das cousas. porque. para felicidade e paz universal do Mundo. Jerônimo: Legant prius et postea 5 . de leis. admirará o que nunca leu. maravilhosas vitórias. lerá o que nunca ouviu. sinalar províncias e cidades. É de direito natural que ninguém seja condenado sem ser ouvido. mas de S. porque são futuras. as ondas confusas. empresas e façanhas novas. costumes novos. escurecido com enigmas e contado ou cantado em frases próprias do espírito e estilo profético. seguindo em estilo claro e que todos possam perceber. porque não guardam nelas estilo nem leis de histórias: não distinguem os tempos. mais acomodadas à majestade e admiração dos mistérios. não seguem a ordem dos casos e dos sucessos. Escreveu Moisés a história do princípio e criação do Mundo. nomear nações e ainda pessoas. saiba que nos pareceu chamar assim à esta nossa escritura. senão vestidas e acompanhadas das suas circunstancias.

digno só por esta ação (se não foram as suas culpas sacrilégios) de que Deus lhe perdoara a vida. Só isto fez Baltasar nos instantes que lhe restaram de vida.diz o texto. Se tanto vale o conhecimento de um futuro. então perseguida e impugnada.mandou Baltasar que o vestissem de púrpura e que lhe dessem o anel real. Oh que temeroso futuro! Caiu Saul desmaiado. e que fosse reconhecido por Tetrarca de todo o império dos Assírios. quiseram antes ignorá-los. e não queriam consultar os oráculos. e confirmou sempre a Daniel na mercê e lugar em que ele o tinha posto porque assim como profetizou que havia de perder o império o rei dos Assírios. ainda que tão infeliz. Isto é o que deves . não se desengana. O maior serviço que pode fazer um vassalo ao rei. disse Samuel a Saul. que era faze-lo um dos quatro supremos ministros ou governadores da monarquia.. Declarou Daniel a Baltasar a escritura fatal da parede. tudo o que alcanço felicidades. se tanto prêmio se dá a uma profecia mortal e que tira impérios. convidam-se os Portugueses à lição dela. e depois condenem» — assim dizia aquele grande mestre da Igreja. e se não há entre nós os vivos quem faça estas revelações. História do Futuro (Volume I. que por não temer os futuros. o profeta ao rei. . e quem busca o desengano tarde. defendendo a sua versão dos sagrados Livros. «Amanhã serás comigo».. porque há muitos futuros para temer. eu te dissera a má fortuna sem receio. Nem todos os futuros são para desejar. assim como te digo a boa sem lisonja.) por Padre Antônio Vieira 6 No capítulo passado falamos com todo o Mundo. Portugal. que tudo o que leio de ti são grandezas. os felizes para a esperança e os infelizes para a cautela. busque-se entre os sepultados. o morto ao vivo. Capítulo II: Segunda parte do titulo desta História. Mas é tal a tua estrela (benignidade de Deus contigo deverá ser). Et Superos vetuere loqui. tudo que descubro melhoras.Cessant oracula Delphis. que seria se os prometera? Não faltou a este merecimento Dario Hidaspes rei dos Persas e dos Medos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro despiciant: «Leiam primeiro. anunciou-lhe intrepidamente que naquela mesma noite havia de perder a vida e o império. Sed siluit postquam reges timuere futura. Todos fora felicidade antever.. hoje adorada e de fé. se me não contas com Daniel entre os vivos. neste só com Portugal. e premiado assim o profeta. Eu.. cumpriu-se a profecia e foi morto o rei. Outros reis houve. E que lhe importou a Daniel esta tão triste interpretação? No mesmo ponto . e fora melhor cair em si que aos pés do Profeta. Saul achou a Samuel morto e Baltasar a Daniel vivo. se nas letras que interpreto achara desgraças (bem poderá ser que as tenhas). Sucedeu vitorioso este príncipe na coroa de Baltasar. neste asseguramos breves desejos ao futuro. os felizes e os infelizes. (com quem só falo agora) nem espero o teu agradecimento. é revelar-lhe os futuros. nem temo a tua ingratidão. outro premiava as profecias. e achar-se-á. Naquele prometemos grandes futuros ao desejo. porque um matava os profetas. por não temer os futuros prósperos e adversos. Porque. ajuntou também que o havia de ganhar o dos Persas e Medos: Divisum est regnum tuum et datum est Medis et Persis. Mas era já a véspera do dia da morte. Disse sem murmuração o satírico que taparam os reis a boca aos deuses. eu me conto com Samuel entre os mortos.

affligit animam. Não me tenha a minha Pátria por tão cruel. Expecta. por isso em nome segundo e mais declarado chamo a esta mesma escritura Esperanças de Portugal. e não é este o futuro da minha História. Mas vejo que o mesmo nome de Esperanças de Portugal lhe poderá com razão suspender o gosto. nunca prometeu o Céu expressamente. Deixaram os pais em testamento as esperanças aos filhos. mas quando há-de ver Portugal essas esperanças? Ponto é este que depois se há-de tratar muito de propósito.. se não foram esperanças breves. reexpecta. e isto o que te espera. se nelas se promete o Paraíso. Muito seguras eram. são Inferno. Deus na Lei Escrita. e este é o comento breve de toda a História do Futuro. chegavam a ver o cumprimento do que tão longamente tinham esperado. As esperanças da Terra de Promissão deixou-as Abraão a Isaac. são promessas em que por então se dá o contrário do que se promete. são morte. Assim conta esta queixa Isaías no capítulo XXVIII. disse a Verdade divina e o sabe e sente bem a experiência e paciência humana: ainda que seja muito segura. que vinham a ser fábula do vulgo em Jerusalém as esperanças das profecias. as promessas dos antigos Profetas. mas cansava-se tanto o desejo na paciência de esperar por elas. são tormento. muito firme e muito bem fundada a esperança. porque o que se não pode dar logo não se há-de prometer. Modicum ibi. que eu lhas prometo. e que a volta ou estribilho da cantiga era: . que lhe importam as esperanças da terra de Promissão? No cativeiro de Babilônia pregavam e prometiam os Profetas que Deus havia de levantar mão do castigo e restituir o povo à sua antiga liberdade. Grandes são essas esperanças de Portugal. Se nelas se promete a vida. De que me serve a esperança da liberdade. e porque? Porque era um lugar onde se esperava tantos anos pelo Paraíso. que pelas ruas e praças da corte se andavam cantando por riso as suas esperanças. Tais são as esperanças dilatadas. respondiam e afirmavam constantemente que dali a setenta anos. e em que a nossa História há-de empregar todo o quinto livro. os filhos aos netos e nem estes. Modicum ibi. se nelas se promete o gosto. que lhe houvesse de prometer martírios com nome de esperanças. Esperavam. reexpecta. ainda que não fosse muito velho.expecta..Anexo:Imprimir/ História do Futuro esperar. Isaac a Jacob e Jacob aos doze Patriarcas. Prometer o Céu para ir esperar por ele ao Limbo. mas todos eles morreram e foram sepultados no Egito. sendo então as vidas mais compridas. O Limbo chamava-se Inferno. e se lhes perguntavam quando. Boa esperança para um cativo. se primeiro se há-de acabar a vida? O mesmo podem argüir os que hoje vivem com estas esperanças. e tão seguras como a mesma palavra de Deus (que não pode mentir nem faltar)`. primeiro se acabava a vida do que chegasse a esperança. assustar o desejo e embaraçar os mesmos alvoroços em que o tenho metido com estas esperanças: Spes qae differtur. reesperavam e desesperavam aqueles homens. é um tormento desesperado o esperar. há-se de medir o futuro. Para se avaliar a esperança. Por agora só digo que me não atrevera eu a prometer esperanças. 7 . porque em muitas cousas das que lhes prometiam as profecias. A quem há-de cobrir a terra do Egito. como notaram grandes autores.

e mostrou o presente com o dedo — Cecinit ad futurum. não só não tiram a vida. et adesse monstravit. Lignum vitae.Anexo:Imprimir/ História do Futuro São Paulo. senão só de Portugal? A razão (perdoe o mesmo Mundo) é esta: porque a melhor parte dos venturosos futuros que se esperam. Sim. João entre todos os profetas deste Mundo? Porque os outros profetas prometeram a Cristo futuro. affligit animam. porque não haverá também algumas profecias que sejam mais que profecias? Assim espero eu que o sejam aquelas em que se fundam as minhas esperanças e que. As esperanças que vem são o pomo da árvore da vida: Lignum vitae desiderium veniens. Assim como há esperanças que tardam. também as hão-de mostrar presentes. Lignurn vitae. um futuro que há-de vir e outro futuro que já vem. O Grego lê com maior gosto as histórias de Grécia. Portugal o princípio e fim destas maravilhas. e com que alvoroço e alegria pede a razão e amor natural que leias e consideres nela os seus e os teus futuros. senão única e singularmente sua. porque são mais que profecias. porque lêem feitos seus e de seus antepassados . Um profeta houve no Mundo mais que profeta. Portugal será o assunto. ainda que não vivam muitos anos. e a mais gloriosa deles. que à vista do cumprimento destas esperanças. mas viverão muitos anos os que as virem. Este segundo futuro é o da minha História. as esperanças porque não serão também do Mundo. porque o será do presente. disse no mesmo lugar alegado a mesma Verdade divina. Portugueses. e estas as breves e deleitosas esperanças que a Portugal ofereço. tiram a vida. Portugal o teatro. o Romano as de Roma e o Bárbaro as da sua nação. é do Mundo. as esperanças que vem. quão agradável te deve ser. Só digo que quando assim suceder. mas não o viram. e que deixará de ser História do Futuro. e entre elas os tempos. e com quanto gosto deves aceitar a oferta que te faço desta nova História. depois as mostrarão com o dedo. se nos prometem as felicidades futuras. Mas perguntar-me-á porventura alguma emulação estrangeira (que às naturais não respondo): se o império esperado. As esperanças que tardam. A virtude maravilhosa daquele pomo era reparar e acrescentar a vida e remoçar aos que o comiam. E por que razão mereceu a singularidade deste nome S. E Portugal que com novidade inaudita lerá nesta História os 8 . Vê agora. vivei. Agora as prometem com a voz. dividiu os futuros em dois futuros: Neque instantia. que quem vos deu as esperanças. Que vida haverá em Portugal tão cansada. vós os que mereceis viver neste venturoso século! Esperai no Autor de tão estranhas promessas. será não só própria da Nação portuguesa. Se houve um profeta que foi mais que profeta. nem o mostraram presente. aquele filósofo do terceiro Céu. que foi o grande precursor de Cristo. desafiando todas as criaturas. não torne atrás os anos para lograr tanto bem? Vivei. perderá esta nossa História gloriosamente o nome. como se diz no mesmo título. Mas este grande assunto fique para seu lugar. há esperanças que vem. Portugal o centro. desiderium veniens. o Batista prometeu o futuro com a vez. um futuro que muito tempo há-de ser futuro — Neque futura — e outro futuro que brevemente há-de ser presente: Neque instantia. Não é privilégio este de qualquer profecia. desiderium veniens. vos mostrará o cumprimento delas. neque futura. mas daquelas profecias de que se compõe esta História. mas acrescentam os dias e os alentos dela: Spes quae differtur. ó Pátria minha. que idade tão decrépita. Um futuro que está longe e outro futuro que está perto. Esperanças que hão-de ver os que vivem. e os instrumentos prodigiosos delas os Portugueses.

Os Faraós do Egito. maior império. Tal é a História. será bem que digamos neste lugar o que o título da nossa História entende por Mundo. Não lhe chamaram Salvador do Egito. não se poderá consertar um corpo tão grande. Maior cabo. no quarto.) por Padre Antônio Vieira 9 O que encerra a terceira parte do título desta História só se pode declarar inteiramente com o discurso de toda ela. para os inimigos será a dor. que império há-de ser. Alguns gemidos se hão-de ouvir entre vossos aplausos. Esta história era o silêncio de todas as historias. de tal maneira mediam a estreiteza de suas terras pela arrogância e inchação de seus vastos pensamentos. rex omnibus populis. dominando somente aquela parte não grande da extrema África. no terceiro. para os êmulos a inveja. pelas razões que se verão a seu tempo. maior esperança. e eu vos descubro a vós o que haveis de ser. sem dor nem sentimento dos membros. e. as esperanças. que. para que a matéria de uma vez se compreenda e saiba o leitor em suma o que lhe prometemos. no sexto. se espraia em sete bocas. Se são dos inimigos. costuma ter maior estrondo na voz que verdade na significação. Naqueles ditosos tempos (mas menos ditosos que os futuros) nenhuma cousa se lia no Mundo senão as navegações e conquistas de Portugueses. ao qual. porque toda se emprega em provar a esperança dum novo império. os êmulos suas invejas e só Portugal suas glórias. para os amigos e companheiros o gosto e para vós então a glória. Vós descobristes ao Mundo o que ele era. e por isso na língua vossa. lede agora esta minha. em que tempo. não duvidavam intitular-se Josés do Mundo. e também os Ptolemeus que lhes sucederam. suas grandezas e felicidades. Assim como líeis então aquelas vossas histórias. quando sai ao mar. em que terra. Capítulo III: Terceira parte do titulo e divisão de toda a História. História do Futuro (Volume I. Portugueses. senão do Mundo. como se foram sete rios. no quinto. Entretanto. porei brevemente aqui sua divisão. que vos presente. Essa foi a desigualdade do nome que puseram os Egípcios ao seu restaurador José: Vocavit eum lingua aegyptiaca Salvatorem Mundi. resolver e provar a nova História que escrevemos do Quinto Império do Mundo. cujo exórdio é este: Nabuchodonosor. ó Portugueses. em que pesca. no segundo. que jaz entre os desertos de Numídia e os do Mar Vermelho. Estas sete cousas são as que há-de examinar. e destes a conhecer o Mundo ao mesmo Mundo. Imitavam a soberba de seu soberbo Nilo. que também é toda vossa. com que descobristes novos mares e novas terras. chamamos quinto. com quanto maior aplauso e alvoroço será razão que o faca? Portentosas foram antigamente aquelas façanhas. que. nos ambiciosos títulos dos impérios e imperadores. no sétimo. e os demais chamados do Mundo. Divide-se a História do Futuro em sete partes ou livros: no primeiro se mostra que há-de haver no Mundo um novo império. que estão fora de seu lugar. os meios por que se há-de introduzir. Em nada é segundo e menor este meu descobrimento. maiores sempre nas vozes que no corpo e grandeza. sendo um só rio.Anexo:Imprimir/ História do Futuro seus e os dos seus vindouros. Os inimigos liam nela suas ruínas. qui habitant in universa terra: . entretanto. Se se há-de restituir o Mundo à sua primitiva inteireza e natural formosura. Mas porque esta palavra Mundo. como se não houvera mais mundo que o Egito. Do império dos Assírios temos nas divinas letras uma provisão lançada no III capítulo do Profeta Daniel e mandada expedir pelo grande Nabucodonosor. senão maior em tudo. gentibus et linguis. com quanto maior gosto e contentamento. assim era aquele império. mas também estes fazem harmonia.

pelo ocidente com o mar de Cádis. e dizia o edito: Aliste-se o Mundo. ainda que lhe deu por margens os Orientes: Subdit Oceanum sceptris. Assim nos consta por um decreto de Dario.] pervenit usque ad Coelum.. aut ita pacata ut victoria nostra imperioque laetetur. que com a mesma majestade de títulos se chamam imperadores do Mundo. da África pouco. passaram provisões e decretos a todo o Mundo. lhe diz assim no mesmo capítulo: Tu es rex qui magnificatus es et invaluisti. o China. Mas se examinarmos este mundo romano até onde se estendia. Contudo. 10 . mas os títulos não tinham limite. et margine coeli Clausit opes. et magnitudo tua [. quantum distant a Tigride Gades. et potestas tua usque ad terminos universae terrae.Anexo:Imprimir/ História do Futuro «Nabucodonosor.. que se estendia da Índia até a Etiópia. por serem senhores de 127 províncias. e Cícero.. o Tártaro e outros domínios bárbaros do nosso tempo. e tanto menos 0 que significavam! Do império de Assuero (que era o dos Persas) diz o Texto Sagrado no primeiro capítulo da história de Ester. qui habitant in universa terra: Pax vobis multiplicetur. Esta era a demarcação das terras e estes os limites do império. gentes e línguas. no cap. que habitam em todo o Mundo. obedecendo àquela coroa 127 províncias. Deixo o Mogor. rei. semelhantes em tudo às de Nabuco: Tunc Darius rex scripsit omnibus populis et gentibus et linguis. pelo meio-dia com o Nilo e pelo setentrião com o Danúbio e Reno. veria facilmente que o Mundo. não duvidou firmar por sua própria mão. De maneira que os reis persas. que professava mais verdade que os poetas: Nulla gens est. aut ita domita ut quiescat. mas quem desenrolasse o mapa do Mundo e pusesse sobre ele os pergaminhos destas provisões. por estas pomposas palavras. Inter se Tanais quantum Nilusque relinquunt. quae aut ita subacta sit ut vi non extet. XIII de Ester. qua terra. a todos os povos. se lançarmos os compassos às terras que obedeciam a Nabucodonosor.. que tinha sujeito ao seu domínio o orbe universo: Cum universum orbem meae ditioni subjugassem. Tal era a opinião que Roma tinha de sua grandeza e tal o estilo que guardava em seus editos: . seguindo a antiquíssima arrogância da Ásia. E o mesmo Daniel (que é mais) falando a este rei e acomodando-se aos estilos da sua corte e aos títulos magníficos de sua grandeza. Mandou Augusto César matricular e: alistar seu império.exiit edictum à Caesare Augusto ut describeretur universus orbis. acharemos que pelo oriente se fechava com o rio Tigres. em que o Mundo andou sempre atado aos títulos da monarquia. E o mesmo Assuero por outro decreto. da Europa menos e do resto do Mundo nada. é cento e vinte e sete vezes maior que o império persiano: tão pouco se proporcionava a geografia dos títulos com a medida dos impérios! Que direi do império dos Romanos? Os termos que lhe sinalam seus escritores são as raias do Mundo: Orbem jam totum victor Romanus habebat Qua mare. que se refere no VI capítulo de Daniel. sem demasiado encarecimento. Mas bastavam estes três retalhos da terra para a soberba de Nabucodonosor revestir os títulos de seu império com o nome estrondoso de todo o Mundo. Estes limites lhe prescreveu Claudiano. qua sidus currit utrumque disse Petrônio. acharemos que da Ásia então conhecida tinha uma boa parte. Tão grande era a significação dos nomes.

Duvida Tácito se foi filha esta resolução do receio ou da inveja: Incertum metu. O Mundo que Deus criou. todas as cabeças obedecerão a uma suprema cabeça.. an per invidiam. e mais claramente do que o dissemos agora o provaremos depois. acrescentou-lhe a nossa idade esta quarta parte. mas não impérios. e naquele sentido em que disse S.. Este é o sujeito da nossa História. vizinho à morte. não se pudesse defender com um só braço. eam pro quarta parte nostra aetas adjecit. sed in inventa America. a paz lhe tirará o receio. dizem que se entende por hipérbole ou exageração. que chamamos Austral. e o Mundo que o há-de conhecer. quintamque expectat sub meridionali cardine jacentem: O Mundo que conheceram os Antigos se dividiu em três partes: África. Resolveu Augusto com o senado pôr limites à grandeza do Império Romano.. O título desta História não fala por hipérboles nem sinédoques. e destes três mundos unidos se formará (que assim o formou Deus) um Mundo inteiro. Tal foi. A Abraão prometeu Deus as terras da Palestina mas conquistou-as a espada de Josué e defendeu-as a de seus sucessores. tudo o que alumia o Sol. Os que querem o ruído e encher de algum modo o vazio destes grandes títulos. Quando o não conheceu. todas as coroas se rematarão em uma só diadema. senão a justiça da espada. não se pudesse governar com uma só cabeça. não por nome ou título fantástico. negou-lhe o domínio. e Deus (que é fortuna sem inconstância) lhe conservará a grandeza. universum terraram orbem — diz Ortélio — veteres [. se aos doutos ocorrem instancias e aos escrupulosos dúvidas. João: . repartiu em diferentes sucessores o seu império. O Mundo de que falo é o Mundo. damos por solução de todas a mão onipotente: Ut videant.] in tres partes divisere: Africam. Temeu César (se foi receio) que um corpo tão enormemente grande não se pudesse animar com um só espírito. espera-se agora a quinta. Estes são os instrumentos humanos de que se serve (ainda quando obra divinamente) a providencia daquele supremo Senhor que o é do Mundo e dos exércitos. Europa. dar-lhe-á a posse . o qual. que trespassasse as balizas do que ele até então conquistara e fosse ou se chamasse maior que Augusto. Bem sei que o império de Alemanha (envelhecidas relíquias. e este é o Mundo presente.Anexo:Imprimir/ História do Futuro O Mundo do nosso prometido império não é Mundo neste sentido: não prometo mundos. dizem. aquele Mundo. Ásia. é certo que os impérios e os reinos não os dá nem os defende a espada da justiça. nem impérios titulares. não chama a um pigmeu gigante nem a um braço homem. mas já reconhecida. em que se toma a parte pelo todo. Europam et Asiam. et 11 . Não é nem poderá ser assim no império do Mundo que prometemos. et Mundus eum non cognovit. e por aquela figura que os retóricos chamam sinédoque. o pensamento de Alexandre. tudo o que cobre e rodeia o Sol. e este será o Mundo futuro.Mundus per ipsum factus est. a união lhe desfará a inveja. que é aquela terra incógnita. nomes tão alheios da modéstia como da verdade. senão por domínio e sujeição verdadeira. entretanto. será sujeito a este Quinto Império. e esta será a peanha da cruz de Cristo. quando o conhecer. Tudo o que abraça o mar. do Romano) em muitos textos de um e outro direito se chama império do Mundo. e este o império que prometemos do Mundo. para que nenhum lhe pudesse herdar o nome de Magno. sciant et recogitent. depois que se descobriu a América. como todos os que até agora se chamaram impérios do Mundo.» Este foi o Mundo passado. Entretanto. Aqui acaba o título desta História. e quase acabadas. No livro sétimo examinaremos os fundamentos deste direito. o Mundo que o não conheceu. scilicet. ou não quis (se foi inveja) que viesse depois outro imperador mais venturoso.. ainda que liberalmente lho concedamos. mas também se sabe que os textos podem dar títulos. Todos os reinos se unirão em um centro.

que foram muito menos os danos em que caíam os homens por lhes faltar a notícia do passado. achará facilmente quem discorrer pelos sucessos do Mundo. e se como tal empregaram nela sua indústria tantos sujeitos em ciência..Escrituras (sendo todas elas como diz S. engenho e juízo eminentes. desde seu princípio até hoje. por que nos sujeitamos ao trabalho de tão molesto gênero de escritura. e na Escrita. Josué. porque não será igualmente útil e proveitosa. outras utilidades necessárias ao governo e bem comum do gênero humano e ao particular de todos os homens. a quem só pretende nos servir. que é o verdadeiro Autor de todas as . lugares e nações para lhes revelar antecedentemente o sucesso das cousas que estavam por vir. que aqueles que cegamente se precipitaram pela ignorância do futuro. que a memória das alheias? Se em todos os Livros Sagrados contarmos os escritores de cousas passadas (como foram. pedimos com todo o afeto de coração. se sirva de nos comunicar aquela luz. Esdras e alguns outros. como foram os que em todos os tempos imortalizaram a memória deles com seus escritos. História do Futuro (Volume I. agora que entramos na maior importância desta matéria. Mas se a história das cousas passadas (a que os sábios chamaram mestra da vida) tem esta e tantas. Capítulo IV: Utilidades da História do Futuro) por Padre Antônio Vieira 12 §I Se o fim desta escritura fora só a satisfação da curiosidade humana. Esta é não só a principal razão. Samuel. Em conseqüência desta verdade e em consideração das cousas que tenho disposto escrever. que da noticiaria das passadas. os quatro Evangelistas. certamente eu suspendera logo a pena e a lançara da mão.Anexo:Imprimir/ História do Futuro intelligant pariter quia manus Domini fecit hoc. inspiração e ainda força suave da mesma Providência os impulsos que a isto (não sem alguma violência) nos levaram. quanto é mais poderosa e eficaz para mover os ânimos dos. graça e espírito que para negócio tão árduo nos é . e entendendo que foram vontade. e por indigno não só de o comunicar ao Mundo. Moisés. A mesma Majestade divina. na Lei da Graça. Paulo escritas para nossa doutrina. e se as esperanças que temos prometido foram só flores sem outro fruto mais que o alvoroço e alegria com que as felicidades grandes e próprias se costumam esperar. e o gosto ou lisonja daquele apetite com que a impaciência do nosso desejo se adianta em querer saber as cousas futuras. e ainda com vantagem. leitor cristão.. melhoria e reformação a que são encaminhados e dirigidos. impertinente e ocioso. tendo este meu trabalho por inútil. homens a esperança das cousas próprias. humildemente prostrados diante de seu infinito acatamento. mas de gastar nele o tempo e o cuidado. acharemos que são em muito maior número os que escreveram das futuras: diferença que de nenhum modo fizera Deus. esperando que será grato e aceito a Deus. digo. E verdadeiramente que se os bens da ciência se colhem e conhecem melhor pelos males da ignorância. se não fora igual e ainda maior a utilidade que podemos e devemos tirar do conhecimento das cousas futuras. nas a única e total. cujos nomes .e não sabem com tão averiguada certeza). que todos aqueles fins que sabemos teve a Providência Divina em diversos tempos. esta nossa História do Futuro. concorrem com particular influxo nesta nossa História e se acham juntos nela. para que estes secretos de seu oculto juízo e conselho se descobrissem e publicassem ao Mundo e em todo ele produzissem proporcionadamente os efeitos de mudança.

e se beije as mãos a si mesma. ou porque não atribua a cousas naturais (e muito menos ao caso) os efeitos que vêm sentenciados como castigo por sua justiça. Deus é o que dá e tira os reinos e os impérios. que tire a Deus o que é de Deus. e que haja quem as interprete antes do sucesso. Foram mostradas a Faraó em sonhos . por isso quer a mesma Providência Divina que as sentenças estejam escritas antes da execução. é para que conheçam clara e firmemente os homens. e para que não haja ignorância tão cega nem ambição tão presumida. por dar a César o que não é de César. nem Daniel que construísse as escrituras.Anexo:Imprimir/ História do Futuro necessário. e que a ele havia de agradecer no benefício dos sete anos o remédio dos catorze.todos os sucessos a primeira causa. quando são. tantos anos antes. com os olhos sempre no Céu e em Deus. porque Deus lho tirava. para que conheça o Mundo e Portugal. nem nós saberemos explicar a outros o pouco que por mercê do Céu temos alcançado e conhecido. nem as armas de Dario para os adquirir. quando e a quem é servido. e houve logo um Daniel (também cativo e desterrado). Quis a mesma Providência. conhecesse que o perdia. porque Deus lho dava. que o havia de receber. e para que Dario. disse discretamente Plínio que só os Egípcios não olhavam para o céu. que interpretasse ao rei os mistérios dela. levantam os olhos ao Céu. a mão onipotente de Deus é a que os distribui. Os futuros portentosos do Mundo e Portugal. . como acima dizíamos tirar o império a Baltasar e dá-lo a Dario. que lhe declarasse o mistério dos sete anos da fartura e sete de fome. e em lugar de reverenciarem em . nem menos poderemos descobrir e alcançar ao diante o muito que nos resta por conhecer. O primeiro motivo e mui principal por que Deus costuma revelar as cousas futuras (ou sejam benefícios ou castigos) muito tempo antes de sucederem. Como na terra do Egito não chove jamais e se regam e fertilizam os campos com as inundações do rio Nilo. mas apareceu primeiro a sentença escrita no paço de Babilônia. para que conhecesse o bárbaro que Deus. muitos anos há que estão sonhados como os de Faraó e escritos como os de Baltasar. mas não houve até agora nem José que interpretasse os sonhos. ou ordenados para mais altos e ocultos fins por sua providência. que nem esperando. Oh quantos cristãos há egípcios. para que conheça a ignorante sabedoria do Egito que os meios da conservação ou ruína dos reinos. e isto é o que eu começo a fazer (com a graça daquele Senhor que sempre se serve de instrumentos pequenos em cousas grandes).as sete espigas gradas e as sete falidas. como dizia Job. só adoram as segundas! Por isso mostra Deus a Faraó. Arma-se assim a sabedoria eterna contra a natureza humana. sempre soberba. e logo ordenou a Providência divina que estivesse em Egito um José (posto que vendido e desterrado). E não bastam. pois só ele os pode determinar antes que sejam. as sete vacas fracas e as sete robustas. que perdia o reino. que tudo são efeitos de seu poder e conselhos da sua providência. nem o direito e herança de Baltasar para os conservar. de que há-de tratar a nossa História. como as outras nações. nem temendo. entendesse que o recebia. porque não esperavam de lá o sustento. rebelde e ingrata. e não o seu adorado Nilo. para que Baltasar. conhecendo e confessando que sem assistência deste soberano auxílio. era o autor da abundância e da esterilidade. 13 § II Primeira utilidade. ou porque se não levante a maiores com os benefícios divinos. que todas vêm dispensadas por sua mão. quais hão-de ser os da fome e quais os da fartura. se Deus dispõe outra cousa.

conseguindo milagrosamente a liberdade. Raro 14 . Quem considerar o Reino de Portugal no tempo passado. e a Portugal reino. é a que há-de levantar e sublimar ao estado felicíssimo e glorioso que lhe está prometido. no presente e no futuro. para que conhecesse outra vez Portugal que a Deus e não a outrem devia a restituição da coroa que havia sessenta anos lhe caíra da cabeça ou lhe fora arrancada dela. receoso porventura de que uma nação tão amiga da honra e da glória lhe quisesse roubar a sua. e posto que todas viram o cumprimento da primeira promessa. na segunda restituindo-o. favores e as mercês tão notáveis com que o determinava enobrecer: na primeira. não havendo quem ignorasse ou quem não tivesse lido que no ano de quarenta se havia de levantar em Portugal um rei novo e que se havia de chamar João. seria só o esquecimento ou desconhecimento do soberano Autor delas. e lhe revelou como era servido de o fazei rei. foi a nossa experiência. na terceira. a vitória que lhe havia de dar em batalha tão duvidosa e as armas de tanta glória com que o queria singularizar entre todos os reinos do Mundo. e sacudiram sem sangue nem golpe de espada a sujeição de tão poderoso domínio. que ou referíssemos os benefícios passados. como tinha jurado aos seus maiores. Prometeu Deus de livrar os filhos de Israel do cativeiro do Egito. Afonso Henriques. Estilo foi este que sempre Deus usou com Portugal. e quão indigno de o ser. e de tantos outros que logo se cumpriram e vão cumprindo. foram diante a explorar a terra. e de os levar e meter de posse da terra da Promissão. sublimando-o. no passado o verá vencido. que todos vimos também. também está prometido este terceiro e mais feliz estado do nosso Reino. quando por nossa desgraça fôssemos tão injuriosamente ingratos a Deus. escolhidos pelos Doze Tribos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro atribuindo à fortuna ou indústria humana o que se deve só à disposição divina. Antes da sua ressurreição. e prometidos juntamente os meios e instrumentos prodigiosos por onde há-de subir e ser levantado ao cume mais alto e sublime de toda a felicidade humana. desconhecido e retirado do Mundo o ermitão do campo de Ourique. para que conhecesse e não pudesse negar Portugal que devia a Deus a vitória e a coroa. Considerem agora os Portugueses. E o embaixador e intérprete deste e de outros futuros. se alguma cousa lhes poderia retardar o cumprimento destas promessas. Antes do nascimento de Portugal. que depois se viram cumpridos. para que até por esta circunstancia conheçam os Portugueses que a mesma mão onipotente que há vinte e quatro anos conserva e defende tão constante e vitoriosamente o Reino de Portugal. e que era todo seu desde seu nascimento. sendo contudo mais de seiscentos mil homens os que triunfaram de Faraó e passaram da outra parte do mar Vermelho. no presente ressuscitado e no futuro glorioso. e muitos centos e ainda milhares de anos antes (como depois mostraremos). e por isso mui proporcionado (segundo o estilo de Deus) para tão grande e dificultosa empresa. Antes das glórias de Portugal. e leiam tudo o que daqui por diante formos escrevendo com este pressuposto e importantíssima advertência: que. E o intérprete deste futuro que parecia tão impossível. foi aquele velho. de todos eles não entraram na Terra da Promissão nem chegaram a lograr a felicidade e descanso da segunda promessa mais que Josué e Calef. dois daqueles aventureiros que. apareceu o mesmo Cristo a El-Rei (que ainda o não era) D. e em todas estas três diferenças de tempos e estilos lhe revelou e mandou primeiro interpretar o. ou esperássemos os futuros de outra mão que a sua. e o intérprete deste último e glorioso estado de Portugal já tenho dito quem é. que é o tempo futuro. foi revelado o sucesso dela com todas suas circunstancias. fazendo-o.

à sua ciência militar. Basta. qui nos eduxit de terra Aegypti. referirem-se a Moisés. e ainda mais ignorante (sobre ímpia e blasfema). e não a darem a Deus toda. negue a Deus o que é de Deus e atribua à liberdade as vitórias e o cumprimento das primeiras promessas que temos visto. era blasfêmia.três. e os que atribuem as obras de Deus e os benefícios (de que só a Ele se devem as graças) a Moisés e ao ídolo não merecem ter vida nem olhos para chegar a ver a Terra de Promissão. assim o disseram no cap. mas bem merecido castigo. Assim o disseram também no mesmo capítulo e o apregoaram impiamente a altas vozes: Hi sunt dii tui. por isso se vos escrevem aqui essa mesma liberdade. e a Deus só louvemos e demos as graças. A segunda. e que. assim os que já se viram. e pode ser que estejamos já muito perto dela. Para que conheça por nossa confissão todo o Mundo que são misericórdias suas e não obras do nosso poder. ao seu braço. in terram quae fluit lacte et melle: «Vi — diz Deus — a aflição do meu povo. Agora nos servem as duas. Imos caminhando pelo deserto para a Terra da Promissão. descendi ut liberem eum de manibus AEgyptorum. XXXII. era descortesia. e que se podia vencer em poucos dias) acharemos que foram . já por mercê de Deus triunfamos de Faraó e do poder de seus exércitos. afogados no Mar Vermelho de seu próprio sangue. Quem refere a glória dos bons sucessos ao seu valor. da bondade e onipotência divina. e quem abriu o Mar Vermelho e afogou nele Faraó e seus exércitos foi Deus. e para que nós. tantos anos antes revelados por Deus. ao seu talento. Moysi enim huic viro. e do último cumprimento das prometidas felicidades. espaçosa. sendo a distancia do caminho breve. desci em pessoa a livrá-lo das mãos dos Egípcios e tirá-lo daquela terra para outra. nos livrou do cativeiro. sejam privados de gozar a segunda. essas mesmas vitórias e esses mesmos sucessos. foi atribuírem a mesma liberdade ao ídolo que de seu ouro tinham fundido no deserto. Israel. quando lhe deu o ofício e a vara. porque. dá a glória de Deus ao ídolo. ainda antes de ver o fim desejado dela. 15 . qui te eduxerunt de terra AEgypti. Portugueses. e porque sei com quão justa razão se queixam. já os vimos. et deducam de terra illa in terram bonam et spatiosam. mas nos homens que deviam dar a Deus toda a glória (pois toda era sua). e ouvi os seus clamores. a Deus só as refiramos todas. não uma. povo descortês. ou a Moisés ou ao ídolo. e quem fez os portentos e maravilhas foi Deus.tanta repugnância sua instrumento de seus poderes: Vidi afflictionem populi mei in AEgypto et clamorem ejus audivi. A primeira causa foi atribuírem a liberdade do cativeiro a Moisés. como os que restam para se ver. atribuírem-na ao ídolo. mas muitas vezes. pois tão ingrata e impiamente interpretaram o benefício da primeira promessa. que lhe hei-de dar. que queira retardar o curso de tão próspera e feliz jornada e acabar infelizmente. como também Deus pelo honrar lhe dava esse nome. Já Deus. sendo muito justo e muito justificado castigo que morram e acabem todos antes de chegar o prazo das felicidades. abundante e cheia de todos os regalos e delícias». De maneira que quem tirou os filhos de Israel do Egito foi Deus. ignoramus quid acciderit. e o fez com . Se há algum tão invejoso dos bens da Pátria e tão inimigo de si mesmo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro exemplo de severidade na misericórdia de Deus . como efeitos da providência. depois diremos a terceira. ingrato e blasfemo! Que Moisés e o vosso ídolo foram os que vos livraram do cativeiro do Egito?! Por certo que o não disse assim Deus ao mesmo Moisés. se buscarmos no Texto Sagrado as causas deste desvio e dilação (a qual durou quarenta anos inteiros. era ingratidão suma. boa. Eu não nego que em bom sentido se podia chamar Moisés libertador do cativeiro. et sciens dolorem ejus.

não sei se de pouco. ut habitare vos facerem. qae feci coram eis? [. que.. forças e corpulências dos homens. que nenhum deles entrasse nela nem a visse. bondade e fertilidade da terra. nem os perdoar ou dissimular como até ali tinha feito. os outros.. que aprendemos nas noticias de seus futuros. Chegados os doze exploradores da Terra da Promissão. instavam que era impossível. dando-lha em tudo e por tudo. concordaram todos na largueza. audiente me.. resolveu que fosse executada neles a sentença de sua própria incredulidade. A humildade e agradecimento.facilitaram a conquista e animavam o povo a ela. e que todos morressem primeiro e fossem sepultados naquele deserto. os que não crêem. é o primeiro fruto e utilidade que da lição desta nossa História se pode tirar. a confiança em Deus e o zelo e desejo puríssimo de sua glória. e sobre tudo as promessas divinas tão repetidamente inculcadas. que . não crer que se hão-de cumprir as outras. senão crime de ingratidão grande contra o divino Autor dos mesmos benefícios. com que não cheguem a ver nem gozar o que não querem crer de sua bondade: . a desconfiança de nós. In solitudine hac jacebunt cadavera vestra. E resoluto Deus a não sofrer mais tal gente. ait Dominus. XIV dos Números.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Os inimigos que mais temo a Portugal são soberba e ingratidão. As palavras da queixa de Deus e da sentença. não o verão. depois de cumprida uma parte das promessas. que. Assim o disse e assim se executou. levar e meter de posse daquelas segundas promessas. a qual refere o Texto Sagrado no cap. que são os que a Escritura chama filhos da desconfiança. e pois criam que Deus os não havia de meter de posse da Terra da Promissão. juntamente nascem dela e a corrompem.. ou não querem crer. se de mau coração) e vejam o perigo em que os pode meter ou tem metido a sua incredulidade: Sicut locuti estis. [. super quam levavi manum meam. justo será que fechemos este com a terceira causa do castigo que ponderávamos. sic faciam vobis. para crerem e confiarem que assim havia de ser. e pode ser de grande exemplo para outra casta de gente. não bastando a experiência de tantas vitórias passadas e de tantos sucessos e prodígios inauditos. porque são dignos de o verem. é não só pertinácia de incredulidade racional. sic faciam vobis. foram estas: Usque quo detrahet mibi populus iste? Quosque non credent mihi in omnibus signis. sicut locuti estis. vê-lo-ão. de que Deus os havia de meter de posse daquela terra. a sua mesma incredulidade será a sua sentenc: já que o não creram. 16 Breve Advertência aos incrédulos Mas antes que passemos às outras utilidades.] Vivo ego.] non intrabitis terram. comparados com os Hebreus (diziam eles) pareciam gigantes. Deliberou o povo eleger capitão e voltar-se com ele ao cativeiro do Egito.. tão importantemente para a vida como para a vista. sempre são os meios seguros que nos hão-de sustentar. conformemente. mas exceto Josué e Calef. Diz Santo Agostinho (cujas excelentes palavras adiante citaremos) que. como pela valentia. assim pela fortaleza e sitio das cidades. Os que pela experiência do que têm visto crêem o que está prometido. e a estes incrédulos e ingratos castiga justissimamente sua Providência. Leiam e pesem bem estas palavras de Deus os incrédulos e desanimados (vícios ambos. Esta tão covarde incredulidade foi a última ou a última sem-razão com que acabou de se apurar a paciência divina. que ficarão para os capítulos seguintes.. prevaleceu o número contra a razão) (como as mais vezes sucede). como filhos da víbora. vícios tão naturais da próspera fortuna. E este conhecimento tão grato a Deus. Enfim.

também começa derribando. quanto perder. arranca. a sua mesma fé lhe conservará a vida > Assim sucedeu. Assim o disse e mandou notificar a todo o Mundo pelo profeta Jeremias: Ecce constitui te hodie super gentes et super regna. diz Cristo: Sicut credidisti. antes que chegue a esperada felicidade. <O incrédulo . é rebeldia de ingratidão e dureza da incredulidade. alguma desculpa parece que podia ter a incredulidade na fraqueza do receio e desconfiança humana. Ó gentes. E porque ninguém o duvidasse . Quando o lavrador quer plantar de novo em mata brava. quando as tem prometido: os que as crêem. os que creram aos profetas com el-rei Iconias viveram. não crer ainda as que estão por vir.diz Deus nem terá a vida segura. História do Futuro (Volume I. mete primeiro o machado. e depois planta e semeia. corta. et destruas.) por Padre Antônio Vieira 17 A segunda utilidade desta História. et plantes. desmerece a vista. Capítulo V: Segunda utilidade. ut evellas. Assim o faz e fez sempre o supremo Criador e Artífice do Mundo. para ele será o vê-las e gozá-las: Sicut creditisti. para que as não vejam. tira-lhe Deus a vida. e ao que crê.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Quo usque non credent mihi in omnibus signis.tão felizes promessas. Quando o arquiteto quer fabricar de novo sobre edifício velho e arruinado. arrasando e arrancando até os fundamentos. e os que não quiseram crer. tão maravilhosas e tão raras. por isso havemos de ver no Céu os mistérios que vemos na Terra. et dissites. terão vida para as verem. E este estilo que Deus costuma guardar na glória da outra vida. os que as não crerem. mas depois de cumpridas e vistas com os olhos tantas cousas. cava. com el-rei Sedecias pereceram. Olhem por si os incrédulos. Quem não crê. diz Deus: Sicut locuti estis. e se veja restaurado o Universo! Maravilha é que há muitos anos está prometida para esta última idade do Mundo por aquele supremo Monarca. creiam que não hão-de viver: Si non credideritis. E aos que não crêem como os Israelitas do deserto. desfazendo. Quem quiser saber (segundo o estilo ordinário da justiça e providência divina) se há-de chegar a ver as felicidades que debaixo de sua palavra aqui lhe prometemos. que tem por assento o trono de todo ele: Et dixit qui sedebut in throno: Ecce nova facio omnia. nem vê-las. morrerão. campos e cidades. ó reinos! Quanto arrancar. É lei da liberalidade de Deus pagar a fé com a vista. et aedifices. quanto dissipar se verá em vossas terras. Assim o sentenciou o mesmo Deus outra vez em semelhante caso por boca do profeta Habacuc: Ecce qui incredulus est. fiat tibi. quae feci coram eis? Antes da experiência das primeiras maravilhas. tão grandes. e mais necessária aos tempos próximos e presentes. e depois sobre o novo alicerce levanta nova traça e novo edifício. non erit recta anima ejus in semetipso. E quem não crê que se hão-de cumprir. antes que Deus vos replante e reedifique. quanto destruir. constância e consolação nos trabalhos. queima. Quem crê que se hão-de cumprir aquelas . derriba. quando quis plantar e edificar de novo. será também para ele não gozá-las. Aos que crêem. et disperdas. como ao Centurião. sic faciam vobis. guarda também ordinariamente nas felicidades desta. examine o seu coração e consulte a sua fé. justus autem in fide sua vivet. é a paciência. non permanebitis — diz o profeta Isaías. ó reis. e para que não chegue a ver. do nosso próprio coração nos conta Deus a sentença e de nossas próprias palavras a forma: Exore tuo te judico. fiat tibi. e se não crêem que havemos de ver. alimpa. porque na guerra que Nabucodonosor fez a Jerusalém. merecedoras ambas de que Deus as castigue com se conformar com elas: Sicut locuti estis. perigos e calamidades com que há-de ser allito e purificado o Mundo.

diz assim em uma epístola: Nos. e tão apertada sai a luz e se oferece ao Mundo este livro santo. pelas quais lhes não foi necessário valerem-se da confederação que naquele tempo tinham com os Romanos e Esparcíatas. como temos vencido e vencemos a todos nossos inimigos. em que lemos as promessas divinas. lembrando-lhe que está escrito que o juízo e exemplo de Deus há-de começar por sua casa: Judicium incipiet a domo Dei. sempre os livrou com maravilhosas vitórias e assistências do Céu.Anexo:Imprimir/ História do Futuro como cousa tão nova e desusada. habentes solatio sanctos libros qui sunt in manibus nostris. Se deste trabalho e castigo pode também caber alguma parte a Portugal. os tristes consolação. Para esta ocasião. tribulações. alívio. A lição das Escrituras. Ezequiel. Habacuc Jeremias. com que Deus costuma castigar. não porque tenhamos necessidade dela e dos vossos socorros. Este é o fim. Isaías. de que Deus . constância e fortaleza. os dez deles tiveram por assunto e matéria muito principal de todas suas 18 . no qual acharão os aflitos alívio. no cativeiro profetizou Miqueas. Paulo. ut per patientiam et consolationem Scrip turarum spem habeamus. diz S. No cap. opressões. e ele mesmo. nem remédio para o sofrimento e constante firmeza de tão fortes calamidades. o mesmo Portugal o examine. ad nostram doctrinam scripta sunt. maluimus mittere ad vos renovare fraternitatem et amicitiam: «Mandamos renovar por este nosso embaixador (diz Jonatas) a antiga amizade e confederação» que convosco fizeram nossos maiores. tudo por meio da lição e fé das divinas promessas e consolação dos felicíssimos fins a que todos estes trabalhos e tribulações pela providência do Altíssimo são ordenadas. Jónatas. VIII se verá que sem atrevimento ou demasiada confiança podemos chamar a esta nossa História do Futuro livro santo. Daniel e Solonias. mas temos sempre em nossas mãos os Livros Santos. opressões e trabalhos. Que maior trabalho ou perigo pode sobrevir a uma república. e sem amigo nem aliado que a socorra? Neste estado se viram muitas vezes no tempo de seu governo os Macabeus. é a que mais que tudo nos pode consolar nos trabalhos. ou sejam para Portugal. que ver-se cercada e combatida por todas as partes de poderosíssimos inimigos. e todo o gênero de calamidades. porque a paciência tem a sua consolação na esperança. mas pelas escrituras originais de que foi tirada. e se é ele um dos reinos da Cristandade que merece ser mui renovado e reformado. misérias e açoites.para que elas se escreveram: Quaecumque scripta sunt. É cousa muito digna de notar. do conhecimento e fé das cousas futuras. e com eles e com elas nos consolamos e animamos a resistir. ou para todos (como é mais certo) nenhuma cousa poderão ter os homens de maior consolação. ou para o resto do Mundo. se se conhece. os atribulados esperança. sendo só doze os Profetas canônicos. a esperança tem o seu fundamento na fé e a fé nas Escrituras. Antes do cativeiro profetizaram por sua ordem Oseas. que então governava o povo. só e desamparada. do que a lição e condição desta História do Futuro. que nunca no povo de Israel concorreram tantos Profetas juntos como antes do cativeiro de Babilônia e no mesmo cativeiro. guerras. o julgue. assolações. Mas. De maneira que. não pelo que ela tem de nossa. posto que não nos faltam inimigos. cum nullo horum indigeremus. paciência. emendar e domar a rebeldia dos corações humanos. Joel e Amos. pelejar e vencer. e o fruto muito principal . perigos. e dando conta disso aos mesmos Esparcíatas. acrescenta logo o Evangelista Profeta: Haec verba fidelissima sunt et vera. se houver (como há-de haver primeiro) trabalhos.

sendo cativos. regis Juda. Lia-se na carta e tradição de S. como se pode ver no cap. profetizaram que o povo por seus pecados havia de ir cativo. e outros que as pregassem no presente. uns que as tivessem escrito no tempo passado. Levou este livro a Babilônia o Profeta Baruch. insistiram constantemente em que ele havia de ter fim. e as esperanças dele se haviam de cumprir no ano 19 . na décima sexta geração atenuada. pudesse com o trabalho do cativeiro. Ordenou pois a providência e misericórdia divina. determinando sinaladamente o ano da liberdade. mas que por misericórdia de Deus seria depois restituído à sua pátria. arrancados da pátria e levados a terras de bárbaros. prisões e perigos da vida por pregar e profetizar a verdade (pela qual finalmente morreu apedrejado). antes mui lembrado do que padeciam os desterrados de Babilônia. Os quatro primeiros. e com a brandura deste som os ferros se tornavam menos duros e os corações mais fortes.Anexo:Imprimir/ História do Futuro profecias o cativeiro de Babilônia. Lia-se nas célebres tradições de Gregório de Almeida no seu Portugal Restaurado. que profetizaram no tempo do cativeiro. no tempo da sua Babilônia e do cativeiro e opressões com que tantas vezes se viu tão maltratado e apertado. tendo ficado em Jerusalém. e a esperança da liberdade e do ano dela. nem Portugal nem o Mundo poderá ter outro alívio nem outra consolação maior que a freqüente lição e consideração deste livro e das profecias e promessas do futuro que nele se verão escritas. mais que a lição e interpretação das profecias. Os outros seis. poria Deus os olhos de sua misericórdia no Reino. filii Joachim. Lia-se no juramento de El-Rei D. nem outro alívio ou consolação a sua miséria. no meio destas opressões e perigos próprios. onde padeceu grandes trabalhos. nem depois visto) foi porque nunca o povo e reino de Judá padeceu tão grande trabalho e calamidade como o cativeiro ou transmigração de Babilônia. não esquecido dos alheios. Afonso Henriques e na promessa do santo ermitão. Bernardo que quando Deus alguma hora permitisse que o reino viesse a mãos e poder de rei estranho. e anda no Texto Sagrado junta com as obras de Jeremias: Et legit Baruch verba libri hujus ad aures Jechoniae. houvesse muitos Profetas e muitas profecias. companheiro de Jeremias. XXIX do mesmo Profeta. e se será recebido e lido com o mesmo animo e afeto este nosso livro da História do Futuro. nenhuma outra apelação tinha a sua dor. e animado com a esperança da liberdade. Foi mui particular neste caso entre todos os outros Profetas o zelo e diligência de Jeremias. e nota o mesmo Baruch que todos com grande alvoroço corriam ao livro. que. que escreveram mais de seis anos antes daquele tempo. que o tempo desejado havia de chegar. Assim o diz no primeiro capítulo da relação que fez desta jornada. Cantavam-se as profecias ao som das cadeias. leu-se em presença de El-Rei Iconias e publicamente de todo o povo. A razão deste concurso tão extraordinário de Profetas e profecias (nunca antes. que naquele tempo e estado tão calamitoso. porque. e do termo e fim do cativeiro que nelas se lia. despojados de seus bens. mas sei que nos trabalhos calamidades e aflições que há-de padecer o Mundo e pode ser cheguem também a Portugal. em que por termos muito claros e palavras de grande consolação lhes anunciava a liberdade e o tempo dela. que com ele vivia no cativeiro. presos e. e lá oprimidos e tratados como escravos em duríssima servidão. escreveu um livro das suas profecias. O cativeiro e o tirano os oprimiam. et ad aures universi populi venientis ad librum Não sei se terá a mesma fortuna. não seria por espaço mais que de sessenta anos. Ao menos não negará Portugal que. para que o povo não desmaiasse com o peso da aflição. os Profetas e as profecias os alentavam.

era um ano de indulgência e redenção. apareceu ali S. João tivesse aquelas revelações e escrevesse aquelas profecias? É pergunta esta de que foi respondida Santa Brígida.Anexo:Imprimir/ História do Futuro sinalado de quarenta. ordenou a Providência Divina que S. com os olhos longos no suspirado ano de quarenta e na esperada coroa do novo rei português. E pois este remédio das profecias foi tão presente e eficaz para os trabalhos passados. oleum gaudii pro luctu. annum placabilem Domino. as escreveram: para que se veja quão justa e quão útil é. diz com igual brandura e eloquência estas notáveis palavras: Spiritus Domini super me [. e quão conforme com a vontade e intento de Deus.. que a santa ouvisse a resposta da boca do mesmo Profeta. e do alívio e consolação que com suas profecias haviam de ter em seus trabalhos aqueles cativos.. Ninguém ignora que as profecias do Apocalipse e mais ainda as que estão por cumprir) são próprias dos tempos que hoje correm e hão-de parar no fim do Mundo. razão tenho eu (e razão sobre a experiência) para esperar e confirmar que o será também para os futuros.. ou da Cristandade. mas ou sejam de Portugal. com que os lutos e tristezas passadas se convertessem em festas e alegrias: Et darem eis coronam pro cinere.] ut consolarem omnes 1ugentes [. e no concurso de todas estas profecias se consolava e animava Portugal a ir vivendo ou durando até ver o cumprimento delas.. E porque não pareça que argumento só de casos e profecias de tempos antigos. e eu escrevi as profecias deles para consolação dos vindouros e para que os vossos fiéis com os casos futuros se não perturbassem». curasse com o talento de minhas promessas e profecias. aponta nomeadamente dois que mais parecem receitados para o nosso cativeiro que para o de Babilônia: o primeiro. para que como médico dos aflitos cativos de Babilônia. estejam neles constantes. João e disse desta maneira: Tu. Querendo Cristo. E declarando mais em particular os remédios cordiais que lhes aplicava.. et ego scrpsi ad consolationem futurorum. Este é o fim (posto que não só este) por que Deus revela as cousas futuras. para todos lhes prometo este remédio: melhor é que sobejem os remédios à cautela. oleum gauudii pro luctu. em que o cativeiro se havia de acabar: Et praedicarem captivis indulgentiam... era uma coroa trocada pelas antigas cinzas. assim nós. como se lê no Livro VI de suas Revelações. inspirasti mihi mysteria ejus. ou do Mundo os que pode causar nele a necessidade ou a adversidade dos tempos. diz Isaías. a nas suas profecias. o segundo. e nós o mostraremos em seu próprio lugar. Assim o liam os cativos de Babilônia. Senhor. a tristeza e desmaio de seus corações». do que faltem à providência. e o trabalho de escolher entre todas as profecias que pertencem a nossos 20 . pergunto. e ungiu-me com seu espírito. Assim o dizem Padres e expositores. e por que os Profetas antigos. João. sejam os casos e profecias próprias dos nossos tempos e escritas só para eles. por particular favor. que foi S. ne fideles tui propter futuros casus everterentur: «Vós.. e o último de todos. Mas a que fim.] et darem eis coronam pro cinere. me revelastes aqueles mistérios. Falando no mesmo cativeiro de Babilônia o mesmo profeta Isaías.. e assim o líamos nós também nas nossas. Domine. Eu não prometo nem espero infortúnios a Portugal. «Desceu sobre mim o Senhor.. antes confirmados com as mesmas profecias.] ut mederer contritis corde et praedicarem captivis indulgentiam [.] ut praedicarem annum placabilem Domino [. aliviávamos o peso do nosso jugo e consolávamos a pena do nosso cativeiro. E assim como eles não tinham outro remédio na sua dor senão a esperança daquele desejado ano e a mudança daquela prometida coroa. a diligência com que eu me disponho.

e esta pode ser também a da arrogância. as coroas e o domínio e sujeição de nações tantas e tão dilatadas. na fé e confiança das mesmas promessas se atreverão animosamente a empreendê-las. recorram a Deus e a suas promessas. quis non timebit? Dominus Deus locutus est quis non prophetabit ? Está o leão bramindo? Sim. quis non prophetabit? Falem todos nas profecias e entendam-nas todos. E porque o fruto deste benefício se pode colher nas novidades que promete este mesmo ano em que.tão singulares maravilhas e maravilhosas felicidades. Deixou Cristo aos discípulos lutar com a tempestade na primeira vigia. soe também em nossos ouvidos por cima de todas elas. pratiquem-nas todos. Esta é a resposta do valor. Mas as promessas e as disposições divinas. porque se não ofenda Deus. porque são voz do Céu. pois agora é o tempo de se ouvirem as profecias e de se saber e publicar o que Deus tem dito: Dominus Deus locutus est. digo. que é o Hércules que tantas vezes se tem vestido de seus despojos. Assim lhes chamei. brame o mar. seguro está o Reino em que ele e a palavra de Deus correm o mesmo perigo. enfureçam-se os ventos. que não temerá Portugal. e pelejará seguro. lendo os príncipes da Cristandade. está. ou para provar nossa fé. digo assim com o profeta Amos: Leo rugiet.Anexo:Imprimir/ História do Futuro tempos. que agora é o tempo. quis non timebit? «Quando bramir o leão. as vitórias. as conquistas. que não temerá Portugal que é o David que tantas vezes lhe tem tirado das garras os seus cordeiros. Capítulo VI: Terceira utilidade. que Deus há-de acudir por sua palavra. que por isso nos tem prevenido com elas. ou para mais exaltar sua onipotência. ainda então os repreendeu de pouca confiança. medidas só as forças da potência humana. Escureça-se a noite. ordenar e tirar à luz para o benefício público. Quando as bramidos do leão se ouvirem em suas caixas e trombetas. de cujo som tremem os muros de Jericó e a cuja bateria nenhuma fortaleza resiste. nem na terceira. que é o Sansão que tantas vezes o tem desqueixado. os socorreu com sua presença. Não confie Portugal em si. e quando na quarta. quis non prophetabit? Estas são as trombetas do Céu. o trovão de nossas profecias. depois de os atemorizar com fantasmas. Ele pode mais que todos os poderes humanos. na segunda não lhos acudiu. Oh! que bem armados esperarão o leão na campanha os nossos soldados. de que Deus se não agrada. que não temerá Portugal. que lhes estão prometidas. História do Futuro (Volume I. nem ainda temeridade que se arrojasse a empreender a desigualdade de tamanhas guerras e a desproporção de tão imensas conquistas. e só uma cousa não pode. aplicando o remédio à ferida ou aos ameaços dela. os triunfos. quem não tremerá?» Responderão com razão os nossos soldados que não temerão aqueles que tantas vezes os têm vencido. Mas se acaso (que pode ser) houver algum sucesso adverso (que também depois do milagre de Jericó houve nos campos de Hai). nenhuma razão haveria no Mundo que se atrevesse a aconselhar. sem ter por fiador a palavra divina. somos entrados. sendo certo que. e de as ajuntar. não perca Josué nem seus soldados o animo.) por Padre Antônio Vieira 21 Finalmente (e é a terceira e não menor utilidade desta História). Costuma a Providência Divina começar suas maravilhas por efeitos contrários. e mais particularmente aqueles que foram ou estão já escolhidas por Deus para instrumentos gloriosos de . rompa-se o céu. lendo. confie só no mesmo Deus e em suas promessas. no discurso da História do Futuro. se tiverem nas mãos as armas e no coração as profecias! Leo rugiet. que é faltar ao que tem prometido. Leo rugiet. . os reinos.

e na fé e confiança desta profecia. nem ele se atrevera ao que se atreveu. mas se não fora ajudado da profecia. para que Jónatas entendesse a resposta do divino oráculo. outro de conquistas. formou o valor. toca-se arma. matam-se. nem obrara e levara ao cabo o que obrou. para porem em fugida o mais poderoso exército e alcançarem a mais desigual e prodigiosa vitória. porque os tem entregues em nossas mãos. interpretando-a (como verdadeiramente era) conforme o sinal que tinha posto. prosseguiram seu caminho. Para testemunho desta tão importante verdade e alento dos que a lerem. pelas grutas. que só o acompanhava: Se quando formos sentidos do exército dos Filisteus. disse assim ao seu pajem da lança. Tinham vindo sobre o povo de Israel os exércitos dos Filisteus com trinta mil carros de guerra e tanta multidão de soldados. Também sei que a quem desatasse o nó gordiano que Alexandre cortou com a espada. que não só compara a Escritura Sagrada q número deles com o da areia do mar. tudo facilitam e a tudo animam.. pela qual a Providência divina naquele tempo costumava responder e significar os sucessos futuros. chegaram perto e foram sentidos. reconhecendo sua desigualdade para resistir a tão superior e excessivo poder. Ajustados os sinais nesta forma.sicut arena. pelas covas. mas se as sentinelas disserem: — Vinde para cá — é sinal que responde Deus que acometamos. A maior e mais nobre conquista que até hoje se intentou e conseguiu no Mundo. que temos certa cousa que vos dizer. senão com a areia muita: . tendo por sem dúvida que havia de vencer. e que não convém acometer. bastando só dois homens armados da confiança de uma profecia. cuidando que eram os soldados de Saul. atropelam-se. começa ele e o companheiro a matar nos inimigos. disserem as sentinelas: — Esperai por nós — é sinal que responde Deus que paremos. perturbam-se os arraiais. As sentinelas que deram fé dos dois voltos. como são os vaticínios da Gentilidade. nem assento considerações e verdades tão sérias sobre fundamentos de tão pouca subsistência. Bem sei que no dia em que nasceu Alexandre.sabe inventar o medo e a necessidade. foi a famosa de Alexandre Magno. e que havemos de prevalecer contra eles. falaram entre si. onde prognosticaram os Magos que naquele dia entrara no Mundo quem havia de ser o incêndio de toda Ásia. O homem que a empreendeu era o maior capitão que criou a natureza. e encaminhando para os alojamentos do inimigo. porei aqui um só exemplo de guerras. mas não chamo eu a isto profecias. Não foi necessário mais. diz o mesmo texto que se tinham escondido pelas brenhas. ardeu o famosíssimo templo de Diana Efesina. Saem das covas os Israelitas. Conhecem-se enfim com imortal glória de Jónatas os autores de tão estupenda façanha. 22 . seguem os Filisteus fugitivos.. trava-se uma brava peleja dos mesmos Filisteus uns contra os outros. concordando em que eram hebreus dos que estavam metidos pelas covas. quae est in littore maris. trata de consultar a Deus por um modo de oráculo ou sorte. filho de el-rei Saul. mas um e outro os maiores que até hoje se viram no Mundo. e voltam carregados de despojos. avança animosamente às tendas dos Filisteus. a que os Hebreus chamavam Phurim. pelas montanhas. cresce a confusão.Neste estado de horror e miséria sai de noite o príncipe Jónatas. levantaram a voz e disseram para eles: — Vinde cá. Os Israelitas. pelas cisternas e por todos os outros lugares mais ocultos e secretos que . aperfeiçoou a arte e acompanhou a fortuna.Anexo:Imprimir/ História do Futuro antecedentemente conhecidas na previsão do futuro. estava prometido pelos oráculos de Apolo Délfico o império de todo o Oriente. Fogem. plurima. .

sed Deum. foi a famosa de Alexandre Magno. cujus principa desse a resposta do divino oráculo. Fogem. saiu a o receber fora do templo D sumo sacerdote Jado. se lançara a seus pés e o adorara. vendo-o. incitavit me ut nequaqm negligerem. nem ele se atrevera ao que se atreveu. e exortando-o a que empreendesse a conquista da Pérsia. XI de suas Antigüidades. cum huc advertissem. Bem sei que no dia em que nasceu Alexandre. Propterea et 23 . o homem que a empreendeu era o maior capitão que criou a natureza. e que Alexandre. Conta Josefo. toca-se arma cresce a confusão. porque reconhecera que aquele era o hábito. Dumque mecum cogitassem posse Asiam vincere. respondeu que ele não adorara aquele homem. mas se não fora ajudado da profecia. virtutemque solvisse Persarum. cujus principatus sacerdotii functus est. A maior e mais nobre conquista que até hoje se intentou e conseguiu no Mundo. tendo por sem dúvida que havia de vencer. nem obrara e levara ao cabo o que obrou. [. nem assento considerações e verdades tão sérias sobre fundamentos de tão pouca subsistência. no liv. no liv. perturbam-se os arraiais. sed Deum. sed confidenter transirem. senão nele a Deus. se lançara a seus pés e o adorara. aperfeiçoou a arte e acompanhou a fortuna. revestido dos ornamentos pontificais. Também sei que a quem desatasse o nó gordiano que Alexandre cortou com a espada. As palavras de Alexandre (que é bem se veja a sua formalidade) são as seguintes: — Non hunc adoravi. que naquele tempo meditava. cuidando que eram GS soldados de Saul. avança animosamente às tendas dos Filisteus. cidade de Macedônia. Nam per se ducturum meum exercitum dicebat. entrando Alexandre em Jerusalém. et Persarum traditurum potentiam: ideoque neminem alium in tali stola videns. adhuc in Dio civitate Macedoniae constitutus. saiu a o receber fora do templo o sumo sacerdote Jado. matam-se. que naquele tempo meditava.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Conta Josefo. respondeu que ele não adorara aquele homem senão nele a Deus. mas não chamo eu a isto profecias. e perguntado pela causa de tão desusada reverência. revestido dos ornamentos pontificais. ardeu o famosíssimo templo de Diana Efesina. tão alheia de sua grandeza e majestade. começa ele e o: companheiro a matar nos inimigos. como são os vaticínios da Gentilidade. atropelam-se. tão alheia de sua grandeza e majestade. Nam per somnium in hujus modi eum habitu conspexi. lhe segurara a vitória. porque reconhecera que aquele era o hábito. cidade de Macedônia. trava-se uma brava peleja dos mesmos Filisteus uns contra os outros. e na fé e confiança desta profecia. interpretando-a (como verdadeiramente era) conforme o sinal que tinha posto. Saem das covas os Israelitas. para porem em fugida o mais poderoso exército e alcançarem a mais desigual e prodigiosa vitória. e exortando-o a que empreendesse a conquista da Pérsia. e perguntado pela causa de tão desusada reverência. formou o valor. onde prognosticaram os Magos que naquele dia entrara no Mundo quem havia de ser o incêndio de toda Ásia. Conhecem-se enfim com imortal glória de Jónatas os autores de tão estupenda façanha' bastando só dois homens armados da confiança de uma profecia. As palavras de Alexandre (que é bem se veja a sua formalidade) são as seguintes: Non hunc adoravi. estava prometido pelos oráculos de Apolo Délfico o império de todo o Oriente. lhe segurara a vitória.. salutavi. o ornato e a representação em que Deus lhe tinha aparecido em Dio. habens visionis et probutionis nocturnae memoriam. o ornato e a representação em que Deus lhe tinha aparecido em Dio. que.] Exinde arbitrar Divino iuvamine me directum Dariumque vixisse. que entrando Alexandre em Jerusalém. e que Alexandre.. XI de suas Antigüidades. vendo-o. seguem GS Filisteus fugitivos. e voltam carregados de despojos.

em obséquio e reconhecimento de sua potência. porque não pararam aqui as profecias de Daniel na visão dos quatro animais referidos no cap. de Cartago Espanha. dos Macabeus. II. dizendo: . o terceiro dos metais. se tivesse visto a si mesmo melhor retratado nas profecias de Daniel. e sem pôr os pés na terra. com que mereceu o nome e se fez verdadeiramente magno. e depois de sua morte se dividiu em quatro. referido e louvado por Plínio no liv. e que este segundo animal. significava também o império de Alexandre. sem pôr os pés na terra. correndo da parte do Ocidente contra o primeiro. o império dos Gregos. antes de obrar todas estas maravilhas. Saiu pois Alexandre da parte ocidental. III da História Natural. Em seguimento e confiança destas profecias. na primeira. porque. que era o bronze.. Mas como Alexandre. et Darium regem Persarum et Medorum. o maioral das cabras. que eram então os últimos da terra de onde Hércules e o padre Líbero os tinham colocado. Conta ali o profeta que viu dois animais do campo: um. que é a Macedônia. Na visão da estátua de Nabuco. particularmente aquela do cap.. outro. em que venceu e desbaratou de todo os exércitos de Dario e tomou ou se deixou saudar com o nome de Imperador da Ásia. achou nela os embaixadores de África. et accepit spolia mulitudinis gentium.percussit Alexander [. como é autor Clitarco. na segunda. Nestas duas figuras é certo que estava profetizado. Sardenha.Anexo:Imprimir/ História do Futuro omnia quae meo. Itália. o império dos Persas e Medos (como explicou o anjo a Daniel). Tudo certifica ainda com palavras maiores o mesmo Texto Sagrado no exórdio do I Liv. VIII. acabando de se cumprir a profecia na última batalha do Tigranes.corde sperantur. o qual sujeitou e uniu todo ao seu império. não é muito que. passando o Tauro e o Cáucaso e chegando até os fins do Ganges e praias do mar Índico. e diz ali o Profeta que reinaria e se faria obedecer de todo o Mundo: Et regnum tertium aliud aereum. Mas foram ainda mais em número e grandeza as nações que venceu e sujeitou Alexandre com a fama mais que com a espada. do que depois se viu nas estátuas de Lisipo nem nas pinturas de Apeles. Não parou aqui Alexandre.. e com setenta talentos para estipêndios. et siluil terra in conspectu ejus. pro ventura confido. que foi Alexandre. as quais províncias. refere também Josefo que foram mostradas a Alexandre as profecias de Daniel. é a desigualdade do poder e o limitado aparato de guerra com que entrou em tão imensa empresa. porque. que fazem da nossa moeda quarenta e dois mil cruzados. Sicília. Gália. que foram os quatro reinos em que ele o repartiu entre seus capitães. partiu Alexandre vitorioso para a conquista que lhe restava do mundo oriental. investiu. pertransiit usque ad fines terrae. significado no leopardo com quatro asas. bastimentos só para trinta dias. saiu de Macedônia com menos de quarenta mil homens. No mesmo templo de Jerusalém. referida no cap. o investira e derribara e metera debaixo dos pés.. derribou e meteu debaixo dos pés o império dos Persas e Medos. constituit et praelia multa et oblinuit omnium munitiones. se lhe mandaram sujeitar e entregar espontaneamente e entre elas os mesmos Romanos (nome já naquele: tempo famoso no Mundo).] qui primus regnavit in Graecia. que no princípio esteve unido em uma só pesca. entrando da volta desta jornada em Babilônia. com um só corno entre os olhos (o qual depois de quebrado se dividiu em quatro). quod imperabit universae terrae. Porém o que mais admira nas conquistas e vitórias de Alexandre. o maioral das ovelhas. com dois cornos muito fortes. se 24 . por isso tinha a testa dividida em dois cornos. animado e soprado do espírito das mesmas profecias e cheio da majestade delas. como refere Plutarco e o prova com graves autores. O terceiro era Alexandre. pela velocidade com que vencia e sujeitava tudo. et interfecit reges terrae. VII.

