Anexo:Imprimir/ História do Futuro

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Anexo:Imprimir/História do Futuro
História do Futuro por Padre Antônio Vieira

Índice Volume I
• Capítulo I: Declara-se a primeira parte do titulo desta História, e quão própria é da curiosidade humana a sua matéria. • Capítulo II: Segunda parte do titulo desta História; convidam-se os Portugueses à lição dela. • Capítulo III: Terceira parte do titulo e divisão de toda a História. • Capítulo IV: Utilidades da História do Futuro • Capítulo V: Segunda utilidade. • Capítulo VI: Terceira utilidade. • Capítulo VII: Última utilidade. • Capítulo VIII: Continua a mesma matéria • Capítulo IX: Verdade desta História. Declara-se o modo com que se pode conhecer e saber os futuros • Capítulo X: Resposta a uma objeção: mostra-se que o melhor comentador das profecias é o tempo. • Capítulo XI • Capítulo XII: Dá-se a razão por que em algumas partes desta História se não alegaram padres e seguiram exposições dos escritores modernos

Volume II
• Capítulo I • Capítulo II

Livro I
• Capítulo I: Mostra-se a Quinta Monarquia com a profecia de Daniel • Capítulo II: Segunda profecia de Daniel • Capítulo III

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Livro II
• • • • • • • • Introdução Capítulo I Capítulo II Capítulo III Capítulo IV Capítulo V Capítulo VI Capítulo VII

Plano da História do Futuro
História do Futuro (Volume I, Capítulo I: Declara-se a primeira parte do titulo desta História, e quão própria é da curiosidade humana a sua matéria.) por Padre Antônio Vieira

Nenhuma cousa se pode prometer à natureza humana mais conforme ao seu maior apetite, nem mais superior a toda a sua capacidade, que a notícia dos tempos e sucessos futuros; e isto é o que oferece a Portugal, à Europa e ao Mundo esta nova e nunca vista história. As outras histórias contam as cousas passadas, esta promete dizer as que estão por vir; as outras trazem à memória aqueles sucessos públicos que viu o Mundo; esta intenta manifestar ao Mundo aqueles segredos ocultos e escuríssimos que não chega a penetrar o entendimento. Levanta-se este assunto sobre toda a esfera da capacidade humana, porque Deus, que é a fonte de toda a sabedoria, posto que repartiu os tesouros dela tão liberalmente com os homens, e muito mais com o primeiro, sempre reservou para si a ciência dos futuros, como regalia própria da divindade. Como Deus por natureza seja eterno, é excelência gloriosa, não tanto de sua sabedoria, quanto de sua eternidade, que todos os futuros lhe sejam presentes; o homem, filho do tempo, reparte com o mesmo a sua ciência ou a sua ignorância; do presente sabe pouco, do passado menos e do futuro nada. A ciência dos futuros — disse Platão — é a que distingue os deuses dos homens, e daqui lhes veio sem dúvida aquele antiquíssimo apetite de serem como deuses. Aos primeiros homens, a quem Deus tinha infundido todas as ciências, nenhuma lhes faltava senão a dos futuros, e esta lhes prometeu o Demônio com a divindade, quando lhes disse: Eritis sicut Dii, scientes bonum et malum. Mas ainda que experimentaram o engano, não perderam o apetite. Esta foi a herança que nos ficou do Paraíso, este o fruto daquela árvore fatal, bem vedado e mal apetecido, mas por isso mais apetecido, porque vedado. Como é inclinação natural no homem apetecer o proibido e anelar ao negado, sempre o apetite e curiosidade humana está batendo às portas deste segredo, ignorando sem moléstia muitas cousas das que são, e afetando impaciente a ciência das que hão de ser. Por este meio veio o Demônio a conseguir que o homem lhe desse falsamente a divindade, que o mesmo demônio com igual falsidade lhe tinha prometido. E senão, pergunto: Quem foi o que introduziu no Mundo, sem algum medo, mas antes com aplauso, a adoração do Demônio? Quem fez que fosse tão freqüentado e consultado o ídolo de Apolo em Delfos? O de Júpiter em Babilônia? O de Juno em Cartago? O de Vênus no Egito? O de Dafne em Antioquia? O de Orfeu em Lesbo? O de Fauno em Itália? O de Hércules em Espanha, e infinitos outros em muitas partes? Não há dúvida que o desejo insaciável que os homens sempre tiveram de saber os futuros, e a falsa opinião dos oráculos com que o Demônio

Anexo:Imprimir/ História do Futuro respondia naquelas estátuas, foram os que todo este culto lhe granjearam, sendo certo que, se Deus, vindo ao Mundo, não emudecera (como emudeceu) os oráculos da Gentilidade, grande parte do que hoje é fé, fora ainda idolatria. Tão mal sofreram os homens que Deus reservasse para si a ciência dos futuros, que chegaram a dar às pedras a divindade própria de Deus, só porque Deus fizera própria da divindade esta ciência: antes queriam uma estátua que lhes dissesse os futuros, que um Deus que lhos encobria. Mas que direi das ciências ou ignorâncias das artes ou superstições que os homens inventaram desde a terra até o céu, levados deste apetite? Sobre os quatro elementos assentaram quatro artes de adivinhar os futuros, que tomaram os nomes dos seus próprios sujeitos: agromancia, que ensina a adivinhar pelas cousas da terra; a hidromancia, pelas da água; a aeromancia, pelas do ar, e a piromancia, pelas do fogo. Tão cegos seus autores no apetite vão daquela curiosidade, que, tendo-se perdido na terra os vestígios de tantas cousas passadas, cuidaram que na água, no ar e no fogo os podiam achar das futuras. No mesmo homem descobriram os homens dois livros sempre abertos e patentes, em que lessem ou soletrassem esta ciência. A fisionomia, nas feições do rosto; a quiromancia, nas raias da mão. Em um mapa tão pequeno, tão plano e tão liso como a palma da mão de um homem, inventaram os quiromantes não só linhas e caracteres distintos, senão montes levantados e divididos, e ali descrita a ordem e sucessão da vida e casos dela, os anos, as doenças e os perigos, os casamentos, as guerras, as dignidades, e todos os outros futuros prósperos ou adversos; arte certamente merecedora de ser verdadeira pois punha a nossa fortuna nas nossas mãos. Deixo a astrologia judiciária, tão celebrada no nascimento dos príncipes, em que os genetlíacos, sobre o fundamento de uma só hora ou instante da vida, levantam ou figura ou testemunhos a todos os Sucessos dela. Nem quero falar na triste e funesta nicromancia, que, freqüentando os cemitérios e sepulturas no mais escuro e secreto da noite, invoca com deprecações e conjuros as almas dos mortos para saber os futuros dos vivos. A este fim excogitaram tantos gêneros de sortilégios, como se na contingência da sorte se houvesse de achar a certeza; a este fim observaram os sonhos como se soubesse mais um homem dormindo do que sabia acordado; a este sentido consultavam as entranhas palpitantes dos animais, como se um bruto morto pudesse ensinar a tantos homens vivos. Com o mesmo apetite pediam respostas às fontes, aos rios, aos bosques e às penhas; com o mesmo inquiriam os cantos e vôos das aves, os mugidos dos animais, as folhas e movimentos das árvores, com o mesmo interpretavam os números, os nomes e as letras, os dias e os fumos, as sombras e as cores e não havia cousa tão baixa e tão miúda por onde os homens não imaginassem que podiam alcançar aquele segredo que Deus não quis que eles soubessem. O ranger da porta, o estalar do vidro, o cintilar da candeia, o topar do pé, o sacudir dos sapatos, tudo notavam como avisos da Providencia e temiam como presságios do futuro. Falo da cegueira e desatino dos tempos passados, por não envergonhar a nobreza da nossa Fé com a superstição dos presentes. Finalmente, a investigação deste tão apetecido segredo foi o estudo e disputa dos maiores e mais sinalados filósofos, de Sócrates, de Pitágoras, de Platão, de Aristóteles e do eloqüente Túlio, nos livros mais sublimes e doutos de todas suas obras. Esta era a teologia famosa dos Caldeus; este o grande mistério dos Egípcios; esta em Roma a religião dos áugures; esta em Judéia a seita dos Pitões e Aríolos; esta em Pérsia a ciência e profissão dos Magos; esta enfim do Céu até o Inferno, o maior desvelo dos sábios e maior ânsia e tropeço dos ignorantes; uns injuriando o Céu, e dando trato às estrelas para que digam o que não

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continua por toda a duração do Mundo e acaba com o fim dele. que é o futuro. e tanto é hoje. José. Impossível pintura parece antes dos originais retratar as cópias. mas isto é o que fará o pincel da nossa História. porque os amam. as leis. as resoluções. de exércitos e de vitórias. de vitórias não já vencidas. Isaac. nós escrevamos a do futuro para os presentes. nem com Cúrcio a dos Macedônios. nem com Tucídides a dos Gregos. quod in civitate nostra. ou de outras igualmente poderosas. Oh que de cousas grandes e raras haverá que ver neste novo descobrimento! Aqueles historiadores que nomeamos e foram os mais célebres do Mundo. de nações não já domadas e rendidas. Tanto foi em todas as idades do Mundo. David. antes de a fama os publicar e de serem feitos. escreveram os impérios. que desterrou a Pitonisa. por isso chamada do Futuro. é considerar que. as conquistas. nem haja de bastar já para mais os desenganar e apartar dele: Genus hominum potentibus infidum. folgam de ouvir e saber que se prognosticam. enganados tão profundamente os homens pela falsidade e mentira de todas estas artes e seus ministros. A história mais antiga começa no princípio do Mundo. et vetabitur semper et retinebitur. que são os antípodas do passado. que são estes instantes do presente que imos vivendo. a qual nos irá descobrindo as novas regiões e os novos habitadores deste segundo hemisfério do tempo. a mudança. nem com Xenofonte a dos Persas. as batalhas. Desde este ponto toma seu princípio a nossa História. mas que se hão-de vencer. nem com os escritores portugueses as nossas. de ruínas de umas nações e exaltações de outras. senão que se hão-de fundar. pomos hoje no teatro do Mundo esta nossa História. na curiosidade humana. disse Tácito. é o que se verá com admiração neste prodigioso mapa descrito: cousas e casos que ainda lhes falta muito para terem ser quanto mais Antigüidade. a opulência e felicidade. Eles escreveram histórias do passado para os futuros. Não escrevemos com Beroso as antiguidades dos Assírios. nem com Josofo a dos Hebreus. sperantibus fallax. que é o passado. como o Mundo. mas escrevemos sem autor o que nenhum deles escreveu nem pôde escrever. antes do Verbo ser homem. os conselhos. a ruína ou daquelas mesmas nações. senão que se hão-de render e domar. O tempo. outros inquietando o Inferno (como dizia Samuel). Assim foram retratos de Cristo Abel. No meio de um e outro hemisfério ficam os horizontes do tempo. a grandeza. senão que vão sempre após eles. sinal certo que não buscam os homens os futuros. Esta nossa começa no tempo em que se escreve. outro inferior e invisível. tem dois hemisférios: um superior e visível. e descreve feitos heróicos e famosos. mas de impérios não já fundados. O que ignorou o mundo antigo. Nós também havemos de falar de reinos e de impérios. para que revelem o que não sabem. o apetite de conhecer o futuro! Mas o que mais que tudo encarece a tenacidade deste desejo. nem com Lívio a dos Romanos. Mede os tempos vindouros antes de virem. 4 . não tenha bastado nenhuma experiência. as vitórias. o que não conheceu o moderno e o que não alcança o presente. que com elas contendiam. e os mesmos que mais severamente negam o crédito às cousas prognosticadas. conta os sucessos futuros antes de sucederem. a mais estendida e continuada acaba nos tempos em que foi escrita. e tentando os mesmos demônios. porque os achem. a foi buscar e se serviu de sua má arte. onde o passado se termina e o futuro começa. pois. nem com Heródoto as dos Egípcios. as repúblicas. à maior ânsia deste apetite e para correr a cortina aos maiores e mais ocultos segredos deste mistério.Anexo:Imprimir/ História do Futuro podem. a declinação. Para satisfazer. O mesmo Saul.

não individuam as pessoas. (quando o sofrer a matéria). conquistas. sem ambição nem injúria de ambos os nomes. as nuvens espessas. e nós com maior ousadia que Tífis. para exaltação da Fé. Do profeta Isaías. governos novos. mas leis novas. é envolto em metáforas. maravilhosas vitórias. porque não haverá um historiador do futuro? Os profetas não chamaram história às suas profecias. e não só novas. sendo de cousas menores antigas e passadas. senão vestidas e acompanhadas das suas circunstancias. não seguem a ordem dos casos e dos sucessos. Escreveu Moisés a história do princípio e criação do Mundo. conselhos e resoluções novas. admirará o que nunca leu. mais acomodadas à majestade e admiração dos mistérios. confiança nos fica para esperar que não será ingrato aos leitores este nosso trabalho. lerá o que nunca ouviu. animosas resoluções. heróicas façanhas. religiosas empresas. porque. e pasmará assombrado do que nunca imaginou. que à notícia e inteligência deles. altos conselhos. sem exemplar nem exemplo. estados novos. mas porque não terão semelhança com elas nenhumas das passadas. gentes novas. estranhas e espantosas mudanças de estados. determinamos observar religiosa e pontualmente todas as leis da história. não assinalam os lugares. de gentes. se leram sempre com gosto. Se já no Mundo houve um profeta do passado. Sós e solitariamente entramos nela (mais ainda que Noé no meio do dilúvio) sem companheiro nem guia. E se as histórias daqueles escritores. a ordem e sucessão das cousas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Hão-se de ler nesta História. O mar é imenso. com palavras não suas. tempos novos. de costumes. É de direito natural que ninguém seja condenado sem ser ouvido. em tudo o que escrevemos. para felicidade e paz universal do Mundo. costumes novos. de leis. o Evangelho é a sua profecia aberta. para triunfo da Igreja. chamamos a esta narração História e História do Futuro. quanto é estranho ao papel o assunto e nome dela. e que será tão deleitosa ao gosto e ao juízo a História do Futuro. porque não guardam nelas estilo nem leis de histórias: não distinguem os tempos. E porque nós. de tempos. Ouvirá o Mundo o que nunca viu. também lhe era devido nome novo e não ouvido. mas esperamos no Pai dos lumes (a cuja glória e de seu Filho servimos). isto só deseja e pede a todos a nova História do Futuro. e depois de sabidas se tornaram a ler sem fastio. saiba que nos pareceu chamar assim à esta nossa escritura. disfarçado em figuras. e porque havemos de distinguir tempos e anos. empresas e façanhas novas. tirará a salvamento a frágil barquinha: ela com maior ventura que Argos. e quando tudo isto viram e tudo disseram. ignorada até aquele tempo de quase todos os homens. só lhes quero pedir justiça. E com que espírito a escreveu? Respondem todos os Padres e Doutores que com espírito de profecia. Jerônimo: Legant prius et postea 5 . vitórias. sendo novo e inaudito o argumento dela. disseram S. de governos. as ondas confusas. portentosas conquistas. Antes de abrir as velas ao vento (oh faça Deus que não seja tempestade!). Jerônimo e Santo Agostinho que mais escrevera história que profecia. paz. seguindo em estilo claro e que todos possam perceber. não nua e secamente. triunfos e felicidades novas. para glória de Cristo. porque são futuras. a noite escuríssima. sem estrela nem farol. mas de S. nomear nações e ainda pessoas. Mas porque não cuide alguma curiosidade crítica que o nome do futuro não concorda nem se ajusta nem com o título de história. por isso. escurecido com enigmas e contado ou cantado em frases próprias do espírito e estilo profético. sinalar províncias e cidades. A sua profecia é o Evangelho fechado. que falou com maior ordem e maior clareza. em lugar da benevolência que se costuma pedir aos leitores.

O maior serviço que pode fazer um vassalo ao rei. Só isto fez Baltasar nos instantes que lhe restaram de vida. Se tanto vale o conhecimento de um futuro.. tudo que descubro melhoras. hoje adorada e de fé. porque um matava os profetas. se tanto prêmio se dá a uma profecia mortal e que tira impérios. Eu. neste só com Portugal. Outros reis houve. os felizes para a esperança e os infelizes para a cautela. convidam-se os Portugueses à lição dela. Et Superos vetuere loqui. ajuntou também que o havia de ganhar o dos Persas e Medos: Divisum est regnum tuum et datum est Medis et Persis. Isto é o que deves . Nem todos os futuros são para desejar. e quem busca o desengano tarde. Saul achou a Samuel morto e Baltasar a Daniel vivo. Porque.diz o texto. digno só por esta ação (se não foram as suas culpas sacrilégios) de que Deus lhe perdoara a vida. E que lhe importou a Daniel esta tão triste interpretação? No mesmo ponto . o morto ao vivo. não se desengana.Cessant oracula Delphis. nem temo a tua ingratidão. Mas é tal a tua estrela (benignidade de Deus contigo deverá ser). neste asseguramos breves desejos ao futuro. Naquele prometemos grandes futuros ao desejo. que seria se os prometera? Não faltou a este merecimento Dario Hidaspes rei dos Persas e dos Medos. eu te dissera a má fortuna sem receio. «Amanhã serás comigo».mandou Baltasar que o vestissem de púrpura e que lhe dessem o anel real. e se não há entre nós os vivos quem faça estas revelações. por não temer os futuros prósperos e adversos. que era faze-lo um dos quatro supremos ministros ou governadores da monarquia. Capítulo II: Segunda parte do titulo desta História. e achar-se-á. e fora melhor cair em si que aos pés do Profeta. assim como te digo a boa sem lisonja.) por Padre Antônio Vieira 6 No capítulo passado falamos com todo o Mundo. e que fosse reconhecido por Tetrarca de todo o império dos Assírios. Todos fora felicidade antever. Portugal. outro premiava as profecias. ainda que tão infeliz. o profeta ao rei.. e não queriam consultar os oráculos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro despiciant: «Leiam primeiro. porque há muitos futuros para temer. e premiado assim o profeta. Mas era já a véspera do dia da morte. defendendo a sua versão dos sagrados Livros. Sucedeu vitorioso este príncipe na coroa de Baltasar. História do Futuro (Volume I. Declarou Daniel a Baltasar a escritura fatal da parede. Oh que temeroso futuro! Caiu Saul desmaiado. e confirmou sempre a Daniel na mercê e lugar em que ele o tinha posto porque assim como profetizou que havia de perder o império o rei dos Assírios. é revelar-lhe os futuros. busque-se entre os sepultados. cumpriu-se a profecia e foi morto o rei. Sed siluit postquam reges timuere futura. disse Samuel a Saul. . eu me conto com Samuel entre os mortos. os felizes e os infelizes. então perseguida e impugnada. que por não temer os futuros. se me não contas com Daniel entre os vivos. quiseram antes ignorá-los. se nas letras que interpreto achara desgraças (bem poderá ser que as tenhas). anunciou-lhe intrepidamente que naquela mesma noite havia de perder a vida e o império. Disse sem murmuração o satírico que taparam os reis a boca aos deuses. (com quem só falo agora) nem espero o teu agradecimento.. que tudo o que leio de ti são grandezas.. e depois condenem» — assim dizia aquele grande mestre da Igreja. tudo o que alcanço felicidades.

porque o que se não pode dar logo não se há-de prometer. que lhe importam as esperanças da terra de Promissão? No cativeiro de Babilônia pregavam e prometiam os Profetas que Deus havia de levantar mão do castigo e restituir o povo à sua antiga liberdade. Muito seguras eram. mas todos eles morreram e foram sepultados no Egito. reexpecta. é um tormento desesperado o esperar. Prometer o Céu para ir esperar por ele ao Limbo. Modicum ibi. Isaac a Jacob e Jacob aos doze Patriarcas. e se lhes perguntavam quando. se nelas se promete o gosto. e não é este o futuro da minha História. Por agora só digo que me não atrevera eu a prometer esperanças. Se nelas se promete a vida. são tormento. reesperavam e desesperavam aqueles homens. e que a volta ou estribilho da cantiga era: . que lhe houvesse de prometer martírios com nome de esperanças. os filhos aos netos e nem estes. porque em muitas cousas das que lhes prometiam as profecias. Tais são as esperanças dilatadas.. ainda que não fosse muito velho. chegavam a ver o cumprimento do que tão longamente tinham esperado. sendo então as vidas mais compridas. A quem há-de cobrir a terra do Egito.expecta. mas cansava-se tanto o desejo na paciência de esperar por elas. são Inferno.Anexo:Imprimir/ História do Futuro esperar. Modicum ibi. nunca prometeu o Céu expressamente. Esperavam. se não foram esperanças breves. affligit animam. primeiro se acabava a vida do que chegasse a esperança. são promessas em que por então se dá o contrário do que se promete. As esperanças da Terra de Promissão deixou-as Abraão a Isaac. 7 . há-se de medir o futuro. se primeiro se há-de acabar a vida? O mesmo podem argüir os que hoje vivem com estas esperanças. assustar o desejo e embaraçar os mesmos alvoroços em que o tenho metido com estas esperanças: Spes qae differtur. que pelas ruas e praças da corte se andavam cantando por riso as suas esperanças. e tão seguras como a mesma palavra de Deus (que não pode mentir nem faltar)`. como notaram grandes autores. são morte. Boa esperança para um cativo. as promessas dos antigos Profetas. que vinham a ser fábula do vulgo em Jerusalém as esperanças das profecias. O Limbo chamava-se Inferno. Mas vejo que o mesmo nome de Esperanças de Portugal lhe poderá com razão suspender o gosto. Assim conta esta queixa Isaías no capítulo XXVIII. por isso em nome segundo e mais declarado chamo a esta mesma escritura Esperanças de Portugal. De que me serve a esperança da liberdade. e isto o que te espera. mas quando há-de ver Portugal essas esperanças? Ponto é este que depois se há-de tratar muito de propósito. Não me tenha a minha Pátria por tão cruel. que eu lhas prometo.. muito firme e muito bem fundada a esperança. e este é o comento breve de toda a História do Futuro. Grandes são essas esperanças de Portugal. Para se avaliar a esperança. e porque? Porque era um lugar onde se esperava tantos anos pelo Paraíso. Deus na Lei Escrita. se nelas se promete o Paraíso. Deixaram os pais em testamento as esperanças aos filhos. disse a Verdade divina e o sabe e sente bem a experiência e paciência humana: ainda que seja muito segura. reexpecta. Expecta. e em que a nossa História há-de empregar todo o quinto livro. respondiam e afirmavam constantemente que dali a setenta anos.

Assim como há esperanças que tardam. vos mostrará o cumprimento delas. também as hão-de mostrar presentes. há esperanças que vem. aquele filósofo do terceiro Céu. As esperanças que vem são o pomo da árvore da vida: Lignum vitae desiderium veniens. e os instrumentos prodigiosos delas os Portugueses. se nos prometem as felicidades futuras. Um profeta houve no Mundo mais que profeta. e com quanto gosto deves aceitar a oferta que te faço desta nova História. Que vida haverá em Portugal tão cansada. o Batista prometeu o futuro com a vez. O Grego lê com maior gosto as histórias de Grécia. que quem vos deu as esperanças. affligit animam. que à vista do cumprimento destas esperanças. não torne atrás os anos para lograr tanto bem? Vivei. Mas perguntar-me-á porventura alguma emulação estrangeira (que às naturais não respondo): se o império esperado. Lignum vitae. Vê agora. um futuro que muito tempo há-de ser futuro — Neque futura — e outro futuro que brevemente há-de ser presente: Neque instantia. A virtude maravilhosa daquele pomo era reparar e acrescentar a vida e remoçar aos que o comiam. desiderium veniens. senão única e singularmente sua. que foi o grande precursor de Cristo. o Romano as de Roma e o Bárbaro as da sua nação. Um futuro que está longe e outro futuro que está perto. Este segundo futuro é o da minha História. et adesse monstravit. Portugueses. um futuro que há-de vir e outro futuro que já vem. e entre elas os tempos. depois as mostrarão com o dedo. ó Pátria minha. vivei. Portugal será o assunto. e estas as breves e deleitosas esperanças que a Portugal ofereço. e mostrou o presente com o dedo — Cecinit ad futurum. desiderium veniens. porque são mais que profecias. e a mais gloriosa deles. Sim. quão agradável te deve ser. Portugal o princípio e fim destas maravilhas. mas acrescentam os dias e os alentos dela: Spes quae differtur. E Portugal que com novidade inaudita lerá nesta História os 8 . Esperanças que hão-de ver os que vivem. mas viverão muitos anos os que as virem. tiram a vida. perderá esta nossa História gloriosamente o nome. ainda que não vivam muitos anos. e com que alvoroço e alegria pede a razão e amor natural que leias e consideres nela os seus e os teus futuros. como se diz no mesmo título. nem o mostraram presente. porque o será do presente. João entre todos os profetas deste Mundo? Porque os outros profetas prometeram a Cristo futuro. dividiu os futuros em dois futuros: Neque instantia. desafiando todas as criaturas. Se houve um profeta que foi mais que profeta. não só não tiram a vida. Agora as prometem com a voz. Portugal o centro. neque futura. mas daquelas profecias de que se compõe esta História. porque lêem feitos seus e de seus antepassados . senão só de Portugal? A razão (perdoe o mesmo Mundo) é esta: porque a melhor parte dos venturosos futuros que se esperam. disse no mesmo lugar alegado a mesma Verdade divina. As esperanças que tardam. Lignurn vitae. Portugal o teatro. Mas este grande assunto fique para seu lugar. E por que razão mereceu a singularidade deste nome S. porque não haverá também algumas profecias que sejam mais que profecias? Assim espero eu que o sejam aquelas em que se fundam as minhas esperanças e que. as esperanças porque não serão também do Mundo. e que deixará de ser História do Futuro. será não só própria da Nação portuguesa. mas não o viram. Não é privilégio este de qualquer profecia. é do Mundo. que idade tão decrépita. vós os que mereceis viver neste venturoso século! Esperai no Autor de tão estranhas promessas. Só digo que quando assim suceder.Anexo:Imprimir/ História do Futuro São Paulo. as esperanças que vem.

que também é toda vossa. que. não duvidavam intitular-se Josés do Mundo. Capítulo III: Terceira parte do titulo e divisão de toda a História. para os êmulos a inveja. Os Faraós do Egito. pelas razões que se verão a seu tempo. cujo exórdio é este: Nabuchodonosor. Os inimigos liam nela suas ruínas. e destes a conhecer o Mundo ao mesmo Mundo. para que a matéria de uma vez se compreenda e saiba o leitor em suma o que lhe prometemos. ao qual. não se poderá consertar um corpo tão grande. em que terra. suas grandezas e felicidades. qui habitant in universa terra: . no quarto. Vós descobristes ao Mundo o que ele era. Entretanto. com quanto maior gosto e contentamento. Tal é a História. e os demais chamados do Mundo. que vos presente.Anexo:Imprimir/ História do Futuro seus e os dos seus vindouros. senão maior em tudo. dominando somente aquela parte não grande da extrema África. Não lhe chamaram Salvador do Egito. no sexto. no segundo. com que descobristes novos mares e novas terras. que estão fora de seu lugar. Se se há-de restituir o Mundo à sua primitiva inteireza e natural formosura. de tal maneira mediam a estreiteza de suas terras pela arrogância e inchação de seus vastos pensamentos. Essa foi a desigualdade do nome que puseram os Egípcios ao seu restaurador José: Vocavit eum lingua aegyptiaca Salvatorem Mundi.) por Padre Antônio Vieira 9 O que encerra a terceira parte do título desta História só se pode declarar inteiramente com o discurso de toda ela. em que pesca. Maior cabo. que. em que tempo. Alguns gemidos se hão-de ouvir entre vossos aplausos. costuma ter maior estrondo na voz que verdade na significação. Esta história era o silêncio de todas as historias. Se são dos inimigos. no terceiro. para os inimigos será a dor. gentibus et linguis. Naqueles ditosos tempos (mas menos ditosos que os futuros) nenhuma cousa se lia no Mundo senão as navegações e conquistas de Portugueses. Do império dos Assírios temos nas divinas letras uma provisão lançada no III capítulo do Profeta Daniel e mandada expedir pelo grande Nabucodonosor. maior esperança. para os amigos e companheiros o gosto e para vós então a glória. sem dor nem sentimento dos membros. Divide-se a História do Futuro em sete partes ou livros: no primeiro se mostra que há-de haver no Mundo um novo império. porei brevemente aqui sua divisão. resolver e provar a nova História que escrevemos do Quinto Império do Mundo. que jaz entre os desertos de Numídia e os do Mar Vermelho. Portugueses. Mas porque esta palavra Mundo. assim era aquele império. os meios por que se há-de introduzir. no sétimo. e também os Ptolemeus que lhes sucederam. senão do Mundo. e. História do Futuro (Volume I. as esperanças. sendo um só rio. porque toda se emprega em provar a esperança dum novo império. Em nada é segundo e menor este meu descobrimento. os êmulos suas invejas e só Portugal suas glórias. quando sai ao mar. e eu vos descubro a vós o que haveis de ser. e por isso na língua vossa. como se não houvera mais mundo que o Egito. rex omnibus populis. Estas sete cousas são as que há-de examinar. maior império. lede agora esta minha. com quanto maior aplauso e alvoroço será razão que o faca? Portentosas foram antigamente aquelas façanhas. que império há-de ser. chamamos quinto. nos ambiciosos títulos dos impérios e imperadores. maiores sempre nas vozes que no corpo e grandeza. no quinto. mas também estes fazem harmonia. se espraia em sete bocas. Assim como líeis então aquelas vossas histórias. ó Portugueses. como se foram sete rios. entretanto. será bem que digamos neste lugar o que o título da nossa História entende por Mundo. Imitavam a soberba de seu soberbo Nilo.

XIII de Ester. mas quem desenrolasse o mapa do Mundo e pusesse sobre ele os pergaminhos destas provisões. seguindo a antiquíssima arrogância da Ásia. Esta era a demarcação das terras e estes os limites do império. e Cícero. se lançarmos os compassos às terras que obedeciam a Nabucodonosor. veria facilmente que o Mundo. et magnitudo tua [. que se refere no VI capítulo de Daniel. da Europa menos e do resto do Mundo nada. Mas se examinarmos este mundo romano até onde se estendia. et margine coeli Clausit opes. obedecendo àquela coroa 127 províncias. acharemos que pelo oriente se fechava com o rio Tigres. o China. Mas bastavam estes três retalhos da terra para a soberba de Nabucodonosor revestir os títulos de seu império com o nome estrondoso de todo o Mundo. De maneira que os reis persas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro «Nabucodonosor. sem demasiado encarecimento. pelo ocidente com o mar de Cádis. o Tártaro e outros domínios bárbaros do nosso tempo. que habitam em todo o Mundo. da África pouco.exiit edictum à Caesare Augusto ut describeretur universus orbis. não duvidou firmar por sua própria mão. semelhantes em tudo às de Nabuco: Tunc Darius rex scripsit omnibus populis et gentibus et linguis. que se estendia da Índia até a Etiópia.. Estes limites lhe prescreveu Claudiano. aut ita domita ut quiescat. pelo meio-dia com o Nilo e pelo setentrião com o Danúbio e Reno. por serem senhores de 127 províncias.. mas os títulos não tinham limite. que professava mais verdade que os poetas: Nulla gens est. quantum distant a Tigride Gades. Contudo. lhe diz assim no mesmo capítulo: Tu es rex qui magnificatus es et invaluisti.. gentes e línguas. qua sidus currit utrumque disse Petrônio. e tanto menos 0 que significavam! Do império de Assuero (que era o dos Persas) diz o Texto Sagrado no primeiro capítulo da história de Ester. no cap. Mandou Augusto César matricular e: alistar seu império. Deixo o Mogor. ainda que lhe deu por margens os Orientes: Subdit Oceanum sceptris. que com a mesma majestade de títulos se chamam imperadores do Mundo. Tal era a opinião que Roma tinha de sua grandeza e tal o estilo que guardava em seus editos: . Tão grande era a significação dos nomes. aut ita pacata ut victoria nostra imperioque laetetur. em que o Mundo andou sempre atado aos títulos da monarquia. 10 . rei.] pervenit usque ad Coelum.. Inter se Tanais quantum Nilusque relinquunt. que tinha sujeito ao seu domínio o orbe universo: Cum universum orbem meae ditioni subjugassem. passaram provisões e decretos a todo o Mundo. E o mesmo Assuero por outro decreto. qui habitant in universa terra: Pax vobis multiplicetur. a todos os povos. e dizia o edito: Aliste-se o Mundo. quae aut ita subacta sit ut vi non extet. et potestas tua usque ad terminos universae terrae. é cento e vinte e sete vezes maior que o império persiano: tão pouco se proporcionava a geografia dos títulos com a medida dos impérios! Que direi do império dos Romanos? Os termos que lhe sinalam seus escritores são as raias do Mundo: Orbem jam totum victor Romanus habebat Qua mare. Assim nos consta por um decreto de Dario. por estas pomposas palavras. qua terra. E o mesmo Daniel (que é mais) falando a este rei e acomodando-se aos estilos da sua corte e aos títulos magníficos de sua grandeza. acharemos que da Ásia então conhecida tinha uma boa parte.

Todos os reinos se unirão em um centro.Anexo:Imprimir/ História do Futuro O Mundo do nosso prometido império não é Mundo neste sentido: não prometo mundos. acrescentou-lhe a nossa idade esta quarta parte. que chamamos Austral. que trespassasse as balizas do que ele até então conquistara e fosse ou se chamasse maior que Augusto. an per invidiam. e por aquela figura que os retóricos chamam sinédoque. e mais claramente do que o dissemos agora o provaremos depois. No livro sétimo examinaremos os fundamentos deste direito. do Romano) em muitos textos de um e outro direito se chama império do Mundo. para que nenhum lhe pudesse herdar o nome de Magno. Europam et Asiam. Europa.. Ásia.Mundus per ipsum factus est. a paz lhe tirará o receio. mas também se sabe que os textos podem dar títulos. A Abraão prometeu Deus as terras da Palestina mas conquistou-as a espada de Josué e defendeu-as a de seus sucessores. como todos os que até agora se chamaram impérios do Mundo. dar-lhe-á a posse . será sujeito a este Quinto Império. O título desta História não fala por hipérboles nem sinédoques. e este será o Mundo futuro. e o Mundo que o há-de conhecer. que é aquela terra incógnita. Tudo o que abraça o mar. Temeu César (se foi receio) que um corpo tão enormemente grande não se pudesse animar com um só espírito. Bem sei que o império de Alemanha (envelhecidas relíquias. em que se toma a parte pelo todo. sed in inventa America. Aqui acaba o título desta História.» Este foi o Mundo passado.. Quando o não conheceu. senão a justiça da espada. e naquele sentido em que disse S. sciant et recogitent. não por nome ou título fantástico. quando o conhecer.] in tres partes divisere: Africam.. espera-se agora a quinta. Duvida Tácito se foi filha esta resolução do receio ou da inveja: Incertum metu. o Mundo que o não conheceu. não chama a um pigmeu gigante nem a um braço homem. entretanto. Tal foi. a união lhe desfará a inveja. ou não quis (se foi inveja) que viesse depois outro imperador mais venturoso. não se pudesse governar com uma só cabeça. tudo o que alumia o Sol. scilicet. repartiu em diferentes sucessores o seu império. o qual. e esta será a peanha da cruz de Cristo. O Mundo de que falo é o Mundo. Não é nem poderá ser assim no império do Mundo que prometemos. negou-lhe o domínio. e destes três mundos unidos se formará (que assim o formou Deus) um Mundo inteiro. João: . dizem. aquele Mundo. dizem que se entende por hipérbole ou exageração. e este é o Mundo presente. e este o império que prometemos do Mundo. e quase acabadas. nomes tão alheios da modéstia como da verdade. O Mundo que Deus criou. Este é o sujeito da nossa História. Os que querem o ruído e encher de algum modo o vazio destes grandes títulos. mas já reconhecida. Estes são os instrumentos humanos de que se serve (ainda quando obra divinamente) a providencia daquele supremo Senhor que o é do Mundo e dos exércitos. Entretanto. todas as coroas se rematarão em uma só diadema. et 11 . o pensamento de Alexandre. senão por domínio e sujeição verdadeira. é certo que os impérios e os reinos não os dá nem os defende a espada da justiça. vizinho à morte. todas as cabeças obedecerão a uma suprema cabeça. tudo o que cobre e rodeia o Sol. eam pro quarta parte nostra aetas adjecit. ainda que liberalmente lho concedamos. e Deus (que é fortuna sem inconstância) lhe conservará a grandeza. nem impérios titulares. mas não impérios. quintamque expectat sub meridionali cardine jacentem: O Mundo que conheceram os Antigos se dividiu em três partes: África. depois que se descobriu a América. damos por solução de todas a mão onipotente: Ut videant. não se pudesse defender com um só braço. Resolveu Augusto com o senado pôr limites à grandeza do Império Romano.. et Mundus eum non cognovit. se aos doutos ocorrem instancias e aos escrupulosos dúvidas. universum terraram orbem — diz Ortélio — veteres [.

engenho e juízo eminentes. e por indigno não só de o comunicar ao Mundo.Escrituras (sendo todas elas como diz S. Moisés. e o gosto ou lisonja daquele apetite com que a impaciência do nosso desejo se adianta em querer saber as cousas futuras. e se como tal empregaram nela sua indústria tantos sujeitos em ciência. tendo este meu trabalho por inútil. e ainda com vantagem. que é o verdadeiro Autor de todas as . digo. a quem só pretende nos servir. mas de gastar nele o tempo e o cuidado. impertinente e ocioso. se sirva de nos comunicar aquela luz. se não fora igual e ainda maior a utilidade que podemos e devemos tirar do conhecimento das cousas futuras. Paulo escritas para nossa doutrina. melhoria e reformação a que são encaminhados e dirigidos. que todos aqueles fins que sabemos teve a Providência Divina em diversos tempos. porque não será igualmente útil e proveitosa. como foram os que em todos os tempos imortalizaram a memória deles com seus escritos. esperando que será grato e aceito a Deus. que da noticiaria das passadas. Josué. agora que entramos na maior importância desta matéria. E verdadeiramente que se os bens da ciência se colhem e conhecem melhor pelos males da ignorância. quanto é mais poderosa e eficaz para mover os ânimos dos. Em conseqüência desta verdade e em consideração das cousas que tenho disposto escrever.e não sabem com tão averiguada certeza). que a memória das alheias? Se em todos os Livros Sagrados contarmos os escritores de cousas passadas (como foram. esta nossa História do Futuro. homens a esperança das cousas próprias. certamente eu suspendera logo a pena e a lançara da mão. que aqueles que cegamente se precipitaram pela ignorância do futuro. para que estes secretos de seu oculto juízo e conselho se descobrissem e publicassem ao Mundo e em todo ele produzissem proporcionadamente os efeitos de mudança.Anexo:Imprimir/ História do Futuro intelligant pariter quia manus Domini fecit hoc. achará facilmente quem discorrer pelos sucessos do Mundo. cujos nomes . na Lei da Graça... leitor cristão. Capítulo IV: Utilidades da História do Futuro) por Padre Antônio Vieira 12 §I Se o fim desta escritura fora só a satisfação da curiosidade humana. nas a única e total. concorrem com particular influxo nesta nossa História e se acham juntos nela. A mesma Majestade divina. Mas se a história das cousas passadas (a que os sábios chamaram mestra da vida) tem esta e tantas. Esdras e alguns outros. e entendendo que foram vontade. desde seu princípio até hoje. pedimos com todo o afeto de coração. outras utilidades necessárias ao governo e bem comum do gênero humano e ao particular de todos os homens. inspiração e ainda força suave da mesma Providência os impulsos que a isto (não sem alguma violência) nos levaram. Esta é não só a principal razão. e na Escrita. que foram muito menos os danos em que caíam os homens por lhes faltar a notícia do passado. e se as esperanças que temos prometido foram só flores sem outro fruto mais que o alvoroço e alegria com que as felicidades grandes e próprias se costumam esperar. História do Futuro (Volume I. graça e espírito que para negócio tão árduo nos é . os quatro Evangelistas. acharemos que são em muito maior número os que escreveram das futuras: diferença que de nenhum modo fizera Deus. Samuel. lugares e nações para lhes revelar antecedentemente o sucesso das cousas que estavam por vir. humildemente prostrados diante de seu infinito acatamento. por que nos sujeitamos ao trabalho de tão molesto gênero de escritura.

. Foram mostradas a Faraó em sonhos . O primeiro motivo e mui principal por que Deus costuma revelar as cousas futuras (ou sejam benefícios ou castigos) muito tempo antes de sucederem. sempre soberba. e para que não haja ignorância tão cega nem ambição tão presumida. conhecendo e confessando que sem assistência deste soberano auxílio. porque Deus lho tirava. entendesse que o recebia. que todas vêm dispensadas por sua mão. ou porque se não levante a maiores com os benefícios divinos. que tudo são efeitos de seu poder e conselhos da sua providência. quais hão-de ser os da fome e quais os da fartura. por isso quer a mesma Providência Divina que as sentenças estejam escritas antes da execução. e para que Dario. Os futuros portentosos do Mundo e Portugal. que perdia o reino. mas apareceu primeiro a sentença escrita no paço de Babilônia. quando são. era o autor da abundância e da esterilidade. e houve logo um Daniel (também cativo e desterrado). nem nós saberemos explicar a outros o pouco que por mercê do Céu temos alcançado e conhecido. é para que conheçam clara e firmemente os homens. pois só ele os pode determinar antes que sejam. Oh quantos cristãos há egípcios. ou porque não atribua a cousas naturais (e muito menos ao caso) os efeitos que vêm sentenciados como castigo por sua justiça. e isto é o que eu começo a fazer (com a graça daquele Senhor que sempre se serve de instrumentos pequenos em cousas grandes). nem menos poderemos descobrir e alcançar ao diante o muito que nos resta por conhecer. as sete vacas fracas e as sete robustas. como as outras nações. nem Daniel que construísse as escrituras. rebelde e ingrata. que nem esperando.Anexo:Imprimir/ História do Futuro necessário. porque Deus lho dava. nem as armas de Dario para os adquirir. E não bastam. nem temendo.as sete espigas gradas e as sete falidas. que tire a Deus o que é de Deus. a mão onipotente de Deus é a que os distribui. que o havia de receber. e se beije as mãos a si mesma. Quis a mesma Providência. como acima dizíamos tirar o império a Baltasar e dá-lo a Dario. para que Baltasar. Deus é o que dá e tira os reinos e os impérios. de que há-de tratar a nossa História. e logo ordenou a Providência divina que estivesse em Egito um José (posto que vendido e desterrado). como dizia Job. Como na terra do Egito não chove jamais e se regam e fertilizam os campos com as inundações do rio Nilo. que interpretasse ao rei os mistérios dela. Arma-se assim a sabedoria eterna contra a natureza humana. mas não houve até agora nem José que interpretasse os sonhos. ou ordenados para mais altos e ocultos fins por sua providência. levantam os olhos ao Céu. e que a ele havia de agradecer no benefício dos sete anos o remédio dos catorze. e em lugar de reverenciarem em . e que haja quem as interprete antes do sucesso. nem o direito e herança de Baltasar para os conservar. que lhe declarasse o mistério dos sete anos da fartura e sete de fome. com os olhos sempre no Céu e em Deus.todos os sucessos a primeira causa. 13 § II Primeira utilidade. muitos anos há que estão sonhados como os de Faraó e escritos como os de Baltasar. para que conheça a ignorante sabedoria do Egito que os meios da conservação ou ruína dos reinos. se Deus dispõe outra cousa. e não o seu adorado Nilo. para que conhecesse o bárbaro que Deus. tantos anos antes. só adoram as segundas! Por isso mostra Deus a Faraó. conhecesse que o perdia. porque não esperavam de lá o sustento. por dar a César o que não é de César. para que conheça o Mundo e Portugal. disse discretamente Plínio que só os Egípcios não olhavam para o céu. quando e a quem é servido.

E o embaixador e intérprete deste e de outros futuros. fazendo-o. e quão indigno de o ser. e posto que todas viram o cumprimento da primeira promessa. é a que há-de levantar e sublimar ao estado felicíssimo e glorioso que lhe está prometido. favores e as mercês tão notáveis com que o determinava enobrecer: na primeira. no passado o verá vencido. e lhe revelou como era servido de o fazei rei. também está prometido este terceiro e mais feliz estado do nosso Reino. na terceira. a vitória que lhe havia de dar em batalha tão duvidosa e as armas de tanta glória com que o queria singularizar entre todos os reinos do Mundo. Estilo foi este que sempre Deus usou com Portugal. desconhecido e retirado do Mundo o ermitão do campo de Ourique. Prometeu Deus de livrar os filhos de Israel do cativeiro do Egito. e muitos centos e ainda milhares de anos antes (como depois mostraremos). para que até por esta circunstancia conheçam os Portugueses que a mesma mão onipotente que há vinte e quatro anos conserva e defende tão constante e vitoriosamente o Reino de Portugal. receoso porventura de que uma nação tão amiga da honra e da glória lhe quisesse roubar a sua. Quem considerar o Reino de Portugal no tempo passado. para que conhecesse outra vez Portugal que a Deus e não a outrem devia a restituição da coroa que havia sessenta anos lhe caíra da cabeça ou lhe fora arrancada dela. Raro 14 . dois daqueles aventureiros que. e de tantos outros que logo se cumpriram e vão cumprindo. Afonso Henriques. sublimando-o. que é o tempo futuro. apareceu o mesmo Cristo a El-Rei (que ainda o não era) D. sendo contudo mais de seiscentos mil homens os que triunfaram de Faraó e passaram da outra parte do mar Vermelho. e de os levar e meter de posse da terra da Promissão. e em todas estas três diferenças de tempos e estilos lhe revelou e mandou primeiro interpretar o. não havendo quem ignorasse ou quem não tivesse lido que no ano de quarenta se havia de levantar em Portugal um rei novo e que se havia de chamar João. foi a nossa experiência. e prometidos juntamente os meios e instrumentos prodigiosos por onde há-de subir e ser levantado ao cume mais alto e sublime de toda a felicidade humana. e leiam tudo o que daqui por diante formos escrevendo com este pressuposto e importantíssima advertência: que. foi revelado o sucesso dela com todas suas circunstancias. e que era todo seu desde seu nascimento. E o intérprete deste futuro que parecia tão impossível. foram diante a explorar a terra. e a Portugal reino.Anexo:Imprimir/ História do Futuro atribuindo à fortuna ou indústria humana o que se deve só à disposição divina. quando por nossa desgraça fôssemos tão injuriosamente ingratos a Deus. Antes da sua ressurreição. se alguma cousa lhes poderia retardar o cumprimento destas promessas. conseguindo milagrosamente a liberdade. Considerem agora os Portugueses. escolhidos pelos Doze Tribos. no presente e no futuro. Antes das glórias de Portugal. ou esperássemos os futuros de outra mão que a sua. foi aquele velho. e o intérprete deste último e glorioso estado de Portugal já tenho dito quem é. e por isso mui proporcionado (segundo o estilo de Deus) para tão grande e dificultosa empresa. de todos eles não entraram na Terra da Promissão nem chegaram a lograr a felicidade e descanso da segunda promessa mais que Josué e Calef. seria só o esquecimento ou desconhecimento do soberano Autor delas. na segunda restituindo-o. que depois se viram cumpridos. que todos vimos também. para que conhecesse e não pudesse negar Portugal que devia a Deus a vitória e a coroa. no presente ressuscitado e no futuro glorioso. que ou referíssemos os benefícios passados. Antes do nascimento de Portugal. como tinha jurado aos seus maiores. e sacudiram sem sangue nem golpe de espada a sujeição de tão poderoso domínio.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro exemplo de severidade na misericórdia de Deus . qui nos eduxit de terra Aegypti. Portugueses. Basta. a Deus só as refiramos todas. e quem fez os portentos e maravilhas foi Deus. e ouvi os seus clamores. e pode ser que estejamos já muito perto dela. nos livrou do cativeiro. espaçosa. se buscarmos no Texto Sagrado as causas deste desvio e dilação (a qual durou quarenta anos inteiros. Assim o disseram também no mesmo capítulo e o apregoaram impiamente a altas vozes: Hi sunt dii tui. Para que conheça por nossa confissão todo o Mundo que são misericórdias suas e não obras do nosso poder. já por mercê de Deus triunfamos de Faraó e do poder de seus exércitos. ainda antes de ver o fim desejado dela. Moysi enim huic viro. afogados no Mar Vermelho de seu próprio sangue. Se há algum tão invejoso dos bens da Pátria e tão inimigo de si mesmo. e a Deus só louvemos e demos as graças. e que. sendo a distancia do caminho breve. De maneira que quem tirou os filhos de Israel do Egito foi Deus. era ingratidão suma. Quem refere a glória dos bons sucessos ao seu valor. à sua ciência militar. Já Deus. Agora nos servem as duas. por isso se vos escrevem aqui essa mesma liberdade. ingrato e blasfemo! Que Moisés e o vosso ídolo foram os que vos livraram do cativeiro do Egito?! Por certo que o não disse assim Deus ao mesmo Moisés. não uma. depois diremos a terceira. A segunda. era descortesia. et deducam de terra illa in terram bonam et spatiosam. 15 . porque. dá a glória de Deus ao ídolo. mas nos homens que deviam dar a Deus toda a glória (pois toda era sua). e o fez com . mas bem merecido castigo. que lhe hei-de dar. Eu não nego que em bom sentido se podia chamar Moisés libertador do cativeiro. atribuírem-na ao ídolo. assim o disseram no cap. abundante e cheia de todos os regalos e delícias». que queira retardar o curso de tão próspera e feliz jornada e acabar infelizmente. povo descortês. como efeitos da providência. qui te eduxerunt de terra AEgypti. da bondade e onipotência divina. ou a Moisés ou ao ídolo. Imos caminhando pelo deserto para a Terra da Promissão. era blasfêmia. foi atribuírem a mesma liberdade ao ídolo que de seu ouro tinham fundido no deserto. boa. assim os que já se viram. e os que atribuem as obras de Deus e os benefícios (de que só a Ele se devem as graças) a Moisés e ao ídolo não merecem ter vida nem olhos para chegar a ver a Terra de Promissão. ao seu talento. mas muitas vezes.tanta repugnância sua instrumento de seus poderes: Vidi afflictionem populi mei in AEgypto et clamorem ejus audivi. negue a Deus o que é de Deus e atribua à liberdade as vitórias e o cumprimento das primeiras promessas que temos visto. A primeira causa foi atribuírem a liberdade do cativeiro a Moisés. desci em pessoa a livrá-lo das mãos dos Egípcios e tirá-lo daquela terra para outra. sejam privados de gozar a segunda. e não a darem a Deus toda. referirem-se a Moisés. e do último cumprimento das prometidas felicidades. Israel. e quem abriu o Mar Vermelho e afogou nele Faraó e seus exércitos foi Deus. XXXII. descendi ut liberem eum de manibus AEgyptorum. ignoramus quid acciderit. já os vimos. ao seu braço. pois tão ingrata e impiamente interpretaram o benefício da primeira promessa. como também Deus pelo honrar lhe dava esse nome. quando lhe deu o ofício e a vara. essas mesmas vitórias e esses mesmos sucessos. e para que nós. e ainda mais ignorante (sobre ímpia e blasfema). tantos anos antes revelados por Deus. in terram quae fluit lacte et melle: «Vi — diz Deus — a aflição do meu povo. como os que restam para se ver. et sciens dolorem ejus.três. sendo muito justo e muito justificado castigo que morram e acabem todos antes de chegar o prazo das felicidades. e que se podia vencer em poucos dias) acharemos que foram . e porque sei com quão justa razão se queixam.

Enfim.] Vivo ego. ut habitare vos facerem. é o primeiro fruto e utilidade que da lição desta nossa História se pode tirar. depois de cumprida uma parte das promessas. que. Chegados os doze exploradores da Terra da Promissão. a qual refere o Texto Sagrado no cap. tão importantemente para a vida como para a vista. resolveu que fosse executada neles a sentença de sua própria incredulidade. vícios tão naturais da próspera fortuna. instavam que era impossível. como filhos da víbora. sic faciam vobis.. como pela valentia. e pois criam que Deus os não havia de meter de posse da Terra da Promissão. que são os que a Escritura chama filhos da desconfiança. ait Dominus. concordaram todos na largueza. senão crime de ingratidão grande contra o divino Autor dos mesmos benefícios. A humildade e agradecimento. ou não querem crer. qae feci coram eis? [.. não sei se de pouco. audiente me. XIV dos Números. [.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Os inimigos que mais temo a Portugal são soberba e ingratidão. justo será que fechemos este com a terceira causa do castigo que ponderávamos. se de mau coração) e vejam o perigo em que os pode meter ou tem metido a sua incredulidade: Sicut locuti estis. Deliberou o povo eleger capitão e voltar-se com ele ao cativeiro do Egito.facilitaram a conquista e animavam o povo a ela. Esta tão covarde incredulidade foi a última ou a última sem-razão com que acabou de se apurar a paciência divina. Assim o disse e assim se executou. não crer que se hão-de cumprir as outras. não o verão. que nenhum deles entrasse nela nem a visse. Os que pela experiência do que têm visto crêem o que está prometido. E este conhecimento tão grato a Deus. e pode ser de grande exemplo para outra casta de gente. juntamente nascem dela e a corrompem. e a estes incrédulos e ingratos castiga justissimamente sua Providência. levar e meter de posse daquelas segundas promessas. a desconfiança de nós. é não só pertinácia de incredulidade racional. sicut locuti estis. não bastando a experiência de tantas vitórias passadas e de tantos sucessos e prodígios inauditos. Diz Santo Agostinho (cujas excelentes palavras adiante citaremos) que. com que não cheguem a ver nem gozar o que não querem crer de sua bondade: . que ficarão para os capítulos seguintes. bondade e fertilidade da terra. para crerem e confiarem que assim havia de ser. foram estas: Usque quo detrahet mibi populus iste? Quosque non credent mihi in omnibus signis.. os que não crêem. Leiam e pesem bem estas palavras de Deus os incrédulos e desanimados (vícios ambos. vê-lo-ão. mas exceto Josué e Calef. os outros. assim pela fortaleza e sitio das cidades. a sua mesma incredulidade será a sua sentenc: já que o não creram.. que aprendemos nas noticias de seus futuros. que . forças e corpulências dos homens. 16 Breve Advertência aos incrédulos Mas antes que passemos às outras utilidades.. In solitudine hac jacebunt cadavera vestra. porque são dignos de o verem. e que todos morressem primeiro e fossem sepultados naquele deserto. prevaleceu o número contra a razão) (como as mais vezes sucede).] non intrabitis terram. dando-lha em tudo e por tudo. conformemente. comparados com os Hebreus (diziam eles) pareciam gigantes. nem os perdoar ou dissimular como até ali tinha feito. As palavras da queixa de Deus e da sentença. de que Deus os havia de meter de posse daquela terra. a confiança em Deus e o zelo e desejo puríssimo de sua glória. sempre são os meios seguros que nos hão-de sustentar. E resoluto Deus a não sofrer mais tal gente. sic faciam vobis.. que. e sobre tudo as promessas divinas tão repetidamente inculcadas. super quam levavi manum meam.

mete primeiro o machado. constância e consolação nos trabalhos. é a paciência. et plantes. Assim o sentenciou o mesmo Deus outra vez em semelhante caso por boca do profeta Habacuc: Ecce qui incredulus est. e se não crêem que havemos de ver. E quem não crê que se hão-de cumprir. É lei da liberalidade de Deus pagar a fé com a vista. morrerão.tão felizes promessas. justus autem in fide sua vivet. não crer ainda as que estão por vir. tão maravilhosas e tão raras. quando quis plantar e edificar de novo. fiat tibi. Assim o disse e mandou notificar a todo o Mundo pelo profeta Jeremias: Ecce constitui te hodie super gentes et super regna. do nosso próprio coração nos conta Deus a sentença e de nossas próprias palavras a forma: Exore tuo te judico. guarda também ordinariamente nas felicidades desta. e se veja restaurado o Universo! Maravilha é que há muitos anos está prometida para esta última idade do Mundo por aquele supremo Monarca. também começa derribando. alguma desculpa parece que podia ter a incredulidade na fraqueza do receio e desconfiança humana. quando as tem prometido: os que as crêem. ó reis. antes que Deus vos replante e reedifique. os que as não crerem. Quem não crê.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Quo usque non credent mihi in omnibus signis. alimpa. diz Deus: Sicut locuti estis. diz Cristo: Sicut credidisti. <O incrédulo . et destruas. desfazendo. campos e cidades. et dissites. creiam que não hão-de viver: Si non credideritis. e os que não quiseram crer.diz Deus nem terá a vida segura. Ó gentes. a sua mesma fé lhe conservará a vida > Assim sucedeu. com el-rei Sedecias pereceram. desmerece a vista. e depois sobre o novo alicerce levanta nova traça e novo edifício. e para que não chegue a ver. terão vida para as verem. quanto destruir. derriba. perigos e calamidades com que há-de ser allito e purificado o Mundo. arrasando e arrancando até os fundamentos. Quando o arquiteto quer fabricar de novo sobre edifício velho e arruinado. quanto dissipar se verá em vossas terras. cava. será também para ele não gozá-las. e ao que crê. merecedoras ambas de que Deus as castigue com se conformar com elas: Sicut locuti estis. non permanebitis — diz o profeta Isaías. sic faciam vobis. Assim o faz e fez sempre o supremo Criador e Artífice do Mundo. examine o seu coração e consulte a sua fé. E este estilo que Deus costuma guardar na glória da outra vida. e depois planta e semeia. tira-lhe Deus a vida. ó reinos! Quanto arrancar. fiat tibi. tão grandes. queima. é rebeldia de ingratidão e dureza da incredulidade. mas depois de cumpridas e vistas com os olhos tantas cousas. Capítulo V: Segunda utilidade. Quem crê que se hão-de cumprir aquelas . e mais necessária aos tempos próximos e presentes. Quem quiser saber (segundo o estilo ordinário da justiça e providência divina) se há-de chegar a ver as felicidades que debaixo de sua palavra aqui lhe prometemos. os que creram aos profetas com el-rei Iconias viveram. ut evellas. Aos que crêem. para ele será o vê-las e gozá-las: Sicut creditisti. que tem por assento o trono de todo ele: Et dixit qui sedebut in throno: Ecce nova facio omnia. antes que chegue a esperada felicidade. E porque ninguém o duvidasse .) por Padre Antônio Vieira 17 A segunda utilidade desta História. quae feci coram eis? Antes da experiência das primeiras maravilhas. como ao Centurião. corta. E aos que não crêem como os Israelitas do deserto. Quando o lavrador quer plantar de novo em mata brava. arranca. História do Futuro (Volume I. et aedifices. non erit recta anima ejus in semetipso. et disperdas. porque na guerra que Nabucodonosor fez a Jerusalém. para que as não vejam. nem vê-las. por isso havemos de ver no Céu os mistérios que vemos na Terra. Olhem por si os incrédulos. quanto perder.

Se deste trabalho e castigo pode também caber alguma parte a Portugal. opressões. e se é ele um dos reinos da Cristandade que merece ser mui renovado e reformado. que ver-se cercada e combatida por todas as partes de poderosíssimos inimigos. Isaías. alívio. e dando conta disso aos mesmos Esparcíatas. pelas quais lhes não foi necessário valerem-se da confederação que naquele tempo tinham com os Romanos e Esparcíatas. cum nullo horum indigeremus. Que maior trabalho ou perigo pode sobrevir a uma república. só e desamparada. Habacuc Jeremias. não pelo que ela tem de nossa. é a que mais que tudo nos pode consolar nos trabalhos. ou para o resto do Mundo. nem remédio para o sofrimento e constante firmeza de tão fortes calamidades. não porque tenhamos necessidade dela e dos vossos socorros. se se conhece. o mesmo Portugal o examine. que nunca no povo de Israel concorreram tantos Profetas juntos como antes do cativeiro de Babilônia e no mesmo cativeiro. sempre os livrou com maravilhosas vitórias e assistências do Céu. os tristes consolação. tribulações. com que Deus costuma castigar. opressões e trabalhos. No cap. constância e fortaleza. guerras. posto que não nos faltam inimigos. sendo só doze os Profetas canônicos. Jónatas. e o fruto muito principal . ad nostram doctrinam scripta sunt. em que lemos as promessas divinas. no cativeiro profetizou Miqueas. habentes solatio sanctos libros qui sunt in manibus nostris. o julgue. que então governava o povo. diz S. mas temos sempre em nossas mãos os Livros Santos. os atribulados esperança. e ele mesmo. pelejar e vencer. diz assim em uma epístola: Nos. porque a paciência tem a sua consolação na esperança. Daniel e Solonias. no qual acharão os aflitos alívio. se houver (como há-de haver primeiro) trabalhos. maluimus mittere ad vos renovare fraternitatem et amicitiam: «Mandamos renovar por este nosso embaixador (diz Jonatas) a antiga amizade e confederação» que convosco fizeram nossos maiores. Ezequiel. assolações. Joel e Amos. Mas. misérias e açoites. e com eles e com elas nos consolamos e animamos a resistir. paciência. de que Deus . como temos vencido e vencemos a todos nossos inimigos. VIII se verá que sem atrevimento ou demasiada confiança podemos chamar a esta nossa História do Futuro livro santo. Paulo. do que a lição e condição desta História do Futuro. tudo por meio da lição e fé das divinas promessas e consolação dos felicíssimos fins a que todos estes trabalhos e tribulações pela providência do Altíssimo são ordenadas.para que elas se escreveram: Quaecumque scripta sunt. acrescenta logo o Evangelista Profeta: Haec verba fidelissima sunt et vera. e todo o gênero de calamidades. Antes do cativeiro profetizaram por sua ordem Oseas. lembrando-lhe que está escrito que o juízo e exemplo de Deus há-de começar por sua casa: Judicium incipiet a domo Dei. ut per patientiam et consolationem Scrip turarum spem habeamus. Este é o fim. emendar e domar a rebeldia dos corações humanos. e sem amigo nem aliado que a socorra? Neste estado se viram muitas vezes no tempo de seu governo os Macabeus.Anexo:Imprimir/ História do Futuro como cousa tão nova e desusada. perigos. do conhecimento e fé das cousas futuras. e tão apertada sai a luz e se oferece ao Mundo este livro santo. A lição das Escrituras. mas pelas escrituras originais de que foi tirada. De maneira que. a esperança tem o seu fundamento na fé e a fé nas Escrituras. É cousa muito digna de notar. ou sejam para Portugal. ou para todos (como é mais certo) nenhuma cousa poderão ter os homens de maior consolação. Para esta ocasião. os dez deles tiveram por assunto e matéria muito principal de todas suas 18 .

Cantavam-se as profecias ao som das cadeias. Os quatro primeiros. e do termo e fim do cativeiro que nelas se lia. insistiram constantemente em que ele havia de ter fim. e anda no Texto Sagrado junta com as obras de Jeremias: Et legit Baruch verba libri hujus ad aures Jechoniae. Levou este livro a Babilônia o Profeta Baruch. tendo ficado em Jerusalém. pudesse com o trabalho do cativeiro. e as esperanças dele se haviam de cumprir no ano 19 . Ordenou pois a providência e misericórdia divina. antes mui lembrado do que padeciam os desterrados de Babilônia. Foi mui particular neste caso entre todos os outros Profetas o zelo e diligência de Jeremias. Bernardo que quando Deus alguma hora permitisse que o reino viesse a mãos e poder de rei estranho. arrancados da pátria e levados a terras de bárbaros. mas sei que nos trabalhos calamidades e aflições que há-de padecer o Mundo e pode ser cheguem também a Portugal. mas que por misericórdia de Deus seria depois restituído à sua pátria. determinando sinaladamente o ano da liberdade. XXIX do mesmo Profeta. leu-se em presença de El-Rei Iconias e publicamente de todo o povo. poria Deus os olhos de sua misericórdia no Reino. escreveu um livro das suas profecias. Lia-se nas célebres tradições de Gregório de Almeida no seu Portugal Restaurado. nenhuma outra apelação tinha a sua dor. mais que a lição e interpretação das profecias. e animado com a esperança da liberdade. Assim o diz no primeiro capítulo da relação que fez desta jornada.Anexo:Imprimir/ História do Futuro profecias o cativeiro de Babilônia. A razão deste concurso tão extraordinário de Profetas e profecias (nunca antes. e nota o mesmo Baruch que todos com grande alvoroço corriam ao livro. uns que as tivessem escrito no tempo passado. no meio destas opressões e perigos próprios. que com ele vivia no cativeiro. filii Joachim. porque. os Profetas e as profecias os alentavam. presos e. como se pode ver no cap. e se será recebido e lido com o mesmo animo e afeto este nosso livro da História do Futuro. prisões e perigos da vida por pregar e profetizar a verdade (pela qual finalmente morreu apedrejado). Ao menos não negará Portugal que. sendo cativos. onde padeceu grandes trabalhos. O cativeiro e o tirano os oprimiam. que escreveram mais de seis anos antes daquele tempo. e lá oprimidos e tratados como escravos em duríssima servidão. que profetizaram no tempo do cativeiro. Afonso Henriques e na promessa do santo ermitão. que naquele tempo e estado tão calamitoso. Lia-se no juramento de El-Rei D. que. houvesse muitos Profetas e muitas profecias. que o tempo desejado havia de chegar. e com a brandura deste som os ferros se tornavam menos duros e os corações mais fortes. nem Portugal nem o Mundo poderá ter outro alívio nem outra consolação maior que a freqüente lição e consideração deste livro e das profecias e promessas do futuro que nele se verão escritas. e outros que as pregassem no presente. e a esperança da liberdade e do ano dela. Lia-se na carta e tradição de S. para que o povo não desmaiasse com o peso da aflição. Os outros seis. não esquecido dos alheios. em que por termos muito claros e palavras de grande consolação lhes anunciava a liberdade e o tempo dela. regis Juda. nem outro alívio ou consolação a sua miséria. et ad aures universi populi venientis ad librum Não sei se terá a mesma fortuna. despojados de seus bens. na décima sexta geração atenuada. no tempo da sua Babilônia e do cativeiro e opressões com que tantas vezes se viu tão maltratado e apertado. nem depois visto) foi porque nunca o povo e reino de Judá padeceu tão grande trabalho e calamidade como o cativeiro ou transmigração de Babilônia. profetizaram que o povo por seus pecados havia de ir cativo. não seria por espaço mais que de sessenta anos. companheiro de Jeremias.

e nós o mostraremos em seu próprio lugar.] ut praedicarem annum placabilem Domino [. Ninguém ignora que as profecias do Apocalipse e mais ainda as que estão por cumprir) são próprias dos tempos que hoje correm e hão-de parar no fim do Mundo. annum placabilem Domino. et ego scrpsi ad consolationem futurorum. e eu escrevi as profecias deles para consolação dos vindouros e para que os vossos fiéis com os casos futuros se não perturbassem». por particular favor. em que o cativeiro se havia de acabar: Et praedicarem captivis indulgentiam. e do alívio e consolação que com suas profecias haviam de ter em seus trabalhos aqueles cativos. a tristeza e desmaio de seus corações». Este é o fim (posto que não só este) por que Deus revela as cousas futuras. a diligência com que eu me disponho. Querendo Cristo. para todos lhes prometo este remédio: melhor é que sobejem os remédios à cautela. Domine.] ut mederer contritis corde et praedicarem captivis indulgentiam [. aponta nomeadamente dois que mais parecem receitados para o nosso cativeiro que para o de Babilônia: o primeiro.. oleum gaudii pro luctu. E declarando mais em particular os remédios cordiais que lhes aplicava. João tivesse aquelas revelações e escrevesse aquelas profecias? É pergunta esta de que foi respondida Santa Brígida.. oleum gauudii pro luctu. mas ou sejam de Portugal. Assim o liam os cativos de Babilônia.] et darem eis coronam pro cinere. e assim o líamos nós também nas nossas. que a santa ouvisse a resposta da boca do mesmo Profeta. aliviávamos o peso do nosso jugo e consolávamos a pena do nosso cativeiro. estejam neles constantes. e o último de todos. Mas a que fim.] ut consolarem omnes 1ugentes [. E pois este remédio das profecias foi tão presente e eficaz para os trabalhos passados. e ungiu-me com seu espírito. apareceu ali S. Falando no mesmo cativeiro de Babilônia o mesmo profeta Isaías. E porque não pareça que argumento só de casos e profecias de tempos antigos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro sinalado de quarenta. pergunto. antes confirmados com as mesmas profecias. era uma coroa trocada pelas antigas cinzas. me revelastes aqueles mistérios. e quão conforme com a vontade e intento de Deus. Eu não prometo nem espero infortúnios a Portugal. João.. ou do Mundo os que pode causar nele a necessidade ou a adversidade dos tempos. Assim o dizem Padres e expositores. e o trabalho de escolher entre todas as profecias que pertencem a nossos 20 . que foi S. como se lê no Livro VI de suas Revelações. E assim como eles não tinham outro remédio na sua dor senão a esperança daquele desejado ano e a mudança daquela prometida coroa. razão tenho eu (e razão sobre a experiência) para esperar e confirmar que o será também para os futuros. ou da Cristandade. «Desceu sobre mim o Senhor. João e disse desta maneira: Tu. inspirasti mihi mysteria ejus. curasse com o talento de minhas promessas e profecias.. a nas suas profecias. para que como médico dos aflitos cativos de Babilônia. e por que os Profetas antigos.. ordenou a Providência Divina que S. ne fideles tui propter futuros casus everterentur: «Vós. diz com igual brandura e eloquência estas notáveis palavras: Spiritus Domini super me [... e no concurso de todas estas profecias se consolava e animava Portugal a ir vivendo ou durando até ver o cumprimento delas. com os olhos longos no suspirado ano de quarenta e na esperada coroa do novo rei português.. as escreveram: para que se veja quão justa e quão útil é.. era um ano de indulgência e redenção. o segundo.. Senhor. com que os lutos e tristezas passadas se convertessem em festas e alegrias: Et darem eis coronam pro cinere. sejam os casos e profecias próprias dos nossos tempos e escritas só para eles. do que faltem à providência. diz Isaías. assim nós.

quis non prophetabit? Falem todos nas profecias e entendam-nas todos. digo. nem ainda temeridade que se arrojasse a empreender a desigualdade de tamanhas guerras e a desproporção de tão imensas conquistas. confie só no mesmo Deus e em suas promessas. ainda então os repreendeu de pouca confiança. ou para mais exaltar sua onipotência. quis non prophetabit? Estas são as trombetas do Céu. enfureçam-se os ventos. depois de os atemorizar com fantasmas. brame o mar. ou para provar nossa fé. Capítulo VI: Terceira utilidade. o trovão de nossas profecias. Esta é a resposta do valor. que é faltar ao que tem prometido. porque se não ofenda Deus. que não temerá Portugal que é o David que tantas vezes lhe tem tirado das garras os seus cordeiros. e esta pode ser também a da arrogância. que Deus há-de acudir por sua palavra. Oh! que bem armados esperarão o leão na campanha os nossos soldados. os reinos. Ele pode mais que todos os poderes humanos. . lendo os príncipes da Cristandade. quis non timebit? «Quando bramir o leão. na fé e confiança das mesmas promessas se atreverão animosamente a empreendê-las. Costuma a Providência Divina começar suas maravilhas por efeitos contrários. e mais particularmente aqueles que foram ou estão já escolhidas por Deus para instrumentos gloriosos de . e só uma cousa não pode. E porque o fruto deste benefício se pode colher nas novidades que promete este mesmo ano em que. Não confie Portugal em si. e pelejará seguro. pois agora é o tempo de se ouvirem as profecias e de se saber e publicar o que Deus tem dito: Dominus Deus locutus est. não perca Josué nem seus soldados o animo. Deixou Cristo aos discípulos lutar com a tempestade na primeira vigia. que agora é o tempo. as conquistas. está. de cujo som tremem os muros de Jericó e a cuja bateria nenhuma fortaleza resiste. soe também em nossos ouvidos por cima de todas elas. lendo. quis non timebit? Dominus Deus locutus est quis non prophetabit ? Está o leão bramindo? Sim. pratiquem-nas todos. Quando as bramidos do leão se ouvirem em suas caixas e trombetas. porque são voz do Céu. e quando na quarta. medidas só as forças da potência humana. os triunfos. que é o Sansão que tantas vezes o tem desqueixado. nem na terceira. Escureça-se a noite. as vitórias. Mas se acaso (que pode ser) houver algum sucesso adverso (que também depois do milagre de Jericó houve nos campos de Hai). e de as ajuntar. que por isso nos tem prevenido com elas. que é o Hércules que tantas vezes se tem vestido de seus despojos. rompa-se o céu. digo assim com o profeta Amos: Leo rugiet. ordenar e tirar à luz para o benefício público. que lhes estão prometidas. somos entrados. se tiverem nas mãos as armas e no coração as profecias! Leo rugiet. seguro está o Reino em que ele e a palavra de Deus correm o mesmo perigo. Mas as promessas e as disposições divinas. recorram a Deus e a suas promessas. os socorreu com sua presença.tão singulares maravilhas e maravilhosas felicidades. na segunda não lhos acudiu. que não temerá Portugal. Leo rugiet. nenhuma razão haveria no Mundo que se atrevesse a aconselhar. quem não tremerá?» Responderão com razão os nossos soldados que não temerão aqueles que tantas vezes os têm vencido. aplicando o remédio à ferida ou aos ameaços dela.) por Padre Antônio Vieira 21 Finalmente (e é a terceira e não menor utilidade desta História).Anexo:Imprimir/ História do Futuro tempos. as coroas e o domínio e sujeição de nações tantas e tão dilatadas. sem ter por fiador a palavra divina. História do Futuro (Volume I. Assim lhes chamei. de que Deus se não agrada. sendo certo que. que não temerá Portugal. no discurso da História do Futuro.

chegaram perto e foram sentidos. interpretando-a (como verdadeiramente era) conforme o sinal que tinha posto. e que não convém acometer. toca-se arma. ardeu o famosíssimo templo de Diana Efesina. Saem das covas os Israelitas. pelas montanhas. formou o valor. trava-se uma brava peleja dos mesmos Filisteus uns contra os outros. foi a famosa de Alexandre Magno. Fogem. Para testemunho desta tão importante verdade e alento dos que a lerem. a que os Hebreus chamavam Phurim. estava prometido pelos oráculos de Apolo Délfico o império de todo o Oriente. pela qual a Providência divina naquele tempo costumava responder e significar os sucessos futuros. seguem os Filisteus fugitivos. perturbam-se os arraiais. aperfeiçoou a arte e acompanhou a fortuna. cuidando que eram os soldados de Saul. quae est in littore maris. A maior e mais nobre conquista que até hoje se intentou e conseguiu no Mundo. porque os tem entregues em nossas mãos. e encaminhando para os alojamentos do inimigo. falaram entre si. Bem sei que no dia em que nasceu Alexandre. como são os vaticínios da Gentilidade. pelas grutas. cresce a confusão. mas se as sentinelas disserem: — Vinde para cá — é sinal que responde Deus que acometamos.sicut arena. outro de conquistas. matam-se. que só o acompanhava: Se quando formos sentidos do exército dos Filisteus. mas se não fora ajudado da profecia. que não só compara a Escritura Sagrada q número deles com o da areia do mar. bastando só dois homens armados da confiança de uma profecia. Os Israelitas. reconhecendo sua desigualdade para resistir a tão superior e excessivo poder. Não foi necessário mais. disse assim ao seu pajem da lança.Anexo:Imprimir/ História do Futuro antecedentemente conhecidas na previsão do futuro.Neste estado de horror e miséria sai de noite o príncipe Jónatas. disserem as sentinelas: — Esperai por nós — é sinal que responde Deus que paremos. começa ele e o companheiro a matar nos inimigos. trata de consultar a Deus por um modo de oráculo ou sorte. . As sentinelas que deram fé dos dois voltos. onde prognosticaram os Magos que naquele dia entrara no Mundo quem havia de ser o incêndio de toda Ásia. e voltam carregados de despojos. tendo por sem dúvida que havia de vencer. pelas covas. que temos certa cousa que vos dizer. levantaram a voz e disseram para eles: — Vinde cá. para porem em fugida o mais poderoso exército e alcançarem a mais desigual e prodigiosa vitória. tudo facilitam e a tudo animam. 22 . atropelam-se. e que havemos de prevalecer contra eles.sabe inventar o medo e a necessidade.. nem assento considerações e verdades tão sérias sobre fundamentos de tão pouca subsistência. diz o mesmo texto que se tinham escondido pelas brenhas. avança animosamente às tendas dos Filisteus. e na fé e confiança desta profecia. senão com a areia muita: . filho de el-rei Saul. nem obrara e levara ao cabo o que obrou. prosseguiram seu caminho.. para que Jónatas entendesse a resposta do divino oráculo. porei aqui um só exemplo de guerras. Tinham vindo sobre o povo de Israel os exércitos dos Filisteus com trinta mil carros de guerra e tanta multidão de soldados. mas um e outro os maiores que até hoje se viram no Mundo. O homem que a empreendeu era o maior capitão que criou a natureza. Conhecem-se enfim com imortal glória de Jónatas os autores de tão estupenda façanha. mas não chamo eu a isto profecias. Também sei que a quem desatasse o nó gordiano que Alexandre cortou com a espada. plurima. Ajustados os sinais nesta forma. concordando em que eram hebreus dos que estavam metidos pelas covas. pelas cisternas e por todos os outros lugares mais ocultos e secretos que . nem ele se atrevera ao que se atreveu.

adhuc in Dio civitate Macedoniae constitutus. mas não chamo eu a isto profecias. porque reconhecera que aquele era o hábito. atropelam-se. sed Deum. que entrando Alexandre em Jerusalém. o ornato e a representação em que Deus lhe tinha aparecido em Dio. tão alheia de sua grandeza e majestade. e perguntado pela causa de tão desusada reverência. Dumque mecum cogitassem posse Asiam vincere. Nam per se ducturum meum exercitum dicebat. para porem em fugida o mais poderoso exército e alcançarem a mais desigual e prodigiosa vitória. senão nele a Deus. revestido dos ornamentos pontificais. virtutemque solvisse Persarum. A maior e mais nobre conquista que até hoje se intentou e conseguiu no Mundo. e que Alexandre. As palavras de Alexandre (que é bem se veja a sua formalidade) são as seguintes: — Non hunc adoravi. entrando Alexandre em Jerusalém. respondeu que ele não adorara aquele homem. Fogem. como são os vaticínios da Gentilidade. formou o valor. se lançara a seus pés e o adorara. respondeu que ele não adorara aquele homem senão nele a Deus. e na fé e confiança desta profecia. e exortando-o a que empreendesse a conquista da Pérsia. no liv. cidade de Macedônia. Conta Josefo. incitavit me ut nequaqm negligerem. toca-se arma cresce a confusão. mas se não fora ajudado da profecia. XI de suas Antigüidades. foi a famosa de Alexandre Magno. porque reconhecera que aquele era o hábito. ardeu o famosíssimo templo de Diana Efesina. e exortando-o a que empreendesse a conquista da Pérsia. vendo-o. seguem GS Filisteus fugitivos. que naquele tempo meditava. começa ele e o: companheiro a matar nos inimigos. salutavi. Propterea et 23 . lhe segurara a vitória. o ornato e a representação em que Deus lhe tinha aparecido em Dio. Também sei que a quem desatasse o nó gordiano que Alexandre cortou com a espada. vendo-o. Conhecem-se enfim com imortal glória de Jónatas os autores de tão estupenda façanha' bastando só dois homens armados da confiança de uma profecia.. estava prometido pelos oráculos de Apolo Délfico o império de todo o Oriente.] Exinde arbitrar Divino iuvamine me directum Dariumque vixisse. XI de suas Antigüidades. saiu a o receber fora do templo D sumo sacerdote Jado. tendo por sem dúvida que havia de vencer. Bem sei que no dia em que nasceu Alexandre. que. se lançara a seus pés e o adorara. [. habens visionis et probutionis nocturnae memoriam. cujus principatus sacerdotii functus est. nem ele se atrevera ao que se atreveu. onde prognosticaram os Magos que naquele dia entrara no Mundo quem havia de ser o incêndio de toda Ásia. sed Deum. que naquele tempo meditava. interpretando-a (como verdadeiramente era) conforme o sinal que tinha posto.. Saem das covas os Israelitas. aperfeiçoou a arte e acompanhou a fortuna. perturbam-se os arraiais. Nam per somnium in hujus modi eum habitu conspexi. nem obrara e levara ao cabo o que obrou. tão alheia de sua grandeza e majestade. saiu a o receber fora do templo o sumo sacerdote Jado. cujus principa desse a resposta do divino oráculo. cuidando que eram GS soldados de Saul. matam-se. avança animosamente às tendas dos Filisteus. cum huc advertissem. revestido dos ornamentos pontificais. nem assento considerações e verdades tão sérias sobre fundamentos de tão pouca subsistência. e perguntado pela causa de tão desusada reverência. trava-se uma brava peleja dos mesmos Filisteus uns contra os outros. As palavras de Alexandre (que é bem se veja a sua formalidade) são as seguintes: Non hunc adoravi. o homem que a empreendeu era o maior capitão que criou a natureza.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Conta Josefo. lhe segurara a vitória. e que Alexandre. et Persarum traditurum potentiam: ideoque neminem alium in tali stola videns. no liv. e voltam carregados de despojos. sed confidenter transirem. cidade de Macedônia.

acabando de se cumprir a profecia na última batalha do Tigranes.percussit Alexander [.. et siluil terra in conspectu ejus. o maioral das ovelhas. o terceiro dos metais. animado e soprado do espírito das mesmas profecias e cheio da majestade delas. Na visão da estátua de Nabuco. pela velocidade com que vencia e sujeitava tudo. Em seguimento e confiança destas profecias. constituit et praelia multa et oblinuit omnium munitiones. bastimentos só para trinta dias. Sardenha. Mas foram ainda mais em número e grandeza as nações que venceu e sujeitou Alexandre com a fama mais que com a espada. refere também Josefo que foram mostradas a Alexandre as profecias de Daniel..corde sperantur. pro ventura confido. do que depois se viu nas estátuas de Lisipo nem nas pinturas de Apeles. e diz ali o Profeta que reinaria e se faria obedecer de todo o Mundo: Et regnum tertium aliud aereum. achou nela os embaixadores de África. et accepit spolia mulitudinis gentium. sem pôr os pés na terra. investiu. por isso tinha a testa dividida em dois cornos. III da História Natural. outro. se lhe mandaram sujeitar e entregar espontaneamente e entre elas os mesmos Romanos (nome já naquele: tempo famoso no Mundo). quod imperabit universae terrae. e que este segundo animal. pertransiit usque ad fines terrae. Nestas duas figuras é certo que estava profetizado. particularmente aquela do cap. é a desigualdade do poder e o limitado aparato de guerra com que entrou em tão imensa empresa. Conta ali o profeta que viu dois animais do campo: um. porque. que foram os quatro reinos em que ele o repartiu entre seus capitães. de Cartago Espanha. na primeira. se 24 . significava também o império de Alexandre. com que mereceu o nome e se fez verdadeiramente magno. referido e louvado por Plínio no liv. porque não pararam aqui as profecias de Daniel na visão dos quatro animais referidos no cap. as quais províncias.. o investira e derribara e metera debaixo dos pés. significado no leopardo com quatro asas. Itália. antes de obrar todas estas maravilhas. que foi Alexandre. Mas como Alexandre. entrando da volta desta jornada em Babilônia. correndo da parte do Ocidente contra o primeiro. e sem pôr os pés na terra. como é autor Clitarco. VIII. Sicília. II. se tivesse visto a si mesmo melhor retratado nas profecias de Daniel.] qui primus regnavit in Graecia. e com setenta talentos para estipêndios. com um só corno entre os olhos (o qual depois de quebrado se dividiu em quatro). que é a Macedônia. Não parou aqui Alexandre. Gália. Porém o que mais admira nas conquistas e vitórias de Alexandre. como refere Plutarco e o prova com graves autores. partiu Alexandre vitorioso para a conquista que lhe restava do mundo oriental. o qual sujeitou e uniu todo ao seu império. o maioral das cabras. derribou e meteu debaixo dos pés o império dos Persas e Medos. referida no cap. dos Macabeus. com dois cornos muito fortes. que no princípio esteve unido em uma só pesca. em obséquio e reconhecimento de sua potência.Anexo:Imprimir/ História do Futuro omnia quae meo. na segunda. que era o bronze. Saiu pois Alexandre da parte ocidental. passando o Tauro e o Cáucaso e chegando até os fins do Ganges e praias do mar Índico. et interfecit reges terrae.. que fazem da nossa moeda quarenta e dois mil cruzados. o império dos Gregos. VII. em que venceu e desbaratou de todo os exércitos de Dario e tomou ou se deixou saudar com o nome de Imperador da Ásia. o império dos Persas e Medos (como explicou o anjo a Daniel). que eram então os últimos da terra de onde Hércules e o padre Líbero os tinham colocado. Tudo certifica ainda com palavras maiores o mesmo Texto Sagrado no exórdio do I Liv. et Darium regem Persarum et Medorum. e depois de sua morte se dividiu em quatro. O terceiro era Alexandre. não é muito que. saiu de Macedônia com menos de quarenta mil homens. No mesmo templo de Jerusalém. dizendo: . porque.

