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Poema do Cid
Tradução Maria do Socorro Almeida
Poema do Cid. Português.
P798 Poema do Cid / tradução Maria do
Socorro Almeida. – Rio de Janeiro: Francisco
Alves, 1988.
(Obras-primas através dos séculos)

Tradução de: Poema del Cid.


ISBN 85-265-0123-2

1. Poesia espanhola medieval. I Almeida,


Maria do
Socorro Correia Lima de. II. Título III. Série.

CDD - 861.1

SUMÁRIO

Apresentação: O Poema do Cid, uma epopéia heterodoxa – Maria do


Socorro Correia Lima de Almeida
...............................................................................................................
6
Iconografia
...............................................................................................................
13
Primeiro Cantar – Desterro do Cid
...............................................................................................................
14
Segundo Cantar – Bodas das Filhas do Cid
...............................................................................................................
35
Terceiro Cantar – A Afronta de Corpes
...............................................................................................................
54


Este índice informa a paginação da edição digitalizada. No decorrer do texto foram inseridas, entre
colchetes, as marcas de paginação referente à edição original para maior fidelidade de consulta
acadêmica.
O POEMA DO CID

Tradução de Maria do Socorro Correia Lima de Almeida


Da prosificação em espanhol moderno de Alfonso Reyes feita a
partir da edição preparada por Ramón Menéndez Pidal para os Clásicos
Castellanos de la Lectura (Madri, 1913).
APRESENTAÇÃO
O Poema do Cid, uma epopéia heterodoxa

MARIA DO SOCORRO CORREIA LIMA DE ALMEIDA

O Poema do Cid pertence ao momento de apogeu ou plenitude do


gênero épico na Espanha e, composto provavelmente por volta de 1140,
antes que florescesse o lirismo galaico-português, é o primeiro
monumento conhecido das literaturas ibéricas. É uma composição de
3.735 versos, que chegou a nossos dias incompleta e cujos episódios
perdidos, sobretudo do início, podem ser reconstituídos, como o fez
Ramón Menéndez Pidal, por meio da prosificação da chamada Crônica de
vinte reis. O único manuscrito que nos chegou data provavelmente do
século XIV, ano de 1307 e leva ao final o nome de um certo Per Abbat que,
embora tendo sido dado por algumas opiniões como o autor do poema,
sabe-se hoje ter sido apenas um copista. Fato semelhante acontece com a
gesta1 francesa La chanson de Roland, em cujo manuscrito aparece o
nome de Turoldus, em um verso de difícil interpretação, que poderia levar
ao autor, porém, mais provavelmente, leva ao copista, como acontece na
gesta castelhana. Temos, portanto, nas duas literaturas, uma obra
anônima, coisa comuníssima à época da elaboração das epopéias – a
Chanson de Roland é um pouco anterior ao Poema do Cid e data
provavelmente de 1100.
O que importa deixar claro, tanto num caso como no outro, é que,
abandonadas certas teorias, como a das cantilenas [p. IX] ou dos cantos
épicos primitivos, e assim a crença em uma obra coletiva, como que
nascida do espírito do povo, pode-se afirmar que os dois poemas são
obras de autor anônimo, com um projeto definido e um estilo próprio,
embora aproveitando fatos, em maior ou menor grau, já conhecidos dos
ouvintes.
Em se tratando do Poema do Cid, o já citado hispanista Menéndez
Pidal admite a colaboração de dois jograis2 no texto: um para os dois
primeiros cantares (o do Desterro e o das Bodas) e outro para o terceiro (o
da Afronta de Corpes), com toques no segundo e ainda talvez no primeiro,
o que não remete de modo algum à antiga teoria da elaboração coletiva
impessoal, mas sim a uma refundição ou colaboração, prática comum à
época, na literatura espanhola. Outra coisa que se pode afirmar é que o
autor ou autores são da região de Castela, provavelmente de Medinaceli
e/ou San Esteban de Gormaz, pelos inúmeros pormenores com que são
descritas tais regiões.
É fora de dúvida que a poesia épica castelhana recebeu inspiração
da épica francesa, pois os jograis castelhanos do século XII conheciam já
as gestas francesas.
A imitação francesa que se pode encontrar no Poema está em
alguns traços estilísticos, tais como: a repetição do indefinido tanto nas
enumerações descritivas que costumam ir encabeçadas pela forma verbal
veríeis (“Veríeis tantas lanças, tanta adarga, tanta loriga, tantos pendões”

1
Gesta: nome que se dá à epopéia medieval.
2
Jogral: Na Idade Média, autor ou intérprete de poemas épicos ou líricos.
etc.); as orações, implorando a proteção de Deus, como a de Dona Ximena
pelo Cid desterrado; a expressão de que se serve o poeta do Cid para
apresentar seus personagens chorando: “chorar dos olhos”, que aparecem
todas no Roland e outros poemas franceses mais antigos. Acrescente-se a
isso que a métrica do Cid e, em geral, de todas as manifestações da
poesia épica castelhana, é produto de uma imperfeita imitação das laisses
ou versos monorrímicos3 e da divisão do alexandrino4 francês [p. X] em
dois hemistíquios.5 Certas coincidências na fraseologia, que se notam
entre o Cid e os poemas franceses, poderiam servir também como prova
da influência destes. Assim, por exemplo, quando o poeta chama sua
pátria “Castela, a gentil”, não faz mais do que expressar o amor e a
admiração que nele desperta a terra castelhana, com uma fórmula poética
concebida sob a influência da “douce France” da Chanson de Roland.
Todos estes casos de influência e de imitação deixam intacta,
entretanto, a originalidade do Poema do Cid e, ainda mais, embora haja
influências, o poema castelhano distingue-se da gesta francesa por uma
série de peculiaridades notáveis que nos levaram ao título desta
apresentação.
Nossa intenção, ao colocar o Poema do Cid como uma epopéia
heterodoxa é, comparando-o à Chanson de Roland, considerada aqui
como modelo da épica medieval cristã, depreender suas peculiaridades
em relação ao poema francês, que o tornam, ousamos dizer, uma
narrativa contra-ideológica, no que diz respeito à ética e à estética
medievais, ou melhor, aristocrático-feudais.
Tal comparação é possível e viável na medida em que existe um
solo comum sobre o qual assentar as diferenças, isto é, os dois poemas
são muito parecidos: do mesmo gênero, aproximadamente da mesma
época, geograficamente próximos, tanto no que diz respeito ao lugar de
produção quanto ao espaço ficcional. Além disso, ambos tematizam a luta
cristãos x mouros como um diálogo sangrento entre a cruz e o crescente.
Se está criado o solo comum, que são as semelhanças, podemos
trabalhar com as diferenças que se estabelecem, por exemplo, na maneira
de tematizar a luta, de construir o herói, e até na linguagem, tomada aqui
como um conjunto de técnicas e procedimentos peculiares ao poema
épico e dos quais o autor da gesta espanhola se afasta, queremos crer,
deliberadamente.
[p. XI]
É nossa intenção, a partir do estabelecimento de tais diferenças,
recorrer ao contexto social em que os dois jograis criaram suas obras,
comparando-os também, e buscando nestes contextos e na relação
artista-público por eles proporcionada, uma explicação possível e até
provável para a heterodoxia do Poema do Cid.
Nosso método de trabalho é, portanto, de um lado, a comparação
dos textos, à luz de modernas teorias sobre o épico, fazendo, quando
necessário, adaptações do homérico ao cristão medieval, e de outro a dos
3
Monorrímicos: que têm a mesma rima.
4
Alexandrino: verso de doze sílabas; o alexandrino primitivo tem divisão e acentuação obrigatórias na sexta
sílaba.
5
Hemistíquio: em sentido amplo, cada um dos membros em que se divide um verso; em sentido restrito, a
metade de um verso alexandrino.
contextos, principalmente com base em estudos de Ramón Menéndez
Pidal, Américo Castro e Sánchez-Albornoz.
Para traçar um eixo de comparação entre as duas obras, tomamos a
liberdade de dar a cada uma delas um subtítulo: Chanson de Roland – o
mundo dado – e Poema do Cid – o mundo comentado. Essa subtitulação se
explicitará no decorrer do estudo, mas já adiantamos que, ao fazê-la,
pensamos, de um lado, no poema do feudalismo francês stricto sensu, em
que se apresenta, dentro do maniqueísmo característico da época e de
sua épica, um mundo perfeitamente organizado, que se mostra acabado
aos olhos do homem e que se divide em bons e maus: “chrétiens ont
raison, payens ont tort”. Por outro lado, voltamo-nos para o poema
espanhol em que o maniqueísmo está extremamente debilitado e
freqüentam o cosmos que é o poema (no sentido de que toda obra
literária é sempre um cosmos) todas as classes sociais, que têm voz e
criticam os homens e o mundo, dentro de um contexto que foge ao
feudalismo estrito e permite a um historiador dizer que Castela é uma
ilhota de homens livres no seio da Europa feudal.
Ainda antes de entrarmos na comparação, queremos deixar
assentada a relatividade das afirmações que forem feitas, ou seja, tais
afirmações não terão um caráter absoluto, dependendo sua validade de
serem estabelecidas não quanto a uma das narrativas em si e sim sempre
a uma delas em relação à outra. Por exemplo, quando falarmos em
realismo no Poema do Cid esta palavra não terá o sentido polêmico e
problemático [p. XII] com que se apresenta hoje no enfoque da produção
artística em geral e notadamente da literatura, mas estará colocada em
relação ao mundo maravilhoso, atemporal, aespacial da Chanson de
Roland.
Colocado o solo comum e a relatividade das afirmações, passemos
ao estudo comparativo.
A primeira característica diferenciadora está em uma categoria
muito cara a Staiger,6 o distanciamento do narrador que, como se sabe, é
para o ilustre teórico dos gêneros um traço relevante da epopéia homérica
a ponto de, a nosso ver, derivarem deste, segundo a própria conceituação
de Staiger, a maioria dos caracteres épicos homéricos. Tal distanciamento
se dá entre o narrador e a matéria narrada, mantendo-se este em uma
atitude de objetividade rigorosa em relação àquela. Na Chanson este
distanciamento está presente, por exemplo, no modo como o jogral vê o
mundo dado e o aceita, ou apresenta o herói definido por seu epíteto:
“Roland est preux, Olivier est sage”. No Poema do Cid, diferentemente,
pode-se às vezes falar em uma quase empatia, no modo como os
personagens têm voz: o povo de Burgos critica o rei que desterrou o herói
e até os muçulmanos falam para dizer que o Cid invade suas terras e não
agradece senão a seu Deus, apontando para uma discussão impensável
na época e na épica, dentro da ideologia religiosa. O que nos leva também
a colocar a quebra do distanciamento é que tais discursos são assumidos
pelo narrador, enquanto na Chanson os árabes também falam, mas a
palavra da mentira e da traição, que é também a palavra de Ganelon.
Ligado a esse distanciamento, encontra-se também na gesta francesa o

6
SAIGER, E. Conceitos fundamentais da poética. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1968.
afastamento temporal. A pequena base histórica em que repousa a
Chanson remonta ao século VIII e refere a uma incursão feita por Carlos
Magno à Espanha, em que os franceses são rechaçados e mortos mais
provavelmente pelos próprios cristãos bascos. O jogral aproveita o
episódio, traz Carlos Magno [p. XIII] de sua época para o feudalismo,
cerca-o de barões poderosos, transforma o episódio em um desastre
nacional e a vingança contra os sarracenos em uma redenção do
cristianismo. O poema castelhano trabalha sobre matéria histórica quase
atual, pois os fatos narrados se dão cerca de cinqüenta anos antes. Assim,
o jogral está temporalmente próximo ao que narra e é de uma fidelidade
quase total aos fatos históricos. A geografia do Poema é também fiel e
minuciosa, podendo-se refazer os diversos roteiros dos personagens, na
Espanha de hoje.
Outra característica do mundo dado na Chanson é a imobilidade,
tanto temporal quanto social: os últimos anos de um homem somam-se
aos primeiros mas não decorrem destes, o que leva à construção de
personagens imutáveis, monolíticos, só dirigidos pelo destino. No Poema
nota-se uma evolução temporal, na qual veríamos até um embrião do
chamado tempo psicológico: o rei de Castela, que expulsa o Cid levado
pelas intrigas da corte, tem um tempo todo seu para mudar de atitude em
relação a ele e pouco a pouco, diante dos presentes cada vez mais ricos e
da fidelidade jurada, verificar que a única atitude política e humana é
perdoá-lo; durante todo o Poema o tempo é cuidadosamente marcado em
anos, meses e até dias. Quanto à imobilidade social, como já se disse, no
mundo da Chanson só habitam aristocratas que não teriam mais para
onde subir na escala social; as outras classes aparecem apenas para
compor um pano de fundo, mas só aristocratas são dignos de participar da
matéria épica. Ao contrário, o jogral castelhano povoa seu universo de
todas as classes, desde o rei até os peões e o povo de Burgos. Nem
mesmo o Cid é aristocrata; ele aparece no Poema como infanção, que é
um fidalgo da baixa nobreza, provavelmente de origem servil. Quanto à
evolução social, impensável na Chanson, é pedra de toque na gesta
espanhola. O próprio herói passa de infanção exilado e pobre a senhor de
grandes domínios, portanto rico e honrado, através das batalhas e dos
casamentos de suas filhas. No final do Poema o jogral já pode dizer que
hoje os reis de Espanha são seus parentes.
[p. XIV]
Outra marca do herói épico é que este vive e atua quase por conta
própria, levado por suas paixões, em Homero, e por motivos
transcendentais, na épica medieval. Assim, Roland luta pelo Imperador,
pela Pátria, a “douce France” e pela religião e, em lugar de procurar fugir
à morte, oferece-se a ela, ao não tocar a trompa. Quando finalmente a
toca, não o faz visando a sua própria salvação, mas chamando Carlos
Magno para a vingança. Para Roland, honrar-se é morrer. Já o Cid procura
traçar planos de combate, possui uma estratégia e gratifica
generosamente os que se distinguem nas batalhas. Dentro do que já
chamamos relatividade, não queremos negar os motivos transcendentais
que movem o herói castelhano, assim como a Roland, e que têm seu
ponto principal na luta pelo cristianismo. Mas a este transcendente vem
juntar-se um forte componente de interesses materiais. Quando o herói
deseja engrossar o seu exército, manda fazer pregões e o narrador pode
dizer uma coisa impensável do lado de lá dos Pirineus: que ao cheiro dos
ganhos acorreu gente de toda a limpa cristandade. Freqüentemente o Cid
exorta os companheiros a bem lutar, acenando-lhes com um soldo
dobrado. Isto nos leva a outro ponto que na Chanson está
extraordinariamente velado pela ideologia aristocrática feudal, que é o
fato econômico. No Poema o poder deste é tão grande que o narrador
discrimina criteriosamente os despojos de cada batalha e mostra como
são divididos democraticamente, só que ficando o herói com um quinto do
total. O Cid, como herói épico heterodoxo, enfileira-se para ganhar a vida
e, quando de sua grande façanha, a conquista de Valença, leva a mulher e
as filhas para a torre mais alta do “alcázar”, não para que elas assistam a
façanhas heróicas, mas para que vejam como se fazem moradas em
terras de mouros e como se ganha o pão. Diferentemente da ideologia
aristocrática feudal, em que a honra é oposta ao proveito e só merece o
galardão da fama, no Poema vê-se bem que a honra está estreitamente
ligada à riqueza. Os infantes de Carrión, que são condes da alta linhagem,
ao manifestarem seu desejo de casar-se com as filhas do Cid, o fazem
dizendo que poderiam [p. XV] tomá-las por esposas, pois o Cid cresce em
honra e riqueza. Fato também relevante é que Roland precisa morrer para
manter a honra, enquanto o Cid precisa viver e enriquecer para recuperá-
la. Um leit-motif do Poema são as palavras do herói de que ainda tornará
honrado a Castela.
Ligada à questão da imobilidade social e temporal, do herói
monolítico e da fatalidade estão os epítetos. Na Chanson os epítetos são
únicos e definem o herói: “Roland est preux, Olivier est sage”. O ser
“preux” (bravo) determina a conduta de Roland, como a de Olivier o ser
“sage” (prudente). A Olivier cabe exortá-lo a tocar a trompa e a ele não
tocá-la até que saiba que vai morrer. Já no Poema têm-se vários epítetos.
O próprio herói é “o Cid”, “o Cid Campeador”, “o que em boa hora
nasceu”, “o que em boa hora cingiu espada”, e depois da conquista maior
um epíteto novo aparece: “meu Cid, o de Valença”. Quanto ao rei, antes
de perdoar o Cid, é apenas “Afonso, o castelhano”, “o rei de Castela” etc.,
mas depois de perdoá-lo passa a ser “Afonso, o bom rei”. Quando o tempo
passa e as circunstâncias se modificam no mundo comentado, os epítetos
acompanham tal modificação. O herói épico já não é monolítico (sempre
dentro do relativismo das afirmações) mas, fugindo à fatalidade que
acompanha Roland, tem expedientes para ganhar batalhas, dinheiro e o
perdão real; amadurece com o tempo, pensa antes de agir para ver o que
melhor lhe convém: por exemplo, a vingança contra os condes de Carrión,
que lhe maltrataram e abandonaram as filhas, não é sangrenta como a de
Carlos sobre Ganelon mas sim jurídica, decidida em Cortes que o rei
convoca a pedido do herói. O Cid é capaz até de, sem deixar de ser herói,
cometer uma trapaça. Quando precisa sair de Castela, desterrado e sem
dinheiro, envia o amigo Martin Antolínez com duas arcas cheias de areia,
ricamente enfeitadas, que este leva aos judeus Raquel e Vidas, pedindo-
lhes que não as abram, pois não há tempo e dizendo-lhes que estão
cheias de ouro; com isto consegue enganar os judeus e obter o
empréstimo de que necessitava. Este herói “excêntrico”, que muda os
fatos a seu favor, revela-se um estrategista na batalha [p. XVI] e na vida e
dribla a fatalidade, bem poderia, comparado ao clássico herói da gesta,
ser chamado o arquiteto de seu próprio destino.
O herói épico tradicional é sobre-humano, tem poderes mágicos (a
trompa e a espada de Roland) e não suporta uma situação doméstica. O
Cid é um herói humano porque suas excelências nunca saltam ao
sobrenatural; além disso, tem mulher e filhas, preocupa-se com o seu
bem-estar material e moral e tem uma meta que quase iguala em
importância a sua meta maior de voltar honrado (e rico) a Castela: é de
não morrer sem deixar bem casadas as suas filhas. Para proteger a
família, quando sai exilado, deixa-a em um mosteiro e depois de
recomendar ao abade a sua segurança e bem-estar diz que para cada
marco gasto na despesa dará quatro ao mosteiro, portanto com juros de
quatrocentos por cento. (E a proibição de juros pela própria Igreja?) Tem-
se um herói casado e pai, com preocupações familiares que hoje diríamos
burguesas. Roland, ao contrário, é noivo da donzela Aude, apenas
mencionada na Chanson e que morre ao saber por Carlos da morte do
herói. Tal fato pode ser romanticamente lido como “morrer de amor” mas
no ambiente não romântico da epopéia pareceria melhor o cumprimento
do estabelecido no mundo dado: a donzela estava destinada a Roland, o
primus inter pares, e tendo este deixado de existir ela não poderia ser de
outro, restando-lhe apenas morrer.
Pode-se dizer ainda que o Poema do Cid desmitifica a Chanson de
Roland não só no que toca ao que já se viu da ideologia feudal cristã (vide
pagamento ao abade e honra igual a propriedade territorial) mas ainda no
que se refere ao próprio herói como mito. Não se quer dizer que o Cid não
seja um herói mítico mas, como já se viu, essa mitificação se faz no
terreno das excelências humanas. Isso se verifica, não só comparando os
dois heróis mas também os dois reis: Afonso de Castela, com interesses
políticos definidos e como fiel da balança entre a aristocracia feudalizante
e uma classe média agrária de pequenos e médios proprietários e Carlos
Magno, “l’empereur à la barbe fleurie”, paladino do cristianismo [p. XVII]
no mundo, com mais de duzentos anos de vida e, numa leitura mítica,
representando o Deus Pai. Para melhor explicitar essa desmitificação
elaborada pelo jogral castelhano servimo-nos das espadas, atributos por
excelência dos heróis. A espada de Roland é a mágica Durendal à qual ele
dedica uma belíssima oração. As espadas do Cid são duas, o que já
reduplica o objeto, tirando-lhe o caráter único; foram ganhas em combate
e valem, não por dotes mágicos, mas por sua tempera e pelos pomos de
metais preciosos e pedrarias, ou seja, as espadas são funcionais e seu
valor pode ser trocado em moeda material. Vê-se isso quando o narrador
diz que num combate o Cid ganhou a espada Colada que “valia mais de
mil marcos”.
Para o final deixamos a questão do realismo que de certa forma
engloba as questões anteriores. O realismo do Poema do Cid será aqui
colocado, como já se disse, tomado o termo em oposição ao mundo
maravilhoso da Chanson de Roland. Esse realismo será proposto em três
vertentes: historicismo, verismo ou verossimilhança externa e
referencialidade.
Quanto ao historicismo, desde muito tempo, por esse motivo, o
Poema foi visto pela crítica mais tradicional como crônica rimada ou
biografia epopeizada, devido à sua fidelidade histórica quase total. Isto
sem levar em conta que o histórico é aí uma categoria estética, tal como o
maravilhoso na Chanson de Roland. Acresce que os poucos episódios não
históricos do Poema estão dentro do que chamaríamos o possível histórico
e servem para acentuar a trajetória do herói. Assim, desfeitos os primeiros
casamentos de Dona Elvira e Dona Sol, diz o narrador que elas se casaram
com os Infantes de Navarra e de Aragão, da família real. Isso não é
historicamente verdadeiro mas historicamente possível e o jogral assim o
faz para poder dizer que o Campeador é agora parente dos reis de
Espanha, o que marca a trajetória vertiginosa do herói, desde o exílio e a
pobreza até a riqueza, a honra e o palácio real. Já se disse que a Chanson
praticamente nada tem de histórico e é acrônica, trazendo Carlos Magno
de sua época para [p. XVIII] aquela em que foi composto o poema, com
uma diferença de pelo menos três séculos. Tanto é assim que o Imperador
todo-poderoso aparece como impotente para desobedecer à decisão de
seus vassalos. Na célebre seqüência da nomeação de Roland, em que este
é levado à morte por comandar a retaguarda, as decisões são tomadas
por Ganelon com a concordância dos outros barões e Carlos nada pode
fazer senão chorar e puxar a barba, em sinal de pesar pela morte de seu
querido vassalo e sobrinho dileto, morte aliás já anunciada na atmosfera
da seqüência. Isso porque no Feudalismo mandam os barões (a
aristocracia terratenente) e o rei é figura quase decorativa. Para conciliar
a discordância, o jogral monta claramente um esquema mítico, em que
Carlos Magno é Deus Pai, Roland remete à figura de Cristo morto em
holocausto para salvar o homem (os cristãos) e os doze pares remeteriam
aos doze apóstolos, não faltando aí o traidor Judas-Ganelon. Sendo Deus,
Carlos, o Imperador, é onipotente e tudo é feito segundo sua vontade, mas
é também onisciente e sabe que o que determinou não pode ser mudado;
a doutrina da Igreja diz que o próprio milagre já está previsto nos planos
de Deus e essa impossibilidade de mudança figura na famosa cena dos
Evangelhos, em que Cristo pede ao Pai: afasta de mim este cálice. Assim,
o que é histórico em um poema apresenta-se mítico no outro.
O verismo, ou verossimilhança externa, é fácil de verificar; para o
leitor comum de hoje é esta verossimilhança que dá credibilidade ao
relato, ou seja, o que ocorre na ficção poderia ocorrer na realidade. Desse
ponto de vista a Chanson é totalmente inverossímil (espada mágica,
trompa mágica, parada do sol etc.) e o Poema é quase totalmente
verossímil, apresentando um ou outro exagero, principalmente nas
batalhas.
Quanto à preferencialidade, segundo Luís Costa Lima,7 são realistas
as obras em que o código lingüístico co-divide sua [p. XIX] importância
com o código cultural, isto é, obras cuja matriz não pode ser determinada
apenas internamente, mas sim em sua ligação com o contexto a que se
referem (o referente). No caso da Chanson, por sua falta de cronologia,
por sua espacialidade não determinada, pelo uso de esquemas míticos e
do maravilhoso e por refletir, sem nenhum desvelamento, a ideologia
aristocrática feudal, acreditamos que a matriz do poema possa ser