Era tão inumerável a multidão de Sarracenos que debaixo das luas de Ismael. das quais justamente se duvida (como pôs em questão Justino) se foi maior façanha o intentá-las. mas como o velho ermitão. como Alexandre. triunfa. que para cada lança cristã havia no campo cem mouros. fé era e não audácia. sendo a confiança ou o seguro de todos estes arrojamentos. deve a Daniel o ser Magno! Os exemplos que temos domésticos desta mesma utilidade. mas a previsão e presciência de suas futuras vitórias e do império que lhe estava prometido. resolveu intrepidamente dar a batalha.. mata. assim nas batalhas. Alphonse. desbarata o exército. ou vencê-las. sustenta quatro vezes o peso imenso de todo seu poder. cativa. acomete de fronte a fronte ao inimigo.Oriente perdomito. despoja. inundaram os campos de Guadiana com intento de tomar Portugal naquele dia fatalíssimo. pisa glorioso as cinco coroas mauritanas e põe na cabeça. mas ainda mostraram mais os poderes de sua influência na conquista. da mesma noite em que tinha recebido a profecia. donde Alexandre tinha saído. sendo tantos e tão excelentes). não são menos admiráveis que os estranhos. cumpriu e encheu Alexandre tudo o que cabia na mortalidade.:> Que dissera. «Domado o Oriente e navegado o Oceano. mas passaram e penetraram adiante muito maior comprimento e terras do que há do mesmo Ganges a Macedônia. Não chegaram os Portugueses só às ribeiras do Ganges. se pode desculpar aquela mais temeridade que audácia (qualidade. e dos outros quatro reis mouros. se deve a Filipe o ser Alexandre. e libertada a Pátria. não o domínio que ele tivesse sobre a fortuna — Quam solus omnium mortalium sub potestate habuit — como com discrição gentílica disse dele Cúrcio. rende. conforme as profecias de Daniel. já rei. Na manhã. de aqui. Tanta parte teve a profecia nas ações deste grande capitão e no império deste grande monarca. et non vinceris — socorrido o animoso capitão e fortalecido o pequeno exército com esta promessa do Céu. com que Alexandre empenhava sua pessoa e vida e se precipitava muitas vezes aos perigos por cousas leves. confiança e não temeridade empenhar-se Alexandre nos perigos para conseguir as empresas. pois. posto que honrosa. a portuguesa. como nas conquistas. digo. quando conquista o alheio e não defende o próprio). 25 . visto primeiro em sonhos e depois realmente ouvido e conhecido. intérprete da Divina Providência. se vira as navegações dos Portugueses no mesmo Oceano e suas conquistas no mesmo Oriente? Obrigação tinha em boa conseqüência de lhes chamar imortais. aditoque Oceano. Isto obraram as profecias daquela noite na guerra. rompe os esquadrões. lhe assegurou da parte de Deus a vitória.. com aquelas tão expressas e animosas palavras Vinces. e alcançada na mesma hora a vitória. E como tinha a vida e as empresas firmadas por uma escritura de Deus ou por três escrituras. sem reparar em que era tão desigual o partido. Quem duvida que foram mais estendidas e gloriosas as conquistas dos Portugueses que as de Alexandre Magno na mesma Índia? Desta conquista de Alexandre disse o seu grande historiador . e ao mesmo Deus por fiador de sua palavra e promessas. quidquid mortalitas cutiebut.Anexo:Imprimir/ História do Futuro atrevesse a tão árduas e dificultosas empresas. que justamente estavam temerosos os poucos portugueses. E de aqui se pode desculpar (cousa que não soube nem pôde advertir nenhum dos historiadores de Alexandre. o qual. o primeiro de nossa maior fortuna. indigna de um general prudente e muito mais de um rei. e havia necessariamente de conquistar. impleret. e seu valoroso príncipe duvidoso se aceitaria ou não a batalha. e dar exemplo de desprezo da vida a seus soldados para os animar às vitórias.

e esta fé os animava nos trabalhos. guia e esperança aos que. não longe senão dentro de 26 . Quem quiser ver com admiração a tormenta de contradições populares . para que até nesta parte deva Portugal as suas conquistas aos lumes e alentos da profecia. Não navegaram só o mar Indico ou Eritreu. que promontórios não contrastaram? Que gentes feras e belicosas não domaram? Que cidades e castelos fortes na terra? Que armadas poderosíssimas no mar não renderam? Que trabalhos. Sabiam que tinha Cristo prometido a seu primeiro rei que os escolhera para argonautas apostólicos de seu Evangelho e para levarem seu nome e fundarem seu império entre gentes remotas e não conhecidas. e mais fortes guerras experimentaram nos naturais que resistência nos inimigos. animado nas contradições e contrariedades presentes com o conhecimento e certeza dos sucessos futuros. com promessa de seu favor e luz dos gloriosíssimos fins. e contrastando com igual fortaleza o indômito furor do segundo e quarto elemento (que são o mar e o fogo). valor e constância do Infante D. e. esta confiança os sustentava nos perigos. mas domaram o mesmo Oceano na sua maior largueza e profundidade.. Que valor sesudo. que céus. que doenças. mais poderoso e mais indômito: o Atlântico. mas dar animo. dilatação da Fé e conversão da Gentilidade. o Sínico. o qual. como religiosíssimo príncipe que era. tão temeroso por seus tulões e tão infame por seus naufrágios. e nela principalmente pretendia a glória de Deus. do que fossem conquistadas na África. o Etiópico. e seus exércitos. do I liv. seguindo seu exemplo e empresa. que por meio de tão dura porfia se haviam de alcançar. sem ceder. e esta esperança a âncora e amarra firme. aonde ele é mais bravo e mais pujante. que será sempre de feliz memória. Henrique. Com este oráculo divino mais fortalecido o espírito do Infante. e conhecerá quantas obrigações deve Portugal e o Mundo ao sofrimento. que vigias. vencidas as primeiras e maiores dificuldades. que por espaço de dez anos padeceram os primeiros descobrimentos das conquistas. que ventos. mereceu que o mesmo Deus com uma voz do Céu o exortasse a levar por diante o começado. que calores. Maiores contrastes tiveram ainda as conquistas de Portugal na nossa terra que nas estranhas. que nas mais desfeitas tempestades os tinha seguros. que frios. Assim se conta e escreve por fama e tradição daquele tempo. América. que fomes. que mares. esta luz do futuro era o norte que os guiava. e aclamar novo rei. sobre todos. o Pérsico. e restituir-se à sua liberdade. que é um seio ou braço do Oceano. o Malabárico. posto que muito a devamos à ousadia do nosso valor. senão pela confiança e seguro de suas profecias. com mais pertinácia que com instancia? Mas não obraram todas estas proezas aqueles portugueses famosos por benefício só de seu valor. como levantar-se contra o mais poderoso monarca do Mundo. esta última resolução que no ano de quarenta assombrou o Mundo. nos ganhou com sua constância as conquistas. filho de El-Rei D. João I. valor. leia o grande cronista da Ásia.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Não venceram só a Poro. que tormentas. que mortes não sofreram e suportaram. sem parar. que sedes. e de todo o Reino. a levaram ao cabo. Henrique. rei da Índia. prudente e bem aconselhado se havia de atrever a uma empresa tão cercada de dificuldades. muito mais a deve o nosso valor à confiança de nossos vatícinios. no IV cap. autor desta heróica empresa. Que perigos não desprezaram? Que dificuldades não venceram? Que terras. não só pôde romper e abrir as portas tão cerradas do Oceano e deixá-las francas e patentes aos que depois vieram. sem tornar atrás. Finalmente. insistindo sempre e indo avante. que não pudera conseguir sem o socorro da luz do Céu. mas sujeitaram e fizeram tributárias mais coroas e mais reinos do que Poro tinha cidades. conquistando-as primeiro em Portugal. Ásia. Desta maneira o Infante D. que climas.

sem aliados. vel quali etiam fine contenta. quando as restituiu a elas e se restituiu a si mesmo. sem poder. nenhuma tão defendida de dificuldades. Em todas as outras considerações foi mais desigual esta empresa que as que eu prometo ou hei-de prometer. Quis Deus que a Igreja. que debaixo do escudo desta confiança se não intente. a levantou a seu tempo nas vozes. Da conquista espiritual do Mundo se pode fazer bom argumento para a temporal. e o zelo da liberdade. sobre sessenta anos de cativo e despojado. quae jam fuerat apostolorum praedicatione funduta. pois é mais forte a guerra e mais dura resistência a dos entendimentos que a dos braços. inermes armatos. e se a esta se atreveram poucos homens sem armas. João. sem amigos. e este seja entre todos o maior exemplo. porque. que é o seu reino. um reino de grandeza tão desigual. nem mais elegantemente. sem nobreza. em que o novo rei seria levantado. só e até de si mesmo dividido em tão distantes partes do Mundo? Mas como havia outros tantos anos que a profecia estava dando brados aos corações. para que não duvidassem cometer as batalhas: Post exortum autem Ecolesiae. a promessa que sempre a conservou nos corações. que nos tempos que hão-de vir (ou que já vêm) o esperam! Não se poderá compreender a grandeza e capacidade desta importância senão depois de lida toda a História do Futuro. nem mais certa. assim das nossas guerras como das nossas conquistas. pois tudo o que tínhamos vencido e conquistado em quinhentos anos. sem soldados. quando recebeu a coroa. se exceptuarmos a desproporção de poucos a muitos. se não avance. se debaixo desta fé nasceu. só porque no conhecimento das profecias tinham segura a 27 . tão poderoso contra todos os impossíveis o conhecimento e fé do que há-de ser representado no espelho das profecias. se debaixo desta fé cresceu. este mesmo conhecimento os animava a quererem ser (como foram) os instrumentos gloriosos delas. se debaixo desta fé se restaurou. lendo os soldados evangélicos naquelas profecias quão largamente se havia de propagar a mesma Igreja e quão prodigiosas vitórias havia de alcançar a Fé contra todos os inimigos. contra tantos armados arrogantes. sem assistências. revelari oportuit — diz Primásio — qualiter esset latius propaganda. sem socorros. a Pátria aos Portugueses. oh! quanto mais necessário lhe será a Portugal. pauci multos. tome os compassos a Portugal e ao Mundo. sem armas. e pergunte-se a si mesmo se se atreve a igualar estes paralelos. o Reino à Pátria. hujus cognitionis fidutia freti. Segurou-lhes Deus as vitórias.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Espanha. Não se pode dizer. em todos os casos maiores que podem acontecer a um reino. que nenhuma empresa pode haver tão desigual. alentados das promessas do Céu. É porém. ut praedicatores veritatis. se não prossiga. E se tanto tem valido e importado a Portugal o conhecimento de seus futuros. e Portugal a si mesmo. vivi tamen spiritualiter mortuos. indubitanter aggrederentur pauci multos. e quanto mais útil e importante esta mesma fé e conhecimento de seus futuros sucessos para aquelas empresas novas. o pudemos restaurar um dia. infirmi nobiles. quando lhe acrescentou as conquistas. em que nunca se apagou o amor da Pátria. na qual só se medirá bem a imensidade do objeto com a desigualdade do instrumento. e ela foi a que deu o rei ao Reino. se estendesse por seus sucessores em todo o Mundo. e muito maiores. humiles superbos. e a saudade do rei. nobres e poderosos. sem estimação. e quais foram as armas com que Deus os fortaleceu para que não temessem ou duvidassem a empresa e se dispusessem animosamente a tão estranha conquista? Advertiu com profundo juízo Primásio que fora o Apocalipse de S. dizendo e publicando a todos que o desejado tempo dela havia de chegar no ano felicíssimo de quarenta. Mas quem quiser desde logo fazer de algum modo a conjectura desta desproporção. se não vença. fundada pelos Apóstolos. nenhuma tão armada de perigos.

Clypei non enarrabile textum Illic res Italas. que trabalhos. Forjou Vulcano as armas. e que golpes nos pode atirar com todas as forças de seu poder. como um dos deuses que era participante dos segredos do supremo Júpiter. nem mais impenetrável.. e com ele embraçado em uma mão e a espada na outra. clypeum? Armados com este escudo. se reparam e se rebatem: Et nos tolerabilius mundi mula suscipmus. que pediu Vênus. Aeneid .praescientia. Haud vatum ignarus. ainda que sejam poucos contra muitos? E digo na confiança das mesmas profecias. compondo e copiando os sucessos pelos oráculos e vaticínios dos profetas e pelas notícias próprias que tinha. mãe de Eneias. que um escudo formado por arte e sabedoria divina. posta toda a confiança em Deus e em sua palavra. diz que abriu de subtilíssima escultura as histórias futuras das guerras e triunfos romanos. no qual estivessem entalhados e descritos os mesmos sucessos futuros que se haviam de obrar naquela empresa.Anexo:Imprimir/ História do Futuro felicidade e fim da empresa. nenhuma arma poderia haver mais forte. 8. nem aceite as mais arriscadas batalhas.. e todos os que lhes quiserem ser companheiros. que conquista haverá que não empreendam. ao deus Vulcano lhe fabricasse umas armas divinas. e na confiança das mesmas profecias. este prodigioso livro do futuro. em que todas as adversidades e golpes do Mundo se sustentam. porque uma boa parte da nossa História (como veremos em seu lugar) são as do mesmo Apocalipse. se as empresas no mesmo escudo vão já resolutas. nem que mais enchesse de ânimo. com que vencesse os reis e sujeitasse as nações belicosíssimas que a dominavam. e achou o mais levantado e judicioso espírito de quantos escreveram em estilo poético. mas pintarem-nas como haviam de ser ou como era bem que fossem. que pelos fados lhe estava prometido. não fabuloso. que para vencer as mais dificultosas empresas. si contra haec per prtescientiae clypeum munimur. com que entrasse armado na dificultosíssima conquista de Itália. que dificuldades que não desprezem. romanotumque triumphos. com que vitorioso fundasse naquelas terras o famosíssimo Império Romano. Assim armou o grande poeta ao seu Enéias . confiança e valor o peito que fosse coberto e defendido com ela. senão escudo da presciência . Gregório escudo fortíssimo da presciência. ) O ofício e obrigação dos poetas não é dizerem as cousas como foram. as armas se ilustram com a nobreza e a nobreza compete com a estimação e com a fama. (Virgílio. que perigos nos pode oferecer o mar. a terra e o Mundo. Lerão os Portugueses. e este mesmo escudo. . para conquistar as mais belicosas nações e para fundar o mais poderoso e dilatado império. as batalhas vão já vencidas e os inimigos já triunfados? Fingiu o príncipe dos poetas latinos. Que vem a ser esta nossa História do Futuro. purgnataque ordine bella. que impossíveis que não vençam? Ao conhecimento antecedente dos futuros chamou discretamente S. e não vença e triunfe dos mais poderosos inimigos. que não sustentemos nele com animosa constância? Quem haverá que debaixo deste escudo não empreenda as mais dificultosas conquistas. senão 28 . que perigos que não pisem. porque se não atreverão à mesma empresa. aqueles em quem o poder se iguala com as armas. venturique inscius aevi. que era a maior e principal peça delas. e no escudo. Fecerat igni potens: illic genus omne futurae Stirpis ab Ascanio.

como e quando é servido. para que em tudo lhe seja semelhante. quiserem antes ser companheiros de nossas felicidades. sem batalha. Lerão aqui nossos vizinhos e confinantes (que muito a pesar meu sou forçado alguma vez a lhes chamar inimigos. em que sabem muito bem os campos de uma e outra parte o sangue de que mais vezes ficaram matizados. e não fingidos depois de experimentados os sucessos. e sem ficção. quantas despesas. Sobre tudo se verão nele a si mesmos e suas valorosas ações. conheça-se e examine-se a sua vontade pelos meios com que ela se costuma declarar. o que hão-de vencer. se. provada a verdade dos futuros com a experiência dos passados: e verão. um manifesto desengano de sua profecia. se. o apetite e o ódio. o que hão-de resolver. tenha também algum dia lugar neles a Fé. para que o sejam. chamavam-lhe por zombaria rei de um Inverno. Quando se soube em Madrid do rei que tinham aclamado os Portugueses no primeiro de Dezembro do ano de 640. e que com os muros de Milão tinha . que Deus é o que desuniu de sua sujeição a Portugal. se quiserem abrir os olhos. como é o animo com que ele se escreve! Não entre só nos conselhos de Estado a conveniência e reputação. e o que hão-de ser. voltando os olhos ao passado. não quero deixar de advertir por fim delas. e também o da nossa História. ainda da mesma natureza. quisesse ler esta História do Futuro. Nele verão os capitães de Portugal. Oh quantos danos. para que. senão escritos antes de sucederem. antevendo o que hão-de obrar. pois se lhe não pode resistir com força. Bem pudera conhecer Espanha.) por Padre Antônio Vieira 29 Entre as utilidades próprias a dos amigos. deixada a dissonância e escândalo deste nome. quantas lágrimas e opressão de naturais e estrangeiros podia escusar Espanha. o discurso militar e político. pelejam contra as disposições do supremo poder e combatem contra a firmeza de sua palavra. em que a fama só de suas armas nos conquistasse.Anexo:Imprimir/ História do Futuro verdadeiro. e sem resistência. ao nosso rei. que padecê-las dobradamente na dor e inveja dos êmulos. suponha-se que Deus é o que dá e tira os reinos. Dobrado de sete lâminas dizem que era aquele escudo. e depois de averiguada e conhecida. parecendo-lhes aos senhores Castelhanos. com os olhos limpos de toda a paixão e afeto. com estas cópias de morte-cor diante dos olhos. pela experiência. conhecendo que na guerra que continuam contra Portugal. retratem por elas vivamente os originais. Imaginou Espanha que na prisão do Infante D. Mas são já passados vinte e cinco Invernos. que também a lição desta História pode ser igualmente útil e proveitosa aos inimigos. História do Futuro (Volume I. quanto sangue e perda de vidas. o que nesta História do Futuro ofereço. em que inundações do Bétis e Guadiana não afogaram a Portugal. e com tanto zelo e desejo de acertar com os caminhos de seu maior bem. ceda-se e obedeça-se a Deus por conveniência. Duarte atava as mãos a Portugal e lhe tirava a cabeça com que haviam de ser governados na guerra. para o não serem) lerão aqui com boa conjectura as promessas e decretos divinos. que não duraria a fantasia do nome mais que até a primeira Primavera. é propriamente. como em espelho. Capítulo VII: Última utilidade. havendo tantas razões. o que hão-de conquistar. sem conselho. a vingança. Portugueses. para que o obrem. e Deus o que o sustenta desunido e o conserva vitorioso. quantos trabalhos. é publicado em sete livros. e vinte e quatro Primaveras.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro sitiado a Portugal. Morreu enfim (ou foi morto) aquele príncipe, e nem por isso desmaiou o Reino, antes se armou de novo a justiça de sua causa com a sentença daquela inocência, e se endureceram e fortificaram mais os peitos com o horror e fealdade daquele exemplo. Voltou-se todo o peso da guerra contra Saul; maquinou-se contra a vida de El-Rei Dom João por tantos meios e instrumentos (e algum deles sobre indecente sacrilégio); parecia-lhe a Castela que, faltando a Portugal aquela grande alma, seria fácil a suas águias empolgarem no cadáver do Reino. Faltou El-Rei D. João ao Reino, sobre ter faltado de antes seu primogênito Teodósio, príncipe de tantas virtudes, opinião e esperanças; mas viu o Mundo, posto que o não quis ver Castela, que era o braço imortal o que defendia e conservava aos Portugueses. Sucedeu na menoridade do rei com tanta prudência e valor a regência da rainha-mãe, e à regência da rainha o governo felicíssimo de El-Rei D. Afonso, que Deus guarde, monarca de tão conhecida fortuna, que parece a traz a soldo nos exércitos. Fez Castela neste tempo os maiores esforços de seu poder, e para os poder fazer maiores, assim como por esta causa tinha já concluído ou comprado, a preço da própria reputação, a paz de Holanda, ajustou também a de França . Desembaraçadas em toda a parte as suas armas, chamou os espíritos de todo o corpo da monarquia aos dois braços com que Castela cerca a Portugal. Viram-se juntas contra ele em um exército Espanha, Alemanha, Itália, Flandres, com toda a flor militar, ciência e valor daquelas belicosas nações. Mas que resultas foram as desta tão estrondosa potência e dos progressos que com ela se tinham ameaçado a nós e prometido a Europa? Entrou a guerra dividida no ano de 62 por todas nossas províncias; em todas achou oposição igual e efeito superior. Uniu-se no ano seguinte com novo conselho o poder; acrescentou-se de gente de cavalos , de cabos, de aparatos bélicos ; escolheu-se para teatro daquela formidável campanha a província de Alentejo; começou a tragédia com prósperos e alegres passos, triunfando dos que não podiam resistir às armas castelhanas; mas o fim foi tão adverso, tão lastimoso e verdadeiramente trágico, como viu com admiração o Mundo e chorará eternamente Castela. Perdeu a batalha, o exército e a reputação; deixou a Portugal a vitória, a fama, os despojos, e só levou (como sempre) o desengano. Estes têm sido em vinte e cinco anos os efeitos do poder. Passemos aos da indústria. Entendeu Castela que não podia conquistar a Portugal sem Portugal; tratou de inclinar à sua devoção os grandes e os menores. Na constância houve diferença, mas nos efeitos nenhuma. O povo, cuja fortuna é inalterável, não padeceu alteração. Sendo tão livre e aberto em Portugal o mar como a terra, se não viu em tantos anos nenhum pastor que se passasse a Castela com duas ovelhas, nenhum pescador menos venturoso que aos seus portos derrotasse uma barca. Basta por exemplo ou desengano a famosa resolução do povo de Olivença , que com partido de poder ficar inteiro com casas e fazendas, se não achou em todo ele um só homem de espírito tão humilde, que aceitasse a sujeição. Perderam todos a Pátria pela lealdade, triunfou Castela das paredes e Portugal dos corações. Não viu Roma semelhante exemplo, e assim o celebrou um Jerônimo Petrucho poeta romano, com este epitáfio: Victor uterque manet, victoria dividit orbem: Alphonsus cives, saxa Philippus habet. Ainda deu muito a Castela em partir a vitória pelo meio: o vencedor conquistou pedras o vencido vassalos. De indústria se pudera perder á praça, só por lograr a fineza; e de indústria se pudera também não ganhar, só por não experimentar o desengano. Isto vence

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro Castela, quando vence. e assim se rende o povo de Portugal, quando se rende. A nobreza, em que tem maiores poderes o receio ou a esperança, como mais escrava da fortuna, não foi toda constante. Alguns grandes houve entre os grandes, uns que se passaram ao serviço de El-Rei D. Filipe, outros que com maior ousadia o quiseram servir em Portugal; a uns e outros castigou o mesmo braço da Providência, a estes com a vida, àqueles com o desterro. Até agora não tiveram outro prêmio, nem mereciam outro, porque Castela nem pode ressuscitar os primeiros, nem quis pagar os segundos. É fama que foi respondido à sua queixa que tinham feito o que deviam, mas ainda devem o que fizeram: cá perderam o que tinham, lá não ganharam o que esperavam; entre os Portugueses réus, entre os Castelhanos portugueses, que também é culpa. Isto é o que foram buscar a Castela todos os que lá se passaram — o desengano de seu discurso, o descrédito de sua resolução e o castigo de sua incredulidade; e ainda de lá nos mandam o exemplo de seu arrependimento. Levaram o que nos não faz falta, porque se levaram; e deixaram o que nos ajuda a defender, porque nos deixaram as suas rendas. A Portugal deixaram os despojos de suas casas, aos vindouros a memória de sua infidelidade e ao Mundo pregão de sua covardia. Tal foi o merecimento, tal o prêmio. Julgue agora Castela se terá esse interesse cobiçosos e este empenho imitadores. Dizia um dos primeiros embaixadores de Portugal em França (quando ainda havia quem impugnasse a esperança da nossa conservação), que, no caso em que a desgraça fosse tanta, antes se havia de entregar ao Turco que a Castela. Era o embaixador ministro de letras, e como um grande senhor francês lhe pedisse a razão deste seu dito, sendo católico e letrado, respondeu assim: -Porque eu em Turquia, se defender a Fé, serei mártir; se renegar, far-me-ão baxá: e em Castela Monsieur, nem baxá nem mártir. Foi muito celebrada a discrição da resposta, a que acrescentava galantaria a mesma pessoa do embaixador; porque era mui avultado de presença e tão bem lhe podia estar na cabeça o turbante, como na mão a palma. Nada mais venturosamente lhe sucederam a Castela as indústrias estrangeiras que as domésticas. todas desarmou em armas contra si mesma. Em Roma, impediu o provimento das mitras. mas os bagos se converteram em lanças e o que haviam de comer os pastores das ovelhas, comem os que as defendem dos lobos. Em Holanda, comprou os estorvos da paz, mas esta se retardou somente quando foi necessário para se recuperarem as Conquistas. Caso grande e de providência admirável! Em Inglaterra, se empenhou por divertir o parentesco; em França, capitulou que não pudéssemos ser socorridos. mas teve uma e outra diligência tão contrários efeitos, que se vêem hoje em Portugal as suas quinas tão acompanhadas das cruzes de Inglaterra, como assistida das lises de França. Unidas e complicadas estas três bandeiras, fazem um silogismo político, de tão segura como terrível conseqüência. Se só Portugal pôde resistir a Castela tantos anos, ajudado dos dois reinos mais poderosos da Europa, no mar e na terra, como não resistirá? O maior contrário que tem Espanha é o seu próprio poder. Quando se quis levantar sobre todos, se sujeitou à emulação de todos. Estes terá por si Portugal, enquanto ela for poderosa; se o não for, não os há mister. Os discursos da esperança (que é a última apelação de Castela) são os que mais lhe mentiram, porque os homens (quando assim lho concedamos) discorrem com a razão, e Deus obra sobre; ela. Todos os que nas matérias de Portugal se governaram pelo discurso, erraram e se perderam; e por aqui se perderam (ainda entre nós) os que na opinião dos homens eram de maior juízo. São obras e mistérios de Deus; quer Ele que se venerem com

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro a fé e não se profanem com o discurso. Por isso todas as esperanças que se assentaram sobre esta fé foram certas e todas as que se fundaram sobre o discurso, erradas. É natureza isto, e não milagre da palavra e promessa divinas: ...in verba tua super superavi — dizia aquele grande político de Deus, que não só esperava, mas sobreesperava nas promessas de sua palavra divina; porque há-de esperar nas promessas da palavra divina, sobre tudo o que promete a esperança do discurso humano. Assim o temos sempre visto em Portugal, com admirável crédito da fé e igual confusão da incredulidade. No tempo em que Portugal estava sujeito a Castela, nunca as forças juntas de ambas as coroas puderam resistir a Holanda; e de aqui inferia e esperava o discurso que muito menos poderia prevalecer só Portugal contra Holanda e contra Castela. Mas enganou-se o discurso. De Castela defendeu Portugal o Reino e de Holanda recuperou as Conquistas. Aquele fatal Pernambuco, sobre que tantas armadas se perderam e se perderam tantos generais, por não quererem aceitar a empresa sem competente exército, que discurso podia imaginar que, sem exército e sem armada, se restaurasse? E só com a vista fantástica de uma frota mercantil se rendeu Pernambuco em cinco dias, tendo-se conquistado pelos Holandeses com tanto sangue em dez anos, e conservando-se vinte e quatro. Menos esperava o discurso que se conquistasse Angola com tão desigual poder enviado a tão diferente fim; e conquistou-se contudo aquela tão importante parte de África contra todo o discurso e antes de toda a esperança. E porque se saiba mais distintamente quão grandes significações se contêm debaixo destes nomes tão pequenos — Pernambuco e Angola — o que se recuperou em Angola foram duas cidades, dois reinos, sete fortalezas, três conquistas a vassalagem de muitos reis e o riquíssimo comércio de África e América. Em Pernambuco recuperaram-se três cidades, oito vilas, catorze fortalezas, quatro capitanias, trezentas léguas de costa. Desafogou-se o Brasil, franquearam-se seus portos e mares, libertaram-se seus comércios, seguraram-se seus tesouros. Ambas estas empresas se venceram e todas estas terras se conquistaram em menos de nove dias, sendo necessário muitos meses só para se andarem. Quem nestes dois sucessos não reconhecer a força do braço de Deus, duvidar-se pode se o conhece. Assim assiste a Portugal dentro e fora, ao perto e ao longe, aquele supremo Senhor que está em toda a parte e que em todas as do Mundo o plantou e quer conservar. Bendita seja para sempre sua onipotência e bondade! Também esperava o discurso de Castela que os ânimos dos Portugueses, com a continuação da guerra e experiência de suas moléstias, se enfastiassem e suspirassem pela antiga e amada paz, cujo nome é tão doce e natural, e mais à vista de seu contrário; que as contribuições forçosas para o subsídio dos soldados e a licença e opressão dos mesmos soldados fossem carga intolerável aos povos; que os povos, depois de apagados aqueles primeiros fervores que traz consigo o desejo e alvoroço da novidade, com o tempo e seus acidentes se fossem entibiando, até se esfriarem de todo; que os pais se cansassem de dar os filhos e que a guerra detestada das mães (como lhe chamou o Lírico) fosse também detestada e aborrecida das Portuguesas, que, entre as outras mães, o costumam ser mais que todas no amor e na saudade. Mas também aqui mentiu a esperança e se enganou o discurso, porque os ânimos se acham hoje mais alentados, os fervores mais vivos, os corações mais resolutos, o amor ao rei, à Pátria e à Liberdade mais forte, mais firme e mais constante, e maior que todos os outros afetos da fazenda, dos filhos, da vida. Lembram-se os pais que davam os filhos para as guerras de Flandres, de Itália, de Catalunha e navegação das Índias de Castela, onde os perdiam para sempre; e querem

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esperava o discurso que Portugal. e toda a mudança impossível. mas para o verem por fé. Têm na memória que também antigamente pagavam. ainda caindo. todo o pensamento que não seja desta perpetuidade. sobretudo vêem a seu rei da sua Nação e da sua Língua. Conhecem a grandeza desta estimável felicidade. que a gente. 33 . do que eles em Portugal para se defenderem.Anexo:Imprimir/ História do Futuro antes dá-los para as fronteiras de Portugal. não para o verem e lhe falarem. toda a conveniência. aquele discurso. e todo o preço para a conservação de tanto bem lhos parece barato todo o trabalho leve toda a dificuldade suave. traição. tão contínua. natural e necessariamente se havia de atenuar e enfraquecer. sendo tão generosas as mães (nas quais este afeto é superior a toda a natureza). seria sobre ele. os assistem e os têm consigo. tão viva e tão multiplicada em tantas províncias. para o alívio da queixa. e que não era possível aturar por muitos anos as despesas excessivas de uma guerra interior. horror. que os entende e o entendem. não tendo minas nem Potosis. com obrigação de alimentar aqueles membros tão distantes com sua própria substância. se havia de esgotar. sem a dura e insuportável pensão de o irem buscar a Madrid. onde os vêem. seria como o de Eleázaro contra a grandeza e corpulência do elefante. sendo toda da mesma Nação. e que o têm consigo e junto a si para o requerimento da justiça. e que. Os povos não se cansam com os subsídios e contribuições. e que então era tributo do cativeiro o que hoje é preço da liberdade. para o remédio da opressão. e não entrando na conta desta aritmética o poder e assistência de Deus. ruína. tinha mui forçosa conseqüência. havendo de sustentar as guerras e oposição de seus inimigos em todos eles. se havia lentamente de diminuir. rei que os vê e se deixa ver. Isto é o que só tem Castela. E por tal julgaram ainda aqueles políticos que sem ódio nem amor esperavam e prognosticavam o fim e mediam a desproporção de tão desigual empresa. todo o perigo obrigação. que o dinheiro e cabedais. que. para o prêmio do serviço. e o que só pode esperar dos ânimos dos Portugueses. se morrem na guerra. do que os parem e criam para ela. que quando o valor dos Portugueses se atrevesse sobre suas forças. e em realidade falso. contra os combates de uma potência tão desigual e superior como era a do maior monarca do Mundo. e ficaria oprimido e sepultado debaixo de seu próprio triunfo. têm mostrado que só era sofístico e aparente. que os ouve e lhes responde. que os conhece e lhes sabe o nome. e antes da experiência mui dificultosa solução. humana ou gentilicamente considerado. e não para a cobiça de ministros e exatores estranhos. sem mais diligência nem ação que o mesmo peso e grandeza de tão imenso contrário. têm rei que lhes pague as vidas com larga remuneração de mercês e aumento de suas casas. Verdadeiramente este discurso. e vêem estampados seus nomes e estendida por todo o Mundo sua fama. e que concorrem com ele para o estabelecimento e honra de sua Pátria. e que logram aquele estado ditoso de que se lembravam e falavam seus avós com tanta saudade e por que suspiravam seus pais com tantas ânsias. porque sabem quanto maiores e mais pesadas são as que se pagam em Castela para os conquistar. Finalmente. que com igual alegria os choram e sepultam mortos gloriosamente na guerra. onde recebem a glória de ouvir celebrar as ações de seu valor e feitos galhardos. cercado dela por todas as partes. Vêem o fruto de seus trabalhos e suores. toda a promessa. honrando-se (como é razão) de serem pais de tais filhos. Pelo contrário. Mas Deus (a quem não queremos roubar a glória) e a mesma experiência natural e o concurso ordinário de suas causas. como Reino menor e dividido em todas as partes do Mundo.

riqueza e galhardia dos cabos mostra bem que vão às batalhas como a festas. crescendo mais os empenhos sempre. que santuário. antes se prova com evidente e milagrosa demonstração da experiência. a pompa. com que se acha Portugal mais rico e abundante que nunca das utilíssimas drogas de seus comércios. nenhum ano tão bizarro e tão luzido. tão reais e tão sumptuosas festas. é tanta a cópia de alimento. tão notáveis por seu nome é grandeza como bizarros por seu luzimento. que foi o último. A vulgaridade do ouro e prata só se estima pelo invento e pelo artífice. não encarecer. O mesmo que se vê na política bélica das campanhas. com o tempo c continuação da guerra. se não pudera alegar por testemunhas os mesmos que podiam ser partes. se admira na pacífica das cidades. mais preciosas e de mais polido artifício? Tudo isto do que sobeja da guerra. O menor gasto nos vestidos é o que se veste. como do coração. e se sustentam todos os anos. que capela. que neste mesmo tempo se não renovasse. nunca tão grandes salários. tanto aparato. nunca tanto no asseio e ornamento das casas. recebem os espíritos de que se animam. que a substância do Reino está hoje mais grossa. quando a Primavera se acabou nos campos. membros tão remotos e tão vastos deste corpo político de Portugal. as quais com igual liberalidade e interesse remetem hoje ao Reino toda aquela substância que o calor da guerra própria lhes consumia. que não só tem suficiente matéria para formar os espíritos que com os membros mais distantes reparte. se renovou outra vez no nosso exército. Nenhum ano se pôs em campo exército tão grande. mas lhe sobeja com que se sustentar a si e a todo o corpo. tanta era a variedade das cores com que os terços se matizavam e distinguiam. nunca tanto na abundância e regalo das mesas. e estas são as minas do nosso Reino. com que se sustentaram até agora. nunca tantos e tão magníficos edifícios. que altar. que no seguinte se não excedesse na bizarria e nas galas. Com a guerra. mais ricas. As usuras de Deus são cento por um. e não pelo preço. Que templo. desfazendo-se e arruinando-se (com lástima) obras antigas e de grande arte e preço. onde sobeja e se dispende tanto com o supérfluo? Mais temo eu a Portugal os perigos da opulência. Diga agora o algarismo de seu discurso. pois. O ano passado. tanta família. que eles mesmos com suas riquezas lhe subministram. que tudo quebranta e diminui. e tão abundante. E a verdade desta experiência se tem provado com mais sensíveis efeitos depois da paz universal das mesmas Conquistas. ainda que do Reino. Mas por isso sobeja. e que se vestem mais para triunfar que para vencer. E ou seja esta a causa natural. ou outra mais oculta e superior. assim próprios como particulares. Nunca tanto se gastou no primor e preço das galas. nunca tantas. mais florente e opu1enta que no princípio da guerra. nunca tantos criados. se pode haver falta no necessário. nunca tão grandes mercês. só para se lavrarem outras de novo. e desposas dela. nunca tão grandes soldos. cresceu e se aumentou tudo em Portugal. que no seguinte se não pusesse outro maior. Não me atrevera a falar com tanta largueza. nunca tão grandes dotes. tantos cavalos. nunca tantas fábricas. sempre mais e maiores exércitos. para que pela divisa se conhecessem os soldados e ostentassem a competência de seu valor. porque só o silêncio os pode explicar. estes os Potosis de Portugal. não têm padecido a quebra e diminuição que o discurso lhes prognosticava. Destes comércios lhe vêm as riquezas com que pode pagar e premiar 34 . Passo em silêncio os imensos gastos do serviço e majestade do culto divino.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Porque as Conquistas (que era o primeiro reparo). ao mesmo passo parece que ou crescem ou se manifestam novos tesouros. mais se gasta em cobrir os vestidos que em cobrir os corpos. que os danos da necessidade. o certo é que as rendas e cabedais do Reino.

e não falsificadas. e os mesmos que então se retiravam da guerra. Ducit opes. que é a senhora da prata e de quem a recebe o resto do Mundo? Cuidou Castela que a Portugal havia de faltar o dinheiro. mais freqüentadas suas estradas. que mareavam suas frotas. saiba que a sua reparação foi o primeiro princípio deste aumento. As Conquistas com a paz não levam. pela Pátria. antes delas os recebe o Reino com muitos e valentes soldados e experimentados capitães. exército em Trás-os-Montes. de Milão e de Alemanha. de Nápoles.Anexo:Imprimir/ História do Futuro seus exércitos e com que os prêmios e as pagas sejam verdadeiras. aparecem na seguinte duas. Foi lei. e não trazidos por força de Sicília. lagos e terras. A sombra desta imunidade. sem injúria dos soldados. animumque ferro. e por cada ramo que faltou no Outono. Com verdade se podia dizer de Portugal o que dos Romanos disse o seu poeta: Per damna. outros para pelejarem sem amor e com valor vendido. e vê em si o que cuidou de nós. e justificar com os olhos do rei e do Reino as certidões mais seguras de seu valor. com grande vantagem de coração pelejam pelo rei. pela vida. nem hão mister socorros. Assim se converte e se multiplica em nova substância tudo o que come a guerra. também as errou à gente. ficam hoje dentro em Portugal. per coedes ab ipso. Todos os Portugueses que povoavam suas Índias. e lei prudentíssima. como passam. nascidos e criados entre o mesmo estrondo das armas. brenhas. E: se Castela quer conhecer as causas naturais desta filosofia. que. e cada um por sua própria casa e fazenda. pelo contrário. Ou tenha Portugal a qualidade da hidra ou a natureza das plantas. e poucos os que chegam. sendo muitos os que se alistam e pagam. e até as serras. exército e dois exércitos na Beira. que lavravam seus campos. brotam dois na Primavera. assim os nossos exércitos: exército no Minho. e sempre mais numeroso e florente em Alentejo. e assim como o seu discurso errou as contas ao dinheiro. como quem defende o alheio e conquista o que não há-de ser seu. e parece que foi posto em nossos tempos mais para declarar o vício da moeda. todos dentro em si e nas mesmas províncias e climas. que freqüentavam seus portos. nem arado. sem serem os Portugueses dentes de Cadmo. Desta maneira se acha Portugal cada dia mais fornecido de muitos e valentes soldados. com que as famílias se multiplicavam infinitamente. abertas e cultivadas. ou vêm requerer o prêmio de seus antigos serviços. pela honra. que a mentira da virtude. uns para se passarem logo. a Portugal. Quem pudera nunca imaginar que chegasse a tal estado uma monarquia. Assim se foram dobrando e crescendo sempre os nossos presídios. sem adultério dos metais e sem hipocrisia da moeda. ou servir e merecer de novo. têm hoje muitos filhos com que a sustentam e os sustentam com ela. sendo a maior comodidade da guerra e multiplicação da gente a mesma estreiteza do Reino (que o discurso mal avaliava). que inteiravam seus presídios. que não se alistassem nela senão mancebos livres. muitos filhos por indústria dos pais se acolhiam na menoridade ao sagrado do matrimônio. que militavam seus exércitos. que trafegavam seus comércios. pela liberdade. Os Portugueses. Bem sabem os doutos que o nome grego hipocrisia se deriva do fingimento do melhor metal. por benefício da qual os exércitos e províncias se podem dar 35 . mais lavrados seus campos. em que o pelejar e o morrer não é acidente senão natureza. onde nada lhes é estranho. comprados e conduzidos com imensas despesas e perigos. por cada cabeça que corta a guerra em uma campanha. no princípio da guerra. e o habitam e o enchem e o multiplicam. exército e florentíssimo exército. e assim se vêem hoje mais povoados seus lugares. onde nunca entrou ferro.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro as mãos umas a outras. e se os virem estrelas. e tudo o que podes esperar dele em sua conquista. ou como cometas tristes e funestos. o discurso e esperança espanhola. se o seu católico príncipe e seus maiores conselhos se acabassem de persuadir que Deus tinha decretada a conservação e perpetuidade de Portugal. nem alguém pode duvidar da fé. e logo advertirá a vaidade do que suas esperanças lhe prometem. ouçam-me agora como cristão a católicos. obedeceriam com suma reverência aos divinos decretos. Mas deixados à parte os argumentos da razão e experiência. ficando oprimido com a sua própria vitória. crelam sem dúvida sua conservação e aumento: Ecce constitui te super gentes et super regna. logrando vivo a glória de seu triunfo. et destruas. em que tão . para que arranques. aparelhem-se sem remédio para sua ruína. pelejando os mesmos soldados quase no mesmo tempo em diversos lugares. acabassem de desistir de tão infrutuosa porfia. ou quantos tesouros baldados poderiam poupar os reis. mas nunca mais certamente falsas.» Não quer dizer Deus que Jeremias há-de arruinar ou edificar reinos com a espada. e um dos fins principais por que escrevo esta História. ó Espanha. et dissipes. a indústria. Levantou Deus no Mundo a Jeremias por seu ministro. se os virem cometas. ut evellas. oh quanto sangue. Capítulo VIII: Continua a mesma matéria) por Padre Antônio Vieira 36 Desenganado por estas evidências o poder. Desta maneira não teme o valor português que lhe suceda como a Eleázaro com o elefante. temam. esperem. para que. e se despenham. Se as profecias resolutamente dizem que os reinos se hão-de perder ou arruinar. pelo conhecimento de nossos futuros. a desigualdade de sua maior potência contra os acenos da divina. Sempre são falsas e enganosas as esperanças humanas. ainda que tremulassem vitoriosas suas católicas bandeiras. mas que os há-de arruinar ou edificar com as suas profecias. Mas porque muitos reis esperam de onde deviam temer. Aqui verás os futuros de Portugal. e se até agora me ouviram como homem a racionais. plantes e edifiques a outros. rei de Israel. profetizando a uns sua exaltação e a outros sua destruição e ruína. et aedifices. abateriam a Deus. religião e piedade espanhola. se no meio de seus conselhos pudessem pôr um espelho em que se vissem os futuros! Tal é este livro. Estão os profetas e as profecias sobre às gentes e sobre os reinos. temera. bem pudera eu esperar do juízo mais político de nossos competidores e seus conselheiros. Veja e saiba Castela o que Deus tem prometido a Portugal. que. e perecem muitos. por isso erram. ou como astros benignos que influem e prometem suas felicidades. Oh quantas guerras. e a comissão e ofício que lhe deu foi esta: Ecce constitui te hodie super gentes et super regna. tocariam a recolher seus capitães e exércitos e confessariam. que influem e ameaçam suas ruínas. subamos um ponto mais alto. destruas e dissipes a uns. a profecia de Miqueas. e aparecendo em toda a parte (como alma de Dido) aos Castelhanos com novo horror e assombro. possam emendar o engano de suas esperanças presentes. e multiplicando-se por este modo um soldado em muitos soldados. mas está certo que lhe há-de suceder como a David com o gigante. Não duvido. Levantem pois os reis e os reinos os olhos. Se Acab. olhem para estes sinais do céu. e se dizem que se hão-de estabelecer e exaltar. e se perdem. História do Futuro (Volume I. et plantes: «Hoje te ponho e constituo sobre as gentes e sobre os reinos. desistira da conquista de Ramoth Galaad. como devia temer. na mais levantada fortuna. que também a ti dedico e ofereço. Isto é o que eu agora lhes quero persuadir e demonstrar. que quando se opõem e encontram com as promessas divinas.

Não podem as armas dar a vitória a Acab quando nas profecias está segura Ramoth.» Gemeu Portugal muito tempo. sed in ipsa 37 . tendo-as experimentado verdadeiras na sentença do cativeiro. pela mesma profecia que Jeremias e pelas de outros profetas. será remido por um não esperado. sem partido. não quis o mesmo Deus que fosse perpétuo. posuit enim super te et super semen tuum post te oculos misericordiae suae usque in decimam sextam generationem. e que este termo e limite fosse o espaço só de sessenta anos. ajuntando-se às outras de Espanha. mas foi-lhe Deus propício. sem obrigação nem reconhecimento. são bem notórias aquelas palavras mandadas anunciar ao rei pelo mesmo Senhor. Frei Gil. mas porque El-Rei Sedecias. porque o redentor. mas esta sujeição e este castigo. sem interesse. antes desesperavam desta redenção. porque dispôs com tão notáveis sucessos a execução de sua liberdade e foi remido não esperadamente. religloso português da ordem de S. porque gemeu por espaço de sessenta anos debaixo da sujeição de Castela. porque. vinces. Clamava a profecia de Jeremias ao rei e príncipes de Jerusalém que se acomodassem com Nabucodonosor contra o qual não podiam prevalecer. E tanto que estes se acabaram (sendo gentio idólatra). a conquista a coroa a vida. pelo qual geralmente se esperava. porque os dois últimos — D. mas Deus lhe será propício e. quando por sua própria pessoa quis fundar o Reino de Portugal. que o cativeiro e sujeição dos Israelitas que ele tinha debaixo de seu império não queria Deus que durasse mais de sessenta anos. com o recado de que lhe queria aparecer: Domine bono animo esto: vinces. não esperadamente. e o rei conheceu tarde a temeridade de seu conselho. fora cobiça e não razão tê-las por falsas na promessa da liberdade.e destes gemidos ficar o Reino órfão de seus reis. Assim o diziam as profecias. Sebastião e D. Domingos. et non vinceris. Só faltou para total semelhança do caso de Babilônia e para imortal glória do Ciro de Espanha que a ação fosse voluntária e não violenta. Que diferente foi o de Ciro. (de cujo espírito profético se dará notícia em seu lugar) diz assim: Lusitania sanguine orbuta regio diu ingemiscet. e remido por um não esperado. Oh que caso tão parecido ao nosso caso! Oh que ação tão digna de se santificar e fazer cristã. passando-a de um rei gentio a um rei católico! Quis Deus por seus altos juízos que Portugal perdesse a soberania de seus antigos reis. in qua atteniabitur proles. quis antes experimentar a fortuna da guerra que vir a honestos partidos com os Assírios. era outro e não el-rei D. estivesse sujeita a rei estranho.Anexo:Imprimir/ História do Futuro teimosamente insistia. em um dia perdeu a batalha. Henrique — faltaram sem deixar sucessão. Creu as profecias sem serem suas ou de seus oráculos. No juramento autentico de El-Rei D. e não dos Portugueses. sua. sed propitius tibi Deus insperate ab insperato redimet: «Portugal por orfandade do sangue de seus reis. e que sua coroa. em que se conta o miraculoso aparecimento de Cristo. prudente e famoso rei de Babilônia! Entendeu este mesmo excelente príncipe. senão por tempo determinado e limitado. João o IV. quando Deus tinha limitado anos ao castigo. porque muitos não esperavam. os restituiu todos livres à sua pátria. fiado na potência de suas armas. e assim o provou com admirável consonância o cumprimento delas. S. mas porque quis antes esperar. Afonso Henriques. como não devera nas promessas e lisonjas vãs de seus aduladores. Contentou-se o gentio com o que Deus se contentava e não quis perpetuar a servidão. gemerá por muito tempo. Mas vamos às profecias do cativeiro e ao termo dos sessenta anos dele. e foi ocasião desta sujeição . Dilectus es Domino. prevaleceram estes enfim como o profeta tinha prometido. senão dos mesmos Israelitas.

7. estai de bom animo: vencereis. e fio tão delgado e atenuado como era a única casa de Bragança. mais fácil e mais conforme à mente da profecia e às circunstancias em que naquela ocasião se falava. Afonso Henriques. D. D. que chegue a termos de sessenta anos. João. D. 5. que quase não necessita de explicação. Neste último rei se atenuou a descendência. El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei D. conservada em muitos arquivos deste Reino e divulgada fora dele muitos anos antes da nossa restauração: «Dou as graças a Vossa Senhoria pela mercê e esmola que nos fez do sítio e terras de Alcobaça para os frades fazerem mosteiro em que sirvam a Deus. Afonso III. descendente do infante D. 2. D. mas nela atenuada tornará a pôr seus olhos. 15. como se devem contar. o qual em recompensação desta. porque ainda que não quebrou de todo. Sancho I. 16. Henrique. 13. D. Henrique. El-Rei D. João I. El-Rei D. Henrique. El-Rei D. . não será porém tão comprido o prazo deste castigo. Rei D. a respeito das cousas presentes e futuras do Reino. de rei a rei e de coroa a coroa) foi o Cardeal D. E1-Rei D. 12. Afonso IV. A carta é a que se segue. na qual se atenuará a mesma descendência. com quem tinha particular e íntima amizade e correspondência. Bernardo». 8. Pedro I. sendo restituída (como foi) ao Duque D. antes e depois dela. Sancho II. Afonso Henriques (contando as gerações. D. o II de Bragança. Mas neste fio único e tão delgado se veio a verificar que.» Até aqui a divina promessa. como se vê pelo catálogo seguinte: 1. Duarte. João II. atenuada no décimo sexto rei. porque nela se restituiu a coroa que Cristo então lhe dava. tornaria Deus a por seus olhos nela. vencereis e não sereis vencido. S. ficou por um fio. 14. em uma carta escrita a El-Rei D. depois da descendência de El-Rei D. que no Céu lhe pagará. Dinis. Fernando. El-Rei D. Manuel. 11. João III. D. 9. Afonso Henriques. Duarte irmão menor de D. 38 10. mas este temos por mais natural. Por outros modos também verdadeiros se faz esta mesma conta. me disse lhe certificasse eu da sua parte que a seu Reino de Portugal nunca faltariam reis portugueses. D. Afonso II. El-Rei D. salvo se pela graveza de culpas por algum tempo o castigar. Bernardo. cujo cumprimento é tão manifesto. profetizou com admirável clareza o termo dos sessenta anos de castigo e a continuação e sucessão de reis portugueses. A décima sexta geração de El-Rei D. João. 6.Anexo:Imprimir/ História do Futuro attenuata ipse respiciet et videbit: «Senhor. 13 de Março de 1136. o IV de Portugal e décimo sétimo dos reis portugueses descendentes do primeiro Afonso. Sebastião. sois amado de Deus porque pôs sobre vós e sobre vossa descendência os olhos de sua misericórdia até a décima sexta geração. De Claraval. 3. 4. El-Rei D. Afonso V.

e pelo merecimento deste obséquio e rendimento à-vontade divina lhe deu Deus em um dia o império dos Assírios. temer justissimamente que à resolução e porfia contrária sucedam 39 . ou sessenta anos não completos. e que esta sujeição havia de ser a Castela. como se viu no Ciro de Babilônia? Se Deus lhe deu o usufruto de Portugal por prazo somente de sessenta anos. porque El-Rei D. como S. nas Cortes de Tomar. e que se havia de chamar D. porque hão-de querer e porfiar os homens em que o seja? Se Deus limitou esta sujeição ao termo de sessenta anos. lhe pode Deus dar outros maiores e mais dilatados. João: as profecias o disseram e os olhos o viram. Finalmente. que era a primeira monarquia e universal do Mundo. o meu ungido. João o IV. e que naquele ano seria levantado novo rei de Portugal e que este se chamaria D. em 26 de Abril do ano de I58I. arrogante e gentio. De maneira que por todas estas profecias consta claramente que ao Reino de Portugal haviam de faltar os reis portugueses e que esta falta havia de suceder no décimo sexto rei descendente de El-Rei D. rei ambicioso. e sua liberdade. e que neste seria levantado pelos Portugueses rei novo. que sem dúvida deviam ser muito grandes. trataremos larga e particularmente no cap. João. e que Ciro. qual era o de Judéia (igual com pouca diferença de Portugal). IX deste livro) não só predisseram a sujeição do Reino a Castela. a respeito dos sucessos futuros de Portugal. o meu Cristo. Outra carta temos do mesmo santo escrita ao mesmo rei. Quanto mais que por este ato de consciência. que Espanha podia esperar do desinteresse deste ato. religião e cristandade. Pois se Deus não quis que a sujeição de Portugal a Castela fosse perpétua. que adiante poremos. Filipe o II foi jurado por rei de Portugal. nem menos conhecido e celebrado no Mundo o reino de Judá.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A condicional do castigo cumpriu-se por nossos pecados. com que enriqueça e sublime sua coroa e amplifique o império de sua monarquia. Afonso Henriques. dá em prêmio e recompensa a monarquia de todo o Mundo! Tais são os interesses (quando houvera algum maior que o de obedecer a Deus). e por um reino de tão poucas léguas de terra. em que dá outro sinal manifesto (e também já cumprido). podendo de outra maneira (para que não calemos esta verdade). porque se há-de querer chamar ao domínio e prescrever contra o Céu? Se lhe parece cousa dura arrancar de sua coroa uma jóia tão preciosa como o Reino de Portugal. e estes são acabados. Tão liberal é Deus com os príncipes que não regateiam reinos nem estados com Ele. Por aquele ato de generosidade e desinteresse. mas que o fim de uma e princípio de outra havia de ser sinaladamente no ano de quarenta. muitas pessoas (de cujo espírito. mas também se cumpriu muito pontualmente que o castigo não chegaria a termo de sessenta anos. o meu Ciro. nem duvidou de o demitir de seu império. El-Rei D. Bernardo tinha profetizado. e que o termo destes sessenta anos havia de ser no ano de quarenta. do tempo em que havia de faltar a coroa. nas cortes de Lisboa. que lhe chamava o meu rei. e que não havia de durar mais que sessenta anos não completos. com todas as outras circunstâncias tão miúdas e particulares. porque se não hão-de conformar os homens com seus soberanos decretos? E porque se não hão-de contentar com o que Deus se contentou? Porque se não verá no católico Ciro de Espanha um ato de tanta justiça e generosidade. como o mesmo Ciro reconhece havê-lo recebido da sua mão. e por este Reino que Castela restituir ou consentir a Deus (pois Ele tem já restituído). como sucedeu ao mesmo Ciro. e que havia o Reino de gemer debaixo da sujeição estranha. em I3 de Dezembro de 640. que fazem 59 anos e cinco meses menos alguns dias. reparem seus prudentes e católicos conselheiros que o não era menos naquele tempo. foi Ciro tão amado de Deus. e de tanto rendimento e obediência a Deus. como se verá no mesmo lugar.

chama preceito de Deus neste seu edito. regis Persarum. rei dos Persas. rei dos Persas (quem assim começou a reinar não podia deixar de ter tão felizes progressos). como era demitir de si um povo e um reino tão notável. «No ano primeiro de Ciro.. sendo reis e possuindo os reinos. porque o primeiro foi Nabucodonosor. coroa e liberdade. rex Persarum: omnia regna terrae dedit mihi Dominus. Quis est in vobis de universo populo ejus? Sit Deus illius cum ipso. 40 . levantou Deus o espírito de Ciro. Lástima é que semelhante escritura não fosse de rei católico. Dizem assim no I Livro de Esdras. veja quão legitimamente está restituído por elas. havia de ser o reino e povo hebreu libertado do cativeiro de Babilônia e restituído à sua Pátria. aqueles principalmente que. ascendat in Jerusalem. não queira imortalizar seu nome e religião com outro decreto semelhante. porque não dará Ciro um reino a Deus. de que ele já era o terceiro possuidor. Deus Caeli. e se pode tornar livremente para Jerusalém. rei não católico. e a estas profecias chama o rei sem fé preceito de Deu. e são o exórdio de sua história: In anno primo Cyri. a este gênero de preceito assim escrito. posto algum rei católico na mesma ocasião. e mandou apregoar em todos seus reinos por escrito firmado de sua mão este decreto: «Ciro.». Se por um ato de justiça. Quero pôr aqui as palavras do Texto Sagrado. imitação e memória. posto que não intimado com outra autoridade ou solenidade. senão a seus próprios doutores e aos que mais duramente têm impugnado em nossos dias esta parte e defendido a contrária. etc. et ipse praecepit mihi ut aedificarem ei domum in Jerusalem. e obedeceu com efeito. e não me creia a mim. Não sei que possa haver mais claro espelho do nosso caso. para se dar cumprimento à palavra divina declarada nas profecias de Jeremias. e maior lástima será ainda que. o segundo Baltasar e o terceiro Ciro. desinteresse e obediência dá Deus uma monarquia. diz: O Rei do Céu me deu e fez senhor de todos os reinos do Mundo e ele me mandou que lhe edificasse casa em Jerusalém. é o que Ciro. quae est in Judaea. Leiam este decreto os reis e monarcas do Mundo. ambição e desobediência também poderia tirar outra. em que Ciro faz desistência do reino de Judéia e deixou aquele povo em sua liberdade. etiam per scripturam.. conforme o decreto ou preceito divino. I. Se Deus deu tantos reinos a Ciro. julgou que tinha obrigação de obedecer. e peço por reverência do mesmo Deus aos Reis Católicos. Não teve Ciro outro preceito ou mandado particular de Deus (como notam todos os expositores) mais que as profecias em que estava anunciado que. por serem mui dignas de toda a ponderação. Siga-se a sua doutrina e não a minha advertência.ut cornpleretur verbum Dominini ex ore Jeremiae. a seus conselhos e a seus letrados ponderem. como dizem em suas provisões por graça de Deus. por um ato de justiça.Anexo:Imprimir/ História do Futuro efeitos também contrários. regis Persarum. dicens: Haec dicit Cyrus. rei dos Persas (que só podia fazer uma ação tamanha e tão real um rei de espírito e espíritos mui levantados por Deus). cap. Se Espanha se quiser ver e compor a ele. com tão pouco respeito ao mesmo Deus e à mesma graça armam seus exércitos contra os alheios. suscitavit Dominus spiritum Cyri. no fim de sessenta anos. leia as profecias que neste livro vão escritas e já cumpridas. E já a ordem das cousas naturais as teve menos dispostas a uma grande ruína. et traduxit vocem in omni regno suo. cabeça de Judéia. pelo que toda a pessoa que houver em meus estados pertencente àquele povo e reino. o rei e reino de Portugal. e observou em matéria tão grave e de tanto peso e interesse de sua coroa. o mesmo Deus seja com ela. ainda quando fosse seu indubitavelmente? Mas o que eu só quero ponderar.

autênticas e justificadas com o testemunho universal do Mundo. do conselho supremo de Aragão na sua História Real Sagrada. como as de Samuel. que nenhum entendimento humano. senão algumas. digale el Senor a que hora vendrá el dia siguiente. Três cousas requer Palafoz. que essas profecias sucedam. que a profecia não seja só uma. como acabarse el gobierno de los Juezes. que para historiar o de Saul impugnando a eleição de El-Rei D. podia tantos anos prever nem conhecer sem revelação de Deus. porque o afeto lhe fez corromper a pureza de seu estilo. que havia durado quinjentos años. y elegido jostifique la jorisdiccion. me parecem ditadas por algum espírito e intento superior. de tan rara y de tales y tan graves dependencias. de trezentos e de quinhentos anos antes. as quais se poderão ver no cap. e para que o mesmo rei ungido e eleito justifique sua jurisdição e se tenha por príncipe legítimo e chamado por Deus ao governo. que ayer era subdito y labrador. haver profecia de ser Saul o destinado por Deus ao império. trezentos anos e as de S. E tais são as que pouco antes alegamos porque as últimas havia cem anos que estavam escritas. João de Palafoz e Mendonça. com tão diverso e contrário intento. e sua mesma acusação seja um testemunho público e mais qualificado da justiça e justificação de nossa causa. VI deste anteprimeiro livro. damos a Palafoz profecias. suceda la profecia buelva-se otra vez dezir que aquel es el hombre. y começar el de los Reyes escogiase para principe un hombre. que as tinha visto e lido. escrita. justifique su vocacion con algunas profecias y senales de lo que le ha de succeder despues de ungido. e que só podem ser ditadas e inspiradas por aquela sabedoria eterna a quem os futuros são presentes. que são as condições que propriamente se requerem para a verdadeira. como se vê em tantos lugares. rigorosa e provada profecia. Verdadeiramente estas palavras do bispo Palafoz: Cum esset pontifex anni illius. bispo de la Puebla de los Angeles. as de S. mais para contradizer o novo Reino de Portugal. terceira. diabólico ou angélico. Bernardo e de El-Rei D. coh que el Profeta quede con quietud y sossiego de que áquello le mandò el Senor. duerman y piensem sobre ello. e três vezes trinta. para que a vocação do rei se justifique ser de Deus e para que os ministros que o ungiram (como Samuel e Saul) fiquem com quietacão e sossego de ser aquele o que Deus mandou ungir. Se Palafoz pede profecias. para que. diz assim: Hazia-se una mudança tan grande en Israel. como as de Samuel foram três. ou três circunstâncias em uma. e todas públicas. unjale. com maior elegância que decência. assim como estavam preditas e profetizadas. llevele a su casa. senão trinta profecias. fossem verificadas no mesmo príncipe e no mesmo Reino que ele queria impugnar e destruir. Frei Gil. cujo nome se dissimula. e ponderando augusta e doutamente os sinais com que se havia de justificar para ser legítima e de Deus. 41 . buelva otra vez Samuel a la oracion. que são as mais qualificadas e livres de suspeita. sendo ditas como as de Caifaz. não só damos a Palafoz três profecias. mas de futuros livres e contingentes. conozcale y reconozcale. Afonso Henriques mais de quinhentos. João o IV. y se tenga por principe legitimo y llamado de Dios al gobierno. el que antes era compañero avian de venerarlo por rey. porque tantas são (se bem se distinguirem e contarem) as cousas diversas e profetizadas que ali se referem todas. Se Palafoz pede que a profecia não seja só uma senão algumas. Pues para cosa tan grande. el destinado al império. segunda.Anexo:Imprimir/ História do Futuro D. e não profecias daquele dia. vayanse a sus casas los Israelitas. y ungido. E quais são estas três cousas ou circunstancias? As mesmas que intervieram e sucederam na eleição e unção de Saul: Primeira. senão de cento. não só futuras.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro como é sentença comum dos teólogos e se provará larga e demonstrativamente em seu lugar. João de Horosco e Covarrovias. algumas delas cumpridas antes da restituição e coroação de El-Rei D João IV.. tal a de El-Rei D. como se tem visto foi princípio muito conveniente à ordem dos mesmos sucessos começar pela sujeição do mesmo Reino a Castela.. e tal a de El-Rei D. D. com cujo efeito. VI se verão as mesmas profecias declaradas e ajustadas com o sucesso. diz assim: — «. e comentando à margem o seu mesmo texto. sendo o intento e o assunto ou tema daquela profecia predizer os sucessos futuros de Portugal depois de sua restauração. el aver de jutar-se aquel reyno de Portugal con el nuestro. E seguir con gran desejo. e não duvidando que dele falavam e dele se haviam de entender. além de muitas outras que estão ainda por cumprir. y [. de que se não deve duvidar (como também provaremos). semente de El-Rei D. 42 . I. porque temos mais qualificado autor e mais autorizado profeta.. Afonso Henriques. Liv. mas a explicação é muito própria. tanto melhor. põe as trovas seguintes: Vejo. no seu Tratado de la verdadeira y falsa profecia.desta manera tuvo yo noticia de [un çapatero en Portugal que fue tenido por propheta. Y dexar acá sua viña Y decir. se irá cada dia confirmando reais e mais a mesma verdade. e pela entrada dos reis castelhanos em Portugal. e não outro.] tengo notada una. esta casa es miña. Mas vejamos de caminho que é o que diz Santo Isidoro. e as demais desde aquele tempo até o ano de 663. porque. para se justificar superabundantemente. como de príncipe notoriamente chamado e destinado pelo mesmo Deus ao império. bastando e sobejando a décima parte das profecias já cumpridas. o estoy sonando?) Simiente de rey Fernando Hazer un forte despejo. João. en que a mi parecer se dixo mucho ha.» Até aqui no corpo do livro. aplicando-as a primeira parte deste mesmo caso nosso. com grande quietação e sossego dos ânimos. Isidoro. do Rey vejo (Vejo. Tal foi a eleição de Saul. con harta particularidad. En que aora acà me vejo. que se lerão no discurso desta História. Fernando. conforme a doutrina de Palafoz. fundador do Reino de Portugal. cap IV. Não deixarei também de lembrar aqui que não são tão novas e desconhecidas em Castela as profecias ou esperanças de Portugal. Finalmente.. vejo. que foi seu neto Filipe II. muito acomodada e muito bem deduzida. que a vocação daquele rei foi de Deus mandada e ordenada por ele e que a sua jurisdição é verdadeira e legítima. A tradução não é muito limada. que não façam menção delas seus autores. arcediago de Cuellar na igreja de Segóvia. e como avalia esta ação do rei. seu restaurador. se Palafoz pede que as mesmas profecias sejam provadas e confirmadas com o sucesso assim antes como depois de o rei ser eleito e ungido no alegado cap. E se o verdadeiro profeta e primeiro autor desta profecia é Santo Isidoro. y era aver leydo en] algunas prophecias como las de S. outras no mesmo caso e circunstancias de sua restituição.

no ano de quarenta. será indigno de todo o juízo porfiar ainda contra elas depois de tão conhecidas. se viesse por força introduzir na casa alheia. e profetizado no mesmo livro e no mesmo tempo. que nem Ele pode mentir. porque às cousas feitas sem razão chamamos forte cousa. e que. E pois o meterem se os Castelhanos em Portugal foi despejo. posto que visão de um caso tão dificultoso de crer. sem mais razão nem justiça que meter-se nela e dizer: «Esta casa é minha. Ora. Mas que efeito tiveram ou que façanhas obraram os exércitos de Herodes? Contra o rei e contra o reino que pretendia estorvar. Em seu lugar. se verá tão demonstrada a sua verdade. por antonomásia chamado o Rei Católico. se isto. Conhecia Herodes a verdade das profecias. e Castela também o sabe. Este é o fim sem outro fruto de tão desesperadas resoluções: sangue inocente derramado. Até aqui podia chegar a loucura e a cegueira de um mal aconselhado príncipe: crer a verdade das profecias. Rei católico e descendente de católico. por isso haveis de dizer: «Esta casa é minha»?! Não debalde o santo arcebispo se espanta tanto de uma tal ação. assim pelo direito comum da representação. que depois de a estar vendo com espírito profético. quando as profecias de Portugal profetizam que Portugal se há-de ajuntar a Castela. acabemos de crer a Deus. e logo armou contra Ele a crueldade de seus exércitos. Manuel e filha herdeira do Infante D. e esperar prevalecer contra elas por força de armas. e não entendo agora como. porque foi despejo armado de poder e de exércitos. Mas não é este o meu intento. que porque vos vedes metido na casa alheia. Mas se este mesmo autor. e este mesmo Santo Isidoro diz que o Reino se há-de restituir outra vez. vejo. e chamar-lhe despejo forte. como se dissera: Forte cousa é. mas ainda esta conseqüência é mais forte. senão visão verdadeira. quanto cuidado lá davam antes deste tempo e quanto temor se tinha de nossas profecias. em conseqüência. assim como creram na primeira? De maneira que. que nenhum ódio nem interesse possa negar que são de Deus. do rei vejo. que não admitem à sucessão príncipe estrangeiro. nem nós o podemos enganar. porque não hão-de crer os Horoscos e Covarruvias castelhanos nesta segunda parte da mesma profecia. e que o seu rei se há-de chamar D. Senhores. Forte despejo foi aquele. e despejo grande que estando em Portugal a senhora Dona Catarina. João. razão foi também que os fizessem despejar. depois delas cumpridas e qualificadas com tão maravilhosos efeitos se lhos tem perdido a reverência. nem esta ilação a que eu quero inferir. o lugar do nascimento do Rei profetizado. Sei eu e sabe Portugal. Duarte. como tenho prometido. 43 . nem o julgou assim o mesmo Santo Isidoro. ainda duvida se era visão ou sonho: Vejo. queixas. e este mesmo texto. e não (como devera ser) de justiça. Só se afogou Belém em sangue e nadou em lágrimas. Bem dito. e devendo preceder a todos os pretensores da coroa. está bem profetizado. ou estou sonhando? Mas o efeito mostrou que não era sonho. Diz o Doutor Horosco e Covarrovias que nesta profecia está profetizado con harta particularidad. ou lhe chama também forte. só se ouviram em Ramá e no Céu as queixas e lamentações de Raquel. e quando profetizam que Portugal se há-de tornar a separar de Castela e se há-de restituir à sua liberdade.Anexo:Imprimir/ História do Futuro O nome que dá a esta ação Santo Isidoro é chamar-lhe despejo. inquiriu por elas o tempo. vejo. haver de juntar-se aquel reino de Portugal con el nuestro. lágrimas. não são profecias?! Não o havia de julgar o mesmo Horosco e o mesmo Covarruvias. neta legítima de El Rei D. em que agora cá me vejo». digo. são profecias. que em tom castelhano quer dizer desverguença. Basta. um rei que era descendente de Fernando. e com muito maior particularidade. e alegado o mesmo doutor. como pela leis particulares do Reino. nenhuma cousa.