. o primeiro de nossa maior fortuna. lhe assegurou da parte de Deus a vitória. pisa glorioso as cinco coroas mauritanas e põe na cabeça. Quem duvida que foram mais estendidas e gloriosas as conquistas dos Portugueses que as de Alexandre Magno na mesma Índia? Desta conquista de Alexandre disse o seu grande historiador . sem reparar em que era tão desigual o partido.:> Que dissera. e dos outros quatro reis mouros. Alphonse. fé era e não audácia. e ao mesmo Deus por fiador de sua palavra e promessas. E de aqui se pode desculpar (cousa que não soube nem pôde advertir nenhum dos historiadores de Alexandre. indigna de um general prudente e muito mais de um rei. conforme as profecias de Daniel. desbarata o exército. já rei. 25 . se pode desculpar aquela mais temeridade que audácia (qualidade. E como tinha a vida e as empresas firmadas por uma escritura de Deus ou por três escrituras. Isto obraram as profecias daquela noite na guerra. inundaram os campos de Guadiana com intento de tomar Portugal naquele dia fatalíssimo. a portuguesa. pois. da mesma noite em que tinha recebido a profecia. mas ainda mostraram mais os poderes de sua influência na conquista. com que Alexandre empenhava sua pessoa e vida e se precipitava muitas vezes aos perigos por cousas leves. com aquelas tão expressas e animosas palavras Vinces. ou vencê-las. triunfa. despoja. Na manhã. se deve a Filipe o ser Alexandre. e dar exemplo de desprezo da vida a seus soldados para os animar às vitórias. mata. et non vinceris — socorrido o animoso capitão e fortalecido o pequeno exército com esta promessa do Céu. e seu valoroso príncipe duvidoso se aceitaria ou não a batalha. rende. visto primeiro em sonhos e depois realmente ouvido e conhecido.. como Alexandre. «Domado o Oriente e navegado o Oceano. quidquid mortalitas cutiebut. que para cada lança cristã havia no campo cem mouros. confiança e não temeridade empenhar-se Alexandre nos perigos para conseguir as empresas. mas como o velho ermitão. e libertada a Pátria. como nas conquistas. deve a Daniel o ser Magno! Os exemplos que temos domésticos desta mesma utilidade. rompe os esquadrões. aditoque Oceano. de aqui. e havia necessariamente de conquistar. e alcançada na mesma hora a vitória.Oriente perdomito. resolveu intrepidamente dar a batalha.Anexo:Imprimir/ História do Futuro atrevesse a tão árduas e dificultosas empresas. Era tão inumerável a multidão de Sarracenos que debaixo das luas de Ismael. o qual. não o domínio que ele tivesse sobre a fortuna — Quam solus omnium mortalium sub potestate habuit — como com discrição gentílica disse dele Cúrcio. cumpriu e encheu Alexandre tudo o que cabia na mortalidade. das quais justamente se duvida (como pôs em questão Justino) se foi maior façanha o intentá-las. donde Alexandre tinha saído. não são menos admiráveis que os estranhos. posto que honrosa. Não chegaram os Portugueses só às ribeiras do Ganges. sendo tantos e tão excelentes). digo. cativa. intérprete da Divina Providência. sustenta quatro vezes o peso imenso de todo seu poder. mas passaram e penetraram adiante muito maior comprimento e terras do que há do mesmo Ganges a Macedônia. assim nas batalhas. Tanta parte teve a profecia nas ações deste grande capitão e no império deste grande monarca. impleret. que justamente estavam temerosos os poucos portugueses. acomete de fronte a fronte ao inimigo. mas a previsão e presciência de suas futuras vitórias e do império que lhe estava prometido. quando conquista o alheio e não defende o próprio). se vira as navegações dos Portugueses no mesmo Oceano e suas conquistas no mesmo Oriente? Obrigação tinha em boa conseqüência de lhes chamar imortais. sendo a confiança ou o seguro de todos estes arrojamentos.

posto que muito a devamos à ousadia do nosso valor. leia o grande cronista da Ásia. mereceu que o mesmo Deus com uma voz do Céu o exortasse a levar por diante o começado. dilatação da Fé e conversão da Gentilidade. não só pôde romper e abrir as portas tão cerradas do Oceano e deixá-las francas e patentes aos que depois vieram. do que fossem conquistadas na África. Não navegaram só o mar Indico ou Eritreu. sobre todos. como religiosíssimo príncipe que era. que mortes não sofreram e suportaram. guia e esperança aos que. no IV cap. que calores. América. o Etiópico. Que perigos não desprezaram? Que dificuldades não venceram? Que terras. que ventos. muito mais a deve o nosso valor à confiança de nossos vatícinios. autor desta heróica empresa. e esta esperança a âncora e amarra firme. Henrique. Ásia. conquistando-as primeiro em Portugal. Assim se conta e escreve por fama e tradição daquele tempo. que é um seio ou braço do Oceano.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Não venceram só a Poro. com promessa de seu favor e luz dos gloriosíssimos fins. nos ganhou com sua constância as conquistas. que frios. o Pérsico. que sedes. para que até nesta parte deva Portugal as suas conquistas aos lumes e alentos da profecia. que climas. filho de El-Rei D. mas dar animo. insistindo sempre e indo avante. Quem quiser ver com admiração a tormenta de contradições populares . e nela principalmente pretendia a glória de Deus.. tão temeroso por seus tulões e tão infame por seus naufrágios. o Sínico. que tormentas. que por espaço de dez anos padeceram os primeiros descobrimentos das conquistas. vencidas as primeiras e maiores dificuldades. e restituir-se à sua liberdade. Maiores contrastes tiveram ainda as conquistas de Portugal na nossa terra que nas estranhas. que não pudera conseguir sem o socorro da luz do Céu. o qual. e contrastando com igual fortaleza o indômito furor do segundo e quarto elemento (que são o mar e o fogo). senão pela confiança e seguro de suas profecias. Henrique. que nas mais desfeitas tempestades os tinha seguros. que fomes. que mares. mas domaram o mesmo Oceano na sua maior largueza e profundidade. mais poderoso e mais indômito: o Atlântico. a levaram ao cabo. que céus. que doenças. sem parar. animado nas contradições e contrariedades presentes com o conhecimento e certeza dos sucessos futuros. e seus exércitos. que promontórios não contrastaram? Que gentes feras e belicosas não domaram? Que cidades e castelos fortes na terra? Que armadas poderosíssimas no mar não renderam? Que trabalhos. como levantar-se contra o mais poderoso monarca do Mundo. não longe senão dentro de 26 . valor e constância do Infante D. prudente e bem aconselhado se havia de atrever a uma empresa tão cercada de dificuldades. do I liv. esta última resolução que no ano de quarenta assombrou o Mundo. mas sujeitaram e fizeram tributárias mais coroas e mais reinos do que Poro tinha cidades. Sabiam que tinha Cristo prometido a seu primeiro rei que os escolhera para argonautas apostólicos de seu Evangelho e para levarem seu nome e fundarem seu império entre gentes remotas e não conhecidas. Com este oráculo divino mais fortalecido o espírito do Infante. e mais fortes guerras experimentaram nos naturais que resistência nos inimigos. Finalmente. rei da Índia. com mais pertinácia que com instancia? Mas não obraram todas estas proezas aqueles portugueses famosos por benefício só de seu valor. Desta maneira o Infante D. o Malabárico. e aclamar novo rei. que vigias. que por meio de tão dura porfia se haviam de alcançar. aonde ele é mais bravo e mais pujante. valor. sem tornar atrás. esta luz do futuro era o norte que os guiava. seguindo seu exemplo e empresa. sem ceder. e conhecerá quantas obrigações deve Portugal e o Mundo ao sofrimento. e. João I. e esta fé os animava nos trabalhos. que será sempre de feliz memória. e de todo o Reino. Que valor sesudo. esta confiança os sustentava nos perigos.

quae jam fuerat apostolorum praedicatione funduta. este mesmo conhecimento os animava a quererem ser (como foram) os instrumentos gloriosos delas. E se tanto tem valido e importado a Portugal o conhecimento de seus futuros. nobres e poderosos. tome os compassos a Portugal e ao Mundo. que nos tempos que hão-de vir (ou que já vêm) o esperam! Não se poderá compreender a grandeza e capacidade desta importância senão depois de lida toda a História do Futuro. vel quali etiam fine contenta. contra tantos armados arrogantes. que nenhuma empresa pode haver tão desigual. a levantou a seu tempo nas vozes. que é o seu reino. Da conquista espiritual do Mundo se pode fazer bom argumento para a temporal. tão poderoso contra todos os impossíveis o conhecimento e fé do que há-de ser representado no espelho das profecias. e este seja entre todos o maior exemplo. sem aliados. se estendesse por seus sucessores em todo o Mundo. fundada pelos Apóstolos. humiles superbos. a promessa que sempre a conservou nos corações. e ela foi a que deu o rei ao Reino. É porém. e quais foram as armas com que Deus os fortaleceu para que não temessem ou duvidassem a empresa e se dispusessem animosamente a tão estranha conquista? Advertiu com profundo juízo Primásio que fora o Apocalipse de S. hujus cognitionis fidutia freti. e pergunte-se a si mesmo se se atreve a igualar estes paralelos. quando as restituiu a elas e se restituiu a si mesmo. Em todas as outras considerações foi mais desigual esta empresa que as que eu prometo ou hei-de prometer. nenhuma tão armada de perigos. Quis Deus que a Igreja. só porque no conhecimento das profecias tinham segura a 27 . Mas quem quiser desde logo fazer de algum modo a conjectura desta desproporção. revelari oportuit — diz Primásio — qualiter esset latius propaganda. porque. e muito maiores. Não se pode dizer. se debaixo desta fé se restaurou. assim das nossas guerras como das nossas conquistas. sem poder. o Reino à Pátria. para que não duvidassem cometer as batalhas: Post exortum autem Ecolesiae. quando recebeu a coroa. nem mais certa. o pudemos restaurar um dia. em que nunca se apagou o amor da Pátria. sem socorros. e a saudade do rei. que debaixo do escudo desta confiança se não intente. sem amigos. oh! quanto mais necessário lhe será a Portugal. pois tudo o que tínhamos vencido e conquistado em quinhentos anos. na qual só se medirá bem a imensidade do objeto com a desigualdade do instrumento. sem estimação. Segurou-lhes Deus as vitórias. ut praedicatores veritatis. sem armas. lendo os soldados evangélicos naquelas profecias quão largamente se havia de propagar a mesma Igreja e quão prodigiosas vitórias havia de alcançar a Fé contra todos os inimigos. se debaixo desta fé nasceu. um reino de grandeza tão desigual. se exceptuarmos a desproporção de poucos a muitos. e o zelo da liberdade.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Espanha. João. em todos os casos maiores que podem acontecer a um reino. a Pátria aos Portugueses. se não prossiga. nem mais elegantemente. pauci multos. em que o novo rei seria levantado. alentados das promessas do Céu. pois é mais forte a guerra e mais dura resistência a dos entendimentos que a dos braços. sem nobreza. e se a esta se atreveram poucos homens sem armas. inermes armatos. se debaixo desta fé cresceu. dizendo e publicando a todos que o desejado tempo dela havia de chegar no ano felicíssimo de quarenta. sem soldados. e Portugal a si mesmo. sem assistências. indubitanter aggrederentur pauci multos. nenhuma tão defendida de dificuldades. sobre sessenta anos de cativo e despojado. vivi tamen spiritualiter mortuos. quando lhe acrescentou as conquistas. e quanto mais útil e importante esta mesma fé e conhecimento de seus futuros sucessos para aquelas empresas novas. só e até de si mesmo dividido em tão distantes partes do Mundo? Mas como havia outros tantos anos que a profecia estava dando brados aos corações. se não vença. se não avance. infirmi nobiles.

que impossíveis que não vençam? Ao conhecimento antecedente dos futuros chamou discretamente S. nem que mais enchesse de ânimo. com que vitorioso fundasse naquelas terras o famosíssimo Império Romano. e que golpes nos pode atirar com todas as forças de seu poder. e na confiança das mesmas profecias. e com ele embraçado em uma mão e a espada na outra.Anexo:Imprimir/ História do Futuro felicidade e fim da empresa. Lerão os Portugueses. porque se não atreverão à mesma empresa. com que vencesse os reis e sujeitasse as nações belicosíssimas que a dominavam.Clypei non enarrabile textum Illic res Italas. que não sustentemos nele com animosa constância? Quem haverá que debaixo deste escudo não empreenda as mais dificultosas conquistas. as batalhas vão já vencidas e os inimigos já triunfados? Fingiu o príncipe dos poetas latinos. e este mesmo escudo. a terra e o Mundo. as armas se ilustram com a nobreza e a nobreza compete com a estimação e com a fama. Assim armou o grande poeta ao seu Enéias . confiança e valor o peito que fosse coberto e defendido com ela. no qual estivessem entalhados e descritos os mesmos sucessos futuros que se haviam de obrar naquela empresa. nem aceite as mais arriscadas batalhas. nenhuma arma poderia haver mais forte. porque uma boa parte da nossa História (como veremos em seu lugar) são as do mesmo Apocalipse.praescientia. senão escudo da presciência . para conquistar as mais belicosas nações e para fundar o mais poderoso e dilatado império. ) O ofício e obrigação dos poetas não é dizerem as cousas como foram. Gregório escudo fortíssimo da presciência. se as empresas no mesmo escudo vão já resolutas. (Virgílio. e no escudo. Aeneid . venturique inscius aevi. senão 28 . purgnataque ordine bella. ainda que sejam poucos contra muitos? E digo na confiança das mesmas profecias. que dificuldades que não desprezem. não fabuloso. que um escudo formado por arte e sabedoria divina. romanotumque triumphos. aqueles em quem o poder se iguala com as armas. que conquista haverá que não empreendam. 8. compondo e copiando os sucessos pelos oráculos e vaticínios dos profetas e pelas notícias próprias que tinha. que perigos que não pisem. mas pintarem-nas como haviam de ser ou como era bem que fossem. e não vença e triunfe dos mais poderosos inimigos. que pediu Vênus. que para vencer as mais dificultosas empresas. este prodigioso livro do futuro. que era a maior e principal peça delas. . mãe de Eneias.. Que vem a ser esta nossa História do Futuro.. posta toda a confiança em Deus e em sua palavra. nem mais impenetrável. que pelos fados lhe estava prometido. clypeum? Armados com este escudo. Haud vatum ignarus. com que entrasse armado na dificultosíssima conquista de Itália. diz que abriu de subtilíssima escultura as histórias futuras das guerras e triunfos romanos. ao deus Vulcano lhe fabricasse umas armas divinas. em que todas as adversidades e golpes do Mundo se sustentam. se reparam e se rebatem: Et nos tolerabilius mundi mula suscipmus. que trabalhos. e achou o mais levantado e judicioso espírito de quantos escreveram em estilo poético. Fecerat igni potens: illic genus omne futurae Stirpis ab Ascanio. como um dos deuses que era participante dos segredos do supremo Júpiter. e todos os que lhes quiserem ser companheiros. que perigos nos pode oferecer o mar. Forjou Vulcano as armas. si contra haec per prtescientiae clypeum munimur.

e não fingidos depois de experimentados os sucessos. quisesse ler esta História do Futuro. tenha também algum dia lugar neles a Fé. voltando os olhos ao passado. e vinte e quatro Primaveras. é propriamente. quiserem antes ser companheiros de nossas felicidades. sem batalha. pela experiência. para que em tudo lhe seja semelhante. que também a lição desta História pode ser igualmente útil e proveitosa aos inimigos. um manifesto desengano de sua profecia. e depois de averiguada e conhecida. ao nosso rei. o discurso militar e político. Dobrado de sete lâminas dizem que era aquele escudo. provada a verdade dos futuros com a experiência dos passados: e verão. o que hão-de resolver. pois se lhe não pode resistir com força. que padecê-las dobradamente na dor e inveja dos êmulos. para que o sejam. ainda da mesma natureza. conhecendo que na guerra que continuam contra Portugal. o que hão-de conquistar. História do Futuro (Volume I. e sem resistência. com estas cópias de morte-cor diante dos olhos. Bem pudera conhecer Espanha. que não duraria a fantasia do nome mais que até a primeira Primavera. Nele verão os capitães de Portugal. a vingança. ceda-se e obedeça-se a Deus por conveniência. Capítulo VII: Última utilidade. o que nesta História do Futuro ofereço. e Deus o que o sustenta desunido e o conserva vitorioso. se. chamavam-lhe por zombaria rei de um Inverno. como e quando é servido.Anexo:Imprimir/ História do Futuro verdadeiro. e o que hão-de ser. se. quanto sangue e perda de vidas. o que hão-de vencer. parecendo-lhes aos senhores Castelhanos. Mas são já passados vinte e cinco Invernos. com os olhos limpos de toda a paixão e afeto. o apetite e o ódio. como em espelho. Quando se soube em Madrid do rei que tinham aclamado os Portugueses no primeiro de Dezembro do ano de 640. Duarte atava as mãos a Portugal e lhe tirava a cabeça com que haviam de ser governados na guerra. e com tanto zelo e desejo de acertar com os caminhos de seu maior bem. quantas lágrimas e opressão de naturais e estrangeiros podia escusar Espanha. pelejam contra as disposições do supremo poder e combatem contra a firmeza de sua palavra. retratem por elas vivamente os originais. quantos trabalhos. suponha-se que Deus é o que dá e tira os reinos. em que sabem muito bem os campos de uma e outra parte o sangue de que mais vezes ficaram matizados. Portugueses. havendo tantas razões. Lerão aqui nossos vizinhos e confinantes (que muito a pesar meu sou forçado alguma vez a lhes chamar inimigos. para que o obrem. para que. e que com os muros de Milão tinha . deixada a dissonância e escândalo deste nome. em que inundações do Bétis e Guadiana não afogaram a Portugal. Imaginou Espanha que na prisão do Infante D. que Deus é o que desuniu de sua sujeição a Portugal. antevendo o que hão-de obrar. é publicado em sete livros. se quiserem abrir os olhos. Sobre tudo se verão nele a si mesmos e suas valorosas ações. como é o animo com que ele se escreve! Não entre só nos conselhos de Estado a conveniência e reputação. e também o da nossa História. para o não serem) lerão aqui com boa conjectura as promessas e decretos divinos. não quero deixar de advertir por fim delas. senão escritos antes de sucederem. em que a fama só de suas armas nos conquistasse. sem conselho.) por Padre Antônio Vieira 29 Entre as utilidades próprias a dos amigos. Oh quantos danos. e sem ficção. quantas despesas. conheça-se e examine-se a sua vontade pelos meios com que ela se costuma declarar.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro sitiado a Portugal. Morreu enfim (ou foi morto) aquele príncipe, e nem por isso desmaiou o Reino, antes se armou de novo a justiça de sua causa com a sentença daquela inocência, e se endureceram e fortificaram mais os peitos com o horror e fealdade daquele exemplo. Voltou-se todo o peso da guerra contra Saul; maquinou-se contra a vida de El-Rei Dom João por tantos meios e instrumentos (e algum deles sobre indecente sacrilégio); parecia-lhe a Castela que, faltando a Portugal aquela grande alma, seria fácil a suas águias empolgarem no cadáver do Reino. Faltou El-Rei D. João ao Reino, sobre ter faltado de antes seu primogênito Teodósio, príncipe de tantas virtudes, opinião e esperanças; mas viu o Mundo, posto que o não quis ver Castela, que era o braço imortal o que defendia e conservava aos Portugueses. Sucedeu na menoridade do rei com tanta prudência e valor a regência da rainha-mãe, e à regência da rainha o governo felicíssimo de El-Rei D. Afonso, que Deus guarde, monarca de tão conhecida fortuna, que parece a traz a soldo nos exércitos. Fez Castela neste tempo os maiores esforços de seu poder, e para os poder fazer maiores, assim como por esta causa tinha já concluído ou comprado, a preço da própria reputação, a paz de Holanda, ajustou também a de França . Desembaraçadas em toda a parte as suas armas, chamou os espíritos de todo o corpo da monarquia aos dois braços com que Castela cerca a Portugal. Viram-se juntas contra ele em um exército Espanha, Alemanha, Itália, Flandres, com toda a flor militar, ciência e valor daquelas belicosas nações. Mas que resultas foram as desta tão estrondosa potência e dos progressos que com ela se tinham ameaçado a nós e prometido a Europa? Entrou a guerra dividida no ano de 62 por todas nossas províncias; em todas achou oposição igual e efeito superior. Uniu-se no ano seguinte com novo conselho o poder; acrescentou-se de gente de cavalos , de cabos, de aparatos bélicos ; escolheu-se para teatro daquela formidável campanha a província de Alentejo; começou a tragédia com prósperos e alegres passos, triunfando dos que não podiam resistir às armas castelhanas; mas o fim foi tão adverso, tão lastimoso e verdadeiramente trágico, como viu com admiração o Mundo e chorará eternamente Castela. Perdeu a batalha, o exército e a reputação; deixou a Portugal a vitória, a fama, os despojos, e só levou (como sempre) o desengano. Estes têm sido em vinte e cinco anos os efeitos do poder. Passemos aos da indústria. Entendeu Castela que não podia conquistar a Portugal sem Portugal; tratou de inclinar à sua devoção os grandes e os menores. Na constância houve diferença, mas nos efeitos nenhuma. O povo, cuja fortuna é inalterável, não padeceu alteração. Sendo tão livre e aberto em Portugal o mar como a terra, se não viu em tantos anos nenhum pastor que se passasse a Castela com duas ovelhas, nenhum pescador menos venturoso que aos seus portos derrotasse uma barca. Basta por exemplo ou desengano a famosa resolução do povo de Olivença , que com partido de poder ficar inteiro com casas e fazendas, se não achou em todo ele um só homem de espírito tão humilde, que aceitasse a sujeição. Perderam todos a Pátria pela lealdade, triunfou Castela das paredes e Portugal dos corações. Não viu Roma semelhante exemplo, e assim o celebrou um Jerônimo Petrucho poeta romano, com este epitáfio: Victor uterque manet, victoria dividit orbem: Alphonsus cives, saxa Philippus habet. Ainda deu muito a Castela em partir a vitória pelo meio: o vencedor conquistou pedras o vencido vassalos. De indústria se pudera perder á praça, só por lograr a fineza; e de indústria se pudera também não ganhar, só por não experimentar o desengano. Isto vence

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro Castela, quando vence. e assim se rende o povo de Portugal, quando se rende. A nobreza, em que tem maiores poderes o receio ou a esperança, como mais escrava da fortuna, não foi toda constante. Alguns grandes houve entre os grandes, uns que se passaram ao serviço de El-Rei D. Filipe, outros que com maior ousadia o quiseram servir em Portugal; a uns e outros castigou o mesmo braço da Providência, a estes com a vida, àqueles com o desterro. Até agora não tiveram outro prêmio, nem mereciam outro, porque Castela nem pode ressuscitar os primeiros, nem quis pagar os segundos. É fama que foi respondido à sua queixa que tinham feito o que deviam, mas ainda devem o que fizeram: cá perderam o que tinham, lá não ganharam o que esperavam; entre os Portugueses réus, entre os Castelhanos portugueses, que também é culpa. Isto é o que foram buscar a Castela todos os que lá se passaram — o desengano de seu discurso, o descrédito de sua resolução e o castigo de sua incredulidade; e ainda de lá nos mandam o exemplo de seu arrependimento. Levaram o que nos não faz falta, porque se levaram; e deixaram o que nos ajuda a defender, porque nos deixaram as suas rendas. A Portugal deixaram os despojos de suas casas, aos vindouros a memória de sua infidelidade e ao Mundo pregão de sua covardia. Tal foi o merecimento, tal o prêmio. Julgue agora Castela se terá esse interesse cobiçosos e este empenho imitadores. Dizia um dos primeiros embaixadores de Portugal em França (quando ainda havia quem impugnasse a esperança da nossa conservação), que, no caso em que a desgraça fosse tanta, antes se havia de entregar ao Turco que a Castela. Era o embaixador ministro de letras, e como um grande senhor francês lhe pedisse a razão deste seu dito, sendo católico e letrado, respondeu assim: -Porque eu em Turquia, se defender a Fé, serei mártir; se renegar, far-me-ão baxá: e em Castela Monsieur, nem baxá nem mártir. Foi muito celebrada a discrição da resposta, a que acrescentava galantaria a mesma pessoa do embaixador; porque era mui avultado de presença e tão bem lhe podia estar na cabeça o turbante, como na mão a palma. Nada mais venturosamente lhe sucederam a Castela as indústrias estrangeiras que as domésticas. todas desarmou em armas contra si mesma. Em Roma, impediu o provimento das mitras. mas os bagos se converteram em lanças e o que haviam de comer os pastores das ovelhas, comem os que as defendem dos lobos. Em Holanda, comprou os estorvos da paz, mas esta se retardou somente quando foi necessário para se recuperarem as Conquistas. Caso grande e de providência admirável! Em Inglaterra, se empenhou por divertir o parentesco; em França, capitulou que não pudéssemos ser socorridos. mas teve uma e outra diligência tão contrários efeitos, que se vêem hoje em Portugal as suas quinas tão acompanhadas das cruzes de Inglaterra, como assistida das lises de França. Unidas e complicadas estas três bandeiras, fazem um silogismo político, de tão segura como terrível conseqüência. Se só Portugal pôde resistir a Castela tantos anos, ajudado dos dois reinos mais poderosos da Europa, no mar e na terra, como não resistirá? O maior contrário que tem Espanha é o seu próprio poder. Quando se quis levantar sobre todos, se sujeitou à emulação de todos. Estes terá por si Portugal, enquanto ela for poderosa; se o não for, não os há mister. Os discursos da esperança (que é a última apelação de Castela) são os que mais lhe mentiram, porque os homens (quando assim lho concedamos) discorrem com a razão, e Deus obra sobre; ela. Todos os que nas matérias de Portugal se governaram pelo discurso, erraram e se perderam; e por aqui se perderam (ainda entre nós) os que na opinião dos homens eram de maior juízo. São obras e mistérios de Deus; quer Ele que se venerem com

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro a fé e não se profanem com o discurso. Por isso todas as esperanças que se assentaram sobre esta fé foram certas e todas as que se fundaram sobre o discurso, erradas. É natureza isto, e não milagre da palavra e promessa divinas: ...in verba tua super superavi — dizia aquele grande político de Deus, que não só esperava, mas sobreesperava nas promessas de sua palavra divina; porque há-de esperar nas promessas da palavra divina, sobre tudo o que promete a esperança do discurso humano. Assim o temos sempre visto em Portugal, com admirável crédito da fé e igual confusão da incredulidade. No tempo em que Portugal estava sujeito a Castela, nunca as forças juntas de ambas as coroas puderam resistir a Holanda; e de aqui inferia e esperava o discurso que muito menos poderia prevalecer só Portugal contra Holanda e contra Castela. Mas enganou-se o discurso. De Castela defendeu Portugal o Reino e de Holanda recuperou as Conquistas. Aquele fatal Pernambuco, sobre que tantas armadas se perderam e se perderam tantos generais, por não quererem aceitar a empresa sem competente exército, que discurso podia imaginar que, sem exército e sem armada, se restaurasse? E só com a vista fantástica de uma frota mercantil se rendeu Pernambuco em cinco dias, tendo-se conquistado pelos Holandeses com tanto sangue em dez anos, e conservando-se vinte e quatro. Menos esperava o discurso que se conquistasse Angola com tão desigual poder enviado a tão diferente fim; e conquistou-se contudo aquela tão importante parte de África contra todo o discurso e antes de toda a esperança. E porque se saiba mais distintamente quão grandes significações se contêm debaixo destes nomes tão pequenos — Pernambuco e Angola — o que se recuperou em Angola foram duas cidades, dois reinos, sete fortalezas, três conquistas a vassalagem de muitos reis e o riquíssimo comércio de África e América. Em Pernambuco recuperaram-se três cidades, oito vilas, catorze fortalezas, quatro capitanias, trezentas léguas de costa. Desafogou-se o Brasil, franquearam-se seus portos e mares, libertaram-se seus comércios, seguraram-se seus tesouros. Ambas estas empresas se venceram e todas estas terras se conquistaram em menos de nove dias, sendo necessário muitos meses só para se andarem. Quem nestes dois sucessos não reconhecer a força do braço de Deus, duvidar-se pode se o conhece. Assim assiste a Portugal dentro e fora, ao perto e ao longe, aquele supremo Senhor que está em toda a parte e que em todas as do Mundo o plantou e quer conservar. Bendita seja para sempre sua onipotência e bondade! Também esperava o discurso de Castela que os ânimos dos Portugueses, com a continuação da guerra e experiência de suas moléstias, se enfastiassem e suspirassem pela antiga e amada paz, cujo nome é tão doce e natural, e mais à vista de seu contrário; que as contribuições forçosas para o subsídio dos soldados e a licença e opressão dos mesmos soldados fossem carga intolerável aos povos; que os povos, depois de apagados aqueles primeiros fervores que traz consigo o desejo e alvoroço da novidade, com o tempo e seus acidentes se fossem entibiando, até se esfriarem de todo; que os pais se cansassem de dar os filhos e que a guerra detestada das mães (como lhe chamou o Lírico) fosse também detestada e aborrecida das Portuguesas, que, entre as outras mães, o costumam ser mais que todas no amor e na saudade. Mas também aqui mentiu a esperança e se enganou o discurso, porque os ânimos se acham hoje mais alentados, os fervores mais vivos, os corações mais resolutos, o amor ao rei, à Pátria e à Liberdade mais forte, mais firme e mais constante, e maior que todos os outros afetos da fazenda, dos filhos, da vida. Lembram-se os pais que davam os filhos para as guerras de Flandres, de Itália, de Catalunha e navegação das Índias de Castela, onde os perdiam para sempre; e querem

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Mas Deus (a quem não queremos roubar a glória) e a mesma experiência natural e o concurso ordinário de suas causas. toda a promessa. e não para a cobiça de ministros e exatores estranhos. têm rei que lhes pague as vidas com larga remuneração de mercês e aumento de suas casas. honrando-se (como é razão) de serem pais de tais filhos. onde recebem a glória de ouvir celebrar as ações de seu valor e feitos galhardos. rei que os vê e se deixa ver. Finalmente. sem mais diligência nem ação que o mesmo peso e grandeza de tão imenso contrário. porque sabem quanto maiores e mais pesadas são as que se pagam em Castela para os conquistar. e em realidade falso. contra os combates de uma potência tão desigual e superior como era a do maior monarca do Mundo. que os ouve e lhes responde. que com igual alegria os choram e sepultam mortos gloriosamente na guerra. tinha mui forçosa conseqüência. se havia de esgotar. para o remédio da opressão. mas para o verem por fé. sendo tão generosas as mães (nas quais este afeto é superior a toda a natureza). e ficaria oprimido e sepultado debaixo de seu próprio triunfo. têm mostrado que só era sofístico e aparente. aquele discurso. e todo o preço para a conservação de tanto bem lhos parece barato todo o trabalho leve toda a dificuldade suave. e toda a mudança impossível.Anexo:Imprimir/ História do Futuro antes dá-los para as fronteiras de Portugal. ruína. para o prêmio do serviço. sobretudo vêem a seu rei da sua Nação e da sua Língua. não tendo minas nem Potosis. e que logram aquele estado ditoso de que se lembravam e falavam seus avós com tanta saudade e por que suspiravam seus pais com tantas ânsias. sendo toda da mesma Nação. horror. e que então era tributo do cativeiro o que hoje é preço da liberdade. sem a dura e insuportável pensão de o irem buscar a Madrid. Isto é o que só tem Castela. havendo de sustentar as guerras e oposição de seus inimigos em todos eles. Têm na memória que também antigamente pagavam. cercado dela por todas as partes. E por tal julgaram ainda aqueles políticos que sem ódio nem amor esperavam e prognosticavam o fim e mediam a desproporção de tão desigual empresa. todo o perigo obrigação. como Reino menor e dividido em todas as partes do Mundo. onde os vêem. e que não era possível aturar por muitos anos as despesas excessivas de uma guerra interior. que o dinheiro e cabedais. que. e o que só pode esperar dos ânimos dos Portugueses. ainda caindo. se morrem na guerra. natural e necessariamente se havia de atenuar e enfraquecer. que os conhece e lhes sabe o nome. não para o verem e lhe falarem. e vêem estampados seus nomes e estendida por todo o Mundo sua fama. 33 . humana ou gentilicamente considerado. que a gente. seria como o de Eleázaro contra a grandeza e corpulência do elefante. esperava o discurso que Portugal. Verdadeiramente este discurso. e não entrando na conta desta aritmética o poder e assistência de Deus. e que concorrem com ele para o estabelecimento e honra de sua Pátria. e antes da experiência mui dificultosa solução. tão viva e tão multiplicada em tantas províncias. Pelo contrário. Vêem o fruto de seus trabalhos e suores. com obrigação de alimentar aqueles membros tão distantes com sua própria substância. seria sobre ele. e que o têm consigo e junto a si para o requerimento da justiça. os assistem e os têm consigo. do que os parem e criam para ela. traição. do que eles em Portugal para se defenderem. Os povos não se cansam com os subsídios e contribuições. Conhecem a grandeza desta estimável felicidade. tão contínua. se havia lentamente de diminuir. que os entende e o entendem. todo o pensamento que não seja desta perpetuidade. e que. toda a conveniência. para o alívio da queixa. que quando o valor dos Portugueses se atrevesse sobre suas forças.

A vulgaridade do ouro e prata só se estima pelo invento e pelo artífice. que no seguinte se não excedesse na bizarria e nas galas. Nunca tanto se gastou no primor e preço das galas. mas lhe sobeja com que se sustentar a si e a todo o corpo. que foi o último. que capela. como do coração. com que se acha Portugal mais rico e abundante que nunca das utilíssimas drogas de seus comércios. é tanta a cópia de alimento. Nenhum ano se pôs em campo exército tão grande. que tudo quebranta e diminui. se não pudera alegar por testemunhas os mesmos que podiam ser partes. mais preciosas e de mais polido artifício? Tudo isto do que sobeja da guerra. nenhum ano tão bizarro e tão luzido. que santuário. que a substância do Reino está hoje mais grossa. sempre mais e maiores exércitos. ou outra mais oculta e superior. tantos cavalos. Não me atrevera a falar com tanta largueza. nunca tantas. e desposas dela. pois. Passo em silêncio os imensos gastos do serviço e majestade do culto divino. tanto aparato. se admira na pacífica das cidades. tanta família. ao mesmo passo parece que ou crescem ou se manifestam novos tesouros. estes os Potosis de Portugal. mais florente e opu1enta que no princípio da guerra. riqueza e galhardia dos cabos mostra bem que vão às batalhas como a festas. crescendo mais os empenhos sempre. O ano passado. assim próprios como particulares. onde sobeja e se dispende tanto com o supérfluo? Mais temo eu a Portugal os perigos da opulência. tão reais e tão sumptuosas festas. com que se sustentaram até agora. O menor gasto nos vestidos é o que se veste. que neste mesmo tempo se não renovasse. As usuras de Deus são cento por um. que os danos da necessidade. e estas são as minas do nosso Reino. nunca tão grandes salários. o certo é que as rendas e cabedais do Reino. e não pelo preço. mais ricas. só para se lavrarem outras de novo. tanta era a variedade das cores com que os terços se matizavam e distinguiam. nunca tantos criados. Que templo. mais se gasta em cobrir os vestidos que em cobrir os corpos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Porque as Conquistas (que era o primeiro reparo). e tão abundante. as quais com igual liberalidade e interesse remetem hoje ao Reino toda aquela substância que o calor da guerra própria lhes consumia. Destes comércios lhe vêm as riquezas com que pode pagar e premiar 34 . que não só tem suficiente matéria para formar os espíritos que com os membros mais distantes reparte. a pompa. Diga agora o algarismo de seu discurso. nunca tão grandes dotes. antes se prova com evidente e milagrosa demonstração da experiência. ainda que do Reino. desfazendo-se e arruinando-se (com lástima) obras antigas e de grande arte e preço. se pode haver falta no necessário. cresceu e se aumentou tudo em Portugal. para que pela divisa se conhecessem os soldados e ostentassem a competência de seu valor. nunca tanto na abundância e regalo das mesas. recebem os espíritos de que se animam. não têm padecido a quebra e diminuição que o discurso lhes prognosticava. Com a guerra. com o tempo c continuação da guerra. nunca tantos e tão magníficos edifícios. e se sustentam todos os anos. O mesmo que se vê na política bélica das campanhas. membros tão remotos e tão vastos deste corpo político de Portugal. E a verdade desta experiência se tem provado com mais sensíveis efeitos depois da paz universal das mesmas Conquistas. e que se vestem mais para triunfar que para vencer. que no seguinte se não pusesse outro maior. nunca tão grandes mercês. nunca tão grandes soldos. quando a Primavera se acabou nos campos. porque só o silêncio os pode explicar. E ou seja esta a causa natural. tão notáveis por seu nome é grandeza como bizarros por seu luzimento. não encarecer. que altar. nunca tanto no asseio e ornamento das casas. que eles mesmos com suas riquezas lhe subministram. Mas por isso sobeja. se renovou outra vez no nosso exército. nunca tantas fábricas.

que freqüentavam seus portos. em que o pelejar e o morrer não é acidente senão natureza.Anexo:Imprimir/ História do Futuro seus exércitos e com que os prêmios e as pagas sejam verdadeiras. outros para pelejarem sem amor e com valor vendido. Bem sabem os doutos que o nome grego hipocrisia se deriva do fingimento do melhor metal. e por cada ramo que faltou no Outono. que a mentira da virtude. no princípio da guerra. e não falsificadas. A sombra desta imunidade. e os mesmos que então se retiravam da guerra. onde nada lhes é estranho. animumque ferro. Desta maneira se acha Portugal cada dia mais fornecido de muitos e valentes soldados. ou vêm requerer o prêmio de seus antigos serviços. como quem defende o alheio e conquista o que não há-de ser seu. a Portugal. sendo muitos os que se alistam e pagam. pela honra. por benefício da qual os exércitos e províncias se podem dar 35 . pela Pátria. mais lavrados seus campos. e cada um por sua própria casa e fazenda. Foi lei. sem serem os Portugueses dentes de Cadmo. sem adultério dos metais e sem hipocrisia da moeda. por cada cabeça que corta a guerra em uma campanha. e assim como o seu discurso errou as contas ao dinheiro. também as errou à gente. e o habitam e o enchem e o multiplicam. mais freqüentadas suas estradas. pela liberdade. como passam. Assim se foram dobrando e crescendo sempre os nossos presídios. que não se alistassem nela senão mancebos livres. brenhas. que militavam seus exércitos. com grande vantagem de coração pelejam pelo rei. de Milão e de Alemanha. brotam dois na Primavera. nem hão mister socorros. Os Portugueses. nem arado. que mareavam suas frotas. que é a senhora da prata e de quem a recebe o resto do Mundo? Cuidou Castela que a Portugal havia de faltar o dinheiro. e justificar com os olhos do rei e do Reino as certidões mais seguras de seu valor. que trafegavam seus comércios. abertas e cultivadas. exército e dois exércitos na Beira. e não trazidos por força de Sicília. todos dentro em si e nas mesmas províncias e climas. têm hoje muitos filhos com que a sustentam e os sustentam com ela. Ou tenha Portugal a qualidade da hidra ou a natureza das plantas. Todos os Portugueses que povoavam suas Índias. que inteiravam seus presídios. Assim se converte e se multiplica em nova substância tudo o que come a guerra. e parece que foi posto em nossos tempos mais para declarar o vício da moeda. ficam hoje dentro em Portugal. pelo contrário. assim os nossos exércitos: exército no Minho. uns para se passarem logo. sendo a maior comodidade da guerra e multiplicação da gente a mesma estreiteza do Reino (que o discurso mal avaliava). muitos filhos por indústria dos pais se acolhiam na menoridade ao sagrado do matrimônio. sem injúria dos soldados. onde nunca entrou ferro. e assim se vêem hoje mais povoados seus lugares. Com verdade se podia dizer de Portugal o que dos Romanos disse o seu poeta: Per damna. E: se Castela quer conhecer as causas naturais desta filosofia. ou servir e merecer de novo. exército em Trás-os-Montes. de Nápoles. lagos e terras. As Conquistas com a paz não levam. aparecem na seguinte duas. que lavravam seus campos. antes delas os recebe o Reino com muitos e valentes soldados e experimentados capitães. Ducit opes. e até as serras. e poucos os que chegam. Quem pudera nunca imaginar que chegasse a tal estado uma monarquia. exército e florentíssimo exército. e vê em si o que cuidou de nós. nascidos e criados entre o mesmo estrondo das armas. e sempre mais numeroso e florente em Alentejo. que. e lei prudentíssima. com que as famílias se multiplicavam infinitamente. pela vida. saiba que a sua reparação foi o primeiro princípio deste aumento. comprados e conduzidos com imensas despesas e perigos. per coedes ab ipso.

Mas deixados à parte os argumentos da razão e experiência. e a comissão e ofício que lhe deu foi esta: Ecce constitui te hodie super gentes et super regna. Estão os profetas e as profecias sobre às gentes e sobre os reinos. plantes e edifiques a outros. et aedifices. como devia temer. Desta maneira não teme o valor português que lhe suceda como a Eleázaro com o elefante. profetizando a uns sua exaltação e a outros sua destruição e ruína. logrando vivo a glória de seu triunfo. na mais levantada fortuna. que. Capítulo VIII: Continua a mesma matéria) por Padre Antônio Vieira 36 Desenganado por estas evidências o poder. Veja e saiba Castela o que Deus tem prometido a Portugal. e tudo o que podes esperar dele em sua conquista. e logo advertirá a vaidade do que suas esperanças lhe prometem. rei de Israel. pelejando os mesmos soldados quase no mesmo tempo em diversos lugares. mas que os há-de arruinar ou edificar com as suas profecias. bem pudera eu esperar do juízo mais político de nossos competidores e seus conselheiros. aparelhem-se sem remédio para sua ruína. e se perdem. e se dizem que se hão-de estabelecer e exaltar. ou como cometas tristes e funestos. e um dos fins principais por que escrevo esta História. Se Acab. mas está certo que lhe há-de suceder como a David com o gigante. Mas porque muitos reis esperam de onde deviam temer. e se os virem estrelas. que também a ti dedico e ofereço. abateriam a Deus. que quando se opõem e encontram com as promessas divinas. et dissipes. em que tão . e perecem muitos. e se despenham. ficando oprimido com a sua própria vitória. ainda que tremulassem vitoriosas suas católicas bandeiras. Se as profecias resolutamente dizem que os reinos se hão-de perder ou arruinar. o discurso e esperança espanhola. a indústria. acabassem de desistir de tão infrutuosa porfia. Oh quantas guerras. Sempre são falsas e enganosas as esperanças humanas. possam emendar o engano de suas esperanças presentes. Isto é o que eu agora lhes quero persuadir e demonstrar. olhem para estes sinais do céu. destruas e dissipes a uns. Levantem pois os reis e os reinos os olhos. ou quantos tesouros baldados poderiam poupar os reis. pelo conhecimento de nossos futuros. subamos um ponto mais alto. se os virem cometas. obedeceriam com suma reverência aos divinos decretos. Aqui verás os futuros de Portugal. se o seu católico príncipe e seus maiores conselhos se acabassem de persuadir que Deus tinha decretada a conservação e perpetuidade de Portugal. por isso erram. para que. Levantou Deus no Mundo a Jeremias por seu ministro. esperem. desistira da conquista de Ramoth Galaad. ut evellas. oh quanto sangue. et destruas. nem alguém pode duvidar da fé. que influem e ameaçam suas ruínas. crelam sem dúvida sua conservação e aumento: Ecce constitui te super gentes et super regna. Não duvido. ou como astros benignos que influem e prometem suas felicidades.Anexo:Imprimir/ História do Futuro as mãos umas a outras. e aparecendo em toda a parte (como alma de Dido) aos Castelhanos com novo horror e assombro. a desigualdade de sua maior potência contra os acenos da divina. e multiplicando-se por este modo um soldado em muitos soldados. a profecia de Miqueas. temera. et plantes: «Hoje te ponho e constituo sobre as gentes e sobre os reinos. para que arranques. ó Espanha.» Não quer dizer Deus que Jeremias há-de arruinar ou edificar reinos com a espada. tocariam a recolher seus capitães e exércitos e confessariam. temam. ouçam-me agora como cristão a católicos. se no meio de seus conselhos pudessem pôr um espelho em que se vissem os futuros! Tal é este livro. religião e piedade espanhola. mas nunca mais certamente falsas. e se até agora me ouviram como homem a racionais. História do Futuro (Volume I.

mas foi-lhe Deus propício. mas porque quis antes esperar. porque muitos não esperavam. Henrique — faltaram sem deixar sucessão. in qua atteniabitur proles. porque o redentor. pelo qual geralmente se esperava. et non vinceris. sua. e foi ocasião desta sujeição . não esperadamente. mas porque El-Rei Sedecias. Contentou-se o gentio com o que Deus se contentava e não quis perpetuar a servidão. vinces. Afonso Henriques. Só faltou para total semelhança do caso de Babilônia e para imortal glória do Ciro de Espanha que a ação fosse voluntária e não violenta. e remido por um não esperado. mas esta sujeição e este castigo. não quis o mesmo Deus que fosse perpétuo. Mas vamos às profecias do cativeiro e ao termo dos sessenta anos dele. Não podem as armas dar a vitória a Acab quando nas profecias está segura Ramoth. pela mesma profecia que Jeremias e pelas de outros profetas. em que se conta o miraculoso aparecimento de Cristo. ajuntando-se às outras de Espanha. prudente e famoso rei de Babilônia! Entendeu este mesmo excelente príncipe. era outro e não el-rei D. sed propitius tibi Deus insperate ab insperato redimet: «Portugal por orfandade do sangue de seus reis.e destes gemidos ficar o Reino órfão de seus reis. Que diferente foi o de Ciro. tendo-as experimentado verdadeiras na sentença do cativeiro. com o recado de que lhe queria aparecer: Domine bono animo esto: vinces. porque gemeu por espaço de sessenta anos debaixo da sujeição de Castela. os restituiu todos livres à sua pátria. gemerá por muito tempo. Assim o diziam as profecias. E tanto que estes se acabaram (sendo gentio idólatra).Anexo:Imprimir/ História do Futuro teimosamente insistia. porque os dois últimos — D. será remido por um não esperado. e não dos Portugueses. Domingos. S. são bem notórias aquelas palavras mandadas anunciar ao rei pelo mesmo Senhor. fiado na potência de suas armas. que o cativeiro e sujeição dos Israelitas que ele tinha debaixo de seu império não queria Deus que durasse mais de sessenta anos. (de cujo espírito profético se dará notícia em seu lugar) diz assim: Lusitania sanguine orbuta regio diu ingemiscet.» Gemeu Portugal muito tempo. em um dia perdeu a batalha. Clamava a profecia de Jeremias ao rei e príncipes de Jerusalém que se acomodassem com Nabucodonosor contra o qual não podiam prevalecer. Frei Gil. Creu as profecias sem serem suas ou de seus oráculos. senão por tempo determinado e limitado. quis antes experimentar a fortuna da guerra que vir a honestos partidos com os Assírios. e que sua coroa. sem interesse. e assim o provou com admirável consonância o cumprimento delas. mas Deus lhe será propício e. quando por sua própria pessoa quis fundar o Reino de Portugal. senão dos mesmos Israelitas. porque. Oh que caso tão parecido ao nosso caso! Oh que ação tão digna de se santificar e fazer cristã. sem obrigação nem reconhecimento. Sebastião e D. prevaleceram estes enfim como o profeta tinha prometido. sem partido. a conquista a coroa a vida. posuit enim super te et super semen tuum post te oculos misericordiae suae usque in decimam sextam generationem. religloso português da ordem de S. Dilectus es Domino. João o IV. e o rei conheceu tarde a temeridade de seu conselho. como não devera nas promessas e lisonjas vãs de seus aduladores. antes desesperavam desta redenção. passando-a de um rei gentio a um rei católico! Quis Deus por seus altos juízos que Portugal perdesse a soberania de seus antigos reis. estivesse sujeita a rei estranho. quando Deus tinha limitado anos ao castigo. sed in ipsa 37 . fora cobiça e não razão tê-las por falsas na promessa da liberdade. No juramento autentico de El-Rei D. porque dispôs com tão notáveis sucessos a execução de sua liberdade e foi remido não esperadamente. e que este termo e limite fosse o espaço só de sessenta anos.

que chegue a termos de sessenta anos. D. 4. Bernardo. o II de Bragança. Bernardo». sendo restituída (como foi) ao Duque D. Rei D. 11. Henrique. descendente do infante D. Afonso Henriques. 6. que quase não necessita de explicação. 15. El-Rei D. 5. profetizou com admirável clareza o termo dos sessenta anos de castigo e a continuação e sucessão de reis portugueses. tornaria Deus a por seus olhos nela. o qual em recompensação desta. A décima sexta geração de El-Rei D. 13. Afonso III. não será porém tão comprido o prazo deste castigo. Por outros modos também verdadeiros se faz esta mesma conta. Mas neste fio único e tão delgado se veio a verificar que. 38 10. 2. Dinis. estai de bom animo: vencereis. em uma carta escrita a El-Rei D. El-Rei D. como se vê pelo catálogo seguinte: 1. 9. El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei El-Rei D.Anexo:Imprimir/ História do Futuro attenuata ipse respiciet et videbit: «Senhor. Afonso IV. na qual se atenuará a mesma descendência. que no Céu lhe pagará. de rei a rei e de coroa a coroa) foi o Cardeal D.» Até aqui a divina promessa. com quem tinha particular e íntima amizade e correspondência. o IV de Portugal e décimo sétimo dos reis portugueses descendentes do primeiro Afonso. Henrique. Neste último rei se atenuou a descendência. vencereis e não sereis vencido. El-Rei D. Sebastião. Afonso V. João II. Fernando. porque ainda que não quebrou de todo. mas nela atenuada tornará a pôr seus olhos. sois amado de Deus porque pôs sobre vós e sobre vossa descendência os olhos de sua misericórdia até a décima sexta geração. El-Rei D. 16. João. ficou por um fio. El-Rei D. A carta é a que se segue. 3. Manuel. Duarte irmão menor de D. Duarte. Sancho I. Afonso Henriques. E1-Rei D. depois da descendência de El-Rei D. João I. D. Henrique. Sancho II. mais fácil e mais conforme à mente da profecia e às circunstancias em que naquela ocasião se falava. 7. salvo se pela graveza de culpas por algum tempo o castigar. me disse lhe certificasse eu da sua parte que a seu Reino de Portugal nunca faltariam reis portugueses. João. a respeito das cousas presentes e futuras do Reino. D. como se devem contar. conservada em muitos arquivos deste Reino e divulgada fora dele muitos anos antes da nossa restauração: «Dou as graças a Vossa Senhoria pela mercê e esmola que nos fez do sítio e terras de Alcobaça para os frades fazerem mosteiro em que sirvam a Deus. 8. De Claraval. D. El-Rei D. e fio tão delgado e atenuado como era a única casa de Bragança. 14. Pedro I. mas este temos por mais natural. Afonso II. Afonso Henriques (contando as gerações. S. cujo cumprimento é tão manifesto. D. João III. D. . antes e depois dela. D. 12. 13 de Março de 1136. porque nela se restituiu a coroa que Cristo então lhe dava. D. atenuada no décimo sexto rei.

e por um reino de tão poucas léguas de terra. e que Ciro. nem menos conhecido e celebrado no Mundo o reino de Judá. temer justissimamente que à resolução e porfia contrária sucedam 39 . que sem dúvida deviam ser muito grandes. religião e cristandade. em I3 de Dezembro de 640. nas Cortes de Tomar. mas também se cumpriu muito pontualmente que o castigo não chegaria a termo de sessenta anos. dá em prêmio e recompensa a monarquia de todo o Mundo! Tais são os interesses (quando houvera algum maior que o de obedecer a Deus). como S. mas que o fim de uma e princípio de outra havia de ser sinaladamente no ano de quarenta. e que esta sujeição havia de ser a Castela. foi Ciro tão amado de Deus. com todas as outras circunstâncias tão miúdas e particulares. muitas pessoas (de cujo espírito. De maneira que por todas estas profecias consta claramente que ao Reino de Portugal haviam de faltar os reis portugueses e que esta falta havia de suceder no décimo sexto rei descendente de El-Rei D. porque hão-de querer e porfiar os homens em que o seja? Se Deus limitou esta sujeição ao termo de sessenta anos. como sucedeu ao mesmo Ciro. Outra carta temos do mesmo santo escrita ao mesmo rei. o meu Cristo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A condicional do castigo cumpriu-se por nossos pecados. e de tanto rendimento e obediência a Deus. em 26 de Abril do ano de I58I. com que enriqueça e sublime sua coroa e amplifique o império de sua monarquia. que Espanha podia esperar do desinteresse deste ato. como se viu no Ciro de Babilônia? Se Deus lhe deu o usufruto de Portugal por prazo somente de sessenta anos. e que havia o Reino de gemer debaixo da sujeição estranha. que era a primeira monarquia e universal do Mundo. Afonso Henriques. porque El-Rei D. que lhe chamava o meu rei. e estes são acabados. e que neste seria levantado pelos Portugueses rei novo. do tempo em que havia de faltar a coroa. e que naquele ano seria levantado novo rei de Portugal e que este se chamaria D. e por este Reino que Castela restituir ou consentir a Deus (pois Ele tem já restituído). que adiante poremos. que fazem 59 anos e cinco meses menos alguns dias. podendo de outra maneira (para que não calemos esta verdade). Tão liberal é Deus com os príncipes que não regateiam reinos nem estados com Ele. porque se há-de querer chamar ao domínio e prescrever contra o Céu? Se lhe parece cousa dura arrancar de sua coroa uma jóia tão preciosa como o Reino de Portugal. Bernardo tinha profetizado. e que o termo destes sessenta anos havia de ser no ano de quarenta. Finalmente. Quanto mais que por este ato de consciência. arrogante e gentio. a respeito dos sucessos futuros de Portugal. Por aquele ato de generosidade e desinteresse. porque se não hão-de conformar os homens com seus soberanos decretos? E porque se não hão-de contentar com o que Deus se contentou? Porque se não verá no católico Ciro de Espanha um ato de tanta justiça e generosidade. trataremos larga e particularmente no cap. o meu Ciro. o meu ungido. Filipe o II foi jurado por rei de Portugal. em que dá outro sinal manifesto (e também já cumprido). João: as profecias o disseram e os olhos o viram. IX deste livro) não só predisseram a sujeição do Reino a Castela. João o IV. rei ambicioso. nas cortes de Lisboa. e pelo merecimento deste obséquio e rendimento à-vontade divina lhe deu Deus em um dia o império dos Assírios. nem duvidou de o demitir de seu império. ou sessenta anos não completos. como o mesmo Ciro reconhece havê-lo recebido da sua mão. Pois se Deus não quis que a sujeição de Portugal a Castela fosse perpétua. El-Rei D. e que não havia de durar mais que sessenta anos não completos. lhe pode Deus dar outros maiores e mais dilatados. reparem seus prudentes e católicos conselheiros que o não era menos naquele tempo. e sua liberdade. como se verá no mesmo lugar. João. qual era o de Judéia (igual com pouca diferença de Portugal). e que se havia de chamar D.

posto algum rei católico na mesma ocasião. e a estas profecias chama o rei sem fé preceito de Deu. Se por um ato de justiça. Não teve Ciro outro preceito ou mandado particular de Deus (como notam todos os expositores) mais que as profecias em que estava anunciado que. e peço por reverência do mesmo Deus aos Reis Católicos. cabeça de Judéia. ascendat in Jerusalem. dicens: Haec dicit Cyrus. em que Ciro faz desistência do reino de Judéia e deixou aquele povo em sua liberdade. coroa e liberdade. 40 .». como dizem em suas provisões por graça de Deus. etc. Se Deus deu tantos reinos a Ciro. havia de ser o reino e povo hebreu libertado do cativeiro de Babilônia e restituído à sua Pátria. pelo que toda a pessoa que houver em meus estados pertencente àquele povo e reino. I. por um ato de justiça. regis Persarum. a seus conselhos e a seus letrados ponderem. Se Espanha se quiser ver e compor a ele.ut cornpleretur verbum Dominini ex ore Jeremiae. rei não católico.. ambição e desobediência também poderia tirar outra. por serem mui dignas de toda a ponderação. chama preceito de Deus neste seu edito. senão a seus próprios doutores e aos que mais duramente têm impugnado em nossos dias esta parte e defendido a contrária. posto que não intimado com outra autoridade ou solenidade. o segundo Baltasar e o terceiro Ciro. o rei e reino de Portugal. e não me creia a mim. Dizem assim no I Livro de Esdras. e mandou apregoar em todos seus reinos por escrito firmado de sua mão este decreto: «Ciro. Leiam este decreto os reis e monarcas do Mundo. imitação e memória. conforme o decreto ou preceito divino. é o que Ciro. com tão pouco respeito ao mesmo Deus e à mesma graça armam seus exércitos contra os alheios. et traduxit vocem in omni regno suo. de que ele já era o terceiro possuidor. E já a ordem das cousas naturais as teve menos dispostas a uma grande ruína. Quis est in vobis de universo populo ejus? Sit Deus illius cum ipso. e observou em matéria tão grave e de tanto peso e interesse de sua coroa. julgou que tinha obrigação de obedecer. «No ano primeiro de Ciro. desinteresse e obediência dá Deus uma monarquia. suscitavit Dominus spiritum Cyri. rex Persarum: omnia regna terrae dedit mihi Dominus. sendo reis e possuindo os reinos. etiam per scripturam.Anexo:Imprimir/ História do Futuro efeitos também contrários. rei dos Persas (quem assim começou a reinar não podia deixar de ter tão felizes progressos). Siga-se a sua doutrina e não a minha advertência. veja quão legitimamente está restituído por elas. ainda quando fosse seu indubitavelmente? Mas o que eu só quero ponderar. e obedeceu com efeito. Lástima é que semelhante escritura não fosse de rei católico. leia as profecias que neste livro vão escritas e já cumpridas. diz: O Rei do Céu me deu e fez senhor de todos os reinos do Mundo e ele me mandou que lhe edificasse casa em Jerusalém. como era demitir de si um povo e um reino tão notável.. e são o exórdio de sua história: In anno primo Cyri. Deus Caeli. aqueles principalmente que. porque não dará Ciro um reino a Deus. Quero pôr aqui as palavras do Texto Sagrado. a este gênero de preceito assim escrito. e maior lástima será ainda que. rei dos Persas. no fim de sessenta anos. quae est in Judaea. não queira imortalizar seu nome e religião com outro decreto semelhante. cap. rei dos Persas (que só podia fazer uma ação tamanha e tão real um rei de espírito e espíritos mui levantados por Deus). para se dar cumprimento à palavra divina declarada nas profecias de Jeremias. porque o primeiro foi Nabucodonosor. e se pode tornar livremente para Jerusalém. et ipse praecepit mihi ut aedificarem ei domum in Jerusalem. Não sei que possa haver mais claro espelho do nosso caso. o mesmo Deus seja com ela. regis Persarum. levantou Deus o espírito de Ciro.

e que só podem ser ditadas e inspiradas por aquela sabedoria eterna a quem os futuros são presentes. e não profecias daquele dia. damos a Palafoz profecias. porque tantas são (se bem se distinguirem e contarem) as cousas diversas e profetizadas que ali se referem todas. y elegido jostifique la jorisdiccion. podia tantos anos prever nem conhecer sem revelação de Deus. sendo ditas como as de Caifaz. terceira. não só damos a Palafoz três profecias. haver profecia de ser Saul o destinado por Deus ao império.Anexo:Imprimir/ História do Futuro D. Bernardo e de El-Rei D. como acabarse el gobierno de los Juezes. llevele a su casa. trezentos anos e as de S. justifique su vocacion con algunas profecias y senales de lo que le ha de succeder despues de ungido. Se Palafoz pede que a profecia não seja só uma senão algumas. senão trinta profecias. Frei Gil. cujo nome se dissimula. vayanse a sus casas los Israelitas. Se Palafoz pede profecias. que a profecia não seja só uma. que são as mais qualificadas e livres de suspeita. digale el Senor a que hora vendrá el dia siguiente. para que. João de Palafoz e Mendonça. Verdadeiramente estas palavras do bispo Palafoz: Cum esset pontifex anni illius. e ponderando augusta e doutamente os sinais com que se havia de justificar para ser legítima e de Deus. unjale. como se vê em tantos lugares. autênticas e justificadas com o testemunho universal do Mundo. de tan rara y de tales y tan graves dependencias. que nenhum entendimento humano. suceda la profecia buelva-se otra vez dezir que aquel es el hombre. senão de cento. mas de futuros livres e contingentes. assim como estavam preditas e profetizadas. y se tenga por principe legitimo y llamado de Dios al gobierno. porque o afeto lhe fez corromper a pureza de seu estilo. senão algumas. que essas profecias sucedam. do conselho supremo de Aragão na sua História Real Sagrada. que são as condições que propriamente se requerem para a verdadeira. que para historiar o de Saul impugnando a eleição de El-Rei D. fossem verificadas no mesmo príncipe e no mesmo Reino que ele queria impugnar e destruir. e sua mesma acusação seja um testemunho público e mais qualificado da justiça e justificação de nossa causa. ou três circunstâncias em uma. el destinado al império. y ungido. João o IV. duerman y piensem sobre ello. rigorosa e provada profecia. de trezentos e de quinhentos anos antes. Pues para cosa tan grande. que ayer era subdito y labrador. bispo de la Puebla de los Angeles. Afonso Henriques mais de quinhentos. el que antes era compañero avian de venerarlo por rey. segunda. me parecem ditadas por algum espírito e intento superior. para que a vocação do rei se justifique ser de Deus e para que os ministros que o ungiram (como Samuel e Saul) fiquem com quietacão e sossego de ser aquele o que Deus mandou ungir. como as de Samuel. Três cousas requer Palafoz. diz assim: Hazia-se una mudança tan grande en Israel. e três vezes trinta. escrita. as de S. com tão diverso e contrário intento. e para que o mesmo rei ungido e eleito justifique sua jurisdição e se tenha por príncipe legítimo e chamado por Deus ao governo. E tais são as que pouco antes alegamos porque as últimas havia cem anos que estavam escritas. coh que el Profeta quede con quietud y sossiego de que áquello le mandò el Senor. que as tinha visto e lido. e todas públicas. diabólico ou angélico. mais para contradizer o novo Reino de Portugal. as quais se poderão ver no cap. 41 . com maior elegância que decência. como as de Samuel foram três. conozcale y reconozcale. que havia durado quinjentos años. y começar el de los Reyes escogiase para principe un hombre. buelva otra vez Samuel a la oracion. VI deste anteprimeiro livro. E quais são estas três cousas ou circunstancias? As mesmas que intervieram e sucederam na eleição e unção de Saul: Primeira. não só futuras.

diz assim: — «. algumas delas cumpridas antes da restituição e coroação de El-Rei D João IV. E seguir con gran desejo. que foi seu neto Filipe II. põe as trovas seguintes: Vejo. o estoy sonando?) Simiente de rey Fernando Hazer un forte despejo. se irá cada dia confirmando reais e mais a mesma verdade.desta manera tuvo yo noticia de [un çapatero en Portugal que fue tenido por propheta. Liv. y era aver leydo en] algunas prophecias como las de S. aplicando-as a primeira parte deste mesmo caso nosso. fundador do Reino de Portugal. de que se não deve duvidar (como também provaremos). A tradução não é muito limada. I. el aver de jutar-se aquel reyno de Portugal con el nuestro. conforme a doutrina de Palafoz. com cujo efeito. semente de El-Rei D. que a vocação daquele rei foi de Deus mandada e ordenada por ele e que a sua jurisdição é verdadeira e legítima. Não deixarei também de lembrar aqui que não são tão novas e desconhecidas em Castela as profecias ou esperanças de Portugal. Tal foi a eleição de Saul. que não façam menção delas seus autores.. como de príncipe notoriamente chamado e destinado pelo mesmo Deus ao império.. como se tem visto foi princípio muito conveniente à ordem dos mesmos sucessos começar pela sujeição do mesmo Reino a Castela.. além de muitas outras que estão ainda por cumprir. cap IV. VI se verão as mesmas profecias declaradas e ajustadas com o sucesso.Anexo:Imprimir/ História do Futuro como é sentença comum dos teólogos e se provará larga e demonstrativamente em seu lugar. outras no mesmo caso e circunstancias de sua restituição. Finalmente.» Até aqui no corpo do livro.] tengo notada una. tanto melhor. e não outro. João. que se lerão no discurso desta História. mas a explicação é muito própria. Mas vejamos de caminho que é o que diz Santo Isidoro. muito acomodada e muito bem deduzida. se Palafoz pede que as mesmas profecias sejam provadas e confirmadas com o sucesso assim antes como depois de o rei ser eleito e ungido no alegado cap. en que a mi parecer se dixo mucho ha. con harta particularidad. Afonso Henriques. porque. e como avalia esta ação do rei. bastando e sobejando a décima parte das profecias já cumpridas. João de Horosco e Covarrovias. arcediago de Cuellar na igreja de Segóvia. y [. do Rey vejo (Vejo. 42 . no seu Tratado de la verdadeira y falsa profecia. Fernando. tal a de El-Rei D. porque temos mais qualificado autor e mais autorizado profeta. sendo o intento e o assunto ou tema daquela profecia predizer os sucessos futuros de Portugal depois de sua restauração. En que aora acà me vejo. vejo. e comentando à margem o seu mesmo texto. seu restaurador. e tal a de El-Rei D. D. e não duvidando que dele falavam e dele se haviam de entender. esta casa es miña. E se o verdadeiro profeta e primeiro autor desta profecia é Santo Isidoro. com grande quietação e sossego dos ânimos.. Y dexar acá sua viña Y decir. e pela entrada dos reis castelhanos em Portugal. Isidoro. e as demais desde aquele tempo até o ano de 663. para se justificar superabundantemente.

