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TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO

São Paulo

 

Registro: 2017.0000872706

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação nº 0001790-77.2014.8.26.0115, da Comarca de Campo Limpo Paulista, em que é apelante IVONE BORGES MOTA DA SILVA (JUSTIÇA GRATUITA), é apelado RAPIDO LUXO CAMPINAS LTDA

ACORDAM, em 16ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: "Deram provimento em parte ao recurso. V. U.", de conformidade com o voto do Relator, que integra este acórdão.

O julgamento teve a participação dos Exmos. Desembargadores SIMÕES DE VERGUEIRO (Presidente) e MIGUEL PETRONI NETO.

São Paulo, 10 de outubro de 2017.

JOVINO DE SYLOS RELATOR Assinatura Eletrônica

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo Apelação nº 0001790-77.2014.8.26.0115 Apelante: Ivone Borges Mota Da

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo

Apelação nº 0001790-77.2014.8.26.0115 Apelante: Ivone Borges Mota Da Silva Apelado: Rapido Luxo Campinas Ltda. Comarca: Campo Limpo Paulista Voto nº 30866

transporte

coletivo responsabilidade objetiva da ré autora sofreu abalo psíquico e dores na região da coluna lombar, com necessidade de acompanhamento médico cabível indenização por danos morais danos materiais, danos estéticos e lucros cessantes não comprovados demanda parcialmente procedente sucumbência recíproca provimento parcial do recurso.*

*INDENIZATÓRIA

acidente

em

1. Cuida-se de ação de indenização por

ato ilícito c.c. danos materiais, danos morais e danos

estéticos, movida por Ivone Borges Mota da Silva em face

de Rápido Luxo Campinas Ltda, alegando, em síntese, que

em 16.10.2013 retornava de sessão de fisioterapia em

coletivo da ré, que freou bruscamente quando passou por

um redutor de velocidade, tendo ela caído, sentido

fortes dores e ficado “travada”. Após insistência de

outros passageiros, o condutor parou o veículo e chamou

ambulância no local, tendo sido conduzida para o

Hospital das Clínicas, recebendo atendimento e liberada

no fim do dia. Ainda sentindo dores, no mesmo dia,

dirigiu-se ao Hospital Paulo Sacramento, onde afirma que

foi diagnosticada com “trauma na região da coluna em

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo razão de forte impacto”. Dois dias após o

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razão de forte impacto”. Dois dias após o acidente retornou ao médico para nova consulta e exames, recebeu receita de medicação e foi encaminhada para fisioterapia. Afirma que os medicamentos foram pagos pelo funcionário da empresa de transporte, porém não

teve mais assistência da ré. Assegura que sofre fortes dores na coluna, inclusive com dificuldade de locomoção. Aduz ainda que após o acidente não conseguiu retornar para o emprego de doméstica, onde trabalhava desde 01.04.2011. Destarte, apoiada na responsabilidade objetiva do transportador, bem como nas regras do CDC, requer a inversão do “onus probandi”, bem como a condenação da ré ao pagamento de danos morais no importe de R$ 72.400,00; lucros cessantes estimados em um salário mínimo mensal em caráter vitalício ou até completar 75 anos, o que totaliza R$ 147.696,00; danos materiais no valor de R$ 10.000,00; e danos estéticos na quantia de R$ 30.000,00.

2. Citada, a ré apresentou resposta

acompanhada de documentos (fls.63/93). Réplica da autora

a fls.117/123.

3. Saneado o feito, foi deferida a

produção de provas pericial (fls.131) e oral (fls.169),

vindo aos autos o respectivo laudo (fls.153), tendo as partes se manifestado a fls.161/164 e 165/168. 4. Durante a instrução foram ouvidas as testemunhas arroladas pelas litigantes (fls.180, 194, 210 e 225), bem como juntados novos documentos pela parte autora (fls.181/182).

5. A r. sentença de fls.251/259 julgou

improcedente a demanda, carreando à autora o pagamento das custas processuais e honorários advocatícios fixados

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo em R$ 800,00, observada sua condição de beneficiária

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em R$ 800,00, observada sua condição de beneficiária da gratuidade judiciária, nos termos do art. 98, §3º do NCPC.

6. Irresignada, apelou a vencida para reforma do “decisum”, insistindo nos pedidos anteriormente deduzidos. Afirma que restou comprovado nos autos a ocorrência do acidente, nexo de causalidade e a responsabilidade da empresa de transporte. Acrescenta que a perícia médica confirmou a redução da mobilidade em flexão, o que reduziu sua capacidade

laborativa, uma vez que trabalhava como doméstica. Alega ainda que no decorrer do processo foi aposentada por invalidez. Sustenta que sofreu abalo psicológico, perdeu vários dias de trabalho, teve que passar por vários médicos e fazer exames. Ademais, alega que a testemunha GABRIELA confirmou a freada brusca do coletivo, sua queda e ida ao hospital de ambulância.

