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A ENFERMAGEM PREVENINDO O CÂNCER CÉRVICO-

UTERINO

Caro aluno

Em nossa dedicação aos cuidados de enfermagem à mulher, é


importante conhecer as ações prioritárias da equipe de enfermagem para a
prevenção do câncer cérvico-uterino. Esse é o nosso desafio nesta unidade,
então, vamos lá.

Nesta Unidade de Estudo falaremos da importância da prevenção, das


ações do enfermeiro, técnicos e auxiliares de enfermagem e do preparo da
mulher para a realização do exame citológico. .1

O exame colpocitológico é um dos mais importantes exames para a


saúde da mulher. O exame é simples e tem reduzido as mortes por câncer de
colo de útero em 70%, desde sua criação pelo Dr. George Papanicolau em
1940. O sucesso do exame se deve à detecção segura e rápida de células que
predispõem o câncer de colo-uterino, além de algumas doenças sexualmente
transmissíveis (DST).

O câncer de colo uterino é uma das causas mais freqüentes de morte


na população feminina na América Latina e Caribe. Sua incidência se encontra
entre as mais altas do mundo, principalmente em países em desenvolvimento
(OPAS, 1985). O Ministério da Saúde, por meio do Instituto Nacional do Câncer
(INCA), definiu que, no Brasil, o exame colpocitológico deve ser realizado em
mulheres de 25 a 60 anos de idade ou em mulheres com idade inferior a 25
anos, que iniciaram a atividade sexual antes desta faixa de etária.

Entretanto, apesar de os exames colpocitológicos estarem disponíveis


na rede de saúde pública do Brasil, a mortalidade por esta doença não
registrou queda significativa e os altos índices de prevalência contrastam com
os baixos índices de cobertura de exames preventivos estimados em 8%, ao
passo que a OMS estabelece 85% para a cobertura mínima de impacto
epidemiológico.
Fatores de Risco

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA) são vários os


fatores de risco identificados para o câncer do colo do útero, sendo que alguns
dos principais estão associados às baixas condições sócio-econômicas, ao
início da atividade sexual, à multiplicidade de parceiros, ao tabagismo
(diretamente relacionados à quantidade de cigarros fumados), à higiene íntima
inadequada e ao uso prolongado de contraceptivos orais.

Estudos recentes mostram ainda que o vírus papiloma humano (HPV)


tem papel importante no desenvolvimento da neoplasia das células cervicais e
na sua transformação em células cancerosas. Este vírus está presente em
mais de 90% dos casos de câncer do colo do útero.

A Prevenção Primária do Câncer Cérvico-Uterino

A prevenção primária do câncer do colo do útero pode ser realizada


através do uso de preservativos durante a relação sexual. Na consulta de
enfermagem ginecológica, como já foi discutido na Unidade de Estudo anterior,
o enfermeiro além da realização do exame físico e ginecológico deverá orientar
a mulher sobre o estilo de vida sexual (uso de preservativos, sexo seguro,
retardo do início da vida sexual, sexo com parceiro único e outros).

Todos os profissionais de saúde engajados na área da saúde da


mulher deverão estar envolvidos no combate ao câncer cérvico-uterino, para
que possa provocar um grande impacto sobre os múltiplos fatores que
interferem nas ações de controle. É importante que a atenção às mulheres
esteja pautada em uma equipe multiprofissional e com prática interdisciplinar.

Lembre-se de que a interdisciplinaridade pressupõe, além das


interfaces disciplinares tradicionais, a possibilidade da prática de um
profissional se reconstruir na prática do outro. Isso certamente faz a
diferença vocês não acham?
ATRIBUIÇÃO DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE

Atribuições comuns a todos os profissionais

a) Conhecer as ações de controle dos cânceres do colo do útero e da


mama;

b) Planejar e programar as ações de controle dos cânceres do colo do


útero, com priorização das ações segundo critérios de risco, vulnerabilidade e
desigualdade;

c) Realizar ações de controle do câncer que acomete à saúde da


mulher (principalmente colo de útero e de mama) com vistas à promoção,
prevenção, rastreamento/detecção precoce, diagnóstico, tratamento,
reabilitação e cuidados paliativos;

d) Alimentar e analisar dados dos Sistemas de Informação em Saúde


(Sistema de Informação da Atenção Básica - SIAB e outros), para planejar,
programar e avaliar as ações de controle do câncer;

e) Conhecer os hábitos de vida, valores culturais, éticos e religiosos


das famílias assistidas e da comunidade;

f) Acolher as usuárias de forma humanizada;

g) Valorizar os diversos saberes e práticas na perspectiva de uma


abordagem integral e resolutiva, possibilitando a criação de vínculos com ética,
compromisso e respeito;

h) Trabalhar em equipe, integrando áreas de conhecimento e


profissionais de diferentes formações;

i) Prestar atenção integral e contínua às necessidades de saúde da


mulher, articulada com os demais níveis de atenção, com vistas ao cuidado ao
longo do tempo;
j) Identificar as usuárias que necessitam de assistência ou internação
domiciliar (onde houver disponibilidade desse serviço) e corresponsabilizar-se,
comunicando aos demais componentes da equipe;

k) Realizar e participar das atividades de educação permanente,


relativas à saúde da mulher, controle dos cânceres do colo do útero e da
mama, DST, entre outras;

l) Desenvolver atividades educativas, individuais ou coletivas;

Atribuições do Enfermeiro

a) Realizar atenção integral às mulheres;

b) Realizar consulta de enfermagem, coleta de exame preventivo e


exame clínico das mamas, solicitar exames complementares e prescrever
medicações, conforme protocolos ou outras normativas técnicas estabelecidas
pelo gestor municipal, observadas as disposições legais da profissão;

c) Realizar atenção domiciliar, quando necessário;

d) Supervisionar e coordenar o trabalho dos Agentes Comunitários de


Saúde e da equipe de enfermagem;

e) Manter a disponibilidade de suprimentos dos insumos e materiais


necessários para as ações do controle do câncer cérvico uterino;

f) Realizar atividades de educação permanente junto aos demais


profissionais da equipe.

Atribuições do Auxiliar/Técnico de Enfermagem

a) Realizar atenção integral às mulheres;

b) Conhecer a importância da realização da coleta do exame preventivo


como estratégia segura e eficiente para detecção precoce do câncer do colo do
útero;
c) Desenvolver atividades educativas relativas ao controle dos
cânceres do colo de útero e de mama, de acordo com o planejamento da
equipe;

d) Realizar atenção domiciliar, quando necessário;

e) Manter a disponibilidade de suprimentos para a realização do exame


do colo do útero.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), é preciso esclarecer


a todas as mulheres independentemente da escolaridade, que as mudanças
nas condições de vida, hábitos e costumes acompanham o processo de
industrialização e urbanização no Brasil e no mundo. Essas mudanças
somadas ao aumento progressivo da expectativa de vida, são determinantes
da exposição da população feminina a fatores ambientais de risco, sendo
passíveis de modificações, já que um terço dos casos de câncer pode ser
evitado com prevenção primária.

Para o sucesso na prevenção do câncer cérvico-uterino é


imprescindível que os profissionais de enfermagem conheçam alguns
conceitos, aspectos biológicos e fatores que influenciam o surgimento da
doença.

Vale destacar que as atividades educativas em saúde não devem


ficar voltadas apenas ao campo individual e cabe a todos os envolvidos no
combate ao câncer cérvico-uterino planejar, executar e avaliar programas
de promoção à saúde e de prevenção primária, voltadas para a comunidade
e/ou grupos sociais específicos.

É preciso desmistificar o câncer e informar sobre as possibilidades de


evitá-lo. A inclusão das ações preventivas na rotina do atendimento à mulher é
importante para obter resultados positivos durante a consulta.

A detecção precoce é a primeira ação que deve ser implantada na


tentativa de se descobrir o mais cedo possível esta doença, o que é possível
através do exame Papanicolau e sua prevenção por meio do conhecimento
dos fatores de risco.