Até aqui podia chegar a loucura e a cegueira de um mal aconselhado príncipe: crer a verdade das profecias. João. Mas que efeito tiveram ou que façanhas obraram os exércitos de Herodes? Contra o rei e contra o reino que pretendia estorvar. que depois de a estar vendo com espírito profético. e devendo preceder a todos os pretensores da coroa. e logo armou contra Ele a crueldade de seus exércitos. quanto cuidado lá davam antes deste tempo e quanto temor se tinha de nossas profecias. queixas. depois delas cumpridas e qualificadas com tão maravilhosos efeitos se lhos tem perdido a reverência.Anexo:Imprimir/ História do Futuro O nome que dá a esta ação Santo Isidoro é chamar-lhe despejo. neta legítima de El Rei D. senão visão verdadeira. assim pelo direito comum da representação. que não admitem à sucessão príncipe estrangeiro. vejo. assim como creram na primeira? De maneira que. ou estou sonhando? Mas o efeito mostrou que não era sonho. digo. como se dissera: Forte cousa é. Diz o Doutor Horosco e Covarrovias que nesta profecia está profetizado con harta particularidad. ou lhe chama também forte. nenhuma cousa. se viesse por força introduzir na casa alheia. Sei eu e sabe Portugal. inquiriu por elas o tempo. Em seu lugar. se isto. Duarte. Senhores. porque às cousas feitas sem razão chamamos forte cousa. que nenhum ódio nem interesse possa negar que são de Deus. e alegado o mesmo doutor. que porque vos vedes metido na casa alheia. Ora. que nem Ele pode mentir. por antonomásia chamado o Rei Católico. posto que visão de um caso tão dificultoso de crer. será indigno de todo o juízo porfiar ainda contra elas depois de tão conhecidas. em que agora cá me vejo». e despejo grande que estando em Portugal a senhora Dona Catarina. vejo. nem nós o podemos enganar. porque foi despejo armado de poder e de exércitos. porque não hão-de crer os Horoscos e Covarruvias castelhanos nesta segunda parte da mesma profecia. nem o julgou assim o mesmo Santo Isidoro. e este mesmo Santo Isidoro diz que o Reino se há-de restituir outra vez. e chamar-lhe despejo forte. e com muito maior particularidade. ainda duvida se era visão ou sonho: Vejo. e não entendo agora como. e esperar prevalecer contra elas por força de armas. e Castela também o sabe. Só se afogou Belém em sangue e nadou em lágrimas. Este é o fim sem outro fruto de tão desesperadas resoluções: sangue inocente derramado. só se ouviram em Ramá e no Céu as queixas e lamentações de Raquel. que em tom castelhano quer dizer desverguença. e profetizado no mesmo livro e no mesmo tempo. e este mesmo texto. Forte despejo foi aquele. Bem dito. razão foi também que os fizessem despejar. e que. está bem profetizado. Manuel e filha herdeira do Infante D. Basta. quando as profecias de Portugal profetizam que Portugal se há-de ajuntar a Castela. o lugar do nascimento do Rei profetizado. e não (como devera ser) de justiça. e quando profetizam que Portugal se há-de tornar a separar de Castela e se há-de restituir à sua liberdade. sem mais razão nem justiça que meter-se nela e dizer: «Esta casa é minha. não são profecias?! Não o havia de julgar o mesmo Horosco e o mesmo Covarruvias. E pois o meterem se os Castelhanos em Portugal foi despejo. 43 . em conseqüência. se verá tão demonstrada a sua verdade. mas ainda esta conseqüência é mais forte. haver de juntar-se aquel reino de Portugal con el nuestro. Mas não é este o meu intento. por isso haveis de dizer: «Esta casa é minha»?! Não debalde o santo arcebispo se espanta tanto de uma tal ação. como tenho prometido. lágrimas. Conhecia Herodes a verdade das profecias. e que o seu rei se há-de chamar D. acabemos de crer a Deus. do rei vejo. Rei católico e descendente de católico. um rei que era descendente de Fernando. são profecias. nem esta ilação a que eu quero inferir. como pela leis particulares do Reino. Mas se este mesmo autor. no ano de quarenta.

abalem. estando sujeitos a Castela e debaixo de seus presídios. mas fazer brecha na firmeza da palavra divina é impossível. sacudiram tão feliz e animosamente o jugo. como filhos do Sol. Perguntem a El-Rei José e a El-Rei Acab com as forças de dois tão poderosos reinos unidos. e tirar dele a Júpiter pois saibam que mais fácil será conquistar Europa. porque uma e outra vez não conquistaram Samaria. com partido tão desigual. porque não conquistaram a Ramoth? Perguntem a Benedad. bem pode ser. também foram ditadas. acabe de entender Castela quem defende Portugal e contra quem peleja! Com mui desigual inimigo se toma. como depois se verá. rei de Síria. Reparem os famosos capitães de Castela e considerem seus prudentíssimos e experimentados conselheiros. Considere Castela contra quem peleja. o Mundo e o mesmo Céu empíreo. senão porque estava escrito? Porque. a liberdade e perpetuidade. e em um dia restauraram sua liberdade. então poderão conquistar Portugal. sendo tanto o número de seus soldados. Jerusalém com uma profecia de Isaías. na Ásia e na América. clamores. o Céu. e aos trinta e dois reis que o acompanhavam. e não pôde atalhar com tantos rios de sangue os progressos do que procurava impedir. Pelejem primeiro contra a firmeza da palavra de Deus batam. em Portugal. verba autem mea non praeteribunt. Mas deixados exemplos das Escrituras e profecias canônicas. Samaria com uma profecia de Eliseu. e conquistaram nas outras três partes do Mundo. defendido e armado como está com as promessas divinas: Coelum et terra transibunt. Vassalos eram do mesmo Herodes todos os que morreram em Belém: cobriu de luto o reino próprio. na África. tão novas e tão poderosas nações. bater. tantas. com todo o estrondo de tantos mil carros de guerra e tão inumeráveis exércitos de pé e de cavalo. na memorável batalha do Cano. minar. que esperança ou desesperação é pretender conquistar a Portugal? Oh. do que vencer e sujeitar Portugal. Talar as nossas campanhas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro lamentações. e conhecerá quão impossível é a empresa a que aspira. vencer em batalha os nossos exércitos. senão porque estava escrito? Pois se a conservação. senão dos próprios vassalos. e não dos outros. que com um punhado de terra que cada um lançasse sobre ela (como eles diziam) a podiam sepultar? Perguntem ao soberbíssimo Senaquerib vencedor de tantas nações. desfaçam este castelo. ouçam também as nossas. apartando os olhos por um pouco de Portugal. senão contra a firmeza da palavra e promessas divinas. Porque puderam romper os Portugueses os claustros impenetráveis do Oceano. porque não chegou a meter uma seta dentro dos muros de Jerusalém? Porque Ramath estava defendida com uma profecia de Miqueas. a que o seu general chamou castelos de Milão. as vitórias e outros maiores triunfos de Portugal estão também escritos com as mesmas letras e ditados pelo mesmo espírito. porque estava destinado por Deus ao domínio de seu verdadeiro Senhor e firmado com sua palavra. acabe de entender que não peleja contra Portugal. romperam um tão luzido e poderoso exército formado mais de capitães que de soldados. quem quer guerrear contra Deus! 44 . para sujeitar todas as quatro partes do Mundo e ainda para escalar. sendo um Reino tão pequeno. sendo de inferior autoridade. que. e depois dele rendido. derribem. em cujas pedras não esteja escrito com letras de bronze: Verbum Domini manet in aeternum. pelo mesmo espírito. Não há muro tão gastado da Antigüidade e tão fraco em Portugal. e escalaram com tanta facilidade aquelas montanhas ou muralhas da natureza. se se acham seus exércitos com forças e poder bastante para conquistar Europa. escalar e arruinar as nossas muralhas. senão porque estava escrito? Porque ontem. sitiar as nossas cidades.

quanto mais contra toda a mão. mas a espada de Gedeão maneada pelo seu braço e pelo de Deus. Menos que o braço e menos que toda a mão de Deus. Se a mão do Altíssimo é a que assistiu aos libertados. quão gravemente se ofende Deus de que ninguém presuma cativar a quem ele liberta. como lhe tem resistido e prevalecido em tantos anos. a desigualdade de Portugal pode resistir e prevalecer contra Espanha. Se Deus o deu. falemos e ouçamos como católicos. Não foi só a espada de Gedeão a que com tão poucos soldados venceu os exércitos dos Madianitas. que força dá que possa prevalecer. mão por mão e braço por braço. quando eles saíram do cativeiro. e no mesmo ano em que Portugal se havia de levantar. O que Deus faz. que fosse necessário o braço de Deus a Portugal para se libertar da sua sujeição. Comparado o braço de Páris com o de Aquilles. tão horrendo. Notem muito estas últimas palavras os reis e seus conselheiros: At illi egressi erant in manu excelsa. mas comparado o de Aquiles com o de Páris. como fez naquele dia. mas contra o Senhor dos exércitos. e que. Bem se viu neste caso. em vão se cansa Faraó em tirar carruagens. como o podem os homens tirar? Se Deus o fez. quando escreveu aquela história: Induravit Dominus cor Pharaonis. bastou para livrar o povo de Israel do poder do grande rei Faraó o dedo de Deus. só Ele o pode derribar. Bem sabe Castela (sinal é que o sabe bem. et persecutus est filios Israel. mas contra a espada de Gedeão e de Deus. Assim lho remoqueou Moisés. Contra o braço estendido de Deus. feito e levantado por Deus. at illi egressi erant in manu excelsa. uniu o deus Apolo a mão de Páris com a sua e ambas juntas dispararam a seta fatal. Dizem as fábulas. pois chega a o confessar. tão conhecida do Mundo todo e tão temida e reverenciada de seus inimigos e invejada de seus êmulos. o que Ele levanta. Senhores meus. assistida deles. senão é que o juízo divino os leva ao Mar Vermelho e os chama lá alguma oculta fatalidade. No dia memorável da restituição de Portugal (ou fosse milagre ou mistério). naqueles mesmos campos e naquela mesma província onde todos os anos trabalham e batalham os homens pelo derribar. com significação não fabulosa mas verdadeira. juntamente: Gladius Domini et Gedeonis. acompanhado de Apolo mais forte é o de Páris. mais forte é o de Aquiles. O dedo de Deus é este — lhe disseram os seus sábios: Digitus Dei est hic. Grande glória é de Portugal ter em seu favor o braço de Deus. cavalarias e exércitos contra eles. Mas é força que ela e nós confessemos que são maiores os poderes de Deus. nem ainda resistir? Este é aquele braço onipotente. nem escurecer a grandeza de sua potência. E verdadeiramente foi grande dureza de entendimento imaginar Faraó que podiam prevalecer seus exércitos contra um dedo da mão de Deus. Contra a espada de Gedeão naturalmente parece que haviam de prevalecer os exércitos madianitas. é certo que a imagem de Cristo crucificado despregou publicamente o braço as portas daquele santo português que tem por graça própria sua recuperar o perdido.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Não é nem pode ser nossa intenção diminuir as forças de Espanha. que tira os poderosos do trono e levanta a ele os humildes ou os humilhados. regis Egypti. Desengano. Não peleja Castela só contra os exércitos de Portugal. só Deus o pode desfazer. nenhum poder humano pode prevalecer. o estamparam assim seus escritos) bem sabe Castela (digo) que Portugal com singularidade única entre todos os reinos do Mundo foi reino dado. como o podem os homens derribar? E se Deus prometeu que 45 . mas não foi menos honra e autoridade de Castela. pelo desfazer e pelo tirar a quem foi dado. como o podem os homens desfazer? Se Deus o levantou. que quando Páris houve de ferir mortalmente o impenetrável corpo de Aquiles.

Na prodigiosa batalha das Linhas de Elvas. porque é diverso de todos e de superior hierarquia. Se Deus o fundou em nós — in te — quem o poderá arrancar de nós? Se Deus o quis para si –mihi. os fortes rendidos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro na décima sexta geração atenuada poria os olhos nela para o restituir. nenhum juízo haverá no mundo católico. Volo enim in te et in semine tuo imperíum mihi stabilire ut deferatur nomen meum in exteras nationes: «Eu sou o fundador e destruidor dos reinos e dos impérios. que não estime e venere uma tal ação pela mais cristã. se viu tão inopinadamente de conquistador. obedecer a Deus e não resistir à sua vontade conhecida. Esta foi a teologia com que os dois príncipes dos poetas no incêndio e destruição de Tróia introduziram ao Deus Neptuno. nem ainda gentílico. pelo qual o meu nome seja levado às nações estrangeiras. e que os reinos fundados por um Deus. tão verdadeiro e tão evidente se seguira desde aquele dia. se a reputação consiste no juízo dos homens. aparecendo e falando ao seu primeiro rei. primeiro ministro de Espanha. Dizem que não convém à reputação do grande monarca das Espanhas desistir da empresa de Portugal. em ceder. os que seguirem os ditames deste conhecimento. o exército desbaratado. político. mais justa. que são homens. Naquela noite em que Cristo por sua própria Pessoa fundou o Reino de Portugal. por racionais e por conselheiros. as trincheiras entradas. E quando concedêssemos aos políticos que. mas pelo que dirá o Mundo. conquistado. que não seja o mesmo Deus. Se este ditame tão são. porque. nem têm lugar. como há quem tanto à vista dos olhos de Deus queira triunfar sobre suas promessas e irritar seus decretos? Até a superstição dos Gentios conheceu a conseqüência desta verdade. para vaidade fantástica da opinião. que não tem resposta. em nenhum caso da paz e recíproca desistência das armas esteve mais segura e mais honrada a reputação de Espanha e de seu grande monarca. e quero em ti e em teus descendentes fundar um império para mim. que o possa desfazer e dissipar? Ponderem-se muito aquelas três cláusulas — in te mibi stabilire. não pelo que ele é. Como se não estivéramos no mesmo Mundo em que ontem o mesmo monarca cedeu às Províncias Unidas dos Países-Baixos todos aqueles estados de que com tão diferentes direitos era herdeiro e legítimo senhor! Mas para o nosso caso não são necessários exemplos. costuma atravessar o Demônio aquela torpeza do Inferno. as palavras com que se retirou.como o poderá ser de outrem? E se Deus prometeu de o estabelecer — stabilire. como eles falsamente ensinam. antes se ganha a maior e mais qualificada de todas.como o podem os homens arruinar? Acabem de conhecer os que se prezam de conhecer a Deus. como tão prudente e tão católico capitão. mais prudente. se deviam arrastar tantos respeitos sólidos e verdadeiros. quanto sangue que ao depois se derramou estivera guardado nas veias ou se tivera de uma e outra parte empregado em serviço daquele grande Senhor. Pelo mesmo fundamento e único em que se funda todo este discurso. batendo com o tridente os muros que ele mesmo tinha fundado. 46 .:» Se Deus é o monarca supremo e universal. disse: Ego aedificator et dissipator regnorum alque imperiorum sum. contra o qual não valem mãos nem validos? Contra a evidência e fé desta razão. que no da guerra presente. a que os homens com nome especioso e significação verdadeira infernal chamaram reputação. que funda e desfaz os reinos e os impérios e com tão especia1 solenidade fundou por sua própria Pessoa nos reis portugueses de Portugal. nunca se perde nem pode perder reputação. os esquadrões rotos. quando o duque-general. ainda quando houvesse muitos deuses. quem haverá. e tenham-se por homens. foram: — Contra Dios no valen manos. só o mesmo Deus os podia arruinar.

mas em seu reinado lho dividiu Deus. a honra e a reputação de todos estava tão empenhada. os pode dar e tirar inteiros quando lhe parecer. ela se ajustou em um dia sem o mediador Abner sem haver em todos os doze tribos um só homem que falasse uma palavra em contrário. Seguiram-se bravas guerras entre um e outro partido. ainda que se perdesse o mesmo estado. como Senhor absoluto dos reinos e dos impérios. e depois inteirou-lhe Deus o império e reinou sobre toda a Judéia. e também dividi-los e parti-los quando é servido. de bárbaro. de obstinado de ímpio rei e de inimigo e destruidor (como foi por isso mesmo) de seu império. senão ganhá-la em obedecer ao rei. ainda que seja tão bárbaro e arrogante como Faraó e em matéria de tanto peso e interesse. começou com parte do reino de Israel. é tão indigna e tão afrontosa resistência. como acabamos de ver. que desse liberdade ao povo de Israel. mais heróica de quantas honraram a memória dos maiores príncipes. e a maior circunstancia do caso é que. nem conselheiros. Seu neto Roboão entrou no império também inteiro. porque o príncipe que conhece a Deus. achá-la-emos. e muito mais a do mesmo rei? A razão foi uma só e esta que estou alegando: . o que respondeu foi: — Nescio Dominum et Israel non dimittam: «Não conheço esse Deus. E porque Faraó o não fez assim. a reputação que granjeou com aquela teimosa resolução é a que hoje tem no Mundo. sendo ao parecer tão indignas as condições da paz. e contra esta proposta não houve rei. em que os interesses. duraram sete anos. sem muito cavar. Quando Moisés foi notificar da parte de Deus a El-Rei Faraó. David. porque entenderam que o interesse de obedecer a esta razão era o maior de todos os interesses. que ficara privado do reino de seu pai. Resistir a uma razão tão evidente como a que diz — assim o quer Deus — . segurá-la e acrescentá-la muito. E se buscarmos a raiz desta verdadeira razão. senão ganhá-la. Propôs Abner aos tribos que a vontade de Deus era que David fosse rei. o tribo de Judá seguiu as partes de David. Seu filho Salomão logrou o mesmo império inteiro pacificamente.. que. e o fim notável em que vieram a parar foi que os onze tribos deixaram a Isboseth e voluntariamente se entregaram e sujeitaram todos a David. e que debaixo dela.» Não disse que não queria obedecer a Deus. que nenhuma razão de estado a pode justificar. filho herdeiro do rei defunto. que ontem era seu vassalo. Assim como o vassalo nunca pode perder a honra e reputação.quoniam locutus est Dominus. e não hei-de demitir a Israel. nem vassalos que repugnassem ou respondessem. senão que o não conhecia. que havia tantos anos tinha debaixo de seu domínio. não só ficava salva a honra e a reputação. passando todo a David. no supremo domínio de Deus. e terá enquanto durarem os Livros Sagrados. Mas que razões tão fortes e de tanta eficácia foram as que representou Abner para persuadir e concluir tão breve e subitamente um negócio tamanho. ainda que gentio e sem conhecimento de Deus. nem ainda o mesmo Isboseth. mas honrada a mesma honra. e deu parte dele a Jeroboão. assim o rei nunca a pode perder em obedecer a Deus.. e os outros onze tribos obedeceram e juraram por seu rei a Isboseth. 47 . Depois da morte de El-Rei Saul. de néscio.Anexo:Imprimir/ História do Futuro mais generosa. como o tinha declarado o profeta Samuel. como demitir de si o domínio de uma nação inteira e tão populosa não pode duvidar de obedecer e se sujeitar à sua vontade.

quando os anos o chamavam mais para o Céu. Antes do Reino de Israel se dividir entre Reboão e Jeroboão.Anexo:Imprimir/ História do Futuro O mesmo sucedeu ao império de Espanha nos últimos três reis dela. e depois com a união e sujeição de Portugal. Abraão. Ó poderosíssimo monarca Filipe IV. e deu a Portugal a parte que lhe pertencia. inteirou-lhe Deus o império de toda Espanha. por sua pouquidade não fazia número . Note-se aqui. quod bonum est. Pelejaram os pastores de Abraão com os de Loth. e não poder querer o que Deus não quer. senão de meu desejo. O grande poder é muito confiado. porque se não contentaria o Roboão de Espanha. tomou o profeta Ahías a sua capa cortada em doze partes. é dizer como Héli ainda quando se visse despojado de tudo: Dominus est. ainda é um ponto mais alto sobre a grandeza. que não se escrevem com 48 . sabe O que conhece os corações. sempre é generosidade. E se o profeta Ahías pôde partir a sua capa e dar parte dela a El-Rei Jeroboão. em sinal de que Deus o queria fazer rei de dez tribos de Israel. ainda em termos tão apertados. não de meu discurso. Poder pôr em campo doze legiões de anjos. profetizando. Filipe II começou a reinar com parte. que os profetas são os que dividem os reinos e os que os repartem: eles os dividem primeiro. não porque a há mister. quanto mais no caso presente. porque não poderá Deus partir também a sua. e da púrpura inteira que tinha dado ou emprestado a um rei. é sempre verdadeira. nem pode exceder um príncipe essa mesma fortuna mais que não querendo o que pode. nos maiores anos ainda é incomparavelmente maior. As vozes de que eles se formam. Seu neto Filipe IV entrou no império também inteiro. e destas doze deu dez a Jeroboão. quem pode fazer e apertar a guerra. foi a maior glória do poder supremo. e mandar embainhar a espada a Pedro. em que a grandeza de Espanha e sua potência. honra. e se o Roboão de Israel (como dizia) se contenta com que lhe tirem dez tribos e lhe deixem uma só parte. Não pode dar mais a fortuna a um príncipe que poder o que quer. quando lhe tire o mesmo Dono um reino. mas em seu reinado lho dividiu Deus.era outro Algarve em respeito de Portugal). porque o tribo de Benjamim. que foi o que apartou a demanda. e parte a El-Rei Roboão. E se esta razão. é o maior seguro de sua reputação! Pedir paz quem se não pode defender da guerra.empresta Deus da sua guarda-roupa. que ficou a Roboão juntamente com o de Judá. senão porque a quer dar. in oculis suis faciat. e depois Deus executando. Mas se em toda a idade tem decência e decoro a gentileza desta resolução. se lhe deixa dez? Oh! como se pode temer que chame Deus ingratidão ao que os homens chamam reputação! A maior reputação de um príncipe que conhece a Deus e reconhece seu supremo domínio. o Grande! Dai licença para que tenham entrada a vossos ouvidos os ecos destas últimas cláusulas. mas dar a paz. poderá ser menor crédito. os do tio com os do sobrinho. para que representem o papel de reis enquanto ele for servido! E se o Roboão de Israel se contenta com que lhe tirem dez partes do Reino e lhe deixem uma (assim o diz expressamente o Texto Sagrado: Porro una tribus remanebit ei. e note-se muito. não quis pelejar sobre a terra. Seu filho Filipe III logrou o mesmo império inteiro pacificamente. cortar um retalho para vestir e coroar outro? Ah! se os reis e monarcas considerassem que as púrpuras que vestem lhas . reputação e glória.

Com um texto santo mal interpretado quis o Demônio despenhar a Cristo. Não se pode pagar a Deus o que é de Deus. as interpretações podem ser da lisonja. vosso avô. Com todo este desinteresse me atrevo. Lembro-vos. que segurem e justifiquem as causas e tão dilatada e cruel guerra. Merecestes na vida o título de Grande. Ouvi a voz de um homem que nem das felicidades de Portugal espera. perdidos pela desatenção dos ministros ou pela intenção (que será pior) dos políticos. mas ponham os reis diante dos olhos as letras e as balanças de Baltasar e examinem eles se os seus maiores se governaram pelos pareceres dos letrados. Que se não derrame sangue cristão. com que coroou todas as suas. E seria grande desgraça perder o Reino eterno por um temporal já perdido. gostai o fel e não o passeis da boca. e faça-se tudo diante de vossos olhos antes que os fecheis. Deixai a paz por herança a vossa esposa. que é rei e Senhor. e de que todo os príncipes católicos O agradem. e depois deste texto e desta interpretação. como o Reino de Portugal e suas Conquistas: basta haver-se de dar a mesma conta de Ormuz. o signo debaixo de que nascestes — e seja este o último suspiro do meu afeto: nascestes no dia em que morreu o Rei dos reis e Monarca supremo do Mundo. nem ele havia de fazer. e sobre cristão espanhol. nem das vossas teme. Com esta obra tão consumada. Ponde os olhos neste soberano exemplar. porque vive fora da jurisdição da fortuna. Os textos são da justiça. este o troféu maior de vossas vitórias. do Brasil. sem dar a César o que é de César. com que se levassem purgados todos estes encargos. Com uma inclinação da cabeça podeis deixar pacificado o Mundo. Senhor. lhe ofereceu o reino que lhe não podia dar. O tratado de uma boa e justa paz podia ser uma bula de composição geral. Ouvi. Capítulo IX: Verdade desta História. firmai o título de rei com o de católico. Esta será a maior prenda do vosso amor. para dar exemplo de morrer a príncipes. Se vos parece amargoso este trago. História do Futuro (Volume I. a vos dizer de longe o que pode ser não tenhais ouvido de mais perto. pois sempre prezastes mais o de católico que o rei. maior sereis no fim dela se ao de Grande acrescentardes o de Justo. de Malaca. foi saber morrer. ou os letrados pelos interesses dos reis. Declara-se o modo com que se pode conhecer e saber os futuros) por Padre Antônio Vieira 49 . Senhor. e por coração muito acima dela. Não duvido.Anexo:Imprimir/ História do Futuro outro fim mais que o de O agradar. que tereis conselheiros de grandes letras. Não queirais levar sobre vós e deixar sobre vossos filhos. por ama de tanto sangue derramado. o que ainda se pode derramar. Senhor. A maior façanha de Carlos. Felicidade é levar já abatida das contas que se hao-de dar a Deus uma partida tão grossa. seja parte do sacrifício a repartição das vesti duras e leve embora a túnica aquele a quem coube em sorte. e hoje é também vosso (posto que não vassalo) por afeto. Senhor. de Ceilão. por estado muito abaixo da sua roda. o que só importa. desinteressado vassalo que foi já vosso por sujeição. Grande sinal é de predestinação de um príncipe que faça Deus por ele as restituições que nem seus predecessores fizeram. pois é aquele de que mais puramente se alimenta a Santa Madre Igreja e de que cabeça dela recebe os espíritos com que vivifica e anima seus mais distantes membros. podeis entregar a alma segura nas mãos do Padre. a voz de um estrangeiro.

Confesso que entramos em um caos profundíssimo e escuríssimo. de que se pode dizer com toda a razão: Tenebrae erant super faciem abyssi Mas neste mesmo abismo de trevas. E da profecia de Malaquias: Onus verbi Domini ad Israel in manu Malachiae. Este é o modo com que.. E pois pedimos aos leitores o assento da fé. e com a sua luz (ainda que luz pequena) entraremos no lugar caliginoso e escuríssimo dos futuros. e porventura impossível na História do Futuro. porque com o lume da profecia entravam nos lugares escuríssimos e secretíssimos dos futuros e viam neles claramente aquelas cousas para que todos os outros homens são cegos. Lugar escuro e caliginoso é o futuro. seguindo sempre os raios deste farol divino. também se podem aproveitar da sua luz os que se chegarem a ela e a forem seguindo. se o espírito do Senhor (como esperamos) nos não faltar com a sua assistência. não coroa os nossos montes. justo é que lhes mostremos primeiro os motivos da credulidade. e a ver claramente e com maior certeza tudo o que elas encobrem: Habemus firmiorem propheticum sermonem. alumiados e guiados da mesma luz os que não somos profetas. Pedro: Mas ainda que a candeia esteja na mão de outrem. e tão sua. havendo a nossa História de caminhar por passos tão escuros e dificultosos.factum est verbum Domini in manu Aggaei prophetae. o sol que há-de amanhecer é o cumprimento delas. o que só agora podemos e devemos fazer é levar a candeia das profecias diante. E enquanto este sol. Por isso os Profetas na Sagrada Escritura se chamam por antonomásia Videntes. sosseguemos o escrúpulo ou receio (quando não seja o riso e o desprezo) dos que assim o podem imaginar. As maiores trevas que se viram no Mundo. Trevas que faziam horror. Nesta propriedade fala a Escritura. nec movit se de loco in quo erat. e muitos passos nelas. não duvidamos da pia afeição de todos. e os porá mui seguros. porque só Deus a pode dar e a dá. para que. como ali não faltou: Spiritus Domini ferebatur super aquas. a candeia que alumeia são as profecias. e 50 . et facta est lux. possamos entrar com eles no lugar escuro e caliginoso dos futuros e ver e conhecer com a luz não nossa. e far-se-á o que só Ele pode fazer: Fiat lux. sed Spiritu Sancto inspirati locuti sunt sancti Dei homines — diz S. dirá Deus o que so Ele pode dizer. foram aquelas do Egipto. e veremos o que neles se passa. nem basta estudo ou diligência alguma para a alcançar. Tais são as trevas. o Apóstolo S. as quais devemos observar e atender. ou com que o Mundo se não viu. não aparece. e ninguém as pode ver senão alumiado da mesma luz. Contudo. quando diz da profecia de Ageu: .. e tal a escuridade do futuro. e porque esta parecerá muito dificultosa. antes que vamos mais por diante. quando e a quem é servido: Non enim voluntate humana allata est ali quando prophetia. nemo vidit fratrem suum. Serão pois as primeiras fontes desta nossa História. e dizendo humilde a Deus com David: Lucerna pedibus meis verbum tuum. trevas com que nada se via e trevas com que se não podia dar passo. saberá contudo onde há-de pôr os pés. o que eles viram e conheceram com a sua. quasi lucernae lucenti in caliginoso loco.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A primeira qualidade da história (quando não seja a sua essência) é a verdade. Eu conheço e confesso que a não tenho. De maneira que pôs Deus a profecia como candeia na mão dos profetas. E geralmente das profecias de todos os profetas: Sicut locutus es de manu puerorum tuorum prophetarum. cui benefactis attendentes. das quais diz o Texto Sagrado: Factae sunt tenebrae horribiles in universa terra Aegypti. usando delas como de candeia luzente em lugar escuro e caliginoso. pois a matéria é tanto para crer. donec dies elucescat: «Temos — diz o Príncipe dos Apóstolos — as profecias e palavras certíssimas dos profetas. até que amanheça o dia». será razão que. que será muito formoso e alegre. et lumen semitis meis. Pedro nos ensinou a entrar nestas trevas sem medo. e a dar passo.

e por isso se chamam e são ciências. que nelas não estejam imediatamente expressados. Paralipamenon. evidentes e científicas. Nem este modo de discorrer sobre as profecias e revelações proféticas. assim a teologia. desde Isaías até Miqueas. pois só eles os conheceram. a Escritura. Job e os Evangelhos. de princípios sobrenaturais não evidentes mas certissimamente conhecidos. no qual modo de fábrica se não perde a primeira verdade dos fundamentos. o Autor. Eclesiástico e as Epístolas dos Apóstolos. Sabedoria. também canônicos. falando das mesmas profecias e profetas. Eclesiastes. exceto o profeta Jonas. ou cousa nova e desusada na Igreja e escola de Cristo. Deste modo crescem e se aumentam todas as ciências. dispondo. ajustando.Anexo:Imprimir/ História do Futuro os primeiros e principais escritores a quem nela seguiremos todos ou quase todos os profetas canônicos. Josias. e estes são os que têm maior crédito e autoridade nas cousas daqueles tempos. recorrem aos autores mais antigos. passiones et posteriores glorias. Reis. não só as naturais. quando servirem ou puderem servir (que não será pouco) ao conhecimento e inteligência dos tempos futuros. Assim como os que escrevem anais ou histórias passadas e antiquíssimas. ainda que sejam meramente históricos. sucessos e tempos futuros. combinando. Deus. e particularmente determinado à história dos Ninivitas. Deuteronômio. ordenando. contêm ou muitas ou algumas cousas proféticas. o qual. porque. ou juntamente doutrinais e históricos. e todos os outros. também científicas e ainda mais certas. cujo assunto foi um só. scrutantes in quod vel quale tempus significaret in eis spiritus Christi praenuntians eas quae. Números. mas vai crescendo. de todos estes nos ajudaremos também. Pedro (primeira e infalível regra da Igreja). muito louvável e muito recomendado do mesmo Mestre Divino e seus sucessores. concorreram para a fábrica deste novo edifício. não em diversos. como os Salmos. Esdras e Macabeus. Sobre estes fundamentos da primeira e suma Verdade entrará o discurso como arquiteto de toda esta grande fábrica. há alguns que totalmente são proféticos. como o Gênesis. Quer dizer S. assim do Velho como do Novo Testamento. diz assim no primeiro capítulo de sua primeira epístola: De qua salute exquisierunt atque scrutati sunt Prophetae qui de futura in vobis gratia prophetaverunt. senão as divinas. para vir em conhecimento dos mistérios. que são somente os Profetas. antes estudo muito lícito. posto que não evidentes. os Cantares e o Apocalipse. senão no mesmo corpo. é alheio da reverência que se deve aos oráculos divinos. todos os outros. Assim como a filosofia de princípios naturais evidentemente conhecidos tira conclusões certas. Josué. tira conclusões teológicas. E porque entre os outros Livros Sagrados. nem atrevimento do entendimento e discurso humano. devemos recorrer e buscar a verdade e notícias da nossa História nos autores dos tempos futuros. com que vem a ser um só livro e um só Autor o que nela principalmente seguiremos: o livro. assim nós que escrevemos do futuro. como o Levítico. ou meramente doutrinais. dilatando-se e frutificando. Temos desta matéria um excelente texto do Apóstolo S. como a árvore em suas raízes. Pedro que os Profetas antigos. depois de lhes serem revelados com lume sobrenatural e eles conhecerem e profetizaram mistérios futuros (como os da paixão e glórias de Cristo) sobre os mesmos mistérios e sobre as mesmas suas profecias inquiriam e especulavam de novo com o lume natural do discurso muitas circunstancias que lhes não 51 . segredos. mais ou menos. Christo sunt. como Provérbios. inferindo e acrescentando tudo aquilo que por conseqüência e razão natural se segue e infere dos mesmos princípios. Assim que podemos dizer em uma palavra que a primeira e principal fonte e os primeiros e principais fundamentos de toda esta nossa História é a Escritura Sagrada.

e ao mesmo Cristo Menino. curam et studium et industriam naturalem vel meditationis. atque conjecturando disquirebant. aut libertatis. Mas porque as profecias por sua natural escuridade não são fáceis de entender.vel lectionis. XV dos Atos dos Apóstolos faziam os mais doutos cristãos da primitiva Igreja.. inferia e descobria outros mistérios ocultos e profundíssimos.proprie indicant. vobis autem mintistrabant. Eplicabant quae Messias primum passurus.. por discurso natural. quando o achou entre os doutores. como diz o mesmo texto de S.. isto é.Anexo:Imprimir/ História do Futuro foram expressamente reveladas. Bem assim como o sol ou candeia (que era a nossa comparação) não só alumeia com a luz que está ao lume ou fogo que nela se sustenta. definite sciebant quo tempore veniret et quali. com ser alumiada sobre todas as criaturas. É isto o que nós fazemos e devemos fazer. e muito mais. Pedro nas palavras citadas: . L: Scrutamini Scripturas. Esta segunda luz 52 . at ignorabant circumstantiam tem poris. as que ouviu a Simeão.qui de futura in vobis gratia prophetaverunt. e mais abaixo: Quibus revelatum est quia non sibimetipsis. em que tempo significa a determinação do tempo certo em que as cousas hão-de suceder. as palavras que os pastores referiam ter ouvido aos anjos. e ambos trazem em confirmacão o exemplo da Virgem Maria. O mesmo diz Salmeirão.» Exquisitio et scrutatio (diz Lorino) . Desta maneira. e os acontecimentos particulares da paz. estudo e indústria própria. difundindo e estendendo a muitas cousas. e delas. quam postea gloriam consecuturus et collaturus etiam esset. com a luz que dela se vai produzindo. ajuntando o lume natural do d curso ao lume sobrenatural da pirofecia. captivitatis. como as do tempo estado do Mundo em que os mesmos mistérios se haviam de obrar e as suas mesmas profecias haviam de suceder. com o cuidado. quo statu Reipublicae Hebraeorum. conhecendo delas e por elas muitas cousas que nelas imediatamente não estava reveladas. quam brevi. nec tamen salten omnes. De sorte que. assim o lume natural do discurso. João na cap. E pois os Profetas profetizavam para nós e as cousas nossas. senão também. dizendo por S. do cativeiro. et ratiocinando. a Ana a profetiza. no sentido em que o digo vinham a inferir e alcançar pelo estudo e especulação natural e própria o que Deus lhes não tinha manifestado pela revelação sobrenatural e divina. Isso quer dizer: In quod vel quale tempus. Isto mesmo é o que se diz no cap. das repúblicas. razão é que nós como nossas as entendamos. onde a versão siríaca tem: Nostra nobis: vaticinabantur. pois de nós e para nós falam os Profetas.. da liberdade e outros semelhantes que no mesmo tempo. aut pacis. e o que Cristo mandou a todos que fizessem. e assim como se há mister necessariamente a sua luz para conhecer os futuros. e a palavra no qual tempo significa as qualidades e circunstâncias do mesmo tempo. Isto é o que literal e genuinamente significam aquelas palavras: «Exquisierunt et scrutati sunt. quae allaturus erat. nossa Senhora. an belli. que nas mesmas palavras não estavam expressamente declarados. Conferia a Senhora. vel disputationis. se hão-de ver e suceder no Mundo: Deprehendebant Prophetae instinctu spiritus Messiae ejusdem Messiae adventum et gratiae dona.. tempos. é também necessária outra Segunda e nova luz para as entender a elas. se vai propagando. das nações. ou mais vizinho ou mais distante. o estado dos reinos. vinham a estender e adiantar muito as mesmas profecias. A palavra. da qual diz o Evangelho: Maria autem conservabat omnia verba haec conferens in corde suo. multiplicando e difundindo por todas as partes vizinhas e ainda distantes. Atèqui Lorino. ambos doutissimos expositores deste lugar. lendo. da guerra. disputando e meditando. conforme a sua menor ou maior esfera.. sucessos e circunstâncias que nelas estavam ocultas e pela conferência e conseqüência do mesmo discurso se vão entendendo e descobrindo de novo.

As profecias e os Doutores nos servirão de tochas. A este fim empregarei grande parte deste presente livro na qualificação do espírito profético que tiveram todos os autores do futuro que na História se hão-de alegar. senão ainda. Não meteremos porém nesta conta senão aquelas profecias somente que. como dos seguintes tempos. e. com que alumiaremos e descobriremos os futuros. com que alumiaremos as profecias. mas o único fundamento de toda a sua verdade. e não só provaremos quanto for necessário o espírito da profecia destes autores. e sem o qual vã e não merecidamente lhe devemos prometer o crédito que de todos os que a lerem esperamos. sem certeza de autor e muito menos do espírito com que foram escritas. senão preparação ou aparato para ela. não só com tocha. alumiados com o mesmo espírito. merecido no juízo dos prudentes o nome e veneração de profecias ou predições verdadeiras. E porque o Espírito Santo. assim dos seus. candeia acesa: Neque enim accendunt lucernam et ponunt eum sub modio. pelas mesmas causas. Isto é quanto às profecias e Profetas canônicos. e outra as mesmas profecias. que grandemente depende do tempo e de outras semelhantes circunstâncias. Por este modo entraremos também nós pelo escuro e intricado labirinto dos futuros. tenham. para a inteligência e combinação das mesmas profecias. que são em primeiro lugar os Apóstolos sagrados. poderemos entrar neste labirinto com todo o aparato e prevenção de instrumentos com que se entrava seguramente no de Creta. mas também com fio: as tochas para ver o escuro dos caminhos e o fio para entrar e sair pelo intricado deles. ou pela santidade de seus autores. senão igualmente nos antigos e sagrados. Também excitaremos a este fim e resolveremos várias questões muito importantes ao conhecimento das profecias. mas diremos o tempo em que escreveram as obras proféticas que deles existam. aprovados e canonizados pela Igreja. experiência e opinião do Mundo. também estes darão matéria à nossa História. depois de fechado o número dos livros e os escritores sagrados (o qual se cerrou no Apocalipse de S. o entendimento e o discurso de fio. e em segundo os Padres Doutores da Igreja e expositores das Escrituras divinas. a inteireza ou corrupção com que se tem conservado. e é como alicerce de todo o edifício. João). pela ordem que a necessidade ou ocasião o for pedindo. por outras palavras. não deixou de ilustrar e ornar sua esposa a Igreja com o lume e dom da profecia. a que por isso chamamos Anteprimeiro. e esta será a própria matéria de todo este livro. e depois daqueles seus primitivos anos houve sempre novos profetas. que por palavra e escrito predispuseram muitas cousas futuras. Era aquele labirinto por uma parte muito escuro e por outra mui intricado. que com menos necessidade o fizeram em 53 . por ser este não só o principal. os quais seguiremos e alegaremos em tudo o que dissermos com estas duas luzes ou candeias: uma dos Doutores sagrados. e não só falaremos nos autores e Profetas modernos e não canônicos. e muito mais. e para vencer e facilitar estas duas dificuldades se inventou entrar nele. E posto que todo este tão largo Prolegómeno em rigor não seja História do Futuro. Por esta causa se não acharão porventura neste nosso discurso menos algumas que em nome de profecias andam entre o vulgo. Procuramos quanto nos foi possível que fosse mui exata esta diligência.Anexo:Imprimir/ História do Futuro serão aqueles a quem Cristo chamou luz do Mundo: Vox estis lux Mundi. com uma breve relação também das mesmas pessoas (quando não forem geralmente mui conhecidas) pelo muito que importam todas estas notícias não só para a fé e crédito. na forma possível. ou por outros fundamentos sólidos da razão. à imitação de Barónio e de outros autores.

e ainda esta exceção se não deve entender em todo. pois são filhas e herdeiras da mesma Verdade de que tiveram seu nascimento Restam somente aquelas profecias que. que é. assim o que imediatamente predizem. não sendo totalmente fé. ainda que intervenha no discurso algum meio ou proposição científica. por sua grande variedade e diligente erudição de cousas curiosas. e por ambas tal certeza. é certo que têm toda aquela certeza infalível e de fé. nem perigo de poderem não ser. enquanto não sai a luz. que. ficam dentro dos lates da probabilidade opinativa. por esta parte têm evidência. Nas do primeiro gênero. E digo que sem injúria nem agravo de todas as outras histórias humanas. por tradições. verdadeira com certeza moral. e conhecidamente supostas e falsas. ou teológica. como em Deus esperamos. nas do terceiro. mas alheias e encontradas com a verdade. terão somente certeza provável naquele sentido em que dizemos provavelmente certas aquelas cousas de que há fundamentos prováveis para o serem. que será. verdadeira com certeza teológica. le nestas. que não é sujeita a erro ou falsidade. ou provável. não será injucunda aos que a lerem. Daqui inferimos sem injúria nem agravo de quantas histórias até hoje estão escritas no Mundo. e a mesma participarão. por melhor dizer. que esta História do Futuro é mais certa e mais verdadeira que todas elas (excetas somente as Histórias Sagradas). o mesmo Deus. ou moral. mas formada e como tecida deles. o nome de história verdadeira. ou por estarem explicadas por escritores também canônicos por concílios. será fundada na primeira e suma Verdade. ou por culpas ou sem culpa dos mesmos historiadores. todas elas estão cheias. Estes quatro gêneros de verdade são os de que repartidamente se comporá toda a História do Futuro. esperamos que a matéria. na forma que pouco antes dissemos. porque as cousas que expressa e imediatamente se predizem nas profecias canônicas. todas as outras conclusões que por natural e evidente conseqüência delas se deduzirem. se deduzirem. são verdades segundas que participam a mesma certeza também infalível. qual é a das conclusões teológicas que. senão em parte. pelo modo já explicado. De tudo o que fica dito ou prometido se colhe facilmente quanta será a verdade desta História. nas do segundo. merecendo. assim nas antigas como nas modernas. verdadeira com certeza de fé. As outras cousas. posto que não em todas com igual grau de certeza. verdadeira com certeza provável. e pela maior parte até agora não tratadas. como as conseqüências que delas por formalização se deduzirem. porque.Anexo:Imprimir/ História do Futuro suas histórias. ou canonicamente. 54 . como veremos que tenham toda a certeza moral. ou por não averiguadas com tão evidente certeza (posto que sempre estabelecidas com bons e racionais fundamentos) ou por sua interpretação não ser tão manifesta ou recebida que não desfaça moralmente toda a razão de dúvida. como também terão advertido os mais lidos e versados. por ir toda (como vai) não só fundada nos mesmos textos e sentenças da Escritura divina. ou pelo consenso comum dos Padres. As profecias não canônicas podem ser tão evidentemente provadas por seus efeitos. não só de cousas incertas e improváveis. a História do Futuro igualará na verdade e na certeza. e que possa sem enfado entreter a expectação e desejo da mesma História. sendo a excelência singular desta História que toda ela. que destas verdades assim profetizadas e conhecidas. de cuja inteligência por sua clareza se não pode duvidar. muito brevemente. que é a que depois a fé e da ciência têm no juízo humano o maior assento. que as outras verdades sagradas que se contêm nas Escrituras. por natural conseqüência. nem somente ciência. segundo todas suas partes. se não distinguirá delas. nas do quarto.

que o não incline só o respeito. Não aponto erros em particular das histórias mais vizinhas a nossos tempos por reverência deles. e como há tantos centos de anos que estão escritas estas profecias. tanto mais se vão chegando para nós. Por isso Tertuliano lhe chamou com razão mendaciorum loquacíssimum. que também tinha longe as informações da verdade. E Cícero. e desta é filha legítima a sua verdade. no livro primeiro das Leis: Apud Herodotum patrem Historiae et apud Theopompum sunt innumerabiles fabulae. Mas isto mesmo se conhece. do Dilúvio. e que ninguém contudo se atreveu até agora a entrar com ela por estes abismos e escundades do futuro. mas nunca com conhecida vitória. Mas sobre esta resolução se pode dizer e argüir contra nós. o amor. por ocasião do milagre da serpente: Cedaxt huic veritati. a vingança. que mais merece nome de temeridade :que de confiança. ou da ignorância. e porque fora matéria infinita. sendo infalível que um só pode dizer a verdade e certo que nenhum a diz. se contradizem e se implicam no mesmo sucesso. a lisonja. O certo é que só tinha perto a ambição de seu próprio juízo. os Heródotos. as dos Assírios. quanto mais vão correndo. os Diodoros. da divisão das primeiras gentes.) por Padre Antônio Vieira 55 Assentamos com o Apóstolo S. Estes foram os pais da História humana. Jerônimo. e verá como se encontram. Capítulo X: Resposta a uma objeção: mostra-se que o melhor comentador das profecias é o tempo. e todos os outros historiadores daquelas nações e tempos. sobre a qual batalham tantas vezes os mesmos historiadores. como são as de Noé. que esta mesma candeia e luz das profecias há muitos centos de anos que está acesa. o que escteveram os Berosos. História do Futuro (Volume I. ou da sua. Das dos Gregos e Romanos disse S. ou da alheia nação. e desta mesma experiência e razões dela se qualifica claramente ser a nossa História do Futuro mais verdadeira que todas as do passado porque elas em grande parte foram tiradas da fonte da mentira. que não vão envoltas em muitos erros. apenas se acha cousa que não seja contradição da verdade. Pedro. Persas. senão supra candelabrum. ou da malícia? Que historiador há de tão limpo coração e tão inteiro amador da verdade. Quem quiser ver claramente a falsidade das histórias humanas. no capítulo antecedente. ainda com maior evidência. como em pedra de toque. como nós prometemos fazer. Os futuros. também há outros centos de anos . tam graeco quam romano stylo mendacis ficta miracula. empresa e ousadia. Egípcios. daquelas histórias de que temos verdadeira relação nas Escrituras Sagradas. ou do seu ou de estranho príncipe? Todas as penas nasceram em carne e sangue. os Lívios. os Cúrcios. e a nossa tirada do lume da profecia e acrescentada pelo lume da razão. e não sub modio. que são as duas fontes da verdade humana e divina. com que formava os processos para as sentenças. e todos na tinta de escrever misturam as cores do seu afeto. que é mais. leia a mesma história por diferentes escritores.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Que historiador há ou pode haver. Romanos. que é a ignorancia e malícia humana. Medos. que com a candeia da profecia se podia entrar pela escuridade dos futuros e descobrir e conhecer o que neles está encoberto e enterrado. aos quais (que sempre serão mais de um) responderemos facilmente com o seu mesmo argumento. com ter longe as causas do ódio e amor. e principalmente a dos Hebreus. com os quais cotejado. e não as sentenças sobre os processos. os Trogos. por mais diligente investigador que seja dos sucessos presentes ou passados. e nós para eles. mas de aí se convence contra ele. o ódio. Prova Tácito a verdade da sua história. Gregos. que não escreva por informações? E que informações há de homens.

fazem aos antigos: nos antigos reconhecemos a vantagem da sabedoria. e por isso nós nos atrevemos a fazer hoje o que os Antigos não fizeram. nos nossos a fortuna da vizinhança. Mui bem medimos a nossa estatura. que tanto ornato. mas basta ser o último. não basta só que a candeia esteja acesa. mas nós. como vive mos depois deles. Eles sem nós viram muito mais do que nós podemos ver sem eles. Ao longe viu só Moisés a sarça e o fogo. Para ver com uma candeia. e estar em cima dos mais. ou vê-las ao perto. porque eles com outros acabaram a obra que os outros sem eles não puderam nem podiam acabar: Sic erunt novissimi primi. comparada com aqueles cedros do Líbano e com aquelas torres altíssimas. e com os pés no chão. e um pouco mais. As visões e revelações de Deus vêem-se melhor ao perto que ao longe: de longe viu Moisés a visão da sarça. Este é o modo com que os últimos podem vir a ser os primeiros. mas subidos por merecimento seu e fortuna do tempo a tanta altura. Estava vendo a visão. aplicando a parábola de Cristo ao estudo da Sagrada Escritura. é necessário que a distância seja proporcionada: Ut luceat omnibus qui in domo sunt. Pigmeus nos conhecemos em comparação daqueles gigantes que olharam antes de nós para as mesmas Escrituras. pode suceder que os que vêm na última hora por felicidade da mesma 56 .eles viram. Cousa maravilhosa é. tanta grandeza e majestade acrescentaram ao edifício da Igreja. vemos hoje o que . Se estamos mais perto dos futuros com igual luz (ainda que não seja com igual vista). quão desigual) quão inferior é. os outros diziam: — Há-de vir.Anexo:Imprimir/ História do Futuro que os futuros se vão chegando para elas.. o Baptista o mostrou melhor. e que apenas se pode entender. ao perto. 0 último degrau da escada não é maior que os outros. e disse que a iria ver. e ele disse: — Este é. Mas estes são os privilégios da última hora: Hi novissimi una hora fecerunt. viu melhor e mais claramente que todos. e que disse? — Vadam et videbo visionem hanc magram: «Irei e verei esta grande visão». o mais pequeno de todos era Zaqueu que por si mesmo. e elas para os futuros. e sobre eles por benefício do tempo. Com una candeia na mão pode-se ver o que há em uma casa. A mesma luz e a mesma candeia ao longe vê-se. reservou a verdadeira inteligência delas para os vindouros. Entre a multidão dos que acompanhavam e rodeavam a Cristo. mais ou menos todos cavamos e. não podia alcançar a ver o que os outros viam. Os que estudamos e trabalhamos na inteligência da Sagrada Escritura.. entendeu o que aquelas figuras significavam. não é muito que alcancemos e descubramos um pouco mais do que eles descobriram e alcançaram. Esta é a diferença que não nós. porque a candeia de mais perto alumeia melhor. e conhecemos quão pequena. porque era candeia de mais perto. mas subido em cima da árvore. mas não se pode ver o que há em uma cidade. antes pode ser menor. disse Cristo. como os cavadores da vinha que vieram na última hora puderam ser avantajados aos demais. achando-se às escuras em muitos lugares das profecias. para que dele se possa alcançar o que de outros se não alcança. Non ergo undecima hora in vineam Domini ad operandum conductis nobis invidendum est — disse Lipomano na prefação de seus Comentários. Fizeram na última hora o que os outros não fizeram todo o dia. e ao perto alumeia.erat lucerna lucens et ardens. e ainda que todos os outros Profetas anunciaram a Cristo. porque vai muita diferença de ver as visões de Deus ao longe. Um pigmeu sobre um agigante pode ver mais que ele. senão os nossos tempos. 0 grande precursor de Cristo . ainda que tivessem acesa a mesma candeia. porque os não veremos melhor? Assim o confessou Santo Agostiho com ter os olhos de águia o qual.

foi no século que Deus tinha predefinido e determinado: Secundum praefinitionem saeculorum. qui omnia creavit.Anexo:Imprimir/ História do Futuro hora acabem. porque. se podem manifestar e entender. a qual sempre é do último Eis aqui como pode acontecer que descubram o tesouro os que cavam menos: Saepe abseptus quisquam. e S. porque não bastam as forças da sabedoria e entendimento criado. confessa ter recebido a graça de descobrir aos mesmos anjos do Céu os tesouros que lhes estavam escondidos: Mihi omnium sanctorum (diz ele na Epístola aos Efessos) minimo data est gratia hoec in gentibus evangelizare investigabiles divitias Christi. sucede vir um mais venturoso que. XIII de S. Finalmente. nem ouviu neste Mundo como os demais. Jerônimo com mais estrita propriedade o entende particularmente das escrituras proféticas Quantas vezes os que trabalham no descobrimento de algum tesouro. porque costuma Deus ter algumas cousas encobertas e escondidas por muitos séculos. Nas quais palavras se devem ponderar muito quatro cousas: Que é o que se descobriu. e se confessa por mínimo de todos: Mihi omnium sanstorum minimo. tão temorosos aos navegantes. S. ainda que seja de um anjo e de muitos anjos. até o de Cristo. só então. nem viu. diz Ruperto Tertuliano. e cavando alguma cousa de novo descobre a poucas enxadadas e tesouro. se descobriu. que já o não alcançou. porque bem pode o último e o mínimo alcançar e descobrir os segredos que os primeiros e maiores não alcançaram. enquanto ele quer que estejam encobertos e escondidos. quando se descobriu. Aparecia ao 57 . Crisóstomo. em que se passaram mais de 3600 anos. e quando . ut innotescat principatibus et potestatibus in caelestibus per Ecclestam. et illuminare omnes quae sit dispensatio sacramenti absconditi a saeculis in Deo. descubram com poucas enxadas o que muitos em muito tempo e com muito trabalho. e cansaram todos e no cabo descobre o tesouro quais sem trabalho aquele ultimo para quem estava guardada tamanha ventura. e confessando-se por mínimo de todos. Desde que Túbal começou a povoar Espanha. João Crisóstomo. Mateus. que foi no ano da criação do Mundo I80I. sendo os mares que depois dele se seguiam. e de nenhum modo antes. que era provérbio entre eles (como escreve o nosso João de Barros): quem passar o cabo de Não. secundum praefinitionem saeculorum. era o termo da navegação do mar Oceano junto somente à costa de África. que é a Escritura Sagrada. et vilis invenit. Aquele tesouro escondido de que falou Cristo no cap. cavando muito mais. não descobriram. 0 último dos Apóstolos foi S. I428. e logra é fruto dos trabalhos e suores dos primeiros? Assim aconteceu no tesouro das profecias: cavaram uns e cavaram outros. descendo sem trabalho ao profundo da mesma cova. senão prerrogativa dos tempos. meses e anos sem acharem o que buscam. Assim que bem pode um homem menor que todos descobrir e alcançar o que os grandes e eminentíssimos não descobriram. quem o descobriu. Paulo. multiformis sapientia Dei. o cabo chamado de Não. o tornará ou não. a quem se descobriu. Quem o descobriu foi o último de todos os apóstolos 9 discípulos de Cristo. quando chega o tempo determinado e predefinido por Deus para que seus segredos se conheçam e descubram no Mundo. disse verdadeira e judiciosamente S. quod magnus et sapiens vir praeterit. porque esta ventura não é privilégio dos entendimentos. para conhecer e penetrar os segredos altíssimos de Deus. e depois de estes cansados e desesperados. A quem se descobriu foi não menos que aos espíritos angélicos das mais superiores hierarquias do Céu: Ut innotescat principatibus et caelestiu. O que se descobriu é um segredo escondido a todos os séculos passados: Sactamenti absconditi a soculis in Deo. cavam por muitos dias. conforme a ordem e disposição de sua Providência.

É admirável a este propósito um lugar do profeta Daniel. posto que elas são tão claras e expressas que não necessitam de comentador. de sombras. Não havia pensamento que ainda com imaginação (que a tudo se atreve) desse um passo seguro mais adiante naquele tão desusado caminho. desvanecido este escuro. XII de Daniel. Gedeões e Hércules de Espanha se atrevem a imaginar. e isto por um piloto de tão pouco nome e uma tão pequena barquinha como a do seu limitado talento. de impossíveis. dispondo-se ousadamente ao rompimento de uma tamanha aventura. nas escrituras dos profetas. fecharás e selarás o livro (em que escreveres estas cousas que tenho dito). coberto de névoas.:>> Este é o sentido literal e verdadeiro destas palavras do anjo. nem os Bacos. por melhor dizer. plurimi pertransibunt et multiplex erit scientia: >>Tu. o qual feito ponderando o nosso grande historiador com seu costumado juízo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro longe deste o cabo chamado Bojador. depois de um anjo lhe ter declarado grandes mistérios dos tempos futuros. e param suas empresas e ainda seus pensamentos no cabo de Não. de cegueira. como pelo desengano de muitas experiências. porque chegou a hora. demos os louvores a Deus e às disposições de sua Providência. facilitada esta passagem. de passar aquele cabo Bojador. que pode o Bojador ser vencido. ao Mundo e ao mesmo Oceano que também o não navegado era navegável. não havia historiador que de ali adiantasse um momento a conta de seus anos e dias. o que confusamente se representava adiante ao longo deste cabo. claude sermones et sigra librum. para pisar todos esses impossíveis e para navegar segura e venturosamente os mares nunca de antes navegados. cuja passagem. Mas se agora virmos desfeitas estas névoas. usque ad tempus statutum. há cousas de tal modo fechadas e seladas. até que chegue o tempo determinado pela Providência divina. pelo muito que se metia dentro no mar. para que estejam fechadas e seladas até o tempo determinado por Deus. como se pode ver no IV capítulo da primeira Década. o temerosíssimo Bojador do futuro. era a carranca medonha. e entendamos que se passou o cabo. de medos. ou. entretanto passarão muitos por elas. De maneira que. No cap. de horrores. a hora em que Deus tinha limitado o curso de tanto receio. que ninguém as pode entender nem declarar. mandou-lhe que fechasse e selasse o livro em que estavam escritas e lhe disse estas notáveis palavras: Tu autem. era até agora o cabo de Não. Mas quem ler o capítulo seguinte. Mas quando chega a hora precisa do limite que Deus tem posto às cousas humanas. diz breve e sentenciosamente: «E a este seu propósito se ajuntou a boa fortuna. venceu felizmente o cabo em uma barca. sondado este fundo e navegável e navegada a imensidade de mares que depois dele se seguem. dobrado este cabo. com que demonstrativa e indubitavelmente se persuade e convence esta verdade nos próprios termos da inteligência das profecias em que falamos. o qual é o que só tem poder para romper os sigilos e abrir e fazer 58 . chamado Gil Eanes. de nuvens espessas. Daniel. de escuridade. como se pode ver em todos os comentadores de Daniel. se reputava entre todos por empresa tão arriscada e impossível à indústria e poder humano. para atalhar todos esses receios. nem os Cipiões e Júlios de Roma. como todos tinham. verá também como um homem português não de muito nome. quebrou aquele antiquíssimo encantamento e mostrou com estranho desengano à Espanha. foi o primeiro que. nem os Aníbales de Cartago.>> E verdadeiramente é assim: enquanto não chega a hora determinada por Deus. Ali donde chega o presente e começa o futuro. basta Gil Eanes em uma barca para vencer todas essas dificuldades. e haverá sobre a inteligência de seus mistérios grande variedade de ciências e opiniões. Lusos. tanto por fama e horror comum.. Daniel.

antes que ele se veja descoberto nos horizontes. os Tertulianos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro patentes as escrituras fechadas e declarar os mistérios futuros. acharemos que não é outra senão a majestade da sabedoria e onipotência divina. os Jerônimos? Por quantos passaram os Hugos. com que o enredo os vai levando após si. que nelas estavam ocultos e encerrados. assim também eram diversos os selos com que estavam fechados e diversos os tempos em que se haviam de abrir e manifestar. os Sanches. não porque os últimos sejam mais doutos ou de mais aguda vista. cuidam que passam os livros. soberano Autor e Governador do Mundo e perfeitíssimo exemplar de toda a 59 . senão igualmente com eles. e passam por eles: Plurimi perransibunt. e com grande aparato de cerimônias e efeitos admiráveis no céu e na terra. temos relatado este segredo da Providência divina. que depois entenderam os Montanos. com que vão seguindo e variando os tempos. com que dispôs e tem decretado que as profecias se vão descobrindo e entendendo ordenada e sucessivamente aos mesmos passos. que depois en tenderam os Agostinhos. senão quando já vai chegando e se descobre subitamente entre a expectação e o aplauso. e assim se haviam ir entendendo. os Cornélios. os Riberas? E por quantos passaram também estes. porque passarão todos por ele sem entenderem nem penetrarem Isto quer dizer: Plurimi pertransibunt. No Apocalipse (cujas profecias são próprias deste tempo). os Rupertos. ou depois de chegarem. os homens as figuras que nele representam. E se quisermos especular a razão desta providencia. mas o certo e verdadeiro sentido delas sempre ficará oculto e escondido. ou quando já forem chegando. o mistério destas pausas e intervalos era porque se haviam ir descobrindo as profecias que estavam escritas no livro. mas não todo Juntamente. encobrindo-se de indústria o fim da história. Por quantos lugares passaram os Origgenes. por mais doutos. traçada e disposta maravilhosamente pelas idéias de sua Providência. senão em diferentes tempos. não juntamente. sendo o mesmo tempo e os mesmos sucessos os que as abrissem e manifestassem. os Clementes. que é mais certo intérprete das profecias. ou a mais misteriosa de todas. que depois entenderam melhor os que lhes foram sucedendo. Bem assim como antes de se acabar de todo a noite. foi um livro fechado e selado com sete selos o qual era o seu mesmo Apocalipse. dirão cousas muito discretas. assim como eram diversas as profecias e diversos os efeitos e sucessos da Igreja e do Mundo. e para o qual reservou Deus a abertura dos seus sigilos? Signa librum usque ad tempus constitutum. Onde se deve advertir e notar que muitos homem ainda que sejam de grandes letras. muito doutas. os Basílios. e não apartadas de seus efeitos. De maneira que nas profecias estão encobertos os tempos e os efeitos. sábios e santos que sejam os expositores daquelas profecias. senão por passos e espaços: um selo primeiro e outros depois. os Teodoretos. E enquanto este tempo não chega. muito santas e muito várias. Entre as cousas muito misteriosas que viu S. em que a Igreja de Cristo se vai continuando mais claramente que em nenhum outro lugar das Escrituras. sem que se possa entender onde irá parar. e por isso naquele misterioso livro. ajudados e ensinados do tempo. pelos resplendores da aurora se conhece a vizinhança do Sol. e nos tempos e nos efeitos estarão descobertas as profecias. João. que nelas estavam profetizadas. mas porque lêem e estudam à luz da candeia. os Ricardos. foram-se rompendo estes selos e abrindo-se o livro. E assim como o primor e subtileza da arte cômica consiste principalmente daquela suspensão de entendimento e doce enleio dos sentidos. assim Meus. e a história verdadeira de seus sucessos uma comédia de Deus. et multiplex erit scientia. pendentes sempre de um sucesso para outro sucesso. É este mundo um teatro. ou mais vagarosos ou mais apressados. sempre admirável em todas suas obras.

que assim o confessa. O tempo foi o que interpretou a . intellexi in libris numerum annorum. se o não vira esento para maior admiração em um dos maiores profetas. ut complerentur desolationis Hierusalem septuaginta anni: <<No ano primeiro de Dario. E é esta regra (com pouca exceção de casos) tão comum em Deus e seus decretos. senão de si: In anno primo Darii. é do cap. Agora entra o caso e a admiração: Esta profecia de Jeremias. e com este véu. filii Asssueri. falando de suas profecias. de semine Medorum. por isso. E no cap. diz ele. não de outrem. para que umas palavras tão expressas e uma profecia tão clara possa parecer escura? Atravessa uma nuvem (como dizíamos) entre a profecia e os olhos. sendo Daniel um tão grande profeta. que teve o império dos Caldeus: Eu Daniel. Pois se o termo de setenta anos estava profetizado com palavras tão claras e expressas como são aquelas de Jeremias: Et servsent omnes gentes istae regi Babylonis septuaginta annis. XX. ego.>> Estes setenta anos. XXIII: Non revertetur furor Domini usque dum faciat et usque dum compleat cogitationem cordis sui: in novissimis diebus intelligetis consilium ejus. em que ela se cumpria. como consta da exata cronologia que se pode ver largamente provada em Perério e rios comentadores da profecia de Daniel. com que sua mesma clareza se nos faz escura. costuma atravessar entre elas e os nossos olhos umas certas nuvens. descendente dos Medos. de quo factus est sermo Domini ad Jeremiam prophetam. e diz assim: Et erit uníversa terra haec in solitudinem et in stuporem.Anexo:Imprimir/ História do Futuro natureza e arte para manifestação de sua glória e admiração de sua sabedoria. ou sobre os olhos ou sobre a profecia. não quis Deus que o mesmo Daniel. ainda quando as profecias são muito claras. mas assim havia de ser.profecia. Daniel. que Deus tinha revelado ao profeta Jeremias havia de durar a assolação de Jerusalém>> e cativeiro dos Judeus em Babilônia. porque assim o profetizou e o repete o mesmo Jeremias em dois lugares. o claro por claríssimo que seja 60 . diz que se não entenderão senão nos últimos tempos do cumprimento delas: No cap. et servient omnes gentes istae regi Babylonis septuaginta annis:<<Toda esta terra (diz Jeremias. que. sendo Daniel. Daniel. de tal maneira nos encobre as cousas futuras. se acabaram de cumprir no primeiro ano do império de Dario. ou pode fazer. senão no último ano dos setenta. senão no primeiro ano de Dario. e todas as gentes que a habitam. que as profecias se não entendam senão quando já tem chegado ou vai chegando o fim delas. que nos não deixa compreender nem alcançar os segredos de seus intentos. sendo a profecia tão clara e o número dos setenta anos tão expresso. para nos ter sempre suspensos na expectação e pendentes de sua providência. com pasmo e assombro do mundo. não entendi a profecia tão clara de Jeremias. anno uno regni ejus. onde. qui imperavit super regnum Chaldeorum. servirão ao rei de Babilônia por espaço de setenta anos. ainda quando as manda escrever primeiro pelos profetas. E que fez Deus. senão quando Já tem chegado ou vêm chegando os fins deles. XXV daquele profeta. que Daniel afirma que entendeu no primeiro ano do império de Dario. entendi nos livros o número de setenta anos. donec faciat et cormpleat cogitationem cordis sui: in novissimo dierum intelligetis ea. e não Daniel. filho de Assuero. o entendesse senão no último ano. Daniel intellexi: Eu. que foi o último dos mesmos setenta? Podia haver conta mais clara? Podia haver palavras mais expressas? Não Mas como é regra ordinária da Providência divina. Eu o não crera. estando em Jerusalém) será assolada. que não entendeu o número destes setenta anos. quase pelas mesmas palavras: Non avertet iram indignationis Dominus. sendo Daniel. como diz Daniel. E esta parece a energia daquela sua palavra: Ego.

e se achará o que se busca. vemos de mais perto. Oh quantas profecias muito claras se não entendem. et (. Tirem o véu de sobre os olhos. A mulher que buscava a dracma perdida não só acendeu a candeia. porque as quero remos ver por entre nuvens. é necessário que revele também os olhos: Revela oculos meos. cum autem conversu fuerit ad Dominum. auferetur velamen. e contudo essa mesma água (como discretamente advertiu David).. .. a inveja ou a lisonja. velamen positum est super cor eortum. mas nem se busca. De maneira que. Que profecias mais claras que as da vinda de Cristo ao Mundo? E muito mais claras ainda depois de manifestas e provadas com os mesmos efeitos. quando o primeiro intento e nega-la ou quando menos escurecê-la? As nuvens que Deus põe sobre a profecia. porque estamos mais chegados aos futuros. varra-se e alimpe-se a casa. ou que tirem primeiro-o véu de sobre os olhos. como lhes lançou em rosto o grande Paulo Judeu e semente de Abraão. e com véu sobre os olhos! Peço e protesto a todos os que lerem esta História. do tribo de Benjamim: Usque in hodiernum diem. até a água e escura. Capítulo XI) por Padre Antônio Vieira 61 Declara-se qual seja a novidade desta História. mas os véus que os homens lançam sobre os próprios olhos. nem se quer achar. por muito clara que nela esteja. a vingança ou o interesse. porque todos os que cavaram neste tesouro e varreram esta casa. se os cega o amor ou ódio. e logo verão os olhos o que há nela. só eles os podem tirar. e que as cousas novas. cum legitur Moyses. Por isso pedia o mesmo David a Deus que lhe tirasse o véu dos olhos. Como se hão-de entender as revelações com os entendimentos e olhos vendados? Não basta só que Deus tenha revelado os futuros. resumindo toda a resposta da objeção. et considerabo mitrabilia de lege tua. e logo se verão a candeia e mais o que ela alumeia. porque não há cousa mais clara. mas varreu a casa:. A candeia está acesa e muito clara. e verão a luz das profecias: ainda que a profecia seja candeia acesa. História do Futuro (Volume I. para o dizer melhor. porque vemos sobre os passados. e achamos os impedimentos tirados. o tempo as gasta e as desfaz.. a esperança ou o temor. é escura: .. por claras e claríssimas que sejam.tenebrosa aqfxa in nubibgs aeris Em havendo nuvem em meio. Olhamos de mais alto. como se há-de ver com os olhos cobertos? Tire-se o impedimento à luz.accendit lucernam. Se os olhos estão cobertos e escurecidos com o véu do afeto ou com a nuvem da paixão. dizemos que é clara como a água. tirem-se os estorvos e impedimentos à luz. Quando queremos encarecer uma cousa de muito clara. porque olhamos de mais alto.) everrit domum. ou. porque eles são os que querem ser cegos. foram tirando impedimentos à vista. e que distinguimos melhor porque vemos mais perto.. porque têm os olhos cobertos com aquele antigo véu de Moisés. E contudo estas são as que mais obstinadamente nega a cegueira judaica. como eles. não desmerecem o crédito de sua verdade. como se pode entender a verdade da profecia. com uma nuvem diante. por providência do Senhor dos tempos.. e que trabalhamos menos porque achamos os impedimentos tirados. e tais são as profecias.Anexo:Imprimir/ História do Futuro fica escuro. e tudo isto por beneficio do tempo. ou se não querem entender. digo que descobrimos hoje mais. ou que a não leiam. mas a casa não está varrida. para que pudesse conhecer as maravilhas dos seus mistérios: Revela oculos meos.. por novas.