7
LIMA, Luís Costa. Realismo e literatura. In: __________. A metamorfose do silencio. Rio de Janeiro,
Eldorado, 1974. p. 27-46.
determinada sem que se tenha que recorrer necessariamente ao contexto.
No Poema, por seu historicismo, sua verossimilhança externa, seu
desvelamento da ideologia oficial, é impossível determinar-se a matriz ou
o sentido último sem recorrer ao contexto cultural; pelo menos mais
necessariamente do que na Chanson. Esta conceituação de Costa Lima vai
aqui sem discussão, não porque seja incontestável, apenas porque não
haveria espaço para tanto e, no caso presente, acreditamos que funcione.
Como última etapa deste breve estudo comparativo, aproximamo-
nos agora do contexto cultural da Península Ibérica, principalmente de
Castela, para buscar nele uma explicação plausível para a heterodoxia do
Poema.
Antes de fazermos tal incursão, queremos deixar assentado, com os
estudiosos da Idade Média em seus aspectos econômicos e sociais,
principalmente Henri Pirenne, que o feudalismo francês foi o mais perfeito
e acabado de toda a Europa, servindo ao conhecido historiador da Idade
Média como modelo de feudalismo. Já na Península Ibérica, por razões que
só muito resumidamente apontaremos, o feudalismo é extremamente
relaxado (poder do rei como comandante da Reconquista, presença do
inimigo de fora que une a todos na guerra de cruzada em torno do rei).
Nesse feudalismo relaxado já é possível pensar-se em certa mobilidade
social; acresce que, reconquistada Castela, o rei, por razões históricas que
não caberiam nos limites desta apresentação, usando de seu poder, divide
a região não em grandes latifúndios mas em pequenas e médias
propriedades que dá a camponeses que lutaram e continuarão lutando na
Reconquista. Tais camponeses, com a ajuda da família e através da guerra
constante, [p. XX] aumentam suas propriedades e sobem na escala social:
de peões a cavaleiros-vilões e infanções; o Cid aparece no Poema como
infanção mas sabe-se historicamente que pode descender de
camponeses-peões. A diferença entre um aristocrata de sangue e um
infanção é tão grande ou maior do que a existente entre este e um
camponês. O jogral sabe disso e no Poema os infantes de Carrión, depois
de maltratar e abandonar as esposas, filhas do Cid, podem dizer que
fizeram muito bem, são da alta linhagem dos condes de Carrión, filhas de
infanções não eram para eles e nem para barregãs deveriam tê-las
tomado. Tem-se então um poema épico que é também um poema político
e tematiza, em alguns aspectos, por estranho que possa parecer, a luta de
classes. Tem-se também um herói não aristocrata que cava seu lugar na
sociedade e penetra na aristocracia. Dentro desse contexto, o herói
precisa ser humano e o poema precisa ser realista porque os ouvintes
assim o desejam. Já se levantou a hipótese de que o poema seria realista
porque o jogral, cantando fatos ocorridos há tão pouco tempo, encontraria
entre os ouvintes pessoas que conheceriam a verdade por tê-la ouvido de
pais e avós e a cobrariam dele. Mas devemos pensar que a atitude de
quem ouve um poema não é a mesma de quem ouve uma crônica e para
ouvi-lo todos têm que munir-se do que Coleridge chamou “a suspensão
temporária da descrença”. O mais plausível é que os ouvintes
camponeses, que estão perto do Cid, desejem um herói humano e um
relato fidedigno; o tipo de identificação público-herói tem um caráter de
emulação, enquanto o público camponês da Chanson, sabendo que jamais
poderá chegar sequer perto de Roland, deseja um herói sobre-humano e a
identificação se faz por evasão de sua realidade e magnificação da pessoa
do herói. Ambos os poemas são didáticos: o francês diz aos camponeses
que a classe dominante deve ser louvada e admirada por ser a guardiã e
defensora dos valores que sustentam o corpo social e o poema castelhano
diz também aos camponeses que sejam leais ao rei, valentes e honestos
como o Cid o foi e poderão chegar ao que ele chegou.
[p. XXI]
Nesta apresentação, em nenhum momento, enveredamos por
critérios de valor, ou seja, cogitamos qual dos dois poemas seria
esteticamente melhor. Nossa intenção foi tão-somente levantar as
peculiaridades que fazem do Poema do Cid uma epopéia heterodoxa.
O que nos parece indispensável colocar, como conclusão, é que o
Poema do Cid, por ser peculiar, não deixa de ser uma epopéia e, como
criação castelhana, ibérica, universal, é uma obra de arte. Não que o
realismo, a historicidade sejam, em si mesmos, méritos artísticos, como
não o é em si mesma a fantasia. O que lhe confere mérito artístico é que o
histórico, ao integrar-se no universo criado, torna-se categoria estética. E
os fatos históricos estão em um poema, não em uma crônica.
A tradução que ora apresentamos ao leitor brasileiro parte de uma
prosificação do poema, em espanhol moderno, feita por Alfonso Reyes.
Reyes toma por base a edição preparada por Ramón Menéndez Pidal para
os Clásicos castellanos de La Lectura (Madri, 1913) e segue estritamente o
texto estabelecido pelo ilustre filólogo, copiando, inclusive, a divisão de
estrofes. Antecedendo cada estrofe, nas pegadas de Pidal e Reyes,
colocamos um resumo do acontecido, que facilitará o entendimento do
leitor comum, não familiarizado com certos procedimentos em um poema
com a respeitável idade de mais de oito séculos. Para algumas palavras
caídas em desuso, ou de difícil compreensão, que não podiam ser
substituídas, damos esclarecimentos em notas de pé de página.
A bibliografia sumária apresentada ao final é uma sugestão para
quem deseja obter maiores informações sobre a obra e conhecer alguns
importantes estudos críticos do texto.
[p. XXII]
ROTA DO CID, A PARTIR DO DESTERRO, ATÉ A CONQUISTA DE
VALENÇA.
PRIMEIRO CANTAR
DESTERRO DO CID

(A falta da primeira folha do códice do poema se supre com o relato


da Crônica de vinte reis.)

O rei Afonso envia o Cid para cobrar tributos do rei mouro de Sevilha. Este
é atacado pelo conde castelhano Garcia Ordóñez. O Cid, em ajuda ao
mouro, vassalo do rei de Castela, vence Garcia Ordóñez em Cabra e
prende-o com afronta. O Cid volta a Castela com os tributos mas seus
inimigos conseguem indispô-lo com o rei. Este desterra o Cid.

O rei Dom Afonso mandou o Cid Rui Dias receber o tributo que os
reis de Córdova e de Sevilha tinham de pagar-lhe todos os anos.
Almutamiz, rei de Sevilha e Almudafar, rei de Granada, eram então
grandes inimigos e odiavam-se mortalmente. Almudafar, rei de Granada,
tinha a seu lado alguns senhores que o ajudavam: o conde Garcia Ordóñez
e Fortun Sánchez – genro do rei Dom Garcia de Navarra – e Lope Sánchez.
Todos estes auxiliavam Almudafar com seu poder e juntos marchavam
sobre Almutamiz, rei de Sevilha.
O Cid Rui Dias, quando soube que vinham sobre o rei de Sevilha,
que era vassalo e tributário do rei Dom Afonso, seu senhor, irritou-se,
sentiu grande pesar e enviou cartas a todos, rogando-lhes que não se
empenhassem em atacar o rei de Sevilha e destruir suas terras, pela
obrigação que tinham com o rei Dom Afonso, e que se a todo custo
queriam fazê-lo, tivessem por certo que o rei Dom Afonso não poderia
deixar de defender seu vassalo, posto que era seu tributário. O rei de
Granada e os ricos-homens não fizeram caso das cartas do [p. 1] Cid e
caíram sobre o rei de Sevilha, destruindo todas as suas terras até o
castelo de Cabra.
Ao ver isto, o Cid Rui Dias recrutou todas as forças que pôde juntar
entre cristãos e mouros e marchou contra o rei de Granada, para expulsá-
lo das terras do rei de Sevilha. Quando disto souberam o rei de Granada e
os ricos-homens que o acompanhavam, mandaram-lhe dizer que não seria
ele quem os tiraria daquelas terras. Ouviu-o o Cid Rui Dias e achou-se
obrigado a castigá-los e foi-se a eles, combatendo-os em batalha campal
1
que durou desde a terceira hora até o meio-dia, e grande foi a
mortandade de mouros e cristãos do lado do rei de Granada. Assim
venceu o Cid a seus inimigos, obrigando-os a abandonar o campo. Nesta
batalha ele prendeu Dom Garcia Ordóñez e arrancou-lhe um tufo das
barbas, assim como prendeu muitos outros cavaleiros. Tantos foram os
inimigos presos que se perdeu a conta. Três dias teve-os cativos o Cid e
depois os mandou soltar. Mas antes ordenou aos seus que recolhessem
todos os bens e riquezas abandonadas no campo e foi ter com Almutamiz,
2
rei de Sevilha, levando sua tropa e seu despojo.
A ele e a seus mouros entregou, dos objetos resgatados, quanto
reconhecessem por seu e ainda do demais quanto quisessem tomar. E


Terceira hora: uma das horas canônicas do rito católico.

Despojo: presa; aquilo que se apreendeu ao inimigo.
desde então cristãos e mouros passaram a chamar Rui Dias de Vivar de
Cid Campeador, para recordar sua bravura nas batalhas.
Almutamiz presenteou-o ricamente e entregou-lhe ainda o tributo
que tinha vindo cobrar. O Cid levou o tributo ao rei Dom Afonso, seu
senhor. O rei recebeu-o muito bem, declarou-se satisfeito com ele e muito
contente com sua conduta. E esta foi a causa de que aparecessem muitos
invejosos buscando razões que o malquistassem com o rei.
Este deu-lhes ouvidos porque tinha uma velha rixa com o Cid e
mandou-lhe dizer por carta que saísse do reino. O Cid, lida a carta, ainda
que cheio de pesar, não quis demorar [p. 2] a obedecer, pois tinha um
prazo de nove dias para cumprir o mandado.

1
O Cid convoca seus vassalos; estes desterram-se com ele. (Continua o
relato da Crônica de vinte reis, seguido de versos de uma refundição do
poema.) Adeus do Cid a Vivar. (Aqui começa o manuscrito de Per Abbat.)

Convocou seus parentes e vassalos, disse-lhes como o rei ordenava


que abandonasse sua terra no curto prazo de nove dias e que queria saber
quem estava disposta a desterrar-se e quem não estava.
– E aos que quiserem vir comigo, que Deus lhes pague e dos que
preferem ficar aqui, quero despedir-me como amigo.
E seu primo irmão Álvar Fáñez respondeu-lhe:
– Convosco, Cid, convosco iremos, por ermos e povoados e não vos
faltaremos enquanto tenhamos vida. Em vosso serviço haverão de acabar-
se nossos cavalos e mulas, dinheiro e roupas. Agora e sempre seremos
vossos leais vassalos.
Todos aprovaram o que dissera Dom Álvar e o Cid muito lhes
agradeceu. Em seguida partiu de Vivar, encaminhando-se para Burgos.
Desertos e abandonados ficam seus palácios.
Com os olhos cheios de lágrimas, vira a cabeça para contemplá-los.
E viu as portas abertas e os postigos sem cadeados; vazios os cabides
onde antes penduravam mantos e peles e onde costumavam pousar os
falcões e os açores. Suspirou o Cid cheio de atribulação e, por fim, disse
comedidamente:
– Louvado seja Deus! A isto me reduz a maldade de meus inimigos.
[p. 3]

2
Agouros no caminho de Burgos.

Já esporeiam, já soltam as rédeas. À saída de Vivar, viram um corvo


do lado direito do caminho; entrando em Burgos, viram-no do lado
esquerdo. O Cid encolhe os ombros e, sacudindo a cabeça, diz:
– Alvíssaras, Álvar Fáñez, fomos desterrados, mas haveremos de
voltar com honra a Castela!
3
O Cid entra em Burgos.

Já entra em Burgos o Cid Rui Dias; acompanham-no sessenta


pendões. Homens e mulheres saem a vê-lo; burgaleses e burgalesas
debruçam-se às janelas, aflitos e chorosos. De todas as bocas sai o mesmo
lamento:
– Ó Deus, que bom vassalo, se tivesse bom senhor!

4
Ninguém hospeda o Cid. Só uma menina dirige-lhe a palavra, para mandá-
lo afastar-se. O Cid tem que acampar fora do povoado.

Com quanto gosto o hospedariam! Mas ninguém ousa fazê-lo, por


medo à fúria de Dom Afonso. Antes do anoitecer, chegaram a Burgos
cartas do rei com severas ameaças, autorizadas pelo selo real. Mandam
que ninguém dê pousada ao Cid Rui Dias e que quem se atrever a fazê-lo
saiba por certo que perderá seus bens e, além disso, os olhos da cara e
ainda o corpo e a alma. Grande pena têm todos. Fogem da presença do
Cid, não se atrevendo a dizer-lhe nada.
O Campeador dirigiu-se à sua pousada; chegou à porta, mas viu que
a haviam fechado, em acatamento à ordem do rei. A gente do Cid
começou a chamar em voz alta, mas os de [p. 4] dentro não respondiam.
O Cid esporeou seu cavalo e, tirando o pé do estribo, golpeou a porta, mas
a porta, bem trancada, não cedia.
Nisto se aproxima uma menina de uns nove anos:
– Ó Campeador, que em boa hora cingiste espada! Sabe que o rei o
proibiu e que ontem à noite chegou sua ordem, com ameaças muito
severas e autorizadas pelo selo real. Por nada no mundo ousaremos abrir-
te nossas portas nem dar-te acolhida, porque perderíamos nossos bens e
casa, além dos olhos da cara. Ó Cid, nada ganharias com nosso mal!
Segue, pois, teu caminho e valha-te o Criador com todos os seus santos.
Assim disse a menina e tornou a entrar em casa. Compreende o Cid
que não pode esperar perdão do rei e, afastando-se da porta, cavalga por
Burgos, até a igreja de Santa Maria, onde se apeia do cavalo e, de joelhos,
começa a rezar. Feita a oração, volta a montar, passando a ponte do
Arlançon. Ao lado de Burgos está o areal onde acampa, manda fincar a
tenda e deixa o cavalo. Assim o Cid Rui Dias, que em boa hora cingiu
espada, quando vê que não o acolhe ninguém, decide acampar no areal.
Muitos são os que o acompanham. Ali se instala o Cid, como em serra
brava. Também está proibido de comprar seus mantimentos no povoado
de Burgos e ninguém ousaria vender-lhe o mínimo que se obtém por uma
moeda.

5
Martin Antolínez vem de Burgos para prover de víveres o Cid.

Martin Antolínez, o leal burgalês, abastece-o e aos seus de pão e de


vinho; não desobedece ao rei, porque nada compra: tudo o que dava era
seu. E assim pôde proporcionar-lhes as necessárias provisões, com o que
ficaram contentes o bom Cid Campeador e todos os seus.
Falou, pois, Martin Antolínez; ouvi o que disse:
– Ó Campeador, que em boa hora nascestes, repousemos aqui esta
noite, partamos pela manhã, porque, sem dúvida, me acusarão do que fiz
por vós e a ira do rei Afonso cairá sobre mim. Se convosco escapo, são e
salvo a vosso lado, cedo ou tarde o rei me há de querer por amigo; do
contrário, tudo o que sou não vale nada.

6
O Cid, empobrecido, recorre à astúcia de Martin Antolínez. As arcas de
areia.

E o Cid, que em boa hora cingiu espada, respondeu-lhe:


– Martin Antolínez, valente cavaleiro, se Deus me der vida, dobrar-
vos-ei o soldo. Gastei todo o ouro e a prata e boa falta fazem para todos
os que me seguem. Hei de tomá-los à força, já que de bom grado não mos
darão. Com vosso conselho, quero que construamos duas arcas e as
enchamos de areia, de maneira que pesem muito, e sejam forradas de
couro lavrado e com boa pregaria dourada.

7
As arcas destinadas a obter dinheiro de dois judeus burgaleses.

– Seja vermelho o couro, dourados os cravos. Ide depois procurar


Raquel e Vidas e dizei-lhes: “Posto que me proíbem de comprar em Burgos
e me desterra a ira do rei, não posso levar comigo meus bens, que pesam
muito, por isso prefiro empenhá-los por um preço razoável.” Que lhes
levem as arcas de noite, não o veja ninguém. Só o veja e o julgue o
Criador, com todos os santos; ele sabe que não posso mais, que o faço por
necessidade.

8
Martin Antolínez volta a Burgos, em busca dos judeus.

Martin Antolínez, sem demora, entra em Burgos, chega [p. 6] ao


Castelo da cidade e pergunta urgentemente por Raquel e Vidas.

9
Conversa de Martin Antolínez com os judeus. Estes vão à tenda do Cid e
apanham as arcas de areia.

Juntos estavam Raquel e Vidas, fazendo conta de seus ganhos,


quando chegou até eles Martin Antolínez, o prudente.
– Onde estão Raquel e Vidas, meus queridos amigos? Queria falar
com eles a sós.
E, com efeito, afastaram-se os três.
– Raquel e Vidas, dai-me vossa palavra de que não me descobrireis
a mouros nem a cristãos. Quero fazer-vos ricos para sempre, de modo que
não passeis mais necessidades. Sabei que o Campeador tomou grande
parte dos tributos que cobrou e por isso foi acusado. Tem cheias de ouro
fino duas arcas. Sabei também que foi desterrado pelo rei e tem que
abandonar suas herdades e seus palácios. Não pode levar consigo as
riquezas, porque seria descoberto; deseja o bom Campeador deixá-las em
vossas mãos e que lhe empresteis em troca o que for razoável. Tomai,
pois, as arcas, ponde-as em segurança e prometei e jurai que não as
tocareis durante todo este ano.
Raquel e Vidas ficam pensando:
– A nós importa tirar de tudo alguma vantagem. Já sabemos que ele
também tirou alguma dos bens que recebeu em terras de mouros. Quem
muito dinheiro guarda não dorme tranqüilo. Tomemos, pois, estas arcas e
guardemo-las onde ninguém sinta o cheiro.
– Mas, vejamos, quanto pedirá o Cid e que juros pagará por um ano?
E o prudente Martin Antolínez respondeu:
– O Cid contentar-se-á com o que seja justo; pouco pedirá, contanto
que deixe a salvo suas riquezas. De toda parte [p. 7] os deserdados vêm a
ele e necessita de uns seiscentos marcos para pagar a sua gente.
E disseram Raquel e Vidas:
– Dar-lhos-emos de boa vontade.
– Pois olhai que vem a noite, o Cid está com pressa e precisamos
receber os marcos.
E disseram Raquel e Vidas:
– Não se fazem assim os negócios, mas primeiro toma-se e depois
dá-se.
– Bem – diz Martin Antolínez – vinde ambos ao ilustre Campeador
agora mesmo e ajudaremos, como é justo, a carregar as arcas e pô-las em
segurança, onde nem mouros nem cristãos o saibam.
E Raquel e Vidas:
– Está bem. E uma vez aqui as arcas, recebereis os seiscentos
marcos.
E eis Martin Antolínez cavalgando bem depressa em companhia de
Raquel e Vidas. Mas não passaram pela ponte; para que não ouçam os de
Burgos, cruzaram pela água.
Logo chegam à tenda do Campeador; ao entrar, vão beijar as mãos
do Cid. Este, sorridente, falava-lhes:
– Olá, Dom Raquel e Dom Vidas, já me haveis esquecido? Vou
desterrado, expulsa-me o rei. Acho que compartilhareis do que é meu. Não
passareis mais necessidades, enquanto viverdes.
E Raquel e Vidas beijaram-lhe as mãos. Martin Antolínez já fez o
negócio, pedindo seiscentos marcos sobre aquelas arcas, que os judeus
deverão guardar cuidadosamente até o fim do ano. Eles prometeram não
tocá-las antes, sob pena de perderem os juros do empréstimo.
– Carreguem logo as arcas – diz Martin Antolínez. – Levai-as, Raquel
e Vidas; ponde-as em vosso esconderijo. Acompanhar-vos-ei, para receber
a quantia ajustada, porque o Cid tem de partir antes que cante o galo.
Veríeis que alegria a de carregar as arcas! Ainda que se
esforçassem, mal podiam colocá-las sobre o lombo das bestas. Felizes
estavam Raquel e Vidas com suas riquezas e já se davam por opulentos
pelo resto de seus dias.
[p. 8]

10
O Cid despede os judeus. Martin Antolínez vai com eles a Burgos.

Raquel beijou a mão do Cid:


– Campeador, Campeador, que em boa hora cingistes espada. Já vos
afastais de Castela, para viver entre gente estranha. Assim é vossa
ventura, muito grandes serão vossos ganhos. Ó Cid, beijo-vos as mãos e
peço-vos que me deis uma pele vermelha, mourisca, formosa.
– Concedido – disse o Cid. Se vo-la trouxer, bem está; se não,
descontai-a das arcas.
Já levavam as arcas Raquel e Vidas e com eles entrava em Burgos
Martin Antolínez. Logo chegaram à pousada. Estenderam na metade da
sala um cobertor, puseram-lhe em cima fina toalha. De uma vez contou ali
Dom Martin trezentos marcos de prata, sem pesá-los, e os outros
trezentos foram pagos em ouro. Cinco escudeiros trazia consigo e
carregou-os com o dinheiro. Feito isto, disse o que ouvireis:
– Já estão em vossas mãos as arcas, amigos Raquel e Vidas. Bem
mereço eu alvíssaras pelos ganhos que vos dou.

