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CoordenaÇllo Geral

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Cooederlt1fiJo Editorial

Ir. Jacinta"Throlo Garcia

Coordenaf./Jo Executivn

Luzia Bianchi

Garcia Coordenaf./Jo Executivn Luzia Bianchi Comitê Eilitorial Acadêmico Ir. Elvira Milani -
Comitê Eilitorial Acadêmico Ir. Elvira Milani - PresidCtlte Glória Maria Palma ir. Jacinta Turolo Garcia
Comitê Eilitorial Acadêmico
Ir. Elvira Milani - PresidCtlte
Glória Maria Palma
ir. Jacinta Turolo Garcia
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José lobson de Andrade Arruda
~ . Marcos Virmond
Maria Arminda,do Nascimento Arruda

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As mulheres ou ~Os

• • • • • • : As mulheres ou ~Os silêncios da história • •

silêncios da história

P7à1f, I!)eb ?(2k~

Michelle Perrot .

Tradução

Viviane Ribeiro

OEDUSC

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P461m

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Pc:rrpt, MicheUt.
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A3 mulherts o~ 0$ siltnaos da história I Michdl e Pc:rrot i tradu çAo
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9
lNTRODUçAO
Viviane Ribdro.•• Bauru, SP; EDUSC, 2005.

520 p.

; 23 'em : •• (Colrçio História)

Inclui bibliografia.

Traduçjo de: 1,.($ ftmrnts oula silencu de I'hisloirc:. c l998

ISBN'85-7460-251-5

1. Mulheres - CondiÇ'Õnsodai. - Evoluçto hist6rka.I:1l1UIo. 1I.Série.

",1.

ISBN (original) 2

Q8.08.0010-8

I

Copyrighte Flrimmarion, 1998

Copyrighte (lr3duçâo) EDUSC. 2005

-

"

CDO 3010412

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I

I

fuduÇiO realizada a p.ulir da tdiçdo de 1998.

Direitos aelusivos dI! publicação cRl,lingua portuguesa

M 'OBrasil adquiridç.s pela

EDITQRA DA UNlVERsIDAD6 DO SAGRADO CORAçAÓ

, Rua Irmã Arminda, lO-50 CEP 17011 - 160 - Bauru - $P

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Fone:

(I4)32l~-7) II ~- Fax (14) 3235-7219

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PARTE 1

Traços

CApITULO I

33 Práticas da memóriá feminina

CAPITULO 2

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45

. As filha s de K.r1 Marx: cartas inéditás

CAPITULO. 3

89

Coroline reencontrado

,-

CAPITULO. 3 89 Coroline reencontrado ,- .- 93 CAPITULO 4 Caroline, uma jovem do Faubourg

.-

93

CAPITULO 4

Caroline, uma jovem do Faubourg -Saipt-Germain durante o Segundo Império .

-

,

,

AediÇão original francesa da presente obra traz dois capltulos que não se encontram

aqui traduridos - os artigos Ma filie Ma"ie e.Le.s !emme.s elleurs imagcs ou le regam

des femme.s. Esta aus!ncia deve-se ao' fato de as editoras responSáveis pelos originais

não terem cedido os direitos de: publicação para esta edjç40 traduz.ida. (N.E. )

,

.

5u"itlrio ,) I i I
5u"itlrio
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I

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5umdrio CAPiTULO 14 3~7 As mulheres e a cid~daniana França: histó ria de u;11a exclusão
5umdrio
CAPiTULO 14
3~7
As mulheres
e a cid~daniana França: histó ria de u;11a exclusão
'
,
CAPITULO '15
343 O gênero na cidade
PARTE 4,
Figuras
CAPITUro 16
365 Flo ra Tristan, pesquisadora
r CAPITU,-,? 17
38 1
Sand: um a mulher na política
PARTE 5
Debates

PARTE 2

Mulheres no trabalho

,<

,

( CAPITOL0 5

155 Greves feminin as

/

/

CAPiTULO 6

.

.171

1

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5 155 Greves feminin as / / CAPiTULO 6 . .171 1 I ! I /

O elogio ! áa dona - d e-cas a "no di sc ur so dos operário S- franceses no ~cuJo 19 ,

CAPtruLO 7 CAPiTULO 8 _ CAPITULO 9 ,
CAPtruLO 7
CAPiTULO 8 _
CAPITULO 9 ,

A mulher popular rebelde

'Mulheres e m'áquin as no s,éculo 19

Trabalhos de mulll eres na .

197

,223

I

I

241 Da ama-de-leite à funciOJlária 'de escritório

França do sétulo 19 \

CAPiTULO l O

251 O qtle é um trabalho de mulher?

' PARTE 3 I CAPITULO li 263 Q CAP IT ULO J2
' PARTE 3
I CAPITULO li
263
Q CAP IT ULO J2

Mulheresna cidade

'j

C APITULO 18 435 No front dos sexos: um co mbate duvidoso I e CAPITULo
C APITULO 18
435
No front dos sexos: um co mbate duvidoso
I
e
CAPITULo 'I 9
_
447 Co rp os s~ bjugados
.
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CApiTULO 20 '
,,'
I
~
Público ; privado e re~açõ ~s entre o s _sexos
CApiTULO 2 1
467
Jdentidade;-i~aldade;- rillerença: ' o o lhar da H i sr6ria

' Poq. r dos ho'mens, força da s mulheres? O exemp lo do sécu lo 19

.'

'

CAPITULO 22

,, \~:/ salf

481 U m a hi stó ri or sem afron t am ento s

\3

CAPiTULO 13

A palavra piíblica da s m'ulh~ res

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1

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CAI!ITULO 23

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~ Michel Fou , ca ult ~ a h~st6ria.da s ~ ulheres.'-

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INTROD{JçÃO

,

Silenciosas, as mulheres? - Mas-elas são as únicas que escutarnds, dirãó

algun s. de nossos contempor~neQS, que; co ' m certa angústia, têm a impre ssão

-.

de SU;t irresistível ascensão e de sua fala invaso{a. "Elas, elas, elas, elas, sempre elaS,
de SU;t irresistível ascensão e de sua fala invaso{a. "Elas, elas, elas, elas, sempre
elaS, vorazes, tagarelàs
::' ma s não somente nos salões de chá, transbordando
agora do privado para o público"do ensino Par.a o pretório, dos cbnve~tospara
. a mídia e até mesmo, ó Cfcero, Sajnt-Just e Ja urês,
para O Parlamen to .
.Evidentemehte,.~rrupçãode uma presença e de uma fala f~miriinasem
locais que lhes eram até então proibidos. ou pouco familiares. é uma inQya~Q
9 0 sé,,!lº J9 Que muda o horiwnte.sonoro. Subsistem, no entanto, muitas zo-
nas mudas e, "_0que se refere ao passàdo, um oceano de silêncio, ligado à pàr-
tilha desigual dos ,traços, da memória e, ~inda mais, da História, êste relato
que, por muito tempo,·"esqueceu" as mulheres, como se, por serem de~tinadas
à .obscuridade da reprodução, i neriarráveJ, elas estiv:essem fora do tempo, "'ou ao
menos fora do aconteámtnto.
, inf . · erá ·'o Vi o mas o Verbo eus e Homem. O silêncio 'é o
.comum das mu
eres.
e convém à sua posição s~cundáriae subOrdinada. Ele
cai bem em seus rostos, levemente sorridentes, não defórmados' pela imperti-
n ê ncia do risQ barulhento e viril. Bocas temadas. lábios cerrados, pálpebras
-baixas, as mulheres só podem chorar, deiXar as lágrimas correrem como a água
de uma inesgotável dor, da qual, segundo Midlelet, elas "'detêm o sacerdócio'~
O silêncio é, um mandamento reiterado através dos séculos pelas -reli -
giões, pelos sistemas poHticos e pelos manuais de com·portamento. Silêncio das
-I

SA~RAUTE, Nath,/ie. Tropismt:$. Pa'\': GalJim, rd, 119--1. p. 15. X, La PMi,de.

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Introdlj fdo
Introdlj fdo

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IlIIrodll(<lo

ele pesa mai s fortemente sobre elas. em razão da da narrativa) fala-se pouco ~elas
ele pesa mai s fortemente sobre elas. em razão da
da narrativa) fala-se pouco ~elas e ai n -
um h Oillem qqe s e acomoda com uma
s:irc un stan ciadas contrasta com a abu'ndân cia dos dis-
Idade Méclia "Veremos as perplexidades de um Gear·

.

11

mulheres na igreja ou no templo; .maior aind a n a sinagoga ou n a
mulheres na igreja ou no templo; .maior aind a n a sinagoga ou n a m esquita ,
,
o nde ela s não pod em ne m m~smo penetrar na hora da s o rações. Si lênci o
na s
assemb léias políticas povoadas de hQm~
Quu!e
as tQ.mam de assalto com s'l.a
( logüênda masculina. Silêncio no espaço público onde sua intervenção co le.:.
tiva é assimilada à histeria do grito e a uma atitude barulhenta demais 'Como·a
da jjvida fácil'~Silêncio j até mesmo na vida pri vad a, quer se trate do salão do
f
séc ul o 19 onde ca lo:-se a co nversa ção m a is
igu alitári a da elite das Luzes, afas-
tada pelas obrigações mundanas. q1}e o rd enam que as mulheres evitem os as-
suntos maif quentes - a po~tica em primeiro lugar - suscetíveis de perturbar
a co nvivialidad e, e que se limite l}'l às
conveni ências da po lidez. "Seja bela e cale
I ,
a boca", aconselha-se às m oças ca sa d ~ ira s, para que
co mete r indisc ri ções.
evitem dizer b obage n s o u
I
,
Evicle'ntem ente as mulheres n ão respeitaratn
estas injun ções . Seus .sus-
I
sur ros
e se u s murmúrio s correm -na casa, in sinuam- se no s vil arejos, fazedores '
r
de boas o u má s reputa ções, ciTculam n a cid ad e
mi sturado s ao s barulhos do
I
me rca do o u da s loja 's, inflados às vezes por sus peitos e ins idi osos r um ores que
flutu am nas margens da opinião. Teme-se sua co nversa fiada e sua tagarelice,
formas , no entanto, desvalo~izadas da fala. Os dom i n a do s p ode m se mpre , es -
quivar-se, desviar as proibições, preçncher os vazios do ,poder, as lacunas da
Hi s tória. Im agina-se, sà be-se ' que : ~s mulhere s nãó deixaram de fazê-lo . Ere-
qüe nt e mente , t ambé m , e1a s~fize ram de se u s il ê n cio uma arma. '
Todavia, sua postura normal é a escuta, a espera, o guardaras palavras
no fundo de si mesmas. Ace itar, conformar-se, ob ed ece r, subm e ter-se e ca lar-
se. Pois este silêncio, imposto pela ordem simb ólica, não é somente o silêncio
da fala, mas t~bém o_da expressão, gestual ou escriturári a. O corpo das mu-
lheres, sua cab~ça, seu ro sto devem às vezes ser co be rtos e até m es m o velados .
'''As mulhere s são fe ita s para esconder a su a vida" n a so mbra do gineceu. do -
ço nvento o u da casa. E O ~cesso ao livro e à escr it a, m odo de co munica ção dis- .
tancia~a.e serpefltina, capaz dç enganar as,c1atisura~e penetrar na intimidade
mai s 1)e m guardada, de perturbar um im ag in ário se'm p r e di s po sto às t e nta ç ões
I
-I
'
I
do sin h ô,,, foi- lh es p o r muito ,tempo
recu sado, ou parcimonio sa ment e ce dido ,
-l-
,
como um a porta entrea1?erta parfl o infinito do d êsejo.
I
Po is o
sil ênci o era ao me sm o
tempo disc iplina do mund o. das fãinUias,
I
e
dos co rp os,
regra
casa abafam os gri'-
j
tos da s mulheres
te não se q u eixa,
e
políticã, social, famili ar - as pa redes da
das crianças a'gredidas -, pessoal . Ul1la
mulher
!
o ão fa z co nfidência$, exceto, para as ca(ó li cas, a
co nveni en-
se u co nfes-
lo'
,
'
I
so r, não se entrega. O pudor é su~ virtude l o silêncio, sua honra, a pOlito de
se to rnar um a segunda n atureza "A imposs,bilidade d e faJar de si mesma aca-
I
I
oa por abolir o se u pr6pri~ser,.ou ao men4s, o que se pode saber dele. Como "
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lhar o sexo, que

aq uel as velhas mulh eres fechadas em um mutismo de além-túmulo, q ue não

se pode discernir se ele é um a vontade de se calar, uma incapacidade em co- munkar-se ou. um a ausência de um pensamento qu e foi d estruid o de tanta impossibilidade de se e.,xpressa r.

As mulher es n ão es t ão soz inhas n es Le s il ê n c i o profundo. Ele e nvol ve o continente perdido das vidas tragadas pelo esquecimento em que se aniguilà a

ma ssa da humanidade Mas

desigualdade d"s sexos, esta "valênàa diferencial" (François Héritier) que es· trutura o passado das sociedades. Esta desigualdade é o primeiro dado sobre o

qua l se enraízâ um segund o dado: a defi ciência dos traços rela tivos às mulhe- res e qu e dificulta tant o a sua apreensão no tempo, ainda que esta deficiência seja diferente dependend o da época. Porque elas apareçe m men os no espaço

~

públi co, objeto mai or da 'observaçãQ e d a m e n os caso qu e m . faça o relato s eja

costumej(a ,ausência 1 serve- se de um ma sc ulin o universal , de estereó tip os glo- ba liza nte, ou da ,'up os t. uniàd ade d é um gênero: A MULHER. A falta de in -

formações co n cre tas e

c ur sos e com a p~oliferação de image n s. A5 mulheres são m ~is imaginadas do que descrit~ ou ço ntad as, e fazer a s u a história é, antes ,de tu do, in evi t avel- me nte, chocar -se contra es te bloco de repre sen tações que as cobre e que é pre- ciso necessa riamente an alisa r, se m sa ber como ela s m es m as as via m e as vi - viam, co m o fi zeram , nes tas circ un stância s, sob retud o os hi storiadores daAn-

ti gü idad e, como François Lissarague des ve ndando a ,hi ~t6 ria em quadrinl}os

dos vasos gregos, ou da

ges ~uby)aó perscrutar as inlagehs medievais ou de um PaUl Veyne,.ao disse- car os afrescos da Vila dos Mistérios. Ambos co nclu em por um caráter masc u-

lino 'da~ obras e d~ ol~ar e interrogam -se quanto ao grau · d e ~desão da s mu-

lh eres a es ta figuraç ão dela s-mesma s.

.

Outro exempl o d e opacidade, mai s contempo râne o: o das estatisticas.

Elas sã o .na mai o r p arte da s vezes assexu adas. O recen sea m ento do s foros, du-'"

de fa-

exploração" sem :deta- com-o o dos "tr aba lha-

dores diaristas': entre os quais havia tantas serventes. As mulheres de agricul-

rante o.Antigo Regim e, o u o da s famílias, n O"séc ul o ]9, repousa n o ch efe

mília . As estatlstiças ag rícolas enumeram os "chefes dê:

se sup õe obrigatoriamente masc ulino,

tores ou de artesãos. cuj o papel eco n ômico era co n siderável, não são recensea- das, e se u trabalho, c,Onfundid o com as tarefas dom ésticas e auxiliares, torn a-

mulher es n ão "co ntam '~ E exis te aí muito m ais Ainda h oje, n~s minjs tério s,'é preciso (nsistir

se ass im invi si vel. Em s uma , as do que simples inad ver tên cia.

para qu~.as estatístiQls sejam sex:uadas.

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'1'lIrqAuf~

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- , I I I 1 -, , - ~-. '1'lIrqAuf~ J"trodl~ Enfim, algumas fontes são,

Enfim, algumas fontes são, por definição, inexistentes para as mulheres:, os róis da circunscrição e dQs conselhos de revisão, tão preciosos para o conhe- cimento da descrição flsica dos jovens do século 19, ou ainda as listas eJ.eito-

flsica dos jovens do século 19, ou ainda as listas eJ.eito- gredos. Por pudor, mas também

gredos. Por pudor, mas também por autodesvalorização, elas intedorizavam, de certa forma, o silêncio que as envolvia. O que Marguerite Duras evocou enr

que as envolvia. O que Marguerite Duras evocou enr La Ma"ladie de la mort e Nathalie

La Ma"ladie de la mort e Nathalie Sarraute, tão atenta aos murmúrio~das rnu~ Iheresj em toda a sua obra. Entretanto, a 'consideração crescente da vida privada, familiar ou pes- soal, modi~cou o olhar negligente que se tinha sobre as correspondências ou

mis, I?~is as mulheres votaram apenas tardiamente (na França, a;n 1944) . Por

isso, Alain Corbin, desejanp.o fazer a história de um desconhecido, de imediá-"