7. O recurso foi recebido, processado e

respondido (fls.270). Os autos subiram em seguida. É o relatório.

8. O apelo merece parcial acolhimento.

De fato, na hipótese em tela vigora a responsabilidade objetiva da ré, seja porque se trata de contrato de transporte regido pelas regras do CDC (Lei 8078/90), seja porque é empresa prestadora de serviço público, que responde pelos danos causados por seus agentes consoante previsto no art. 37, § 6º da CF. A vítima não está obrigada a provar a culpa do transportador, bastando a comprovação do dano decorrente da falha na prestação do serviço. E, nesse ponto, incontroversa a ocorrência do acidente, a queda da autora, com consequente socorro em

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo ambulância solicitada pelo condutor do coletivo (fls.25) e

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ambulância solicitada pelo condutor do coletivo (fls.25)

e encaminhamento ao Hospital de Clínicas (fls.30).

Também restou comprovado nos autos que a autora retornou ao hospital em 18.10.2013 e recebeu receituário de medicamento (fls.32), tendo ela confirmado que foi pago por preposto da ré (fls.05). Há ainda outros documentos que indicam retorno ao médico e realização de

ressonância magnética após a data do acidente (fls.33/39

e 42/44).

9. Nessa situação, afigura-se mesmo

cabível indenização por danos morais à passageira, pois

a queda no ônibus não só causou sofrimento momentâneo a

ela, como também transtornos que se prolongaram no tempo. Ou seja, além do abalo psíquico pelo qual passou

a vítima na ocasião do acidente, que inclusive teve que ser socorrida de ambulância, conforme confirmaram as

testemunhas ouvidas no feito, sofreu com dores durante

os meses seguintes.

10. Todavia, não merece prosperar a pretensão indenizatória de lucros cessantes e danos materiais. Isso porque, apesar da autora afirmar que

após o acidente não teve mais condições de trabalhar como “doméstica” e acabou se aposentando por invalidez, deve-se ter em conta que ela já possuía debilidades físicas antes da queda no coletivo, conforme se nota pelos documentos acostados a fls.31 e 54/55, inclusive

na ocasião retornava de sessão de fisioterapia (fls.04).

) a autora

Também o laudo pericial deixa claro que “(

é portadora de escoliose toraco-lombar descompensada na

coluna vertebral. O acidente sofrido em 16.10.2013 não

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo trouxe prejuízo à situação funcional na coluna vertebral

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trouxe prejuízo à situação funcional na coluna vertebral da autora” (fls.156).

11. Do mesmo modo, não há nos autos prova de que a requerente ficou afastada do emprego em razão do acidente, pois a cópia da CTPS capeada a fls.24 indica apenas sua admissão em 01.04.2011. Ademais, o documento de fls.45 indica que o benefício de “Auxílio- Doença” junto ao INSS só foi solicitado em 11.12.2013, com marcação de perícia para 26.12.2013. Portanto, não é possível concluir que eventual afastamento do trabalho se deu em razão do acidente, ou então, por problemas de saúde que a autora já apresentava. A aposentadoria por invalidez fora concedida em 27.01.2016 (fls.182), não existindo prova de que decorreu do acidente sofrido.

último, também não restaram

comprovados nos autos eventuais danos estéticos em decorrência da queda no coletivo.

12. Por

13. Nessas circunstâncias e mediante

esses critérios, resolve-se alterar a solução singular para decretar a procedência parcial da demanda, condenando a ré ao pagamento de indenização por danos morais à autora na quantia de R$ 10.000,00, atualizada pela Tabela Prática deste TJSP a partir deste julgado superior e acrescida de juros moratórios de 1% ao mês, a contar da citação. Já os pedidos de danos materiais, lucros cessantes e danos estéticos permanecem mesmo afastados.

14. A sucumbência passa a ser recíproca, rateando-se igualmente as custas e despesas processuais,

TRIBUNAL DE JUSTIÇA PODER JUDICIÁRIO São Paulo devendo a ré pagar ao patrono da parte

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devendo a ré pagar ao patrono da parte autora verba honorária de 20% sobre o valor da condenação dos danos morais, já considerado o trabalho adicional nesta instância revisora (CPC/15, art.85, §§ 3º e 11). Já a autora continua a pagar ao patrono da ré honorários advocatícios fixados em R$800,00, observada sua condição de beneficiária da gratuidade judiciária, inclusive quanto às custas e despesas processuais.

15. Com esses fundamentos, dá-se parcial provimento ao recurso.

JOVINO DE SYLOS

gm:js

Relator