Mas deixados exemplos das Escrituras e profecias canônicas. sacudiram tão feliz e animosamente o jugo. Pelejem primeiro contra a firmeza da palavra de Deus batam. escalar e arruinar as nossas muralhas. como filhos do Sol. acabe de entender que não peleja contra Portugal. senão porque estava escrito? Porque. com partido tão desigual. o Céu. Samaria com uma profecia de Eliseu. e conquistaram nas outras três partes do Mundo. na Ásia e na América. porque estava destinado por Deus ao domínio de seu verdadeiro Senhor e firmado com sua palavra. quem quer guerrear contra Deus! 44 . então poderão conquistar Portugal. porque uma e outra vez não conquistaram Samaria. apartando os olhos por um pouco de Portugal. que.Anexo:Imprimir/ História do Futuro lamentações. Não há muro tão gastado da Antigüidade e tão fraco em Portugal. sendo tanto o número de seus soldados. como depois se verá. estando sujeitos a Castela e debaixo de seus presídios. pelo mesmo espírito. com todo o estrondo de tantos mil carros de guerra e tão inumeráveis exércitos de pé e de cavalo. a liberdade e perpetuidade. para sujeitar todas as quatro partes do Mundo e ainda para escalar. desfaçam este castelo. vencer em batalha os nossos exércitos. na África. bater. senão porque estava escrito? Pois se a conservação. em Portugal. Porque puderam romper os Portugueses os claustros impenetráveis do Oceano. bem pode ser. e em um dia restauraram sua liberdade. Talar as nossas campanhas. Vassalos eram do mesmo Herodes todos os que morreram em Belém: cobriu de luto o reino próprio. rei de Síria. e não dos outros. e escalaram com tanta facilidade aquelas montanhas ou muralhas da natureza. Perguntem a El-Rei José e a El-Rei Acab com as forças de dois tão poderosos reinos unidos. Considere Castela contra quem peleja. e depois dele rendido. também foram ditadas. abalem. senão contra a firmeza da palavra e promessas divinas. porque não conquistaram a Ramoth? Perguntem a Benedad. ouçam também as nossas. romperam um tão luzido e poderoso exército formado mais de capitães que de soldados. sendo de inferior autoridade. minar. a que o seu general chamou castelos de Milão. Reparem os famosos capitães de Castela e considerem seus prudentíssimos e experimentados conselheiros. as vitórias e outros maiores triunfos de Portugal estão também escritos com as mesmas letras e ditados pelo mesmo espírito. do que vencer e sujeitar Portugal. sitiar as nossas cidades. defendido e armado como está com as promessas divinas: Coelum et terra transibunt. em cujas pedras não esteja escrito com letras de bronze: Verbum Domini manet in aeternum. se se acham seus exércitos com forças e poder bastante para conquistar Europa. verba autem mea non praeteribunt. na memorável batalha do Cano. derribem. que esperança ou desesperação é pretender conquistar a Portugal? Oh. tão novas e tão poderosas nações. senão porque estava escrito? Porque ontem. senão dos próprios vassalos. que com um punhado de terra que cada um lançasse sobre ela (como eles diziam) a podiam sepultar? Perguntem ao soberbíssimo Senaquerib vencedor de tantas nações. o Mundo e o mesmo Céu empíreo. e não pôde atalhar com tantos rios de sangue os progressos do que procurava impedir. sendo um Reino tão pequeno. porque não chegou a meter uma seta dentro dos muros de Jerusalém? Porque Ramath estava defendida com uma profecia de Miqueas. mas fazer brecha na firmeza da palavra divina é impossível. Jerusalém com uma profecia de Isaías. acabe de entender Castela quem defende Portugal e contra quem peleja! Com mui desigual inimigo se toma. clamores. tantas. e aos trinta e dois reis que o acompanhavam. e conhecerá quão impossível é a empresa a que aspira. e tirar dele a Júpiter pois saibam que mais fácil será conquistar Europa.

só Deus o pode desfazer. como o podem os homens tirar? Se Deus o fez. senão é que o juízo divino os leva ao Mar Vermelho e os chama lá alguma oculta fatalidade. pois chega a o confessar. O que Deus faz. como fez naquele dia. Dizem as fábulas. at illi egressi erant in manu excelsa. é certo que a imagem de Cristo crucificado despregou publicamente o braço as portas daquele santo português que tem por graça própria sua recuperar o perdido. só Ele o pode derribar. e que. uniu o deus Apolo a mão de Páris com a sua e ambas juntas dispararam a seta fatal. regis Egypti. acompanhado de Apolo mais forte é o de Páris. nem ainda resistir? Este é aquele braço onipotente. cavalarias e exércitos contra eles.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Não é nem pode ser nossa intenção diminuir as forças de Espanha. mas comparado o de Aquiles com o de Páris. mas contra o Senhor dos exércitos. e no mesmo ano em que Portugal se havia de levantar. bastou para livrar o povo de Israel do poder do grande rei Faraó o dedo de Deus. o estamparam assim seus escritos) bem sabe Castela (digo) que Portugal com singularidade única entre todos os reinos do Mundo foi reino dado. que fosse necessário o braço de Deus a Portugal para se libertar da sua sujeição. mão por mão e braço por braço. que quando Páris houve de ferir mortalmente o impenetrável corpo de Aquiles. quão gravemente se ofende Deus de que ninguém presuma cativar a quem ele liberta. assistida deles. o que Ele levanta. quanto mais contra toda a mão. Não peleja Castela só contra os exércitos de Portugal. Grande glória é de Portugal ter em seu favor o braço de Deus. Menos que o braço e menos que toda a mão de Deus. a desigualdade de Portugal pode resistir e prevalecer contra Espanha. que força dá que possa prevalecer. quando eles saíram do cativeiro. como o podem os homens desfazer? Se Deus o levantou. juntamente: Gladius Domini et Gedeonis. E verdadeiramente foi grande dureza de entendimento imaginar Faraó que podiam prevalecer seus exércitos contra um dedo da mão de Deus. feito e levantado por Deus. mais forte é o de Aquiles. Assim lho remoqueou Moisés. nenhum poder humano pode prevalecer. naqueles mesmos campos e naquela mesma província onde todos os anos trabalham e batalham os homens pelo derribar. Contra a espada de Gedeão naturalmente parece que haviam de prevalecer os exércitos madianitas. como lhe tem resistido e prevalecido em tantos anos. Não foi só a espada de Gedeão a que com tão poucos soldados venceu os exércitos dos Madianitas. Mas é força que ela e nós confessemos que são maiores os poderes de Deus. Contra o braço estendido de Deus. Se a mão do Altíssimo é a que assistiu aos libertados. com significação não fabulosa mas verdadeira. quando escreveu aquela história: Induravit Dominus cor Pharaonis. tão conhecida do Mundo todo e tão temida e reverenciada de seus inimigos e invejada de seus êmulos. mas contra a espada de Gedeão e de Deus. como o podem os homens derribar? E se Deus prometeu que 45 . Desengano. Se Deus o deu. em vão se cansa Faraó em tirar carruagens. tão horrendo. Bem se viu neste caso. Bem sabe Castela (sinal é que o sabe bem. pelo desfazer e pelo tirar a quem foi dado. No dia memorável da restituição de Portugal (ou fosse milagre ou mistério). nem escurecer a grandeza de sua potência. Senhores meus. et persecutus est filios Israel. mas não foi menos honra e autoridade de Castela. que tira os poderosos do trono e levanta a ele os humildes ou os humilhados. Notem muito estas últimas palavras os reis e seus conselheiros: At illi egressi erant in manu excelsa. O dedo de Deus é este — lhe disseram os seus sábios: Digitus Dei est hic. mas a espada de Gedeão maneada pelo seu braço e pelo de Deus. falemos e ouçamos como católicos. Comparado o braço de Páris com o de Aquilles.

batendo com o tridente os muros que ele mesmo tinha fundado. e que os reinos fundados por um Deus. se deviam arrastar tantos respeitos sólidos e verdadeiros. Na prodigiosa batalha das Linhas de Elvas. se viu tão inopinadamente de conquistador. Se Deus o fundou em nós — in te — quem o poderá arrancar de nós? Se Deus o quis para si –mihi. não pelo que ele é. para vaidade fantástica da opinião. nenhum juízo haverá no mundo católico. a que os homens com nome especioso e significação verdadeira infernal chamaram reputação. Volo enim in te et in semine tuo imperíum mihi stabilire ut deferatur nomen meum in exteras nationes: «Eu sou o fundador e destruidor dos reinos e dos impérios. que não seja o mesmo Deus. quem haverá. mais justa. pelo qual o meu nome seja levado às nações estrangeiras. E quando concedêssemos aos políticos que. os que seguirem os ditames deste conhecimento. tão verdadeiro e tão evidente se seguira desde aquele dia. as palavras com que se retirou. se a reputação consiste no juízo dos homens. nunca se perde nem pode perder reputação. como tão prudente e tão católico capitão. como há quem tanto à vista dos olhos de Deus queira triunfar sobre suas promessas e irritar seus decretos? Até a superstição dos Gentios conheceu a conseqüência desta verdade. que não tem resposta. o exército desbaratado. aparecendo e falando ao seu primeiro rei. que não estime e venere uma tal ação pela mais cristã. nem ainda gentílico. as trincheiras entradas. em nenhum caso da paz e recíproca desistência das armas esteve mais segura e mais honrada a reputação de Espanha e de seu grande monarca. quando o duque-general. só o mesmo Deus os podia arruinar. mas pelo que dirá o Mundo. costuma atravessar o Demônio aquela torpeza do Inferno. como eles falsamente ensinam. obedecer a Deus e não resistir à sua vontade conhecida. contra o qual não valem mãos nem validos? Contra a evidência e fé desta razão. que no da guerra presente. político. primeiro ministro de Espanha. porque é diverso de todos e de superior hierarquia. Dizem que não convém à reputação do grande monarca das Espanhas desistir da empresa de Portugal. Se este ditame tão são. Pelo mesmo fundamento e único em que se funda todo este discurso.como o poderá ser de outrem? E se Deus prometeu de o estabelecer — stabilire. os esquadrões rotos. que funda e desfaz os reinos e os impérios e com tão especia1 solenidade fundou por sua própria Pessoa nos reis portugueses de Portugal. disse: Ego aedificator et dissipator regnorum alque imperiorum sum.como o podem os homens arruinar? Acabem de conhecer os que se prezam de conhecer a Deus. nem têm lugar. Naquela noite em que Cristo por sua própria Pessoa fundou o Reino de Portugal. e quero em ti e em teus descendentes fundar um império para mim. os fortes rendidos. mais prudente. 46 . que o possa desfazer e dissipar? Ponderem-se muito aquelas três cláusulas — in te mibi stabilire. antes se ganha a maior e mais qualificada de todas. em ceder. Como se não estivéramos no mesmo Mundo em que ontem o mesmo monarca cedeu às Províncias Unidas dos Países-Baixos todos aqueles estados de que com tão diferentes direitos era herdeiro e legítimo senhor! Mas para o nosso caso não são necessários exemplos. porque. ainda quando houvesse muitos deuses. que são homens.Anexo:Imprimir/ História do Futuro na décima sexta geração atenuada poria os olhos nela para o restituir.:» Se Deus é o monarca supremo e universal. foram: — Contra Dios no valen manos. e tenham-se por homens. quanto sangue que ao depois se derramou estivera guardado nas veias ou se tivera de uma e outra parte empregado em serviço daquele grande Senhor. por racionais e por conselheiros. Esta foi a teologia com que os dois príncipes dos poetas no incêndio e destruição de Tróia introduziram ao Deus Neptuno. conquistado.

os pode dar e tirar inteiros quando lhe parecer. é tão indigna e tão afrontosa resistência. e a maior circunstancia do caso é que. nem ainda o mesmo Isboseth. ainda que seja tão bárbaro e arrogante como Faraó e em matéria de tanto peso e interesse.» Não disse que não queria obedecer a Deus. o que respondeu foi: — Nescio Dominum et Israel non dimittam: «Não conheço esse Deus. e deu parte dele a Jeroboão. Depois da morte de El-Rei Saul. e o fim notável em que vieram a parar foi que os onze tribos deixaram a Isboseth e voluntariamente se entregaram e sujeitaram todos a David. sem muito cavar. e não hei-de demitir a Israel. Mas que razões tão fortes e de tanta eficácia foram as que representou Abner para persuadir e concluir tão breve e subitamente um negócio tamanho. duraram sete anos. mais heróica de quantas honraram a memória dos maiores príncipes. senão que o não conhecia. o tribo de Judá seguiu as partes de David. nem conselheiros. Resistir a uma razão tão evidente como a que diz — assim o quer Deus — . a honra e a reputação de todos estava tão empenhada. mas honrada a mesma honra. e muito mais a do mesmo rei? A razão foi uma só e esta que estou alegando: . começou com parte do reino de Israel. ainda que se perdesse o mesmo estado. assim o rei nunca a pode perder em obedecer a Deus. David. 47 . como Senhor absoluto dos reinos e dos impérios. de bárbaro. como o tinha declarado o profeta Samuel. ainda que gentio e sem conhecimento de Deus. no supremo domínio de Deus. mas em seu reinado lho dividiu Deus. não só ficava salva a honra e a reputação. em que os interesses. senão ganhá-la. e que debaixo dela. que nenhuma razão de estado a pode justificar. Seguiram-se bravas guerras entre um e outro partido. senão ganhá-la em obedecer ao rei. que ontem era seu vassalo. Assim como o vassalo nunca pode perder a honra e reputação. que havia tantos anos tinha debaixo de seu domínio. a reputação que granjeou com aquela teimosa resolução é a que hoje tem no Mundo. nem vassalos que repugnassem ou respondessem.quoniam locutus est Dominus. como demitir de si o domínio de uma nação inteira e tão populosa não pode duvidar de obedecer e se sujeitar à sua vontade. segurá-la e acrescentá-la muito. achá-la-emos. E se buscarmos a raiz desta verdadeira razão. e contra esta proposta não houve rei. Seu neto Roboão entrou no império também inteiro. passando todo a David. porque entenderam que o interesse de obedecer a esta razão era o maior de todos os interesses. como acabamos de ver. que desse liberdade ao povo de Israel. filho herdeiro do rei defunto. que ficara privado do reino de seu pai.. de néscio. e terá enquanto durarem os Livros Sagrados. sendo ao parecer tão indignas as condições da paz. Propôs Abner aos tribos que a vontade de Deus era que David fosse rei. e depois inteirou-lhe Deus o império e reinou sobre toda a Judéia. e os outros onze tribos obedeceram e juraram por seu rei a Isboseth. e também dividi-los e parti-los quando é servido. Quando Moisés foi notificar da parte de Deus a El-Rei Faraó.Anexo:Imprimir/ História do Futuro mais generosa.. de obstinado de ímpio rei e de inimigo e destruidor (como foi por isso mesmo) de seu império. porque o príncipe que conhece a Deus. Seu filho Salomão logrou o mesmo império inteiro pacificamente. ela se ajustou em um dia sem o mediador Abner sem haver em todos os doze tribos um só homem que falasse uma palavra em contrário. que. E porque Faraó o não fez assim.

honra. E se esta razão. sabe O que conhece os corações. é dizer como Héli ainda quando se visse despojado de tudo: Dominus est. que não se escrevem com 48 . e se o Roboão de Israel (como dizia) se contenta com que lhe tirem dez tribos e lhe deixem uma só parte. Abraão. nos maiores anos ainda é incomparavelmente maior. e depois Deus executando. porque o tribo de Benjamim. e mandar embainhar a espada a Pedro. e depois com a união e sujeição de Portugal. Filipe II começou a reinar com parte. poderá ser menor crédito. porque se não contentaria o Roboão de Espanha. não quis pelejar sobre a terra. Seu filho Filipe III logrou o mesmo império inteiro pacificamente. para que representem o papel de reis enquanto ele for servido! E se o Roboão de Israel se contenta com que lhe tirem dez partes do Reino e lhe deixem uma (assim o diz expressamente o Texto Sagrado: Porro una tribus remanebit ei. foi a maior glória do poder supremo. porque não poderá Deus partir também a sua. Antes do Reino de Israel se dividir entre Reboão e Jeroboão. mas em seu reinado lho dividiu Deus. Não pode dar mais a fortuna a um príncipe que poder o que quer. e note-se muito. o Grande! Dai licença para que tenham entrada a vossos ouvidos os ecos destas últimas cláusulas. ainda é um ponto mais alto sobre a grandeza. se lhe deixa dez? Oh! como se pode temer que chame Deus ingratidão ao que os homens chamam reputação! A maior reputação de um príncipe que conhece a Deus e reconhece seu supremo domínio. quanto mais no caso presente. quem pode fazer e apertar a guerra. in oculis suis faciat. em sinal de que Deus o queria fazer rei de dez tribos de Israel. Poder pôr em campo doze legiões de anjos. senão porque a quer dar. O grande poder é muito confiado. senão de meu desejo. não de meu discurso. sempre é generosidade. ainda em termos tão apertados. E se o profeta Ahías pôde partir a sua capa e dar parte dela a El-Rei Jeroboão. não porque a há mister. e destas doze deu dez a Jeroboão. quod bonum est. Note-se aqui. Mas se em toda a idade tem decência e decoro a gentileza desta resolução. que os profetas são os que dividem os reinos e os que os repartem: eles os dividem primeiro. quando lhe tire o mesmo Dono um reino. quando os anos o chamavam mais para o Céu. mas dar a paz. é sempre verdadeira. Seu neto Filipe IV entrou no império também inteiro. nem pode exceder um príncipe essa mesma fortuna mais que não querendo o que pode. Ó poderosíssimo monarca Filipe IV.Anexo:Imprimir/ História do Futuro O mesmo sucedeu ao império de Espanha nos últimos três reis dela. em que a grandeza de Espanha e sua potência. reputação e glória. e da púrpura inteira que tinha dado ou emprestado a um rei. por sua pouquidade não fazia número . é o maior seguro de sua reputação! Pedir paz quem se não pode defender da guerra. que foi o que apartou a demanda. que ficou a Roboão juntamente com o de Judá. tomou o profeta Ahías a sua capa cortada em doze partes. e deu a Portugal a parte que lhe pertencia. e parte a El-Rei Roboão. e não poder querer o que Deus não quer. inteirou-lhe Deus o império de toda Espanha. cortar um retalho para vestir e coroar outro? Ah! se os reis e monarcas considerassem que as púrpuras que vestem lhas . As vozes de que eles se formam.era outro Algarve em respeito de Portugal). Pelejaram os pastores de Abraão com os de Loth.empresta Deus da sua guarda-roupa. os do tio com os do sobrinho. profetizando.

pois é aquele de que mais puramente se alimenta a Santa Madre Igreja e de que cabeça dela recebe os espíritos com que vivifica e anima seus mais distantes membros. Não queirais levar sobre vós e deixar sobre vossos filhos. nem das vossas teme. O tratado de uma boa e justa paz podia ser uma bula de composição geral. maior sereis no fim dela se ao de Grande acrescentardes o de Justo. e de que todo os príncipes católicos O agradem. por ama de tanto sangue derramado. Que se não derrame sangue cristão. Senhor. nem ele havia de fazer. ou os letrados pelos interesses dos reis. as interpretações podem ser da lisonja. Com esta obra tão consumada. por estado muito abaixo da sua roda. Com todo este desinteresse me atrevo. com que coroou todas as suas. Ponde os olhos neste soberano exemplar. Os textos são da justiça. e faça-se tudo diante de vossos olhos antes que os fecheis. que tereis conselheiros de grandes letras. Deixai a paz por herança a vossa esposa. de Malaca. foi saber morrer. vosso avô. Não duvido. Capítulo IX: Verdade desta História. Lembro-vos. Grande sinal é de predestinação de um príncipe que faça Deus por ele as restituições que nem seus predecessores fizeram. Senhor. pois sempre prezastes mais o de católico que o rei. e hoje é também vosso (posto que não vassalo) por afeto. Ouvi a voz de um homem que nem das felicidades de Portugal espera. Felicidade é levar já abatida das contas que se hao-de dar a Deus uma partida tão grossa. Senhor. porque vive fora da jurisdição da fortuna. sem dar a César o que é de César. Ouvi. E seria grande desgraça perder o Reino eterno por um temporal já perdido. Não se pode pagar a Deus o que é de Deus. firmai o título de rei com o de católico.Anexo:Imprimir/ História do Futuro outro fim mais que o de O agradar. para dar exemplo de morrer a príncipes. A maior façanha de Carlos. e sobre cristão espanhol. que segurem e justifiquem as causas e tão dilatada e cruel guerra. que é rei e Senhor. a voz de um estrangeiro. o que ainda se pode derramar. o que só importa. mas ponham os reis diante dos olhos as letras e as balanças de Baltasar e examinem eles se os seus maiores se governaram pelos pareceres dos letrados. podeis entregar a alma segura nas mãos do Padre. a vos dizer de longe o que pode ser não tenhais ouvido de mais perto. com que se levassem purgados todos estes encargos. o signo debaixo de que nascestes — e seja este o último suspiro do meu afeto: nascestes no dia em que morreu o Rei dos reis e Monarca supremo do Mundo. perdidos pela desatenção dos ministros ou pela intenção (que será pior) dos políticos. gostai o fel e não o passeis da boca. Merecestes na vida o título de Grande. de Ceilão. e depois deste texto e desta interpretação. e por coração muito acima dela. História do Futuro (Volume I. este o troféu maior de vossas vitórias. Declara-se o modo com que se pode conhecer e saber os futuros) por Padre Antônio Vieira 49 . desinteressado vassalo que foi já vosso por sujeição. lhe ofereceu o reino que lhe não podia dar. como o Reino de Portugal e suas Conquistas: basta haver-se de dar a mesma conta de Ormuz. Se vos parece amargoso este trago. Com um texto santo mal interpretado quis o Demônio despenhar a Cristo. Esta será a maior prenda do vosso amor. do Brasil. Senhor. Com uma inclinação da cabeça podeis deixar pacificado o Mundo. seja parte do sacrifício a repartição das vesti duras e leve embora a túnica aquele a quem coube em sorte.

E enquanto este sol. e veremos o que neles se passa. porque com o lume da profecia entravam nos lugares escuríssimos e secretíssimos dos futuros e viam neles claramente aquelas cousas para que todos os outros homens são cegos. Trevas que faziam horror. justo é que lhes mostremos primeiro os motivos da credulidade. e muitos passos nelas. As maiores trevas que se viram no Mundo. Pedro: Mas ainda que a candeia esteja na mão de outrem. porque só Deus a pode dar e a dá. antes que vamos mais por diante. nem basta estudo ou diligência alguma para a alcançar. nemo vidit fratrem suum. de que se pode dizer com toda a razão: Tenebrae erant super faciem abyssi Mas neste mesmo abismo de trevas. o que eles viram e conheceram com a sua. Confesso que entramos em um caos profundíssimo e escuríssimo.. e dizendo humilde a Deus com David: Lucerna pedibus meis verbum tuum. as quais devemos observar e atender. quando e a quem é servido: Non enim voluntate humana allata est ali quando prophetia. havendo a nossa História de caminhar por passos tão escuros e dificultosos. e tal a escuridade do futuro. o Apóstolo S. e a dar passo. ou com que o Mundo se não viu. Tais são as trevas. E pois pedimos aos leitores o assento da fé. quando diz da profecia de Ageu: . saberá contudo onde há-de pôr os pés. Pedro nos ensinou a entrar nestas trevas sem medo. dirá Deus o que so Ele pode dizer. et facta est lux. não duvidamos da pia afeição de todos. Contudo. e porque esta parecerá muito dificultosa. usando delas como de candeia luzente em lugar escuro e caliginoso. também se podem aproveitar da sua luz os que se chegarem a ela e a forem seguindo.factum est verbum Domini in manu Aggaei prophetae. o sol que há-de amanhecer é o cumprimento delas. Eu conheço e confesso que a não tenho. a candeia que alumeia são as profecias. et lumen semitis meis. como ali não faltou: Spiritus Domini ferebatur super aquas. e ninguém as pode ver senão alumiado da mesma luz. cui benefactis attendentes. Por isso os Profetas na Sagrada Escritura se chamam por antonomásia Videntes. que será muito formoso e alegre. possamos entrar com eles no lugar escuro e caliginoso dos futuros e ver e conhecer com a luz não nossa. Nesta propriedade fala a Escritura. trevas com que nada se via e trevas com que se não podia dar passo. não coroa os nossos montes. E geralmente das profecias de todos os profetas: Sicut locutus es de manu puerorum tuorum prophetarum. E da profecia de Malaquias: Onus verbi Domini ad Israel in manu Malachiae.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A primeira qualidade da história (quando não seja a sua essência) é a verdade. será razão que. foram aquelas do Egipto. das quais diz o Texto Sagrado: Factae sunt tenebrae horribiles in universa terra Aegypti. até que amanheça o dia». pois a matéria é tanto para crer. e 50 . nec movit se de loco in quo erat. donec dies elucescat: «Temos — diz o Príncipe dos Apóstolos — as profecias e palavras certíssimas dos profetas. e porventura impossível na História do Futuro. alumiados e guiados da mesma luz os que não somos profetas. não aparece. sed Spiritu Sancto inspirati locuti sunt sancti Dei homines — diz S.. e os porá mui seguros. o que só agora podemos e devemos fazer é levar a candeia das profecias diante. quasi lucernae lucenti in caliginoso loco. para que. Serão pois as primeiras fontes desta nossa História. e a ver claramente e com maior certeza tudo o que elas encobrem: Habemus firmiorem propheticum sermonem. e com a sua luz (ainda que luz pequena) entraremos no lugar caliginoso e escuríssimo dos futuros. De maneira que pôs Deus a profecia como candeia na mão dos profetas. se o espírito do Senhor (como esperamos) nos não faltar com a sua assistência. seguindo sempre os raios deste farol divino. e tão sua. e far-se-á o que só Ele pode fazer: Fiat lux. Este é o modo com que. Lugar escuro e caliginoso é o futuro. sosseguemos o escrúpulo ou receio (quando não seja o riso e o desprezo) dos que assim o podem imaginar.

assim nós que escrevemos do futuro. senão as divinas. ainda que sejam meramente históricos. exceto o profeta Jonas. falando das mesmas profecias e profetas. diz assim no primeiro capítulo de sua primeira epístola: De qua salute exquisierunt atque scrutati sunt Prophetae qui de futura in vobis gratia prophetaverunt. Nem este modo de discorrer sobre as profecias e revelações proféticas. que são somente os Profetas. Christo sunt. também científicas e ainda mais certas. Temos desta matéria um excelente texto do Apóstolo S. como Provérbios. o Autor. Sabedoria. mas vai crescendo. Pedro (primeira e infalível regra da Igreja). os Cantares e o Apocalipse. ordenando. também canônicos. nem atrevimento do entendimento e discurso humano. e todos os outros. dispondo. sucessos e tempos futuros. com que vem a ser um só livro e um só Autor o que nela principalmente seguiremos: o livro. como a árvore em suas raízes. ou cousa nova e desusada na Igreja e escola de Cristo. ou juntamente doutrinais e históricos. e estes são os que têm maior crédito e autoridade nas cousas daqueles tempos. todos os outros. como o Gênesis. tira conclusões teológicas. e particularmente determinado à história dos Ninivitas. de todos estes nos ajudaremos também. Paralipamenon. Assim como a filosofia de princípios naturais evidentemente conhecidos tira conclusões certas. não em diversos. a Escritura. contêm ou muitas ou algumas cousas proféticas. Pedro que os Profetas antigos. Números. há alguns que totalmente são proféticos. combinando. cujo assunto foi um só. no qual modo de fábrica se não perde a primeira verdade dos fundamentos. mais ou menos. Assim como os que escrevem anais ou histórias passadas e antiquíssimas. como os Salmos. Esdras e Macabeus. posto que não evidentes. senão no mesmo corpo. desde Isaías até Miqueas. Job e os Evangelhos. assim do Velho como do Novo Testamento.Anexo:Imprimir/ História do Futuro os primeiros e principais escritores a quem nela seguiremos todos ou quase todos os profetas canônicos. porque. evidentes e científicas. Sobre estes fundamentos da primeira e suma Verdade entrará o discurso como arquiteto de toda esta grande fábrica. scrutantes in quod vel quale tempus significaret in eis spiritus Christi praenuntians eas quae. é alheio da reverência que se deve aos oráculos divinos. de princípios sobrenaturais não evidentes mas certissimamente conhecidos. quando servirem ou puderem servir (que não será pouco) ao conhecimento e inteligência dos tempos futuros. que nelas não estejam imediatamente expressados. Eclesiástico e as Epístolas dos Apóstolos. e por isso se chamam e são ciências. o qual. recorrem aos autores mais antigos. pois só eles os conheceram. para vir em conhecimento dos mistérios. não só as naturais. concorreram para a fábrica deste novo edifício. assim a teologia. E porque entre os outros Livros Sagrados. segredos. Quer dizer S. muito louvável e muito recomendado do mesmo Mestre Divino e seus sucessores. ajustando. depois de lhes serem revelados com lume sobrenatural e eles conhecerem e profetizaram mistérios futuros (como os da paixão e glórias de Cristo) sobre os mesmos mistérios e sobre as mesmas suas profecias inquiriam e especulavam de novo com o lume natural do discurso muitas circunstancias que lhes não 51 . Deste modo crescem e se aumentam todas as ciências. Deus. Josué. devemos recorrer e buscar a verdade e notícias da nossa História nos autores dos tempos futuros. passiones et posteriores glorias. antes estudo muito lícito. como o Levítico. dilatando-se e frutificando. Assim que podemos dizer em uma palavra que a primeira e principal fonte e os primeiros e principais fundamentos de toda esta nossa História é a Escritura Sagrada. Reis. Eclesiastes. ou meramente doutrinais. inferindo e acrescentando tudo aquilo que por conseqüência e razão natural se segue e infere dos mesmos princípios. Josias. Deuteronômio.

por discurso natural. do cativeiro. lendo.. Conferia a Senhora. da guerra. da liberdade e outros semelhantes que no mesmo tempo. ambos doutissimos expositores deste lugar..Anexo:Imprimir/ História do Futuro foram expressamente reveladas. O mesmo diz Salmeirão. et ratiocinando. conhecendo delas e por elas muitas cousas que nelas imediatamente não estava reveladas. Bem assim como o sol ou candeia (que era a nossa comparação) não só alumeia com a luz que está ao lume ou fogo que nela se sustenta. captivitatis. Desta maneira. difundindo e estendendo a muitas cousas. vel disputationis. at ignorabant circumstantiam tem poris.vel lectionis. nec tamen salten omnes. curam et studium et industriam naturalem vel meditationis. Eplicabant quae Messias primum passurus. e ambos trazem em confirmacão o exemplo da Virgem Maria. das nações. sucessos e circunstâncias que nelas estavam ocultas e pela conferência e conseqüência do mesmo discurso se vão entendendo e descobrindo de novo. aut pacis. e os acontecimentos particulares da paz. como as do tempo estado do Mundo em que os mesmos mistérios se haviam de obrar e as suas mesmas profecias haviam de suceder. Pedro nas palavras citadas: . vobis autem mintistrabant. e mais abaixo: Quibus revelatum est quia non sibimetipsis. A palavra. o estado dos reinos. com o cuidado. onde a versão siríaca tem: Nostra nobis: vaticinabantur. Isto mesmo é o que se diz no cap. das repúblicas. Isto é o que literal e genuinamente significam aquelas palavras: «Exquisierunt et scrutati sunt.. razão é que nós como nossas as entendamos.proprie indicant. pois de nós e para nós falam os Profetas. assim o lume natural do discurso. É isto o que nós fazemos e devemos fazer. com a luz que dela se vai produzindo. E pois os Profetas profetizavam para nós e as cousas nossas. L: Scrutamini Scripturas. as palavras que os pastores referiam ter ouvido aos anjos. inferia e descobria outros mistérios ocultos e profundíssimos. an belli. conforme a sua menor ou maior esfera. as que ouviu a Simeão. e muito mais. quae allaturus erat. Mas porque as profecias por sua natural escuridade não são fáceis de entender. vinham a estender e adiantar muito as mesmas profecias. e assim como se há mister necessariamente a sua luz para conhecer os futuros. como diz o mesmo texto de S. a Ana a profetiza.qui de futura in vobis gratia prophetaverunt. que nas mesmas palavras não estavam expressamente declarados. Esta segunda luz 52 ... em que tempo significa a determinação do tempo certo em que as cousas hão-de suceder. quando o achou entre os doutores. e delas. João na cap. Isso quer dizer: In quod vel quale tempus. ou mais vizinho ou mais distante. De sorte que. quo statu Reipublicae Hebraeorum. e a palavra no qual tempo significa as qualidades e circunstâncias do mesmo tempo. aut libertatis. estudo e indústria própria. quam brevi. definite sciebant quo tempore veniret et quali.» Exquisitio et scrutatio (diz Lorino) . atque conjecturando disquirebant. ajuntando o lume natural do d curso ao lume sobrenatural da pirofecia. da qual diz o Evangelho: Maria autem conservabat omnia verba haec conferens in corde suo. dizendo por S. disputando e meditando. isto é. tempos. no sentido em que o digo vinham a inferir e alcançar pelo estudo e especulação natural e própria o que Deus lhes não tinha manifestado pela revelação sobrenatural e divina.. se hão-de ver e suceder no Mundo: Deprehendebant Prophetae instinctu spiritus Messiae ejusdem Messiae adventum et gratiae dona. e ao mesmo Cristo Menino. multiplicando e difundindo por todas as partes vizinhas e ainda distantes. nossa Senhora. e o que Cristo mandou a todos que fizessem. XV dos Atos dos Apóstolos faziam os mais doutos cristãos da primitiva Igreja. é também necessária outra Segunda e nova luz para as entender a elas. senão também. quam postea gloriam consecuturus et collaturus etiam esset. com ser alumiada sobre todas as criaturas. se vai propagando. Atèqui Lorino.

como dos seguintes tempos. à imitação de Barónio e de outros autores. por outras palavras. o entendimento e o discurso de fio. a que por isso chamamos Anteprimeiro.Anexo:Imprimir/ História do Futuro serão aqueles a quem Cristo chamou luz do Mundo: Vox estis lux Mundi. depois de fechado o número dos livros e os escritores sagrados (o qual se cerrou no Apocalipse de S. Também excitaremos a este fim e resolveremos várias questões muito importantes ao conhecimento das profecias. na forma possível. não deixou de ilustrar e ornar sua esposa a Igreja com o lume e dom da profecia. com que alumiaremos as profecias. que são em primeiro lugar os Apóstolos sagrados. pela ordem que a necessidade ou ocasião o for pedindo. e para vencer e facilitar estas duas dificuldades se inventou entrar nele. aprovados e canonizados pela Igreja. Por esta causa se não acharão porventura neste nosso discurso menos algumas que em nome de profecias andam entre o vulgo. e não só falaremos nos autores e Profetas modernos e não canônicos. pelas mesmas causas. senão preparação ou aparato para ela. alumiados com o mesmo espírito. poderemos entrar neste labirinto com todo o aparato e prevenção de instrumentos com que se entrava seguramente no de Creta. para a inteligência e combinação das mesmas profecias. E posto que todo este tão largo Prolegómeno em rigor não seja História do Futuro. tenham. e. Procuramos quanto nos foi possível que fosse mui exata esta diligência. mas o único fundamento de toda a sua verdade. ou pela santidade de seus autores. Isto é quanto às profecias e Profetas canônicos. que por palavra e escrito predispuseram muitas cousas futuras. A este fim empregarei grande parte deste presente livro na qualificação do espírito profético que tiveram todos os autores do futuro que na História se hão-de alegar. senão ainda. e esta será a própria matéria de todo este livro. mas diremos o tempo em que escreveram as obras proféticas que deles existam. E porque o Espírito Santo. também estes darão matéria à nossa História. e depois daqueles seus primitivos anos houve sempre novos profetas. mas também com fio: as tochas para ver o escuro dos caminhos e o fio para entrar e sair pelo intricado deles. Era aquele labirinto por uma parte muito escuro e por outra mui intricado. e muito mais. e outra as mesmas profecias. por ser este não só o principal. As profecias e os Doutores nos servirão de tochas. que com menos necessidade o fizeram em 53 . não só com tocha. e não só provaremos quanto for necessário o espírito da profecia destes autores. merecido no juízo dos prudentes o nome e veneração de profecias ou predições verdadeiras. experiência e opinião do Mundo. e sem o qual vã e não merecidamente lhe devemos prometer o crédito que de todos os que a lerem esperamos. e em segundo os Padres Doutores da Igreja e expositores das Escrituras divinas. João). candeia acesa: Neque enim accendunt lucernam et ponunt eum sub modio. com uma breve relação também das mesmas pessoas (quando não forem geralmente mui conhecidas) pelo muito que importam todas estas notícias não só para a fé e crédito. com que alumiaremos e descobriremos os futuros. senão igualmente nos antigos e sagrados. ou por outros fundamentos sólidos da razão. e é como alicerce de todo o edifício. os quais seguiremos e alegaremos em tudo o que dissermos com estas duas luzes ou candeias: uma dos Doutores sagrados. sem certeza de autor e muito menos do espírito com que foram escritas. que grandemente depende do tempo e de outras semelhantes circunstâncias. a inteireza ou corrupção com que se tem conservado. Por este modo entraremos também nós pelo escuro e intricado labirinto dos futuros. assim dos seus. Não meteremos porém nesta conta senão aquelas profecias somente que.

As profecias não canônicas podem ser tão evidentemente provadas por seus efeitos. senão em parte. As outras cousas. ou provável. não só de cousas incertas e improváveis. pelo modo já explicado. posto que não em todas com igual grau de certeza. por sua grande variedade e diligente erudição de cousas curiosas. é certo que têm toda aquela certeza infalível e de fé. mas formada e como tecida deles. ou por não averiguadas com tão evidente certeza (posto que sempre estabelecidas com bons e racionais fundamentos) ou por sua interpretação não ser tão manifesta ou recebida que não desfaça moralmente toda a razão de dúvida. de cuja inteligência por sua clareza se não pode duvidar. a História do Futuro igualará na verdade e na certeza. por tradições. enquanto não sai a luz. será fundada na primeira e suma Verdade. que destas verdades assim profetizadas e conhecidas. e pela maior parte até agora não tratadas. verdadeira com certeza de fé. todas elas estão cheias. todas as outras conclusões que por natural e evidente conseqüência delas se deduzirem. por esta parte têm evidência. se deduzirem. e conhecidamente supostas e falsas. ou canonicamente. se não distinguirá delas. nas do segundo. le nestas. qual é a das conclusões teológicas que. que será. que. De tudo o que fica dito ou prometido se colhe facilmente quanta será a verdade desta História. e por ambas tal certeza. nas do quarto. terão somente certeza provável naquele sentido em que dizemos provavelmente certas aquelas cousas de que há fundamentos prováveis para o serem. na forma que pouco antes dissemos. verdadeira com certeza provável. assim o que imediatamente predizem. sendo a excelência singular desta História que toda ela. ou pelo consenso comum dos Padres. o nome de história verdadeira. porque as cousas que expressa e imediatamente se predizem nas profecias canônicas. muito brevemente. como as conseqüências que delas por formalização se deduzirem. segundo todas suas partes. que as outras verdades sagradas que se contêm nas Escrituras. Estes quatro gêneros de verdade são os de que repartidamente se comporá toda a História do Futuro. por melhor dizer. que esta História do Futuro é mais certa e mais verdadeira que todas elas (excetas somente as Histórias Sagradas). como veremos que tenham toda a certeza moral. mas alheias e encontradas com a verdade. são verdades segundas que participam a mesma certeza também infalível. pois são filhas e herdeiras da mesma Verdade de que tiveram seu nascimento Restam somente aquelas profecias que. E digo que sem injúria nem agravo de todas as outras histórias humanas. nem somente ciência. que não é sujeita a erro ou falsidade. não será injucunda aos que a lerem. que é. e que possa sem enfado entreter a expectação e desejo da mesma História.Anexo:Imprimir/ História do Futuro suas histórias. ou por culpas ou sem culpa dos mesmos historiadores. e a mesma participarão. ou moral. ou por estarem explicadas por escritores também canônicos por concílios. esperamos que a matéria. não sendo totalmente fé. por ir toda (como vai) não só fundada nos mesmos textos e sentenças da Escritura divina. ficam dentro dos lates da probabilidade opinativa. como em Deus esperamos. por natural conseqüência. como também terão advertido os mais lidos e versados. merecendo. verdadeira com certeza teológica. 54 . nas do terceiro. e ainda esta exceção se não deve entender em todo. o mesmo Deus. Nas do primeiro gênero. nem perigo de poderem não ser. que é a que depois a fé e da ciência têm no juízo humano o maior assento. ainda que intervenha no discurso algum meio ou proposição científica. ou teológica. assim nas antigas como nas modernas. Daqui inferimos sem injúria nem agravo de quantas histórias até hoje estão escritas no Mundo. porque. verdadeira com certeza moral.

os Heródotos. Persas. ainda com maior evidência.) por Padre Antônio Vieira 55 Assentamos com o Apóstolo S. Quem quiser ver claramente a falsidade das histórias humanas. Das dos Gregos e Romanos disse S. que esta mesma candeia e luz das profecias há muitos centos de anos que está acesa. do Dilúvio. o amor. os Diodoros. o ódio. Mas isto mesmo se conhece. e não as sentenças sobre os processos. no livro primeiro das Leis: Apud Herodotum patrem Historiae et apud Theopompum sunt innumerabiles fabulae. por mais diligente investigador que seja dos sucessos presentes ou passados. que é a ignorancia e malícia humana. que o não incline só o respeito. como nós prometemos fazer. como em pedra de toque. que é mais. ou do seu ou de estranho príncipe? Todas as penas nasceram em carne e sangue. as dos Assírios. da divisão das primeiras gentes. tam graeco quam romano stylo mendacis ficta miracula. aos quais (que sempre serão mais de um) responderemos facilmente com o seu mesmo argumento. que com a candeia da profecia se podia entrar pela escuridade dos futuros e descobrir e conhecer o que neles está encoberto e enterrado. sobre a qual batalham tantas vezes os mesmos historiadores. que mais merece nome de temeridade :que de confiança. tanto mais se vão chegando para nós. que são as duas fontes da verdade humana e divina. E Cícero. os Lívios. por ocasião do milagre da serpente: Cedaxt huic veritati. Prova Tácito a verdade da sua história. a lisonja. e nós para eles. que também tinha longe as informações da verdade. sendo infalível que um só pode dizer a verdade e certo que nenhum a diz. quanto mais vão correndo. daquelas histórias de que temos verdadeira relação nas Escrituras Sagradas. com ter longe as causas do ódio e amor. como são as de Noé. O certo é que só tinha perto a ambição de seu próprio juízo. leia a mesma história por diferentes escritores. a vingança. e principalmente a dos Hebreus.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Que historiador há ou pode haver. Os futuros. Não aponto erros em particular das histórias mais vizinhas a nossos tempos por reverência deles. os Trogos. e a nossa tirada do lume da profecia e acrescentada pelo lume da razão. e desta mesma experiência e razões dela se qualifica claramente ser a nossa História do Futuro mais verdadeira que todas as do passado porque elas em grande parte foram tiradas da fonte da mentira. e que ninguém contudo se atreveu até agora a entrar com ela por estes abismos e escundades do futuro. ou da malícia? Que historiador há de tão limpo coração e tão inteiro amador da verdade. História do Futuro (Volume I. Por isso Tertuliano lhe chamou com razão mendaciorum loquacíssimum. que não vão envoltas em muitos erros. e como há tantos centos de anos que estão escritas estas profecias. e todos na tinta de escrever misturam as cores do seu afeto. com os quais cotejado. no capítulo antecedente. o que escteveram os Berosos. ou da sua. mas nunca com conhecida vitória. e porque fora matéria infinita. e desta é filha legítima a sua verdade. com que formava os processos para as sentenças. senão supra candelabrum. Egípcios. Pedro. Estes foram os pais da História humana. Medos. Jerônimo. empresa e ousadia. Mas sobre esta resolução se pode dizer e argüir contra nós. mas de aí se convence contra ele. Capítulo X: Resposta a uma objeção: mostra-se que o melhor comentador das profecias é o tempo. ou da ignorância. se contradizem e se implicam no mesmo sucesso. Romanos. os Cúrcios. apenas se acha cousa que não seja contradição da verdade. também há outros centos de anos . Gregos. e verá como se encontram. ou da alheia nação. e não sub modio. e todos os outros historiadores daquelas nações e tempos. que não escreva por informações? E que informações há de homens.

e ainda que todos os outros Profetas anunciaram a Cristo. e disse que a iria ver. comparada com aqueles cedros do Líbano e com aquelas torres altíssimas. e elas para os futuros. tanta grandeza e majestade acrescentaram ao edifício da Igreja. Com una candeia na mão pode-se ver o que há em uma casa. disse Cristo. e ao perto alumeia. Mas estes são os privilégios da última hora: Hi novissimi una hora fecerunt. viu melhor e mais claramente que todos. mas subido em cima da árvore. 0 grande precursor de Cristo . como vive mos depois deles. Este é o modo com que os últimos podem vir a ser os primeiros. Um pigmeu sobre um agigante pode ver mais que ele. Estava vendo a visão. mais ou menos todos cavamos e. e ele disse: — Este é. ainda que tivessem acesa a mesma candeia. para que dele se possa alcançar o que de outros se não alcança. Mui bem medimos a nossa estatura. não é muito que alcancemos e descubramos um pouco mais do que eles descobriram e alcançaram. porque era candeia de mais perto. ao perto. e por isso nós nos atrevemos a fazer hoje o que os Antigos não fizeram. mas não se pode ver o que há em uma cidade. Os que estudamos e trabalhamos na inteligência da Sagrada Escritura. Pigmeus nos conhecemos em comparação daqueles gigantes que olharam antes de nós para as mesmas Escrituras. vemos hoje o que . que tanto ornato. Cousa maravilhosa é. fazem aos antigos: nos antigos reconhecemos a vantagem da sabedoria. mas basta ser o último. e um pouco mais.Anexo:Imprimir/ História do Futuro que os futuros se vão chegando para elas. pode suceder que os que vêm na última hora por felicidade da mesma 56 . 0 último degrau da escada não é maior que os outros. Fizeram na última hora o que os outros não fizeram todo o dia.. é necessário que a distância seja proporcionada: Ut luceat omnibus qui in domo sunt. ou vê-las ao perto. os outros diziam: — Há-de vir. Para ver com uma candeia. Ao longe viu só Moisés a sarça e o fogo. nos nossos a fortuna da vizinhança. porque a candeia de mais perto alumeia melhor. Eles sem nós viram muito mais do que nós podemos ver sem eles. e estar em cima dos mais. e conhecemos quão pequena. quão desigual) quão inferior é. porque vai muita diferença de ver as visões de Deus ao longe.eles viram. Entre a multidão dos que acompanhavam e rodeavam a Cristo. Non ergo undecima hora in vineam Domini ad operandum conductis nobis invidendum est — disse Lipomano na prefação de seus Comentários. achando-se às escuras em muitos lugares das profecias. e que apenas se pode entender. Se estamos mais perto dos futuros com igual luz (ainda que não seja com igual vista). entendeu o que aquelas figuras significavam.erat lucerna lucens et ardens. aplicando a parábola de Cristo ao estudo da Sagrada Escritura. antes pode ser menor. como os cavadores da vinha que vieram na última hora puderam ser avantajados aos demais. reservou a verdadeira inteligência delas para os vindouros. porque eles com outros acabaram a obra que os outros sem eles não puderam nem podiam acabar: Sic erunt novissimi primi. porque os não veremos melhor? Assim o confessou Santo Agostiho com ter os olhos de águia o qual. e sobre eles por benefício do tempo. Esta é a diferença que não nós.. o Baptista o mostrou melhor. mas subidos por merecimento seu e fortuna do tempo a tanta altura. As visões e revelações de Deus vêem-se melhor ao perto que ao longe: de longe viu Moisés a visão da sarça. e que disse? — Vadam et videbo visionem hanc magram: «Irei e verei esta grande visão». mas nós. não podia alcançar a ver o que os outros viam. o mais pequeno de todos era Zaqueu que por si mesmo. não basta só que a candeia esteja acesa. e com os pés no chão. A mesma luz e a mesma candeia ao longe vê-se. senão os nossos tempos.

descendo sem trabalho ao profundo da mesma cova. 0 último dos Apóstolos foi S. não descobriram. em que se passaram mais de 3600 anos. porque bem pode o último e o mínimo alcançar e descobrir os segredos que os primeiros e maiores não alcançaram. sendo os mares que depois dele se seguiam. Crisóstomo. que foi no ano da criação do Mundo I80I. o tornará ou não. a quem se descobriu. e quando . tão temorosos aos navegantes. senão prerrogativa dos tempos. e S. disse verdadeira e judiciosamente S. conforme a ordem e disposição de sua Providência. e se confessa por mínimo de todos: Mihi omnium sanstorum minimo. O que se descobriu é um segredo escondido a todos os séculos passados: Sactamenti absconditi a soculis in Deo. era o termo da navegação do mar Oceano junto somente à costa de África. quando chega o tempo determinado e predefinido por Deus para que seus segredos se conheçam e descubram no Mundo. porque. que era provérbio entre eles (como escreve o nosso João de Barros): quem passar o cabo de Não. e de nenhum modo antes. sucede vir um mais venturoso que. quod magnus et sapiens vir praeterit. nem ouviu neste Mundo como os demais. Quem o descobriu foi o último de todos os apóstolos 9 discípulos de Cristo. diz Ruperto Tertuliano. se podem manifestar e entender. multiformis sapientia Dei. Desde que Túbal começou a povoar Espanha. descubram com poucas enxadas o que muitos em muito tempo e com muito trabalho. cavam por muitos dias. a qual sempre é do último Eis aqui como pode acontecer que descubram o tesouro os que cavam menos: Saepe abseptus quisquam. o cabo chamado de Não. Jerônimo com mais estrita propriedade o entende particularmente das escrituras proféticas Quantas vezes os que trabalham no descobrimento de algum tesouro. foi no século que Deus tinha predefinido e determinado: Secundum praefinitionem saeculorum.Anexo:Imprimir/ História do Futuro hora acabem. Assim que bem pode um homem menor que todos descobrir e alcançar o que os grandes e eminentíssimos não descobriram. et vilis invenit. ainda que seja de um anjo e de muitos anjos. porque esta ventura não é privilégio dos entendimentos. secundum praefinitionem saeculorum. A quem se descobriu foi não menos que aos espíritos angélicos das mais superiores hierarquias do Céu: Ut innotescat principatibus et caelestiu. só então. I428. para conhecer e penetrar os segredos altíssimos de Deus. Finalmente. Aparecia ao 57 . e logra é fruto dos trabalhos e suores dos primeiros? Assim aconteceu no tesouro das profecias: cavaram uns e cavaram outros. João Crisóstomo. confessa ter recebido a graça de descobrir aos mesmos anjos do Céu os tesouros que lhes estavam escondidos: Mihi omnium sanctorum (diz ele na Epístola aos Efessos) minimo data est gratia hoec in gentibus evangelizare investigabiles divitias Christi. Nas quais palavras se devem ponderar muito quatro cousas: Que é o que se descobriu. et illuminare omnes quae sit dispensatio sacramenti absconditi a saeculis in Deo. S. e cansaram todos e no cabo descobre o tesouro quais sem trabalho aquele ultimo para quem estava guardada tamanha ventura. quando se descobriu. cavando muito mais. Mateus. XIII de S. ut innotescat principatibus et potestatibus in caelestibus per Ecclestam. e depois de estes cansados e desesperados. qui omnia creavit. porque costuma Deus ter algumas cousas encobertas e escondidas por muitos séculos. até o de Cristo. enquanto ele quer que estejam encobertos e escondidos. Paulo. que já o não alcançou. que é a Escritura Sagrada. meses e anos sem acharem o que buscam. nem viu. se descobriu. e cavando alguma cousa de novo descobre a poucas enxadadas e tesouro. Aquele tesouro escondido de que falou Cristo no cap. e confessando-se por mínimo de todos. porque não bastam as forças da sabedoria e entendimento criado. quem o descobriu.

facilitada esta passagem. não havia historiador que de ali adiantasse um momento a conta de seus anos e dias. Lusos. até que chegue o tempo determinado pela Providência divina. Daniel. de sombras. se reputava entre todos por empresa tão arriscada e impossível à indústria e poder humano. É admirável a este propósito um lugar do profeta Daniel. claude sermones et sigra librum. quebrou aquele antiquíssimo encantamento e mostrou com estranho desengano à Espanha. usque ad tempus statutum. de medos. ou. o que confusamente se representava adiante ao longo deste cabo. tanto por fama e horror comum. que pode o Bojador ser vencido. de passar aquele cabo Bojador. desvanecido este escuro. nas escrituras dos profetas. o qual é o que só tem poder para romper os sigilos e abrir e fazer 58 . que ninguém as pode entender nem declarar. Mas quando chega a hora precisa do limite que Deus tem posto às cousas humanas. porque chegou a hora. nem os Aníbales de Cartago. posto que elas são tão claras e expressas que não necessitam de comentador. há cousas de tal modo fechadas e seladas. o temerosíssimo Bojador do futuro. como se pode ver em todos os comentadores de Daniel. para atalhar todos esses receios. foi o primeiro que. como pelo desengano de muitas experiências. e haverá sobre a inteligência de seus mistérios grande variedade de ciências e opiniões. nem os Cipiões e Júlios de Roma. com que demonstrativa e indubitavelmente se persuade e convence esta verdade nos próprios termos da inteligência das profecias em que falamos. fecharás e selarás o livro (em que escreveres estas cousas que tenho dito). nem os Bacos. para que estejam fechadas e seladas até o tempo determinado por Deus. Ali donde chega o presente e começa o futuro. para pisar todos esses impossíveis e para navegar segura e venturosamente os mares nunca de antes navegados. mandou-lhe que fechasse e selasse o livro em que estavam escritas e lhe disse estas notáveis palavras: Tu autem. sondado este fundo e navegável e navegada a imensidade de mares que depois dele se seguem. como se pode ver no IV capítulo da primeira Década. basta Gil Eanes em uma barca para vencer todas essas dificuldades. XII de Daniel.>> E verdadeiramente é assim: enquanto não chega a hora determinada por Deus. De maneira que. diz breve e sentenciosamente: «E a este seu propósito se ajuntou a boa fortuna.Anexo:Imprimir/ História do Futuro longe deste o cabo chamado Bojador. dobrado este cabo. de nuvens espessas. demos os louvores a Deus e às disposições de sua Providência.:>> Este é o sentido literal e verdadeiro destas palavras do anjo. era a carranca medonha. o qual feito ponderando o nosso grande historiador com seu costumado juízo. chamado Gil Eanes. ao Mundo e ao mesmo Oceano que também o não navegado era navegável. de horrores.. No cap. por melhor dizer. dispondo-se ousadamente ao rompimento de uma tamanha aventura. de escuridade. era até agora o cabo de Não. cuja passagem. Gedeões e Hércules de Espanha se atrevem a imaginar. Mas se agora virmos desfeitas estas névoas. venceu felizmente o cabo em uma barca. Não havia pensamento que ainda com imaginação (que a tudo se atreve) desse um passo seguro mais adiante naquele tão desusado caminho. de cegueira. e param suas empresas e ainda seus pensamentos no cabo de Não. entretanto passarão muitos por elas. pelo muito que se metia dentro no mar. a hora em que Deus tinha limitado o curso de tanto receio. como todos tinham. Daniel. depois de um anjo lhe ter declarado grandes mistérios dos tempos futuros. plurimi pertransibunt et multiplex erit scientia: >>Tu. Mas quem ler o capítulo seguinte. e entendamos que se passou o cabo. verá também como um homem português não de muito nome. e isto por um piloto de tão pouco nome e uma tão pequena barquinha como a do seu limitado talento. de impossíveis. coberto de névoas.

ajudados e ensinados do tempo. ou a mais misteriosa de todas. e passam por eles: Plurimi perransibunt. que nelas estavam profetizadas. ou depois de chegarem. antes que ele se veja descoberto nos horizontes. os Rupertos. senão igualmente com eles. sem que se possa entender onde irá parar. senão quando já vai chegando e se descobre subitamente entre a expectação e o aplauso. cuidam que passam os livros. os Cornélios. mas porque lêem e estudam à luz da candeia. dirão cousas muito discretas. por mais doutos. os Basílios. os Ricardos. pendentes sempre de um sucesso para outro sucesso. muito doutas. soberano Autor e Governador do Mundo e perfeitíssimo exemplar de toda a 59 . Por quantos lugares passaram os Origgenes. mas não todo Juntamente. E enquanto este tempo não chega. encobrindo-se de indústria o fim da história. os homens as figuras que nele representam. porque passarão todos por ele sem entenderem nem penetrarem Isto quer dizer: Plurimi pertransibunt. Entre as cousas muito misteriosas que viu S. e nos tempos e nos efeitos estarão descobertas as profecias. os Sanches. sendo o mesmo tempo e os mesmos sucessos os que as abrissem e manifestassem.Anexo:Imprimir/ História do Futuro patentes as escrituras fechadas e declarar os mistérios futuros. o mistério destas pausas e intervalos era porque se haviam ir descobrindo as profecias que estavam escritas no livro. Bem assim como antes de se acabar de todo a noite. ou mais vagarosos ou mais apressados. foi um livro fechado e selado com sete selos o qual era o seu mesmo Apocalipse. não porque os últimos sejam mais doutos ou de mais aguda vista. que depois entenderam os Montanos. senão por passos e espaços: um selo primeiro e outros depois. e com grande aparato de cerimônias e efeitos admiráveis no céu e na terra. os Jerônimos? Por quantos passaram os Hugos. muito santas e muito várias. e por isso naquele misterioso livro. acharemos que não é outra senão a majestade da sabedoria e onipotência divina. E se quisermos especular a razão desta providencia. No Apocalipse (cujas profecias são próprias deste tempo). traçada e disposta maravilhosamente pelas idéias de sua Providência. De maneira que nas profecias estão encobertos os tempos e os efeitos. e não apartadas de seus efeitos. ou quando já forem chegando. os Teodoretos. senão em diferentes tempos. e assim se haviam ir entendendo. João. temos relatado este segredo da Providência divina. sábios e santos que sejam os expositores daquelas profecias. et multiplex erit scientia. com que vão seguindo e variando os tempos. assim Meus. não juntamente. os Clementes. e a história verdadeira de seus sucessos uma comédia de Deus. que depois en tenderam os Agostinhos. foram-se rompendo estes selos e abrindo-se o livro. os Riberas? E por quantos passaram também estes. pelos resplendores da aurora se conhece a vizinhança do Sol. assim também eram diversos os selos com que estavam fechados e diversos os tempos em que se haviam de abrir e manifestar. em que a Igreja de Cristo se vai continuando mais claramente que em nenhum outro lugar das Escrituras. E assim como o primor e subtileza da arte cômica consiste principalmente daquela suspensão de entendimento e doce enleio dos sentidos. e para o qual reservou Deus a abertura dos seus sigilos? Signa librum usque ad tempus constitutum. É este mundo um teatro. mas o certo e verdadeiro sentido delas sempre ficará oculto e escondido. com que o enredo os vai levando após si. assim como eram diversas as profecias e diversos os efeitos e sucessos da Igreja e do Mundo. com que dispôs e tem decretado que as profecias se vão descobrindo e entendendo ordenada e sucessivamente aos mesmos passos. os Tertulianos. sempre admirável em todas suas obras. que depois entenderam melhor os que lhes foram sucedendo. que é mais certo intérprete das profecias. que nelas estavam ocultos e encerrados. Onde se deve advertir e notar que muitos homem ainda que sejam de grandes letras.

em que ela se cumpria. XXIII: Non revertetur furor Domini usque dum faciat et usque dum compleat cogitationem cordis sui: in novissimis diebus intelligetis consilium ejus. et servient omnes gentes istae regi Babylonis septuaginta annis:<<Toda esta terra (diz Jeremias. E no cap. estando em Jerusalém) será assolada. que Deus tinha revelado ao profeta Jeremias havia de durar a assolação de Jerusalém>> e cativeiro dos Judeus em Babilônia. é do cap. para que umas palavras tão expressas e uma profecia tão clara possa parecer escura? Atravessa uma nuvem (como dizíamos) entre a profecia e os olhos. sendo Daniel. servirão ao rei de Babilônia por espaço de setenta anos. que não entendeu o número destes setenta anos. que nos não deixa compreender nem alcançar os segredos de seus intentos. onde. não quis Deus que o mesmo Daniel. que Daniel afirma que entendeu no primeiro ano do império de Dario. senão quando Já tem chegado ou vêm chegando os fins deles. com que sua mesma clareza se nos faz escura. ou sobre os olhos ou sobre a profecia. de semine Medorum. anno uno regni ejus. descendente dos Medos. Eu o não crera. ut complerentur desolationis Hierusalem septuaginta anni: <<No ano primeiro de Dario. XXV daquele profeta. se acabaram de cumprir no primeiro ano do império de Dario. E é esta regra (com pouca exceção de casos) tão comum em Deus e seus decretos. intellexi in libris numerum annorum. como consta da exata cronologia que se pode ver largamente provada em Perério e rios comentadores da profecia de Daniel. qui imperavit super regnum Chaldeorum. filii Asssueri. porque assim o profetizou e o repete o mesmo Jeremias em dois lugares. entendi nos livros o número de setenta anos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro natureza e arte para manifestação de sua glória e admiração de sua sabedoria. e não Daniel. XX. Daniel. que foi o último dos mesmos setenta? Podia haver conta mais clara? Podia haver palavras mais expressas? Não Mas como é regra ordinária da Providência divina. Daniel intellexi: Eu. sendo Daniel um tão grande profeta. o entendesse senão no último ano. e com este véu. senão no último ano dos setenta. de tal maneira nos encobre as cousas futuras. ainda quando as profecias são muito claras. senão de si: In anno primo Darii. o claro por claríssimo que seja 60 . falando de suas profecias. Agora entra o caso e a admiração: Esta profecia de Jeremias. não de outrem. Daniel. se o não vira esento para maior admiração em um dos maiores profetas. E que fez Deus. que teve o império dos Caldeus: Eu Daniel. mas assim havia de ser. quase pelas mesmas palavras: Non avertet iram indignationis Dominus. costuma atravessar entre elas e os nossos olhos umas certas nuvens. e diz assim: Et erit uníversa terra haec in solitudinem et in stuporem. que. que as profecias se não entendam senão quando já tem chegado ou vai chegando o fim delas. diz ele. ou pode fazer. como diz Daniel. senão no primeiro ano de Dario. ainda quando as manda escrever primeiro pelos profetas. e todas as gentes que a habitam.profecia. filho de Assuero. donec faciat et cormpleat cogitationem cordis sui: in novissimo dierum intelligetis ea. por isso. ego. sendo a profecia tão clara e o número dos setenta anos tão expresso.>> Estes setenta anos. que assim o confessa. com pasmo e assombro do mundo. sendo Daniel. para nos ter sempre suspensos na expectação e pendentes de sua providência. E esta parece a energia daquela sua palavra: Ego. Pois se o termo de setenta anos estava profetizado com palavras tão claras e expressas como são aquelas de Jeremias: Et servsent omnes gentes istae regi Babylonis septuaginta annis. diz que se não entenderão senão nos últimos tempos do cumprimento delas: No cap. não entendi a profecia tão clara de Jeremias. O tempo foi o que interpretou a . de quo factus est sermo Domini ad Jeremiam prophetam.

e contudo essa mesma água (como discretamente advertiu David). a inveja ou a lisonja. até a água e escura. Se os olhos estão cobertos e escurecidos com o véu do afeto ou com a nuvem da paixão.. para o dizer melhor.Anexo:Imprimir/ História do Futuro fica escuro. porque todos os que cavaram neste tesouro e varreram esta casa. ou se não querem entender. E contudo estas são as que mais obstinadamente nega a cegueira judaica. Por isso pedia o mesmo David a Deus que lhe tirasse o véu dos olhos. resumindo toda a resposta da objeção. cum legitur Moyses. varra-se e alimpe-se a casa. porque eles são os que querem ser cegos. só eles os podem tirar. o tempo as gasta e as desfaz. como se há-de ver com os olhos cobertos? Tire-se o impedimento à luz.accendit lucernam. e logo se verão a candeia e mais o que ela alumeia.. ou. História do Futuro (Volume I. A mulher que buscava a dracma perdida não só acendeu a candeia. porque têm os olhos cobertos com aquele antigo véu de Moisés. a vingança ou o interesse. é necessário que revele também os olhos: Revela oculos meos. Olhamos de mais alto. e que as cousas novas. para que pudesse conhecer as maravilhas dos seus mistérios: Revela oculos meos. e que trabalhamos menos porque achamos os impedimentos tirados. .tenebrosa aqfxa in nubibgs aeris Em havendo nuvem em meio. por novas. é escura: . foram tirando impedimentos à vista. por providência do Senhor dos tempos. e achamos os impedimentos tirados. tirem-se os estorvos e impedimentos à luz. como se pode entender a verdade da profecia. porque não há cousa mais clara. quando o primeiro intento e nega-la ou quando menos escurecê-la? As nuvens que Deus põe sobre a profecia. e se achará o que se busca. e logo verão os olhos o que há nela. porque olhamos de mais alto. digo que descobrimos hoje mais. Como se hão-de entender as revelações com os entendimentos e olhos vendados? Não basta só que Deus tenha revelado os futuros. porque vemos sobre os passados.. porque as quero remos ver por entre nuvens. De maneira que.. mas a casa não está varrida. et (. a esperança ou o temor. por muito clara que nela esteja. Tirem o véu de sobre os olhos. vemos de mais perto. auferetur velamen. velamen positum est super cor eortum. e que distinguimos melhor porque vemos mais perto. como lhes lançou em rosto o grande Paulo Judeu e semente de Abraão. e tais são as profecias. A candeia está acesa e muito clara. e com véu sobre os olhos! Peço e protesto a todos os que lerem esta História. ou que tirem primeiro-o véu de sobre os olhos. Capítulo XI) por Padre Antônio Vieira 61 Declara-se qual seja a novidade desta História. se os cega o amor ou ódio. por claras e claríssimas que sejam. dizemos que é clara como a água. Oh quantas profecias muito claras se não entendem.. com uma nuvem diante. nem se quer achar. mas nem se busca.. não desmerecem o crédito de sua verdade. porque estamos mais chegados aos futuros. e verão a luz das profecias: ainda que a profecia seja candeia acesa. Que profecias mais claras que as da vinda de Cristo ao Mundo? E muito mais claras ainda depois de manifestas e provadas com os mesmos efeitos. mas os véus que os homens lançam sobre os próprios olhos. ou que a não leiam.) everrit domum. como eles. mas varreu a casa:.. e tudo isto por beneficio do tempo. et considerabo mitrabilia de lege tua. Quando queremos encarecer uma cousa de muito clara. cum autem conversu fuerit ad Dominum. do tribo de Benjamim: Usque in hodiernum diem.

em quantos Evros e tribunais de Gentios e Judeus foi terminada pela glória deste título! Acusação foi de que a defendeu Tertuliano. elegante e engenhosamente Santo Agostinho. supérfluo trabalho é cansar-vos em querer fazer entender o que eles não podiam deixar de ter entendido. «Quanto ao que me dizeis—diz S. 0 reparo da novidade não é crime de que ela tema ser acusada. et hac lege post priores nullus loqui audebit. se por si mesma lhe for devida. Jerônimo: De vertendis autem in latinam linguam sanctis litteris laborare te nollem [ ] aut obscura sunt. S.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Quando no princípio deste livro prometemos cousas novas aos curiosos. Jerônimo a S. zelo e elegância. supérflua diligência é quererdes vós explicar o que os outros não podem deixar de ter entendido». Pensão é muito antiga das cousas boas e grandes serem acusadas de novas. aut manifesta. Si enim obscura sunt. quare tu post tantos ac tales scriptores et interpretes in explanatione Psalmorgm diversa senseris? Si enim obscurt sunt Psalmi. quod illi explanare non potuerunt? Si manifesta. Arnóbio. senão pela maior luz da Igreja. superfuum est te voluisse explanare quod i11is latere non potuit: «!Quanto à versão das Escrituras Sagradas na língua latina. não por Gentios ou hereges. ou o que era manifesto. ainda que a novidade da nossa História fora qual se supõe. quando o seja. A mesma Lei de Cristo chamada por sua novidade evangélica.] tuo tibi sermone respondeo: omnes veteres tractatores. nos Barónios. qui nos in Domino praecesserunt et qui Scripturas Sanctas interpretati sunt. Responda-me logo vossa 62 .. Boaventura. que nos precederam no Senhor. ao qual respondeu S.. que acusações não padeceu antigamente (e padece ainda hoje) dos hereges. superfluum est te voluisse disserere. Se escuras.si manifesta. Jerônimo na versão da Sagrada Bíblia. illos in eis falli potuisse non creditur. obra é — diz o santo— em que eu não quisera que vós empregásseis o vosso trabalho. A primeira instituição da vida monástica. te quoque in eis falli potuisse credendum est. e todos os outros padres que antes e depois destes escreveram contra Gentios. Santo Agostinho. nos Soares. ou interpretaram o que era escuro. como os outros escritores. Prudêncio. mas são estas armas já tão velhas e ferrugentas. senão ao mesmo S. porque ou elas são escuras ou manifestas. Bernardo Santo Tomás. e verdadeiramente com vitória. et quodcumque alius occupaverit. bem advertimos que metíamos as armas nas mãos aos críticos. e para isso usais daquele novo silogismo.. Agostinho — que eu me não devia cansar em interpretar as Escrituras depois dos antigos intérpretes delas. alius de eo scribendi non habebit licentiam. e pelo qual. nem só por quaisquer católicos. como por graça de Deus não tem. para que não falemos nos Waldenses. respondo com as mesmas vossas palavras: Todos os expositores dos Livros Sagrados..] respondeat mihi prudentia tua. si manifesti. Até aqui zelosa. pela novidade do hábito e modo de vida! Digam-no as apologias de S. Gregório. cousa alguma que encontre a Fé ou doutrina da Igreja. Lactancio. Jerônimo com igual engenho. Quero pôr aqui as palavras deste grande e santíssimo doutor. Se o que era escuro. e não é. Mas o maior exemplo de todos neste caso é o daquela divina obra de S. tão estranhada quando nova. Si obscura. e se manifestas. João Crisóstomo. nos Belarminos. nos Platins. te quoque in eis falli potuisse creditur. quod illis latere non potuit [. quomodo tu post eos ausus es disserere. que hoje adoptamos por canónica. que não há muito que temer seus golpes. sendo o estado mais santo da Igreja Católica. ponha em risco o crédito da sua verdade. S. aut manifesta. contanto que não tenha. como vos atreveis também a declarar o que eles não puderam? Se o que era manifesto. S. ac per hoc utroque modo superflua erit interpretatio tua. et novo utens syllogismo [. com razão se crê que também vos podeis enganar na sua interpretação. por estas palavras:: Porro quod dicis non debuisse me interpretari post veteres. escritas não a outrem.

Jerônimo a S. que não fosse nova em algum tempo? Diz Salomão que não há cousa nova debaixo do Sol. porque antepor o velho ao novo só pelos anos. e é de fé católica. por ser mais antigo. E verdadeiramente é assim: quantas cousas são hoje exemplos que começaram sem exemplo? Todas as opiniões ou verdades que se escreveram. 63 .Anexo:Imprimir/ História do Futuro prudência: com razão. que hoje . a que dá o crédito e autoridade aos escritores. que hoje se chama Vulgata. lhes granjeia a triste fortuna de serem mais venerados ou melhor conhecidos depois da morte. Dizeis que a religião cristã é nova. Uns o faziam por zelo. E notem os leitores que são estas palavras de uma das apologias que S. é antiqüíssima e mui venerada. Assim que os reparos da novidade são pensão (como dizia) das cousas boas e grandes. e se a vossa superstição é velha. e depois dela se escreveram infinitas outras mais novas. Mas destes mesmos exemplos se convence claramente quão frívolas são e pouco eficazes as acusações do que se estranha por novo. coeterarum Italiae gentium post latinos. todos por ignorância. logo nenhum outro terá licença para escrever sobre ele. que a queriam fazer não menos que herética. para que se veja quais são os juízos dos homens e quão impugnadas que costumam ser as obras de que Deus se quer servir. nova pro veteribus cudere. tempo houve em que também foi nova. que vivos. Jerônimo outro reparo mais que a glória de ser sua e nova. e não só entre os inimigos e impugnadores da verdade. foi o primeiro que lhes deu a autoridade. e se são claros e manifestos. argumentava Arnóbio contra os Gentios. senão a razão. e diz assim contra Rufino: Periculosum opus certe. muitos por malícia. Patres conscripti. e só porque põe os autores delas mais longe dos olhos da inveja. como se só os antigos fossem católicos e a verdade sem cãs não fosse verdade. e ainda os Salmos não estão bastantemente interpretados. Não é o tempo. Que cousa há hoje tão antiga. se os Salmos são escuros. As trevas foram mais antigas que o Sol e os animais que o homem. porque ainda não tem quatrocentos anos. supérflua é e não necessária a vossa interpretação E segundo esta lei. senão o como se escreveram. que não há cousa debaixo do Sol que não fosse nova. depois de tantos e tais intérpretes. tempo virá em que seja velha. mas sobre esta lhe argüía Rufino e outros homens doutos tais calúnias. quae nunc vetustissima creduntur. tiveram princípio. escolha parece mais de cela vinária. Acudia S. A mais nova entre todas as do Mundo foi o mesmo Mundo. inveterescet hoc quoque. por ser mais novo. também se deve entender que vós vos podeis enganar na sua inteligência. e tanto que um se adiantar à exposição de algum Livro Sagrado. e há menos de dois mil que os deuses que vós adoráveis ainda não tinham cento. Agostinho sobre a novidade da sua exposição dos Salmos. que do trono ou cadeira de Salomão. Com a mesma energia disse o imperador Cláudio ao senado: Omnia. vos atrevestes na exposição dos Salmos a sentir diversamente do que eles sentiam? Porque. outros por inveja. nem se deve perguntar o quando. Discretamente. Se a nossa religião é nova. a qual hoje é de fé. et obtrectarorum meorum latratibus patens. O Testamento Velho não é mais perfeito que o Novo. senão entre os maiores zeladores e defensores dela. nem o Novo perde a perfeição e excelência que tem sobre o Velho.» Isto dizia Santo Agostinho a S. A antigüidade das obras é um acidente extrínseco que nem tira nem acrescenta validade. ita ingenium quasi vinum probantes. e isto S. Jerônimo à queixa da sua nova versão. e aquele que as começou sem autor. ninguém poderá falar depois dos primeiros. latini post plebeios. Não tinha esta de S. et quod hodie exemplis tuemur inter exempla erit. nova fuere: plebei magistratus post patricios. Jerônimo sobre a novidade de sua versão. e ainda é mais universalmente certo. Jerônimo escreveu em defesa daquela nova versão da Sagrada Escritura. qui me asserunt in septuaginta interpretum sugillatione.