que nos precederam no Senhor. nos Soares. como os outros escritores. em quantos Evros e tribunais de Gentios e Judeus foi terminada pela glória deste título! Acusação foi de que a defendeu Tertuliano. qui nos in Domino praecesserunt et qui Scripturas Sanctas interpretati sunt. superfluum est te voluisse disserere. para que não falemos nos Waldenses. e não é. illos in eis falli potuisse non creditur. supérflua diligência é quererdes vós explicar o que os outros não podem deixar de ter entendido». te quoque in eis falli potuisse credendum est.si manifesta. Si enim obscura sunt.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Quando no princípio deste livro prometemos cousas novas aos curiosos. Jerônimo na versão da Sagrada Bíblia. zelo e elegância. Bernardo Santo Tomás. ou o que era manifesto. tão estranhada quando nova.] respondeat mihi prudentia tua. supérfluo trabalho é cansar-vos em querer fazer entender o que eles não podiam deixar de ter entendido. respondo com as mesmas vossas palavras: Todos os expositores dos Livros Sagrados. A primeira instituição da vida monástica. Jerônimo: De vertendis autem in latinam linguam sanctis litteris laborare te nollem [ ] aut obscura sunt. João Crisóstomo. Responda-me logo vossa 62 .. Agostinho — que eu me não devia cansar em interpretar as Escrituras depois dos antigos intérpretes delas. por estas palavras:: Porro quod dicis non debuisse me interpretari post veteres. ao qual respondeu S. Si obscura. e todos os outros padres que antes e depois destes escreveram contra Gentios. porque ou elas são escuras ou manifestas. Gregório. com razão se crê que também vos podeis enganar na sua interpretação. ou interpretaram o que era escuro. sendo o estado mais santo da Igreja Católica. obra é — diz o santo— em que eu não quisera que vós empregásseis o vosso trabalho. Jerônimo a S. e para isso usais daquele novo silogismo. e pelo qual. que hoje adoptamos por canónica.. Se escuras. cousa alguma que encontre a Fé ou doutrina da Igreja. S. nos Platins. Pensão é muito antiga das cousas boas e grandes serem acusadas de novas. Boaventura. bem advertimos que metíamos as armas nas mãos aos críticos. quando o seja. aut manifesta. escritas não a outrem. e verdadeiramente com vitória. quod illis latere non potuit [. 0 reparo da novidade não é crime de que ela tema ser acusada. ac per hoc utroque modo superflua erit interpretatio tua. superfuum est te voluisse explanare quod i11is latere non potuit: «!Quanto à versão das Escrituras Sagradas na língua latina. nem só por quaisquer católicos. nos Barónios. Quero pôr aqui as palavras deste grande e santíssimo doutor. contanto que não tenha. quod illi explanare non potuerunt? Si manifesta. quomodo tu post eos ausus es disserere. Mas o maior exemplo de todos neste caso é o daquela divina obra de S. senão pela maior luz da Igreja. nos Belarminos. ponha em risco o crédito da sua verdade. Até aqui zelosa. alius de eo scribendi non habebit licentiam.. S. mas são estas armas já tão velhas e ferrugentas. pela novidade do hábito e modo de vida! Digam-no as apologias de S. A mesma Lei de Cristo chamada por sua novidade evangélica.. Santo Agostinho. S. e se manifestas. Arnóbio. Lactancio. senão ao mesmo S.] tuo tibi sermone respondeo: omnes veteres tractatores. como vos atreveis também a declarar o que eles não puderam? Se o que era manifesto. ainda que a novidade da nossa História fora qual se supõe. aut manifesta. et novo utens syllogismo [. Se o que era escuro. que acusações não padeceu antigamente (e padece ainda hoje) dos hereges. te quoque in eis falli potuisse creditur. si manifesti. não por Gentios ou hereges. quare tu post tantos ac tales scriptores et interpretes in explanatione Psalmorgm diversa senseris? Si enim obscurt sunt Psalmi. Jerônimo com igual engenho. et quodcumque alius occupaverit. que não há muito que temer seus golpes. Prudêncio. elegante e engenhosamente Santo Agostinho. «Quanto ao que me dizeis—diz S. como por graça de Deus não tem. se por si mesma lhe for devida. et hac lege post priores nullus loqui audebit.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro prudência: com razão. a qual hoje é de fé. Agostinho sobre a novidade da sua exposição dos Salmos. e não só entre os inimigos e impugnadores da verdade. mas sobre esta lhe argüía Rufino e outros homens doutos tais calúnias.» Isto dizia Santo Agostinho a S. e ainda os Salmos não estão bastantemente interpretados. senão o como se escreveram. Discretamente. que a queriam fazer não menos que herética. e tanto que um se adiantar à exposição de algum Livro Sagrado. Jerônimo à queixa da sua nova versão. e isto S. et quod hodie exemplis tuemur inter exempla erit. Jerônimo outro reparo mais que a glória de ser sua e nova. Jerônimo sobre a novidade de sua versão. Uns o faziam por zelo. escolha parece mais de cela vinária. 63 . senão a razão. que não há cousa debaixo do Sol que não fosse nova. e é de fé católica. Não tinha esta de S. e se são claros e manifestos. tempo houve em que também foi nova. porque antepor o velho ao novo só pelos anos. As trevas foram mais antigas que o Sol e os animais que o homem. para que se veja quais são os juízos dos homens e quão impugnadas que costumam ser as obras de que Deus se quer servir. senão entre os maiores zeladores e defensores dela. Dizeis que a religião cristã é nova. vos atrevestes na exposição dos Salmos a sentir diversamente do que eles sentiam? Porque. e depois dela se escreveram infinitas outras mais novas. A antigüidade das obras é um acidente extrínseco que nem tira nem acrescenta validade. supérflua é e não necessária a vossa interpretação E segundo esta lei. lhes granjeia a triste fortuna de serem mais venerados ou melhor conhecidos depois da morte. argumentava Arnóbio contra os Gentios. inveterescet hoc quoque. porque ainda não tem quatrocentos anos. foi o primeiro que lhes deu a autoridade. a que dá o crédito e autoridade aos escritores. nova fuere: plebei magistratus post patricios. que hoje se chama Vulgata. coeterarum Italiae gentium post latinos. Jerônimo a S. e aquele que as começou sem autor. quae nunc vetustissima creduntur. que vivos. ninguém poderá falar depois dos primeiros. latini post plebeios. et obtrectarorum meorum latratibus patens. Acudia S. nova pro veteribus cudere. Jerônimo escreveu em defesa daquela nova versão da Sagrada Escritura. que não fosse nova em algum tempo? Diz Salomão que não há cousa nova debaixo do Sol. outros por inveja. E verdadeiramente é assim: quantas cousas são hoje exemplos que começaram sem exemplo? Todas as opiniões ou verdades que se escreveram. todos por ignorância. Mas destes mesmos exemplos se convence claramente quão frívolas são e pouco eficazes as acusações do que se estranha por novo. qui me asserunt in septuaginta interpretum sugillatione. e só porque põe os autores delas mais longe dos olhos da inveja. ita ingenium quasi vinum probantes. por ser mais antigo. A mais nova entre todas as do Mundo foi o mesmo Mundo. e ainda é mais universalmente certo. Se a nossa religião é nova. que hoje . e há menos de dois mil que os deuses que vós adoráveis ainda não tinham cento. também se deve entender que vós vos podeis enganar na sua inteligência. tempo virá em que seja velha. Que cousa há hoje tão antiga. Não é o tempo. que do trono ou cadeira de Salomão. como se só os antigos fossem católicos e a verdade sem cãs não fosse verdade. tiveram princípio. depois de tantos e tais intérpretes. nem o Novo perde a perfeição e excelência que tem sobre o Velho. logo nenhum outro terá licença para escrever sobre ele. é antiqüíssima e mui venerada. O Testamento Velho não é mais perfeito que o Novo. Com a mesma energia disse o imperador Cláudio ao senado: Omnia. Patres conscripti. nem se deve perguntar o quando. e diz assim contra Rufino: Periculosum opus certe. por ser mais novo. e se a vossa superstição é velha. se os Salmos são escuros. E notem os leitores que são estas palavras de uma das apologias que S. Assim que os reparos da novidade são pensão (como dizia) das cousas boas e grandes. muitos por malícia.

saber só o que os Antigos souberam. que será naquele pego imenso e profundíssimo das divinas) Mas ouçamos também aos antigos delas. se ainda lhe restam por sua confissão novecentos e oitenta e quatro séculos (se tantos durar o Mundo) para dizer e inventar muito de novo sobre o mesmo Sêneca? Se depois do divino Platão (como pondera Túlio) não acovardaram os seus escritos a Aristóteles para que não escrevesse. que inventar. como dizem os Italianos dos Alemães. Meminisse est rem commissam memoriae custodire. se o segundo. sed multum interest. não é. at contra scire. 64 . qui ante nos fuerunt. Se o primeiro. dezesseis séculos antes deste nosso. Noe. et toties ad magistratum respicere. LXIV. e só lhes damos licença para decorarem e repetirem o que disseram os passados? Se assim fora. nec ipse Aristoteles admirabili quadam scientia et copia caeterorum studia restrinxit Até aqui estes dois gentios. sed non peregerunt. que vem a ser. utrum ad consumptam materiam. Mathusalem. an ad subactam accedas: crescit in dies. e estes velhos eram aqueles varões veneráveis da primeira antigüidade — Seth. como bem disse o mesmo Sêneca. em que era ainda maior a soberba e presunção que a ciência. ou que não há capacidade nos modernos para as poderem descobrir e dizer. que todos se ocupam na erudição do passado. Porque. grande afronta aos homens e à nossa idade. debalde nos deu Deus o entendimento. mas ainda nos deixam seus grandes talentos em que exercitar os nossos. e se lhes deve o primeiro louvor. sed aperuisse.Anexo:Imprimir/ História do Futuro E verdadeiramente que. pois nos bastava a memória. que descobrir e saber nelas. aliud scire. post mille secula. nec ulli nato. saber. sendo ambos eminentíssimos nas suas artes não duvidaram confessar que havia ainda muito mais que andar. sendo por comum aprovação do Mundo um dos maiores engenhos que produziu a Grécia e a mesma natureza. E na epístola LXXIX:: Et qui praeesserant. David que veio ao mundo 3000 anos depois de sua criação. é lembrar-se: Aliud est meminisse. se bem apontamos os fundamentos destes impugnadores d a novidade e as razões daquela dura lei com que forçosamente querem que sigamos em tudo os antigos e adoremos as suas pisadas. est et sua facere quemque. ou é porque têm para si que já se não podem dizer cousas novas. porque havemos de querer abreviar as mãos do Autor dela e cuidarmos que já não podem falar de novo os homens presentes. multumque restabit. E começando pelos Gentios. dizia confiadamente. na epist.. Mas não me ouçam a mim. grande injúria fazem à verdade e às ciências. non praeripuisse mihi videntur quae dici poterant. Estes tais haviam de ter a testa virada para as costas. Séneca. et inventum inventa non obstant. ouçam aos mesmos antigos. porque havemos nós de esperar e afrontar tanto a nossa idade e os homens dela. que muito é que se atreva a dizer alguma cousa nova a nossa idade.] Multum egerunt. ainda teriam muito que dizer na mesma filosofia moral em que ele tanto e tão sutilmente disse. nec ab exemplari pendere. E se estes. e se ele conheceu que os que nascessem de ali a mil séculos. E se isto é assim nas ciências humanas. formando um perfeito orador no livro Orator: Nec vero Aristotelem in philosophia deterruit a scribendo amplitudo Platonis. [. Muito alcançaram os Antigos. sem descobrir nem inventar cousa nova. nem a admirável sabedoria e cópia do mesmo Aristóteles pôde apagar os fogosos espíritos de tantos filósofos que depois dele e sobre ele escreveram. Enoch. E Marco Túlio. por boas contas. que cuidemos que já não podem adiantar as ciências nem dizer e acrescentar sobre elas cousa de novo? Sêneca floresceu nos tempos de Nero. escreve ou ensina a Lucilo desta maneira: Multum adhuc restat operis. praecludetur occasio aliqua adhuc adjiciendi. que soubera e entendera mais que todos os velhos: Super senes intelexi. alumiados só pelo lume da razão..

senão doutrina de S. os Profetas mais que Moysés. os Tertulianos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Abraão. dos Boécios. II: Divinarum Institutionum. dos Teodoretos. a quem tinham precedido os Dionisios Areopagitas. os Orígenes. Mas nem por isso depois de tantos e tão esclarecidos lumes da Igreja deixaram de espalhar nela. dos Procópios. dos Máximos. aumentou e adiantou tanto o estudo das divinas letras. que por aplauso comum do Concílio oitavo toletano foi preferido a todos os Doutores na doutrina ética e moral. os Justinos. os Arnóbios. os Clementes Alexandrinos. Samuel e tantos outros de igual sabedoria e nome. passados os tempos de Cristo e de sua vida. E o mesmo que tinha sucedido naquela primeira e antiga igreja. que são o sabor dos entendimentos se contentam os homens com a vulgaridade ou velhice dos manjares usados: Nam cum nova semper expectant voluntates. Melquisedech. porque. os Policarpos. plus namque Moyses quam Abraham. quam Prophetae in Omnipotentis Dei scientia eruditi sunt: «Ao passo que iam procedendo os tempos —diz S. sed post priorum studia in domo Domini. se experimenta depois na segunda. de que ela tinha sido figura. Papa: Per incrementa temporum crevit scientia spiritualium Patrum. dos Cassianos. só nas ciências. quod possumus. que floresceu muito depois do mesmo Lactancio e a quem prece deram os Hipólitos. os Cirilos. José. os Taumaturgos. os Inácios. dos Atanásios. acrescentando. sempre foram também crescendo. depois dos Euquérios. em que a sabedoria eterna viveu humanada no Mundo entre os homens (que foi um parêntesis excessivo e infinito de luz. dos Paulinos. com o qual nenhum outro estado da Igreja se pode comparar). no Liv. Jerônimo. dos Leões. na Apologia acima citada . conhecendo sempre mais de Deus os segundos que os primeiros. dos Cassiodoros. em todos os séculos seguintes. e do mesmo Jerônimo. Nazianzeno e Niceno. contra Rufino. laboramus. e. Padre dos primeiros séculos da Igreja. com novos e maiores resplendores. Moyses soube mais das cousas divinas que Abraão. as ciências divinas. depois dos outros dois Gregórios. nos séculos que depois foram sucedendo. ainda que fossem diminuindo na idade. o renome de doutor Máximo. Gregório. os Ciprianos. os Atanásios. em que se contaram quatro mil anos. com aquele famoso elogio: In ethicis assertionibus praecunctis merito praeferendus. et gulae earum vicina maria non sufficiant. depois dos Hesíquios. cur in solo studio scripturarum veteri sapore contentis sunt ? São Gregório Magno. dos Padres e Doutores sagrados. Não é consideração minha.quae si hominibus aequaliter datur. os Hieroteus.depois dos Clímacos. estas palavras: Quid igitur? Damnamus veteres? Minime. depois de um Crisóstomo. Desde a criação do Mundo até a reparação dele. quam Moyses. Lactancio Firmiano. S. occupari ab antecedentibus non potest. que mereceu na eminência delas. por consenso e pregão universal da igreja. ilustrando e escrevendo muitas cousas de novo os que vinham depois. de um Ambrósio e de um Agostinho. dos Fulgêncios. dos Crisólogos. sendo o apetite ou gula humana tão ambiciosa de novos e esquisitos sabores. dos Pascásios. penetrou tão alta mente o espírito interior da Teologia Mística e Ascética. que veio ao Mundo para lhe dar melhor cabeça do que seu juízo e errados juízos merecem. estranha muito que. E convertendo-se no fim contra os vituperadores dos inventos novos. plus A postoli. Gregório— ia juntamente crescendo a sabedoria dos antigos Padres. sobre o que tinham sabido e ensinado os mais antigos. os Basílios. novos raios de novas luzes os três ilustríssimos 65 . Moisés Josué. plus Prophetae. os Teófilos. os Ireneus. o que é mais que tudo. sempre os homens se foram excedendo na sabedoria divina. os Epifânios. diz assim: Nec qui nos illis temporibus antecessunt. escreve o santo Doutor com a modéstia com que costumam falar os homens maiores. nova e mais perfeita em que hoje estamos. os Apóstolos mais que os profetas». Isaac Jacob.

os Caetanos. tiveram que inventar mais que os segundos. se tem confirmado pela grandeza e liberalidade de Deus em todos os séculos. e depois dos que já não eram os primeiros. entre os quais Ricardo Vitorino. cuja imensa e infinita circunferência só a pode abraçar 0 que é imenso e compreender O que é infinito? Se depois dos antiquíssimos tiveram que descobrir os menos antigos. aliquid addere possumus [. e desde aquele tempo. que mais parecem novas que renovadas. vel mirum.. produz inacessivelmente todos os anos tantos frutos novos. passado o cabo de Boa Esperança. os Canísios. que foi pelos anos de mil e trezentos a esta parte. nome singular. um Alexandre de Ales e o famosíssimo e subtilíssimo Scoto. e depois de tanto escrito. non credunt scientias impertiri ad innovandos sensus hominis interioris: «Não se tenha por cousa grande — diz Ricardo — nem merecedora de admiração. os Toledos. possamos acrescentar alguma cousa de novo. porque não só alumiou a Divina Providência pouco depois o Mundo todo com aquelas duas tochas claríssimas e santíssimas de teologia — Santo Tomás e São Boaventura — mas antes e depois deles.. e muitos outros. os Soutos. si in uno aliquo.] haec propter illos dicta sunt. E porque é matéria impossível e número sem conto. não só luz. os Eutímios. que em outra idade podiam ter nome de primeiros planetas. as cercou de tão luminosas e resplandecentes estrelas. a tirasse a todos os outros de novos descobrimentos? E se depois deste famoso círculo do Universo. os Vitórias. Mas se Deus para sustento e gosto dos corpos. os Sofrónios. os Lugos. qui nihil acceptant. mais que escrever. senão o que primeiro foi recebido pelos antiquíssimos Padres. que será na esfera da sabedoria e da verdade. em cujos felicíssimos e imensos escritos se vêem tão adiantadas as letras divinas. que em alguma matéria das que escrevemos. se se pode ainda sobre os Antigos dizer alguma cousa de novo. os Rupertos. depois de cheios eles. porque não cuidarão que também as ciências podem produzir cousas novas para alimento e recreação das almas?» Não se podia explicar com mais clara comparação nem provar-se com mais eficaz argumento. os Bedas. É porventura o saber e dizer patrimônio só da Antigüidade e morgado como o de Isaac que. e depois de tanto estudado e sabido. as quais depois deste doutíssimo século se multiplicaram em tanto número. Eugenio e Ildefonso. mais que estudar e saber? 66 . um Bernardo. os Belarminos. nisi quod ab antiquissimis patribus acceperunt. para aumento ou competência de suas mesmas luzes. Digam agora os reprovadores das que eles chamam novidades. senão fonte de luzes. os Anselmos. que se pode com razão dizer do Mundo o que Deus disse a Abraão do firmamento: Numera stellas. haja mais que dizer. parou a fonte milagrosa. como foram um Alberto Magno. ainda ficaram mares e terras incógnitas que prometem novas empresas e novos argonautas. com mais repetidos exemplos que nos passados. os Soares. os Medinas. porque não quererão os adoradores ou aduladores da Antigüidade que. fiquem em silêncio (por mais que tão grande brado deram nas escolas) os Vasques. os Molinas. os Damascenos. não fica outra para Esau? São os antigos como os cântaros da Sareftana (comparação de que usa Ruperto) que. diz assim no prólogo de um deles: Non est magnum. defendendo modestamente alguma novidade que se acharia em seus livros. e digo isto por aqueles que nada admitem nem lhes é aceito. sed sicut Deus produxit novos fructus ad recreationem hominis exterioris. os Elísios. si potes. os Teofilatos. ainda depois de tanto dito. os Valenças. e não correu mais o óleo? Houve neste grande oceano de ciências alguma nau Vitória que desse volta a todo o mar? ou algum Gama que.Anexo:Imprimir/ História do Futuro espanhóis — Isidoro. dada a bênção a Jacob.

Se acaso houver quem as impugne e contradiga. ampliorem scilicet rerum notitiam promittens et ipse posteris. e col sapere insieme Ne' cuori enflati i suoi veneni sparti. sendo aquele a quem o Baptista não era digno de desatar a correia do sapato. o qual. Fechemos este discurso. e todos se armaram destas apologias. como sempre falou pela boca da Escritura. Até aqui São Bernardo. Et sua quod rarus tempora lector amat? Hi sunt invidiae nimirum. Roma. Praeferat antiquos semper ut illa novis. 67 .Che come crebber l'arti. E esta novidade foi o alvo das maiores contradições. isto é. Mas antes de Petrarca o tinha dito em Roma o nosso discreto espanhol: Esse quid hoc dicam.signum cui contradicetur. do que tiveram e alcançaram os Antigos. sendo ele a luz de todos os Profetas. por não confessar o que lhe falta. e cada um condena o que não tem. dizia que daria de alvíssaras o que sabia. diziam que era um dos Profetas antigos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Como temo que os que condenam as cousas novas. que afirmou que soubera mais que os passados.. outro de Daniel. vivis quod fama negatur. dicens: Super omnes docentes me intellexi. Regule. se lhe dessem o que ignorava.e Soares. e pode ser que muito remendadas! O avarento chama pródigo ao liberal. foi aquela de que disse o Profeta: Creavit Dominus novum super terram: faemina circumdabit virum. Sed et propheta Daniel: pertransibunt. e nenhum careceu de quem lhas impugnasse. crueldade que só se lê de Mezêncio. porque todos disseram cousas novas. quando disse: Ecce nova facio omnia. como também predisse outro profeta: . e o prova e refere em dois textos ou dois exemplos: um de David. mas querer precisamente que nos atemos em tudo aos passados. Os que mais queriam louvar a Cristo. que tanto tinha em si do que os Antigos souberam. O covarde temerário ao valente. Crebbe l'invidia. são aqueles que não podem dizer senão as muito velhas.. Si veterem ingrati Pompeii quaerimus umbram Et laudant Catulli vilia templa senes Ennius et lectus salvo tibi. nem grande sem inveja: . Todas as cousas novas que se disserem nesta História. ait plurimi et multiplex erit scientia.. assegura firmemente aos vindouros que poderão ter maiores notícias das cousas. é querer atar os vivos aos mortos. Marone Et sua riserunt saecula Maeonidem. que também lhe tinha escrito lastimado da mesma chaga. Não ha cousa boa sem contradição. que prometeu saberiam mais os futuros: David quoque super doctores suos et seniores donum sibi intelligentiae audacter praesumit. O distraído hipócrita ao modesto. porque nem Deus pode fazer cousa de novo. o que ficou aos vindouros para poderem saber e dizer de novo.. sem contradição dos mesmos para quem as faz. mores. escrevendo a Hugo de São Vítor. A cousa mais nova que Deus fez no Mundo. são aquelas que Deus tem prometido que há-de fazer. e Herodes se persuadia que não podia ser senão o Baptista ressuscitado. ou adocemos a dureza deste rigor com o melífluo Bernardo. Todos os grandes engenhos tiveram sempre esta queixa. O grande P.

cuja foi esta advertência: . já havia cores e luz. Todos os frutos nasceram igualmente naquele dia. porque a América esteve tanto tempo oculta.. e sendo cousa antiga e sua. Nas ciências nascem poucas verdades.] cum autem ultimarent tempora patriae. a tinha por novidade. como se vêem cada dia tantas novidades no Mundo? São novidades de cousas não novas. por não ser necessário este escudo à minha História respondendo à objeção da novidade dela. Serão novas neste nosso livro cousas que foram primeiro que as que hoje se têm por antigas. não tivera ocasião o preceito. Se não fora assim. a quem Cristo abriu os olhos. mas estas tiveram este nome. e tais serão as desta História.. illa dicitur Carthago studiis asperrima belli. depois de serem velhice no Egito. mas como havia muitos anos que gozavam da altíssima paz. porque se não 68 . De maneira que o aríete. com África e com Europa? E contudo. porque os primeiros inventores daquele bravo instrumento tinham sido os mesmos Cartagineses. recolhendo todos estes exemplos. ut novam extraneum ingenium. Porventura aquela metade do Mundo a que chamavam quarta parte. Ao terceiro dia da criação produziu a terra todas as árvores carregadas dos seus frutos. Quando Adão saiu flamante das mãos de Deus. prima omnium armasse in oscillum penduli impetus [. mas para aqueles bárbaros. como pouco há dizia Salomão. Quando os Romanos a primeira vez bateram os muros de Cartago com o aríete ou carneiro militar. ficaram os Cartagineses assombrados com a novidade daquela máquina. Quero dizê-lo com palavras do grande Tertuliano. et aries jam romanus in muros quondam suos auderet stupuere illico Carthaginienses. senão por esquecido. os figos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Mas para que não pareça que defendo as cousas novas. foram novidade em Roma. Nem eram elas as novas. :Ê uma História nova sem nenhuma novidade. mas não havia olhos. Tantum aevi longinqua valet mutare vetustas. que somos os sábios. não foi criada juntamente com Ásia. primeiro foi que a antiga de Aristóteles. e não era novidade. por isso os últimos e mais distantes se chamam novíssimos.arietem [. porque se não sabem. abriu os olhos. as mais delas ressuscitam. que com tão continuado aplauso do Mundo os fez sólidos e incorruptíveis. Propriedade é dos futuros serem sempre novos todos. senão esquecimento.. não por novo. e todas eram mais antigas que ele. senão novas por antiquíssimas. como isto possa ser.. A nova opinião dos céus fluidos.. outras a ignorância. umas cousas faz novas o esquecimento. as uvas e também as frotas novas. Muitas novidades se verão nesta nossa História não novas por novas. é chamada Mundo Novo. foram novas as cores. A novidade da nossa História há-de ser mais dos leitores que dela. novo para nós. parecia instrumento novo aos mesmos Cartagineses. de que Cartago tinha sido a primeira inventora. nem por isso ela será nova.. Assim que. ele era o novo. ainda que não eram novas as quantidades. e viu tanta cousa nova. nem tentação o pecado. outras a distancia. não por novo. porque se não lembram. senão por muito antigo. velho e muito antigo. porque as apalpava. explicarei por alguns exemplos. As pirâmides e obeliscos que assombraram com tão nova e desusada grandeza o foro romano (com boa vénia dos Padres Conscritos). outras a escuridade. mas ainda que esta História seja toda de cousas tão novas. e uma perpétua novidade sem nenhuma cousa de novo. porque se não vêem.] nemini umquam adhuc libratum. com ser tão grande. nenhuma cousa direi de novo. esquecia-se Cartago do que inventara Cartago. digo que em toda essa novidade. porque as não via. não há cousa nova. Se no Mundo. também recebida em nossos dias. porque chegaram mais tarde à nossa terra. as pêras. Para aquele cego de seu nascimento.

sed de sua veritate censeatur. e é assim. logo da novidade é o louvor. quad ante vetustas non intellectum venerabutur.scriba doctus [. Mas notou Santo Agostinho que não disse Cristo as velhas e as novas. no amigo constância. absolutamente nas cousas que se consomem com o tempo.. Lembraremos nela muitas cousas esquecidas. outras a negligência. mas este louvor. como dizíamos. porque foram os primeiros inventores das cousas. não é só obséquio e piedade. senão as novas e as velhas.] profert de thesauro suo nova et vetera: «Os doutos quando escrevem. contudo. assim no certo como no provável.. Merecem maior louvor os Antigos. o escuro das profecias. As cousas velhas são do tempo. A velhice no ouro é preço. sempre foram e sempre hão-de ser as mesmas.. descobriremos muitas ocultas.. haverá muito nesta nossa História. porque não é nem será possível seguir em algumas cousas das que dizemos ou . Saber as velhas e inventar as novas. E como a verdade da nossa História toda (como vimos) tenha o seu princípio em Deus. amigo velho. senão obrigação e respeito). que por essência é sabedoria e verdade. certamente entre umas e outras não se pode dar regra certa. poremos à vista muitas distantes e procuraremos saber muitas ignoradas.. posto que nem sempre se conhecem igualmente. para alumiar e penetrar com sua luz. nem se atenda se é velho. em outros se logra a fortaleza. tiram do seu tesouro as cousas novas e mais as velhas. não é elogio da antigüidade. no vinho madureza. e segui-los como havemos de seguir em tudo. pois o mereceram. porque sempre são. sed de sua veritate censetur. quam temporum. em que não tem jurisdição o tempo. Se fora outro o autor desta História. no navio e na casa perigo. melhores são as novas.germana divinitas nec de novitate nec de vetustate. as novas nossas. História do Futuro (Volume I. impropriamente se chamam novas ou velhas. nem se repare se é novo. dando o primeiro lugar às novas. pedimos aos que a lerem que. O tempo umas cousas melhora e outras corrompe: ouro velho. depois dos Apóstolos (os quais não entram nesta controvérsia. porque as avaliou a suma justiça pelo merecimento e não pelo tempo: Non dixit vetera et nova. disse Tertuliano judiciosamente que nem é velho nem novo. se bem se considera.Anexo:Imprimir/ História do Futuro alcançam. Mais defendida está Roma com os muros de Urbano. mas só se considere se é ou pode ser verdade: Nec de novitate nec de vetustate. ainda que o merecêramos. e posto que o nosso desejo fora levar sempre diante dos olhos esta segunda tocha. no vestido pobreza. casa nova. E quanto ao louvor que renunciamos facilmente. vinho velho. outros pelo que são. senão da novidade. as novas do merecimento. porque as velhas são alheias. alumiaremos muitas escuras. vestido novo. em uns se admira a antigüidade. que com os de Beluário. e de todas estas novidades sem novidade. nisi maluisset meritorum ordinem servare. mas verdadeiro: . quod utique dixisset. Todos dizem que os Antigos merecem maior louvor. folgara eu que se pudera dizer dele com Vincêncio Lirinense: Per te posteritas gratulatur intellectum. como Padres e lumes da Igreja.. E por não deixarmos sem juízo a controvérsia disputada entre as cousas novas e as velhas. porque se não buscam. uns se conservam pelo que foram. porque em tudo o que escreveram foram alumiados pelo Espírito Santo. A verdade e as ciências. quando as descobriram de novo. navio novo. digo com indiferença o que ensinou Cristo: . isto parece que é ser douto. Capítulo XII: Dá-se a razão por que em algumas partes desta História se não alegaram padres e seguiram exposições dos escritores modernos) por Padre Antônio Vieira 69 Ainda que o nosso intento é seguir em quanto nos for possível as pisadas dos antigos Padres. De Deus.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro dissemos este nosso intento e desejo, pede a razão e ordem da mesma Escritura que, antes de passar mais adiante, desfaçamos este reparo, para o que os menos doutos ou mais escrupulosos não topem nele e levem desde logo entendidas as causas do que fizermos e os fundamentos, licença ou autoridade com que o fazemos. Ver-se-á em algumas partes desta História, que ou não alegamos Padres antigos, ou nos desviamos da explicação que deram a alguns lugares da Escritura, o que não fazemos senão com grandes razões, sem ofensa da reverência que lhes devemos nem da verdade que seguimos, antes para maior segurança e fundamento dela, a qual é o nosso intento e obrigação buscar e descobrir adonde quer que se ache, antepondo este respeito a qualquer outro, pois à verdade se deve o maior de todos. As razões que nos movem e obrigam são três: a primeira, porque os Doutores antigos não disseram tudo; segunda, porque não acertaram em tudo; terceira, porque não concordam em tudo. E com qualquer destes casos nos pode ser. não só lícito e conveniente, senão ainda necessário seguir o que se julgar por mais verdadeiro; porque nas cousas que não disseram, é forçoso falar sem eles; nas cousas em que não acertaram, é obrigação apartar deles; e nas cousas em que não concordaram, é livre seguir a qualquer deles; e também será livre e lícito deixar a todos, se assim parecer, como logo explicaremos.

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Prova-se a primeira razão
Primeiramente é certo que os Padres antigos não disseram tudo, e se prova claramente com a experiência e lição de seus próprios livros, nos quais se não acha memória de muitas cousas grandes e doutas, achadas e acrescentadas depois, não só nas outras ciências divinas, mas na inteligência das mesmas Escrituras Sagradas, e particularmente nas dos profetas, que nos tempos mais chegados a nós se descobriram, disputaram e entenderam como se lêem nos escritores modernos; e posto que para os 5 versados na lição de uns e outros bastava esta suposição somente apontada, porei aqui para os demais as palavras de dois grandes doutores, Castro e Canísio, ambos do século antecedente a este nosso, e ambos diligentíssimos investigadores da antigüidade e doutíssimos na erudição da Escritura, Concílios e Padres, os quais expressamente afirmam que muitas cousas se sabem e entendem hoje que foram ignoradas dos Padres antigos, como fala Castro ou incógnitas a eles, como mais certamente diz Canisio. As palavras deste segundo, no livro primeiro De Beata Virgine, cap. VII, são as seguintes: Demum habuerint Patres suorum temporum rationem quibus multa vel prorsus incognita erant, vel obscura neque satis evoluta, quae posteris diligentius excutienda, et clarius illustranda, explicandaque non sine certo Dei consilio reliquebantur... E Castro, no Liv. I Adversus haereses, cap. II, depois de provar o mesmo com o lugar do cap. VI dos Cantares, que abaixo citaremos, conclui assim: Quo sit, ut multa nunc sciamus, qae, a primis Patribus aut dubitata, aut prorsus ignorata fsuerunt. A qual diferença se não conheceu só com a comprida experiência dos nossos tempos, senão já nos mesmos Padres se conhecia, como muitos deles escreveram, e particularmente entre os da primeira idade, Tertuliano, e entre os da última Ricardo Vitorino, cujas palavras de ambos referiremos neste mesmo capítulo. A razão de muitas cousas que hoje se sabem serem incógnitas aos Padres antigos, se pode considerar, ou da parte de Deus, ou da parte das mesmas cousas. Da parte das mesmas cousas, nos não devemos admirar que lhes fossem incógnitas, por serem muitas delas dificultosas, escuras e mui recônditas nas Escrituras Sagradas e enigmas dos profetas, as quais se não podiam entender e penetrar só com a agudeza dos entendimentos, por sublimes e sublimíssimos que fossem, em quanto não estavam assistidos de outras notícias

Anexo:Imprimir/ História do Futuro e circunstancias, que só se descobrem com o tempo e adquirem com larga experiência. Excelente exemplo é nesta matéria o das ciências é artes, ainda naturais, as quais em seus princípios e rudimentos foram imperfeitas, e com os anos, experiência e exercício se vêem hoje sublimadas a tão eminente perfeição, como a náutica, a bélica, a música a arquitetura, a geografia, a hidrografia e todas ás outras matemáticas, e muito em particular a cronologia, de que neste mesmo capítulo falaremos. E assim como estas mesmas ciências e artes cresceram e se apuraram muito com o socorro e aparelho de esquisitos instrumentos, que nelas se inventaram, como foi na náutica o astrolábio, a agulha e o admirável segredo da pedra de cevar. e na bélica o terribilíssimo e subtilíssimo invento da pólvora, que deu alma e ser a tantos e tão notáveis instrumentos de guerra, assim também puderam crescer e aumentar-se muito as ciências divinas e chegar à perfeição e eminência em que hoje se vêem com os instrumentos próprios delas, que é a multidão de livros espalhados e facilitados por todo o Mundo pelo beneficio da impressão, com que a doutrina e ciência particular dos homens insignes se faz comum a todos em tão distantes lugares, não sendo menor a comodidade dos mestres, que são instrumentos vivos das ciências, no concurso de tantas e tão diversas universidades, teatros e oficinas públicas de toda a sabedoria; comodidade de que no tempo dos Padres se carecia, sendo necessário ao Doutor Máximo, São Jerônimo, como ele mesmo escreve, copiar com imenso trabalho os livros por sua própria mão e peregrinar à Grécia à Palestina, ao Egipto e às Gálias para recolher os escritos de S. Hilário, ouvir a S. Gregório Nazianzeno, a Dídimo e aos mestres mais peritos na língua hebraica; inconvenientes que só podia vencer e contrastar um tão alentado espírito e zelo de servir à Igreja, como do grande Jerônimo, digno tanto de imortal louvor pela eminência de sua sabedoria, como pelos gloriosos trabalhos e suores com que a adquiriu e conquistou. Da parte dos mesmos Padres se deve igualmente considerar, que deixaram de especular e dizer muitas cousas de grande importância que depois se souberam e escreveram, porque se acomodaram à necessidade dos tempos em que viviam. Todo o intento dos Padres antigos era provar a verdade da encarnação do Filho de Deus e o mistério de sua cruz, a qual na cegueira dos Judeus (como diz S. Paulo) se reputava por escândalo e na ignorância dos Gentios por estultícia. E como esta era a guerra e a conquista daqueles tempos, todas armas da Sagrada Escritura se forjavam e acostavam contra esta resistência, e por isso os primeiros Padres e seus sucessores nenhuma cousa buscavam nos Livros Sagrados, não só proféticos, senão ainda nos históricos, mais que os mistérios de Cristo. É bom testemunho desta verdade o que diz Ruperto a Tristérico, arcebispo coloniense, do prólogo dos seus Comentários sobre os Profetas menores: Scito me Pater mi sicut in caeteris Scripturis, ita et in volumine duodecim Prophetarum operam dedisse, ad quaerendum Christum. E como isto é o que só buscavam para escrever, isto é o que só achavam ou o que só escreviam, seguindo os sentidos alegóricos e místicos e deixando ou insistindo menos nos literais, como se vê ordinariamente em todas as exposições dos Padres, que todas se empregam na alegoria, tocando muitas vezes só leve e superficialmente a letra, e talvez não sem alguma impropriedade e violência. Assim o notaram entre os mesmos Padres alguns mais modernos que antigos e outros menos antigos que antiqüíssimos: dos primeiros, é Ricardo de São Vitor, contemporâneo de S. Bernardo, no Prólogo sobre o Profeta Ezequiel, onde confessa que se aparta de São Gregório, por se não chegar ao sentido literal do texto; dos segundos, é o mesmo São Gregório, Padre do sexto século depois de Cristo, no Proémio sobre o Livro dos Reis, onde diz que lhe foi necessário em algumas partes não seguir os Padres mais antigos, por não

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro faltar ao fio conseqüência e verdadeira interpretação da história. As palavras de São Gregório não refiro aqui, porque terão seu lugar mais abaixo; as de Ricardo depois de referir com os antigos Padres ocupavam seu estudo principal na alegoria, são estas: Hinc contigisse arbitror, ut litterae expositionem is obscuriobus quibusdam locis antiqui Patres tacile praeterirent, vel paulo negligentius tracterent, qui si plenius insistirent, multo perfectius procul dubio quam aliqui ex modernis, id potuissent. Quer dizer que os Padres antigos, por aplicarem toda a sua industria e engenho no sentido alegórico das Escrituras, ou passaram totalmente em silêncio, ou trataram menos diligentemente alguns lugares mais escuros delas, sendo certo, segundo eram dotados de altíssimos engenhos e enriquecidos de muita ciência e erudição, que, se insistissem no sentido genuíno e literal do texto, o poderiam conseguir mais perfeitamente que qualquer dos modernos. De maneira que, segundo a verdade desta advertência, vem a ser a diferença entre os Padres antigos e os comentadores modernos das Escrituras, a mesma que houve naqueles dois homens do Evangelho, ambos ricos e venturosos: um que achou o tesouro e deu quanto tinha por comprar o campo em que ele estava; outro que, buscando so margaritas e achando uma preciosíssima, empregou também nela quanto tinha. Os Padres antigos, que buscavam só nas Escrituras a Cristo e nesta preciosíssima margarita empregavam todo o cabedal do seu estudo, os modernos, que se não determinam no tesouro das Escrituras a um só gênero de riquezas, acham, além da mesma margarita, muitas outras pedras também preciosas, e tiram daquele tesouro (como dizia Cristo) nova et vetera, riquezas novas e velhas: as velhas, que são as notícias das verdades já passadas; as novas, que são o conhecimento das outras futuras. Finalmente se deve considerar este silêncio das cousas que não disseram os Padres, da parte de Deus, o qual com particular providência não quis que eles por então as soubessem e escrevessem, para que a Igreja, nossa mãe, se parecesse com seu Esposo, e, conforme os anos e idade, fosse também crescendo em luz e sabedoria. Assim o notou, além de muitos outros teólogos, o mesmo Canísio, continuando o lugar acima citado: Quae posteris diligentius excutienda et clarius illustranda explicandaque, non sine certo Dei consilio relinquebantur non vero homini tantum, sed etiam Ecclesiae Christi tempus auget sapientiam, et Spiritus Sanctus aliam atque aliam doctrinae lucem patefacit No cap. VI dos Cantares, onde o Esposo é Cristo e a esposa a Igreja estão profetizados os progressos que ala havia de ter, e se comparam com extremada propriedade à luz da aurora: Quae est ista , quae progreditur, quasi aurora consurgens? Porque assim como a aurora nasce das trevas da noite e começa na primeira luz, e nela vai sempre crescendo de menor para maior claridade assim a Igreja, nascida nas trevas da ignorância e infidelidade começou em menos luz de sabedoria e vai sempre crescendo e aumentando-se mais e mais de resplendor, de claridade, que são os termos que usa S. Paulo na Segunda epístola aos Coríntios:Nos vero omnes, revelata facie, gloriam Domini speculantes, in eamdem imaginem transformamur a claritate in claritatem. Fala o Apóstolo do véu da infidelidade com que os Judeus têm cobertos os olhos para não ver a Cristo, e diz que se compõe a Igreja, tirado pela Fé aquele véu, com os olhos abertos e desempedidos por meio da própria especulação e estudo, imos crescendo de claridade em claridade, não já passando das trevas à luz, senão de uma luz para outra, sempre maior e mais clara, transformando-se por este modo a Igreja na imagem do seu mesmo Esposo, Cristo. Porque, assim como Cristo, posto que sua sabedoria foi sempre igual e a mesma (em quanto Deus infinita e em quanto

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espiritualmente e por particular e invisível assistência sempre ficou com eles e os assistirá (dentro porém da sua Igreja) ate o fim do Mundo. alumia e quenta mais aos que lhe ficam mais vizinhos e menos aos que estão mais remotos e mais distantes. in aedificationem corporis Christi donec occurramus omnes in unitatem fidei et agnitionis Filii Dei. quanto mais se vão apartando os nossos tempos do tempo em que Cristo viveu entre os homens. tam singulorum quam omium. De sorte que vai crescendo a inteligência. in virum perfectum in mensuram aetatis plenitudinis Christi.. os séculos e a idade. porque ainda Cristo corporalmente se apartou dos homens. do que tinha sido nos menores. senão dos primeiros para os nossos. e isto não só na Igreja universal e em comum. o qual. senão que a foi dispensando por partes. senão os presentes. que não fosse mais sábia a Igreja nos maiores anos. e os Doutores da idade maior e mais provecta da Igreja são os mais velhos e mais antigos. falando dos mesmos Doutores:. não são os passados. senão nos homens e doutores particulares. Donde se deve reparar e advertir (cousa que devera já estar mui notada e advertida) que os Doutores antigos e mais velhos. aetatum ac saecolorum gradibus intelligentia. como diz o evangelista São Lucas: Proficiebat sapientia et aetate. e da ciência mais antiga. mais escassos e menos intensos. senão os que hoje e nos tempos mais chegados a nós se chamam modernos Porque assim como nos anos de Cristo houve infância. nem foi crescendo dos nossos anos para os primeiros. como prometeu a todos os verdadeiros discipulos de sua doutrina quando lhes disse: Ecce ego vobiscum sum usque ad consummationem saeculi. à medida que cresce nos anos e na idade: Crescat igitur oportet. da puerícia e da adolescência da Igreja foram os modernos e da ciência moderna.alios autem pastores et doctores. senão cada vez menos. que são os membros de que o seu corpo e os raios de que a sua luz se compõe. Donde segue que os Doutores da infância. senão dos membros vivos. e depois idade perfeita. que é o corpo místico do mesmo Cristo. porque a Igreja não se compõe das paredes mortas. e do mesmo Sol tiram o argumento desta cegueira. scientia. igualmente Deus como ele. bem assim como a luz do Sol material. a não mostrou toda junta. ao Espírito Santo. e qualquer outra. própria e rigorosamente falando. assim a Igreja. E seria não só contra a ordem da natureza. com que o corpo místico dela vai crescendo e aumentando-se sempre mais. contudo. nos atos exteriores e manifestação dela ao Mundo. como expressamente disse São Paulo. Dizem contra isto os hereges (como notou Banhes) que a Igreja não está hoje mais alumiada. senão contra a decência da mesma idade. Mas a aparência desta razão é tão falsa como todas as de seus autores. tam unius hominis quam totius Ecclessiae. e que. nem aqueles que vulgarmente são chamados os antigos. Também deixou em seu lugar. crescendo sempre nela ao passo que ia crescendo nos anos. Dizem que Cristo é o sol da Igreja e aquela primeira verdadeira luz: quae illuminat omnem hominem venientem in hunc mundum. assim nos anos e duração da Igreja há a mesma distinção e sucessão de idades. a ciência e a sabedoria pelos mesmos graus do tempo com que vão passando os anos. vai sempre crescendo mais e mais na luz e na sabedoria.Anexo:Imprimir/ História do Futuro homem consumadíssima). sapientia — disse doutamente Vincencio Lirinense. ad consummationem sanctorum in opus ministerii. argumento desta sua cegueira. por segundo mestre de sua escola. não só alumia a Igreja 73 . et multum vehementerque proficiat. tanto os raios da sua luz são mais tênues. puerícia e adolescência. com a mesma e não diferente luz. até chegar a encher a perfeição ou medida da mesma idade de Cristo. transformando-se na sua imagem e retratando-se nele e por ele.

mas. quanto mais caminha e mais se aparta de seu princípio. mais se vai enfraquecendo e diminuindo. quanto mais distante. porque vai recebendo novas correntes e novas águas. segundo a disposição de sua providência. só peço se pondere aquela nova e bem achada razão de Tertuliano: Quale est enim ut diabolo semper operante. como doutamente disse Santo Agostinho. em que sempre mais vai crescendo a Igreja com os anos. caetera iam disciplinae et conversationis admittunt novitatem correctionis. et ad perfectum produceretur disciplina. (como imprudentemente fazem ainda em lugares igualmente claros de outras Escritas) fugindo para os tempos antigos. ab illo Vicario Domini Spiritu Sancto [. não devem tomar à semelhança do Sol` e da luz. que cada dia a aumentam com novos e tão excelentes escritos em uma e outra teologia.? Não me detenho em romancear as palavras. quod intellectus reformatur. e esse . E porque a perfídia herética se nos não queira acolher por pés. ensinando e declarando aquelas ocultas e altíssimas verdades. veniat ad me et bibat.. flumina de ventre ejus fluent aquae. tanto mais se engrossa. mas o rio que nasce da fonte. de que o nosso século tem sido mais fecundo e abundante que todos até hoje. quem accepturi erant credentes in eum. mais caudaloso. verdade e resplendor da Igreja. aut proficere destiterit. é o bem que tira de tão grande mal aquela sapientíssima Providência. senão a da fonte e do no. que não permitir os males. vivae. que o Espírito lhas ensinaria: Adhuc multa habeo vobis dicere: sed non potestis portare modo. quando por si mesmo os ensinava. a que o mesmo Cristo comparou sua doutrina. et adjiciente quotidie ad iniquitatis ingenia. et ordinaretur.quod ad meliora proficitur. (para: que o Judeu não duvide da assistência do Espírito Santo à Igreja e cabeça dela). 74 . porque isso em suma tudo o que até agora temos dito. cum propterea Paracletum miserit Dominus. A luz que sai do Sol. são em suma tudo o que até agora temos dito. docebit vos omnem veritatem. como havia o Espírito Santo de cessar em acrescentar sempre nela novas:luzes contra essas trevas. Tal é a sabedoria da Igreja. ouçam ao antiquíssimo Tertuliano: Regula quidem fidei una omnino est. e novas: trevas com que diminuir e escurecer a luz da. sola immobilis et irreformabilis [. nova claridade contra esses enganos e novas vitórias contra esse inimigo e seus sequazes? Em sua mesma cegueira tem o herege a prova da maior luz da Igreja. quod Scripturar revelantur. Assim que os que quiserem reconhecer os aumentos da sabedoria. por isso disse São Paulo: Oportet haereses esse. entrando sempre nela as puríssimas correntes da doutrina de tantos Doutores católicos e sapientíssimos..] Haec lege fidei manente.. mais profundo.. Qui credit in me sicut dicit Scriptura. teve por maior glória de sua grandeza fazer dos males bens. Hoc autem dixit de spiritu. Cum autem venerit ille Spiritus veritatis. que. novas verdades contra esses erros. ut quoniam humana mediocritas omnia semel capere non poterat. etc Se o Demônio sempre obra e não desiste de acrescentar cada dia novos erros e novos enganos com que impugnar.] Quae est ergo Paracleti administratio nisi haec quod disciplina dirigitur..Anexo:Imprimir/ História do Futuro com os mesmos resplendores da verdade. com que se faz mais largo. paulatim dirigeretur. operante scilicet et proficiente usque in finem gratia Dei. dizendo-lhes porém. quando disse: Si quis sitit. que por menos capacidade dos discípulos deixou Cristo de lhas dizer. os vai descobrindo maiores a seu tempo. em que eles confessam que a Igreja esteve verdadeiramente alumiada. Quale est enim ut diabolo semper operante et adjiciente quotidie ad iniquitatis ingenia opus Dei aut cessaverit.

Melchior Cano. irridebit eos et Dominus subsanabit eos. Não negamos. Leiam e temam esta sentença os que culpam os que não querem ser culpados nela. Antônio Possevino. bispo de Luca. contudo. Em segundo lugar. Bèze e Wiclef. e outros legítimos herdeiros do ímpio e irreverente Cam. em muitos lugares de seus Anais. qui crevit in fluvium. De Locis Theologicis. e advirtam que tamb5ém é um dos Padres o que isto disse. Cristo. e as águas' os resplendores das luzes naquela milagrosa metamorfose que se conta no cap. rio daquela mesma fonte e luz daquele mesmo Sol que é Cristo. nós também lançaremos a capa sobre esta matéria. X de Ester: Parvus fons. e outros. subsanant et exsufftant. como bem conclui o mesmo Ricardo Vitorino acima alegado: Sed nec illud tacite praetereo. Afonso de Castro. et aliorum industriam in veritatis investigatione et inventione derident. conservando juntamente as luzes e claridades das águas. hujusmodi velamen habentes. Sed inertiae. suae. e por isso sempre mais alumiada. o Cardeal César Barónio. divini. quando voltaram as costas e apartaram os olhos do que em seu pai. no Aparato Sacro. que houve muitos autores católicos e pios. e igualmente merecedores da eterna veneração. Escreveram neste gênero doutissimamente Sixto Senense em todo o V e VI livro de sua Biblioteca Santa. bem assim como os que pintam cartas de marear sinalam no vastíssimo e profundíssimo Oceano os baixos (poucos e raríssimos. mas por zelo da verdade. a Igreja luz com propriedade de rio. lembrados porém da reverência que os filhos devem aos pais e da bênção que mereceram aqueles dois honrados filhos. nas AdverteAncias Teológicas sobre cinco Padres da Igreja. III. Ferdinando Vellocillo. falemos e hajamos de falar sem eles.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A sabedoria da Igreja no alumiar é luz e no correr é rio. sempre mais vestida de resplendores. sed qui habitat in coelis. se se compararem com a imensidade de suas águas) para maior vigilância e segurança dos que as navegam. dizíamos que os Padres não acertaram em tudo. VII cap. os quais eles escreveram não por menos reverência que tivessem aos antigos Padres. porque não querer descobrir nem saber o que eles não disseram. et in aquas plurimas redundavit. reliqui vero scriptores sancti inferiores et humani sunt. Sem e Jafet. 75 Segunda Razão Discorre-se sobre as cousas que no tempo dos padres houve para alguns lugares dos Profetas não poderem ser entendidos inteiramente. deficiuntque interdum ac monstrum quandoque . e pela aplicação dos Padres. nec videantur aliquid ultra maiores praesumere. caelestes. antes é vício da ociosidade que virtude da reverência. sol com propriedade de fonte. Calvino. deixando tão indigno assunto a Lutero. Noé. em cujos livros se podem ver por junto estes exemplos. et in lucem solemque conversus est. podia ser menos decente. a confirmação de outras verdades e a resistência de outras batalhas próprias daqueles tempos. diz assim: Auctores canonici ut superni. e posto que pudéramos provar a verdade deste fundamento com a demonstração das cousas em que não acertaram. quod quidam quasi ob reverentiam Patrum nollunt ab illis omissa attentare. necessidade de doutrina e cautela dos mesmos doutos que lessem as suas obras. Adversus haeereses. não é muito que nestas que eles não disseram. por esta providência particular de Deus e pela dificuldade e escuridade de muitos lugares da Escritura. Nem isto se nos deve imputar a menos veneração dos mesmos Padres doutíssimos e santíssimos. E como. otio torpent. Este último no Liv. deixaram de escrever algumas cousas com que a Igreja depois se foi alumiando e ilustrando. stabilem perpetuamque constantiam servant. por sua sabedoria e santidade.

quão verdadeiramente eram santos. contra os Donatistas. cerrar em alguma cousa é fraqueza de homens. e querer defender seu parecer até romper a caridade e união da Igreja. não as devemos ler como escrituras canônicas. E se o fundamento dos erros humanos é o efeito natural de serem os homens homens. ou melhor entendida por outros. nos ensinam no conhecimento que tinham de si e nós devemos ter de nós. confessando com alta humildade e modéstia que podiam errar como os homens. doutrina. V diz assim com admirável piedade e juízo: Homines enim sumus. reprovar e não seguir algumas cousas das que disseram. e como os Santos Padres fossem obedientíssimos filhos da Igreja Católica. como homens eram e podem errar:>> _ diz o Doutor Máximo. quando eles escreveram. por douto e sapientíssmo que seja. aliter reliquos tratores: illos semper vera dicere: istos in quibusdam ut homines aberrare>> «So os Apóstolos. ou também por nos. Jerônimo — Santo Agostinho. cap. In nullo autem aliter sapere. humana tentatio est.Anexo:Imprimir/ História do Futuro pariunt propter convenientem ordinem.: nimis autem amando sententiam suam. quae illis debetur) aliquid in eorum scriptis improbare. Mas entre estes exemplos naturais da fragilidade humana. Exemplo seja o prodigioso livro Das Retratações de Santo Agostinho. vel a nobis). João Hierosolimitano são estas: Scio me aliter habere Apostolos. Este é o modo (diz Santo Agostinho) com que eu leio os escritos dos outros e com que quero que sejam 1idos os meus. é presunção de demônios». quam se res habet. e das opiniões. ut nobis non liceat (salva honorificentia. Mas para que se veja a ocasião ou ocasiões que tiveram para não acertar com a verdadeira inteligência de algumas escrituras. como alumiados por Deus. unde aliquid aliter sapere. II De Batismo. quanto dela se pode colher facilmente. direi agora o que da ponderação das mesmas escrituras proféticas e das exposições dos Padres sobre elas. escrevendo a Fortunaciano desta maneira: Neque enim quorumlibet disputationes quam vis catholicorum et laudutorum hominum. quam res se habet.:» O mesmo sentia S. tales volo esse intellectores meorum: «As ciências e regulações dos autores. e sem menos 76 . e por isso mesmo sapientíssimos Porem aqui as palavras de dois maiores Doutores. contra os erros de S. disseram a verdade em tudo. atque respuere (si forte invenerimus. quod aliter senserint quam veritas habet. tenho colhido. como dissemos ou supomos. velut scripturas canonicas laudare debemus. que é o fim para que isto supomos. bem se segue que nenhum homem se pode livrar desta pensão da humanidade. diabolica praesumptio est. podemos ler em prova deles outros dos mesmos Padres. assim dos escritos alheios como dos próprios. principalmente as dos Profetas. angelica perfectio est. a cujo supremo juízo sujeitaram sempre todos os seus escritos. de tal sorte que nos não seja lícito (salva a reverência de suas pessoas). em que. E ponho aqui (tanto de melhor vontade) esta minha advertência. acertar em tudo. talis ego sum in scriptis aliorunt. usque ad prescidendae communionis et condendi schismatis vel haeresis sacrilegium pervenire. seguindo Santo Agostinho. e não eram anjos. os outros homens. senão depois de muitos anos de estudo e lição dos mesmos Padres. um de teologia escolástica e outro` da positiva — Santo Agostinho e S. se em alguma cousa desacertaram. De maneira que. que eram comuns e recebidas entre os doutos. divino adjutorio vel ab aliis intellecta. cujas palavras na Epístola a Teófilo. institutumque naturae. em que não acabei de cair de todo. Jerônimo. é argumento só de que foram homens. vel invidendo melioribus. mais digno de veneração por aquela obra que por todas as outras suas o qual prosseguindo a mesma sentença de Santo Agostinho no liv. quando acharmos por outra via a verdade. mui louvados e estimados por sua ciência e. é perfeição de anjo. na epístola III. posto que sejam católicos.

etiam sequebatur illud extremum. aut joci causa philosophari. campos tendat. e muito 77 . com o verdadeiro entendimento de alguns lugares dos Profetas que eles interpretaram em alheio e diferente sentido A primeira ocasião que os Padres tiveram para não poderem entender em seu tempo o sentido literal e histórico daqueles textos proféticos. itaque et aereos orbes fabricati sunt quasi ad figuram Mundi. senão ainda inabitáveis Este sentimento. Solemque. existimaverunt rotundum esse Mundum sicut pilam: et ex motu siderum opinati sunt coelum volvi. et ad medium connexa sint omnia sicut radios videmus in rota. nisi quod eos interdum puto. montes erigat. quod si ita esset. Solem atque Lunam in aemdem partem semper occidere. eosque caelarunt portentosis quibusdam simulacris. Sic astra. et grandinem sursum versus ca dere in terram? Et miratur aliquis in hortos pensiles ~nter seplem mira narrari. que então (antes da experiência) tinham nome de razões. Até aqui Lactancio. Por isso não duvidei de copiar esta página de latim. ut pondera in medium ferantur. Si autem rotunda etiam Terra esset. cum philosophi. quomodo ergo non cadunt omnia in inferiorem illam cueli partem.Anexo:Imprimir/ História do Futuro louvor de sua grandeza e sabedoria. necesse esse. Hanc igitur Coeli rotunditatem illud sequebatur. discorre assim: Quid illi. e hoje depois delas nos parecem ridículas.] Quae igitur illos ad antipodas ratio perduxit? Videbant siderum cursus in occasum meantium. id est. volubilitate ipsa Mundi ad ortum referri. atque oriri semper ab eadem. Quod si esset. Hujus quoque erroris aperienda nobis origo est [. era a falta que então havia no Mundo da verdadeira e exata cosmografia. nec quomodo ab occasu ad Orientem remearent. ou fama de haver os que então já se chamavam antípodas Posto que os princípios por que os Padres os negavam. qui haec portenta defendunt. constanter in stultitia perseverant. et urbes. ut Terra in medio sinu ejus esset inclusa. que para os que bem o entendem sei de certo não será larga. do que nós hoje nos podemos rir dele. coelum autem ipsum in ornnes partes putarent esse devexum. cum occiderirint. e muito douto daquele tempo e zombando elegantissimamente dos que tinham a opinião contrária. a medio deferantur ut coelum petant. qui credut esse homines quorum vestigia sint superiora quam capita? Aut ibi quae apud nos jacent inversa pendere? Fruges et arbores deorsum versas crescere. fumus. qui esse contrarios vestigiis nostris antipodas putant? Num aliquid loquuntur? Aut est quisquam tam ineptus. et montes pensiles faciant. Pluvias et nives. ou de que as partes opostas às que naquele tempo se conheciam. quae autem levia sunt. Descreve Lactâncio Firmiano que era um dos Padres. ut nebula.quae non ab hominibus. em aquelas suposições. não eram entre todos as mesmas razões filosóficas. neque enim fieri posset ut non esset rotundum. ou de que o globo da Terra não era perfeitamente esférico. qui cum semel aberraverint. maria consternat. hanc respondent rerum esse naturam. que foi de muitos filósofos antigos se tinha entre os Padres por verdade muito certa e averiguada. et agros et maria. quão impossível cousa lhes era acertarem naquele tempo. et vana vanis defendunt. ut in omnes Coeli partes eamdem faciem gerat. ignis. . negando geralmente a opinião. eram não só desertas. quae astra esse dicerent. Quod si quaeras ab is. aut prudentes et scios mendacia defendenda suscipere. em que alguns se afundavam. e a errada opinião.quasi ut ingenia sua in malis rebus exerceant vel ostentent. quod sic videri propler immensam latitudnem necesse est. não se rindo menos dos que naquele tempo tinham esta opinião. ut nulla sit pars Terrae. etiam ipsam terram globo similem. caeterisque animulibus incolatur: sic pendulos istos antipodas Coeli rotunditas adinvenit. por sua matéria e elegância. quod rotundo conclusum teneretur. Quid dicam de iis? Nescio. Cum autem non prospicerent quce machinatio cursus eorum temperaret.

e que todas as cousas que aqui estão em pé. e foi bem que o deixasse tão miudamente escrito. id est. senão por jogo e zombaria. a Lua e estrelas. os quais impugna no livro das suas Categorias. se lhes não despeguem da terra. tem figura de uma abóbada (sendo que esta representação não a faz a figura do céu. adversa pedibus nostris 78 . viam. e não entendendo o modo por que esta máquina se governa. e torneada desta maneira. e direitas. as cousas leves. saíam sempre do Oriente e entravam pelo Ocaso. só digo que. Desta redondeza ou rotundidade do céu inferiam e assentavam que também a Terra era redonda. O mesmo peço eu que façam os que não têm necessidade de ver a tradução dela. assim como os raios de uma roda todos vão parar ao eixo. e como não caem por esses ares abaixo respondem que é o peso natural da Terra. mares pênsiles e cidades pênsiles. E se perguntarmos aos defensores deste portento como pode ser que os homens que. que este céu que nos cobre. porque o passarão mais brevemente. que agora se segue. XVI De Civitate Dei. para que não fiquem com o sentimento de quão mal se pode trasladar à nossa língua a elegância da latina: «Que direi daqueles—diz Lactando—os quais tiveram para si que há no Mundo outros homens que andam com os pés virados para nós. a que chamam antípodas? Porventura dizem estes alguma cousa que tenha fundamento. lá estejam dependuradas? Que as árvores cresçam para a parte inferior? Que a chuva caia para cima? E que os que hão-de colher os frutos. com palavras de tanta segurança como as seguintes: Quod vero et antipodas esse fabulantur. tiravam por segunda conseqüência que também havia de estar povoada de homens e de animais. dentro do qual estava metida. primeiros descobridores de seus antípodas. e não subir? E espantamo-nos que os hortos pênsiles se contêm entre as Sete Maravilhas do Mundo. como está: nesta em que vivemos. e assim fingiam que havia no céu vários orbes de matéria sólida como bronze. a que chamamos estrelas e planetas. para que soubéssemos o que naquele tempo se sabia do Mundo e para que saiba o mesmo Mundo quanto deve aos Portugueses. senão o termo e fraqueza de nossa vista). os fumos. assim as cousas pesadas vão buscar o meio. como haver antípodas. Santo Agostinho também teve a mesma opinião de Lactâncio.>> Este é o discurso de Lactâncio. em que as torres e os telhados estão pendurados para baixo! Mas será bem que digamos a origem donde teve princípio este erro e que razão moveu ou levou estes homens a uma cousa tão irracional. defendendo umas cousas vãs com outras tão vãs como elas. hajam de descer aos ramos. assim que a imaginada rotundidade do céu foi a inventora destes antípodas pendurados. vieram a imaginar que o Mundo era redondo como uma bola. ubi Sol oritur quando occidit nobis. homines a contraria parte Terrae. as defendem contudo para ostentar habilidade e engenho. não o sei. assim como do mesmo eixo saem os raios para a roda.Anexo:Imprimir/ História do Futuro menos para os que o não entendem. quando há filósofos que fazem campos pênsiles. e que. fingem com os pés para cima. mas no liv. O que se haja de dizer de tais homens e de tais entendimentos. perseveram constantemente na sua ignorância. empregando tão bons entendimentos em tão más cousas. e feita redonda a Terra. resolve que se não deve crer que há antípodas. depois de terem caído no primeiro erro. que de todas as partes inclina para o centro. sendo que algumas vezes cuido que não dizem nem escrevem isto de siso. em que estavam esculpidas essas imagens e corpos portentosos. e que sabendo muito bem que tudo o que dizem são fábulas e mentiras. Viam que o Sol. acomodando-se naturalmente a figura do corpo exterior e maior. de que a Terra está cercada. sobem direitas para as diversas partes do Céu. e. em todas as partes. posto que lhe não contentaram os seus fundamentos. ou pode haver homem de tão pouco juízo que se lhe meta na cabeça que há homens que andem com a cabeça para baixo. como o fogo. as névoas. ou cuidavam que viam.

Justino. uns fundando-se nas razões já referidas e todos naquela tão celebrada dos filósofos.>> Não dissera isto o sapientíssimo Doutor. como referem as nossas histórias. A razão de Santo Agostinho com que negou os antípodas. João Crisóstomo. e é grande absurdo dizer que os homens pudessem fazer tal navegação. que não só faziam inabitável a zona tórrida. disse o famoso e ilustríssimo africano dos Portugueses conquistadores depois de sua pátria: Nimisque absurdum est (são palavras suas no mesmo lugar) ut dicatur aliquos homines ex hac in illam partem Oceani immensitate trajecta. aquis vacua et denudata hominibus. Teofilato. porque o argumento em que se funda é este: Todos os homens que se propagaram e estenderam pelo Mundo. parece se deviam entender assim. Circa duae tantum inter exustam et rigentes. e que pisam a terra com os pés voltados para os nossos. temperantur: eaeque ipsae inter se non perviae propter incendium sideris. haviam de ter passado a outra parte do Mundo. Assim o cuidou Tales Milézio. homens da outra parte do Mundo. ut etiam illic ex uno illo primo homine genus institueretur humanum. Neque hoc ulla historia cognitione didicisse se affirmant. Basílio e Santo Ambrósio. sed quasi ratiocinando conjectant: «E quanto à fábula dos que fingem que há antípodas — diz Santo Agostinho. sem saber de quem falava. são descendentes de Adão. S. era um dos mais forçosos argumentos. onde o Sol lhes nasce a eles. segue-se que não há nem pode haver antípodas. e só o conjeturam por discursos. quando se põe a nós. E verdadeiramente que as palavras de um e outro são tão claras. ainda encarece mais este louvor nosso. com muitos outros filósofos. historiadores e poetas. que de nenhum modo se podia passar: Media vero terrarum _ diz Plínio — qua Solis orbita est. em Santo Hilário. se os houvera. mas supunham tão grande incêndio nela pela vizinhança do Sol. é cousa que de nenhum modo se há-de crer. isto é. logo. nem seus autores o provam com alguma história que tal afirme. Eutímio e outros. Esta é a razão de Santo Agostinho e este o famoso elogio que.Anexo:Imprimir/ História do Futuro calcare vestigia. que antes da experiência parecia afirmarem ou definirem claramente que debaixo da terra não havia outra cousa mais que a água. navigare ac pervenire potuisse.» O primeiro lugar é do Salmo CXXXV e o segundo do Salmo XXIII. e que Deus. mas este é o maior louvor da nossa Nação (como disse um orador delas) que chegaram os Portugueses com a espada onde Santo Agostinho não chegou com o entendimento. um dos sete sábios de Grécia. para mostrar sua onipotência tinha fundado a terra sobre a água. e tinham por impossível aquele descobrimento. como consta da Escritura. exusta flammis et cremata. nulla ratione credendum est. cominus vapore torretur. como nós para os seus. os quais referiam os tremores da Terra à inconstância deste fundamento de sua natureza tão 79 . e muitos anos e séculos depois em Procópio. em S. notum reor. por cima da imensidade do mar Oceano. nam sic docet Scriptura: «Quid expandit terram super aquis». que tudo pode. dizendo: Quod autem universa Terra in aquis subsistat nec ulla sit pars ejus. acrescentavam os Padres outras teológicas e alguns textos da Escritura Sagrada. em S. quae infra nos sita sit. com que os reprovadores da empresa do Infante Dom Henrique a impugnavam. e assim a lemos expressa. que se a vista dos olhos não tivera ensinado o contrário. Assim o argumentava Procópio sobre o primeiro capítulo do Gênesis. e antes de Santo Agostinho. et iterum: «quia itse super maria fundavit eum. porque. Esta mesma opinião foi comum entre os outros Padres da Igreja. Este incêndio da zona tórrida ainda em tempos tão chegados aos nossos. A estas razões propriamente filosóficas e a este discurso. se já naquele tempo estiveram escritas as histórias dos Portugueses. ainda antes de Lactâncio.

às vozes dos seus pregadores: Ecce dabit voci suae vocem virtutis. Lorino. aquele verso do Salmo LXVII: Regna terrae. convertidas à Fé por meio da pregação dos Portugueses e descobertas por eles. por isso diz David que a terra está sobre ela.. porque. fazendo a terra superior à água. que são aquelas que descobrimos. Começando pelo mesmo David. 80 . Dominus nomen illi. a fez habitável. hoc est. a emenda deste engano nos ensinou também a entender aqueles textos de David. iter facite ei. isto é. como elemento que é mais nobre.Anexo:Imprimir/ História do Futuro pouco sólido. E por que a terra por este modo ficou superior à água.. Deus é o Senhor da Terra e de todos seus habitadores. et timebunt qui habitant terminos a signis tuis exitus matutini et vespere delectabis. e não inferior e debaixo como de antes estava.. antes do conhecimento dos antípodas.. entende pelos habitadores dos termos da terra as gentes orientais e ocidentais. o que fez a Providência Divina foi apartar a água de cima da terra e dar-lhe outro lugar. Repito o texto todo. e depois havia de passar às do Oriente. que fala da conversão dos reinos e terras do Oriente. et appareat arida. psallite Deo. mas vamos a outros lugares mais impossíveis de entender. fazendo que fosse superior ao mar e aos rios. qui ascendit super Coelum Coeli ad Orientem. E porque é Senhor da Terra? Porque a fundou. quoniam terram itse fecit. Donde notou advertidamente Viegas. diz Genebrardo. cujo verdadeiro sentido é este: Quando Deus criou o Mundo. no princípio estava o elemento da terra coberto com o elemento da água. que são as que habitamos.] in locum unum. comentando o verso IX: Turbabuntur gentes.. assim Orientais como Ocidentais. alumiamos com a luz do Evangelho. que é o que hoje tem o mar para que ficasse a terra superior a ele e pudesse produzir e ser habitada: Et dixit Deus: Congregentur aquae [. e são tão próprios desta explicação muitos lugares dele.] sit Deus (diz Lorino). Todo o Salmo LXIV explica Basílio Ponce da nova conversão das Índias. a preparou e acomodou a que se pudesse habitar: Ratio cur Dominus Terrae. e essa é a energia da palavra praeparavit. Viegas. que no mesmo Salmo tinha dito David: Cantate Deo. para que da conseqüência dele se veja melhor a verdade e clareza desta exposição: Domini est terra et plenitudo ejus. ut habitari posset. omniumque in ea rerum [. cantate Deo. et supereminere aquis fecit. mas depois que a experiência nos mostrou que debaixo ou da parte oposta a esta Terra há outros habitadores. e é Senhor de seus habitadores. e a água sobre a terra. e Lorino sim. para mostrar que a Fé e conhecimento de Deus primeiro havia de vir às terras mais ocidentais. como notou o texto: Terra autem erat inanis et vacua. E não é muito que Lorino entendesse melhor este texto da terra e do mar que Procópio. Referem-se vários lugares dos Profetas que os expositores modernos entendem dos antípodas e conquistas de Portugal. e assim explica as palavras: «Exitus matutini et vespere>> pro hominibus qui habitant ubi exit dies et ubi exit nox. e por sua natureza devia estar. isto é superior a ela. et super fluvia praeparavit eum. psalmum dicite nomini ejus. Mendonça e outros autores. não puderam deixar de dizer o mesmo. pro Orientalibus et Occidentalibus.. conquistamos. psallite Domino. qui ascendit super Occasum. ecce dabit voci suae vocem virtutis. mas como por esta causa ficasse a terra vazia e inabitável. que. e esta é a virtude que Deus deu às vozes da sua voz. porque. conforme o lugar que se devia à sua dignidade e nobreza. porque Procópio não sabia que havia mar e terra habitada dos antípodas. ainda os que não tiveram tal pensamento. que são os antípodas. orbis terrarumm et universi qui habitant in eo: quia ipse super maria fundavit eum.