to descartou as mulJ1eres. em razão desta carência de traços. Traços que já eram muito
to descartou as mulJ1eres. em razão desta carência de traços. Traços que já
eram muito poucos'para Louis-FrançoisPinagol, o'tamanqueiro da floresta de .
o s diários íntimos. A ação d,e Philippe .Lejeúne e a acolhida que ele recebeu são
Belleme cujo '.'mundo" de conseguiu recQnstituir, e que seriam completamen-
te inexistentes para a sua mulher, Anne P6té, de quem tudo é ignorado:NQcn-
tant,o, as mulheres existem naquele vilarejo do Perçhe ·do qual ele encbntrou
até a memória sonoraj mas em gruros - fiandeiras; caçadoras clandestinas, ar~
ruaceiras dos tumultos frumentkios ou religiosos - e não como pessoaS, como
se elas não o fossem, o que coloca o problema de seu reconhedmento:indivi~
dual. t preciso toda a indisciplina, sobretudo sexual, da.prima Angélica para
chamar a atenção dos guardiães da ordem. 1 Assim, a matéria·que constitui as
fontes integra a desigualdade sexual e a marginalização ou desvaloriz.1ção das
atividades femininas.
muito significativas a este
re s peito .~ As mulheres são, ao mesmo tempo , prota -
gonistas e beneficiárias deste esforço: AI; descobertas, depÓsitos e publicações
multiplicam-se, obra das mulheres sensibilizadas pela história de seus ances-
trais e desejosas de reencontrá-los,' 'e até mesmo ae torná-los visíveis, como
num ato de justiça e de poesia.
. A literatúra., esta epopéia do coração e da famllia, é, felizmente, infini-
tament~mais rica. Ela nos fala do coti~iano e
dos ~Cestadosde mulher",' inclu-
sive pelas muUleres que nela se introrpeteram. Pois a escuta diretd das."pala-
vras de muLher"7depende de seu acesso aos meios de expressão: o gesto, a fala,
,
~
a escrita. O uso desta.última, essencial, repousa sobre o seu grau de alfabetiz ,-
Este defeito de registro primário é agravadô por um déficit de conser~
vação dos traços . Pouca coisa nos arquivos públicos, destinados aos atos da ad~
ministração e do poder, onde as mulheres aparecem ape.nas quando pertur-
bam a ordem, o. que justamente elas fazem menos do que os homens, não' em
virtude de uma"mitureza rara, mas devido à sua fraca presença, à sua hesitação
também em dar queixa quando elas são as vitimas. Conseqüentemente, os ar~
. quivos de polícia e de justiça; infmitamente preciosos para oconhecimento d~
pov~,homens e muiherês/ devem ser analisados até na forma sexuada de seu
abastecimento.
Os arquivos privados conservados nos gran~~sdepõsitos públicos: são
quase exdusivamente os dos "gra ndes homens", políticos, empresários, escrito-_
ção e o tipo de escrita que lhes é concedido. Inicialmente isoladas"na escrita"
privada e familiar, autorizadas a formas específicas de escrita pública (educ.,-
ção, '.!lridade, cozinha,"etiqueta
), elas se apropriaram progressivamente de
todos os campos da comunicação - o jornalismo por exemplo' - e da criação:
,I
, 'I
,
res,
criadores. Os arquivos famjliares, até recentemente, não haviam chamado
poesia, romance sobtetudo. história às vezes, ciência e filosofia mais dificil-
mente. Debates e combates balizam estaS travessias d~ uma fronteira que ten-
de'a se reconstituir, JB~dando ,de lugar. " )
O volume e a natureza das fontes das mulheres e sobre as muJ}leres va~
r .iam conseqüentemente ao longo do tempo: Eles ~são por S! . mesmos índices de
sua presença e sinal de uma tomada da palavra que se-amplia e faz recuãr o si-
lêncio, às vezes tão intenso , que Ghegamos a nos perguntar: " Uma história das
mulheres seria possível?': O que implica em um outro uso das fontes que se
-
-
uma /ãtenção particular. Ao longo de mudanças, destruições maciçfls foram
provocadas por ;herdeiros indiferentes por 'muito tempo, ou at~~esmq pel<is
próprias mulheres, pouCO pre . Qcu padas em deixar traços de seu~ eventuais se-
4
'I
A mediateca de Am~rieu-en-Bugey (OI 500) abriga 0$ arquivos da A$soÇiação
para a autobiografia criada."por Philíppe u;eune e publica La Fllute d Rousseau. •
5
A título de exemplo recente, cf. DEGOUMOIS, Valy. Ainsi furent-e1ItS. Dtstirts au
fêmi"in.
Saint-G ingolph , C H: Mitions Cebédita, · 1998 . (~ U. Archives vivantes)
2 CORB IN, A1aín: Le Monde
r~,rollvide LQuis-François P;nag~t. Sur fes troces d'un
incor,"u (1798-1876)
Paris: FlammôU'ion, 1998.
~
HEINICH, Nathalie. ltals de femme
L'ide~titéjét1li"ine 'dans la flCtiotl occiden ta le.
,
Paris: Gallimard. 1996.
3 Como moStram os trabalhos de Arlett~Frage. de tlisabeth Cla"cric c Piem~
7
Mona Ow uf, Paris: Fayard, 1995.
~ mai$On ~de Anne-Marie $ohn, ChrysalifltS. Femll1ts dans '!l vie privée XIXi -)(Xt
sllcfes. ParIS: Sorbonnc, 1996,
1.\ '"
8
VEAUVY, C hristine õ PISANO, Laura. Paroles oll bliées. Paris:"'. Colin, 199'7.
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UI' M I.I
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deve bUSc.1r,
ler diferent e"mente, suscitar até rn es mo para os período s recentes,
s
il ên cio c úmpli ce. Pouêo ilJ1po rta . O p os iti vismo d e fim d e séc ul o afast a estas
como a história chamada de "oral" tentou fazer.
Assim', longe de ser fruto do acaso, a constituição do Arquivo, da mes-
palàvras vãs de uma
Marc Bloch e Lucien
imaginação' romântica. Q uanto aos
Febvre, ao substituir o político pelo
Anllales ( 1929) de
econômico e o s o-
ma forma que a consti tui ção ainda mais sutil da Memória, é o resultado de
um a sedimenta çãO seletiva prod uzida pelas relações de fo rça e pelos sistemas
de
cial, não realizam grande ruptura neste aspecto, a despeito das .brilhantes
. ab e rtura s de Lucien Fehvre nesta direção. 10 Mulheres. relações ent re os sexos,
.,,-
,
,
O
m esm o ocorre
no que concerne à n ar rativa histó rica, o utro
uns nos outros, _
nível des-
tes s ilênci os en caixados
.)
I I
eo olha; que faz a l-i;st6ria. 'No coração de quàlquer relato histórico,
há a vontade de saber. No que s~refere às mulheres, es ta vontade fa i por mui-
to tempo inexiste nte . Escrever a hi stó ria d as mulheres sup õe que elas sejam
.V
até m esmo família q ue, paralelamente, a soCiologia individualista de lOmile
Durkheim abandonava ao holismo con servador de Frédéric Le Piar, eram
quantidades negligenciáveis.
Ora, vInte e Ginco anos depois as coisas mudaram .
Po
rqu e, como
o silên cio foi romp id o?
O
nascimento de um a história das mulheres inscreve-se no campo mais
levadas a sé ~io, que se d ê à relação entre os sexos um
pe so, ainda qu e rela ti vo,
nos acontecimentos ou na evolução das sociedades. O que não era o caso, e
"ju stamente por parte da s própria s mulhere s, inclusive
"as mai s
~mportantes.
.-
vasto das ciênci as human ;ls, desigualmente v isitapas pelo sexo. Ela não é pr ó-
pria d a Fran.ça. m as do conjunto do mund o ocidental. Os Estados Unidos fo- .
ram 'pioneiros. utilizan d o às vezes elem entos 'elaborados pela velha Europa e
,
.
.
"".toda a história das mulheres foi feita pelos ho mens", escreve Simone de
por ela desprezado s. A vida intelectual é feita destas idas e vindas, destas inces-
Beauvoir; fias mulh~res nunc'J disp~tararn este imp
é rio co m eles" . Até m es ~o
sa
ntes bricolágens .
.
F
o
femin ism o não é, segundo ela, "um moviinento autônomO". Para a autora
Co
mo as co isas
aconteceram na França? A p ub li cação d o li vro de F r an-
d'O Segun do
Sexo .(1949) a à náli se 'da co n dição fe minin a es t á
mai s li gada a
uma antr opo logia, et:ltão estrutural e triunfante, do que a uma história, ine~
xi
stente,
a sé u s o lho s.
,
A lo nga hi storiografia do sil êncio, por si só cheia de interes.se, n ão é aq ui
ço i se Thébaud, Ecrire {,"istoire des femmes ( 1981 l:" a melh or i' pr esen t ação bis-
toriográfica até agora, indispensável a partir de seu lançamento, di spensa-me
de es tend er-me sob r e esta genealogia abundante. Para ir mais rápido, eu d iri a
que tr ês séries de fatores imbricados expl icam es te surg imento: fa tores cientí-
meu tema. Eu evocarei simplesmente os seus horizontes próximos. A consti-
tllição da hi stória como disciplina 'fcientifica" no século 19 reforça seu caráter
viril. Em suá prática, a partir de então n as 'mão s dos universitá ri os (o diplç'ma
o
.
Fatores /cientificos, inicialmente. Eles .estão ligados à crise dos grandes
pamdigm as e.xplicativos e à renovação dos contatos disciplinares nas d écad as
fi
cos, socio l6gicos , políticos.'
d e magistério em
história foi criado em 1829). Em seu conteúdo, caefa ~ezmais .
de 19.60- t"970. O estruturali smo vira, evidentemente, na " tro ca dos bens , troca '
entregue à história p ública e
políti ca em' que
as m~lheresn ão estão
das mulheres " um
d.ado e l e m entar do funcionamento do parentesê~, mas sem
Jules Michelet foi uma exceção, muito atento ao papel d as mulheres no
pa ssado e n o presente . ''As mulhere s, qu e poder! ", di z i a ' ele. E ele l.he~ declica
p ágin ~s brilhante s em se u s livros , fra ses substanciais em s ua s aula s, que elas ; -
."
. ir m ais lo nge nas rela.çães de sexos. Françoise H éritier, que sucedeu Oaude
L évi - Stra uss no Co ll ege ' d e FranC"e, tev é o ' grande mérito de retom a r a r~ f] exào
a
partir d e onde
e l e a ha~ia deixado. Se u
li vro Masculifl/fé~Jit1;'1.'La p~nsée de
-
auçlit6rio <J paixonado e s ilencio s o , vê m escutar e m mas sa. M .as ao assimilar as
muJ he re~ à natur eza, c u jo pólo
bran co e lum i no so só p ode se r a m a t ernida de ,
la différet1cc 1 é o ponto mais acabado desta volta à construção do pensamento
simbó li co. O mar~ s.mo t am bém colocara obs,ác ul os à form ul ação de um Ipen -
e os hom ens à'cultura racional e heróica. denunciando na invetsão dos papéis
" I
a c h ave do ' s 'd esregr~mento s da s ' socied ades ; Michelet aceita as representações
de se u tempo. sobretudo as .representações d e uma sociologia balbuciante.' A
la
bar ulh t;:nta irrupção das mulheres,
também o desejo de se u
FEBVRE, Lucien . AmoÍl r sacré. Qmou r profQne.
GaUimard, 1944 . ( Folio-histoire_1996)
Autou,r de I'Heptémaron . Paris:
para ~cheJet, é
11
TH~BAUD . Françoise . Ecrire I'hi s toir e de femmes. FontenayISaint.Clou~( E NS tdi -
,
tions, 1998. (Distribution Ophrys, la, rue de Nesle. 75006, Paris)
9
GEORGOUDI, 5" lIa. Bachore n,
le 'mart,t rca: et le
monde ant ique. Histoi" des
12
H.tRITIER,
Fran çoise. M asculin IFbnini" . LA petuie d e " a diffiren ce. Paris: Odile
1
femmes.l, Paris. p. 4n-491, 1991.
,
Jacob. 1996.
,
.'
/
.'
14
15
-,
~'
t
. r ,- - -; 7 IIl'rPd'IÇM IntrPdllflJo , sa rnento feminista. No entanto, ele
.
r
,-
-
-;
7
IIl'rPd'IÇM
IntrPdllflJo
,
sa rnento feminista. No entanto, ele Lhe forneceu seus primeiros qu"dros e, des-
te ponto de vista, a pesquisa inicial de Ch rístine Delphy é. um exemplo de r
transferência de conce.itos. Profundamente materialista, ela substitui a teoria
da exploração pda burguesia pela da dominação pelo patriarcado, em que o
proletariado se transforma em "classe de sexo':"
to de vis ta , a ambição - a preten são? ~ do feminismo em reali zar uma "rup-
tura epistemo lóg ica" su scitàva ceticismo e- reserva. lncluir as ,mulheres,
ainda
. Os historiadore.s, por sua vez, aproximavam-se da al1trop'ologiae da et-
nologia, enquanto ádemografia histórica se desenvolvia, ávida de reconstitui:-
ção das .famílias, a grande realização de Louis Henry desde a década de 1960,
que colocava em evidência a diferenciação sexu al em matéria de casamento
(taxa, idade) , celibato, mortalid~de, etc. L'Histoire de la famille (A História da
familia), a importância dada a partir de en tão às "cultu ras fa miliares" assi na -
lam est;) vol.ta à familia esquecida. 14 A família, no entanto, não fala aut~mati­
camente das mulheres. Desta forma, para os períodos antigos, é dificil saber
qoal deve ter sido o seu papel num controle da natalidade, ~u1to precoce na
. França. Mas os trabalhos dos etnólogos, como Martine Segale)l e Yvonne Ver-
dier, tomavam-nas por inteiro. A última, em Fdçons de dire, façons de faire, U s u-
blinháva seu lugar no centro do vilarejo (Minot, na Borgonha) e seu poder cul-
tural , um poder inscrito no corpo, o 'que provocou discussões com as historia-
vá. Mas o gênero e- suas intenções de "desconst ru ção"? Na verdade , nos anos
70, a questão era muito pouco colocada, e ainda menos em história do que em
outras áreas.
No lado da sociologia, a feminização da universidade, inicialmente no
JJível do público, e depois, mai s·tardiamente, dos professo res , favoreceu o nas--'
cimento de novas expectativas, de questionamentos diferentes, e conseqüente-
mente o desenvolvimento de cursos e eesquisas, sobre as mulheres. As paixões
e os interesses se ço nj,ugam, da maneira mais clássica, na constituição de um
novo "campo".
A
demanda social (grand e expressão dos anos 80), entretanto, não agiu
dOras, desafiadoras diante de qualquer retorno sub-reptício à naturez
esta ~uma outra questão, a questão dos debates dos anos 80.
Estes reencontros com a antropologia, a família, o casamento
1.
Mas
sozinha. Fatores pol1ticos concorreram para esta ec.Iosão: o movimento de li-
beração das mulheres - o MLF - surgido nos anos 70 dos silêncios (olais um
deles) de Maio de 1968 sobre as mulheres. Evidentemente, aquele movim~nto
não tinha como preocupa~ãoprimeira fazer história, mas conquistar o direi to
à contracepção. ao aborto e, mais amplamente, à dignidade do corpo dasmu-
Iheres, enfim reconhecidas como indivíduos livres para Escolher (Choisir), se-
gundo bbelo nome da associação fundada .por Gisêle Halimi. Mas ele desen-
volvê~em sua caminhilda uma dupla necessidade: wn desejo de memória, de
parecem
reencontrar os traços - as figuras, os acontecimentos, os textos
_, de um mo- .
rter marcado fortemente
a obra de Georges Duby 'que, a
pa~tir da metade dos
anos 70, dá cada veZ mais atenção·ao silêncio d as mulhere s, que se tran sfo rm a-
rá em {)bsessão. na última parte de sua carreira.
_ Por outro J~do,a explosão da História - chegou -se a faJar em "história
em migalhas" - fa~orecia o surgimento de novos objetos: a criaI)ça a louCUra,- ;
a sexualidade, a vida priv"da
Por que não "s mulheres?"
A " nova história '~ nome
geralmente dado à seg unda
ger~ç;io dos AlIna-
les, mpstrava-se assim, ",o mesmo tempo, muito favorável à inovação, à cria-·-
-ção de-novás temáticas, mas reticente diante de qualquer esforço de teoriza-
ção, em que ela farei.,ava os vestlgios de um m arxismo requentado. Deste pon-
virnento particularmente 'amnésico; uma vontade de fazér a critica do saber-
constituído, pelo questionamento dos diversos parâmetros que o fundarn: o
universal , a idé ia de natureza, a diferença dos sexos, aS ,relações do público e do
'privado, o problema do valor, o da neutralidade da linguagem , etc G rupos fo -
rrup constituídos, semi~á rios~ cursos, colóq ui os (âesde - 1975 em Aix so b~e "as
~ulherese as ciências humanas" ) foram ~rgani~ados.O refluxo do m ovimen-
to, satisfeito com seus objetivos legislativos maiores, provocou um desvio das .
energias para'il pesquisa. A·chegada da esquerda ao poder (1981) criou uma
c conjuntura propkia a uma relativa institucion aHzação_ O colóquio de.Toulou:
se (dezembro de 1982) sobre "mulheres, feminismo e pesquisa" indica c<imo a
'-
.'.
\
13 DELPHY,
Christine. L'Etmemi prinçipal_ Pa,ris: Syllepse. 1998.
I: L'é(:onomie poli -
. década de 1970 - 1980 fora fecunda. " Treze ano s mais tarde, em 1995 , 0 ~oló­
quio de Paris permite que se faça ~ segundo balanço. Encontraremos seus
ecos nos artigos que se seguem.
~
tique du patriarcat.
A História obtivera um lugar dinâmicç. Seu desenvolvimento foi um a '
14 BllRGUlêRE. Andr~; KLAPISH-ZuSER, C hristiane. Hisroire
de la famille . Paris :
a-ventura coletiva na qual centenas, ou até '?lesmo milhares de pessoas, toma-
Co lin, 1986.2 t.; BURGUrtRE,Andrt; RE j '
Les formes de la. clt/turc. Paris: ~u il, 1994 .
L.:Jacq ues (Dir.). Hi~rojredela Frnnce.
.
I
15 Yvonne Verdier, Paris: Gallimard, 1979.
1
-
16 PI CQ, Françoist. Libératiotl dcs!emmes. Les an.nées-mouvemen.t. P3ris: Seuil. 1993.
"
-.:
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PI CQ, Françoist. Libératiotl dcs!emmes. Les an.nées-mouvemen.t. P3ris: Seuil. 1993. " -.: , 16 · 17

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Jlurodl<rilo Inrrodufdo , , pação qu e identifica m sumariamente as mulheres e O femi'nin
Jlurodl<rilo
Inrrodufdo
,
,
pação qu e identifica m sumariamente as mulheres e O femi'nin o com o arcais-
mo, ainda por cima "b~guês", '.
'Pois eu dete~tava a ·"burguesia", insuportável pecado original, Como
. Mauriac, cuja obra eu degustava no negrume de' uma execrável província ca-
.
tólica, eu 'deplora va ter
h~viam traido . A clas se
"nascido
operária,
n o campo do s injusto s", que, na sua
flam ejan te , da s greves de 1936, mais
maioria ,
resisten-
te do que outras dura~1te a guerra , aureolada por uma fraternidade zo mbetei-
1'a
que Gabin parecia incamar, era ao m es mo temp o a figura da injustiça e a da
,
tudo me era proposto, e eu devo apenas à minha
salvação. Em suma: o soc ial .primava so bre o sexual , que n em m esmo era reco-
nh eci do; a virilidade dos camaradas sob re
a vir tude qu eixo sa
A So rbonn e dos anos 1947- 195 l pree nchi a-me, apesar
das mulheres.
de seu acade m i-
cismo abafado. O cur so de Ernest ~1brousse'e sua ação para ;"ili introd uzir a
, história operária seduziram-me como a tantos outros de mÍJll1a geração. Inci-
tad a por ele (e a d es p eito de ul}la tentação veleidosa de trabalhar sobre as mu-
lher es, apesar de tudo), comecei o estudo,da s greves, que foi mais tarde o ob:
e oito a no s,
,
jeto de mi~h. tese, esc rita' entre ' 1967 e197ó' e de fendida em 19 71. As mulhe -
.
re s eram ali minoritária s . A greve, ligada aos assalariado .s em se u ~onjunto, é
um ato Viril . ·ao passo que os problemas de 's ub sistência são uma questão 4as .
mulheres. lodavih,·fiquei 'tocada po~sua subordina
Os te;"pos rt;'Iudavarn,"i'mperceptivelrnente. Brigiúe Bardot, cuja imper ·
tin e nte lib e rdad
e e u aplaudia, Fran ~o ise Sagan, t lian e V ict o r e sua s "M ulhe'r es
.télmbém" na tel ev isão, muita s outras int rodu ziam notas di scordantes. As s o-
ciólogas começavam
-Guilbert publi cava m
a
se mexer. AndTée Michel , .tvelyne Sulle.rot, Madeleine
se us primeiros livros . A partir de ' 1964 , o Planejam~nto
Fam iliar (fundado em 1956) mobili zava cada ve z mai s muUIeres. Ele foi o ban -
'.
co de ensaio do feminismo, "
:
Seguiu~se Maio de' 1968 . Professora ·assistente na Sorbonne , eu partici-
pei intensamente das manifesta ções e 'do s inumeráve is comIcios e reuniões da
.,
Sorbonne ocupada sobretudo para ªreforma uníversüária, aquela "universida-
"
O mundo do s homens me atra'ia e o
das mulheres m e parecia tão tedio-
que aliás pen sava então quase des-
de crítica" com a qual muitos de 'nós sonhávamos.
Donde iLminha adesão deterplin ada à formação de um a das novas uni-
ve rsid ade s, cri ad as' pa ra descongestiona.r a velha So rb o nne , pl etórica. PGrigosa
e j á se m fôlego. Pari s-VII ," a UJ1iversidade c riada , ab sorve u minha s e n erg ia s . Foi
.
Segundo Sexo, que m e aborre:- '
J uma escolha de que não me arrependi. De 1970' a 1973 , fiz ali toda a ininha
I"
18
Sylvie 'Ch apero n . Le Creux de la vagJ-le, a ser' pub licado: sobre o femini sm o
dos anos
1.
I.
I
~45-,1970. co m um es tud o sob
re a publicação do De ll xieme Sexe. de s ua
recepção
,
e de seus efeitos. These, Institut Européen de Florence, 199~.
.
,
.
'\"
19
.---->
:
-
.

ram parte. Seu relato ultrapassa meu prop~sito. Eu gostaria simplesmente de di ze r, se m fazer minha "ego-história", como participei dela e como a vivi. Conheci, dé maneira quase caricatural, o silêncio imposto às JnUUlere~· por minha educação em um colégio religioso ·de moças, cujo peso da contri- ção '~e a exigência de sac r.ifído foram aumentados p~l a guerra ;' 7 e a lib e ra çã o pela palavra sobe[~Jla d e um pai que me tratava como o filho que ele sem dú- vid a teria desejado. Na França ,do pós-guerra, tão conservadora em matéria de

papéis sexuais, era uma sorte e um apoio decisivo. Esportes, leituras e alimen-

tos fortes, estudos, viagens

timidez embaraçosa o fato de.não ter aproveitado mais audaciosamente, En- . tr eta nt o , "eu aderia pl e nam en te ao m o d e lo que m e e r a oferecido: o d e um a mu-

lher indep~ndentequ e ganha a suâ vida e só se casa, even.tualmen te, bem mais "

tarde e por amor.