E Marco Túlio. Noe. Porque. saber. at contra scire. ouçam aos mesmos antigos. se o segundo. et inventum inventa non obstant. se ainda lhe restam por sua confissão novecentos e oitenta e quatro séculos (se tantos durar o Mundo) para dizer e inventar muito de novo sobre o mesmo Sêneca? Se depois do divino Platão (como pondera Túlio) não acovardaram os seus escritos a Aristóteles para que não escrevesse. grande injúria fazem à verdade e às ciências. e se lhes deve o primeiro louvor. post mille secula. E se isto é assim nas ciências humanas. sendo por comum aprovação do Mundo um dos maiores engenhos que produziu a Grécia e a mesma natureza. e só lhes damos licença para decorarem e repetirem o que disseram os passados? Se assim fora. E na epístola LXXIX:: Et qui praeesserant.. e se ele conheceu que os que nascessem de ali a mil séculos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro E verdadeiramente que. alumiados só pelo lume da razão. est et sua facere quemque. nem a admirável sabedoria e cópia do mesmo Aristóteles pôde apagar os fogosos espíritos de tantos filósofos que depois dele e sobre ele escreveram. pois nos bastava a memória. na epist.. aliud scire. nec ab exemplari pendere. Muito alcançaram os Antigos. Se o primeiro. debalde nos deu Deus o entendimento. saber só o que os Antigos souberam. Mathusalem. utrum ad consumptam materiam. é lembrar-se: Aliud est meminisse. e estes velhos eram aqueles varões veneráveis da primeira antigüidade — Seth. escreve ou ensina a Lucilo desta maneira: Multum adhuc restat operis. Séneca. ainda teriam muito que dizer na mesma filosofia moral em que ele tanto e tão sutilmente disse. et toties ad magistratum respicere. sed multum interest. se bem apontamos os fundamentos destes impugnadores d a novidade e as razões daquela dura lei com que forçosamente querem que sigamos em tudo os antigos e adoremos as suas pisadas. grande afronta aos homens e à nossa idade.] Multum egerunt. por boas contas. E se estes. não é. que vem a ser. dezesseis séculos antes deste nosso. que inventar. 64 . nec ulli nato. formando um perfeito orador no livro Orator: Nec vero Aristotelem in philosophia deterruit a scribendo amplitudo Platonis. em que era ainda maior a soberba e presunção que a ciência. Meminisse est rem commissam memoriae custodire. que descobrir e saber nelas. [. nec ipse Aristoteles admirabili quadam scientia et copia caeterorum studia restrinxit Até aqui estes dois gentios. David que veio ao mundo 3000 anos depois de sua criação. multumque restabit. an ad subactam accedas: crescit in dies. non praeripuisse mihi videntur quae dici poterant. Mas não me ouçam a mim. ou é porque têm para si que já se não podem dizer cousas novas. porque havemos de querer abreviar as mãos do Autor dela e cuidarmos que já não podem falar de novo os homens presentes. qui ante nos fuerunt. sed non peregerunt. sendo ambos eminentíssimos nas suas artes não duvidaram confessar que havia ainda muito mais que andar. dizia confiadamente. ou que não há capacidade nos modernos para as poderem descobrir e dizer. praecludetur occasio aliqua adhuc adjiciendi. LXIV. que muito é que se atreva a dizer alguma cousa nova a nossa idade. que todos se ocupam na erudição do passado. como dizem os Italianos dos Alemães. sed aperuisse. Enoch. Estes tais haviam de ter a testa virada para as costas. mas ainda nos deixam seus grandes talentos em que exercitar os nossos. porque havemos nós de esperar e afrontar tanto a nossa idade e os homens dela. que cuidemos que já não podem adiantar as ciências nem dizer e acrescentar sobre elas cousa de novo? Sêneca floresceu nos tempos de Nero. como bem disse o mesmo Sêneca. sem descobrir nem inventar cousa nova. que soubera e entendera mais que todos os velhos: Super senes intelexi. E começando pelos Gentios. que será naquele pego imenso e profundíssimo das divinas) Mas ouçamos também aos antigos delas.

passados os tempos de Cristo e de sua vida. novos raios de novas luzes os três ilustríssimos 65 . contra Rufino. plus A postoli. estranha muito que. aumentou e adiantou tanto o estudo das divinas letras. que são o sabor dos entendimentos se contentam os homens com a vulgaridade ou velhice dos manjares usados: Nam cum nova semper expectant voluntates. depois dos outros dois Gregórios. diz assim: Nec qui nos illis temporibus antecessunt. Nazianzeno e Niceno. os Apóstolos mais que os profetas». sempre os homens se foram excedendo na sabedoria divina. o renome de doutor Máximo. Jerônimo. occupari ab antecedentibus non potest. quam Prophetae in Omnipotentis Dei scientia eruditi sunt: «Ao passo que iam procedendo os tempos —diz S. os Inácios. os Cirilos. que veio ao Mundo para lhe dar melhor cabeça do que seu juízo e errados juízos merecem. os Hieroteus. os Basílios. em que a sabedoria eterna viveu humanada no Mundo entre os homens (que foi um parêntesis excessivo e infinito de luz. e do mesmo Jerônimo. o que é mais que tudo. Mas nem por isso depois de tantos e tão esclarecidos lumes da Igreja deixaram de espalhar nela. por consenso e pregão universal da igreja. dos Cassiodoros. ilustrando e escrevendo muitas cousas de novo os que vinham depois. depois de um Crisóstomo. dos Pascásios. de que ela tinha sido figura. os Ireneus. com novos e maiores resplendores. estas palavras: Quid igitur? Damnamus veteres? Minime. no Liv. dos Padres e Doutores sagrados. dos Crisólogos. os Epifânios. os Arnóbios. plus namque Moyses quam Abraham. plus Prophetae. os Policarpos. que floresceu muito depois do mesmo Lactancio e a quem prece deram os Hipólitos. dos Paulinos. Isaac Jacob. conhecendo sempre mais de Deus os segundos que os primeiros. dos Procópios. os Clementes Alexandrinos. depois dos Euquérios. os Justinos.depois dos Clímacos. sendo o apetite ou gula humana tão ambiciosa de novos e esquisitos sabores. sempre foram também crescendo. E o mesmo que tinha sucedido naquela primeira e antiga igreja. et gulae earum vicina maria non sufficiant.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Abraão. dos Teodoretos. dos Atanásios. Gregório. laboramus. acrescentando. Desde a criação do Mundo até a reparação dele. de um Ambrósio e de um Agostinho. os Orígenes. Moisés Josué. cur in solo studio scripturarum veteri sapore contentis sunt ? São Gregório Magno. senão doutrina de S. dos Cassianos. dos Fulgêncios. nova e mais perfeita em que hoje estamos. dos Máximos. Padre dos primeiros séculos da Igreja. S. dos Leões. sed post priorum studia in domo Domini. os Tertulianos. sobre o que tinham sabido e ensinado os mais antigos.quae si hominibus aequaliter datur. os Teófilos. em que se contaram quatro mil anos. José. os Profetas mais que Moysés. depois dos Hesíquios. quam Moyses. em todos os séculos seguintes. nos séculos que depois foram sucedendo. II: Divinarum Institutionum. escreve o santo Doutor com a modéstia com que costumam falar os homens maiores. E convertendo-se no fim contra os vituperadores dos inventos novos. penetrou tão alta mente o espírito interior da Teologia Mística e Ascética. ainda que fossem diminuindo na idade. na Apologia acima citada . os Taumaturgos. os Atanásios. Melquisedech. Lactancio Firmiano. quod possumus. Samuel e tantos outros de igual sabedoria e nome. as ciências divinas. os Ciprianos. porque. dos Boécios. só nas ciências. com aquele famoso elogio: In ethicis assertionibus praecunctis merito praeferendus. com o qual nenhum outro estado da Igreja se pode comparar). e. Papa: Per incrementa temporum crevit scientia spiritualium Patrum. a quem tinham precedido os Dionisios Areopagitas. Gregório— ia juntamente crescendo a sabedoria dos antigos Padres. Não é consideração minha. que por aplauso comum do Concílio oitavo toletano foi preferido a todos os Doutores na doutrina ética e moral. se experimenta depois na segunda. Moyses soube mais das cousas divinas que Abraão. que mereceu na eminência delas.

porque não quererão os adoradores ou aduladores da Antigüidade que. os Elísios. aliquid addere possumus [. mais que escrever. e depois de tanto escrito. porque não só alumiou a Divina Providência pouco depois o Mundo todo com aquelas duas tochas claríssimas e santíssimas de teologia — Santo Tomás e São Boaventura — mas antes e depois deles. ainda depois de tanto dito. senão fonte de luzes. os Caetanos. os Canísios. os Anselmos. sed sicut Deus produxit novos fructus ad recreationem hominis exterioris. com mais repetidos exemplos que nos passados. os Lugos. a tirasse a todos os outros de novos descobrimentos? E se depois deste famoso círculo do Universo. os Eutímios. os Vitórias. nisi quod ab antiquissimis patribus acceperunt. para aumento ou competência de suas mesmas luzes.Anexo:Imprimir/ História do Futuro espanhóis — Isidoro. que será na esfera da sabedoria e da verdade. e digo isto por aqueles que nada admitem nem lhes é aceito. como foram um Alberto Magno.. que mais parecem novas que renovadas. cuja imensa e infinita circunferência só a pode abraçar 0 que é imenso e compreender O que é infinito? Se depois dos antiquíssimos tiveram que descobrir os menos antigos. si potes. as cercou de tão luminosas e resplandecentes estrelas. ainda ficaram mares e terras incógnitas que prometem novas empresas e novos argonautas. que em alguma matéria das que escrevemos. e depois dos que já não eram os primeiros. não fica outra para Esau? São os antigos como os cântaros da Sareftana (comparação de que usa Ruperto) que. É porventura o saber e dizer patrimônio só da Antigüidade e morgado como o de Isaac que. não só luz.] haec propter illos dicta sunt. defendendo modestamente alguma novidade que se acharia em seus livros. os Damascenos. que se pode com razão dizer do Mundo o que Deus disse a Abraão do firmamento: Numera stellas. entre os quais Ricardo Vitorino. possamos acrescentar alguma cousa de novo. os Valenças. os Belarminos. se tem confirmado pela grandeza e liberalidade de Deus em todos os séculos. que foi pelos anos de mil e trezentos a esta parte. que em outra idade podiam ter nome de primeiros planetas. tiveram que inventar mais que os segundos. porque não cuidarão que também as ciências podem produzir cousas novas para alimento e recreação das almas?» Não se podia explicar com mais clara comparação nem provar-se com mais eficaz argumento. passado o cabo de Boa Esperança.. os Bedas. se se pode ainda sobre os Antigos dizer alguma cousa de novo. E porque é matéria impossível e número sem conto. os Toledos. um Alexandre de Ales e o famosíssimo e subtilíssimo Scoto. em cujos felicíssimos e imensos escritos se vêem tão adiantadas as letras divinas. qui nihil acceptant. os Medinas. os Sofrónios. mais que estudar e saber? 66 . si in uno aliquo. diz assim no prólogo de um deles: Non est magnum. dada a bênção a Jacob. parou a fonte milagrosa. senão o que primeiro foi recebido pelos antiquíssimos Padres. haja mais que dizer. e desde aquele tempo. um Bernardo. e não correu mais o óleo? Houve neste grande oceano de ciências alguma nau Vitória que desse volta a todo o mar? ou algum Gama que. os Teofilatos. fiquem em silêncio (por mais que tão grande brado deram nas escolas) os Vasques. Mas se Deus para sustento e gosto dos corpos. os Soares. os Rupertos. e muitos outros. os Molinas. produz inacessivelmente todos os anos tantos frutos novos. as quais depois deste doutíssimo século se multiplicaram em tanto número. depois de cheios eles. nome singular. e depois de tanto estudado e sabido. vel mirum. Digam agora os reprovadores das que eles chamam novidades. Eugenio e Ildefonso. non credunt scientias impertiri ad innovandos sensus hominis interioris: «Não se tenha por cousa grande — diz Ricardo — nem merecedora de admiração. os Soutos.

como também predisse outro profeta: . Os que mais queriam louvar a Cristo. se lhe dessem o que ignorava. quando disse: Ecce nova facio omnia. que também lhe tinha escrito lastimado da mesma chaga. e cada um condena o que não tem. que prometeu saberiam mais os futuros: David quoque super doctores suos et seniores donum sibi intelligentiae audacter praesumit. o qual. Roma. sendo aquele a quem o Baptista não era digno de desatar a correia do sapato. porque todos disseram cousas novas.signum cui contradicetur. o que ficou aos vindouros para poderem saber e dizer de novo.. Sed et propheta Daniel: pertransibunt. A cousa mais nova que Deus fez no Mundo. são aquelas que Deus tem prometido que há-de fazer. O distraído hipócrita ao modesto. Regule. que tanto tinha em si do que os Antigos souberam. sem contradição dos mesmos para quem as faz.e Soares. sendo ele a luz de todos os Profetas. e pode ser que muito remendadas! O avarento chama pródigo ao liberal. e o prova e refere em dois textos ou dois exemplos: um de David. que afirmou que soubera mais que os passados. e todos se armaram destas apologias. outro de Daniel. Se acaso houver quem as impugne e contradiga. e col sapere insieme Ne' cuori enflati i suoi veneni sparti. Marone Et sua riserunt saecula Maeonidem. E esta novidade foi o alvo das maiores contradições. Até aqui São Bernardo. do que tiveram e alcançaram os Antigos. Mas antes de Petrarca o tinha dito em Roma o nosso discreto espanhol: Esse quid hoc dicam. porque nem Deus pode fazer cousa de novo. isto é. Crebbe l'invidia. foi aquela de que disse o Profeta: Creavit Dominus novum super terram: faemina circumdabit virum.. Fechemos este discurso. mores. nem grande sem inveja: . ait plurimi et multiplex erit scientia. e nenhum careceu de quem lhas impugnasse. dizia que daria de alvíssaras o que sabia. Todas as cousas novas que se disserem nesta História. vivis quod fama negatur. é querer atar os vivos aos mortos. Todos os grandes engenhos tiveram sempre esta queixa. Si veterem ingrati Pompeii quaerimus umbram Et laudant Catulli vilia templa senes Ennius et lectus salvo tibi. Praeferat antiquos semper ut illa novis. ou adocemos a dureza deste rigor com o melífluo Bernardo. Et sua quod rarus tempora lector amat? Hi sunt invidiae nimirum. Não ha cousa boa sem contradição. como sempre falou pela boca da Escritura.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Como temo que os que condenam as cousas novas. escrevendo a Hugo de São Vítor. assegura firmemente aos vindouros que poderão ter maiores notícias das cousas. mas querer precisamente que nos atemos em tudo aos passados. ampliorem scilicet rerum notitiam promittens et ipse posteris. O grande P. O covarde temerário ao valente. e Herodes se persuadia que não podia ser senão o Baptista ressuscitado.Che come crebber l'arti. são aqueles que não podem dizer senão as muito velhas. 67 . diziam que era um dos Profetas antigos.. dicens: Super omnes docentes me intellexi.. crueldade que só se lê de Mezêncio. por não confessar o que lhe falta.

mas como havia muitos anos que gozavam da altíssima paz. ele era o novo. primeiro foi que a antiga de Aristóteles. digo que em toda essa novidade. a tinha por novidade. como se vêem cada dia tantas novidades no Mundo? São novidades de cousas não novas. porque a América esteve tanto tempo oculta.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Mas para que não pareça que defendo as cousas novas. :Ê uma História nova sem nenhuma novidade. é chamada Mundo Novo. senão por muito antigo. também recebida em nossos dias. porque se não lembram. por isso os últimos e mais distantes se chamam novíssimos. mas estas tiveram este nome. Todos os frutos nasceram igualmente naquele dia. Quando os Romanos a primeira vez bateram os muros de Cartago com o aríete ou carneiro militar. outras a escuridade. recolhendo todos estes exemplos. A novidade da nossa História há-de ser mais dos leitores que dela.] nemini umquam adhuc libratum. a quem Cristo abriu os olhos. Para aquele cego de seu nascimento. Assim que. mas não havia olhos. não por novo. porque as não via. senão por esquecido. nem por isso ela será nova. as mais delas ressuscitam. Ao terceiro dia da criação produziu a terra todas as árvores carregadas dos seus frutos. e todas eram mais antigas que ele. porque chegaram mais tarde à nossa terra. de que Cartago tinha sido a primeira inventora. outras a distancia. Se no Mundo. ainda que não eram novas as quantidades. como pouco há dizia Salomão. porque se não vêem. e uma perpétua novidade sem nenhuma cousa de novo. não por novo. Porventura aquela metade do Mundo a que chamavam quarta parte. e viu tanta cousa nova. explicarei por alguns exemplos. parecia instrumento novo aos mesmos Cartagineses. Quando Adão saiu flamante das mãos de Deus. porque os primeiros inventores daquele bravo instrumento tinham sido os mesmos Cartagineses. ficaram os Cartagineses assombrados com a novidade daquela máquina. Se não fora assim. outras a ignorância. illa dicitur Carthago studiis asperrima belli. as uvas e também as frotas novas.] cum autem ultimarent tempora patriae. as pêras. porque as apalpava. foram novas as cores. novo para nós. nem tentação o pecado. abriu os olhos.. não foi criada juntamente com Ásia. Tantum aevi longinqua valet mutare vetustas. velho e muito antigo. e tais serão as desta História. De maneira que o aríete. Quero dizê-lo com palavras do grande Tertuliano. Serão novas neste nosso livro cousas que foram primeiro que as que hoje se têm por antigas... esquecia-se Cartago do que inventara Cartago. porque se não 68 . Nem eram elas as novas.arietem [. Nas ciências nascem poucas verdades. com ser tão grande.. depois de serem velhice no Egito. não há cousa nova. não tivera ocasião o preceito. e sendo cousa antiga e sua. os figos. senão esquecimento. e não era novidade. porque se não sabem. já havia cores e luz. que com tão continuado aplauso do Mundo os fez sólidos e incorruptíveis. senão novas por antiquíssimas. com África e com Europa? E contudo. nenhuma cousa direi de novo. cuja foi esta advertência: . mas ainda que esta História seja toda de cousas tão novas. Muitas novidades se verão nesta nossa História não novas por novas. mas para aqueles bárbaros. A nova opinião dos céus fluidos. et aries jam romanus in muros quondam suos auderet stupuere illico Carthaginienses. As pirâmides e obeliscos que assombraram com tão nova e desusada grandeza o foro romano (com boa vénia dos Padres Conscritos). prima omnium armasse in oscillum penduli impetus [. ut novam extraneum ingenium. como isto possa ser. por não ser necessário este escudo à minha História respondendo à objeção da novidade dela.. umas cousas faz novas o esquecimento. que somos os sábios.. Propriedade é dos futuros serem sempre novos todos. foram novidade em Roma.

O tempo umas cousas melhora e outras corrompe: ouro velho. como Padres e lumes da Igreja. porque sempre são. A verdade e as ciências. pois o mereceram. A velhice no ouro é preço. De Deus. porque as velhas são alheias. se bem se considera.Anexo:Imprimir/ História do Futuro alcançam. mas só se considere se é ou pode ser verdade: Nec de novitate nec de vetustate. mas este louvor. vinho velho. outras a negligência. nem se atenda se é velho. nem se repare se é novo. no navio e na casa perigo. navio novo.. e de todas estas novidades sem novidade. quando as descobriram de novo. no vinho madureza. amigo velho. quam temporum. e posto que o nosso desejo fora levar sempre diante dos olhos esta segunda tocha. disse Tertuliano judiciosamente que nem é velho nem novo. quod utique dixisset. sempre foram e sempre hão-de ser as mesmas. vestido novo. em outros se logra a fortaleza. impropriamente se chamam novas ou velhas. porque se não buscam.. casa nova.. Merecem maior louvor os Antigos. posto que nem sempre se conhecem igualmente. em que não tem jurisdição o tempo. que com os de Beluário. senão obrigação e respeito). o escuro das profecias. melhores são as novas. tiram do seu tesouro as cousas novas e mais as velhas. e segui-los como havemos de seguir em tudo. sed de sua veritate censetur.scriba doctus [. assim no certo como no provável. sed de sua veritate censeatur. E como a verdade da nossa História toda (como vimos) tenha o seu princípio em Deus. como dizíamos. porque as avaliou a suma justiça pelo merecimento e não pelo tempo: Non dixit vetera et nova. haverá muito nesta nossa História. História do Futuro (Volume I. poremos à vista muitas distantes e procuraremos saber muitas ignoradas. folgara eu que se pudera dizer dele com Vincêncio Lirinense: Per te posteritas gratulatur intellectum. pedimos aos que a lerem que. Todos dizem que os Antigos merecem maior louvor. contudo. digo com indiferença o que ensinou Cristo: .. As cousas velhas são do tempo. no amigo constância.] profert de thesauro suo nova et vetera: «Os doutos quando escrevem. as novas do merecimento.. e é assim. para alumiar e penetrar com sua luz. Lembraremos nela muitas cousas esquecidas. isto parece que é ser douto. outros pelo que são. depois dos Apóstolos (os quais não entram nesta controvérsia. alumiaremos muitas escuras. E por não deixarmos sem juízo a controvérsia disputada entre as cousas novas e as velhas. não é elogio da antigüidade. E quanto ao louvor que renunciamos facilmente. mas verdadeiro: . descobriremos muitas ocultas. que por essência é sabedoria e verdade. porque foram os primeiros inventores das cousas. em uns se admira a antigüidade. Capítulo XII: Dá-se a razão por que em algumas partes desta História se não alegaram padres e seguiram exposições dos escritores modernos) por Padre Antônio Vieira 69 Ainda que o nosso intento é seguir em quanto nos for possível as pisadas dos antigos Padres. Saber as velhas e inventar as novas. não é só obséquio e piedade. no vestido pobreza. quad ante vetustas non intellectum venerabutur. Mas notou Santo Agostinho que não disse Cristo as velhas e as novas. senão as novas e as velhas. Mais defendida está Roma com os muros de Urbano. as novas nossas. uns se conservam pelo que foram. porque em tudo o que escreveram foram alumiados pelo Espírito Santo. absolutamente nas cousas que se consomem com o tempo. ainda que o merecêramos. dando o primeiro lugar às novas.germana divinitas nec de novitate nec de vetustate. nisi maluisset meritorum ordinem servare. Se fora outro o autor desta História. senão da novidade. porque não é nem será possível seguir em algumas cousas das que dizemos ou .. certamente entre umas e outras não se pode dar regra certa. logo da novidade é o louvor.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro dissemos este nosso intento e desejo, pede a razão e ordem da mesma Escritura que, antes de passar mais adiante, desfaçamos este reparo, para o que os menos doutos ou mais escrupulosos não topem nele e levem desde logo entendidas as causas do que fizermos e os fundamentos, licença ou autoridade com que o fazemos. Ver-se-á em algumas partes desta História, que ou não alegamos Padres antigos, ou nos desviamos da explicação que deram a alguns lugares da Escritura, o que não fazemos senão com grandes razões, sem ofensa da reverência que lhes devemos nem da verdade que seguimos, antes para maior segurança e fundamento dela, a qual é o nosso intento e obrigação buscar e descobrir adonde quer que se ache, antepondo este respeito a qualquer outro, pois à verdade se deve o maior de todos. As razões que nos movem e obrigam são três: a primeira, porque os Doutores antigos não disseram tudo; segunda, porque não acertaram em tudo; terceira, porque não concordam em tudo. E com qualquer destes casos nos pode ser. não só lícito e conveniente, senão ainda necessário seguir o que se julgar por mais verdadeiro; porque nas cousas que não disseram, é forçoso falar sem eles; nas cousas em que não acertaram, é obrigação apartar deles; e nas cousas em que não concordaram, é livre seguir a qualquer deles; e também será livre e lícito deixar a todos, se assim parecer, como logo explicaremos.

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Prova-se a primeira razão
Primeiramente é certo que os Padres antigos não disseram tudo, e se prova claramente com a experiência e lição de seus próprios livros, nos quais se não acha memória de muitas cousas grandes e doutas, achadas e acrescentadas depois, não só nas outras ciências divinas, mas na inteligência das mesmas Escrituras Sagradas, e particularmente nas dos profetas, que nos tempos mais chegados a nós se descobriram, disputaram e entenderam como se lêem nos escritores modernos; e posto que para os 5 versados na lição de uns e outros bastava esta suposição somente apontada, porei aqui para os demais as palavras de dois grandes doutores, Castro e Canísio, ambos do século antecedente a este nosso, e ambos diligentíssimos investigadores da antigüidade e doutíssimos na erudição da Escritura, Concílios e Padres, os quais expressamente afirmam que muitas cousas se sabem e entendem hoje que foram ignoradas dos Padres antigos, como fala Castro ou incógnitas a eles, como mais certamente diz Canisio. As palavras deste segundo, no livro primeiro De Beata Virgine, cap. VII, são as seguintes: Demum habuerint Patres suorum temporum rationem quibus multa vel prorsus incognita erant, vel obscura neque satis evoluta, quae posteris diligentius excutienda, et clarius illustranda, explicandaque non sine certo Dei consilio reliquebantur... E Castro, no Liv. I Adversus haereses, cap. II, depois de provar o mesmo com o lugar do cap. VI dos Cantares, que abaixo citaremos, conclui assim: Quo sit, ut multa nunc sciamus, qae, a primis Patribus aut dubitata, aut prorsus ignorata fsuerunt. A qual diferença se não conheceu só com a comprida experiência dos nossos tempos, senão já nos mesmos Padres se conhecia, como muitos deles escreveram, e particularmente entre os da primeira idade, Tertuliano, e entre os da última Ricardo Vitorino, cujas palavras de ambos referiremos neste mesmo capítulo. A razão de muitas cousas que hoje se sabem serem incógnitas aos Padres antigos, se pode considerar, ou da parte de Deus, ou da parte das mesmas cousas. Da parte das mesmas cousas, nos não devemos admirar que lhes fossem incógnitas, por serem muitas delas dificultosas, escuras e mui recônditas nas Escrituras Sagradas e enigmas dos profetas, as quais se não podiam entender e penetrar só com a agudeza dos entendimentos, por sublimes e sublimíssimos que fossem, em quanto não estavam assistidos de outras notícias

Anexo:Imprimir/ História do Futuro e circunstancias, que só se descobrem com o tempo e adquirem com larga experiência. Excelente exemplo é nesta matéria o das ciências é artes, ainda naturais, as quais em seus princípios e rudimentos foram imperfeitas, e com os anos, experiência e exercício se vêem hoje sublimadas a tão eminente perfeição, como a náutica, a bélica, a música a arquitetura, a geografia, a hidrografia e todas ás outras matemáticas, e muito em particular a cronologia, de que neste mesmo capítulo falaremos. E assim como estas mesmas ciências e artes cresceram e se apuraram muito com o socorro e aparelho de esquisitos instrumentos, que nelas se inventaram, como foi na náutica o astrolábio, a agulha e o admirável segredo da pedra de cevar. e na bélica o terribilíssimo e subtilíssimo invento da pólvora, que deu alma e ser a tantos e tão notáveis instrumentos de guerra, assim também puderam crescer e aumentar-se muito as ciências divinas e chegar à perfeição e eminência em que hoje se vêem com os instrumentos próprios delas, que é a multidão de livros espalhados e facilitados por todo o Mundo pelo beneficio da impressão, com que a doutrina e ciência particular dos homens insignes se faz comum a todos em tão distantes lugares, não sendo menor a comodidade dos mestres, que são instrumentos vivos das ciências, no concurso de tantas e tão diversas universidades, teatros e oficinas públicas de toda a sabedoria; comodidade de que no tempo dos Padres se carecia, sendo necessário ao Doutor Máximo, São Jerônimo, como ele mesmo escreve, copiar com imenso trabalho os livros por sua própria mão e peregrinar à Grécia à Palestina, ao Egipto e às Gálias para recolher os escritos de S. Hilário, ouvir a S. Gregório Nazianzeno, a Dídimo e aos mestres mais peritos na língua hebraica; inconvenientes que só podia vencer e contrastar um tão alentado espírito e zelo de servir à Igreja, como do grande Jerônimo, digno tanto de imortal louvor pela eminência de sua sabedoria, como pelos gloriosos trabalhos e suores com que a adquiriu e conquistou. Da parte dos mesmos Padres se deve igualmente considerar, que deixaram de especular e dizer muitas cousas de grande importância que depois se souberam e escreveram, porque se acomodaram à necessidade dos tempos em que viviam. Todo o intento dos Padres antigos era provar a verdade da encarnação do Filho de Deus e o mistério de sua cruz, a qual na cegueira dos Judeus (como diz S. Paulo) se reputava por escândalo e na ignorância dos Gentios por estultícia. E como esta era a guerra e a conquista daqueles tempos, todas armas da Sagrada Escritura se forjavam e acostavam contra esta resistência, e por isso os primeiros Padres e seus sucessores nenhuma cousa buscavam nos Livros Sagrados, não só proféticos, senão ainda nos históricos, mais que os mistérios de Cristo. É bom testemunho desta verdade o que diz Ruperto a Tristérico, arcebispo coloniense, do prólogo dos seus Comentários sobre os Profetas menores: Scito me Pater mi sicut in caeteris Scripturis, ita et in volumine duodecim Prophetarum operam dedisse, ad quaerendum Christum. E como isto é o que só buscavam para escrever, isto é o que só achavam ou o que só escreviam, seguindo os sentidos alegóricos e místicos e deixando ou insistindo menos nos literais, como se vê ordinariamente em todas as exposições dos Padres, que todas se empregam na alegoria, tocando muitas vezes só leve e superficialmente a letra, e talvez não sem alguma impropriedade e violência. Assim o notaram entre os mesmos Padres alguns mais modernos que antigos e outros menos antigos que antiqüíssimos: dos primeiros, é Ricardo de São Vitor, contemporâneo de S. Bernardo, no Prólogo sobre o Profeta Ezequiel, onde confessa que se aparta de São Gregório, por se não chegar ao sentido literal do texto; dos segundos, é o mesmo São Gregório, Padre do sexto século depois de Cristo, no Proémio sobre o Livro dos Reis, onde diz que lhe foi necessário em algumas partes não seguir os Padres mais antigos, por não

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro faltar ao fio conseqüência e verdadeira interpretação da história. As palavras de São Gregório não refiro aqui, porque terão seu lugar mais abaixo; as de Ricardo depois de referir com os antigos Padres ocupavam seu estudo principal na alegoria, são estas: Hinc contigisse arbitror, ut litterae expositionem is obscuriobus quibusdam locis antiqui Patres tacile praeterirent, vel paulo negligentius tracterent, qui si plenius insistirent, multo perfectius procul dubio quam aliqui ex modernis, id potuissent. Quer dizer que os Padres antigos, por aplicarem toda a sua industria e engenho no sentido alegórico das Escrituras, ou passaram totalmente em silêncio, ou trataram menos diligentemente alguns lugares mais escuros delas, sendo certo, segundo eram dotados de altíssimos engenhos e enriquecidos de muita ciência e erudição, que, se insistissem no sentido genuíno e literal do texto, o poderiam conseguir mais perfeitamente que qualquer dos modernos. De maneira que, segundo a verdade desta advertência, vem a ser a diferença entre os Padres antigos e os comentadores modernos das Escrituras, a mesma que houve naqueles dois homens do Evangelho, ambos ricos e venturosos: um que achou o tesouro e deu quanto tinha por comprar o campo em que ele estava; outro que, buscando so margaritas e achando uma preciosíssima, empregou também nela quanto tinha. Os Padres antigos, que buscavam só nas Escrituras a Cristo e nesta preciosíssima margarita empregavam todo o cabedal do seu estudo, os modernos, que se não determinam no tesouro das Escrituras a um só gênero de riquezas, acham, além da mesma margarita, muitas outras pedras também preciosas, e tiram daquele tesouro (como dizia Cristo) nova et vetera, riquezas novas e velhas: as velhas, que são as notícias das verdades já passadas; as novas, que são o conhecimento das outras futuras. Finalmente se deve considerar este silêncio das cousas que não disseram os Padres, da parte de Deus, o qual com particular providência não quis que eles por então as soubessem e escrevessem, para que a Igreja, nossa mãe, se parecesse com seu Esposo, e, conforme os anos e idade, fosse também crescendo em luz e sabedoria. Assim o notou, além de muitos outros teólogos, o mesmo Canísio, continuando o lugar acima citado: Quae posteris diligentius excutienda et clarius illustranda explicandaque, non sine certo Dei consilio relinquebantur non vero homini tantum, sed etiam Ecclesiae Christi tempus auget sapientiam, et Spiritus Sanctus aliam atque aliam doctrinae lucem patefacit No cap. VI dos Cantares, onde o Esposo é Cristo e a esposa a Igreja estão profetizados os progressos que ala havia de ter, e se comparam com extremada propriedade à luz da aurora: Quae est ista , quae progreditur, quasi aurora consurgens? Porque assim como a aurora nasce das trevas da noite e começa na primeira luz, e nela vai sempre crescendo de menor para maior claridade assim a Igreja, nascida nas trevas da ignorância e infidelidade começou em menos luz de sabedoria e vai sempre crescendo e aumentando-se mais e mais de resplendor, de claridade, que são os termos que usa S. Paulo na Segunda epístola aos Coríntios:Nos vero omnes, revelata facie, gloriam Domini speculantes, in eamdem imaginem transformamur a claritate in claritatem. Fala o Apóstolo do véu da infidelidade com que os Judeus têm cobertos os olhos para não ver a Cristo, e diz que se compõe a Igreja, tirado pela Fé aquele véu, com os olhos abertos e desempedidos por meio da própria especulação e estudo, imos crescendo de claridade em claridade, não já passando das trevas à luz, senão de uma luz para outra, sempre maior e mais clara, transformando-se por este modo a Igreja na imagem do seu mesmo Esposo, Cristo. Porque, assim como Cristo, posto que sua sabedoria foi sempre igual e a mesma (em quanto Deus infinita e em quanto

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e os Doutores da idade maior e mais provecta da Igreja são os mais velhos e mais antigos. assim nos anos e duração da Igreja há a mesma distinção e sucessão de idades. De sorte que vai crescendo a inteligência. senão os presentes. Donde segue que os Doutores da infância. e que.. senão nos homens e doutores particulares. aetatum ac saecolorum gradibus intelligentia. argumento desta sua cegueira. et multum vehementerque proficiat. assim a Igreja. espiritualmente e por particular e invisível assistência sempre ficou com eles e os assistirá (dentro porém da sua Igreja) ate o fim do Mundo. senão contra a decência da mesma idade. senão dos membros vivos. os séculos e a idade. scientia. Dizem que Cristo é o sol da Igreja e aquela primeira verdadeira luz: quae illuminat omnem hominem venientem in hunc mundum. nos atos exteriores e manifestação dela ao Mundo. com que o corpo místico dela vai crescendo e aumentando-se sempre mais. e depois idade perfeita. igualmente Deus como ele. a ciência e a sabedoria pelos mesmos graus do tempo com que vão passando os anos. tanto os raios da sua luz são mais tênues. senão cada vez menos. do que tinha sido nos menores. Dizem contra isto os hereges (como notou Banhes) que a Igreja não está hoje mais alumiada. Mas a aparência desta razão é tão falsa como todas as de seus autores. que é o corpo místico do mesmo Cristo. Também deixou em seu lugar. quanto mais se vão apartando os nossos tempos do tempo em que Cristo viveu entre os homens. contudo. bem assim como a luz do Sol material. mais escassos e menos intensos. o qual. tam unius hominis quam totius Ecclessiae. E seria não só contra a ordem da natureza. sapientia — disse doutamente Vincencio Lirinense. própria e rigorosamente falando. porque a Igreja não se compõe das paredes mortas. e qualquer outra. falando dos mesmos Doutores:. por segundo mestre de sua escola. nem aqueles que vulgarmente são chamados os antigos. Donde se deve reparar e advertir (cousa que devera já estar mui notada e advertida) que os Doutores antigos e mais velhos. senão que a foi dispensando por partes. alumia e quenta mais aos que lhe ficam mais vizinhos e menos aos que estão mais remotos e mais distantes. como expressamente disse São Paulo. ad consummationem sanctorum in opus ministerii.alios autem pastores et doctores. que são os membros de que o seu corpo e os raios de que a sua luz se compõe. senão dos primeiros para os nossos. e isto não só na Igreja universal e em comum.Anexo:Imprimir/ História do Futuro homem consumadíssima). porque ainda Cristo corporalmente se apartou dos homens. e do mesmo Sol tiram o argumento desta cegueira. como prometeu a todos os verdadeiros discipulos de sua doutrina quando lhes disse: Ecce ego vobiscum sum usque ad consummationem saeculi. in aedificationem corporis Christi donec occurramus omnes in unitatem fidei et agnitionis Filii Dei. não só alumia a Igreja 73 . com a mesma e não diferente luz. tam singulorum quam omium. a não mostrou toda junta. à medida que cresce nos anos e na idade: Crescat igitur oportet. não são os passados. senão os que hoje e nos tempos mais chegados a nós se chamam modernos Porque assim como nos anos de Cristo houve infância. vai sempre crescendo mais e mais na luz e na sabedoria. até chegar a encher a perfeição ou medida da mesma idade de Cristo. in virum perfectum in mensuram aetatis plenitudinis Christi. puerícia e adolescência. transformando-se na sua imagem e retratando-se nele e por ele. da puerícia e da adolescência da Igreja foram os modernos e da ciência moderna. crescendo sempre nela ao passo que ia crescendo nos anos. e da ciência mais antiga. que não fosse mais sábia a Igreja nos maiores anos. como diz o evangelista São Lucas: Proficiebat sapientia et aetate. nem foi crescendo dos nossos anos para os primeiros. ao Espírito Santo.

mais se vai enfraquecendo e diminuindo. ensinando e declarando aquelas ocultas e altíssimas verdades. tanto mais se engrossa. quanto mais distante. et ordinaretur.Anexo:Imprimir/ História do Futuro com os mesmos resplendores da verdade. ouçam ao antiquíssimo Tertuliano: Regula quidem fidei una omnino est. operante scilicet et proficiente usque in finem gratia Dei... de que o nosso século tem sido mais fecundo e abundante que todos até hoje. etc Se o Demônio sempre obra e não desiste de acrescentar cada dia novos erros e novos enganos com que impugnar. porque isso em suma tudo o que até agora temos dito. Qui credit in me sicut dicit Scriptura. A luz que sai do Sol. Tal é a sabedoria da Igreja.quod ad meliora proficitur. que cada dia a aumentam com novos e tão excelentes escritos em uma e outra teologia. como doutamente disse Santo Agostinho. verdade e resplendor da Igreja. entrando sempre nela as puríssimas correntes da doutrina de tantos Doutores católicos e sapientíssimos. quem accepturi erant credentes in eum. em que sempre mais vai crescendo a Igreja com os anos. dizendo-lhes porém. vivae. 74 . (para: que o Judeu não duvide da assistência do Espírito Santo à Igreja e cabeça dela). senão a da fonte e do no. e novas: trevas com que diminuir e escurecer a luz da.. quod intellectus reformatur. os vai descobrindo maiores a seu tempo. por isso disse São Paulo: Oportet haereses esse. sola immobilis et irreformabilis [. e esse .. quanto mais caminha e mais se aparta de seu princípio. caetera iam disciplinae et conversationis admittunt novitatem correctionis. mais profundo. como havia o Espírito Santo de cessar em acrescentar sempre nela novas:luzes contra essas trevas. que por menos capacidade dos discípulos deixou Cristo de lhas dizer. é o bem que tira de tão grande mal aquela sapientíssima Providência. mais caudaloso. Quale est enim ut diabolo semper operante et adjiciente quotidie ad iniquitatis ingenia opus Dei aut cessaverit.] Quae est ergo Paracleti administratio nisi haec quod disciplina dirigitur. paulatim dirigeretur. que. que não permitir os males.] Haec lege fidei manente. que o Espírito lhas ensinaria: Adhuc multa habeo vobis dicere: sed non potestis portare modo. quando disse: Si quis sitit. porque vai recebendo novas correntes e novas águas. teve por maior glória de sua grandeza fazer dos males bens. (como imprudentemente fazem ainda em lugares igualmente claros de outras Escritas) fugindo para os tempos antigos. segundo a disposição de sua providência. E porque a perfídia herética se nos não queira acolher por pés. só peço se pondere aquela nova e bem achada razão de Tertuliano: Quale est enim ut diabolo semper operante. Assim que os que quiserem reconhecer os aumentos da sabedoria. novas verdades contra esses erros. são em suma tudo o que até agora temos dito. flumina de ventre ejus fluent aquae. não devem tomar à semelhança do Sol` e da luz. com que se faz mais largo. cum propterea Paracletum miserit Dominus.? Não me detenho em romancear as palavras. aut proficere destiterit. mas. et adjiciente quotidie ad iniquitatis ingenia. et ad perfectum produceretur disciplina. ut quoniam humana mediocritas omnia semel capere non poterat. Hoc autem dixit de spiritu. mas o rio que nasce da fonte. veniat ad me et bibat. quando por si mesmo os ensinava. ab illo Vicario Domini Spiritu Sancto [. nova claridade contra esses enganos e novas vitórias contra esse inimigo e seus sequazes? Em sua mesma cegueira tem o herege a prova da maior luz da Igreja. docebit vos omnem veritatem. em que eles confessam que a Igreja esteve verdadeiramente alumiada. a que o mesmo Cristo comparou sua doutrina.. Cum autem venerit ille Spiritus veritatis. quod Scripturar revelantur.

suae. o Cardeal César Barónio. e igualmente merecedores da eterna veneração. VII cap. como bem conclui o mesmo Ricardo Vitorino acima alegado: Sed nec illud tacite praetereo. 75 Segunda Razão Discorre-se sobre as cousas que no tempo dos padres houve para alguns lugares dos Profetas não poderem ser entendidos inteiramente. quando voltaram as costas e apartaram os olhos do que em seu pai. Melchior Cano. a Igreja luz com propriedade de rio. porque não querer descobrir nem saber o que eles não disseram. no Aparato Sacro. III. dizíamos que os Padres não acertaram em tudo. Cristo. e pela aplicação dos Padres. bispo de Luca. subsanant et exsufftant. Em segundo lugar. diz assim: Auctores canonici ut superni. necessidade de doutrina e cautela dos mesmos doutos que lessem as suas obras. e as águas' os resplendores das luzes naquela milagrosa metamorfose que se conta no cap. Escreveram neste gênero doutissimamente Sixto Senense em todo o V e VI livro de sua Biblioteca Santa. irridebit eos et Dominus subsanabit eos. stabilem perpetuamque constantiam servant. por sua sabedoria e santidade. et in aquas plurimas redundavit. otio torpent. falemos e hajamos de falar sem eles. Ferdinando Vellocillo. hujusmodi velamen habentes. quod quidam quasi ob reverentiam Patrum nollunt ab illis omissa attentare. Nem isto se nos deve imputar a menos veneração dos mesmos Padres doutíssimos e santíssimos. lembrados porém da reverência que os filhos devem aos pais e da bênção que mereceram aqueles dois honrados filhos. deixando tão indigno assunto a Lutero. se se compararem com a imensidade de suas águas) para maior vigilância e segurança dos que as navegam. rio daquela mesma fonte e luz daquele mesmo Sol que é Cristo. nas AdverteAncias Teológicas sobre cinco Padres da Igreja. Adversus haeereses. sed qui habitat in coelis. bem assim como os que pintam cartas de marear sinalam no vastíssimo e profundíssimo Oceano os baixos (poucos e raríssimos. De Locis Theologicis. sempre mais vestida de resplendores. por esta providência particular de Deus e pela dificuldade e escuridade de muitos lugares da Escritura. podia ser menos decente. et in lucem solemque conversus est. e por isso sempre mais alumiada. em muitos lugares de seus Anais. Leiam e temam esta sentença os que culpam os que não querem ser culpados nela. sol com propriedade de fonte. Antônio Possevino. E como. e outros legítimos herdeiros do ímpio e irreverente Cam. nec videantur aliquid ultra maiores praesumere. os quais eles escreveram não por menos reverência que tivessem aos antigos Padres. et aliorum industriam in veritatis investigatione et inventione derident. caelestes. Noé. que houve muitos autores católicos e pios. divini.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A sabedoria da Igreja no alumiar é luz e no correr é rio. conservando juntamente as luzes e claridades das águas. Afonso de Castro. Calvino. qui crevit in fluvium. reliqui vero scriptores sancti inferiores et humani sunt. a confirmação de outras verdades e a resistência de outras batalhas próprias daqueles tempos. e posto que pudéramos provar a verdade deste fundamento com a demonstração das cousas em que não acertaram. X de Ester: Parvus fons. Sem e Jafet. Sed inertiae. antes é vício da ociosidade que virtude da reverência. contudo. deixaram de escrever algumas cousas com que a Igreja depois se foi alumiando e ilustrando. e outros. Este último no Liv. em cujos livros se podem ver por junto estes exemplos. deficiuntque interdum ac monstrum quandoque . mas por zelo da verdade. não é muito que nestas que eles não disseram. nós também lançaremos a capa sobre esta matéria. e advirtam que tamb5ém é um dos Padres o que isto disse. Não negamos. Bèze e Wiclef.

Exemplo seja o prodigioso livro Das Retratações de Santo Agostinho. e sem menos 76 . posto que sejam católicos. quão verdadeiramente eram santos. Mas entre estes exemplos naturais da fragilidade humana. Mas para que se veja a ocasião ou ocasiões que tiveram para não acertar com a verdadeira inteligência de algumas escrituras. em que. De maneira que. cujas palavras na Epístola a Teófilo. senão depois de muitos anos de estudo e lição dos mesmos Padres. contra os Donatistas. aliter reliquos tratores: illos semper vera dicere: istos in quibusdam ut homines aberrare>> «So os Apóstolos. tenho colhido. e como os Santos Padres fossem obedientíssimos filhos da Igreja Católica. II De Batismo. vel a nobis). como alumiados por Deus. que é o fim para que isto supomos. unde aliquid aliter sapere. a cujo supremo juízo sujeitaram sempre todos os seus escritos. que eram comuns e recebidas entre os doutos. tales volo esse intellectores meorum: «As ciências e regulações dos autores. podemos ler em prova deles outros dos mesmos Padres. diabolica praesumptio est. Este é o modo (diz Santo Agostinho) com que eu leio os escritos dos outros e com que quero que sejam 1idos os meus. In nullo autem aliter sapere. cap. escrevendo a Fortunaciano desta maneira: Neque enim quorumlibet disputationes quam vis catholicorum et laudutorum hominum.:» O mesmo sentia S. vel invidendo melioribus. quam res se habet. na epístola III. E ponho aqui (tanto de melhor vontade) esta minha advertência. ou também por nos. talis ego sum in scriptis aliorunt. velut scripturas canonicas laudare debemus. quod aliter senserint quam veritas habet. não as devemos ler como escrituras canônicas. assim dos escritos alheios como dos próprios. é argumento só de que foram homens. quando acharmos por outra via a verdade. mais digno de veneração por aquela obra que por todas as outras suas o qual prosseguindo a mesma sentença de Santo Agostinho no liv. institutumque naturae. V diz assim com admirável piedade e juízo: Homines enim sumus. em que não acabei de cair de todo. doutrina. direi agora o que da ponderação das mesmas escrituras proféticas e das exposições dos Padres sobre elas. quando eles escreveram. seguindo Santo Agostinho. ut nobis non liceat (salva honorificentia. contra os erros de S. principalmente as dos Profetas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro pariunt propter convenientem ordinem. ou melhor entendida por outros. é presunção de demônios». quae illis debetur) aliquid in eorum scriptis improbare. confessando com alta humildade e modéstia que podiam errar como os homens. João Hierosolimitano são estas: Scio me aliter habere Apostolos. Jerônimo. um de teologia escolástica e outro` da positiva — Santo Agostinho e S. usque ad prescidendae communionis et condendi schismatis vel haeresis sacrilegium pervenire. disseram a verdade em tudo. reprovar e não seguir algumas cousas das que disseram.: nimis autem amando sententiam suam. E se o fundamento dos erros humanos é o efeito natural de serem os homens homens. mui louvados e estimados por sua ciência e. acertar em tudo. e querer defender seu parecer até romper a caridade e união da Igreja. e das opiniões. bem se segue que nenhum homem se pode livrar desta pensão da humanidade. cerrar em alguma cousa é fraqueza de homens. Jerônimo — Santo Agostinho. e não eram anjos. atque respuere (si forte invenerimus. é perfeição de anjo. humana tentatio est. como homens eram e podem errar:>> _ diz o Doutor Máximo. quanto dela se pode colher facilmente. se em alguma cousa desacertaram. divino adjutorio vel ab aliis intellecta. e por isso mesmo sapientíssimos Porem aqui as palavras de dois maiores Doutores. nos ensinam no conhecimento que tinham de si e nós devemos ter de nós. os outros homens. como dissemos ou supomos. de tal sorte que nos não seja lícito (salva a reverência de suas pessoas). quam se res habet. angelica perfectio est. por douto e sapientíssmo que seja.

Por isso não duvidei de copiar esta página de latim. quão impossível cousa lhes era acertarem naquele tempo. qui haec portenta defendunt. que foi de muitos filósofos antigos se tinha entre os Padres por verdade muito certa e averiguada. que para os que bem o entendem sei de certo não será larga. Solem atque Lunam in aemdem partem semper occidere. ut nulla sit pars Terrae. ou de que as partes opostas às que naquele tempo se conheciam. com o verdadeiro entendimento de alguns lugares dos Profetas que eles interpretaram em alheio e diferente sentido A primeira ocasião que os Padres tiveram para não poderem entender em seu tempo o sentido literal e histórico daqueles textos proféticos. ignis. etiam ipsam terram globo similem. etiam sequebatur illud extremum. Até aqui Lactancio. não eram entre todos as mesmas razões filosóficas. aut joci causa philosophari. et montes pensiles faciant. Hujus quoque erroris aperienda nobis origo est [. campos tendat. Si autem rotunda etiam Terra esset. ou de que o globo da Terra não era perfeitamente esférico. et vana vanis defendunt. constanter in stultitia perseverant. id est. quod rotundo conclusum teneretur. . quae astra esse dicerent. que então (antes da experiência) tinham nome de razões. do que nós hoje nos podemos rir dele. volubilitate ipsa Mundi ad ortum referri. quod sic videri propler immensam latitudnem necesse est. quomodo ergo non cadunt omnia in inferiorem illam cueli partem. et grandinem sursum versus ca dere in terram? Et miratur aliquis in hortos pensiles ~nter seplem mira narrari. ut in omnes Coeli partes eamdem faciem gerat. cum occiderirint. Descreve Lactâncio Firmiano que era um dos Padres. quae autem levia sunt. e muito douto daquele tempo e zombando elegantissimamente dos que tinham a opinião contrária. em aquelas suposições. nec quomodo ab occasu ad Orientem remearent. qui credut esse homines quorum vestigia sint superiora quam capita? Aut ibi quae apud nos jacent inversa pendere? Fruges et arbores deorsum versas crescere. itaque et aereos orbes fabricati sunt quasi ad figuram Mundi. discorre assim: Quid illi. ut nebula. et urbes. não se rindo menos dos que naquele tempo tinham esta opinião. Quod si quaeras ab is. nisi quod eos interdum puto. et ad medium connexa sint omnia sicut radios videmus in rota. quod si ita esset. Sic astra. coelum autem ipsum in ornnes partes putarent esse devexum. Solemque. atque oriri semper ab eadem. qui cum semel aberraverint. montes erigat. era a falta que então havia no Mundo da verdadeira e exata cosmografia. ou fama de haver os que então já se chamavam antípodas Posto que os princípios por que os Padres os negavam. e muito 77 .quae non ab hominibus. Pluvias et nives. qui esse contrarios vestigiis nostris antipodas putant? Num aliquid loquuntur? Aut est quisquam tam ineptus. eram não só desertas. e a errada opinião. eosque caelarunt portentosis quibusdam simulacris.quasi ut ingenia sua in malis rebus exerceant vel ostentent. Cum autem non prospicerent quce machinatio cursus eorum temperaret. Hanc igitur Coeli rotunditatem illud sequebatur. cum philosophi. aut prudentes et scios mendacia defendenda suscipere.Anexo:Imprimir/ História do Futuro louvor de sua grandeza e sabedoria. Quod si esset. neque enim fieri posset ut non esset rotundum. a medio deferantur ut coelum petant. Quid dicam de iis? Nescio.] Quae igitur illos ad antipodas ratio perduxit? Videbant siderum cursus in occasum meantium. maria consternat. em que alguns se afundavam. fumus. caeterisque animulibus incolatur: sic pendulos istos antipodas Coeli rotunditas adinvenit. existimaverunt rotundum esse Mundum sicut pilam: et ex motu siderum opinati sunt coelum volvi. hanc respondent rerum esse naturam. ut Terra in medio sinu ejus esset inclusa. ut pondera in medium ferantur. et agros et maria. senão ainda inabitáveis Este sentimento. negando geralmente a opinião. e hoje depois delas nos parecem ridículas. por sua matéria e elegância. necesse esse.

Viam que o Sol. quando há filósofos que fazem campos pênsiles. homines a contraria parte Terrae. O mesmo peço eu que façam os que não têm necessidade de ver a tradução dela.Anexo:Imprimir/ História do Futuro menos para os que o não entendem. sendo que algumas vezes cuido que não dizem nem escrevem isto de siso. e torneada desta maneira. O que se haja de dizer de tais homens e de tais entendimentos. e não subir? E espantamo-nos que os hortos pênsiles se contêm entre as Sete Maravilhas do Mundo. saíam sempre do Oriente e entravam pelo Ocaso. para que soubéssemos o que naquele tempo se sabia do Mundo e para que saiba o mesmo Mundo quanto deve aos Portugueses. Desta redondeza ou rotundidade do céu inferiam e assentavam que também a Terra era redonda. e que. se lhes não despeguem da terra. de que a Terra está cercada. dentro do qual estava metida. porque o passarão mais brevemente. em que as torres e os telhados estão pendurados para baixo! Mas será bem que digamos a origem donde teve princípio este erro e que razão moveu ou levou estes homens a uma cousa tão irracional. com palavras de tanta segurança como as seguintes: Quod vero et antipodas esse fabulantur. que este céu que nos cobre. e. resolve que se não deve crer que há antípodas. ubi Sol oritur quando occidit nobis. depois de terem caído no primeiro erro. tiravam por segunda conseqüência que também havia de estar povoada de homens e de animais. sobem direitas para as diversas partes do Céu. lá estejam dependuradas? Que as árvores cresçam para a parte inferior? Que a chuva caia para cima? E que os que hão-de colher os frutos. viam. e feita redonda a Terra. só digo que. fingem com os pés para cima. para que não fiquem com o sentimento de quão mal se pode trasladar à nossa língua a elegância da latina: «Que direi daqueles—diz Lactando—os quais tiveram para si que há no Mundo outros homens que andam com os pés virados para nós. em que estavam esculpidas essas imagens e corpos portentosos. a que chamam antípodas? Porventura dizem estes alguma cousa que tenha fundamento. a que chamamos estrelas e planetas. e como não caem por esses ares abaixo respondem que é o peso natural da Terra. defendendo umas cousas vãs com outras tão vãs como elas. id est. tem figura de uma abóbada (sendo que esta representação não a faz a figura do céu. que de todas as partes inclina para o centro. posto que lhe não contentaram os seus fundamentos. e não entendendo o modo por que esta máquina se governa. e foi bem que o deixasse tão miudamente escrito. primeiros descobridores de seus antípodas. XVI De Civitate Dei. as defendem contudo para ostentar habilidade e engenho. acomodando-se naturalmente a figura do corpo exterior e maior. as cousas leves. que agora se segue. senão por jogo e zombaria. ou cuidavam que viam. a Lua e estrelas. como haver antípodas. perseveram constantemente na sua ignorância. hajam de descer aos ramos. assim como do mesmo eixo saem os raios para a roda. e que todas as cousas que aqui estão em pé. mas no liv. ou pode haver homem de tão pouco juízo que se lhe meta na cabeça que há homens que andem com a cabeça para baixo. Santo Agostinho também teve a mesma opinião de Lactâncio. empregando tão bons entendimentos em tão más cousas. e assim fingiam que havia no céu vários orbes de matéria sólida como bronze. mares pênsiles e cidades pênsiles. como o fogo. as névoas. e direitas. não o sei. os quais impugna no livro das suas Categorias. assim como os raios de uma roda todos vão parar ao eixo. vieram a imaginar que o Mundo era redondo como uma bola. E se perguntarmos aos defensores deste portento como pode ser que os homens que. assim que a imaginada rotundidade do céu foi a inventora destes antípodas pendurados. e que sabendo muito bem que tudo o que dizem são fábulas e mentiras. os fumos. senão o termo e fraqueza de nossa vista). assim as cousas pesadas vão buscar o meio. como está: nesta em que vivemos. em todas as partes. adversa pedibus nostris 78 .>> Este é o discurso de Lactâncio.

que antes da experiência parecia afirmarem ou definirem claramente que debaixo da terra não havia outra cousa mais que a água. com que os reprovadores da empresa do Infante Dom Henrique a impugnavam. E verdadeiramente que as palavras de um e outro são tão claras. Assim o cuidou Tales Milézio. e que Deus. parece se deviam entender assim. para mostrar sua onipotência tinha fundado a terra sobre a água. em S. que de nenhum modo se podia passar: Media vero terrarum _ diz Plínio — qua Solis orbita est. acrescentavam os Padres outras teológicas e alguns textos da Escritura Sagrada. mas supunham tão grande incêndio nela pela vizinhança do Sol. que se a vista dos olhos não tivera ensinado o contrário. e muitos anos e séculos depois em Procópio. disse o famoso e ilustríssimo africano dos Portugueses conquistadores depois de sua pátria: Nimisque absurdum est (são palavras suas no mesmo lugar) ut dicatur aliquos homines ex hac in illam partem Oceani immensitate trajecta. ut etiam illic ex uno illo primo homine genus institueretur humanum. Esta mesma opinião foi comum entre os outros Padres da Igreja. nulla ratione credendum est. nam sic docet Scriptura: «Quid expandit terram super aquis». e é grande absurdo dizer que os homens pudessem fazer tal navegação. era um dos mais forçosos argumentos. ainda encarece mais este louvor nosso.>> Não dissera isto o sapientíssimo Doutor. porque o argumento em que se funda é este: Todos os homens que se propagaram e estenderam pelo Mundo. como referem as nossas histórias. Teofilato. Basílio e Santo Ambrósio. homens da outra parte do Mundo. cominus vapore torretur. haviam de ter passado a outra parte do Mundo. onde o Sol lhes nasce a eles. uns fundando-se nas razões já referidas e todos naquela tão celebrada dos filósofos. sem saber de quem falava. e assim a lemos expressa. isto é.» O primeiro lugar é do Salmo CXXXV e o segundo do Salmo XXIII. João Crisóstomo. quae infra nos sita sit. Assim o argumentava Procópio sobre o primeiro capítulo do Gênesis. Circa duae tantum inter exustam et rigentes. e só o conjeturam por discursos. sed quasi ratiocinando conjectant: «E quanto à fábula dos que fingem que há antípodas — diz Santo Agostinho. são descendentes de Adão. em S. quando se põe a nós. como nós para os seus. navigare ac pervenire potuisse. um dos sete sábios de Grécia. exusta flammis et cremata. em Santo Hilário. por cima da imensidade do mar Oceano. A estas razões propriamente filosóficas e a este discurso. como consta da Escritura. Eutímio e outros. nem seus autores o provam com alguma história que tal afirme. que não só faziam inabitável a zona tórrida. é cousa que de nenhum modo se há-de crer. mas este é o maior louvor da nossa Nação (como disse um orador delas) que chegaram os Portugueses com a espada onde Santo Agostinho não chegou com o entendimento. e que pisam a terra com os pés voltados para os nossos. Esta é a razão de Santo Agostinho e este o famoso elogio que. Este incêndio da zona tórrida ainda em tempos tão chegados aos nossos. que tudo pode. porque. e tinham por impossível aquele descobrimento. se os houvera. e antes de Santo Agostinho. et iterum: «quia itse super maria fundavit eum. temperantur: eaeque ipsae inter se non perviae propter incendium sideris. se já naquele tempo estiveram escritas as histórias dos Portugueses. segue-se que não há nem pode haver antípodas. Justino. A razão de Santo Agostinho com que negou os antípodas. aquis vacua et denudata hominibus. Neque hoc ulla historia cognitione didicisse se affirmant. notum reor. dizendo: Quod autem universa Terra in aquis subsistat nec ulla sit pars ejus. ainda antes de Lactâncio. S. historiadores e poetas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro calcare vestigia. logo. com muitos outros filósofos. os quais referiam os tremores da Terra à inconstância deste fundamento de sua natureza tão 79 .

mas depois que a experiência nos mostrou que debaixo ou da parte oposta a esta Terra há outros habitadores..] sit Deus (diz Lorino). orbis terrarumm et universi qui habitant in eo: quia ipse super maria fundavit eum. para que da conseqüência dele se veja melhor a verdade e clareza desta exposição: Domini est terra et plenitudo ejus. E por que a terra por este modo ficou superior à água. Donde notou advertidamente Viegas. convertidas à Fé por meio da pregação dos Portugueses e descobertas por eles. psallite Deo. que são as que habitamos.. porque. e por sua natureza devia estar. Deus é o Senhor da Terra e de todos seus habitadores. assim Orientais como Ocidentais. e Lorino sim. fazendo que fosse superior ao mar e aos rios. mas vamos a outros lugares mais impossíveis de entender. cujo verdadeiro sentido é este: Quando Deus criou o Mundo. antes do conhecimento dos antípodas. ainda os que não tiveram tal pensamento. psallite Domino. que no mesmo Salmo tinha dito David: Cantate Deo. Referem-se vários lugares dos Profetas que os expositores modernos entendem dos antípodas e conquistas de Portugal. e depois havia de passar às do Oriente. qui ascendit super Coelum Coeli ad Orientem. o que fez a Providência Divina foi apartar a água de cima da terra e dar-lhe outro lugar.] in locum unum. Repito o texto todo. diz Genebrardo. isto é superior a ela. fazendo a terra superior à água. comentando o verso IX: Turbabuntur gentes. e assim explica as palavras: «Exitus matutini et vespere>> pro hominibus qui habitant ubi exit dies et ubi exit nox. que fala da conversão dos reinos e terras do Oriente. e é Senhor de seus habitadores. Viegas. hoc est. como notou o texto: Terra autem erat inanis et vacua. e são tão próprios desta explicação muitos lugares dele. psalmum dicite nomini ejus. 80 . que. cantate Deo. por isso diz David que a terra está sobre ela. ut habitari posset. para mostrar que a Fé e conhecimento de Deus primeiro havia de vir às terras mais ocidentais. omniumque in ea rerum [. et super fluvia praeparavit eum..Anexo:Imprimir/ História do Futuro pouco sólido.. qui ascendit super Occasum. et timebunt qui habitant terminos a signis tuis exitus matutini et vespere delectabis. Dominus nomen illi. aquele verso do Salmo LXVII: Regna terrae. que são aquelas que descobrimos. E não é muito que Lorino entendesse melhor este texto da terra e do mar que Procópio. et supereminere aquis fecit. às vozes dos seus pregadores: Ecce dabit voci suae vocem virtutis. porque. e a água sobre a terra. ecce dabit voci suae vocem virtutis. Todo o Salmo LXIV explica Basílio Ponce da nova conversão das Índias. iter facite ei.. Mendonça e outros autores. porque Procópio não sabia que havia mar e terra habitada dos antípodas.. Começando pelo mesmo David. pro Orientalibus et Occidentalibus. isto é. no princípio estava o elemento da terra coberto com o elemento da água. que é o que hoje tem o mar para que ficasse a terra superior a ele e pudesse produzir e ser habitada: Et dixit Deus: Congregentur aquae [. mas como por esta causa ficasse a terra vazia e inabitável. Lorino. a preparou e acomodou a que se pudesse habitar: Ratio cur Dominus Terrae. E porque é Senhor da Terra? Porque a fundou. e essa é a energia da palavra praeparavit. entende pelos habitadores dos termos da terra as gentes orientais e ocidentais. que são os antípodas. quoniam terram itse fecit. não puderam deixar de dizer o mesmo. a fez habitável. conforme o lugar que se devia à sua dignidade e nobreza. e não inferior e debaixo como de antes estava. a emenda deste engano nos ensinou também a entender aqueles textos de David. como elemento que é mais nobre. alumiamos com a luz do Evangelho. conquistamos. e esta é a virtude que Deus deu às vozes da sua voz. et appareat arida.

que podemos dizer que a vossa Igreja é admirável na igualdade. cavitatem. declara o Profeta que não haviam de ser aqueles que lavam as terras e praias vizinhas a nós. et de horto suo flagellis anathematis expulit. depois que a Fé e o Evangelho. que foi com estas palavras:. o que até aquele tempo não consentia. Como se dissera: antes de se pregar o Evangelho a estas terras ou a estes mundos do Oriente é do Ocidente. Como se dissesse Cristo. que os outros estivessem às escuras (argumento que puseram os Japões a S. sobre estes lhe havia de dar também as riquezas espirituais e a graça. que outra cousa dizem senão os interesses temporais que trazem as naus da Índia por estes espirituais que levam quando vêm carregadas dos aromas e espécies aromáticas daquelas partes? Assim o tinha dito o mesmo Salomão no verso antecedente. Auster. mirabile in aequitate. por vossos ocultas juízos. podemos aplicar as palavras de Honório: Siquidem inauditam haeresim per malignos homines Draco mentibus fidelium infudit. porque trata igualmente a todos: sanctum est templum tuum. porque. que são os das Índias Orientais.. e o conhecimento e culto do verdadeiro Deus têm passado os mares. E acrescenta com grande energia que multiplicaria o Senhor o enriquecê-la: Multiplicasti locupletare eum. pois havendo tantos anos e tantos séculos que alumiastes a uns com a luz da Fé.. que é a Igreja: que saísse dele o Norte e viesse o Sul. senão os mares de muito longe e de terras e gentes muito remotas: .. Senhor. agora sim. Finalmente. as pérolas e outros tantos tesouros. dum universum haeresim per sapientes destruxit. em muitos lugares dos seus Cânticos deixou também profetizadas estas maravilhas da nossa idade: neste sentido explicam alguns modernos aquelas palavras no cap. Uns nos fins do Oriente. permitistes até agora. porque não duvidássemos que mares eram estes. ou como tem o hebreu: Maris rémotorum. qua totum ortum Ecclesiae. quasi quadam lepre vitiavit. e que entrassem na mesma Igreja as orações do Sul (que são as do Novo Mundo). com que ficasse cada uma não só rica. que são as minas do ouro e prata. os diamantes. chegado às mais remotas nações do Oriente. Ou. Porém. Francisco Xavier). Segue-se logo no texto:. et perfla hortum meum. são aqueles que estão nos dois últimos fins e extremos da Terra. mas multiplicadamente rica: Multiplicasti etc.spes omnium finium terrae et in mari longe. parece que vós. e diz: Emissiones 81 . et fluent aromata illius.. também dizia David que fazia Deus esta mudança em suas ondas: .qui conturbas profundum maris. o proêmio com que David introduziu tudo o que até aqui temos dito. Esta terra.. sed Rex gloriae Chrisus suis auxilium praebuit. onde nasce o dia e onde nasce a noite. Salomão. e vossa Igreja não guardáveis igualdade com os homens. uma e outra. e que a regaria como regou com a água do batismo: Visitasti terram et inebriasti eum. diz o Profeta que visitaria Deus. Ao qual sentido.sanctum est templum tuum. não só na coroa. e outros nos fins do Ocidente.. falando do sen jardim. mirabile in aequitate. mas também no espírito de profecia.Anexo:Imprimir/ História do Futuro De maneira que os homens de quem aqui fala David. Aquilo. como lê S. E porque para isto era necessário que o bravíssimo e indômito Oceano se sujeitasse aos homens e se deixasse arar de seus lenhos. Auster intravit. como entraram por meio da Fé. que são os das Índias Ocidentais. mulcens sonitum. que é mui próprio e verdadeiro. que sucedeu a David. que saíssem da Igreja as orações do Norte. IV: Surge. os rubis. et veni. entendidas assim como soam. tendo-lhe já dado as maiores riquezas temporais. com admirável propriedade e energia. As quais palavras. Jerônimo e Teodósio: compescens sedans. como se saíram nestes tempos por meio da heresia. isto é. sonum fluctuum ejus. latitudinem aut profundumditatem maris. expulso autem Aquilone. E não carece de mistério e grande mistério.. et fluent aromata illius. Fala das missões que fazem àquelas partes os pregadores da Fé.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro tuae, paradisus malorum punicorum cum pomorum fructibus As vossas missões são um paraíso de que se não colhem frutos de árvores, senão frutos de frutos. Cum pomorum fructibus. Porque pelo fruto espiritual que vão fazer os missionários, vêm de lá os frutos temporais com que Portugal se enriquece. E se vão faltando os segundos frutos, é porque também vão faltando os primeiros, de que eles nascem. Mas que frutos são estes? Disse o mesmo Salomão: Cypri cum nardo, nardus et crocus, fistula et cinnamomum cum universis lignis Libati, myrrha, et aloe cum omnibus primi unguentis: A canela, a canafistola, o sândalo, o benjoim, as áquilas, os calambucos, e todo o outro gênero de espécies odoríferas e aromáticas, que são as mesmas que vêm da Índia. No cap. VII diz assim o mesmo Salomão, ou a Esposa, que é a Igreja, falando com seu Esposo Cristo: Mandragorae dederunt odorem. In portis nostris omnia poma: nova et vetera servavi tibi. As mandrigoras são os pregadores da Fé, como diz S. Gregório: Quid per mandragoram, herbam scilicet medicinalem et odoriferam, nisi virtus perfectorum intelligitur? Qui, dum imperfectorum infirmitatibus medentur in fide quam praedicant, id est. in portis Ecclesiae veri medici esse comprobantur. Com o cheiro destas mandrágoras e com a doutrina destes pregadores, [diz a Esposa] que ajuntou para seu Esposo os frutos novos aos velhos. Assim o interpretam os Setenta: Nova et vetera servavi tibi; porque aos cristãos antigos, que eram os da Europa, ajuntou a Igreja estes novos, que são os da nova gente que se descobriu no Oriente e no Ocidente, que são as portas de que fala a Esposa: In portis nostris. Uma porta por onde o Sol sai ao nosso hemisfério, que é a do Oriente, e outra por onde entra aos antípodas, que é a do Ocidente. Assim entendem este lugar alguns autores que refere Cornélio, resumindo todo o sentido dele nestas palavras: Nonulli per nova opinantur hic notari novi orbis inventionem et conversionem ad Chrstum. Novus enim hic orbis continet Peruanos, Mexicanos, Brasilios, Chilenses etc. est dimidium totius orbis, ut patet ex globo cosmográphico [...] jam per religiosos S. Dominici, S. Francisci et Societatis Jesus totus pene subjacet Ecclesiae Sic in India Orientali hoc saeculo et praecedenti mire per eosdem propagatur Fides apud Japones, ubi plurimi pro Fide certant usque ad martyria lentorum ignium apud Sinenses, Molucenses et Ceilanos. De maneira que os frutos novos que a Igreja, por meio do cheiro destas mandrágoras medicinais e odoríferas, ajuntou aos velhos e antigos, são os do Peru e México, do Brasil e Chile, e os do Japão e China, das Malucas e Ceilão; uns nas portas do Oriente, outros nas do Ocidente: Madragorae dederunt odorem suum. Parece que estavam esquecidos, mas não estavam senão guardados para este tempo: servavi. Em quase todo o cap. VIII repete Salomão a mesma conversão das Índias, e particularmente naquelas palavras: Soror nostra parva, et ubera no habet; quid faciemus sorori nostrae in die quando alloquenda est? Si murus est. aedificemus super eum propugnacula argentea; si ostium est. compingamus illud tabulis cedrinis. Até agora foi escuríssimo este lugar, mas são admiráveis os mistérios e mais admiráveis ainda as propriedades dele. Ludovico Legionense, nos comentários sobre este livro, entende por esta irmã mais moça da Esposa a Igreja da Gentilidade novamente convertida à Fé: ...sub persona hujus sororis natu minoris, et parum forma praestantis, cu`jus de collocatione sponsa solicitari dicitur, multi significantur populi atque gentes longe a nostro orbe remotae, ad Christum adducenda; nova quadam Evangelli tradendi ratione; hoc est significatur Hispanorum navigationibus reperti orbis, ejusque incolarum ad Christi. fidem nuper facta conversio. Ainda que a Igreja toda seja uma, como a destas novas gentilidades veio ao conhecimento de Cristo tanto depois, que não foram menos que mil e quinhentos anos, por isso lhe chama

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro Salomão irmã menor e pequena — Soror nostra parva est — não pela grandeza das terras e número das gentes, em que é maior ou, quando menos, igual a toda a Igreja antiga, mas pela menoridade do tempo e da idade em que se converteu. E diz com muita propriedade que não tem peitos: Et ubera non habet porque todos estes anos esteve falta do leite da verdadeira doutrina. E porque haver-se de desposar com Cristo esta nova Igreja era um negócio cheio de tantas dificuldades, assim pela distancia de tão remotas terras e navegação de tão desconhecidos mares, como principalmente pela resistência de suas nações, umas bárbaras, outras políticas e todas feras, armadas e belicosas, e tão superiores no número e multidão aos que lhes haviam de levar e introduzir a Fé, estas dificuldades representa a Igreja antiga a seu Esposo, Cristo, com aquelas palavras: Quid faciemus sorori nostrae in die quando alloquenda est? «Que faremos Senhor, quando chegar o tempo em que se há-de desposar convosco esta minha irmã menor?:>> Ao que responde Cristo com o antiquíssimo conselho de sua providência, dizendo: Si murus est. aedificemus super eum propugnacula argentea; si ostium, compingamus illud tabulis cedrinis. Quem não admirará nesta resposta os altíssimos conselhos da sabedoria e providência divina? Dispôs Deus desde a criação do Mundo que estas terras, assim por fora como por dentro, fossem enriquecidas de coisas preciosíssimas, para que o interesse dos homens facilitasse as dificuldades, que sem ele criam impossíveis de vencer. Como se dissera o Senhor: Ainda que a conquista da Fé tem muros que dificultem sua entrada nessas terras, também tem portas por onde poderá entrar; esses muros facilitá-los-emos com prata; essas portas abri-las-emos com cedros: Si murus, aedificemus propugnacula argentea; si ostium, compingamus illud tabulis cedrinis. Pela prata se entendem as minas e pelos cedros odoríferos as plantas preciosas; e as minas que essas terras têm em suas entranhas, e as plantas odoríferas e preciosas que nelas nascem, são os meios e incentivos que obrigaram o interesse humano a que se disponha a vencer todas essas dificuldades e abrir e franquear essas portas. E assim foi porque a prata, o ouro, os rubis, os diamantes, as esmeraldas, que aquelas terras criam e escondem em suas entranhas; as áquilas, os calambucos, o pau-brasil, o violeta, o ébano, a canela, o cravo e a pimenta, que nelas nascem, foram os incentivos do interesse tão poderoso com os homens, que grandemente facilitaram os perigos e os trabalhos da navegação e conquista de umas e outras Índias. Sendo certo que, se Deus com suma providência não enriquecera de todos estes tesouros aquelas terras, não bastaria só o zelo e amor da religião para introduzir nelas a Fé. O profeta Isaías, como profeta singularmente escolhido para historiar as maravilhas da lei evangélica, foi o que mais falou de nós e delas: no cap. XLIX diz assim: Ecce isti de longe venient, et ecce illi ab aquilone et mari, et isti de terra australi. Laudate, caeli, et exulta, terra, jubilate, montes, laudem, quia consolatus est Dominus populum suum, et pauperum quorum miserebitur. O qual lugar entende Cornélio à Lápide e Árias Montano da conversão da China, e o provam do original hebreu, o qual lêem de terra Senim, como verts S. Jerónimo, Símaco, Áquila, Teodósio, o Siro, o Arábio, e todos, e é o mesmo que de terra Sinorum, por ser este o modo de falar da língua hebréia, na qual os Galileus se chamam Gelilim, e os Judeus Jehudim, e os Assírios Assurim, e assim também os Chinas ou Sinas Sinim. E se replicarmos a este sentido que a China não é terra austral, senão oriental, e que se não pode verificar dela o termo de terra australi, respondem os mesmos autores que aludiu o Espírito Santo, que governava a pena de S. Jerónimo, à navegação dos Portugueses, os quais, quando vão para o Oriente, fazem a sua viagem direita ao Austro, navegando ao cabo da Boa Esperança: Sinae enim (dizem eles), qui proprie hic significantur, licet sint ad Orientem, dici tamen possum ad Austrum, quia Lusitani in Sinas

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro navigaturi, initio longo flexu, navigant ad Austrum, scilicet ex Lusitania usque ad promontorium Bonae Spei, quod uItimum est in continente et directe oppositum Austro. De maneira que, como os Portugueses eram os que haviam de levar a Fé à China, navegando ao Austro ou Sul, por isso o Espírito Santo chamou Austral à China, não pelo sítio, senão pelo rumo da navegação. Da mesma conversão dos Chinas fez outra vez menção Isaías no cap. XI, v. I4, o qual explica larga e eruditamente Malvenda, seguindo a Foreiro, ambos varões mui doutos da família dominicana. O mesmo Profeta Isaías no cap. LX: Qui sunt isti, qui ut nubes volant et quasi columbae ad fenestras suas? Me enim insulae expectant, et naves maris in principio, ut adducam filios tuos de longe; argentum eorum et aurum eorum cum eis, nomini Domini Dei tui et Sancto Israel, quia glorificavit te. Et aedificabunt filii peregrinorum muros tugs, et reges eorum ministrabunt tibi. Nestas palavras está profetizada admiravelmente a conversão das Índias Ocidentais; assim as explicam o mesmo Cornélio, Bózio, Aldrovando e outros, com bem notáveis propriedades. Chama o Profeta às Índias Ocidentais, ilhas: Me enim insulae expectant. Porque todas aquelas vastíssimas terras, em quanto se têm descoberto, estão rodeadas de mar, e bastava para se chamarem assim a imensidade de mares que as dividem do Mundo amigo; além de que estes terras no princípio eram chamadas com o nome de Antilhas, como se lê na história de seu descobrimento. As nuvens que voam a estes terras para as fertilizer—Qui sunt isti, qui ut nubes volant— são os pregadores do Evangelho, levados do vento pelo mar como nuvens; e chamam-se também pombas: Et sunt columbae ad fenestras suas; porque levam estes nuvens a água do baptismo sobre que desceu o Espírito Santo em figure de pomba, que são os dois termos que desde o princípio do Mundo andaram sempre juntos na significação do batismo. No I cap. do Gênesis: Spiritus Domini ferebatur super aquas, e no II de S. João: ...nisi quis renatus fuerit ex aqua et Spiritu Sancto. Mas o mesmo Bózio e Aldrovando, ainda advertiram no nome e semelhança de pomba outra propriedade mais aguda, tirada do descobrimento das mesmas Índias, de cujas terras e navegação foi o primeiro descobridor Cristóvão Colombo; e dizem que a isto aludiu o profeta, chamando Columbas ou Columbos a todos os que seguem a mesma derrota e navegação das Índias: Nomine columbae alludit ad Christophorum Columbum, qui nobis iter ad illas oras primus aperuit. Bem assim, ou muito melhor, e com mais verdade do que disseram os Gentios que os Argonautas, quando foram conquistar o velo de ouro a Colcos, levaram por guia uma pomba: Et qui movistis duo littora, cum rudis Argus Dux erat, ignoto missa columba mari. Os Potosis e outras minas de prata e ouro, que juntamente com as almas para a Igreja haviam de conquistar estes argonautas, também as não esqueceu o Profeta: Et adducam filios tuos de longe, argentum eorum et aurum eorum cum eis. Muito ouro, muita prata e muitos filhos para a Igreja, e tudo de muito longe; e porque não ficassem em silêncio as frotas das Índias: Et navis maris in principio; ou como lê Foreiro do hebreu: Et naves maris cum primaria, seu praetoria, que faziam esta navegação muitas naus, não divididas, senão em frota, com sua capitaina; finalmente, que homens peregrinos edificariam os muros da Igreja naquelas terras: Et aedificabunt filii peregrinorum muros tuos; e que os ministros de tudo isto seriam os mesmos reis, como fazem com tanta piedade os reis católicos: Et reges eorum ministrabunt tibi.