Finalmente. chegado às mais remotas nações do Oriente. Francisco Xavier). E porque para isto era necessário que o bravíssimo e indômito Oceano se sujeitasse aos homens e se deixasse arar de seus lenhos. o proêmio com que David introduziu tudo o que até aqui temos dito.. mirabile in aequitate. ou como tem o hebreu: Maris rémotorum. que é mui próprio e verdadeiro. cavitatem. isto é. et perfla hortum meum. porque. como entraram por meio da Fé. as pérolas e outros tantos tesouros. e outros nos fins do Ocidente.sanctum est templum tuum. entendidas assim como soam. Segue-se logo no texto:. uma e outra. pois havendo tantos anos e tantos séculos que alumiastes a uns com a luz da Fé. e vossa Igreja não guardáveis igualdade com os homens. permitistes até agora. Como se dissera: antes de se pregar o Evangelho a estas terras ou a estes mundos do Oriente é do Ocidente. agora sim. Jerônimo e Teodósio: compescens sedans. mas multiplicadamente rica: Multiplicasti etc. senão os mares de muito longe e de terras e gentes muito remotas: .. e que a regaria como regou com a água do batismo: Visitasti terram et inebriasti eum. expulso autem Aquilone. declara o Profeta que não haviam de ser aqueles que lavam as terras e praias vizinhas a nós. que podemos dizer que a vossa Igreja é admirável na igualdade. et de horto suo flagellis anathematis expulit. parece que vós. Esta terra. As quais palavras. sonum fluctuum ejus. Uns nos fins do Oriente. que é a Igreja: que saísse dele o Norte e viesse o Sul. et fluent aromata illius. porque trata igualmente a todos: sanctum est templum tuum. Como se dissesse Cristo.. et fluent aromata illius. também dizia David que fazia Deus esta mudança em suas ondas: . mas também no espírito de profecia. como lê S. e diz: Emissiones 81 . sobre estes lhe havia de dar também as riquezas espirituais e a graça. que saíssem da Igreja as orações do Norte. qua totum ortum Ecclesiae... que sucedeu a David. o que até aquele tempo não consentia.qui conturbas profundum maris. Ao qual sentido. que os outros estivessem às escuras (argumento que puseram os Japões a S. Salomão. Senhor. por vossos ocultas juízos. e o conhecimento e culto do verdadeiro Deus têm passado os mares.. mirabile in aequitate. os rubis. Ou. et veni. Auster. falando do sen jardim. que são os das Índias Orientais. dum universum haeresim per sapientes destruxit. IV: Surge. tendo-lhe já dado as maiores riquezas temporais. são aqueles que estão nos dois últimos fins e extremos da Terra.spes omnium finium terrae et in mari longe. que foi com estas palavras:.Anexo:Imprimir/ História do Futuro De maneira que os homens de quem aqui fala David. diz o Profeta que visitaria Deus. em muitos lugares dos seus Cânticos deixou também profetizadas estas maravilhas da nossa idade: neste sentido explicam alguns modernos aquelas palavras no cap. podemos aplicar as palavras de Honório: Siquidem inauditam haeresim per malignos homines Draco mentibus fidelium infudit. Fala das missões que fazem àquelas partes os pregadores da Fé. sed Rex gloriae Chrisus suis auxilium praebuit. E não carece de mistério e grande mistério. que outra cousa dizem senão os interesses temporais que trazem as naus da Índia por estes espirituais que levam quando vêm carregadas dos aromas e espécies aromáticas daquelas partes? Assim o tinha dito o mesmo Salomão no verso antecedente. Aquilo. quasi quadam lepre vitiavit. e que entrassem na mesma Igreja as orações do Sul (que são as do Novo Mundo). não só na coroa. E acrescenta com grande energia que multiplicaria o Senhor o enriquecê-la: Multiplicasti locupletare eum. os diamantes. Auster intravit. com admirável propriedade e energia. que são as minas do ouro e prata. Porém. mulcens sonitum.. onde nasce o dia e onde nasce a noite. depois que a Fé e o Evangelho. como se saíram nestes tempos por meio da heresia. que são os das Índias Ocidentais. com que ficasse cada uma não só rica. porque não duvidássemos que mares eram estes. latitudinem aut profundumditatem maris.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro tuae, paradisus malorum punicorum cum pomorum fructibus As vossas missões são um paraíso de que se não colhem frutos de árvores, senão frutos de frutos. Cum pomorum fructibus. Porque pelo fruto espiritual que vão fazer os missionários, vêm de lá os frutos temporais com que Portugal se enriquece. E se vão faltando os segundos frutos, é porque também vão faltando os primeiros, de que eles nascem. Mas que frutos são estes? Disse o mesmo Salomão: Cypri cum nardo, nardus et crocus, fistula et cinnamomum cum universis lignis Libati, myrrha, et aloe cum omnibus primi unguentis: A canela, a canafistola, o sândalo, o benjoim, as áquilas, os calambucos, e todo o outro gênero de espécies odoríferas e aromáticas, que são as mesmas que vêm da Índia. No cap. VII diz assim o mesmo Salomão, ou a Esposa, que é a Igreja, falando com seu Esposo Cristo: Mandragorae dederunt odorem. In portis nostris omnia poma: nova et vetera servavi tibi. As mandrigoras são os pregadores da Fé, como diz S. Gregório: Quid per mandragoram, herbam scilicet medicinalem et odoriferam, nisi virtus perfectorum intelligitur? Qui, dum imperfectorum infirmitatibus medentur in fide quam praedicant, id est. in portis Ecclesiae veri medici esse comprobantur. Com o cheiro destas mandrágoras e com a doutrina destes pregadores, [diz a Esposa] que ajuntou para seu Esposo os frutos novos aos velhos. Assim o interpretam os Setenta: Nova et vetera servavi tibi; porque aos cristãos antigos, que eram os da Europa, ajuntou a Igreja estes novos, que são os da nova gente que se descobriu no Oriente e no Ocidente, que são as portas de que fala a Esposa: In portis nostris. Uma porta por onde o Sol sai ao nosso hemisfério, que é a do Oriente, e outra por onde entra aos antípodas, que é a do Ocidente. Assim entendem este lugar alguns autores que refere Cornélio, resumindo todo o sentido dele nestas palavras: Nonulli per nova opinantur hic notari novi orbis inventionem et conversionem ad Chrstum. Novus enim hic orbis continet Peruanos, Mexicanos, Brasilios, Chilenses etc. est dimidium totius orbis, ut patet ex globo cosmográphico [...] jam per religiosos S. Dominici, S. Francisci et Societatis Jesus totus pene subjacet Ecclesiae Sic in India Orientali hoc saeculo et praecedenti mire per eosdem propagatur Fides apud Japones, ubi plurimi pro Fide certant usque ad martyria lentorum ignium apud Sinenses, Molucenses et Ceilanos. De maneira que os frutos novos que a Igreja, por meio do cheiro destas mandrágoras medicinais e odoríferas, ajuntou aos velhos e antigos, são os do Peru e México, do Brasil e Chile, e os do Japão e China, das Malucas e Ceilão; uns nas portas do Oriente, outros nas do Ocidente: Madragorae dederunt odorem suum. Parece que estavam esquecidos, mas não estavam senão guardados para este tempo: servavi. Em quase todo o cap. VIII repete Salomão a mesma conversão das Índias, e particularmente naquelas palavras: Soror nostra parva, et ubera no habet; quid faciemus sorori nostrae in die quando alloquenda est? Si murus est. aedificemus super eum propugnacula argentea; si ostium est. compingamus illud tabulis cedrinis. Até agora foi escuríssimo este lugar, mas são admiráveis os mistérios e mais admiráveis ainda as propriedades dele. Ludovico Legionense, nos comentários sobre este livro, entende por esta irmã mais moça da Esposa a Igreja da Gentilidade novamente convertida à Fé: ...sub persona hujus sororis natu minoris, et parum forma praestantis, cu`jus de collocatione sponsa solicitari dicitur, multi significantur populi atque gentes longe a nostro orbe remotae, ad Christum adducenda; nova quadam Evangelli tradendi ratione; hoc est significatur Hispanorum navigationibus reperti orbis, ejusque incolarum ad Christi. fidem nuper facta conversio. Ainda que a Igreja toda seja uma, como a destas novas gentilidades veio ao conhecimento de Cristo tanto depois, que não foram menos que mil e quinhentos anos, por isso lhe chama

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro Salomão irmã menor e pequena — Soror nostra parva est — não pela grandeza das terras e número das gentes, em que é maior ou, quando menos, igual a toda a Igreja antiga, mas pela menoridade do tempo e da idade em que se converteu. E diz com muita propriedade que não tem peitos: Et ubera non habet porque todos estes anos esteve falta do leite da verdadeira doutrina. E porque haver-se de desposar com Cristo esta nova Igreja era um negócio cheio de tantas dificuldades, assim pela distancia de tão remotas terras e navegação de tão desconhecidos mares, como principalmente pela resistência de suas nações, umas bárbaras, outras políticas e todas feras, armadas e belicosas, e tão superiores no número e multidão aos que lhes haviam de levar e introduzir a Fé, estas dificuldades representa a Igreja antiga a seu Esposo, Cristo, com aquelas palavras: Quid faciemus sorori nostrae in die quando alloquenda est? «Que faremos Senhor, quando chegar o tempo em que se há-de desposar convosco esta minha irmã menor?:>> Ao que responde Cristo com o antiquíssimo conselho de sua providência, dizendo: Si murus est. aedificemus super eum propugnacula argentea; si ostium, compingamus illud tabulis cedrinis. Quem não admirará nesta resposta os altíssimos conselhos da sabedoria e providência divina? Dispôs Deus desde a criação do Mundo que estas terras, assim por fora como por dentro, fossem enriquecidas de coisas preciosíssimas, para que o interesse dos homens facilitasse as dificuldades, que sem ele criam impossíveis de vencer. Como se dissera o Senhor: Ainda que a conquista da Fé tem muros que dificultem sua entrada nessas terras, também tem portas por onde poderá entrar; esses muros facilitá-los-emos com prata; essas portas abri-las-emos com cedros: Si murus, aedificemus propugnacula argentea; si ostium, compingamus illud tabulis cedrinis. Pela prata se entendem as minas e pelos cedros odoríferos as plantas preciosas; e as minas que essas terras têm em suas entranhas, e as plantas odoríferas e preciosas que nelas nascem, são os meios e incentivos que obrigaram o interesse humano a que se disponha a vencer todas essas dificuldades e abrir e franquear essas portas. E assim foi porque a prata, o ouro, os rubis, os diamantes, as esmeraldas, que aquelas terras criam e escondem em suas entranhas; as áquilas, os calambucos, o pau-brasil, o violeta, o ébano, a canela, o cravo e a pimenta, que nelas nascem, foram os incentivos do interesse tão poderoso com os homens, que grandemente facilitaram os perigos e os trabalhos da navegação e conquista de umas e outras Índias. Sendo certo que, se Deus com suma providência não enriquecera de todos estes tesouros aquelas terras, não bastaria só o zelo e amor da religião para introduzir nelas a Fé. O profeta Isaías, como profeta singularmente escolhido para historiar as maravilhas da lei evangélica, foi o que mais falou de nós e delas: no cap. XLIX diz assim: Ecce isti de longe venient, et ecce illi ab aquilone et mari, et isti de terra australi. Laudate, caeli, et exulta, terra, jubilate, montes, laudem, quia consolatus est Dominus populum suum, et pauperum quorum miserebitur. O qual lugar entende Cornélio à Lápide e Árias Montano da conversão da China, e o provam do original hebreu, o qual lêem de terra Senim, como verts S. Jerónimo, Símaco, Áquila, Teodósio, o Siro, o Arábio, e todos, e é o mesmo que de terra Sinorum, por ser este o modo de falar da língua hebréia, na qual os Galileus se chamam Gelilim, e os Judeus Jehudim, e os Assírios Assurim, e assim também os Chinas ou Sinas Sinim. E se replicarmos a este sentido que a China não é terra austral, senão oriental, e que se não pode verificar dela o termo de terra australi, respondem os mesmos autores que aludiu o Espírito Santo, que governava a pena de S. Jerónimo, à navegação dos Portugueses, os quais, quando vão para o Oriente, fazem a sua viagem direita ao Austro, navegando ao cabo da Boa Esperança: Sinae enim (dizem eles), qui proprie hic significantur, licet sint ad Orientem, dici tamen possum ad Austrum, quia Lusitani in Sinas

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Anexo:Imprimir/ História do Futuro navigaturi, initio longo flexu, navigant ad Austrum, scilicet ex Lusitania usque ad promontorium Bonae Spei, quod uItimum est in continente et directe oppositum Austro. De maneira que, como os Portugueses eram os que haviam de levar a Fé à China, navegando ao Austro ou Sul, por isso o Espírito Santo chamou Austral à China, não pelo sítio, senão pelo rumo da navegação. Da mesma conversão dos Chinas fez outra vez menção Isaías no cap. XI, v. I4, o qual explica larga e eruditamente Malvenda, seguindo a Foreiro, ambos varões mui doutos da família dominicana. O mesmo Profeta Isaías no cap. LX: Qui sunt isti, qui ut nubes volant et quasi columbae ad fenestras suas? Me enim insulae expectant, et naves maris in principio, ut adducam filios tuos de longe; argentum eorum et aurum eorum cum eis, nomini Domini Dei tui et Sancto Israel, quia glorificavit te. Et aedificabunt filii peregrinorum muros tugs, et reges eorum ministrabunt tibi. Nestas palavras está profetizada admiravelmente a conversão das Índias Ocidentais; assim as explicam o mesmo Cornélio, Bózio, Aldrovando e outros, com bem notáveis propriedades. Chama o Profeta às Índias Ocidentais, ilhas: Me enim insulae expectant. Porque todas aquelas vastíssimas terras, em quanto se têm descoberto, estão rodeadas de mar, e bastava para se chamarem assim a imensidade de mares que as dividem do Mundo amigo; além de que estes terras no princípio eram chamadas com o nome de Antilhas, como se lê na história de seu descobrimento. As nuvens que voam a estes terras para as fertilizer—Qui sunt isti, qui ut nubes volant— são os pregadores do Evangelho, levados do vento pelo mar como nuvens; e chamam-se também pombas: Et sunt columbae ad fenestras suas; porque levam estes nuvens a água do baptismo sobre que desceu o Espírito Santo em figure de pomba, que são os dois termos que desde o princípio do Mundo andaram sempre juntos na significação do batismo. No I cap. do Gênesis: Spiritus Domini ferebatur super aquas, e no II de S. João: ...nisi quis renatus fuerit ex aqua et Spiritu Sancto. Mas o mesmo Bózio e Aldrovando, ainda advertiram no nome e semelhança de pomba outra propriedade mais aguda, tirada do descobrimento das mesmas Índias, de cujas terras e navegação foi o primeiro descobridor Cristóvão Colombo; e dizem que a isto aludiu o profeta, chamando Columbas ou Columbos a todos os que seguem a mesma derrota e navegação das Índias: Nomine columbae alludit ad Christophorum Columbum, qui nobis iter ad illas oras primus aperuit. Bem assim, ou muito melhor, e com mais verdade do que disseram os Gentios que os Argonautas, quando foram conquistar o velo de ouro a Colcos, levaram por guia uma pomba: Et qui movistis duo littora, cum rudis Argus Dux erat, ignoto missa columba mari. Os Potosis e outras minas de prata e ouro, que juntamente com as almas para a Igreja haviam de conquistar estes argonautas, também as não esqueceu o Profeta: Et adducam filios tuos de longe, argentum eorum et aurum eorum cum eis. Muito ouro, muita prata e muitos filhos para a Igreja, e tudo de muito longe; e porque não ficassem em silêncio as frotas das Índias: Et navis maris in principio; ou como lê Foreiro do hebreu: Et naves maris cum primaria, seu praetoria, que faziam esta navegação muitas naus, não divididas, senão em frota, com sua capitaina; finalmente, que homens peregrinos edificariam os muros da Igreja naquelas terras: Et aedificabunt filii peregrinorum muros tuos; e que os ministros de tudo isto seriam os mesmos reis, como fazem com tanta piedade os reis católicos: Et reges eorum ministrabunt tibi.

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. na China.. e que esta obra é de minha mão: Ut videant et sciant quia manus Domini fecit hoc. et in medio camporum fortes: ponam desertum in stagna aquarum. Brasilia. Até aqui andamos com Isaías pelas terras firmes. et spinam. avertens semitas in quietem: «Em vós se povoarão os desertos dos séculos. lançou também os 85 . fazendo que fossem povoadas de homens. etc. vivendo na gentilidade sem água do batismo? Mas eu (diz Deus) que também sou Senhor destes. depois do reverendíssimo Cláudio Aquaviva.. tenham assento. Aperiam in supinis collibus flumina. assim em outras ilhas.. Primeiramente nele e por ele se povoaram os desertos dos séculos! porque muitas ilhas. e como a major obra e a major misericórdia de sodas é tirar almas do Inferno. no Brasil. Cornélio. Nestes seus montes e desertos secos e estéreis abrirei fontes e rios mui copiosos. porém os Doutores modernos nos dizem quais elas são. Procópio e Teodoreto entendem este texto da conversão das gentilidades. como eram as Canárias e de Cabo Verde. No cap. e por mais que essas terras sejam sem caminho. et non sunt: lingua eorum siti aruit. LVIII fala Isaías das obras grandes que fará o homem misericordioso. Dabo in solitudinem cedrum. como era a ilha da Madeira. de nenhum outro homem se podem entender à letra senão do nosso Infante santo (sic) D. isto é. et generationis suscitabis. Para que entenda e conheça o Mundo quão poderoso sou. vós lançareis os fundamentos de uma e outra geração.Anexo:Imprimir/ História do Futuro É também ilustre lugar em Isaías aquele do cap. e tão enobrecidas de famosas cidades e suntuosos edifícios: Aedificabuntur in te deserta saeculorum. os ouvirei e não me esquecerei deles: Ego Dominus exaudiam eos. povoou e edificou. diz umas palavras o Profeta. Ego Dominus exaudiam eos [. China. como dizem sodas as nossas histórias. que estavam povoadas de bárbaros. cujo principal intento naquela empresa. fundamenta generationis. como se tiram as dos Gentios. quando por meio da luz da Fé se lhes mostra o caminho da salvação. São Jerônimo.» Tais foram em tudo as obras do Infante D. et myrtum. et terram inviam in rivos aquarum. et lignum olivae.e. quia manus Domini fecit hoc. que são as primeiras por onde os nossos descobrimentos começaram. aliisque Indiarum provinciis impleri magna laetitia conspicimus: que se cumpriu e está cumprindo esta profecia no Japão. O P. que desde o princípio do Mundo. ulmum et buxum simul. et intelligant pariter. foi o puro e piedoso zelo da dilatação da Fé e conversão da gentilidade. de que tanto necessitam: Et terram inviam in rivos aquarum.] non derelinquam eos. bem ponderadas. XLI: Egeni et pauperes quaerunt aquas. As palavras de Isaías são estas: Et aedificabuntur in te deserta saeculorum. e de ilhas desertas que antigamente eram. que. Henrique. vós sereis chamado edificador das cercas e fareis que os que sempre andam. que Deus havia de converter por meio da pregação do Evangelho. Henrique. eu abrirei caminho por onde a elas cheguem as águas. ponam in deserto abietem. Quantos pobres e miseráveis estão morrendo à sede por falta de água. e de onde até agora se não colheu fruto. eu farei que se colha muito copioso e de todo o gênero: Dabo in solitudinem cedrum et spinam et myrtum. vamos agora às ilhas. São Cirilo. estão hoje tão povoadas e populosas. que levaram adiante o que ele começou. ut videant et sciant. geral da sua religião. mas não nos disseram que gentes estes fossem ou houvessem de ser. continuadas depois pelos reis de Portugal. E assim como nestas ilhas ermas e desertas lançou este glorioso príncipe os primeiros fundamentos da geração humana. porque as não conheciam. por tantos séculos estiveram desertas e incógnitas e despovoadas. diz assim: Hoc etiam hodie in Japone. et recogitent. as Terceiras ou dos Açores. primeiro autor dos descobrimentos portugueses. et vocaberis aedificator septum. ele as descobriu.

a qual anda de penedo em penedo como cabras às pedradas contra quem os quer ofender. Neste sentido tão próprio e literal explica Bózio este texto de Isaías. e por isso diz o Profeta que seria chamado o primeiro autor desta obra.. quero pôr aqui as do nosso João de Barros. e por cobrarmos um comedor destes. latissimis etiam regionibus Indiarum. que como animais andavam saltando de penedo em penedo. nem o modo de sua peleja. mas estes terras ermas foram as que pelo zelo e constância daquele príncipe se vêem hoje tão povoadas. Boreamvel spectantibus idem contingit. de grande virtude e letras. excitantur fundamenta generationis. nós que proveito podemos ter de terra tão estéril e áspera. quas no mine Promontorii Viridis appellant. humanidade. e foi que. Neque finis illus hucusque apparet. senão virem eles encarentar o mantimento da terra e comerem nossos trabalhos. qui bestiarum modo prius incertis sedibus vagabantur. as cercas e claustros das religiões: Et vocaberis aedificator septum Finalmente. não sabemos que gente é. Hispaniae in Oceano adjacentibus Occidentem versus. que há por bem ser aquela terra pastada de alimárias. O meio que para esta segunda e mais importante geração tomaram os religiosíssimos príncipes de Portugal. fazendo por meio da pregação e luz do Evangelho que esses bárbaros gentios conhecessem a Deus e fossem gerados em Cristo: Fundamenta generationis et generationis suscitabis. andando de antes vagamente pelas brenhas. quase como admoestação de Deus. foi mandarem religiosos por sodas as conquistas. sive orientem. que isso quer dizer—Avertens semitas in quietem.Anexo:Imprimir/ História do Futuro fundamentos da geração divina. E quando quer que nestas terras de Guiné se achasse tanta gente como o Infante diz. sive occidentem Solem. et omnibus quae Africae littora respiciunt: amplius cunctis quas Oceanus aluit. como vemos que passam os que lá vão. Sancti Laurentii. de fome e sedes. que os rompesse e povoasse. Ascensionis. cultivadas e ricas. e vivessem como homens. Certo que outro exemplo lhe deu seu padre poucos dias há. pois em tão poucos dias uma coelha multiplicou tanto. edificador de cercas. com obrigação de trazer a ele moradores estrangeiros de Alemanha. perdermos os amigos e parentes!» Isto é o que filosofavam e diziam os prudentes e políticos daquele tempo. que Deus deu por pasto dos brutos... e quando fosse tão bárbara.. romper terras. alemão. a Lambert de Orches. vel Austrum. que são. e não só eles. E estes bárbaros. junto a Caruche.idem perfectum videinus in insults quas Tertieras vocant. E bem se viu quanto mais naturais são para eles que para nós. Oppida innumera et civitates pulcherrimae passim condutur in quibus constituuntur caetus hominum. dando os maninhos de Lavre. como aqui notam alguns expositores. não cala o Profeta o fruto que desta santa indústria se seguiu em sodas estes gentilidades de bárbaros.os reis passados deste Reino (diziam eles) sempre dos reinos alheios para o seu trouxeram gente a este a fazer novas povoações. e não habitada por nós. são os que hoje vivem com tanto assento. e não mando?` seus vassalos passar além-mar. et generationis eorum. como sabemos que é a das Canárias. mas antes que escreva as suas palavras. ordem e política cristã. fundando e edificando conventos de diversas ordens. se aquietassem e tomassem assento. As palavras prometidas de Bózio são as que se seguem: . similiter in Canariis. e cativar gente tão mesquinha? Certo nós não sabemos outro. senão infinitos outros. referindo o que desta empresa do Infante sentiam e murmuravam os que lhes parecia inútil e infrutuosa: <. 86 . como animais silvestres. et in stabulis ipsis habitabant. que os lançou fora da primeira ilha. e ele quer levar os naturais portugueses a povoar terras ermas por tantos perigos do mar. que sempre são os instrumentos mais aparelhados que o Mundo e o Demônio têm para impedir as obras de Deus.

ad quam veniunt cum navibus a terra longinqua. Frederico Lúmnio. nem se podem chamar de Longe em comparação das que depois descobrimos. têm contra si tudo o que logo diremos. Japão. quae mittit in mare legatos. que. que é a terra que fica da outra banda da Etiópia. mas verdadeiramente nem são ilhas. e nomeadamente de Ceilão. Maldivas Socotorá. e é este: Vae terrae cymbalo alarum. Estes dois sinais tão manifestos só se podem verificar da América. Mas esta exposição e a de Mendonça e Rebelo (que entendem o texto geralmente da Índia Oriental). III explica muitos outros lugares de Isaías.. et nunc ab extremo Occidente Lusitanorum victricibus classibus aditur. Java. mas chegando mais de perto à gente e terra ou província de que se entende a profecia. Chama a estes ilhas o Profeta. Os comentadores modernos acertaram em comum com o entendimento da profecia. como veremos e verão melhor os que tiverem lido as exposições antigas e modernas dele. e se prova fácil e claramente. ilhas de longe. e ilhas de muito longe. e é terra depois da qual não há outra: ad populum post quem non est alius. José da Costa.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Até aqui este autor doutíssimo. post quem non est alius. LXVI: . pisado as terras e navegado as águas de que fala este texto. quae quondam remotarum gentium frequentibus navigationibus petebutur. que ficaram debaixo de nós. ad gentem convulsam et dilaceratam. Malucas e outras. como diz o texto. qui non audierunt de me. ad gentem expectantem et conculcatam.ad insulas longe ad illos.. mas nem atinaram nem podiam atinar com ela porque não tiveram notícia nem da terra. como no cap. volans alis suis. Malvenda. Alartim del Rio e outros dizem (e bem). e que não tem depois de si outra terra senão o vastíssimo mar do Sul. tão versado nas Escrituras como na geografia e na história natural das Índias Ocidentais. II cap. Arias Alontano. cujus diripuerunt flumina terram ejus. pelo havermos recebido de pessoa douta e versada nas Escrituras. quae est trans flumina AEthiopiae. também os modernos não acertaram até agora com o sentido próprio. e este é o que nós havemos de descobrir ou escrever aqui. Porque esta terra que descreve o Profeta está além da Etiópia trans flumina AEtiopiae. XLIX: Audite. insulin. que ultimamente se conheceram no Mundo com o descobrimento dos antípodas. germano e natural dela. e com toda a propriedade são ilhas. dizendo que se entende da nova conversão à Fé daquelas terras e gentes também novas. havendo visto as gentes. com os outros que cita. Mas porque Isaías nesta sua descrição põe tantos sinais 87 . Cornélio teve para si que fala o profeta de Etiópia e do Preste João. et attendite. e aplica à navegação dos Portugueses o parafraste caldeu. et vela sua extendunt. mas Etiópia não está além de Etiópia. e no cap. acabou de o entender. entente dos Chinas e Japões. Trabalharam sempre muito os intérpretes antigos por acharem a verdadeira explicação e aplicação deste texto. por estas palavras: Chaldeus interpres haec verba Isaiae in hunc modum reddidit: <<Vae terrae. et in vasis papyri super aquas! Ite. e verdadeiramente o entendeu. que isso quer dizer a energia da palavra: Ad gentem conculcatam: gente pisada dos pés. angeli veloces. ut aquila. pelas quais ilhas entendiam todos antigamente Itália e Espanha. populi de longe. que falou Isaías da América e Novo Mundo. Ponhamos fim a Isaías com um celebradíssimo texto do cap. parece que os trazemos debaixo dos pés e que os pisamos. ad populum terribilem. outra do Oceano. o qual foi sempre julgado por um dos mais dificultosos e escuros de todos os Profetas. nem das gentes de que falava o Profeta. Tomás Bózio. quae etiam itsas sinarum oras praetervectae Japoniorum insulas tenent.» Aptosite in Indiam. das ilhas que os Portugueses conquistaram para Cristo. e notaram alguns com agudeza e propriedade. porque os antípodas. por estarem quase cercadas uma do Mediterrâneo. XVIII. senão terra firme. o qual no mesmo liv. Ludovico Legionense.

o Brasil fica imediatamente detrás de Etiópia. cujas terras estão todas senhoreadas e afogadas das águas. sendo raríssimos os lugares por espaço de cento. senão em casas 88 . subiam as mulheres às trincheiras ou paliçadas. palmares e arvoredos altíssimos. que o texto de Isaías se entende do Brasil. como notou Malvenda. E é admirável a propriedade desta diferença. travessas e praças de água que a natureza deixou descobertas e desimpedidas do arvoredo. sendo muito contados e muito estreitos os sítios mais altos que eles. e os cozem a este fim. todos com as raízes e troncos metidos na água. Estes são os sinais comuns que nos aponta o Profeta daquela terra e gente. e nós dizemos. não se vendo em muitas jornadas mais que bosques. em que os rios são infinitos e os maiores e mais caudalosos do Mundo. mas porque assinala mindamente outros mais particulares e que não convêm a toda a gente e terra do Brasil. considerado o círculo que faz o globo terrestre.de trans&mdash. de que fazem os seus muros. que por ser tão pouco conhecida e menos nomeada nos escritores. Os Hebreus dizem&mdash. e agora das Amazonas. e assim se viu muitas vezes naquelas guerras. e tais são também os Brasis. sem nenhum horror. e não pode haver gente mais terrível entre todas as que têm figura humana. que em respeito de Jerusalém. que pela maior parte não têm barba. muito mais particularmente naquele vastíssimo arquipélago do rio chamado Orelhana. Em lugar de gentem conculcatam. e os autores alegados nos não dizem que província esta seja. e muito distantes uns dos outros. Diz pois o Profeta.Anexo:Imprimir/ História do Futuro particulares e tantas diferenças individuantes. Fazem depois suas frautas dos mesmos ossos humanos. Digo primeiramente. mas depois de mortos os despedaçam e os comem e os assam. Diz mais o Profeta que a gente desta terra é terrível: ad populum terribilem. e isto é o que agora hei-de mostrar.gentem depilatam: gente sem pêlo. que estando cercados os Bárbaros. não é muito que a falta de suas notícias lhe tivesse até agora escurecido e divertido a honra deste famoso oráculo do mais ilustre profeta. que claramente estão mostrando que não fala de toda a América ou Mundo Novo em comum. em que se possa tomar porto. quase todos os campos estão alagados e cobertos de água doce. é hebraísmo. que tão expressamente tinha falado nesta gente. que tangem e trazem na boca. ou como verte e comenta Vatablo: terra. porque o Brasil é a terra que direitamente está além e da outra banda da Etiópia como diz o Profeta: quae est trans flumina AEthiopiae. que aquela (quais são os Brasis) que não só matam seus inimigos. é outra vez necessário que nós também declaremos a província e gente em que eles todos se verificam. ainda que seja a alguma caveira desenterrada com outras cerimônias cruéis. e esta gente e esta província mostraremos agora que é a que com toda a propriedade chamamos Maranhão. sendo as próprias mulheres as que guisam e convidam hóspedes a se regalarem com estas inumanas iguarias. porque em toda aquela terra. com grande diferença dos Europeus. senão de alguma província particular dele. vivendo por esta causa não imediatamente sobre a terra. semelhante ao da nossa língua. e é estilo e nobreza entre eles não poderem tomar nome senão depois de quebraram a cabeça a algum inimigo.de trans&mdash. e assim é na geografia destas terras. será necessário que nós o digamos. bárbaras e verdadeiramente terríveis. A qual palavra&mdash. e mostravam aos nossos as panelas em que os haviam de cozinhar. por ruas. lê o Sírio&mdash. que são estes homens uma gente a quem os rios lhe roubaram a sua terra: Cujus diripuerant flumina terram ejus. duzentas e mais léguas. e posto que estes alagadiços sejam ordinários em toda aquela costa. em que os Índios possam assentar suas povoações. navegando-se sempre por entre árvores espessíssimas de uma e outra parte. vê-se este destroço e roubo que os rios fizeram à terra. e no peito e pelo corpo têm a pele lisa e sem cabelo. detrás. quae est sita ultra AEthiopiam (quae AEthiopia scatet fluminibus) e o hebreu ao pé da letra tem de trans flumina AEthiopiae.

e alguma caça de aves e montaria de porcos. de que os primeiros usavam. senão rios. dividirem-se em colônias mui distantes uns dos outros. se ceva nos frutos delas. e em muita quantidade de tartarugas e peixes-bois. Quando os Portugueses conquistaram as terras de Pernambuco. e diz que os habitadores desta província são gente arrancada e despedaçada. nos frutos agrestes das árvores de que se sustentam. bem assim como as mesmas árvores. que são as canoas. (que assim se chamavam os Pernambucanos) os arrancaram de suas pátrias. caindo para a parte do mar. Maianás e outras antigamente populosas gentes. ainda que o rio das Amazonas tenha fama de tão enorme grandeza. com mais generosa resolução e determinados a não servir. e deste nome igara derivaram a denominação de Igaruanas. assim porque foram ficando a pedaços em vários sítios como porque depois da vitória lhes foi necessário para conservarem o violento domínio. E nota o Profeta que não é rio. ficando em suas próprias terras. tomando o nome da mesma arte de navegar e das mesmas embarcações em que lá navegavam. outros. se chamam Igaruanas. desenganados os Índios (que eram mui valentes e resistiram por muitos anos) que não podiam prevalecer contra as nossas armas. se chamam na sua língua igara. como gente nascida e mais criada na água que na terra. outros. em que eram e são os Maranhões mui sinalados entre os índios. porque apenas dão passo que não seja com o remo na mão. não podendo resistir.>> 89 . e muito particularmente pelo exercício e arte da navegação. diferindo só as árvores das casas em que umas são de ramos verdes outras de palmas secas. que nos mesmos lugares sobre-aguados. Tanto assim que a principal nação daquela terra. fizeram facilmente a seus habitadores o que nós lhes tínhamos feito a eles. os vencidos também ficaram arrancados. e só o Espírito Santo poderá recopilar em duas palavras a história e última fortuna daquela gente. vieram sair às terras do Maranhão. os artífices ou os senhores das naus Diz pois Isaías que esta gente de que fala é um povo: Quae mittit in mare legatos et in vasis papyri super aquas: «Que manda de uma parte para outra seus negociantes em vasos de cascas de árvores sobre as águas. se meteram pelo sertão. porque os Tutinambás. onde fizeram assento. como se disséssemos os náuticos. entre os lodos e raízes das árvores. por cima dela se conservam e aparecem. onde ficaram muitos. Goianás. por serem eles. Conhecidos já pela fortuna os descreve o Profeta. os que isto fazem. Desta peregrinação e desta guerra se seguiram naquela gente os dois efeitos que sinala Isaías.Anexo:Imprimir/ História do Futuro levantadas sobre esteios a que chamam juraus para que nas maiores enchentes passem as águas por baixo. que são os gados que pastam naqueles campos. ficando uma e outra gente arrancada e despedaçada: os vencedores arrancados. uns deles se sujeitaram. não sem novos inimigos que ainda mais os despedaçassem. ou juntamente com ele. além de outro pescado menor. porque as suas embarcações. porque caem todos na água. cuja colheita é muito 1impa. ou certamente porque com sua indústria adiantaram muito a rudeza das embarcações bárbaras. que tendo as raízes e troncos escondidos na água. de quem se diz com propriedade que andam mais com as mãos que com os pés. Desta sorte vivem os Nheengaíbas. muitos deles fugiram em magotes pelos matos e pelos rios tomando diferentes caminhos. porque os tinham lançado de suas terras os Portugueses. comunicando e confundindo em si as águas e como unindo e conjurando as forças para este roubo que fizeram àquela terra: Cujus diripuerunt flumina terram ejus. e uns e outros gente despedaçada: gentem conculcatam et dilaceratam. porque. toda esta se compõe do concurso de muitos outros rios. ou os primeiros inventores da sua náutica. assim que uns e outros ficaram gente arrancada. e também e com muito maior razão despedaçados porque. restituindo-lhes os rios a terra que lhes roubaram. e também despedaçados. e ali como soldados tão exercitados com o mais poderoso inimigo. Continua Isaías a sua descrição. que todos desembocam nele.

tirando-lhes as cascas assim inteiras. assim para os negócios da paz. dentro dos quais metiam seixos ou caroços de várias frutas. como são sinos? Esta dificuldade foi até agora o torcedor de todos os entendimentos dos expositores sagrados. senão de cabaços ou cocos grandes. o mesmo arquipélago que dizemos. ou cretitáculos. Estes maracás eram propriamente os seus címbalos ou sinos. o qual foi sempre o que maior trabalho deu aos intérpretes e os obrigou a dizerem cousas mui violentas e impróprias. senão tinham as notícias nem a língua dela? Para inteligência do verdadeiro entendimento deste texto ou enigma. que quer dizer. porque é gente que não tem reis. significa também qualquer instrumento com que se faz som e estrondo e tais eram os címbalos de que usavam antigamente os Gentios. com que significamos os nossos sinos de metal. Também se há-de supor que os Maranhões usavam de uns instrumentos a que chamavam maracás não de metal. como são navios? e se são navios. como aqueles que falavam a adivinhar. o qual. porque o não tinham. servindo-se dos menores nas festas e nos bailes e dos maiores nas guerras. E não faz dúvida dizer o profeta que estas embarcações iam ao mar: Qui mittit in mare. foi Gabriel Palácio. que se chamavam por nomes particulares sistros crotalos. delas formavam as suas embarcações. no comentário literal deste lugar de Isaías. cavam os troncos das árvores e fazem de um só madeiro muito grandes canoas.. o que tudo quer dizer mar grande. Diz mais que vão sobre as águas em vasos de cascas de árvores. Isto suposto. de água doce. mas antes de terem ferro despiam estes mesmos madeiros. duros e acomodados a fazer muito estrondo e ruído. por sua grandeza. Assim o explicou eruditamente Carpenteio. e uma e outra cousa significam as palavras de Isaías. maracás ou sinos de metal. que está nas primeiras palavras deste texto: Vae terrae cymbalo alarum. e. vertendo em verso este mesmo lugar de Isaías: Vae tibi. mas como podia ser que entendessem o enigma da terra.Anexo:Imprimir/ História do Futuro As palavras do Profeta todas têm mistério e todas declaram muito a propriedade da gente de que fala. Diz que as manda o povo. leram terrae navium alis. com quem concorda o relativo quae.. que tudo isso quer dizer a palavra legatos. Se são sinos. tanto assim que. mas o mesmo povo e a mesma nação é a que elege aqueles que lhes parecem de melhor talento. se chama na sua língua. de 1600 anos a esta parte. diz assim: Fortasse indicus usus nominis cymbali antiquitas inolevit apud Hebraeos tempore Isaiae: 90 . o expositor que mais foi rastejando o sentido verdadeiro que podia ter este enigma. como se pode ver nos autores da língua latina. Do que temos dito até aqui ficará mais fácil de entender aquele grande enigma do Profeta. e não adivinhavam nem podiam. em lugar de terrae cvmbalo alarum. porque os nomes hebreus de que estas versões foram tiradas. ou. além de entrarem com elas pelo mar Oceano. porque Pará significa mar. como para os da guerra. e por nome geral cimbalos. porque esta era a matéria e fábrica de suas embarcações. cujos troncos são muito altos e direitos. ai da terra que tem sinos com asas. mar. Depois que tiveram uso do ferro. e de aqui veio o nome que os Portugueses lhe puseram de Grão-Pará ou Maranhão. se há-de supor que a palavra latina cymbalum. crotalos et inania cymbala pulsas. quae reducem sistris cretitantibus apim Concelebras. Os Setenta Intérpretes. têm ambas as significações e querem dizer: Ai da terra que tem navios com asas. porque. lhes chamam itamaracás. depois que viram os sinos de que nós usamos. de que o autor desta explicação viu alguma que tinha dezessete palmos de boca e cento de comprimento.

E porque não faltasse a esta terra a demarcação ou arrumação. é gentem lineae linea:. digo eu. conforme o poeta: Velorun pandimus alas. Os expositores todos dizem que estas asas eram as velas das embarcações e que são as asas dos navios. significa entre eles sino. e quando a guerra era naval. Mas não está ainda explicada toda a dificuldade ou propriedade do enigma. e particularmente o chamado guarás. e deste modo fica decifrado e entendido o antiquíssimo e escuríssimo lugar e enigma de Isaías. atados aos gorupezes ou paus compridos. senão entre os mesmos Índios? Assim era e assim é. navium alis. Sanchez e outros muitos tão geralmente. além da Etiópia. e por isso o Profeta diz que todas estas cousas via e notava como tão novas: chamam as lanças sinos e sinos com asas: Navius alis. tirada a metáfora do nariz dos homens ou do bico das aves. Como aqueles gentios não tecem. sendo certo que o Profeta não havia de dar por sinal e divisa daquelas embarcações uma cousa tão comum e universal em todas. Nem mais nem menos que os Romanos às suas galés de guerra deram nomes de rostratas. porque os Maranhões são aqueles que. e principalmente quando vão à guerra. que é propriedade por todos os títulos admirável. destas penas se enfeitam quando se querem pôr bizarros. que se chamassem sinos. nem têm panos. Assim que vem a dizer Isaías que a terra de que fala é terra que usa embarcações que têm nomes de sinos. e porque a proa da canoa se chama tim. derivado o nome da palavra mararacá. está também repetida no mesmo texto a palavra expectantem. senão também os arcos e rodelas. de que Isaías falava. que. faziam um estrondo barbaramente bélico e horrível. e as partaz anas de pau e pedra que chamam fanga-penas.» E porque não seria antes. não porque este nome fosse usado entre os Hebreus. ou tomassem nome de sinos as embarcações dos índios. como dizem os geógrafos. gente da linha de linha. sem mistura de outra cor. é grande entre eles o uso das penas pela formosura das cores com que a natureza vestiu os pássaros. ornando com elas todo o gênero de armas. e este nome usam ainda hoje. e estas são pontualmente os maracàtins dos Maranhões. como dissemos. e juntando a palavra tim com a palavra maracá. empavezavam-se as canoas com asas vermelhas dos guarás. Pagnino. porque diz o Profeta que estas embarcações ou estes sinos eram sinos e embarcações com asas: cymbalo alarum. quando iam às batalhas navais. se não tivera a própria e verdadeira. tirado também o nome ou metáfora dos bicos das aves. As maiores embarcações dos Maranhões chamam-se maracàtim. além do movimento natural das canoas e dos remeiros. e assim como a palavra lineae se repete. com que vem a concluir o Profeta 91 . A qual explicação pudera ser bem admitida. onde a Vulgata leu gentem expectantem expectantem. cymbalo alarum. de que há infinita quantidade. Vatablo. e a razão de darem este nome às suas maiores embarcações era porque. da sua altura. e as mesmas levavam penduradas dos gorupezes e maracás das proas. quais eram ordinariamente as suas. chamavam àquelas canoas ou embarcações maiores maracàtim. que chamam rostros.Anexo:Imprimir/ História do Futuro «Porventura—diz ele—que no tempo de Isaías as embarcações dos Índios se chamariam entre os Hebreus sinos. e bolindo de indústria com eles. punham na proa um destes maracás muito grandes. grandes e todos vermelhos. porque não só levam empenadas as setas. e com ele nomeiam os nossos navios. Digo pois que fala o texto de verdadeiras asas de aves. pelas pontas de ferro agudas que levavam nas proas. que têm o mesmo nome. ficam pontual e perpendicularmente bem debaixo da Linha Equinocial. como diz Foreiro. a propriedade da letra hebréia.

Arias. Escalona e outras. de que São Jerônimo verteu Bosphoro. expectantem: gente que está esperando. viria tempo em que possuísse as cidades do Austro. 92 . Burgense. Malvenda e outros têm para si que fala da transmigração de Nabucodonosor o qual. Estrabo e outros graves autores. há duas opiniões entre os autores. esperando mais que todos os outros Brasis sessenta e cinco anos. Frei Luís de Leon. o qual verdadeiramente se pode contar entre os cronistas de Portugal. de El-Rei Dom João o III e de El-Rei Dom Sebastião escrevem seus historiadores. em que o conquistou Alexandre de Moura. em que o descobriu Pedro Álvares Cabral. Assim querem também que de Nabuco traga seu apelido a ilustre família dos Osórios. que tanto tardou a todos os Americanos. Esta mesma palavra Sepharad é nome com que os Hebreus chamam a Espanha. No Brasil se começou a pregar a Fé no ano de 1550. E esperam de se salvar os que de tantos danos e danos são causa? Muito largos temos sido na exposição deste texto. esperando. quae in Bosphoro est. que delas havia de ter princípio. Deixo muitos outros lugares do Profeta Isaías. ou desterrados ou trazidos por Nabuco. e deles. segundo fala muitas vezes nas espirituais conquistas dos Portugueses e nas gentes e nações que por seus pregadores se converteram à Fé. e como o Profeta própria e literalmente falava neste lugar do mesmo cativeiro de Babilônia. que tanto há mister quem a encaminhe como quem a defenda: Ite. mais que todos eles. esperando por este bem. ficaram muitos em Espanha. é conseqüência muito ajustada que da profecia do desterro passou. que é exortar os pregadores evangélicos a que vão ser anjos da guarda daquela triste gente. como testemunham de uma parte as Colunas de Hércules e de outra o cabo de Finis Terrae. significa termo. Desta transmigração pois (diz Montano e os mais acima alegados) se há-de entender o texto de Abdias. Isidoro Clário e os demais. Porque entre todas as gentes do Brasil os Maranhões foram os últimos a quem chegaram as novas do Evangelho e o conhecimento do verdadeiro Deus. foi fundação a insigne cidade de Toledo. Pagnino. como refere Josefo. Diz agora o profeta Abdias que a transmigração de Jerusalém. de ali mandou parte deles para Espanha. tendo conquistado a Jerusalém e passado seus habitadores para Babilônia. angeli veloces. limite e fim. e que veio o mesmo Nabuco em pessoa a fazer esta guerra. e no Maranhão no ano de 1615. que são as duas balizas que têm no meio a Portugal. Destes hebreus. que o primeiro e principal intento que neles tiveram nossos piedosíssimos reis. porque em Espanha está o estreito que divide a Europa de África e Espanha era o termo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro o seu principal e total intento. Maqueda. padecendo aquele vae do Profeta: Vae terra: cymbalo alarum. pela qual fortuna (como notou Santo Agostinho na morte dos infantes de Belém) não tiveram parte na morte de Cristo e conservaram sua antiga nobreza. que passou a Espanha. Lirano. limite e fim que os Antigos conheciam no Mundo. do Infante Dom Henrique. como escrevem muitas histórias de Espanha. A palavra hebréia Sepharad. por ser parte desta província conquista sua. qual é a que logo diremos. porque o estado da esperança se Lhes tem trocado no de desesperação. Mas hoje estão ainda em pior fortuna. a uma felicidade tão estranha. Árias Montano. de El-Rei Dom João o II. possidebit civitates Austri. Toda a explicação é comum e certa entre todos os autores mais peritos da língua hebraica—Vatablo. Mas sobre a transmigração de Jerusalém de que Abdias fala. mas foi assim necessário por sua dificuldade e por não estar até hoje entendido. para consolação dos mesmos desterrados. O Profeta Abdias em um só capítulo que escreveu também falou das conquistas de Portugal: El transmigratio Hierusalem. ad gentem expectantem. como se pode ver do que de El-Rei Dom Manuel.

entendendo uns que é a de Nabuco pelos Judeus passados à Espanha. o velho. e são as seguintes: Ego novi sanctum Petrum. Pedro de Rates. chamando por ele o ressuscitou em nome de Jesus Cristo. id est in Hispania. e à esquerda pela costa de África à Etiópia. Até aqui esta maravilhosa história. magister meus. e discordam só na inteligência da transmigração de Jerusalém. e ele por meio de seus discípulos a converteu toda à Fé e desterrou dela a Gentilidade: Et transmigratio Hierusalem. ubi dicit Rabbi Sa. De maneira que todos estes autores concordam em que a profecia da conquista das regiões do Austro se entende de Espanha. Fevardêncio e outros entendem por esta transmigração de Jerusalém a que fez Cristo. na primeira parte da História Ecclesiastica Bracharense. chamado Malaquias. e dos fragmentos de Santo Atanásio. Bracharensem Episcopum. que por isso não traduzimos. porque de ambas as transmigrações foram os primeiros ministros da Fé que a plantaram em Portugal. à parte direita pela costa da América ou Brasil. Rodrigo da Cunha. a quem vinha pregar e publicar por verdadeiro Deus. o qual. cuja rainha 93 . que é a primeira parte da profecia. mas eu. depois chamado vulgarmente S. sendo estes os que depois de tantos séculos vieram a dominar e possuir as regiões do Austro: Possidebunt civitates Austri. Cornélio. Nosso Senhor. ou Samuel. E cumprida em Sant'Iago a transmigração de Jerusalém. seguindo esta segunda exposição... bispo do Porto. o moço e em presença de infinito povo. e para entrar com estrondo de trovão (cujo filho o chamara Cristo. Os filhos desta Igreja e herdeiros desta Fé foram os que dali a tantos anos dominaram com os estandartes dela as cidades e regiões do Austro. diz desta maneira: Entrou em Braga o santo Apóstolo. e outros que é a de Cristo pelos Apóstolos. quem antiquum prophetam suscitavit Sanctus Jacobus Zebeduei filius. quando vieram pregar a ela. mandando daquela cidade e espalhando por todo o Mundo seus Apóstolos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Nicolau de Lira. et colla gentium subjugantes. O fundamento que tenho para assim o dizer. porei aqui com as palavras do arcebispo D. que são os que em Espanha receberam e conservaram sempre a Fé que ele lhes tinha pregado. ibi fidem Christi primitus praedicantes. digo que falou o Profeta de uma e outra transmigração. e particularmente de uma carta de Hugo. Antônio Caracciolo e outros. Assim o entendem também. o qual conheceu ao mesmo Pedro ressuscitado e escreveu o caso quase pelas mesmas palavras. etc. onde jacia enterrado de seiscentos anos um santo profeta. Hispaniarum praefecto. e a de Nabuco com o Apóstolo Malaquias. que foi a pedra fundamental depois do sagrado Apóstolo da Igreja de Portugal. batizou-o pouco depois. o escolheu e tomou por primeiro e principal de todos seus discípulos. bispo de Saragoça. De sorte que ambas as transmigrações de Jerusalém concorrem para a fé de Portugal: a de Cristo com o Apóstolo Santiago. que são propriissimamente as que correm de uma e outra parte do Oceano Austral. vel Pyrrho. falando do Apóstolo Sant'Iago. entre os quais coube Espanha a Sant'Iago. José da Costa. Hic venerat cum duodecim tributus missis a Nabuchodonosore in Hispaniam Hierosolymis duce Nabucho-Cerdan. judeu de nação. e que ali viera dar com outros cativos mandados de Babilônia por Nabucodonosor. de onde ela depois tão felizmente se transplantou às regiões do Austro. conciliando facilmente estas duas opiniões e mostrando que a profecia se entende mais particularmente de Portugal. e dando-lhe o nome de Pedro. em seus discípulos. et ejus discipulos. quod fuit impletum per Jacobum apostolum. tirada de autores e memórias mui antigas. quae in Bosphoro est (diz Lirano) in hebraeo habetur in Cepharad. se foi a uma sepultura célebre. Vatablo. se cumpriu a segunda parte dela.

tem por assunto o triunfo de Cristo. e esta foi a primeira vitória de Cristo. e verdadeiramente não se podia dizer cousa mais apropriada aos Portugueses. do que eram os reinos de Fez e Marrocos. como lemos que o fizeram alguns de Alemanha e Dinamarca. evangelistae tui portabunt te. para que pisasse as ondas.) e que as suas alturas ou profundidades. senão para os salvar. geralmente chamada Terra Austral. 15. do demônio e do pecado. para que o reconhecesse e adorasse. que é a matéria de todo o III cap. com que a despesa deste caso fosse própria dele e não taxada por outrem. E no v. A parte marítima deste triunfo. ó Senhor. AEthiopiam. por meio de cuja navegação e pregação sujeitou Cristo à obediência de seu império tantas gentes de ambos os mundos. Que abriu Cristo caminho pelo mar à sua cavalaria. senão ainda os estrangeiros. e último deste Profeta. E a primeira empresa e vitória desta cavalaria de Cristo foi a sujeição do mesmo mar bravo. Assim se cumpriu nos Portugueses a profecia de Abdias: Transmigratio. O mesmo Profeta o disse assim: Numquid in mari indignatio tua?» «Porventura. e que a guerra que com esta cavalaria havia de fazer.. Brasilicam. e as naus dos Portugueses. há-de ser eterna a vossa indignação no mar?» E responde a esta sua pergunta. e depois em vários tempos foi triunfando da idolatria e da gentilidade. O Cântico de Habacuc. faziam grande apreço de se armarem nela cavaleiros.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Sabá chamou Cristo Regina Austri.°: Viam fecisti in mari equis tuis. triunfar deles: Equitatio tua salus. que também foi naval. que ou Cristo lhe sujeitou a eles. E mais abaixo no mesmo cap. seu tresavo. que é o 2° do liv. Africam. hoc est. furioso e indignado. soberbo. com as mãos levantadas o adorariam e reconheceriam por Senhor: Altitudo manus suas levavit. de cujo 94 . como os cavalos pisam o lodo da terra: In Iuto aquarum multarum. Os Portugueses.° . para esta guerra dos Infiéis ordenou e novamente constituiu. com que por meio da sua cruz triunfou um dia da morte. Década I..°. por si mesma e na opinião do Mundo tem [esta] cavalaria [tanto valimento. que El-Rei D.a: Assentou em mudar esta conquista para outras partes mais remotas de Espanha. aquelas carroças que levavam pelo mar a Fé. diz Santo Agostinho. Isto quer dizer 0 Profeta no v. Henrique) outra cousa muito mais eficaz. conforme a disposição da sua providência. e salvando-os. que era a obrigação do cargo e administração que tinha de governador da Ordem da Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo. de que usou o Profeta (deixando à parte haver sido esta empresa dos primeiros descobrimentos e conquistas dos Portugueses).ascendes super equos tuos: et quadrigae tuae salvatio. que o mar submeteria suas ondas: Gurges aquarum transiit: que os abismos confessariam a potência de Cristo as vozes: Dedit abyssus vocem suam. aqueles cavaleiros que pisaram as ondas do mar. possidebit civitates Austri. Faz muito ao caso advertir o que escreve o nosso insigne historiador destas conquistas. Mas para que se veja o grande mistério desta metáfora de cavalaria de Cristo. Os Portugueses foram aqueles cavaleiros a quem Cristo abriu o primeiro caminho pelo mar: Viam fecisti in mari equis tuis.. pertence principalmente aos Portugueses. quae est in Hispania. I. que quero pôr aqui por suas próprias palavras): Mas ainda foi acerca dele (fala do Infante D. (Ibid. in luto aquarum multarum. 8.] que não só os mesmos Portugueses. não era para matar os homens. ou eles o sujeitaram também a Cristo. e estas são as terras de que no comento deste texto faz menção Cornélio: Americam. e este da sua cavalaria o primeiro triunfo. Dinis. a salvação: Et quadrigae tuae salvatio. E esperamos que seja novo complemento dela o domínio da terra indômita. e os méritos de seu trabalho ficassem metidos na Ordem e Cavalaria de Cristo que ele governava.

tanto mundo e tantas almas conquistou para o mesmo Céu. para levar a salvação às terras e gentes que ela descobriu e conquistou. e que então tornaria o Senhor a vivificar e ressuscitar a sua obra: Opus tuum. Na História do P. cognosceris. da Ordem dos Cavaleiros de Cristo de Portugal. que a consideração dos ocultos juízos de Deus. e feita. in medio annorum vivifica illud. que se possa gloriar de ter tão ilustre cavaleiro. senão com as rendas e tesouros da mesma cavalaria e serviços e merecimentos próprios dela. não só tem a formosura da metáfora. Singular prerrogativa. que também ele foi cavaleiro da mesma Ordem. e que a empresa havia de ser a salvação das almas. traduzindo juntamente e explicando leram: Cum appropinquaverint anni. et expavi). E porque o maior ministro do Evangelho que se embarcou nas carroças desta cavalaria. que mais assombrasse e fizesse pasmar aos homens que o descobrimento do mesmo Mundo que tantos mil anos tinha estado incógnito e ignorado. e para que os Portugueses conheçam quanto devem a Deus. (começa ele) audivi auditionem tuam et timui. e que tendo durado tantos séculos sua ira contra aquelas gentes idólatras. depois do princípio e criação do Mundo. não pode haver melhor testemunho que o proêmio do mesmo Profeta. Francisco Xavier. por certo. diz que ficou cheio de temor e assombro ( assim o interpretaram os Setenta . Para confirmação de tudo isto. e a verdade da história e cumprimento da profecia. Porque não houve obra de Deus. então sereis conhecido. mas todo este favor do Céu merece uma cavalaria que tanto mar. pelos escolher para instrumentos de obras tão admiráveis. foi o grande Apóstolo da Índia S. opus tuum in medio annoram vivifica illud. em fim se lembraria de sua misericórdia: Cum iratus fueris. nem de que sobre os dotes da glória se vestisse o seu manto e a sua cruz. «Quando chegarem os anos determinados por vossa providência. sem lhes amanhecerem as luzes da Fé. para que a fosse dar por Cristo no Japão. onde padeceu glorioso martírio. e que tanto adiantou em nossas Conquistas a glória de sua empresa.Anexo:Imprimir/ História do Futuro tesouro podia pretender. não com outras despesas. não de outro príncipe. cujos primeiros trabalhos foram os da navegação da costa de África e pregação da Fé em Moçambique. tantas gentes e tanta s almas vivessem nas trevas da infidelidade. senão de um que era propriamente administrador e governador da Ordem da Cavalaria de Cristo. e para que se não admirem quando lhes dissermos que os tem escolhido para outras maiores. misericordiae recordaberis. Quando Deus revelou ao Profeta e quando ouviu de sua boca o que havia de fazer aos vindouros. com que por tantos séculos permitiu que tão grande parte do Mundo. com que deu princípio a este cântico triunfal das vitórias de Cristo: Domine.:>> E este novo conhecimento que Deus deu àquelas nações por meio dos 95 . não havendo outra entre todas as da Cristandade. tão breve noite para os corpos e tão comprida noite para as almas. se conta uma visão em que o mesmo santo apóstolo apareceu vestido com o manto branco da Ordem de Cristo e com cruz vermelha no peito. De sorte que dizer o Profeta que Cristo havia de abrir caminho no mar à sua cavalaria. misericordiae recordaberis. é cousa memorável e muito digna de se referir neste lugar. In medio annorum notum facies: cum iratus fueris. Francisco Xavier restituiu milagrosamente a vida. Domine. senão a propriedade do caso. nem que maior nem mais justo temor deva causar aos que bem ponderarem esta obra. como insigne cavaleiro desta santa cavalaria. a quem S. Mas no meio desses compridíssimos anos. acrescentando por modo de glosa no mesmo texto: Consideravi opera tua. pois verdadeiramente esta admirável empresa foi obra. Os Setenta.e Marcelo Mastrilli. diz o Profeta que faria Deus que se descobrisse e conhecesse o que até então estava oculto: In medio annorum notum facies.

então famosíssima. crespissimos inter homines habent. Heródoto e outros. quando na cidade de Meliapor. que ainda tivesse a S. sempre o oráculo ou elogio deste Profeta nos fica em casa. donde era a mulher de Moisés. que são todas aquelas terras que cerca o mar Oceano. Castro e Cornélio das nações que estão além do Tigres e do Eufrates. que por meio das pregações dos Portugueses se haviam de ajoelhar diante dos altares de Cristo e lhe haviam de levar e oferecer seus dons em testemunho de o reconhecerem por seu Deus.Ásia tinham o cabelo solto e corredio e os da África crespo e retorcido. Éforo. debaixo do mesmo nome de Etiópia se compreendiam antigamente duas Etiópias: uma oriental. também falou mui particularmente neste glorioso assunto: Ultra flumina AEthiopiae (diz ele. Japões e outras gentes da Índia menos remotas. senão ainda dos historiadores e poetas antigos. Por este argumento há outros autores que o entendem do Brasil e da América. dos Chinas. e de quanto lhe merece Cristo. e já os Apóstolos plantavam as balizas da fé em seu nome e conheciam e pregavam que ele era o que havia de fazer cristão ao Mundo. e outra ocidental. porque os da . De sorte que também havia Etíopes na Ásia. Lembre-se outra vez Portugal destas obrigações. a qual distinção não não só é necessária para o entendimento de muitos lugares das Escrituras. Lhes disse e mandou esculpir no pé dela. que de outro modo se não podem bem entender. no cap. não se pode entender este texto das gentes orientais. mas contra esta explicação parece que se opõem as primeiras palavras do texto. sub Pharnarzatre. porque o mar. E a razão é porque. Senhor. sed sono vocis dumtaxat. e com o tempo estava em algumas partes amortecida e em outras totalmente morta. a mesma Fé e o mesmo Cristo que ele pregava. As quais palavras entendem Árias. «Vós. filii dispersorum meorum deferent munus mihi. qui sunt ab ortu Solis. que pregassem a mesma Cruz. e só se distinguiam uns dos outros no som da voz e no cabelo. por meio de cuja pregação ressuscitaria também a Fé e as vitórias dela naquelas nações. chegou ao lugar sinalado. levantando uma cruz de pedra em lugar distante das praias. segundo Estrabo. Vatablo. dizendo: Suscitans suscitatis arcum. III. não menos que doze léguas. ou por ele Deus) inde supplices mei. como traslada Símaco: Reviviscere fac ipsum. isto é. chegariam também de partes remotíssimas do Ocidente outros homens da sua cor. que quando o mar ali chegasse. Logo. tornareis a ressuscitar o vosso arco» (que é a sua cruz). Tomé. Isto quer dizer: Opus tuum vivifica illud: ou. permixtos crines. tuum. chamada por isso Etiópia. na África. As palavras de Heródoto são estas: Hi AEthiopes. O Profeta Sofonias. Igual glória (e não sei se maior de Portugal) a da Índia. censebantur cum Indiis specie nihil admodum a caeteris differentes. Nam AEthiopes qui ab ortu Solis sunt. 96 . Digo que de uma e outra terra. e de uma e outra gente se pode entender. e posto de um e outro modo. desde Guiné até o mar Roxo. Assim o profetizou na Índia seu primeiro Apostolo. Cumpriu-se pontualmente a profecia. segundo o que acima deixamos dito. que verdadeiramente falam das gentes que estão além do rio da Etiópia: Ultra flumina AEthiopiae inde supplices mei. Tomé por seu apóstolo e Portugal não era de todo cristão. como são hoje os que se conservam com o mesmo nome na África. comendo pouco a pouco a terra.Anexo:Imprimir/ História do Futuro nossos apóstolos e pregadores da sua Fé foi tornar a ressuscitar a mesma obra. S. E o mesmo profeta mais abaixo se comenta a si mesmo. e no mesmo tempo chegaram os Portugueses. qui ex Africa. que tinha começado pelos primeiros apóstolos que naquelas mesmas terras a pregaram. que estava na Ásia além do Tigres e Eufrates. atque capillatura.

levam a elas a Fé de Cristo e a luz de seu Evangelho. João chamasse ao mar Eufrates. e que pôs o pé esquerdo sobre a terra e o direito sobre o mar: Et posuit pedem suum dextrum super mare et sinistrum super terram. Donde se segue que quando na Escritura se acha este nome sem outra diferença. Os descendentes deste mesmo Membrot e deste mesmo Chus. e assim como uns e outros na língua latina se chamam AEthiopes. deu o nome de seu pai às terras orientais. e outro melhor Eufrates. a quem só pertence a conversão dos reis do Oriente. que é o mar Oceano. sem saírem da terra firme pregaram nela. falando em geral dos Espanhóis e em particular dos Portugueses. Assim como o Profeta Jeremias chamou ao Eufrates mar.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Nem faça dúvida a esta distinção a palavra Chus. como diz Éforo. que está sobre o mar. por ser o mais profundo e mais caudaloso da Saia. pelo qual se abriu caminho aos reis do Oriente. não é muito que S. Não os nomeou por seu nome este autor. são. principalmente acompanhado daqueles dois epítetos de alusão a grandeza: Illud magnum Euphatem. para aparelhar o caminho aos reis do Oriente». o Evangelho explicado. Não sou eu nem autor português (como quase todos os que até agora tenho alegado) o que isto digo. O maior impedimento de água que tinham os reis do Oriente para passar a Jerusalém. levaram consigo o nome que tinham herdado de seu pai e de seu avô. Mas debaixo das figuras deste enigma se significava outra melhor Jerusalém. João que se lhes havia tirar. e a sua terra Ethiopia. entre os quais o pé esquerdo. insigne professor parisiense das Letras Sagradas. os que. (como neste lugar de Sofonias) se pode entender de qualquer das Etiópias. os pregadores apostólicos que levam pelo Mundo ao mesmo Cristo e seu Evangelho. como nós fizemos no texto de Isaías ultimamente referido. que é a Igreja. No cap. XVI. de modo que se pudesse passar o Eufrates a pé enxuto. donde se segue que o pé direito que Cristo pôs sobre o mar para esta gloriosa e evangélica empresa. cujas insígnias descreve largamente . e é o mais honrado nome e de maior estimação que lhes podia dar. donde nós lemos AEthiopae. Neste basta dizer que tinha na mão um livro aberto: Et habebut in manu sua libellum apertum. pelo qual os Portugueses (maior façanha e ventura que a do outro Ciro) fizeram passagem a pé enxuto nas suas grandes naus da Índia. por excelência os Portugueses. referido por Estrabo. no cap. para que pudessem vir à Igreja. que nós pode ser expliquemos em outro lugar. diz S. E este grande Eufrates é aquele grande mar. onde habitou e povoou. Este anjo forte (diz Pedro Bulêngero) é Cristo. do Apocalipse. que está sobre a terra. 0 diz assim sobre este mesmo lugar do Apocacalipse. que é Roma. entre todas as nações do Mundo. X. 97 . diz que viu descer do Céu um anjo forte. para levarem nelas a Fé ao Oriente e trazerem tantos reis orientais à obediência e sujeição da Igreja. senão o doutíssimo Genebrardo. 12. cabeça da Igreja. ut praepararetur via regibus ab ortu Solis: Que «o sexto anjo derramou sua redoma sobre aquele grande rio Eufrates e que secou suas águas. navegando às regiões apartadas e remotas do nosso hemisfério. mas nomeou-os por suas obras. porém quando se ajuntem na história ou narração algumas diferenças que o determinem. e os que depois passaram à África e a povoaram. de que usa indistintamente o original hebreu. então se há-de entender determinadamente ou só da Etiópia Oriental ou só da Ocidental. o livro. assim uns e outros na língua hebréia se chamam Chuteos e a sua terra Chus. o pé direito. e este impedimento diz S. O mesmo Evangelista Profeta S João. era o rio Eufrates. são aqueles que. porque Membrot. filho de Chus e neto de Cham. João: Et sextus angelus effudit phialam suam in flumen illud magnum Euphraten: et siccovit aquam ejus. e os pés de seu corpo místico.

se não sabiam que havia Japões? Como dos Chinas. das ilhas. com o pé direito no mar e o livro na mão direita! No capítulo seguinte se verão muitos lugares de vários Profetas. receberam a Fé de Cristo em número de 8. se não sabiam que havia tal Etiópia? Como dos Japões. como podiam conhecer nem atinar com as terras os que não 98 . das navegações. dos costumes. nem suas histórias? Se declaram as terras pelos sítios. deixando o culto da idolatria no ano de I564. com tanta glória da Igreja. que pertencem às antigas Índias. em que entraram os príncipes e reis e muitos grandes senhores. dos sítios. que as cidades se batizaram. dos frutos. vemos que os reinos e regiões muito apartadas de nós. das gentes. permultique proceres et optimates sub anno Domini I564. pelas minas e seus metais. pela indústria dos padres da Companhia de Jesus.>> Tão facilmente triunfa Cristo pela voz e espada dos Portugueses. pelas árvores. se não sabiam que havia Peru nem Chile? Como haviam de interpretar os Profetas das ilhas desertas ou povoadas do Oceano.Anexo:Imprimir/ História do Futuro explicando-se com as palavras seguintes: Istud nostra memoria factum videmus. quae quidem regna a nobis longe dissita el incognitae regiones teterrimo daemonum cultui additae sunt. e destas terras. depois que por meio da navegação do mar Oceano se quebrou o fabuloso encantamento dos negados antípodas e se descobriram tantas terras e gentes. conhecem. e sobre tudo da Fé e luz do Evangelho. propriedade. não só incógnitas aos Antigos. qui populi ad veteres Índias expectant. explicados por autores que escreveram de cem anos a esta parte. costumes. (relicto daemonum cultu. mas nem ainda presumidas ou imaginadas deles. seus exercícios e seus costumes. suas propriedades. pelos rios. como haviam de entender as profecias destas navegações e destes mares? Se queriam que a zona tórrida era um perpétuo incêndio. e totalmente abrasada e inabitável. se não sabiam que havia no Mundo tais ilhas? Como dos Etíopes ocidentais. como hoje. se não sabiam que havia América? Como dos Brasis. que adoravam nos ídolos aos demônios. et integrae civitates sacro sunt ablutae baptismate. pelos frutos. «Em cumprimento desta profecia (diz Bulêngero. alegando a Súrio). como haviam de vir em conhecimento dessas gentes e desses reinos os que não podiam saber sua natureza. das árvores. e destes mares. catholicamque amplexerunt doctrinam. se não sabiam que havia China? Se os Profetas nas figuras enigmáticas dos seus oráculos se declaram pela natureza. adorar e servir. adoram e servem. nem lhes havia de vir ao pensamento que os Profetas falavam dos Americanos. e em outras muitas ilhas e terras. das minas. com que por meio dos pregadores de Cristo o haviam finalmente de conhecer. se não havia Brasil? Como dos Peruanos e Chiles. das terras. deinde multa Indorum insulae et regiones christianam.000. se têm passado à verdadeira religião. ad octo millia primum) et in his reges et princites. Agora só pergunto: Como era possível que aqueles antigos e antiquíssimos autores explicassem neste sentido aos Profetas? Ou como podiam entender nem perceber que destas gentes. dos rios. de tal maneira os Índios abraçaram a doutrina cristã e católica. Sinenses enim. como podiam explicar as profecias dos antípodas? Se criam que a imensidade do mar Oceano não era navegável e tinham este pensamento por absurdo. et infideles sunt. Christi Jesu fidem susceperunt. exercícios e histórias das gentes e reinos de que falam. opera patrum Societatis nominis Jesu ad Christi religionem traducta sunt. porque os Chinas. Ali veremos as admiráveis propriedades e miudíssimas circunstâncias com que os mesmos Profetas falaram dos mares. como haviam de interpretar as profecias dos habitadores da zona tórrida? Como haviam de cuidar. da cegueira e infelicidade em que viviam. e são infiéis e gentios. falavam os seus oráculos e profecias? Se criam tão firme e assentadamente que não havia nem podia haver antípodas.

este segredo é só para mim. trabalhando por explicar de Espanha certo lugar de Isaías. e que a mesma Providência tinha decretado que se não soubessem por revelação? LAUS DEO 99 .. como verdadeiramente eram. in insulis maris nomen Domini. diz assim dos teólogos. antes as contrárias delas se tinham por averiguadas e certas? Frei João de la Puente. sendo ele mestre em Teologia: La falta de Geographia v la de otras artes liberales es causa que los teologos non atinem con el sentido de la divina Escritura. por onde não é muito que tanta parte do Mundo. e estivessem ocultas até àqueles tempos medidos e taxados por ele. como podia ser que contra a verdade infalível da profecia soubessem os Antigos deste segredo.. encobertas e incógnitas. antes de chegar o tempo em que Deus tinha determinado de o revelar? O cântico do profeta Habacuc. em que nenhuma destas cousas se sabia nem se imaginava. E se o conselho de Deus foi que o entendimento ou de todas ou de muitas cousas que ali contou o Profeta. para que cousas invisíveis se fizessem visíveis: Fide intelligimus aptata esse saecula verbo Dei. depois de descobertas e conhecidas estas terras e estas gentes. ut ex invisibilibus. incógnitas ou ignoradas? Podem os homens ocultar os seus segredos. não quis o mesmo Deus que eles então a tivessem. e que depois chegasse um século em que se descobrissem e fossem visíveis. quando disse no cap. falava Isaías. esta luz e posto que fossem varões santíssimos e tão favorecidos de Deus. E isto que se não pode dizer dos teólogos do nosso tempo sem grande nota de sua ciência e diligência. Diz o Apóstolo S. naquele seu erudito livro da Conveniência das duas monarquias. que seriam na confusão escuríssima da Antigüidade. Paulo que acomodou Deus e repartiu os séculos conforme os decretos da sua palavra.in doctrinis glorificate Dominum. em que tinha decretado que se soubessem e descobrissem. romana e espanhola. e Deus não será senhor de reservar os seus. nem de tais frutos? E se ainda hoje. por doutíssimos e sapientíssimos que fossem. porque era disposição mui assentada da sua providência que estas cousas se não soubessem. secretum meum mihi: «Este segredo é só para mim.» E se na mesma profecia estavam profetizadas as cousas. se não acerta mais que em comum e individualmente com algumas das terras e gentes de que os profetas falaram. assim se entenderam e descobriram também os segredos e mistérios de suas profecias. e as gentes que o habitavam. depois do Mundo estar tão descoberto e conhecido. se descobriram e manifestaram as terras e gentes de que tinham falado os Profetas. e se terem escrito tantos livros de sua história natural e política. de tais árvores. sendo logo certo que estes segredos da Providência Divina se não podiam alcançar por ciência humana. porque sabiam a geografia do seu mundo e não podiam saber nem adivinhar a do nosso. e mais o segredo delas. se ignorasse.Anexo:Imprimir/ História do Futuro tinham notícia de tais sítios. que agravos ou descréditos é ou pode ser dos antigos sábios. ainda por falta de notícias mais particulares e miúdas. mas esta revelação. Destas terras ultramarinas. tem por título Pro ignorantiis. de tais rios. XXIV: . sem agravo. visibilia fiant. Só por nova revelação e luz sobrenatural podiam conhecer os autores daquele tempo o que nós tão fácil e naturalmente conhecemos hoje. Dei Israel. E logo acrescentou: Secretum meum mihi. que também trata destes novos descobrimentos ou triunfos da Fé e da conversão destas gentes. e assim como. é obrigação e força que digamos ou suponhamos dos teólogos antigos. nem menos decoro de sua erudição e grande sabedoria. de tais minas. estivessem ignoradas e invisíveis por tantos séculos. corrida esta cortina. que para eles fossem ocultas.

acabou em Dario. se sustenta a grandeza. tão poderoso e formidável. só trata do primeiro que se começou e levantou nele. pois pode ser mais breve a vida de um império que a de . em respeito ou suposição dos quais este novo de que falamos se chama Quinto. tão unido. o de Alemanha. perto de mil e trezentos anos. depois que a confusão das línguas na torre de Babel dividiu seus fabricantes em diversas partes da terra. tão estendido. O terceiro Império. mais que duzentos e trinta anos. Ao que respondemos breve e facilmente que este modo de contar não é nosso nem de algum outro historiador ou autor humano. em que sem o nome. posto que arruinada e combatida. o da Etiópia.um. Capítulo II) por Padre Antônio Vieira Correndo os anos de 1860 da criação do Mundo. em que sem a grandeza se continua o nome. durou. Foi este império de Belo o dos Assírios ou Babilônios. filho do gigante Nembrot (posto que não faltam graves autores que fazem destes dois nomes o mesmo homem). ainda durou menos. castigo tão merecido a sua soberba como necessário à propagação do gênero humano e à o mesma grandeza que aspiravam. com razão se deve duvidar e desejar saber a causa pôr que este nosso Império que prometemos recebe o numero de Quinto. conforme Eusébio. o do Mogor. na Europa. e quais sejam em ordem os outros quatro que lhe deram este lugar ou este nome. a que depois com nome menos odioso chamaram Império. Na Ásia. foi o primeiro que ensinou ao Mundo e introduziu nele a tirania. segundo Justiço. Esta sucessão e seu princípio foi desta maneira. Começou este Império dos Gregos depois pelos anos do Mundo 3672. pois ainda nesta nossa idade tantos impérios. sem fazer caso de muitos e grandes impérios que floresceram e haviam de florescer em vários tempos e lugares do Mundo. senão fundado e tirado das Escrituras divinas. História do Futuro (Volume II. o do Persa. o dos Tártaros. e dos que em continuada sucessão se lhe foram seguindo até o tempo presente. 37 imperadores. o vastíssimo Império da China. Belo. .Anexo:Imprimir/ História do Futuro 100 História do Futuro (Volume II. 3800 antes do presente de 1664 em que isto escrevemos. e o de Espanha. entrando neste número Semearmos. Capítulo I) por Padre Antônio Vieira Entrando a tratar do Quinto Império do Mundo (grande assunto deste nosso pequeno trabalho) para que procedamos com a distinção e clareza tão necessária em toda a história e muito mais neste gênero. Havendo. e sendo tantos mais os de nações bárbaras e políticas que em diversos tempos do Mundo se têm levantado e caído. conhecemos hoje nele muito maior número de impérios. cuja história profética. Alexandre o começou e acabou em Alexandre. Não durou. Tantos anos tardou a ambição em romper o respeito àquela lei com que nos fez iguais a todas a natureza. e em todas estas três partes do Mundo o violento Império dos Turcos. teve. Ao império dos Assírios sucedeu o dos Persas pelos anos da criação 3444. para que vejam e conheçam as coroas quanto é grande a sua mortalidade. que foi o dos Gregos. e pondo somente os olhos no mundo presente. na África. Começou em Ciro. a primeira cousa que se oferece para averiguar e saber é que impérios tenham sido ou hajam de ser os outros quatro. de que foi o último Sardanapalo. se o considerarmos como monarquia. contou por todos catorze imperadores. homem. os quais em espaço quase de quatro mil anos têm sido com este quatro. Porque sem recorrer à memória dos tempos passados. reduzindo a sujeição e obediência política a liberdade natural com que todos até aquele tempo nasciam.