Entretanto, faz-se necessário uma série de ações para o sucesso na


consulta de enfermagem ginecológica, como: agendamento com atendimento
humanizado, preenchimento correto de um formulário específico para o
encaminhamento das lâminas a serem enviadas ao laboratório de análises,
proporcionando um ambiente tranqüilo e mantendo a privacidade durante a
realização do exame. É preciso, também, demonstrar sentimento de
segurança, confiabilidade, e respeito durante a consulta e exames.
Principalmente, devemos ouvir as queixas e orientá-las de forma clara e
precisa.

Houve um grande avanço em relação ao combate do câncer cérvico-


uterino. Antigamente, os resultados dos exames preventivos positivos para
neoplasias eram agendados para direcionamento do tratamento. Hoje em dia,
todas as mulheres de posse do resultado do Papanicolau realizam consulta
ginecológica para as devidas orientações, ou, até mesmo, muitas mulheres só
eram procuradas pela Unidade de Saúde quando houvesse alguma alteração.
Esta prática vem mudando e muito, assim a consulta não é meramente para a
coleta do exame Papanicolau, é o cuidado à saúde da mulher integralmente.

De acordo com os registros hospitalares do câncer, 80% das mulheres


com câncer cérvico-uterino tiveram a descoberta da doença tardiamente,
quando a lesão já estava além do limite do útero, levando à histerectomia.
Embora o rastreamento dessa doença seja de fácil acesso e de fácil execução,
representa a segunda maior estimativa de incidência de neoplasia maligna na
população feminina brasileira.

Portanto, para reforçar, a prevenção do câncer cérvico-uterino baseia-


se no rastreamento da população, no diagnóstico preciso do grau da lesão e no
tratamento adequado. A população a ser rastreada constitui-se em todas as
mulheres que apresentem probabilidade de ter lesões pré-cancerosas
detectáveis pelo exame citológico.
No entanto, para que uma alta porcentagem da população seja
rastreada e, desta forma, realmente beneficiada pelo programa de prevenção
ao câncer cérvico-uterino, é fundamental que os serviços de saúde estejam
equipados e organizados para realizar o exame com regularidade e que as
mulheres, por sua vez, manifestem o comportamento preventivo em saúde.

Portanto, o câncer de colo uterino, diferentemente do câncer de mama,


pode ser prevenido com medidas de fácil execução e de baixo custo. Não
basta “introduzir” a oferta dos exames preventivos na rede básica de saúde, é
preciso articular e sensibilizar a população feminina, investindo no treinamento
dos recursos humanos e infra-estrutura como, por exemplo, profissionais
especializados para leitura das lâminas.

Pesquisas mostram que a faixa etária das mulheres que são atendidas
para a realização do exame preventivo situa-se em torno de 25 a 34 anos (faixa
etária reprodutiva), devido à busca de serviços pré-natal e planejamento
familiar. Isto mostra que grande parte da população feminina que deveria
realizar o exame, principalmente aquela cuja faixa etária varia de 35 a 60 anos,
não o faz, mostrando assim a ineficácia da cobertura do exame.

O aspecto cultural em relação à realização do exame preventivo

Em relação ao exame colpocitológico, muitas mulheres o evitam devido


ao medo de descobrir que estão doentes, principalmente, de câncer. A
vergonha de ter seu corpo desnudo e exposto leva à ansiedade e
constrangimento. Muitos profissionais não percebem estes sentimentos e
acabam encarando o evento como algo corriqueiro, cotidiano, sem importância,
sem dar a atenção necessária à cliente.

Leia o artigo em pdf intitulado as “Mulheres vivenciando o adoecer em face do


câncer cérvico-uterino” Durante as atividades diárias de atendimento nas
consultas ginecológicas, principalmente na realização do exame
colpocitológico, nos deparamos com muitos imprevistos que se constituem
desafios. Como diz Zampieri et. al (2005, pág. 53) quando relata que “atende
mulheres que choram nas consultas, outras permanecem em silêncio, clientes
fazem perguntas de ordem pessoal, ou querem que se tome a decisão por
elas”.