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Procópio e Teodoreto entendem este texto da conversão das gentilidades. et generationis suscitabis. Ego Dominus exaudiam eos [. porém os Doutores modernos nos dizem quais elas são. mas não nos disseram que gentes estes fossem ou houvessem de ser. aliisque Indiarum provinciis impleri magna laetitia conspicimus: que se cumpriu e está cumprindo esta profecia no Japão. O P. que Deus havia de converter por meio da pregação do Evangelho. depois do reverendíssimo Cláudio Aquaviva. no Brasil. vós sereis chamado edificador das cercas e fareis que os que sempre andam. ele as descobriu. de que tanto necessitam: Et terram inviam in rivos aquarum. Até aqui andamos com Isaías pelas terras firmes. China. fundamenta generationis. Henrique. povoou e edificou. et spinam. quia manus Domini fecit hoc. Quantos pobres e miseráveis estão morrendo à sede por falta de água.e. quando por meio da luz da Fé se lhes mostra o caminho da salvação. ponam in deserto abietem. isto é. cujo principal intento naquela empresa. os ouvirei e não me esquecerei deles: Ego Dominus exaudiam eos. as Terceiras ou dos Açores. et in medio camporum fortes: ponam desertum in stagna aquarum. e por mais que essas terras sejam sem caminho. que desde o princípio do Mundo. e que esta obra é de minha mão: Ut videant et sciant quia manus Domini fecit hoc. tenham assento. Brasilia. como era a ilha da Madeira. et non sunt: lingua eorum siti aruit. São Jerônimo. E assim como nestas ilhas ermas e desertas lançou este glorioso príncipe os primeiros fundamentos da geração humana. e tão enobrecidas de famosas cidades e suntuosos edifícios: Aedificabuntur in te deserta saeculorum. como eram as Canárias e de Cabo Verde. como dizem sodas as nossas histórias. ulmum et buxum simul. Cornélio. No cap. e de ilhas desertas que antigamente eram. e como a major obra e a major misericórdia de sodas é tirar almas do Inferno. na China. Nestes seus montes e desertos secos e estéreis abrirei fontes e rios mui copiosos. etc. et myrtum. que levaram adiante o que ele começou. estão hoje tão povoadas e populosas. que estavam povoadas de bárbaros. et vocaberis aedificator septum. como se tiram as dos Gentios. diz assim: Hoc etiam hodie in Japone. São Cirilo. LVIII fala Isaías das obras grandes que fará o homem misericordioso. Primeiramente nele e por ele se povoaram os desertos dos séculos! porque muitas ilhas. et lignum olivae. continuadas depois pelos reis de Portugal. Dabo in solitudinem cedrum.] non derelinquam eos. eu abrirei caminho por onde a elas cheguem as águas. et recogitent. que são as primeiras por onde os nossos descobrimentos começaram. avertens semitas in quietem: «Em vós se povoarão os desertos dos séculos. XLI: Egeni et pauperes quaerunt aquas. lançou também os 85 . vamos agora às ilhas. et terram inviam in rivos aquarum. que. geral da sua religião. et intelligant pariter. As palavras de Isaías são estas: Et aedificabuntur in te deserta saeculorum.. vós lançareis os fundamentos de uma e outra geração. diz umas palavras o Profeta. foi o puro e piedoso zelo da dilatação da Fé e conversão da gentilidade.. ut videant et sciant. bem ponderadas. Henrique. eu farei que se colha muito copioso e de todo o gênero: Dabo in solitudinem cedrum et spinam et myrtum. de nenhum outro homem se podem entender à letra senão do nosso Infante santo (sic) D. e de onde até agora se não colheu fruto. porque as não conheciam. por tantos séculos estiveram desertas e incógnitas e despovoadas. Aperiam in supinis collibus flumina. assim em outras ilhas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro É também ilustre lugar em Isaías aquele do cap. primeiro autor dos descobrimentos portugueses.. Para que entenda e conheça o Mundo quão poderoso sou.» Tais foram em tudo as obras do Infante D.. fazendo que fossem povoadas de homens. vivendo na gentilidade sem água do batismo? Mas eu (diz Deus) que também sou Senhor destes.

86 . como sabemos que é a das Canárias. como vemos que passam os que lá vão.Anexo:Imprimir/ História do Futuro fundamentos da geração divina. senão infinitos outros. et omnibus quae Africae littora respiciunt: amplius cunctis quas Oceanus aluit. E quando quer que nestas terras de Guiné se achasse tanta gente como o Infante diz. e vivessem como homens. Boreamvel spectantibus idem contingit. e cativar gente tão mesquinha? Certo nós não sabemos outro. E bem se viu quanto mais naturais são para eles que para nós. quero pôr aqui as do nosso João de Barros. não sabemos que gente é. nem o modo de sua peleja.os reis passados deste Reino (diziam eles) sempre dos reinos alheios para o seu trouxeram gente a este a fazer novas povoações. a Lambert de Orches. e não habitada por nós. excitantur fundamenta generationis. e não mando?` seus vassalos passar além-mar. e por isso diz o Profeta que seria chamado o primeiro autor desta obra. romper terras. Hispaniae in Oceano adjacentibus Occidentem versus. perdermos os amigos e parentes!» Isto é o que filosofavam e diziam os prudentes e políticos daquele tempo. fazendo por meio da pregação e luz do Evangelho que esses bárbaros gentios conhecessem a Deus e fossem gerados em Cristo: Fundamenta generationis et generationis suscitabis. de grande virtude e letras. alemão. que sempre são os instrumentos mais aparelhados que o Mundo e o Demônio têm para impedir as obras de Deus. Sancti Laurentii.. O meio que para esta segunda e mais importante geração tomaram os religiosíssimos príncipes de Portugal. Certo que outro exemplo lhe deu seu padre poucos dias há. latissimis etiam regionibus Indiarum. como aqui notam alguns expositores. e foi que. E estes bárbaros. que isso quer dizer—Avertens semitas in quietem. andando de antes vagamente pelas brenhas. e ele quer levar os naturais portugueses a povoar terras ermas por tantos perigos do mar..idem perfectum videinus in insults quas Tertieras vocant. mas antes que escreva as suas palavras. com obrigação de trazer a ele moradores estrangeiros de Alemanha. a qual anda de penedo em penedo como cabras às pedradas contra quem os quer ofender. sive orientem. vel Austrum. senão virem eles encarentar o mantimento da terra e comerem nossos trabalhos. quase como admoestação de Deus. são os que hoje vivem com tanto assento. e quando fosse tão bárbara. quas no mine Promontorii Viridis appellant. referindo o que desta empresa do Infante sentiam e murmuravam os que lhes parecia inútil e infrutuosa: <. dando os maninhos de Lavre. As palavras prometidas de Bózio são as que se seguem: . que como animais andavam saltando de penedo em penedo. nós que proveito podemos ter de terra tão estéril e áspera. cultivadas e ricas. Neque finis illus hucusque apparet. junto a Caruche. qui bestiarum modo prius incertis sedibus vagabantur. ordem e política cristã. as cercas e claustros das religiões: Et vocaberis aedificator septum Finalmente. que Deus deu por pasto dos brutos. humanidade. mas estes terras ermas foram as que pelo zelo e constância daquele príncipe se vêem hoje tão povoadas. Oppida innumera et civitates pulcherrimae passim condutur in quibus constituuntur caetus hominum. Neste sentido tão próprio e literal explica Bózio este texto de Isaías. que os rompesse e povoasse. sive occidentem Solem. edificador de cercas. que os lançou fora da primeira ilha. se aquietassem e tomassem assento. e por cobrarmos um comedor destes. et in stabulis ipsis habitabant. pois em tão poucos dias uma coelha multiplicou tanto. que são. fundando e edificando conventos de diversas ordens. que há por bem ser aquela terra pastada de alimárias. Ascensionis. et generationis eorum... e não só eles. similiter in Canariis. de fome e sedes. não cala o Profeta o fruto que desta santa indústria se seguiu em sodas estes gentilidades de bárbaros. como animais silvestres. foi mandarem religiosos por sodas as conquistas.

Ponhamos fim a Isaías com um celebradíssimo texto do cap. pelo havermos recebido de pessoa douta e versada nas Escrituras. angeli veloces. Mas esta exposição e a de Mendonça e Rebelo (que entendem o texto geralmente da Índia Oriental). que ultimamente se conheceram no Mundo com o descobrimento dos antípodas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Até aqui este autor doutíssimo. populi de longe. pelas quais ilhas entendiam todos antigamente Itália e Espanha. têm contra si tudo o que logo diremos.. germano e natural dela. que. qui non audierunt de me. acabou de o entender. e com toda a propriedade são ilhas. e verdadeiramente o entendeu. post quem non est alius. como no cap. XLIX: Audite. nem das gentes de que falava o Profeta. Cornélio teve para si que fala o profeta de Etiópia e do Preste João. José da Costa. e que não tem depois de si outra terra senão o vastíssimo mar do Sul. e é este: Vae terrae cymbalo alarum. parece que os trazemos debaixo dos pés e que os pisamos. que ficaram debaixo de nós. cujus diripuerunt flumina terram ejus. Chama a estes ilhas o Profeta. entente dos Chinas e Japões. o qual foi sempre julgado por um dos mais dificultosos e escuros de todos os Profetas. como diz o texto. ad quam veniunt cum navibus a terra longinqua. volans alis suis. II cap. ad gentem expectantem et conculcatam. que falou Isaías da América e Novo Mundo. das ilhas que os Portugueses conquistaram para Cristo. havendo visto as gentes. com os outros que cita. Malvenda. por estas palavras: Chaldeus interpres haec verba Isaiae in hunc modum reddidit: <<Vae terrae. Mas porque Isaías nesta sua descrição põe tantos sinais 87 . et nunc ab extremo Occidente Lusitanorum victricibus classibus aditur. o qual no mesmo liv. nem se podem chamar de Longe em comparação das que depois descobrimos. XVIII. que é a terra que fica da outra banda da Etiópia. e aplica à navegação dos Portugueses o parafraste caldeu. e este é o que nós havemos de descobrir ou escrever aqui. mas verdadeiramente nem são ilhas. tão versado nas Escrituras como na geografia e na história natural das Índias Ocidentais. quae est trans flumina AEthiopiae. Porque esta terra que descreve o Profeta está além da Etiópia trans flumina AEtiopiae. et in vasis papyri super aquas! Ite. Malucas e outras. Java. et vela sua extendunt. Ludovico Legionense. III explica muitos outros lugares de Isaías. que isso quer dizer a energia da palavra: Ad gentem conculcatam: gente pisada dos pés. quae etiam itsas sinarum oras praetervectae Japoniorum insulas tenent. mas nem atinaram nem podiam atinar com ela porque não tiveram notícia nem da terra. dizendo que se entende da nova conversão à Fé daquelas terras e gentes também novas. Arias Alontano. Estes dois sinais tão manifestos só se podem verificar da América. insulin. ad gentem convulsam et dilaceratam.. e ilhas de muito longe. mas chegando mais de perto à gente e terra ou província de que se entende a profecia. quae mittit in mare legatos. Japão. Alartim del Rio e outros dizem (e bem). Trabalharam sempre muito os intérpretes antigos por acharem a verdadeira explicação e aplicação deste texto. por estarem quase cercadas uma do Mediterrâneo. Frederico Lúmnio. e notaram alguns com agudeza e propriedade. pisado as terras e navegado as águas de que fala este texto. e no cap. porque os antípodas.ad insulas longe ad illos. mas Etiópia não está além de Etiópia. como veremos e verão melhor os que tiverem lido as exposições antigas e modernas dele. e se prova fácil e claramente. outra do Oceano. et attendite. Os comentadores modernos acertaram em comum com o entendimento da profecia. quae quondam remotarum gentium frequentibus navigationibus petebutur. e é terra depois da qual não há outra: ad populum post quem non est alius. e nomeadamente de Ceilão. também os modernos não acertaram até agora com o sentido próprio. senão terra firme. ad populum terribilem. LXVI: . Maldivas Socotorá. ilhas de longe. ut aquila.» Aptosite in Indiam. Tomás Bózio.

é outra vez necessário que nós também declaremos a província e gente em que eles todos se verificam. bárbaras e verdadeiramente terríveis.de trans&mdash. senão de alguma província particular dele. Fazem depois suas frautas dos mesmos ossos humanos. e agora das Amazonas. todos com as raízes e troncos metidos na água. de que fazem os seus muros. semelhante ao da nossa língua. travessas e praças de água que a natureza deixou descobertas e desimpedidas do arvoredo. cujas terras estão todas senhoreadas e afogadas das águas. e tais são também os Brasis. lê o Sírio&mdash. e esta gente e esta província mostraremos agora que é a que com toda a propriedade chamamos Maranhão. Diz pois o Profeta. ou como verte e comenta Vatablo: terra. que tão expressamente tinha falado nesta gente. que aquela (quais são os Brasis) que não só matam seus inimigos. vivendo por esta causa não imediatamente sobre a terra. palmares e arvoredos altíssimos. quae est sita ultra AEthiopiam (quae AEthiopia scatet fluminibus) e o hebreu ao pé da letra tem de trans flumina AEthiopiae. e os cozem a este fim. em que se possa tomar porto.gentem depilatam: gente sem pêlo. Em lugar de gentem conculcatam. Os Hebreus dizem&mdash.Anexo:Imprimir/ História do Futuro particulares e tantas diferenças individuantes. que tangem e trazem na boca. mas depois de mortos os despedaçam e os comem e os assam. vê-se este destroço e roubo que os rios fizeram à terra. E é admirável a propriedade desta diferença. que claramente estão mostrando que não fala de toda a América ou Mundo Novo em comum. e nós dizemos. sendo muito contados e muito estreitos os sítios mais altos que eles. duzentas e mais léguas. senão em casas 88 . que estando cercados os Bárbaros. que são estes homens uma gente a quem os rios lhe roubaram a sua terra: Cujus diripuerant flumina terram ejus. Digo primeiramente. e não pode haver gente mais terrível entre todas as que têm figura humana. e muito distantes uns dos outros. navegando-se sempre por entre árvores espessíssimas de uma e outra parte. e os autores alegados nos não dizem que província esta seja. e assim é na geografia destas terras. e isto é o que agora hei-de mostrar. quase todos os campos estão alagados e cobertos de água doce. Estes são os sinais comuns que nos aponta o Profeta daquela terra e gente. em que os Índios possam assentar suas povoações. é hebraísmo. Diz mais o Profeta que a gente desta terra é terrível: ad populum terribilem. porque o Brasil é a terra que direitamente está além e da outra banda da Etiópia como diz o Profeta: quae est trans flumina AEthiopiae. mas porque assinala mindamente outros mais particulares e que não convêm a toda a gente e terra do Brasil. que pela maior parte não têm barba. porque em toda aquela terra. subiam as mulheres às trincheiras ou paliçadas.de trans&mdash. não se vendo em muitas jornadas mais que bosques. como notou Malvenda. A qual palavra&mdash. será necessário que nós o digamos. e no peito e pelo corpo têm a pele lisa e sem cabelo. sendo raríssimos os lugares por espaço de cento. em que os rios são infinitos e os maiores e mais caudalosos do Mundo. e mostravam aos nossos as panelas em que os haviam de cozinhar. sendo as próprias mulheres as que guisam e convidam hóspedes a se regalarem com estas inumanas iguarias. que por ser tão pouco conhecida e menos nomeada nos escritores. e é estilo e nobreza entre eles não poderem tomar nome senão depois de quebraram a cabeça a algum inimigo. ainda que seja a alguma caveira desenterrada com outras cerimônias cruéis. com grande diferença dos Europeus. que em respeito de Jerusalém. não é muito que a falta de suas notícias lhe tivesse até agora escurecido e divertido a honra deste famoso oráculo do mais ilustre profeta. o Brasil fica imediatamente detrás de Etiópia. detrás. muito mais particularmente naquele vastíssimo arquipélago do rio chamado Orelhana. sem nenhum horror. e assim se viu muitas vezes naquelas guerras. que o texto de Isaías se entende do Brasil. e posto que estes alagadiços sejam ordinários em toda aquela costa. considerado o círculo que faz o globo terrestre. por ruas.

que tendo as raízes e troncos escondidos na água. porque apenas dão passo que não seja com o remo na mão. (que assim se chamavam os Pernambucanos) os arrancaram de suas pátrias. como gente nascida e mais criada na água que na terra. nos frutos agrestes das árvores de que se sustentam. e alguma caça de aves e montaria de porcos. ficando em suas próprias terras. tomando o nome da mesma arte de navegar e das mesmas embarcações em que lá navegavam. entre os lodos e raízes das árvores. vieram sair às terras do Maranhão. de que os primeiros usavam. e só o Espírito Santo poderá recopilar em duas palavras a história e última fortuna daquela gente. Continua Isaías a sua descrição. não podendo resistir. não sem novos inimigos que ainda mais os despedaçassem. assim que uns e outros ficaram gente arrancada. Goianás. em que eram e são os Maranhões mui sinalados entre os índios. os artífices ou os senhores das naus Diz pois Isaías que esta gente de que fala é um povo: Quae mittit in mare legatos et in vasis papyri super aquas: «Que manda de uma parte para outra seus negociantes em vasos de cascas de árvores sobre as águas. que todos desembocam nele. ainda que o rio das Amazonas tenha fama de tão enorme grandeza. muitos deles fugiram em magotes pelos matos e pelos rios tomando diferentes caminhos. se chamam na sua língua igara. Desta peregrinação e desta guerra se seguiram naquela gente os dois efeitos que sinala Isaías. por cima dela se conservam e aparecem. e diz que os habitadores desta província são gente arrancada e despedaçada. comunicando e confundindo em si as águas e como unindo e conjurando as forças para este roubo que fizeram àquela terra: Cujus diripuerunt flumina terram ejus. Quando os Portugueses conquistaram as terras de Pernambuco. além de outro pescado menor. e em muita quantidade de tartarugas e peixes-bois. fizeram facilmente a seus habitadores o que nós lhes tínhamos feito a eles. bem assim como as mesmas árvores. Maianás e outras antigamente populosas gentes. que são os gados que pastam naqueles campos. Conhecidos já pela fortuna os descreve o Profeta. desenganados os Índios (que eram mui valentes e resistiram por muitos anos) que não podiam prevalecer contra as nossas armas. senão rios. porque caem todos na água. porque os tinham lançado de suas terras os Portugueses. com mais generosa resolução e determinados a não servir. cuja colheita é muito 1impa. caindo para a parte do mar. e deste nome igara derivaram a denominação de Igaruanas. se ceva nos frutos delas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro levantadas sobre esteios a que chamam juraus para que nas maiores enchentes passem as águas por baixo. ou juntamente com ele. outros. e ali como soldados tão exercitados com o mais poderoso inimigo. toda esta se compõe do concurso de muitos outros rios. diferindo só as árvores das casas em que umas são de ramos verdes outras de palmas secas. e muito particularmente pelo exercício e arte da navegação. ou certamente porque com sua indústria adiantaram muito a rudeza das embarcações bárbaras. porque as suas embarcações. onde ficaram muitos. dividirem-se em colônias mui distantes uns dos outros. ou os primeiros inventores da sua náutica. se chamam Igaruanas. e uns e outros gente despedaçada: gentem conculcatam et dilaceratam. que nos mesmos lugares sobre-aguados. Desta sorte vivem os Nheengaíbas. outros. por serem eles. uns deles se sujeitaram. onde fizeram assento. que são as canoas. os vencidos também ficaram arrancados. como se disséssemos os náuticos. E nota o Profeta que não é rio. assim porque foram ficando a pedaços em vários sítios como porque depois da vitória lhes foi necessário para conservarem o violento domínio. porque. restituindo-lhes os rios a terra que lhes roubaram. ficando uma e outra gente arrancada e despedaçada: os vencedores arrancados.>> 89 . de quem se diz com propriedade que andam mais com as mãos que com os pés. se meteram pelo sertão. e também e com muito maior razão despedaçados porque. Tanto assim que a principal nação daquela terra. e também despedaçados. porque os Tutinambás. os que isto fazem.

ai da terra que tem sinos com asas. o mesmo arquipélago que dizemos. que está nas primeiras palavras deste texto: Vae terrae cymbalo alarum. Assim o explicou eruditamente Carpenteio. diz assim: Fortasse indicus usus nominis cymbali antiquitas inolevit apud Hebraeos tempore Isaiae: 90 . quae reducem sistris cretitantibus apim Concelebras.Anexo:Imprimir/ História do Futuro As palavras do Profeta todas têm mistério e todas declaram muito a propriedade da gente de que fala. ou cretitáculos. foi Gabriel Palácio. e. maracás ou sinos de metal. Também se há-de supor que os Maranhões usavam de uns instrumentos a que chamavam maracás não de metal. depois que viram os sinos de que nós usamos. significa também qualquer instrumento com que se faz som e estrondo e tais eram os címbalos de que usavam antigamente os Gentios. porque o não tinham. mar. como para os da guerra. ou. o qual foi sempre o que maior trabalho deu aos intérpretes e os obrigou a dizerem cousas mui violentas e impróprias. e não adivinhavam nem podiam. mas o mesmo povo e a mesma nação é a que elege aqueles que lhes parecem de melhor talento. com quem concorda o relativo quae. porque os nomes hebreus de que estas versões foram tiradas. mas como podia ser que entendessem o enigma da terra. como são sinos? Esta dificuldade foi até agora o torcedor de todos os entendimentos dos expositores sagrados. que quer dizer. cujos troncos são muito altos e direitos. de água doce. servindo-se dos menores nas festas e nos bailes e dos maiores nas guerras. como aqueles que falavam a adivinhar. E não faz dúvida dizer o profeta que estas embarcações iam ao mar: Qui mittit in mare. se chama na sua língua. Diz que as manda o povo. em lugar de terrae cvmbalo alarum. de que o autor desta explicação viu alguma que tinha dezessete palmos de boca e cento de comprimento. delas formavam as suas embarcações. que tudo isso quer dizer a palavra legatos. Isto suposto. além de entrarem com elas pelo mar Oceano. Depois que tiveram uso do ferro. e de aqui veio o nome que os Portugueses lhe puseram de Grão-Pará ou Maranhão. leram terrae navium alis. Se são sinos. Diz mais que vão sobre as águas em vasos de cascas de árvores. senão tinham as notícias nem a língua dela? Para inteligência do verdadeiro entendimento deste texto ou enigma. mas antes de terem ferro despiam estes mesmos madeiros. crotalos et inania cymbala pulsas. porque é gente que não tem reis. dentro dos quais metiam seixos ou caroços de várias frutas. por sua grandeza. o qual. assim para os negócios da paz. o que tudo quer dizer mar grande. têm ambas as significações e querem dizer: Ai da terra que tem navios com asas. porque. duros e acomodados a fazer muito estrondo e ruído. como se pode ver nos autores da língua latina. tirando-lhes as cascas assim inteiras. no comentário literal deste lugar de Isaías. Estes maracás eram propriamente os seus címbalos ou sinos. com que significamos os nossos sinos de metal. como são navios? e se são navios. tanto assim que. porque esta era a matéria e fábrica de suas embarcações. porque Pará significa mar. que se chamavam por nomes particulares sistros crotalos. senão de cabaços ou cocos grandes. Do que temos dito até aqui ficará mais fácil de entender aquele grande enigma do Profeta. Os Setenta Intérpretes. de 1600 anos a esta parte... vertendo em verso este mesmo lugar de Isaías: Vae tibi. cavam os troncos das árvores e fazem de um só madeiro muito grandes canoas. lhes chamam itamaracás. e por nome geral cimbalos. e uma e outra cousa significam as palavras de Isaías. o expositor que mais foi rastejando o sentido verdadeiro que podia ter este enigma. se há-de supor que a palavra latina cymbalum.

onde a Vulgata leu gentem expectantem expectantem. digo eu. sendo certo que o Profeta não havia de dar por sinal e divisa daquelas embarcações uma cousa tão comum e universal em todas. e com ele nomeiam os nossos navios. que. e a razão de darem este nome às suas maiores embarcações era porque. significa entre eles sino. e assim como a palavra lineae se repete. Pagnino. Assim que vem a dizer Isaías que a terra de que fala é terra que usa embarcações que têm nomes de sinos. como dizem os geógrafos. a propriedade da letra hebréia. faziam um estrondo barbaramente bélico e horrível. como dissemos. grandes e todos vermelhos. de que há infinita quantidade. derivado o nome da palavra mararacá. destas penas se enfeitam quando se querem pôr bizarros. como diz Foreiro. nem têm panos. está também repetida no mesmo texto a palavra expectantem. que chamam rostros. Como aqueles gentios não tecem. pelas pontas de ferro agudas que levavam nas proas. Os expositores todos dizem que estas asas eram as velas das embarcações e que são as asas dos navios. com que vem a concluir o Profeta 91 . é grande entre eles o uso das penas pela formosura das cores com que a natureza vestiu os pássaros. porque diz o Profeta que estas embarcações ou estes sinos eram sinos e embarcações com asas: cymbalo alarum. Nem mais nem menos que os Romanos às suas galés de guerra deram nomes de rostratas. e as partaz anas de pau e pedra que chamam fanga-penas. senão também os arcos e rodelas. e por isso o Profeta diz que todas estas cousas via e notava como tão novas: chamam as lanças sinos e sinos com asas: Navius alis. navium alis. porque os Maranhões são aqueles que. Vatablo. e estas são pontualmente os maracàtins dos Maranhões. e porque a proa da canoa se chama tim. cymbalo alarum. punham na proa um destes maracás muito grandes. que é propriedade por todos os títulos admirável. da sua altura. chamavam àquelas canoas ou embarcações maiores maracàtim. conforme o poeta: Velorun pandimus alas. quais eram ordinariamente as suas. e bolindo de indústria com eles. se não tivera a própria e verdadeira. e este nome usam ainda hoje. ornando com elas todo o gênero de armas. Digo pois que fala o texto de verdadeiras asas de aves.Anexo:Imprimir/ História do Futuro «Porventura—diz ele—que no tempo de Isaías as embarcações dos Índios se chamariam entre os Hebreus sinos. e as mesmas levavam penduradas dos gorupezes e maracás das proas. ou tomassem nome de sinos as embarcações dos índios. A qual explicação pudera ser bem admitida. As maiores embarcações dos Maranhões chamam-se maracàtim. senão entre os mesmos Índios? Assim era e assim é. gente da linha de linha. atados aos gorupezes ou paus compridos. tirada a metáfora do nariz dos homens ou do bico das aves. quando iam às batalhas navais.» E porque não seria antes. que se chamassem sinos. de que Isaías falava. e principalmente quando vão à guerra. e juntando a palavra tim com a palavra maracá. porque não só levam empenadas as setas. Mas não está ainda explicada toda a dificuldade ou propriedade do enigma. não porque este nome fosse usado entre os Hebreus. tirado também o nome ou metáfora dos bicos das aves. ficam pontual e perpendicularmente bem debaixo da Linha Equinocial. empavezavam-se as canoas com asas vermelhas dos guarás. além do movimento natural das canoas e dos remeiros. e quando a guerra era naval. além da Etiópia. e deste modo fica decifrado e entendido o antiquíssimo e escuríssimo lugar e enigma de Isaías. é gentem lineae linea:. sem mistura de outra cor. Sanchez e outros muitos tão geralmente. E porque não faltasse a esta terra a demarcação ou arrumação. que têm o mesmo nome. e particularmente o chamado guarás.

Frei Luís de Leon. Lirano. como se pode ver do que de El-Rei Dom Manuel. possidebit civitates Austri. quae in Bosphoro est. Árias Montano. Esta mesma palavra Sepharad é nome com que os Hebreus chamam a Espanha. de El-Rei Dom João o II. Diz agora o profeta Abdias que a transmigração de Jerusalém. qual é a que logo diremos. como escrevem muitas histórias de Espanha. por ser parte desta província conquista sua. limite e fim que os Antigos conheciam no Mundo. significa termo. em que o conquistou Alexandre de Moura. viria tempo em que possuísse as cidades do Austro. expectantem: gente que está esperando. para consolação dos mesmos desterrados. há duas opiniões entre os autores. Desta transmigração pois (diz Montano e os mais acima alegados) se há-de entender o texto de Abdias. ad gentem expectantem. é conseqüência muito ajustada que da profecia do desterro passou. Burgense. e deles. Malvenda e outros têm para si que fala da transmigração de Nabucodonosor o qual. Maqueda. o qual verdadeiramente se pode contar entre os cronistas de Portugal. Mas sobre a transmigração de Jerusalém de que Abdias fala. e como o Profeta própria e literalmente falava neste lugar do mesmo cativeiro de Babilônia. que passou a Espanha. esperando mais que todos os outros Brasis sessenta e cinco anos. que delas havia de ter princípio. 92 . de El-Rei Dom João o III e de El-Rei Dom Sebastião escrevem seus historiadores. a uma felicidade tão estranha. em que o descobriu Pedro Álvares Cabral. do Infante Dom Henrique. pela qual fortuna (como notou Santo Agostinho na morte dos infantes de Belém) não tiveram parte na morte de Cristo e conservaram sua antiga nobreza. de ali mandou parte deles para Espanha. Deixo muitos outros lugares do Profeta Isaías. e no Maranhão no ano de 1615. Porque entre todas as gentes do Brasil os Maranhões foram os últimos a quem chegaram as novas do Evangelho e o conhecimento do verdadeiro Deus. que tanto há mister quem a encaminhe como quem a defenda: Ite. ou desterrados ou trazidos por Nabuco. Arias. Toda a explicação é comum e certa entre todos os autores mais peritos da língua hebraica—Vatablo. Escalona e outras. que tanto tardou a todos os Americanos. porque o estado da esperança se Lhes tem trocado no de desesperação. que são as duas balizas que têm no meio a Portugal. como refere Josefo. tendo conquistado a Jerusalém e passado seus habitadores para Babilônia. padecendo aquele vae do Profeta: Vae terra: cymbalo alarum. como testemunham de uma parte as Colunas de Hércules e de outra o cabo de Finis Terrae. E esperam de se salvar os que de tantos danos e danos são causa? Muito largos temos sido na exposição deste texto. Mas hoje estão ainda em pior fortuna. angeli veloces. mas foi assim necessário por sua dificuldade e por não estar até hoje entendido. Pagnino. Assim querem também que de Nabuco traga seu apelido a ilustre família dos Osórios. porque em Espanha está o estreito que divide a Europa de África e Espanha era o termo. que o primeiro e principal intento que neles tiveram nossos piedosíssimos reis. A palavra hebréia Sepharad. mais que todos eles. foi fundação a insigne cidade de Toledo. esperando. Isidoro Clário e os demais. de que São Jerônimo verteu Bosphoro. No Brasil se começou a pregar a Fé no ano de 1550. ficaram muitos em Espanha. Destes hebreus. segundo fala muitas vezes nas espirituais conquistas dos Portugueses e nas gentes e nações que por seus pregadores se converteram à Fé. O Profeta Abdias em um só capítulo que escreveu também falou das conquistas de Portugal: El transmigratio Hierusalem. Estrabo e outros graves autores.Anexo:Imprimir/ História do Futuro o seu principal e total intento. e que veio o mesmo Nabuco em pessoa a fazer esta guerra. que é exortar os pregadores evangélicos a que vão ser anjos da guarda daquela triste gente. esperando por este bem. limite e fim.

chamando por ele o ressuscitou em nome de Jesus Cristo. magister meus. e discordam só na inteligência da transmigração de Jerusalém.. mandando daquela cidade e espalhando por todo o Mundo seus Apóstolos. quando vieram pregar a ela. Fevardêncio e outros entendem por esta transmigração de Jerusalém a que fez Cristo. etc. entendendo uns que é a de Nabuco pelos Judeus passados à Espanha. e a de Nabuco com o Apóstolo Malaquias. digo que falou o Profeta de uma e outra transmigração. ubi dicit Rabbi Sa. mas eu. quod fuit impletum per Jacobum apostolum. e que ali viera dar com outros cativos mandados de Babilônia por Nabucodonosor. o velho. vel Pyrrho. cuja rainha 93 . à parte direita pela costa da América ou Brasil. porei aqui com as palavras do arcebispo D. Hic venerat cum duodecim tributus missis a Nabuchodonosore in Hispaniam Hierosolymis duce Nabucho-Cerdan. Nosso Senhor. o moço e em presença de infinito povo. conciliando facilmente estas duas opiniões e mostrando que a profecia se entende mais particularmente de Portugal. Hispaniarum praefecto. Bracharensem Episcopum. De maneira que todos estes autores concordam em que a profecia da conquista das regiões do Austro se entende de Espanha. e à esquerda pela costa de África à Etiópia. se foi a uma sepultura célebre. que são propriissimamente as que correm de uma e outra parte do Oceano Austral. o qual.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Nicolau de Lira. José da Costa. sendo estes os que depois de tantos séculos vieram a dominar e possuir as regiões do Austro: Possidebunt civitates Austri. o escolheu e tomou por primeiro e principal de todos seus discípulos. e particularmente de uma carta de Hugo. ou Samuel. Assim o entendem também. et ejus discipulos. quae in Bosphoro est (diz Lirano) in hebraeo habetur in Cepharad. e dando-lhe o nome de Pedro. ibi fidem Christi primitus praedicantes. E cumprida em Sant'Iago a transmigração de Jerusalém. se cumpriu a segunda parte dela.. que foi a pedra fundamental depois do sagrado Apóstolo da Igreja de Portugal. na primeira parte da História Ecclesiastica Bracharense. que por isso não traduzimos. e para entrar com estrondo de trovão (cujo filho o chamara Cristo. e dos fragmentos de Santo Atanásio. Antônio Caracciolo e outros. o qual conheceu ao mesmo Pedro ressuscitado e escreveu o caso quase pelas mesmas palavras. que são os que em Espanha receberam e conservaram sempre a Fé que ele lhes tinha pregado. seguindo esta segunda exposição. Vatablo. chamado Malaquias. Até aqui esta maravilhosa história. et colla gentium subjugantes. e outros que é a de Cristo pelos Apóstolos. quem antiquum prophetam suscitavit Sanctus Jacobus Zebeduei filius. De sorte que ambas as transmigrações de Jerusalém concorrem para a fé de Portugal: a de Cristo com o Apóstolo Santiago. entre os quais coube Espanha a Sant'Iago. O fundamento que tenho para assim o dizer. que é a primeira parte da profecia. a quem vinha pregar e publicar por verdadeiro Deus. Cornélio. de onde ela depois tão felizmente se transplantou às regiões do Austro. bispo de Saragoça. tirada de autores e memórias mui antigas. Os filhos desta Igreja e herdeiros desta Fé foram os que dali a tantos anos dominaram com os estandartes dela as cidades e regiões do Austro. depois chamado vulgarmente S. porque de ambas as transmigrações foram os primeiros ministros da Fé que a plantaram em Portugal. batizou-o pouco depois. Rodrigo da Cunha. judeu de nação. Pedro de Rates. em seus discípulos. falando do Apóstolo Sant'Iago. e são as seguintes: Ego novi sanctum Petrum. id est in Hispania. diz desta maneira: Entrou em Braga o santo Apóstolo. e ele por meio de seus discípulos a converteu toda à Fé e desterrou dela a Gentilidade: Et transmigratio Hierusalem. onde jacia enterrado de seiscentos anos um santo profeta. bispo do Porto.

e depois em vários tempos foi triunfando da idolatria e da gentilidade.a: Assentou em mudar esta conquista para outras partes mais remotas de Espanha. tem por assunto o triunfo de Cristo. soberbo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Sabá chamou Cristo Regina Austri. que também foi naval. O Cântico de Habacuc. não era para matar os homens. E mais abaixo no mesmo cap. E esperamos que seja novo complemento dela o domínio da terra indômita. AEthiopiam. que quero pôr aqui por suas próprias palavras): Mas ainda foi acerca dele (fala do Infante D. quae est in Hispania. triunfar deles: Equitatio tua salus. 8. possidebit civitates Austri. por si mesma e na opinião do Mundo tem [esta] cavalaria [tanto valimento. que El-Rei D. Assim se cumpriu nos Portugueses a profecia de Abdias: Transmigratio. para esta guerra dos Infiéis ordenou e novamente constituiu. evangelistae tui portabunt te. com que por meio da sua cruz triunfou um dia da morte. hoc est. Os Portugueses. Década I.. que é o 2° do liv. que é a matéria de todo o III cap. E a primeira empresa e vitória desta cavalaria de Cristo foi a sujeição do mesmo mar bravo. diz Santo Agostinho. com as mãos levantadas o adorariam e reconheceriam por Senhor: Altitudo manus suas levavit. do que eram os reinos de Fez e Marrocos. para que o reconhecesse e adorasse. que era a obrigação do cargo e administração que tinha de governador da Ordem da Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo.. ó Senhor. há-de ser eterna a vossa indignação no mar?» E responde a esta sua pergunta. que o mar submeteria suas ondas: Gurges aquarum transiit: que os abismos confessariam a potência de Cristo as vozes: Dedit abyssus vocem suam.°: Viam fecisti in mari equis tuis. e estas são as terras de que no comento deste texto faz menção Cornélio: Americam.) e que as suas alturas ou profundidades. e este da sua cavalaria o primeiro triunfo. pertence principalmente aos Portugueses. e salvando-os. Os Portugueses foram aqueles cavaleiros a quem Cristo abriu o primeiro caminho pelo mar: Viam fecisti in mari equis tuis. e os méritos de seu trabalho ficassem metidos na Ordem e Cavalaria de Cristo que ele governava. O mesmo Profeta o disse assim: Numquid in mari indignatio tua?» «Porventura. (Ibid. por meio de cuja navegação e pregação sujeitou Cristo à obediência de seu império tantas gentes de ambos os mundos. do demônio e do pecado. conforme a disposição da sua providência. e as naus dos Portugueses. com que a despesa deste caso fosse própria dele e não taxada por outrem. faziam grande apreço de se armarem nela cavaleiros.] que não só os mesmos Portugueses. Mas para que se veja o grande mistério desta metáfora de cavalaria de Cristo. de que usou o Profeta (deixando à parte haver sido esta empresa dos primeiros descobrimentos e conquistas dos Portugueses). seu tresavo. Faz muito ao caso advertir o que escreve o nosso insigne historiador destas conquistas. e verdadeiramente não se podia dizer cousa mais apropriada aos Portugueses. de cujo 94 . geralmente chamada Terra Austral. Que abriu Cristo caminho pelo mar à sua cavalaria. I. Dinis. que ou Cristo lhe sujeitou a eles. para que pisasse as ondas. furioso e indignado. como lemos que o fizeram alguns de Alemanha e Dinamarca. aqueles cavaleiros que pisaram as ondas do mar. A parte marítima deste triunfo. E no v. Africam.. ou eles o sujeitaram também a Cristo. Henrique) outra cousa muito mais eficaz. e esta foi a primeira vitória de Cristo. como os cavalos pisam o lodo da terra: In Iuto aquarum multarum. 15.°. Isto quer dizer 0 Profeta no v. senão para os salvar. Brasilicam. in luto aquarum multarum. senão ainda os estrangeiros. a salvação: Et quadrigae tuae salvatio. e que a guerra que com esta cavalaria havia de fazer.ascendes super equos tuos: et quadrigae tuae salvatio.° . aquelas carroças que levavam pelo mar a Fé. e último deste Profeta.

por certo. como insigne cavaleiro desta santa cavalaria. e a verdade da história e cumprimento da profecia. que também ele foi cavaleiro da mesma Ordem. Na História do P. senão a propriedade do caso. diz que ficou cheio de temor e assombro ( assim o interpretaram os Setenta . Os Setenta. sem lhes amanhecerem as luzes da Fé. diz o Profeta que faria Deus que se descobrisse e conhecesse o que até então estava oculto: In medio annorum notum facies. tantas gentes e tanta s almas vivessem nas trevas da infidelidade. não pode haver melhor testemunho que o proêmio do mesmo Profeta. nem de que sobre os dotes da glória se vestisse o seu manto e a sua cruz. Quando Deus revelou ao Profeta e quando ouviu de sua boca o que havia de fazer aos vindouros. Singular prerrogativa. com que deu princípio a este cântico triunfal das vitórias de Cristo: Domine.:>> E este novo conhecimento que Deus deu àquelas nações por meio dos 95 . pelos escolher para instrumentos de obras tão admiráveis. nem que maior nem mais justo temor deva causar aos que bem ponderarem esta obra. pois verdadeiramente esta admirável empresa foi obra.Anexo:Imprimir/ História do Futuro tesouro podia pretender. para levar a salvação às terras e gentes que ela descobriu e conquistou. in medio annorum vivifica illud. E porque o maior ministro do Evangelho que se embarcou nas carroças desta cavalaria.e Marcelo Mastrilli. a quem S. Para confirmação de tudo isto. senão de um que era propriamente administrador e governador da Ordem da Cavalaria de Cristo. não havendo outra entre todas as da Cristandade. foi o grande Apóstolo da Índia S. cognosceris. que se possa gloriar de ter tão ilustre cavaleiro. depois do princípio e criação do Mundo. Mas no meio desses compridíssimos anos. e para que se não admirem quando lhes dissermos que os tem escolhido para outras maiores. se conta uma visão em que o mesmo santo apóstolo apareceu vestido com o manto branco da Ordem de Cristo e com cruz vermelha no peito. cujos primeiros trabalhos foram os da navegação da costa de África e pregação da Fé em Moçambique. mas todo este favor do Céu merece uma cavalaria que tanto mar. et expavi). De sorte que dizer o Profeta que Cristo havia de abrir caminho no mar à sua cavalaria. senão com as rendas e tesouros da mesma cavalaria e serviços e merecimentos próprios dela. e que a empresa havia de ser a salvação das almas. acrescentando por modo de glosa no mesmo texto: Consideravi opera tua. onde padeceu glorioso martírio. não com outras despesas. então sereis conhecido. e que então tornaria o Senhor a vivificar e ressuscitar a sua obra: Opus tuum. misericordiae recordaberis. tanto mundo e tantas almas conquistou para o mesmo Céu. não de outro príncipe. é cousa memorável e muito digna de se referir neste lugar. que a consideração dos ocultos juízos de Deus. da Ordem dos Cavaleiros de Cristo de Portugal. Francisco Xavier restituiu milagrosamente a vida. para que a fosse dar por Cristo no Japão. com que por tantos séculos permitiu que tão grande parte do Mundo. e para que os Portugueses conheçam quanto devem a Deus. traduzindo juntamente e explicando leram: Cum appropinquaverint anni. Domine. «Quando chegarem os anos determinados por vossa providência. e que tendo durado tantos séculos sua ira contra aquelas gentes idólatras. Francisco Xavier. tão breve noite para os corpos e tão comprida noite para as almas. In medio annorum notum facies: cum iratus fueris. Porque não houve obra de Deus. misericordiae recordaberis. e que tanto adiantou em nossas Conquistas a glória de sua empresa. em fim se lembraria de sua misericórdia: Cum iratus fueris. e feita. (começa ele) audivi auditionem tuam et timui. opus tuum in medio annoram vivifica illud. não só tem a formosura da metáfora. que mais assombrasse e fizesse pasmar aos homens que o descobrimento do mesmo Mundo que tantos mil anos tinha estado incógnito e ignorado.

donde era a mulher de Moisés. sempre o oráculo ou elogio deste Profeta nos fica em casa. chamada por isso Etiópia. na África. que de outro modo se não podem bem entender. III. não se pode entender este texto das gentes orientais. levantando uma cruz de pedra em lugar distante das praias. porque o mar. S. Igual glória (e não sei se maior de Portugal) a da Índia. Heródoto e outros. porque os da . E o mesmo profeta mais abaixo se comenta a si mesmo. e só se distinguiam uns dos outros no som da voz e no cabelo. 96 . por meio de cuja pregação ressuscitaria também a Fé e as vitórias dela naquelas nações. e posto de um e outro modo. que pregassem a mesma Cruz. crespissimos inter homines habent. que são todas aquelas terras que cerca o mar Oceano. e no mesmo tempo chegaram os Portugueses. que estava na Ásia além do Tigres e Eufrates. dos Chinas. a mesma Fé e o mesmo Cristo que ele pregava. Lhes disse e mandou esculpir no pé dela. Cumpriu-se pontualmente a profecia. tornareis a ressuscitar o vosso arco» (que é a sua cruz). e de uma e outra gente se pode entender. e outra ocidental. e com o tempo estava em algumas partes amortecida e em outras totalmente morta. desde Guiné até o mar Roxo. quando na cidade de Meliapor. que por meio das pregações dos Portugueses se haviam de ajoelhar diante dos altares de Cristo e lhe haviam de levar e oferecer seus dons em testemunho de o reconhecerem por seu Deus.Anexo:Imprimir/ História do Futuro nossos apóstolos e pregadores da sua Fé foi tornar a ressuscitar a mesma obra. Nam AEthiopes qui ab ortu Solis sunt. Castro e Cornélio das nações que estão além do Tigres e do Eufrates. que tinha começado pelos primeiros apóstolos que naquelas mesmas terras a pregaram. Logo. Digo que de uma e outra terra. sed sono vocis dumtaxat. sub Pharnarzatre. chegou ao lugar sinalado. ou por ele Deus) inde supplices mei. não menos que doze léguas. então famosíssima. permixtos crines. que ainda tivesse a S. a qual distinção não não só é necessária para o entendimento de muitos lugares das Escrituras. tuum. atque capillatura. censebantur cum Indiis specie nihil admodum a caeteris differentes. Assim o profetizou na Índia seu primeiro Apostolo. Tomé por seu apóstolo e Portugal não era de todo cristão. qui sunt ab ortu Solis. chegariam também de partes remotíssimas do Ocidente outros homens da sua cor. segundo Estrabo. Japões e outras gentes da Índia menos remotas. Vatablo. também falou mui particularmente neste glorioso assunto: Ultra flumina AEthiopiae (diz ele. que verdadeiramente falam das gentes que estão além do rio da Etiópia: Ultra flumina AEthiopiae inde supplices mei. Lembre-se outra vez Portugal destas obrigações.Ásia tinham o cabelo solto e corredio e os da África crespo e retorcido. O Profeta Sofonias. Éforo. como traslada Símaco: Reviviscere fac ipsum. Tomé. E a razão é porque. como são hoje os que se conservam com o mesmo nome na África. «Vós. que quando o mar ali chegasse. e de quanto lhe merece Cristo. isto é. Isto quer dizer: Opus tuum vivifica illud: ou. De sorte que também havia Etíopes na Ásia. filii dispersorum meorum deferent munus mihi. As quais palavras entendem Árias. e já os Apóstolos plantavam as balizas da fé em seu nome e conheciam e pregavam que ele era o que havia de fazer cristão ao Mundo. Por este argumento há outros autores que o entendem do Brasil e da América. qui ex Africa. mas contra esta explicação parece que se opõem as primeiras palavras do texto. As palavras de Heródoto são estas: Hi AEthiopes. Senhor. no cap. comendo pouco a pouco a terra. debaixo do mesmo nome de Etiópia se compreendiam antigamente duas Etiópias: uma oriental. segundo o que acima deixamos dito. senão ainda dos historiadores e poetas antigos. dizendo: Suscitans suscitatis arcum.

João que se lhes havia tirar. a quem só pertence a conversão dos reis do Oriente. porém quando se ajuntem na história ou narração algumas diferenças que o determinem. de que usa indistintamente o original hebreu. para levarem nelas a Fé ao Oriente e trazerem tantos reis orientais à obediência e sujeição da Igreja. levam a elas a Fé de Cristo e a luz de seu Evangelho. então se há-de entender determinadamente ou só da Etiópia Oriental ou só da Ocidental. filho de Chus e neto de Cham. sem saírem da terra firme pregaram nela. X. XVI. (como neste lugar de Sofonias) se pode entender de qualquer das Etiópias. Donde se segue que quando na Escritura se acha este nome sem outra diferença. que está sobre a terra. para que pudessem vir à Igreja. Este anjo forte (diz Pedro Bulêngero) é Cristo. os pregadores apostólicos que levam pelo Mundo ao mesmo Cristo e seu Evangelho. o livro. e é o mais honrado nome e de maior estimação que lhes podia dar. que está sobre o mar. entre os quais o pé esquerdo. que nós pode ser expliquemos em outro lugar. por excelência os Portugueses. referido por Estrabo. do Apocalipse. Assim como o Profeta Jeremias chamou ao Eufrates mar. donde se segue que o pé direito que Cristo pôs sobre o mar para esta gloriosa e evangélica empresa. falando em geral dos Espanhóis e em particular dos Portugueses. por ser o mais profundo e mais caudaloso da Saia. de modo que se pudesse passar o Eufrates a pé enxuto. No cap. 0 diz assim sobre este mesmo lugar do Apocacalipse. pelo qual os Portugueses (maior façanha e ventura que a do outro Ciro) fizeram passagem a pé enxuto nas suas grandes naus da Índia. não é muito que S. mas nomeou-os por suas obras. e os pés de seu corpo místico. levaram consigo o nome que tinham herdado de seu pai e de seu avô. navegando às regiões apartadas e remotas do nosso hemisfério. O mesmo Evangelista Profeta S João. são. 97 . cabeça da Igreja. 12. cujas insígnias descreve largamente . insigne professor parisiense das Letras Sagradas. o Evangelho explicado. pelo qual se abriu caminho aos reis do Oriente. são aqueles que. e que pôs o pé esquerdo sobre a terra e o direito sobre o mar: Et posuit pedem suum dextrum super mare et sinistrum super terram. Neste basta dizer que tinha na mão um livro aberto: Et habebut in manu sua libellum apertum.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Nem faça dúvida a esta distinção a palavra Chus. como nós fizemos no texto de Isaías ultimamente referido. Os descendentes deste mesmo Membrot e deste mesmo Chus. diz que viu descer do Céu um anjo forte. os que. que é o mar Oceano. E este grande Eufrates é aquele grande mar. e este impedimento diz S. o pé direito. como diz Éforo. O maior impedimento de água que tinham os reis do Oriente para passar a Jerusalém. e outro melhor Eufrates. era o rio Eufrates. onde habitou e povoou. no cap. João: Et sextus angelus effudit phialam suam in flumen illud magnum Euphraten: et siccovit aquam ejus. e a sua terra Ethiopia. donde nós lemos AEthiopae. entre todas as nações do Mundo. diz S. que é Roma. principalmente acompanhado daqueles dois epítetos de alusão a grandeza: Illud magnum Euphatem. assim uns e outros na língua hebréia se chamam Chuteos e a sua terra Chus. porque Membrot. Não os nomeou por seu nome este autor. João chamasse ao mar Eufrates. e assim como uns e outros na língua latina se chamam AEthiopes. senão o doutíssimo Genebrardo. que é a Igreja. Não sou eu nem autor português (como quase todos os que até agora tenho alegado) o que isto digo. ut praepararetur via regibus ab ortu Solis: Que «o sexto anjo derramou sua redoma sobre aquele grande rio Eufrates e que secou suas águas. Mas debaixo das figuras deste enigma se significava outra melhor Jerusalém. para aparelhar o caminho aos reis do Oriente». deu o nome de seu pai às terras orientais. e os que depois passaram à África e a povoaram.

depois que por meio da navegação do mar Oceano se quebrou o fabuloso encantamento dos negados antípodas e se descobriram tantas terras e gentes. seus exercícios e seus costumes. como podiam conhecer nem atinar com as terras os que não 98 . dos rios. pelas minas e seus metais. se não sabiam que havia tal Etiópia? Como dos Japões. adorar e servir. das terras. da cegueira e infelicidade em que viviam. como haviam de entender as profecias destas navegações e destes mares? Se queriam que a zona tórrida era um perpétuo incêndio. Ali veremos as admiráveis propriedades e miudíssimas circunstâncias com que os mesmos Profetas falaram dos mares. das minas. e destas terras. catholicamque amplexerunt doctrinam. e em outras muitas ilhas e terras.>> Tão facilmente triunfa Cristo pela voz e espada dos Portugueses. dos costumes. Sinenses enim. conhecem. (relicto daemonum cultu. exercícios e histórias das gentes e reinos de que falam. «Em cumprimento desta profecia (diz Bulêngero. propriedade. porque os Chinas. dos sítios. suas propriedades. se não sabiam que havia América? Como dos Brasis. se não sabiam que havia no Mundo tais ilhas? Como dos Etíopes ocidentais. e destes mares. explicados por autores que escreveram de cem anos a esta parte. e sobre tudo da Fé e luz do Evangelho. que as cidades se batizaram. não só incógnitas aos Antigos. se não sabiam que havia China? Se os Profetas nas figuras enigmáticas dos seus oráculos se declaram pela natureza. em que entraram os príncipes e reis e muitos grandes senhores. e são infiéis e gentios. receberam a Fé de Cristo em número de 8. com o pé direito no mar e o livro na mão direita! No capítulo seguinte se verão muitos lugares de vários Profetas. se não sabiam que havia Japões? Como dos Chinas. pelas árvores. pelos rios. se têm passado à verdadeira religião.Anexo:Imprimir/ História do Futuro explicando-se com as palavras seguintes: Istud nostra memoria factum videmus. das navegações. falavam os seus oráculos e profecias? Se criam tão firme e assentadamente que não havia nem podia haver antípodas. vemos que os reinos e regiões muito apartadas de nós. Christi Jesu fidem susceperunt. que pertencem às antigas Índias. das árvores. deinde multa Indorum insulae et regiones christianam. Agora só pergunto: Como era possível que aqueles antigos e antiquíssimos autores explicassem neste sentido aos Profetas? Ou como podiam entender nem perceber que destas gentes. alegando a Súrio). se não havia Brasil? Como dos Peruanos e Chiles. mas nem ainda presumidas ou imaginadas deles. et integrae civitates sacro sunt ablutae baptismate. como haviam de vir em conhecimento dessas gentes e desses reinos os que não podiam saber sua natureza. se não sabiam que havia Peru nem Chile? Como haviam de interpretar os Profetas das ilhas desertas ou povoadas do Oceano. nem lhes havia de vir ao pensamento que os Profetas falavam dos Americanos. como hoje. com que por meio dos pregadores de Cristo o haviam finalmente de conhecer. opera patrum Societatis nominis Jesu ad Christi religionem traducta sunt. como haviam de interpretar as profecias dos habitadores da zona tórrida? Como haviam de cuidar. pela indústria dos padres da Companhia de Jesus. e totalmente abrasada e inabitável. que adoravam nos ídolos aos demônios. qui populi ad veteres Índias expectant. adoram e servem. de tal maneira os Índios abraçaram a doutrina cristã e católica. et infideles sunt.000. pelos frutos. das ilhas. das gentes. com tanta glória da Igreja. nem suas histórias? Se declaram as terras pelos sítios. permultique proceres et optimates sub anno Domini I564. deixando o culto da idolatria no ano de I564. costumes. ad octo millia primum) et in his reges et princites. dos frutos. quae quidem regna a nobis longe dissita el incognitae regiones teterrimo daemonum cultui additae sunt. como podiam explicar as profecias dos antípodas? Se criam que a imensidade do mar Oceano não era navegável e tinham este pensamento por absurdo.

se ignorasse. secretum meum mihi: «Este segredo é só para mim. de tais árvores. E isto que se não pode dizer dos teólogos do nosso tempo sem grande nota de sua ciência e diligência. nem menos decoro de sua erudição e grande sabedoria. depois de descobertas e conhecidas estas terras e estas gentes. falava Isaías. E se o conselho de Deus foi que o entendimento ou de todas ou de muitas cousas que ali contou o Profeta. sendo logo certo que estes segredos da Providência Divina se não podiam alcançar por ciência humana. corrida esta cortina. nem de tais frutos? E se ainda hoje. esta luz e posto que fossem varões santíssimos e tão favorecidos de Deus. visibilia fiant. e que depois chegasse um século em que se descobrissem e fossem visíveis. sendo ele mestre em Teologia: La falta de Geographia v la de otras artes liberales es causa que los teologos non atinem con el sentido de la divina Escritura. XXIV: . em que nenhuma destas cousas se sabia nem se imaginava. Diz o Apóstolo S.. e que a mesma Providência tinha decretado que se não soubessem por revelação? LAUS DEO 99 . naquele seu erudito livro da Conveniência das duas monarquias. Destas terras ultramarinas. quando disse no cap. estivessem ignoradas e invisíveis por tantos séculos. E logo acrescentou: Secretum meum mihi. Paulo que acomodou Deus e repartiu os séculos conforme os decretos da sua palavra. in insulis maris nomen Domini.» E se na mesma profecia estavam profetizadas as cousas. como podia ser que contra a verdade infalível da profecia soubessem os Antigos deste segredo. trabalhando por explicar de Espanha certo lugar de Isaías. romana e espanhola. não quis o mesmo Deus que eles então a tivessem. e assim como. por doutíssimos e sapientíssimos que fossem. ainda por falta de notícias mais particulares e miúdas. assim se entenderam e descobriram também os segredos e mistérios de suas profecias. mas esta revelação. e as gentes que o habitavam. antes as contrárias delas se tinham por averiguadas e certas? Frei João de la Puente. para que cousas invisíveis se fizessem visíveis: Fide intelligimus aptata esse saecula verbo Dei. e mais o segredo delas. porque sabiam a geografia do seu mundo e não podiam saber nem adivinhar a do nosso. sem agravo. tem por título Pro ignorantiis. antes de chegar o tempo em que Deus tinha determinado de o revelar? O cântico do profeta Habacuc. que agravos ou descréditos é ou pode ser dos antigos sábios. é obrigação e força que digamos ou suponhamos dos teólogos antigos. que para eles fossem ocultas. ut ex invisibilibus. e estivessem ocultas até àqueles tempos medidos e taxados por ele. se descobriram e manifestaram as terras e gentes de que tinham falado os Profetas. Só por nova revelação e luz sobrenatural podiam conhecer os autores daquele tempo o que nós tão fácil e naturalmente conhecemos hoje. diz assim dos teólogos. por onde não é muito que tanta parte do Mundo. encobertas e incógnitas. depois do Mundo estar tão descoberto e conhecido. este segredo é só para mim. se não acerta mais que em comum e individualmente com algumas das terras e gentes de que os profetas falaram. e se terem escrito tantos livros de sua história natural e política. em que tinha decretado que se soubessem e descobrissem. como verdadeiramente eram. que também trata destes novos descobrimentos ou triunfos da Fé e da conversão destas gentes. incógnitas ou ignoradas? Podem os homens ocultar os seus segredos. que seriam na confusão escuríssima da Antigüidade. e Deus não será senhor de reservar os seus. de tais rios. Dei Israel.in doctrinis glorificate Dominum.. de tais minas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro tinham notícia de tais sítios. porque era disposição mui assentada da sua providência que estas cousas se não soubessem.

Foi este império de Belo o dos Assírios ou Babilônios. e sendo tantos mais os de nações bárbaras e políticas que em diversos tempos do Mundo se têm levantado e caído.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 100 História do Futuro (Volume II. acabou em Dario. o da Etiópia. mais que duzentos e trinta anos. o de Alemanha. em respeito ou suposição dos quais este novo de que falamos se chama Quinto. com razão se deve duvidar e desejar saber a causa pôr que este nosso Império que prometemos recebe o numero de Quinto. em que sem o nome. Começou em Ciro. e pondo somente os olhos no mundo presente. teve. depois que a confusão das línguas na torre de Babel dividiu seus fabricantes em diversas partes da terra. na África. conforme Eusébio. se o considerarmos como monarquia. História do Futuro (Volume II. se sustenta a grandeza. entrando neste número Semearmos. Não durou. 3800 antes do presente de 1664 em que isto escrevemos. senão fundado e tirado das Escrituras divinas. reduzindo a sujeição e obediência política a liberdade natural com que todos até aquele tempo nasciam. Porque sem recorrer à memória dos tempos passados. durou. os quais em espaço quase de quatro mil anos têm sido com este quatro. 37 imperadores. Ao império dos Assírios sucedeu o dos Persas pelos anos da criação 3444. o dos Tártaros. de que foi o último Sardanapalo. filho do gigante Nembrot (posto que não faltam graves autores que fazem destes dois nomes o mesmo homem). posto que arruinada e combatida. contou por todos catorze imperadores. pois pode ser mais breve a vida de um império que a de . que foi o dos Gregos. e dos que em continuada sucessão se lhe foram seguindo até o tempo presente. para que vejam e conheçam as coroas quanto é grande a sua mortalidade. foi o primeiro que ensinou ao Mundo e introduziu nele a tirania. em que sem a grandeza se continua o nome. O terceiro Império. perto de mil e trezentos anos. Capítulo I) por Padre Antônio Vieira Entrando a tratar do Quinto Império do Mundo (grande assunto deste nosso pequeno trabalho) para que procedamos com a distinção e clareza tão necessária em toda a história e muito mais neste gênero. Na Ásia. e o de Espanha. e em todas estas três partes do Mundo o violento Império dos Turcos. cuja história profética. Tantos anos tardou a ambição em romper o respeito àquela lei com que nos fez iguais a todas a natureza. ainda durou menos. Capítulo II) por Padre Antônio Vieira Correndo os anos de 1860 da criação do Mundo. e quais sejam em ordem os outros quatro que lhe deram este lugar ou este nome. Havendo. tão estendido. o do Persa. a primeira cousa que se oferece para averiguar e saber é que impérios tenham sido ou hajam de ser os outros quatro. . homem. o vastíssimo Império da China. Ao que respondemos breve e facilmente que este modo de contar não é nosso nem de algum outro historiador ou autor humano. segundo Justiço. pois ainda nesta nossa idade tantos impérios. o do Mogor. sem fazer caso de muitos e grandes impérios que floresceram e haviam de florescer em vários tempos e lugares do Mundo. a que depois com nome menos odioso chamaram Império. Esta sucessão e seu princípio foi desta maneira. na Europa. tão poderoso e formidável. Belo.um. conhecemos hoje nele muito maior número de impérios. Alexandre o começou e acabou em Alexandre. castigo tão merecido a sua soberba como necessário à propagação do gênero humano e à o mesma grandeza que aspiravam. só trata do primeiro que se começou e levantou nele. tão unido. Começou este Império dos Gregos depois pelos anos do Mundo 3672.

por grandes e poderosos que fossem. o qual se há-de seguir ao Império Romano na mesma forma de sucessão em que o Romano se seguiu ao Grego. e este (que foi o que mais permaneceu) continuou com desigual fortuna trezentos anos. o Império Romano com toda a inteireza de sua monarquia 400 anos. com sucessão de 35 imperadores até o grande Constantino. como também nós a não fazemos. que eram ministros e como lugar-tenentes dos imperadores orientais. experimentou nela grandes variedades. podem acrescentar número ou lagar ao novo Império com que mude ou exceda o que lhe damos de Quinto. Gregos e Romanos (como logo veremos) se deve chamar com a mesma razão e propriedade o Quinto Império do Mundo. Durou. sendo sitiado e vencido por Maomete II. porque há-de suceder ao dos Assírios. tiradas de diferentes lugares do Texto Sagrado. porque sucedeu ao dos Assírios. até que. ao dos Persas e ao dos Gregos. que vão citadas . ficaram fora da ordem desta sucessão. sempre era muito conveniente dar-se logo neste princípio. eleito Carlos Magno em imperador do Ocidente. antes deles acabados. fundando nova corte em Constantinopla. Sucedeu esta mudança pelos anos de Cristo de 810. Nem eles. assim este nosso Império.à margem. porque. cuja notícia. sendo governado alguns anos por imperador com igual jurdição e majestade. posto que em matéria tão 101 . pois.a Alemanha. de que foi o último outro Constantino de muito diferente fortuna. porque sucedeu ao dos Assírios. o Grego ao Persa e o Persa ao Assírio. quando não fora tão necessária para o ponto em que estamos. o qual. Sustentou-se o Império Oriental por espaço de quatro mil anos. Havia já neste tempo setecentos anos que Rômulo levantara junto ao rio Tibre aquelas primeiras choupanas que depois se chamaram Roma. chamamos Império Quinto ao novo e futuro que mostrará o discurso desta nossa História. e porque todos os outros Impérios. em tempo o Papa Lúcio TII. e o dos Romanos se chama o quarto. ficando fora da mesma ordem. por muitos que hajam sido. diminuindo sempre em grandeza e majestade. depois daquela divisão. ao Pontífice passou o assento do Império . o ajuntou Marco Antônio à grandeza romana. porque sucedeu ao dos Assírios e dos Persas. Estes são em breve suma os quatro Impérios que desde o primeiro que houve no Mundo se foram continuando e sucedendo até o presente. e desde este tempo começaram as águias romanas a aparecer coroadas com duas cabeças. porque. se dividiu em três reinos: o da Ásia. Autores que dizem o mesmo. e com grande valor e zelo da Cristandade está resistindo-se (queira o Céu que seja com melhor ventura!) a outro Maomete. se passou o governo a exarcas. e o não pusemos no corpo da história por não embaraçar o desenho dela.perdeu a vida e a cidade e sepultou consigo todo o Império. O do Ocidente. trinta anos antes do nascimento de Cristo. dentro em Constantinopla . para melhor entendimento de tudo o que se há-de dizer adiante. por isso as Escrituras Sagradas não fazem menção nem memória alguma deles. em que contou oitenta e quatro imperadores. que hoje reina. que começou no primeiro e há-de acabar no Quinto (que será também o último). Tudo o que até aqui fica dito são suposições certas e sem dúvida. e o das Gregos se chama o terceiro. em Império Oriental e Ocidental. dividiu o Império. cujo Império começou com este nome em Júlio César. nos quais o Império. o da Macedônia.Anexo:Imprimir/ História do Futuro conservou-se unido somente oito. que foi o primeiro do Mundo. para melhor governo. E assim como o Império dos Persas se chama o segundo Império. Em respeito pois e suposição destes quatro impérios. até que. tem contado noventa imperadores até Fernando III. ficando Roma como cabeça da Igreja. Persas. passados e presentes. o do Egito. e. governado e não defendido pela celebrada Cleópatra.

irado grandemente Nabuco. como fica dito.pelo espírito de profecia que foi tão superiormente ilustrado. se no primeiro e mais fácil eles mesmos confessavam sua ignorância? Que se resolvessem a dizer logo uma e outra cousa. com cuja apreensão e assombro acordou de tal maneira perturbado e confuso. mandou logo chamar os maiores sábios dos seus reinos. Oro a Deus. que somente se lembrava que acabava de sonha. grandes e prenhes de mistérios.cousas prodigiosas. porque tinham . Livro I. como haviam de conhecer a significação dos futuros. assim como outros príncipes que têm fé e desmerecem por sua negligência e descuido até o conhecimento natural dos presentes. mas totalmente se esquecia quais foram. E assim o faremos agora. Viu pois Nabuco em sonhos uma visão admirável e portentosa. porque esta é a base e fundamento de toda a nossa História e assunto particular deste I Livro. o sucesso de muitas cousas futuras. os caldeus. Responderam os sábios que. para fundarmos bem a esperança deste grande futuro. mas porque o fez Deus particular profeta dos reinos e das monarquias. E assim. desvelado uma noite com os pensamentos da sua monarquia. estimulado igualmente do desejo e do temor que a mesma lembrança lhe causava. Não se aquietou Nabuco com esta resposta dos sábios. que era cousa passada. enganadores e indignos de crédito. alegaremos nos capítulos seguintes. o Império dos Assírios. No ano antes de Redenção do Mundo 450. Será pois a primeira pedra deste edifício uma grande profecia de Daniel. onde fora levado com El-Rei Joaquim no primeiro cativeiro ou transmigração dos Hebreus. como também deixamos dito. Nabucodonosor. . que eram os que pela observação das estrelas e outras professavam a ciência das cousas futuras. tem o primeiro lugar Daniel. Falaram assim. e depois de trazidos à sua presença. os aríolos. devemos recorrer principalmente aos que a Fé nos ensina que foram verdadeiros profetas. com toda a demonstração e certeza. Assim. senão que ele e sus famílias morreriam todas. porque isso era a sua profissão e o mais a que se estendia a ciência humana. mandou que os levassem de sua presença e que neles e em todos os professores das mesmas artes se executasse logo a sentença de morte. lhes declarou por si mesmo tudo o que lhe tinha sucedido. os magos. História do Futuro (Volume II. E como os tristes sábios respondessem outra vez que não sabiam nem podiam satisfazer ao rei no que deles queria. porque todos eram gentios. entre os quais. mas que adivinhar qual houvesse sido o sonho era segredo impossível de alcançar aos homens e reservado somente à sabedoria dos deuses.Anexo:Imprimir/ História do Futuro averiguada e sem controvérsia não são necessários autores. se não podiam saber o sonho. antes os argüiu com ela de falsos. ele e seus três companheiros. que era. o que resta e importa mostrar é que haja de haver sem dúvida este novo e prometido Império a que chamamos Quinto. e tão arriscado não satisfazer aos reis até no impossível! Achava-se neste tempo em Babilônia Daniel. um dos últimos reis imperadores de Babilônia. eles se obrigavam a declarar a significação de tudo.que também entravam no número dos condenados. sendo gentio. e mandou-lhes seriamente que não só lhe haviam de dizer logo a significação do sonho. porque. se o rei lhes manifestasse o que sonhara. Tão violentos são os apetites do poder supremo. em prêmio ou conseqüência deste cuidado mereceu que Deus lhe revelasse. e somente lhes haviam de dar crédito no segundo e mais dificultoso. senão também o que tinha sonhado. Capítulo I: Mostra-se a Quinta Monarquia com a profecia de Daniel) por Padre Antônio Vieira 102 Já dissemos que os futuros livros ou contingentes (qual é o Império que prometemos) só são manifestos a Deus e a quem os quer revelar. não .

como deixamos notado. viste mais que se arrancava uma pedra de um monte. dos joelhos de ferro. Rex. as quais porventura puderam parecer menos necessárias ao nosso argumento. primeiramente com assombro e pasmo do rei lhe contou muito miudamente por sua ordem a história do que tinha sonhado. rodeados de rústicos e tumulto popular. nem o lugar onde tivessem estado. Rex. ocupou e encheu toda a terra». videbas et ecce quasi statua una grandis: statua illa magna et statura sublimis stabat contra te et intuitus ejus erat terribilis. não por arte ou ciência minha. e no ouro. para crédito natural da mesma profecia. cogitare coepisti in strato tuo quid esset futurum post hoec. cortada dele sem mãos. que é o primeiro entre todos os metais. de estatura alta e sublime e de aspecto terrível e temeroso. e todo este aparato de circunstâncias com o Texto Sagrado descreve o sucesso dela. o que havia de suceder depois do tempo presente. e quando já a multidão dos sábios. folhe revelado pelo Céu o sonho e a interpretação dele. o ferro. a qual Nabuco de novo ia ouvindo e reconhecendo. Este é o prólogo da primeira profecia de Daniel. Estando assim suspenso no que vias. pois não só nos obrigam a que a creiamos por fé os que somos cristãos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro estudado. e depois com igual admiração e espanto de todos lhe foi explicando parte por parte os mistérios e segredos futuros que tão prodigiosa visão em si encerrava. se não por revelação sua. por isso estava representado na cabeça. e os diferentes metais de que era composta as mudanças que o mesmo Império havia de ter em diferentes tempos e para diferentes nações. lembrando-se outra vez de tudo pela mesma ordem com aquela espécie de memória a que os filósofos chamam reminiscência. A cabeça de ouro significava o Império dos Assírios. mas nós as quisemos resumir brevemente aqui. pelas palavras com que Daniel a referiu. que foi levada dos ventos. começavam a caminhar para o lugar do suplício. e porque este Império. de que nós diremos agora somente o que pertencer ao ponto em que estamos. e nem aqueles metais apareceram mais. e posto em sua presença e na dos maiores príncipes de Babilônia que o acompanhavam. é a seguinte: Tu. o ventre até os joelhos de bronze. o ouro. e q. e o que eu agora te direi. ó Rei. os pés de ferro e de barro. «Começaste a cuidar. 103 . . diz Daniel. Seguiu-se à história do sonho a interpretação dele. A história do sonho. e o Deus que só pode revelar os mistérios e segredos ocultos. mas se podem convencer com elas por discurso até os mesmos Gentios. Oferece-se a declarar o sonho. etc. e fazendo-se um grande monte. que é o princípio do corpo. a prata. te mostrou naquela visão tudo o que está para vir nos tempos futuros. porém a pedra que tinha derrubado a estátua cresceu. Até aqui a relação do sonho. e mostrar como só o Deus verdadeiro. as ciências de Caldeia. Parecia-te que vias defronte de ti uma estátua grande. Então se desfizeram juntamente o barro. a derrubava. deitado no teu leito. por mandado do mesmo rei. usque ad implevit universam terram. Disse pois Daniel que aquela grande estátua significava a sucessão do Império do Mundo. reservando o de mais (que é muito) para seus lugares. e se converteram em pó e cinza. Hoc est somnium. Tu. o peito e os braços de prata. A cabeça desta está tua era de ouro. depois de confessar a insuficiência sua e de todo o saber humano. o bronze. dando nos pés da estátua. a quem ele servia e que fora o autor daquele sonho. pede que o levem a Nabucodonosor. et qui revelat misteria. em que Nabucodonosor naquele tempo reinava. faz parar a execução Daniel. foi o primeiro e o princípio de todos os Impérios. o podia revelar e a significação dele. ostendit tibi que ventura sunt.

as quais lhe foram tirando as mesmas nações que ele tinha sujeitado. assim o Império Romano e o poder invencível de suas armas havia de abater. et regnum tertium aliud oereum [.de todas as histórias. são umas divisões ou . E este é o verdadeiro. na divisão de uma e outra perna da estátua se representava a divisão do Império Romano nos dois impérios. sic comminuet et conteret omnia hoec. segundo e terceiro reino: Et post te consurget regnum aliud minus te argenteum. mas porque o mesmo peso e grandeza. que sucessivamente se haviam de continuar uns aos outros. vencidos estes por Ciro. O ferro finalmente. por o dizer com mais propriedade e certeza. Tudo o que até aqui fica dito é de fé. significavam dez reinos. disse porém expressamente que os três metais significavam três reinos. e que se seguiu a eles. corta e doma os metais. ainda que Daniel na sua explicação do sonho não nomeou as três nações de Persas. desfazer. certo e indubitável sentido de interpretação de Daniel. se havia de dividir. O bronze.retalhos do Império Romano.. e o mesmo Império dos Gregos. em que não há discrepância nem dúvida alguma.. aprovado e seguido por todos os Padres e expositores deste lugar. assim este é e há-de ser o último Império dos que naquela estátua se representavam. significava o Império dos Persas. assim o Império Romano teve sobre si e em si o peso e grandeza de todos os outros impérios que nele se uniram e ajuntaram. uns maiores outros menores. e consta pela experiência e pelo testemunho . significava o Império dos Gregos. vencidos estes por vários capitães de Roma. sujeitar e dominar todos os outros impérios. Para cuja inteligência se deve notar que tudo o que hoje possuem os príncipes cristãos na Europa. que é o segundo metal. que foi o terceiro depois dos Persas e se seguiu depois deles. restituindo-se outra vez a sua primeira liberdade e soberania. sobre as quais toda a máquina daquele portentoso colosso se sustentava. que é o quarto metal. ou se segue imediatamente dela. sem haver algum que lhe possa resistir. quomodo ferrum comminuit et domat omnia. assim como o peito e braços se seguem à cabeça. e o mesmo Império dos Persas. passou e se incorporou no Império Romano. que foi o segundo depois dos Assírios.] et regnum erit velut ferrum. na sua última declinação. que sucedeu aos três primeiros. e tudo o que na Europa. Assim como. e assim como as pernas e pés são a última parte do corpo humano. vencidos estes por Alexandre. um em Roma outro em Constantinopla. diz particularmente Daniel que foi porque. sinalando-os nomeadamente por primeiro. assim como o ferro lima. recebido. Gregos e Romanos. bate. que foi e é o quarto Império. em que se dividiam. porque.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A prata. passou aos Gregos. A razão ou mistério por que o Império Romano se representou no ferro. Et regnum quartum erit velut ferrum. consta que o mesmo Império que primeiro foi dos Assírios. assim os dez dedos. Mas não parava aqui a propriedade da semelhança. ficaram verdadeiramente sendo estas duas partes do Império Romano como duas colunas naturais de ferro. assim como os pés da estátua sustentavam e tinham sobre si o peso e grandeza de toda ela. não só humanas. o dos Gregos e o dos Romanos: ou. e as partes ou membros de que aquele vastíssimo corpo na sua maior grandeza e potência se compunha. como acima vimos. que é o terceiro metal. em que a grandeza do mesmo Império Romano. como 104 . significava o Império dos Romanos. não só porque. foi causa de que o Império Romano se dividisse em dois impérios ou duas partes iguais do mesmo. na África e na Ásia possui o Turco. passou aos Persas. senão também das sagradas e divinas. E quadra maravilhosamente no Império Romano a figura das duas pernas e pés da estátua em que foi representado. pondo um pé no Oriente outro no Ocidente. que os três reinos e impérios que sucessivamente se seguiram ao dos Assírios foram o dos Persas. assim como o ventre se segue depois do peito. com a qual divisão.

principalmente na sua última idade e declinação. e nesta diz clara e expressamente que os dedos dos pés da estátua significam a divisão do Império: Porro quia vidisti pedum et digitorurn partem testæ figuli et partem ferream: regnum divisum erit. Inglaterra. especifica este número. et ex parte contritum. se bem contarmos os reinos em que hoje está dividido ou despedaçado o que antigamente foi e se chamava Império Romano. et parte fictiles: ex parte regnum erit solidum. como depois veremos. porque. uns mais fortes outros menos. que é o estado em que o vemos. Assim se dizia e escrevia então. Castela França.. allerum vero constantinopolitanum. e depois dele outros muitos: por decem digitos partim ferreos et partim terreos significatur Romanum Imperium novissime iri in multa regna multosque reges. Dinamarca. Polônia e Estado ou Império Turco. Nas quais . alii minores et imbecilliores futuri sint. commiscebuntur quidem humano semine. E a mesma oposição tão bizarra com que as armas do Império nas fronteiras de Alemanha e Hungria. por agora baste esta divisão que nós pusemos em primeiro lugar por ser mas fácil. e o mesmo Império Romano. Passa finalmente o mesmo Profeta a declarar o mistério ou significação do barro de que os dedos eram compostos em uma parte juntamente com outra de ferro. desde o tempo de sua maior declinação a esta parte. quorum alii maiores et potentiores. e diz assim: . disciplina e constância. Moscóvia. sem ter perdido cousa alguma sua grandeza. Græcorum seu Orientis.palavras diz Daniel que o barro dos pés dá estátua significava a debilidade e fraqueza a que o Império Romano.pontualmente em dez partes ou dez reinos. como nota neste lugar o mesmo autor alegado. senão compostos parte de barro e parte de ferro. pode ser entendida e percebida de todos. era opinião comum (como diz o mesmo santo) de todos os escritores eclesiásticos que o Império se havia de dividir em dez reinos. que compreende Alemanha e Itália. nas quais em defesa da própria e da Igreja têm pelejado os exércitos imperiais com grande valor. com a notícia vu1gar que se tem do Mundo. que já antes dos tempos de S. havia de descair. Suécia. comprovando-se a verdade desta interpretação com a experiência e confirmando-se ser este o verdadeiro sentido da profecia com o cumprimento dela. o que se tem visto e experimentado no Império Romano. et sub Imperio Turcorum. E é tão verdadeira e tão antiga esta interpretação dos dez dedos da estátua. senão partes e 105 . Quod autem vidisti ferrum mistum testæ ex luto. e assim o estamos vendo hoje. depois de tanta potência. ao pé da letra. o Profeta que não eram os dedos totalmente de barro. sed non adhærebunt sibi. Et digitos pedum ex parte ferreos. debilidade e fraqueza conservaria o Império algumas partes sólidas em que permanecesse a dureza e fortaleza do antigo ferro de que todo antes era formado. Adjice. Ao diante dividiremos estes mesmos dedos da estátua em outras partes que temos por mais proporcionadas. outros menores. E se uns reinos destes são maiores.Anexo:Imprimir/ História do Futuro hoje estão. E posto que Daniel nesta profecia não declara com tanta miudeza que a divisão do Império Romano há-de ser . sem reconhecerem sujeição nem obediência alguma ao Império Romano. e alcançado de seus inimigos gloriosas vitórias. que é. essa mesma é a propriedade dos dedos. acharemos pontualmente que são dez reinos: Portugal. e o mesmo Imperador em pessoa estão hoje resistindo às invasões do Turco e poder otomano. Adverte. Hierônimo em que o Império Romano estava íntegro e potentíssimo.. contra hereges e contra alguns príncipes cristãos. quod vidisti ferrum mistum testæ ex luto. que outra cousa são ainda. partes sunt Imperii Romani tanquam rami ex una illa Imperii arbore decisi. em tantas ocasiões de guerras e batalhas contra Turcos. Ad extremum (diz Perério) ex uno duplex factum est Imperium Romanum: alterum Latinorum seu Occidentis. em outra profecia. sicuti ferrum misceri non potest testæ. porque nesse mesmo estado de sua declinação. quod omnia regna quæ nunc sunt apud Christianos. porém. e porque.