Minha mãe, que sofrera por não poder segu ir, devido às exigências do- m ésti cas de um pai viúvo, uma ça'rreira artística para a qual era dotada (ela

co nservou até a sua m or te recente e tardia, em 1995, co m no ve nta

belos de senhos; pesar no stálgico de se u talento cOI)trariado) apoiava ' estas

( per s pectivas. Todavia, mantin~a- sé um po-uco reservada só bre seus ri s cos po~­

siveis quanto a um a feminilidade cuja e legâ9cia era,~a 'seus olhos , . o primeiro dos mandamento s. O en sino, uma eventual carreira universitária (q ue, de fãto • . eu nem m esmo pretendia , ignorando tudo o'que se referia a ela), apavoravam- na co mo uma irremediável descida aos infernos d e uma sombria au steridade, cujo exemplõ .lhe havia sido dado pelos professores de seu bem-amado liceu Fénelon, no início do século 20. Ela temia para mim a desgraça de um cellba- · to d e n ecess idad e e se m elegância. O que havia de femin in o . rio univer so ma- terno - o apego- ~.uma casa, a um jardim: ao Cenário da vida , à doç ura da s coi:

sas - eu considerava enfadonho. Eu preferia Géline: que meu pai admirava, a . Co lette, venerada por minh~ mãe, a quem eu também tantas vezes impus si- lêncio. Eu não lhe 'fiz justiça senão bem mai$ tarde,·Fazer i;l hi~tóriadas mulhe:- res per~itiu-me compreender a su a e eDcon~á-la enfim. '

so qu a nto derrisó ri o. Simon e de Beauvoir,

ta m esma form a, (oi o meu inaces.sivel modelo, talvez men os por sua s obras -

l evei tempo ' para assimilar e l~eSm ({para l~r O

" cera de início - do que por sua vida cuja_~udácia eu admirava se m ousar imi- tar. Eu co mpartilhava da misoginia hab itu'al das mulh eres em vias de emanci-

'17 ·MUEL·DREYFUS. Francine. Vichy tI l'é~melfé",ini".Paris: Seuil, 1996.

18

, r "lff(ld"f~ lrlll"lHlllf40 carreira, em condições às vetes difíceis, mas com gran.de liberdade e
, r "lff(ld"f~ lrlll"lHlllf40 carreira, em condições às vetes difíceis, mas com gran.de liberdade e
,
r
"lff(ld"f~
lrlll"lHlllf40
carreira, em condições às vetes difíceis, mas com gran.de liberdade e reais pos-
.
Pois, a I?artir dai, o ritmo se a~elera.O movimento das mulheres, de cuja
base eu participei, ocasionou a minba "co nversãd feminista" e meu engaja-
mento na história das muJheres, transformada então em um dos eixos maio-
sibilidades de inovação.
res de meu trabaLho.' tpe"sia crõnica, erocarei apenas algumas datas e episódios
significativos ou agrãdáveis.
1973: primeiro curso sobre as mulheres em Jussieu , com Fabienne Bock
e Pauline Schmitt, intituJado: "As mulheres têm uma hist6ria? '~ Haviamos-es-
colhido este título interrogativo'propositadam,entç, pois apesar de tudo não es-
távamos certas da resposta. "As mulheres são apenas O n6 quase"imóvel das es-
truturas de parentesco? Sua história·se confunde com a história da família? Em
suas relações com o outro sexo, com a sociedade global, quais são os fatores de
mudança? Os cortes fund~mentais?",escrevíamos em uma apresentação limi-
nar que mostr~ a
que
ponto ér_amC?s também influenciadas peJa antropologia
estruturalista e_a·visão de mulheres enraizadas na família, mas também nossa
insa ti"sfação quanto a isto, A ponta da dúvida, a suspeita da mudança tocam
. este texto, Desprovidas de problemática, tanto quanto de materiais, havfamos
deciclido proced~rpor conferências e apelar a nossos colegas sociólogos para
um primei . co ~emestre II tempo presente': e historh\dores para um segundo se-
mestre batizado de "referências hist6ricas'~- .
tema. Depois desta entrada ,tr·iunfal, os cursos· seguintes foram mais calrpos.
Pude,mos escutar tranqüilamente falar sobre o comportamento dos babufnos
.e da mulher .pré-histórica,' da situação respectiva das mulheres americanas e
africanas; a doutora Retel abriu -nos novos horizontes ao nos apresentar suas r
pesquisas sobre a esterilidade das mulJ:teres Nzacants,-víti,mas de ~oenças ve-
néreas, tão sós em sua vergonha, assim como .o são as mu lheres africanas doen-
tes de AlDS. FreqUentemente se faz silêncio sobre as doenças das mulheres.
Penso, por exemplo, no câncer de seio, tão pouco falado, mas grande causa de
mortalidade. apesar d.e seu recuo,
Sinal dos tempos (dos anos 70): dedicamos duas sessões às ·m.ulheres
chinesas. Claude Broyelle. acabaya d.e publicar La Moitié du cieI, em que cele-
j
brava os méritos do maoismo que integrava as mulheres na produção livr:an-
do-as do doméstico com equipamentos .coletivós, Na nova cultura, a sexuali-
dade, considerada Como uma "in~enção burguesa': não era uma prioridade.
Jean Chesne~ux, eminente especialista e conferencista, preocupou-se em subli-
nhar que "contradições" continuavam a existir.
No segundo semestre, Pierre Viaal-Naquet, Jacq"ues Le G.off. Jean-Louis
Flandrin. Emmanuel Le Roy Ladurie, Mona Ozouf,
nos falaram da condição
Em 7 de novembro, numa sála repleta, superaquecida, diante "da presen-
ça de estudantes esquerdistas hostis ao curso por considerarem que ocupar-se
das mulheres era desviar-se da revolução, Andrée Michel abriu fogo com uma
das mulheres em seus períodos respectivos, Eles o qzeram voluntariamente,
considerando que se tratava de uma questão legitima, de fato pouco abordada;
e louvaram o título interrogativo do curso. Em sUma, foi uma abertura "à fran-
cesa': muito distante das'controvérsias americanas de que tomávamós conhe-
conferência
sobre
U,A mulher e a família nas sociedades d~senvolvidas·:opon-
cim,ento então, Nos an~sseguiotes, tdmamos nosso destino em nossas mãos,
··com cursos mais aflfmativos sobre "Mulher e familia", "M ulher e trabal~o",
"História dos feminismos", etc, Houve ainda momentos surpreendentes como
do dois umodelos·~.tradicjoaal e moderno. Ela foi cortês mas vigorosamente _
atacada por rapazes dentre os quais um a criticava por referir-se a "modelos fa- .
miliares", ao passo que "não
queremos mais saber da famUia n • diziã ele;
um ou-
á. v i nda de PierTe Samuel, que, ao ler o titu l o de um curso, propôs,s~us servi-
ços:Srilhánte matemático, ele vinha de uma família de helenistas e .pediu per-
missão para escrever no quadro em grego, ficanqo muit~espantado e entriste-
tro a aCusava de não evocar o orgasmo, acariciando os longos cabelos de uma--
- bela loir~ $entada no chão, ao ·seu lado (não havia mais cadeiras disponiyeis
devido à grandé afluência), O que:fez as· moças da platéia caírept na gargalha-
da, so lidárias com a sua· c.ompanheira: "Seria preciso talvez perguntar a sua '
opinjão". Andrée Michel explicava cOPl serenidade que "modelos" não tinham
cido ao
ver
que os ~studantes presentes - historiadores! - não conseguiam
acompanhá-lo, Ele publicara u·m livro, AmazO!le5, guerrieres et gaillardes. em
que demonstrava que na 'G~écia Arcaica as mulheres usavam a lança e as a}mas
/
com maestria e tinham tão bons resultados nas co~ridasquanto os homeAs. A
pretensa fraqueza das mulheres não estava i.nscrita em seus corpos, mas o re-·
,
. -
para os sociólogos nenhum sentido no~ma~voe que orgasmo não era O se~
"V inte e cinco ~nos de est1;ldos fe~inistaI-ém·P3ris.V1I", an
,
,
19
is de um colóquio
sultado pernicioso de sua imobilização pela civilização, Este ardente defensor
do vigor feminin~ era acompanhado por Françoise Q-'Eaubonne', que compar-
tiUlílva de seu feminismo radical e cujo chapéu preto de abas largas causou
sensação, A época era efervescente e tínhamos a sensação d( descobrir um
(novembro de 1997) a sereJ1l publicados nbs Cal,iers du CEDREF, organizado por.
Liliane Kandel e Claude Zaidman,
I
novo mundo,
"
/.
20
21
publicados nbs Cal,iers du CEDREF, organizado por. Liliane Kandel e Claude Zaidman, I novo mundo, "

"

\

L

l/lt""dl/fi!o . Inr'rod'lçiIo Nós O fazíamos também por meio de seminári os de mai or
l/lt""dl/fi!o
. Inr'rod'lçiIo
Nós O fazíamos também por meio de seminári os de mai or ou m enor
do colóquio de Saint-Maximin (Ulle "istoire des femmes eSI-eUépossible?, 1983 )
forma lidade, em que aprofundávamos a reflexão, No GEF (GruPQ de estudos
,
e enfim, ele forne~u o núcleo responsável por Histoire des femmes en OccidcHt,
, feministas), por exemplo. fundado em 1974 por Françoise Basch e por 'mim
lo
{
.
mesma. Ali n 55 no s encontrávamos entre mulheres
(e ra uma deci são delibera-
pri~l1eiratentativa de si ntese de pesquisas que, por outro lado, desenvolviam-
se
da ), para discutir, asperame nte às vezes, problemas mais canden tes': o estatuto
da psicanálise, do qual o; grupo "Psicanálise e politica" (Psych e Po) de Antoi-
Havia, de. fato,
uma forte demanda estudantil (majoritaríamenté femj-
nina) por mestrados, em seguida por teses, que eu me esforçava em orientar e
nette Fouque fazia s~uprincipal instrumento, a invisjbi,lidade do ttabalho do-
méstico (seria necessário reivindicar a sua remuneração? A resposta foi nega-
acolher em meu se minári o. Seminário que eu tentei transformar em um lugar
'estável e aberto ó nde, às segundas ~ no ite, podia -se se mpre
"dar uma passada':
tiva ), o alcance, libertad o r ou n ão do
assa1ariamen~o para
as mulheres, a ques - ).
tão do ero tismo e da pornogra6a, a homossexuaüdade. etc. Graças a Françoi-
se Basch e a sua s colegas - Marie-Claire Pasquier, Françoise Barret-Ducrocq
- do departamento de línguas e civilização anglo - americanas (Char les V) nós
tivemos co ntato com as pesquisadoras america na s e os Women's Stud.i es, so -
bretudo durante os encontros do MouJin d'Andé ( 19 79), quando conhecemos
Catherine Stimpso n, a fundadora de Sig11S, CaroU Smith - Rosenberg, cujo arti-
go sob re "The femaJe world of lo've and rit~alncausara se nsação,· Claudi~
Koonz, cuja tese ~obre Les Meres-patrie du Troisieme Reich renovava, não se m
co ntro vé rsias, a abordagem das relações mulhere s e nazismo,ll que Rita Thal -
m?nn havia desbravado amplamente.
Meu objetivo era favorecer a fala e as trocas, fazer circular a informação, per-
mitir qu'e cada um estabelecesse conta tos, em uma perspectiva de rede, -nacio-
n al e in ternac ional (h ouve a no s.com domínio grego, ou brasileiro, sempre com
a presença das japonesas), suscetrvel de servir de paliativo à fraqueza institu-
cional ligada à
ri gid ez acadêmica francesa .
Este m ovimento de pesquisas sob re as mulheres efa geral Ele atravessa-
va as discipünas. O obje to "mulh eres" era plu ral e não pertencia 'a ninguém em
particular. Filósofas, historiadoras, sociólogas, literatas trabalhavam juntas,
com talvez um pouco mais de ,distância em relação às ciências "psi': justamen-
te na medida em que o questionamento da psica náli se era vigoroso. Entre as
paladinas do feminin o, portador de cultura e, porque não?, de alternati.va po-
Na EHESS (.École de~hautes études en scien ces sociales,- Escola de Al~ .
tos Estudos em Ciências Sociais), a partir de 1978-79, (otOlara-se, em torno de
Christiane KJapisch, Arlette Farge, Cécile Dauphin
Pierrette Pézerat, às quais
juntara.~n-seGeneviêve Fraise,: Pauline.Schmitt e depoi; Yànnkk Ripa, Dan.ie-
le Voldman, Vé ronique Nahoum-Grappe, Rose-Marie Lagrave, Nancy Green,
etc., um grupo que devia ao seu caráter informal e autogerido; uma parte de
sua iniciativa e de .sua influência. A idéia inicial era de nos encontrarmos à _
,
lítica, e as partidárias da diferença igualitária, desconstruída, libertadora de es-
' colhas individuais em que ã variante s~ualseria apenas uma .entre outras, as
divergências continuavam fortes. Elas atenuaram-se nos dias de hoje e sobre-
tudo deslocaram-se ' e recompuseram-se corls ideravelm~nte, M .as, e daí?
Nascid-o de inter roga ções múltipla s, este movimento ultrapa ssava am-
plamente as universidadés, ainda que, pela força e pela inércia das coisas, elas
tivessem tendência a absor,Vê-lo. Era preciso ainda que houvesse professores
em relativa posição de poder, capazes de introduzi r esta
\ margem de nossas obrigações profissionais. em total liberdade, para ler, refle-
~
o caso
especial m e nt e. de Toulouse ) com Rolande Trem pé, Mar.ie-France Brive e
tir, debater, apropriarmo : nos da reflexão feminis ta, sobretudo norte-a mer'ica-
"
na, n,as 'também epropéia (ita li ana em parti<:=ular), bem co mo da s obras Ae-
- Maorice.GÓdelie,r ou de George? Duby. Seminário de leitu ra e de nivelamen-
Ag n es Fine e .em Aix, onde, graças à Y.vOnne Knibiehler, aconteceu o primeiro
co l ó quio sobr~ "As n'-tulheres , e as ciências humanas", em j.urlho de 1975, e~ que
tive a oportu nid ade de apresentar um primeiro balanço (ain d~ muito modes-
to, e,$te
grupo revelou-se
eficaz,'Ele foi, com o ÇEF, o principal supo,r te de Pe-
lIélope,
primeiros C.hiers poll~ l'hisloire des femmes ( 1979-1985, 13 edições),
to) e de esboçar uma problemática de pesquisa resolutamente relacional e sus-
cetível de transforfl'!ar a vi.são global da História.
,
Esta também era a i;ntenção de Histoire des femnles en Occidentque no s
~
-,
20 SMlTH·ROSENBERG, Carroll. The. femaJe wo rld of love and ritual : relations

between women ' in XIXth ccntu ry Ameriêa. Signs, I, I, 1975. 1-20 (trAr. em Les

i .-'.

, Tet'~pjJllodernts.19n- 1978).

, 21

KOONZ, C laudia . Les Meres-patrie du nofsilme Reích. Paris: Licu . commun; 01 989

(ed-, americana 1986).

\

.'

22

'-

I.c'--

I

mobilizou (e -me mon opolizou) entre 1987 e 1~92, Eu já co ntei tantas vezes como nasceu e o que foi inicialmente a Storia que hesito a repetir. Mas, como aquele livro representou um ponto de cristalização maior eprovocou, ao me- nos n a França, uma mudança de esta tuto.da história das mulheres, é difícil n-3.o