Durante as atividades diárias de atendimento nas consultas


ginecológicas, principalmente na realização do exame colpocitológico, nos
deparamos com muitos imprevistos que se constituem desafios. Como diz
Zampieri et. al (2005, pág. 53) quando relata que “atende mulheres que
choram nas consultas, outras permanecem em silêncio, clientes fazem
perguntas de ordem pessoal, ou querem que se tome a decisão por elas”.

Portanto, para que a consulta de enfermagem seja efetiva, é preciso


receber a mulher, realizando uma consulta direcionada às suas necessidades,
não fazer juízo de valores, garantir conforme o Código de Ética privacidade e
confidencialidade. Cabe destacar que é de extrema importância
instrumentalizar a cliente, respeitando suas escolhas.

Quando o Ministério da Saúde implementou a Política Nacional de


Humanização (PNH) – Humaniza SUS sabia que seriam grandes os desafios,
na defesa da vida com qualidade, além de garantir o direito à saúde. Sem
dúvida, a postura e a prática nas ações de atenção nas Unidades de Saúde
favorecem a construção de uma relação de confiança e compromisso dos
usuários com as equipes.

O profissional de enfermagem deve desenvolver suas atividades


práticas em ambulatórios de ginecologia. Tratando-se do grande número de
Programas de Saúde da Família espalhados pelo Brasil, há uma grande
oportunidade de atendimento à saúde da mulher. Portanto a rede integrada se
forma “mulher & enfermeiro, técnicos e auxiliares de enfermagem”. Desse
modo, teremos a oportunidade de conhecer seus aspectos orgânicos
(saúde/doença), familiares, sociais, culturais, afetivos e espirituais.

Medidas de Controle do Câncer Cérvico-Uterino

Já sabemos, portanto, que as ações de prevenção e controle do câncer


cérvico-uterino têm por finalidade evitar ou remover os fatores de risco, além de
realizar um diagnóstico precoce, através do rastreamento clínico das lesões
pré-malignas ou malignas.

O Diagnóstico da Citologia Oncótica

O exame citológico tem sido utilizado como meio diagnóstico


indispensável e empregado para triagem e prevenção deste tipo de câncer.
Possui inúmeras vantagens para a sua realização, entre elas podemos
destacar: baixo custo, fácil realização técnica e detecção rápida de lesões
precoces possibilitando a cura. Entretanto, é preciso esclarecer a população
feminina que o fato de realizar coletas citológicas não é o suficiente em um
programa de controle do câncer de colo uterino.

O método disponível para diagnóstico é a citologia que tem por objetivo


realizar o estudo das células descamativas esfoliadas no conteúdo cérvico-
vaginal e visa identificar as alterações celulares que precedem o processo
neoplásico.

Não podemos esquecer que é preciso obter os dados de identificação


(endereço e telefone da mulher) em sua primeira visita ao serviço, pois é
sabido que muitas realizam o exame e não retornam para o resultado e,
certamente, tendo todos os dados de localização facilitará o segmento dos
casos detectados.

Portanto somente a realização do exame citológico não garante a


prevenção!

Cada serviço de saúde possui um instrumento próprio para


atendimento na consulta ginecológica, entretanto deverá entrar na rotina que
antes da coleta de esfregaço cérvico-vaginal, obrigatoriamente, deve-se
realizar um “inquérito ginecológico”, cujos itens são destacados no quadro
abaixo:

Ciclo Menstrual Idade em que ocorreu a


menarca
Duração do ciclo
Intervalo
Data da última menstruação
(DUM)

Métodos Tipo
Anticoncepcionais Forma de uso
Quanto tempo de uso
Quem indicou
Efeitos colaterais

História Obstétrica Número de gestações


Número de partos (normal,
cesáreo)
Número de abortos
Tipos de Abortos
(espontâneo, provocado)

Fluxo Vaginal Há quanto tempo


Cor, odor, quantidade,
consistência, prurido
Ocorrências anteriores

Atividade Sexual Idade de início


Número de parceiros
Dor à penetração vaginal
(dispareunia)
Sangramento no coito
(sinusiorragia)