Quantas vezes se intentou na Europa que entre os imperadores e reis da Cristandade se estabelecesse uma liga firme. acode Daniel a esta objeção.mesmas mãos que. não seja o mesmo? Tão misturado anda o sangue nestas últimas relíquias do Império Romano. os quais. se gota por gota lhe distinguirem o sangue. e por isso o mesmo império tão enfraquecido! Nasceu juntamente com Roma esta fatal desunião contra o respeito do sangue em Rômulo e Remo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro partes muito sólidas daquele mesmo ferro? Mas vindo às partes de barro: estas são (diz Daniel) aquelas províncias e nações que.pelo matrimônio se uniram. no mesmo dia em que isto estou escrevendo se está cumprindo esta profecia. viu-se no casamento de Pompeu com Júlia. e no de Marco Antônio com Octávia. acrescentando em todas estas circunstâncias novas e admiráveis confirmações à verdade da sua Profecia. em que o sangue que de uma e outra parte se defende. quão facilmente se desatam. Significam os dedos dos pés da estátua as últimas extremidades do Império Romano e a sua duração. mas tão resumido sempre. se amarram contra si. abrasados e feitos em cinzas. cunhado do Imperador. filha de Júlio César. e formaram novos reinos. antes. filha de Octávio. com os poderosos exércitos do Turco metidos dentro na Áustria. depois de profanados. ainda que em si mesmos sejam muito poderosos e fortes. e quase. e. e o mesmo de Castela ou Espanha. e. sicuti ferrum misceri non potest testæ. em respeito porém do Império de que se apartaram e que tanto desuniram e enfraqueceram com sua separação. «bem como o ferro se não pode unir nem ligar com o barro. primo do Imperador. e que sangue mais repetidamente unido por multiplicados casamentos que o de Áustria e Castela? E que pessoa real há também em que mais apertadamente estejam atados estes vínculos e mais dobrados todos estes respeitos que na de El-Rei Filipe IV. genro do Imperador? Considere agora o Mundo o estado em que o mesmo Imperador se achou no ano passado e em que se acha no presente. não são nem se podem chamar senão partes de barro. E tal é hoje o Reino de França.» A tanta miudeza como isto desceu o Profeta. se eu me não engano. casando os imperadores nas casas reais dos outros príncipes e os reis na dos imperadores. Que casa real há no Mundo mais ligada com a do Império. e verdadeiramente se possam chamar partes de ferro. e ainda o que se derrama. batendo às portas de Praga. as cidades destruídas. e quantas vezes se liaram os mesmos príncipes entre si por meio de recíprocos casamentos. sem jamais se conseguir a união desejada! Que imperador ou que rei houve na Cristandade há muitos anos que. em respeito do Império Romano. interpondo-se para isso a autoridade dos Sumos Pontífices. dizendo: Commiscebuntur quidem humano semine «misturar-se-ão e ligar-se-ão no sangue». e sendo estes muitas vezes eleitos das mesmas famílias que do Império se apartaram. porque não são os dos pés da estátua ou os dos dedos dos pés. não tenha cada um dos outros príncipes quase iguais partes nele? E que guerras vimos ou sabemos entre estas coroas. corte do Império. as . que ramo há que seja mais próprio daquele tronco. o de Inglaterra e da Suécia. os homens barbaramente mortos a sangue-frio. as mulheres e meninos cativos e transmigrados para a Turquia. sendo partes do antigo Império Romano. vemo-lo todo infelizmente convertido contra Portugal. se desuniram e tiraram de sua sujeição. os campos talados. os templos e pessoas dedicadas ao templo em abomináveis sacrilégios profanados. mas por isso mesmo infelizmente! Se este ferro se unira ao Império contra o 106 . e neste mesmo tempo em que o ferro de Espanha se havia de unir todo ao ferro do Império. sed non adhærebunt sibi «mas nem por isso se unirão nem ligarão entre si». Mas não são estes exemplos tão antigos os de que fala a profecia de Daniel. E porque não cuidasse alguém que a união que se perdeu pela separação das coroas se recuperou e supriu pela conjuração do sangue.

e mando que lhe oferecessem incenso e sacrifício. continuou e concluiu desta maneira: In diebus autem regnorum illorum etc.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Turco. e tão valoroso. esta é a queixa que . irmã de el-Rei Filipe IV. nem haver de ser conquistado. sem haver de vir jamais por acontecimento algum a domínio ou poder estranho. para que triunfem nas bandeiras otomanas as luas de Mafoma.Daniel explica e pondera na mesma fraqueza. refere o mesmo texto em as seguintes: Tunc rex Nabuchodonosor cecidit in faciem suam. é barro. significa um novo e quinto Império que o Deus do Céu há-de levantar no Mundo nos últimos dias dos outros quatro. dissipado ou destruído. «Verdadeiramente o Deus que adoras.as chagas de Cristo! Este é o barro dos pés da estátua. filha de Fernando. mostrando que a principal causa de toda ela é a desunião daquelas partes que por serem mais conjuntas em sangue e parentesco. que faria se lhe dissesse ser e1e o senhor do 107 . tinham obrigação de ser mais unidas »— commiscebuntur quidem humano semine »— isto é. prostrou-se diante dele e adorou-o com o rosto em terra. quoniam tu potuisti aperire hoc sacramentum. ó Daniel.. et hostias et incensum præcepit ut sacrificarent ei. segundo. fora ferro. se empregara com glória imortal de ambas as coroas em defesa da Fé. que derrubou a estátua e desfez em pó e cinza todo o preço e dureza de seus metais. o qual. o primeiro. acrescenta imediatamente o que Nabucodonosor lhe fez e o que lhe disse. e ele só há-de permanecer para sempre. segue-se agora ver o quinto na mesma história do sonho de Nabuco e na mesma interpretação de Daniel. Quanto melhor e mais católica ação fora. Este Império os há-de desfazer e aniquilar a todos. quæ ventura sunt postea. Estas são as cousas futuras que Deus te quis mostrar. pudeste declarar este grande segredo e sacramento. terceiro e quarto império. que viste arrancar e descer do monte. e se conquistem e sejam vencidas nas portuguesas .. Quer dizer: aquela pedra.et verum est somnium et fidelis interpretatio ejus. ó Rei. a quem tão de perto ameaça este golpe! Mas quando todo o poder de Espanha se havia de achar unido contra o Turco em socorro de Alemanha e Itália. e quanto de maior exemplo para todos os príncipes católicos e de menor escândalo para os hereges e para os mesmos Turcos se o sangue espanhol. levantam-se os de Alemanha e chamam-se todos a Castela contra Portugal. et Dominus regnum. porque se desune dele em tal ocasião e se converte contra Portugal. et revelans mysteria. como sucedeu ou há-de suceder aos demais. com lástima e lágrimas da Igreja. et Danielem adoravit. foi o ano passado e. da Religião. casará o Imperador Fernando com Maria. «Tanto que o rei acabou de ouvir a Daniel. depois das palavras ultimamente referidas. ó Rei. quando lhe disse que seu império se havia de acabar e passar outros quatro. despovoam-se os presídios de Itália. desde a cabeça até os pés da estátua. casará Filipe IV com Leonor. barro há-de ser também no presente.» Se isto fez Nabucodonosor a Daniel. Barro e barro quebradiço. por mais que se mostre ou ameace ferro. no campo de Portugal e Castela. é o Deus dos deuses e a Senhor dos reis. esta é a fraqueza das extremidades do Império Romano. e da mesma cabeça dela. e o que só conhece e revela as mistérios escondidos aos homens. mas. O que fez Nabuco no mesmo tempo. e ainda antes de dizer estas palavras.. O que lhe disse foi: Vere Deus vester Deus deorum est. da Cristandade. alumiado por ele. pois tu. Temos visto até aqui. que de uma é outra parte se desperdiça. mas nas últimas extremidades do Império Romano e nos seus maiores apertos e trabalhos não se acharam parentes nem aderentes »— sed non adhærebunt sibi. e este é o sonho que tiveste e esta a verdade de sua interpretação -. Depois de contar Daniel toda esta prodigiosa história.

Esta suposição é de fé.».. em outro sonho e em outras figuras lhe fez segunda vez a mesma representação. como tem a opinião mais comum dos Doutores. depois dos três impérios dos Assírios. E logo levantou as mãos da terra e se pôs em pé e ficou em figura de homem. profeta chama bestas grantes: . que já passaram. significar por repetidas visões o mesmo mistério e por diferentes figuras a mesma revelação. et ecc alia quasi pardus. Passados 47 anos depois daquela visão (que foi o ano 54 do último cativeiro de Babilônia). e não levou assim muito tempo. reinando já nela Baltasar. no sonho de Nabucodonosor e na visão daquela estátua. Livro I. «Saiu a primeira besta semelhante a uma leoa com asas de águia. «Saiu a segunda besta semelhante a um urso. aspiciebam donec evulsæ sunt ale ejus. horrível. Mas este ponto ficará para seu tempo e para seu lugar. porque assim se infere por bom discurso.et ecce quatuor venti coeli pugnabant in mari magno.» Post hæc aspiciebam. espantosa e muito forte. Assim mostrou a El-Rei Faraó os sete anos da fartura e os outros sete da fome. (ou fosse dormindo e em sonhos. O que deste somente quero recolher e deixa assentado é que. et quator bestiæ grandes ascendebant de mari diversæ inter se. Assim mostrou antigamente a José suas felicidades. e foi-lhe dado grande poder. há-de haver um novo e melhor império que há-de ser o quinto e último. como outros suspeitam. et cor hominis datum est ei. et in dentibus ejus. digo. porque assim o lemos nas Escrituras. ou fosse. entre os quais trazia três bocados. Capítulo II: Segunda profecia de Daniel) por Padre Antônio Vieira 108 Não é cousa nova em Deus quando revela cousas grandes. e tinha quatro asas como ave e quatro cabeças. pôs o Profeta nela os olhos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro quinto? Naquele tempo pagava-se a interpretação de uma profecia infeliz com adorações e sacrifícios hoje pagam-se as interpretações felicíssimas com opróbrios e calúnias.. antes mais portentosa em tudo e mais notável. História do Futuro (Volume II. acordado. diz o Profeta e por fim de todas entrou «a quarta besta. et alas habebat quasi avis. E assim nos tempos em que agora imos. a que o. nada menos misteriosa e cheia de circunstâncias. que é o romano. comede carnes plurimas. velando) viu. e depois do quarto. porque assim o mostrou o sucesso dos tempos. primeiro no sonho das paveias dos onze irmãos que adoravam a sua. que ainda hoje dura. tinha três ordens de dentes. quatuor super se et quator capita erant in bestia et potestas data est ei. «Depois desta saiu a terceira besta semelhante a leopardo. et sublata est de terra. Vejam lá os leões se lhes tira Deus as asas para [que] sejam homens! Prima [bestia] quasi leæna et alas habebat aquilæ. e diziam-lhe que comesse e se fartasse de carne» Et ecce bestia alia similis urso in parte stetit. e depois no do Sol e nas estrelas que lhe faziam a mesma adoração. et tres ordines erant in ore ejus. firmou-se sobre os pés e parou. e é de razão. Tinha os dentes de ferro grandes com que comia e despedaçava . e depois no das sete espigas gradas e sete falidas. que os quatro ventos principais se davam batalha no meio do mar e levantavam uma horrível e furiosa tempestade. mas o mar assim perturbado e temeroso não era mais que o teatro em que haviam de sair a representar quatro figuras horrendas. primeiro no sonho das sete vacas robustas e sete fracas. é de experiência. Durava ainda a noite. et super pedes quasi homo stetit. que sucedeu a Nabuco no Império dos Assírios ou Caldeus. que a primeira. até que lhe foram tiradas ou arrancadas as asas. Persas e Gregos. et sic dicebant ei: Surge. viu o Profeta Danie1 em uma visão de noite. depois de revelar Deus a Daniel o secreto do Quinto Império.

«levantou Daniel os olhos ao céu e viu que se armava um tribunal de juízo. «Com a qual (diz Daniel) ficou o meu espírito assombrado e cheio de horror. et ecce cum nubibus coeli quasi filius hominis veniebat.Anexo:Imprimir/ História do Futuro tudo o que lhe caía da boca ou não queria comer pisava com os pés. Thronus ejus flammæ ignis: rotæ ejus ignis accensus. e por isso repetimos as palavras do texto: Aspiciebam donec throni positi sunt. Trouxeram-se cadeiras e assentou-se em um alto trono um velho de venerável ancianidade. E volvendo eu no pensamento que significariam aquelas cousas. vieram os livros e abriram-se». tribus et linguæ itsi servient: potestas ejus. assentaram-se os conselheiros ou juizes assessores. acabaram. a honra e reino de todo o Mundo. Daniel via que de entre as dez pontas da quarta besta saía uma ponta menor que as outras. et libri aperti sunt. limitando-se a cada uma o tempo determinado de sua duração. Esta é pontualmente a relação de todo o sonho ou história enigmática. grandeza e majestade. e todas as línguas o obedeçam e sirvam. aliarum quoque bestiarum ablata esset potestas. cheio com grande aparato de horror. cuja narração e mistérios pertencem ao Livro V desta nossa História. Os ministros que lhe assistiam de uma e outra parte eram milhares de milhares. a quem o Profeta chama Antigo dos dias. quod non cortumpetur. como também outras circunstâncias desta mesma visão que expenderemos em seus lugares. et omnes populi. Et vidi quoniam interfecta esset bestia. a matéria do trono era fogo. Torna a dizer o Profeta que «ainda durava a noite e viu vir rodeado de nuvens do céu um como filho do homem. et capili capitis ejus quasi lana munda. Fluvius igneus. aquele como arminhos. quas videram ante eam. Acabou também a quarta besta. como fazemos. para maior crédito da verdade em tudo o mais que imos referindo. e de fogo também um rio arrebentado que da boca lhe saía. Millia millium ministrabant ei. estas como neve. umas rodas sobre que o trono estava levantado também fogo. et fortis nimis. representada nele. para onde o reservamos. A primeira sentença ou execução que saiu deste juízo foi que à primeira. não ficando de tanta grandeza e bravosidade mais cinzas. porque nunca jamais lhe será tirado» Aspiciebam ergo in visione noctis. segunda e terceira besta se tirasse todo o poder. cujo cabelo era todo branco. et in conspectu ejus obtulerunt eum. et cornua decem. Et dedit ei potestatem et honorem et regnum. e tinha na testa dez pontas». E continuando o que pertence a este. E ele lhe deu o poder. e que todo aquele grande corpo perecera. et ecce bestia Quarta terribilis atque mirabilis. Post hæc aspiciebam in visione noctis. porque «viu o Profeta que fora morta violentamente. a qual obrou grandes estragos e outras cousas prodigiosas. eterno também o reino. et usque ad Antiquum dierum pervenit. Este é o aparato daquele tribunal e juízo. et reliqua pedibus suis conculcans: dissimilis autem erat ceteris bestiis. et regnum ejus. rapidusque egrediebatur a facie ejus. descrito ou construído ao pé da letra. et perisset cortus ejus. comedens atque comminuens. et tempora vitæ constituta essent eis usque ad tempus et tempus. e brancas as roupas de que estava vestido. Enquanto tudo isto notava. e que fora entregue ao fogo para ser queimado». et Antiquus dierum sedit: vestimentum ejus candidum quasi nix. potestas æterna quæ non auferetur. Este seu poder será eterno. et traditum esse ad comburendum igni. Era mui diferente de todas as outras bestas. dentes ferreos habebat magnos. para que todos os povos e todos os tribos. cheguei-me a um dos ministros que ali 109 . o qual chegou ao trono do Antigo de Dias e o ofereceram em sua presença. et decies millies centena millia assistebant ei: judicium sedit. o qual acabado.

Primeiramente diz Daniel (ou disse a Daniel o seu intérprete) que «aquelas quatro bestas grandes significavam quatro reinos ou quatro impérios. que é o Romano. summatimque perstringens ait. Esta é a interpretação em comum que deu o intérprete do Céu a toda a visão. E ele o fez assim e me ensinou a interpretação e mistérios de tudo o que tinha visto». a terceira. que e a demonstração do Quinto Império.Anexo:Imprimir/ História do Futuro assistiam. quæ consurgent de terra. que são o dos Assírios. e o quarto. que é o tempo dos Persas. como agora veremos. declarando todas as figuras dela pela mesma ordem com que foram saindo. Respondo que o Profeta na sua interpretação se acomodou com grande propriedade à figura do enigma que declarava. senão como um só corpo ou um só indivíduo. e assim como da quatro corpos dos quatro impérios se formou um corpo. a quarta. que é o tempo dos Gregos. que é o tempo dos Assírios foi idade de ouro. mas todos os expositores concordam em que o mar significava o Mundo. movimentos. satisfaremos um argumento que nos fica no texto de Daniel. nem outro reino algum ou império que lhe suceda. advertindo o que o Profeta e seu intérprete exprimiram. exprimindo com grande particularidade e miudeza tudo o que pertence a ele. Da mesma maneira a duração da estátua dos impérios era composta de diferentes idades. foi idade de prata. et obtinebunt regnum usque in sæculum et sæculum sæculorum. Porque Deus. assim das quatro durações dos quatro impérios se há-de compor uma só duração. não como quatro corpos ou quatro indivíduos. que é o 110 . Até aqui o mesmo Profeta. porém. pedindo-lhe me quisesse declarar o verdadeiro sentido delas. et somninm scribens brevi sermone comprehendit. e o que acontece em qualquer destas idades se diz com toda. Por isso viu o Rei não quatro estátuas senão uma só estátua. antes que passemos adiante. Diz o texto que levantará Deus esta nova monarquia in diebus regnorum illorum. guerras e perturbações que se costumam experimentar no mesmo Mundo. também está na última declinação. donde segue que com toda a verdade se pode afirmar que sucederá nos dias daqueles Reinos o que sucede nos dias de qualquer deles. nem que tempestades se levantaram no mar antes de sair nele as quatro bestas. sobre a qual nos explicaremos mais particularmente. esta monarquia não é futura se não passada. coligido porém tudo imediatamente do mesmo que dizem. nos dias daqueles impérios. que sucessivamente se haviam de levantar no Mundo depois dos quais se havia de seguir outro quinto reino ou império. foi idade de bronze. porque dos quatro impérios já passaram totalmente os três. Não declara Daniel que ventos fossem aqueles. a segunda. E a razão de passar por aquelas circunstâncias tão brevemente ou foi porque as supôs bastantemente declaradas na visão do segundo capítulo ou sonho de Nabucodonosor que acabamos de explicar. porque não deixemos o inimigo nas costas. representou todos os quatro impérios. Logo. referindo a dita interpretação. Hæ quatuor bestiæ magnæ quator sunt regna. propriedade e verdade que acontece nos dias daquele homem. o dos Persas e o dos Gregos. quando nele se levantam novos impérios. Daniel somnium vidit. A sua primeira idade. no sonho de Nabucodonosor. o qual não há de ter mudança nem variedade. e suprindo com a exposição dos Doutores o que eles calaram. sem dúvida para não exceder a brevidade que no princípio deste capítulo tinha prometido. passa em silêncio algumas circunstâncias dela. Mas. porque há-de durar para sempre. Exemplo: a vida de um homem compõe-se de muitas idades. o qual. ou certamente porque as julgou de menos importância ao seu interesse principal. que o mesmo intérprete chama Reino dos Santos do Altíssimo. e os ventos e tempestades que o alteram as alterações. Suscipient autem regnum sancti Dei altissimi.

cada tiro ou parelha de diferentes cores. senão que ainda está por vir. pela segunda murzelos. ao uso daqueles tempos. Vendo estas carroças Zacarias e não entendendo o que significavam. e que com licença do Dominador a tinham passeado toda. aos da segunda negros. e que os cavalos negros tinham saído contra as terras do Norte. assim parece que se deve construir o texto na forma da nossa cavalaria. e mais trabalho tem dado aos expositores deste lugar a declaração do Anjo que a visão do Profeta. que é desta maneira: estas carroças significam os mesmos quatro impérios que Deus mostrou a Daniel. Diz pois o Profeta Zacarias. a segunda em tempo de Baltasar. como tão poderosas . Livro I. e a mesma sucessão de impérios que revelou a Daniel em umas figuras a mostra agora ao Profeta Zacarias em outras. assim como iam sucedendo os reis. foi idade de ferro. porque Deus. principalmente destas quatro. diz que o perguntou a um anjo que falava dentro nele. aos da terceira brancos. e Deus multiplicando as revelações. viu que do meio de dois montes de bronze saíam quatro carroças puxadas por quatro cavalos. Mas. a quinta. A primeira profecia de Daniel foi a mesma de Nabucodonosor. Até aqui a interpretação do Anjo. De modo que. Capítulo III) por Padre Antônio Vieira 111 Prova-se o mesmo contra outra profecia de Zacarias Assim como Deus dobrou as visões.Anexo:Imprimir/ História do Futuro primeiro Império dos Romanos. pela quarta remendados. e estes entre os outros diz que eram os mais fortes. e após eles os brancos. daquela estátua ou daqueles reinos se haja de levantar o Quinto Império. e foram estes impérios representados ao Profeta em figura de carroças. mas sempre mostrando pela mesma forma primeiro os quatro impérios e depois o quinto. e destes os mais fortes trataram de discorrer por toda a Terra. Assim que o Império que promete Daniel não é império já passado. para mostrar a violência e velocidade com que seus fundadores conquistariam e sujeitariam por armas os reinos terras e gentes de que se haviam de formar os ditos impérios. mas na frase do mesmo texto chama aos da primeira carroça ruivos. que é este último tempo dos mesmos Romanos. Pela primeira tiravam cavalos melados. como decrépita. os vários saíram contra as do Sul. História do Futuro (Volume II. como supremo Senhor dos Exércitos. que sucedeu a Nabuco. Estas carroças diz o Anjo que estavam prontas como ventos para execução dos mandados do Dominador da terra. se servia sempre das armas de todas as nações. a principal força dos exércitos consistia nas carroças armada que eram as que faziam maior estrago na guerra como se vê nos casos tão celebrados. na qual e na visão do Profeta seguiremos a comum sentença dos Doutores. in diebus regnorum illorum. no capítulo VI da sua profecia. es1a terceira de &carias em tempo de Hidaspes. Respondeu pois o Anjo que aquelas quatro carroças (dos montes não disse nada) eram quatro ventos doces que assistiam ao dominador da Terra para executarem suas ordens. ou porque este anjo falasse mais culto que o de Daniel. que sucedeu a Baltasar. é idade de ferro e barro. aos da quarta vários. ou porque Zacarias se entendia por dentro com e1e acham os Doutores que explicou um enigma com outro. para que com toda a verdade e com toda a propriedade se verifique havê-lo Deus de levantar nos dias daqueles reinos. assim dobrou também as testemunhas . e declarados pelo Anjo em metáfora de ventos. iam sucedendo as profecias. porque. E basta que nesta última idade. pela terceira pombos. levantando os olhos (ou levantado-lhos Deus da atenção das cousas presentes para a visão das futuras).

e ali acabou o Império dos Gregos. e ali acabou o Império dos Assírios. diz que foi atrás da primeira. De toda esta combinação das histórias com a profecia. quando El-Rei Assuero. nações. fins e todos os sucessos desses Impérios tão ajustados com as propriedades das figuras que as representavam. foram vários para com os Hebreus. como Pompeu. e assim foi. e mais que todos Alexandre Magno. que já havia muito tempo florescia. e que a correram e passearam. princípios. A segunda carroça representava o Império dos Persas. último imperador dos Persas. e que isto foi o que Deus e o Anjo quiseram significar ao Profeta. dos cavalos vários. porque. e tiravam por ela cavalos ruivos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro para a execução de seus divinos decretos. porque os Romanos passaram por várias vezes à conquista do Egito. Ultimamente diz que os cavalos mais fortes ou os robustíssimos da quarta carroça quiseram correr e passear toda a Terra. para significar os danos. que são os Persas. e tiravam por ela cavalos vários. como a primeira carroça significava o Império dos Assírios. Tibério. Trajano. perseguidores e cruéis. a dos cavalos brancos. assim no ódio como na benevolência. E posto que os Romanos absolutamente não conquistaram o Mundo como é em si. outros inimigos. porque também os Persas afligiram e foram lutuosos aos Hebreus. persuadido pelos enganos de Amão. Augusto. reduziu o mesmo Egito a província. assolações e incêndios com que os Assírios conquistaram destruíram e abrasaram o povo hebreu. e da consonância e harmonia dos tempos. que é admirável confirmação de serem significados nas quatro carroças os quatro impérios. cor pacífica e alegre. principalmente no cativeiro de setenta anos a que eles com razão chamavam fornalhas da Babilônia. Cláudio. que mais é uma metade que parte do Mundo. como Cipião. como escreve Suetónio. fundador daquele império. como escreve Crítio e Plutarco. César. não duvidou de adorar no templo ao pontífice Jada. em que Augusto desbaratou a Cleópatra e Marco Antônio. uns amigos e propícios. Vespasiano. e depois da vitória chamada actíaca. lugares. porque os Gregos venceram e destruíram a Dario. Porque. que é cor de fogo. cuja fundação e sucessos estavam ainda por vir. como Júlio César. cor de tristeza e luto. dos cavalos negros. Finalmente. cuja majestade. principalmente naquela grande aflição. Calígula. Vespasiano. a quarta carroça representava o Império Romano. porque nunca chegaram à América. Tito. Teodósio. A primeira carroça representava o Império dos Assírios. A terceira carroça. 112 . E assim declarou somente o Anjo os três impérios seguintes. porque os Persas devastaram e ocuparam a Babilônia que fica para a parte do Norte da Judéia. etc. que com sua potência e vitórias se fizeram senhores do Mundo e o meteram debaixo dos pés. e primeiro que tudo se deve muito notar que da primeira carroça não disse cousa alguma. os quais por altos e imutáveis são comparáveis aos dois montes de bronze donde saíam as carroças. e assim sucedeu. Adriano. E a quarta carroça. diz o Anjo que caminhou para as terras do Norte. se faz certo e evidente argumento de que esta interpretação é a sólida e verdadeira. diz que foi para o Sul. e tiravam por ela cavalos negros. A segunda carroça. que fica ao sul de Judéia. junto à mesma Babilônia onde Alexandre. tinha condenado a morrer em um dia com crueldade inaudita toda a nação hebréia. porque os Romanos. Nero. Pompeu. e assim consta das histórias. Augusto. exceto Antíoco (cuja tirania também serviu de matéria gloriosa aos triunfos dos Macabeus) os outros príncipes gregos sempre foram benéficos aos Hebreus. não tinha necessidade de intérprete nem declaração. marido de Ester. Estes robustíssimos dos Romanos foram os seus maiores capitães e imperadores. A terceira carroça representava o Império dos Gregos e tiravam por ela cavalos brancos. Constantino. tomou o nome de Rei da Ásia. como escreve José. e assim se verificou nos Romanos. Restam por explicar os diferentes caminhos que disse o Anjo fizeram estas carroças.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro contudo diz o Anjo que correram e passearam todo o Mundo no mesmo sentido em que Augusto. Ingleses. Angli. e que de nenhum modo. Franceses e os demais. Polacos. e parte não só do Império. ao que não obstava serem de diferente nação. como nas guerras dos mesmos Romanos. e que esses se haviam de desunir da sujeição e obediência do mesmo Império. Assim o interpretou o mesmo Daniel: Porro quia vidisti pedum et digitorum partem testæ figuli. senão nas da América. apelou para o César. como já tinha notado Ribeira. onde se diz que os pés e dedos da estátua eram compostos de ferro e barro. contra todos elementos e contra a mesma natureza. os quais entendem Império Romano todo o corpo íntegro do dito Império. como muitos romanos de Portugueses. contra os mares. na qual divisão de dedos e desunião de metais se significava que o Império Romano se havia de dividir em muitos reinos e senhorios menores. onde os Portugueses iam servir e merecer debaixo de suas bandeiras. pela união e comércio destas duas nações. que impugna facilmente. alegando que era cidadão romano e que só no tribunal de César podia ser julgado. parece lhe competiam. Contudo. no sentido desta profecia. por não deixar perder a nossa. verdadeiramente valentíssimos. sendo antes sujeitos aos 113 . Além de que muitos portugueses eram filhos e netos dos Romanos. leva o direito desta herança à origem que os Reis de Espanha trazem dos Godos. porque Espanha e Portugal foram colônias dos Romanos. Poloni. como se vê em S. foram estipendiários dos Romanos e pelejaram debaixo de suas bandeiras. Franci. que. Paulo. Cornélio diz assim: Potissimum vero divisum fuit hoc regnum ideoque enervatum cum variæ gentes ab ejus obedientia se subduxerunt. regnum divisum erit. e verdadeiros cidadãos romanos. senão contra os ventos. ajudando a defesa e conquista do Império. pelas vitórias do Oriente a que o mesmo Cornélio chama ad miraculum usque illustres. e todas as partes de que ele se compôs e inteirou quando esteve em sua maior grandeza. digo que os Portugueses e todos os Espanhóis se podem e devem entender debaixo do nome de Romanos. sibique proprios reges crearunt. audacíssimos e fortíssimos. as quais palavras comentando. nunca conquistada nem ainda conhecidas pelos Romanos. assim em Portugal. no seu edicto do tempo do nascimento de Cristo. como violenta e trazida de tão longe. E posto que qualquer destas razões e muito mais todas juntas são bastantes para que sem impropriedade se possa entender os Portugueses debaixo do nome de Romanos. contra o Sol. nação um título tão honrado como serem chamados por .boca de um anjo os mais fortes de todos os Romanos. pois conquistaram estas regiões novas e incógnitas. ut describeretur universus orbis. estas vitórias próprias dos Espanhóis. uti fecerunt Hispani. que. e nas da Índia Oriental. os quais Godos. Vê-se claramente esta verdade na primeira profecia de Daniel. Mundo Novo. a que venceram e contrastaram. quer que não só nas terras do Mundo Antigo. porque esta glória que Sanchez dá aos Espanhóis toca pela maior e melhor parte aos Portugueses. ainda que essas mesmas partes depois se desunissem do mesmo Império e lhe negassem obediência. o fundamento principal sólido e certo desta interpretação é ser esta a mente e sentido em que falaram os mesmos Profetas. sendo hebreu. De maneira que a divisão dos dedos e a desunião dos metais dos pés da estátua significava os reinos dos Espanhóis. E para este autor perfilhar ou acomodar aos Romanos. E diz que aqueles robustíssimos de que fala o Anjo são os Espanhóis. etc. não pelejando contra os homens. Mas Sanchez. Mas esta aplicação. contra o Céu. com razão não é admitida de Cornélio à lápide. conforme a profecia. para explicar a palavra per omnem terram em toda a sua largueza. et partem ferream. e que o barro e o ferro não estavam unidos. como fizeram ao Imperador Maximino contra os Partos e a Constantino contra Licínio. senão do povo romano. como os antigos Romanos. mandou que todo o Mundo se alistasse. onde viviam os presídios romanos.

para que a profecia se entenda dos Espanhóis e Portugueses. ele finalmente a pedra angular. quando venceu os exércitos de Amalec. Gregos e Romanos. considerando todo o corpo do Império Romano e todas suas empresas. quando se lhe abriu o Céu e viu a escada. ele a pedra sobre que sustentou os braços levantados de Moisés. foi empresa de muito maior valor. Destas nações pois e destes reinos de que se compunha o Império Romano.Anexo:Imprimir/ História do Futuro imperadores romanos. senão cortada toda da mesma peça. Que o Quinto Império é o Império de Cristo e dos Cristãos. anunciado e prometido pelos Profetas. Introdução) por Padre Antônio Vieira 114 Em que se mostra que Império há-de ser este. e entre os Espanhóis muito particularmente os Portugueses. Ele foi a pedra que viu Zacarias. derrubou a estátua e desfez os quatro impérios dos Assírios. Ele foi a pedra com que David derrubou ao gigante. resolução e esforço que a dos Castelhanos. pelo valor e potência das nações que se conquistaram. sobre as quais fundaremos tudo o que dissermos nesta história. e sobre ela sete olhos.. Ele foi a pedra que no deserto matou a sede aos filhos de Israel e os acompanhou até a terra da Promissão. para maior clareza e firmeza dela. porque realmente são partes daquele corpo e daquele todo. Suposto como deixamos assentado que há-de haver no Mundo um quinto e novo Império. Não somos nós que o dizemos. Capítulo I) por Padre Antônio Vieira É conclusão certa e de fé que este Quinto Império de que falamos. Livro II. e depois cresceu e a sua grandeza ocupou e encheu toda a Terra. et dixit: Ite. que eram os mais fortes e valentes de todos. para fundar e levantar o seu . exierunt. era justo. é o Império de Cristo e dos Cristãos. Assim que. é Cristo. Persas. Ele foi a pedra sobre que adormeceu Jacob. o qual infundiu todo e descansou sobre Cristo. Esta pedra pois foi a que. segue-se que digamos que Império há-de ser: e assim o faremos em todo este II Livro. os Augustos. História do Futuro (Volume II. não se contentaram só com as terras dos outros impérios. os fortes dos Romanos foram os Cipiões. Prova-se dos mesmos textos e profecias já alegadas. em significação de que por meio e virtude de Cristo havemos de vencer o Mundo e o Demônio. os fortíssimos foram os Espanhóis. Livro II. ainda desunidos dele. et quærebant ire et discurrere per omnem terram. super lapidem unum septem oculi.. Finalmente. a que uniu os dois povos gentílicos e judaico. Primeiramente aquela pedra que derrubou a estátua e desfez as quatro monarquias figuradas nos quatro metais. os Césares. Estes foram os Espanhóis. pela dificuldade de navegações. Mas contudo (que é o nosso intento) ainda assim divididos e desunidos se computam e reputam por parte da mesma estátua e do mesmo Império Romano. deles. que são os sete dons do Espírito Santo. e a pedra fundamental e provada sobre que se fundaram na Lei antiga a Igreja de Sion e na nova a do mesmo Cristo. mas que intentaram discorrer e passear toda a redondeza da Terra. e entre esses Espanhóis os fortíssimos dos fortíssimos foram os Portugueses. pela diferença dos climas. lhes negaram a sujeição e se desuniram. História do Futuro (Volume II. senão o anjo que falava em Zacarias: Qui autem erant robustissimi. aqueles homens. arrancada do monte. pela distancia remotíssima das terras. o qual em outros muitos lugares da Sagrada Escritura se chama Pedra. porque a conquista dos mares e terras do Oriente. os Pompeus. perambulate terram: et perambalaverunt terram. pois não é cerzida de pedaços ou retalhos das Escrituras. ainda que não sejam romanos.

sublimada como monte altíssimo sobre todas as criaturas. De maneira que na primeira visão foi Cristo. Não repito os autores desta explicação. Ruperto e muitos outros Padres. De sorte que a pessoa a quem foi dado por Deus o Quinto Império de que Danie1 fala neste lugar (como vimos) era o Filho do Homem. ou finalmente é a Virgem Maria.. senão também os hereges e até mesmo Rabinos. Júlio. suprindo o Espírito Santo e a virtude do Altíssimo o que nela faltou de concurso humano..Antiquum dierum pervenit: . que a pedra foi arrancada ou cortada do monte sem mãos: Lapis abscissus de monte sine manibus. que sem ódio escreveram antes de Cristo. diz o doutissimo Sanchez. E porque Deus não havia de ter subsistência humana como os outros homens. como interpreta S. não lhe chama por isso o Profeta homem. senão ainda muitos hebreus. com a qual concorda admiravelmente a advertência de Daniel.et dabit ei potestatem et honorem et regnum. Ireneu. Teodoreto. assim que aquele quasi significa a falta de substância humana. significado com o nome comum e metafórico de pedra. toda foi obra sobrenatural e divina. arrancada dele sem mãos. Cristo é homem e Deus juntamente. como a mais perfeita e excelente de todas. Esta é a sentença comum e mais recebida dos Padres e expositores deste lugar. na segunda com o nome particular de Filho do Homem. Senhora Nossa.. sendo verdadeiro homem.. como explica S. Communis est Patrum sententia et multorum ex Hebræis quibus accedit Chaldeus sermonem hic esse de Messsiah. S. e a opinião comum de todos os Padres e Doutores. donde desceu Cristo quanto a divindade. senão quase homem-quasi filius hominis. Na segunda visão de Daniel ainda consta mais claramente e por termos mais expressos que este Império é o de Cristo. E que cousa há mais certa e freqüente no Evangelho que chamar-se Cristo Filho do Homem? Quem dicunt homines esse filium hominis? Væ autem homini illi per quem filis hominis tradetur! Tunc videbunt filius hominis venientem in nubibus cæli. Já dissemos que a coroa ou coroas que foram postas sobre a cabeça de Jesus. e erram somente em não crerem que o Messias é Cristo. não tiveram parte mãos de homem. os quais acertam em dizer que nesta pedra está profetizado o Reino do Messias. S. não só o confessa a Igreja Universal na aplicação deste lugar.et ecce (diz o Profeta) cum nubibs cæli quasi filius hominis veniebat. Epilanio.Anexo:Imprimir/ História do Futuro sobre todos eles.. posto que tão superiormente suprida com a divina. Assim o notou o mesmo S. sendo quasi filius hominis. et usque ad. E este monte ou é o Céu e o seio do Eterno Padre. filho de Josedec significavam o mesmo Império Quinto profetizado por Daniel: e que seja Cristo o soberaníssimo Monarca que Zacarias viu coroar naquela figura. porque na geração temporal de Cristo.. Quem havia de duvidar que em um quasi cabia uma distancia infinita? A terceira visão de Zacarias confirma ainda com maior propriedade ser Cristo o Senhor deste Império. na terceira com o nome propriíssimo de Jesus. S. levantada naquele tempo como monte entre todas as outras nações do Mundo. Jesus filii Josedeci: e em todas estas três visões em que Deus revelou aos seus Profetas a 115 . Agostinho. posto que tivesse a mesma natureza como eles. ou é a nação hebraica. Hierónimo. Agostinho. Diz Daniel que esta pedra caiu de um alto monte. da qual o Verbo se dignou tomar e unir a si a humanidade. Assim o dizem conformemente neste lugar não só todos os Padres e expositores católicos. porque são todos. e porque o texto é tão claro que não há mister intérpretes. Só reparou Maldonado que não se chama Cristo neste lugar Filho do Homem absolutamente. S. para denotar o Profeta que entre este homem e os outros homens havia diferença: os outros são puros homens. Ambrósio. etc.

E na mesma epístola. Finalmente este era o ordinário modo de falar da primitiva Igreja. Mas porque no princípio deste capítulo dissemos que o Quinto Império era o Império de Cristo e dos. escrevendo aos cristãos da cidade de Filipe. Assim o diz expressamente sobre estas palavras de Daniel o seu grande comentador Perério. detur populo sanctorum Altissimi. et judicium dedit sanctis Excelsi. etc. perguntou o mesmo Profeta a um dos anjos que assistiam ao trono a significação das cousas que via. e ele lhe disse por três vezes que o reino e império que vira dar ao Filho do Homem era o reino e império que os santos do Altíssimo haviam de ter neste Mundo. e os quatro a que ele devia de suceder. onde Deus para consolação dos fiéis quis que nos ficasse expressa e revelada esta tão gloriosa verdade. de que usa Daniel. bastem os textos alegados. 116 . tornemos à segunda visão de Daniel. Com muitos outros textos da Escritura pudéramos confirmar esta mesma conclusão. lhes mostrou . os fundamentais de toda ela. E no verso : Donec vénit Antiquus dierum. Cristãos. representando Cristo os grandes males que Saulo tinha feito contra os Cristãos: Quanta mala Sanctis tuis fecerit. Deinceps (diz ele) pagnandum nobis est cum Judæis qui Christianis infensi infestique et iniquo animo ferentes.. ea ad Regnum Christi et Christianorm accommodari. E que pelo nome de Santos. todos os Santos. quæ de illo quinto Regno tam præclara et gloriosa prædix Daniel. exortando aos mesmos Romanos a que socorressem com suas esmolas aos cristãos necessitados: Necessitatibus Sanctorum communicantes. Paulo. regnum sempiternum est. se entendam e devam entender os Cristãos não é só explicação de intérpretes da Escritura. cujus regnum. et potestas. e assim lemos no capítulo IX dos Atos dos Apóstolos que usou da mesma frase Ananias. E a este uso se chamaram as igrejas dos Cristãos igrejas dos Santos. as quais ficam reservadas para se explicarem em seus lugares por agora só nos serve (o que diz e repete tantas vezes o Anjo) que aquele mesmo Reino que o eterno Padre deu ou há-de dar a seu filho Cristo é o Reino e o Império dos Santos. e revelou também que o Senhor e o Monarca deste Império havia de ser Cristo. et magnitudo regni quæ est subter omne cælum. que são. mas porque tudo o que havemos de dizer nesta história será uma continuada prova e confirmação dela. et dierum. dos Cristãos. et tempus advenit. como dizia. no título ou sobrescrito da carta diz assim: Omnibus Sanctis in Christo qui sunt Philippis «a todos os Santos em Cristo que estão em Philippis». E escreveu aos cristãos de Roma: Omnibus qui sunt Romæ dilectis Dei. chamando a este Quinto Império Regnum Christi e Christianoram. vocatis Sanctis.Anexo:Imprimir/ História do Futuro grandeza e majestade futura do Quinto Império. a quem ele chama o Antigo dos dias dera ao Filho do Homem aquele novo reino ou império. et omnes reges servient ei et obedient. diz. Muitas cousas e muito grandes disse nestas palavras o Anjo. E no 27: Regnum autem. conforme o texto da Epístola ad Corinthios: In ecclesiis Sanctorm doceo. No verso 18 daquele capítulo (que é o VII) diz assim: Suscitient autem regnum Sancti Dei altissimi: et oblinebunt regnum usque in sæculum et sacculum sæculorum. e principalmente os que estão em casa de César». et regnum obtinuerunt sancti. Reino de Cristo e dos Cristãos. S. isto é. senão frase muito corrente e ordinária em toda ela. Depois de referir Daniel como Deus Padre. E saudando aos Filipenses no fim da epístola citada. em Macedônia. em nome de alguns cristãos que estavam em serviço do Imperador que então era Nero: Salutant vos omnes Sancti maxime autem qui de Cæsaris domo sunt: «saúdam-vos.

nullusque locus inventus est eis. mas que tem para si que há-de ser este Império no Céu e não na Terra. testa. Deu motivo a esta questão. Contudo a sentença comum dos Santos. Tertuliano. já o vento os tinha levado pelos ares. repúblicas e impérios do Mundo se não hão-de desfazer em cinza. o Teodoreto. é que este Reino e Império de Cristo e dos Cristãos profetizado por Daniel (qualquer que haja de ser) é Império da Terra e na Terra. os quais. Livro II. Os reinos deste Mundo todos de sua própria natureza são corruptíveis. clara e manifestamente se segue que não há-de ser império da Terra. assim como de Cristo se chamavam cristãos. bem assim como já antes de Daniel o tinha profetizado com o mesmo espírito Isaías: Et vocabunt eos populus sanctus. e já tinham desaparecido totalmente do Mundo. æs. lapis autem qui percusserat statuam factus est mons magnus. não há-de ser neste Mundo. Fundam a sua opinião nas mesmas visões de Daniel. se o Reino e Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser perpétuo. Sendo logo certo como é que os reinos. História do Futuro (Volume II. os quais concordavam com a verdade da nossa História em dizerem com os demais que o Quinto Império é o de Cristo e dos Cristãos. com a mesma frase com que depois se nomearam os Cristãos. nem se hão-de acabar. Capítulo II) por Padre Antônio Vieira 117 Pergunta-se se este Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser neste Mundo ou no outro. Tertuliano. e chamando ao Reino dos Cristãos Reino dos Santos. já todos os outros reinos e impérios do Mundo estavam derrubados e caídos. senão do Céu. redempti a Domino. com a mesma frase com que depois se nomeou a Cristo. que é em próprios termos o que depois se viu na Igreja e o que diz aqui o Anjo: Regnum autem et potestas detur populo sanctorum. Regnum usque in sæculum et sæculum sceculorum. cidades. hão-de ter um com o mesmo Mundo. incorruptíve1 e eterno. fundado na mesma visão. Regnum quod non corrumpetur. segue-se que o Império de Cristo e dos Cristãos. como consta do texto: Tunc contrita sunt pariter ferrum. o qual é de fé que se há-de acabar. E ambos estes nomes e as etimologias deles compreendeu S. Paulo no princípio da Epístola aos Romanos. assim da Lei santa de Cristo se chamaram santos. argentum et aurum. Logo. E aquele povo remido por Deus será chamado publicamente Povo santo. sem haver mais que a memória deles. et redacta quasi in favillam æstiva. desta maneira: Antes que a pedra cortada do monte (que é Deus e o seu Império) crescesse a toda aquela sua grandeza (diz Teodoreto). e recebida e seguida como certa de todos os expositores. nem se poder achar ou conhecer o lugar onde tivessem estado. senão quando se desfizer e acabar o mesmo Mundo na última ruína dele. areæ quæ rapta sunt vento. e entre os latinos. por mais que durem e permaneçam. argumenta assim Este Reino ou Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser Reino perpétuo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A razão deste nome é tomada da santidade da Lei de Cristo que professam os Cristãos. desfeito em pó e em cinza. em que lhe chama Vocati Jesu Christi et vocatis Sanctis. e todos. nós aprovaremos e demonstraremos com os textos das mesmas visões. e muito mais na segunda. Regnu sempiternum. como dizem expressamente as palavras de ambos os textos: Regnum quod in eternum non dissipabitur. incorruptível e eterno. de que fala Daniel. . senão no outro. E este é o sentido em que Daniel e o Anjo falaram naquela visão chamando a Cristo Filho do Homem. e aquela sua grandeza prodigiosa e que há-de crescer. E posto que os autores desta sentença mais supõem que aprovam. chamados de Jesus Cristo e chamados santos. entre os Padres gregos.

Não há-de crescer nem pode crescer no número dos homens. que são os Cristãos. porque. diz Daniel. que derribou os outros impérios. Se os reis hão-de servir e obedecer a este Império.» Podia-se dizer cousa mais clara? Parece que estava antevendo Daniel que havia de haver quem interpretasse esta sua visão em diferente sentido do que ele a escrevia. e diz em nova confirmação do que dizemos. porque no Céu não se serve. pois posto se entenda e saiba que não é assim.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Daquela pedra que representava a Cristo e seu Império. nem se merece. porque o Reino e Império de Cristo. que est subter omne cælum. Nas palavras que se seguem a estas declara mais em particular Danie1 (ou o Anjo por ele) quem hão-de ser os súbditos deste Império. como se deve ao estado do Céu. os quais o hão-de servir e lhe hão-de obedecer: et omnes reges servient ei et obedient. quæ est subter omne cælum. e crescer a uma grandeza tão imensa. de nenhum modo há-de crescer nem pode crescer. porque. se o Reino de Cristo e dos Cristãos há-de crescer depois daquele tempo. é o poder e grandeza de todos os reinos que há debaixo do Céu. se as mesmas palavras do texto o dizem claramente? Factus est mons magnus et implevit universam terram. o qual grande monte encheu e ocupou toda a Terra. Infiro agora assim: Esta pedra e este Império de Cristo. do que se serviu e do que se mereceu na Terra. crescendo. Desta maneira se concilia e concorda facilmente a opinião de Tertuliano e Tedoreto com a verdade da nossa. como veremos em seu lugar. Da Terra é logo este Império. porém. é porque a terá primeiro na Terra. que agora só trataremos qual seja em comum o deste Império. e só se goza o prêmio do que se obedeceu. senão de debaixo do Céu: magnitudo regni. nem se obedece. desde aquele ponto. Não negamos. os quais dizem que este Reino e Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser incoado na Terra e consumado no Céu. «0 Reino ou Império que se há-de dar ao povo dos Santos do Altíssimo. Logo. e este é o Império profetizado de Cristo. não é império do Céu nem depois de acabado o Mundo. bem claro se mostra que é Império da Terra e não do Céu e que na Terra e não no Céu há-de ter toda esta sua grandeza. que serão todos os reis do Mundo. mas com tanta discrepância de tempos. depois de acabado o Mundo. não há-de crescer nem pode crescer na glória dos bem-aventurados. cresceu? Logo. assim se acabou o tempo de mais alcançar. Os termos da segunda visão de Daniel ainda são (se podem ser) mais evidentes. Regnum autem et potestas et magnitudo regni. Mas para que são conseqüências. mas nem por isso há-de deixar de ter na Terra a grandeza que nestes textos lhe é profetizada e prometida. e na Terra é que há-de ser servido e obedecido e reconhecida de 118 . Se a pedra. no Céu consumada e perfeitíssima. dizendo que este Reino havia de ser no Céu e não na Terra. que cresceu e se fez um monte tão grande que ocupou e encheu toda a terra. nem podemos negar que este Reino e Império de Cristo e dos Cristãos há-de durar também com o mesmo Cristo e os mesmos Cristãos depois de bem-aventurados por toda a eternidade no Céu. Lapis autem qui percusserat statuam factus est mons magnus et implevit universam terram. detur populo sanctorum Altissimi. adverte e nota sinaladamente o Profeta que não é Reino do Céu. se fez um grande monte. cada um há-de receber por inteiro toda a glória devida a seus merecimentos. depois de acabado o Mundo e depois do Dia de Juízo. antes a razão de haver de ter tanta grandeza no Céu. detur populo sanctorurn Altissimi. e como se acabou o tempo de mais merecer. bem se colhe que há-de ser Império da Terra e não do Céu. segue-se que esse crescimento há-de ser neste Mundo e não no outro. não há-de haver mais homens que vão ao Céu. na primeira visão. este é o mais ordinário sentir de todos os expositores de Daniel.

e a dos Gregos pela sucessão dos Romanos e se acabará também a dos Romanos pela sucessão do Quinto Império. mas digo com a mesma certeza que este juízo não é o juízo final. thronus ejus flammæ ignis rotæ ejus ignis accensus. do fogo. não quer dizer que as terras. e consta que sucedeu em seu lugar S. et Antiquus dierum sedit vestimentum ejus candidum quasi nix. Ao argumento de Tertuliano que se fundava na eternidade do Quinto Império. Respondo que é certo falar neste lugar o Profeta de juízo. em que Cristo há-de vir julgar os vivos e os mortos no fim do Mundo. seu poder. 119 . se o Reino e Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser depois do juízo final.Anexo:Imprimir/ História do Futuro todos os reis dela. Agostinho na Questão 3I. porque sucederam outros nele. de quem fala a Escritura pelos mesmos termos. que depois veremos quanto há-de ser. sua soberania. Mas para que tiremos todo o escrúpulo aos outros razão será não passe sem satisfação uma grande dúvida que. e mostraremos mais largamente quando escrevermos a duração do Quinto Império. dos livros que se abriram e do mesmo nome de juízo. sive in omni plaga cælo subjecta. e foram voadas do vento.a sobre o Gênesis. como legitimo senhor e herdeiro dele. cidade e gentes das ditas monarquias se haviam de acabar e extinguir totalmente (como há-de acontecer a todo o Mundo no Dia de Juízo) senão que havia de se acabar seu mando. Aspiciebam (diz Daniel na segunda visão) donec throni positi sunt. et decies millies centena millia assistebant ei. como bem advertiu Cornélio. Matias.. e juízo rigoroso e de grande majestade. pela palavra eternidade não se entende rigorosamente duração sem fim. e não se achou mais o lugar onde estivessem. Millia millium ministrabant ei. e quando se diz que ficaram desfeitas em pó e desapareceram. pouco atrás citadas: Non quæ est super. senão do outro. Entretanto basta saber-se que a palavra eterno tem este mesmo sentido e limitação em muitos lugares da Escritura. Fluvius igneus. senão que estão demonstrando o vigor e majestade do juízo final. seu império. como verdadeiramente se acabou a dos Assírios pela sucessão dos Persas. comentando as palavras subter omne cælum. mas confirmar na contrária os autores e seguidores dela. senão continuação e permanência de muito tempo. claramente se convence que ano é nem há-de ser Império desde Mundo. e a dos Persas pela sucessão dos Gregos. por ser fundada nas mesmas palavras do texto de Daniel. já temos dito que a continuação dele no Céu há-de ser verdadeiramente eterna em toda a propriedade e largueza da significação desta palavra. Responder aos seus argumentos é igualmente fácil. Mas se entendermos o texto de Daniel da duração somente que o Império de Cristo e dos Cristãos há de ser neste Mundo. que são os Cristãos. rapidusque egrediebatur a facie ejus. da assistência dos anjos. e assim o entendem mais ordinariamente os expositores desta visão. como se vê no exemplo de Judas. em que o Padre Eterno há-de tirar o Reino e Império universal do Mundo ao tirano ou tiranos que então o possuírem. etc. E isto quer dizer em frase da Escritura . id est in omni terra. judicium sedit et libri aperti sunt. E estas palavras por todas as circunstâncias do trono. et capilli captis ejus quasi lana munda.non inventus est locus ejus-que «se não achou mais o seu lugar». como notou S. e juízo de Deus. e para meter de posse e o entregar a Cristo. Logo. não só pode embaraçar a verdade da nossa sentença. sed quæ est subter omne cælum. senão um juízo particular. seu filho. e aos professores de sua fé e obediência. Ao de Teodoreto dizemos que o texto de Daniel só fala das quatro monarquias representadas nos quatro metais da estátua. não só parece que significam. as quais nem cada uma por si nem todas juntas compreenderão nunca toda a grandeza da Terra.

que ensinou o desprezo das riquezas. espiritual no governo. e todos os expositores de ambos os Testamentos. nas execuções e no exercício. a conseguir a bem-aventurança. perguntamos agora se este Império de Cristo há-de ser espiritual ou temporal. e suposto que . dos Cristãos católicos. Livro II. o rigor do juízo.quanto ao modo como em seu lugar veremos) é império espiritual.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 120 História do Futuro (Volume II. que morreu por nós. a eternidade do Inferno. que pregou o Reino do Céu. ou pode ser espiritual ou temporal. diremos primeiramente que este Império de Cristo (o qual não há-de ser diferente do que hoje é. Capítulo III) por Padre Antônio Vieira Se este Império de Cristo no Mundo é espiritual ou temporal Assentado. e sendo todas elas ordenadas só à salvação e perfeição dos homens e dirigidas e encaminhadas ao Céu. e estando até aquele tempo fechado. que maior sentimento se pode desejar. como acabamos de resolver. e em seu nascimento foi aclamado Rei e em sua morte intitulado Rei. de que falam as profecias alegadas. que este Império de Cristo e dos Cristãos. que dizemos há de ser na Terra. onde reinava e se intitulava príncipe. que veio apartar os pais dos filhos e os filhos dos pais. outra não conhecida no Mundo. que nos lavou com o seu sangue. que veio lançar fogo na terra. o perdão das injúrias. se perguntarmos aos Evangelistas (deixando o testemunho das outras Escrituras) que fez Cristo e que ensinou com a palavra e com o exemplo. que se dirige a governar os vassalos por meio de leis prudentes e justas. Reino e Império espiritual? Foi Reino e Império espiritual no fim e causas de sua instituição. e que nos deixou o seu amor e o nosso contentamento. é principalmente o da Terra e não o do Céu. o preço e imortalidade da alma. desde o dia em que nasceu até à hora em que expirou na cruz. finalmente que abriu sete fontes de graça e ou que instituiu sete sacramentos perpétuos e ficou Ele conosco perpetuamente em sacramento. Porque este Império de Cristo. senão . cujo poder e jurdição se ordena a governar os fiéis membros e súbditos da Igreja. para que se acendesse nela a claridade que tão apagada estava. todos os teólogos antigos e modernos. espiritual como o que hoje tem o Sumo Pontífice. a verdadeira amizade com os inimigos. a virtude da humildade e a da castidade. em quanto este fim particular e mediato se ordena ao último fim. Porque. cujo reino lhes pregou e prometeu sempre. os interesses da esmola. que veio ser luz do Mundo e alumiar os que vêm a ele. e com a doutrina e ações de sua vida e morte. temporal. espiritual nas leis. Isto posto. e se demonstra com o mesmo mistério da Encarnação e fim com que Cristo veio ao Mundo. Sendo pois estas as ações daquele Senhor a quem antes de vir ao Mundo todos os profetas chamaram Pai. Assim o ensinam e ensinaram sempre conformemente todos os Padres e Doutores da Igreja. como o que têm os príncipes católicos sobre os seus reinos e províncias. que veio vencer o demônio e lançá-lo do Mundo. lho abriu e mereceu com seu sangue. para que a graça prevalecesse contra a natureza e o amor de Deus pudesse mais que o do sangue. nem que maior demonstração ou evidência de ser o Reino e Império deste santíssimo e soberaníssimo Rei. que é o fim particular de todas as comunidades humanas. e começando pela conclusão em que não há resistência nem dificuldade. que veio encher e informar a lei e animar a letra com o espírito. espiritual no uso. uma não usada. que é o último fim do homem. dir-nos-ão que veio ensinar aos homens a ciência da saúde e salvação. ainda nesta suposição nos resta averiguar um ponto de grande importância e de cuja decisão depende o maior fundamento de todo este nosso discurso.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro dizemos há-de ser sempre o mesmo (nem é decente nem seria crível outra cousa). ipse pauper et ascendens super asinam. em qualquer tempo futuro será e há-de ser também espiritual. poder e domínio temporal.intende. de modo que um outro domínio bem pode sem repugnância alguma convir e ajustar-se no mesmo sujeito. E depois . mas logo aponta os fundamentos espirituais também.. o mesmo Cristo »— confessando a Pilatos que era rei »— Tu dicis quia rex sum ego . Capítulo IV) por Padre Antônio Vieira 121 Examina-se se o Reino e Império de Cristo é também temporal. No Salmo XLIV descreve o mesmo Profeta as prosperidades e progressos do Reino de Cristo: . Finalmente. mas logo limita a significação do ofício ou dignidade. como acabamos de resolver. que os Profetas davam a Cristo. poder ou principado de Cristo. dizendo que para pregar seus preceitos-praedicans praeceptum ejus. com que há-de conquistar o Mundo: Propter veritatem et mansuetudinem et justitiam . anuncia o mesmo Reino de Cristo e sua perpetuidade: . em Alemanha. assim por serem todos. Livro II.super solium David et super regnum ejus sedebit in eternum. prospere procede et regna. todas espirituais. mas logo declara o gênero de armas. Zacarias no capítulo IX descreve o triunfo de Cristo aclamado por rei na entrada de Jerusalém: Ecce Rex tuus veniet tibi.. Não alegamos aos autores desta doutrina. Assim vemos que o Sumo Pontífice. e notam bem advertida e doutamente estes autores que todas as vezes que os textos da Escritura Sagrada falam no Reino. o Arcebispo primaz é juntamente Bispo e Senhor de Braga. no capítulo XXIII. Fundam primeiramente esta sua sentença em muitos lugares da Escritura e particularmente em todos aqueles com que no capítulo passado mostramos o seu nome e título de Rei. pobre e humilde: Justus et salvator. et deducet te mirabiliter dextera tua. Refere-se a opinião negativa O império e domínio temporal é certo que de sua natureza não exclui nem implica com o temporal. mas logo lhe chama rei e salvador justo. é também senhor e príncipe temporal do estado que chamam eclesiástico. como dissemos. História do Futuro (Volume II.acrescentou logo que o seu Reino era para dar testemunho da verdade ao Mundo: Ego in hoc veni in mundum ut testimonium perhibeam veritati. bem assim como aquele que os príncipes eclesiásticos têm sobre suas igrejas ou ovelhas (posto que por modo mais sublime e excelente) mas de nenhum como aquele que os senhores e príncipes seculares têm sobre seus estados e vassalos. resta examinar agora se é também império temporal.regnabit rex et sapiens erit..Ego autem constitutus sum rex ab eo. e no nosso reino.. Império. Suposto pois que o Reino e Império de Cristo seja espiritual. tendo o domínio espiritual de toda a Igreja. estreite e determine ao espiritual somente. e somente lhe concedem ou admitem nele o puramente espiritual. como porque alegaremos muitos no capítulo seguinte. sempre acrescentam alguma explicação ou limitação com que o nome geral de Rei e Senhor se distinga ou aliene da significação de poder temporal. mas logo determina os efeitos dessa sabedoria que hão-de ser encaminhados todos à salvação: In diebus illis salvabitur Juda.. Isaias. Muitos e graves teólogos seguem de tal maneira a parte negativa que exclui totalmente do Império de Cristo toda a jurdição. domínio. e se limite.. celebra o Reino e sabedoria de Cristo Rei: . No Salmo II chama David a Cristo Rei constituído por Deus . no capítulo IX. Jeremias. três dos eleitores do Império são príncipes eclesiásticos e senhores temporais de seus estados. de que lhe háde vir a firmeza: ut confirmet illud et corroboret in judicio et justitia.

das quais palavras podemos dizer: Quid adhuc egemus testibus? A eficácia destes textos se acrescenta a de muitas razões e argumentos. o império. batismo e salvação dos homens. se fecham e apertam eficazmente com um discurso fundido em todos os princípios gerais de direito. ou por direito humano. com que o elegessem por Rei e Senhor de 122 . não seria maior autoridade. este império e este domínio não havia de ter (como nunca teve com Cristo) uso ou exercício público. com que parece aos autores desta sentença que não só estabelecem de todo a certeza dela. entre os quais porventura não é o que tem granjeado menos votos a esta opinião errada aquela palavra temporal. Sobretudo está por esta parte aquele claríssimo oráculo de Cristo: Regnum meum non est hoc mundo . podendo tê-lo. se entendem do Reino espiritual ou celeste. qui crediderit et baptizatus fuerit. e para Cristo ser respectivamente Rei universal de todo o Mundo por esta via. porque a jurdição de fazer ou eleger rei está na comunidade dos homens. nem para o fim do ofício. constara pelas Escrituras. que dizer-se que o tivera e conservara. sem nos obrigarem a que os entendamos do Reino ou Império temporal. era necessário que todos os homens e comunidades do Mundo se unissem em um consentimento. ou foi Rei por direito natural. e ainda que o pedira. se queria ser perfeito. se nem para o decoro da pessoa. que não são muitas vezes as que menos persuadem. como vimos. como dizia com esta renunciação de todos os bens. como alguns dizem? Com que liberdade ou com que confiança havia de aconselhar ou mandar Cristo a certo mancebo que. deixasse o domínio das suas herdades. Segue-se logo que o Reino e Império de Cristo é espiritual somente. domínio e potestade-Data est mihi omnis potestas in Cælo in Terra-a conseqüência que tirou deste poder tão universal foi: Euntes in mundum universum prædicantes Evangelium omni creaturæ. se houvera tal direito. parece que traz consigo alguma dureza e dissonância. porque. mas que convencem e desfazem a probabilidade de qualquer outra. a herança de um reino particular não lhe dava direito para o império de todo o Mundo. e de nenhum modo temporal. construída com o Império de Cristo e pronunciada aos ouvidos mais religiosos e espirituais. o domínio. e quando menos se podem interpretar assim. porque Cristo não era filho nem herdeiro de rei. e posto que muitos textos da Escritura falem de Cristo como Rei e lhe dêem o nome e título de Rei. Argumentam ou decorrem assim: Se Cristo foi Rei temporal. salvus erit: fé. se no mesmo tempo o mestre desta perfeição retivesse o domínio de toda a Terra? Para que se há-de admitir logo o nome deste Império temporal em Cristo. e havia de estar sempre oculto e encoberto aos homens. declarando aos Apóstolos com a maior majestade de palavras que podia ser a grandeza de seu império. De que servia a Cristo (dizem) o nome ou jurdição de Rei temporal do Mundo. e para o exercício e uso que nunca teve realmente inútil e ocioso? Estas razões ou admirações. ou por direito divino. todos. honras e haveres do Mundo.o meu Reino não é deste Mundo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro de ressuscitado. Por direito divino também não. por não dizer indecência. se ele vinha como vimos a confundir com seu exemplo o mesmo Mundo. a majestade de todo ele? E se esta majestade. a qual. Por direito natural não. por direito humano não. nem para o exemplo da doutrina era necessário. como dizem menos provavelmente alguns autores. os mesmos reis e as mesmas temporalidades? Se a perfeição cristã que Cristo veio ensinar aos homens consistia em deixar tudo e seguir em pobreza e humildade a Cristo pobre e humilde. maior exemplo e ainda maior circunstância de perfeição saber-se que o renunciara Cristo. e dado que fosse legítimo sucessor do Reino de Israel. Finalmente.