11
O Cid, provido de dinheiro pelos judeus, dispõe-se a partir.

E Raquel e Vidas afastaram-se um pouco, conversando:


– Devemos dar-lhe um bom presente, ele arranjou este negócio. Eia,
pois, Martin Antolínez, burgalês ilustre, vós mereceis e temos o prazer de
dar-vos o necessário para umas calças, rica pele e precioso manto. Eis,
aqui, pois, trinta marcos para vós, bem o mereceis, posto que vos toca,
em justiça, ser o fiador do negócio.
Muito agradecido, recebeu Dom Martin os marcos e, depois de ter-se
despido, saiu da pousada. Já sai de Burgos, já cruza o Arlançon, já está de
novo na tenda do Cid bem-aventurado. Este recebe-o com os braços
abertos:
[p. 9]
– Sois vós, Martin Antolínez, meu fiel vassalo? Oxalá chegue o dia
em que possa recompensar-vos pelo que fizestes.
– Sou eu, Campeador, e trago boas novas. Vós ganhastes seiscentos,
eu trinta. Mandai desarmar as tendas e saiamos a toda a pressa, para que
nos cante o galo em São Pedro de Cardeña. Ali veremos vossa fidalga e
digna mulher. Pouca demora teremos e abandonaremos o reino, porque o
prazo está para esgotar-se.
12
O Cid monta a cavalo e despede-se da catedral de Burgos, prometendo
mil missas ao altar da Virgem.

Ditas estas palavras, recolheram a tenda e cavalgaram a toda a


pressa o Cid e os seus. Vira o Cid seu cavalo na direção de Santa Maria e,
levantando a mão direita e benzendo-se, diz:
– Louvado seja Deus, senhor do céu e da terra! Gloriosa Santa Maria,
valha-me teu amparo! A ira do rei desterra-me de Castela; nem sequer sei
se voltarei algum dia. Valha-me teu socorro, gloriosa Virgem: não me
desampares, nem de noite, nem de dia. Se assim o fizeres e eu tiver boa
ventura, desde agora ofereço a teu altar belas e ricas dádivas, e aí farei
cantar mil missas.

13
Martin Antolínez volta à cidade.

Assim se despediu aquele varão prudente, com toda a dor de sua


alma. Todos soltaram as rédeas e esporearam os cavalos. O leal burgalês
Martin Antolínez disse então:
– Quero despedir-me tranqüilamente de minha mulher e recomendar
a casa. Se o rei quiser despojar-me de meus bens, não me importa. Antes
de raiar o dia, estarei de volta.
[p. 10]

14
O Cid vai a Cardeña, despedir-se de sua família.

Enquanto Dom Martin voltava a Burgos, o Cid dava de esporas para


São Pedro de Cardeña, acompanhado por aqueles cavaleiros que de tão
bom grado o serviam.
Cantavam os galos e estava rompendo a manhã, quando chegou a
São Pedro o bom Campeador. Ao amanhecer, o abade Dom Sancho, bom
3
cristão, estava rezando as matinas, e Dona Ximena, com cinco ilustres
damas de companhia, rogava assim a São Pedro e ao Todo-Poderoso:
Tu, que a todos guias, ampara meu Cid Campeador.

15
Os monges de Cardeña recebem o Cid. Ximena e suas filhas chegam
diante do desterrado.

Chamam à porta; a notícia voa em um instante. Ó Deus, qual não foi


a alegria do abade Dom Sancho! Com velas e candeias, saíram todos ao
pátio e recebem, cheios de alegria, ao que em boa hora nasceu.
– Graças a Deus, meu Cid – disse o abade Dom Sancho. Tenho-vos,


Matinas: primeira das horas canônicas.
pois, afinal, a meu lado; sede meu hóspede.
– Graças, senhor abade; muito satisfeito estou convosco! Eu
conseguirei comida para mim e para minha gente. Como tenho que sair
desta terra, quero deixar-vos cinqüenta marcos e dobrá-los-ei, se Deus me
der vida e saúde; não quero causar o menor gasto ao mosteiro. Eis aqui
outros cem marcos, para que possais servir, durante este ano, a Dona
Ximena, a suas filhas e damas. Cuidai-me bem dessas duas meninas, vo-
las encomendo especialmente, abade Dom Sancho. Tende todos os
cuidados com elas e com minha mulher. Se acabar o dinheiro, ou faltar
algo, proverei tudo do mesmo modo. Por cada marco despendido, darei
quatro ao mosteiro.
A tudo disse que sim, de bom grado, o abade.
[p. 11]
Mas eis aqui Dona Ximena e com ela suas filhas, cada uma nos
braços de uma ama. Dona Ximena ajoelha-se diante do Campeador; não
pode conter as lágrimas, quer beijar-lhe as mãos:
– Campeador, Campeador, em boa hora nascestes. Ai que vos
desterram as intrigas dos malvados.

16
Ximena lamenta o desamparo em que ficam suas filhas pequenas. O Cid
espera chegar a casá-las honradamente.

– Escutai-me, ó Cid, da formosa barba. Eis-nos aqui, em vossa


presença, eu e vossas filhinhas e as damas que me servem. Já vejo que
estais para partir e devemos separar-nos de vós. Pelo amor de Santa
Maria, aconselhai-nos.
O da formosa barba estendeu as mãos, pegou suas filhas nos braços
e apertou-as amorosamente junto ao coração. Lágrimas vêm a seus olhos
e, enfim, disse, depois de um suspiro:
– Dona Ximena, minha excelente mulher, quero-vos tanto como a
minha alma; bem sabeis que nos temos de separar, indo-me eu e ficando
vós aqui. Praza a Deus e a Santa Maria que possa casar com minhas
próprias mãos a estas minhas filhas e ainda me reste vida para desfrutar
de tanta ventura e para servir-vos, honrada mulher!

17
Uma centena de castelhanos junta-se em Burgos para seguir com o Cid.

Preparam abundante comida ao bom Campeador. Os sinos de São


Pedro tocam a rebate. Enquanto isso, vão murmurando por Castela, como
se vai do reino o Cid Campeador. Para segui-lo, uns abandonam suas
casas. Nesse mesmo dia, passavam a ponte do Aralançon cento e quinze
cavaleiros, perguntando por onde andava o Cid. Martin Antolínez junta-se
a eles e todos se encaminham para São Pedro, onde está o que em boa
hora nasceu.
[p. 12]
18
Os cem castelhanos chegam a Cerdeña e fazem-se vassalos do Cid. Este
dispõe-se a seguir seu caminho pela manhã. As matinas em Cardeña.
Oração de Ximena. Adeus do Cid a sua família. Últimas recomendações ao
abade de Cardeña. O Cid caminha para o desterro.

Quando viu o Cid de Vivar que sua companhia aumentava e, com


isto, suas esperanças de ganhar facilmente a vida, sai a cavalo, para
recebê-los. Quando os vê, sorri, satisfeito. Todos vêm beijar-lhe as mãos,
em sinal de vassalagem.
Disse o Cid, animadamente:
– Rogo a Deus, Pai Espiritual, que vos possa fazer algum bem, em
troca das herdades e casas que deixastes para seguir-me. Dobrado haveis
de ganhar o que perdestes.
O Cid regozijava-se de ver crescer sua companhia e todos os seus
homens estavam tão alegres quanto ele.
Transcorreram já seis dias. Sabei que faltam apenas três para que o
prazo termine. O rei mandou que vigiem o Cid e se o encontrarem em sua
terra, depois do prazo, não escapará, por todo o ouro do mundo. O dia vai
caindo, anoitece. Manda o Cid a todos os seus cavaleiros:
– Ouvi, varões e não vos aflijais com o que vou dizer. Pouco dinheiro
trago, mas quero dar-vos vossa parte. Tende bem presente o que deveis
fazer: quando amanhecer, ao canto do galo, mandareis preparar tudo sem
tardança. Nosso bom abade tocará matinas em São Pedro e dirá a missa
da Santíssima Trindade; feito isto, começaremos a cavalgar, porque se
aproxima o prazo e temos que andar muito ainda.
Tal como mandou, será feito. Já vai passando a noite, aproxima-se a
manhã. Ao segundo canto dos galos, começam a preparar tudo.
Pressurosamente tangem as matinas. O Cid e sua mulher vão à
igreja. Dona Ximena joga-se aos pés do altar, rogando a Deus, o melhor
que pode, que livre de todo mal o Cid Campeador.
[p. 13]
– Glorioso Senhor, exclama; pai que estás nos céus, criador do céu e
da terra e também do mar; das estrelas e da lua e do sol que nos
esquenta; encarnado em Santa Maria Madre; nascido em Belém, onde te
glorificaram e cantaram os pastores e foram adorar-te os três reis da
Arábia – Melchior, Gaspar e Baltasar – oferecendo-te de coração ouro e
mirra; que salvaste a Jonas, quando caiu no mar, a Daniel, dos leões, ao
senhor São Sebastião, em Roma e a Santa Susana, de falsos testemunhos;
que andaste pelo mundo trinta e dois anos, ó senhor espiritual, obrando
milagres tão famosos; fizeste da água vinho e pão da pedra e
ressuscitaste Lázaro, pela força de teu desejo, deixando-te prender pelos
judeus no monte Calvário e crucificar no Gólgota, entre dois ladrões – um
merecedor do paraíso, outro não – onde, estando na cruz, fizeste grande
milagre: Longuinhos, cego de nascença, feriu-te com a lança, e o sangue
correu por ela abaixo e ensopou-lhe as mãos e, tendo-as levado ao rosto,
abriu os olhos, olhou ao redor e acreditou em ti, que assim o curavas de
seu mal; senhor, que ressuscitaste do sepulcro, foste por tua vontade aos
infernos, arrombaste suas portas e livraste os santos padres, tu que és rei
dos reis e pai e senhor do mundo, a ti adoro e em ti creio de coração e
rogo a São Pedro que me ajude a implorar-te para que guardes de todo o
mal a meu Cid Campeador e, posto que agora nos separamos, permite-nos
voltar a encontrar-nos nesta vida.
Feita a oração e acabada a missa, todos saíram da igreja e
começam a montar. O Cid abraça Dona Ximena, que lhe beija a mão,
chorosa, sem saber bem o que faz. Voltou-se ele para olhar as meninas:
– A Deus, Pai espiritual de todos, encomendo minhas filhas. Agora
nos separamos e sabe Deus quando nos voltaremos a ver.
Não vistes pranto mais amargo que aquele: assim se separam uns
dos outros, como a unha da carne.
O Cid e seus vassalos já estão montados e ele volta a cabeça para
os seus. Então, Minaya Álvar Fáñez deixou-se ouvir:
[p. 14]
– Ó Cid, nascido em boa hora, que é do vosso ânimo? Pensemos só
em cavalgar e deixemos o demais. Já se tornarão as dores em alegrias.
Deus, que nos deu estas almas, dar-nos-á seu amparo.
Torna a advertir ao abade Dom Sancho que cuide de Dona Ximena,
de suas filhas e damas de companhia e que tenha por certo que ganhará
boa recompensa.
Ao aproximar-se Dom Sancho, diz-lhe Álvar Fáñez:
– Abade, se sabeis de alguém que queira vir conosco, dir-lhe-eis que
siga o rastro e aperte o passo, que já nos dará alcance, em ermo ou
povoado.
Já soltam as rédeas, já começam a caminhar, que o prazo do
desterro está para cumprir-se. Em Espinazo de Can repousa o Cid. Muita
gente juntou-se a ele aquela noite. No outro dia de manhã, retomam o
caminho. Desta vez o leal Campeador deixa sua terra. Caminhando à
esquerda da boa cidade de Santo Estêvão de Gormaz, passa depois por
Alcobiella do Marquês, onde Castela acaba, e sai pela calçada de Quinea,
atravessando o Douro, em Navas de Palos, para acampar em Figueruela.
De todo lado continua a juntar-se-lhe muita gente.

19
Última noite que o Cid dorme em Castela. Um anjo consola o desterrado.

Chegada a noite, deitou-se o Cid e um doce sonho começou a


invadi-lo, adormecendo-o profundamente. Apareceu-lhe o Anjo Gabriel:
– Cavalga – diz-lhe –, cavalga, bom Campeador, que nunca varão
algum cavalgou com mais sorte. Tudo te há de sair bem, enquanto vivas.
E o Cid benzeu-se, ao despertar.
[p. 15]

20
O Cid acampa na fronteira de Castela.

Havendo-se persignado, encomenda-se a Deus, contente com seus


bons sonhos. Pela manhã, começam a caminhar, pois chegou o último dia
do prazo. E foram descansar na serra de Miedes, à direita das torres de
Atiença, onde estão os mouros.

21
Contagem das gentes do Cid.

Ainda era de dia e não se tinha posto o sol, quando o Cid Campeador
quis passar revista em sua gente. Fora os peões e outros valentes, contou
trezentas lanças, todas com pendões.

22
O Cid entra no reino mouro de Toledo, tributário do rei Afonso.

– Assim nos salve o Criador, dai já ração às bestas. Quem quiser


comer, coma, quem não quiser, cavalgue. Passaremos a serra, que é
muito brava e empinada, e assim poderemos deixar esta noite as terras
do rei Afonso. A quem depois queira juntar-se a nós, não lhe custará
trabalho dar conosco.
De noite transpuseram a serra e depois caminharam pela encosta
abaixo. Em meio de um bosque maravilhoso, mandou o Cid parar e dar
rações. Ali disse a seus homens que queria caminhar de noite. Como leais
vassalos, todos aceitam de bom grado e estão dispostos a fazer quanto
lhes mande. Ao anoitecer cavalgam, porque o Cid tem empenho de não
ser ouvido. Toda a noite andaram ser descanso. Perto do lugar que
chamam Castejon de Henares, pôs-se o Cid a preparar uma emboscada.
[p. 16]

23
Plano de campanha. Castejon cai em poder do Cid. Algara contra Alcalá.

Toda a noite ficou emboscado, como aconselhara Álvar Fáñez


Minaya:
– Cid, que em boa hora cingistes espada, já que fazemos emboscada
a Castejon, convém que fiqueis atrás, com cem dos nossos; a mim me
dareis duzentos, para ir na vanguarda. Com Deus e vossa ventura,
sairemos bem da empreitada.
E o Campeador:
– Dizeis bem, Minaya. Ide na vanguarda, com duzentos homens. E
que vos acompanhem Álvar Álvarez e Álvar Salvadórez, cavaleiros sem
mancha e Galindo Garcia, valente lança. Arremetei com ousadia, não vos
faça o medo largar a presa. Por Hita abaixo e por Guadalajara, alongai-vos
até Alcalá e não percais nenhum ganho, por medo aos mouros. Eu ficarei
na retaguarda, com os outros cem, em Castejon, que é bom abrigo. Se
correrdes perigo na vanguarda, mandai-me logo aviso. Isto vai ser falado
em toda a Espanha.
Aqui nomeiam os que hão de ir na vanguarda e os que hão de ficar
na retaguarda com o Cid. Rompe a aurora, vem a manhã, sai o sol. Ó
Deus, quão formoso desponta! Os de Castejon levantam-se, abrem suas
portas e saem ao trabalho. Já todos se foram, deixando as portas abertas,
e muito poucos ficam em Castejon. Os demais espalham-se. O Campeador
abandona então seu esconderijo e cai sobre Castejon. Encaminha-se para
a porta da cidade. Os que a guardam, quando vêem tanta gente, fogem,
cheios de terror. O Cid Rui Dias entra pela porta, espada nua na mão, e
mata quinze mouros que alcança. Ganhou Castejon com o ouro e a prata.
Seus cavaleiros aproximam-se com o despojo e deixam-no em suas mãos.
Enquanto isso, os duzentos e três da vanguarda correm a saquear as
terras. Até Alcalá chega o pendão de Minaya e de lá voltam com o
despojo, por Henares acima e por Guadalajara. E onde se vê passar o
orgulhoso pendão, não há quem se atreva a assaltá-los com a espada.
Trazem grandes presas: rebanhos de ovelhas e vacas, roupas e outras
riquezas. Voltam [p. 17] com todos os haveres e juntam-se ao Cid em
Castejon. O Campeador sai a recebê-los com seus homens. Recebe Minaya
de braços abertos:
– Sois vós, Álvar Fáñez, valente lança? Não podia fracassar empresa
a vós encomendada. Juntemos o vosso com o meu e, desde já, se assim o
desejais, concedo-vos a quinta parte de tudo.

24
Minaya não aceita nada do despojo e faz um voto solene.
4
– Ilustre Campeador, muito vos agradeço. Com este quinto que me
ofereceis, até o castelhano Afonso dar-se-ia por bem pago. Mas eu vo-lo
devolvo. E prometo a Deus, que está no alto, que enquanto não me
satisfaça de lutar em campo com os mouros, montado em meu cavalo,
empunhando a lança e sacando a espada, até que o sangue escorra diante
de Rui Dias, o grande Campeador, não hei de aceitar que me pagueis
sequer uma moeda. Quando vos ganhar algo que valha a pena, aceitarei
minha parte; por enquanto, tomai tudo para vós.

25
O Cid vende seu quinto aos mouros. Não quer lutar com o rei Afonso.

Reuniram o despojo. O Cid, que em boa hora cingiu espada, pensou


que talvez o buscassem, para atacá-lo, os homens do rei Afonso. Mandou
repartir quanto antes os ganhos e pediu que lhe dessem recibo. Aos
cavaleiros cabe boa parte, a cada um tocam cem marcos de prata; aos
peões a metade e o quinto ao Cid. Mas não pode o Campeador vender
nem dar o que tem. Não quer levar consigo cativos nem cativas. [p. 18]
Põe-se a falar com os de Castejon: manda perguntar em Hita e em
Guadalajara por quanto lhe compram o quinto. Os mouros oferecem três
mil marcos de prata, o que contenta o Cid; e, ao terceiro dia, está pago.
Pensou o Cid que não poderia alojar os seus no castelo, por falta de
água.

Quinto: a quinta parte de tudo o que foi apreendido.
– Os mouros estão agora em paz e assinadas as cartas. Mas o rei
Afonso pode vir buscar-me com seu exército. Ouvi, pois, ó combatentes, e
vós, Minaya, quero deixar Castejon.

26
O Cid vai para terras de Saragoça, dependentes do rei mouro de Valença.

– Não leveis a mal o que vos digo. Sabei que aqui em Castejon não
poderíamos ficar. O rei Afonso está perto e viria buscar-nos. Mas
tampouco quero assolar este castelo. Darei liberdade a cem mouros e cem
mouras, a fim de que não digam mal de mim, pelo que lhes tiro. Estais
todos pagos e ninguém fica por pagar. Amanhã de manhã sairemos, pois
não quero lutar com Afonso, meu senhor.
A todos pareceu bem o que disse o Cid. Abandonam, pois, o castelo,
enriquecidos, com as bênçãos de mouros e mouras.
Caminham Henares acima tudo o que podem: passam a Alcarria e as
grutas de Anguita; passam as águas do Tajuña, entram no campo de
Taranz e vão-se metendo por aquela terra. O Cid foi abrigar-se entre Ariza
e Cetina, colhendo no caminho grandes ganhos. Não sabem os mouros o
intento audaz daquela gente. No dia seguinte, pôs-se em marcha o Cid de
Vivar, passou Alfama e a Foz, passou Briviesca e, mais adiante, Ataca, e
foi descansarem Alcocer, num redondo outeiro, elevado e forte, onde não
lhe podem cortar a água, pois corre perto o Jalon. O Cid Dom Rodrigo
pensa em conquistar Alcocer.
[p. 19]

27
O Cid acampa em Alcocer

Povoa o outeiro, constrói o acampamento, umas tendas na serra e


outras junto ao rio. O Campeador, que em boa hora cingiu espada,
mandou a seus varões que cavassem um fosso, para que ninguém
pudesse assaltá-lo, nem de noite, nem de dia e que soubessem que ali era
a morada do Cid.

28
Temor dos mouros.

A notícia de que o Cid Campeador tinha vindo morar ali estendeu-se


por aquelas terras, e de que havia deixado cristãos para morar entre
mouros. Estes, na vizinhança, mal se atrevem a lavrar suas terras. O Cid e
seus vassalos têm razão de alegrar-se: logo o Castelo de Alcocer lhes paga
tributo.