tiradas de diferentes lugares do Texto Sagrado. Persas. Em respeito pois e suposição destes quatro impérios. em Império Oriental e Ocidental. Gregos e Romanos (como logo veremos) se deve chamar com a mesma razão e propriedade o Quinto Império do Mundo. que eram ministros e como lugar-tenentes dos imperadores orientais. nos quais o Império. e desde este tempo começaram as águias romanas a aparecer coroadas com duas cabeças. e este (que foi o que mais permaneceu) continuou com desigual fortuna trezentos anos. para melhor governo. até que. porque há-de suceder ao dos Assírios. que foi o primeiro do Mundo. em que contou oitenta e quatro imperadores. depois daquela divisão. sendo sitiado e vencido por Maomete II. Sustentou-se o Império Oriental por espaço de quatro mil anos. Nem eles. para melhor entendimento de tudo o que se há-de dizer adiante. podem acrescentar número ou lagar ao novo Império com que mude ou exceda o que lhe damos de Quinto. e o das Gregos se chama o terceiro. e o não pusemos no corpo da história por não embaraçar o desenho dela. Durou. fundando nova corte em Constantinopla. por grandes e poderosos que fossem. por muitos que hajam sido. pois. por isso as Escrituras Sagradas não fazem menção nem memória alguma deles. quando não fora tão necessária para o ponto em que estamos. se dividiu em três reinos: o da Ásia. dividiu o Império. eleito Carlos Magno em imperador do Ocidente. em tempo o Papa Lúcio TII. governado e não defendido pela celebrada Cleópatra. Autores que dizem o mesmo. sempre era muito conveniente dar-se logo neste princípio. que começou no primeiro e há-de acabar no Quinto (que será também o último).à margem. O do Ocidente. posto que em matéria tão 101 . E assim como o Império dos Persas se chama o segundo Império. o Império Romano com toda a inteireza de sua monarquia 400 anos. chamamos Império Quinto ao novo e futuro que mostrará o discurso desta nossa História. antes deles acabados. cujo Império começou com este nome em Júlio César. o Grego ao Persa e o Persa ao Assírio. e o dos Romanos se chama o quarto. Havia já neste tempo setecentos anos que Rômulo levantara junto ao rio Tibre aquelas primeiras choupanas que depois se chamaram Roma. e com grande valor e zelo da Cristandade está resistindo-se (queira o Céu que seja com melhor ventura!) a outro Maomete. tem contado noventa imperadores até Fernando III.Anexo:Imprimir/ História do Futuro conservou-se unido somente oito. de que foi o último outro Constantino de muito diferente fortuna. porque sucedeu ao dos Assírios. que hoje reina. ao dos Persas e ao dos Gregos. Estes são em breve suma os quatro Impérios que desde o primeiro que houve no Mundo se foram continuando e sucedendo até o presente. Tudo o que até aqui fica dito são suposições certas e sem dúvida. assim este nosso Império. ao Pontífice passou o assento do Império . trinta anos antes do nascimento de Cristo. experimentou nela grandes variedades. que vão citadas . o da Macedônia. o qual.a Alemanha. o do Egito. e porque todos os outros Impérios. se passou o governo a exarcas. porque sucedeu ao dos Assírios e dos Persas. como também nós a não fazemos. dentro em Constantinopla . ficando Roma como cabeça da Igreja. o ajuntou Marco Antônio à grandeza romana. ficaram fora da ordem desta sucessão. cuja notícia. até que. o qual se há-de seguir ao Império Romano na mesma forma de sucessão em que o Romano se seguiu ao Grego. porque. porque. com sucessão de 35 imperadores até o grande Constantino. diminuindo sempre em grandeza e majestade. Sucedeu esta mudança pelos anos de Cristo de 810. passados e presentes. ficando fora da mesma ordem. e.perdeu a vida e a cidade e sepultou consigo todo o Império. sendo governado alguns anos por imperador com igual jurdição e majestade. porque sucedeu ao dos Assírios.

o sucesso de muitas cousas futuras. e mandou-lhes seriamente que não só lhe haviam de dizer logo a significação do sonho. os magos. Viu pois Nabuco em sonhos uma visão admirável e portentosa. Tão violentos são os apetites do poder supremo. Não se aquietou Nabuco com esta resposta dos sábios. Oro a Deus. senão que ele e sus famílias morreriam todas. enganadores e indignos de crédito. eles se obrigavam a declarar a significação de tudo. irado grandemente Nabuco. sendo gentio. Responderam os sábios que.pelo espírito de profecia que foi tão superiormente ilustrado. antes os argüiu com ela de falsos. grandes e prenhes de mistérios. Será pois a primeira pedra deste edifício uma grande profecia de Daniel. porque. em prêmio ou conseqüência deste cuidado mereceu que Deus lhe revelasse. com toda a demonstração e certeza. porque esta é a base e fundamento de toda a nossa História e assunto particular deste I Livro. e depois de trazidos à sua presença. e somente lhes haviam de dar crédito no segundo e mais dificultoso. estimulado igualmente do desejo e do temor que a mesma lembrança lhe causava. ele e seus três companheiros. se o rei lhes manifestasse o que sonhara. mandou que os levassem de sua presença e que neles e em todos os professores das mesmas artes se executasse logo a sentença de morte. E assim o faremos agora.Anexo:Imprimir/ História do Futuro averiguada e sem controvérsia não são necessários autores. porque tinham . E assim. História do Futuro (Volume II. Falaram assim. como haviam de conhecer a significação dos futuros. mas que adivinhar qual houvesse sido o sonho era segredo impossível de alcançar aos homens e reservado somente à sabedoria dos deuses. senão também o que tinha sonhado. e tão arriscado não satisfazer aos reis até no impossível! Achava-se neste tempo em Babilônia Daniel. que eram os que pela observação das estrelas e outras professavam a ciência das cousas futuras. se no primeiro e mais fácil eles mesmos confessavam sua ignorância? Que se resolvessem a dizer logo uma e outra cousa. Nabucodonosor. o que resta e importa mostrar é que haja de haver sem dúvida este novo e prometido Império a que chamamos Quinto. entre os quais.cousas prodigiosas. assim como outros príncipes que têm fé e desmerecem por sua negligência e descuido até o conhecimento natural dos presentes. como fica dito. os caldeus. desvelado uma noite com os pensamentos da sua monarquia. devemos recorrer principalmente aos que a Fé nos ensina que foram verdadeiros profetas. Livro I. para fundarmos bem a esperança deste grande futuro. que era. os aríolos. onde fora levado com El-Rei Joaquim no primeiro cativeiro ou transmigração dos Hebreus. . que era cousa passada. com cuja apreensão e assombro acordou de tal maneira perturbado e confuso. um dos últimos reis imperadores de Babilônia. mandou logo chamar os maiores sábios dos seus reinos. mas totalmente se esquecia quais foram. o Império dos Assírios. não . E como os tristes sábios respondessem outra vez que não sabiam nem podiam satisfazer ao rei no que deles queria. Capítulo I: Mostra-se a Quinta Monarquia com a profecia de Daniel) por Padre Antônio Vieira 102 Já dissemos que os futuros livros ou contingentes (qual é o Império que prometemos) só são manifestos a Deus e a quem os quer revelar. que somente se lembrava que acabava de sonha.que também entravam no número dos condenados. No ano antes de Redenção do Mundo 450. lhes declarou por si mesmo tudo o que lhe tinha sucedido. mas porque o fez Deus particular profeta dos reinos e das monarquias. alegaremos nos capítulos seguintes. Assim. como também deixamos dito. se não podiam saber o sonho. porque todos eram gentios. porque isso era a sua profissão e o mais a que se estendia a ciência humana. tem o primeiro lugar Daniel.

de estatura alta e sublime e de aspecto terrível e temeroso. a derrubava. etc. como deixamos notado. em que Nabucodonosor naquele tempo reinava. A cabeça de ouro significava o Império dos Assírios. e o Deus que só pode revelar os mistérios e segredos ocultos. ó Rei. é a seguinte: Tu. dos joelhos de ferro. Disse pois Daniel que aquela grande estátua significava a sucessão do Império do Mundo. e todo este aparato de circunstâncias com o Texto Sagrado descreve o sucesso dela. e depois com igual admiração e espanto de todos lhe foi explicando parte por parte os mistérios e segredos futuros que tão prodigiosa visão em si encerrava. os pés de ferro e de barro. e mostrar como só o Deus verdadeiro. e quando já a multidão dos sábios. a qual Nabuco de novo ia ouvindo e reconhecendo. videbas et ecce quasi statua una grandis: statua illa magna et statura sublimis stabat contra te et intuitus ejus erat terribilis. Estando assim suspenso no que vias. Até aqui a relação do sonho. Hoc est somnium. lembrando-se outra vez de tudo pela mesma ordem com aquela espécie de memória a que os filósofos chamam reminiscência. Então se desfizeram juntamente o barro. e no ouro. e posto em sua presença e na dos maiores príncipes de Babilônia que o acompanhavam. o peito e os braços de prata. «Começaste a cuidar. Oferece-se a declarar o sonho. reservando o de mais (que é muito) para seus lugares. e os diferentes metais de que era composta as mudanças que o mesmo Império havia de ter em diferentes tempos e para diferentes nações. dando nos pés da estátua. deitado no teu leito. o ouro. pois não só nos obrigam a que a creiamos por fé os que somos cristãos. o que havia de suceder depois do tempo presente. mas se podem convencer com elas por discurso até os mesmos Gentios. Parecia-te que vias defronte de ti uma estátua grande. ocupou e encheu toda a terra». e fazendo-se um grande monte. para crédito natural da mesma profecia. et qui revelat misteria. A história do sonho. folhe revelado pelo Céu o sonho e a interpretação dele. começavam a caminhar para o lugar do suplício. o ferro. por isso estava representado na cabeça. que é o princípio do corpo. a quem ele servia e que fora o autor daquele sonho. Tu. rodeados de rústicos e tumulto popular. diz Daniel. o podia revelar e a significação dele. mas nós as quisemos resumir brevemente aqui. Seguiu-se à história do sonho a interpretação dele.Anexo:Imprimir/ História do Futuro estudado. cogitare coepisti in strato tuo quid esset futurum post hoec. não por arte ou ciência minha. . usque ad implevit universam terram. se não por revelação sua. e o que eu agora te direi. por mandado do mesmo rei. e nem aqueles metais apareceram mais. pelas palavras com que Daniel a referiu. viste mais que se arrancava uma pedra de um monte. o ventre até os joelhos de bronze. Este é o prólogo da primeira profecia de Daniel. pede que o levem a Nabucodonosor. 103 . Rex. e q. nem o lugar onde tivessem estado. depois de confessar a insuficiência sua e de todo o saber humano. o bronze. e porque este Império. primeiramente com assombro e pasmo do rei lhe contou muito miudamente por sua ordem a história do que tinha sonhado. de que nós diremos agora somente o que pertencer ao ponto em que estamos. que é o primeiro entre todos os metais. e se converteram em pó e cinza. foi o primeiro e o princípio de todos os Impérios. a prata. Rex. te mostrou naquela visão tudo o que está para vir nos tempos futuros. faz parar a execução Daniel. cortada dele sem mãos. que foi levada dos ventos. ostendit tibi que ventura sunt. A cabeça desta está tua era de ouro. as ciências de Caldeia. as quais porventura puderam parecer menos necessárias ao nosso argumento. porém a pedra que tinha derrubado a estátua cresceu.

passou aos Persas. significava o Império dos Persas. pondo um pé no Oriente outro no Ocidente. significavam dez reinos. porque. assim este é e há-de ser o último Império dos que naquela estátua se representavam. e que se seguiu a eles. quomodo ferrum comminuit et domat omnia. ainda que Daniel na sua explicação do sonho não nomeou as três nações de Persas. que é o terceiro metal. foi causa de que o Império Romano se dividisse em dois impérios ou duas partes iguais do mesmo. e consta pela experiência e pelo testemunho . Mas não parava aqui a propriedade da semelhança. Et regnum quartum erit velut ferrum. passou aos Gregos. não só humanas. segundo e terceiro reino: Et post te consurget regnum aliud minus te argenteum. são umas divisões ou . e tudo o que na Europa. corta e doma os metais. como acima vimos.] et regnum erit velut ferrum. com a qual divisão. em que se dividiam. senão também das sagradas e divinas. se havia de dividir. que foi e é o quarto Império. passou e se incorporou no Império Romano. assim como os pés da estátua sustentavam e tinham sobre si o peso e grandeza de toda ela. recebido. sinalando-os nomeadamente por primeiro. e o mesmo Império dos Persas. assim os dez dedos. consta que o mesmo Império que primeiro foi dos Assírios.. assim como o ventre se segue depois do peito. aprovado e seguido por todos os Padres e expositores deste lugar.. O bronze. bate. que os três reinos e impérios que sucessivamente se seguiram ao dos Assírios foram o dos Persas. assim o Império Romano teve sobre si e em si o peso e grandeza de todos os outros impérios que nele se uniram e ajuntaram. E este é o verdadeiro. vencidos estes por vários capitães de Roma. sic comminuet et conteret omnia hoec. E quadra maravilhosamente no Império Romano a figura das duas pernas e pés da estátua em que foi representado. as quais lhe foram tirando as mesmas nações que ele tinha sujeitado. o dos Gregos e o dos Romanos: ou. na sua última declinação. restituindo-se outra vez a sua primeira liberdade e soberania. assim como o peito e braços se seguem à cabeça. que é o quarto metal. por o dizer com mais propriedade e certeza.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A prata. diz particularmente Daniel que foi porque. vencidos estes por Ciro. sem haver algum que lhe possa resistir. mas porque o mesmo peso e grandeza. vencidos estes por Alexandre. e as partes ou membros de que aquele vastíssimo corpo na sua maior grandeza e potência se compunha. Tudo o que até aqui fica dito é de fé. que é o segundo metal. que foi o terceiro depois dos Persas e se seguiu depois deles. em que a grandeza do mesmo Império Romano. e assim como as pernas e pés são a última parte do corpo humano. desfazer. A razão ou mistério por que o Império Romano se representou no ferro. assim como o ferro lima. et regnum tertium aliud oereum [. Gregos e Romanos. sujeitar e dominar todos os outros impérios. que foi o segundo depois dos Assírios. em que não há discrepância nem dúvida alguma.de todas as histórias. ficaram verdadeiramente sendo estas duas partes do Império Romano como duas colunas naturais de ferro. significava o Império dos Romanos. O ferro finalmente. que sucedeu aos três primeiros. na divisão de uma e outra perna da estátua se representava a divisão do Império Romano nos dois impérios. significava o Império dos Gregos. não só porque. na África e na Ásia possui o Turco. e o mesmo Império dos Gregos. ou se segue imediatamente dela.retalhos do Império Romano. Assim como. certo e indubitável sentido de interpretação de Daniel. um em Roma outro em Constantinopla. que sucessivamente se haviam de continuar uns aos outros. disse porém expressamente que os três metais significavam três reinos. sobre as quais toda a máquina daquele portentoso colosso se sustentava. uns maiores outros menores. assim o Império Romano e o poder invencível de suas armas havia de abater. Para cuja inteligência se deve notar que tudo o que hoje possuem os príncipes cristãos na Europa. como 104 .

E se uns reinos destes são maiores. Passa finalmente o mesmo Profeta a declarar o mistério ou significação do barro de que os dedos eram compostos em uma parte juntamente com outra de ferro. e nesta diz clara e expressamente que os dedos dos pés da estátua significam a divisão do Império: Porro quia vidisti pedum et digitorurn partem testæ figuli et partem ferream: regnum divisum erit. contra hereges e contra alguns príncipes cristãos. que é o estado em que o vemos. uns mais fortes outros menos. Dinamarca. Hierônimo em que o Império Romano estava íntegro e potentíssimo. Quod autem vidisti ferrum mistum testæ ex luto. se bem contarmos os reinos em que hoje está dividido ou despedaçado o que antigamente foi e se chamava Império Romano. Et digitos pedum ex parte ferreos. senão compostos parte de barro e parte de ferro. Moscóvia. Adjice.. especifica este número. sem reconhecerem sujeição nem obediência alguma ao Império Romano. depois de tanta potência. e o mesmo Império Romano. E a mesma oposição tão bizarra com que as armas do Império nas fronteiras de Alemanha e Hungria. sed non adhærebunt sibi. sicuti ferrum misceri non potest testæ. Nas quais . o Profeta que não eram os dedos totalmente de barro. porque. que já antes dos tempos de S. et parte fictiles: ex parte regnum erit solidum. acharemos pontualmente que são dez reinos: Portugal. senão partes e 105 . e porque. allerum vero constantinopolitanum. como depois veremos.pontualmente em dez partes ou dez reinos. debilidade e fraqueza conservaria o Império algumas partes sólidas em que permanecesse a dureza e fortaleza do antigo ferro de que todo antes era formado.Anexo:Imprimir/ História do Futuro hoje estão. que compreende Alemanha e Itália. Adverte. Castela França. ao pé da letra. em outra profecia. e o mesmo Imperador em pessoa estão hoje resistindo às invasões do Turco e poder otomano. pode ser entendida e percebida de todos. e assim o estamos vendo hoje. Ad extremum (diz Perério) ex uno duplex factum est Imperium Romanum: alterum Latinorum seu Occidentis. que é. desde o tempo de sua maior declinação a esta parte. quod omnia regna quæ nunc sunt apud Christianos. quorum alii maiores et potentiores. Ao diante dividiremos estes mesmos dedos da estátua em outras partes que temos por mais proporcionadas. Assim se dizia e escrevia então. disciplina e constância. era opinião comum (como diz o mesmo santo) de todos os escritores eclesiásticos que o Império se havia de dividir em dez reinos. em tantas ocasiões de guerras e batalhas contra Turcos. que outra cousa são ainda. e depois dele outros muitos: por decem digitos partim ferreos et partim terreos significatur Romanum Imperium novissime iri in multa regna multosque reges. et ex parte contritum. essa mesma é a propriedade dos dedos. commiscebuntur quidem humano semine. partes sunt Imperii Romani tanquam rami ex una illa Imperii arbore decisi. nas quais em defesa da própria e da Igreja têm pelejado os exércitos imperiais com grande valor. comprovando-se a verdade desta interpretação com a experiência e confirmando-se ser este o verdadeiro sentido da profecia com o cumprimento dela. E posto que Daniel nesta profecia não declara com tanta miudeza que a divisão do Império Romano há-de ser . Græcorum seu Orientis. Inglaterra. com a notícia vu1gar que se tem do Mundo. porque nesse mesmo estado de sua declinação. e diz assim: . o que se tem visto e experimentado no Império Romano. por agora baste esta divisão que nós pusemos em primeiro lugar por ser mas fácil. e alcançado de seus inimigos gloriosas vitórias. outros menores. como nota neste lugar o mesmo autor alegado.palavras diz Daniel que o barro dos pés dá estátua significava a debilidade e fraqueza a que o Império Romano. porém. E é tão verdadeira e tão antiga esta interpretação dos dez dedos da estátua.. et sub Imperio Turcorum. alii minores et imbecilliores futuri sint. Suécia. principalmente na sua última idade e declinação. quod vidisti ferrum mistum testæ ex luto. Polônia e Estado ou Império Turco. havia de descair. sem ter perdido cousa alguma sua grandeza.

dizendo: Commiscebuntur quidem humano semine «misturar-se-ão e ligar-se-ão no sangue». Que casa real há no Mundo mais ligada com a do Império. Mas não são estes exemplos tão antigos os de que fala a profecia de Daniel. Significam os dedos dos pés da estátua as últimas extremidades do Império Romano e a sua duração. E porque não cuidasse alguém que a união que se perdeu pela separação das coroas se recuperou e supriu pela conjuração do sangue. no mesmo dia em que isto estou escrevendo se está cumprindo esta profecia. e no de Marco Antônio com Octávia. as mulheres e meninos cativos e transmigrados para a Turquia. Quantas vezes se intentou na Europa que entre os imperadores e reis da Cristandade se estabelecesse uma liga firme. genro do Imperador? Considere agora o Mundo o estado em que o mesmo Imperador se achou no ano passado e em que se acha no presente. em respeito porém do Império de que se apartaram e que tanto desuniram e enfraqueceram com sua separação. e por isso o mesmo império tão enfraquecido! Nasceu juntamente com Roma esta fatal desunião contra o respeito do sangue em Rômulo e Remo. e ainda o que se derrama. as cidades destruídas. se gota por gota lhe distinguirem o sangue. em respeito do Império Romano. os campos talados. interpondo-se para isso a autoridade dos Sumos Pontífices. e. ainda que em si mesmos sejam muito poderosos e fortes. e quantas vezes se liaram os mesmos príncipes entre si por meio de recíprocos casamentos. sendo partes do antigo Império Romano. sicuti ferrum misceri non potest testæ. se eu me não engano.» A tanta miudeza como isto desceu o Profeta. acrescentando em todas estas circunstâncias novas e admiráveis confirmações à verdade da sua Profecia. e que sangue mais repetidamente unido por multiplicados casamentos que o de Áustria e Castela? E que pessoa real há também em que mais apertadamente estejam atados estes vínculos e mais dobrados todos estes respeitos que na de El-Rei Filipe IV. os quais. antes. mas tão resumido sempre. com os poderosos exércitos do Turco metidos dentro na Áustria. filha de Júlio César. abrasados e feitos em cinzas. os templos e pessoas dedicadas ao templo em abomináveis sacrilégios profanados.pelo matrimônio se uniram. viu-se no casamento de Pompeu com Júlia. não seja o mesmo? Tão misturado anda o sangue nestas últimas relíquias do Império Romano. não são nem se podem chamar senão partes de barro.Anexo:Imprimir/ História do Futuro partes muito sólidas daquele mesmo ferro? Mas vindo às partes de barro: estas são (diz Daniel) aquelas províncias e nações que. corte do Império. e quase. mas por isso mesmo infelizmente! Se este ferro se unira ao Império contra o 106 .mesmas mãos que. que ramo há que seja mais próprio daquele tronco. depois de profanados. porque não são os dos pés da estátua ou os dos dedos dos pés. se amarram contra si. quão facilmente se desatam. E tal é hoje o Reino de França. batendo às portas de Praga. sem jamais se conseguir a união desejada! Que imperador ou que rei houve na Cristandade há muitos anos que. «bem como o ferro se não pode unir nem ligar com o barro. primo do Imperador. as . e o mesmo de Castela ou Espanha. e neste mesmo tempo em que o ferro de Espanha se havia de unir todo ao ferro do Império. e formaram novos reinos. se desuniram e tiraram de sua sujeição. cunhado do Imperador. acode Daniel a esta objeção. e. não tenha cada um dos outros príncipes quase iguais partes nele? E que guerras vimos ou sabemos entre estas coroas. e verdadeiramente se possam chamar partes de ferro. casando os imperadores nas casas reais dos outros príncipes e os reis na dos imperadores. os homens barbaramente mortos a sangue-frio. em que o sangue que de uma e outra parte se defende. sed non adhærebunt sibi «mas nem por isso se unirão nem ligarão entre si». o de Inglaterra e da Suécia. vemo-lo todo infelizmente convertido contra Portugal. filha de Octávio. e sendo estes muitas vezes eleitos das mesmas famílias que do Império se apartaram.

que de uma é outra parte se desperdiça. nem haver de ser conquistado.Daniel explica e pondera na mesma fraqueza. depois das palavras ultimamente referidas. «Tanto que o rei acabou de ouvir a Daniel. no campo de Portugal e Castela. a quem tão de perto ameaça este golpe! Mas quando todo o poder de Espanha se havia de achar unido contra o Turco em socorro de Alemanha e Itália. barro há-de ser também no presente. quæ ventura sunt postea. casará Filipe IV com Leonor.» Se isto fez Nabucodonosor a Daniel. irmã de el-Rei Filipe IV. com lástima e lágrimas da Igreja. mostrando que a principal causa de toda ela é a desunião daquelas partes que por serem mais conjuntas em sangue e parentesco.as chagas de Cristo! Este é o barro dos pés da estátua. Este Império os há-de desfazer e aniquilar a todos. e se conquistem e sejam vencidas nas portuguesas . o primeiro. Estas são as cousas futuras que Deus te quis mostrar. e tão valoroso. mas. e este é o sonho que tiveste e esta a verdade de sua interpretação -. quoniam tu potuisti aperire hoc sacramentum. e mando que lhe oferecessem incenso e sacrifício.. continuou e concluiu desta maneira: In diebus autem regnorum illorum etc. filha de Fernando. levantam-se os de Alemanha e chamam-se todos a Castela contra Portugal. prostrou-se diante dele e adorou-o com o rosto em terra. et Danielem adoravit. se empregara com glória imortal de ambas as coroas em defesa da Fé. e quanto de maior exemplo para todos os príncipes católicos e de menor escândalo para os hereges e para os mesmos Turcos se o sangue espanhol. sem haver de vir jamais por acontecimento algum a domínio ou poder estranho. O que fez Nabuco no mesmo tempo. dissipado ou destruído. da Religião. segundo. alumiado por ele. significa um novo e quinto Império que o Deus do Céu há-de levantar no Mundo nos últimos dias dos outros quatro. esta é a queixa que . o qual. ó Rei. foi o ano passado e. esta é a fraqueza das extremidades do Império Romano. despovoam-se os presídios de Itália. que derrubou a estátua e desfez em pó e cinza todo o preço e dureza de seus metais. e o que só conhece e revela as mistérios escondidos aos homens.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Turco. terceiro e quarto império. Temos visto até aqui. O que lhe disse foi: Vere Deus vester Deus deorum est. que faria se lhe dissesse ser e1e o senhor do 107 .et verum est somnium et fidelis interpretatio ejus. e ele só há-de permanecer para sempre. e da mesma cabeça dela.. acrescenta imediatamente o que Nabucodonosor lhe fez e o que lhe disse. ó Daniel. et hostias et incensum præcepit ut sacrificarent ei. da Cristandade. para que triunfem nas bandeiras otomanas as luas de Mafoma. pudeste declarar este grande segredo e sacramento. tinham obrigação de ser mais unidas »— commiscebuntur quidem humano semine »— isto é. mas nas últimas extremidades do Império Romano e nos seus maiores apertos e trabalhos não se acharam parentes nem aderentes »— sed non adhærebunt sibi. et revelans mysteria. casará o Imperador Fernando com Maria. é o Deus dos deuses e a Senhor dos reis. como sucedeu ou há-de suceder aos demais. porque se desune dele em tal ocasião e se converte contra Portugal. fora ferro. que viste arrancar e descer do monte. Depois de contar Daniel toda esta prodigiosa história.. e ainda antes de dizer estas palavras. desde a cabeça até os pés da estátua. ó Rei. é barro. por mais que se mostre ou ameace ferro. et Dominus regnum. segue-se agora ver o quinto na mesma história do sonho de Nabuco e na mesma interpretação de Daniel. Quanto melhor e mais católica ação fora. pois tu. Quer dizer: aquela pedra. Barro e barro quebradiço. refere o mesmo texto em as seguintes: Tunc rex Nabuchodonosor cecidit in faciem suam. «Verdadeiramente o Deus que adoras. quando lhe disse que seu império se havia de acabar e passar outros quatro.

». nada menos misteriosa e cheia de circunstâncias. Capítulo II: Segunda profecia de Daniel) por Padre Antônio Vieira 108 Não é cousa nova em Deus quando revela cousas grandes. diz o Profeta e por fim de todas entrou «a quarta besta. que é o romano. que os quatro ventos principais se davam batalha no meio do mar e levantavam uma horrível e furiosa tempestade. Assim mostrou antigamente a José suas felicidades. horrível. O que deste somente quero recolher e deixa assentado é que. e diziam-lhe que comesse e se fartasse de carne» Et ecce bestia alia similis urso in parte stetit. primeiro no sonho das sete vacas robustas e sete fracas. profeta chama bestas grantes: . et sublata est de terra. Assim mostrou a El-Rei Faraó os sete anos da fartura e os outros sete da fome. et ecc alia quasi pardus. ou fosse. Livro I. e não levou assim muito tempo. como outros suspeitam. et alas habebat quasi avis. et super pedes quasi homo stetit. porque assim o lemos nas Escrituras. et sic dicebant ei: Surge. «Depois desta saiu a terceira besta semelhante a leopardo. primeiro no sonho das paveias dos onze irmãos que adoravam a sua. antes mais portentosa em tudo e mais notável. Durava ainda a noite. em outro sonho e em outras figuras lhe fez segunda vez a mesma representação. porque assim o mostrou o sucesso dos tempos. espantosa e muito forte. Passados 47 anos depois daquela visão (que foi o ano 54 do último cativeiro de Babilônia). firmou-se sobre os pés e parou. depois dos três impérios dos Assírios. que a primeira. porque assim se infere por bom discurso. e é de razão.. que ainda hoje dura. há-de haver um novo e melhor império que há-de ser o quinto e último. mas o mar assim perturbado e temeroso não era mais que o teatro em que haviam de sair a representar quatro figuras horrendas. Vejam lá os leões se lhes tira Deus as asas para [que] sejam homens! Prima [bestia] quasi leæna et alas habebat aquilæ. velando) viu. viu o Profeta Danie1 em uma visão de noite. Mas este ponto ficará para seu tempo e para seu lugar. reinando já nela Baltasar. e depois do quarto. «Saiu a primeira besta semelhante a uma leoa com asas de águia. pôs o Profeta nela os olhos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro quinto? Naquele tempo pagava-se a interpretação de uma profecia infeliz com adorações e sacrifícios hoje pagam-se as interpretações felicíssimas com opróbrios e calúnias. significar por repetidas visões o mesmo mistério e por diferentes figuras a mesma revelação. que já passaram. acordado.» Post hæc aspiciebam. e tinha quatro asas como ave e quatro cabeças. E assim nos tempos em que agora imos. que sucedeu a Nabuco no Império dos Assírios ou Caldeus. aspiciebam donec evulsæ sunt ale ejus. e depois no do Sol e nas estrelas que lhe faziam a mesma adoração. é de experiência. e foi-lhe dado grande poder. a que o. tinha três ordens de dentes. Esta suposição é de fé. E logo levantou as mãos da terra e se pôs em pé e ficou em figura de homem. et tres ordines erant in ore ejus.et ecce quatuor venti coeli pugnabant in mari magno. (ou fosse dormindo e em sonhos. como tem a opinião mais comum dos Doutores. et quator bestiæ grandes ascendebant de mari diversæ inter se. até que lhe foram tiradas ou arrancadas as asas. no sonho de Nabucodonosor e na visão daquela estátua. e depois no das sete espigas gradas e sete falidas. quatuor super se et quator capita erant in bestia et potestas data est ei. depois de revelar Deus a Daniel o secreto do Quinto Império. Tinha os dentes de ferro grandes com que comia e despedaçava . digo. Persas e Gregos. «Saiu a segunda besta semelhante a um urso. entre os quais trazia três bocados. História do Futuro (Volume II.. et cor hominis datum est ei. comede carnes plurimas. et in dentibus ejus.

cheio com grande aparato de horror. dentes ferreos habebat magnos. Enquanto tudo isto notava. rapidusque egrediebatur a facie ejus. Torna a dizer o Profeta que «ainda durava a noite e viu vir rodeado de nuvens do céu um como filho do homem. Fluvius igneus. para maior crédito da verdade em tudo o mais que imos referindo. et capili capitis ejus quasi lana munda. estas como neve. grandeza e majestade. et reliqua pedibus suis conculcans: dissimilis autem erat ceteris bestiis. cuja narração e mistérios pertencem ao Livro V desta nossa História. et traditum esse ad comburendum igni. E ele lhe deu o poder. Post hæc aspiciebam in visione noctis. et cornua decem. o qual acabado. como fazemos. e brancas as roupas de que estava vestido. tribus et linguæ itsi servient: potestas ejus. cheguei-me a um dos ministros que ali 109 . acabaram. representada nele. limitando-se a cada uma o tempo determinado de sua duração. et libri aperti sunt. Era mui diferente de todas as outras bestas. para que todos os povos e todos os tribos. Este seu poder será eterno. e que todo aquele grande corpo perecera. et ecce bestia Quarta terribilis atque mirabilis. et decies millies centena millia assistebant ei: judicium sedit. para onde o reservamos. aliarum quoque bestiarum ablata esset potestas. et usque ad Antiquum dierum pervenit. et regnum ejus. e por isso repetimos as palavras do texto: Aspiciebam donec throni positi sunt. segunda e terceira besta se tirasse todo o poder. potestas æterna quæ non auferetur. eterno também o reino. Et dedit ei potestatem et honorem et regnum. et in conspectu ejus obtulerunt eum. e tinha na testa dez pontas». e de fogo também um rio arrebentado que da boca lhe saía. como também outras circunstâncias desta mesma visão que expenderemos em seus lugares. et omnes populi. assentaram-se os conselheiros ou juizes assessores. Trouxeram-se cadeiras e assentou-se em um alto trono um velho de venerável ancianidade. et tempora vitæ constituta essent eis usque ad tempus et tempus. E continuando o que pertence a este. «Com a qual (diz Daniel) ficou o meu espírito assombrado e cheio de horror. Esta é pontualmente a relação de todo o sonho ou história enigmática. a qual obrou grandes estragos e outras cousas prodigiosas. Millia millium ministrabant ei. quas videram ante eam. porque «viu o Profeta que fora morta violentamente. a honra e reino de todo o Mundo. et ecce cum nubibus coeli quasi filius hominis veniebat. descrito ou construído ao pé da letra. cujo cabelo era todo branco. et fortis nimis. comedens atque comminuens. quod non cortumpetur. vieram os livros e abriram-se». Acabou também a quarta besta. E volvendo eu no pensamento que significariam aquelas cousas. Este é o aparato daquele tribunal e juízo. Daniel via que de entre as dez pontas da quarta besta saía uma ponta menor que as outras. aquele como arminhos. e que fora entregue ao fogo para ser queimado». A primeira sentença ou execução que saiu deste juízo foi que à primeira. porque nunca jamais lhe será tirado» Aspiciebam ergo in visione noctis. e todas as línguas o obedeçam e sirvam. Et vidi quoniam interfecta esset bestia. a matéria do trono era fogo. et Antiquus dierum sedit: vestimentum ejus candidum quasi nix. Thronus ejus flammæ ignis: rotæ ejus ignis accensus. «levantou Daniel os olhos ao céu e viu que se armava um tribunal de juízo. a quem o Profeta chama Antigo dos dias. et perisset cortus ejus. o qual chegou ao trono do Antigo de Dias e o ofereceram em sua presença.Anexo:Imprimir/ História do Futuro tudo o que lhe caía da boca ou não queria comer pisava com os pés. umas rodas sobre que o trono estava levantado também fogo. não ficando de tanta grandeza e bravosidade mais cinzas. Os ministros que lhe assistiam de uma e outra parte eram milhares de milhares.

e os ventos e tempestades que o alteram as alterações. e assim como da quatro corpos dos quatro impérios se formou um corpo. declarando todas as figuras dela pela mesma ordem com que foram saindo. sobre a qual nos explicaremos mais particularmente. Primeiramente diz Daniel (ou disse a Daniel o seu intérprete) que «aquelas quatro bestas grandes significavam quatro reinos ou quatro impérios. Até aqui o mesmo Profeta. advertindo o que o Profeta e seu intérprete exprimiram. senão como um só corpo ou um só indivíduo. Respondo que o Profeta na sua interpretação se acomodou com grande propriedade à figura do enigma que declarava. A sua primeira idade. nem que tempestades se levantaram no mar antes de sair nele as quatro bestas. que é o tempo dos Gregos. summatimque perstringens ait. E ele o fez assim e me ensinou a interpretação e mistérios de tudo o que tinha visto». que é o tempo dos Persas. movimentos. et somninm scribens brevi sermone comprehendit. Por isso viu o Rei não quatro estátuas senão uma só estátua. não como quatro corpos ou quatro indivíduos. que é o Romano. que o mesmo intérprete chama Reino dos Santos do Altíssimo. quando nele se levantam novos impérios. foi idade de bronze. ou certamente porque as julgou de menos importância ao seu interesse principal. Hæ quatuor bestiæ magnæ quator sunt regna. Daniel somnium vidit. a terceira. e o que acontece em qualquer destas idades se diz com toda. mas todos os expositores concordam em que o mar significava o Mundo. Não declara Daniel que ventos fossem aqueles. sem dúvida para não exceder a brevidade que no princípio deste capítulo tinha prometido. que e a demonstração do Quinto Império. como agora veremos. porque não deixemos o inimigo nas costas. propriedade e verdade que acontece nos dias daquele homem. e o quarto. porém. coligido porém tudo imediatamente do mesmo que dizem. foi idade de prata. que são o dos Assírios. o dos Persas e o dos Gregos. pedindo-lhe me quisesse declarar o verdadeiro sentido delas. Mas. guerras e perturbações que se costumam experimentar no mesmo Mundo. no sonho de Nabucodonosor. antes que passemos adiante. donde segue que com toda a verdade se pode afirmar que sucederá nos dias daqueles Reinos o que sucede nos dias de qualquer deles. Suscipient autem regnum sancti Dei altissimi. que sucessivamente se haviam de levantar no Mundo depois dos quais se havia de seguir outro quinto reino ou império. nem outro reino algum ou império que lhe suceda. E a razão de passar por aquelas circunstâncias tão brevemente ou foi porque as supôs bastantemente declaradas na visão do segundo capítulo ou sonho de Nabucodonosor que acabamos de explicar. satisfaremos um argumento que nos fica no texto de Daniel. Esta é a interpretação em comum que deu o intérprete do Céu a toda a visão. assim das quatro durações dos quatro impérios se há-de compor uma só duração. o qual. porque há-de durar para sempre. que é o tempo dos Assírios foi idade de ouro. et obtinebunt regnum usque in sæculum et sæculum sæculorum. a quarta. referindo a dita interpretação. também está na última declinação. representou todos os quatro impérios. esta monarquia não é futura se não passada. nos dias daqueles impérios. Exemplo: a vida de um homem compõe-se de muitas idades.Anexo:Imprimir/ História do Futuro assistiam. Diz o texto que levantará Deus esta nova monarquia in diebus regnorum illorum. o qual não há de ter mudança nem variedade. e suprindo com a exposição dos Doutores o que eles calaram. porque dos quatro impérios já passaram totalmente os três. que é o 110 . a segunda. exprimindo com grande particularidade e miudeza tudo o que pertence a ele. Porque Deus. Da mesma maneira a duração da estátua dos impérios era composta de diferentes idades. Logo. passa em silêncio algumas circunstâncias dela. quæ consurgent de terra.

A primeira profecia de Daniel foi a mesma de Nabucodonosor. que sucedeu a Nabuco. os vários saíram contra as do Sul. diz que o perguntou a um anjo que falava dentro nele. es1a terceira de &carias em tempo de Hidaspes. Assim que o Império que promete Daniel não é império já passado. pela segunda murzelos. foi idade de ferro. Até aqui a interpretação do Anjo. para que com toda a verdade e com toda a propriedade se verifique havê-lo Deus de levantar nos dias daqueles reinos. a segunda em tempo de Baltasar. Estas carroças diz o Anjo que estavam prontas como ventos para execução dos mandados do Dominador da terra. Pela primeira tiravam cavalos melados. E basta que nesta última idade. e mais trabalho tem dado aos expositores deste lugar a declaração do Anjo que a visão do Profeta. principalmente destas quatro. Vendo estas carroças Zacarias e não entendendo o que significavam. e estes entre os outros diz que eram os mais fortes. História do Futuro (Volume II. se servia sempre das armas de todas as nações. Mas. Livro I. porque. daquela estátua ou daqueles reinos se haja de levantar o Quinto Império. in diebus regnorum illorum. assim como iam sucedendo os reis. e Deus multiplicando as revelações. e que os cavalos negros tinham saído contra as terras do Norte. assim dobrou também as testemunhas . Respondeu pois o Anjo que aquelas quatro carroças (dos montes não disse nada) eram quatro ventos doces que assistiam ao dominador da Terra para executarem suas ordens. mas sempre mostrando pela mesma forma primeiro os quatro impérios e depois o quinto. senão que ainda está por vir. iam sucedendo as profecias. mas na frase do mesmo texto chama aos da primeira carroça ruivos. De modo que. aos da terceira brancos. na qual e na visão do Profeta seguiremos a comum sentença dos Doutores. e a mesma sucessão de impérios que revelou a Daniel em umas figuras a mostra agora ao Profeta Zacarias em outras. e após eles os brancos. como supremo Senhor dos Exércitos. levantando os olhos (ou levantado-lhos Deus da atenção das cousas presentes para a visão das futuras). para mostrar a violência e velocidade com que seus fundadores conquistariam e sujeitariam por armas os reinos terras e gentes de que se haviam de formar os ditos impérios. como decrépita. viu que do meio de dois montes de bronze saíam quatro carroças puxadas por quatro cavalos. e que com licença do Dominador a tinham passeado toda. assim parece que se deve construir o texto na forma da nossa cavalaria. que é este último tempo dos mesmos Romanos. cada tiro ou parelha de diferentes cores. e destes os mais fortes trataram de discorrer por toda a Terra. ao uso daqueles tempos. a principal força dos exércitos consistia nas carroças armada que eram as que faziam maior estrago na guerra como se vê nos casos tão celebrados. no capítulo VI da sua profecia. é idade de ferro e barro. pela terceira pombos. pela quarta remendados. que sucedeu a Baltasar. aos da segunda negros. que é desta maneira: estas carroças significam os mesmos quatro impérios que Deus mostrou a Daniel. e foram estes impérios representados ao Profeta em figura de carroças. aos da quarta vários. a quinta. porque Deus. e declarados pelo Anjo em metáfora de ventos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro primeiro Império dos Romanos. Capítulo III) por Padre Antônio Vieira 111 Prova-se o mesmo contra outra profecia de Zacarias Assim como Deus dobrou as visões. como tão poderosas . Diz pois o Profeta Zacarias. ou porque este anjo falasse mais culto que o de Daniel. ou porque Zacarias se entendia por dentro com e1e acham os Doutores que explicou um enigma com outro.

porque os Romanos. como Cipião. Cláudio. e ali acabou o Império dos Assírios. que já havia muito tempo florescia. porque nunca chegaram à América. e da consonância e harmonia dos tempos. foram vários para com os Hebreus. último imperador dos Persas. Tibério. Trajano. marido de Ester. que com sua potência e vitórias se fizeram senhores do Mundo e o meteram debaixo dos pés. Porque. e tiravam por ela cavalos ruivos. Tito. dos cavalos negros. persuadido pelos enganos de Amão. Calígula. Pompeu. lugares. exceto Antíoco (cuja tirania também serviu de matéria gloriosa aos triunfos dos Macabeus) os outros príncipes gregos sempre foram benéficos aos Hebreus. Vespasiano. fundador daquele império. dos cavalos vários. que fica ao sul de Judéia. os quais por altos e imutáveis são comparáveis aos dois montes de bronze donde saíam as carroças. e assim se verificou nos Romanos. principalmente naquela grande aflição. A terceira carroça representava o Império dos Gregos e tiravam por ela cavalos brancos. Teodósio. e primeiro que tudo se deve muito notar que da primeira carroça não disse cousa alguma. diz que foi atrás da primeira. Restam por explicar os diferentes caminhos que disse o Anjo fizeram estas carroças. como Júlio César. e que a correram e passearam. e mais que todos Alexandre Magno. 112 . tinha condenado a morrer em um dia com crueldade inaudita toda a nação hebréia. assim no ódio como na benevolência. porque os Gregos venceram e destruíram a Dario. A primeira carroça representava o Império dos Assírios. que é cor de fogo. e assim foi. e que isto foi o que Deus e o Anjo quiseram significar ao Profeta. Augusto. em que Augusto desbaratou a Cleópatra e Marco Antônio. assolações e incêndios com que os Assírios conquistaram destruíram e abrasaram o povo hebreu. Ultimamente diz que os cavalos mais fortes ou os robustíssimos da quarta carroça quiseram correr e passear toda a Terra. Nero. como a primeira carroça significava o Império dos Assírios. que é admirável confirmação de serem significados nas quatro carroças os quatro impérios. Augusto. a quarta carroça representava o Império Romano. Finalmente. a dos cavalos brancos. princípios. cuja fundação e sucessos estavam ainda por vir. E posto que os Romanos absolutamente não conquistaram o Mundo como é em si. se faz certo e evidente argumento de que esta interpretação é a sólida e verdadeira. diz o Anjo que caminhou para as terras do Norte. Estes robustíssimos dos Romanos foram os seus maiores capitães e imperadores. cuja majestade. porque os Persas devastaram e ocuparam a Babilônia que fica para a parte do Norte da Judéia. De toda esta combinação das histórias com a profecia. que são os Persas. que mais é uma metade que parte do Mundo. Constantino. quando El-Rei Assuero. A terceira carroça. não duvidou de adorar no templo ao pontífice Jada. Vespasiano. César. como Pompeu. outros inimigos. Adriano. diz que foi para o Sul. A segunda carroça. e ali acabou o Império dos Gregos. e tiravam por ela cavalos negros. porque os Romanos passaram por várias vezes à conquista do Egito. principalmente no cativeiro de setenta anos a que eles com razão chamavam fornalhas da Babilônia. como escreve Suetónio. E a quarta carroça. como escreve José. E assim declarou somente o Anjo os três impérios seguintes. como escreve Crítio e Plutarco. e depois da vitória chamada actíaca. uns amigos e propícios. A segunda carroça representava o Império dos Persas. tomou o nome de Rei da Ásia. fins e todos os sucessos desses Impérios tão ajustados com as propriedades das figuras que as representavam. porque. perseguidores e cruéis. nações. cor pacífica e alegre. etc. e assim sucedeu. junto à mesma Babilônia onde Alexandre. para significar os danos. e tiravam por ela cavalos vários. cor de tristeza e luto. porque também os Persas afligiram e foram lutuosos aos Hebreus. não tinha necessidade de intérprete nem declaração. reduziu o mesmo Egito a província. e assim consta das histórias.Anexo:Imprimir/ História do Futuro para a execução de seus divinos decretos.

leva o direito desta herança à origem que os Reis de Espanha trazem dos Godos. os quais Godos. estas vitórias próprias dos Espanhóis. como fizeram ao Imperador Maximino contra os Partos e a Constantino contra Licínio. audacíssimos e fortíssimos. contra o Sol. como se vê em S. conforme a profecia. uti fecerunt Hispani. Ingleses. Mas Sanchez. e que de nenhum modo. Vê-se claramente esta verdade na primeira profecia de Daniel. a que venceram e contrastaram. Mas esta aplicação. Cornélio diz assim: Potissimum vero divisum fuit hoc regnum ideoque enervatum cum variæ gentes ab ejus obedientia se subduxerunt. E diz que aqueles robustíssimos de que fala o Anjo são os Espanhóis. onde os Portugueses iam servir e merecer debaixo de suas bandeiras. ainda que essas mesmas partes depois se desunissem do mesmo Império e lhe negassem obediência. senão do povo romano. e que esses se haviam de desunir da sujeição e obediência do mesmo Império. e parte não só do Império. Angli. sibique proprios reges crearunt. e nas da Índia Oriental. Além de que muitos portugueses eram filhos e netos dos Romanos. onde viviam os presídios romanos. mandou que todo o Mundo se alistasse. regnum divisum erit. senão nas da América. pelas vitórias do Oriente a que o mesmo Cornélio chama ad miraculum usque illustres. Franci. E posto que qualquer destas razões e muito mais todas juntas são bastantes para que sem impropriedade se possa entender os Portugueses debaixo do nome de Romanos. ao que não obstava serem de diferente nação. Polacos. onde se diz que os pés e dedos da estátua eram compostos de ferro e barro. como violenta e trazida de tão longe. sendo hebreu. alegando que era cidadão romano e que só no tribunal de César podia ser julgado. na qual divisão de dedos e desunião de metais se significava que o Império Romano se havia de dividir em muitos reinos e senhorios menores. pois conquistaram estas regiões novas e incógnitas. Paulo. senão contra os ventos. porque Espanha e Portugal foram colônias dos Romanos. que. Assim o interpretou o mesmo Daniel: Porro quia vidisti pedum et digitorum partem testæ figuli. não pelejando contra os homens. et partem ferream. sendo antes sujeitos aos 113 . e verdadeiros cidadãos romanos. para explicar a palavra per omnem terram em toda a sua largueza. porque esta glória que Sanchez dá aos Espanhóis toca pela maior e melhor parte aos Portugueses. no seu edicto do tempo do nascimento de Cristo. as quais palavras comentando. e que o barro e o ferro não estavam unidos. E para este autor perfilhar ou acomodar aos Romanos. assim em Portugal. parece lhe competiam. e todas as partes de que ele se compôs e inteirou quando esteve em sua maior grandeza. o fundamento principal sólido e certo desta interpretação é ser esta a mente e sentido em que falaram os mesmos Profetas. com razão não é admitida de Cornélio à lápide. Franceses e os demais. contra o Céu.Anexo:Imprimir/ História do Futuro contudo diz o Anjo que correram e passearam todo o Mundo no mesmo sentido em que Augusto. no sentido desta profecia. como os antigos Romanos. pela união e comércio destas duas nações. etc.boca de um anjo os mais fortes de todos os Romanos. nação um título tão honrado como serem chamados por . nunca conquistada nem ainda conhecidas pelos Romanos. quer que não só nas terras do Mundo Antigo. contra todos elementos e contra a mesma natureza. que. digo que os Portugueses e todos os Espanhóis se podem e devem entender debaixo do nome de Romanos. Mundo Novo. Contudo. ut describeretur universus orbis. Poloni. contra os mares. foram estipendiários dos Romanos e pelejaram debaixo de suas bandeiras. que impugna facilmente. como muitos romanos de Portugueses. os quais entendem Império Romano todo o corpo íntegro do dito Império. De maneira que a divisão dos dedos e a desunião dos metais dos pés da estátua significava os reinos dos Espanhóis. apelou para o César. por não deixar perder a nossa. verdadeiramente valentíssimos. como nas guerras dos mesmos Romanos. como já tinha notado Ribeira. ajudando a defesa e conquista do Império.

ainda que não sejam romanos. pela diferença dos climas. ele a pedra sobre que sustentou os braços levantados de Moisés. quando se lhe abriu o Céu e viu a escada. segue-se que digamos que Império há-de ser: e assim o faremos em todo este II Livro. lhes negaram a sujeição e se desuniram. Ele foi a pedra que no deserto matou a sede aos filhos de Israel e os acompanhou até a terra da Promissão. é Cristo. foi empresa de muito maior valor. Não somos nós que o dizemos. os Césares. considerando todo o corpo do Império Romano e todas suas empresas. os fortes dos Romanos foram os Cipiões. Suposto como deixamos assentado que há-de haver no Mundo um quinto e novo Império. pela dificuldade de navegações. Assim que. os Augustos. em significação de que por meio e virtude de Cristo havemos de vencer o Mundo e o Demônio. et dixit: Ite. Finalmente. Introdução) por Padre Antônio Vieira 114 Em que se mostra que Império há-de ser este. Gregos e Romanos. Ele foi a pedra com que David derrubou ao gigante. para que a profecia se entenda dos Espanhóis e Portugueses. para maior clareza e firmeza dela. Primeiramente aquela pedra que derrubou a estátua e desfez as quatro monarquias figuradas nos quatro metais. perambulate terram: et perambalaverunt terram. arrancada do monte. e entre esses Espanhóis os fortíssimos dos fortíssimos foram os Portugueses. que eram os mais fortes e valentes de todos. não se contentaram só com as terras dos outros impérios. o qual em outros muitos lugares da Sagrada Escritura se chama Pedra. porque realmente são partes daquele corpo e daquele todo. Livro II. resolução e esforço que a dos Castelhanos. senão cortada toda da mesma peça. é o Império de Cristo e dos Cristãos. pelo valor e potência das nações que se conquistaram. pela distancia remotíssima das terras. a que uniu os dois povos gentílicos e judaico. era justo. super lapidem unum septem oculi. Ele foi a pedra que viu Zacarias. ele finalmente a pedra angular. Persas. quando venceu os exércitos de Amalec. anunciado e prometido pelos Profetas. Livro II. o qual infundiu todo e descansou sobre Cristo. deles.Anexo:Imprimir/ História do Futuro imperadores romanos. que são os sete dons do Espírito Santo. Destas nações pois e destes reinos de que se compunha o Império Romano. Prova-se dos mesmos textos e profecias já alegadas. ainda desunidos dele. senão o anjo que falava em Zacarias: Qui autem erant robustissimi. Mas contudo (que é o nosso intento) ainda assim divididos e desunidos se computam e reputam por parte da mesma estátua e do mesmo Império Romano. Que o Quinto Império é o Império de Cristo e dos Cristãos. para fundar e levantar o seu . mas que intentaram discorrer e passear toda a redondeza da Terra. e depois cresceu e a sua grandeza ocupou e encheu toda a Terra. e sobre ela sete olhos.. exierunt. Esta pedra pois foi a que. e entre os Espanhóis muito particularmente os Portugueses. os fortíssimos foram os Espanhóis. derrubou a estátua e desfez os quatro impérios dos Assírios. História do Futuro (Volume II. Ele foi a pedra sobre que adormeceu Jacob. et quærebant ire et discurrere per omnem terram. História do Futuro (Volume II. e a pedra fundamental e provada sobre que se fundaram na Lei antiga a Igreja de Sion e na nova a do mesmo Cristo. sobre as quais fundaremos tudo o que dissermos nesta história. Estes foram os Espanhóis. pois não é cerzida de pedaços ou retalhos das Escrituras. os Pompeus. aqueles homens. Capítulo I) por Padre Antônio Vieira É conclusão certa e de fé que este Quinto Império de que falamos.. porque a conquista dos mares e terras do Oriente.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro sobre todos eles. S. para denotar o Profeta que entre este homem e os outros homens havia diferença: os outros são puros homens. et usque ad.. porque são todos. S.. toda foi obra sobrenatural e divina. significado com o nome comum e metafórico de pedra. E este monte ou é o Céu e o seio do Eterno Padre. os quais acertam em dizer que nesta pedra está profetizado o Reino do Messias.. da qual o Verbo se dignou tomar e unir a si a humanidade. Quem havia de duvidar que em um quasi cabia uma distancia infinita? A terceira visão de Zacarias confirma ainda com maior propriedade ser Cristo o Senhor deste Império. Communis est Patrum sententia et multorum ex Hebræis quibus accedit Chaldeus sermonem hic esse de Messsiah. Não repito os autores desta explicação. senão ainda muitos hebreus. De maneira que na primeira visão foi Cristo. senão quase homem-quasi filius hominis. S. Esta é a sentença comum e mais recebida dos Padres e expositores deste lugar. etc. e erram somente em não crerem que o Messias é Cristo. posto que tivesse a mesma natureza como eles. Só reparou Maldonado que não se chama Cristo neste lugar Filho do Homem absolutamente.. posto que tão superiormente suprida com a divina.. S. Ambrósio. Ireneu. não só o confessa a Igreja Universal na aplicação deste lugar. não tiveram parte mãos de homem. que a pedra foi arrancada ou cortada do monte sem mãos: Lapis abscissus de monte sine manibus. como a mais perfeita e excelente de todas. assim que aquele quasi significa a falta de substância humana. E que cousa há mais certa e freqüente no Evangelho que chamar-se Cristo Filho do Homem? Quem dicunt homines esse filium hominis? Væ autem homini illi per quem filis hominis tradetur! Tunc videbunt filius hominis venientem in nubibus cæli.. Ruperto e muitos outros Padres.et ecce (diz o Profeta) cum nubibs cæli quasi filius hominis veniebat. sendo verdadeiro homem. arrancada dele sem mãos. senão também os hereges e até mesmo Rabinos. que sem ódio escreveram antes de Cristo. ou é a nação hebraica. Senhora Nossa. Na segunda visão de Daniel ainda consta mais claramente e por termos mais expressos que este Império é o de Cristo. Cristo é homem e Deus juntamente. sendo quasi filius hominis.et dabit ei potestatem et honorem et regnum. De sorte que a pessoa a quem foi dado por Deus o Quinto Império de que Danie1 fala neste lugar (como vimos) era o Filho do Homem. como explica S. Epilanio. Já dissemos que a coroa ou coroas que foram postas sobre a cabeça de Jesus. Júlio. Agostinho. e porque o texto é tão claro que não há mister intérpretes. como interpreta S. E porque Deus não havia de ter subsistência humana como os outros homens.Antiquum dierum pervenit: . donde desceu Cristo quanto a divindade. filho de Josedec significavam o mesmo Império Quinto profetizado por Daniel: e que seja Cristo o soberaníssimo Monarca que Zacarias viu coroar naquela figura. sublimada como monte altíssimo sobre todas as criaturas. Assim o dizem conformemente neste lugar não só todos os Padres e expositores católicos. Teodoreto. não lhe chama por isso o Profeta homem. Assim o notou o mesmo S. e a opinião comum de todos os Padres e Doutores. suprindo o Espírito Santo e a virtude do Altíssimo o que nela faltou de concurso humano. ou finalmente é a Virgem Maria. na segunda com o nome particular de Filho do Homem. Agostinho. com a qual concorda admiravelmente a advertência de Daniel. Jesus filii Josedeci: e em todas estas três visões em que Deus revelou aos seus Profetas a 115 . levantada naquele tempo como monte entre todas as outras nações do Mundo. na terceira com o nome propriíssimo de Jesus. porque na geração temporal de Cristo. diz o doutissimo Sanchez. Diz Daniel que esta pedra caiu de um alto monte. Hierónimo.

como dizia. no título ou sobrescrito da carta diz assim: Omnibus Sanctis in Christo qui sunt Philippis «a todos os Santos em Cristo que estão em Philippis». E a este uso se chamaram as igrejas dos Cristãos igrejas dos Santos. senão frase muito corrente e ordinária em toda ela. et regnum obtinuerunt sancti. mas porque tudo o que havemos de dizer nesta história será uma continuada prova e confirmação dela. a quem ele chama o Antigo dos dias dera ao Filho do Homem aquele novo reino ou império. et potestas. escrevendo aos cristãos da cidade de Filipe. tornemos à segunda visão de Daniel. os fundamentais de toda ela. Cristãos. S. Depois de referir Daniel como Deus Padre. et omnes reges servient ei et obedient. e os quatro a que ele devia de suceder. Assim o diz expressamente sobre estas palavras de Daniel o seu grande comentador Perério. Mas porque no princípio deste capítulo dissemos que o Quinto Império era o Império de Cristo e dos. perguntou o mesmo Profeta a um dos anjos que assistiam ao trono a significação das cousas que via. et magnitudo regni quæ est subter omne cælum. et tempus advenit. e principalmente os que estão em casa de César». ea ad Regnum Christi et Christianorm accommodari. em Macedônia. 116 . Paulo. Finalmente este era o ordinário modo de falar da primitiva Igreja. et judicium dedit sanctis Excelsi. Deinceps (diz ele) pagnandum nobis est cum Judæis qui Christianis infensi infestique et iniquo animo ferentes. etc. isto é. E no 27: Regnum autem. as quais ficam reservadas para se explicarem em seus lugares por agora só nos serve (o que diz e repete tantas vezes o Anjo) que aquele mesmo Reino que o eterno Padre deu ou há-de dar a seu filho Cristo é o Reino e o Império dos Santos. quæ de illo quinto Regno tam præclara et gloriosa prædix Daniel. E saudando aos Filipenses no fim da epístola citada. e revelou também que o Senhor e o Monarca deste Império havia de ser Cristo.. lhes mostrou .Anexo:Imprimir/ História do Futuro grandeza e majestade futura do Quinto Império. e ele lhe disse por três vezes que o reino e império que vira dar ao Filho do Homem era o reino e império que os santos do Altíssimo haviam de ter neste Mundo. vocatis Sanctis. Reino de Cristo e dos Cristãos. E que pelo nome de Santos. cujus regnum. chamando a este Quinto Império Regnum Christi e Christianoram. e assim lemos no capítulo IX dos Atos dos Apóstolos que usou da mesma frase Ananias. E no verso : Donec vénit Antiquus dierum. se entendam e devam entender os Cristãos não é só explicação de intérpretes da Escritura. regnum sempiternum est. exortando aos mesmos Romanos a que socorressem com suas esmolas aos cristãos necessitados: Necessitatibus Sanctorum communicantes. Com muitos outros textos da Escritura pudéramos confirmar esta mesma conclusão. Muitas cousas e muito grandes disse nestas palavras o Anjo. onde Deus para consolação dos fiéis quis que nos ficasse expressa e revelada esta tão gloriosa verdade. em nome de alguns cristãos que estavam em serviço do Imperador que então era Nero: Salutant vos omnes Sancti maxime autem qui de Cæsaris domo sunt: «saúdam-vos. diz. E escreveu aos cristãos de Roma: Omnibus qui sunt Romæ dilectis Dei. No verso 18 daquele capítulo (que é o VII) diz assim: Suscitient autem regnum Sancti Dei altissimi: et oblinebunt regnum usque in sæculum et sacculum sæculorum. detur populo sanctorum Altissimi. de que usa Daniel. que são. bastem os textos alegados. dos Cristãos. todos os Santos. E na mesma epístola. conforme o texto da Epístola ad Corinthios: In ecclesiis Sanctorm doceo. et dierum. representando Cristo os grandes males que Saulo tinha feito contra os Cristãos: Quanta mala Sanctis tuis fecerit.

Regnum quod non corrumpetur. Tertuliano. argumenta assim Este Reino ou Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser Reino perpétuo. clara e manifestamente se segue que não há-de ser império da Terra.Anexo:Imprimir/ História do Futuro A razão deste nome é tomada da santidade da Lei de Cristo que professam os Cristãos. como consta do texto: Tunc contrita sunt pariter ferrum. Regnu sempiternum. já o vento os tinha levado pelos ares. lapis autem qui percusserat statuam factus est mons magnus. E posto que os autores desta sentença mais supõem que aprovam. repúblicas e impérios do Mundo se não hão-de desfazer em cinza. argentum et aurum. desta maneira: Antes que a pedra cortada do monte (que é Deus e o seu Império) crescesse a toda aquela sua grandeza (diz Teodoreto). em que lhe chama Vocati Jesu Christi et vocatis Sanctis. incorruptíve1 e eterno. . et redacta quasi in favillam æstiva. senão do Céu. redempti a Domino. E ambos estes nomes e as etimologias deles compreendeu S. com a mesma frase com que depois se nomeou a Cristo. com a mesma frase com que depois se nomearam os Cristãos. Contudo a sentença comum dos Santos. entre os Padres gregos. nós aprovaremos e demonstraremos com os textos das mesmas visões. de que fala Daniel. História do Futuro (Volume II. e chamando ao Reino dos Cristãos Reino dos Santos. e recebida e seguida como certa de todos os expositores. os quais. e muito mais na segunda. chamados de Jesus Cristo e chamados santos. não há-de ser neste Mundo. bem assim como já antes de Daniel o tinha profetizado com o mesmo espírito Isaías: Et vocabunt eos populus sanctus. já todos os outros reinos e impérios do Mundo estavam derrubados e caídos. testa. nullusque locus inventus est eis. senão no outro. Paulo no princípio da Epístola aos Romanos. desfeito em pó e em cinza. o Teodoreto. e todos. sem haver mais que a memória deles. Fundam a sua opinião nas mesmas visões de Daniel. areæ quæ rapta sunt vento. e já tinham desaparecido totalmente do Mundo. assim como de Cristo se chamavam cristãos. cidades. é que este Reino e Império de Cristo e dos Cristãos profetizado por Daniel (qualquer que haja de ser) é Império da Terra e na Terra. que é em próprios termos o que depois se viu na Igreja e o que diz aqui o Anjo: Regnum autem et potestas detur populo sanctorum. por mais que durem e permaneçam. e entre os latinos. Sendo logo certo como é que os reinos. mas que tem para si que há-de ser este Império no Céu e não na Terra. como dizem expressamente as palavras de ambos os textos: Regnum quod in eternum non dissipabitur. E este é o sentido em que Daniel e o Anjo falaram naquela visão chamando a Cristo Filho do Homem. fundado na mesma visão. nem se poder achar ou conhecer o lugar onde tivessem estado. Livro II. hão-de ter um com o mesmo Mundo. æs. se o Reino e Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser perpétuo. Regnum usque in sæculum et sæculum sceculorum. os quais concordavam com a verdade da nossa História em dizerem com os demais que o Quinto Império é o de Cristo e dos Cristãos. nem se hão-de acabar. o qual é de fé que se há-de acabar. senão quando se desfizer e acabar o mesmo Mundo na última ruína dele. e aquela sua grandeza prodigiosa e que há-de crescer. E aquele povo remido por Deus será chamado publicamente Povo santo. assim da Lei santa de Cristo se chamaram santos. Capítulo II) por Padre Antônio Vieira 117 Pergunta-se se este Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser neste Mundo ou no outro. incorruptível e eterno. Os reinos deste Mundo todos de sua própria natureza são corruptíveis. Deu motivo a esta questão. Tertuliano. Logo. segue-se que o Império de Cristo e dos Cristãos.

nem se obedece. Logo. não há-de haver mais homens que vão ao Céu. porque no Céu não se serve. Se a pedra. se as mesmas palavras do texto o dizem claramente? Factus est mons magnus et implevit universam terram. Da Terra é logo este Império. não há-de crescer nem pode crescer na glória dos bem-aventurados. os quais o hão-de servir e lhe hão-de obedecer: et omnes reges servient ei et obedient. que est subter omne cælum. porque. detur populo sanctorurn Altissimi. e só se goza o prêmio do que se obedeceu. porém. que serão todos os reis do Mundo. depois de acabado o Mundo e depois do Dia de Juízo. e diz em nova confirmação do que dizemos. e como se acabou o tempo de mais merecer. cresceu? Logo. nem podemos negar que este Reino e Império de Cristo e dos Cristãos há-de durar também com o mesmo Cristo e os mesmos Cristãos depois de bem-aventurados por toda a eternidade no Céu. mas com tanta discrepância de tempos. Lapis autem qui percusserat statuam factus est mons magnus et implevit universam terram. Regnum autem et potestas et magnitudo regni. não é império do Céu nem depois de acabado o Mundo. assim se acabou o tempo de mais alcançar. é o poder e grandeza de todos os reinos que há debaixo do Céu. Infiro agora assim: Esta pedra e este Império de Cristo. que derribou os outros impérios. é porque a terá primeiro na Terra. como se deve ao estado do Céu. que cresceu e se fez um monte tão grande que ocupou e encheu toda a terra. segue-se que esse crescimento há-de ser neste Mundo e não no outro. cada um há-de receber por inteiro toda a glória devida a seus merecimentos. o qual grande monte encheu e ocupou toda a Terra. senão de debaixo do Céu: magnitudo regni. este é o mais ordinário sentir de todos os expositores de Daniel. Desta maneira se concilia e concorda facilmente a opinião de Tertuliano e Tedoreto com a verdade da nossa. Mas para que são conseqüências. depois de acabado o Mundo. quæ est subter omne cælum. como veremos em seu lugar. nem se merece. os quais dizem que este Reino e Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser incoado na Terra e consumado no Céu. na primeira visão. e na Terra é que há-de ser servido e obedecido e reconhecida de 118 . bem claro se mostra que é Império da Terra e não do Céu e que na Terra e não no Céu há-de ter toda esta sua grandeza. Se os reis hão-de servir e obedecer a este Império. que são os Cristãos. se o Reino de Cristo e dos Cristãos há-de crescer depois daquele tempo. Os termos da segunda visão de Daniel ainda são (se podem ser) mais evidentes. mas nem por isso há-de deixar de ter na Terra a grandeza que nestes textos lhe é profetizada e prometida. pois posto se entenda e saiba que não é assim. adverte e nota sinaladamente o Profeta que não é Reino do Céu. detur populo sanctorum Altissimi. no Céu consumada e perfeitíssima. do que se serviu e do que se mereceu na Terra. de nenhum modo há-de crescer nem pode crescer. desde aquele ponto. diz Daniel. antes a razão de haver de ter tanta grandeza no Céu. «0 Reino ou Império que se há-de dar ao povo dos Santos do Altíssimo. bem se colhe que há-de ser Império da Terra e não do Céu.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Daquela pedra que representava a Cristo e seu Império. e este é o Império profetizado de Cristo. Não há-de crescer nem pode crescer no número dos homens. Não negamos. que agora só trataremos qual seja em comum o deste Império. se fez um grande monte. porque. e crescer a uma grandeza tão imensa. dizendo que este Reino havia de ser no Céu e não na Terra. crescendo.» Podia-se dizer cousa mais clara? Parece que estava antevendo Daniel que havia de haver quem interpretasse esta sua visão em diferente sentido do que ele a escrevia. Nas palavras que se seguem a estas declara mais em particular Danie1 (ou o Anjo por ele) quem hão-de ser os súbditos deste Império. porque o Reino e Império de Cristo.

sua soberania. et Antiquus dierum sedit vestimentum ejus candidum quasi nix. sed quæ est subter omne cælum. senão continuação e permanência de muito tempo. que depois veremos quanto há-de ser. e aos professores de sua fé e obediência. não só parece que significam. comentando as palavras subter omne cælum. Fluvius igneus.a sobre o Gênesis. 119 . rapidusque egrediebatur a facie ejus. E estas palavras por todas as circunstâncias do trono. as quais nem cada uma por si nem todas juntas compreenderão nunca toda a grandeza da Terra. seu império. et capilli captis ejus quasi lana munda. e a dos Gregos pela sucessão dos Romanos e se acabará também a dos Romanos pela sucessão do Quinto Império. E isto quer dizer em frase da Escritura . thronus ejus flammæ ignis rotæ ejus ignis accensus. seu filho.. Respondo que é certo falar neste lugar o Profeta de juízo. da assistência dos anjos. dos livros que se abriram e do mesmo nome de juízo. que são os Cristãos. e consta que sucedeu em seu lugar S. Ao de Teodoreto dizemos que o texto de Daniel só fala das quatro monarquias representadas nos quatro metais da estátua. por ser fundada nas mesmas palavras do texto de Daniel. não só pode embaraçar a verdade da nossa sentença. Aspiciebam (diz Daniel na segunda visão) donec throni positi sunt. como notou S. Logo. e quando se diz que ficaram desfeitas em pó e desapareceram. claramente se convence que ano é nem há-de ser Império desde Mundo. como verdadeiramente se acabou a dos Assírios pela sucessão dos Persas. cidade e gentes das ditas monarquias se haviam de acabar e extinguir totalmente (como há-de acontecer a todo o Mundo no Dia de Juízo) senão que havia de se acabar seu mando. Mas se entendermos o texto de Daniel da duração somente que o Império de Cristo e dos Cristãos há de ser neste Mundo. senão do outro. Entretanto basta saber-se que a palavra eterno tem este mesmo sentido e limitação em muitos lugares da Escritura. e não se achou mais o lugar onde estivessem. já temos dito que a continuação dele no Céu há-de ser verdadeiramente eterna em toda a propriedade e largueza da significação desta palavra. pouco atrás citadas: Non quæ est super. id est in omni terra. pela palavra eternidade não se entende rigorosamente duração sem fim. porque sucederam outros nele. mas digo com a mesma certeza que este juízo não é o juízo final. como legitimo senhor e herdeiro dele. judicium sedit et libri aperti sunt. et decies millies centena millia assistebant ei. senão que estão demonstrando o vigor e majestade do juízo final. senão um juízo particular. mas confirmar na contrária os autores e seguidores dela. seu poder. não quer dizer que as terras. Responder aos seus argumentos é igualmente fácil. Agostinho na Questão 3I. como bem advertiu Cornélio. Millia millium ministrabant ei. sive in omni plaga cælo subjecta. de quem fala a Escritura pelos mesmos termos. Mas para que tiremos todo o escrúpulo aos outros razão será não passe sem satisfação uma grande dúvida que. e para meter de posse e o entregar a Cristo. e juízo rigoroso e de grande majestade. em que o Padre Eterno há-de tirar o Reino e Império universal do Mundo ao tirano ou tiranos que então o possuírem. Matias. e mostraremos mais largamente quando escrevermos a duração do Quinto Império. do fogo.non inventus est locus ejus-que «se não achou mais o seu lugar». e assim o entendem mais ordinariamente os expositores desta visão. e foram voadas do vento. Ao argumento de Tertuliano que se fundava na eternidade do Quinto Império. em que Cristo há-de vir julgar os vivos e os mortos no fim do Mundo. se o Reino e Império de Cristo e dos Cristãos há-de ser depois do juízo final. etc.Anexo:Imprimir/ História do Futuro todos os reis dela. como se vê no exemplo de Judas. e juízo de Deus. e a dos Persas pela sucessão dos Gregos.

que veio lançar fogo na terra. e sendo todas elas ordenadas só à salvação e perfeição dos homens e dirigidas e encaminhadas ao Céu. que este Império de Cristo e dos Cristãos. que veio vencer o demônio e lançá-lo do Mundo. que se dirige a governar os vassalos por meio de leis prudentes e justas. perguntamos agora se este Império de Cristo há-de ser espiritual ou temporal. se perguntarmos aos Evangelistas (deixando o testemunho das outras Escrituras) que fez Cristo e que ensinou com a palavra e com o exemplo. espiritual como o que hoje tem o Sumo Pontífice. onde reinava e se intitulava príncipe. que dizemos há de ser na Terra. como o que têm os príncipes católicos sobre os seus reinos e províncias. que pregou o Reino do Céu. para que a graça prevalecesse contra a natureza e o amor de Deus pudesse mais que o do sangue. o preço e imortalidade da alma. finalmente que abriu sete fontes de graça e ou que instituiu sete sacramentos perpétuos e ficou Ele conosco perpetuamente em sacramento. espiritual no governo. que ensinou o desprezo das riquezas. os interesses da esmola. Reino e Império espiritual? Foi Reino e Império espiritual no fim e causas de sua instituição. Isto posto. espiritual no uso. que veio encher e informar a lei e animar a letra com o espírito. a conseguir a bem-aventurança. nas execuções e no exercício. diremos primeiramente que este Império de Cristo (o qual não há-de ser diferente do que hoje é. lho abriu e mereceu com seu sangue. que veio apartar os pais dos filhos e os filhos dos pais.quanto ao modo como em seu lugar veremos) é império espiritual. uma não usada. para que se acendesse nela a claridade que tão apagada estava. Livro II. a verdadeira amizade com os inimigos. é principalmente o da Terra e não o do Céu. e se demonstra com o mesmo mistério da Encarnação e fim com que Cristo veio ao Mundo. senão . que nos lavou com o seu sangue. e que nos deixou o seu amor e o nosso contentamento. dir-nos-ão que veio ensinar aos homens a ciência da saúde e salvação. dos Cristãos católicos. Porque. e com a doutrina e ações de sua vida e morte. Assim o ensinam e ensinaram sempre conformemente todos os Padres e Doutores da Igreja. e começando pela conclusão em que não há resistência nem dificuldade. que morreu por nós. e estando até aquele tempo fechado. a virtude da humildade e a da castidade. outra não conhecida no Mundo. e em seu nascimento foi aclamado Rei e em sua morte intitulado Rei. que veio ser luz do Mundo e alumiar os que vêm a ele. todos os teólogos antigos e modernos. desde o dia em que nasceu até à hora em que expirou na cruz. nem que maior demonstração ou evidência de ser o Reino e Império deste santíssimo e soberaníssimo Rei. ou pode ser espiritual ou temporal. de que falam as profecias alegadas. que é o último fim do homem. como acabamos de resolver. e todos os expositores de ambos os Testamentos. o perdão das injúrias. cujo reino lhes pregou e prometeu sempre. o rigor do juízo. em quanto este fim particular e mediato se ordena ao último fim. que maior sentimento se pode desejar. Sendo pois estas as ações daquele Senhor a quem antes de vir ao Mundo todos os profetas chamaram Pai. que é o fim particular de todas as comunidades humanas. espiritual nas leis. a eternidade do Inferno. e suposto que . cujo poder e jurdição se ordena a governar os fiéis membros e súbditos da Igreja. Capítulo III) por Padre Antônio Vieira Se este Império de Cristo no Mundo é espiritual ou temporal Assentado. ainda nesta suposição nos resta averiguar um ponto de grande importância e de cuja decisão depende o maior fundamento de todo este nosso discurso. temporal. Porque este Império de Cristo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 120 História do Futuro (Volume II.