Capítulo V) por Padre Antônio Vieira 123 Propõe-se e defende-se a opinião afirmativa Se escrevêramos menos há de cem anos. O primeiro que se alega é Santo Agostinho em muitos lugares. scilicet Saul. E são estes: Hermas. Atanásio. acabou-se de conhecer que com e1e se não davam armas. qui populus regnum fuerat amissurus Christo Domino nostro per Novum Testamentum. nem querem fazer menos espiritual o Mundo. e muito contra o decoro da bem-aventurança. mas alegam-se e podem-se alegar no mesmo sentido S. porventura que não puséramos aqui tão confiadamente este capitulo.parte Soto. com outras galantarias. Gregório. Nem sempre é maior espiritualidade o que mais opõem ao corpo. Teófilo e outros. e que o mesmo Senhor. João Parisiense. Não fazem menos santo a Cristo. na ocasião em que alguns deles lho quiseram dar. Letmatio. Ao menos confessa Vasques que da doutrina dos Padres não se pode convencer o contrário. Porventura ofende a Deus. e o ter em sua própria essência eminentemente as idéias de todas elas? Antes . que houvessem de aparecer diante de Deus as nossas almas com vestidos tão indecentes como são os corpos. sucederam àqueles teólogos de grande espírito outros de grandes espíritos. João Crisóstomo. O douto leitor julgará se são os melhores. o que nunca houve. por termos tão indiferentes. nem por sucessão natural. se não têm ainda triunfado. se não espiritual e somente qual acima dissemos. nem por eleição humana. de nenhum modo foi nem pode ser temporal. entre os quais o mais claro (ou o que parece) é este: Populi personam figurate gerebat homo ille. os que reconhecem em Cristo o domínio temporal dele. Os Origenistas chamavam por escárnio pelusiotas aos que seguem a fé de que todos havemos de ressuscitar em nossos corpos. só porque não tomasse o nome de Rei. Jansénio. Castro. Nenhum dos outros Padres fala em termos de tanta expressão. porém. e posto que também se citem por esta . mais se alumia. e se escondeu em um monte para escapar daquela violência. quanto a Igreja mais cresce. como disse S. ainda não tinham escrito. fugiu deles e do mesmo título. que os teólogos que hoje têm maior fama nas escolas. Logo se não foi Rei temporal. tão celebrado nas Escrituras.Anexo:Imprimir/ História do Futuro todas. nos futuros se sabe. para crédito de Maldonado e nosso. Tertuliano. Driedo. Adrião Fino. e resolveu-se que não eram menos espirituais os que admitiam no Império de Cristo o nome de temporal. que Vasques os alega (e diz que assim se devem alegar) pela parte contrária. Abulense e Waldense. e o que nos tempos passados é duvidoso. Ambrósio. já têm vencido Mitigou-se com os dias e com a consideração o horror daquele nome temporal. quando ele escreveu. parecendo-lhes cousa indigna. Advirta-se. e diz o doutíssimo Maldonado que esta é a sentença comum dos melhores teólogos que assim o disseram. que não eram os que pior tratavam seus corpos os que isto diziam. S. Francisco de Cristo. e ambas ao fim. História do Futuro (Volume II. antes sabemos que os príncipes e povo de Judéia. se conjuraram contra ele e lhe tiraram a vida. em quanto Deus. falam. S. Vitória. o ser senhor e criador de todas as cousas corporais. Os Padres que isto disseram e seguiram querem alguns que sejam todos. Jerônimo.por doação ou nomeação divina. nem . e antes dele Sábio. bem se conclui que o Reino e Império de Cristo. Mas. Bertolameu de Medina. Melchior Flávio. e diz S. Livro II. non carnaliter sed spiritualiter regnaturo. que era a terra onde Cristo vivia. a opinião do Reino temporal de Cristo e da Conceição imaculada de sua Mãe se acompanharam no mesmo tempo na mesma fortuna. antes se tiravam .aos inimigos (porque também na Teologia se deve entender: Omnia dat qui justa negat).

em que chama a Cristo Príncipe dos reis da Terra e Rei dos reis e Senhor dos senhores. que é perfeição em Deus Deus (digamo-lo assim). no capítulo I. o Cardeal Lugo. antes com muito maior. Almaino e os três já nomeados Abulense. isto o que não admitem os Padres. mas absoluto soberano. Peres. não queremos dizer que é o seu Império sujeito às mudanças e inconstâncias do tempo. antes dos quais tinham seguido e ensinado a mesma doutrina Santo Antonino. Vasques. Os quais textos e todos os mais se não podem entender própria e naturalmente senão do Reino temporal de Cristo. e se é regra certa. atque omnium rerurm creatarum. em dois lugares do Apocalipse. Princeps regnum terrae. que por serem tão particulares os quero referir aqui: Verum Jesus Christus Deus ac Salvator noster fuerit vere ac proprie Dominus et Rex totius Orbis. Pois o domínio soberano. que as palavras da Sagrada Escritura se não hão-de interpretar em sentido metafórico e 124 . sublime e independente de todos. S. excitou e defendeu galhardamente esta questão nos termos seguintes. Hurtado Arriaga. sobre todas as cousas criadas. Bacónio e outros. Salazar. com jurdição tão própria e direta sobre todo o Mundo como a que os reis particulares têm sobre seus vassalos e reinos. seja o primeiro o testemunho das mesmas Escrituras alegadas. como ensina S. Valença. Navarro. e os vamos juntamente impugnando e desfazendo. Agostinho. e isto é só o que negam as Escrituras. Cornelio. Justiniano.Anexo:Imprimir/ História do Futuro deixava de ser Deus. Arnico. como o Cardeal Turrecremata. Lacerda. Rex regnum et Dominus dominantium. Waldense. e bastava ter escrito estes três grandes nomes. sobre todos os reis. E para que demonstremos a verdade desta nossa crença. e os dois Mendonças insignes de Portugal e Castela. e isto o que explicou o mesmo Cristo. é um domínio soberano e supremo sobre todos os homens. a que o mesmo Mundo quando fala com mais siso chama com razão temporalidades. se assim não fora. sed et verus ac absolutus et proprius. O Império que dão ou reconhecem em Cristo os que admitem e veneram nele o nome de temporal. em que Cristo tão repetida e expressamente é chamado Rei por boca de todos os Profetas antigos. como se pode ver nos lugares citados à margem. O Cardeal Toledo. Molina. quando disse: Regnum meum non est de hoc mundo. non tantum spiritualis rex ac dominus. mais perfeito e mais excelente domínio. com poder de dispor delas a seu arbítrio. Verga. onde era catedrático de Scoto. fazendo e desfazendo leis castigando e premiando. Ludòvico Tena. Durando. eo quod illis in omnem usum potest citra alicujus injuriam uti. a qual em toda a Escritura Sagrada significa Rei temporal. porque o contrário devia fazer manifesta violência à significação da palavra Rei. e no capítulo XIX. et unusquisque hominum dominus est suarum rerum. Carçosa. não dependente como eles das criaturas. João Evangelista. Tomás. se eles não foram diante. Os teólogos que isto assentam por conclusão é S. o Cardeal Hostiense. pelos mesmos princípios e fundamentos da opinião contrária. A que podemos acrescentar o do maior Profeta da Lei da Graça. atque adeo tenporalis: tam vere et proprie quam Philippus 2dus temporis rex est Hispaniarum. e do império temporal de Cristo. porque há-de ser menos decência em Deus Homem? Quando chamamos Império temporal ao de Cristo. dos quais este último já no ano de 1586. Este é o sentido em que falam com pouca diferença de palavras todos os teólogos referidos. Caspense. dando e tirando reinos. Soares. secundum quod homo est. Scoto. a que podemos ajuntar muitos juristas de grande nome. Seguem a estes três lumes outros muitos que o puderam ser da Telogia. nem que receba a grandeza e majestade da pompa e aparato vão das cousas exteriores do Mundo. para dar por provada e acreditada com o Mundo uma verdade tão necessária e importante como depois veremos. na Universidade de Salamanca.

que o Reino e o Sacerdócio em Cristo são dignidades e jurdições distintas. para . antes de subir ao Céu. tomado na propriedade e natureza de sua significação. nenhuma cousa exclui. figura do Reino e Império de Cristo. e outra como Supremo Rei. 125 . bem se segue que a pedra que os derrubou e desfez. que pertencia ao Império espiritual. pois lhe faltaria nesse caso o poder temporal. se se entenderem na sua significação própria e natural. que é o que com toda a propriedade se chama império na Terra. senão quando. mas de lhe acrescentar com a nova luz deles nova evidência. E quem diz todo. João. sua e da Igreja. se o nome de Supremo Sacerdote significa o Reino e Império espiritual. e consta das Sagradas Escrituras. dizem comumente os expositores que foi porque Cristo não teve uma só coroa. que é uma tão grande parte desse todo. falando do Império de Cristo. nos obrigam a conceder e confessar que em toda sua propriedade significam Rei e Reino temporal. pois se não segue de assim o entendermos inconveniente algum ou dissidência contra aquela grandeza e majestade de Cristo. E posto que baste cada um deles. deixou dito e publicado ao Mundo que seu Eterno Pai lhe tinha dado todo o poder no Céu e na Terra: Data est mihi omnis potestas in Cælo et in Terra. Logo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro figurativo. não só significa Império espiritual. e teve juntamente o império temporal. senão uma de prata e outra de ouro. como neste capítulo se irá vendo. E. Agora pergunto porque foi coroado não com uma senão com duas coroas. começando pela profecia de Zacarias. filho de Josedec significa a dignidade suprema do Império de Cristo. porque de outra maneira se não de dizer nem entender. ou ambas de prata. A esta confirmação geral da significação da palavra Rei acrescenta o Padre Soares outra.persuadir facilmente a qualquer entendimento fácil e dócil. sem sair das mesmas profecias e textos fundamentais desta história. sem manifesta implicação. Agostinho no Tratado XXII sobre S. e nós mostraremos largamente no capítulo seguinte. e impérios verdadeiramente temporais. não só esperamos de a confirmar eficazmente na mesma certeza. se é certo (como é de fé) que aqueles quatro metais significavam quatro impérios sucessivos. para significar a diferença e preço daqueles dois impérios ou jurdições. Estes são os textos mais eficazes e expressos com que os teólogos costumam provar a verdade do Império temporal de Cristo. glória e autoridade. E quanto ao império temporal. que é o que mais propriamente se chama império no Céu. segue-se que o de Supremo Rei significa o temporal. seguindo as regras do direito. tantas vezes celebrados e cantados pelos Profetas. que maior prova se podia desejar que a da estátua de Nabuco. nós. quando respondermos a estas leves objeções da parte contrária. se seguisse algum grande inconveniente ou absurdo contra a doutrina da mesma Escritura recebida pela Igreja. como prova S. que pertencia ao temporal. que tivesse ou tenha Cristo todo o poder. que é própria da pessoa de Cristo. Teve logo Cristo o império espiritual. cujos metais desfez a pedra em pó e em cinza? Porque. e que eficazmente convence o sentido em que se deve tomar a mesma palavra. antes muita honra. mais precioso e mais sublime que o império temporal. não mística senão literal. o mesmo Cristo. Finalmente. e porque uma delas foi de prata e outra de ouro? A razão. Porque o Reino espiritual de Cristo se distingue do Sacerdócio do mesmo Cristo. em que só podia haver dúvida. e que o império espiritual significado no ouro era mais alto. os mesmos nomes de Rei e Reino. E por isso não eram ambas de ouro. já vimos que a coroação de Jesus. senão duas: uma como Supremo Sacerdote. para maior demonstração da mesma verdade.

como expressamente se colhe que o império de Cristo não é só espiritual. tiveram. assim a palavra rex e dominus significa rei e senhor também temporal. pois vemos que reinou antigamente Cristo espiritualmente em todo o Império Romano. Nem menos se confirma a mesma verdade com a segunda visão de Daniel (Daniel VII) na qual lemos que. senão temporal! E tudo isto se verá mais claramente. como melhor se entenderá pelo discurso de tudo o que diremos. o qual. para não admitirmos. não haja de ser também temporal? Este é. como bem tem mostrado a experiência no mesmo Império espiritual de Cristo. antes ajudou muito e se ajudou de seus aumentos. mandou primeiro queimar a quarta besta das vinte pontas. crescendo e estabelecendo-se mais a grandeza e majestade da Igreja e dos Pontífices. arruínam e desfazem uns aos outros. com manifesta violência da Escritura e repugnância do entendimento. antes de receberem a sujeição de Cristo. e em outros que também lhes pudéramos ajuntar. e não espirituais. pelo qual se intitula com toda a propriedade Rex regnum et dominus dominantium. composto de todos os impérios. a que eles já estão sujeitos. cantando sobre sua loucura por boca da Igreja: Crudelis Herodes. e reina também hoje espiritualmente em todos os reinos que do mesmo Império Romano nasceram e se dividiram. porque só impérios temporais se derrubam. tão cantado e celebrado nos oráculos dos Profetas. e este o Reino e Império de Cristo. que na mesma sentença e na mesma palavra se varia o sentido e suposição dela. não é ou há-de ser o Império espiritual de Cristo. de todos os reinos e de todas as repúblicas temporais. depois de comunicado a seus vigários os Sumos Pontífices. antes com ela se confirma e estabelece mais. posto que seja espiritual e espiritualíssimo. senão o Império temporal. donde eles antes estiveram. e que rex e dominus têm uma significação e regnum e dominantium outra. E este foi o erro. que lhes há-de tirar essa soberania temporal. quando adiante explicarmos o tempo da ruína desta estátua e outras circunstâncias dela. parece que o domínio real de Cristo se limita e determina ordinariamente a fins e obras espirituais. no qual Império hão-de entrar e ser incorporados todos os reis e reinos do Mundo. o que não faz nem pode fazer o Império espiritual. de nenhum modo se enfraquece com este indício ou argumento a verdade da nossa sentença. o império do Filho do Homem ou de Cristo naquela visão é o mesmo Império universal que hão-de ter os Cristãos na Terra. é necessário que tenha oposição e contrariedade com ele acerca das mesmas cousas. não desfez os impérios e reinos dos príncipes temporais. e assim como a palavra regnum e dominantium é sem dúvida que significa reis e senhores temporais. e esta oposição e contrariedade só se acha nos impérios temporais entre si. e conservam o nome de cristãos. e não entre o império espiritual e temporal. e todos os reinos temporais que dela nasceram. quanto mais se estabelecia e crescia a dos Imperadores. porque nós não dizemos que o Reino e Império de Cristo 126 . Para um império derrubar e desfazer a outro. ignorância e engano de que sempre os fiéis notaram e motejaram a Herodes. o que de nenhuma maneira era necessário se o Reino e Império de Cristo fora somente espiritual. E se nos lugares da Escritura alegados pelos autores da opinião contrária. para Deus dar o Império ao Filho do Homem. que são impérios verdadeiramente temporais. como consta do mesmo texto de Daniel. Deum regem venire quid times? non eritit mortalia qui Regna dat cælestia? sendo pois certo que o Reino e Império de Cristo derrubou ou há-de derrubar todos os impérios do Mundo. Segue-se logo com evidência que o Império de Cristo. ocupando e enchendo toda a Terra. e nem por isso deixam de ter o mesmo domínio e soberania temporal que.Anexo:Imprimir/ História do Futuro senão também temporal. em que era significado o Império Romano. Finalmente. Como se pode logo duvidar que este imenso e portentoso Império.

Bernardo. mas porque deste não quis ter exercício aquele Senhor que era juntamente Senhor e Mestre. XXII. cap. não porque aqueles santos negassem à universalidade de seu Império o domínio temporal. e 127 . Ireneu. Agostinho. S. no Livro XII sobre S. que não só em quanto espiritual. sed caeli et terra:. XXVI. conhecendo e tendo pela maior excelência deste felicíssimo Reino. sobre os Evangelhos. nos quais também se acharam freqüentemente louvadas. Hilário sobre o Salmo II. S. explicando as palavras de Cristo: Regnum meum non est de hoc mundo. v. porque estes têm por fim a conservação e felicidade da Terra. explicando muitos deles com palavras menos latinas (por não dizer bárbaras) qual é a palavra temporal. diz assim: Regem se esse non negat. para convidarem a todos a lerem de boa vontade e com gosto seus escritos. ceterarunque rerum omnium. inculcadas e persuadidas as virtudes que pertencem ao Reino espiritual de Cristo. e isto é ser império de Cristo e dos Cristãos. recebidas entre os teólogos. como também se não acha o da graça santificante do mesmo Cristo. Cipriano Adversus Judaeos cap. quia -ejus regnum terrenum non est. como nos primeiros tempos da Igreja faziam aqueles santíssimos e doutíssimos Padres. e para que nos livros dos autores cristãos se não achasse menos a propriedade e majestade da eloquência que tanto se venera nos escritores gentios. damos por testemunhas os mesmos livros dos Padres. IV. Gregório. se ordena ao fim último e sobrenatural da bem-aventurança. E S. e os principais e maiores exemplos que nos quis deixar foram do desprezo dele. Desta razão. e o de Cristo e dos Cristãos a do Céu. Outras muitas sentenças semelhantes a estas se vêem em outros Santos Padres da mesma e maior antigüidade. pois esse Reino e não outro é o que há-de ser eterno e glorioso no Céu. non secundum potestatem sed secundum naturam. como S. Não faltam contudo lugares muito ilustres aos Padres. e nisto se distingue dos reinos meramente políticos e humanos. no Livro III De consideratione escrevendo ao Papa Eugénio: Dispensatio tibi super illum credita est. que é geral para muitas matérias. dos quais porei aqui os que bastem a responder a estes e confirmar a verdade da nossa. E S. em que falavam do Império temporal de Cristo com termos Não menos expressos que os que se alegam pela parte contrária. V. cap.. XVII. S. sed regni Cæsaris se non esse hostem ostendit. Dos quais termos se abstêm ainda hoje os que escrevem com estilo mais polido e levantado. ponderando o lugar do nascimento de Cristo. Jerônimo. Cui enim alteri dictum est: «Postula a me. nam secundum potestatem in propria venit. Lib. no Livro IV. não porque os santos tivessem diferente parecer. qui possessionem sibi vindicat. Vindo às autoridades (como dizem) dos Padres concedemos facilmente que são poucos os lugares de seus escritos em que se ache expressamente e em próprios termos o Reino temporal de Cristo. e outras cousas de igual importância e dignidade. João. mas porque em seu tempo não estavam em uso aqueles termos que depois inventou a Teologia. senão ainda em quanto temporal. para maior clareza da doutrina escolástica. na Homilia VIII. como dizem as palavras tão repetidas do nosso texto.Non tu ille de quo Propheta: «Et erit omnis terra possessio ejus?» Christus hic est. E mais claramente que todos S. sed talis ut homines reges faceret.Anexo:Imprimir/ História do Futuro é espiritual. tu curam ilius habe. Não próprio senão alheio:Alienum. et dabo tibi gentes hæreditatem tuam et possessionem tuem terminos terræ?»Possessionem et dominium cede huic. diz. S. senão que é espiritual e temporal juntamente. . sobre Jeremias. Cirilo. non data possessio.. distinta da união hipostática. no Tratado XIV sobre o mesmo Evangelista: Erat quidem Rex non talis qualis ab hominibus fit. et jure creaturæ et merito redemptionis et dono patris.

128 . no Tomo I. quale mundi hujs reges habere conspicimus. no Sermão I De nativitate Virginis: Quandoquidem Christus rex est qui natus est ex virgine idemque et Dominus et Deus. palácios. eosque despectabiles secum circumducendo. Ambrósio no Livro III. ea propter et mater quæ eum genuit. Atanásio.Anexo:Imprimir/ História do Futuro S. O mesmo S. cavalos.signum: Maria (diz) eo quod mater Dei est. cum certe non istius regni ille rex esset. sobre S. como gente costumada a fazer deuses à sua vontade. e este é o sentido próprio e germano em que Cristo disse a Pilatos: Regnum meum non est de hoc mundo. diz assim elegantemente: Quonam pato magi ex stella illa Judaeorum regem illum esse didicerut. sicut Propheta testatur. a título de Mãe de Cristo. reconhecem e veneram na Virgem. Esse aparato e pompa exterior de riquezas. ministri utique mei decertarent. porque o Reino de Cristo verdadeiramente era deste Mundo e de todo o Mundo. criados. por todos os Padres que pudéramos trazer em comprovação desta nossa advertência. non enim istum neque alium quempiam circa se habuit ornatum. senão quanto ao aparato. Neque enim hastas. Onde se deve notar que não disse Cristo: Regnum meum non est hujus mundi. é o que os Santos negavam no Império de Cristo. E S. os primeiros interpretando erradamente as Escrituras. parece que diziam e ensinavam o contrário (como verdadeiramente parece). E S. não quanto ao poder. XI. I: Virgo beatissima omnem hujus murdi meruit principatum et regnum. Dos quais lugares todos e muito mais claramente destes últimos se mostra quão assentada cousa era. regina cælorum et domina mundi jure esse probutur. não negando a Cristo Rei. império ou domínio. e os segundos fingindo as propriedades de Deus humanado conforme sua vaidade e apetite. e quão sem controvérsia. em que.. senão quanto ao temporal e da Terra. e só não tinha os acidentes da vaidade e falsa grandeza com que se sustentam os outros reinos do Mundo. o qual os Judeus esperavam e os Gentios desejavam em Cristo. exércitos. cap. Basta. por isso é tão freqüente nos escritos dos Padres a diferença do seu Reino aos reinos do Mundo. João Crisóstomo. o domínio e império ainda temporal sobre todo e1e. E se alguns dos mesmos Santos Padres . falando do Rei que vieram adorar a Belém os reis e da diferença humilde de seu estado. que são os nomes injuriosos ou gloriosos com que uns e outros afrontavam a cruz e humildade de Cristo. et regira domina et deipara proprie et vere censetur. dicens: «Domini est terra et plenitudo ejus. Lucas. o Império e Monarquia universal de Cristo. no sentir comum dos Padres. orbis terrarum et universi qui habitant in eo». Bernardo. neque clypeatas ostendit militum catervas: non equos regalibus phaleris insignes. Serm. como dizíamos. Aos quais com razão podemos acrescentar todos aqueles autores antigos e modernos que. ut non traderer Judæis. Como logo explicou na mesma razão que deu do que tinha dito: Si ex hoc mundo esset regnum meum. o império e domínio de todo o Mundo. no Sermão sobre as palavras do Apocalipse . sed vilem hanc prorsus vitam egit ac pauperem: duodecim tantummodo homines. Senhora nossa. non cunas auro ostroque fulgentes. grandeza e majestade exterior de rei temporal. principal mente em livro s apologéticos ou tratados. senão de hoc mundo. galas. quia filius ejus in primo instanti suæ conceptionis monarchiam totius promeruit et obtinuit uriversi. e não o império e domínio dele sobre todo o Mundo. deve-se advertir que falavam do Reino de Cristo. não só quanto ao Reino espiritual e do Céu. E como a controvérsia e disputa daqueles tempos era contra este escândalo dos Judeus e contra esta estultícia dos Gentios.. um lugar de S. mas engrandecendo esse mesmo império pelo desprezo da pompa e aparato vão em que põem os reis da Terra sua grandeza e majestade. Nihil quippe tale monstravit. coches. Bernardino de Sena.

o terceiro por doação. Este é o único fundamento do Padre Vasques. que quer dizer salvador. Paulo. o quarto por compra. Livro II. e para que se veja manifestamente a debilidade deste fundamento e tragamos à nossa sentença os mesmos autores que em seguimento deles abraçam a contrária. Por isso Cristo no Apocalipse trazia o título de Rex regnum e Dominus dominantium. escrito. oleo laetitiae pre consortibus tuis e a explicação de S. Porei suas palavras no capítulo seguinte pelas não repetir duas vezes. E o mesmo Cristo. e de outros grandes Padres que. e por ela fica constituído. assim o entenderam. sendo Cristo filho natural de Deus. E S. Deus tuus. in femore. nós veneramos nela a autoridade de David. é por não haver título. a quem geralmente seguiram todos os que depois dele escreveram. São estes títulos seis. assim a união hipostática em Cristo foi uma verdadeira e própria unção com que juntamente com o ser e a natureza recebeu o poder e a Monarquia do Mundo. os títulos por que é devido e compete a Cristo em quanto homem o Império e domínio supremo. não só espiritual. E posto que Arriaga. e não o de Cristo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 129 História do Futuro (Volume II. E por isso o nome que lhe puseram na circuncisão foi de Jesus. de todos os reinos e de todos os impérios do Mundo. Agostinho e S. como eles dizem. ao qual compita e seja devido aquele domínio. senão também temporal de todo o Mundo. da parte de Deus nem da parte dos homens. que assim o disse no Salmo XLIV: Unxit te Deus. todos legítimos e conforme o direito: o primeiro por natureza. Primeiramente. conforme o texto de S. é Cristo Rei e universal Monarca do Mundo por natureza. não reconheceu na unção da união hipostática mais que a propriedade e energia da metáfora. que significa a geração humana. sem algum outro concurso ou condição extrínseca. apontaremos e provaremos aqui. de que Deus é absoluto Senhor. Capítulo VI) por Padre Antônio Vieira Prossegue a mesma matéria. pertence ao mesmo Cristo em quanto homem o domínio e império universal de tudo o criado. o quinto por guerra justa. a qual se inclui essencialmente na natureza de Cristo. Assim o disse o mesmo Deus por boca do Profeta Rei: Postula a me et dabo tibi gentes hæreditatem tuam et possessionem tuam terminos terræ. o sexto por eleição e aceitação de todos os homens. Do qual Vasques diz Salazar que foi o primeiro a quem a Teologia deve os sólidos e verdadeiros princípios em que fundou o Império temporal de Cristo. E assim como antigamente se faziam ou consagravam os reis pelo óleo que eram ungidos. na parábola da vinha: Hic est hæres. como diz o texto. por não faltar ao costume de impugnar tudo. Gregório Nasianzeno. porque por meio da união da divindade à humanidade. o segundo por herança. senão por natureza própria sua. porque. que quer dizer ungido. com a maior brevidade que nos for possível. venite et occidamus eum. para mostrar que o ser rei de todos os reis e senhor de todos os senhores lhe convinha e era seu por sua própria natureza. porque o ser ungido por Rei e universal Monarca do Mundo não lhe pertencia por imposição divina ou humana. como também no seguinte: . O segundo título do Império de Cristo é por herança. Salvador por obediência. mas ungido por natureza. Paulo — quod si filius et haeres — lhe pertence a Cristo o título de herdeiro do domínio e império universal do Mundo. E neste título convêm todos os teólogos acima alegados. ou por ela (sem ninguém o constituir) é Rei e Senhor e Monarca supremo de todos os reis. apontam-se os títulos e razões do Reino temporal de Cristo O principal fundamento dos que não admitem no Reino de Cristo o império e domínio temporal. falando também de Cristo: Quem haeredem universorum per quem fecit et sæcula. como iremos mostrando pela mesma ordem. ou por ser quem era.

sendo o Monarca universal de todo o Mundo e de todos os homens. verdadeiro Messias. parece que cai mais imediatamente sobre os homens que sobre o Mundo. João. O Anjo à Senhora.. aceitação e expectação geral. antes. como autor da natureza. em que se refere como os Judeus por consentimento comum elegeram por seu príncipe Simão e seus descendentes com a cláusula. e Platão no Diálogo de Regno e nos livros — De republica. senão verdadeiramente escravos seus. E no capítulo.: Omni subjecisti sub pedibus ejus. Mas em Cristo parece que não pode ter 1ugar este título porque. e o alcançaram e ensinaram antes deles. Paulo de Cristo. era necessário que os mesmos homens conviessem todos este consentimento. assim como o que é senhor do escravo fica juntamente sendo de todos os seus bens. E para . sed si cuiquam maxime competiit Christo. arrostando a opinião de muitos e graves autores.Anexo:Imprimir/ História do Futuro É o terceiro título.] 130 . Contudo digo que não faltou ao Império e Monarquia universal de Cristo este último título do consentimento e aceitação universal dos homens. era esperado de todo aquele povo como seu verdadeiro Rei e Senhor.prova desta geral aceitação e consentimento com que todo o povo hebreu tinha recebido por seu Rei ao prometido Messias. porém. as quais palavras entende S... por lume natural. no I capítulo da Epístola aos Hebreus. o de doação. Capítulo XIV. e no salmo.. a cujo Reino e direito não queriam prejudicar. eleição ou aceitação. Alberto Pighio (para que de todo não entremos neste novo caminho sem alguma guia) no Livro V da Hierarchia Ecclesiastica. aceitação e como eleição de todas as nações do Mundo. mas ao primeiro domínio se segue necessária e naturalmente o segundo. Judæi (diz o texto) consenserunt eum Simonem esse ducem suum [. traz o mesmo Alberto Pighio a história do Livro I dos Macabeus..: Data est mihi omnis potestas in cælo et in terra. Este título é o mais natural e jurídico entre os homens. como dizem alguns teólogos. como agora mostrarei. O título da compra. E peço licença aos que quiserem ler este discurso para meditar um pouco mais nele... assim no Velho como no Novo Testamento.: Omnia mihi tradita sunt a Patre meo. que o seriam somente até que viesse o Messias. não é possível havê-lo. e de grande glória não só de Cristo mas nossa. o título em que funda este direito é o consentimento. capítulo III. à qual é necessário abrir os alicerces e lançar os primeiros e sólidos fundamentos. com que Cristo. que pelo título da Redenção não só ficamos vassalos deste soberaníssimo Monarca. prometendo aos que fizerem esta detença não perderão o fruto do tempo que nela gastarem. no Salmo pouco antes alegado: Dabo tibi gentes hæreditatem tuam. comprados com o preço de seu sangue: empti enim estis pretio magno: O sexto e último título do Império de Cristo dizíamos que era por consentimento. pôs Deus. o poder e jurdição suprema de eleger e nomear príncipe. em cujas comunidades. Nec Pilato (diz este autor) nec Caesari ullum legitimum jus in regnum Judaeorum. O mesmo Cristo no capítulo. e este consentimento comum nunca jamais o houve no Mundo. pois verão por grandes notícias e não vulgares da Antigüidade quão certa e concertadamente concorre a novidade e verdade desta nossa consideração ao maior estabelecimento do Reino de Cristo. o qual se acha mais expresso que todos.. os quais têm para si que Cristo foi legitimo Rei do Reino de Israel. quem semper expectaverunt sibi regem f ore in lege promissum. Aristóteles no Livro III das Políticas. no capítulo II de S. S. como acima dizíamos. que é o quarto. E é conclusão certa na teologia. Lucas: Dabit illi dominus Deus sedem David patris ejus et regnabit in domo Jacob. no capítulo III: Sciens quia omnia dedit ei pater in manus. Assim o tem a comum sentença de todos os juristas teólogos. quando querem viver juntos e politicamente. por ser pensamento novo e matéria até agora não tratada. prometido aos primeiros Patriarcas da sua nação.

e o mesmo desejo. capítulo II. diz assim: Non auferetur sceptrum de Juda et dux de femore ejus. desejo e consentimento comum com que era esperado de todos por seu legítimo. nam cum ardentissime Messiam expectarent. falando do Messias prometido. et ipse erit expectatio gentium: «Não faltará o cetro de Judá nem príncipe de sua descendência até que venha o que há-de ser mandado. porque todas estas circunstâncias e condições concorrem no exemplo alegado (o qual não é semelhante se não o mesmo) e o mesmo temos nas eleições dos dois primeiros reis de Israel. Paulo na Epistola aos Hebreus. espectação e como eleição com que todo o povo judaico tinha aceitado como seu verdadeiro Rei o futuro Messias. et veniet desideratus cunctis 131 . como logo mostraremos. aclamados e cada um deles ungido pelo mesmo povo. quod illi adventanti legitimo jure deberi significaverunt. nam ad ejus usque aduentum Simoni atque e jus posteritati regnum stabilierunt.. et tenacissime crederent regem itsum futurum temporalem. Alonço de Mendoça acima citado. supremo e verdadeiro Rei. prometido e dado por Deus.ego commovebo caelum et terram et mare et aridam. como consta da História Sagrada. De maneira que o título com que tão grande teólogo e jurista defende o direito de Cristo ao Reino de Israel é aquele geral consentimento. O primeiro é do capítulo penúltimo do Gênesis. capítulo XII): . Assim explica em próprios termos esta sentença de Alberto Pighio. E que em todos os homens e nações do Mundo houvesse geralmente o mesmo consentimento comum. regem sibi fore. em respeito de todo o Mundo e de todos os homens e nações dele. ideo pblico totius gentis decreto in ipsum sua suffragia conjecerant et in regem elegerant. no I e II Livro dos Reis. nos quais houve o mesmo consentimento comum. e digo que. falando da mesma vinda de Cristo (como é de fé que falava. referindo-se a Pighio) alio titulo Christi regnum ab aduersariis vindicant. cujas palavras quero também referir aqui. porque não pareça a acomodação da dita sentença levada de algum modo por nós ao intento em que nos serve: Alii (diz Mendoça. Nem impede ou encontra a verdade ou legitimidade deste título o ser o mesmo Rei Cristo primeiro eleito. que é o ponto e suposição em que fundamos este novo título.Anexo:Imprimir/ História do Futuro in aeternum.» E o Profeta Ageu. na bênção que lançou Jacob a seu filho Juda. no. Sobre as quais palavras conclui assim o dito autor: Vides omnium Judeorum votis et expectatione semper expectatum Christum et Messiam in lege promissum. deixados outros muitos textos de menor clareza.. porque assim o explicou S. no qual. os quais por primeiro foram ungidos pelo Profeta Samuel por mandado de Deus. ungido. assim como em respeito do Reino de Israel. Saul e Daniel. apontarei somente dois. que se não podiam desejar nem ainda fingir mais expressos. entenderam também sempre todos os Hebreus. nam dicunt ex consensu et quasi electione populi judaici Christum fuisse illius gentis regem. assim concorreu e concorre o mesmo título no Reino e Monarquia universal de Cristo. e depois novamente aceitos. o mesmo desejo e a mesma espectação. e a mesma espectação acerca do Reino e Monarquia universal de Cristo sobre todos eles. e como tal o esperava. et movebo omnes gentes. De toda esta sentença assim entendida me não serve mais que o exemplo e o modo de dizer ou filosofar. e antes da vinda de Cristo. e este será a espectação das gentes. concorreu ou pode concorrer em Cristo o título da aceitação e como eleição geral daquele povo. velut expresse protestantes in ejus praejudcium et injuriam nihl se velle facere. donec veniat qui mittendus est. pela espectação. como entendem uniformemente todos os autores católicos. donec surgat propheta fidelis.

não só era Ele o desejado e esperado do povo de Israel. antes de Cristo vir ao Mundo. vieram adorar Cristo e oferecer-lhe tributos. o mar e todo o Mundo. conforme a significação mais recebida. e era desejada de todos a sua vinda: Ipse erit expectatio gentium. e por isso como a rei verdadeiramente seu. pois antes de Cristo vir ao Mundo. querem dizer reis ultramarinos. Pois se eram reis gentios. e não só por Rei particular dos Judeus. Monarca e Senhor universal de todos os reinos e de todas as nações. outros da Etiópia. as três partes do Mundo até aquele tempo conhecido) sendo gentios. e de nenhum modo sujeitos ao domínio da república hebréia. senão somente aos Hebreus. e por isso como o Rei verdadeiro e Senhor universal de todos os reinos e de todas as nações do Mundo. Mas de qualquer modo que seja. que razão ou motivo tiveram para vir adorar um menino que eles mesmo conheciam e diziam que era Rei dos Judeus? Ubi est qui natus est rex Judaeorum? A razão e motivo que tiveram foi (como bem notou Almaino) porque sabiam e criam que aquele rei dos Judeus novamente nascido não era rei particular (como os outros reis hebreus) de uma só nação ou de um só reino. Sobre a nação daqueles reis. É tão forçoso e ao parecer tão evidente este argumento que. e moverei todas as gentes e virá o desejado de todas elas» De sorte que. e se eram só de uma ou de diferentes nações.Anexo:Imprimir/ História do Futuro gentibus. porque aquele erit expectatio gentium e aquele veniet desideratus cunctis gentibus verdadeiramente significam própria espectação e próprio desejo. esperassem e desejassem o Messias antes da sua vinda. Porque aquelas palavras reges Tharsis et insule. Daqui a um pouco (diz Deus) «moverei o céu e a terra. não só a hebréia. Esta é a razão e o mistério por que os três reis do Oriente (em que se representavam. senão o esperado e desejado de todos os povos e de todas as gentes. o certo e sem controvérsia é que todos eram reis gentios. e verdadeiramente da nossa Índia Oriental. reges Arabum et Saba dona adducent. outros os fazem da Pérsia. o vinham adorar e reconhecer. veniet desideratus cunctis gentibus. conforme profecia de David: Reges Tharsis et insula numera offerent. senão Rei. as quais. Só vejo que podem reparar com muita razão os doutos. 132 . o que se não verifica sem grande impropriedade nos reis da Arábia e Sabeia com respeito da Palestina. e . De sorte que antes de Cristo nascer e aparecer no Mundo. outros da Média. nem a fé ou a esperança de que havia de vir se tinha anuncia do ou manifestado às nações dos Gentios. e quando somente estava profetizado e prometido já às nações do Universo. quando não façam alguma violência aos mesmos textos. senão por Monarquia universal de todas as outras nações e reinos do Mundo. Eu tenho por mais provável que ao menos parte deles eram de regiões mais distantes.muito menos todas elas. e render-lhe a devida obediência e vassalagem: debitam ei seu vero eorum regi et domino prestantes obedientiam. ao menos não enchem o sentido de suas palavras. Agostinho contra este último texto) que não podia ser que as nações dos Gentios. e por certo modo de eleição segunda e humana escolhido depois de Deus para seu futuro Rei e Senhor. como diz a glossa. S. e como tal o esperavam todos. com que as nações dos Gentios todas (geral e moralmente falando) ao menos algum tempo esperassem e desejassem a vinda do prometido e futuro Rei. há variedade entre os Doutores. vencidos da força dele os maiores intérpretes da Escritura. excogitavam aos dois textos referidos as explicações que neles se podem ver. senão as dos gentios a tinham aceitado e querido. Jerônimo quer que fossem da Arábia Feliz. porque todos o esperavam por seu Rei e natural Senhor. e argüir contra esta nossa suposição (como argüiu S.

e se começaram novas nações. Cam e Jafet foram os segundos povoadores do gênero humano. Non chaldea arte. que o nome com que vulgarmente chamavam ao Messias era o Esperado. S. ou a todas ou a quase todas as nações de todo o que naquele tempo se chamava Mundo. ver em Orígenes. . também com elas se espalhou pelo mesmo Mundo aquela noticia e esperança recebida de seus antepassados. S. II. continuou também unida a mesma tradição. conta haver ouvido de certo livro escrito com o nome do mesmo Set. por ser de tão duvidosa antiguidade. e referindo-se aos tempos de Set. S. S. e que todas estas notícias se tinham conservado entre os doutos e estudiosos daquela gente por tradição de pais a filhos. Mas temos para maior confirmação dele o testemunho de S. depois de Abel. irscripta nomine Seth. que entre os Gentios se conservava. e os dons que se haviam levar e oferecer ao Rei nascido que ela significava. como se pode. foi a grande comunicação que em todas as partes do Mundo tiveram sempre com os mesmos Gentios. Jerônimo. O primeiro meio é a tradição continuada desde Adão até Noé. enquanto se conservou unido. por deixar imperfeita e não acabada a obra que comeu. entre os quais era tão vulgar e celebrada aquela esperança. diz que tinham aprendido e sabido assim por doutrina e tradição de seus maiores. S. sed potius delectante. an alium expectatamus? 133 . Cipriano. filho terceiro de Adão. pois é certo que com a mudança das línguas não perderam os homens a memória nem a ciência. O outro meio por onde os Gentios puderam vir em conhecimento da vinda e império universal do Messias. o qual se conservava em uma nação das últimas partes do Oriente. Até aqui este autor. quando perguntavam a Cristo: Tu es qui venturus es. E o autor do Imperfeito na humildade. derivada desde Noé. etc. junto ao mar Oceano. Este discurso é tão natural que não havia mister autor. Leão Papa. e assim se cumpriu uma e outra profecia. sobre S. que os Judeus esperavam. e da nova estrela que havia de anunciar o seu nascimento. não nega. apud quos ferebutur quaedam scriptura. declarando o meio por onde os magos puderam entender que a estrela significava o Messias e que este havia de nascer na Judéia. quoniam erat quaedam gens sita in ipso principio Orientis juxta Oceanum. porém. ou o que há-de vir. Anselmo. et si non certa tamen non destruente fidem. quae per generationes studiorum hominum patribus referentibus filiis suis habebatur deducta. tomando esta tradição mais perto da fonte. Máximo. chamado o Imperfeito. no qual. cujos três filhos. erant isti de genere Noe. cujas palavras citaremos depois. et muneribus ei hujusmodi offerendis. Pedro Crisólogo. E posto que não tem por certo aquele livro. Mateus. como se vê nos termos que falaram os discípulos ou embaixadores do Baptista. mostrarei aqui os modos e os meios mais prováveis e certos por onde o conhecimento e esperança do futuro Messias não só podia chegar. e depois que na Torre de Babel se dividiram os homens e as línguas. Esta é a opinião comum dos Padres. e os mesmos Gentios com os Judeus. E para que se veja que não era cousa impossível nem dificultosa ser a vinda do Messias desejada e esperada geralmente de todas as nações gentílicas. Basílio. Ambrósio. Teofilato. Gregório Nasianzeno. Tomás e S. no Sermão 157. Eutímio. e que neste livro estava descrita a aparição futura daquela estrela.S. João Crisóstomo. e assim digo se devem entender ambas em toda a capacidade do seu sentido próprio e natural. Audivi aliquos (diz ele) referentes de quadam scriptura. Procópio. o qual. S.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Assim é e assim foi. Sem. que encheram o Mundo. sed de prisca sanctorum traditione majorum. antes aprova a tradição do futuro Messias. de apparitura hac stella. mas com efeito chegou. o qual querem muitos que seja S. e que só refere a fama.

como são os de Babilônia. e como tal concorriam a ela de todas as partes infinitas gentes de todas as nações e ainda de todas as cores. Este é o sentido literal das palavras scientium me. Elamitas. Numquid Sion dicet: Homo et homo natus est in ea. Que gloriosas cousas se contam de ti (diz David) e se escrevem nas escrituras de todos os povos. em ti homens negros. depois de ouvirem e admirarem em presença a sabedoria de Salomão. civitas Dei. em ti se acham todos os homens de África. Et veniebant de cunctis populis ad audiendam sapientiam Salomonis. que era uma protestação pública dos que a professavam. e muito mais a segunda. homens de todas as cores. soubemos que acudiram ao convento e ouviram a primeira pregação de S. et ipse fundavit eam Altissimus? Dominus narrabit in scripturis populorum et principum.. pois só no dia de Pentecoste. Asianos. depois de edificado o templo. Memor ero Rahab. que seria no tempo de seu filho Salomão. E se no tempo de David era tão freqüentada a cidade de Jerusalém de todas as nações do Mundo. é que todos estes. e em sinal da mesma fé introduziu em todo ele a circuncisão. filho e descendente seu.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Era Jerusalém antigamente a mais formosa cidade e o maior império do Mundo situado no meio de todo ele. 134 . como dizem comumente todos os intérpretes. plusquam Salamone! Assim o dizem expressamente neste lugar . Capadoces. porque o mesmo Cristo é o que falava neste Salmo por boca de David. et ab universis regibus terræ qui audiebant sapientiam ejus. Panfílios. mas também as passeiam os príncipes — populorum et principum! Mas o que sobretudo é digno de maior memória. Persas. porque conhecem a Cristo. e que a maior maravilha que levavam para contar em suas terras os que tinham ouvido aquele famoso oráculo era que. Pedro. homens de todas as línguas. vindo a ti. em ti os da Europa. e de todas estas gentes. e se conformam com o exemplo da Rainha de Sabá. Mesopotamios. em ti homens de todas as outras cores meãs. Medos. bastava um só do nosso para abundantíssima prova das muitas nações de Gentios que vinham ordinariamente e residiam em Jerusalém. ó cidade de Deus! Em ti se acham todas as diferenças de homens. como são tantos outros estrangeiros. que vinham de todos os povos e de todos os reis da Terra a Jerusalém pessoas enviadas por eles (que é certo seriam os maiores sábios dos mesmos povos e reinos) os quais. Isto é o que tanto celebrava David naquela cidade em cuja fundação e formosura tinha ele tão grande parte: Glorosa dicta sunt de te. como os Tírios. IV. não só freqüentam tuas ruas os do povo.. como são os de Etiópia. ó cidade santa. que isso quer dizer homo et homo. homens de todas as nações e partes do Mundo. diz o Texto Sagrado no III Livro dos Reis. que por isso se chamava Umbellicus terrae. que. primeira maravilha do mesmo Mundo. e o que sobretudo te faz gloriosa. em ti se vêem homens brancos. aprendem o que dantes ignoravam. Ecce alienigenæ et Tyrus et populus AEthiopum hi fuerunt illic. como são os asiáticos. que é mais. depois de ouvir a Salomão. quando menos. E quem poderá duvidar que um dos principais mistérios que Salomão ensinava naquela cadeira universal do Mundo era o da fé e esperança do futuro Messias. Pontos. como os Etíopes. dezessete gêneros de homens de línguas e nações diferentes — Partos. cap. Frígios. foi a primeira que pregou nesta fé e esperança do Messias no seu Império de Etiópia. e sabem o que dantes não sabiam. ainda havia de ter o mesmo Salomão um descendente que fosse mais sábio e maior que ele. et Babylonis scientium me. iam contar e ensinar a suas terras e príncipes o que dele tinham ouvido e aprendido. sendo tão admirável a sabedoria e grandeza de Salomão. horum qui ferunt in ea. em ti os da Ásia. Mas quando nos faltavam estes testemunhos do Testamento Velho. Judeus. ao som daquele trovão do céu. se o mesmo Salomão não fora maior maravilha! Para ver e ouvir estas duas maravilhas.

Pontum et Asiam. que senhoreavam o Mundo. de presentes e de outros tratos e correspondências políticas. pusesse escola de sua sabedoria. que quer dizer novos. cidade de Jerusalém e o povo e república dos Hebreus estava quase arruinada. et senes ejus prudentiam doceret. a Jacob em Mesopotâmia. a Isaac em Gerara. e que aí por mandado do rei. e no mesmo tempo pôs a Providência divina aqueles três Patriarcas em diferentes nações e províncias: a Abraão em Canaã. audivimus eos loquentes nostris linguis magnalia Dei. que seria nos tempos passados? Mas se importou muito para se estender a notícia do Messias por todo o Mundo a comunicação que os Gentios tinham com os Judeus em suas próprias terras. Cretenses. Ajuntou depois disto a fome em Egito os doze irmãos. entraram livres. já a. et de regno ad populum alterum. Assim trouxe Deus naquele tempo pelo Mundo estas quatro testemunhas de suas promessas de reino em reino e de nação em nação. que chamavam com nome geral prosélitos. de pazes. As maravilhas que depois viram nos Egípcios é certo que acrescentariam fé às esperanças dos Hebreus. Judaeam et Cappadociam. Et quomodo nos ( diziam todos estes no cap. Mas no tempo daquele comprido cativeiro Não havia casa no Egito em que o cativo não fosse mestre do senhor. et AElamitæ. et AEgyptum et partes Liyæ. Isaac e Jacob a vinda do Messias. quando isto aconteceu. que passaram entre as quatro nações imperantes e o reino ou povo hebreu. Revelou Deus por três vezes sucessivamente a Abraão. e já pode ser que a crueldade de Faraó. como a de Herodes. assim como hoje os judeus convertidos à Fé de Cristo se chamam cristãos-novos . continuaram cativos. Com os Assírios 135 . como notou o mesmo Profeta: Et pertransierunt de gente in gentem. de entradas. et advene Romani. enfim. Cirenos.prometido fazer a todas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Egipcios. filhos de Jacob e cabeças dos tribos. que foi em Abraão. para que fossem três pregadores daquele primeiro Evangelho. porventura até aquele tempo mal cridas. como diz David. dos Gregos e dos Romanos. muito mais ajudou e adiantou a mesma notícia a muito maior comunicação e freqüência que os mesmos Judeus tinham e continuaram sempre nas terras dos Gentios. se não fundasse tanto no receio de sua multidão que no medo de suas profecias. onde permaneceram até verem o cumprimento delas em Cristo. primeiro tronco e pai de toda ela. de confederações. dos Persas. Phrygiam et Pamphiliam. permitiu a mesma Providência que por extraordinários caminhos fosse José levado ao Egito. à Terra de Promissão. onde tivesse por ouvintes todos os príncipes e sábios egiptianos: Ut erudiret principes ejus sicut semetipsum. saíram vencedores. desde que nasceu e começou no Mundo a nação hebréia. Romanos. e algumas vezes mais estreita do que quiseram. de guerras. Onde se deve muito advertir que. prometendo-lhes que em sua descendência seriam abençoadas todas as nações do Mundo: Benedicentur in semine tuo omnes gentes terrae. ou como três evangelistas que anunciassem às gentes a boa nova da mercê grande que Deus tinha . Cretes et Arabes. concorreram e floresceram no mesmo tempo os quatro impérios ou monarquias dos Assírios. II dos Atos dos Apóstolos) audivimus unusquisqe linguam nostram in qua nati sumus? Parthi et Medi. Passados. e não conservava a quarta parte da grandeza a que nos tempos de sua maior opulência tinha chegado. E se agora era tão freqüentada de nações estrangeiras. e com todas elas tiveram grande comunicação os Hebreus. quæ est circa Cyrenen. Judaei quoque et proselyti. Africanos. Arabes e outros convertidos das gentilidades. E porque ao numero dos três Evangelhos não faltasse o primeiro. et qui habitant Mesopotamiam. Todas as histórias sagradas estão cheias de embaixadas.

de Simão e Jónatas. e posto que o maior corpo daquela gente teve o sucesso que depois se verá. como consta do I e II Livro dos Macabeus. E notam comumente os Padres e expositores que ordenou ou permitiu a Providência divina este desterro ou dispersão geral de todos os cristãos de Jerusalém pelas cidades e lugares daquelas províncias. quae erat Jerosolymis. foi o de Salmanasar. como consta das mesmas capitulações feitas entre uma e outra nação. Prometeu Deus a Abraão que multiplicaria sua descendência como o pó da terra e como as estrelas do céu. escritas em tábuas de bronze. e levasse a elas a primeira luz da fé de Deus e da esperança de Cristo: e este é o mistério ou a energia de primeiro se haverem de multiplicar como pó e depois como estrelas. é certo. de Acáz. de Zorobadel. não chegava a oitenta léguas da nossa medida. A terra. porém. de que se nomeia na Escritura Sagrada somente Lúcio. e não cabendo nos estreitos limites da sua própria terra. que concorreram com Alexandre Magno. com os Romanos. com Ful. mandadas pelos Romanos à Judéia. de Oseas. se plantasse nelas a Fé e depois. de Simão e Jónatas. com Salmanasar. Com os Persas. em tempo do Sumo Sacerdote Jado. com Dario e com Assuero. de Matatias. juntamente com eles assim espalhados ou semeados por aquelas terras. como consta do I e II Livro de Esdras e da História de Ester. concorrendo Deus para este fim com disposições de mui particular providência.Anexo:Imprimir/ História do Futuro notemos de Ezequias. crescendo e multiplicando-se a nação hebréia. no qual foram levados os dez tribos desde Judéia até as terras dos Medos e dos Assírios. não falando no do Egito. com Demétrio. E não só com estes quatro estendidíssimos impérios. com os dois Antíocos. gue concorreram com Berodac. de Neemias. para que o alumiassem no meio das trevas em que todo estava. por este meio tão natural e ao parecer não pretendido. A primeira foi dar-lhes muitos filhos e pouca terra. Heliodoro. et omnes dispersi sunt per regiones Judae et Samariae:. Severo Sulpício e outros autores latinos e hebreus. ficasse tão crescida e arreigada. para que. no tempo de El-Rei Oseas . que Deus deu e repartiu aos doze tribos para sua habitação foi a terra chamada de Promissão. E a razão desta providência foi para que. como consta do IV Livro dos Reis e da história de Judite. e juntamente instruídos e alumiados os Gentios. que estavam bem no coração de toda a Ásia. tiveram muito particular trato e comunicação os Judeus. que concorreram com Ciro. como adiante largamente contaremos. por ocasião da qual se dividiram e espalharam os Cristãos por todas as regiões e terras de Judéia e Samaria: Facta est in illa die persecutio magna in ecclesia. Assim lemos no cap. que muitos deles se dividiram por todas as terras orientais 136 . se espalhasse e estendesse por todas as nações do Mundo. mas com todas as nações do Mundo. em tempo de Judas Macabeu. O primeiro e principal desterro e cativeiro. Com os Gregos. de Joaquim e do sacerdote Eliacim. como escreve Paulo Orósio. de que já dissemos. com que eram levados e transmigrados a terras e regiões estranhas cousa poucas vezes vista em nações inteiras. tomada em sua maior extensão. em tempo de Jeconias. de Judas Macabeu. com Nabucodonosor e com Baltasar. como lemos nos mesmos Livros dos Macabeus. Finalmente. para que por este meio ficassem castigados os Judeus. Ptolemeu e Trifon. Com o mesmo fim ordenou a sabedoria e justiça divina que os maiores e mais gerais castigos daquela nação fossem desterros e cativeiros. cuja largura e comprimento. e foi assim que de doze netos de Abraão se formaram os tribos e destes cresceu e se multiplicou a mais numerosa nação que jamais houve no Mundo de um só sangue. que concorreram com diversos cônsules de Roma. VIII dos Atos dos Apóstolos que se levantou uma grande perseguição na igreja de Jerusalém. de Esdras.

honra e sujeição ao verdadeiro Deus que os Judeus adoravam. E a razão desta resistência. cheias todas de fé.. para que esta maior liberdade ou impunidade de adquirir ou multiplicar fazenda fora de sua pátria os convidasse a sair dela e os arrebatasse voluntariamente às terras estranhas onde com eles se transplantasse a verdadeira fé.] sed alieno. e levados a Babilônia. na qual se permitia (posto que não se justificava) para com as nações estrangeiras. e levava nele o trigo e mais o cálix de José. que professavam. que era droga naquele tempo que só nascia em Judéia. e nos mesmos imperadores supremos.. que era esse o nome de José no Egito: Vocabit eum lingua egyptiaca Salvatorem Mundi. onde os mesmos Hebreus estavam cativos. as drogas do Céu entre as mercadorias da Terra. como se vê nas palavras do edicto de El-Rei Assuero ou Artaxerxes. sed e contrario justis utentes legibus. orando ele apertadamente pela liberdade do povo. XXIII do Deuteronômio: Non fænerabis fratri tuo ad usuram [. E já pode ser (se o pensamento me não engana) que fosse este o intento de Deus naquela lei do cap. em tempo de El-Rei Joaquim. e com tão pouco cabedal como uma escudela de lentilhas soube adquirir por indústria o que lhe tinha negado a natureza. E destes temos o testemunho da Sagrada Escritura no cap. era o grande proveito espiritual que os gentios persas conseguiam com a presença e comunicação dos Judeus. como filhos alfim daquele pai que. que. Não só entre a gente popular mas nos maiores ministros e príncipes. e com eles a fé do verdadeiro Deus. Assim saíam de Judéia os mercadores. e fazer-se patrão e senhor do maior morgado do Mundo. et filios altissimi et maximi semperque viventis Dei. pela fé e conhecimento das cousas divinas que de sua conversação e doutrina (ainda sem particular estudo) se lhes pregavam. metendo-lhes em casa. que falava com o Profeta Daniel (como se lê no cap. sendo aquele império dividido em 127 províncias. Nos autem (diz o edicto) a pessimo mortalium Judaeos neci destinatos. Nas quais palavras. sem uns nem outros o pretenderem. lhe deu por causa da dilação daquele despacho a resistência que fizera por muitos dias diante de Deus o Anjo Custódio do reino dos Persas. com que mandou revogar a sentença de morte. 137 . penetrando até as províncias de que então nem muitos anos depois houve notícia. como escreve o Padre Trigantio nas suas Relações da China. metia também a sua o Salvador do Mundo. e nos fardos de mercadoria que levavam. ou desejo de adquirir riquezas. em que os dois tribos que haviam ficado foram também cativos. que por malícia e vingança de um mau e soberbo privado — Aman — contra a mesma nação se tinha mandado executar. de que é bom exemplo a China. in nulla penitus culpa reperimus. E aqui se entenderá o mistério com que um dos anjos custódios da nação hebréia. Nem se deve passar em silêncio a cobiça natural dos Judeus. fez sua fortuna. conhecimento. qual era Assuero ou Artaxerxes que firmou aquele edicto. comprando e vendendo. se vê claramente quão grande fruto faziam com sua presença nas terras onde estavam cativos e desterrados. Desta inclinação dos Judeus se serviu a Providência divina para os levar suavemente às terras e regiões mais remotas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro daquela vastíssima parte do Mundo. se achavam judeus daquela transmigração com todos os sinais dela. X de suas visões). O segundo foi no tempo de Nabucodonosor. e os introduzir e misturar com todas as nações. como neste lugar notam todos os expositores modernos. et usque hodie custoditur. em todas elas e em todas suas cidades estavam espalhados os Judeus. cujus beneficio et patribus nostris et nobis regnum est traditum. e o gênio indústria e inclinação tão particular que teve sempre esta nação ao comércio e mercancia. XVI do Livro de Estér. Princeps autem regni Persarum restitit mihi viginti et uno diebus. onde em nossos tempos depois de 2300 anos. Cuidava Benjamim que só levava trigo no seu saco.

para que a Fé tivesse lugar como mercadoria. que muito mais ricas iam do que voltavam. naquele memorial ou livro que intitula De Legatione ad Caium. império famosíssimo já naquela idade . parecerem a alguém suspeitosos e dignos de menos crédito. a esperança do Céu. De maneira que o comércio. Arábia. e o comércio leva às costas os pregadores. como direitos ou gabelas daquela mercadoria? Não me atreverei a o afirmar assim. diz que a maior parte de todas as ilhas e terras firmes maritimas e mediterraneas da Asia. alias civitatis demereberis plurimas. ou fosse Ofir a Índia. No edito que passou Assuero para que morressem todos os Judeus sujeitos às terras de seu Império. quando iam. da África e da Europa eram habitadas de Judeus: Itaque si exorat mea Patria tuam clementiam præpter ipsam. Isto levaram as frotas celebradas del-Rei Salomão quando navegavam a terras de Ofir. quando não havia comércio. porque não teve quem o levasse. levavam a Fé de Cristo. os desterros e a estreiteza da terra própria foram as três ocasiões principais por que os Judeus se saíam e Deus os derramava por todas as terras e nações do Mundo. a nossa Espanha. Asia. Josefo. posto que tão alegados e seguidos de todos os que escrevem. Tomé. quando quer passar a religião de um reino a outros. insulares. na Pérsia. tomando de nós o que tínhamos na Terra. E se estes dois autores. nos enriqueceu com o que trazia do Céu. e o segundo Apóstolo do Oriente. Os pregadores levam a Fé aos reinos estranhos. e o comércio leva os pregadores. Assim entravam os negociantes hebreus em Judéia ricos e acrescentados com as drogas mais preciosas de todo o Mundo. houve de caminhar (como é tradição) por cima das ondas. os sacramentos. diamantes. a salvação. ou fosse. na Arábia e na Etiópia. que levou do Brasil à Índia o Evangelho. e aquilo vinha trazer a Providência.pela riqueza e opulência de suas minas Isto vinha buscar a cobiça. que era a Fé e conhecimento de Deus. Assim começou Deus a espalhar o conhecimento de sua Fé pelo Mundo. E em quantas províncias achou o Evangelho fechadas as portas e. como muitos querem. era urna droga que só se dava então naquela terra. traçou que o pregador entrasse como negociante.Anexo:Imprimir/ História do Futuro E que seria se a este título justificasse Deus as usuras que permitia aos Hebreus nas outras nações. Naaman Siro trouxe de Damasco as suas azêmolas com carga de ricos presentes para oferecer a Eliseu e levou-as carregadas de terra de Israel. rubis. e o que principalmente levavam de Judéia para o mesmo Mundo. E Filo Hebreu. e assim deu princípio àquele admirável comércio em que depois. Pérsia e dia foi o que introduziu a Fé na Índia. no Livro XI de suas Antiguidades. quem havia de passar lá os pregadores que levam os do Céu? Os pregadores levam o Evangelho. traziam ouro. mas sei que não é cousa nova em Deus. Anquises levava os deuses na mão. por serem da mesma nação. porque era santa aquela terra. Quando os deuses de Tróia passaram a Itália. sitas in diversis orbis tractibus. se não era a terra de Israel. as teve abertas e francas? O primeiro rei de Portugal que se intitulou rei do comércio da Etiopia. Europa. depois que o comércio bateu a elas. querendo pregar na China. diz que a nação hebréia tinha cheia toda a redondeza da Terra: orbem terrarum replevit. mediterraneas. prata. e Eneias levava às costas a Anquises. Quando voltavam. a graça. S. meter neles a Fé às costas do interesse. Se não houvesse mercadores que fossem buscar a umas e outras Índias os tesouros da terra. maritimas. saiba que os mesmos testemunhos se leram nas Escrituras Sagradas ainda com palavras mais universais e de maior encarecimento. sendo certo então o que depois vimos nas frotas das nossas Índias. Africa. as verdades do Evangelho. ou fosse a América. pérolas. diz assim a Relação ou Relatório de suas 138 .

à qual estavam sujeitos todos os Judeus e professores da mesma Fé. et Cirenensium et Alexandrinorum. separada e particular. quae appellatur libertínorum. gente por natureza tenacíssima dos seus costumes e ritos. quatrocentas e oitenta sinagogas. não se há-de entender que uma só sinagoga fosse dos Libertinos. como advertiu S. Crisóstomo e outros Doutores. regnum jussa contemneret. e ainda hospitais da mesma nação. senão que cada uma das comunidades dos Judeus pertencentes a estas províncias tinham a sua sinagoga própria. as disputas. mas eram umas casas grandes e públicas. videntes unam gentem rebellem adversus omne hominum genus perversis uti legibus. nem podia ser mais que um conforme a lei). E no capítulo VI do mesmo livro se faz expressa menção das sinagogas diferentes que dizíamos: Surrexuntur autem quidam de Synagoga. qui novis uteretur legibus. reino corte ou povo notáve1 onde houvesse tanto número de Judeus que só ó que deles assistiam em 139 . e sobretudo era a cabeça da Igreja da Lei Velha. et turbare subjectarum nobis provinciarum pacem atque concordiam. E estas culpas assim relatadas que vêm a ser senão um testemunho público e autêntico de tudo o que imos provando? Porque não só consta delas estarem os Judeus espalhados por todo o Mundo. et universarum concordiam natonum sua dissensione violaret. onde se ajuntavam principalmente aos sábados. e ali se tinham as pregações. Cilicianos. nostrisque jussionibus contraire. os conselhos. mas se mostra também com a mesma clareza que os efeitos dessa dispersão era ser pública e notória a todas as nações e reis e a todo o gênero humano a nova lei e nova Fé diferente de todas as outras que os mesmos Judeus professavam.Anexo:Imprimir/ História do Futuro culpas: In toto orbe terrarum populum esse dispersum. et contra omnium gentium consuetudinem faciens. cada uma de diferente nação. Paulo. agentes requerentes e igrejas particulares em Roma. mas no qual texto. Quod cum didicissemus. se acharam nela. e que com a novidade de suas leis perturbavam a paz de todas as gentes e de todas as nações:omnium gentiam et universarum nationum. como refere Lorino. e que desobedeciam os mandados dos reis e eram rebeldes contra todo o gênero humano: adversus omne genus humanum. como se vê das provisões de S. que quando ultimamente foi destruída aquela cega cidade por Tito e Vespasiano. Lucas) muitos judeus moradores da mesma cidade. a universidade das letras. Asiáticos e Alexandrinos. et eorum qui erant a Cilicia et Asia. as quais ele foi buscar a Jerusalém contra os Judeus de Damasco. homens religiosos de todas as nações que cobre o céu. que era terra de gentios sujeitos a El-Rei Arctas. província.. nas quais palavras se diz votada e expressamente que o povo hebreu naquele tempo estava espalhado por todo o Mundo:In toto orbe terrarum populum esse dispersum. assim e muito mais se observava o mesmo uso entre os Judeus. Paulo: Secundum consuetudinem autem Paulus introivit ad eos. ainda que vivessem em outros reinos. o assento dos tribunais. como se conta no capítulo XVII dos Atos o fazia ou costumava fazer S. e todas as outras conferências das cousas espirituais ou eclesiásticas. jussimas etc. se pode ser ainda mais notáveis: Erant autem in Hierusalem habitantes judaei viri religiosi ex omni natione quæ sub caelo: «Havia em Jerusalém (diz S.» para cuja inteligência se deve supor que todos os hebreus que viviam longe de Judéia em diferentes nações. No I capítulo dos Atos dos Apóstolos temos outro testemunho sagrado igualmente universal e por termos. et per sabbata tria disserebat eis de Scripturis. Era Jerusalém naquele tempo (e muito mais antes daquele tempo) a corte dos rei. reinos ou cidades populosas tinham em Jerusalém suas sinagogas particulares e distintas. E era tanto o número destas sinagogas em Jerusalém. como hoje é Roma da Nova. e assim como todos os reinos e repúblicas da Cristandade têm seus embaixadores. as quais sinagogas não eram propriamente igrejas como as nossas (porque o templo era um só e comum a todos. Cirenenses.

porque lhes estava proibido tomarem na boca o nome de Deus. não o nomeou nem determinou o Deus que o criara. no Sermão de dia de Pentecoste. ensinavam e afeiçoavam a ela os gentios. na nossa Espanha e em outras províncias nobres da Ásia e da Europa. era o verdadeiro Deus. Saturno. com que. Destes altares havia outros. e juntamente se prova que com estas suas peregrinações e navegações levavam pelo mesmo Mundo a Fé do verdadeiro Deus.» Na qual sentença de Cristo se vê principalmente como os Judeus rodeavam mar e terra. como escreve o Cardeal Barónio. ao qual os Gentios chamavam Deus incerto. como dizíamos. que este Deus desconhecido a quem não sabiam o nome era o Deus que criara todas as cousas. ensinados pelos Judeus. posto que depois a viciavam os escribas e fariseus do tempo de Cristo com a má doutrina e exemplo que lhes ensinavam. E estes eram aqueles a quem S. Deus absconditus et Salvator — dizia Isaías a Deus. e depois que está convertido. Daqui se tira o novo e eficaz argumento de quão espalhados e multiplicados estavam os Judeus por todas as partes do Mundo. facitis eum filium gehennæ duplo quam vos. Conheciam.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Jerusalém pudessem formar corpo e comunidade distinta. e o davam a conhecer aos Gentios. e que estes monumentos de Religião e este conhecimento de Deus não conhecido se tivesse derivado aos Gentios da doutrina e trato com os Judeus. com o mesmo título de não conhecido. no Livro II de suas Antiguidades. mas o Deus dos Judeus não era conhecido de nome. consagrado ao Deus não conhecido — Ignoto Deo — o qual Deus não conhecido. senão também por indústria e estudo particular de alguns judeus mais zelosos. este poeta declarou ser ele o Deus que adoravam os Judeus. se não por zelo e cuidado particular da Religião. Pedro. aludindo a esta proibição: «Verdadeiramente. peregrinavam e navegavam por todas as terras e mares do Mundo. Mas nesta mesma incerteza com que falou no Deus criador do Mundo. desta companhia se lhes pegara. e não só pelo trato. Tal era aquele altar que S. o conhecimento da Fé de Deus e esperança de Cristo. os quais com desejo de aumentar a sua religião e o culto do verdadeiro Deus. Marte. ut faciatis unum proselytum: et cum fuerit factus. onde. e por isso se chamava Inefável. vós seis um Deus escondido. Mateus. repreendendo a hipocrisia dos escribas e fariseus. nome que se não podia falar nem dizer. dizendo-o só absoluta e incertamente: Quisquis fuit ille deorum «quem quer que foi o Deus» que o criou. ensinai-lhes tais doutrinas que o fazeis mais filho do Inferno do que vós sois. porque 140 . levantados entre as gentes mais políticas e celebradas da Gentilidade. diz assim: circuitis mare et aridam. os Gentios. descrevendo Ovídio a criação do Mundo. dos quais convertiam alguns. Senhor. isto é. na Arábia. provam-no agudamente alguns autores. nas Gálias. Porque os deuses dos Gentios eram conhecidos pelos seus nomes particulares de Júpiter. «Cercais o mar e a terra para converter um gentio à Fé. nem faltavam em diversas partes do Mundo padrões desta mesma verdade. passou-o em silêncio e disse que lhe não era lícito pronunciá-lo: De quo mihi dicere non est fas. criador do Céu e da Terra. mas Deus que escondido e desconhecido salvais. e este foi o mistério daquela erudita ignorância.» E Josefo. Paulo achou em Atenas. como logo lhes declarou o mesmo Apóstolo. Vere tu es Deus abconditus. porém. isto é. vindo a tratar do nome de Deus. e finalmente que Não se fazia isto acaso e por ocasião do trato. Desta verdade temos em prova (que não é só suspeita ou conjectura nossa) o testemunho e autoridade do mesmo Cristo no capítulo XXIII de S. comunicação e exemplo. chamou judeus de longe: Vobis enim est repromisio et filiis vestris et omnibus qui longe sunt Vivendo pois os Judeus tão misturados e travados com todas as nações dos gentios.

os quais. no capítulo XXXII do Deuteronômio diz Moisés que. em que se referem as famílias dos descendentes de Noé) foram setenta e duas. De maneira que. e com ele a sentença comum dos intérpretes. conhecido debaixo do nome de incógnito. ficam pontualmente setenta.designavit Dominus et alios septuginta duos et misit illos binos ante faciem suam. Agora pergunto: E que mistério ou que intento teve a Providência Divina em igualar o número de todas as nações ao dos primeiros hebreus e não em outro tempo ou ocasião. elegeu sinaladamente setenta e dois. Constituit terminos populorum juxta numerum filiorum Israel. que entraram no Egito. No qual número alude Moisés aos filhos de Israel. Temos a confirmação deste pensamento na mesma Providência Divina. Destas. por serem outras tantas (como dizíamos) as nações do Mundo. E dois discípulos. em correspondência também dos doze filhos de Jacob e dos doze tribos de Israel. E para que concluamos este discurso com uma advertência em tal matéria digna de muito reparo. mediu o número dos filhos de Israel. quando Deus. quae ingressæ sunt in AEgyptum. 141 .Anexo:Imprimir/ História do Futuro não tinha nome particular com que fosse conhecido e se distinguisse dos outros deuses. que foram setenta e dois estes novos precursores e embaixadores de Cristo. Assim entendem este lugar todos os Padres e intérpretes. E estes foram os primeiros rudimentos da Fé que os Judeus semearam entre os Gentios. se se tirarem a hebréia e egípcia. no princípio da Lei Escrita. fuere septuaginta. e. Assim o disse Claudiano. assim Deus. que são os Hebreus. fez aquela divisão conforme o número dos filhos de Israel. na confusão da Torre de Babel. in omnem civitatem et locum. chamando aos Judeus os adoradores de Deus incerto: Cultrix incerti Judæa Dei. queria trazer (como trouxe) ao conhecimento da Fé. Jerônimo. assim como Cristo. para que levassem por todo ele o conhecimento de Deus e a nova de que o Messias era já vindo. E a nova e promessa de que o Messias havia de vir é explicação admirável de outros setenta e dois intérpretes da divina palavra. porque esse era o fim e ofício para que foram destinados a todas as nações e tomados e repartidos conforme o número delas.. respondendo a cada um deles uma nação: Quando dividebut Altissimus gentes. Tratou Cristo de dispor a pregação do Evangelho e conversão do Mundo. por meio da sua pregação e doutrina. Lucas no capítulo X. com o de todas as outras nações e gentes do mesmo Mundo. que foram setenta almas: Omnes animæ domus Jacob. dividiu a todos os filhos de Adão em diversas nações e línguas. que já estavam unidas e se comunicavam. que sempre é semelhante a si mesma em casos semelhantes. depois de nomeados os doze Apóstolos. em lugar de — juxta numerum filiorum Israel — tresladaram — juxta numerum Angelorum Dei »— .. responde S. E era conveniente e necessário para este soberano fim que fossem tantos os mestres quantas eram as nações. também poeta latino e gentio. no princípio da Lei da Graça. senão quando a primeira vez se ajuntaram com os Gentios? O mistério e razão desta providência foi sem dúvida porque tinha Deus destinado aos Judeus para mestres da Fé dos Gentios naquela primeira Igreja. ·os quais consta do capítulo X do mesmo livro e do capítulo XLVIII dos Gênesis. quo erat ipse venturus. porque eles eram os que haviam de levar e semear entre todas elas o conhecimento do verdadeiro Deus. chamando neste lugar aos filhos de Israel anjos ou embaixadores de Deus. introduzindo-se o verdadeiro Deus nas outras nações e andando nelas como disfarçado. que o Senhor. igualou o número dos seus discípulos ao das nações e gentes do Mundo. quando separabat filios Adam. E se buscarmos nos expositores sagrados o mistério e proporção deste número. como escreve S. e crido com o sobrenome de incerto. que mandou diante de si: . os quais também concordam em que as línguas e nações em que Deus dividiu os homens (como se colhe do capítulo X do Gênesis.

os Amalecitas. os Jebuseus. os Macedônios. delas imitaram e sobre elas fingiram. e verá o que delas tomaram. E como só estes livros havia no Mundo. e tudo foi tomado do tesouro das escrituras judaicas. as causas e memórias do que escreveram e até a forma das letras e imagens dos caracteres.. a ordem. porque ainda não tinha gostado sua doçura. et (puto adhuc minus dicimus) ipsos. os Persas. que assim lhe chamou Aristóteles. os Romanos. elas o desvelo dos entendidos. elas o entretenimento dos curiosos. em as fazer escuras. para que mais se estendessem por toda a parte e fossem mais celebradas suas notícias. Não lhes podia suceder então às Escrituras divinas o que depois lhes aconteceu com Jerônimo. aos Egípcios da África e aos Gregos da Europa. origines. venas veterani cujusque styli vestri. que tudo governa.. os dos Profetas. senão também para lição e estudo de todas as outras nações. et inde etiam nostri. ainda vencem em Antigüidade os mais antigos filósofos e escritores gentios. os Eveus. os Madianitas. e os autores que escreveram aqueles livros todos do mesmo Povo. que são entre todos quase os últimos. achariam facilmente que não só foram escritas pela lei e observância dos Hebreus. Deos vestros. de cujos sucessos se não achasse alguma memória no 142 . os Sidónios. os Moabitas. assim os Assírios. os Gabaonitas. Elas só eram o estudo dos sábios. os Etíopes. Este livro foi o que fez aos Caldeus mestres da Ásia. a origem. Sírios. O primeiro livro que viu o Mundo foi o Pentateuco. os vossos sacrifícios. fossem uma e muitas vezes lidas. os Medos. a matéria. ipsas denique effigies literarum indices custodesque rerum. os Filisteus. tomou este soberbo e ingrato filósofo a sabedoria mais sublime que o fez o maior da Grécia. para que. que são também as nossas: Omnes itaque substâncias omnesque materias. historiarum causas et memoriarum . dos seus historiadores e ainda dos seus poetas. gentes etiam plurasque et urbes insignes. assim os Ismaelitas. Deste rústico. E não havia antes de Cristo província conhecida ou cidade de grande nome no Mundo. ordines. Até aqui Tertuliano. os Eteus. Agostinho) philosophi gentium nondum erant. «Tudo o que compôs o estilo dos vossos escritores — dizia Tertuliano aos Gentios — a substância. se os versados nas divinas Escrituras considerassem diligentemente a matéria delas e a traça e harmonia com que foram ditadas pelo Espírito Santo. os Amonitas. a que outro fim se faz neles tão freqüente memória de todas as outras nações do Mundo e seus sucessos? Assim temos os Cananeus. os Fereses. in quo videtur thesaurus collocatus totius Judaici Sacramenti. tudo vencem em muitos séculos de Antigüidade os livros de nossas profecias. Tempore nostrorum prophetarum (diz S. de Moisés. Aos livros de Moisés se seguiram os outros sagrados. quando as deixou pela suavidade de Túlio. os vossos oráculos. porque. sendo um só o Povo de Deus. e os vossos mesmos deuses (e não digo nisto mais senão menos) os vossos templos. Esse foi um dos mistérios de Deus. e ainda as mesmas cidades e algumas das gentes. as histórias das gentes e das cidades insignes. Quem quiser saber facilmente quão estudadas eram dos Gentios as Escrituras. os Caldeus. tendo sempre que entender. dispondo-o assim a Providência. inquam. e não faltam grandes conjecturas para se crer que Moisés foi aquele prodigioso Mercúrio a quem os Antigos celebraram com o nome de Trimegisto. ipsa templa. sæculis vincit. os Amorreus. verá quanto as não largavam das mãos. leia com atenção os livros dos seus filósofos. só estes se liam em todo ele. os Tírios. os Gregos. et sacra unius interim prophetae scrinium. Com razão chamou Clemente Alexandrino a Platão o Moisés de Atenas — Moyses Atlicus — porque de Moisés foram tirados todos aqueles lumes que deram a Platão em suas obras nome de divino.Anexo:Imprimir/ História do Futuro O terceiro meio de providência particular com que pôde chegar facilmente e chegou naquele tempo aos Gentios o conhecimento da fé e esperança de Cristo. os Egípcios. et oracula. foram as Escrituras Sagradas. É certo que.