29
O Campeador toma Alcocer, com um ardil.
Os de Alcocer pagam tributo ao Cid e os de Ateca, os de Terrer e os
de Calatayud, a quem isto pesava. Ali descansou o Cid quinze semanas ao
todo.
Vendo que Alcocer não se rendia, inventou logo um ardil. Mandou
levantar todas as tendas, menos uma, e foi-se Jalon abaixo, com pendões
5
alçados, espadas cingidas e postas as lorigas, para fazê-los cair em uma
emboscada. Como se alegravam os de Alcocer, vendo-os partir.
– Já se acabou todo o pão do Cid e a cevada. Deixou uma tenda e
levou todas as outras, quase não pode com elas. Vai de tal modo, como se
fugisse derrotado.. Assaltemo-lo [p. 20] agora e ganharemos bom despojo,
antes que o alcancem os de Terrer, que esses, se o pilham, nada nos
darão. Agora é tempo de que devolva em dobro o tributo que lhe
pagamos.
Saíram de Alcocer com grande pressa. O Cid, ao vê-los, fingiu que
fugia. E foi pelo Jalon abaixo, com os seus.
– Lá se vão nossos ganhos – diziam os de Alcocer.
E grandes e pequenos saíam da cidade, pensando só na cobiça,
deixando as portas abertas e sem ninguém a guardá-las. Então o
Campeador virou a cabeça e, vendo que entre eles e o Castelo havia um
largo espaço, mandou tornar o pendão e esporear os cavalos.
– A eles, meus cavaleiros, feri-os em temor! Se Deus nos ajudar,
grandes ganhos teremos.
Ao meio do campo, encontram-se com os mouros. Ó Deus, que
alegria a dessa manhã! À frente iam o Cid e Álvar Fáñez, com bons
cavalos, que manejam à vontade, e logo entraram no castelo. Sem
piedade caíam os vassalos do Cid sobre os mouros e, em curto espaço,
matam trezentos. Dando então grandes gritos, os que tinham ficado
escondidos saem, adiantam-se, desembainham as espadas e juntam-se à
porta do castelo, para guardá-la. Logo chegam os seus; a vitória está
consumada.
Assim ganhou o Cid o castelo de Alcocer.

30
O pendão do Cid ondeia sobre Alcocer.

Chegou Pero Bermúdez, o que carrega o estandarte, e cravou-o no


lugar mais elevado. Falou o Cid, nascido em boa hora:
– Graças a Deus do céu e a todos os seus santos! Melhor pousada
darei a cavaleiros e cavalos.
[p. 21]

31
Clemência do Cid com os mouros.

– Ouvi-me, Álvar Fáñez e todos os cavaleiros. Muito ganhamos com


Loriga: saia de malha, com escamas de metal, usada pelos guerreiros da Idade Média.
este castelo, muitos mouros morreram, poucos são os que ficaram vivos;
não temos a quem vender mouros e mouras; se os matarmos, nada
ganharemos; recebamo-los aqui dentro, pois é nosso o senhorio;
hospedar-nos-emos em suas casas e deles nos serviremos.

32
O rei de Valença quer recuperar Alcocer. Envia um exército contra o Cid.

Assim está o Cid em Alcocer, em meio ao que ganhou. Mandou


buscar a tenda que tinha deixado no acampamento. Muito pesa seu
triunfo aos de Ateca, tampouco agrada aos de Terrer e aos de Calatayud.
Enviaram, então, uma mensagem ao rei de Valença, dizendo que um que
chamam o Cid Rui Dias de Vivar “expulsou-o de sua terra o rei Dom
Afonso e veio acampar em um lugar de Alcocer e, com um ardil, tomou o
castelo. Se não nos auxilias – diziam – perderás Ateca e Terrer, perderás
Calatayud; tudo irá de mal a pior nesta ribeira do Jalon e o mesmo em
Jiloca, que está do outro lado”.
Oprimiu-se o coração do rei Tamin, quando tal ouviu.
– Três emires vejo junto a mim – disse. – Que vão dois deles, levando
três mil mouros bem armados. Com a ajuda dos da fronteira, colhei-mo
vivo e trazei-mo. Há de pagar-me direitos, por ter entrado em minha terra.
Cavalgam os três mil mouros, passam em Segorbe, ao norte, e
prosseguem no dia seguinte, para repousar em Cella, na outra noite.
Mandam avisar os da fronteira e estes acorrem de todo lado; saíram, pois,
de Cella do Canal, como soem chamá-la; andaram todo o dia sem
descanse e de noite chegaram a Calatayud. Lançaram pregões por todas
essas terras e [p. 22] reúne-se muitíssima gente, sob o comando dos dois
emires: Fáriz e Galve. Vão fazer cerco ao bom Cid, no castelo de Alcocer.

33
Fáriz e Galve cercam o Cid em Alcocer.

Levantam as tendas, formam o acampamento, aumentam as forças,


que já são muito numerosas. As sentinelas avançadas dos mouros estão
armadas até os dentes, de dia e de noite. Muitas são as sentinelas,
imensas as hostes. Cortam a água aos do Cid. Seus homens quiseram
oferecer batalha, mas proibiu-o o que nasceu em boa hora. Por três
semanas apertam o cerco.

34
Conselho do Cid com os seus. Preparativos secretos. O Cid sai em batalha
campal contra Fáriz e Galve. Pero Bermúdez dá os primeiros golpes.

Ao fim de três semanas, quando já chegava a quarta, o Cid convoca


um conselho:
– Já nos cortaram a água os mouros – disse-lhes – e pode faltar-nos o
pão. Se quisermos sair de noite, não nos deixarão. Suas forças são
grandes, para que lutemos contra elas. Dizei-me, pois, cavaleiros, o que
vos parece melhor que façamos.
Primeiro falou Minaya, ilustre cavaleiro:
– De Castela, a gentil, aqui viemos e, se não for lutando com
mouros, não ganharemos o pão. Somos seiscentos, ou, talvez, mais. Em
nome do Criador, que se comece amanhã o ataque.
E o Campeador:
– Muito me apraz o que dizeis, e com isso vos honrais, Minaya, que
não se podia esperar menos de vós.
[p. 23]
E mandou expulsar todos os mouros e mouras, para que não
descobrissem seu segredo. Todo o resto do dia e da noite ocupam-se em
armar-se convenientemente e, pela manhã, quando apontava a aurora, o
Cid e os seus amanhecem preparados.
E disse o Campeador o que ides ouvir:
– Saiamos todos, que não fique ninguém, com exceção de dois
peões, que guardarão a porta. Se morrermos no campo, que nos levem
para o castelo. E, se vencermos a batalha, enriqueceremos. Vós, Pero
Bermúdez, tomai meu pendão: sois bom e guardá-lo-eis lealmente, mas
não vos adianteis, enquanto eu não mandar.
Pero Bermúdez beijou a mão do Cid e tomou o pendão.
Abriram as portas e saíram. As sentinelas, ao vê-los, correm a avisar
suas hostes. Com que pressa estão-se armando os mouros! Tal é o ruído
dos tambores que estremece a terra. Veríeis ali armarem-se os mouros e
entrarem prontamente em suas filas. Trazem dois pendões principais e os
outros secundários. Quem os poderia contar? Já se adiantam as filas dos
mouros para encontrar-se com o Cid e os seus.
– Quietos, soldados, daqui não se mova ninguém, não saia um só
das filas, enquanto eu não o ordenar.
Já não pode conter-se Pero Bermúdez. Leva o pendão na mão e
esporeia seu cavalo:
– Ó leal Cid Campeador, Deus vos salve! Vou meter nosso pendão na
fila maior. E verei como acorrem os que devem defendê-lo.
– Não o façais, por caridade! grita o Campeador.
– Não faltava mais nada – respondeu Pero Bermúdez – e, esporeando
o cavalo, mete-o pela fila mais compacta, onde os mouros o esperam,
para arrebatar-lhe o pendão, e, ainda que lhe dêem grandes golpes, não
conseguem romper-lhe a loriga.
O Cid grita:
– Auxiliai-o, por caridade!
[p. 24]

35
Os do Cid correm a socorrer Pero Bermúdez.

Abraçam os escudos, levantam as lanças, enrolam os pendões e


acometem denodadamente.
O que em boa hora nasceu diz em grandes vozes:
– A eles, meus cavaleiros, em nome de Deus! Eu sou Rui Dias de
Vivar, o Cid Campeador!
Todos vão sobre a fila em que está lutando Pero Bermúdez. São
trezentas lanças com pendões: trezentos golpes matam trezentos mouros;
e, carregando de novo, matam outros tantos.

36
Destroçam as hostes inimigas.

Ali veríeis subir e descer tantas lanças, traspassar e romper tanta


6
adarga, tanta loriga quebrar-se e perder as malhas, tantos pendões
brancos tingir-se de sangue, tantos formosos cavalos sem ginete. Os
mouros invocam Maomé e os cristãos Santiago. Em pouco tempo jaziam
no campo não menos de mil e trezentos mouros.

37
Menção dos principais cavaleiros cristãos.
7
Ó que bem peleja, sobre dourado arção, o Cid Rui Dias, grande
combatente; Minaya Álvar Fáñez, o que mandou em Zurita; Martin
Antolínez, o leal burgalês, e Muño Gustioz, que foi seu criado; e Martin
Muñoz, o que mandou em Monte Maior; e Álvaro Álvar e Álvaro Salvadórez
e Galindo [p. 25] Garcia, o bom aragonês; e Félix Muñoz, sobrinho do Cid.
Todos acorrem a defender o pendão do Campeador.

38
Minaya em perigo. O Cid fere Fáriz.

As hostes cristãs ajudam Minaya, porque lhe mataram o cavalo.


Também lhe partiram a lança, mas empunha a espada e, mesmo
desmontado, vai dando grandes golpes. Viu-o o Cid Rui Dias, o castelhano,
e, aproximando-se de um mouro que tinha um excelente cavalo,
desfechou-lhe tal golpe com a direita que, partindo-o pela cintura, arrojou-
o ao campo. Depois aproximou-se de Álvar Fáñez, para dar-lhe o cavalo.
– A cavalo, Minaya. Vós sois meu braço direito. Hoje necessito de
vossa ajuda. Vede que os mouros estão firmes; ainda não os expulsamos
do campo; é preciso que acabemos com eles.
Montou Minaya, sem soltar a espada, e continuou lutando
denodadamente entre as forças inimigas, matando os que alcança. O Cid
Rui Dias, que em boa hora nasceu, desfecha três golpes no emir Fáriz;
erra dois, mas o terceiro acerta, e escorre o sangue pela loriga abaixo. O
emir vira o cavalo para fugir do campo: com este golpe desbarata-se o
exército.


Adarga: antigo escudo oval, com duas braçadeiras: uma estreita para a mão e outra larga para o braço.

Arção: parte arqueada e saliente da sela.
39
Galve ferido e os mouros derrotados.

Martin Antolínez assestou tão duro golpe no mouro Galve que lhe
arranca os rubis do elmo e, partindo-o, entra na carne. Não quis ele
esperar o segundo golpe. Derrotados estão os emires Fáriz e Galve:
grande dia para a cristandade, que já de todos os lados fogem os mouros.
Ferindo-os, perseguem-nos os do Campeador. O emir Fáriz refugiou-
se em Terrer, e Galve, porque não o quiseram receber, foge para
Calatayud, a bom galope. O Campeador segue-o de perto e a perseguição
continua até Calatayud.
[p. 26]

40
Minaya vê cumprida sua promessa. Despojo da batalha. O Cid manda um
presente ao rei.

Bom Cavalo coube a Minaya Álvar Fáñez e assim pôde matar trinta e
quatro mouros. O valente espada, quão ensangüentado traz o braço,
escorrendo-lhe o sangue pelo cotovelo!
– Agora, sim, estou satisfeito. Agora chegarão a Castela as boas
novas de que meu Cid Rui Dias saiu vitorioso em batalha campal.
Há tantos mouros mortos que quase não ficam sobreviventes.
Os daquele que nasceu em boa hora foram-nos perseguindo e já
estão de regresso. Via-se o Cid em seu cavalo, espada na mão, franzida a
coifa e caído sobre os ombros o capuz da loriga. Ó Deus, que bela barba
tem!
Vendo vir os seus, exclama:
– Graças a Deus, que está nos céus, a vitória é nossa.
Os de meu Cid entregam-se depois a saquear o acampamento,
recolhendo escudos, armas e abundantes riquezas. Juntaram quinhentos e
dez cavalos dos mouros e grande é sua alegria quando percebem que
suas baixas não passam de quinze. Já nem sabem onde pôr tanto ouro e
tanta prata. Enriquecidos estão com o despojo. Voltam a receber no
castelo os mouros que os serviam e manda o Cid que lhes dêem algo. O
Cid e seus vassalos regozijam-se e ordena o Campeador que sejam
distribuídos os ganhos. Só no quinto do Cid entram cem cavalos. Ó Deus,
que bem paga aos seus, tanto peões quanto cavaleiros. Como sabe tudo
bem fazer o que nasceu em boa hora. Todos os que o acompanham ficam
contentes!
– Ouvi, Minaya, meu braço direito: desta riqueza que Deus nos
enviou, tomai quanto quiserdes. E quero que vades a Castela, dar conta
desta vitória, porque desejo obsequiar o rei Afonso, que me desterrou,
com trinta cavalos, todos com selas e freios e espadas nos arções.
– De bom grado o farei, respondeu Minaya.
[p. 27]

41
O Cid cumpre sua promessa à catedral de Burgos.

– Eis aqui ouro e fina prata – continuou o Cid – até encher esta bota
por completo. Pagareis mil missas em Santa Maria de Burgos; o que sobrar
seja para minha mulher e minhas filhas. Que roguem por mim de dia e de
noite. Se Deus me der vida, chegarão a ser damas opulentas.

42
Minaya parte para Castela.

Álvar Fáñez está muito contente com a embaixada. Designam os


que hão de acompanhá-lo e dão cevada aos animais, já de noite. Nesse
momento, o Cid reúne os seus em conselho.

43
Despedida.

– Assim, pois, Minaya, ides a Castela, a gentil? Podeis dizer a nossos


amigos que Deus nos ajudou a vencer. Talvez nos encontreis aqui na
volta; se não, buscai-nos onde quer que estejamos. De lança e espada
temos de valer-nos: de outra maneira não poderíamos viver em terra tão
escassa. Temo, por isso, que tenhamos que ir a outro lugar.

44
O Cid vende Alcocer aos mouros.

Feito está: partiu Minaya pela madrugada e o Campeador ficou com


os demais. Escassa, malíssima é aquela terra. Todos os dias andam
espiando o Cid os mouros da fronteira e uns homens estranhos. Algo
tramavam, com o conselho do [p. 28] emir Fariz, já curado de suas feridas.
Com os de Ateca e o povoado de Terrer e os de Calatayud, que é cidade
mais rica, o Cid entra em negociações; redigem o contrato por carta e
vende-lhes, por três mil marcos de prata, o castelo de Alcocer.

45
Venda de Alcocer.

Vende Alcocer o Cid Rui Dias e paga ricamente seus vassalos,


enriquecendo cavaleiros e peões; não fica nenhum pobre entre eles:
“quem a bom senhor serve, bom galardão alcança”.

46
Abandono de Alcocer. Bons agouros. O Cid assenta-se no Poyo, sobre
Monreal.
Quando viram que o Cid vai abandonar o castelo, mouros e mouras
cativos começam a queixar-se: já te vais, ó Cid? Acompanhem-te nossas
orações. Senhor, ficaremos sempre agradecidos. Ao sair de Alcocer o Cid,
mouros e mouras ficam chorando. O Campeador afasta-se, pendão no
alto, encaminhando-se até abaixo do rio Jalon. Ao passar o rio, deram-lhe
as aves bons augúrios. Se ficam contentes os de Terrer e mais ainda os de
Calatayud, os de Alcocer, porque lhes era benéfico o Cid, sentem muito
pesar. Este caminhava e assim continuou, até chegar ao Poyo, que está
sobre Monreal: é alto, grande e maravilhoso de ver-se; por nenhum lado
poderiam alcançá-lo os inimigos. Começou por submeter Daroca e depois
Teruel e, por fim, Cella, a do Canal.
[p. 29]

47
Minaya chega diante do rei, que lhe dá o perdão, mas não ao Cid.

Haja o Cid Rui Dias a graça de Deus. Álvar Fáñêz Minaya partiu já
para Castela e apresenta ao rei os trinta cavalos. Este admira-os com um
sorriso de complacência:
– Minaya, Deus te salve: quem me manda semelhante presente?
– O Cid Rui Dias, que em boa hora cingiu espada. Depois que o
desterraste, conseguiu, valendo-se de uma artimanha, ganhar Alcocer.
Soube-o o rei de Valença, por uma mensagem, e mandou que o cercassem
e, com efeito, cortaram-lhe a água. Mas o Cid saiu do castelo para lutar
em campo aberto e venceu dois emires. Enormes foram seus ganhos,
senhor. E a vós, rei honrado, envia hoje este presente e beija-vos os pés e
as mãos, para pedir-vos que façais mercê, em nome de Deus.
– Ainda é muito cedo – disse o rei – para acolher um desterrado que
perdeu a graça de seu senhor, mas aceito o presente, por vir de
patrimônio de mouros e ainda confesso que me alegro com as vitórias do
Cid. E, sobretudo, Minaya, a vós perdôo e restituo honras e terras e dou
permissão de que entreis e saiais à vossa vontade. Mas, com respeito ao
Cid, não quero dizer-vos mais nada.

48
O rei permite aos castelhanos irem ter com o Cid.

– Ainda acrescentarei algo, Álvar Fáñez, e é que a todos os homens


bons e valentes de meu reino que quiserem ajudar o Cid, dou-lhes
permissão e não lhes confiscarei os bens.
Minaya Álvar Fáñez, beijando-lhe a mão, exclama:
– Obrigado, obrigado, meu rei e senhor natural! Isto concedeis
agora; amanhã concedereis algo mais e para isso faremos de nossa parte
tudo o que pudermos.
Disse o rei:
[p.30]
– Não se fale mais disso, Minaya, mas ide com toda a liberdade para
Castela e reuni-vos ao Cid, sem temor de que os molestem.

49
Incursões do Cid. Minaya, com duzentos castelhanos, reúne-se a ele.

Entrementes, quero dizer-vos do que em boa hora cingiu espada, o


qual tinha feito acampamento no Poyo, onde já sabeis. Sempre, enquanto
o mundo for mundo, hão de chamá-lo o Poyo do Cid. Suas incursões
estendiam-se dali a muitos lugares e acabou por submeter a tributo todo o
vale do rio Martin. Chegaram novas a Saragoça, o que muito desagradou
os mouros. O Cid manteve-se ali quinze semanas e quando viu o prudente
capitão que Minaya começava a demorar, fez uma saída noturna com toda
a sua gente, abandonou o Poyo, passou além de Teruel e não parou, até o
pinhal de Tévar. Pelo caminho vai saqueando a terra e consegue impor
tributo a Saragoça.
Feito isto, eis que, ao cabo de outras três semanas, aparece Minaya,
de volta de Castela, e com ele duzentos cavaleiros, de espada na cinta, e
incontáveis homens a pé. Quando o Cid avistou Minaya, esporeou o cavalo
e foi abraçá-lo, beijando-lhe a boca e os olhos. Este logo lhe conta o
sucedido, sem ocultar-lhe nada, e o Campeador, sorrindo alegremente,
diz:
– Graças a Deus e a todos os santos. Enquanto contar convosco,
Minaya, tudo há de sair-me bem na vida.

50
Alegria dos desterrados, ao receber notícias de Castela.

Que alegria a do exército com o regresso de Minaya, que lhe traz


notícias de seus irmãos e primos e das companheiras que tinham deixado
em sua terra.
[p. 31]

51
Alegria do Cid.

E que alegria, ó Deus, tem o da formosa barba, ao saber que Álvar


Fáñez pagou a promessa das mil missas e trouxe notícias de sua mulher e
de suas filhas.
Que festas, que alegria a do Cid!
– Mil anos vivais, Álvar Fáñez; valeis muito mais que nós. Assim se
cumprem os encargos.

52
O Cid ataca terras de Alcañiz.

Sem demora, o que em boa hora nasceu escolheu duzentos


cavaleiros e empreendeu uma incursão noturna. Ermas vai deixando para
trás as terras de Alcañiz e saqueia os arredores. No terceiro dia, regressou
ao ponto de partida.

53
Desengano dos mouros.

Voou a notícia de povoado em povoado. Muita pesa aos de Monzón e


aos de Huesca, mas aos de Saragoça agrada, pois sabem que do Cid não
devem temer o menor ultraje.

54
O Cid abandona o Poyo. Ataca terras protegidas pelo conde de Barcelona.

Com tais ganhos, todos voltavam alegres ao acampamento, para


satisfação do Cid e de Álvar Fáñez. O prudente capitão, não podendo
conter-se, sorri e diz:
Ouvi, cavaleiros, hei de falar-vos claro; ao que não se move de um
lugar, acaba-lhe o sustento. Cavalguemos ao amanhecer; recolhei as
tendas e adiante.
[p. 32]
O Cid foi acampar então no porto de Olacau, donde prosseguiu até
Huesca e Montalbán, numa incursão que durou dez dias. E por toda parte
voava a notícia de que o expatriado de Castela andava transtornando o
mundo.

55
Ameaças do conde de Barcelona.

Por toda parte voa a notícia e enfim chega aos ouvidos do conde de
Barcelona que o Cid Rui Dias anda saqueando as terras de seu
protetorado. Soube-o com muito pesar e tomou por grave ultraje.

56
O Cid trata em vão de acalmar o conde.

Muito fanfarrão é o conde; fala cheio de vaidade:


– Grandes danos está causando-me o Cid de Vivar. Tampouco se
portou melhor quando esteve em minha corte: depois de ferir meu
sobrinho, não reparou a falta; e agora anda saqueando as terras do meu
protetorado. Eu nunca o desafiei nem lhe retirei minha amizade; mas,
visto que me busca, eu irei procurá-lo.
Muito grandes são suas forças e começam a concentrar-se a toda a
pressa. Reúne-se a ele muita gente moura e cristã e todos vão em busca
de nosso bom Cid de Vivar. Três dias com suas noites caminharam e enfim
o alcançaram no pinhal de Tévar. São tantos que julgam poder pegá-lo
com as mãos.
Nosso Cid descia de um monte e entrava em um vale, levando todos
os seus ganhos consigo, quando o avisam da chegada do conde Dom
Ramon. Ouviu-o o Cid e mandou-lhe esta mensagem:
– Dizei de minha parte ao conde que não leve as coisas a mal e que
me deixe em paz, pois não tirei nada seu.
Mas, a isso, respondeu o conde:
– Não, não pode ficar assim. Agora me pagará tudo: os [p. 33]
agravos novos e os antigos; verá o expatriado com quem veio meter-se.
Com estas palavras, regressou o mensageiro, e o Cid de Vivar
compreendeu que não podia sair daquele transe sem travar batalha.