• • • • •
• • • • • • • perspectiva Este foi • • • • •
perspectiva
Este foi
23 •

evocá-lo neste ·panorama de uma paisagem recomposta

foi • • • • • • • • • • 23 • • evocá-lo neste
1,lIroJIIÇ,}Q 'm,wupJo Deve-se a primeira iniciativa a Vito e Guiseppe !.atena, editora fami~jar, conhecida por
1,lIroJIIÇ,}Q
'm,wupJo
Deve-se a primeira iniciativa a Vito e Guiseppe !.atena, editora fami~jar,
conhecida por sua resistência ao fascismo, suas ligações com a esquerda italia-
na e sua abertura para as ciências humanas, principalmente francesas. Laterza
traduzira com sucesso na Itália L'Histoire de la v;e privée, que Philippe Aries e
Georges Duby coordenavam e cujo tomo 4 (século 19) eu havia organizado.
Por que não, diziam des, um Storia della Do;ma? Georges Duby, ao ser cõnsul:-
lado, aquiesceu imecÚatamente'e juntou-se a mim·. Era a primavera de 1987; eu
a'cabava de sair da Vie privée, tinha outros.projetos e tinha gr~mde vontade de
recusar este trabalho. Mas meus interlqcutores insistiam. Georges -Duby, em
particular, estava convencido da atualidade da empreitada. Atento aos aconte-
cimentos contemporâneos, e ao movimento das mulheres que ele tambéIl}.
percebia 'pO! aquelas que o cercava;'l - sua esposa, suas filhas -, ele lhes dedi-
cava, desde ~metade da década de 1970, um lugar crescente em sua reflexão,
se us c ursos e seus escritos. "A mulher, O amQr, O cavaleiro" é publicado em
européia, que só poderia nos agradar. A aventur~ valia 'a pena ser tentada, pois,
ainda por cima, ela nos era oferecida. "
Era o outono de 1987. Em junho de 1988, um colóquio reuniu no hotei.
~
Talleyrand-Gallifet da rua de Varenne, sede do Cen~o Cultural Italiano, a
maiqria das setenta colaboradoras (e colaboradores) da obra, cujos cinco vo-
lumes foram publica.dos paralelàmente na Itália e na França,u entre 1990 e
1992.-Trabalho conduzido com facilidade; graças à competência e à atividade
das diretoras ·de volumes: Pauline Schmit (1), Christiane Klapish-Zuber (ll),
Arlette Farge e Nathalie Davis (II!), Genevieve Fraise e eu (TV), Françoise Thé-
baud (V) que desejara reunir-se aOZlúcleo inici~LFoi um trabaJho intenso,
nl~s no qual tivemos grande prazer. Eu, em todo caso, que fui talvez a princi-
pal beneficiária desta situação, Penso tamJ>ém, aqui e acolá, nas estudantes e
doutorandas de Jussieu, muitas das quais integraram a universidade. Graças. a.
~las,a história das \Dulheres continua. Então, muito obrigada.
L'Histoire em 1978, O Cavaleiro, a mulher e o'padre em 1981. Ele mostra no po-
der de obstrução das mulheres: em s ua s maiores exigências, um agente de
transformação do casamento em
que o co nsentimento torna-se cada vez mais
central. Da' mesma forma que o amor cortês era uma nova tatica de sedução
tornada necessária pela r~sistênciadas mutheres. Âs relações amorosas era!fl
também relações d. poder em .que as mulheres jogavam o seu jogo. Dai a ade-
são a uma história que faria das relações entre os sexos um motor da mudan-
ça. Ponto de vista bastante excêpcional entre 'os historiadores de sua geração e
que explica a junção operada com as historiadora s. 21
."P. raro poder conciliar um projeto que seja simultaneamente individual, .
intelectual e polftico (no sentido mais forte e cidadão do termo). A história das
mulheres o permitia. De minJ:a párte. foi assim que a vivi e particu1arment~
durante este último.trabalho. Tive o sentimento de encontrar as mulheres que
por muito tempo eu evitara. Encontrar a súa amizade, sua alegria, suas angús-
ti;lS, sua procura de um sentido; o sentimento de melhor compreender aque-
las linhagens de mulheres que me h~viam precedido, entre as quais minha
,
mãe, e com isso, encontrar a mim mesma
Mas o lucro não era somen.te existencial. Era intelectual. A hi stória d~s
.
Colocada diante de minhas respon sa bilidades, consultei minhas amigas
do grupo da !>scola de Altos Estudos. Após .discussões em que começamos, na
realidade, a elaborar Oconteúdo, decidiJIlOS aceitar a proposta. Era uma opor: -'"
tunidade que corríam6s ~risco de não encontrar novamente ~quç, aliás, ne- .
nhum édj tor francês no s havia proposto , o meio d~ sair ae uma semiclandes- -
mulhere s, ao colocar a questão das relações entre os sexos, revisitava o conjun-
to dos problemas do tempo: o trabalho; o val~r,o sofrimento, a violência, o
r
.amor, a sedução, o poder, as representações,:as'imagens e o -real, o soCial e o po-
i'-. lítico, a 'Criação, o pensamento sifl:tbdlico. A diferença dos sexos revelava-se de
um. grande fecundidad e.i' te
fio de Ariadne percorria O labirinto do tempo.
Pois do gineceu à casa rural ou bUIguesa, .da: polis grega à democracia conte~­
t
- tihidaC1e, d~ fazer a sí.J;ltese ( provi só ria ) dt quinze anQ.s
seqüentemente, g~ariam em vi~ibilidade.Chance de
de trabalhos qu~, con-
contri~uir,paraa legi-
~mid~de de u.ma rustórill ainda marginal, além de tudo em !lr:na perspectiva
,
-'
.',
porânêa, havia comunicaçõ,es dos corredores que não existem ·talvez em mes-
mo grau nos outros capitulos da agenda histórica. Estes "lugares para a histó-
ria" (A. Farge) das mulheres podem ser percor;idos sem que nos sintamos
completamente deslocadas. A história das m~eres e das relações entre o~ se-
xos coloca de maneira muito feliz a 'questão da permanência e da mudança, da
22 DALARUN, Jacques. L'abimed I'archittcte.lntroduction à Georges Duby. Féodalité.
Paris: Gallimard. 19% (reunião de um ~no número de obras): um próxin:a o
j modernidade e da ação, das rupturas e das continuidades. do invariante e da
número de C/10, a ser publicado sob a organização de Christia ne Klapisc.h-Zuber,
,
\ terá dedicado. a Gtorges D.u~yeà- história dps mulheres. tema que esta
tambtm na
?rdem d9 "dia do colóquio organi7
i\do
er Mãcon OCIJ- L998) pelo Insti tut de
23 A edição francesa foi publicâ.da pela Plon, graças a Lau~dlere depois, aos cuida.
- recherche du Va i de Sa6ne-M:\conl13is.
,
-
dos diligentes de Anne le<:lerc. Agradeço a ambas.
'-
,
24.
\.
,
25
"
III,nulllfiJo t hi storicidade Objeto de pesquisas precisas e· necessá rias, terreno so nhado para
III,nulllfiJo
t
hi
storicidade
Objeto de pesquisas precisas e· necessá rias, terreno so nhado
para a microhistória, ela é tamb ém
um terren o d e reflexão mai o r, "teó rico "
como o c ham a riam os americanos. epistemológ i co. co mo ~teríamo s dit o na s _
décadas de 1970 e 1980. para a pesquisa. diremos mais modestamente nos dias
de h oje. Ela interroga a lingu,agem e as estr uturas do relato. as rel ações 'do su-
jei
to I! do objeto. da cultura e da natureu, do público e do privado. Ela coloca
em questã o as di visÕes disciplinares e
as maneiras de pensar.
Ex
per iência in subs tituível para
aquelas e aqu eles que- a fizeram, a hi stó -
i
'
ria das mulheres . por o utr o lado, nã o mud ou nem a atitu d e hi stó rica , ainda ce"-
se
rva da , n em as instituições univer sitária s, que opõem -se a lh e dar um lugar"
ainda que modesto. Os inevitáveis confli tos de territ ório cond uzem às vezes a
~
,
ten si?es, internas e externas áumentadas, e cuja con ta pode vir a ser paga pelas,
'pesqui sa dora s mai s jovens, E a França , so b este
â ngulo, pa re ce
mai s arcaica do
que a maioria de
seus vizinhos. '
'"
A
históda
das mulheres també m não
mudou muito o lugar ou a "con-
di
ção" de s ta s mulh eres. No e ntant o, permite
co mpr een d ê- l os
m e lh or. E l a con ~
tr
ib ui para sua con sciência de si mesmas, da qual é certam ente ainda apenas
um s inal: Nos p'aíses em v ia s de de sé n vo lvi~ento , ond , e as mulher es co m eça m
a
te r acesso ao 're conhecimento indi\jdual, é'o acompanhamento freqüente de-
"
um proj':esso iaenti tário, às vezes cOntra riad o: d e que
cúmp li ces. ansiosas e so Li di ria s .
so m os as espectadoras
-
Es
te livro. reunião de artigos diversos qu'e devo à am igável pe'r.severan - .
ça de Perrine Si mon- Nah um, é portador deste fragment o d e hi st ó ria ao qual '
n~eu último itinerário está estreitamente ligado. Ele dá o test.emunho d e algu -
ma s. de s tas e,tapas. de s u as descoberta s e de se u s er ro s, de seus debates e Sua s
ten sões, de s~asdificuldades e se u s' pra ze res, de suas interrogações primeiras
que não perde r am' n ada d e sua acuidade: " Mulhere s, quem somos nós? De -
onde viemos? Para o n de yamos~" Qual foi o no sso cam inh o neste mundo? ,
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Vocês nos ouvem?

26

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,'- " , . ) i " A clificuldade da história das mulheres deve-se inicialmente
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"
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"
A clificuldade da história das mulheres deve-se inicialmente ao apaga-
mento de se us traços, tanto publicas q~nto privado s.
.t dos traços privados qu~trataremos nos textos que se seguem: corres-
pondênci3.\ d3.\ três frlh.s de Marx, fragmento de um diário intimo de uma de,
", vota moça do s ubúrbio
se mãe, ela continuou a
Samt - Germain, livro de nota s da casa que, ao tornar-
fazet
Século de fammas, de
sobre sua pc?p ria filha.
armári os e de escrita pesso al, o séc ulo 19 é um
imenso reser'(atório. Co rrespondências, diirias, a utobiog rafi as foram e 'TI11lla-
das e analisadas co mo m odo de comu nicação e expressão. Roger Ch artier e sua
'equipe perScrutaram os usos da carta. I Philip p c:: Lejeune localizou uma ce nte - .
,
'
7
na de diários de moças~que mostram person,alidades muito mais rebeldes do
qu e a 90 c e . Caroli n e Braune que os acasos da pesquisa havia,m ~olocado no ca-
minh o d e George~Ribe iU. Juntos. n ós editáram os os res tos.e ncontrados de seu
diário . Esta publicação, recenseada pelo L'Express,
permjtira~nos encontrar s ua
neta. Ela no s confiou então o diário que Caroline, qu e passara a se chama'r Or-
"
--
ville, d edicara à sua filha Marie, tão desejada. U m o u tro tipo de diário nos er a
"
•.
I
CHARTIER. Roger ( Dir. ):ül Coruspondence, les
u,sages de la [ettre au X!)(! sitde.
Páris: Fayard, 1991; DAUPH1N 1 Cédle; P~REZAT. Pierrelte; POUBLAN, Daniele.
Ces oonnes lettres, une ccrreJpondance familiale au)(,f)(( silcle. Paris: AJbin Michel,
1995.
~
2
LE}EUNE,
Philippe . Le Moi des Demo iselJes. Enqllitt sI/ r le jour:nal de jeu,IIl! filie .
Paris : Stu il. 1993.
.
29
-,
Palie J Par/e I """, I TI'I~s entao fornecido) ilustrando a assunção do "bebê" na
Palie J
Par/e I
""",
I
TI'I~s
entao fornecido) ilustrando a assunção do "bebê" na constelação familiar da-
,
,
quele
ftm de século,
co ntriouição à histór ia do se ntimento matern .al tanto
·quanto à da primeira infância.
Muito preciosos para o conhecimento da vida e do coração dás mulhe-
res, estes documentos.p.o privado têm limites sociais estreitos, desenhados por
· UI:n acesso emin~ntementevariável à escrita. O silêncio é quebrádo apenas pe-
las privilegiadas da cultura. Ao corttrário, ele pesa ainda mais para as operárias
'e camponesas cuja individualidade nos escapa. Nós' as perceben;H?s em grupo,
no s ca nlp os, na feira , nas bodas ou nas peregrinações, através de imagens, fo-
tografias ou descrições etnográficas que apagam necessariamente particulari- _
dades e conflitosj mantend.o a ilusão de um comunit<1:rismo rural um tanto :
,
As fontes privadas reforçam, conseqüent~mente,a desigualdade pela as-
. simetria d'aquil0 que Uuminà.in. Elas têm um outro. inconvenieIÚe: o de subli-
nhar um pouco.maisos laço.s das mullieres c~ma esfera privada, pois eman~m
t desta esfera. Elas inscre vem.o tempo das mulheres na repetição do mesmo e a
,.
I relativa inércia do cotidiano, acentuam a própria feminilidade, que Colette
descreve de form~ muito feliz.
Entre fugacidade dos traços e ~)Ceano d~ esqueCimento, os caminhos da
. memória das ~ulheressão estreitos. '
'I
i
imobilizado. Dos conflitos, ouvimos ap_enas o eco
quando
eles perturbaram .
suficiente!Uente a ordem pública para tornarem-se caso de polÍcia e de justiça.
I
Delinqüentes e mais freqüentemente vítimcts. as mulheres aparecem então li~
gadas à co ntraven çã<? s I'
-.
,
·
[
A opacidade é um pouco menos forte no que se refere às mulheres das
classes populares urbana s, mais observadas (ass im as monografias de fa.mília
-
,
,
\
\
da' Escola de Le Play têm grande int eresse pelas don as- de -casa, pilares da famí-
,
lia ), mais presentes110 espaço público, mais alfabetizadas também . As raras au-
tobiografias de mulheres do povo, diretas ou apresentada s. na forma d e ficção,
· provêm de operárias que têm acesso à' individualidade peja escrita (Margueri.
te Audoux, Lise ~anderwielen)ou pela ação militante (Lúcie Baud, Jeanne
Bouvier,' Victoire Tinayre). Mas, trata -se aí de' traços impressos, públiços. Da
'
7
situação familiar a~terior,pouco emerge
e foi cºnservado. 4
,_
.
\'
,
3
Dois exemplos: CLAVERIE.1:li~beth; LAMAlSON, Pierre. L'lmpossible: mariage:.
"
Viole:nce. et pareflté til Gévauda~.·XVue.XVIlI t et)(J)(! siêcle:.
Paris: Hachette, 1982;
';
SOHN. Anne-Marie: Ch'ysalides, Fe:tllmes dans la vie privée (X1Xc_Xxe siêcle). Paris:
.
Publications de la Sorbonn~~J99~.2
v.
.' -
.
.'
'
,
4
Marguerite
Audoux, Mafie~Claire. 191 0, L'Atelier de
Marie:-Claire,
1920;
l
VANDERW I ElEN. Li~. Lise du piar pays «o l?an autobiographique ). [ilIe: p~ss.es
Universitaires, 1983; BOUVIER, ]e<ínne'":"-Ai!es Mémoires ou cinqu(If,u-lIeu! (umées
d'activité iJ.duslrielle, sociaIe tt imellectuclle
d·une
ollvriêre (1876-1935). (1936).
"
"
Paris: Maspe~o.1983. Rééd.; SGHKOLNYI{, Claude. Viaoire Tinayre (i831-1895).
~
Du SOcifl/is11Ie utopique: au positivisme pl"Olé{aj,·e. Paris: L'Harmattan.
.
,
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30
31
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Capitulo 1

PRATICAS DA MEMORIAl FEMININA*

\

No tea-tro da memória, as muJheres são uma leve sombra.

\ No tea-tro da memória, as muJheres são uma leve sombra. A narrativa histórica tradicional lhes

A narrativa histórica tradicional lhes dá pouco espaço, justamente n.a medida em que privilegia a cena pública - a' política, a guerra - onde elas apa- r recem' pouco. A iconografia comemo:ativa lhes é mais ,aberta. A ~statuaria) mania cara à 111- República, se(Jleou' silhuetas femininas pela cidade. Mas ale-

gorias ou simbo los, .~as coro~os grandes homens ou se prostram a seus pés,

- relegando um paucó mais no esquecimento as mulheres reais que os ~poiaram

\ ou amaram e as mulheres triadoras cuja efigie lhes fazia sombra .) Mas algo mais grave. Esta ausência.no "nível da narrativa é acomp "a-

Ilhada po{ uma car~ncia de traços no domínio das "fontes" nas quais o histo- riador se alimenta, devido ao déficit de registro primário, No séc ulo 19. por exe~lplo~os escrivães da história - administradores, policiais, juizes ou pa-' dres, contadores' da ordem pública - to~amnota de muito pouco do q'ue tem

o traço das mulheres. categoria indistinta, destin àda ao silêncio. Se o fazem,

quando observam a presença feminina em

correm 'aos

partir do momento em que 'abrem a boca, histéricas, assim que começam a gesticular. A visão , das mulheres age como Um' pis ca:pisca: elas são ra~am'ênte

uma

manifestação ou. reunião, re-

4

estereótipos mais conhecidos:,~u1heresvociierarites. meg~asa

li'

Pratiques de la mémoire f~minine.Travenes, 40. p, 19-29. rv/l987. N1.imero espe-

cial ''Th~;\t~ de la m~moire~

,

'5 Allne-Mar;e Fraise Falire estudou as figurtU femininas em uma Use. La Stahmire

cOlllnfémofative tl Paris sous La llJt Republique. U. P. d' Arclli t ecrure de la Vi/lette.

~

'.

~

33

,

,

Parte 1 Q lptllllo J n.", Prdlka s rl~ m c.m6ria fcmülina ,.- consideradas por
Parte 1
Q lptllllo J
n.",
Prdlka s rl~ m c.m6ria fcmülina
,.-
consideradas por si mesmas, mas bem mais freqüentemente com ,sintomas de
febre ou de abatimento:
lher'~entidade coletiva e abstrata à q ual
atribuem-se caracteres dê co nvenção.
o SILf.NCIO DOS ÁRQUIVOS
/'
Os procedimentos de registro dos quais a hi stória é t~ibutária são fruto
de uma seleção que privilegia o público, único domínio direto de intervenção
do poder e campo dos valores ' verdadeiros'. O século 19 distinguiu claramente '
esferas, pública e privada. c uj o a~enciamentl? condiêiona o t;.quilíb ri o ge~ral. '
' Provavelmente suas esferas não engloJ>am exatamente a repartição dos sexos.
'Mas, grosso modo, o mundo público, sopretudo econômico epolítico, é desti-
n ado ' aos homens e é o mundó que conta. Esta definição ·dos papéis, clara ,e. vo-
luntarista, traduziu-se por uma retirada das mulheres de cer tos locais: a Bolsa,
as
-Sobre elas, não há nenhuma verdadeira pesquisa, ma~ somente a co nstatação
de seu eventual deslocamento para fora de suas zonas
Um último exemplo dará uma idéia deste déficit documental e de sua
significação complexa, Os arquivos do cri~e, tão ricos para o conheàmento
da vida pri\'ada. dizem pouco sobre as mulheres, na medida em que seu peso
na criminalidade é fraco e,decrescente (de aproximadamente um terço, no iní-
cio do século 19, ele cai para menos de 200/0 no seu Cma!), não em virtude de
uma natureza doce, pacifica e maternal, como ,pretende Lo~brosso/ mas de-
vido a um,a ~érie de práticas que as excluem do campo da vingança ou do
afrontamen to. A honra viril ultrajada é vingada com o assassinato. O roubo
nas estradas ou os furto s, os .assa ltos ou o atenta'do eram, até uma data recen-
·te, coisas de hom em,
1
o
Banco, os grandes mercados de negócios, o Parlamento, os clubes, círculos e .
Assim, olhar de homens sobre homens, os arquivos públicos calam as
m~heres.".E, preciso, todavia, não esquecer as muJheres. entr e todos estes ho·
\
cafés, gra ndes
loc~isde sociab~dade masculina, e até m estno as bibliotecas '
mens que sós, vociferavam, clamavam <? que haviam f~ito ou que sonhavam fa~
zero Fala-se muito deles. O que se sabe delas?" escreve GeOJ;ges Duby como
conclusão ,do livro que dedica ao casamento na França feudal, 'Le ClJevaJier, la
,
Femme et le Prêtre ( O Cavaleiro, a Mlllher e o Padre ), Eis ai toda a questão,
OS SEGREDOS DOS S'ÓTÃOS
I,
públicas, Mai$ t~rde,Simçme de Be~uvoir,na Biblioteca Nàcional, é uma fig~- ,
ra de transgressão intelectual. A cidade' do século 19 'é um espaço sexy.a~o.As
mulheres inscrevem-se nele como ornamentos, estritamente disciplinadas pela
moda, que codifica S43S aparências, roupas e c uidados, principalmente para as
mulheres b':lrguesas c ujo lazer o,stentatório tem como função significar a for -
tuna e a posiÇãO de seu marido, Protagonistas; no verdadeiro sentido da pala-
vra, elas desIDam nos salÕes, no teatro 0l,! no passeio, e é por suas roup~que
os cro ni s t as s~ interessam (vej , amos as Lettrcs parisie,mes, do visconde de Lau -
nay, aliás, Delphine de Girardin'),
I Quanto às mulh e'res do p~vo,fala-se dela's so merte quando se u s mu~
"
I'
-
.
I
múrios inquietam em caso d e pão caro, quando fazem algazarra contra os co-
me(cia~t~s QU os se~horios,quaJ~do ameaçam subverter com sua violência,
.
,
I uma passeata de grevistas.
.
,
,.
,
E m sum ~, a observação , das mulheres de outrora obedece critérios de
ordem e de papel. Ela concerne os di~cursos m a is do que as práticas. lnteres- .
I'
sa-se pouco pelas mulheres singulares, des~rovidasde existência e mais à"mu-
.
r'
'-
'
Os arquivos privados, outro sótão da história, dizem mais? Sim, de-ou-
tra maneira, na medida em que as mulhéres s~ exPressaram muito mais abun-
d'antemente n';les, e até mesmo devido ao raio que';"'co mo secretárias da famí-
lia, elas foram produtoras destes arquivos. Livros de anôtações da casa em que
mantêm os anais da família. Correspond ências familiares de que elas são as es-
cribas habituais, diários íntimos cuja 'prática é recomendada para as moças por
seus confessor~s,e mais tarde por Seus pedagogos, como um meio de controle
de si mesmas constituem um abrigo para os escritos das mulheres, cuja imen-
sidão é atestada por todos os' fatores. Mas quantas destruiçôes forum reallza-
-
-
,
6
Madame de Girardin" ~ttres pa:jsjeIl1~ du ,Vicomte de Launay (1837.1848 )
Présent~ et anotés par Ahne·Martm FU~ler. P~IS: Mercure de' France, ~86.2 v. "-
7
l:.OMBROSO. C .: FERRERO , G. La
Femme criminel1e el la prostituée , Pari s: A1 c~m ,
1896, Trad, fr.
-'
'
"
34
35