Qual poeta se impôs ou traçou jamais uma comédia como a de Job. sem pôr monte sobre monte. tão ignorado entre todos os sábios. a da mulher de Lot em estátua. que jardins como os de Assuero. se não estivera revelado nas Escrituras. mas dos fingidos e fabulosos. as rodas e os cavalos tudo de fogo? Que semelhança tiveram aquelas máquinas que se levantaram com nome de maravilhas do Mundo com a portentosa grandeza das que lemos nas Escrituras? Que estátua como a de Nabuco. e um Elias voando pelos ares em um carro de quatro cavalos. que se pareça com os oráculos sempre certos do propiciatório? Que disse das vozes de Eudimião. obedecida da Lua e do mesmo Sol? O caduceu tão celebrado do seu Mercúrio que comparação teve com os poderes da vara de Moisés. que não exceda uma só voz de Josué.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Testamento Velho. e depois de serpente convertida outra vez em vara? Descreveram as fábulas o dilúvio. que livros se escreveram jamais. comendo serpentes. não digo dos que professam verdade. que dividia os mares. sed non ut lex tua. onde estavam conhecendo seus nomes e lendo as fortunas? Bastava só para mover a curiosidade universal de todas as gentes à lição dos livros Sagrados. do que tudo houvera perpétua ignorância nos homens. só do que leva o apetite e não do que move a razão. uma tocha que de noite as alumiava. uma tragédia como a de Aman. o carro. e mais ainda não tinha sido o que depois dele se escreveu. mas não tiveram fantasia para meter todo o Mundo em uma arca. que palácio encantado como o templo de Salomão. um Enoc desaparecido . dizia Daniel. um Datão e Abiron tragados da terra. Que se podia inventar de maior pasmo aos ouvidos. que carroça como a de Ezequiel. Não falo já de Daniel. que coluna como a do Deserto. Que gigantes fabulosos filhos da terra se atreveram a edificar uma torre como a de Babel. Mas quando nenhum destes tesouros houvera depositado e encerrado nelas. Que disse a Gentilidade da cítara de Orfeu. a origem das línguas. mas só em nove capítulos de Isaías lemos sinaladamente as profecias de onze nações diferentes. a da vara de Moisés em serpente. porquanto trato do doce e não do útil. a divisão das terras. edificado de seus fundamentos sem nele se ouvir o golpe de martelo? Um pavilhão que de dia cobria do sol seiscentas mil famílias. porque o podia fazer com uma palavra? Não digo nada dos documentas da Escritura. chamadas cada urna por seu nome a ouvir a sentença e a saber da boca de Deus o que lhe estava por vir. parava os rios. que falou universalmente de todos os maiores impérios. E que nação destas haveria que não lesse com grande atenção e cuidado os oráculos daquele famoso profeta. uma novela ou enredo como a de José? Em que teatro dos Gentios se representaram aparências de tanto artifício como um paraíso terreal sumido no meio do Mundo. nem arrimaram escadas ao céu. fazia caminhar os montes? Onde se lê tal agravo de onipotência como no tenente daquela vara em quem foi culpa tirar fontes de um penhasco com dois golpes. como a de Jacob? Que metamorfoses ou transformações fingiram como a de Nabucodonosor. que igualem em grandeza e variedade de casos admiráveis a menor parte ou sombra do que se refere nas histórias sagradas? Narraverunt mihi iniqui fabulationes. convertido em bruto. nem confiança para o salvar nela. de que fugira o Inferno? Que disse das respostas duvidosas do seu Apolo. como dos futuros nas profecias. o nascimento das nações. que ouvir falar um jumento com Balaão e uma serpente com Eva? Que se podia 143 . que se iguale com a harpa de David. assim dos passados nas histórias. já dissemos que se chamava coluna.de repente. a ordem e cronologia dos tempos. serem só eles os que revelaram e descobriram o Mundo o segredo de seu primeiro princípio. também ouvidas da Lua. falando somente do que pertence à história.

em que um só capitão com um só soldado. dando com o templo em terra. atado sete vezes. desembarcá-lo a fera vivo nas praias de Nínive? Como estes são os prodígios que se encontram a cada página nos Livros Sagrados. ainda conhecidas por falsas. encomendado com maior ventura à própria mãe para que o criassem a seus peitos? Que maravilha como a da sarça verde e sem arder no meio das chamas. e. que história tão admirável como a da casta Susana? Que sacrifício tão lastimoso como o da filha de Jepta. derrubados com os instrumentos dos músicos do templo! Que emboscada como a de Abimelec em que os bosques e as sombras caminhavam juntamente e os soldados com eles? Que vitória como a de Jónatas. que Hércules Tebano como Sansão. matou com ele em um dia seiscentos filisteus. mas lavrador que. mil de seus inimigos e ainda matara mais. vencedor de trinta e um reis. preso dentro da cidade de Gaza. com uma funda e um cajado contra o gigante coberto de ferro? Que batalha como a de Gedeão. pôs em fugida e desbarato o exército inumerável dos Filisteus? Que triunfo como o da galharda Judite. levado ao templo dos Filistinos. deleitam e suspendem tanto a curiosidade dos homens? Que desafio como o de David. com uma queixada de um jumento. arrancando um dente da mesma queixada. de uma só rompeu as cordas e nervos como se foram teias de aranha. em campo aberto. Todas estas forças tinha este bizarro mancebo em sete cabelos. tomando posto nos braços da Princesa do Egito. Paremos no valente Eleásaro. e de entre a lenha e a espada escapando vivo? Que caso tão bem tecido como o de Moisés infante. aquele que. desde seu nascimento. fazendo montante do arado. a dos meninos de Babilônia tomando fresco na fornalha. e ver dali a três dias surgir a baleia. sepultou debaixo dele todos os idólatras. aquele que. e depois ficou ali não sei se diga morto. em que degolou de um golpe todo aquele seu exército? Mas passando nós a encontros de maiores forças em que pelejaram os braços e não a indústria. Mas que direi das façanhas e cavalarias que. matou. Mas deixando a guerra. Fique à trombeta da fama Josué. e juiz depois de lavrador. porque dedicou todos a Deus. que comer em uma iguaria todos os banquetes e gostar em um só maná todos os sabores? Que se podia imaginar de maior suspensão e assombro à vista. já entregue à fúria do Nilo na barquinha ou naufrágio de vimes. o sangue e o estrondo das armas. primeiro foi matador de sua sepultura. restaurador vítima da sua pátria. só com trombetas e luzes em cântaros de barro? Que bateria como a dos muros de Jericó. Segundo Sansão. e o fortíssimo Macabeu. quebrou com as mãos os ferrolhos e lançou às costas as portas. aquele que. que ver o monstro marinho engolir a Jonas. aquele que. se não fugiram todos? Teve sede Sansão. cansado de matar. quando entrou pelas portas de Betúlia com a cabeça de Olofernes. se mortalmente oprimido do peso de tamanha vitória. fez brotar dela uma fonte. a de Daniel comendo e não comido no lago dos leões. ver levá-lo consigo ao fundo e desaparecer. que. e a da serpente do Deserto dando vida aos mordidos só com olharem para ela? Que prudência como a de Salomão em mandar partir o menino para conhecer a mãe verdadeira? Que engenho como o 144 . metendo-se intrepidamente com a espada debaixo de um elefante armado. e tão venturoso como o de Isaac posto já sobre o altar. foi Sangar capitão do mesmo povo depois de juiz. e deixou semeando com seus corpos o campo que andava lavrando.Anexo:Imprimir/ História do Futuro fingir de maior lisonja e admiração ao gosto. Assim obedecem os elementos a quem assim triunfa dos homens. lançou a mão direita e esquerda a duas colunas.

XCVII. como dissemos. que como as de David com Saul e as de Cusai com Aquitofel? Tudo nas divinas Escrituras é divino. o Salmo XLV. para mostrar de dia nas pegadas dos sacerdotes e seus filhos que eles e não o ídolo eram os que comiam as ofertas? Que subtilezas de Estado tão bem entendidas como as dos Livros dos Reis. os Salmos e os livros de Moisés: Necesse est impleri omnia quae scripta sunt in lege Moysi et prophetis et psalmis de me. que gentio havia de haver. XLVI e XLVII. no estilo e disposição das escrituras do Testamento Velho (tão diversas nesta parte das do Testamento Novo) temperando a alteza e majestade de seus mistérios com o sabor de tantas verdades gostosas e com a variedade de tantas maravilhas tão novas e tão notáveis. o Salmo IX. que não visse e conhecesse que era prometido naquelas palavras um Rei futuro. e fora matéria imensa de prosseguir e impossível de compreender querer levar por diante os princípios deste não intentado discurso. LXVII e LXXXVIII. entre os Gentios. aprendessem por eles a Fé de Deus e juntamente as esperanças de Cristo. que homem os podia ler com juízo e entendimento. o 9. para que. XCV. e com termos que Não admitem outro sentido nem interpretação. Três partes da Escritura. mais aludidos que contados. e não Rei como os que costumava ver no Mundo. Bastem estes poucos exemplos. o 52. é cousa maravilhosa a freqüência com que está repetido. todos estes catorze salmos têm por principal assunto o Império do Messias. disse Cristo aos discípulos que falavam mais particularmente na sua vinda ao Mundo: os Profetas. foram ordenadas à vinda de Cristo. apenas se acha cláusula em muitas delas que não esteja anunciando esta vinda e este Reino. o 35. de uma só ou algumas nações. o 53. para pintar os cordeiros antes de nascerem? Que indústria como a de Daniel em semear de noite o templo de cinza. fundamentais desta nossa História. o Salmo CII. o 65 e o 66 de Isaías. e muitos outros de todos os Profetas. o II. como todas. o 54. em que o Reino universal daquele futuro Monarca está expresso e declarado com palavras tão vulgares e tão significativas. por bárbaro e ignorante que fosse. ainda que fosse sem fé. como ele era a quem tão de perto tocava aquela felicidade e a quem particularmente estava prometida. que. convidados com o cevo da curiosidade os que ainda não deviam àqueles livros outros melhores respeitos. que não fizesse conceito do que diziam? Mas basta ao nosso intento que o fizessem os doutos e os entendidos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro de Jacob em meter as cores pelos olhos das mães. O Salmo II. os dois textos de Daniel. e de Cristo em quanto Rei e Senhor do Mundo. e como este foi o altíssimo conselho da Providência Divina. para que deles possa entender o leitor (que é o que só lhe pretendemos persuadir) quão fraca seria a todas as nações dos Gentios a lição dos Livros Sagrados quando chegassem a suas mãos. E quão impossível cousa seja poderem ler os Gentios as Escrituras Sagradas. 145 . Nos Salmos de David. E deixando à parte os lugares mais escuros (que esses não os entendiam os Gentios sem intérprete) como se viu no eunuco da rainha Cândaces. 2. de Etiópia (se bem havia muitos hebreus. a quem estes podiam perguntar a interpretação quando quisessem) o cap. o Salmo XCII. tudo maravilhoso. vê-se clara e naturalmente da matéria das mesmas Escrituras. o Salmo LVIII. XCVI. o Salmo XLI. tudo raro. senão de todas as gentes e reinos do Universo? E quando todas as outras profecias tivessem alguma escuridade que eles não pudessem entender ou interpretar por si mesmos. a clareza com que está apregoado e a pompa e majestade de palavras com que está engrandecido o Reino de Cristo. sem beberem daquelas fontes esta esperança.

lhe prometeu que seriam abendiçoadas nele todas as nações da terra: In te benedicentur universæ cognationes terræ.Anexo:Imprimir/ História do Futuro E porque não duvidassem os Gentios que eles. em prêmio da resolução e obediência com que Abraão não duvidou de sacrificar seu filho. idumeu de nação. no capítulo XLIX do mesmo livro dos Gênesis está o famoso texto já referido um dos dois em que fundamos todo este discurso: Non auferetur sceptrum de Juda. se não cresse aquela Fé. finalmente. que gentio. que era o esperado Rei e Messias do Mundo.a alegação de Cristo). natural da terra de Hus. omnes gentes servient ei. e no Salmo LXXI: Adorabunt eum omes reges terræ. porque o faremos muitas vezes. nomeadamente dos mesmos Gentios. a quem conheceu por universal Redentor: Et scio quod Redemptor mous 146 . e em Jacob. a primeira vez que Deus apareceu a Abraão e o mandou sair da pátria. mas tão dirigidas e encaminhadas todas as nações. os livros de Moisés (que era a 3. não só têm por ocasião da mesma história muitas profecias e promessas desta esperança. lhe promete Deus terceira vez a mesma bênção. Finalmente. digo. que todos o desejassem e esperassem todos. com que as nações gentílicas puderam conhecer. no capítulo XXVIII: Benedicentur in semine tuo cuntae tribus terræ. ao menos não conhecesse aquela esperança? Deixo de ponderar mais lugares de David. tão alheio do lume da razão e tão gentio. não podiam deixar de vir em conhecimento. A qual promessa tornou Deus a ratifica quarta e quinta vez em Isaac. falando com eles nomeadamente. em toda esta História. posto que sejam principalmente históricos e não proféticos. sempre pelas mesmas palavras. e com efeito conheceram. que. Que gentio podia haver tão rude. os dos Salmos e os dos Profetas. Em Isaac no capítulo XXVI: Benedicertur in semsa tuo omnes gentes terræ. No capítulo XII. quoniam Domini est regnum. Assim que. o prometido Messias. et ipse erit expectatio gentium. e foi insigne profeta de Cristo. Era Job verdadeiramente gentio. e no Salmo XCV: [Dicite] in gentibus quia Dominus regnavit. e tal conhecimento de Cristo. nas quais se lhes prometia por boca de Deus que seriam abendiçoadas em um homem da descendência de Abraão. e no capítulo XXII. podia ler estes textos ou ouvir estes pregões tão expressos e declarados do domínio daquele futuro Rei sobre todos os Reis e nações do Mundo. neto do mesmo Abraão. et excelsus super omnes populos. e particularmente os livros de Moisés. vinte nove vezes lhes repete e inculca o mesmo Daniel esta gloriosa sujeição. lendo os Gentios como liam as Escrituras. senão na de um seu descendente: Benedicentur in semine tuo omnes gentes terrae.cum benedicendae sint in illo omnes nationes terræ. Job. e em Jacob. etenim correxit orbem terrae. e no capítulo XVIII torna a referir Deus esta mesma promessa: . e no Salmo XXI: Adorabunt in conspectu ejus universæ familiæ gentium. eram as que haviam de ser sujeitas a este grande Império. filho. De sorte que em um só livro de Moisés tinham os Gentios seis profecias claras e que claramente falavam com eles.. que lendo no Salmo II: Dabo tibi gentes hæreditatem tuam et possessionem tuam ter minos terræ. as suas terras e as suas coroas.. O quarto e último meio e mais imediato da Providência Divina. e no Salmo XCVIII: Dominus in Sion magnus. senão clara e distintamente pelo seu próprio nome de Gentios. do Gênesis. e não por termos enigmáticos ou metafísicos. Seja o primeiro exemplo desta luz aquele grande varão mais conhecido pelo testemunho da paciência que pelo lume da profecia. que não podiam deixar de ser lidas deles com grande advertência e recebidos com grande aplauso. com declaração que não seria na sua pessoa. donec veniat qui mittendus est. foram muitas revelações particulares daquele mistério com que Deus em diferentes tempos alumiou por si mesmo a vários homens e mulheres de toda a Gentilidade.

por cujo meio a uns e outros fossem manifestos os conselhos divinos. E digo que não só os Hebreus entendiam assim este lugar. Máximo: Nemo [. e em quem esperou ver a Deus vestido de carne: In carne mea videbo deum meum. Leão Papa). como ele diz.. ou difamada (como diz S. senão mau gentio. sed non modo.ad intelligendam miraculum signi potuerunt Magi etiam de antiquis Baluam praenuntiationibus commoveri scientes alim esse praedictum et celebri memoria diffamatam. como consta da mesma história e do que eles disseram nela. mas não agora. Notem-se bem estas últimas palavras. e esta esperança. potuit Gentilis agnoscere.] miretur netivitatem dominicam agnovise Chaldaeos quam utique. et in carne mea videbo Deum meum. intuebo. Este Balaão. trazia sempre guardada no seio: Reposita est haec spes mea in sinu meo». vencerá todos os capitães dos Gentios e sujeitará todas as nações do Mundo. et consurget virga de Israel. de um Rei descendente da casa de Jacob. respondo que em muitas cousas particulares... ita gentibus per Sibyllas ostendere voluisse per idem numen fatidicum. mas também os Gentios. Agostinho) que comunicou Deus o espírito de profecia a estas famosas mulheres. puderam argüir do aparecimento da nova estrela o nascimento do novo Rei: . ou aos Gentios pelas Sibilas. quod de illo tempore prophetavit quia Christi deitas habitum nostrae carnis induta est. E se alguém perguntar curiosamente a quem e por cu]a boca falou Deus mais claramente.. principalmente das que pertencem a Cristo. olharei para ele. si revelante Deo praenuntiare potuit. já se vê quão ensinados teriam nela a todos seus vassalos. assim como os Hebreus tiveram os seus Profetas. assim pelos Hebreus. nas Anotações que fez sobre o original grego dos oráculos sibilinos: Sic prarsus sentio Deum totius universitatis opificem et administrum aeternum. e muito famosa. Quer dizer: «Vê-lo-ei. Dele diz S. et percutiet duces Moab. a memória desta profecia. vastabitque omnes filios Seth. e quão pública seria entre eles a esperança de Cristo Balaão (cujo espírito profético é tão vulgar que não tem necessidade de provas) não só foi gentio. conforme a ordem e disposição eterna de sua providência. Os amigos de Job também eram gentios de outras províncias vizinhas. tivessem também os Gentios os seus. principalmente aqueles que para a salvação universal do Mundo eram necessários. suum votum et totam illam futuram seriem praesertim ad salatem mortalium spectantem. este gentio. por ser muito célebre entre eles a notícia deste oráculo. sed non prope: orietur stella ex Jacob. Similiter et Job—diz Santo Agostinho— eximius prophetarum. porque.» As quais palavras foram sempre entendidas. de que se ve facilmente quão notória era no Mundo e quão pública entre os Gentios esta esperança. se aos Hebreus pelos Profetas.tão celebrado no capítulo XXIV dos Números: Videbo eum.Anexo:Imprimir/ História do Futuro vivit. e como todos fossem reis e senhores de suas terras (assim lhes chama o Texto Sagrado no capítulo I de Tobias) com aquela suprema autoridade e com o conhecimento e sabedoria que tinham do Céu . pela qual memória ou notícia (diz o mesmo santo) informados os Reis Magos. como pelos Gentios. Das Sibilas (profetizas também da Gentilidade) diz assim Xisto Betuleu. sicut Israeli per prophetas. (o qual não duvidou de se chamar a si mesmo auditor sermonum Dei. e também alumiados da mesma fé e confirmados na mesma esperança. e levantar-se-á o ceptro de Israel. falaram com termos de 147 . nascerá a estrela de Jacob. illum. que em tempos futuros havia de imperar no Mundo e havia de sujeitar a seu domínio todas as nações dele. Quer dizer este autor (e o confirma com o que disseram das Sibilas Lactanio Firmiano e S. qui novit doctrinam Altissimi et visionem Omnipotentis vidit) profetizou claramente de Cristo e de seu império naquele texto. mas não de perto.

e assim foi. os quais copia este naquele lugar. nome ou inscrição particular. formando ao menos um conceito comum. Carnifer ille homines judex inquiret in omnes. Salvador cruz. as últimas relíquias de poder em que se conservava o Grego não passaram mais que doze anos. No fim do Livro II diz a Sibila Eritrea estes versos: Sed postquam Roma AEgyptum reget imperioque Fraenabit. para que se veja quão fácil era aos Gentios o conhecimento de Cristo pelos livros ou oráculos das Sibilas. servator Crux Jesus Cristo. Diz que nasceria este Rei e daria princípio a seu Império quando Roma dominasse e governasse o Egito. Ille domus caecas et Ditis claustra refringet. Horrida terra vias caeli spinceque tenebunt. Unum suscipient numen pravique bonique Summum. porque depois da vitória de Augusto César. qui totius orbis Omnia sceculorum per tempora sceptra tenebit. até o nascimento de Cristo. e conceito de um Rei e de um Império futuro. Filho de Deus. omnem. tão galante é a frase com que o Santo declara o mal falado e mal medido daqueles versos. Rejicient simulacta viri. compreendeu e cumpriu felizmente com todas estas dificuldades. e não terem notícia da Messias e da esperança e promessa de sua vinda. 148 . em que venceu a Marco António e Cleópatra no Egito. Agostinho. summi tum summa potentia regni Regis inextincti mortalibus exorietur. Não se podia descrever com maior clareza o tempo e circunstâncias do nascimento de Cristo. antes quão impossível cousa era lerem eles. e nós deixamos de os pôr aqui. pois. Rex etenim sanctus veniet.. debaixo do qual se havia de renovar e restaurar o Mundo. cap. no Livro XVIII De Civitate Dei. traduzida por Xisto Betuleu. Dei filius. Depois diz que o Procônsul Flaviano lhe mostrou outros mais conformes às leis da gramática e da poesia. S. É a seguinte: Judicii metuet sudans presagia tellus Et Rex ceternus magno descendet Olympo Sublimis carnem mundumque ut judicet. Os versos. C e S. Estes versos estão em toda a sua propriedade no texto grego.. e não se poderão traduzir na língua latina com o motivo daquelas letras sem alguma variedade. supremo cum Sanctis tempore mundi. porei somente aqui dois. a soberania de seu supremo poder e a Monarquia Universal de seu Reino sobre todos os cetros e coroas do Mundo. como se pode ver facilmente de uns e outros livros. diz que a primeira versão que chegou a suas mãos deste acróstico era em versos mal latinos. e que se não podiam ter em pé: Versibus male latinis et non stantibus. De muitos lugares e exemplos que pudera trazer desta diferença. aqueles livros. gazamque retostam. e fazer de um X. A de João Bongro. porque não guardam a ordem das letras iniciais. propriedade que falta em muitas outras versões latinas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro maior clareza as Sibilas do que os Profetas. como consta da. (lacuna do original) No Livro VIII (que é o último) tem a mesma Sibila outros versos mais notáveis do gênero daqueles que os Gregos chamaram acrósticos. como liam. XXIII. cujo artifício é lerem-se pelas primeiras letras. são trinta e cinco e a sentença é esta: Jesus Christus. e formar-se com elas alguma sentença. e acabou de dominar o Império Romano. sem tomar outra licença mais que a de desatar a última letra em duas.

Succendet terram fulmen. quae clamet ad omnes 149 . quando disse: In similitudinem hominum factus et habitu inventus ut homo. Immensos colles aequabunt marmora campi. Destes mesmos versos faz menção Eusébio Cesariense na Vida de Constantino Magno. Insurgent valles. com todas as circunstâncias de grandeza. Velivago nulli cernentur in aequore nautae. ast offensa malignis. E mais abaixo se lê a pregação do Baptista. Erumnae et stridor dentis regnabit ubique. que morreu cinquenta anos antes do nascimento de Cristo. e Marco Túlio. argentea luna peribit. O mistério da encarnação está com tanta e maior clareza no Livro I dos mesmos oráculos das Sibilas: Tunc ad mortales veniet. Atque Dei solio sistetur judicis omnis Turba ducum regumque. producent in auras Deteget et turbis Deus obsita corda tenebris. vaga lympha Solis arescet ripis. consident ardua montis. é a vinda de Cristo a julgar o . Não falou com palavras mais claras S. O sentido dos versos. quase pelas mesmas palavras de S. mortalibus ipsis In terris similis. Vastam terra chaos stygio monstrabit hiatu. Paulo. Ipsum deficiet solis decus astra colore Fusco obducentur. majestade e horror que pertencem ao aparato e execução do juízo. scelerosos flamma piabit Ultrix bertetuum: mala quae quicumque patravit Sontica suppressitque diu. fontesque dehiscent: Et tuba de caelo tristis clangore sonabit Raucisono mundi clades pereuntis acerbas. natus Patris omnipotentis Corpore vestitus. Rore bonos lustrans bisseni fontis ab unda: Virgaque qua pecori dat ferrea jura magister Carminis auspiciis qui crimina morte piabit Servator Rex arternus Deus ipse patescit. no livro II De Divinatione. em suma.Mundo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Sanctior a mortis jam nexu libera lucem Turba hominum cernet. pluet tum sulphure et igni Omnibus extabunt ligni vexilla verendi Robur et auxilium populo exoptata fidéli: Certa pio generi vita. Luxus sublimis mortales deseret oras. Mateus: Verum cum quaedam vox per deserta locorum Nuncia mortales veniet.

até lhe pôr a coroa (como se esta fora o fim e assunto do seu poema) conclui com estes versos: Ergo ad judicium veniet diciti memor hujus. Finalmente. os mares que pisou andando placidamente. O nome da Virgem. Persimilem formam portans in Virginis alvum. hinc tali affatur sermone puellam: Accipe. o império que exercitou sobre todas a criaturas. que instituiu e administrou. cujus. açoitado e afrontado com mãos sacrílegas em seu próprio rosto. alegria e pasmo dos pastores.] Perque feret tacitus cotaphos ne forte sciatur Quis sit. compreendendo admiravelmente em tão poucas regras o nascimento virginal de Cristo. a paciência e humildade com que sofreu ser cuspido. resumindo todas as obras de Cristo. até o presépio de Belém... Ac primum cortpus Gabriel ostendit honestum Nuncius. E porque não faltasse com todas estas circunstâncias. assim da vida santíssima. animosque refurgent A vitiis et aqua lustrentur corpora cuncta. horrentemque feret de vepre coronam. as enfermidades que curou milagrosamente. assim como tinha declarado o do Anjo. poder e majestade de quem era e de quem o mandara ao Mundo. placidis pedibus calcando. sobre as ondas. mortalibus unde locutum Venerit. Ut nunquam doincets peccent in jura. o sacramento do batismo. Até aqui a Sibila. Ad virosa genas praedebit sputa prudentes Verberibusque sacrum tradet proscindere tergum [Viriginem enim castam tradet mortalibus ipse. aparecimento da estrela e adoração dos Reis. Placabit ventos dicto sternetque profundum Insanum. renati. dissimulando debaixo de tantas injúrias a grandeza. como da sua Paixão. diz no mesmo lugar: Et brevis egressus Mariae de Virginis alvo Exorta est nova lux. Virgo. e coroado por escárnio com coroa de espinhos. A embaixada do Anjo à Virgem com o mesmo nome de Gabriel descreve a Sibila no Livro VIII por estas palavras: E caelo veniens mortales induit artus. depois que teve (como ele diz) maiores as mãos. segundo as leis da história.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Ut rectos faciant calles. Sic ait: est illam caelestis gratia mo11i Leniit afiatu: tum virginitatis amatrix Perpetuae magno subito correpta stupore Atque metu trepida pressit formidine mentem. 150 . Deum premio intemerata pudico. E pelo mesmo estilo vai prosseguindo a história da encarnação. Collustrans lympha manibus senioribus (?) omnes Cuncta jubens faciet morboque medebitur omni. a sujeição com que lhe obedeceram os ventos. fideque.

e dos Modernos ao P. se acomodou à cegueira com que os Judeus haviam de negar a Cristo. Por meio destes oráculos das Sibilas. Desta mesma opinião de Eusébio são outros muitos autores. Sendo a razão desta providência (como bem notou Castálio) a rudeza e ignorância das cousas divinas em que viviam os Gentios. e que destas fontes bebeu aqueles levantados espíritos. Intelligimus autem (diz Eusobio) dicta haec manifeste simul et obscure per allegorias prolata iis. qual se não acha maior nem ainda igual nos Profetas. e cita nela os oráculos da Sibila Cumea: Ultima Cumaei venit jam carminis aetas. que andavam nas mãos de todos. id oraculorum perspicuitate compensaretur? Accedit eo quod (quemadmodum scitur ex Isaia) voluit Deus Judaeis obscuriorem esse Christi adventum. tendo também estes ali tantos mestres que os pudessem alumiar e ensinar. aos quais era necessário se falasse com maior clareza do que aos Hebreus. e carecendo aqueles de toda a luz e doutrina.e Lacerda. era tão vulgar e famosa entre os Gentios a esperança daquele novo Rei e da idade dourada que havia de trazer ao Mundo com seu felicíssimo Reino. que de versos de Virgílio teceu e compôs felizmente toda a vida de Cristo As razões mais fundamentais e sólidas com que se persuade e converte a verdade deste império temporal de Cristo são as que imediatamente se tiram dos mesmos títulos que acabamos de declarar. Quem tiver curiosidade de ver a alegoria de toda a Égloga aplicada e explicada de Cristo. que morreu treze dias antes do nascimento de Cristo. quanto a lemos elegantemente profetizada na IV Égloga de Virgilio. para que o não condenasse a superstição romana como violador da divindade dos deuses. talhado verdadeiramente para poeta de Cristo. Nonne (são as palavras de Castálio) quae de Christo gentibus praedicta sunt ea clariora esse oportuit. encobrindo e envolvendo o vigilantíssimo Poeta a verdade desta sua fé e pensamento com as figuras e metáforas daquele seu Mecenas. e certo são tão extraordinariamente grandes as cousas que o príncipe dos poetas diz naquele poema bucólico. e sobre todos (lacuna no original). quod idem de gentibus dicere non licet. e não nas de Aganipe ou Hipocrene. veritatem occuluerit. é de opinião que esta quarta Égloga de Virgílio é toda alegórica. por permissão ou castigo. rejiceret.. qui carminum horum sensum altius sub conspectum divinitatis Dei scrutantur. Eusébio Cesareense. conhecido pelos oráculos das Sibilas.. os quais constantemente se persuadem que o sujeito da IV Égloga virgiliana não foi outro senão Cristo. e a claridade das Sibilas à fé com que os Gentios o haviam de crer. E assim a primeira e mais relevante de todas se funda na união hipostática com que a humanidade sagrada de Cristo está unida ao Divino Verbo. foi verdadeiramente escrita e dedicada a Cristo. quod Mose et cetera disciplina carebant. posto que 151 . nascidos e criados entre os resplandores da Fé e conhecimento de Deus. como se vê em Platão e Aristóteles. principalmente dos sábios. para que entendêssemos que as Sibilas foram as Musas Sicélides que exercitaram cousas maiores. que nem ainda do mesmo César se puderam dizer sem nota de demasiada adulação e indigna de um tão eminente juízo como o de Virgílio. ne quis eorum qui in regio orbe denominabantur. ut in eum obscurarent alque ita sua. quae eis ad Christi lumen quasi proluceret: ut quod hic durat. filho de Polion. filho do Eterno Padre. no já citado livro da Vida de Constantino Magno. innuere quomodo Poeta. e que debaixo da metáfora de Asínio. veja nos Antigos ao mesmo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Tanta como esta é a clareza com que falaram de Cristo as Sibilas. et quae jam olim inde a majoribus de diis credita fuiissent. culpare posset quod contra patrias leges scriberet. Se já não foi (como considera o mesmo autor e o prova com Isaías) que a escuridade dos Profetas.. pertinaciae poenas darent..

Como negaria logo Deus este mesmo poder. Porque o império espiritual de 152 . assim que as razões fundamentais do império temporal de Cristo são três: o ser quem é. que se deve conceber e admitir na soberana pessoa de Cristo todos aqueles atributos de poder.ut sicut ipse e corpore et spiritu compositus erat. ut tam late ipsius regnum et imperium pateret quam ipsius Dei. foi muito conveniente que não só tivesse o Império espiritual que pertence às almas. porque se lhe há-de negar o do Mundo? Finalmente. Estas razões capitais se podem ajudar e revestir de várias congruências. que sem implicação nem indecência se podem considerar nela. et volatilibus caeli. porque não reteria ao menos o que não perdeu em seu Pai? A geração de Cristo escrita por S. que facilmente se consideram muito convenientes todas ao decoro e majestade de Cristo. por filho de David. e tão fora está deste perigo o império e domínio temporal que admitimos em Cristo. que é razão de si mesma. porque todos lhe são infinitamente devidos. ut praesit piscibus maris. senão de Adão inocente. por filho de Adão. porque. antes. Lucas em Adão. foi inveja. que não só em quanto Deus. é princípio geral e recebido de todos os teólogos. em conseqüência do qual merecimento se ajuntou a ele a vontade eficaz divina. e como investidora absoluta desta suprema e universal potestade. tomou a carne e não contraiu o pecado.Anexo:Imprimir/ História do Futuro esta mais se pode chamar natureza que razão. se não de Adão senhor. composto não só de espírito. do Profeta Zacarias. senão inteiro. A Adão deu Deus o império universal do Mundo com sujeição e otediência a todas as criaturas dele. como as que pertencem ao corpo. e um ou outro pensamento fora blasfêmia contra o onipotente amor de tão divino Pai. v. o seu merecimento e a vontade divina. como cabeça dos homens que são compostos de carne e espírito. e por S. se não também o temporal que é próprio das corpos: . como advertiu o Apóstolo. como havemos de crer nem imaginar que desse Deus só uma parte de seu império e domínio a Cristo. melhor que Salomão lhe foi devido o cetro de Israel. comentando o capítulo IX.. inseparável a todas as suas ações. ita eum (Pater) et regem spirituum et corporum etiam fecerit. e seu filho natural e verdadeiro e unigênito? Se quis e não pôde (como em semelhante caso argumentava Agostinho) foi fraqueza. outra é o merecimento infinito de Cristo. sem exclusão de poder. senão àquele que é imagem e retrato perfeitíssimo de sua sustância: Ipse est enim imago Patris et figura substantiae ejus? Haverá quem se atreva a dizer ou presumir que foi menor o poder de Cristo no Mundo que o de Adão ou que teve Adão poder que faltasse a Cristo? A carne de Adão que tomou Cristo não foi de Adão pecador. Mateus começa em David. Se os Trajanos e outros imperadores e príncipes do Mundo deram seus impérios e reinos inteiros aos estranhos que adotaram por filhos. 9. não era justo que tivesse sobre eles o domínio partido. como doutamente disse Stuniga. autoridade e soberania alguma. se pôde e não quis. que foi o princípio efetivo donde manou e se derivou a Cristo a comunicação liberalíssima. E se Cristo não foi filho de Adão escravo. et bestiis terrae. e ainda alguma conseqüência indigna e de menos decoro.. só por ser feito a sua imagem e semelhança: Faciamus hominem ad imaginem et similitudinem nostram. se não ainda em quanto homem. assim sobre as cousas e ações concernentes ao espírito. pelo qual lhe eram devidas todas as dignidades e grandezas humanas. que antes da falta dele se podem arguir conhecidos inconvenientes. o qual. por Cristo ser verdadeiro e inteiro homem. não digo já àquele segundo Adão que veio restaurar as ruínas do primeiro.. melhor que Caim e Abel. e se. se não de carne. grandeza e majestade.

como dissemos. e sendo uma das mais altas proposições de sua doutrina na matéria do sofrimento. Mas deixada esta estrada geral. porém senhor absoluto de tudo quanto há e pode haver no Mundo. logo. se não principalmente na renunciação do domínio delas. que era ser este ato incompatível com a natureza e essência do mesmo Cristo. oh! que exemplo. O domínio universal que Cristo tinha do Mundo era o que mais subiu de preço os quilates de sua pobreza. se não também temporal. se Cristo quisesse mandar a um homem ou a um anjo uma ação meramente temporal alheia (ainda que fosse para obrar um milagre). mas quem queira ser e parecer filho de pobres: Quis est hic et laudabimus eum? Só Cristo e quem tem muito de Cristo. nós nos contentaremos com que os autores deste escrúpulo. havia outra razão mais forçosa e necessária. enquanto estas se ordenam ou subordinam ao fim e conservação das espirituais: e no caso ou suposição em que Cristo somente fosse Rei espiritual. antes acudiu à calunia de que falsa e sacrilegamente o argüiam. se contentem com o que se contentou este Monarca temporal do Mundo: imitem a pobreza de Cristo. oh! que confusão para os homens. por supremo e universal que seja. porque não é nosso intento divertir o argumento. que o não poderia fazer livre e absolutamente a seu arbítrio e sem licença do dono dela (se comodamente o pudesse fazer de outra sorte): Indignum autem videtur (conclui o grande Doutor) haec et similia de Christi potestate sentire. E quanto ao reparo da pobreza e desprezo das cousas temporais que Cristo veio ensinar ao Mundo. praebe illi et alleram sabemos contudo que. no desprezo e abdicação deste domínio é que devia Cristo dar-nos o exemplo da perfeita pobreza.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Cristo. e muito particularmente desta . E pois é certo que foi Cristo consumadíssimo exemplar de todas as virtudes. Não era menos mestre nem menos exemplar Cristo da paciência do que o foi da pobreza. digo outra vez que na pobreza de Cristo. Não ter uso das cousas do Mundo quem não tem ou teve domínio delas. segue-se que não só não teve o uso das cousas temporais. se não que também careceu do domínio de todas. e que espiritual e temporalmente lhe são todos os homens e todas as cousas sujeitas. quanto a renunciação do domínio. Muitos há que querem parecer pobres. quando deram a Cristo a bofetada em presença do Pontífice Caifás. de que Cristo professou ser mestre. em boa teologia. nem mais exemplo em Cristo. e não queiram mais pobreza. para Cristo ser perfeitíssimo mestre e exemplar de todas as virtudes. Sendo logo este sentimento indigno do poder e majestade de Cristo e da soberania de sua pessoa. e ter menos uso do mesmo Mundo do que os bichinhos da terra. na união hipostática. ainda os mais desprezadores do Mundo! Mas replicam a esta resposta os autores da contrária opinião. senão desfazê-lo. e dizem que a pobreza evangélica. necessariamente havemos de dizer e confessar. Porque aquele domínio supremo e universal de todas as cousas fundava-se imediatamente. cum te percusserint in una maxilla. ainda que os tivesse ensinado. por santos e espirituais que sejam. e poder dizer com verdade: Vulpes foveas habent et volucres caeli nidos. só tem poder e jurdição indireta sobre as cousas e ações temporais. não era necessário exercitar todos os atos particulares delas. pobre no nascimento. filius autem hominis non habet ubi caput reclinet. pobre na morte. e pobre sobretudo na eleição de pais pobres. oh! que pasmo. e era não só 153 . pobre na vida. não consiste só na mortificação ou temperança do uso das cousas temporais. que não é somente espiritual o império e domínio que Cristo tem sobre o Mundo. segue-se (como doutamente infere o Padre Soares) que. não ofereceu o Senhor a outra face. Primeiramente digo que. mas virtude que parece fortuna ou necessidade. alguns que o querem ser. virtude pode ser.

E se é certo e de Fé que Cristo tem esta parte da jurdição e dignidade real. porque lemos no capítulo XII. sendo de maior perfeição. porque neiga contraditòriamente o texto de S. logo não teve poder real. e ao supremo bispo e supremo prelado. de S. nem em quanto Rei nem em quanto Senhor. dizem muito douta e conseqüentemente que. ou colhe demasiadamente ou nada. descrevendo o supremo e último ato de juízo em que há-de sentenciar o Mundo. O que podia só fazer Cristo era privar-se do uso dele. porventura que era mais conveniente ao mesmo exemplo do Mundo conservar o domínio sem o uso. e também muitos da nossa. a potência pelos atos. Antes daqui se forma novo argumento em confirmação da verdade da nossa sentença. logo não teve poder judicial. conforme o texto de David: Et nunc. não só devia dar exemplo aos religiosos que professam renunciar o domínio dos bens temporais senão também aos prelados e bispos. Resolvem os defensores da opinião contrária. Reges. é contra a Fé a conclusão. se chama nomeadamente Rei: Tunc dicet Rex his qui a dexteris ejus erunt etc. como expressamente ensina S. como esta: Cristo não teve exercício de juiz. como dizíamos da parte contrária. quia filius hominis est. sendo de Fé a premissa. provemos demonstrativamente a causa pelos efeitos. E daqui inferem. ainda 154 . cujo estado. como quem teve só o domínio e senhorio dele. E nesta segunda conseqüência. porque a potestade judiciária em Cristo foi conseqüência da dignidade real. e por conseguinte nulo. que Cristo em toda a sua vida. sed omne judicium dedit filio. para que ponhamos o selo à confirmação desta nossa sentença e acabemos de desfazer as razões ou admirações. que renunciar o uso e mais o domínio. IV. e assim o fez tão perfeita e perfeitissimamente como sabemos. o Senhor lhes respondeu: Quis me constituit judicem super vos? E a conclusão é contra a Fé. e assim como Cristo não podia renunciar nem abdicar de si a própria natureza. para que no mesmo exemplar aprendessem os religiosos a mortificação do uso e os prelados a moderação do domínio. porque havemos de ser tão estreitos de coração que lha não concedamos toda? Os que admitem ou veneram conosco em Cristo o título e domínio de rei e concedem contudo que não teve exercício dele. intelligite: erudimini qui judicatis terram. nem se serviu de cousa alguma do Mundo. Por isso o mesmo Cristo. Porque tão boa conseqüência é esta: Cristo não teve exercício de rei. conserva o domínio e administração dos bens e só periga ou pode perigar na imoderação ou excesso do uso deles. Paulo: Pater non judicat quemquam. ad. senão parte intrínseca dela. não teve exercício algum do império temporal. pedindo dois irmãos a Cristo que julgasse certa dúvida que tinham entre si.Anexo:Imprimir/ História do Futuro propriedade inseparável. Temos neste ponto contra nós não só os inimigos. A premissa é de Fé. porque o ofício de julgar é parte da dignidade de Rei. Lucas. senão também os amigos. E a razão desta ordem natural é. a jurdição pelo exercício. I: Potestas judicis secuta est in Christo regiam dignitatem. que vinha a ser totalmente ocioso este império temporal que consideramos em Cristo. porque nem fez ato que fosse próprio da dignidade real. posto que o Santo Doutor a não exprima. Art. Finalmente. Foi logo convenientíssimo que em Cristo se ajuntasse o sumo domínio e o sumo desprezo e abstinência das cousas do Mundo. não todos mas só os que impugnam a nossa sentença. assim (diz o Padre Vasquez) não podia renunciar nem demitir de si o direito soberano domínio. e o direito (do modo que pode ser) pela posse. que. Quanto mais qnue ainda no caso em que fora possível na pessoa de Cristo a renunciação do domínio temporal de todas as cousas. porque Cristo. Tomás na Questão LIX. conforme aquele princípio vulgar da filosofia: Frustra est potentia quae non reducitur ad actum Mas começando pela forma desta conseqüência. como mestre e exemplar da perfeição evangélica.

tanto que entrou neste Mundo. como falam os filósofos. Item em receber os tributos que lhe ofereceram os mesmos Reis em reconhecimento da soberania suprema de sua majestade. Persistindo na mesma suposição. ainda que o domínio temporal de Cristo não teve aqueles atos ou exercício positivo que costuma ter nos reis e príncipes da terra. se pode também dizer. O primeiro seja mandar Cristo. para que o viessem reconhecer e adorar por Rei. não indouta nem indiscretamente. que nunca teve nem havia de ter ato (qual é a potência que há nos indivíduos para a conservação da espécie). chamar os Reis do Oriente pela estrela. como fazem os reis da Terra. a mirra como a homem. que os Reis ofereceram: o incenso como a Deus. de maneira que neste sentido (que nem é vulgar nem violento) podemos dizer que não careceu Cristo do uso do domínio temporal que nele consideramos. e que o uso que teve daquele domínio foi a privação do mesmo uso. mas porque exercitou alguns atos particulares de império e domínio. e assim cantou Arato. não só em ato primo (como diz a frase dos Teólogos) senão em ato segundo. porque muitas vezes o mais nobre e o mais generoso uso do poder é não querer usar dele. como se vê claramente em muitos lugares e exemplos do Evangelho. mas não queria. não porque pública e continuadamente o professasse Cristo. Para este uso ou desuso quis Cristo a procuração das espadas. naquele verso que tão 155 . teve porém um ato excelentíssimo e um exercício contínuo. de ornar e mais aperfeiçoar o sujeito. como eles mesmos disseram: Ubi est qui natus est Rex Judaeorum? Vidimus enim stellam ejus in Oriente et venimus adorare eum.Anexo:Imprimir/ História do Futuro que a dignidade e jurdição real em Cristo não tivesse ato ou exercício algum em sua vida. nem o haja de ter em outro tempo. o qual necessariamente supõe o mesmo domínio) não é tê-lo ocioso. ponderando devagar a história evangélica. se não em quanto Rei. que foi o não querer usar Cristo do mesmo domínio. por atos próprios de jurdição e domínio. para maior exemplo e doutrina nossa? Onde mais bem empregado e aplicado o domínio. a que podemos chamar negativo. que. perguntemos a S. depois do maior ato de humildade: Si ergo ego dominus et magister? Desta maneira respondem (e podem responder os que seguem que Cristo não teve exercício algum do império e domínio temporal. ou não querer usar dele. que para poder dizer. poeta cristão da primeira Igreja. ainda que fosse a preço das mesmas túnicas com que andavam cobertos. nem por isso se deve julgar aquele poder por baldado e ocioso. Bem assim como na humanidade do mesmo Cristo é certo que houve alguma potência. temos por certo o contrário. e não só quanto a jurdicão e domínio. e por última confirmação da nossa opinião mostraremos. porque serve. incenso e mirra. se não mui gloriosamente exercitado. como foi Cristo Rei e Senhor temporal do Mundo. E se aquelas espadas só para este uso não foram ociosas. se lhes havia de mandar que as deixassem estar na bainha? e responde o grande Doutor que foi para mostrar Cristo que se podia defender e vingar de seus inimigos. ainda que não tivesse outro uso mais que não querer o poderosíssimo Senhor usá-lo. porque o seria o domínio de Cristo. senão quanto ao uso e exercício dela. Nesta conformidade entendem todos os Padres o mistério das três espécies de ouro. Ambrósio para que quis e mandou Cristo aos Apóstolos que comprassem espadas. pelo que respondemos negando a suposição. E ter o domínio para poder e não querer usar dele (que é um ato heróico de humanidade e modéstia. não só em quanto Deus. que eram próprios só do legítimo Rei e verdadeiro Senhor do Mundo. e o ouro como a rei. E se não. e contudo ninguém a nega nem pode negar em Cristo. porque é perfeição natural da Humanidade. porém nós. nunca visto até então no Mundo.

judicium tuum Regi da. se não do Reino e Império temporal. de anjos. a coroa de Cristo. myrrham regique hominique Deoque. e outra coroa de universal Senhor e Legislador in temporalibus. que havia de salvar e dominar o Mundo. de ungido por Deus. ambas supremas. e que. como larga e eruditamente prova Alonço de Mendoça. e o comum consenso de todos os Padres e da mesma Igreja. E em comprovação deste Reino de Cristo. E muito antes David. ser ele o Rei prometido aos Patriarcas e anunciado dos Profetas. Lucas:Et omnes qui audierunt mirati sunt. aos grandes e aos pequenos. diremos por última conclusão que o Império de Cristo é juntamente espiritual e temporal. se mostrou e publicou Rei e senhor de todo ele História do Futuro (Volume II. conforme a explicação de S. para que vejamos como. S. no Hino da Epifania: Thus. thus. e não só do Reino de Cristo absolutamente. de pastores. entrando e saindo do Mundo. segundo estas duas jurdições. E a Igreja. posto que alguns pareçam entre si contrários. no Salmo que começa: Deus. que era o lugar onde aquela cidade estava situada? A mesma publicação fizeram os Anjos nos montes e campos de Judéia. que divulgaram por toda a parte o que tinham visto. Sacerdote Supremo. se compõem. na sua Relatio Theologica de universali Christi Regno. Capítulo VII) por Padre Antônio Vieira 156 Conclui-se que o Reino de Cristo é espiritual e temporal juntamente. myrrham etaurum regium. respondendo·toda a milícia do Céu: Gloria in altissimis Deo ed in terra paz huminibus! Nas quais palavras todas não só apregoaram o nascimento e chegada ao Mundo do novo Rei. de descendente de David. et de his quae dicta erant a pastoribus ad ipsos. perguntando publicamente: Ubi est qui natus est Rex? que outra cousa foi. Reges Arabum et Saba dona adducent. nas cidades e nos campos. omnes gentes servient ei. de reis. que era Jerusalém. se não um pregão público e um Real! Real! por Cristo Rei do Mundo. e mandá-los como súbditos e novos embaixadores seus. Jerônimo: Aurum. nas cortes e aldeias.Anexo:Imprimir/ História do Futuro bem pareceu a S. mas declararam também por to das as circunstancias de salvador. e no meio do mesmo Mundo. Que ato pois mais próprio e positivo de rei. in civitate David. alega David profeticamente no mesmo Salmo a adoração e tributos dos Reis do Oriente: Reges Tharsis et insulae numera offerent. quando anunciaram aos pastores: Quia natus est vobis hodie salvator qui est Christus dominus. como senhor supremo de todos. Ambrósio. Finalmente. que mandar-se publicar por tal. e da paz que trazia consigo. a entrada dos mesmos reis em Jerusalém. segundo a qual se chama propriamente Supremo Rei. Jerónimo. como se colhe claramente do texto de S. da qual publicação foram os mesmos pastores os terceiros pregoeiros. de estrelas. Agostinho. com quatro pregões tão públicos e tão notáveis. Recolhendo tudo o que tão largamente temos disputado (que foi necessário ser tão largamente) e reduzindo a concórdia quanto pode ser as opiniões de todos os Doutores. com que o mesmo Rei se mandou apregoar na praça mais universal de todo ele. . e ultimamente desobrigá-los da palavra que tinham dado a El-Rei Herodes. et adorabunt eum omnes Regeç terrae. assinalando-lhes o caminho por onde haviam de ir? Mas passemos do nascimento de Cristo aos dias mais chegados à sua morte. Este Salmo se entende literalmente do Reino de Cristo. e receber adorações e tributos dos mesmos reis. et justitiam tuam filio Regis. Livro II. S.

non crescas. se uniram outra vez em Cristo.. e em Levi a do sacerdócio. Estas eram aquelas bênçãos tão celebradas e tão pleiteadas que os Patriarcas davam a seus filhos. como gravemente notou e expressamente disse S. e a que Isaac quis também dar a seu primogênito Esaú. Desde este tempo se dividiram estas duas dignidades que haviam de estar juntas no morgado ou maioria de um só império (major in império) e o reino e o sacerdócio. Lucas. foi ungido por sumo sacerdote Arão. ou estas duas coroas. se conservou sempre o reino e sacerdócio. De maneira que ordenou a Providência Divina que na geração e ascendência de Cristo se tecesse o tribo sacerdotal de Levi com o tribo real de Judá. andou sempre o morgado temporal unido com o sacerdócio. foi ungido por rei de Israel David. Daniel viu o Reino e a pessoa que o havia de dominar. et regum et sacerdotum. ipsam quoque Mariam de stirpe David a liquam consanguinitatem duxisse dubitare utique non debemus. Torno a repetir o texto e suponho a história. e por indústria de Rabeca foi dada a Jacob. prior in donis major in imperio. até que a tiara e a coroa. em castigo da irreverência que tinha cometido contra o tálamo de seu pai. porque Nabucodonosor viu somente o Reino e sua grandeza. deste tempo da Lei da Natureza. e este o Reino que Nabucodonosor também tinha visto encher o Mundo. foi privado dela. mas. quando se desposou com a natureza humana. e Zacarias viu o Reino e a pessoa. insinuante Luca. Conforme a este direito de sucessão. que foram Judá e Levi. quod cognata ejus esset Elisabeth. Firmissime tenendum est carnem Christi ex utroque genere propagatam. o qual mistério (para maior propriedade e majestade dele) se observou até nos escritores da mesma genealogia de Cristo. pois fica contada no I Livro Para maior inteligência desta matéria havemos de supor que. foram reis e sacerdotes. Daqui se entende maravilhosamente o mistério da ascendência e primogenitores de Cristo. in quibus personis apud illum populum Hebraeorum etiam mystica unctio figurabutur. como lhe disse o mesmo Jacob: Ruben. como consta do I capítulo de S. e que a tela de que se havia de vestir o Verbo.. havia de dar também Jacob a seu primogênito Ruben a mesma bênção. Cujus feminae quoniam nec sacerdotale genus tacotur. Agostinho no livro II de Consensu Evangelisarum. para que visse o Mundo que. que era do tribo de Judá. que havia de andar encabeçado no primogênito de Ruben. rnajor in imperio. Supremo Sacerdote e Supremo Rei. tu fortitudo mea et principum doloris mei. posto que não viu nem lhe foi mostrado a quem se havia de dar. e o número e distinção das coroas. prior in donis. ainda a título de geração natural. unindo-se por verdadeira geração no sangue santíssimo de Cristo e sua mãe o tribo real de Judá e o sacerdotal de Levi. effusus es sicut aqua. depois de o perder Saul. e um e outro vinculado aos primogênitos. Mateus e do III de S. quam dicit de filiabus Aaron. capítulo II. era ele o herdeiro legítimo do reino e do sacerdócio. Cum autem evidenter dicat Apostolus Paulus: ex semine David secundum carnem Christum. Nestas duas descendências de Arão do tribo de Levi e de David do tribo de Judá. primogenitus meus.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Este é o Reino universal que Daniel veio dar ao Filho do Homem (que é Cristo). Este é o que viu mais distintamente que todos Zacarias na sua terceira visão. quia ascendisti cubile patris tui et maculasti stratum ejus. se repartiu em dois filhos do mesmo Jacob. e de ambos se compõe o império (assim o natural como o figurativo) que Ruben tinha perdido. que precedeu ao Templo. fosse lavada de coroas e de tiaras. como depois se cumpriu. que era do tribo de Levi. ficando em Judá a benção do reino. e na instituição do reino. como foi a que Abraão deu a seu primogênito Isaac. os quais. porque dos 157 . como direito descendente daqueles sacerdotes e daqueles reis que só eram feitos por Deus. porque na instituicão do Tabernáculo.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro quatro animais do carro de Ezequiel que significam os quatro evangelistas. como. Quinto Império do Mundo . und e Christi nomen elucet tanto ante etiam illa evidentissima significatione praenuntiatum Resolve-se quando começou este Império de Cristo e propõe-se acerca dele uma grande dificuldade. que eram as duas maiores. Três ofícios achamos na Escritura Sagrada. André a S. da Biblioteca Nacional Maquinações de Antonio Vieira jesuíta. e referindo as palavras de S. notam comumente todos os Doutores. porque foi ungido por Rei e Sacerdote Supremo. que se davam com a cerimônia da unção: o de rei. a S. Lucas. in quibus personis illum populum Hebraeorum etiam mystica unctio figurabutur. foram duas firmas ou assinados públicos de um e outro império sacerdotal e real. que é nome grego. e Cristo. chrisma. Um e outro nome. Agostinho no livro e capítulo pouco antes citado: Firmissime tenendum est carnem Christi ex utroque genere propagatam et regum et sacerdotum. e chama-se Cristo ungido. que escreveu a geração real. que é o animal do sacrifício. assim o de Cristo como o de Messias. não porque fosse ungido com aquela cerimônia exterior com que os reis e sacerdotes eram ungidos por mãos dos homens. ambos têm a mesma significação. depois de S. História do futuro. com que o mesmo Deus o ungiu na união da divindade com a humanidade. Jerônimo e S. são aquelas por que Cristo principalmente se chama ungido. tomo II p. que para este lugar reservamos: S. Mateus. com que o mesmo Senhor foi chamado e conhecido. E agora poremos aqui as autoridades dos Padres. porque foi ungido Arão. como diz S. como ungido. e o de Profeta. João no capítulo I. Porque Messias. entre si unidos. que é o rei dos animais. que é nome hebreu. quer dizer ungido. antes e depois de vir ao Mundo. História do Futuro (Plano da História do Futuro) por Padre Antônio Vieira 158 Cópia do Ms. id est. temporal e espiritual. e a S. pertence o boi. Da unção de profeta já dissemos no capítulo VII do I Livro. pertence o homem. e chama-se Cristo ungido. e com todas estas unções foi ungido Cristo. Esperança de Portugal. como foi ungido Eliseu. O nome de Cristo e de Messias. 89. Pedro: Invenimus Messiam (quod est interpretatum Christus) e esta foi uma das erudições em que a Samaritana se mostrou tão letrada: Scio quia Messias venit. que escreveu a geração sacerdotal. senão pela unção interior. A de Rei e a de Sacerdote Supremo. Gregório Papa. qui dicitur Christus. como acima dizíamos.

afirm. Questão 2. que da Terra.a Se o Império de Cristo.a Se o dito Império é diverso e totalmente distinto do IV Império do Mundo.a Se na Sagrada Escritura está revelado algum Império. ou o do Turco? Resp. afirm.: Até o de Cristo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 159 Livro Primeiro Nome. é o Império do Céu ou da Terra? Resp. que dizemos ser o Quinto. que se deva chamar o V.? Resp. pode haver no Mundo outro Império que se chame o Quinto? Resp.a Que Império seja este. .a Se no Capitulo I de Daniel é significado o Império do Anticristo na figura do chamado_ Cornuparvulum? ou o do Anticristo. afirm Questão 5. verdade e fundamento deste Império Questão 1. Livro Segundo Definição do V Império. que foi o Romano? Resp.a Se na suposição que o Império Romano há-de durar até o Anticristo. Questão 3. afirm. a que chamamos o Quinto? Resp.a Se o Império Romano há-de durar até a vinda do Anticristo? Resp. Questão 4. que é espiritual e temporal juntamente. e declaração dele Questão 1. Questão 2. afirm.a Se o Império de Cristo na Terra é espiritual ou temporal? Resp. Questão 3.

a Se teve Cristo exercício do dito império em quanto temporal? Resp. e qual seja? Resp. mas que nunca há-de ter o dito exercício pessoal. Questão 13.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 160 Questão 4.a Se no dito Império espiritual e temporal de Cristo se distingue o domínio.a Por que pessoa ou pessoas tem Cristo o exercício mediato do império espiritual? Resp. que é possível. Questão 7.a Quando começou. que consiste em ser conhecido por fé e obedecido. assim espiritual como temporal. que tem sobre todo o Mundo e sobre todos os homens. Questão 11. Questão 8.a Se há-de Cristo ainda ter alguma hora o exercício do dito império. Questão 5.a Se teve Cristo exercício do dito Império em quanto espiritual? Resp. Questão 6. imediato não. mas o mediato. problem.a Por que pessoa ou pessoas tem Cristo o exercício mediato do império temporal? Resp. que pelos príncipes temporais cristãos.a Qual seja o dito domínio do Império de Cristo. e começou desde o primeiro instante da sua encarnação. que começou desde os primeiros que creram em Cri st o . . e quando começou? Resp. e vai continuando em todos os que têm a mesma fé. que é. exercício? Resp.. ou se é possível? Resp. que pelo Sumo Pontífice e mais ministros da Igreja. Questão 12. posse. e como se continuou a dita posse? Resp.a Em que consiste a posse do dito Império? Resp.a Se tem Cristo hoje exercício do dito império temporal e espiritual. por sua própria pessoa . afirm. Questão 9. Questão 10. afirm. que tem o exercício.

a Quanta haja de ser a grandeza do Império de Cristo no dito estado? Resp. Livro Quarto Causas. Questão 4. completo e consumado. por autoridade e por razão. afirm. afirm. sobre todas as gentes e sobre todos os reinos. meios e instrumentos com que se há-de conseguir o estado consumado do dito Império. Questão 8.a Se há-de haver no dito estado paz universal? E em todo o Mundo? Resp.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 161 Livro Terceiro Grandeza e felicidades do dito Império Questão 1. Questão 3. que simultanea e permanente. Questão 7.a Se hão-de ser todos cristãos no dito estado? Resp.a Se este Reino e Império de Cristo há-de continuar sempre no estado presente. que há-de ter outro estado mais perfeito. que universal. que por muitos fundamentos. ou há-de ter outro e mais perfeito? Resp. Questão 2. Questão 6. Questão 5.a Se a dita grandeza há-de ser simultanea e permanente ou sucessiva? Resp.a Porque a opinião do dito estado não é comum de todos os Padres e Doutores? Resp.a Como se prova este estado mais perfeito e consumado do Império de Cristo? Resp.a Se hão-de ser todos pela maior parte justos no dito estado? Resp. . que pelas Escrituras. afirm.

afirm. afirm. Questão 2. que pelas Escrituras e Doutores.a Como se prova em especial a conversão de todos os hereges.a Se nesta conversão dos Judeus hão-de entrar também os Dez Tribos perdidos? Resp.a Se podem os Judeus 1icitamente esperar esta restituição mediante a Fé de Cristo? Resp. a extirpacão da seita de Mafona? Resp. afirm. Questão 7.a Se por meio da dita conversão universal se há-de consumar a união dos dois povos. que pelas Escrituras e Doutores. Questão 5. que pelas Escrituras e Doutores.a Se é conveniente ao bem da Igreja que a opinião da dita esperança se pratique? Resp.a Como se prova em especial a conversão dos Judeus e a extirpação do Judaísmo? Resp. Questão 6. que pelas Escrituras e Doutores.a Como se prova em especial a conversão. Questão 9. afirm.a Se o primeiro meio da consumação do dito estado seja a conversão universal de todos os homens à Fé de Cristo e a extirpacão de todas as heresias do Mundo? Resp. Questão 10. Questão 3. afirm.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 162 Questão 1. gentílico e o judaico? Resp. Questão 4. Questão 8. afirm. . e a extirpação de todas as heresias? Resp.a Como se prova em especial a conversão de todos os gentios e a extinpação da idolatria? Resp.a Se convertidos universalmente os Judeus hão-de ser restituidos à sua Pátria? Resp. a extinção do Turco.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro

163

Questão 11.a
Se então se cumprirá a profecia do texto—et erit unum ovile et pastor?—Resp. afirm.

Questão 12.a
Se a causa principal eficiente da dita conversão universal será o Eterno Padre? Resp. afirm.

Questão 13.a
Se concorrerá para a dita conversão o Espírito Santo com especial e nova uncão da divina graça? Resp. afirm.

Questão 14.a
Que parte terá nesta obra a autoridade e intercessão de Cristo e da Virgem Santíssima? Resp. que muito grande.

Questão 15.a
Se o instrumento principal humano da dita conversão será o sumo pontífice santo e muitos pregadores evangélicos? Resp. afirm.

Questão 16.a
Se concorrerá para a dita conversão algum príncipe temporal, com a sua autoridade, o seu poder e as suas armas? Resp. afirm.

Questão 17.a
Se este príncipe temporal será imperador e monarca universal do Mundo? Resp. afirm.

Questão 18.a
Se o dito imperador universal se poderá chamar Vigário de Cristo no temporal? Resp. afirm.

Livro Quinto
Tempo, duração e ordem do dito Império

Questão 1.a
Se o estado consumado do Quinto Império há-de ser antes ou depois do Anticristo? Resp. que antes.

Questão 2.a
Qual dos dois povos se há-de converter primeiro universalmente, para a consumação do dito I:npério, se o gentílico, se o judaico? Resp. que o gentílico.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro

164

Questão 3.a
Quanta seja a duração do dito Império, depois de consumado? Resp. que até o fim do Mundo.

Questão 4.a
Quando há-de começar a dita consumação do Império de Cristo? Resp. que na extinção do Império turco.

Questão 5.a
Se do tempo presente até o da vinda do Anticristo pode e há-de correr um grande número de séculos? Resp. afirm.

Livro Sexto
Terra em que se há-de fundar o dito Império em quanto temporal, e qual há-de ser a cabeça dele

Questão 1.a
Se o dito Império temporal há-de ser na Europa ou em alguma das outras quatro partes do Mundo? Resp. que há-de ser na Europa.

Questão 2.a
Em que província da Europa se há-de fundar o dito Império temporal de Cristo ? Resp. que em Espanha.

Questão 3.a
Em que reino de Espanha se há-de fundar o dito Império? Resp. que em Lisboa.

Livro Sétimo
Pessoa que será o primeiro Imperador instrumento temporal do dito Império

Questão 1.a
Se a dita pessoa que seja imperador será o imperador de Alemanha? Resp. negativ.

Questão 2.a
Se a dita pessoa há-de ser El-Rei Cristianíssimo de França? Resp. negativ.

Questão 3.a
Se a dita pessoa há-de ser El-Rei Católico de Espanha? Resp. negativ.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro

165

Questão 4.a
Se a dita pessoa há-de ser o Sereníssimo Rei de Portugal? Resp. afirm .

Questão 5.a
Se o Rei de Portugal há-de ser El-Rei D. Sebastião? Resp. negativ.

Questão 6.a
Se o dito Rei de Portugal há-de ser El-Rei D. João IV? Resp. problem.

Questão 7.a
Se o dito Rei de Portugal há-de ser El-Rei D. Afonso ou o Infante D. Pedro? Responde-se: Vejo subir um Infante
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168 • J. The combined work need only contain one copy of this License. If there are multiple Invariant Sections with the same name but different contents. Preserve the network location. Only one passage of Front-Cover Text and one of Back-Cover Text may be added by (or through arrangements made by) any one entity. These titles must be distinct from any other section titles. You may omit a network location for a work that was published at least four years before the Document itself. year." . the name of the original author or publisher of that section if known. You may add a section Entitled "Endorsements". If the Document already includes a cover text for the same cover. and a passage of up to 25 words as a Back-Cover Text. make the title of each such section unique by adding at the end of it. O. create one stating the title. These may be placed in the "History" section. you may not add another. N. you must combine any sections Entitled "History" in the various original documents. or else a unique number. and list them all as Invariant Sections of your combined work in its license notice. M. You must delete all sections Entitled "Endorsements. Preserve any Warranty Disclaimers. Make the same adjustment to the section titles in the list of Invariant Sections in the license notice of the combined work. If the Modified Version includes new front-matter sections or appendices that qualify as Secondary Sections and contain no material copied from the Document. previously added by you or by arrangement made by the same entity you are acting on behalf of. and that you preserve all their Warranty Disclaimers. In the combination. • • • • L. provided that you include in the combination all of the Invariant Sections of all of the original documents. statements of peer review or that the text has been approved by an organization as the authoritative definition of a standard. and any sections Entitled "Dedications". but you may replace the old one. in parentheses. Such a section may not be included in the Modified Version. Preserve the Title of the section. if any. or if the original publisher of the version it refers to gives permission.Anexo:Imprimir/ História do Futuro "History" in the Document. you may at your option designate some or all of these sections as invariant. and likewise the network locations given in the Document for previous versions it was based on. For any section Entitled "Acknowledgements" or "Dedications". Delete any section Entitled "Endorsements". To do this. Section numbers or the equivalent are not considered part of the section titles. add their titles to the list of Invariant Sections in the Modified Version's license notice. Do not retitle any existing section to be Entitled "Endorsements" or to conflict in title with any Invariant Section. forming one section Entitled "History". and multiple identical Invariant Sections may be replaced with a single copy. and preserve in the section all the substance and tone of each of the contributor acknowledgements and/or dedications given therein. • K. on explicit permission from the previous publisher that added the old one. provided it contains nothing but endorsements of your Modified Version by various parties--for example. unmodified. then add an item describing the Modified Version as stated in the previous sentence. authors. Preserve all the Invariant Sections of the Document. likewise combine any sections Entitled "Acknowledgements". 5. to the end of the list of Cover Texts in the Modified Version. given in the Document for public access to a Transparent copy of the Document. The author(s) and publisher(s) of the Document do not by this License give permission to use their names for publicity for or to assert or imply endorsement of any Modified Version. under the terms defined in section 4 above for modified versions. COMBINING DOCUMENTS You may combine the Document with other documents released under this License. You may add a passage of up to five words as a Front-Cover Text. unaltered in their text and in their titles. and publisher of the Document as given on its Title Page.

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