57
Discurso do Cid aos seus.

– Eia, meus cavaleiros! Ponde o despojo a salvo; armai-vos com


presteza e vesti as armaduras. O conde Dom Ramon empenhou-se em
dar-nos batalha; acompanha-o inumerável gente, entre cristãos e mouros.
Só à força nos deixará tranqüilos. Se seguirmos, alcançar-nos-á; seja, pois,
8
aqui mesmo, a batalha. Apertai as cilhas, cingi as armas. Eles descem a
encosta e todos vestem calças e usam selas rasas, com as cilhas largas;
nós temos boas selas galegas e boas botas sobre as calças. Cem dos
nossos bastam para seus homens. Antes que ponham pé na planície, que
dêem sobre eles nossas lanças. A cada golpe que derdes, ficarão vazias
três selas. Agora verá Ramon Berenguer com quem quis medir-se no
pinhal de Tévar, para arrebatar-lhe o despojo.

58
O Cid vence a batalha e ganha a espada Colada.

Quando o Cid disse isto, preparam-se todos, empunham as armas e


montam a cavalo. Pela encosta abaixo, viram chegar as forças dos
catalães e, quando estas chegaram à planície, o que nasceu em boa hora
mandou atacar. Arrojam-se denodadamente os seus e tão bem combatem
com seus pendões e suas lanças que a uns ferem e a outros derrubam.
Venceu já a batalha o que nasceu em boa hora! Prendeu o conde Dom
Ramon e ganhou a famosa espada Colada, que vale mais de mil marcos.
[p. 34]

59
O conde de Barcelona, prisioneiro, quer deixar-se morrer de fome.

Assim venceu esta batalha e honrou suas barbas. Levou para sua
tenda o conde prisioneiro, mandando a seus servidores que o guardassem,
e depois saiu da tenda. Seus homens começavam a chegar, trazendo
consigo muitos objetos de valor, de que o Cid se regozijava. Prepararam


Cilha: tira de pano ou de couro com que se aperta a sela ou a carga por baixo do ventre das cavalgaduras.
uma comida suculenta, mas o conde Dom Ramon não fazia caso dos
manjares; em vão os traziam e os punham diante dele. Não se dignava a
comer e desdenhava tudo, dizendo:
– Não hei de provar um só bocado, por todo o ouro que há na
Espanha; antes prefiro perder o corpo e a alma. Haver-me vencido a mim
estes mal calçados!

60
O Cid promete ao conde a liberdade.

Aqui falará o Cid, bem ouvireis o que dirá:


– Comei, conde, deste pão; bebei deste vinho. Se assim o fizerdes,
dar-vos-ei liberdade; do contrário, não tornareis a ver cristãos em dias de
vossa vida.

61
Negativa do conde.

– Comei, se vos agrada, Dom Rodrigo, e descansai, se tendes


vontade, que eu não quero comer nada, mas só deixar-me morrer.
No terceiro dia ainda não puderam persuadi-lo. Estão ocupados em
repartir o despojo e, enquanto isso, não conseguem fazê-lo comer uma
côdea de pão.
[p. 35]

62
O Cid reitera ao conde sua promessa. Põe em liberdade o conde e deixa-o
partir.

– Vamos, comei, comei um pouco; do contrário, não voltareis a ver


rostos cristãos. Se consentirdes em comer, a vós, conde, e a dois dos
vossos fidalgos, comprometo-me a deixarem liberdade.
Com esta promessa, o conde vai recobrando o ânimo:
– Cid – responde – se cumprirdes o que acabais de oferecer-me, terei
eu visto a maior maravilha de minha vida.
– Pois comei, conde, a vereis. Assim que vos tiverdes satisfeito,
soltar-vos-ei, com outros dois cavaleiros. Somente vos previno que, de
quanto haveis perdido e eu ganho no campo de batalha, não penso
restituir-vos sequer um dinheiro falso. Faz-me muita falta, para estes que
andam passando privações comigo. Não me resta mais que tomar o que
necessito, hoje de vós, amanhã de outros; e assim seguiremos, enquanto
Deus não disponha outra coisa, como convém ao que caiu na ira do rei e
foi expulso de sua terra.
Com a esperança de liberdade, o conde anima-se e pede água, no
que se apressam a servi-lo; e o conde e os dois cavaleiros, cuja liberdade
outorgou o Cid, põem-se a comer, com um apetite de dar inveja. A seu
lado, o que nasceu em boa hora diz:
– Conde, se não comerdes o bastante para satisfazer-me, aqui
ficaremos morando e não nos separaremos mais.
E o conde:
– Já vedes que o faço de voa vontade.
E na verdade, ele e seus cavaleiros comiam bem e depressa, com o
que se deu por satisfeito o Cid, vendo que o conde tão bem empregava as
mãos.
– Cid, se vos parece, podemos ir-nos agora mesmo. Mandai que nos
preparem os cavalos e partiremos logo. Sabei que, desde que sou conde,
nunca comi tão bem, por certo não esquecerei o prazer que tive.
[p. 36]
O Cid manda dar-lhe três palafréns selados, trajes, mantos e peles.
O conde Dom Ramón coloca-se entre os dois cavaleiros; o castelhano
acompanha-os até fora da pousada.
– Já vos ides, conde, livre e franco. Agradeço-vos os bens que me
deixais. Se, por acaso, tiverdes desejo de vingar-vos, far-me-eis o favor de
avisar-me antes: ou deixareis mais do vosso ou levareis algo do meu.
– Podeis ficar tranqüilo, Cid; bem livre estais disso. Suponho que já
vos paguei tributo por todo este ano. E quanto a vir buscar-vos outra vez,
nem pensar.

63
O conde parte receoso. Riqueza dos desterrados.

O conde caminhava apressadamente e voltava a cabeça de tempos


em tempos, temendo que o Cid se arrependesse, coisa que o prudente
capitão não fará, por todo o ouro do mundo, pois em sua vida nunca
cometeu nenhuma deslealdade.
Partido o conde, o de Vivar reuniu-se de novo com seus homens e
deu largas à sua alegria, ao ver a enormidade do despojo ganho: tão ricos
estão os seus que já não sabem o que têm.
[p. 37]
SEGUNDO CANTAR
BODAS DAS FILHAS DO CID

64
O Cid vai para terras de Valença.

Aqui começa a gesta9 do Cid de Vivar. Ele povoou o porto de Olocau,


deixando Saragoça, Huesca e Montalbán. E agora começa a guerrear em
direção do mar salgado. Do oriente sai o sol: para lá se encaminha o Cid. E
ganha Jérica, Onda e Almenara e conquista terras de Burriana.

65
Conquista de Murviedro.

O Criador, senhor do céu, ajuda-o. Assim pôde tomar Murviedro.


Bem vê o Cid que Deus não o desampara. Dentro de Valença não é pouco
o medo.

66
Os mouros valencianos cercam o Cid. Este reúne sua gente.

Não o vêem com bons olhos os de Valença e sentem muito pesar.


Decidem, em conselho, dar-lhe sítio. Saíram de noite e, ao amanhecer,
armaram as tendas nos arredores de Murviedro.
Vendo-os, exclama o Cid, maravilhado:
[p. 38]
– Louvado seja Deus, pai espiritual! Por suas terras andamos e
fazemos-lhes todo o mal que podemos: bebemos seu vinho, comemos seu
pão. Se nos põem sítio, não lhes falta razão. Isto não se pode decidir,
senão combatendo. Convoquem os que devem ajudar-nos; uns em Jérica,
outros em Olocau; estes em Onda, aqueles em Almenara; venham
também os de Burriana. Comecemos a batalha campal. Confio em Deus
que redundará em proveito nosso.
No terceiro dia, já estão todos reunidos e o que em boa hora nasceu,
assim lhes fala:
– Ouvi, soldados; assim vos salve Deus, como é meu desejo. Desde
que saímos da limpa cristandade – e não o fizemos por nosso gosto, mas
porque teve de ser – temo-nos saído bem, graças a Deus. Agora vêm
cercar-nos os de Valença. Se queremos viver tranqüilos nesta terra,
forçoso é que lhes demos um grande castigo.

67
Fim do discurso do Cid.

9
Gesta: canção que celebra grandes feitos.
– Passe a noite, venha a manhã e encontre aparelhados os cavalos e
preparadas as armas. Atacaremos seu exército. Desterrados somos em
terra alheia; aqui se verá quem sabe ganhar o soldo.

68
Minaya faz o plano de batalha. O Cid vence outra lide campal.

E aqui falou Minaya Álvar Fáñez; ouvi:


– Campeador, façamos como mandais. A mim dai-me cem
cavaleiros, mais não peço. Ide vós à frente com os outros e combatei sem
temor, enquanto eu ataco com os cem pelo outro lado e confio em Deus
que o campo será nosso. Muito bem lhe parece ao Campeador. Já
amanhece, já se armam todos; sabe bem cada um o que lhe toca fazer.
[p. 39]
Com a aurora, caiu o Cid sobre seus inimigos:
– Em nome de Deus e do apóstolo Santiago! Atacai-os meus
cavaleiros, com brio e coragem, que eu sou Rui Dias, o Cid da Vivar!
Ali veríeis estalar as cordas das tendas, arrancarem-se as estacas,
derrubarem-se os postes. Mas os mouros são numerosos e parece que se
recuperam.
É então que, de surpresa, cai sobre eles Álvar Fáñez; e, ainda que
lhes custe, são obrigados a recuar. Em patas de cavalo escapam uns, os
que podem. Na perseguição, caem mortos dois emires; e assim os foram
seguindo até Valença.
Grandes ganhos obteve o Cid. Recolhem o despojo do campo,
entram carregados em Murviedro e a alegria corre por toda a parte.
Conquistados estão Puig e seus arredores. Em Valença, já não sabem o
que fazer de medo; espalha-se a fama do Cid.

69
Incursões do Cid ao sul de Valença,

A fama do Cid atravessa o mar. Todos dão graças a Deus, que os


ajuda na guerra. Dão surtidas de noite e chegam a Cullera, a Játiba e, mais
abaixo, ao povoado de Denia.
Vão assolando as terras mouras, até a beira-mar. Por fim, tomam
Benicadel, com suas entradas e saídas.

70
O Cid em Benicadel.

Tomada Benicadel pelo Cid, cresce o desgosto em Játiba e em


Cullera; em Valença já não escondem o desespero.
[p. 40]

71
Conquista de toda a região de Valença.

Três anos passou o Cid em terras de mouros, saqueando aqui e ali,


dormindo de dia, velando de noite, tomando uma vila depois de outra.

72
O Cid assedia Valença. Manda pregões aos cristãos para a guerra.

Muito medrosos estão os de Valença, que já não se atrevem a sair


nem a buscá-lo. Muito os prejudica, devastando-lhes os campos e tirando-
lhes o sustento. Queixam-se os valencianos e não sabem de onde tirar o
pão. O pai não pode socorrer seu filho nem o filho ao pai; nem o amigo
pode consolar o amigo. Ó senhores, que dor tão grande é não ter pão e
ver morrer de fome filhos e mulheres! Os míseros não tinham remédio
para sua dor. Chamam o rei de Marrocos, mas este, em guerra com o rei
de Montes Claros, não quis dar-lhes conselhos nem vir ajudá-los.
Soube-o o Cid e agradou-lhe a notícia. Saiu de Murviedro de noite e
amanheceu em terras de Monreal. Manda deitar pregões por Aragão e
Navarra e envia mensageiros a Castela: “Quem quiser livrar-se de
cuidados e enriquecer, que venha com o Cid, amigo das batalhas, que
agora quer cercar Valença, para dá-la a cristãos.”

73
Repete-se o pregão.

– Quem comigo quiser vir para cercar Valença, que venha de bom
grado e saiba que o esperarei três dias no canal de Ceifa.
[p.41]

74
Gente que acorre ao pregão. Cerco e rendição de Valença,

Isto mandou dizer nosso Cid, o leal Campeador. Depois voltou a


Murviedro, pois já é dono daquela terra. E sabei que os pregões iam a toda
parte e que, ao cheiro dos ganhos, acorria, gente de toda a limpa
cristandade. A todos os lugares chegam as notícias. Ninguém deserta do
Cid; pelo contrário, sempre lhe aumentam os reforços. O Cid de Vivar
cresce em riqueza. Como se alegrava de ver tanta gente a seu lado! Não
quis esperar mais; encaminha-se para Valença, cai sobre ela e cerca-a tão
bem que não deixa escapatória. Ali o veríeis entrar e sair. Marca um prazo
à cidade, para ver se alguém a socorre. E ali esteve nove meses
completos e, no décimo, veio a rendição.
Que alegria quando o Cid ganhou Valença e entrou na cidade! Os
que antes andavam a pé já montam a cavalo. Quem poderia contar o ouro
e a prata que ganharam? Todos estão ricos. O Cid tomou o quinto e viu
que lhe cabem trinta mil marcos em moeda, fora outros bens.
Regozijam-se o Campeador e os seus, quando vêem seu pendão
plantado no alto do alcáçar.10

75
O rei de Sevilha quer recuperar Valença.

O Cid e seus homens descansavam, quando chegou a notícia ao rei


de Sevilha de que Valença tinha caído. Este logo acorreu com trinta mil
homens. Travou-se batalha ao fundo de um campo, estendendo-se até
Játiba e, quando atravessaram o Júcar, já desbaratados, tiveram que beber
água, contra sua vontade. O rei de Sevilha escapou com três feridas e o
Cid veio ver o despojo. Sabei que, se foi boa a vitória de Valença, quando
ganharam a cidade, esta lhes foi mais proveitosa.
[p. 42]
Até aos menos importantes tocaram cem marcos de prata por
cabeça. Já vedes, pois, como crescia nosso cavaleiro.

76
O Cid deixa crescer a barba. Riqueza dos seus.

Não conhece limites a alegria dos cristãos que andam com o Cid Rui
Dias. Cresceu-lhe muito a barba, porque ele havia dito um dia que “por
amor do rei Afonso, que me desterrou”, não havia de meter-lhe tesoura
nem cortar um pêlo. Que murmurassem mouros e cristãos!
Em Valença descansa o Cid Dom Rodrigo, com Minaya a seu lado.
Enriquecidos estão os que se desterraram com ele: a todos deu o bom
Campeador terras e herdades em Valença. Agora vêem como é grande a
generosidade do Cid. Também já estão pagos os que se lhe juntaram
depois, mas, quanto a estes, sabe o Cid que voltariam a suas terras, se
pudessem, com tudo o que ganharam. Então, a conselho de Minaya,
dispôs que, se alguém que ganhou dinheiro com ele, fosse embora sem
despedir-se e beijar-lhe a mão, que o prendessem, tomando-lhe o dinheiro
e enforcando-o.
E isto disposto, com as preocupações devidas, pôs-se a conversar
com Minaya:
– Se vos parece bem, Minaya, gostaria de saber quantos se juntaram
a mim depois e tiveram ganhos em minhas empresas; pô-lo-emos por
escrito e, se alguém se esconder, ou estiver ausente, terá que dar o que
ganhou a meus vassalos que guardam a fortaleza de Valença.
– Bem pensado – disse Minaya.

77
Contagem da gente do Cid.

Mandou, pois, que se juntassem todos na corte e fê-los nomear e


contar. Sorriu alegremente, ao saber que chegavam a três mil e

10
Alcáçar: antiga fortaleza ou castelo fortificado.
seiscentos os seus.
[p. 43]
– Minaya, graças a Deus e a Santa Maria! Com bem menos saímos
nós de Vivar. Ricos estamos hoje e mais estaremos amanhã. Se vos
agradar e não vos causar incômodo, queria que fósseis a Castela, onde
estão nossas herdades, e que vísseis o rei Dom Afonso, meu senhor
natural. Quero que tomeis, entre meus haveres, cem cavalos e os leveis a
ele. E que lhe beijeis a mão de minha parte e lhe rogueis encarecidamente
que, se a tanto vai sua mercê, deixe que venham a mim minha mulher,
Dona Ximena, e minhas filhas. Se ele concordar, mandarei buscá-las e
esta será minha mensagem: “Manda o Cid que sua mulher e suas filhas
pequenas sejam conduzidas com grande honra às terras estranhas que
ganhou com os seus.”
E disse, então, Minaya:
– De bom grado!
Tendo falado assim, começam a preparar a viagem. O Cid deu a
Álvar Fáñez cem homens para seu serviço e pediu-lhe que levasse mil
marcos de prata a São Pedro e desse a metade ao abade Dom Sancho.

78
Dom Jerônimo chega a Valença.

Para alegria de todos, chegou, vindo dos lados do Oriente, um


clérigo a quem chamavam o bispo Dom Jerônimo. É muito entendido em
letras e avisado em tudo o que faz e tão esforçado a pé como a cavalo.
Andava buscando novos proveitos ao Cid, desejando que saísse outra vez
a lutar com mouros, a fim de fartar-se de pelejar.
Quando o Campeador ouviu isso, disse, muito satisfeito:
– Ouvi, Minaya Álvar Fáñez, pelo pai que está nos céus: saibamos
agradecer a Deus quando a ele apraz ajudar-nos. Desejo fazer um bispado
em terras de Valença e encomendá-lo a este piedoso cristão; assim,
levareis a Castela grandes notícias.
[p. 44]

79
Dom Jerônimo é feito bispo.

Pareceu-lhe bem a Álvar Fáñez o que dizia Dom Rodrigo. Outorgam


a Dom Jerônimo o bispado de Valença, onde viverá com esplendor. Ó
Deus, que alegres estão os cristãos de ter um senhor bispo em terras de
Valença! Minaya, dando-se por contente, despede-se e começa a viagem.

80
Minaya dirige-se a Carrión.

Deixadas em paz e ventura as terras de Valença, tomou Minaya


Álvar Fáñez o rumo de Castela. Não falaremos de todas as pousadas que
fez, não as quero contar. Um dia, finalmente, pergunta pelo rei Dom
Afonso e, sabendo que há pouco saíra para Sahagun e de lá se
encaminhara para Carrión, onde seria fácil encontrá-lo, para lá se dirigiu,
sempre de bom ânimo, levando seus presentes.

81
Minaya saúda o rei.

Logo que saiu da missa o rei Dom Afonso, eis que se aproxima o
gentil Minaya. Ajoelha-se, à vista de todo o povo, cai aos pés do rei, beija-
lhe repetidas vezes as mãos e diz-lhe assim.

82
Discurso de Minaya ao rei. Inveja de Garcia Ordóñez. O rei dá seu perdão
à família do Cid. Os infantes de Carrión cobiçam a riqueza do Campeador.

– Mercê, senhor Dom Afonso, pelo amor de Deus! O Cid, esse grande
guerreiro, beija-vos as mãos e os pés, como [p. 45] convém a tão bom
senhor, e pede-vos – assim vos valha Deus – que lhe façais mercê. Vós o
desterrastes e negastes a ele vosso amor; mas, ainda que em terra
estranha, tem-se saído bem: ganhou Jérica e a chamada Onda; tomou
Almenara e Murviedro, que ainda é melhor; o mesmo fez com Puig e
Castejon e com Benicadel, que é grande fortificação; e, enfim, já é senhor
de Valença, onde criou por suas mãos um bispado e bateu-se em cinco
batalhas campais, vencendo todas. Grandes ganhos deu-lhe Deus e eis as
provas de que vos digo a verdade: cem cavalos, fortes e corredores, com
selas e freios, suplica o Cid que aceites. Ele é vosso vassalo e vós sois seu
senhor.
O rei, levantando a mão direita e benzendo-se, diz:
– Valha-me Santo Isidro! Alegram-me os imensos ganhos e as
contínuas façanhas do Campeador. Aceito o presente dos cavalos.
Mas o que agrada ao rei desagrada a Garcia Ordóñez:
– Parece que por terras de mouros não há ninguém, pois por lá põe e
dispõe o Cid Campeador.
E o rei disse ao conde:
– Calai, conde, que em tudo me serve ele melhor do que vós.
E Minaya, o esforçado varão, prosseguiu:
– Se vos apraz, ó rei, o Cid pede que o deixeis tirar sua mulher, Dona
Ximena, e suas duas filhas, do mosteiro em que as deixou e levá-las para
Valença, junto a si.
– De coração o concedo. Eu lhes darei provisões enquanto viajarem
por meu reino e protegê-las-ei de qualquer dano ou afronta. Quando
chegarem à fronteira estas damas, então cuidareis delas vós e o
Campeador. Eia, pois, soldados, e toda a minha gente, ouvi. Não quero
que perca nada o Cid. A todos aqueles que o reconhecem como senhor,
restituo-lhes tudo o que lhes havia confiscado; que por seus tenham seus
bens, onde quer que estejam ao lado do Cid; asseguro-lhes que não
receberão mal nem dano grave e tudo isto faço para que sirvam bem a
seu senhor.
Minaya Álvar Fáñez beija-lhe as mãos e o rei continua, com muita
gentileza:
[p. 46]
– Os que quiserem servir o Campeador recebam meu consentimento
e partam com a graça de Deus. Mais ganharemos com esta mercê do que
com novo castigo.
Aqui os infantes de Carrión puseram-se a dizer:
– Muito vão crescendo as façanhas do Cid. Não nos viria a mal se
casássemos com suas filhas. Não ousaríamos, porém, tornar público este
desejo, que o Cid é da aldeia de Vivar e nós somos condes de Carrión.
A ninguém o dizem e calam-se com este pensamento. Já se despede
do bom rei Minaya Álvar Fáñez. E o rei diz:
– Ide-vos, pois, Minaya? Levai um mensageiro real, que poderá
servir-vos. Se tendes que acompanhar as damas, que sejam devidamente
servidas. Dar-lhes-ei tudo o que for necessário, até Medinaceli e daí em
diante, cuide delas o Campeador.
E Minaya despediu-se do rei e da corte.

83
Minaya vai a Cardeña buscar Dona Ximena. Mais castelhanos apresentam-
se para ir a Valença. Minaya promete aos judeus bom pagamento da
dívida do Cid. Parte com Dona Ximena. Pero Bermúdez sai de Valença
para receber Ximena. Em Molina, encontra-se com Abengalbon.
Encontram Minaya em Medinaceli.