anuncia o mesmo Reino de Cristo e sua perpetuidade: . Assim vemos que o Sumo Pontífice. mas logo lhe chama rei e salvador justo.intende. no capítulo IX. pobre e humilde: Justus et salvator.. et deducet te mirabiliter dextera tua. poder e domínio temporal. assim por serem todos. como acabamos de resolver. mas logo declara o gênero de armas. No Salmo II chama David a Cristo Rei constituído por Deus . tendo o domínio espiritual de toda a Igreja.Anexo:Imprimir/ História do Futuro dizemos há-de ser sempre o mesmo (nem é decente nem seria crível outra cousa).regnabit rex et sapiens erit.. mas logo aponta os fundamentos espirituais também. Fundam primeiramente esta sua sentença em muitos lugares da Escritura e particularmente em todos aqueles com que no capítulo passado mostramos o seu nome e título de Rei. três dos eleitores do Império são príncipes eclesiásticos e senhores temporais de seus estados. domínio.. celebra o Reino e sabedoria de Cristo Rei: . sempre acrescentam alguma explicação ou limitação com que o nome geral de Rei e Senhor se distinga ou aliene da significação de poder temporal. e notam bem advertida e doutamente estes autores que todas as vezes que os textos da Escritura Sagrada falam no Reino. em Alemanha. dizendo que para pregar seus preceitos-praedicans praeceptum ejus. como dissemos.acrescentou logo que o seu Reino era para dar testemunho da verdade ao Mundo: Ego in hoc veni in mundum ut testimonium perhibeam veritati. em qualquer tempo futuro será e há-de ser também espiritual.. bem assim como aquele que os príncipes eclesiásticos têm sobre suas igrejas ou ovelhas (posto que por modo mais sublime e excelente) mas de nenhum como aquele que os senhores e príncipes seculares têm sobre seus estados e vassalos. ipse pauper et ascendens super asinam. Isaias. Livro II. e se limite. prospere procede et regna. o Arcebispo primaz é juntamente Bispo e Senhor de Braga. Zacarias no capítulo IX descreve o triunfo de Cristo aclamado por rei na entrada de Jerusalém: Ecce Rex tuus veniet tibi. Jeremias. E depois . Refere-se a opinião negativa O império e domínio temporal é certo que de sua natureza não exclui nem implica com o temporal. Capítulo IV) por Padre Antônio Vieira 121 Examina-se se o Reino e Império de Cristo é também temporal. que os Profetas davam a Cristo. No Salmo XLIV descreve o mesmo Profeta as prosperidades e progressos do Reino de Cristo: . estreite e determine ao espiritual somente. e somente lhe concedem ou admitem nele o puramente espiritual.. Muitos e graves teólogos seguem de tal maneira a parte negativa que exclui totalmente do Império de Cristo toda a jurdição. Finalmente. Império. mas logo limita a significação do ofício ou dignidade.super solium David et super regnum ejus sedebit in eternum. de modo que um outro domínio bem pode sem repugnância alguma convir e ajustar-se no mesmo sujeito. Suposto pois que o Reino e Império de Cristo seja espiritual. como porque alegaremos muitos no capítulo seguinte. poder ou principado de Cristo. mas logo determina os efeitos dessa sabedoria que hão-de ser encaminhados todos à salvação: In diebus illis salvabitur Juda. com que há-de conquistar o Mundo: Propter veritatem et mansuetudinem et justitiam . o mesmo Cristo »— confessando a Pilatos que era rei »— Tu dicis quia rex sum ego . História do Futuro (Volume II. no capítulo XXIII. e no nosso reino.Ego autem constitutus sum rex ab eo. é também senhor e príncipe temporal do estado que chamam eclesiástico. de que lhe háde vir a firmeza: ut confirmet illud et corroboret in judicio et justitia. todas espirituais.. resta examinar agora se é também império temporal. Não alegamos aos autores desta doutrina.

como vimos. constara pelas Escrituras. entre os quais porventura não é o que tem granjeado menos votos a esta opinião errada aquela palavra temporal. que não são muitas vezes as que menos persuadem. Finalmente. Por direito natural não. porque. construída com o Império de Cristo e pronunciada aos ouvidos mais religiosos e espirituais. era necessário que todos os homens e comunidades do Mundo se unissem em um consentimento. Segue-se logo que o Reino e Império de Cristo é espiritual somente. porque a jurdição de fazer ou eleger rei está na comunidade dos homens. o império. declarando aos Apóstolos com a maior majestade de palavras que podia ser a grandeza de seu império. e para Cristo ser respectivamente Rei universal de todo o Mundo por esta via. a qual. podendo tê-lo. se no mesmo tempo o mestre desta perfeição retivesse o domínio de toda a Terra? Para que se há-de admitir logo o nome deste Império temporal em Cristo. ou por direito humano. e quando menos se podem interpretar assim. ou foi Rei por direito natural. batismo e salvação dos homens. se nem para o decoro da pessoa. todos. se fecham e apertam eficazmente com um discurso fundido em todos os princípios gerais de direito. salvus erit: fé. se ele vinha como vimos a confundir com seu exemplo o mesmo Mundo. este império e este domínio não havia de ter (como nunca teve com Cristo) uso ou exercício público. como dizem menos provavelmente alguns autores. nem para o exemplo da doutrina era necessário. das quais palavras podemos dizer: Quid adhuc egemus testibus? A eficácia destes textos se acrescenta a de muitas razões e argumentos. domínio e potestade-Data est mihi omnis potestas in Cælo in Terra-a conseqüência que tirou deste poder tão universal foi: Euntes in mundum universum prædicantes Evangelium omni creaturæ. maior exemplo e ainda maior circunstância de perfeição saber-se que o renunciara Cristo. e dado que fosse legítimo sucessor do Reino de Israel. parece que traz consigo alguma dureza e dissonância. e para o exercício e uso que nunca teve realmente inútil e ocioso? Estas razões ou admirações. deixasse o domínio das suas herdades. e de nenhum modo temporal. a majestade de todo ele? E se esta majestade. por não dizer indecência. a herança de um reino particular não lhe dava direito para o império de todo o Mundo. o domínio. honras e haveres do Mundo. com que o elegessem por Rei e Senhor de 122 . ou por direito divino.o meu Reino não é deste Mundo. os mesmos reis e as mesmas temporalidades? Se a perfeição cristã que Cristo veio ensinar aos homens consistia em deixar tudo e seguir em pobreza e humildade a Cristo pobre e humilde. mas que convencem e desfazem a probabilidade de qualquer outra. com que parece aos autores desta sentença que não só estabelecem de todo a certeza dela. se houvera tal direito. se queria ser perfeito. nem para o fim do ofício.Anexo:Imprimir/ História do Futuro de ressuscitado. Por direito divino também não. e posto que muitos textos da Escritura falem de Cristo como Rei e lhe dêem o nome e título de Rei. e havia de estar sempre oculto e encoberto aos homens. Sobretudo está por esta parte aquele claríssimo oráculo de Cristo: Regnum meum non est hoc mundo . como alguns dizem? Com que liberdade ou com que confiança havia de aconselhar ou mandar Cristo a certo mancebo que. Argumentam ou decorrem assim: Se Cristo foi Rei temporal. se entendem do Reino espiritual ou celeste. porque Cristo não era filho nem herdeiro de rei. sem nos obrigarem a que os entendamos do Reino ou Império temporal. como dizia com esta renunciação de todos os bens. que dizer-se que o tivera e conservara. e ainda que o pedira. qui crediderit et baptizatus fuerit. De que servia a Cristo (dizem) o nome ou jurdição de Rei temporal do Mundo. não seria maior autoridade. por direito humano não.

para crédito de Maldonado e nosso. que Vasques os alega (e diz que assim se devem alegar) pela parte contrária. mas alegam-se e podem-se alegar no mesmo sentido S. E são estes: Hermas. porém. scilicet Saul. que não eram os que pior tratavam seus corpos os que isto diziam. acabou-se de conhecer que com e1e se não davam armas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro todas. Os Origenistas chamavam por escárnio pelusiotas aos que seguem a fé de que todos havemos de ressuscitar em nossos corpos. História do Futuro (Volume II. e antes dele Sábio. quanto a Igreja mais cresce. Livro II. S. Ambrósio. parecendo-lhes cousa indigna. nos futuros se sabe. o que nunca houve. Letmatio. entre os quais o mais claro (ou o que parece) é este: Populi personam figurate gerebat homo ille. a opinião do Reino temporal de Cristo e da Conceição imaculada de sua Mãe se acompanharam no mesmo tempo na mesma fortuna. Bertolameu de Medina.aos inimigos (porque também na Teologia se deve entender: Omnia dat qui justa negat). só porque não tomasse o nome de Rei. que os teólogos que hoje têm maior fama nas escolas. Nenhum dos outros Padres fala em termos de tanta expressão. em quanto Deus. Nem sempre é maior espiritualidade o que mais opõem ao corpo. e o que nos tempos passados é duvidoso. S. mais se alumia. que era a terra onde Cristo vivia. fugiu deles e do mesmo título. e muito contra o decoro da bem-aventurança. tão celebrado nas Escrituras. Melchior Flávio. e diz o doutíssimo Maldonado que esta é a sentença comum dos melhores teólogos que assim o disseram. Francisco de Cristo. Tertuliano. por termos tão indiferentes. e o ter em sua própria essência eminentemente as idéias de todas elas? Antes . O douto leitor julgará se são os melhores. Não fazem menos santo a Cristo. Ao menos confessa Vasques que da doutrina dos Padres não se pode convencer o contrário. se não espiritual e somente qual acima dissemos. se conjuraram contra ele e lhe tiraram a vida. Atanásio. Gregório. nem querem fazer menos espiritual o Mundo. falam. Abulense e Waldense. ainda não tinham escrito. O primeiro que se alega é Santo Agostinho em muitos lugares. de nenhum modo foi nem pode ser temporal. Mas. João Crisóstomo. Advirta-se. Teófilo e outros. nem por sucessão natural.por doação ou nomeação divina.parte Soto. na ocasião em que alguns deles lho quiseram dar. Adrião Fino. como disse S. e que o mesmo Senhor. Logo se não foi Rei temporal. que houvessem de aparecer diante de Deus as nossas almas com vestidos tão indecentes como são os corpos. qui populus regnum fuerat amissurus Christo Domino nostro per Novum Testamentum. e diz S. se não têm ainda triunfado. antes se tiravam . non carnaliter sed spiritualiter regnaturo. Jerônimo. Castro. antes sabemos que os príncipes e povo de Judéia. Os Padres que isto disseram e seguiram querem alguns que sejam todos. o ser senhor e criador de todas as cousas corporais. os que reconhecem em Cristo o domínio temporal dele. quando ele escreveu. sucederam àqueles teólogos de grande espírito outros de grandes espíritos. Capítulo V) por Padre Antônio Vieira 123 Propõe-se e defende-se a opinião afirmativa Se escrevêramos menos há de cem anos. e resolveu-se que não eram menos espirituais os que admitiam no Império de Cristo o nome de temporal. João Parisiense. Porventura ofende a Deus. e ambas ao fim. bem se conclui que o Reino e Império de Cristo. Vitória. e se escondeu em um monte para escapar daquela violência. porventura que não puséramos aqui tão confiadamente este capitulo. Driedo. com outras galantarias. já têm vencido Mitigou-se com os dias e com a consideração o horror daquele nome temporal. Jansénio. e posto que também se citem por esta . nem . nem por eleição humana.

e do império temporal de Cristo. a que o mesmo Mundo quando fala com mais siso chama com razão temporalidades. Peres. O Cardeal Toledo. Os quais textos e todos os mais se não podem entender própria e naturalmente senão do Reino temporal de Cristo. pelos mesmos princípios e fundamentos da opinião contrária. Cornelio. Caspense. como o Cardeal Turrecremata. Soares. Hurtado Arriaga. se assim não fora. E para que demonstremos a verdade desta nossa crença. e se é regra certa. Bacónio e outros. Scoto. não queremos dizer que é o seu Império sujeito às mudanças e inconstâncias do tempo. sublime e independente de todos. Agostinho. nem que receba a grandeza e majestade da pompa e aparato vão das cousas exteriores do Mundo. porque o contrário devia fazer manifesta violência à significação da palavra Rei. atque omnium rerurm creatarum. Arnico. que as palavras da Sagrada Escritura se não hão-de interpretar em sentido metafórico e 124 . antes com muito maior. O Império que dão ou reconhecem em Cristo os que admitem e veneram nele o nome de temporal. isto o que não admitem os Padres. fazendo e desfazendo leis castigando e premiando. com jurdição tão própria e direta sobre todo o Mundo como a que os reis particulares têm sobre seus vassalos e reinos. Vasques. Carçosa. Rex regnum et Dominus dominantium. sobre todos os reis. Ludòvico Tena. Molina. e bastava ter escrito estes três grandes nomes. sed et verus ac absolutus et proprius. Valença. Verga. Lacerda. mas absoluto soberano. que por serem tão particulares os quero referir aqui: Verum Jesus Christus Deus ac Salvator noster fuerit vere ac proprie Dominus et Rex totius Orbis.Anexo:Imprimir/ História do Futuro deixava de ser Deus. a qual em toda a Escritura Sagrada significa Rei temporal. antes dos quais tinham seguido e ensinado a mesma doutrina Santo Antonino. em que Cristo tão repetida e expressamente é chamado Rei por boca de todos os Profetas antigos. Princeps regnum terrae. e no capítulo XIX. Seguem a estes três lumes outros muitos que o puderam ser da Telogia. para dar por provada e acreditada com o Mundo uma verdade tão necessária e importante como depois veremos. non tantum spiritualis rex ac dominus. eo quod illis in omnem usum potest citra alicujus injuriam uti. secundum quod homo est. em que chama a Cristo Príncipe dos reis da Terra e Rei dos reis e Senhor dos senhores. a que podemos ajuntar muitos juristas de grande nome. e isto o que explicou o mesmo Cristo. Waldense. dando e tirando reinos. em dois lugares do Apocalipse. Justiniano. sobre todas as cousas criadas. e isto é só o que negam as Escrituras. A que podemos acrescentar o do maior Profeta da Lei da Graça. não dependente como eles das criaturas. mais perfeito e mais excelente domínio. o Cardeal Lugo. com poder de dispor delas a seu arbítrio. atque adeo tenporalis: tam vere et proprie quam Philippus 2dus temporis rex est Hispaniarum. quando disse: Regnum meum non est de hoc mundo. Tomás. dos quais este último já no ano de 1586. et unusquisque hominum dominus est suarum rerum. na Universidade de Salamanca. S. excitou e defendeu galhardamente esta questão nos termos seguintes. Navarro. Pois o domínio soberano. Os teólogos que isto assentam por conclusão é S. como ensina S. porque há-de ser menos decência em Deus Homem? Quando chamamos Império temporal ao de Cristo. como se pode ver nos lugares citados à margem. João Evangelista. Durando. seja o primeiro o testemunho das mesmas Escrituras alegadas. é um domínio soberano e supremo sobre todos os homens. Almaino e os três já nomeados Abulense. Salazar. no capítulo I. se eles não foram diante. e os vamos juntamente impugnando e desfazendo. onde era catedrático de Scoto. que é perfeição em Deus Deus (digamo-lo assim). Este é o sentido em que falam com pouca diferença de palavras todos os teólogos referidos. e os dois Mendonças insignes de Portugal e Castela. o Cardeal Hostiense.

como neste capítulo se irá vendo. sem sair das mesmas profecias e textos fundamentais desta história. sua e da Igreja. se se entenderem na sua significação própria e natural. filho de Josedec significa a dignidade suprema do Império de Cristo. que pertencia ao Império espiritual. 125 . deixou dito e publicado ao Mundo que seu Eterno Pai lhe tinha dado todo o poder no Céu e na Terra: Data est mihi omnis potestas in Cælo et in Terra. e nós mostraremos largamente no capítulo seguinte. já vimos que a coroação de Jesus.persuadir facilmente a qualquer entendimento fácil e dócil. Teve logo Cristo o império espiritual. ou ambas de prata. para . glória e autoridade. falando do Império de Cristo. que é o que com toda a propriedade se chama império na Terra. que é o que mais propriamente se chama império no Céu. e que eficazmente convence o sentido em que se deve tomar a mesma palavra. bem se segue que a pedra que os derrubou e desfez. que o Reino e o Sacerdócio em Cristo são dignidades e jurdições distintas. Logo. que maior prova se podia desejar que a da estátua de Nabuco. se é certo (como é de fé) que aqueles quatro metais significavam quatro impérios sucessivos. porque de outra maneira se não de dizer nem entender. pois se não segue de assim o entendermos inconveniente algum ou dissidência contra aquela grandeza e majestade de Cristo. Agostinho no Tratado XXII sobre S. antes muita honra. seguindo as regras do direito. que é uma tão grande parte desse todo. não mística senão literal. Finalmente. Porque o Reino espiritual de Cristo se distingue do Sacerdócio do mesmo Cristo. que é própria da pessoa de Cristo. nós. e impérios verdadeiramente temporais. para significar a diferença e preço daqueles dois impérios ou jurdições. tantas vezes celebrados e cantados pelos Profetas. A esta confirmação geral da significação da palavra Rei acrescenta o Padre Soares outra. que tivesse ou tenha Cristo todo o poder. dizem comumente os expositores que foi porque Cristo não teve uma só coroa. não só significa Império espiritual. e consta das Sagradas Escrituras. e outra como Supremo Rei. se o nome de Supremo Sacerdote significa o Reino e Império espiritual. quando respondermos a estas leves objeções da parte contrária. Estes são os textos mais eficazes e expressos com que os teólogos costumam provar a verdade do Império temporal de Cristo. senão quando. antes de subir ao Céu. E. senão uma de prata e outra de ouro. mas de lhe acrescentar com a nova luz deles nova evidência. senão duas: uma como Supremo Sacerdote. sem manifesta implicação. em que só podia haver dúvida. pois lhe faltaria nesse caso o poder temporal. tomado na propriedade e natureza de sua significação. nos obrigam a conceder e confessar que em toda sua propriedade significam Rei e Reino temporal. como prova S. João. E posto que baste cada um deles. começando pela profecia de Zacarias. e teve juntamente o império temporal. e porque uma delas foi de prata e outra de ouro? A razão. os mesmos nomes de Rei e Reino. se seguisse algum grande inconveniente ou absurdo contra a doutrina da mesma Escritura recebida pela Igreja. Agora pergunto porque foi coroado não com uma senão com duas coroas. que pertencia ao temporal. para maior demonstração da mesma verdade. E por isso não eram ambas de ouro. não só esperamos de a confirmar eficazmente na mesma certeza. E quanto ao império temporal. e que o império espiritual significado no ouro era mais alto.Anexo:Imprimir/ História do Futuro figurativo. nenhuma cousa exclui. E quem diz todo. mais precioso e mais sublime que o império temporal. o mesmo Cristo. segue-se que o de Supremo Rei significa o temporal. cujos metais desfez a pedra em pó e em cinza? Porque. figura do Reino e Império de Cristo.

Nem menos se confirma a mesma verdade com a segunda visão de Daniel (Daniel VII) na qual lemos que. pois vemos que reinou antigamente Cristo espiritualmente em todo o Império Romano. e esta oposição e contrariedade só se acha nos impérios temporais entre si. posto que seja espiritual e espiritualíssimo. cantando sobre sua loucura por boca da Igreja: Crudelis Herodes. E se nos lugares da Escritura alegados pelos autores da opinião contrária. e este o Reino e Império de Cristo. ignorância e engano de que sempre os fiéis notaram e motejaram a Herodes. como bem tem mostrado a experiência no mesmo Império espiritual de Cristo. no qual Império hão-de entrar e ser incorporados todos os reis e reinos do Mundo. para não admitirmos. para Deus dar o Império ao Filho do Homem. senão temporal! E tudo isto se verá mais claramente. o que não faz nem pode fazer o Império espiritual. assim a palavra rex e dominus significa rei e senhor também temporal. e todos os reinos temporais que dela nasceram. como melhor se entenderá pelo discurso de tudo o que diremos. porque nós não dizemos que o Reino e Império de Cristo 126 . como consta do mesmo texto de Daniel. o qual. de nenhum modo se enfraquece com este indício ou argumento a verdade da nossa sentença. como expressamente se colhe que o império de Cristo não é só espiritual. quando adiante explicarmos o tempo da ruína desta estátua e outras circunstâncias dela. parece que o domínio real de Cristo se limita e determina ordinariamente a fins e obras espirituais. de todos os reinos e de todas as repúblicas temporais. pelo qual se intitula com toda a propriedade Rex regnum et dominus dominantium. Finalmente. o império do Filho do Homem ou de Cristo naquela visão é o mesmo Império universal que hão-de ter os Cristãos na Terra. mandou primeiro queimar a quarta besta das vinte pontas. a que eles já estão sujeitos. Como se pode logo duvidar que este imenso e portentoso Império. não é ou há-de ser o Império espiritual de Cristo. senão o Império temporal. antes com ela se confirma e estabelece mais. não desfez os impérios e reinos dos príncipes temporais. arruínam e desfazem uns aos outros.Anexo:Imprimir/ História do Futuro senão também temporal. quanto mais se estabelecia e crescia a dos Imperadores. porque só impérios temporais se derrubam. e não entre o império espiritual e temporal. E este foi o erro. o que de nenhuma maneira era necessário se o Reino e Império de Cristo fora somente espiritual. e que rex e dominus têm uma significação e regnum e dominantium outra. Segue-se logo com evidência que o Império de Cristo. e não espirituais. que na mesma sentença e na mesma palavra se varia o sentido e suposição dela. ocupando e enchendo toda a Terra. que são impérios verdadeiramente temporais. crescendo e estabelecendo-se mais a grandeza e majestade da Igreja e dos Pontífices. antes de receberem a sujeição de Cristo. e nem por isso deixam de ter o mesmo domínio e soberania temporal que. em que era significado o Império Romano. é necessário que tenha oposição e contrariedade com ele acerca das mesmas cousas. e em outros que também lhes pudéramos ajuntar. depois de comunicado a seus vigários os Sumos Pontífices. antes ajudou muito e se ajudou de seus aumentos. tiveram. tão cantado e celebrado nos oráculos dos Profetas. Deum regem venire quid times? non eritit mortalia qui Regna dat cælestia? sendo pois certo que o Reino e Império de Cristo derrubou ou há-de derrubar todos os impérios do Mundo. que lhes há-de tirar essa soberania temporal. e reina também hoje espiritualmente em todos os reinos que do mesmo Império Romano nasceram e se dividiram. não haja de ser também temporal? Este é. Para um império derrubar e desfazer a outro. e assim como a palavra regnum e dominantium é sem dúvida que significa reis e senhores temporais. donde eles antes estiveram. composto de todos os impérios. com manifesta violência da Escritura e repugnância do entendimento. e conservam o nome de cristãos.

em que falavam do Império temporal de Cristo com termos Não menos expressos que os que se alegam pela parte contrária. non data possessio. como S. Bernardo. XXII. na Homilia VIII. S. recebidas entre os teólogos. senão que é espiritual e temporal juntamente. sed regni Cæsaris se non esse hostem ostendit. Desta razão. João. Cirilo. mas porque deste não quis ter exercício aquele Senhor que era juntamente Senhor e Mestre. tu curam ilius habe. como dizem as palavras tão repetidas do nosso texto. no Tratado XIV sobre o mesmo Evangelista: Erat quidem Rex non talis qualis ab hominibus fit. et dabo tibi gentes hæreditatem tuam et possessionem tuem terminos terræ?»Possessionem et dominium cede huic. explicando muitos deles com palavras menos latinas (por não dizer bárbaras) qual é a palavra temporal. se ordena ao fim último e sobrenatural da bem-aventurança. XVII.. quia -ejus regnum terrenum non est. E S. . para convidarem a todos a lerem de boa vontade e com gosto seus escritos. XXVI. damos por testemunhas os mesmos livros dos Padres. Ireneu. e os principais e maiores exemplos que nos quis deixar foram do desprezo dele. inculcadas e persuadidas as virtudes que pertencem ao Reino espiritual de Cristo.. não porque aqueles santos negassem à universalidade de seu Império o domínio temporal. v. Outras muitas sentenças semelhantes a estas se vêem em outros Santos Padres da mesma e maior antigüidade. sed talis ut homines reges faceret. S. Não próprio senão alheio:Alienum. senão ainda em quanto temporal. ceterarunque rerum omnium. que não só em quanto espiritual. S. diz assim: Regem se esse non negat. nam secundum potestatem in propria venit. e para que nos livros dos autores cristãos se não achasse menos a propriedade e majestade da eloquência que tanto se venera nos escritores gentios. E S. Lib. não porque os santos tivessem diferente parecer. como nos primeiros tempos da Igreja faziam aqueles santíssimos e doutíssimos Padres. Agostinho. Cui enim alteri dictum est: «Postula a me. distinta da união hipostática. Jerônimo. no Livro XII sobre S.Non tu ille de quo Propheta: «Et erit omnis terra possessio ejus?» Christus hic est. S. Vindo às autoridades (como dizem) dos Padres concedemos facilmente que são poucos os lugares de seus escritos em que se ache expressamente e em próprios termos o Reino temporal de Cristo. e outras cousas de igual importância e dignidade. como também se não acha o da graça santificante do mesmo Cristo. sobre os Evangelhos. Gregório. nos quais também se acharam freqüentemente louvadas. e 127 . dos quais porei aqui os que bastem a responder a estes e confirmar a verdade da nossa. pois esse Reino e não outro é o que há-de ser eterno e glorioso no Céu. mas porque em seu tempo não estavam em uso aqueles termos que depois inventou a Teologia. cap. et jure creaturæ et merito redemptionis et dono patris. qui possessionem sibi vindicat. e nisto se distingue dos reinos meramente políticos e humanos. e o de Cristo e dos Cristãos a do Céu. no Livro III De consideratione escrevendo ao Papa Eugénio: Dispensatio tibi super illum credita est. porque estes têm por fim a conservação e felicidade da Terra. para maior clareza da doutrina escolástica. non secundum potestatem sed secundum naturam. Dos quais termos se abstêm ainda hoje os que escrevem com estilo mais polido e levantado. Hilário sobre o Salmo II. E mais claramente que todos S. Não faltam contudo lugares muito ilustres aos Padres. V. IV. sobre Jeremias. e isto é ser império de Cristo e dos Cristãos. conhecendo e tendo pela maior excelência deste felicíssimo Reino. cap. ponderando o lugar do nascimento de Cristo. diz. explicando as palavras de Cristo: Regnum meum non est de hoc mundo. sed caeli et terra:. no Livro IV. Cipriano Adversus Judaeos cap. que é geral para muitas matérias.Anexo:Imprimir/ História do Futuro é espiritual.

não negando a Cristo Rei. cavalos. O mesmo S. cap. non enim istum neque alium quempiam circa se habuit ornatum. e este é o sentido próprio e germano em que Cristo disse a Pilatos: Regnum meum non est de hoc mundo. Onde se deve notar que não disse Cristo: Regnum meum non est hujus mundi. no Sermão I De nativitate Virginis: Quandoquidem Christus rex est qui natus est ex virgine idemque et Dominus et Deus. Senhora nossa. o império e domínio de todo o Mundo. criados. sobre S. quale mundi hujs reges habere conspicimus. et regira domina et deipara proprie et vere censetur. non cunas auro ostroque fulgentes.signum: Maria (diz) eo quod mater Dei est. senão quanto ao aparato. I: Virgo beatissima omnem hujus murdi meruit principatum et regnum. E S. não só quanto ao Reino espiritual e do Céu. senão quanto ao temporal e da Terra. ea propter et mater quæ eum genuit. Aos quais com razão podemos acrescentar todos aqueles autores antigos e modernos que. sicut Propheta testatur. e só não tinha os acidentes da vaidade e falsa grandeza com que se sustentam os outros reinos do Mundo. os primeiros interpretando erradamente as Escrituras. em que. grandeza e majestade exterior de rei temporal. Serm. 128 . o Império e Monarquia universal de Cristo. galas. XI. Como logo explicou na mesma razão que deu do que tinha dito: Si ex hoc mundo esset regnum meum.Anexo:Imprimir/ História do Futuro S. eosque despectabiles secum circumducendo. João Crisóstomo. dicens: «Domini est terra et plenitudo ejus. um lugar de S. Bernardino de Sena. coches. Lucas. por todos os Padres que pudéramos trazer em comprovação desta nossa advertência. não quanto ao poder.. sed vilem hanc prorsus vitam egit ac pauperem: duodecim tantummodo homines. Ambrósio no Livro III. quia filius ejus in primo instanti suæ conceptionis monarchiam totius promeruit et obtinuit uriversi. senão de hoc mundo. e os segundos fingindo as propriedades de Deus humanado conforme sua vaidade e apetite. império ou domínio. como dizíamos. diz assim elegantemente: Quonam pato magi ex stella illa Judaeorum regem illum esse didicerut.. Dos quais lugares todos e muito mais claramente destes últimos se mostra quão assentada cousa era. Atanásio. o qual os Judeus esperavam e os Gentios desejavam em Cristo. neque clypeatas ostendit militum catervas: non equos regalibus phaleris insignes. e não o império e domínio dele sobre todo o Mundo. Bernardo. E como a controvérsia e disputa daqueles tempos era contra este escândalo dos Judeus e contra esta estultícia dos Gentios. exércitos. a título de Mãe de Cristo. porque o Reino de Cristo verdadeiramente era deste Mundo e de todo o Mundo. regina cælorum et domina mundi jure esse probutur. falando do Rei que vieram adorar a Belém os reis e da diferença humilde de seu estado. E S. reconhecem e veneram na Virgem. E se alguns dos mesmos Santos Padres . Basta. Esse aparato e pompa exterior de riquezas. é o que os Santos negavam no Império de Cristo. cum certe non istius regni ille rex esset. ut non traderer Judæis. mas engrandecendo esse mesmo império pelo desprezo da pompa e aparato vão em que põem os reis da Terra sua grandeza e majestade. ministri utique mei decertarent. Neque enim hastas. deve-se advertir que falavam do Reino de Cristo. como gente costumada a fazer deuses à sua vontade. parece que diziam e ensinavam o contrário (como verdadeiramente parece). por isso é tão freqüente nos escritos dos Padres a diferença do seu Reino aos reinos do Mundo. orbis terrarum et universi qui habitant in eo». principal mente em livro s apologéticos ou tratados. palácios. no Sermão sobre as palavras do Apocalipse . Nihil quippe tale monstravit. no sentir comum dos Padres. e quão sem controvérsia. o domínio e império ainda temporal sobre todo e1e. no Tomo I. que são os nomes injuriosos ou gloriosos com que uns e outros afrontavam a cruz e humildade de Cristo.

nós veneramos nela a autoridade de David. in femore. O segundo título do Império de Cristo é por herança. que quer dizer salvador. falando também de Cristo: Quem haeredem universorum per quem fecit et sæcula. que significa a geração humana. o terceiro por doação. o sexto por eleição e aceitação de todos os homens. o segundo por herança. como eles dizem. e de outros grandes Padres que. escrito. porque. por não faltar ao costume de impugnar tudo. é Cristo Rei e universal Monarca do Mundo por natureza. E neste título convêm todos os teólogos acima alegados. como também no seguinte: . Por isso Cristo no Apocalipse trazia o título de Rex regnum e Dominus dominantium. e para que se veja manifestamente a debilidade deste fundamento e tragamos à nossa sentença os mesmos autores que em seguimento deles abraçam a contrária. Agostinho e S. e não o de Cristo. como diz o texto. para mostrar que o ser rei de todos os reis e senhor de todos os senhores lhe convinha e era seu por sua própria natureza. e por ela fica constituído. São estes títulos seis. Livro II. E por isso o nome que lhe puseram na circuncisão foi de Jesus. Primeiramente. o quarto por compra. Assim o disse o mesmo Deus por boca do Profeta Rei: Postula a me et dabo tibi gentes hæreditatem tuam et possessionem tuam terminos terræ. conforme o texto de S. mas ungido por natureza. Porei suas palavras no capítulo seguinte pelas não repetir duas vezes. de todos os reinos e de todos os impérios do Mundo. E o mesmo Cristo. como iremos mostrando pela mesma ordem. com a maior brevidade que nos for possível. E posto que Arriaga. a quem geralmente seguiram todos os que depois dele escreveram. Este é o único fundamento do Padre Vasques. Paulo — quod si filius et haeres — lhe pertence a Cristo o título de herdeiro do domínio e império universal do Mundo. assim a união hipostática em Cristo foi uma verdadeira e própria unção com que juntamente com o ser e a natureza recebeu o poder e a Monarquia do Mundo. sendo Cristo filho natural de Deus. é por não haver título. E S. oleo laetitiae pre consortibus tuis e a explicação de S. ou por ser quem era. venite et occidamus eum. porque o ser ungido por Rei e universal Monarca do Mundo não lhe pertencia por imposição divina ou humana. Deus tuus. todos legítimos e conforme o direito: o primeiro por natureza. senão também temporal de todo o Mundo. assim o entenderam. não só espiritual. que quer dizer ungido. de que Deus é absoluto Senhor. apontaremos e provaremos aqui. senão por natureza própria sua. apontam-se os títulos e razões do Reino temporal de Cristo O principal fundamento dos que não admitem no Reino de Cristo o império e domínio temporal.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 129 História do Futuro (Volume II. Capítulo VI) por Padre Antônio Vieira Prossegue a mesma matéria. Do qual Vasques diz Salazar que foi o primeiro a quem a Teologia deve os sólidos e verdadeiros princípios em que fundou o Império temporal de Cristo. porque por meio da união da divindade à humanidade. ao qual compita e seja devido aquele domínio. Salvador por obediência. que assim o disse no Salmo XLIV: Unxit te Deus. ou por ela (sem ninguém o constituir) é Rei e Senhor e Monarca supremo de todos os reis. da parte de Deus nem da parte dos homens. o quinto por guerra justa. sem algum outro concurso ou condição extrínseca. os títulos por que é devido e compete a Cristo em quanto homem o Império e domínio supremo. na parábola da vinha: Hic est hæres. E assim como antigamente se faziam ou consagravam os reis pelo óleo que eram ungidos. Paulo. não reconheceu na unção da união hipostática mais que a propriedade e energia da metáfora. Gregório Nasianzeno. a qual se inclui essencialmente na natureza de Cristo. pertence ao mesmo Cristo em quanto homem o domínio e império universal de tudo o criado.

como acima dizíamos. como agora mostrarei.. Assim o tem a comum sentença de todos os juristas teólogos. quando querem viver juntos e politicamente. sed si cuiquam maxime competiit Christo. Contudo digo que não faltou ao Império e Monarquia universal de Cristo este último título do consentimento e aceitação universal dos homens.. os quais têm para si que Cristo foi legitimo Rei do Reino de Israel. pôs Deus. Nec Pilato (diz este autor) nec Caesari ullum legitimum jus in regnum Judaeorum. à qual é necessário abrir os alicerces e lançar os primeiros e sólidos fundamentos. aceitação e como eleição de todas as nações do Mundo. o de doação. Paulo de Cristo. o título em que funda este direito é o consentimento. E no capítulo. prometido aos primeiros Patriarcas da sua nação. prometendo aos que fizerem esta detença não perderão o fruto do tempo que nela gastarem. antes. capítulo III. O título da compra. Alberto Pighio (para que de todo não entremos neste novo caminho sem alguma guia) no Livro V da Hierarchia Ecclesiastica. que é o quarto. Mas em Cristo parece que não pode ter 1ugar este título porque. aceitação e expectação geral. eleição ou aceitação. O Anjo à Senhora. assim no Velho como no Novo Testamento.. em que se refere como os Judeus por consentimento comum elegeram por seu príncipe Simão e seus descendentes com a cláusula. no capítulo III: Sciens quia omnia dedit ei pater in manus. mas ao primeiro domínio se segue necessária e naturalmente o segundo. e de grande glória não só de Cristo mas nossa. verdadeiro Messias.: Data est mihi omnis potestas in cælo et in terra.: Omnia mihi tradita sunt a Patre meo. com que Cristo. E é conclusão certa na teologia. sendo o Monarca universal de todo o Mundo e de todos os homens. Aristóteles no Livro III das Políticas. comprados com o preço de seu sangue: empti enim estis pretio magno: O sexto e último título do Império de Cristo dizíamos que era por consentimento.] 130 . como dizem alguns teólogos.. O mesmo Cristo no capítulo. traz o mesmo Alberto Pighio a história do Livro I dos Macabeus.Anexo:Imprimir/ História do Futuro É o terceiro título. S. parece que cai mais imediatamente sobre os homens que sobre o Mundo. no Salmo pouco antes alegado: Dabo tibi gentes hæreditatem tuam.. como autor da natureza. Lucas: Dabit illi dominus Deus sedem David patris ejus et regnabit in domo Jacob. Capítulo XIV. E para . Este título é o mais natural e jurídico entre os homens. a cujo Reino e direito não queriam prejudicar. quem semper expectaverunt sibi regem f ore in lege promissum. o qual se acha mais expresso que todos. no I capítulo da Epístola aos Hebreus. não é possível havê-lo. no capítulo II de S. e no salmo.prova desta geral aceitação e consentimento com que todo o povo hebreu tinha recebido por seu Rei ao prometido Messias. assim como o que é senhor do escravo fica juntamente sendo de todos os seus bens.. as quais palavras entende S. João. que pelo título da Redenção não só ficamos vassalos deste soberaníssimo Monarca. senão verdadeiramente escravos seus. e Platão no Diálogo de Regno e nos livros — De republica. e este consentimento comum nunca jamais o houve no Mundo. por lume natural. Judæi (diz o texto) consenserunt eum Simonem esse ducem suum [. em cujas comunidades. pois verão por grandes notícias e não vulgares da Antigüidade quão certa e concertadamente concorre a novidade e verdade desta nossa consideração ao maior estabelecimento do Reino de Cristo. era esperado de todo aquele povo como seu verdadeiro Rei e Senhor. porém. por ser pensamento novo e matéria até agora não tratada.. e o alcançaram e ensinaram antes deles. arrostando a opinião de muitos e graves autores. o poder e jurdição suprema de eleger e nomear príncipe. E peço licença aos que quiserem ler este discurso para meditar um pouco mais nele.: Omni subjecisti sub pedibus ejus. que o seriam somente até que viesse o Messias.. era necessário que os mesmos homens conviessem todos este consentimento.

O primeiro é do capítulo penúltimo do Gênesis. nam cum ardentissime Messiam expectarent. et ipse erit expectatio gentium: «Não faltará o cetro de Judá nem príncipe de sua descendência até que venha o que há-de ser mandado. porque assim o explicou S. como consta da História Sagrada. assim como em respeito do Reino de Israel. ideo pblico totius gentis decreto in ipsum sua suffragia conjecerant et in regem elegerant.Anexo:Imprimir/ História do Futuro in aeternum. Nem impede ou encontra a verdade ou legitimidade deste título o ser o mesmo Rei Cristo primeiro eleito. referindo-se a Pighio) alio titulo Christi regnum ab aduersariis vindicant. nam dicunt ex consensu et quasi electione populi judaici Christum fuisse illius gentis regem. E que em todos os homens e nações do Mundo houvesse geralmente o mesmo consentimento comum. que é o ponto e suposição em que fundamos este novo título.. entenderam também sempre todos os Hebreus. o mesmo desejo e a mesma espectação. como logo mostraremos. quod illi adventanti legitimo jure deberi significaverunt.» E o Profeta Ageu. no qual. na bênção que lançou Jacob a seu filho Juda. donec surgat propheta fidelis. aclamados e cada um deles ungido pelo mesmo povo. e este será a espectação das gentes. Paulo na Epistola aos Hebreus. assim concorreu e concorre o mesmo título no Reino e Monarquia universal de Cristo. e depois novamente aceitos. e antes da vinda de Cristo. Alonço de Mendoça acima citado. Sobre as quais palavras conclui assim o dito autor: Vides omnium Judeorum votis et expectatione semper expectatum Christum et Messiam in lege promissum. nos quais houve o mesmo consentimento comum. e o mesmo desejo. espectação e como eleição com que todo o povo judaico tinha aceitado como seu verdadeiro Rei o futuro Messias.ego commovebo caelum et terram et mare et aridam. desejo e consentimento comum com que era esperado de todos por seu legítimo. supremo e verdadeiro Rei. falando do Messias prometido. no. em respeito de todo o Mundo e de todos os homens e nações dele. et movebo omnes gentes. donec veniat qui mittendus est. deixados outros muitos textos de menor clareza. capítulo II. De toda esta sentença assim entendida me não serve mais que o exemplo e o modo de dizer ou filosofar.. no I e II Livro dos Reis. pela espectação. capítulo XII): . os quais por primeiro foram ungidos pelo Profeta Samuel por mandado de Deus. como entendem uniformemente todos os autores católicos. velut expresse protestantes in ejus praejudcium et injuriam nihl se velle facere. porque não pareça a acomodação da dita sentença levada de algum modo por nós ao intento em que nos serve: Alii (diz Mendoça. et tenacissime crederent regem itsum futurum temporalem. apontarei somente dois. De maneira que o título com que tão grande teólogo e jurista defende o direito de Cristo ao Reino de Israel é aquele geral consentimento. e a mesma espectação acerca do Reino e Monarquia universal de Cristo sobre todos eles. porque todas estas circunstâncias e condições concorrem no exemplo alegado (o qual não é semelhante se não o mesmo) e o mesmo temos nas eleições dos dois primeiros reis de Israel. concorreu ou pode concorrer em Cristo o título da aceitação e como eleição geral daquele povo. Assim explica em próprios termos esta sentença de Alberto Pighio. nam ad ejus usque aduentum Simoni atque e jus posteritati regnum stabilierunt. ungido. e como tal o esperava. regem sibi fore. que se não podiam desejar nem ainda fingir mais expressos. Saul e Daniel. diz assim: Non auferetur sceptrum de Juda et dux de femore ejus. cujas palavras quero também referir aqui. e digo que. falando da mesma vinda de Cristo (como é de fé que falava. prometido e dado por Deus. et veniet desideratus cunctis 131 .

porque todos o esperavam por seu Rei e natural Senhor. há variedade entre os Doutores. e quando somente estava profetizado e prometido já às nações do Universo. o que se não verifica sem grande impropriedade nos reis da Arábia e Sabeia com respeito da Palestina. Porque aquelas palavras reges Tharsis et insule. o vinham adorar e reconhecer. ao menos não enchem o sentido de suas palavras. É tão forçoso e ao parecer tão evidente este argumento que. o mar e todo o Mundo. não só era Ele o desejado e esperado do povo de Israel. e moverei todas as gentes e virá o desejado de todas elas» De sorte que. as três partes do Mundo até aquele tempo conhecido) sendo gentios. S. pois antes de Cristo vir ao Mundo. Pois se eram reis gentios.muito menos todas elas. 132 . Daqui a um pouco (diz Deus) «moverei o céu e a terra. e verdadeiramente da nossa Índia Oriental. senão por Monarquia universal de todas as outras nações e reinos do Mundo. De sorte que antes de Cristo nascer e aparecer no Mundo. senão as dos gentios a tinham aceitado e querido. nem a fé ou a esperança de que havia de vir se tinha anuncia do ou manifestado às nações dos Gentios. e argüir contra esta nossa suposição (como argüiu S. e de nenhum modo sujeitos ao domínio da república hebréia. outros da Média. senão o esperado e desejado de todos os povos e de todas as gentes. e render-lhe a devida obediência e vassalagem: debitam ei seu vero eorum regi et domino prestantes obedientiam. e por isso como o Rei verdadeiro e Senhor universal de todos os reinos e de todas as nações do Mundo. e por isso como a rei verdadeiramente seu. esperassem e desejassem o Messias antes da sua vinda. Monarca e Senhor universal de todos os reinos e de todas as nações. conforme profecia de David: Reges Tharsis et insula numera offerent. reges Arabum et Saba dona adducent. não só a hebréia. Jerônimo quer que fossem da Arábia Feliz. e . vieram adorar Cristo e oferecer-lhe tributos. e como tal o esperavam todos. Sobre a nação daqueles reis. Agostinho contra este último texto) que não podia ser que as nações dos Gentios. outros os fazem da Pérsia. conforme a significação mais recebida. querem dizer reis ultramarinos. as quais. Só vejo que podem reparar com muita razão os doutos.Anexo:Imprimir/ História do Futuro gentibus. vencidos da força dele os maiores intérpretes da Escritura. outros da Etiópia. e se eram só de uma ou de diferentes nações. Mas de qualquer modo que seja. que razão ou motivo tiveram para vir adorar um menino que eles mesmo conheciam e diziam que era Rei dos Judeus? Ubi est qui natus est rex Judaeorum? A razão e motivo que tiveram foi (como bem notou Almaino) porque sabiam e criam que aquele rei dos Judeus novamente nascido não era rei particular (como os outros reis hebreus) de uma só nação ou de um só reino. e era desejada de todos a sua vinda: Ipse erit expectatio gentium. o certo e sem controvérsia é que todos eram reis gentios. porque aquele erit expectatio gentium e aquele veniet desideratus cunctis gentibus verdadeiramente significam própria espectação e próprio desejo. veniet desideratus cunctis gentibus. Esta é a razão e o mistério por que os três reis do Oriente (em que se representavam. Eu tenho por mais provável que ao menos parte deles eram de regiões mais distantes. senão Rei. senão somente aos Hebreus. e por certo modo de eleição segunda e humana escolhido depois de Deus para seu futuro Rei e Senhor. como diz a glossa. e não só por Rei particular dos Judeus. com que as nações dos Gentios todas (geral e moralmente falando) ao menos algum tempo esperassem e desejassem a vinda do prometido e futuro Rei. quando não façam alguma violência aos mesmos textos. antes de Cristo vir ao Mundo. excogitavam aos dois textos referidos as explicações que neles se podem ver.

Cipriano. chamado o Imperfeito. e da nova estrela que havia de anunciar o seu nascimento. enquanto se conservou unido. o qual se conservava em uma nação das últimas partes do Oriente. Mateus. junto ao mar Oceano. S. O primeiro meio é a tradição continuada desde Adão até Noé. também com elas se espalhou pelo mesmo Mundo aquela noticia e esperança recebida de seus antepassados. Ambrósio. erant isti de genere Noe. Esta é a opinião comum dos Padres. quae per generationes studiorum hominum patribus referentibus filiis suis habebatur deducta. E posto que não tem por certo aquele livro. que os Judeus esperavam. Cam e Jafet foram os segundos povoadores do gênero humano. Sem. Teofilato. e assim digo se devem entender ambas em toda a capacidade do seu sentido próprio e natural. o qual. Até aqui este autor. conta haver ouvido de certo livro escrito com o nome do mesmo Set. e que neste livro estava descrita a aparição futura daquela estrela. que o nome com que vulgarmente chamavam ao Messias era o Esperado. Pedro Crisólogo. II. S. sobre S. João Crisóstomo.S. e os mesmos Gentios com os Judeus. an alium expectatamus? 133 . de apparitura hac stella. sed potius delectante.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Assim é e assim foi. declarando o meio por onde os magos puderam entender que a estrela significava o Messias e que este havia de nascer na Judéia. por ser de tão duvidosa antiguidade. porém. e que só refere a fama. Este discurso é tão natural que não havia mister autor. e os dons que se haviam levar e oferecer ao Rei nascido que ela significava. diz que tinham aprendido e sabido assim por doutrina e tradição de seus maiores. continuou também unida a mesma tradição. no Sermão 157. S. quando perguntavam a Cristo: Tu es qui venturus es. Non chaldea arte. sed de prisca sanctorum traditione majorum. E para que se veja que não era cousa impossível nem dificultosa ser a vinda do Messias desejada e esperada geralmente de todas as nações gentílicas. como se vê nos termos que falaram os discípulos ou embaixadores do Baptista. quoniam erat quaedam gens sita in ipso principio Orientis juxta Oceanum. et si non certa tamen non destruente fidem. apud quos ferebutur quaedam scriptura. e se começaram novas nações. Eutímio. Mas temos para maior confirmação dele o testemunho de S. derivada desde Noé. Basílio. Tomás e S. ver em Orígenes. pois é certo que com a mudança das línguas não perderam os homens a memória nem a ciência. Jerônimo. que entre os Gentios se conservava. S. cujas palavras citaremos depois. mostrarei aqui os modos e os meios mais prováveis e certos por onde o conhecimento e esperança do futuro Messias não só podia chegar. não nega. S. o qual querem muitos que seja S. Máximo. Audivi aliquos (diz ele) referentes de quadam scriptura. Gregório Nasianzeno. mas com efeito chegou. antes aprova a tradição do futuro Messias. S. e assim se cumpriu uma e outra profecia. e referindo-se aos tempos de Set. como se pode. et muneribus ei hujusmodi offerendis. E o autor do Imperfeito na humildade. foi a grande comunicação que em todas as partes do Mundo tiveram sempre com os mesmos Gentios. Leão Papa. cujos três filhos. Procópio. e depois que na Torre de Babel se dividiram os homens e as línguas. O outro meio por onde os Gentios puderam vir em conhecimento da vinda e império universal do Messias. entre os quais era tão vulgar e celebrada aquela esperança. Anselmo. tomando esta tradição mais perto da fonte. ou a todas ou a quase todas as nações de todo o que naquele tempo se chamava Mundo. . que encheram o Mundo. depois de Abel. ou o que há-de vir. e que todas estas notícias se tinham conservado entre os doutos e estudiosos daquela gente por tradição de pais a filhos. por deixar imperfeita e não acabada a obra que comeu. no qual. irscripta nomine Seth. filho terceiro de Adão. etc.

homens de todas as línguas. e em sinal da mesma fé introduziu em todo ele a circuncisão. em ti homens negros. quando menos. como são os asiáticos. que seria no tempo de seu filho Salomão. Memor ero Rahab. Ecce alienigenæ et Tyrus et populus AEthiopum hi fuerunt illic. e que a maior maravilha que levavam para contar em suas terras os que tinham ouvido aquele famoso oráculo era que. pois só no dia de Pentecoste. ao som daquele trovão do céu. como são os de Etiópia. e o que sobretudo te faz gloriosa. que isso quer dizer homo et homo. Medos. em ti os da Europa. e se conformam com o exemplo da Rainha de Sabá. homens de todas as nações e partes do Mundo. mas também as passeiam os príncipes — populorum et principum! Mas o que sobretudo é digno de maior memória. cap. depois de ouvir a Salomão. Numquid Sion dicet: Homo et homo natus est in ea. sendo tão admirável a sabedoria e grandeza de Salomão. como são tantos outros estrangeiros. Persas. E quem poderá duvidar que um dos principais mistérios que Salomão ensinava naquela cadeira universal do Mundo era o da fé e esperança do futuro Messias. porque conhecem a Cristo. E se no tempo de David era tão freqüentada a cidade de Jerusalém de todas as nações do Mundo. como os Etíopes. que por isso se chamava Umbellicus terrae. Mesopotamios. não só freqüentam tuas ruas os do povo. et ipse fundavit eam Altissimus? Dominus narrabit in scripturis populorum et principum. dezessete gêneros de homens de línguas e nações diferentes — Partos.. Que gloriosas cousas se contam de ti (diz David) e se escrevem nas escrituras de todos os povos. diz o Texto Sagrado no III Livro dos Reis. bastava um só do nosso para abundantíssima prova das muitas nações de Gentios que vinham ordinariamente e residiam em Jerusalém. e muito mais a segunda. que é mais. Pontos. ó cidade de Deus! Em ti se acham todas as diferenças de homens. 134 . em ti se acham todos os homens de África. e de todas estas gentes. que era uma protestação pública dos que a professavam. aprendem o que dantes ignoravam.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Era Jerusalém antigamente a mais formosa cidade e o maior império do Mundo situado no meio de todo ele. depois de edificado o templo. se o mesmo Salomão não fora maior maravilha! Para ver e ouvir estas duas maravilhas. homens de todas as cores. ó cidade santa. filho e descendente seu. foi a primeira que pregou nesta fé e esperança do Messias no seu Império de Etiópia. como dizem comumente todos os intérpretes. é que todos estes. IV. soubemos que acudiram ao convento e ouviram a primeira pregação de S. horum qui ferunt in ea. Isto é o que tanto celebrava David naquela cidade em cuja fundação e formosura tinha ele tão grande parte: Glorosa dicta sunt de te. Mas quando nos faltavam estes testemunhos do Testamento Velho. que vinham de todos os povos e de todos os reis da Terra a Jerusalém pessoas enviadas por eles (que é certo seriam os maiores sábios dos mesmos povos e reinos) os quais. Este é o sentido literal das palavras scientium me. vindo a ti. que. primeira maravilha do mesmo Mundo. et ab universis regibus terræ qui audiebant sapientiam ejus. porque o mesmo Cristo é o que falava neste Salmo por boca de David. Panfílios. Asianos. em ti se vêem homens brancos. Judeus. Et veniebant de cunctis populis ad audiendam sapientiam Salomonis. ainda havia de ter o mesmo Salomão um descendente que fosse mais sábio e maior que ele. plusquam Salamone! Assim o dizem expressamente neste lugar . civitas Dei. como os Tírios. depois de ouvirem e admirarem em presença a sabedoria de Salomão. como são os de Babilônia.. Frígios. em ti os da Ásia. Elamitas. Capadoces. e como tal concorriam a ela de todas as partes infinitas gentes de todas as nações e ainda de todas as cores. iam contar e ensinar a suas terras e príncipes o que dele tinham ouvido e aprendido. et Babylonis scientium me. Pedro. e sabem o que dantes não sabiam. em ti homens de todas as outras cores meãs.

quando isto aconteceu. Africanos. de pazes. et senes ejus prudentiam doceret. a Jacob em Mesopotâmia. quæ est circa Cyrenen. se não fundasse tanto no receio de sua multidão que no medo de suas profecias. Ajuntou depois disto a fome em Egito os doze irmãos. onde tivesse por ouvintes todos os príncipes e sábios egiptianos: Ut erudiret principes ejus sicut semetipsum. que passaram entre as quatro nações imperantes e o reino ou povo hebreu. que foi em Abraão. et qui habitant Mesopotamiam. Isaac e Jacob a vinda do Messias. onde permaneceram até verem o cumprimento delas em Cristo. e que aí por mandado do rei. entraram livres. Arabes e outros convertidos das gentilidades. de guerras. já a. e algumas vezes mais estreita do que quiseram. que seria nos tempos passados? Mas se importou muito para se estender a notícia do Messias por todo o Mundo a comunicação que os Gentios tinham com os Judeus em suas próprias terras. Cirenos. E porque ao numero dos três Evangelhos não faltasse o primeiro. pusesse escola de sua sabedoria. dos Gregos e dos Romanos. de confederações. II dos Atos dos Apóstolos) audivimus unusquisqe linguam nostram in qua nati sumus? Parthi et Medi. Judaeam et Cappadociam. e já pode ser que a crueldade de Faraó. e com todas elas tiveram grande comunicação os Hebreus. ou como três evangelistas que anunciassem às gentes a boa nova da mercê grande que Deus tinha . Cretenses. prometendo-lhes que em sua descendência seriam abençoadas todas as nações do Mundo: Benedicentur in semine tuo omnes gentes terrae. cidade de Jerusalém e o povo e república dos Hebreus estava quase arruinada. de entradas. Com os Assírios 135 . a Isaac em Gerara. primeiro tronco e pai de toda ela. Revelou Deus por três vezes sucessivamente a Abraão. et AEgyptum et partes Liyæ. Romanos. et de regno ad populum alterum. enfim. As maravilhas que depois viram nos Egípcios é certo que acrescentariam fé às esperanças dos Hebreus. permitiu a mesma Providência que por extraordinários caminhos fosse José levado ao Egito. como a de Herodes. Cretes et Arabes. e no mesmo tempo pôs a Providência divina aqueles três Patriarcas em diferentes nações e províncias: a Abraão em Canaã. à Terra de Promissão. que senhoreavam o Mundo. e não conservava a quarta parte da grandeza a que nos tempos de sua maior opulência tinha chegado. que chamavam com nome geral prosélitos. Todas as histórias sagradas estão cheias de embaixadas. como diz David. Pontum et Asiam. para que fossem três pregadores daquele primeiro Evangelho. continuaram cativos. desde que nasceu e começou no Mundo a nação hebréia. assim como hoje os judeus convertidos à Fé de Cristo se chamam cristãos-novos . que quer dizer novos. et advene Romani. como notou o mesmo Profeta: Et pertransierunt de gente in gentem. Phrygiam et Pamphiliam. muito mais ajudou e adiantou a mesma notícia a muito maior comunicação e freqüência que os mesmos Judeus tinham e continuaram sempre nas terras dos Gentios. et AElamitæ. Passados. Judaei quoque et proselyti. audivimus eos loquentes nostris linguis magnalia Dei. E se agora era tão freqüentada de nações estrangeiras. Mas no tempo daquele comprido cativeiro Não havia casa no Egito em que o cativo não fosse mestre do senhor. Assim trouxe Deus naquele tempo pelo Mundo estas quatro testemunhas de suas promessas de reino em reino e de nação em nação. dos Persas. filhos de Jacob e cabeças dos tribos.prometido fazer a todas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Egipcios. de presentes e de outros tratos e correspondências políticas. porventura até aquele tempo mal cridas. saíram vencedores. Et quomodo nos ( diziam todos estes no cap. Onde se deve muito advertir que. concorreram e floresceram no mesmo tempo os quatro impérios ou monarquias dos Assírios.

e foi assim que de doze netos de Abraão se formaram os tribos e destes cresceu e se multiplicou a mais numerosa nação que jamais houve no Mundo de um só sangue. com os Romanos. que estavam bem no coração de toda a Ásia.Anexo:Imprimir/ História do Futuro notemos de Ezequias. Severo Sulpício e outros autores latinos e hebreus. de Simão e Jónatas. de Judas Macabeu. Assim lemos no cap. crescendo e multiplicando-se a nação hebréia. com que eram levados e transmigrados a terras e regiões estranhas cousa poucas vezes vista em nações inteiras. mas com todas as nações do Mundo. se espalhasse e estendesse por todas as nações do Mundo. em tempo do Sumo Sacerdote Jado. quae erat Jerosolymis. como lemos nos mesmos Livros dos Macabeus. Com o mesmo fim ordenou a sabedoria e justiça divina que os maiores e mais gerais castigos daquela nação fossem desterros e cativeiros. por este meio tão natural e ao parecer não pretendido. que muitos deles se dividiram por todas as terras orientais 136 . que Deus deu e repartiu aos doze tribos para sua habitação foi a terra chamada de Promissão. com Nabucodonosor e com Baltasar. como consta das mesmas capitulações feitas entre uma e outra nação. de que já dissemos. que concorreram com Alexandre Magno. como consta do I e II Livro de Esdras e da História de Ester. A primeira foi dar-lhes muitos filhos e pouca terra. escritas em tábuas de bronze. com os dois Antíocos. que concorreram com Ciro. de Oseas. em tempo de Judas Macabeu. E a razão desta providência foi para que. não falando no do Egito. de Joaquim e do sacerdote Eliacim. com Dario e com Assuero. e levasse a elas a primeira luz da fé de Deus e da esperança de Cristo: e este é o mistério ou a energia de primeiro se haverem de multiplicar como pó e depois como estrelas. cuja largura e comprimento. com Salmanasar. E notam comumente os Padres e expositores que ordenou ou permitiu a Providência divina este desterro ou dispersão geral de todos os cristãos de Jerusalém pelas cidades e lugares daquelas províncias. como adiante largamente contaremos. foi o de Salmanasar. é certo. não chegava a oitenta léguas da nossa medida. Heliodoro. como escreve Paulo Orósio. A terra. de Simão e Jónatas. gue concorreram com Berodac. no qual foram levados os dez tribos desde Judéia até as terras dos Medos e dos Assírios. de Acáz. por ocasião da qual se dividiram e espalharam os Cristãos por todas as regiões e terras de Judéia e Samaria: Facta est in illa die persecutio magna in ecclesia. Com os Persas. se plantasse nelas a Fé e depois. de Zorobadel. mandadas pelos Romanos à Judéia. Ptolemeu e Trifon. como consta do IV Livro dos Reis e da história de Judite. ficasse tão crescida e arreigada. para que o alumiassem no meio das trevas em que todo estava. no tempo de El-Rei Oseas . e posto que o maior corpo daquela gente teve o sucesso que depois se verá. concorrendo Deus para este fim com disposições de mui particular providência. com Demétrio. Prometeu Deus a Abraão que multiplicaria sua descendência como o pó da terra e como as estrelas do céu. como consta do I e II Livro dos Macabeus. Finalmente. Com os Gregos. com Ful. et omnes dispersi sunt per regiones Judae et Samariae:. E não só com estes quatro estendidíssimos impérios. e não cabendo nos estreitos limites da sua própria terra. de Esdras. para que. para que por este meio ficassem castigados os Judeus. que concorreram com diversos cônsules de Roma. de Matatias. O primeiro e principal desterro e cativeiro. de Neemias. VIII dos Atos dos Apóstolos que se levantou uma grande perseguição na igreja de Jerusalém. em tempo de Jeconias. tiveram muito particular trato e comunicação os Judeus. juntamente com eles assim espalhados ou semeados por aquelas terras. de que se nomeia na Escritura Sagrada somente Lúcio. porém. tomada em sua maior extensão. e juntamente instruídos e alumiados os Gentios.

se achavam judeus daquela transmigração com todos os sinais dela. Nem se deve passar em silêncio a cobiça natural dos Judeus. que professavam.. Nos autem (diz o edicto) a pessimo mortalium Judaeos neci destinatos. e nos mesmos imperadores supremos. in nulla penitus culpa reperimus. sendo aquele império dividido em 127 províncias. em tempo de El-Rei Joaquim. Assim saíam de Judéia os mercadores. e levados a Babilônia. que por malícia e vingança de um mau e soberbo privado — Aman — contra a mesma nação se tinha mandado executar. onde os mesmos Hebreus estavam cativos. se vê claramente quão grande fruto faziam com sua presença nas terras onde estavam cativos e desterrados. as drogas do Céu entre as mercadorias da Terra. Princeps autem regni Persarum restitit mihi viginti et uno diebus. que falava com o Profeta Daniel (como se lê no cap. Desta inclinação dos Judeus se serviu a Providência divina para os levar suavemente às terras e regiões mais remotas. cujus beneficio et patribus nostris et nobis regnum est traditum. em todas elas e em todas suas cidades estavam espalhados os Judeus. E aqui se entenderá o mistério com que um dos anjos custódios da nação hebréia. e nos fardos de mercadoria que levavam. metendo-lhes em casa.] sed alieno. com que mandou revogar a sentença de morte. comprando e vendendo. era o grande proveito espiritual que os gentios persas conseguiam com a presença e comunicação dos Judeus. onde em nossos tempos depois de 2300 anos. XVI do Livro de Estér. e com tão pouco cabedal como uma escudela de lentilhas soube adquirir por indústria o que lhe tinha negado a natureza. E destes temos o testemunho da Sagrada Escritura no cap. Não só entre a gente popular mas nos maiores ministros e príncipes. como escreve o Padre Trigantio nas suas Relações da China. como filhos alfim daquele pai que. sed e contrario justis utentes legibus.. Nas quais palavras. lhe deu por causa da dilação daquele despacho a resistência que fizera por muitos dias diante de Deus o Anjo Custódio do reino dos Persas. e os introduzir e misturar com todas as nações. e levava nele o trigo e mais o cálix de José. metia também a sua o Salvador do Mundo. Cuidava Benjamim que só levava trigo no seu saco. cheias todas de fé. e com eles a fé do verdadeiro Deus. E já pode ser (se o pensamento me não engana) que fosse este o intento de Deus naquela lei do cap. e fazer-se patrão e senhor do maior morgado do Mundo. e o gênio indústria e inclinação tão particular que teve sempre esta nação ao comércio e mercancia. na qual se permitia (posto que não se justificava) para com as nações estrangeiras. et usque hodie custoditur.Anexo:Imprimir/ História do Futuro daquela vastíssima parte do Mundo. sem uns nem outros o pretenderem. penetrando até as províncias de que então nem muitos anos depois houve notícia. ou desejo de adquirir riquezas. XXIII do Deuteronômio: Non fænerabis fratri tuo ad usuram [. et filios altissimi et maximi semperque viventis Dei. O segundo foi no tempo de Nabucodonosor. que era esse o nome de José no Egito: Vocabit eum lingua egyptiaca Salvatorem Mundi. em que os dois tribos que haviam ficado foram também cativos. fez sua fortuna. 137 . E a razão desta resistência. que. X de suas visões). como se vê nas palavras do edicto de El-Rei Assuero ou Artaxerxes. orando ele apertadamente pela liberdade do povo. como neste lugar notam todos os expositores modernos. pela fé e conhecimento das cousas divinas que de sua conversação e doutrina (ainda sem particular estudo) se lhes pregavam. de que é bom exemplo a China. conhecimento. qual era Assuero ou Artaxerxes que firmou aquele edicto. que era droga naquele tempo que só nascia em Judéia. honra e sujeição ao verdadeiro Deus que os Judeus adoravam. para que esta maior liberdade ou impunidade de adquirir ou multiplicar fazenda fora de sua pátria os convidasse a sair dela e os arrebatasse voluntariamente às terras estranhas onde com eles se transplantasse a verdadeira fé.

as verdades do Evangelho. no Livro XI de suas Antiguidades. e o comércio leva os pregadores. e Eneias levava às costas a Anquises. porque era santa aquela terra. para que a Fé tivesse lugar como mercadoria. na Pérsia. diz que a maior parte de todas as ilhas e terras firmes maritimas e mediterraneas da Asia. que era a Fé e conhecimento de Deus. quando quer passar a religião de um reino a outros. diz que a nação hebréia tinha cheia toda a redondeza da Terra: orbem terrarum replevit. Assim entravam os negociantes hebreus em Judéia ricos e acrescentados com as drogas mais preciosas de todo o Mundo. que muito mais ricas iam do que voltavam. Assim começou Deus a espalhar o conhecimento de sua Fé pelo Mundo. e o segundo Apóstolo do Oriente. da África e da Europa eram habitadas de Judeus: Itaque si exorat mea Patria tuam clementiam præpter ipsam. tomando de nós o que tínhamos na Terra. Quando os deuses de Tróia passaram a Itália. como muitos querem. os sacramentos. E em quantas províncias achou o Evangelho fechadas as portas e. como direitos ou gabelas daquela mercadoria? Não me atreverei a o afirmar assim. houve de caminhar (como é tradição) por cima das ondas. Asia. ou fosse Ofir a Índia. os desterros e a estreiteza da terra própria foram as três ocasiões principais por que os Judeus se saíam e Deus os derramava por todas as terras e nações do Mundo.pela riqueza e opulência de suas minas Isto vinha buscar a cobiça. traziam ouro. alias civitatis demereberis plurimas. quem havia de passar lá os pregadores que levam os do Céu? Os pregadores levam o Evangelho. e aquilo vinha trazer a Providência. a salvação. a graça. Os pregadores levam a Fé aos reinos estranhos. No edito que passou Assuero para que morressem todos os Judeus sujeitos às terras de seu Império. nos enriqueceu com o que trazia do Céu. naquele memorial ou livro que intitula De Legatione ad Caium. por serem da mesma nação. Naaman Siro trouxe de Damasco as suas azêmolas com carga de ricos presentes para oferecer a Eliseu e levou-as carregadas de terra de Israel. na Arábia e na Etiópia. pérolas. sendo certo então o que depois vimos nas frotas das nossas Índias. e assim deu princípio àquele admirável comércio em que depois. querendo pregar na China. diz assim a Relação ou Relatório de suas 138 . Africa. E Filo Hebreu. levavam a Fé de Cristo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro E que seria se a este título justificasse Deus as usuras que permitia aos Hebreus nas outras nações. Arábia. diamantes. rubis. meter neles a Fé às costas do interesse. as teve abertas e francas? O primeiro rei de Portugal que se intitulou rei do comércio da Etiopia. Isto levaram as frotas celebradas del-Rei Salomão quando navegavam a terras de Ofir. quando iam. a esperança do Céu. depois que o comércio bateu a elas. mediterraneas. se não era a terra de Israel. De maneira que o comércio. Anquises levava os deuses na mão. prata. Europa. porque não teve quem o levasse. Tomé. ou fosse. parecerem a alguém suspeitosos e dignos de menos crédito. Se não houvesse mercadores que fossem buscar a umas e outras Índias os tesouros da terra. que levou do Brasil à Índia o Evangelho. S. posto que tão alegados e seguidos de todos os que escrevem. sitas in diversis orbis tractibus. saiba que os mesmos testemunhos se leram nas Escrituras Sagradas ainda com palavras mais universais e de maior encarecimento. mas sei que não é cousa nova em Deus. Josefo. e o comércio leva às costas os pregadores. maritimas. ou fosse a América. era urna droga que só se dava então naquela terra. Pérsia e dia foi o que introduziu a Fé na Índia. insulares. E se estes dois autores. a nossa Espanha. traçou que o pregador entrasse como negociante. Quando voltavam. império famosíssimo já naquela idade . e o que principalmente levavam de Judéia para o mesmo Mundo. quando não havia comércio.

quatrocentas e oitenta sinagogas. et universarum concordiam natonum sua dissensione violaret. agentes requerentes e igrejas particulares em Roma. et Cirenensium et Alexandrinorum. e que com a novidade de suas leis perturbavam a paz de todas as gentes e de todas as nações:omnium gentiam et universarum nationum. qui novis uteretur legibus. mas se mostra também com a mesma clareza que os efeitos dessa dispersão era ser pública e notória a todas as nações e reis e a todo o gênero humano a nova lei e nova Fé diferente de todas as outras que os mesmos Judeus professavam. videntes unam gentem rebellem adversus omne hominum genus perversis uti legibus. Crisóstomo e outros Doutores. como advertiu S. regnum jussa contemneret. e ainda hospitais da mesma nação. o assento dos tribunais. mas eram umas casas grandes e públicas. Cilicianos. cada uma de diferente nação. província. onde se ajuntavam principalmente aos sábados. Paulo: Secundum consuetudinem autem Paulus introivit ad eos. et turbare subjectarum nobis provinciarum pacem atque concordiam. et contra omnium gentium consuetudinem faciens. quae appellatur libertínorum. Quod cum didicissemus. et per sabbata tria disserebat eis de Scripturis. mas no qual texto. ainda que vivessem em outros reinos. e todas as outras conferências das cousas espirituais ou eclesiásticas. como se vê das provisões de S. se pode ser ainda mais notáveis: Erant autem in Hierusalem habitantes judaei viri religiosi ex omni natione quæ sub caelo: «Havia em Jerusalém (diz S. nostrisque jussionibus contraire. e assim como todos os reinos e repúblicas da Cristandade têm seus embaixadores. E estas culpas assim relatadas que vêm a ser senão um testemunho público e autêntico de tudo o que imos provando? Porque não só consta delas estarem os Judeus espalhados por todo o Mundo.Anexo:Imprimir/ História do Futuro culpas: In toto orbe terrarum populum esse dispersum. assim e muito mais se observava o mesmo uso entre os Judeus. No I capítulo dos Atos dos Apóstolos temos outro testemunho sagrado igualmente universal e por termos. as quais ele foi buscar a Jerusalém contra os Judeus de Damasco. reino corte ou povo notáve1 onde houvesse tanto número de Judeus que só ó que deles assistiam em 139 . reinos ou cidades populosas tinham em Jerusalém suas sinagogas particulares e distintas.. que era terra de gentios sujeitos a El-Rei Arctas. não se há-de entender que uma só sinagoga fosse dos Libertinos. senão que cada uma das comunidades dos Judeus pertencentes a estas províncias tinham a sua sinagoga própria. como hoje é Roma da Nova. Cirenenses. nas quais palavras se diz votada e expressamente que o povo hebreu naquele tempo estava espalhado por todo o Mundo:In toto orbe terrarum populum esse dispersum. homens religiosos de todas as nações que cobre o céu. como se conta no capítulo XVII dos Atos o fazia ou costumava fazer S. à qual estavam sujeitos todos os Judeus e professores da mesma Fé. E no capítulo VI do mesmo livro se faz expressa menção das sinagogas diferentes que dizíamos: Surrexuntur autem quidam de Synagoga. os conselhos. gente por natureza tenacíssima dos seus costumes e ritos. Era Jerusalém naquele tempo (e muito mais antes daquele tempo) a corte dos rei. como refere Lorino. Lucas) muitos judeus moradores da mesma cidade. nem podia ser mais que um conforme a lei). Asiáticos e Alexandrinos. e sobretudo era a cabeça da Igreja da Lei Velha. a universidade das letras. e que desobedeciam os mandados dos reis e eram rebeldes contra todo o gênero humano: adversus omne genus humanum. E era tanto o número destas sinagogas em Jerusalém. as quais sinagogas não eram propriamente igrejas como as nossas (porque o templo era um só e comum a todos.» para cuja inteligência se deve supor que todos os hebreus que viviam longe de Judéia em diferentes nações. se acharam nela. e ali se tinham as pregações. jussimas etc. separada e particular. Paulo. et eorum qui erant a Cilicia et Asia. que quando ultimamente foi destruída aquela cega cidade por Tito e Vespasiano. as disputas.

dizendo-o só absoluta e incertamente: Quisquis fuit ille deorum «quem quer que foi o Deus» que o criou. Saturno. mas Deus que escondido e desconhecido salvais. porém. os Gentios. e juntamente se prova que com estas suas peregrinações e navegações levavam pelo mesmo Mundo a Fé do verdadeiro Deus. ut faciatis unum proselytum: et cum fuerit factus. Mateus. facitis eum filium gehennæ duplo quam vos. ao qual os Gentios chamavam Deus incerto. mas o Deus dos Judeus não era conhecido de nome. na Arábia. Marte. ensinai-lhes tais doutrinas que o fazeis mais filho do Inferno do que vós sois. se não por zelo e cuidado particular da Religião. no Livro II de suas Antiguidades. este poeta declarou ser ele o Deus que adoravam os Judeus. isto é. peregrinavam e navegavam por todas as terras e mares do Mundo. nem faltavam em diversas partes do Mundo padrões desta mesma verdade. vindo a tratar do nome de Deus. não o nomeou nem determinou o Deus que o criara. levantados entre as gentes mais políticas e celebradas da Gentilidade. chamou judeus de longe: Vobis enim est repromisio et filiis vestris et omnibus qui longe sunt Vivendo pois os Judeus tão misturados e travados com todas as nações dos gentios. e o davam a conhecer aos Gentios. Deus absconditus et Salvator — dizia Isaías a Deus. e depois que está convertido. porque lhes estava proibido tomarem na boca o nome de Deus. dos quais convertiam alguns. Pedro. como logo lhes declarou o mesmo Apóstolo. porque 140 . diz assim: circuitis mare et aridam. Porque os deuses dos Gentios eram conhecidos pelos seus nomes particulares de Júpiter. e finalmente que Não se fazia isto acaso e por ocasião do trato. ensinavam e afeiçoavam a ela os gentios. com que. nome que se não podia falar nem dizer. nas Gálias. vós seis um Deus escondido. senão também por indústria e estudo particular de alguns judeus mais zelosos. e que estes monumentos de Religião e este conhecimento de Deus não conhecido se tivesse derivado aos Gentios da doutrina e trato com os Judeus. Vere tu es Deus abconditus. ensinados pelos Judeus. aludindo a esta proibição: «Verdadeiramente. como dizíamos. Paulo achou em Atenas.» Na qual sentença de Cristo se vê principalmente como os Judeus rodeavam mar e terra. no Sermão de dia de Pentecoste. e por isso se chamava Inefável. e não só pelo trato. Desta verdade temos em prova (que não é só suspeita ou conjectura nossa) o testemunho e autoridade do mesmo Cristo no capítulo XXIII de S. consagrado ao Deus não conhecido — Ignoto Deo — o qual Deus não conhecido. comunicação e exemplo. descrevendo Ovídio a criação do Mundo. os quais com desejo de aumentar a sua religião e o culto do verdadeiro Deus. E estes eram aqueles a quem S. Daqui se tira o novo e eficaz argumento de quão espalhados e multiplicados estavam os Judeus por todas as partes do Mundo. Mas nesta mesma incerteza com que falou no Deus criador do Mundo. «Cercais o mar e a terra para converter um gentio à Fé. na nossa Espanha e em outras províncias nobres da Ásia e da Europa. que este Deus desconhecido a quem não sabiam o nome era o Deus que criara todas as cousas. e este foi o mistério daquela erudita ignorância. Destes altares havia outros. o conhecimento da Fé de Deus e esperança de Cristo. onde. com o mesmo título de não conhecido. Senhor. como escreve o Cardeal Barónio.» E Josefo. criador do Céu e da Terra. era o verdadeiro Deus.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Jerusalém pudessem formar corpo e comunidade distinta. Conheciam. repreendendo a hipocrisia dos escribas e fariseus. isto é. desta companhia se lhes pegara. passou-o em silêncio e disse que lhe não era lícito pronunciá-lo: De quo mihi dicere non est fas. Tal era aquele altar que S. provam-no agudamente alguns autores. posto que depois a viciavam os escribas e fariseus do tempo de Cristo com a má doutrina e exemplo que lhes ensinavam.