Cirurgias Ginecológicas Qual


Há quanto tempo

Cauterizações Quantas
Há quanto tempo

Câncer na Família Familiar


Em que local / tipo

É preciso, na época da realização do exame, explicar o motivo da


demora do resultado para a cliente - em média são agendados 60 dias para a
busca do resultado - já que as lâminas são lidas fora da Unidade Básica. A
demanda é grande para atender a um número elevado de solicitações do
município. Ao realizar o exame, se clinicamente for detectado alguma
anormalidade no sistema genital, por exemplo, leucorréias, utiliza-se a
abordagem sindrômica para o diagnóstico e a mulher já sai medicada.
É preciso reforçar para a população que este tipo de câncer inicia-se a
partir de uma lesão pré-invasiva Neoplasia Intraepitelial I (também chamada
de NIC), que é curável em até 100% dos casos quando detectado
precocemente. É preciso saber que as lesões intra-epiteliais do colo uterino
são consideradas precursoras do câncer cervical e estão restritas à membrana
basal. Quando ocorre a quebra desta barreira e as células malignas atingem o
estroma, está caracterizada a forma invasora.

Para melhor entendimento foi construído um quadro sinóptico com as


condutas de controle, tratamento e seguimento do resultado citopatológico.

RESULTADO CITOPATOLÓGICO CONDUTA

Insatisfatório Repetir o exame

Dentro dos limites de normalidade Controle anual ou trienal

Alterações reativas Tratar o processo


inflamatório. Reavaliação
clínica. Controle anual ou
trienal.

Atipias de significado indeterminado Seguimento e reavaliação


clínica. (Colposcopia e
biópsia. Encaminhar ao
nível secundário)

Efeito citopático compatível com HPV Seguimento. Tratamento de


acordo com protocolo
específico.

NIC-I (displasia leve) Tratar o processo


inflamatório geralmente
associado. Seguimento
trimestral.

NIC-II (displasia moderada) Reavaliação clínica.


Encaminhar ao nível
secundário. Seguimento
trimestral.

NIC-III (displasia acentuada e Ca in situ) Encaminhar para


confirmação diagnóstica.
Seguimento a critério
médico.

Carcinoma escamoso e adenocarcinoma Encaminhar ao nível


terciário (hospitalar).

A Coleta da Amostra e o Preparo Prévio da Mulher

Como já falamos anteriormente, as amostras para a detecção do


câncer de colo uterino podem ser colhidas por profissionais de saúde treinados.
É importante orientar as mulheres que não podem: usar medicamentos ou
duchas vaginais nem ter relações sexuais nas 48 horas antecedentes; e estar
menstruada, já que estes fatores podem alterar o resultado do exame.

Antes da coleta citológica é preciso promover um ambiente confortável


e de privacidade para a mulher, utilizando biombos e antes do exame
propriamente dito, solicitar que a mulher esvazie a bexiga e coloque um avental
com a abertura para frente.

Lembre-se de que o Ambiente da Consulta de Ginecologia já foi


descrito na Unidade de Estudo anterior, mas para reforçar é preciso ter em
mente que uma amostra adequada para o exame requer que a cérvix seja
exposta e para isso precisamos dos seguintes materiais: espéculos estéreis
que podem variar de tamanho (P, M e G), luvas, espátula de Ayre, escovinha
tipo Campos da Paz, lâmina de preferência com extremidade fosca para que
possa ser identificada com as iniciais da mulher e o número do prontuário,
frasco transporte com fixador, impressos para registro da coleta e impressão
diagnóstica. Vale destacar que na maioria dos serviços de saúde pública
utilizam o formulário base do Instituto Nacional do Câncer.

É importante realizar uma inspeção da vulva, períneo, colo uterino,


secreção vaginal e parede vaginal. Para melhor entendimento, foi construído
um quadro subdividido em inspeção externa e exame especular do que deve
ser visualizado para identificar possíveis alterações:
O QUE OBSERVAR?