Os infantes de Carrión estão decididos; acompanham Minaya Álvar


Fáñez e dizem:
– Sabeis ser bom amigo; sede-o agora por nós; saudai de nossa
parte o Cid de Vivar e dizei-lhe que pode contar conosco para tudo aquilo
em que possamos servi-lo e que nada perderá em ter-nos como seus.
Respondeu Minaya:
– Nada me custará dizer-lhe isto.
Já partiu Minaya; os infantes regressaram. Encaminha-se a São
Pedro, onde estão as damas, trazendo-lhes grande alegria com sua
presença. Apeia do cavalo e vai rezar na igreja; depois fala:
[p. 47]
– Humilho-me diante de vós, Dona Ximena, a quem Deus guarde de
todo o mal, assim como a vossas filhas. Saúda-vos o Cid, de onde está.
Muito rico e com saúde deixei-o eu. O rei permitiu-me que vos conduza a
Valença, que agora é nossa. Quando o Cid vos vir chegar, assim bem
como estais, tão alegre ficará que não sentirá mais penas.
– Deus queira – disse Dona Ximena.
E Minaya Álvar Fáñez mandou a Valença três cavaleiros com este
recado:
– Dizei ao Campeador – que Deus o guarde – que o rei deu liberdade
a sua mulher e suas filhas; que, enquanto viajarmos por seu reino, ele nos
dará sustento; e que dentro de quinze dias, se Deus quiser, estaremos a
seu lado: eu, sua mulher, suas filhas e as damas que as servem e
acompanham.
Os cavaleiros partem para cumprir o que se lhes manda e Minaya
fica em São Pedro.
De toda parte chegavam cavaleiros, desejosos de ir a Valença,
juntar-se ao Cid, pedindo a Álvar Fáñez que os ajudasse nesta empresa; e
este respondia a todos: – Farei isto com o maior gosto. – Assim, já se
juntaram sessenta e cinco cavaleiros, sem contar os cem que ele trouxera
consigo: boa escolta para as damas.
Deu Minaya ao abade os quinhentos marcos; e vou dizer-vos agora o
que fez dos quinhentos restantes: pensou o bom Minaya prover de
vestidos e adereços que pôde achar em Burgos a Dona Ximena, às suas
filhas e às damas de cortejo e escolheu palafréns e mulas para elas. Feito
isto, o bom Minaya dispõe-se a voltar, quando eis que surgem Raquel e
Vidas que, arrojando-se a seus pés, exclamam:
– Mercê, Minaya, cavaleiro de escol; sabei que, se o Cid não nos
ajudar, podemos dizer que estamos perdidos. De boa vontade lhe
perdoaríamos os juros, contanto que nos devolvesse o capital.
– Se Deus quiser – respondeu-lhes – eu falarei com o Cid. Mas de já
contai que vosso juro vos será pago com largueza.
E Raquel e Vidas disseram-lhe:
[p. 48]
– Deus o permita! Do contrário, sairemos de Burgos e iremos até
onde ele está.
De regresso a São Pedro, Minaya Álvar Fáñez prepara a viagem.
Numerosa gente reúne-se a ele. A despedida do abade foi muito dolorosa:
– O Criador vos valha, Minaya Álvar Fáñez. Beijas-lhe as mãos de
minha parte ao Campeador e pedi-lhe que não se esqueça do mosteiro e
continue sempre a protegê-lo, que com isso valerá mais.
– Assim o farei – disse Minaya.
Despedem-se, começam a viagem e com eles vai o mensageiro real,
a seu serviço. Por todo o reino dão-lhes abundantes provisões. Em cinco
dias andaram de São Pedro a Medinaceli; e aqui deixaremos as damas em
companhia de Álvar Fáñez.
Agora vos direi dos cavaleiros que levaram a mensagem ao Cid.
Quando este a ouviu, não cabia em si de alegria e começou a dizer:
– Quem bom mensageiro manda, boa mensagem espera. Tu, Muño
Gustioz e tu, também, Pero Bermúdez, e o leal burgalês Martin Antolínez e
o bispo Dom Jerônimo, sacerdote preclaro, cavalgai todos, com cem
homens armados, para o caso de um combate. Passareis por Albarracin
até Molina, que está um pouco mais adiante e da qual é senhor
Abengalbon, meu amigo, com quem estou em paz; ele concordará em
acompanhar-vos, com outros cem cavaleiros. E dali entrareis por
Medinaceli o que for possível, onde, segundo a mensagem, encontrareis
minha mulher, minhas filhas e Minaya Álvar Fáñez. Trazei-os aqui com
grandes honras; eu esperarei em Valença, que muito me custou ganhá-la
e abandoná-la agora seria loucura. Aqui esperarei eu nesta minha
herdade.
Dito isto, todos começam a viagem e cavalgam sem parar mais que
o indispensável.
Passaram por Albarracin e foram descansar em Bronchales e no
outro dia foram parar em Molina. Quando o mouro Abengalbon soube ao
que vinham, saiu a recebê-los muito alegre:
[p. 49]
– Sois vós, os vassalos do meu bom amigo? Pois tende por certo que
vossa chegada me enche de alegria.
Muño Gustioz respondeu-lhe logo:
– O Cid manda-vos saudar e pede-vos que o socorrais sem demora
com cem cavaleiros; sua mulher e suas filhas já devem estar em
Medinaceli. Ele deseja que as acompanheis até chegarem a Valença.
– De todo o coração – disse o mouro.
Mandou-lhes preparar uma boa comida essa noite e na manhã
seguinte pôs-se em marcha. Cem homens tinha-lhe pedido o Cid, mas ele
vai com uma escolta de duzentos. Passam as serras altas e bravias e vão
até a mata de Taranz e, sem vacilar, preparam-se para descer a encosta
que vai dar no vale de Arbujuelo.
Os outros, com toda a sorte de precauções, estavam em Medinaceli,
onde Minaya Álvar Fáñez viu entrarem os cavaleiros armados e, receoso,
enviou dois homens para ver o que era. Logo partiram, que são homens
corajosos; um fica com eles e o outro volta para junto de Álvar Fáñez, para
dizer-lhe:
– São forças do Campeador que vêm encontrar-nos. Na frente vêm
Pero Bermúdez e também Muño Gustioz, vossos amigos leais, e esse
Martin Antolínez, natural de Burgos, e o bispo Dom Jerônimo, clérigo leal, e
finalmente o alcaide Abengalbon, que traz consigo os seus, por amor ao
Cid; logo os teremos aqui.
– Vamos, pois, a seu encontro – disse então Minaya. Todos se
apressaram em obedecer-lhe. E saíram cem cavaleiros, muito bem postos,
em bons cavalos cobertos de sedas com peitorais de guizos; levavam os
escudos pendentes como colares e empunhavam lanças com pendões,
porque Álvar Fáñez quer que todos vejam do que é capaz e com que
pompa trouxe as damas de Castela.
Enquanto vão cavalgando, floreiam com as armas, folgam em
esportes e assim passam tão alegres junto ao Jalon. Quando os demais
chegam, vêm prostrar-se diante de Minaya; Abengalbon, ao vê-lo, sorri e
aproxima-se para dar-lhe um abraço; beija-o no ombro, segundo seu
costume, e diz:
[p. 60]
– Ditoso o dia em que vos vejo, Minaya Álvar Fáñez! Convosco
trazeis essas damas que nos honram: a mulher do Cid lidador e suas duas
filhas. Todos temos de respeitar-vos, tal é a ventura do Cid; ainda que não
o amássemos, nenhum mal poderíamos fazer-lhe; o que for nosso também
é dele, tanto na paz como na guerra. E a quem não o reconhece, tenho-o
por torpe.

84
Os viajantes descansam em Medina. Viajam de Medina a Molina e chegam
perto de Valença.

Sorri de muito boa vontade Álvar Fáñez Minaya e diz:


– Vamos, Abengalbon, que vós sois amigo fiel. Se Deus me levar até
onde está o Cid e estes meus olhos tornarem a vê-lo, garanto-vos que não
tereis perdido o trabalho que tomais por ele. E por agora, descansai, que a
ceia está pronta.
E Abengalbon:
– Agrada-me vosso agasalho. Antes de três dias, vo-lo retribuirei
acrescentado.
Entraram em Medinaceli, onde todos agradeciam os cuidados que
lhes dispensava Minaya. Este, então, despediu o mensageiro real. O Cid,
em Valença, onde se encontrava, haveria de sentir-se muito honrado com
as grandes festas que fizeram aos seus. O rei paga tudo e Minaya fica livre
de despesas.
Passa a noite, vem a manhã, ouvem missa e depois cavalgam. Por
Arbujuelo acima, metem esporas, atravessam em pouco tempo o campo
de Taranz e chegam a Molina, onde Abengalbon é alcaide. O bispo Dom
Jerônimo, cristão excelente, esperava as damas por dias e noites, corno
bom cavalo de combate que vai na primeira fila. Acompanha-o de perto
Álvar Fáñez e, quando chegam a Molina, boa e rica terra, o mouro
Abengalbon serve-os muito bem, sem que falte nada à sua comodidade;
até as ferraduras que necessitavam repor ele pagava. E nem tenho
palavras para dizer como prestava homenagens [p. 51] às senhoras e a
Minaya. No outro dia de manhã, retomam a viagem e ele os acompanha
até Valença, onde se despede, sem deles nada aceitar. Em meio a tanta
alegria, chegam a três léguas de Valença e mandam recado ao Cid, o que
em boa hora cingiu espada.

85
O Cid envia gente ao encontro dos viajantes.

Nunca, nunca se viu mais alegre o Cid, que já tem perto o que mais
ama no mundo. Mandou logo duzentos cavaleiros para que recebam
Minaya e as ilustres damas. Ele ficará guardando Valença, pois está certo
de que Álvar Fáñez tomou as providências necessárias.

86
Dom Jeronimo vai até Valença preparar uma procissão. O Cid cavalga ao
encontro de Ximena. Entram todos na cidade.

Todos recebem Minaya, as senhoras, as meninas e o cortejo.


O Cid manda a seus servidores que guardem o alcáçar e as altas
torres, as portas e todas as entradas e saídas da cidade e que preparem
Babieca, cavalo que ganhara pouco tempo antes da derrota do rei de
Sevilha. Ainda não o havia experimentado o Cid, em boa hora armado,
nem sabe se será corredor ou dócil ao freio. Mas queria, nas portas de
Valença, onde estava seguro, jogar as armas diante de sua mulher e de
suas filhas.
Recebidas com grande pompa as damas, o bispo Dom Jerônimo
apeia e entra na capela, de onde sai, dirigindo-se a elas e ao bom Minaya,
com quantos ali estavam, vestidos de sobrepelizes e com cruzes de prata
alçadas.
Apressa-se o que em boa hora nasceu, veste a túnica de seda e
deixa ver suas longas barbas. Babieca já está selado e [p. 52] arreado.
Monta o Cid e dá uma carreira tão veloz que a todos deixa maravilhados.
Desde este dia foi Babieca tido por precioso em toda a Espanha. Ao
terminar a carreira, o Cid desce do cavalo e aproxima-se de sua mulher e
de suas filhas. Dona Ximena cai a seus pés:
– Mercê, mercê, Campeador, que cingistes espada em boa hora!
Libertastes-me de vergonhosos trabalhos. Eis-me aqui, senhor, em
companhia de vossas duas filhas, sãs e formosas, para servir-vos a vós e a
Deus.
Abraça a mãe e as filhas; a alegria brota-lhe em lágrimas pelos
olhos.
Alegravam-se todos os seus e jogavam as armas. Ouvi o que disse o
que em boa hora cingiu espada:
– Vós, Dona Ximena, minha mulher muito honrada e querida, e
minhas filhas, que são meu coração e minha alma, entrai comigo na
cidade de Valença, herdade que ganhei por vós.
Mãe e filhas beijam-lhe as mãos e com grandes honras entram na
cidade.

87
As damas contemplam Valença do alcáçar.

O Cid conduziu-as ao alcáçar e fê-las subir ao ponto mais alto. Olhos


formosos miram em volta: vêem como se estende a cidade de Valença e
alongam-se até o mar; olham o campo imenso e frondoso e todas as
outras coisas admiráveis. E levantam as mãos para agradecer a Deus
tanta riqueza.
Vivem contentes o Cid e seus companheiros. Passado é o inverno,
março vem chegando. Quero agora dar-vos notícias de além-mar, daquele
rei Yúsuf, que está em Marrocos.
[p. 53]

88
O rei de Marrocos vem cercar Valença.

Pesava ao rei de Marrocos a prosperidade do Cid Dom Rodrigo:


– Metem-se por minhas terras e não agradecem senão a Jesus Cristo
– dizia.
E manda juntar seus varões e todos açodem até reunirem cinqüenta
vezes mil.

89
Desembarque das tropas do rei de Marrocos.
Fazem-se ao mar e vão a Valença, em busca do Cid Dom Rodrigo. Já
chegam as naves, já desembarcam em Valença, já fincam as tendas, já
acampa a ímpia gente. Logo chega a notícia ao Cid.

90
Alegria do Cid e terror de Ximena.

– Louvado seja o Criador e Pai espiritual – exclama o Cid. Tudo o que


possuo está diante de mim. Com grande afã ganhei Valença, que hoje
tenho por herdade; não hei de perdê-la enquanto viver. Louvado seja o
Criador e Santa Maria Madre, que hoje estão comigo minha mulher e
minhas filhas. E agora vêm a mim as delícias de além-mar. Só me resta
empunhar as armas: minhas filhas e minha mulher hão de ver-me pelejar;
agora verão com seus próprios olhos como se vive em terras alheias e
como se ganha o pão.
Sobem ao alcáçar Dona Ximena e suas filhas e, ao alçar os olhos,
vêem o acampamento inimigo.
– Que é isto, Cid, em nome de Deus?
– Eia, honrada mulher, não vos aflijais. É a riqueza, maravilhosa e
grande, que vem a nós. Mal chegastes e já vos querem dar presentes; aí
vos trazem o enxoval para o casamento de vossas filhas.
[p. 54]
– Graças a vós, Cid, e ao Pai espiritual.
– Honrada mulher, ficai neste palácio, no alcáçar, e não vos
assusteis quando me virdes combater. Com o favor de Deus e de Santa
Maria Madre, o campo será meu e sinto o maior orgulho, porque será
diante de vós.

91
O Cid encoraja sua mulher e suas filhas. Os mouros invadem o campo de
Valença.

Içadas estão as tendas. Já rompe a aurora e batem pressurosamente


os tambores. Alegra-se o Campeador:
– Grande dia vai ser este!
Porém sua mulher tem tanto medo que lhe salta o coração e o
mesmo acontece a suas filhas e damas. Nunca em suas vidas sentiram
tanto pavor.
Acariciando as barbas, diz-lhe o Cid:
– Não tenhais medo, que é tudo para vosso bem. Antes de quinze
dias, se Deus quiser, estarão em nossas mãos os tambores que ouvis; eu
vo-los trarei e vereis como são feitos; dá-los-emos depois ao bispo Dom
Jerônimo, a fim de que os dependure na Igreja de Santa Maria, mãe de
Deus.
Era uma promessa que tinha feito o Campeador.
Já se vão tranqüilizando as damas e perdendo o primitivo pavor.
Com presteza vêm cavalgando ao longe os mouros de Marrocos e
logo entram denodadamente no campo.
92
Carga de cavalaria dos cristãos.

A sentinela já os viu e toca o sino. Prontas estão as tropas de Rui


Dias; armam-se animosamente e saem da cidade. Onde topam com
mouros, logo os acometem, expulsando-os do campo. E ao fim do dia já
mataram quinhentos.
[p. 55]

93
Plano de batalha.

A perseguição já chega ao acampamento inimigo. Muito já fizeram e


estão de volta. Mas lá ficou cativo Álvaro Salvadórez. Os que comem o pão
do Cid voltaram para sua companhia e deram-lhe a notícia. O Campeador
está satisfeito com os seus:
– Ouvi-me, cavaleiros – diz-lhes –, não ficaremos por aqui. Hoje foi
um dia, amanhã será melhor. Antes de clarear, armai-vos todos. Que nos
absolva o bispo Dom Jerônimo e nos diga missa e cavalgaremos. Vamos
atacá-los, que não pode ser de outro modo, em nome do Criador e do
apóstolo Santiago. Melhor será que os vençamos e não nos tomem o pão.
E todos respondem:
– Com alegria e de coração o faremos.
A isto falou Minaya e disse assim:
– Pois que assim o desejais, Cid, deixai-me a mim outra missão; dai-
me cento e trinta cavaleiros para a luta e, quando acometerdes de um
lado, aparecerei pelo outro. De um e de outro ou de todos os dois, Deus
nos ajudará!
– Assim será – respondeu o Cid.

94
O Cid concede ao bispo os primeiros golpes.

Cai o dia e chega a noite. Aprontam-se as gentes cristãs. Ao


segundo canto do galo, antes que amanheça, diz-lhes a missa o bispo
Dom Jerônimo e, feito isto, dá-lhes a mais franca absolvição:
– Ao que morrer hoje lutando frente a frente, eu absolvo seus
pecados e Deus acolherá sua alma. E a vós, Cid Dom Rodrigo, que
cingistes espada em boa hora, peço-vos que me concedais um dom, em
troca da missa que vos cantei: sejam dados por mim os primeiros golpes.
E disse o Cid: Concedido!
[p. 56]

95
Os cristãos travam batalha. Derrota de Yúsuf. Despojo extraordinário. O
Cid saúda sua mulher e suas filhas. Concede um dote às damas de
Ximena. Divisão do despojo.

Já saíram todos armados pelas torres de Quarto e a eles vai o Cid


aconselhando. Nas portas da cidade, deixam alguns bem vigilantes. O Cid
salta sobre seu cavalo Babieca, que está bem guarnecido; sai com eles o
pendão; já estão fora de Valença. Com o Cid vão quatro mil menos trinta e
denodadamente atacam os cinqüenta mil contrários. Álvar Álvarez e
Minaya investem do outro lado.
Aprouve ao Criador dar a vitória aos cristãos.
O Cid usou a lança e depois a espada e matou mouros sem conta;
escorria-lhe o sangue pelo cotovelo. Três golpes desfechou no rei Yúsuf,
que foge do campo à rédea solta e abriga-se no castelo de Cullera. Até lá
persegue-o o Cid de Vivar, com alguns que o acompanham. Volta o que
em boa hora nasceu, muito alegre com o que ganhara. Então soube o que
valia Babieca. Todo o despojo é seu e, dos cinqüenta mil inimigos, viram
que não escaparam mais de cento e quatro. Seus soldados recolhem o
despojo do campo. Em ouro e prata contam três mil marcos, fora outros
haveres inumeráveis. Alegre está o Cid e não menos seus vassalos, que
Deus lhes concedeu a vitória em batalha campal. Quando o Campeador
deu por vencido o rei de Marrocos, deixou o campo com Álvar Fáñez e
entrou em Valença, acompanhado de seus cem cavaleiros. Trazia a
cabeça nua, pois tinha tirado o elmo e o capuz: assim entrava sobre
Babieca, espada em punho. Ali o recebem as damas, que o estavam
esperando. Ele parou o cavalo diante delas e disse, sem soltar as rédeas:
– Humilho-me diante de vós, senhoras. Bom despojo ganhei para
vós. Enquanto me guardáveis Valença, eu vencia na guerra. Assim o quis
Deus, com todos os seus santos, quando me brinda com semelhantes
ganhos, pouco tempo depois de vossa chegada. Vede a espada
ensangüentada e suado o cavalo: é assim que se vencem os mouros em
campo. Pedi a [p. 57] Deus que me dê vida e saúde e hei de dar-vos
honras e hão de beijar-vos as mãos.
Assim disse o Cid e depois se apeou do cavalo. Quando isto viram,
as damas, as filhas e a excelente mulher ajoelharam-se diante do
Campeador.
– Mil anos vivais! Vossas somos.
Acompanharam-no ao palácio e sentaram-se a seu lado nos
preciosos escanos.11
– Dona Ximena, minha mulher, não me pedistes assim? Quero que
casemos com meus vassalos estas damas que trouxestes convosco e que
tão amorosamente vos servem. Dou-lhes a cada uma duzentos marcos e
que saibam em Castela a quem vieram servir. E quanto a vossas filhas,
resolveremos mais devagar.
Todas se levantam a um só tempo para beijar-lhe as mãos e grande
alegria corre por todo o palácio.
E como disse o Cid, assim o fez.
Enquanto isso, Minaya Álvar Fáñez continua no campo de batalha,
contando e escrevendo o que ganharam. Imenso é o despojo em tendas,

11
Escano: escabelo; estrado alto.
armas e vestimentas de bom preço: e vou dizer-vos o melhor: não há
como inventariar os cavalos inimigos, porque andam arreados e não há
quem os possa pegar. Também ganharam algo os mouros da terra e ainda
cabem ao Campeador mil cavalos de grande porte.
Se tanto toca ao Cid, é que todos estão bem pagos. Ó que formosas
tendas e postes de preciosos lavores ganharam o Cid e os seus! A tenda
do rei de Marrocos, a melhor de todas, tem dois postes lavrados em ouro.
O prudente Campeador manda que a deixem fincada e ninguém a toque.
– Tenda tão formosa e vinda de Marrocos – diz – quero enviá-la a
Afonso, o castelhano, para que acredite nas novas de minha prosperidade.
E levaram todo o despojo a Valença.
O bispo Dom Jerônimo, bom sacerdote, fartou-se de combater com
as duas mãos e não sabe quantos mouros matou. Assim também é o
despojo que lhe corresponde, porque [p. 58] o Cid Dom Rodrigo, que em
boa hora nasceu, outorgou-lhe o dízimo sobre seu quinto.

96
Alegria dos cristãos.

Grande é a alegria dos cristãos de Valença; muito ganharam em


dinheiro, armas e cavalos. Dona Ximena e suas filhas estão contentes,
sem falar das damas do séquito, que se dão por bem casadas.
E o Cid, sem perder tempo, diz:
– Onde estais, grande homem? Vinde cá, Minaya. Vejo que não
fazeis caso de vossa parte; pois vinde e tomai o que quiserdes sobre meu
quinto e fique o resto para mim. E amanhã, na primeira hora, saireis com
duzentos cavalos, que tenham freios, selas e espadas; levai-os de
presente ao rei Afonso, para que não diga mal do que governa Valença,
por amor de minha mulher e minhas filhas e porque as deixou vir onde era
de seu gosto.
A Pero Bermúdez ordena que acompanhe Minaya; e no outro dia,
pela manhã, saíram com um séquito de duzentos homens, para levar as
novas e os cumprimentos do Cid ao rei. Envia-lhe duzentos cavalos dos
que ganhou na última batalha e manda-lhe dizer que sempre há de servi-
lo, enquanto vida tiver.