Constituit terminos populorum juxta numerum filiorum Israel. que são os Hebreus. in omnem civitatem et locum. De maneira que. E dois discípulos. por serem outras tantas (como dizíamos) as nações do Mundo. que mandou diante de si: . quando Deus. e crido com o sobrenome de incerto. como escreve S. e. E era conveniente e necessário para este soberano fim que fossem tantos os mestres quantas eram as nações. que o Senhor. em lugar de — juxta numerum filiorum Israel — tresladaram — juxta numerum Angelorum Dei »— . os quais. ·os quais consta do capítulo X do mesmo livro e do capítulo XLVIII dos Gênesis. porque esse era o fim e ofício para que foram destinados a todas as nações e tomados e repartidos conforme o número delas. responde S. elegeu sinaladamente setenta e dois. fez aquela divisão conforme o número dos filhos de Israel. Assim entendem este lugar todos os Padres e intérpretes. depois de nomeados os doze Apóstolos. se se tirarem a hebréia e egípcia. porque eles eram os que haviam de levar e semear entre todas elas o conhecimento do verdadeiro Deus.designavit Dominus et alios septuginta duos et misit illos binos ante faciem suam.Anexo:Imprimir/ História do Futuro não tinha nome particular com que fosse conhecido e se distinguisse dos outros deuses. chamando neste lugar aos filhos de Israel anjos ou embaixadores de Deus. no princípio da Lei da Graça. por meio da sua pregação e doutrina. E para que concluamos este discurso com uma advertência em tal matéria digna de muito reparo. chamando aos Judeus os adoradores de Deus incerto: Cultrix incerti Judæa Dei. quando separabat filios Adam. senão quando a primeira vez se ajuntaram com os Gentios? O mistério e razão desta providência foi sem dúvida porque tinha Deus destinado aos Judeus para mestres da Fé dos Gentios naquela primeira Igreja. introduzindo-se o verdadeiro Deus nas outras nações e andando nelas como disfarçado. fuere septuaginta... na confusão da Torre de Babel. no capítulo XXXII do Deuteronômio diz Moisés que. mediu o número dos filhos de Israel. quo erat ipse venturus. no princípio da Lei Escrita. os quais também concordam em que as línguas e nações em que Deus dividiu os homens (como se colhe do capítulo X do Gênesis. também poeta latino e gentio. para que levassem por todo ele o conhecimento de Deus e a nova de que o Messias era já vindo. que já estavam unidas e se comunicavam. E a nova e promessa de que o Messias havia de vir é explicação admirável de outros setenta e dois intérpretes da divina palavra. que foram setenta e dois estes novos precursores e embaixadores de Cristo. respondendo a cada um deles uma nação: Quando dividebut Altissimus gentes. e com ele a sentença comum dos intérpretes. dividiu a todos os filhos de Adão em diversas nações e línguas. Jerônimo. No qual número alude Moisés aos filhos de Israel. em correspondência também dos doze filhos de Jacob e dos doze tribos de Israel. conhecido debaixo do nome de incógnito. Tratou Cristo de dispor a pregação do Evangelho e conversão do Mundo. assim Deus. Agora pergunto: E que mistério ou que intento teve a Providência Divina em igualar o número de todas as nações ao dos primeiros hebreus e não em outro tempo ou ocasião. com o de todas as outras nações e gentes do mesmo Mundo. E estes foram os primeiros rudimentos da Fé que os Judeus semearam entre os Gentios. assim como Cristo. Destas. que foram setenta almas: Omnes animæ domus Jacob. E se buscarmos nos expositores sagrados o mistério e proporção deste número. quae ingressæ sunt in AEgyptum. Assim o disse Claudiano. em que se referem as famílias dos descendentes de Noé) foram setenta e duas. que sempre é semelhante a si mesma em casos semelhantes. igualou o número dos seus discípulos ao das nações e gentes do Mundo. queria trazer (como trouxe) ao conhecimento da Fé. que entraram no Egito. ficam pontualmente setenta. Temos a confirmação deste pensamento na mesma Providência Divina. 141 . Lucas no capítulo X.

porque. e os vossos mesmos deuses (e não digo nisto mais senão menos) os vossos templos. sendo um só o Povo de Deus. achariam facilmente que não só foram escritas pela lei e observância dos Hebreus. sæculis vincit. in quo videtur thesaurus collocatus totius Judaici Sacramenti. Deos vestros. ipsa templa. Com razão chamou Clemente Alexandrino a Platão o Moisés de Atenas — Moyses Atlicus — porque de Moisés foram tirados todos aqueles lumes que deram a Platão em suas obras nome de divino. os Amalecitas. E como só estes livros havia no Mundo. delas imitaram e sobre elas fingiram. os Eteus. tomou este soberbo e ingrato filósofo a sabedoria mais sublime que o fez o maior da Grécia. Esse foi um dos mistérios de Deus. as histórias das gentes e das cidades insignes. et oracula. Aos livros de Moisés se seguiram os outros sagrados.. tudo vencem em muitos séculos de Antigüidade os livros de nossas profecias. et inde etiam nostri. O primeiro livro que viu o Mundo foi o Pentateuco. verá quanto as não largavam das mãos. elas o entretenimento dos curiosos.. Tempore nostrorum prophetarum (diz S. os Tírios. a ordem. se os versados nas divinas Escrituras considerassem diligentemente a matéria delas e a traça e harmonia com que foram ditadas pelo Espírito Santo. Deste rústico. Agostinho) philosophi gentium nondum erant. assim os Assírios. et (puto adhuc minus dicimus) ipsos. a que outro fim se faz neles tão freqüente memória de todas as outras nações do Mundo e seus sucessos? Assim temos os Cananeus. para que mais se estendessem por toda a parte e fossem mais celebradas suas notícias. os Madianitas. É certo que. em as fazer escuras. senão também para lição e estudo de todas as outras nações. Este livro foi o que fez aos Caldeus mestres da Ásia. E não havia antes de Cristo província conhecida ou cidade de grande nome no Mundo. de Moisés. e os autores que escreveram aqueles livros todos do mesmo Povo. ainda vencem em Antigüidade os mais antigos filósofos e escritores gentios. e verá o que delas tomaram. origines. os Sidónios. tendo sempre que entender. historiarum causas et memoriarum . porque ainda não tinha gostado sua doçura. os Filisteus. os Jebuseus. ordines. os Amonitas. que tudo governa. só estes se liam em todo ele. que são entre todos quase os últimos. os dos Profetas. os Gregos. Quem quiser saber facilmente quão estudadas eram dos Gentios as Escrituras. os Fereses. a matéria. os Amorreus. gentes etiam plurasque et urbes insignes. os Caldeus. Elas só eram o estudo dos sábios. e tudo foi tomado do tesouro das escrituras judaicas. os Gabaonitas. os vossos oráculos. fossem uma e muitas vezes lidas. dos seus historiadores e ainda dos seus poetas. quando as deixou pela suavidade de Túlio. assim os Ismaelitas. para que. os Etíopes. os Eveus. et sacra unius interim prophetae scrinium. que assim lhe chamou Aristóteles. venas veterani cujusque styli vestri. os vossos sacrifícios. ipsas denique effigies literarum indices custodesque rerum. de cujos sucessos se não achasse alguma memória no 142 . que são também as nossas: Omnes itaque substâncias omnesque materias. foram as Escrituras Sagradas. aos Egípcios da África e aos Gregos da Europa. e não faltam grandes conjecturas para se crer que Moisés foi aquele prodigioso Mercúrio a quem os Antigos celebraram com o nome de Trimegisto. os Egípcios. Não lhes podia suceder então às Escrituras divinas o que depois lhes aconteceu com Jerônimo. os Moabitas. e ainda as mesmas cidades e algumas das gentes. os Macedônios. leia com atenção os livros dos seus filósofos. elas o desvelo dos entendidos. «Tudo o que compôs o estilo dos vossos escritores — dizia Tertuliano aos Gentios — a substância. a origem. dispondo-o assim a Providência. os Persas. os Medos. inquam. Sírios.Anexo:Imprimir/ História do Futuro O terceiro meio de providência particular com que pôde chegar facilmente e chegou naquele tempo aos Gentios o conhecimento da fé e esperança de Cristo. Até aqui Tertuliano. os Romanos. as causas e memórias do que escreveram e até a forma das letras e imagens dos caracteres.

Não falo já de Daniel. já dissemos que se chamava coluna. que igualem em grandeza e variedade de casos admiráveis a menor parte ou sombra do que se refere nas histórias sagradas? Narraverunt mihi iniqui fabulationes. a da vara de Moisés em serpente. e depois de serpente convertida outra vez em vara? Descreveram as fábulas o dilúvio. nem arrimaram escadas ao céu. mas só em nove capítulos de Isaías lemos sinaladamente as profecias de onze nações diferentes. chamadas cada urna por seu nome a ouvir a sentença e a saber da boca de Deus o que lhe estava por vir. uma tocha que de noite as alumiava. Qual poeta se impôs ou traçou jamais uma comédia como a de Job. as rodas e os cavalos tudo de fogo? Que semelhança tiveram aquelas máquinas que se levantaram com nome de maravilhas do Mundo com a portentosa grandeza das que lemos nas Escrituras? Que estátua como a de Nabuco. que palácio encantado como o templo de Salomão.de repente. que coluna como a do Deserto. como dos futuros nas profecias. como a de Jacob? Que metamorfoses ou transformações fingiram como a de Nabucodonosor. parava os rios. convertido em bruto. porque o podia fazer com uma palavra? Não digo nada dos documentas da Escritura. que dividia os mares. o carro. a da mulher de Lot em estátua. e mais ainda não tinha sido o que depois dele se escreveu. falando somente do que pertence à história. Mas quando nenhum destes tesouros houvera depositado e encerrado nelas. que jardins como os de Assuero. assim dos passados nas histórias. um Enoc desaparecido . onde estavam conhecendo seus nomes e lendo as fortunas? Bastava só para mover a curiosidade universal de todas as gentes à lição dos livros Sagrados. que se iguale com a harpa de David. o nascimento das nações. a divisão das terras. que livros se escreveram jamais. fazia caminhar os montes? Onde se lê tal agravo de onipotência como no tenente daquela vara em quem foi culpa tirar fontes de um penhasco com dois golpes. que não exceda uma só voz de Josué. um Datão e Abiron tragados da terra. Que se podia inventar de maior pasmo aos ouvidos. que carroça como a de Ezequiel. serem só eles os que revelaram e descobriram o Mundo o segredo de seu primeiro princípio. a origem das línguas. e um Elias voando pelos ares em um carro de quatro cavalos. que se pareça com os oráculos sempre certos do propiciatório? Que disse das vozes de Eudimião. sem pôr monte sobre monte.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Testamento Velho. que ouvir falar um jumento com Balaão e uma serpente com Eva? Que se podia 143 . Que gigantes fabulosos filhos da terra se atreveram a edificar uma torre como a de Babel. só do que leva o apetite e não do que move a razão. obedecida da Lua e do mesmo Sol? O caduceu tão celebrado do seu Mercúrio que comparação teve com os poderes da vara de Moisés. não digo dos que professam verdade. edificado de seus fundamentos sem nele se ouvir o golpe de martelo? Um pavilhão que de dia cobria do sol seiscentas mil famílias. do que tudo houvera perpétua ignorância nos homens. mas não tiveram fantasia para meter todo o Mundo em uma arca. nem confiança para o salvar nela. mas dos fingidos e fabulosos. de que fugira o Inferno? Que disse das respostas duvidosas do seu Apolo. sed non ut lex tua. porquanto trato do doce e não do útil. a ordem e cronologia dos tempos. E que nação destas haveria que não lesse com grande atenção e cuidado os oráculos daquele famoso profeta. também ouvidas da Lua. que falou universalmente de todos os maiores impérios. Que disse a Gentilidade da cítara de Orfeu. uma novela ou enredo como a de José? Em que teatro dos Gentios se representaram aparências de tanto artifício como um paraíso terreal sumido no meio do Mundo. comendo serpentes. se não estivera revelado nas Escrituras. dizia Daniel. tão ignorado entre todos os sábios. uma tragédia como a de Aman.

metendo-se intrepidamente com a espada debaixo de um elefante armado. matou com ele em um dia seiscentos filisteus. aquele que. que. restaurador vítima da sua pátria. Todas estas forças tinha este bizarro mancebo em sete cabelos. Paremos no valente Eleásaro. de uma só rompeu as cordas e nervos como se foram teias de aranha. aquele que. Mas que direi das façanhas e cavalarias que. fazendo montante do arado. atado sete vezes. mil de seus inimigos e ainda matara mais. o sangue e o estrondo das armas. Mas deixando a guerra. deleitam e suspendem tanto a curiosidade dos homens? Que desafio como o de David. vencedor de trinta e um reis. com uma funda e um cajado contra o gigante coberto de ferro? Que batalha como a de Gedeão. pôs em fugida e desbarato o exército inumerável dos Filisteus? Que triunfo como o da galharda Judite. e depois ficou ali não sei se diga morto. e de entre a lenha e a espada escapando vivo? Que caso tão bem tecido como o de Moisés infante. e tão venturoso como o de Isaac posto já sobre o altar. foi Sangar capitão do mesmo povo depois de juiz. em campo aberto. Fique à trombeta da fama Josué. e o fortíssimo Macabeu. que ver o monstro marinho engolir a Jonas. tomando posto nos braços da Princesa do Egito. e deixou semeando com seus corpos o campo que andava lavrando. arrancando um dente da mesma queixada. mas lavrador que. se mortalmente oprimido do peso de tamanha vitória. e ver dali a três dias surgir a baleia. primeiro foi matador de sua sepultura. ver levá-lo consigo ao fundo e desaparecer. fez brotar dela uma fonte. ainda conhecidas por falsas. se não fugiram todos? Teve sede Sansão. Assim obedecem os elementos a quem assim triunfa dos homens. em que um só capitão com um só soldado. aquele que. quebrou com as mãos os ferrolhos e lançou às costas as portas. em que degolou de um golpe todo aquele seu exército? Mas passando nós a encontros de maiores forças em que pelejaram os braços e não a indústria. encomendado com maior ventura à própria mãe para que o criassem a seus peitos? Que maravilha como a da sarça verde e sem arder no meio das chamas. e juiz depois de lavrador. que Hércules Tebano como Sansão. matou. e. preso dentro da cidade de Gaza. já entregue à fúria do Nilo na barquinha ou naufrágio de vimes. aquele que. lançou a mão direita e esquerda a duas colunas. a dos meninos de Babilônia tomando fresco na fornalha. desembarcá-lo a fera vivo nas praias de Nínive? Como estes são os prodígios que se encontram a cada página nos Livros Sagrados. desde seu nascimento. só com trombetas e luzes em cântaros de barro? Que bateria como a dos muros de Jericó. sepultou debaixo dele todos os idólatras. dando com o templo em terra. com uma queixada de um jumento. a de Daniel comendo e não comido no lago dos leões. porque dedicou todos a Deus. e a da serpente do Deserto dando vida aos mordidos só com olharem para ela? Que prudência como a de Salomão em mandar partir o menino para conhecer a mãe verdadeira? Que engenho como o 144 .Anexo:Imprimir/ História do Futuro fingir de maior lisonja e admiração ao gosto. cansado de matar. quando entrou pelas portas de Betúlia com a cabeça de Olofernes. Segundo Sansão. que comer em uma iguaria todos os banquetes e gostar em um só maná todos os sabores? Que se podia imaginar de maior suspensão e assombro à vista. que história tão admirável como a da casta Susana? Que sacrifício tão lastimoso como o da filha de Jepta. levado ao templo dos Filistinos. derrubados com os instrumentos dos músicos do templo! Que emboscada como a de Abimelec em que os bosques e as sombras caminhavam juntamente e os soldados com eles? Que vitória como a de Jónatas.

e muitos outros de todos os Profetas. XCVII. e de Cristo em quanto Rei e Senhor do Mundo. que homem os podia ler com juízo e entendimento. de Etiópia (se bem havia muitos hebreus. disse Cristo aos discípulos que falavam mais particularmente na sua vinda ao Mundo: os Profetas. foram ordenadas à vinda de Cristo. o Salmo XLV. por bárbaro e ignorante que fosse. o 35. XCVI. entre os Gentios. aprendessem por eles a Fé de Deus e juntamente as esperanças de Cristo. E deixando à parte os lugares mais escuros (que esses não os entendiam os Gentios sem intérprete) como se viu no eunuco da rainha Cândaces. de uma só ou algumas nações. que. e como este foi o altíssimo conselho da Providência Divina. e com termos que Não admitem outro sentido nem interpretação.Anexo:Imprimir/ História do Futuro de Jacob em meter as cores pelos olhos das mães. que como as de David com Saul e as de Cusai com Aquitofel? Tudo nas divinas Escrituras é divino. tudo maravilhoso. e fora matéria imensa de prosseguir e impossível de compreender querer levar por diante os princípios deste não intentado discurso. para que deles possa entender o leitor (que é o que só lhe pretendemos persuadir) quão fraca seria a todas as nações dos Gentios a lição dos Livros Sagrados quando chegassem a suas mãos. o 53. tudo raro. para que. é cousa maravilhosa a freqüência com que está repetido. O Salmo II. o Salmo XLI. 145 . o II. XCV. o 9. fundamentais desta nossa História. vê-se clara e naturalmente da matéria das mesmas Escrituras. para mostrar de dia nas pegadas dos sacerdotes e seus filhos que eles e não o ídolo eram os que comiam as ofertas? Que subtilezas de Estado tão bem entendidas como as dos Livros dos Reis. Bastem estes poucos exemplos. apenas se acha cláusula em muitas delas que não esteja anunciando esta vinda e este Reino. os Salmos e os livros de Moisés: Necesse est impleri omnia quae scripta sunt in lege Moysi et prophetis et psalmis de me. o 54. Três partes da Escritura. o Salmo LVIII. e não Rei como os que costumava ver no Mundo. como ele era a quem tão de perto tocava aquela felicidade e a quem particularmente estava prometida. 2. a quem estes podiam perguntar a interpretação quando quisessem) o cap. que não visse e conhecesse que era prometido naquelas palavras um Rei futuro. os dois textos de Daniel. como dissemos. Nos Salmos de David. que gentio havia de haver. sem beberem daquelas fontes esta esperança. E quão impossível cousa seja poderem ler os Gentios as Escrituras Sagradas. LXVII e LXXXVIII. o 52. o Salmo XCII. como todas. ainda que fosse sem fé. o 65 e o 66 de Isaías. a clareza com que está apregoado e a pompa e majestade de palavras com que está engrandecido o Reino de Cristo. para pintar os cordeiros antes de nascerem? Que indústria como a de Daniel em semear de noite o templo de cinza. que não fizesse conceito do que diziam? Mas basta ao nosso intento que o fizessem os doutos e os entendidos. todos estes catorze salmos têm por principal assunto o Império do Messias. em que o Reino universal daquele futuro Monarca está expresso e declarado com palavras tão vulgares e tão significativas. convidados com o cevo da curiosidade os que ainda não deviam àqueles livros outros melhores respeitos. o Salmo IX. o Salmo CII. no estilo e disposição das escrituras do Testamento Velho (tão diversas nesta parte das do Testamento Novo) temperando a alteza e majestade de seus mistérios com o sabor de tantas verdades gostosas e com a variedade de tantas maravilhas tão novas e tão notáveis. XLVI e XLVII. mais aludidos que contados. senão de todas as gentes e reinos do Universo? E quando todas as outras profecias tivessem alguma escuridade que eles não pudessem entender ou interpretar por si mesmos.

sempre pelas mesmas palavras. podia ler estes textos ou ouvir estes pregões tão expressos e declarados do domínio daquele futuro Rei sobre todos os Reis e nações do Mundo. que não podiam deixar de ser lidas deles com grande advertência e recebidos com grande aplauso. e no Salmo XXI: Adorabunt in conspectu ejus universæ familiæ gentium. e em Jacob. as suas terras e as suas coroas. os dos Salmos e os dos Profetas. que. a primeira vez que Deus apareceu a Abraão e o mandou sair da pátria. que era o esperado Rei e Messias do Mundo.cum benedicendae sint in illo omnes nationes terræ. et excelsus super omnes populos. mas tão dirigidas e encaminhadas todas as nações. lendo os Gentios como liam as Escrituras. Seja o primeiro exemplo desta luz aquele grande varão mais conhecido pelo testemunho da paciência que pelo lume da profecia. e no Salmo LXXI: Adorabunt eum omes reges terræ. Finalmente. nomeadamente dos mesmos Gentios.a alegação de Cristo). lhe prometeu que seriam abendiçoadas nele todas as nações da terra: In te benedicentur universæ cognationes terræ. quoniam Domini est regnum. não só têm por ocasião da mesma história muitas profecias e promessas desta esperança. falando com eles nomeadamente. em toda esta História. A qual promessa tornou Deus a ratifica quarta e quinta vez em Isaac.. etenim correxit orbem terrae. e no capítulo XVIII torna a referir Deus esta mesma promessa: . porque o faremos muitas vezes. eram as que haviam de ser sujeitas a este grande Império. e no capítulo XXII. no capítulo XXVIII: Benedicentur in semine tuo cuntae tribus terræ. senão na de um seu descendente: Benedicentur in semine tuo omnes gentes terrae. Assim que. no capítulo XLIX do mesmo livro dos Gênesis está o famoso texto já referido um dos dois em que fundamos todo este discurso: Non auferetur sceptrum de Juda.Anexo:Imprimir/ História do Futuro E porque não duvidassem os Gentios que eles. e particularmente os livros de Moisés. Que gentio podia haver tão rude. natural da terra de Hus. No capítulo XII. O quarto e último meio e mais imediato da Providência Divina. e com efeito conheceram. os livros de Moisés (que era a 3. e em Jacob. se não cresse aquela Fé. que gentio. digo. e tal conhecimento de Cristo. e no Salmo XCVIII: Dominus in Sion magnus. ao menos não conhecesse aquela esperança? Deixo de ponderar mais lugares de David. Em Isaac no capítulo XXVI: Benedicertur in semsa tuo omnes gentes terræ. que lendo no Salmo II: Dabo tibi gentes hæreditatem tuam et possessionem tuam ter minos terræ. lhe promete Deus terceira vez a mesma bênção. nas quais se lhes prometia por boca de Deus que seriam abendiçoadas em um homem da descendência de Abraão.. vinte nove vezes lhes repete e inculca o mesmo Daniel esta gloriosa sujeição. a quem conheceu por universal Redentor: Et scio quod Redemptor mous 146 . posto que sejam principalmente históricos e não proféticos. finalmente. filho. e no Salmo XCV: [Dicite] in gentibus quia Dominus regnavit. et ipse erit expectatio gentium. e foi insigne profeta de Cristo. e não por termos enigmáticos ou metafísicos. não podiam deixar de vir em conhecimento. foram muitas revelações particulares daquele mistério com que Deus em diferentes tempos alumiou por si mesmo a vários homens e mulheres de toda a Gentilidade. o prometido Messias. com que as nações gentílicas puderam conhecer. omnes gentes servient ei. neto do mesmo Abraão. com declaração que não seria na sua pessoa. que todos o desejassem e esperassem todos. Job. De sorte que em um só livro de Moisés tinham os Gentios seis profecias claras e que claramente falavam com eles. idumeu de nação. donec veniat qui mittendus est. tão alheio do lume da razão e tão gentio. do Gênesis. Era Job verdadeiramente gentio. senão clara e distintamente pelo seu próprio nome de Gentios. em prêmio da resolução e obediência com que Abraão não duvidou de sacrificar seu filho.

de que se ve facilmente quão notória era no Mundo e quão pública entre os Gentios esta esperança.. nascerá a estrela de Jacob. intuebo. principalmente aqueles que para a salvação universal do Mundo eram necessários. et percutiet duces Moab. pela qual memória ou notícia (diz o mesmo santo) informados os Reis Magos. Notem-se bem estas últimas palavras. já se vê quão ensinados teriam nela a todos seus vassalos. Quer dizer: «Vê-lo-ei. se aos Hebreus pelos Profetas. ou difamada (como diz S. e como todos fossem reis e senhores de suas terras (assim lhes chama o Texto Sagrado no capítulo I de Tobias) com aquela suprema autoridade e com o conhecimento e sabedoria que tinham do Céu . como pelos Gentios. e quão pública seria entre eles a esperança de Cristo Balaão (cujo espírito profético é tão vulgar que não tem necessidade de provas) não só foi gentio. puderam argüir do aparecimento da nova estrela o nascimento do novo Rei: . por ser muito célebre entre eles a notícia deste oráculo. e levantar-se-á o ceptro de Israel. mas não de perto. sed non modo. e esta esperança. E se alguém perguntar curiosamente a quem e por cu]a boca falou Deus mais claramente. mas não agora. et consurget virga de Israel. e em quem esperou ver a Deus vestido de carne: In carne mea videbo deum meum. (o qual não duvidou de se chamar a si mesmo auditor sermonum Dei.tão celebrado no capítulo XXIV dos Números: Videbo eum. e também alumiados da mesma fé e confirmados na mesma esperança. Similiter et Job—diz Santo Agostinho— eximius prophetarum. sicut Israeli per prophetas.. quod de illo tempore prophetavit quia Christi deitas habitum nostrae carnis induta est. nas Anotações que fez sobre o original grego dos oráculos sibilinos: Sic prarsus sentio Deum totius universitatis opificem et administrum aeternum. Quer dizer este autor (e o confirma com o que disseram das Sibilas Lactanio Firmiano e S.. como ele diz. Das Sibilas (profetizas também da Gentilidade) diz assim Xisto Betuleu. de um Rei descendente da casa de Jacob. Os amigos de Job também eram gentios de outras províncias vizinhas. Dele diz S. illum. Máximo: Nemo [. E digo que não só os Hebreus entendiam assim este lugar. porque. e muito famosa. sed non prope: orietur stella ex Jacob. a memória desta profecia. suum votum et totam illam futuram seriem praesertim ad salatem mortalium spectantem. ou aos Gentios pelas Sibilas. et in carne mea videbo Deum meum. senão mau gentio. trazia sempre guardada no seio: Reposita est haec spes mea in sinu meo». vastabitque omnes filios Seth.» As quais palavras foram sempre entendidas.. mas também os Gentios. este gentio. qui novit doctrinam Altissimi et visionem Omnipotentis vidit) profetizou claramente de Cristo e de seu império naquele texto.Anexo:Imprimir/ História do Futuro vivit. potuit Gentilis agnoscere. assim como os Hebreus tiveram os seus Profetas. tivessem também os Gentios os seus. por cujo meio a uns e outros fossem manifestos os conselhos divinos. conforme a ordem e disposição eterna de sua providência. que em tempos futuros havia de imperar no Mundo e havia de sujeitar a seu domínio todas as nações dele.] miretur netivitatem dominicam agnovise Chaldaeos quam utique. respondo que em muitas cousas particulares. Leão Papa). olharei para ele. principalmente das que pertencem a Cristo. si revelante Deo praenuntiare potuit. Este Balaão. Agostinho) que comunicou Deus o espírito de profecia a estas famosas mulheres. como consta da mesma história e do que eles disseram nela. ita gentibus per Sibyllas ostendere voluisse per idem numen fatidicum.ad intelligendam miraculum signi potuerunt Magi etiam de antiquis Baluam praenuntiationibus commoveri scientes alim esse praedictum et celebri memoria diffamatam. falaram com termos de 147 . vencerá todos os capitães dos Gentios e sujeitará todas as nações do Mundo. assim pelos Hebreus.

para que se veja quão fácil era aos Gentios o conhecimento de Cristo pelos livros ou oráculos das Sibilas. as últimas relíquias de poder em que se conservava o Grego não passaram mais que doze anos. tão galante é a frase com que o Santo declara o mal falado e mal medido daqueles versos. porei somente aqui dois. diz que a primeira versão que chegou a suas mãos deste acróstico era em versos mal latinos. cujo artifício é lerem-se pelas primeiras letras. e formar-se com elas alguma sentença. nome ou inscrição particular.. servator Crux Jesus Cristo. são trinta e cinco e a sentença é esta: Jesus Christus. como consta da. como liam. supremo cum Sanctis tempore mundi. De muitos lugares e exemplos que pudera trazer desta diferença. a soberania de seu supremo poder e a Monarquia Universal de seu Reino sobre todos os cetros e coroas do Mundo. traduzida por Xisto Betuleu. debaixo do qual se havia de renovar e restaurar o Mundo. no Livro XVIII De Civitate Dei. e não se poderão traduzir na língua latina com o motivo daquelas letras sem alguma variedade. e conceito de um Rei e de um Império futuro. porque depois da vitória de Augusto César. e não terem notícia da Messias e da esperança e promessa de sua vinda. Diz que nasceria este Rei e daria princípio a seu Império quando Roma dominasse e governasse o Egito. Rex etenim sanctus veniet. 148 . S. C e S.. compreendeu e cumpriu felizmente com todas estas dificuldades. É a seguinte: Judicii metuet sudans presagia tellus Et Rex ceternus magno descendet Olympo Sublimis carnem mundumque ut judicet. porque não guardam a ordem das letras iniciais. Unum suscipient numen pravique bonique Summum. antes quão impossível cousa era lerem eles. Horrida terra vias caeli spinceque tenebunt. Estes versos estão em toda a sua propriedade no texto grego. No fim do Livro II diz a Sibila Eritrea estes versos: Sed postquam Roma AEgyptum reget imperioque Fraenabit. em que venceu a Marco António e Cleópatra no Egito. qui totius orbis Omnia sceculorum per tempora sceptra tenebit. omnem. Ille domus caecas et Ditis claustra refringet. e acabou de dominar o Império Romano. A de João Bongro. os quais copia este naquele lugar. e assim foi. e que se não podiam ter em pé: Versibus male latinis et non stantibus. sem tomar outra licença mais que a de desatar a última letra em duas. como se pode ver facilmente de uns e outros livros. Dei filius. Rejicient simulacta viri. (lacuna do original) No Livro VIII (que é o último) tem a mesma Sibila outros versos mais notáveis do gênero daqueles que os Gregos chamaram acrósticos. cap. Depois diz que o Procônsul Flaviano lhe mostrou outros mais conformes às leis da gramática e da poesia. Não se podia descrever com maior clareza o tempo e circunstâncias do nascimento de Cristo. aqueles livros. propriedade que falta em muitas outras versões latinas. até o nascimento de Cristo. Carnifer ille homines judex inquiret in omnes. summi tum summa potentia regni Regis inextincti mortalibus exorietur. Agostinho. Salvador cruz.Anexo:Imprimir/ História do Futuro maior clareza as Sibilas do que os Profetas. gazamque retostam. XXIII. formando ao menos um conceito comum. Filho de Deus. e fazer de um X. pois. e nós deixamos de os pôr aqui. Os versos.

Erumnae et stridor dentis regnabit ubique. pluet tum sulphure et igni Omnibus extabunt ligni vexilla verendi Robur et auxilium populo exoptata fidéli: Certa pio generi vita. scelerosos flamma piabit Ultrix bertetuum: mala quae quicumque patravit Sontica suppressitque diu. O sentido dos versos. Succendet terram fulmen. producent in auras Deteget et turbis Deus obsita corda tenebris. Vastam terra chaos stygio monstrabit hiatu. consident ardua montis. Luxus sublimis mortales deseret oras. quando disse: In similitudinem hominum factus et habitu inventus ut homo. E mais abaixo se lê a pregação do Baptista. quae clamet ad omnes 149 . Immensos colles aequabunt marmora campi. Paulo. Atque Dei solio sistetur judicis omnis Turba ducum regumque.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Sanctior a mortis jam nexu libera lucem Turba hominum cernet. Rore bonos lustrans bisseni fontis ab unda: Virgaque qua pecori dat ferrea jura magister Carminis auspiciis qui crimina morte piabit Servator Rex arternus Deus ipse patescit. no livro II De Divinatione. com todas as circunstâncias de grandeza.Mundo. fontesque dehiscent: Et tuba de caelo tristis clangore sonabit Raucisono mundi clades pereuntis acerbas. Mateus: Verum cum quaedam vox per deserta locorum Nuncia mortales veniet. mortalibus ipsis In terris similis. vaga lympha Solis arescet ripis. que morreu cinquenta anos antes do nascimento de Cristo. quase pelas mesmas palavras de S. Insurgent valles. argentea luna peribit. Não falou com palavras mais claras S. natus Patris omnipotentis Corpore vestitus. Ipsum deficiet solis decus astra colore Fusco obducentur. ast offensa malignis. é a vinda de Cristo a julgar o . Destes mesmos versos faz menção Eusébio Cesariense na Vida de Constantino Magno. Velivago nulli cernentur in aequore nautae. O mistério da encarnação está com tanta e maior clareza no Livro I dos mesmos oráculos das Sibilas: Tunc ad mortales veniet. e Marco Túlio. majestade e horror que pertencem ao aparato e execução do juízo. em suma.

. horrentemque feret de vepre coronam. as enfermidades que curou milagrosamente. E pelo mesmo estilo vai prosseguindo a história da encarnação. mortalibus unde locutum Venerit. assim da vida santíssima. placidis pedibus calcando. depois que teve (como ele diz) maiores as mãos. E porque não faltasse com todas estas circunstâncias. Collustrans lympha manibus senioribus (?) omnes Cuncta jubens faciet morboque medebitur omni. os mares que pisou andando placidamente. o império que exercitou sobre todas a criaturas. Persimilem formam portans in Virginis alvum. fideque. poder e majestade de quem era e de quem o mandara ao Mundo. assim como tinha declarado o do Anjo. Deum premio intemerata pudico. A embaixada do Anjo à Virgem com o mesmo nome de Gabriel descreve a Sibila no Livro VIII por estas palavras: E caelo veniens mortales induit artus. sobre as ondas. que instituiu e administrou. dissimulando debaixo de tantas injúrias a grandeza. a sujeição com que lhe obedeceram os ventos. renati. Até aqui a Sibila. Ut nunquam doincets peccent in jura. aparecimento da estrela e adoração dos Reis. segundo as leis da história. O nome da Virgem. até o presépio de Belém. Virgo. até lhe pôr a coroa (como se esta fora o fim e assunto do seu poema) conclui com estes versos: Ergo ad judicium veniet diciti memor hujus. a paciência e humildade com que sofreu ser cuspido.] Perque feret tacitus cotaphos ne forte sciatur Quis sit. açoitado e afrontado com mãos sacrílegas em seu próprio rosto. 150 . e coroado por escárnio com coroa de espinhos.. Finalmente. compreendendo admiravelmente em tão poucas regras o nascimento virginal de Cristo. Placabit ventos dicto sternetque profundum Insanum. cujus. Ac primum cortpus Gabriel ostendit honestum Nuncius. alegria e pasmo dos pastores. o sacramento do batismo. como da sua Paixão. hinc tali affatur sermone puellam: Accipe. Sic ait: est illam caelestis gratia mo11i Leniit afiatu: tum virginitatis amatrix Perpetuae magno subito correpta stupore Atque metu trepida pressit formidine mentem. diz no mesmo lugar: Et brevis egressus Mariae de Virginis alvo Exorta est nova lux.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Ut rectos faciant calles. animosque refurgent A vitiis et aqua lustrentur corpora cuncta. resumindo todas as obras de Cristo. Ad virosa genas praedebit sputa prudentes Verberibusque sacrum tradet proscindere tergum [Viriginem enim castam tradet mortalibus ipse.

et quae jam olim inde a majoribus de diis credita fuiissent. para que entendêssemos que as Sibilas foram as Musas Sicélides que exercitaram cousas maiores. filho do Eterno Padre. e que destas fontes bebeu aqueles levantados espíritos. se acomodou à cegueira com que os Judeus haviam de negar a Cristo. para que o não condenasse a superstição romana como violador da divindade dos deuses.. Sendo a razão desta providência (como bem notou Castálio) a rudeza e ignorância das cousas divinas em que viviam os Gentios. Desta mesma opinião de Eusébio são outros muitos autores. Intelligimus autem (diz Eusobio) dicta haec manifeste simul et obscure per allegorias prolata iis. nascidos e criados entre os resplandores da Fé e conhecimento de Deus. ut in eum obscurarent alque ita sua. rejiceret. no já citado livro da Vida de Constantino Magno. aos quais era necessário se falasse com maior clareza do que aos Hebreus. quod idem de gentibus dicere non licet.. veritatem occuluerit. Se já não foi (como considera o mesmo autor e o prova com Isaías) que a escuridade dos Profetas.. os quais constantemente se persuadem que o sujeito da IV Égloga virgiliana não foi outro senão Cristo. quanto a lemos elegantemente profetizada na IV Égloga de Virgilio. e dos Modernos ao P. E assim a primeira e mais relevante de todas se funda na união hipostática com que a humanidade sagrada de Cristo está unida ao Divino Verbo. conhecido pelos oráculos das Sibilas. culpare posset quod contra patrias leges scriberet. Por meio destes oráculos das Sibilas. era tão vulgar e famosa entre os Gentios a esperança daquele novo Rei e da idade dourada que havia de trazer ao Mundo com seu felicíssimo Reino. e a claridade das Sibilas à fé com que os Gentios o haviam de crer. tendo também estes ali tantos mestres que os pudessem alumiar e ensinar. Quem tiver curiosidade de ver a alegoria de toda a Égloga aplicada e explicada de Cristo. qual se não acha maior nem ainda igual nos Profetas.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Tanta como esta é a clareza com que falaram de Cristo as Sibilas. e não nas de Aganipe ou Hipocrene. que de versos de Virgílio teceu e compôs felizmente toda a vida de Cristo As razões mais fundamentais e sólidas com que se persuade e converte a verdade deste império temporal de Cristo são as que imediatamente se tiram dos mesmos títulos que acabamos de declarar. que morreu treze dias antes do nascimento de Cristo. e sobre todos (lacuna no original). que andavam nas mãos de todos. que nem ainda do mesmo César se puderam dizer sem nota de demasiada adulação e indigna de um tão eminente juízo como o de Virgílio. quod Mose et cetera disciplina carebant. talhado verdadeiramente para poeta de Cristo. e certo são tão extraordinariamente grandes as cousas que o príncipe dos poetas diz naquele poema bucólico. como se vê em Platão e Aristóteles. quae eis ad Christi lumen quasi proluceret: ut quod hic durat. id oraculorum perspicuitate compensaretur? Accedit eo quod (quemadmodum scitur ex Isaia) voluit Deus Judaeis obscuriorem esse Christi adventum. qui carminum horum sensum altius sub conspectum divinitatis Dei scrutantur. é de opinião que esta quarta Égloga de Virgílio é toda alegórica. Nonne (são as palavras de Castálio) quae de Christo gentibus praedicta sunt ea clariora esse oportuit. principalmente dos sábios.e Lacerda.. por permissão ou castigo. filho de Polion. veja nos Antigos ao mesmo. pertinaciae poenas darent. e carecendo aqueles de toda a luz e doutrina. foi verdadeiramente escrita e dedicada a Cristo. posto que 151 . innuere quomodo Poeta. e que debaixo da metáfora de Asínio. e cita nela os oráculos da Sibila Cumea: Ultima Cumaei venit jam carminis aetas. ne quis eorum qui in regio orbe denominabantur. Eusébio Cesareense. encobrindo e envolvendo o vigilantíssimo Poeta a verdade desta sua fé e pensamento com as figuras e metáforas daquele seu Mecenas.

se não também o temporal que é próprio das corpos: . por filho de David. em conseqüência do qual merecimento se ajuntou a ele a vontade eficaz divina.. por filho de Adão. e tão fora está deste perigo o império e domínio temporal que admitimos em Cristo. o seu merecimento e a vontade divina. por Cristo ser verdadeiro e inteiro homem. porque. que é razão de si mesma. tomou a carne e não contraiu o pecado. não digo já àquele segundo Adão que veio restaurar as ruínas do primeiro. comentando o capítulo IX. foi inveja. que antes da falta dele se podem arguir conhecidos inconvenientes. composto não só de espírito. que não só em quanto Deus. et volatilibus caeli. pelo qual lhe eram devidas todas as dignidades e grandezas humanas. e seu filho natural e verdadeiro e unigênito? Se quis e não pôde (como em semelhante caso argumentava Agostinho) foi fraqueza. sem exclusão de poder. se não ainda em quanto homem. Mateus começa em David. porque todos lhe são infinitamente devidos. não era justo que tivesse sobre eles o domínio partido. outra é o merecimento infinito de Cristo. que facilmente se consideram muito convenientes todas ao decoro e majestade de Cristo. do Profeta Zacarias. inseparável a todas as suas ações.ut sicut ipse e corpore et spiritu compositus erat. assim que as razões fundamentais do império temporal de Cristo são três: o ser quem é. só por ser feito a sua imagem e semelhança: Faciamus hominem ad imaginem et similitudinem nostram. porque não reteria ao menos o que não perdeu em seu Pai? A geração de Cristo escrita por S. e por S. v. Lucas em Adão. como doutamente disse Stuniga.. 9. que se deve conceber e admitir na soberana pessoa de Cristo todos aqueles atributos de poder. se não de Adão senhor. A Adão deu Deus o império universal do Mundo com sujeição e otediência a todas as criaturas dele. que sem implicação nem indecência se podem considerar nela. e ainda alguma conseqüência indigna e de menos decoro. grandeza e majestade. foi muito conveniente que não só tivesse o Império espiritual que pertence às almas. como cabeça dos homens que são compostos de carne e espírito. Estas razões capitais se podem ajudar e revestir de várias congruências. senão de Adão inocente. é princípio geral e recebido de todos os teólogos. o qual. melhor que Caim e Abel. antes. porque se lhe há-de negar o do Mundo? Finalmente. autoridade e soberania alguma. assim sobre as cousas e ações concernentes ao espírito. Porque o império espiritual de 152 . senão àquele que é imagem e retrato perfeitíssimo de sua sustância: Ipse est enim imago Patris et figura substantiae ejus? Haverá quem se atreva a dizer ou presumir que foi menor o poder de Cristo no Mundo que o de Adão ou que teve Adão poder que faltasse a Cristo? A carne de Adão que tomou Cristo não foi de Adão pecador. e se. que foi o princípio efetivo donde manou e se derivou a Cristo a comunicação liberalíssima. Se os Trajanos e outros imperadores e príncipes do Mundo deram seus impérios e reinos inteiros aos estranhos que adotaram por filhos. ut tam late ipsius regnum et imperium pateret quam ipsius Dei. senão inteiro. como havemos de crer nem imaginar que desse Deus só uma parte de seu império e domínio a Cristo. melhor que Salomão lhe foi devido o cetro de Israel. e um ou outro pensamento fora blasfêmia contra o onipotente amor de tão divino Pai.. como as que pertencem ao corpo. ita eum (Pater) et regem spirituum et corporum etiam fecerit. e como investidora absoluta desta suprema e universal potestade. se pôde e não quis. se não de carne.Anexo:Imprimir/ História do Futuro esta mais se pode chamar natureza que razão. et bestiis terrae. ut praesit piscibus maris. Como negaria logo Deus este mesmo poder. como advertiu o Apóstolo. E se Cristo não foi filho de Adão escravo.

em boa teologia. ainda os mais desprezadores do Mundo! Mas replicam a esta resposta os autores da contrária opinião. pobre no nascimento. Muitos há que querem parecer pobres. Não ter uso das cousas do Mundo quem não tem ou teve domínio delas. Mas deixada esta estrada geral. não era necessário exercitar todos os atos particulares delas. oh! que exemplo. virtude pode ser. mas quem queira ser e parecer filho de pobres: Quis est hic et laudabimus eum? Só Cristo e quem tem muito de Cristo. pobre na morte. porém senhor absoluto de tudo quanto há e pode haver no Mundo. se contentem com o que se contentou este Monarca temporal do Mundo: imitem a pobreza de Cristo. que era ser este ato incompatível com a natureza e essência do mesmo Cristo. filius autem hominis non habet ubi caput reclinet. e ter menos uso do mesmo Mundo do que os bichinhos da terra. havia outra razão mais forçosa e necessária. nem mais exemplo em Cristo. se não que também careceu do domínio de todas. porque não é nosso intento divertir o argumento. alguns que o querem ser. quanto a renunciação do domínio. ainda que os tivesse ensinado. para Cristo ser perfeitíssimo mestre e exemplar de todas as virtudes.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Cristo. Não era menos mestre nem menos exemplar Cristo da paciência do que o foi da pobreza. se não principalmente na renunciação do domínio delas. e que espiritual e temporalmente lhe são todos os homens e todas as cousas sujeitas. mas virtude que parece fortuna ou necessidade. e poder dizer com verdade: Vulpes foveas habent et volucres caeli nidos. se não também temporal. que não é somente espiritual o império e domínio que Cristo tem sobre o Mundo. logo. segue-se (como doutamente infere o Padre Soares) que. cum te percusserint in una maxilla. não ofereceu o Senhor a outra face. senão desfazê-lo. digo outra vez que na pobreza de Cristo. enquanto estas se ordenam ou subordinam ao fim e conservação das espirituais: e no caso ou suposição em que Cristo somente fosse Rei espiritual. se Cristo quisesse mandar a um homem ou a um anjo uma ação meramente temporal alheia (ainda que fosse para obrar um milagre). e não queiram mais pobreza. nós nos contentaremos com que os autores deste escrúpulo. e muito particularmente desta . no desprezo e abdicação deste domínio é que devia Cristo dar-nos o exemplo da perfeita pobreza. Primeiramente digo que. por santos e espirituais que sejam. por supremo e universal que seja. de que Cristo professou ser mestre. necessariamente havemos de dizer e confessar. quando deram a Cristo a bofetada em presença do Pontífice Caifás. na união hipostática. antes acudiu à calunia de que falsa e sacrilegamente o argüiam. E quanto ao reparo da pobreza e desprezo das cousas temporais que Cristo veio ensinar ao Mundo. que o não poderia fazer livre e absolutamente a seu arbítrio e sem licença do dono dela (se comodamente o pudesse fazer de outra sorte): Indignum autem videtur (conclui o grande Doutor) haec et similia de Christi potestate sentire. O domínio universal que Cristo tinha do Mundo era o que mais subiu de preço os quilates de sua pobreza. e pobre sobretudo na eleição de pais pobres. e dizem que a pobreza evangélica. e sendo uma das mais altas proposições de sua doutrina na matéria do sofrimento. pobre na vida. oh! que pasmo. e era não só 153 . como dissemos. só tem poder e jurdição indireta sobre as cousas e ações temporais. praebe illi et alleram sabemos contudo que. E pois é certo que foi Cristo consumadíssimo exemplar de todas as virtudes. oh! que confusão para os homens. segue-se que não só não teve o uso das cousas temporais. não consiste só na mortificação ou temperança do uso das cousas temporais. Porque aquele domínio supremo e universal de todas as cousas fundava-se imediatamente. Sendo logo este sentimento indigno do poder e majestade de Cristo e da soberania de sua pessoa.

quia filius hominis est. O que podia só fazer Cristo era privar-se do uso dele. e por conseguinte nulo. de S. ad. Por isso o mesmo Cristo. é contra a Fé a conclusão. E nesta segunda conseqüência. porque a potestade judiciária em Cristo foi conseqüência da dignidade real. sendo de maior perfeição. descrevendo o supremo e último ato de juízo em que há-de sentenciar o Mundo. Lucas. Finalmente. porque havemos de ser tão estreitos de coração que lha não concedamos toda? Os que admitem ou veneram conosco em Cristo o título e domínio de rei e concedem contudo que não teve exercício dele. que vinha a ser totalmente ocioso este império temporal que consideramos em Cristo. conforme o texto de David: Et nunc. cujo estado. provemos demonstrativamente a causa pelos efeitos. conforme aquele princípio vulgar da filosofia: Frustra est potentia quae non reducitur ad actum Mas começando pela forma desta conseqüência. E a razão desta ordem natural é. para que no mesmo exemplar aprendessem os religiosos a mortificação do uso e os prelados a moderação do domínio. A premissa é de Fé. como expressamente ensina S. e ao supremo bispo e supremo prelado. Porque tão boa conseqüência é esta: Cristo não teve exercício de rei. Tomás na Questão LIX. porque Cristo. porque lemos no capítulo XII. Reges. nem se serviu de cousa alguma do Mundo. porventura que era mais conveniente ao mesmo exemplo do Mundo conservar o domínio sem o uso. assim (diz o Padre Vasquez) não podia renunciar nem demitir de si o direito soberano domínio. logo não teve poder judicial. logo não teve poder real. conserva o domínio e administração dos bens e só periga ou pode perigar na imoderação ou excesso do uso deles. Art. para que ponhamos o selo à confirmação desta nossa sentença e acabemos de desfazer as razões ou admirações. Temos neste ponto contra nós não só os inimigos. Quanto mais qnue ainda no caso em que fora possível na pessoa de Cristo a renunciação do domínio temporal de todas as cousas. Antes daqui se forma novo argumento em confirmação da verdade da nossa sentença. sed omne judicium dedit filio. Foi logo convenientíssimo que em Cristo se ajuntasse o sumo domínio e o sumo desprezo e abstinência das cousas do Mundo. como dizíamos da parte contrária. I: Potestas judicis secuta est in Christo regiam dignitatem.Anexo:Imprimir/ História do Futuro propriedade inseparável. como mestre e exemplar da perfeição evangélica. porque o ofício de julgar é parte da dignidade de Rei. posto que o Santo Doutor a não exprima. porque neiga contraditòriamente o texto de S. senão também os amigos. se chama nomeadamente Rei: Tunc dicet Rex his qui a dexteris ejus erunt etc. dizem muito douta e conseqüentemente que. como quem teve só o domínio e senhorio dele. como esta: Cristo não teve exercício de juiz. IV. que renunciar o uso e mais o domínio. e assim como Cristo não podia renunciar nem abdicar de si a própria natureza. ou colhe demasiadamente ou nada. pedindo dois irmãos a Cristo que julgasse certa dúvida que tinham entre si. nem em quanto Rei nem em quanto Senhor. intelligite: erudimini qui judicatis terram. sendo de Fé a premissa. não todos mas só os que impugnam a nossa sentença. senão parte intrínseca dela. e assim o fez tão perfeita e perfeitissimamente como sabemos. Paulo: Pater non judicat quemquam. E daqui inferem. que. não teve exercício algum do império temporal. e também muitos da nossa. o Senhor lhes respondeu: Quis me constituit judicem super vos? E a conclusão é contra a Fé. e o direito (do modo que pode ser) pela posse. Resolvem os defensores da opinião contrária. E se é certo e de Fé que Cristo tem esta parte da jurdição e dignidade real. que Cristo em toda a sua vida. ainda 154 . a jurdição pelo exercício. a potência pelos atos. porque nem fez ato que fosse próprio da dignidade real. não só devia dar exemplo aos religiosos que professam renunciar o domínio dos bens temporais senão também aos prelados e bispos.

porque é perfeição natural da Humanidade. incenso e mirra. que os Reis ofereceram: o incenso como a Deus. tanto que entrou neste Mundo. não porque pública e continuadamente o professasse Cristo. Item em receber os tributos que lhe ofereceram os mesmos Reis em reconhecimento da soberania suprema de sua majestade. como falam os filósofos. para maior exemplo e doutrina nossa? Onde mais bem empregado e aplicado o domínio. a mirra como a homem. nem o haja de ter em outro tempo. o qual necessariamente supõe o mesmo domínio) não é tê-lo ocioso. Persistindo na mesma suposição. como foi Cristo Rei e Senhor temporal do Mundo. se lhes havia de mandar que as deixassem estar na bainha? e responde o grande Doutor que foi para mostrar Cristo que se podia defender e vingar de seus inimigos. mas porque exercitou alguns atos particulares de império e domínio. que eram próprios só do legítimo Rei e verdadeiro Senhor do Mundo. ou não querer usar dele. porque o seria o domínio de Cristo. que foi o não querer usar Cristo do mesmo domínio. Para este uso ou desuso quis Cristo a procuração das espadas. ainda que fosse a preço das mesmas túnicas com que andavam cobertos. depois do maior ato de humildade: Si ergo ego dominus et magister? Desta maneira respondem (e podem responder os que seguem que Cristo não teve exercício algum do império e domínio temporal. Ambrósio para que quis e mandou Cristo aos Apóstolos que comprassem espadas. ainda que não tivesse outro uso mais que não querer o poderosíssimo Senhor usá-lo. e não só quanto a jurdicão e domínio. porém nós. como eles mesmos disseram: Ubi est qui natus est Rex Judaeorum? Vidimus enim stellam ejus in Oriente et venimus adorare eum. ponderando devagar a história evangélica. a que podemos chamar negativo. não só em ato primo (como diz a frase dos Teólogos) senão em ato segundo. pelo que respondemos negando a suposição. O primeiro seja mandar Cristo. ainda que o domínio temporal de Cristo não teve aqueles atos ou exercício positivo que costuma ter nos reis e príncipes da terra. por atos próprios de jurdição e domínio. e que o uso que teve daquele domínio foi a privação do mesmo uso. se pode também dizer. naquele verso que tão 155 .Anexo:Imprimir/ História do Futuro que a dignidade e jurdição real em Cristo não tivesse ato ou exercício algum em sua vida. como fazem os reis da Terra. poeta cristão da primeira Igreja. como se vê claramente em muitos lugares e exemplos do Evangelho. de ornar e mais aperfeiçoar o sujeito. temos por certo o contrário. que nunca teve nem havia de ter ato (qual é a potência que há nos indivíduos para a conservação da espécie). nem por isso se deve julgar aquele poder por baldado e ocioso. não indouta nem indiscretamente. perguntemos a S. E ter o domínio para poder e não querer usar dele (que é um ato heróico de humanidade e modéstia. e assim cantou Arato. Nesta conformidade entendem todos os Padres o mistério das três espécies de ouro. e o ouro como a rei. nunca visto até então no Mundo. E se não. porque muitas vezes o mais nobre e o mais generoso uso do poder é não querer usar dele. não só em quanto Deus. se não em quanto Rei. que para poder dizer. se não mui gloriosamente exercitado. porque serve. chamar os Reis do Oriente pela estrela. senão quanto ao uso e exercício dela. E se aquelas espadas só para este uso não foram ociosas. teve porém um ato excelentíssimo e um exercício contínuo. mas não queria. para que o viessem reconhecer e adorar por Rei. e contudo ninguém a nega nem pode negar em Cristo. que. de maneira que neste sentido (que nem é vulgar nem violento) podemos dizer que não careceu Cristo do uso do domínio temporal que nele consideramos. e por última confirmação da nossa opinião mostraremos. Bem assim como na humanidade do mesmo Cristo é certo que houve alguma potência.

e o comum consenso de todos os Padres e da mesma Igreja. a entrada dos mesmos reis em Jerusalém. na sua Relatio Theologica de universali Christi Regno. . da qual publicação foram os mesmos pastores os terceiros pregoeiros. com quatro pregões tão públicos e tão notáveis. myrrham etaurum regium. de anjos. judicium tuum Regi da. Ambrósio. respondendo·toda a milícia do Céu: Gloria in altissimis Deo ed in terra paz huminibus! Nas quais palavras todas não só apregoaram o nascimento e chegada ao Mundo do novo Rei. aos grandes e aos pequenos. que era Jerusalém. de reis. ambas supremas. nas cidades e nos campos. segundo estas duas jurdições. E em comprovação deste Reino de Cristo. Sacerdote Supremo. a coroa de Cristo. de ungido por Deus. et de his quae dicta erant a pastoribus ad ipsos. Lucas:Et omnes qui audierunt mirati sunt. Agostinho. com que o mesmo Rei se mandou apregoar na praça mais universal de todo ele. de pastores. E muito antes David. et justitiam tuam filio Regis. Recolhendo tudo o que tão largamente temos disputado (que foi necessário ser tão largamente) e reduzindo a concórdia quanto pode ser as opiniões de todos os Doutores. mas declararam também por to das as circunstancias de salvador. e da paz que trazia consigo. e no meio do mesmo Mundo. E a Igreja. Livro II. de descendente de David. se não do Reino e Império temporal. para que vejamos como. que era o lugar onde aquela cidade estava situada? A mesma publicação fizeram os Anjos nos montes e campos de Judéia. se não um pregão público e um Real! Real! por Cristo Rei do Mundo. se mostrou e publicou Rei e senhor de todo ele História do Futuro (Volume II. e receber adorações e tributos dos mesmos reis. et adorabunt eum omnes Regeç terrae. Reges Arabum et Saba dona adducent. Que ato pois mais próprio e positivo de rei. e que. entrando e saindo do Mundo. S. conforme a explicação de S. S. quando anunciaram aos pastores: Quia natus est vobis hodie salvator qui est Christus dominus. assinalando-lhes o caminho por onde haviam de ir? Mas passemos do nascimento de Cristo aos dias mais chegados à sua morte. e mandá-los como súbditos e novos embaixadores seus. se compõem. Jerônimo: Aurum. que havia de salvar e dominar o Mundo. thus. e não só do Reino de Cristo absolutamente. perguntando publicamente: Ubi est qui natus est Rex? que outra cousa foi. como se colhe claramente do texto de S. posto que alguns pareçam entre si contrários. que mandar-se publicar por tal. no Salmo que começa: Deus.Anexo:Imprimir/ História do Futuro bem pareceu a S. Finalmente. Jerónimo. alega David profeticamente no mesmo Salmo a adoração e tributos dos Reis do Oriente: Reges Tharsis et insulae numera offerent. como senhor supremo de todos. Este Salmo se entende literalmente do Reino de Cristo. como larga e eruditamente prova Alonço de Mendoça. e outra coroa de universal Senhor e Legislador in temporalibus. Capítulo VII) por Padre Antônio Vieira 156 Conclui-se que o Reino de Cristo é espiritual e temporal juntamente. diremos por última conclusão que o Império de Cristo é juntamente espiritual e temporal. de estrelas. que divulgaram por toda a parte o que tinham visto. in civitate David. ser ele o Rei prometido aos Patriarcas e anunciado dos Profetas. e ultimamente desobrigá-los da palavra que tinham dado a El-Rei Herodes. nas cortes e aldeias. no Hino da Epifania: Thus. segundo a qual se chama propriamente Supremo Rei. myrrham regique hominique Deoque. omnes gentes servient ei.

como direito descendente daqueles sacerdotes e daqueles reis que só eram feitos por Deus. foi ungido por rei de Israel David. Supremo Sacerdote e Supremo Rei. Este é o que viu mais distintamente que todos Zacarias na sua terceira visão.. tu fortitudo mea et principum doloris mei. unindo-se por verdadeira geração no sangue santíssimo de Cristo e sua mãe o tribo real de Judá e o sacerdotal de Levi. prior in donis. Daqui se entende maravilhosamente o mistério da ascendência e primogenitores de Cristo. se repartiu em dois filhos do mesmo Jacob. pois fica contada no I Livro Para maior inteligência desta matéria havemos de supor que. era ele o herdeiro legítimo do reino e do sacerdócio. que havia de andar encabeçado no primogênito de Ruben. Firmissime tenendum est carnem Christi ex utroque genere propagatam. se uniram outra vez em Cristo. prior in donis major in imperio. Desde este tempo se dividiram estas duas dignidades que haviam de estar juntas no morgado ou maioria de um só império (major in império) e o reino e o sacerdócio. porque na instituicão do Tabernáculo. e por indústria de Rabeca foi dada a Jacob. Lucas. posto que não viu nem lhe foi mostrado a quem se havia de dar. De maneira que ordenou a Providência Divina que na geração e ascendência de Cristo se tecesse o tribo sacerdotal de Levi com o tribo real de Judá. ou estas duas coroas. o qual mistério (para maior propriedade e majestade dele) se observou até nos escritores da mesma genealogia de Cristo. como consta do I capítulo de S. non crescas. rnajor in imperio. depois de o perder Saul. e em Levi a do sacerdócio.Anexo:Imprimir/ História do Futuro Este é o Reino universal que Daniel veio dar ao Filho do Homem (que é Cristo). fosse lavada de coroas e de tiaras. deste tempo da Lei da Natureza. como lhe disse o mesmo Jacob: Ruben. e a que Isaac quis também dar a seu primogênito Esaú.. foi privado dela. Agostinho no livro II de Consensu Evangelisarum. até que a tiara e a coroa. Daniel viu o Reino e a pessoa que o havia de dominar. que precedeu ao Templo. como gravemente notou e expressamente disse S. foi ungido por sumo sacerdote Arão. que era do tribo de Levi. capítulo II. como foi a que Abraão deu a seu primogênito Isaac. em castigo da irreverência que tinha cometido contra o tálamo de seu pai. havia de dar também Jacob a seu primogênito Ruben a mesma bênção. Conforme a este direito de sucessão. se conservou sempre o reino e sacerdócio. Nestas duas descendências de Arão do tribo de Levi e de David do tribo de Judá. e o número e distinção das coroas. e Zacarias viu o Reino e a pessoa. andou sempre o morgado temporal unido com o sacerdócio. insinuante Luca. e de ambos se compõe o império (assim o natural como o figurativo) que Ruben tinha perdido. foram reis e sacerdotes. como depois se cumpriu. que era do tribo de Judá. effusus es sicut aqua. Torno a repetir o texto e suponho a história. e um e outro vinculado aos primogênitos. ipsam quoque Mariam de stirpe David a liquam consanguinitatem duxisse dubitare utique non debemus. Cum autem evidenter dicat Apostolus Paulus: ex semine David secundum carnem Christum. e que a tela de que se havia de vestir o Verbo. quod cognata ejus esset Elisabeth. porque dos 157 . e este o Reino que Nabucodonosor também tinha visto encher o Mundo. ainda a título de geração natural. porque Nabucodonosor viu somente o Reino e sua grandeza. Mateus e do III de S. para que visse o Mundo que. e na instituição do reino. mas. et regum et sacerdotum. quando se desposou com a natureza humana. que foram Judá e Levi. quia ascendisti cubile patris tui et maculasti stratum ejus. primogenitus meus. quam dicit de filiabus Aaron. Cujus feminae quoniam nec sacerdotale genus tacotur. in quibus personis apud illum populum Hebraeorum etiam mystica unctio figurabutur. Estas eram aquelas bênçãos tão celebradas e tão pleiteadas que os Patriarcas davam a seus filhos. os quais. ficando em Judá a benção do reino.

com que o mesmo Deus o ungiu na união da divindade com a humanidade. quer dizer ungido. porque foi ungido Arão. chrisma. e Cristo. da Biblioteca Nacional Maquinações de Antonio Vieira jesuíta. temporal e espiritual. Mateus. tomo II p. depois de S. Jerônimo e S. E agora poremos aqui as autoridades dos Padres. e chama-se Cristo ungido. que é nome grego. que escreveu a geração real. com que o mesmo Senhor foi chamado e conhecido. André a S. que é nome hebreu. Um e outro nome. a S. porque foi ungido por Rei e Sacerdote Supremo. e chama-se Cristo ungido. Pedro: Invenimus Messiam (quod est interpretatum Christus) e esta foi uma das erudições em que a Samaritana se mostrou tão letrada: Scio quia Messias venit. como acima dizíamos. que é o animal do sacrifício. Porque Messias. que para este lugar reservamos: S. que é o rei dos animais. como diz S. pertence o homem. João no capítulo I. in quibus personis illum populum Hebraeorum etiam mystica unctio figurabutur. que eram as duas maiores. História do futuro. que se davam com a cerimônia da unção: o de rei. A de Rei e a de Sacerdote Supremo. Da unção de profeta já dissemos no capítulo VII do I Livro. como ungido. Gregório Papa. entre si unidos. antes e depois de vir ao Mundo. Três ofícios achamos na Escritura Sagrada. como. História do Futuro (Plano da História do Futuro) por Padre Antônio Vieira 158 Cópia do Ms. Lucas. foram duas firmas ou assinados públicos de um e outro império sacerdotal e real. são aquelas por que Cristo principalmente se chama ungido. ambos têm a mesma significação. e referindo as palavras de S. pertence o boi. Quinto Império do Mundo . O nome de Cristo e de Messias. como foi ungido Eliseu. und e Christi nomen elucet tanto ante etiam illa evidentissima significatione praenuntiatum Resolve-se quando começou este Império de Cristo e propõe-se acerca dele uma grande dificuldade. Agostinho no livro e capítulo pouco antes citado: Firmissime tenendum est carnem Christi ex utroque genere propagatam et regum et sacerdotum. 89. assim o de Cristo como o de Messias. id est. e a S. qui dicitur Christus. e com todas estas unções foi ungido Cristo. que escreveu a geração sacerdotal. notam comumente todos os Doutores. não porque fosse ungido com aquela cerimônia exterior com que os reis e sacerdotes eram ungidos por mãos dos homens. e o de Profeta. senão pela unção interior. Esperança de Portugal.Anexo:Imprimir/ História do Futuro quatro animais do carro de Ezequiel que significam os quatro evangelistas.

que se deva chamar o V. que da Terra.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 159 Livro Primeiro Nome. Questão 2.a Se o Império de Cristo na Terra é espiritual ou temporal? Resp.: Até o de Cristo.a Se o Império de Cristo. e declaração dele Questão 1.a Se na suposição que o Império Romano há-de durar até o Anticristo. afirm Questão 5.a Se na Sagrada Escritura está revelado algum Império. que foi o Romano? Resp. a que chamamos o Quinto? Resp.? Resp. .a Se no Capitulo I de Daniel é significado o Império do Anticristo na figura do chamado_ Cornuparvulum? ou o do Anticristo. Questão 4. que é espiritual e temporal juntamente. Questão 3. Questão 3. afirm.a Se o Império Romano há-de durar até a vinda do Anticristo? Resp. Questão 2.a Que Império seja este. Livro Segundo Definição do V Império. pode haver no Mundo outro Império que se chame o Quinto? Resp. afirm. que dizemos ser o Quinto. ou o do Turco? Resp.a Se o dito Império é diverso e totalmente distinto do IV Império do Mundo. é o Império do Céu ou da Terra? Resp. verdade e fundamento deste Império Questão 1. afirm. afirm.

e vai continuando em todos os que têm a mesma fé. Questão 13.a Quando começou.a Se teve Cristo exercício do dito império em quanto temporal? Resp.a Em que consiste a posse do dito Império? Resp.a Por que pessoa ou pessoas tem Cristo o exercício mediato do império espiritual? Resp. Questão 5. problem. imediato não. que começou desde os primeiros que creram em Cri st o . afirm. mas o mediato. assim espiritual como temporal. e começou desde o primeiro instante da sua encarnação.a Se há-de Cristo ainda ter alguma hora o exercício do dito império. que é. . posse. mas que nunca há-de ter o dito exercício pessoal. Questão 12. Questão 9.a Por que pessoa ou pessoas tem Cristo o exercício mediato do império temporal? Resp. Questão 7.a Se tem Cristo hoje exercício do dito império temporal e espiritual.a Se teve Cristo exercício do dito Império em quanto espiritual? Resp. Questão 10.a Se no dito Império espiritual e temporal de Cristo se distingue o domínio. exercício? Resp. ou se é possível? Resp. que é possível. e qual seja? Resp. que tem sobre todo o Mundo e sobre todos os homens. que pelo Sumo Pontífice e mais ministros da Igreja. que tem o exercício. Questão 6. que consiste em ser conhecido por fé e obedecido. afirm. Questão 8.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 160 Questão 4. Questão 11. que pelos príncipes temporais cristãos. e quando começou? Resp.. e como se continuou a dita posse? Resp. por sua própria pessoa .a Qual seja o dito domínio do Império de Cristo.

Questão 2. que pelas Escrituras. Livro Quarto Causas. . ou há-de ter outro e mais perfeito? Resp.a Porque a opinião do dito estado não é comum de todos os Padres e Doutores? Resp. Questão 5. Questão 8. sobre todas as gentes e sobre todos os reinos.a Se há-de haver no dito estado paz universal? E em todo o Mundo? Resp.a Como se prova este estado mais perfeito e consumado do Império de Cristo? Resp. Questão 3.a Se hão-de ser todos cristãos no dito estado? Resp.a Se a dita grandeza há-de ser simultanea e permanente ou sucessiva? Resp. que universal. que simultanea e permanente. que por muitos fundamentos.a Quanta haja de ser a grandeza do Império de Cristo no dito estado? Resp. Questão 7. afirm. meios e instrumentos com que se há-de conseguir o estado consumado do dito Império. que há-de ter outro estado mais perfeito.a Se este Reino e Império de Cristo há-de continuar sempre no estado presente. Questão 6.a Se hão-de ser todos pela maior parte justos no dito estado? Resp. afirm. afirm. Questão 4. completo e consumado.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 161 Livro Terceiro Grandeza e felicidades do dito Império Questão 1. por autoridade e por razão.

afirm. Questão 3. a extirpacão da seita de Mafona? Resp. gentílico e o judaico? Resp. Questão 4.a Se o primeiro meio da consumação do dito estado seja a conversão universal de todos os homens à Fé de Cristo e a extirpacão de todas as heresias do Mundo? Resp.a Como se prova em especial a conversão de todos os hereges. . afirm.a Como se prova em especial a conversão dos Judeus e a extirpação do Judaísmo? Resp. que pelas Escrituras e Doutores. afirm.a Se convertidos universalmente os Judeus hão-de ser restituidos à sua Pátria? Resp. Questão 10. que pelas Escrituras e Doutores.Anexo:Imprimir/ História do Futuro 162 Questão 1.a Se nesta conversão dos Judeus hão-de entrar também os Dez Tribos perdidos? Resp. que pelas Escrituras e Doutores. que pelas Escrituras e Doutores.a Como se prova em especial a conversão. Questão 6.a Se por meio da dita conversão universal se há-de consumar a união dos dois povos. afirm. Questão 5.a Como se prova em especial a conversão de todos os gentios e a extinpação da idolatria? Resp. Questão 8.a Se podem os Judeus 1icitamente esperar esta restituição mediante a Fé de Cristo? Resp. e a extirpação de todas as heresias? Resp. Questão 2. afirm. a extinção do Turco.a Se é conveniente ao bem da Igreja que a opinião da dita esperança se pratique? Resp. afirm. Questão 7. Questão 9.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro

163

Questão 11.a
Se então se cumprirá a profecia do texto—et erit unum ovile et pastor?—Resp. afirm.

Questão 12.a
Se a causa principal eficiente da dita conversão universal será o Eterno Padre? Resp. afirm.

Questão 13.a
Se concorrerá para a dita conversão o Espírito Santo com especial e nova uncão da divina graça? Resp. afirm.

Questão 14.a
Que parte terá nesta obra a autoridade e intercessão de Cristo e da Virgem Santíssima? Resp. que muito grande.

Questão 15.a
Se o instrumento principal humano da dita conversão será o sumo pontífice santo e muitos pregadores evangélicos? Resp. afirm.

Questão 16.a
Se concorrerá para a dita conversão algum príncipe temporal, com a sua autoridade, o seu poder e as suas armas? Resp. afirm.

Questão 17.a
Se este príncipe temporal será imperador e monarca universal do Mundo? Resp. afirm.

Questão 18.a
Se o dito imperador universal se poderá chamar Vigário de Cristo no temporal? Resp. afirm.

Livro Quinto
Tempo, duração e ordem do dito Império

Questão 1.a
Se o estado consumado do Quinto Império há-de ser antes ou depois do Anticristo? Resp. que antes.

Questão 2.a
Qual dos dois povos se há-de converter primeiro universalmente, para a consumação do dito I:npério, se o gentílico, se o judaico? Resp. que o gentílico.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro

164

Questão 3.a
Quanta seja a duração do dito Império, depois de consumado? Resp. que até o fim do Mundo.

Questão 4.a
Quando há-de começar a dita consumação do Império de Cristo? Resp. que na extinção do Império turco.

Questão 5.a
Se do tempo presente até o da vinda do Anticristo pode e há-de correr um grande número de séculos? Resp. afirm.

Livro Sexto
Terra em que se há-de fundar o dito Império em quanto temporal, e qual há-de ser a cabeça dele

Questão 1.a
Se o dito Império temporal há-de ser na Europa ou em alguma das outras quatro partes do Mundo? Resp. que há-de ser na Europa.

Questão 2.a
Em que província da Europa se há-de fundar o dito Império temporal de Cristo ? Resp. que em Espanha.

Questão 3.a
Em que reino de Espanha se há-de fundar o dito Império? Resp. que em Lisboa.

Livro Sétimo
Pessoa que será o primeiro Imperador instrumento temporal do dito Império

Questão 1.a
Se a dita pessoa que seja imperador será o imperador de Alemanha? Resp. negativ.

Questão 2.a
Se a dita pessoa há-de ser El-Rei Cristianíssimo de França? Resp. negativ.

Questão 3.a
Se a dita pessoa há-de ser El-Rei Católico de Espanha? Resp. negativ.

Anexo:Imprimir/ História do Futuro

165

Questão 4.a
Se a dita pessoa há-de ser o Sereníssimo Rei de Portugal? Resp. afirm .

Questão 5.a
Se o Rei de Portugal há-de ser El-Rei D. Sebastião? Resp. negativ.

Questão 6.a
Se o dito Rei de Portugal há-de ser El-Rei D. João IV? Resp. problem.

Questão 7.a
Se o dito Rei de Portugal há-de ser El-Rei D. Afonso ou o Infante D. Pedro? Responde-se: Vejo subir um Infante
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