Distribuição dos pêlos.


Parede vaginal (elasticidade, coloração,
integridade do clitóris, do meato uretral, dos
grandes e pequenos lábios).
INSPEÇÃO EXTERNA Presença de secreção vaginal (cor, odor,
aspecto e localização).
Sinais de inflamação (inclusive glândulas de
Bartholin).
Presença de veias varicosas.

INSPEÇÃO INTERNA Ocorrência de ectopia (forma e tamanho da


lesão).
Presença de pólipos (indicar tamanho e
localização).
Presença de cistos de Naboth.

EXAME DA GENITÁLIA EXTERNA

A inserção dos pêlos pubianos na mulher tem a forma de um triângulo


com o vértice para baixo; no homem o triângulo tem o vértice para cima. A
inserção de pêlos com padrão masculino, associada a outros sinais, podem
indicar desequilíbrios hormonais.

• verificar a presença de ectoparasitas (chato);


• inspecionar a área vulvar (lesões aparentes, meato uretral, hipertrofias,
secreção vaginal); observar a presença de varizes vulvares;
• ânus: hemorróidas.

Genitália externa
Fonte: Ministério da Saúde, 2006.

EXAME DA GENITÁLIA INTERNA

É realizado com as mãos enluvadas. O exame com espéculo feito em


primeiro lugar permite verificar o estado da vagina e do colo antes de qualquer
modificação pelo toque vaginal, permitindo também a coleta para exame
citológico antes de qualquer alteração. Escolher o espéculo de acordo com as
características da mulher a ser examinada (pequeno, médio ou grande); não
usar lubrificante (pode interferir da coleta do exame citológico). O exame
especular permite verificar:

• o estado da mucosa vaginal;


• a situação, forma e aspecto do colo;
• o aspecto da secreção vaginal ou da leucorréia;
• o tipo e o estado da secreção cervical;

Colo Uterino
A esquerda: nulípara (sem filhos): observar cérvice puntiforme
À direita: multípara: a cérvice tem abertura em fenda

Alguns cuidados devem ser tomados no momento do exame especular:


escolha do espéculo de acordo com a história ginecológica e obstétrica da
cliente e não usar lubrificante que pode interferir no esfregaço.

Para a coleta do material é preciso expor o colo uterino para que se


faça um raspado de três locais diferentes de amostras de células epiteliais o
que chamamos da coleta tríplice. Os locais são: fundo de saco vaginal,
ectocérvice (junção escamo-calunar) e endocérvice.

Técnica da Coleta do Exame Papanicolau

• Primeiramente é preciso explicar a mulher o procedimento


demonstrando os instrumentos que serão utilizados (espéculo,
escovinha Campos da Paz e espátula de Ayre) e que quanto mais
relaxada a mulher estiver menos incomodo sentirá;
• Instrua a mulher para esvaziar a bexiga e de preferência o reto;
• Atenção profissional! NÃO se esqueça de lavar as mãos antes e
depois de cada procedimento;
• Posicione a mulher em posição ginecológica colocando os pés no
estribo ou nos pedais de modo que os joelhos pendam para fora. Em
seguida cubra o abdômen da mulher e deixe a parte perineal exposta;
• Para a coleta do material do fundo de saco vaginal será utilizada a
espátula de Ayre (parte arredondada) para retirada do material e colocá-
lo na lâmina;
• Para a coleta do material da ectocérvice (junção escamocolunar – JEC)
também será utilizada a extremidade com reentrância da espátula de
Ayre. Fazer um raspado da ectocérvice realizando um movimento
rotativo de 360º. Distender todo material sobre a lâmina de maneira
delicada, de maneira uniforme, fina e sem macerações;
• Para a coleta do material da endocérvice (canal cervical) introduzir a
escovinha Campos da Paz sem forçar dilatação no orifício vaginal
realizando um movimento giratório de 360º. Distender todo material
sobre a lâmina de maneira delicada, de maneira uniforme, fina e sem
macerações;
• Por último utilizar o material de fixação de acordo com o protocolo da
Unidade. Pode ser o álcool a 96%, 3 a 4 gotas de polietilenoglicol ou
spray fixador.