97
Minaya leva o presente a Castela.

Já saem de Valença e põem-se a caminho, com tais riquezas que é


preciso muito cuidado. Andam dia e noite sem descanso, passam a serra
que os separa do reino e perguntam pelo rei Afonso.
[p. 59]

98
Minaya chega a Valladolid.
Passam serras, montes e rios; chegam a Valladolid, onde está o rei.
Pero Bermúdez e Minaya mandam-lhe aviso para que receba sua
companhia, que traz os presentes do Cid.

99
O rei sai a receber os do Cid. Inveja de Garcia Ordóñez.

Muito se alegra o rei. Mandou a seus fidalgos que cavalgassem e


saiu à frente, para receber as mensagens do que em boa hora nasceu. Os
infantes de Carrión estão presentes, bem como o conde Dom Garcia,
grande inimigo do Cid. O que a uns agrada, a outros pesa. Já estão à vista
os cavaleiros do que em boa hora nasceu e, mais que simples
mensageiros, pareciam um exército; benze-se o rei Dom Afonso. Já se
adiantam Minaya e Pero Bermúdez; descem do cavalo e ajoelham-se
diante do rei, beijando-lhe os pés e a terra em que pisa.
– Mercê, Dom Afonso, rei honrado! Aqui estamos a vossos pés, em
nome do Campeador, que vos chama seu senhor e se reconhece como
vosso vassalo, apreciando muito o que lhe outorgastes. Poucos dias há,
senhor, que teve um triunfo nas armas: venceu o rei Yúsuf de Marrocos,
com seus cinqüenta mil homens. Grande é o despojo, ricos estão os
vassalos, e o Cid envia-vos como presente estes duzentos cavalos e beija-
vos as mãos.
– Recebo-os com muito gosto – disse o rei – e agradeço muito ao Cid
o presente que me envia. Dê-me Deus ocasião de retribuir-lhe.
A muitos agradaram estas palavras, mas pesaram ao conde Dom
Garcia que, muito irado, apartou-se com dez parentes seus, falando:
– Maravilho-me de que assim prospere em honras o Cid. Mais ganha
ele, mais perdemos nós. E por essas fáceis empresas, de vencer reis em
campos de batalha, como se os encontrasse [p. 60] mortos e por despojá-
los de suas montarias, já vereis como acabaremos por receber afronta.

100
O rei mostra-se benevolente para com o Cid.

Aqui falou o rei Afonso, bem ouvireis o que disse:


– Louvado seja Deus e também o senhor São Isidro! Hoje o Cid
envia-me estes duzentos cavalos, Mais tarde poderá ele ainda melhor
servir-me. A vós, Minaya Álvar Fáñez e também a Pero Bermúdez, mando
que sejam dadas ricas vestimentas e as armas que escolherdes, para que
chegueis bem-postos à presença do Cid Rui Dias. Tomai agora mesmo três
cavalos. Parece-me que muito bem hão de acabar todas estas coisas.

101
Os infantes de Carrión pensam em casar com as filhas do Cid.

Beijaram as mãos do rei, em sinal de agradecimento, e foram


descansar, providos de quanto necessitavam.
E agora vou falar-vos dos infantes de Carrión:
– Muito prosperam os negócios do Cid – dizem. – Vamos pedir-lhe as
filhas em casamento, que nos será proveitoso.
E foram com esta súplica ao rei.

102
Os infantes conseguem que o rei aceite o casamento. Este deseja ver o
Cid. Minaya volta a Valença e dá ciência de tudo ao Campeador. Ele marca
o lugar da entrevista com o rei.

– Mercê vos pedimos, como rei e senhor nosso, e queremos, com


vossa licença, que sejam pedidas em casamento para nós as filhas do
Campeador, porque desejamos casar-nos, para bem nosso e honra sua.
[p. 61]
– Eu desterrei o bom Campeador e, havendo-lhe causado tanto mal,
enquanto ele sempre procurou meu bem por todos os meios, não sei se
lhe agradará a proposta. Mas já que assim o desejais, comecemos a
empreitada.
Então mandou chamar Minaya Álvar Fáñez e Pero Bermúdez e,
levando-os a uma câmara reservada, disse:
– Ouvi-me, Minaya e vós também, Pero Bermúdez. Rui Dias, o
Campeador, tem-me prestado bons serviços; pretendo outorgar-lhe meu
perdão, como bem o merece. Que venha ver-me, se assim lhe apraz, pois
nesta minha corte há novidades: Diogo e Fernando, os infantes de Carrión,
desejam casar-se com as filhas do Cid. Dignai-vos de ser os mensageiros;
rogo-vos que façais saber isto ao Campeador. Como parente dos infantes,
ficará mais honrado.
Minaya, com a concordância de Pero Bermúdez, disse então:
– Far-lhe-emos a petição de que nos encarregais e ele decidirá como
melhor lhe pareça.
– E dizei ainda a Rui Dias, o que nasceu em boa hora, que a
entrevista há de ser onde ele desejar e aí plantaremos o sinal. Pretendo
ajudar o Cid no que estiver ao meu alcance.
Com isto se despediram e voltaram a Valença, acompanhados por
seus homens.
Quando soube da chegada, saiu o Cid a recebê-los, abraçou-os e
disse, a sorrir:
– Sois vós, Minaya e Pero Bermúdez? Varões como vós não se
encontram todos os dias. Que novas me trazeis de Afonso, meu senhor?
Está contente? Recebeu o presente?
Disse Minaya:
– Recebeu-o com a maior alegria e agradece vosso favor.
– Louvado seja Deus! – disse o Cid.
E dito isto, começam a conversar sobre o que quer Afonso, o de
Leão, sobre o casamento das moças com os infantes, posto que, como ele
deve compreender, há de ganhar honra no parentesco, pelo que o
aconselham a concordar.
Ouviu-os o bom Campeador e esteve muito tempo meditando.
[p. 62]
– Graças sejam dadas a Nosso Senhor Jesus Cristo – diz. Eu fui
desterrado, despojaram-me de minhas honras e com grande afã
conquistei o que agora possuo. Agradeço a Deus contar de novo com o
favor do rei e que ele agora peça minhas filhas para os infantes de
Carrión. Dizei-me, pois, Minaya e Pero Bermúdez: que achais deste
casamento?
– Concordaremos com vossa opinião.
E disse o Cid:
– Os infantes de Carrión são muito nobres, gente orgulhosa e
importante no séquito do rei; não me agradaria o casamento, se não o
aconselhasse quem vale mais que nós. Tratemo-lo aqui em segredo, e
Deus. que está nos céus, queira inspirar-nos.
– Ainda disse o rei Afonso que se avistaria convosco onde vós
indicásseis: que deseja ver-vos e manifestar-vos seu afeto; e então
podereis decidir o que mais convenha.
E o Cid:
– Alegra-me de todo o coração.
– Pensai, pois – diz Minaya – onde há de ser a entrevista.
– Se o rei quisesse e me chamasse à sua presença, eu iria ter com
ele, pois tal honra lhe corresponde, como rei e senhor, mas, se me
distingue, concedendo-me uma entrevista, na margem do Tejo nos
encontraremos, quando meu senhor determinar.
Escreveu cartas, selou-as e enviou-as por um mensageiro: o
Campeador fará o que dispuser o rei.

103
O rei fixa o prazo da entrevista. Prepara-se, com os seus, para a viagem.

Chegam, pois, as cartas às mãos do honrado monarca, que as


recebe com júbilo.
– Saudai por mim ao Cid, o que em boa hora cingiu espada. Seja a
entrevista dentro de três semanas e, se Deus me der vida e saúde, não
faltarei.
[p. 63]
De um lado e de outro, começam os preparativos.
Quem viu tanta formosa mula por Castela, tanto palafrém garboso,
tanto cavalo de bela estampa e grande corredor, tanto vistoso pendão em
hastes ricas, tanto escudo com centro de ouro e prata e mantos, peles e
bons cendais12 de Andria? Manda o rei que enviem abundantes
mantimentos para as margens do Tejo, onde se realizará a entrevista. Os
infantes de Carrión estão muito alegres; a uns pagam, com outros
contraem novas dívidas e pensam que ficarão muito ricos, com todo o
ouro e toda a prata do mundo. Depressa viaja o rei Afonso, levando
consigo condes e potestades e numeroso contingente.
Também levam grande companhia os infantes de Carrión. Com o rei
vão leoneses, galegos e incontáveis castelhanos. A toda brida dirigem-se
ao local da entrevista.

12
Cendal: tecido fino e transparente.
104
O Cid e os seus preparam-se para a entrevista. Partem de Valença. O rei e
o Cid encontram-se às margens do Tejo. Perdão solene dado pelo rei ao
Cid. O rei pede as filhas do Cid para os infantes. O Cid confia suas filhas ao
rei e este as casa. A entrevista acaba. Presentes do Cid aos que se
despedem. O rei entrega os infantes ao Cid.

Também o Cid Campeador, em Valença, prepara-se para a


entrevista. Ali estão robustas mulas, excelentes palafréns, ricas armas,
cavalos corredores, luxuosas capas, mantos e peles. Minaya Álvar Fáñez,
Pero Bermúdez, Martin Antolínez, o leal burgalês, o bispo Dom Jerônimo,
excelente sacerdote, Álvaro Álvarez, Álvaro Salvadórez, Muño Gustioz,
ilustre cavaleiro, Galindo Garcia, o de Aragão, todos se dispõem a
acompanhar o Cid e os que estão a seu lado fazem o mesmo.
A Álvaro Salvadórez e a Galindo Garcia, o de Aragão, encarrega o
Campeador a custódia de Valença e dos que nela [p. 64] ficam; e
recomenda que nem de dia nem de noite abram as portas do alcáçar, que
dentro delas estão sua mulher e suas filhas, donas de sua alma e de seu
coração e também as outras damas que as servem, ordena, ainda, por
prudência que nenhuma saia do alcáçar enquanto ele não voltar.
Picam esporas e saem de Valença. Tantos cavalos de guerra,
robustos e corredores, ganhou-os o Cid, ninguém lhos tinha dado. E já se
vai para a entrevista concertada com o rei.
Dom Afonso tinha chegado um dia antes. Quando viram chegar o
bom Campeador, sagram a recebê-lo com grande festa. Ao ver isto, o que
em boa hora nasceu mandou que todos parassem, salvo os escolhidos de
seu coração. Com uns quinze cavaleiros deitou pé em terra; arrojou-se ao
solo, mordeu a erva, chorando de alegria diante do rei e prostrou-se a
seus pés.
O rei Afonso, com grande pesar, exclamou:
– Levantai-vos, ó Cid Campeador; beijai-me antes as mãos que não
os pés. De outro modo, não conteis com meu amor.
Ajoelhado, o Campeador respondeu:
– Mercê vos peço, meu senhor natural; imploro vosso favor de
joelhos e ouçam-no todos os presentes.
Disse o rei:
– De todo o coração aqui vos perdôo, devolvendo-vos meu favor e
acolhendo-vos em meu reino desde hoje.
– Graças, meu senhor Afonso; vosso perdão aceito. Dou graças
primeiro a Deus e a vós depois e a estas hostes que nos rodeiam.
Sempre ajoelhado, o Cid beijava-lhe a mão e depois, em pé, beija-
lhe a boca. Regozijavam-se todos em vê-los, menos Álvaro Dias e Garcia
Ordóñez, a quem isto muito pesa.
Continuou o Cid:
– Graças ao Pai Criador, alcancei o perdão do meu senhor Dom
Afonso. Sempre há de ajudar-me Deus do céu. Senhor, se vos apraz, sereis
meu hóspede.
O rei contestou:
[p. 65]
– Não seria justo. Vós acabais de chegar e nós estamos aqui desde
ontem. Vós sereis meu hóspede, Cid Campeador. Amanhã será como
desejais.
O Cid beija-lhe a mão e concorda. Então se aproximam, para
cumprimentá-lo, os infantes de Carrión.
– Ante vós nos humilhamos, ó Cid, nascido em boa hora. Somos
vossos amigos leais.
Respondeu o Cid:
– Assim o queira Deus.
E naquele dia o Cid, nascido em boa hora, foi hóspede do rei, que
não o deixa sozinho, de tanto que o ama. Assombrado, contemplava-lhe
as barbas, que tanto e tão depressa haviam crescido. E todos admiravam
o Campeador.
Passou o dia, veio a noite e na outra manhã brilhou claro o sol.
Então mandou o Campeador aos seus que preparassem comida para
todos. E com tanto gosto obedeciam ao Cid que trabalhavam com muito
acerto: há três anos não se provava tão boa comida.
No outro dia pela manha, quando saía o sol, o bispo Dom Jerônimo
cantou missa e depois se reuniram todos e o rei apressou-se em dizer:
– Escutai-me, mesnadas,13 condes, infanções: quero manifestar um
desejo ao Cid Campeador; Jesus Cristo há de permitir que seja para bem.
Peço-vos, pois, que deis por mulheres, aos infantes de Carrión, vossas
filhas Dona Elvira e Dona Sol; parece-me casamento honrado e vantajoso;
eles o pedem e eu o recomendo. E quero que todos os que aqui estão, de
parte a parte, os meus e os vossos intercedam por mim. Acedei, pois, ó
Cid, assim vos ampare o Criador!
– Não devia casar minhas filhas – respondeu o Cid – que ainda são
pequenas. Os infantes de Carrión são muito nobres, bons para minhas
filhas e ainda para outras melhores. Eu as engendrei, vós as criastes; elas
e eu estamos em vossas [p. 66] mãos. Disponde de Dona EIvira e de Dona
Sol, dai-as a quem vos pareça bem, que eu ficarei contente.
– Graças – disse o rei – a vós e a toda esta corte.
Logo se puseram de pé os infantes de Carrión e vieram beijar as
mãos do que em boa hora nasceu. Diante do rei, trocaram as espadas, em
sinal de pacto.
Ali falará o rei Afonso, como perfeito senhor:
– Graças, bom Cid, predileto do Criador; graças de que me deis
assim vossas filhas para os infantes de Carrión. Aqui tomo com minhas
mãos Dona EIvira e Dona Sol e dou-as por esposas aos infantes. Com
vossa licença, caso vossas filhas; Deus queira que seja para bem. Entrego-
as aos infantes de Carrión; eles que vos acompanhem que eu volto daqui.
Dou-lhes trezentos marcos de prata para ajudar nas bodas ou para o que
quiserem. Quando estiverem em vosso poder, em Valença, genros e filhas,
todos serão vossos filhos. Fazei o que vos aprouver com eles, Campeador.
Recebeu-os o Cid, depois de beijar as mãos do rei:
– Muito vos agradeço, como a meu rei e senhor. Sois vós que casais
minhas filhas, não eu.

13
Mesnada: porção de soldados assalariados.
Já estão dadas as palavras e feitas as promessas. No outro dia de
manhã, ao sair o sol, cada um seguirá seu caminho.
Então fez coisas admiráveis o Cid: todas aquelas mulas robustas,
belos palafréns e vestes preciosas começou a dá-las a quem as desejava;
pedem todos e a ninguém nega o que pede. Sessenta cavalos deu o Cid.
Todos os que assistiram à entrevista foram presenteados. Já se vão, pois
chega a noite.
O rei toma pela mão os infantes, entregando-os ao Campeador.
– Eis aqui vossos filhos, pois que são já vossos genros. De agora em
diante estão sujeitos à vossa vontade. Que vos sirvam como a um pai e
vos respeitem como a um senhor.
– Agradeço este dom, ó rei, e que vos pague Deus do céu.
[p. 67]

105
O Cid não quer ele próprio entregar as filhas. Minaya será representante
do rei.

– A vós, meu rei natural, peço-vos uma mercê: posto que casais
minhas filhas, conforme vossa vontade, designai um representante que as
receba em vosso nome. Eu não as entregarei por minha mão; que não se
gabem disto.
E o rei respondeu:
– Aqui está Álvar Fáñez. Tome-as ele por sua mão e dê-as aos
infantes, tal como eu as tomo daqui, como se estivessem presentes.
Sereis vós o padrinho da cerimônia e, quando voltarmos a ver-nos, contar-
me-eis se o haveis cumprido.
– Por minha fé que o farei, senhor.

106
O Cid despede-se do rei.

Com grandes precauções levou-se a cabo o combinado.


– Eia, pois, rei Dom Afonso, honrado senhor, guardai uma lembrança
desta nossa entrevista. Eis aqui trinta palafréns ajaezados e trinta cavalos
corredores, com seus arreios: aceitai-os como presente e beijo-vos as
mãos.
Disse o rei Dom Afonso:
– Vossa generosidade me espanta. Aceito o presente e praza a Deus
e a todos os seus santos que sejais bem pago pelo gosto que me dais.
Muito me honrais, Cid Rui Dias; muito bem me servis; estou satisfeito
convosco. Se Deus me der vida, ainda vos recompensarei. E agora me vou
e vos deixo encomendado a Deus. E Ele, que está nos céus, faça com que
tudo seja para bem.
[p. 68]

107
Muitos homens do rei vão com o Cid para Valença, Os infantes são
acompanhados por Pero Bermúdez.

O Cid saltou sobre seu cavalo Babieca e disse:


– Aqui, diante de meu senhor Dom Afonso, declaro: quem quiser vir
às bodas e receber meus dons que me siga e lhe será proveitoso.
O Cid despede-se de seu senhor Dom Afonso, sem permitir que ele
saia a despedi-lo. Ali veríeis formosos cavaleiros beijar as mãos do rei
antes de partir.
– Fazei-nos mercê; deixai-nos ir a Valença, a maior, em companhia
do Cid, para assistir às bodas dos infantes com Dona Elvira e Dona Sol,
suas duas filhas.
O rei deu licença a todos. Assim aumenta o séquito do Cid e diminui
o do monarca.
Dirigem-se a Valença, a que foi ganha em boa lide. A Pero Bermúdez
e a Muño Gustioz encarrega o Cid de atenderem a Diogo e Fernando,
porque são, entre os seus, os que mais conhecem os costumes dos moços
Carrions; com eles ia Asur González, muito alvoroçado e solto de língua,
ainda que para o mais não valesse tanto. Todos honram aos infantes. Ei-
los já em Valença, a do Campeador. Cresce o júbilo quando se aproximam
da cidade. E disse o Cid a Dom Pero e a Muño Gustioz.
– Dai abrigo aos infantes e acompanhai-os. Amanhã, assim que
amanheça, que venham saudar Dona Elvira e Dona Sol, suas esposas.

108
Cid anuncia o casamento a Ximena.

Foram todos para seus aposentos. O Cid entrou no alcáçar; Dona


Ximena e suas filhas vêm recebê-lo:
– Sois vós, Campeador, que em boa hora nascestes? Ditosos os
olhos que vos contemplam.
[p. 69]
– Eis-me aqui, graças a Deus, mulher honrada. Trago-vos genros que
nos honrarão. Agradecei-me, filhas, que vos casei muito bem.

109
Dona Ximena e suas filhas estão satisfeitas.

A mulher e as filhas beijam-lhe a mão e o mesmo fazem as damas


de seu serviço:
– Graças sejam dadas ao Criador e a vós, Cid da formosa barba!
Tudo o que fazeis está bem feito. Enquanto estiverdes vivo, não hão de
padecer nossas filhas.
– Bem ricas seremos quando nos casardes – disseram elas.

110
O Cid está preocupado com o casamento.
– Seja por Deus, Dona Ximena. Digo-vos, Dona Elvira e Dona Sol,
este matrimônio muito nos honrará; mas sabei que eu não o resolvi; meu
senhor Afonso pediu tão firmemente e com tanta vontade que eu não
pude negar-lhe. Confiei-vos as duas à mão do rei. Sabei-o: é ele, não eu,
quem vos casa.

111
Preparativos das bodas. Apresentação dos infantes. Minaya entrega as
esposas aos infantes. Bênçãos e missa. Festas durante quinze dias.
Terminam as bodas, distribuem-se presentes aos convidados. O jogral se
despede de seus ouvintes.

Começaram a enfeitar o palácio, cobrindo as paredes e o chão de


tapetes, púrpuras, sedas e panos preciosos.
Se houvésseis assistido às bodas, não vos arrependeríeis. Já se vão
reunindo os cavaleiros.
[p. 70]
Mandaram trazer os infantes que logo chegaram a cavalo até o
palácio, esplendidamente vestidos e luxuosamente ataviados. Depois
puseram pé em terra e entraram com grande compostura. Receberam-nos
o Cid e seus vassalos e eles o saudaram e à sua mulher e foram sentar-se
nos preciosos escanos. Os do Cid, sem que ninguém note, vão olhando o
semblante do que nasceu em boa hora.
Levanta-se o Campeador e diz:
– Pois que temos de fazê-lo, por que retardá-lo? Vinde cá, Álvar
Fáñez, a quem amo e quero. Eis aqui minhas filhas; em vossas mãos as
deposito; já sabeis que assim foi disposto pelo rei e não quero faltar em
nada ao combinado; vós, com vossas mãos, entregai-as aos infantes. Que
recebam as bênçãos e despachemo-nos.
Minaya disse então:
– Assim o farei.
Elas se levantam, o Cid as entrega a Minaya e este, dirigindo-se aos
infantes, diz:
– Eis-vos ante mim, irmãos Diogo e Fernando. Por mandado do rei
Afonso e em seu nome, dou-vos estas damas – ambas fidalgas – e tomai-
as por mulheres, para honra e bem de todos.
Recebem-nas de coração e beijam a mão do Cid e de sua mulher.
Feito isto, saem do palácio e dirigem-se apressadamente a Santa
Maria. O bispo Dom Jerônimo já está pronto e espera-os na porta da igreja.
Abençoa-os e canta a missa.
Ao sair da igreja, dirigem-se, cavalgando, ao areal de Valença. E ali
jogaram as armas o Cid e seus vassalos. Ó Deus, com quanta destreza!
Três vezes mudou de cavalo o que nasceu em boa hora. Alegra-se ao ver
que os infantes de Carrión montam bem. E depois voltam à cidade com as
damas. No honrado alcáçar celebraram-se as bodas com toda a pompa e
no dia seguinte o Cid mandou levantar sete tablados e todos foram
quebrados antes do banquete.
Quinze dias duraram os festejos e por fim os fidalgos começam a
retirar-se. O Cid Dom Rodrigo, o que em boa hora nasceu, ofertou nada
menos que uma centena de animais, [p. 71] entre palafréns, mulas e
cavalos corredores; e em mantos, peles, vestimentas e dinheiro cunhado
uma quantidade inumerável. Os vassalos do Cid fizeram igualmente
ofertas aos hóspedes. A quem queria dinheiro, davam-no em quantidade.
E assim os que foram às bodas regressaram ricos a Castela. Os hóspedes
já se despedem de Rui Dias, o que em boa hora nasceu, e das damas e
dos fidalgos. Muito agradecidos estão do Cid e dos seus e, como é justo,
dizem muito bem deles. Contentes também estão Diogo e Fernando, os
filhos do conde Dom Gonçalo.
Os hóspedes voltaram a Castela. O Cid e seus genros ficam em
Valença, onde os infantes morarão por dois anos, bem tratados por todos.
O Cid e seus vassalos estão contentes. Praza a Santa Maria e ao Santo Pai
que o Cid e quem o propôs tenham razão para alegrar-se com este
casamento.
Acabam-se aqui as copias deste cantar. Valha-nos o Criador com
todos os seus santos!
[p. 72]
TERCEIRO CANTAR
A AFRONTA DE CORP ES

112
Solta-se o leão do Cid. Medo dos infantes de Carrión. O Cid amansa o leão.
Vergonha dos infantes.

Estava o Cid em Valença com todos os seus; seus genros, os


infantes de Carrión, acompanham-no. O Campeador, sentado em um
escano, tinha adormecido, quando sobreveio algo inesperado: o leão
escapou da jaula e fugiu. Toda a corte estava espantada. Os homens do
Campeador sobraçam os mantos e rodeiam o escano onde dormia seu
senhor. Um dos infantes, Fernando González, não achava onde se
esconder, nem porta de câmara ou torre; enfim, levado pelo medo, meteu-
se debaixo do escano. O outro, Diogo González, saiu gritando em voz alta:
– Ai, Carrión, que não te torno a ver;
E foi esconder-se atrás de uma viga, de onde saiu depois com o
manto e a túnica todos sujos.
A isto despertou o que em boa hora nasceu e viu que o rodeavam
seus homens.
– Que é isto, soldados, que quereis aqui?
– Ai, honrado senhor, o susto que nos pregou o leão!
O Cid ergue-se do escano; levanta-se e, com o manto preso ao
pescoço, caminha para o leão. Este, quando o viu chegar, atemorizou-se,
baixou a cabeça e fincou o focinho. O Cid Dom Rodrigo tomou-o pelo
pescoço e, como se o levasse pela rédea, colocou-o na jaula. E todos que
isto viram voltaram ao palácio maravilhados.
[p. 73]
O Cid perguntou então por seus genros dos quais ninguém sabia e,
por mais que os chamassem, não respondiam. Quando, enfim, deram com
eles, estavam tão desfeitos que toda a corte prorrompeu em gargalhadas,
até que o Cid impôs respeito. Os infantes ficaram muito envergonhados e
lamentaram profundamente o acontecido.