~

Ptlrtc J

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ClpltulÕ I

Prd/iau th! mqll6ri<l ftmininQ

Assim as mulheres freqUentemente apagam de si me~mas as marcas tênues de . O' seus
Assim as mulheres freqUentemente apagam de si me~mas as marcas tênues de
.
O'
seus passos neste mundo, como s'e'sua apaTição fosse uma ofensa à ordem.
Este ato de autodestrui ção é também uPla forma de adesão ao silêncio
que a sociedade impõe às mulheres, feitas, como escreve Jules Simon, "para es-
conder sua vida"; um consentimento à negação de si que está, no centro da edu-
/.
.
cação feminina, religiosa ou laica, e que a escrita - assm} como a leitura - con-
tradiziam. Queimar se,us papéis é uma purificaç~\! pelo fogo desta atenção a si
ipesma que confina ao sacrilégi~.Este gigantesco auto-de-fé ~nceu a maior par-
te do~(escritos privados das muLher~s,ao mesmo ,tempo
qu e os arq uivos familia-
'
\ , res de que a sua longevidade as tinha transformado em guardiãs. A morte súbi.
ta, os armários esquecidos 9as grandes casas provinciais ~ão os únicos guarda-
fogos deSte incêndio. A imagem das mulheres ateando fogo em seus cadernos in-
timas ou em suas cartas de amor na noite de sua vida sugere a dificu14ade femi-
nina de existir de o utra forma.ru.ém do fugaz instante da palavra e, conseqüen- '
"temente, à dificuldade .de reencontrar uma memória desprovida de traços.
,
n ão ser i a introduzir um terceiro personag~ln em um ca~
A PAIXÃO DAS COISAS
.\
'>
Mais do que ao escrito proibido, é ao mundo calado e permitido das
coisas que as' mulheres confiam sua meaiória. Não aos prestigiosos objetos de
coleção, coisa de homens preocupados em conquistar, pelo acúmuJo de qua-
I
.
dros o u de livros, a legitimidad e do gosto. Nd século 19, a coleção, e airida mais
'a' biblioftlia, são
;tti~idades tna sc uJinas. As mulheres' se retraem ein matéçia
Como a leitura ,lI l , a
escrita é freqüentemente. para as mulh ~res,\,um fru- '
.m~is humil de: a roupa bl'anca e os objetos~ Ninharia, pr~sentes recebidos
em
-
deste pecad~que foi goz
up1 ' anive l'sário ou uma fest~, bibeIOs trazidos de uma viagem o u de .uma ex-
cursão, "mil nàdas" preenchem vitrines, pequenos museus da leinbrança femi-
nina. As mulheres têm a paixão pelos estojos, pelas caixinhas e'med~hõesem
que elas guardam seus tesouros: mechas de tabelo, flores secas, jóias de farol-
lia, miniaturas que, antes das fotografias, .permitiarrl- que se conservasse ~ ros-
to amado. Mais tarde, -fotografias individuais ou de famil!a, emolduradas ou
reunidas em álbun s, estes herbários da lembrança) alimen tam uma nostalgia
'
,
indefin.idamente enfraquecida. ColetâQeas de croquis e de cartõ~spostai.s me-
TQorizam
as viagens. Além do mais, as mUlheres são.lev.adas·~a fazer . tais cole-
Bdle Epoque. Paris: Le C bemin Vert o 1981 .
-ções pela engenhosidade de uma papelaria em pleno desenvolvimento. Agen-
/
'
,
.,
37

8 Lenres des filies de Karl Marx. PrHace de r.Perrot . Paris: Albin Michel, 1979 .

9 Anne-Martin Fugier, uLes Jettres célibatalres", arligoo3 ser publicado.

10 ~TH[ESsE,Anne·Marie . ~Roman du qll~tidjen.Lecteurs et ledures populmres à la

das nestes arquivos cujos restos, conservados até hoje. nos sugerem a sua ri· queza tanto como o ,se u interesse enfim recQnheddo! Estas destruições vêm dos a,casos das sucessões e das mudanças de casa, dnun go?to pelo secreto que cimenta a intriga familia:r, mas também da indi- ferença de descenden~es embaraçados p~los legados de seus predecessores que causam tanto estorvo: indiferença agravada pelo caráter subalterno dado a es-

tes escritos clãs mulheres. A5 cartas das filhas de Karl Marx foram imperfeita- mente conservadas!e publicada,s tardiamente; ao desven4ar as manias o u'as fra-

tardiamente; ao desven4ar as manias o u'as fra- quezas do pai ou-do homem privado, elas chegam

quezas do pai ou-do homem privado, elas chegam a constituir; para 'alguns, uma

certa in'conveniência,· Outro exemp lo: a correspondência que Tocqueville man- teve con~ se u am igo Gustavo de Beaumont foi preciosamente guardada como

um testemunho único sobre suas empreitadas intelectuais e políticas; paraJela- mente, a correspondência mantida.por.suas esposas desapareceu por completo. De resto, muitas mulheres, presseqtindo a indiferença, adiantaram-se a ela ao "colocar ordem em seus negócios", isto é, ao destruir seus cadernos inti- mos, temendo a incompreensão ou a ironia de seus herdeiros. Deixa"r para trás

de shca rt as d~ amor

sal cuja bela image'm o tempo já havia alterado? O mes.mo acontece pa"r; a a~i­

zade. Eis duas amigas. Hélene e Berth~ que durante quarenta anos trocar~m uma intensa correspondência. De Hélene, resta"", 625 cartas; de Berthe. nada: ' ela pediu a Héiene para destruir tudo, pois não desejava nenhum testemunho

de sua amiztde. Hélene resistiu, mas finalmente, dilacerada, queimou as ama-

das missivas.'

.

to pro'ibido. Para retomar o mesmo exemplo, o pai de Hélene irrita -se ao vê- Ia pass~rtantas- horas em sua correspondên'cia. Ela deve se defender e esconder- se ~ara 'c~ntmuar ó que, aos olhos do Paj, é uma criancice e um desperçlício.

Uma certa culpa acompanha esta transgressão de um domfnio .sagrado. Não se

dJ ixará vestígio,s desta párte ~ecretade si mesma,

36

" ., Parte J Cup{lI/lo I Th>,M Práticas dll memória fcmi",'"a I ~. d;.ts keepsakes
"
.,
Parte J
Cup{lI/lo I
Th>,M
Práticas dll memória fcmi",'"a
I
~.
d;.ts keepsakes y ind as da Inglalerr,! incitam ao registro dos acontecimentos pri-
vados. "Durante a Monarquia de Julho, toda m'oça de boá farnHia tem seu ál-
bwn q~eela apresenta aos amig~sda casa. É Lamartine quem abre o álbum de
que se exerce sobre o co;po das mulheres a toda 110ra do ~a, a cada mês de
uma estação. Devéria mostrou-o ao detalhar os trajes que uma mullier elegan-
te deve usar, hora após hora.
Uopo ldine Hugo", escre~e Al.a i n Corbin . No fim do séc ulo 1Q, o
edit'c>r , P aul
O Uendorf lança o Recl/ei/·victor HI/go, transposição dos birtllday books britâ,'
nicos; a -página da esquerda é ocupada por trechos da obra do MestrJ, a da di-
. ceita menci?na apenas a data do dia; ele pode ser usado como uma col~tânea
de poemás, de pensamentos, uma agenda ou um diário, pouco íntimo por ser
Mas este dever, no ,qual algumas mulheres encontram prazer e outras
um tédio profundo, dá forma à memó~ia, Uma mulher inscreve as circ~nst~n­
cias de sua vida através dos vestidos que ela usa, seus am9res na c_or de uma
echarpe ou na forma de um chapéu. Uma luva, um lenço. são para ela relíquias
de que só ela conhece o vÁlor. A monotonia dos ano~ se diferencia pela roupa
que fixa também a repre sentação dos acontecimentos que fazem se~ co ração
I
-aberto aos famÚiares.
Estas práticas,implicam na ~déia de uma capitalização do tempo, cujos
I
bater: "Eu usava, naquele dia
." ela dirá . A memória dá s mulheres é
vestida . A
instantes privilegiados podem ser revividos pela rememoração, reinterpreta-,
I
dos, como u~a peça de teatro
representada .sem 'cessar. Elas in screyem-se
em
roupa é sua se,gunda pele. a única de que se ousa falar ou ao menos son har. A
importância d~as"parências faz que as mulheres sejam 'mais ,atentas ao léxico
um s~cillo 19 que faz do pri~ado o lugar da felicidaçle imóvel, cujo palco
é a
des
tas
mesmas aparências. O rosto do outro é tudo o que elas podem permi-
casa, os atores, os membros da família, e as mullieres as testemunhas e as cro-
ni stas . Mas esta missão de memoriaLista deve respeitar' limites implícitos. O
pessoal, o muito íntimo são ba 'nid os deste registro como indecente S". Se a móç ,a
tir-se.
Pelos alhos. ela's pensam atingir
a alma
.
.E: por isso que elas se lembram
d
e s ua cor, à qual "()~ homen s são geralm eht~ indiferentes.
sol.teir~ ,che~a.a atrever-se timidamente a se apropria r , de seu diário , a mulhei
casada, no entanto, renunc,ia a ele. Não há espaço para' tal forn13 de es.crita é-de
pensamento n a câmar~CO;ljugai. Como a escrita, 'f'\' memória feminina ~fami -
UMA MEMORIA DO PRIVADO ·
-.
liar, semi-oficia.l.
'.
.
Assim, os .rll0dos de registro das mulh:res estao ligados à sua condição.
,
A
roupa branca, as' roupas, constituem uma o~tra forma de acumula-
/
ção. O enxoval, éuidadosamente p~eparadonos meios populares, rurai$ sobre-
ao seu lugar na famüi~ e ~a soç iedade, O me s mo acontece com se u modo ' de .
Jememoração, da encenação propriamente dita do teatro da memória. Por for-
tud~lé "lJ-mà longa hi stória ent~emãe e filha ':11 A conf~cçãodo enxoval é um
legado de conhecimento e de ' segre;dos, do corpo e do coração, longan:tente-'
ça das coisas. ao meno s para as m~eres de ~utrora e para ' 0 que resta d o pas-
sado, n as mulhere s de
hoj e (e que não é pouco).
é uma mem ór ia do ,privado,
destil~dos. O armário
d~ roupa branca é ao
me s mo tempo um cofre-forte e
um
i,
'~ relic4fio. A espessura
dos
guaraan~pos, a qualidade
len ç6is. a finut:a
dos panos de pó
das toalhas de mesa, as d obras d . os _
têm sentido em u~a cadeia
de ges-
I .I
tosiep~tidose enfeitados.
!
'
"\
-
I
A roupa br3.l1c~ pe~tenc~ à esfera do íntimo, as roupas, à esfera do pú-
blico . Elas estãQ ligadas às apàrências cujo cuidado é um grande dever da s mu-
j ,
;
Ihere's, sobretu'do das
burguesas. A moda, nova
fOFma de civilidade, é UI)l có -
digo ao qual convém submeter'-se sob peóa de cair em ,desgraça, uma tir~nia
/
voltada para a família e para o intimo. aos quais elas estão de certa forma re-
l~gadaspor coJyenção e posição. ~~beàs ml;llheres co'nservar os traços das i'n-
fândas em que elas são governantas. ~abe'a das a transmissão das ~jstóriasde
família) feit,a geralmente de mãe para filha, ao folhear álbuns de fotografias aos
quais, juntas, e1a S"' acrescentam um nom~,uma data , de sti nado s a fixar id e nti -
dad~s já em vias de apagamento, Cabe às mulheres o cuito dofmortos e o c ui·
dado com as tumbas, o que as in~uinb~-de velar pela manutenção da! sepultu-
ras. Ir colocar flores nos túmulos dos seus, no 9ia dos mortos, costume instau-
',;
~
\ ,
,
11
I:JNE. Agnes
Le trousseau. in: Une lJisfoirc des femmes est-elJe possible? Sous ,Ia
direction de M. Perrot. Marseille: Riv3ge~, 1984.
·
"
rado na meta,de do séc~o 19, ton~a-s'emn mandamento das filha s ou das yiú-
. vaso A proximidade do cemitér io fixa às vezes a sua última moradia , como se
.ele fosse uma dependência da casa. Esta situação é ainda ace.ntuada pelas guer-
.'
.,.
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38
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39
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Parte,J , Clp/f"Iol TnffOl PnJticlU tÜI mallôria ftm inina ras, sobretudo a Primeira Guerra Mundial,
Parte,J , Clp/f"Iol TnffOl PnJticlU tÜI mallôria ftm inina ras, sobretudo a Primeira Guerra Mundial,
Parte,J , Clp/f"Iol TnffOl PnJticlU tÜI mallôria ftm inina ras, sobretudo a Primeira Guerra Mundial,
Parte,J
,
Clp/f"Iol
TnffOl
PnJticlU tÜI mallôria ftm inina
ras, sobretudo a Primeira Guerra Mundial, pevoradora de homens, cuj os no-:-.
mes são tragicamente enumerados sobre os monumentos aos mo.rtos das pr'a-
sejo de conservar a memór~ia de mundos que se desmoronam - corno a Lore .
ças. dos vilarejos. Mas
delas, trágicas carpideiras, não nos lembraremos.
na metalúrgica e si nistrada - levaram
tivo (o u semi-diretivo ). sua exigência
nesta direção. 1J Por seu caráter não dire-
de p.articipação por parte do observador
A memória das mulheres é verbo, Ela está ligada à oralidade das socie-
dades tradicionais que lhe confiavam a missão' de contadora da comunidade
da aldeia, No vilarejo de Martin Nada~d, na Creuse, a velha Fouéssoune des-
necessariamente !Jlais implicado do que em um banal questionário, o relato de
vida deve mais à' etnologia do que à sociologia,
"
As
mulheres foram amplamente uma parte integrante ' desta aventura,
fia, nas vigílias, a canção de gesta do lugar. Mas quando se insta:.uram as. migra-
ções que, no meio do inverno trazem de volta da cidade os operários da cons:-
trução, carregados de pres~ntese de bo~tosda ~apital:ela
se ' encolhe em seu
canto e, pouco a pouco, cala-se. D':1rante a vigf.lia, a partir de então,'''~ palavra
está serl]pre com O pedreiro, é ele que faz girar a cabeça das moças, é a ele que .
os pais cedem geral~ente a mão de s ua s ftlha s". n
Cena significativa: provavelmep.te houve, no século L9. uma certa recu-
sa da fala feminina, desqualificada'pelos meids de com unicação modernos, pe-
los sucessos saltit~'ntesdo ç,scrito: cOrrespondência, cartões postais, diários. E
ao m~smo tempo, perda insidiosa de uma funçã9 tradicional e ruptura de an-
tigas formas de memória.
entre as pesquisadoras bem como entre as pesquisadas, e ~ isto o que no s in-
teressa aqui. E pQ.r diversas razões. Inicialmente, a lóngevidade nitidamente
mais elevada das mulheres (na França, atualmente, a' diferenç.a entre a expec-
tativa de vida dos Jtomens e das mulheres é ge oito pontos) l~ que lhes confere
um statu s efetivo d'e testemunh'as. sobrevi~entesde épocas ;emotas. Trata-se
de reconstituir a história factual ou cotidia na , de uma (am1Jia ou de um bair-
ro, captar a "vivência" dê um grande acontc;cimento público? Para o entreguer-
ras, ainda mais evidentemente para o início do séc ulo 20, foram as mulheres "
que restaram. A maioria dos pesquisadores trabalhando com este método teve
es.ta experiência. Necessariamente eles trabalham com uma amostra sexual-
'
mente desigual
_
'.
AS RECITANTES
.
,
,
É por isso qu'e os desenvolvimentos recentes' da história chamada de
"oral" são d~ cer ta maneira
uma revanche das mulheres.
Sabe-se tudo o , que '
" esta n~ovaforma de co~eta de m
teria.is para a história deve às experiências nor ,:-.
te-americanas (Q uebec"sob retudo ) e polonesas" e, adma de tudo à obra pio-
neira de Oscar Lewis, Les Enfants de Sar~che;. Dar a palavra aos deserdadós, às-
pe~o!s,sem história, aplica,r às populações urbanas contemporâneas os ~éto­
dos emp'regados pelos
etnólogo.$' para os pseudo-"primi~vos": tais foram , no
iniCio, os pressupostos oeste p·(ocedimento. Na Fran ça, ela se desenvolveu em'
í1i~ersas direções desde a déc:.da de 19~0: da pllblic Iristory dos grandes atores
I sociais, indi~duaisou coletivos, ao. humilde \'relato de vida'" a~rancaqo <.\as
Segunda razão: o mutismo dos h<?mens, em um casal, a p'ardr do mo-
mento em que se tratl de lembranças de infância ou da vida privada, contrasta
com a loquacidade muito maior das mulheres, quer seja porque o trabalho e as
empreitad as do exterior tenham atrofiado a memória masculina, quer seja ain-
da porque falar de si mesmo é contrário à honra viril que con'sidera e,stas coisas'
~egligenciáveis)ab~ndonando às espos~s o laldo.dos berços e as questões do lar.
Esta concepção de urna indecência do 'privado é particularmente forte na e1as-
~. , se op~ária, to~a voltada para a reali zação do homem de mármore da consciên-
cia de classe. Falar de Sua vida é àpor-se, entregar~se ~o olhar de seus inimigo s.
, desta burguesia sempre pronta para o desprezo. Esta era a opinião de Prourlhon
que sempre se recu~ou a escrever a sua autobiografia, por medo de parec~r um
saltimbanco de feira. "Os fatos de minha vida sã.o menos do que nada", dizia ele.
"Não é bom para a liberdade e para a honra de um povo que os cidadãos colo-
.
"
"pessoâs comuns", Um certo populismo
herda,do
de 1968, mas também o de-
,
'
I
-
,
13 Por uma análise sugestiva destes fe:n6~e:nos.cf. JEUDY, Pierre:. Mimoires du Social.
"
.
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.
Paris: PUF; 1986,
.
12
CORBIN, Alain. Arcltarsm~ et moduniti tn Umóus;n. Paris: Rivihe, 1975, I, p. 22( '
14 Levy, M. L M'ooe:mit~,Mortali(~.PoplIlations et Socittb, n, 192,ju~ 1985.
.
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.e Capitulo I • P rd t icu s da ~'lc",6 ria f e llli
.e
Capitulo I
P rd t icu s da ~'lc",6 ria f e llli nin a

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.