Alguns lembretes importantes!

• Em gestantes realizar a coleta dupla (fundo de saco e ectocérvice). A


coleta da endocérvice pode desencadear o trabalho de parto.
• Identificar a lâmina com as iniciais do nome da mulher e o número do
prontuário a lápis.
• Preencher com total clareza a requisição mencionando sempre os
achados relevantes à inspeção, como corrimento e lesões do colo;

Lesão Localização da Lesão


• O procedimento correto antes do exame Papanicolau, se houver
secreção espessa ou purulenta, é remover primeiramente a secreção
com uma gaze presa a uma pinça de Cheron ou espátula. O objetivo da
remoção da secreção é visualizar alterações celulares sugestivas de
câncer. Em caso de infecção, mesmo retirando toda a secreção
previamente, o agente etiológico será identificado junto ao material
coletado para o exame da lâmina.

O Ministério da Saúde está disponibilizando o Caderno de


Atenção Básica – Controle dos Cânceres do Colo de Útero e de Mama,
não deixe de acessá-lo em nossa biblioteca on-line. Ele poderá ser um
guia prático para você durante as suas ações de saúde.

Coleta do material

Ectocérvice

• Ou Junção Escamocolunar – (JEC)


• Com a extremidade com reentrância da espátula.

Fazer um raspado da ectocérvice (junção escamocolunar), realizando


um movimento rotativo de 360º em torno do orifício cervical e colocar o material
coletado na lâmina.

Endocérvice

• Ou Canal Cervical.

• Introduzir no canal cervical, se permeável, a escovinha e fazer um


movimento giratório de 360º.

Fixação do Material Coletado

• Álcool a 96%;
• 3 a 4 gotas de polietilenoglicol, deixar secar antes de acondicionar;
• Spray fixador (citospray)

Atenção

• Identificar a lâmina com iniciais do nome da mulher e o


número do prontuário a lápis.
• Não realizar a coleta quando houver secreção espessa
e purulenta. O procedimento correto é remover o mesmo
previamente à coleta.

Apesar do conhecimento sobre o câncer cérvico-uterino ter avançado


com grandes estudos e ser reconhecido universalmente, o Brasil com as suas
políticas públicas voltadas para a saúde da mulher, tem como uma das suas
ações para o combate desta patologia o oferecimento do exame preventivo
para toda a população brasileira.

Sem dúvida alguma, o rastreamento como foi falado anteriormente é a


grande estratégia para reduzir a mortalidade. O enfermeiro, atuando nas ações
básicas e desenvolvendo ações coletivas que visem a orientar a população
sobre as medidas preventivas existentes, promove a consulta de enfermagem
procurando seguir as Normas do MS e realizar estudos baseados em
evidências científicas.

Felizmente, ações como essas de grande importância estão nas mãos


de profissionais dedicados como você.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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<http://www.inca.gov.br/enfermagem/docs/cap3.pdf>. Acesso em: 22 ago. 2008.
Agenda da Mulher. Disponível em:
<http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/agenda_mulher_capa.pdf>.
Acesso em: 22 ago. 2008.
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Uterino - Um Estudo Realizado entre Servidoras da Área de Saúde. Disponível em:
<http://www.hse.rj.saude.gov.br/profissional/revista/34c/post27.asp>. Acesso
em: 22 ago. 2008.
FIGUEIREDO, Nébia Maria Almeida de (Org.) Ensinando a Cuidar da Mulher, do
Homem e do Recém-nascido – Práticas de Enfermagem. 1. ed. São Caetano do Sul
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<http://www.scielo.br/pdf/ape/v18n2/a06v18n2.pdf>. Acesso em: 22 ago. 2008.
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ZAMPIERI, M. F. M. et all. Enfermagem na Atenção primária à Saúde da Mulher –
Textos Fundamentais – Série Atenção Primária à Saúde – V. 2. Florianópolis:
UFSC/NFR, 2005.