Parte 1 TroÇ(lf quem em cena a l etes de comédia intimidade de suas vidas,
Parte 1
TroÇ(lf
quem em cena a
l etes de comédia
intimidade de suas vidas, tratando-se. un s aos outros co m o va-
o~ sa ltimbanco s."u "Os milit a nt es operários, sobret ud o os que
' são ligado s ' à CGT e ao PC rejeita~ faJar de ' s u a exis tência pe ssoa l e limita~l-se
à s~avida sindic.a1 e militan!e Sobr~a familia e-o ~otidiano,que sç int errog ue
as mulheres! Este asp~cto'cÍas coisas cabe a elas. Mesmo 'em um casal de tradi~
ção autogestionária/ (anarco-sindicali sta ) como o interrogado por Jacques Ca-
rou.x-Destray, a divisão da memória obed ece uma definiç~o muito estrita dos
o
p a péi s sexUai s. Am é d ée fala do trabalho , ~e greves e de ação reivindicativa;
Marcelle fala de casa, de vida'material e de história fàmiliar. 16 Na rem em o ração,
as mulheres são, em ,suma. as porta- vozes da vida privada.
, Enfim , o femini'smo desenvol veu u~a en orm e interrogação sobre a vida
das mulheres obscuras. Tornar visível, acumular dados, instituir lugares de
,
.
memória (arquivos de mulheres, dicionários
)
foram preo:cupaçôes de uma
hi stória da s mulheres em pleno d esenyolv;mento, por cerca de quinze anos. E'
na falta de teste munhos escritos, procuro~-se fazer surgir o testemunho o
Interrogou-se sobre o papel das niulheres nos acontecimentos públicos,
por
.
.
exemplo, a Resistência
po.de a!ação da s mulheres, di ss imUlada na trama do co -
tidiano - uma saco la d e compras, uma xícara de chá - foi muitas vezes 'consi-
d erável, bem como sua existência parti cular n a sociedade comum, Inicialmen-
te ,as nl"ulheres m ani festaran:t-~uit<)sreticências e se u pudor abrigava-se _atrás
do pretexto de sua insignificância. Dizer "eu" não é
queI1) ~od'a qma ed u cação in c ulcou a ~onveniência do
fácil , para as mulheres a
esquecimento de si ;nes -
ma, a tal ponto que, para contar sua vida, um a operária - Lise Va nder w ielen -
preferiu.abrigar-s~detrás 4a fi cção de um pseudo-romance. 11 -

, .: Tudo depenqe fiflal.m~nte da natureza da .relaçãb com

a pesquisadora:

uma i certa famili a ridad e des~jo ré éalêad o' de falar

si d b r ada ' suj ~ ito da hi stó - ria . As mulheres cr i a ram o h á bit o d , e u s ar o megafone,

de si, com o p ra.zer d e ser levada a sério e, enfim, co n -

co ntrário , um

'

pode vencer as . resistências e liber a r, íJ .O

~

.

1.

"

_

"

,

"

'. 15

P ROUD H ON, P. J. Mémoires d~ ma vie, cos diversos reurudos pOr"B. Voye nn e.

!,a ri s: Maspé ro , 1983. Texto~ autobiográfi- .'

,)

16 C~ROUX-DESTRAY,J. Un co·upllollvri d, tr.aditio "nel , La vieille garde alltQgesiion- .

42

17

' Iaíre, Pari s: Anthtopos,l ~7 4.

.

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.

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.yANDERo/IE L EN, Lise · , . Lise ' du PiaI Pqys~ romano LiJle: PUI:. 1983, Posfácio de Françoise Cribier.

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chega ndo 'a se ntir até m es m o cer to orgulho por isso . Os asilos de mulheres tor '"

naram -se terreno s de pesq'uisa, cotn resultados diversos, ligados à q uali'dade dasi nterlocutoras.

Estas experi~ncias permitirão talve z um · dia analisar mai s prec isam e nt~

funcionaniento da m e mória da s "mulhere s. H á~ no fundo, uma especificida-

de? Não, se m dú v ida , caso tentemos an ~o rá- la emuma natur eza q u e n ão se

pode encontrar e no sqbstrato biológico. Sim, provavelmente, na medida em q u e as prá~cas sociocultur a is em ação na tripla operação "que co nstitui a m e-

relato - estão

imbricadas com as relações masculinas/femininas reais e, como elas, são pro-

m ór ia - acumulação primitiva, rememõração, ordenamento do

\

d utos de um a história .

Forma .da relação com o tempo e o espaço, a memória,' assim co mo a ~stênciade que elá é o pro,longamento, é pl'ofuJ.1damente sexuada'.

43

.

r.

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tapltulo 2

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As FILHAS DE 'KARL'MARx:-

"

CARTAS JNÉDITAS* ,

,

~u gosto das Correspondências. de seu tom de c::o~dência, de suas singularidades, de seu gosto pelo detalhe fútiI~daquele "insignificante" - tão repleto de sentido - que tece q cotidiano_ Se~ escapar dos c6digQS que um século epistolar sabiamente estabeleceu , elas têm "3 vantagem. sobre as auto-

biografias, de apresentar uma maior espontaneidade, uma encenação n!enor. As ·pessoas aparecem ali não na postu~a de seus sonhos, mas no desencanto do instante. com sua s dores de cabeça e suas mudanças de humor, seus pro-

blemas e ·se us proje'tos.

flll~liza~ias pequenas pinceladas pontilhistas das cartas, em sua fugacidade. incerta, d-esenham os contornos pou co nítidos de existências' em progresso.

Nada está definido ai~da, tudo é possível. Ao menos o autor ~ensa assim.

,-

-

Para nós que sabemos, é úma fonte' suplementar de melancolia: a melanco- lia de Deus, talvez, se ele for bom

. ' '. ,
.
'
'.
,

As Memória-s são mon ólogo s ·irr,tperi9sos; ato de um p ode r que se le-

ciona e censura sem afelação e sem cOl).traditor. As Co rrespondências, s,e não

'

I

tentam um diálogo, buscam pelo menos uma .troca com um mterloçutor

.

cúmplice ou incliferente, pr.6ximo ou opaco: Os encontros, os mal-entendi-

. dos, os silêncios. pelos quajs vive e morre um amor, uma amizade, uma rela-

-~

Introdução a Les Filies de Karl Marx. LettTes i,:u!ditf!S;. Traduits et présentés par O lga Meier et Mi chel Treb itsch . Paris: Albin Michel, 1979; p. 9-50 .

45

As Men\órias racionalizam e dão status, se lecionarp e
As Men\órias racionalizam
e dão status, se lecionarp e
Treb itsch . Paris: Albin Michel, 1979; p. 9-50 . 45 As Men\órias racionalizam e dão

"

, Clp{tu/(,2 Asfilhm lli! Kaf/ Ma rx; cllrtus hrhlifus Sinceramente. escreva-me de tempos em tempos""
, Clp{tu/(,2 Asfilhm lli! Kaf/ Ma rx; cllrtus hrhlifus Sinceramente. escreva-me de tempos em tempos""
,
Clp{tu/(,2
Asfilhm lli! Kaf/ Ma rx; cllrtus hrhlifus
Sinceramente. escreva-me de tempos em tempos"" diz ela a Laura, cuja in-
dolência deixa às vezes suspeitar uma cert~indiferença: I?a mesma fOl:ma,
após a morte de ]enny, Eleanor deplor,a o mutismo daquele que ela chama
apenas de "o pai" - seu cu nhado Charles Longuet - que a priva de seus so-
brinhos, Esta correspondência é também o longo lamento de um coração so-
litário diante das cartas que se espaçam, a exemplo dos laços
que se .desfa-
zé m. O conçerto acaba num solo, assim como a vida.
. Eis então uma correspondência de mulhere s, mulheres de uma mes-
ma origem, que .se compreendem e se amam, cuja sonorida~e não é, no en-
tanto, ise nta
de nuven s negras . Jenn.y, a Sábia, acolhe e co mpreend e; sua mor -
te, aos trinta e nove,anos; desequilibra o trio para sempre, Com Laura, a Bela,
as relações são mais conflituosas desde o inicio; ela julga Eleanor uma ('b ra-
va jovem':· mas de scon fia de s ua s fantasias, como mo stra uma história de
uma ca rta perdida: Thssy teria mesmo enviado aquela carta da mãe mori- .
-bunda à sua filha Jenny? E nos amores contrariados da . irmã zi nJ"ta, ela se
uma
, mostra áspera ,e fria , tomando o partido da ordem: do Pai. Entre elas existe
uma fenda em que a confiança se-quebra,
Aqui os homens intervêm pouco. Eles escrevem entre si e para maté-
,
ria s nobres:
Paul Lafargue dá ao "Caro Senhor Marx" notícias da Internacio-
nal que el~tenta im plantar no Sudoeste. Se ele escreve para sua cunhada) é
por razões de negócios: e~a o lamenta. Co mo em lodos os casais, os homens
acrescenta~um postScrip~m,ou colocam asua assinatura·no fim das cartas
de suas esposas, responsáveis pelas relações familiares. O gênero epistolar
não escapa da divisão sexual dos papéis.
Bastante espontâneas em sua escrita, aparenteme·nte feita s sem rascu-
nho, rapidamente, terminadas ao· chegar ao fim de uma página ou com o
apagar de uma lâmpada. estas cartas têm um tom de coriivênci~,uma ironia
zombeteira qu~e c,!i bem em uma famflia tão imbuida de s,ua superioridade;
ela s são apimentadas com anedota~ e até mesmo mexericos. Co m o convém,
o cotidjano ocupa ali um lu gar essencial, infinitamente precioso para n6 s.
'Mas a atualidade polltica, ao longo do tempo, torna-se mais il)vasiva. Tratan-
do-se desta família, espaços privado e público interferem um no outro, a
.-
,
19 .C.'84, E
L., 22-2-1694.
47
,
'-

I:

,e,rte 1

•To"llfOl

ç,30, esboça'm ali uma arte da fuga. Longe das cerimônias oficiais, as Corres-

arte da fuga. Longe das cerimônias oficiais, as Corres- pondências introduzém-se ~o interior dos casais e

pondências introduzém-se ~o interior dos casais e dos grupos. Elas l110stram o avesso do .espetáculo, as fadigas do herói, suas dúvidas e seu dia-a-dia. Por

i~so;os turiferários hesitam e _m torná-las públicas. Nem tanto por re speito d~

intimidade, tão faci!.l.nente violada para o inimigo"mas sim por temor da sombra que a mOnÓtonia da prática COfre o risco de lançar sobre os esplen-

dores da teor~a. Por eSta razão, talvez, 35 Correspondências, abordagem de

.verdade, tocam-nos tanto atualmente. Ma~x - o rei Marx - tinha três filhas de lindos nomes so nor?s: Jenny, Laura, Eleanor, criadas na sombra protetora e devorante do Capital. Elas são

as autoras e as principais de.stinatárias destas cartas, em proporções muito ~esi~"uais e variáveis ao longo do tempo. Até os anos 1880. ]enny e Laura, as .

rr I

duas mais velhas, dominal1! o coro fa~iHarque seus casamentos aumentam _com vozes francesas. Laura desposa Paul Lafargue em 1868, )cnny, Charles Longuet em 1872. Depois da anistia dos Ilarticipantes da Comuna de Paris e

I '
I
'
anistia dos Ilarticipantes da Comuna de Paris e I ' a partida para a Fqmça dos

a partida para a Fqmça dos dois jovens casais, a pequena Eleanor - onze anos

, ,. • .
,
,.
.

no inicio

.~

da história - torna"-se a grand~, e logo a única epistológrafa de

correspo ndên c ia que a m~rtedos pais e da irmã mais velha reduze~(a par-

tir de 1883) unicamente à relação com Laura. A, cativante figura de Tussy anima esta corre~pondência da qual ela é

finalmente a maior artesã: 69 cartas etn 106, metade das quais ende~eçadas para Laura,levam a sua assinatura. Ardente para escrever - ela possui de.§de

1889 uma máquina de escrever de que faz uso, na realidade, unicamente pai"ã"'"

os textos ptofissionais e militantes

ávida · de notícias.

f

a afetuosa, a ansiosa, a ativa Elean9r é

Quando criança "e la as rei~indica de seu pai, melhor cor~

resli"0ndente ,com os outros do que com os seus: «Tu não podias ficar ausen- te toda uma quinze na sem escrever", " assim como mais tardé ela as su plica para a distante Laura: Seduzida pela comodidade dos recentes cartões pos:

lizaç.ão: - .- 46
lizaç.ão:
-
.-
46

tais, ela introduz·~seu uso:;':õ.penàs umª pa,lavra para diz'er-me que e$tais

bem me bastará" (1881), chegando a lasti mar, mais tarde, o abuso de sua uti-

"Não me contentarei apenas com um mesquinho pedaço de caqão ."

.

I

18 . Carta 6, EJeanor a Karl Marx, 26-1-1867\

.

,

,

Porl, I

""'"

fÃpltlllD 2 .AI folhas de Karl Nane ttJnas in&lrttu

I ponto de confundirem-se às vezes. Os acontedmento.s da crônica familiar ritmam a história do
I
ponto de confundirem-se às vezes. Os acontedmento.s da crônica familiar
ritmam a história do socialismo. A entr~da em cena, a saída de personagens•.
ao .sabor do estado civil, articulam a peça.
Ato I (1866 - 1872): a cena se passa em Modena ViUas, a grande casa
dos Marx, em Londr;s, cheia de crianças e de gatos, de amigos e de ctisdpu-
RETRATOS DE FAMíLIA
.,
."-
I
Desta correspondência. 3 furnilia Marx é então o teatro e o ator. Sur-
.
lo s. Este ato se chama Aurora: no interior,,;J. juventude das
meninas, se us pra-
zeres, se u s amores; dois casa~e nto s; no ' exterior, o livro I do Capital (1867),
o
desenvolvimento da Internacional, irrupção da Comuna de Paris. Esperan-
preendente familia, judia em sua estrutura muito patriarcal, vitoriana em seus
cost'umes, e atravessada' por um grande projeto qué fa z sua uniClade e solda se·u
destino. Folheemos o álbum; aliás, não faltam fotografias: os Marx são ávidos
·deste substituto do retrato. Jenny emoldura ela mesma 3 fotografia "em gran-
de formato" que envia a seu pai, "espl&1dida, perfeitamente pareqda. Nenhum
ças. Decepções.
.
pintor teria podido fazê- la com ·mais ~ressão'~ E Laura cqmenta:."Tua
foto-
1872
'- 1880: Intermédio . Tod?s estão recolhidos em ', Lóndres ; toma-
".
.
da, pela fprça das circunstâncias, a capital do socialismo. Poucas viagens.
poucas cartas. Silêncio. Nos bastidores, Elemor ama Lissagaray.
Ato II (1881 - 1883): Noite e brumas: Paris e sua periferia; Londres e
grafia a~radou-me imensam·ente. Admiro sobretudo os ,olhos, a testa e a ex-
pressão: os primeiros têm aquela autêntica centelha travessa que eu tanto amo
no original, e é a única de tuas fotografias em que se encontra tanto a expres-
,
são·de sarcasl!l0 e de prófunda bondade!'; ela identifiCai ali, no -entanto, "uma ,.
a
ilha de Wig!lt. Cenários: quartôs de doentes, velórios, cortejos J1lortuá(ios
.
.
ponta de maldade (
)
temível para teus inimigos"."
por ]enny à mãe, por ' Jenny à innã, Kar l o pai , o peque nó Har~ra Longuet .
Eleanor rompe com Lissagaray.
./
Ato m ( 1884 - 1890): uma mulher, Eleanor Marx'Ave1ing, tenta viver·
intensamen"te. Cenas múi~iplas: Paris, Londres e o campo,!l Suécia, a Améri-
C' l. Amor, teatro, viagens e politica. O desenvolvimento dos partidos operá -.
rios, o nascimento da Segunda lryternacional marcam o apogeu da co~abora­
ção das quas irmãs, sob a tutela do "Bom General", Engels, cuja casa é man-
tida pela fiel serva HeJene Demuth, até a sua morte· ( 1890).
Ato i\r (1890 - 1898): fim de
jogo. Para Engels, cuja
cas; torna-se, at€
1895, o centro doe uma ação muito balzaquiana. Pândegas. Disputas de mu;
Ihere ~: Louise Kautsky expulsa Pumps, a sobrinha . bêbada, e em seguia. Elea-
nor. Hist6rias de herança: quem terá os Manuscritos de Marx - O prodigio
Marx, - "o .f-.:1.estre", Mohr) ChaUey, Qld Nick, etc., a abundância de ape-
lictos sublinham su"a pres~nçâ - domina com sua estatura esta tribo sobre a
qual ele reina, désEota afetuoso e tirânico. Suas filhas dedic~-lhe um vercla-
.deito culto. Vaidosas <;0010 colegiais, elas procuram seus nomes em suas car-
-tas, fingi~dociúmes se ele menciona mais uma do que o~tra.'Cú m plices, elas
lhe fazem provocações sobre sUas amizades mundanas ou femininas , preoçu-
padas também em mostrar-se à altura dele, por suas leituras ou sua cultura
poBtica. A temporada que Marx passa na Alemanha, em 1867, para a edição
d.o. Oapital é à oportunidad.e de efusões epistolar~sem que somente Laura,
ocupada por seus anlores com Lafargue, é mais ctistantE;! <CComo sentirei tua
falt~ no l ° de maio" escreve Jenny que agradece se u presente de~anive~sário,ao
I
.
so ljacMpss, este tesouro?~ quem receberá o dinheiro de Enge~s? Fim de par-
tida também para Eleanor, que coloca, ela mesma, um ponto final neste jogo,
erfl 31 de ma~çod.e ·) 898, ao tomar uma forte -dose de ·veneno "para cães". Sua
última carta I?ublicadá aqui, escrita trê~ meses antes, deiXa perceber~seu
passo que Lafargue escreve a respei to de Thssy:~Pareceque eJa preeis, de .vós
para poder viver'~ 21 No dia seguinte às suas núpcia s, Laura .escreve de Dieppe
para' o se u "VeU1Q Mestre": "Não consigo imagin~rque
os deixei todos , para
contigo, eu tomaria
.
sempre. Se. eu devesse estender-me sob re este assunto
grande
"Ca~saço,sem pressagiar -esta sa1d~. Ei . la, ·no entant~, toda vestida de
.
muito de teu tempo'~n
/
branco deitada em seu quarto do Den --:3 toca - aquela casa que ela amava .
- I,
. Enfun calma. Só.
.
'
,
20
C.
8,
La K
M.,
5-1867; C.9, L., K.M.,8-5-1867 .
l
.
l
~.
I
f
i
C.
7.
P. L
a K. M.• ~vr./mai 186 7.
.,
,
22
C.
lO, L · , K. M ., 3-4-1868 .
.-
,
.
48
49
'
j
i ' Par' e: J , Olpflu/o 2 A I fil/w! de KQ'" MI" K:
i
' Par' e: J
,
Olpflu/o 2
A I fil/w! de KQ'" MI" K: ( Qmu inttl itm
1}uço,
'I
Pai afe tuoso, sem dúv.ida nenhum a, atento às p eq u enas coisas da vida,
. ao ritual da s festas ou dos aniveFsários. àsa úde e ao futuro de suas filhas, como
ficaram até a alienação. " Tussy, so u e u ", dizia ele: é preciso temer estas identi-
ficações proprietá ria s,
Em contraluz, a Mãe, aten ta e discreta, misteriosa presença de traços
ele fora,
no passa d o. atento a suas brincadeiras. Marx era tamb érn um pai
apagados pelos seus como se temessem
alguma som bra"algum buraco. v Aq ue-
. muito co nformi s t a que tinha, em m até ri a de educação, de relações amorosas,
,
la que fora outrora "a rain h a do baile de Tri er ", a bela e brilhante Jenny von
de alia!lças matrimoyiais e de estabelecimento, as idéias de se u meio e de se u
tempo,U Prudênciá, convicção, indiferença?! dificil de dizer.
Ele não parece se
esforçar muito. Pouco favorável ao trabalho de suas filha s, ele também não
\ >Vestph alen, de nobre fa mília protestante, que desposou , não se m problemas-
os drama s advindos da p éss im a aliança com um judeu alem~ão - é c h a mad a
'apenas de Mützchen (para ela, poucos apelidos), uma mulher envelhecida,
aprecia
(e la o
faz às esco~ didas ),
ca n sada de d ar tanto. voltada para as co isa.s do lar, semp re carregada de com-
ou que
muit o ' que Jenny ' trabalhe como prof( ssora
Eleano r queira tornar.,.se atriz. Ele lhe paga
suas a ula s 'com uma reti-
~ên cia que c ulpabili za a pobre Th ?sy: "E u fi car ia d eso lada de c u s t ar t ão caro a
Papai", esc::re ve ela a Jenn y, acrescentando imediatam ente : "Gastou-~e muito
pras e pacotes , mulh er caseira como as pintadas por Vu illard , cozi nhan do e
c9s turando interm inavelmente para sua s filhas e se us netos. As " ro upa s do pe-
que n o Fouc h tra': "seu d l ape u zinho ",
nutrem sua agitação in q ui eta qu e prova -
pou co par a a minha e ducação", :U pen sa ndo provave l mente no custo da educa-
ção de sua s irmã s, Das três filhas, foi cer ta ll1ente Tussy, a caçu la, quem mais
sofreu com a autorid ade do pai. Ele a impediu de desposar o homem que ela
amava , Lissagaray, que n ão considerava um partid o co n ve niente: m ais velho,
es te basco imp etuoso e loquaz erã libe;tário, p ob re e aventureiro demais.
Marx partiu o co ra ção de sua filha e irritava-se com a sua depressão: Eleanor
velmente teria gostado de ter ou tr os alim ento s; uma d e suas últirnas preocu ':
.I paçôes foi saber se "as c.1lças d o pequen o Johny lhe caem bem ou n ão?" "Sua
agulha s empre a ti va co m eça enfim a enferrujar'~ es~reve Laura a algu m as se-
manas de sua m orte, à guisa
de oração fúnep re.
A ela, esçreve-se po uco , e sob re o
in signifi ca nte: as fofo cas d e doenças ,
.
-
está histérica , diz e l e, Co m o. todo
Marx jun ta-se ao Dr, Freu.d, Ele
o se u séc ulo , TratanClo-se de mul~ere.s,o ' D,r ,
a transform a em com p anheira d e suas .tem-
o calo r que está fazendo, uma bolha nos pés devido a m eias grand es demais
compõem as raras car tas qu e, ao menos n esta coletânea, lh e são endereçadas
poradas de tratamen to em Car~s~ad, seguidas com uma pontualidade higiêni-
ca. E d epois, n ão se m remorso, fa z d ela a enfermeira par ticular de s,ua frágil
velhice. Durante sua pleurisia, ela cuida com .temor e tremores "daquele pa-
ciente terrivelmente resmungão", lS ap r ee nde sua s có lera s e te rn e co nfiar -se a
por su as filhas, Filhas que
até mesmo irritada, co m o
,
fal a m dela com um a condescendên cia zombeteira,
de uma boa pessoa, um t anto "bizarra", di straída a
ele: "N un ca m e agradou queixar-me a Pa par; ele ,!l'te repreende vigorosameh~
t e , copW se eu me 'del~itasse' em fi ca r doente às ex p ensas de minha famílla", 16
ponto de aparecer pouco vestida diante de visitante amigo, "vestida apenas
cOm as peças necessárias di spostas d e tal maneira que revelavam mais do que
escondiam"; provinciana o bastante para percorrer as grandes lojas de depar-
tam ento.f, no teatro, desejar ve r "algo qem parisiense" e aplaudir Vert- Vert, que
I;
A fà,I'nília . para Marx. ~ra sobretudo s ua obra, pe la qua l todo s o s se us se sacr i
fa zia as delíciªs da metade fe m in ina de Paris;lI além di sso, cheia
de reyerência
I
.
.
---,-,-

~;I

I

23

Entre as biografias recentes de Karl Ma r x, ver sobretudo: LtVY. Françoise P. Karl

Marx. Ilistoire d 'u" bourgeois allemand. Paris: Grasset, 1976 ( a lén1 do acerto de co n ·

J tas pessoal, um novo olhàr); RADDATZ, ,Fritz. Karl Marx. Une biogmphie politique

( 1975) . Paris: Fayard, 1978 ; SEI GEL, 1errold . Marx 's Fate: The Shape - of a

Life.

Princeton, NJ: Pririceton

U niversi ty Press, 1978 ( um a soma que se esforça

para

lig3f a existlncia ~a obra de man~eirapcÍ'tine.nte).

C.42, E.• ).:

18·6·188L

C

43,E.•

).,

18· 10·1881.

'.

C. 47,E.• ).,8· 1· 1882. ·

i

I

I

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.,

,

24

25

26

,

\

pelo Gr~nde Homem , de quem ela sempre aco mp anhava 'as co nferências, co- piava os manuscrito s e reli a as prova s com apl icação: "Pa rece que MO t zch en

estud ou co nscie nciosamente o livro" (o Capital ), escreve Jenoy, a intelectual, a

Charles Longuet.

.

,

27 Sobre este ponto, ver RAOOATZ, Fritt. Karl Ma rx. Une biograph ie politiqllt ( 1975 ).

P3ris: Fayard, 1978,

aparentemente destruída pelas filhas,'provavelmente por Laura.

a ma ior parte das cartas entre Jenny e . Karl desapareceu;

28 C. 14, L. , )., 9-5· 1869.

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de 26 anos, chamado
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'1fargue,·"

Estas pequenas lOlnbarias não impedem uma real afeição por aquela que fo! o que se costuma chamar de "uma mãe exernplar'~ Com a idade, ache- gada da doença, O tom ganha nuanças de terna piedade. de gratidão emocio- nadaI sobretudo para as duas mais velhas, suficientemente engajadas na vida conj ugal para compre.ender o que foi a existência de sua mãe, aquele modelo ·obcecan te. "Temo /<Íue Mamãe não se sinta bem estando sozinha quando tu também tiveres part.ido~escreve Jenny a Laura que preparava sua partida para Paris."S realmente cruel que. envelhecida e doente como ela está, da deva per- der todos as 5u,as fLlhas no momento em que teria mais necessidade de1as,"J' Estas cartas são um precioso teste~:nunho sobre a clausura de uma vida invadi- da até o fim peios se us: "Mamãe nunca está tão doente a ponto de perder o mais vivo e terno interesse por todas as pequenas coisas que fazem tua vida' co- tidiana", diz Laura a Jenny, Sua última palavra a se u marido, aqúele que ela chamava outrora"de seu "Selvagem': foi: "Bom'~ Assirn morreu a companheira de Marx que não ousamos chamar de mãe do marxismo, Imaginamos o IllO- numento que lhe teria sido erigidd por uma República do estilo da Terceira Re-, pública: inspiradora, anjo vindo do céu e coroando o pensador, ou mulher. ajoelhada, pasmada, estendendo- lhe as flore s da terr~.O Homem dt Mármo- re recusa tai s alegorias: o homem da iconografia socialista mantém- se vlril - . mente só

.)O

socialista mantém- se vlril - . mente só . )O em 1868, com Paul L suas

em 1868, com Paul L

suas ascendências cubanas, o u, mais freqüentemente, de Tooley. Filho de uma . familia (bastànte) rica de Bordeaux, 'ele deixa um pouco de lad o seus estudos Ide medicina para ' dedicar-se ao jornalismo, c?mo tantos jovens do Quartier .Latin efervescente do fim do Segundo Império. Ele colol;>oro, com o Rive Gau- che, órgão radical fundado por Charles Longuet: seu futuro cunhado, e par.ti- , cipa da organização do primeiro congresso internadonal de es tud.antes, em' .Liêge. Expulso da Universidade de Paris por haver preconizado o uso unica- . mente do vermelho corno emblema, ele sé refugia em Lon?ces, freqüenta la casa dos Marx, enamora-.se de' Laura} tão bela vestida de amazoníl. Marx, que o julga "~uitobon? menino, ~asu'ma cdança minl<lda e demasiado esponÚ-.

nea':" negocia o casamento cómo o mais cuidadoso dos notários e consente somente após receber garantias formais sobre a sua f'!rtuna: "0 pai (LAlargue) escreveu-me de Bordeaux'; conta ele a Engels (23 de agosto de 1866); "ele pe-

diu p~raseu filho o tltulo de noivo e apresentou-me, do ponto de vist:t fUlan- ceiro,
diu p~raseu filho o tltulo
de
noivo e apresentou-me, do ponto de vist:t fUlan-
ceiro, co ndiçõe~ muito favo'ráveis'~ Em 2 de abril de 1868, com um tempo mui-
to .frio, Marx ·vesti u sua sobrecasaca para casar sua filha. O jovem casal instala-
se na França, onde Lafargue, . por amarg ura e p~r inclinação , ocupa-se mais ga
imprensa do que da m edicina, o q\le inquieta Marx: <"~emo que o pai Lafargue
suspe,~teque eu levei seu filho a uma a~ão política prematura que -o faz negli-
genciar seus deveres profissionais': n A guerra, o recolhimento em Bordeaux.
tran sformada em capita l, assim como, mais tarde , a morte de seus três filho s,
acabam de afastar Paul de Hipócrates: ele será o introdutor na França dõ " ma-
terialismo científico", futuro fundador, c~m Guesde, do primeiro p:trtido ope-·
rário que reivindicav:a o marxismo. Naque.le momen,to, era um jovem pouco
,
'
falante, um tanto desordenado, que se esforçava para escre~re gostava de jar-
,.
. dÍnagem, bom pai, quand o se tratava d'"e br~carcom seus filhos, bom esposo,
no sentido tradicional, cheio de habilidadé e, de zelo para desenvolver a Inter-
nacional ~a Aquitânia. P:tra qu ê, aliás? MaEX não dá mais nenhum valor a ' uma
31 "Ver o verbtte sobre. Paul La.faf!Ue no Dictionnaire biogrrtphique du mouvtl1lcn.t
ouvrier français, publicado nas tditions ouvrieres, organizado por Jean Maitron,
indispensável para. o conhecimento dos militantes franc~.
32 K. M. a Enge~, 23-8-1866.
33 C 1S, K. M. a J., 2-6-1869.
53 ·

PAI E GENROS

No início da história, Jenny é 1,.:aura têm vinte e dois e :vinte e um anos. Saq'duas belas'jovens morenas, travessas e alegres, de excelente 'educação e·~ boas maneira~, às quais não faltavam pretende,ntes. Laura casou-se primeiro,

,

.

,

i

29

C.

41, J.'

L, 22-4 - 188 1. '

o

30

O

estudo

da estatuaria e

da iconografia, tão reveladoras das represe.n tações e'das

ideologias, é um domlnio novo na hiStória. Ver os trabalhos de AGULHON.

Maurice, Marianne au combato I:.imagerie .erJa sy",boliq'~t:rtpublicailles de 1789 tl .-

1880. ~ri~: Flammarion, 1979. e o arti~o-de HOBSBAWM, tric, $exe, symh?les, vê:tement et socia lisme . Act(~ de la rec'*rche en scietl cçs soda les, n . 23. sept . 1~78,

; ,que mostra a virilização,progressiva da Iconografia socia lista , sobretudo soviética .

52

I

v

,

li

Cnpltulo 1 Pllnlll Th.1fol A s filllllJ de KAI'I M Im e. t/trttU il!hli~tU ~
Cnpltulo 1
Pllnlll
Th.1fol
A s filllllJ de KAI'I M Im e. t/trttU il!hli~tU
~
se r virá, jenny lhe es-
' neira mais conjugal) com aquele hedonista por convicção e por temperamen·
to. separado de uma primeira esposa, e que já gozava de uma"reputação duvi-
dosa. Dizia·se que ele corria atrás das saias, que era cínico, alcoólatra, pouco
escrupuloso em matéria-de dinheiro, eterno endividado e pedinte indelicado.
Em todo caso, a op ini ão de pessoas tão diversas quanto Hynd.man, Ka utsky,
Liebkn~cht-o velho Library tão 6.1- e Olive SchTein er, intimQ amigo de Ele.-
nor, era nitidamente desfavorável. Eles a colocaram em alerta; entretanto, ela
agiu segundo o seu coração. Sua ligação tornou-se pública em 1884; ela çlura-
ria quatorze anos e teria seu desenlace na morte. Eleanor falava muito rara·
m e nte ?aquele que ela chamava de Dr. ~velin g. corno para melhor sublinhar
sua autoridade, 'sempre na-defens~va, muitas vezes para j u s tifi cá· l o ou descul-
pá -lo. Neste ponto, Engels, pou co inclinado ao moralismo, g.poiou-a. De resto,
militiln te ativo, jornálista "instruído, Aveli ng, convertido, podia ser ~pon~ade
j
lança do marxismo no movimento operário inglês: uma vantagell} que não de-
veria ser negligenciada.
ROSTOS DE CRlANÇAS
,
Ao longo das páginas, os velhos rostos se esmaecem, submersos por fo-
iografia& de crianças, d e que
Jenny e Lama foram tão
fecunda s. Ao tempo. da
,
avó, sobret~do,as cartas são repretas de suas mímicas e de seus balbucios: "Que
'delícia é para nÓS a leitura de cada pequ~nahistór ia e anedota que os conc~­
ne': )4 Seu modo de criação - aleitamento materno, artificial, ama~de-Ieite? -,
J
sua ~aúdetão del.icada, suas·roupas so~retudo- "o en cantador ·vestidinbo azul '
,
1
de Tia Lolo',:"o famoso terno de ve~udo","o terno de marinheiro':
-, aos quai~,
como perfeitos atores, elçs parecem dar bastante importância, são a opol'tuni-
somente apÓs a mort~dé
,,"

dade 'parà comentários extasiados e emocionados. Eis ttienne, chamado de Mimi, ou Fouchtra ou ainda Sclmaps, tão engraçado com seu carrinho: '''um verdadeiro macaquinho ,que imita cada palavra que se pronuncia e cada gesto que se faz", a pequena Schnapine, a Magricela, cuja morte culpabiliza Laura. Contra a opirúão de Paul, adepto do aleitamento artificial, ela quis alimentar ela mesm , a o seu recém-nascido, Marc-Laurent; quandp ~Ie definha, por sua I

34

C. 42, E. a j ., 18-6-1881.

associ",ção ameaçada pelos anarquist~s, este câncer que, segundo suas suspei- "-

ta ~. teria atingido Lafarg u e.

Aliás, Marx não confia nos franceses, estes pequeno-burgueses proud- honianos. Os participantes ga Comuna de Paris refugiados em Lôndres inspi- ram- lhe apenas uma confiança limitada . Porque su as filhas foram suc umbir aO

seus charmes? Ao1vinte e oito anos, Jenny, que quis ganhar sua vida come) pro-

fessora primária e fez tentativas no jornalismo sob O pseudônimo de WiUiams,

eoamo,ra-se de Charles Longuet, cinco anos mais vellio do que ela, um. nor- mando bem-falante, ativo mijitante da Internacional, presentemente professor

no King's Co llege de Oxford: competência de que Marx se

creve cartas de amor um tanto co nvencionais, desposa-o e m 1877 e o segue a Paris, após a anistia . Eles tiveram muitos filhos , o que não é necessariaménte . um si nal de felicidade a julgar pelas ca;tas deprimida s de Jenny a suas irmãs. Mais radical do que socia1jsta~,·Longuetagradava moderadamente a~Marx:Du­

rante as exéq uia s da Senhora Marx, Char les h ouve por bem evocar o drama quase racial que fora a união "de urna protestante com um ju.deu. Marx, que de· testava ser lembrado df; suas orig~ns,pediu-lhe, por intermédio de JenIíy, que evitasse, a 'partir de então, mencionar seu nome em seus escritos. JS~ria pqr isto? Depois da morte d~ Jenny, aS relações entre as duas irmãs e o cun had o viúvo se degra~am, envenenadas também, por inçessantes q~estões de dinhei- ro_E, oito anos 3.pQs a l1)orte de sua mulher, quando Charles tem uma ligação muito conjugal com uma jovem da Normandia, sUas cunhadas se melindram

e

reprova'" esta blasfêmia. Aquela família' é t~o exclusiva. quanto um clube fe -

cilada: é tão dificil de entrar quanto é complicado de sair; os laços afeti""s . acompanham-se de uma adesão inteJectual e 'de engajamento paBtico e de um , a vassalidage qua s~ fe

I

E d\,:,ard Aveling, por sua vez, nunca fez realmente parte da família. Ele:"~­

n~ro' freqüentou desde 1882, no entanto, amou·o

seu pai, temendo talvez a hostilidade previsível de Marx àqueJe professor de Ciências, imbuído de darwinismo, adepto do livre pensamento e do malt,husia- ni smo, amigo' do radiçal BradJaugh que, após a ,Çomuna de Paris levantou-se

I

I , r

I

·

,. 54
,.
54

contra Marx e a ln~ernacional.amante d,~poesia e de teatro: um daquel~sso- cialistas. "boêmios" e líricos pelos quais fMarx. homem de ordem, tinha uma profunda aversão. De qualquer. maneira j foi preciso muita coragem e amor a Tussy para impor a ~~aunião ~~re(um Pp uco forçada, e que da vi~eriada mll-

,

55

Alfte I C4p'ruloi T AI fi/luu tk K.rl Mtlrx: mrt<u i"lrlitlU vez, Jenny a exorta
Alfte I
C4p'ruloi
T
AI fi/luu tk K.rl Mtlrx: mrt<u i"lrlitlU
vez, Jenny a exorta a servir-se de uma ama-de-leite: "Escute ós conselhos de Ma-
mãe a este respeito'~J.SMarc-Laureot expira, sem ter tido tempo de ganhar um
apelido; e pouco depois, na idade dolorC?sa de quatro anos, o querido pequeno'
" nhoras Marx. Os Marx zombavam d ele. c.hegayam ' até
m esmO '3 escn;ver
Sch n aps s u c umb e, deixando Laura e E ~ean o r i n co n so lá veis. Dezesseis
anos
d e-
pois, Eleallor escreve: "Eu o lho a" pequena mecha de cabelos qourados q ue m e
é tão preciosa e ~mé lembro'~)(, Testemunho de uma mo rtalida de infantil que
contin uava elevada na época: das nove crianças, apen as quatro sob reviveram,
os Iilhos de Jenny - Johpy, Wo lf, Par, Mémé, doce e frágil, que finalmente vive-
r,a até os setenta a nos, co ntinu adora apaixonada da le~brança familiar. Sobre
EJean or, Jque
~m 9 rta em 1878), tão difer ente da atn:tosfera
eles é tran sferida
toda a afeição frustrada das duas irmãs.
.
Aniver sá ri os, fotografi ~s, ·. rellquia s respeitosamente conservadas em
medalhões: tant qs sinílis de um a vida familiar in te nsa que se alimenta também
com as férias comuns, ,!S visitas, as co n versSls das quais as cartas são apen"as as
substinitas.
.
.
e
Helene
Demuth, Pumps, a sobrinha dt: Lii
?ie,-assume
Em .to·rno do núcleo ceniral, ,cruzam ainda muitas silhuetas vistas ape-
#nas de relance: tios e tias, primos e primas" dispersos nos quatro can tos do
mundo, até na Cidade do Cabo, mas sempre ilegftimos na Inglaterra, centro da"
civilização. Sua chegada, seus casamentos, seus problemas e às vezes, sua incô-
moda presença é evocada pejas irmãs: uSe tu quiseres me liberar de aJgumas
tia s e primas , palavra de honra que eu fi carei mu ito ag~adecida ", lO
a
que descreve Engels
o GENERAL ENGELS
"
Es tes laços familiares desenham uma ilha privilegiada de legitimidade:
PO'f mais que ele 'faça - e o que ele fião fez pelos M'arx, dlegando até a .
en9'ossar a paternidade de'Freddy Demuth, o filho n.tural de KaÍl e de Hel~n:
ac
a criada, para evitai um escâ n dalo a se u amigo -, Engels n ão será ja m ais t otal-
mente .da família. Seu modo de ~da,mui to mais li vre, seus amores, geralm en-
te desclassificado s, sempre ilegítimos, seu gos to pela festa, pela boa comida e
pela pândega em companhia de seu inseparável Jollymeier (Sch orlemm er), sua
lingu~gem livre, às vezes ao estilo de Rabelais, que fez corar Eleanor, tudo o·
que faz a atração daqu ela força da na.turfza, daquele temp eramen to generoso
<- ,
com Paul e Laura Lafargue, editada p.or ~mile Bottigelli
o
J
37 C.54, E.aL.,26-3-1881. ,
38 3 L.,
C:
76 , E.
.r
39 3
C.
87 , E.
L. , 5-11-1894 .
,
"
35 C. 30,j.aL. , 18-4- 1871.
i
40 Correspondance . Engels-Paul et
~mile Bottigelli. et traduits par
36 G. 61 , E. 3 L. , 12-4 - 1885.
,
t.1 , 1&68-1886; t. U. i887-1890; t. JII
1891-1895. Fonte fundame ntal para O
,
"
.
)
' 56
'.

cada vez mais in~uportáveis pa ra a sua melancolia. -Q uand o após a mo rt e

,

57

para .q u e m o sfmb o lo da felicidade era "~m Château MargaUx 1 848", tudo isso cho cava a -se n s ibilidade mai s discreta, o COrp 9l:11a.,is frág il , a decl!ncia d as se- o

so bre

isto; conseqüeptemente, com a ~&rtede Kari, Eleanor empreenpe a d~puração da correspondência: t'lnútil dize~-te que cuidarei, co m a maior ate1tfilo (sic),

pala que o nosso bom Genera l não veja nada qu é p ossa lhe ca4sar tristeza,"'7

tanto aproveitara, quando criança, da casa calorosa e rue-

gre de Titi o Engels e de Titia Lizzie (Lizzi e Burns, ~ comp a nh eira de Engel s',

mais p o mpo sa de seu pró prio lar,

retoma, por s ua conta, toda a repul são puritana Ela apreende os intermináve'is

.

almoços d,ominicais - "sempre o melimo ritual: almoço, bebida, cartas, jantar

.

novamente bebidas" -, e as festividad es de Natal, "estes ho rrívei s folguedos':

de

a direção vacilante da

casa de Engels, a repugnân'cia de Tussy aumenta: "No final das cl>ntas,'é com a sua enfeitiça nte bêbada Pump s q ue o General é mais feliz'~" Eleanor se alegra,

"com o urha criança entre as mã os daqu ele casai m on's-
"com o urha criança
entre as mã os daqu ele casai m on's-
o urha criança entre as mã os daqu ele casai m on's- . \ nicialrnente, com

. \ nicialrnente, com à chegada de Louise Kautsky, divorciada ~logo casada ,no- vamente co m Frey berger i mas ela n ão demora a de sen ca ntar-se quando ",va lia

gravidade do jogo: a tentativa de controlar os mânuscritos de ~aIX.,"As p es- soas q ue vivem co m o General podem manipulá-lo à vontade': escreve Tussy.

truo so" (os ,Freyberger). "Se tu soõbesses c0!1l0 eles o tiranizam e Lhe ca usam medo."» Sua s ca rtas mo stram o espetáculo Iam_entável de um homem à d eri- va', n aufragando em um;' ,irre mediável senilidade alcoól atra . 'Mas, pode-se"

r e dit a r compl et~mente n es ta imagem? Não haveria ali uma ' do se de fantasia aljme~tada p~Io s~ntim ent~, p a rcialmen te fundad o, de se r excl uíd a? Outros testemunhos, outros indícios - por exemplo, ~ Correspondência

- mostram um ido-'

mflra La/arg u e" Tatu recueillis et pr~ent6 par Pau l Me ie r. Paris: &itions sociales ,'1950-1959 . 3 V. ,

con-

:1

r:

• muito ne, Ramsgate, a ilha de Wig ht de ~Ior,Ma rx versas ou )
muito
ne, Ramsgate, a ilha de Wig ht
de ~Ior,Ma
rx
versas ou
)
.
,
."
Shakespeare e o sabão Pear s
4L
c. 68, E. 3 L, 2 L-8- L888.

,

-

C. 35. E. a L., 5-9- 1874.

p. I SO et s eq .• j uin 1985.

44 C.39, j .aL,4- L88 L.

45

C.

4L, j , a L. ,22-4- L882

Pune 1 Troços
Pune 1
Troços

50 ainda ativo, lúcido e bem illformad o. De resto, era menos pela família do que peja obra de seu companheiro que Engels se sentia requisitado. Ele não ti- nha, e com razão. aquela paixão peJos laços de sangue. tão forte entre os Marx. Ainda que tivesse respeitado os direitos das herdeiras. e até mesmo ido além - di~so. pois l egou a c~da ú~a dela s so ma s confortáveis que não lhe s devia , ele considerava provavelmente que elas não tinham necessariamente prioridade no que se referia ao s escritos econ ô micos e poUticos. E, aJ ém disso, eram mu- llieres. Talvez o mais feminist;:l dos marxistas desconfiasse de suas capacidades em matéria de teoria, área q\1e ainda hoje continua a 'ser um apanágio ampla- mente masculino. O autor de O~igensda Fatnflia deixava para mais tarde a re- visão dos papéis; o momento da revanche sobre a "grande derrota histórica ·das mulheres" ainda não havia chegado. ;

Em todo caso, estas q~e[elas envenenaram os 9ltimo . s 1)nos d~ s ua vjda;
Em todo caso, estas q~e[elas envenenaram os
9ltimo . s 1)nos d~ s ua vjda;
seu

. suas relações com Eleanor e, po,r certo tempo, com Laura. Elas dão à ·corres- pondê n cia deste período.J.ll1l tom triste como O de Balzac, ou até, antes de se u t e ' mp o, CO II'I O o tom de Mauriac:fUffi '~ N 6 de moras" que s e s ufo cam pelo enlaçam enço.

INTERIORES

o cotidiano é mais amável, mais banal. Sob este ân gulo, nada - ·ou mui- to pouco "::" distingue os MarX", ao menos nesta época de seu estabelecimento,

, ." . , . . 58
,
."
.
,
.
. 58

dos Brown ou dos Smith. D.ocwnento etnológico, esta Correspondência "ÕS introduz na intimjdaqe de uma, famllia middle clasi, com suas práticas e sua es- tét~ca, sua ·linguagem e sua visão. da s coisas , mistura in extricá ve l de .ternura ve~dad·eirae de gestos co~binado"s,que emociona e irrita ao mesmo tempo.

·Como são inglesas, estas Senhora~ Marx com seu senso do caltt, que

perturba justamente o laxismo de Engels. Nada se iguala, a se u s olhos, a "esta

querida e velha lnglaterra'~Lq ndr~ ~se us jorna i s,

( inlpo ss ível de enc ~mtrar em " Paris ). · Do ~ deserto de Argent t; uil' : Jenny evoca

"

apre-

heciment o d o soc iali s m . o e a in:rodud~ ~o' mar xis mo na França. Para uma

sent3~o detalhada deste m ci numenlo . l ver M. Perrol, ( 1 .1 e 11 ) e C. WilJard ( t . III ).

'-

Annali de:lI'lsrituto F.t!ltine:lli, Anno Te$. 1960. p. 740 el seq.

-'

61'ptfll lo 2

A I {rl/inl de Karl Marx: t"rtal il1Mirltl

com nostalgia o "Strand enlameado" e seus reclamesi ela não se habitua à tris~

teza dos subúrbios de Paris, que Laura co njl:!!a com grandes

jardins fechados,

dá mesma forma que Eleanor não gosta de Nova York, "ciaade fl1uito suj a e

medf?qe'~enfeada pelo vício das "iniqüidades capitalistas"~1 que mas-

caram o panorama. A geografia aos Marx ~ européia e urbana , eles se deslo- cam muito, conta giados pela mania de viajar que o-vapor deu às classes m é· dias, mas em um perimet.ro comumente estreito, d ese nhado pela s resid ências familiares ou pelos locafs dos Congressos, em torno do _Canal da Mancha ou do Reno, ' Lonçires, Paris, Bruxelas, Haia, Genebra, Hamburgo; estações de

águas, sobretudo estações balneárias da costa s ul : Ha stings , Margate, Eastbour-

são seu s lugare s de predileção. Doente, á'vid o

1y1arx não são

se aventura até o Med iterrâneo. Na verdade, os

viajantes, são apenas turistas; eles não se interessam nem pela natureza. nem pela arte; os livros contam para eles, muito mai s do' qu e as paisagens; as con - os encontros, mai s d o que os passeios ou o devaneio. "Tenho vonta- d e de te falar um pouco da s pessoas~: esCreve Eleanor - na verdade, o que mai s fazer em Carlsbad? "Todas as descrições de paisage~ não conseguem dar con- ta da reaHdade."c Aliás. Eles dete stam o subdesenvolvimento e se u s estigmas.o }enny se ir-

rila com a inexatidão e a ineficácia dos operários france ses: "O que torna a vida di6cil aqui é a impossibilidade de obter que as coisaS" sejam feitas; as pessoas daqui são os piores vagarosos que eu já vi. Dar-te-ei apenas um exemplo para

um d epois d o outro, tentaram , em vão, fi-

que tu compreendas . Três operários,

'xar uma roda do land:,u, o que não a impede de se sc;>ltar após pou cos minu - tos. E as coisas são assim para tudo".~4 Ela se se nte dominada pelf' estupidez:

"Tenho ·a impressão que alguns anos, algun s m es es até, desta vida em país es- tran geiro· e entre estra ngeiros tornar-me·ão incuravelmente idiota".45 Áté

10hm'1y, que " não se entende. co m os pequeno s fTanceses encontrad?s aqu.i"; o

42

43 Sobre este ponto. ver L2VY, M. L Modernit~,Mort.1lit~.Populations er Soâétés, n. 192,

59

/

,
,
, Pllrte I T>vfo. C4pitu/o 2 AI fJI ' 4$ de X"rl M"rx: CArtas íPllditas futuro

Pllrte I

T>vfo.

C4pitu/o 2

AI fJI ' 4$ de X"rl M"rx: CArtas íPllditas

futuro Jean Longuet, admirador e amigo apaixonado de Jaures,oti fedla-se me- m ais, caro demais",
futuro Jean Longuet, admirador e amigo apaixonado de Jaures,oti fedla-se me-
m ais, caro demais", segu.(ldo MUtzchen, q~e fica mu.ito inqujet~ com as
dfvi -
drosamente na compaJ~a apenas de seus irmãos menores.
Mais .sociável. Laura também compree nd e mal as reações do povo de
das. Eles deixarão a Modena Villas, em 1875; para morar em uma casa mais
modçsta, a alguns números de lá. Desta época feliz, as meninas con servaram ó
Paris que ela julga "grotesco" cUante da invasão alemã, subestima suas capa~i­
gosto pe l as grandes resid ê ncia s . Elas estiverem sem pré em busca
de wna casa
dades de resistência e, logo, engana-se completamente sob re a seqO-enci a do s
.
deaux. De resto, os Lafargue chegaram a compreender realmente o movimen -
to operário francês? Esta é um a questão colocada também pela leitura de sua
Correspondêtlêia, aliás tão in.teressante, com Engels.
eventos
.E. verdadéque ela estava enclausurada na casa de se u s sogros em Bor
com'jardim que desse o ar puro indispensável à saúoe e aos jogos das"crianças,
propícia às plantações e às brincadeiras dos mimais da mrnilia (Marx tinha
três gatos: Tommy, Blacky, Whisky). Laura passa muj.to' tempo à procura da
~asaideal: não muito longe de Paris, não muito isolada devido aos riscos de
roubo -
a
periferia ~ tao 1 pouco segura 4 ' -, e das ' voltas tar~as ~e Paul. De
O relato inge'nuamente s,:!r.preso que
a jovem' Elea not fa z
do enterro de
Neuilly a' Draveil, os L1fargue mudam sem cessar de casa, segundo a prática
Plantade, um dono de restaurante gascão cujo.estabelecimento servia de pon -
ainda nômade de se.u tempo.
.
to de reunião a todos os participantes da
Co muna d.e Paris em Londres ilus-
tra a dificil percepção da s diferenças cu lturais. Procissão ~regando uma cruz,
enterro civil, banquete regado a vinho branco após os funerais parecem, para
Eleanor, tanto "cenas muito.curiosas" quanto "coisas bizarras'~ As mesas esta-
vam cober tas de bolos, de biscoitos, de laranjas, avelãs e todo o tipo de co
Parecia mais urna boda do que um funeral. E a Senhora Plantade não parava
de dizer: "Vamos, meus \filho s, coma.in!·~~7Os rituais africanQs não foralt:l mais
s urpreendentes para os primeiros explorádores. O ex~tico'é coticüano, a dife-
rença constitui o Selvagem.
,
,
CASAS E]ARDINS
Mais boêmia, sempre tentada pelas carroças das pessoas em viagem,
Tussy é dividida entre as necessidades profissionais da presença em Londres e
a atração peJo campo inglês. Em 1887, ela instala-se com ~veling.em um cot-
tage em DodwelJ, perto de Stratford-on-Avon. o que responde simultanea -
me~teao seu populismo - uma "casa de trabalhador diarista" -, à sua necessi-
dade .de identificação teatral - "lU te dás corita, Laura, é a região de Shakespea-
re" -, e seu remorso utilitàrista~"Temos um quarto de arpento de jardim 9nde
podere!f1os c ultivar mais legumes do que temos ncccssÚlade':. JO Provavelmente
em razãp da reputação perdulária de Edward. Eleanor sente sempre a necessi-
dade de se justincar neste aspec t o. Suas relações com o dinheiro não são ~im ­
pies, de qualquer maneira. !
' O casas, ó castel os! As duas irmãs rivaliiam em sua paixão imobiJiária :
"
Naquele fim dI> século 19, a Illoràdia éum elemerito de posição social,
disf riminatório do s níveis e dos modos de vida; ela distingue a classe média do ·
p/~Ieta,iaq.o. Os Marx. participavam deste simbo li s mo e sua inquiet~ção imo-
~'Ni.tnmyfaÍou'-nos tanto. de vossa bela casa e do jardim (trata-se da r~idb~cia
em Le Perrel/x) do qual Edward ficou terrivelmente e nciumad o. Vós ultra pas :
r
biBá;i; não era ~úramentematerial
Muito mal servidos .nÇ> ink io de sua
-'
sastes por completo o nosso castelo'~escreve Tussy à sua irmã que ela encora-
ja a "vender uma parte de vossa produção. Com tal jardim, vós poderíeis ob-
ter um bom
re.ndimento~ JI
"
e.:ostê'ncia conjugal, os Marx instalaram-se confortavelmente, a partir de 1864,
na Modena \liUas (Maitlana Hampstead), "um verdadeiro palácio, grande de-
.
,
.
(
.
,
.
Graças à sua parte da herança de Engels, elas acabarão por adquirir a
casa de s~us so nho s, a soberba residência de , Draveil, nas bordas d~ floresta de
Sénart para L1ura: trinta peças, bilhar, estufa para as plantas no inverno, casa
)
46 Ver seu ver~teno DjctjOnnajre.biOg~i'hie de Jean Maitron.
47 C.34,E.a j.,7-11-1872.
.
.
49 y. 20; L a j., 9-6-1870.
48 Lt.VY, M ~ L. Modernit~; MbrtaLité . Poiflations et Socié téS .J n. 192 , p. 1 80 ~t stq.,juin
50 C.
65,
E.- a
r., 30-8-1887.
198 5.
,
"
,-
51 C.
67,
E. a
L., 9 - 8-1888 .
v
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61

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Pllrtc J

ThlfOJ

,

Qrprrulo 2

ÁS filllUs de Karl Marx: {artal inMitas

do guardião. parque e horta, cujo luxo de "palácio" choca Eleanor. n Ela mesma compra
do guardião. parque e horta, cujo luxo de "palácio" choca Eleanor. n Ela
mesma
compra uma casa bem mais modesta no bairro de Sydehham - "Sinto um or-
gulho completamente judeu de nossa casa de JeW's Walk': escreve a única Marx
que reivincUca sua,condição de judia. Ela a descreve, como o faria Georges Pé- ,
com a
cissitudes . Ela educou todas as crianças Marx, cuidou dos doentes - ~'Tu sabes
que b03 enfermeira el~é"S4 -: assistiu os moribundo s. A prete.:cto de féria s, ela
vai ajudar Laura e Jenny a se instalar , auxiliar ~s jovens mães atrapalhadas com
seus bebês. Se lhes falta dinheiro, ela oferece-se para emprestar~cOmo no céle-
. bre folhetim de La Semai,te de Suzette, Bécassine O fará para a Marquesa de
,
rec,
precisão que mo - stra um certa organizaçã - o da vida e do
tempo: ~'An­
dar térreo: grande peça (simultaneamente escritório de Edward e sala de estar);
sala de jantar (que se abre para o jardim dos fundos), cozinha, copa, guarda-
Grandair: C(Agradeça Helene pelos cinco francos, diga-lhe que neste
momento .
estamos ricos, mas, que se daqui a al~s meses, quando de nossa mudança ,
comidas, adegas para o-vinha.e para o carvão, armários. grande entrada. Uma
escada (fácil de subir). Quarto de dormir. Quarto de hóspedes (o vosso), quar-
to de empregada. banheiro (suficientemente grande para servir, se preciso. de
quarto ~tra). Meu escritório!!!" Eletricidade e aquecimento a gás. JJ Para COf-
tar imediatamente os mexericos sobre Aveling o 'aproveitador, ela acrescenta
que ele pagoú os móveis ·hipotecando uma propriedade: '(Seria injusto que tu
pensasses que"sou eu quem paga tudo". O De1l será sua derradeira ICtoca'~
tivermos necessidaae
de
dinheiro, dirigiremo-nos
a ela>: escreve Paul. J7 No en-
tanto, ele lhe escreve apenas indiretamente: "D iz a Helene
j Pal,am dela no
-'
AS EMPREGADAS
A manute'nção des tas casas req u er temp~, sobretudo para consciências ,
domésticas escrupulos.,as ·que se atormentam com a desordem e a poeira. ~ .
toda .uma série de atividades que as donas-de-casa vitorianas deixam para suas
domésticas, tanto s~bolosocial quanto comodidade da vida.'" Os pais Marx
haviam tido Helene Demuth, e também, durante muitos anos, sua irmã maís
possessivo "Nossa Nim"j ridicuJarizam 40cemente seu apego ingênuo a se us
pequenos tesouros~ Diz a Helene que eu não acr~dito que se possa fazer algo
por seu broche de ouro; mas que ela não pense que renunciamos ". Por Deus!
, Seria dilapidar sua fortuna!~',escreve Laura não sem uma cruel 'ironia,'" SOI11-
br~fu:tiva e atarefada, Helene - seu~puddings, suas ninhadas - está sempre
presente, mas nos bastidores, como devem fazer os bons. criados, preocupados
em ficar '.(em seu lug~r". No fundo, sabe-se muito pouco sobre ~Ja e até a sua
mor",te, em 1890, tão importante no desenrolar da intriga, não faz muito baru-
lho na COrrespondência.
Pois Helene é uma testemunha incômoda: 'ela deu um filho a seu se·
nhor: concebido provavelmente na promiscuidad.e do'estreito apartamento do
nova. Lençhen , Nym: é o próprio tipo de criada de grande
coração d~ que
o s .é-
culo 19 nos dá tantas imagens ambíguas,5' Corpo e alma, ela deu tudo para
seu.s sen h ores, que serviu dura n te quarenta a11-0s (1850 - , 1890, dos vinte ~~~te
aos sessenta e sete anos: wna vida), ao sabor de' suas residências e de suas Vi~
Soho - o Soho, aquele sombrio período dos Marx -, durante uma ausência de
Jenny: F;eddy, nascido em junho de 1850 (morto em 1929, em Londres" ), fi-
lho do mistério e do escândalo, cuja paternidade será assumid.a oficiosamente
por Engels, generoso e atrevido, $uas meio·irn:!ãs o ignoram por muito tempo
, (Jenn,y morreu sem saber de' nada) e não teriam, talvez jam·aj~.sabido de sua
existência se Eleánor não tivesse sido tocada pelo destino iníquo de Freddy:
"Freddy comp<?rtou-se admiravelment ' e e~ todos , os sentidos, e a irritação de
52
·A este respeito, ·ver TSUZUKI, C: The Lift of Eleartor Marx (1885-1898). A Socialist

Tragtdy. Oxford: .darendon P'e$$, 1967. p. 304.

53

C loo;E.• L, 10-12- 1895.

54

Ver BASCH,