113
O rei Búcar de Marrocos ataca Valença.

Enquanto os de Carrión se lamentam amargamente, eis que vieram


forças de Marrocos cercar Valença. Pousaram no campo de Quarto, onde
levantam não menos de cinqüenta mil tendas. Comandava-os o rei Búcar,
de quem talvez já ouvistes falar.

114
Os infantes temem a batalha. Repreensão do Cid.

Alegram-se o Cid e seus varões e dão graças a Deus, pensando nos


grandes ganhos que vão ter. Mas sabei que muito lhes pesa aos infantes
de Carrión e vêem com tristíssimos olhos as inumeráveis tendas dos
mouros. Afastam-se os dois irmãos, dizendo:
– Só calculamos o que ganhávamos e não o que perdíamos. Agora
somos obrigados a participar da batalha. É certo que não voltaremos a
Carrión; desta vez as filhas do Cid ficam viúvas.
Muño Gustioz ouviu estas palavras e foi contar ao Cid.
– Vossos genros são tão valentes que, para não entrar na batalha,
desejam estar em Carrión. Assim vos valha Deus, ide consolá-los: que
fiquem em paz e não tomem parte na batalha. Nós nos bastamos e Deus
nos ajudará.
O Cid Dom Rodrigo chegou-se aos infantes, sorrindo:
– Que o céu vos guarde, infantes de Carrión, meus genros [p. 74].
Tendes entre os braços minhas filhas, tão brancas como o sol. Eu penso na
batalha e vós em vossa Carrión. Ficai em Valença descansando, porque,
se Deus me ajudar, atrevo-me a vencer sozinho estes mouros.

115
Mensagem de Búcar. Carga de cavalaria dos cristãos. Covardia do infante
Fernando. (Lacuna do manuscrito que se supre com a Crônica de vinte
reis) Generosidade de Pero Bermúdez.

Enquanto falavam assim, o rei Búcar mandou dizer ao Campeador


que abandonasse Valença e se fosse em paz, ou, do contrário, ali o faria
pagar quanto lhe havia feito. O Cid respondeu ao mensageiro.
– Ide e dizei a Búcar que, antes de três dias, dar-lhe-ei o que me
pede.
No outro dia mandou o Cid que se armasse toda a sua gente e caiu
sobre os mouros. Os infantes de Carrión pediram-lhe então a honra de dar
os primeiros golpes. E quando estavam os do Cid formados em fila, um
dos infantes, Fernando, adiantou-se para atacar um mouro chamado
Aladraf. Este, quando o viu chegando, lançou-se contra ele; então o
infante, tomado de súbito pavor, virou a garupa do cavalo e fugiu, sem
atrever-se a esperá-lo.
Pero Bermúdez, que ia a seu lado, quando isto viu, arrojou-se sobre
o mouro e, em poucos lances, deixou-o morto. Tomou consigo o cavalo do
mouro e, correndo atrás do infante que fugia, gritou-lhe:
– Dom Fernando, tomai este cavalo e dizei a todos que matastes o
ginete e eu o confirmarei.
– Dom Pero Bermúdez – disse o infante – muito vos agradeço; oxalá
possa ainda vos pagar em dobro.
Voltaram juntos e Dom Pero deu testemunho da façanha de que se
gabava Fernando. O Cid e seus vassalos muito se alegraram ao sabê-lo.
[p. 75]
– Se Deus quiser – observou o Cid – meus genros ainda serão bons
combatentes.
Dizendo isto, iam-se aproximando-se das hostes mouras e ouviam-
se redobrar os tambores dos inimigos. Espantam-se alguns cristãos
recém-chegados, que nunca os haviam ouvido. E os que mais se
espantavam eram Diogo e Fernando, que dariam qualquer coisa para não
se encontrarem neste transe.
E ouvi agora o que disse o nascido em boa hora.
– Olá, Pero Bermúdez, caro sobrinho; cuidai de Diogo e Fernando,
meus amados genros, que estes mouros, se Deus quiser, não hão de
ganhar o campo!

116
Pero Bermúdez desentende-se com os infantes. Minaya e Dom Jerônimo
pedem o primeiro posto na batalha.

– Ó Cid, peco-vos por caridade que não seja eu o aio dos infantes;
hoje que os cuide outro que eu quero atacar o inimigo seguido pelos
meus, e vós ficareis na retaguarda com os vossos e, se houver perigo,
vireis socorrer-me.
Aqui aproximou-se Minaya Álvar Fáñez:
– Ó leal Cid Campeador, escutai-me: o Criador e vós, que sois seu
protegido, determinam esta batalha. Dizei-nos por que lado havemos de
atacar e cada um cumprirá suas obrigações. Veremos em que acabará
isto, com Deus e vossa ventura.
– Tenhamos calma – disse o Cid.
Então aproxima-se o bispo Dom Jerônimo, muito bem armado e,
pondo-se diante do Cid, falou assim:
– Hoje vos cantei a missa da Santíssima Trindade. Saí de minha terra
e vim até aqui só pelo desejo que tinha de matar mouros; bem quisera
honrar minhas armas e a ordem a que pertenço. Desejo ser o primeiro no
ataque; trago um pendão com um emblema de corças e queria prová-lo,
se Deus o permite: muito me alegraria isto e sei que vós mais me
estimaríeis. Se não me concederdes este favor, deixo-vos.
[p. 76]
E o Cid:
– Faça-se o que pedis. Ali tendes mouros à vista, atacai-os. Daqui
veremos como peleja o senhor abade.

117
O bispo começa a batalha. O Cid acomete e invade o acampamento dos
mouros.

O bispo Dom Jerônimo adiantou-se para assaltar o acampamento


inimigo. Por ventura sua e especial ajuda de Deus, aos primeiros golpes
matou dois mouros. Já quebrou a lança, já empunha a espada o bom
bispo. Ó Deus, que bom combate! Com a lança matou dois e com a
espada cinco. Mas numerosos mouros começam a rodeá-lo e desfecham-
lhe terríveis golpes, sem, contudo, romper-lhe a armadura.
Vendo isto, o que em boa hora nasceu sobraça o escudo, enrista a
lança, esporeia Babieca, seu excelente cavalo, e arroja-se denodadamente
sobre os inimigos. Irrompe nas primeiras filas, derruba sete e mata quatro.
E prouve a Deus que daí nascesse sua vitória. O Cid e os seus correm em
perseguição aos mouros. Estalam as cordas, quebram-se as estacas e
rodam os postes lavrados das tendas.
E por fim os do Cid expulsam os de Búcar do acampamento.

118
Os cristãos perseguem o inimigo. O Cid alcança e mata Búcar. Ganha a
espada Tizona.

Expulsam-nos do acampamento, perseguem-nos algum tempo. Ali


veríeis cair tantos braços cortados com as lorigas, tantas cabeças com
elmo rolando pelo campo, tantos cavalos sem ginete fugindo de lá para
cá. A perseguição durou sete milhas inteiras.
O Cid dava alcance ao rei Búcar.
[p. 77]
– Volta aqui, Búcar, que vieste de além-mar; agora terás que haver-
te com o Cid da longa barba. Temos que nos beijar e selar amizade.
E Búcar respondeu ao Cid:
– Deus confunda tais amizades! Trazes a espada na mão: ou muito
me engano ou queres prová-la em minha carne. Mas, se o cavalo não
tropeça ou cai comigo, só poderás alcançar-me no mar.
– Não há de ser assim – grita-lhe o Cid.
Bom cavalo tem o rei Búcar e vai saltando com ligeireza, mas
Babieca, o do Cid, está para dar-lhe alcance. Finalmente, a três braças do
mar, consegue emparelhar-se: levanta no alto a espada Colada e
descarrega-lhe um furioso golpe que, arrancando-lhe o elmo, abre-lhe a
cabeça até a cintura. Matou Búcar, o rei de além-mar e ganhou Tizona, a
espada que bem vale mil marcos de ouro. Venceu a maravilhosa e grande
batalha. Aqui se honrou o Cid e com ele todos os que estão a seu lado.

119
Voltam os do Cid, este satisfeito com seus genros, e os infantes
envergonhados. Despojos da vitória.

Com a vitória voltam todos, não sem antes recolherem os despojos.


Chegam às tendas em companhia de Rui Dias, o bravo Campeador, que
nasceu em boa hora. Este, trazendo consigo as duas espadas que tanto
preza, vinha pelo campo de batalha a toda pressa, com a coifa franzida
sobre a cabeça e o capuz solto. Rodeiam-no seus vassalos e ele olha
certamente algo que o contenta: chegam-se Diogo e Fernando, os filhos
do conde Dom Gonçalo. Sorri o Cid satisfeito.
– Sois vós, genros e filhos meus? Já sei que vos agrada pelejar; boas
notícias vossas chegarão a Carrión e dirão como vencemos o rei Búcar.
Confio em Deus e em todos os seus santos que boa recompensa teremos
desta vitória.
Neste instante, chega Minaya Álvar Fáñez, que traz pendente do
pescoço o escudo todo lanhado: as lançadas dirigidas [p. 78] contra ele
foram inofensivas. O sangue escorre-lhe pelo cotovelo: matou mais de
vinte mouros.
– Graças a Deus, nosso pai que está nos céus, e a vós, Cid, nascido
em boa hora. Matastes Búcar e nossa é a vitória. Os ganhos são de todos.
E vossos genros distinguiram-se e estão fartos de pelejar e de matar
mouros em campo.
E o Cid:
– Contente estou; se agora são bons, mais adiante serão ótimos.
O Cid falou isto de boa fé, mas os genros tomaram como ironia.
Já estão em Valença todos os ganhos; regozijam-se o Cid e seus
vassalos. Cada quinhão foi de seiscentos marcos de prata. Os genros do
Cid, quando tiveram em seu poder a parte que lhes tocava, acharam que
nunca experimentariam a pobreza. Vestiram-se luxuosamente os de
Valença, trajados de boas peles e bons mantos, e todos festejam com
banquetes.

120
O Cid satisfeito com a vitória e com seus genros (repetição)

Grande dia foi aquele na corte do Campeador pela vitória alcançada


e a morte do mouro Búcar. O Cid acariciava as barbas e dizia:
– Graças a Cristo, senhor do mundo, que enfim vejo o que almejava:
que lutassem a meu lado meus amados genros. Boas novas deles
chegarão a Carrión, falar-se-á de sua bravura e com isso mais nos
honraremos.

121
Repartição do despojo.

A todos cabem enormes ganhos; juntam ao que ganharam antes e


põem tudo em lugar seguro. O Cid, nascido em boa hora, manda que cada
um pegue sua parte no despojo e não se esquece do quinto que a ele
correspondia. Todos obedecem [p. 79] com prudência. No quinto do Cid
entraram seiscentos cavalos, tantas azêmolas e camelos que não se
podem contar.

122
O Cid, no auge de sua glória, almeja dominar Marrocos. Os infantes ricos e
honrados na corte do Cid.

– Graças a Deus, senhor de todas as coisas criadas! Antes fui pobre


e agora sou rico: possuo dinheiro, terras, ouro, herdades; meus genros são
os infantes de Carrión; venço as batalhas cada vez que Deus é servido;
sou respeitado por mouros e cristãos. Em Marrocos, terra das mesquitas,
quem sabe se temem que eu os assalte qualquer noite destas, ainda que
não tenha planejado isso. Não, não irei buscá-los, que melhor estou em
Valença onde, se Deus quiser, virão pagar tributos, a mim ou a quem eu
ordenar.
Grande alegria corre em Valença entre as hostes do Campeador, por
causa desta vitória alcançada com singular esforço. Os genros também se
regozijam, pois ganharam cinco mil marcos e com razão se têm por ricos.
Vieram à corte com todos os outros cavaleiros e ali está o Cid,
acompanhado pelo bispo Dom Jerônimo, Álvar Fáñez, o grande
combatente, e outros muitos que o próprio Campeador criou em sua casa.
Ao entrarem os infantes, Minaya, em nome do que nasceu em boa hora,
saúda-os:
– Vinde cá, parentes, que por vós somos hoje mais do que éramos.
E o Cid, alegre ao vê-los, diz-lhes:
– Aqui tendes, genros, minha excelente mulher; eis aqui minhas
duas filhas, Dona Elvira e Dona Sol, que vos desejam abraçar e servir de
coração. Graças a Santa Maria, mãe de Deus Nosso Senhor, honrados sois
de vossos casamentos e à terra de Carrión hão de chegar muito boas
notícias.
[p. 80]

123
Vaidade dos infantes. Burlas de que são alvos.

A estas palavras respondeu o infante Dom Fernando:


– Graças ao Criador e a vós também, honrado Cid, temos agora
ganhos incontáveis; combatendo por vós, fizemo-nos honrar; vencemos os
mouros em campo, vencemos Búcar, o rei traidor. Agora cuidai dos outros,
que o nosso está a salvo.
Os vassalos do Cid riam-se disto às escondidas: uns haviam lutado
furiosamente e outros destacaram-se na perseguição aos mouros, mas
não se lembravam de ter visto entre eles a Diogo nem Fernando. Com
estes mal dissimulados risos e contínuos escárnios que lhes faziam, os
infantes começaram a conceber um plano perverso. Dignos irmãos são um
do outro. Afastam-se e começam a conspirar, mas não tomemos parte nas
maldades que falaram:
– Mudemo-nos para Carrión; já demoramos muito em Valença; já
ganhamos tanto que a vida inteira não será suficiente para gastá-lo.

124
Os infantes decidem afrontar as filhas do Cid. Pedem a este suas mulheres
para levá-las a Carrión. O Cid concorda. Enxoval de suas filhas. Os
infantes dispõem-se a partir. As filhas despedem-se do pai.

– Peçamos ao Cid Campeador que nos entregue nossas mulheres;


digamos-lhe que queremos levá-las a terras de Carrión, para que vejam
onde têm suas herdades. Deste modo, podemos tirá-las de Valença e da
custódia do Cid. Pelo caminho faremos o que nos aprouver, antes que nos
atirem na cara o que aconteceu no caso do leão. Nós temos sangue de
condes de Carrión; os bens que levamos já valem muito e podemos
escarnecer das filhas do Cid.
[p. 81]
– Com esses bens seremos sempre ricos e podemos casar-nos com
filhas de reis e imperadores. Sim, escarneceremos das filhas do Cid, antes
que nos afrontem com a aventura do leão.
Tendo-se posto assim de acordo, voltam â corte, onde Fernando
González impõe silêncio e fala assim:
– Deus vos salve, Cid Campeador! A Dona Ximena e a vós primeiro,
a Minaya Álvar Fáñez e a quantos aqui nos escutam, pedimos que
consintam em entregar-nos nossas legítimas esposas, porque queremos
levá-las a nossas terras de Carrión, para tomarem posse dos bens que lhes
demos por herdades; que vejam vossas filhas o que possuímos e o
patrimônio que haveremos de repartir com nossos filhos.
O Cid Campeador, sem recear a menor afronta, responde:
– Dai-vos-ei minhas filhas e, com elas, algo do que me pertence.
Destes-lhes vilas em Carrión e eu quero dar-lhes como enxoval três mil
marcos e ainda mulas e palafréns andadores e fortes, cavalos ágeis e
corredores para montar e grande quantidade de trajes de pano e seda,
bordados a ouro; são vossas as espadas Colada e Tizona; já sabeis que as
ganhei como homem. Sois meus filhos, por isso vos entrego minhas filhas.
Com elas me levais as fibras do coração. Que o saibam na Galiza, em Leão
e em Castela, que saibam com quanta riqueza despeço meus genros.
Servi, pois, a minhas filhas, vossas mulheres e, se assim o fizerdes, sereis
recompensados com largueza.
Assim prometem fazer os infantes. Recebem suas mulheres e tudo o
que o Cid ofereceu.
Quando já estão satisfeitos de tantos obséquios, mandam carregar
os fardos. Grande animação corre por Valença. Todos estão armados e
cavalgam para despedir as filhas do Cid que vão a Carrión.
Já começam a viagem, já se despedem. As duas irmãs, Dona Elvira e
Dona Sol, ajoelham-se diante do Cid.
– Pai, assim vos valha o Criador, pedimo-vos mercê. Vós nos
engendrastes, pariu-nos nossa mãe; senhora e senhor nosso [p. 82],
ambos estais diante de nós, escutando-nos. Agora nos enviais a terras de
Carrión e somos obrigadas a obedecer a vossas ordens. Ambas vos
pedimos, como especial mercê, que envieis mensageiros vossos até
Carrión.
E o Cid abraçou-as e beijou-as na boca.

125
Ximena despede-se das filhas. O Cid cavalga para as despedidas. Maus
augúrios.

Isto fez o Cid, mais ainda fez a mãe:


– Ide, filhas minhas – diz. – Valha-vos o Criador! Contais com meu
amor e com o de vosso pai. Ide a Carrión, onde estão vossas herdades,
que bem creio vos haver casado em proveito vosso.
Elas beijam as mãos dos pais e recebem sua bênção.
E começam a caminhar o Cid e os seus pomposamentes com armas
e cavalos. Já saem da clara Valença os dois infantes, depois de dizer adeus
às damas e companheiros. Pelo horto de Valença iam jogando armas.
Tranqüilos vão o Cid e os de seu séquito.
Mas os augúrios dizem ao que em boa hora cingiu espada que não
haviam de ser sem mancha esses casamentos. Já estão casadas; ele não
pode mais arrepender-se.

126
O Cid envia com suas filhas Félix Muñoz. Ultimo adeus. O Cid volta a
Valença. Os viajantes chegam a Molina. Abengalbon acompanha-os a
Medina. Os infantes tramam matar Abengalbon.

– Onde estás, sobrinho meu, Félix Muñoz? Primo és de minhas filhas


e sei que as estimas. Mando-te que vás com elas até Carrión, onde verás
as herdades que lhes hão dado e voltarás aqui com as notícias.
– Agrada-me de todo o coração – disse Félix Muñoz.
[p. 83]
Minaya Álvar Fáñez compareceu diante do Cid:
– Ó Cid, voltemos a Valença e, com a ajuda de Deus, Criador e Pai,
saberemos que chegaram bem a terras de Carrión.
– A Deus vos recomendamos, pois, Dona Elvira e Dona Sol; portai-
vos sempre de maneira que nos possamos orgulhar de vós.
– Assim o permita Deus – responderam os genros.
Muito grande foi o sentimento na despedida; chora o pai, choram as
filhas e até os cavaleiros que acompanham o Campeador.
– Escutai-me bem, sobrinho Félix Muñoz. Ireis por Molina, onde
pernoitareis. Saudai-me o mouro Abengalbon, meu caro amigo. Dizei-lhe
que envio minhas filhas a Carrión e que as sirva em tudo o que for
necessário e, por meu amor, peço-lhe que as acompanhe até Medinaceli;
eu o recompensarei devidamente.
Enfim separam-se, como a unha da carne. Já volta a Valença o que
nasceu em boa hora e os infantes de Carrión seguem seu caminho.
Descansaram em Santa Maria de Albarracin e depois, apertando o passo,
ei-los em Molina, onde está o mouro Abengalbon. Sua chegada alegra
sinceramente o mouro e este sai a recebê-los com alvoroço. Ó Deus, que
bem e atenciosamente os serve! Na manhã seguinte, cavalga com eles,
tendo mandado que duzentos cavaleiros os acompanhassem. Atravessam
os montes de Luzon, passam Arbujuelo e, ao chegar ao Jalon, repousam
em um lugar chamado Ansarera. O mouro oferece presentes às senhoras e
um cavalo a cada infante; tudo por amor do Cid Campeador.
Mas os infantes, vendo a riqueza do mouro, puseram-se a tramar
uma vil traição:
– Já que vamos abandonar as filhas do Cid, se também pudéssemos
matar o mouro Abengalbon, suas muitas riquezas passariam a nossas
mãos. Colocaríamos tudo a salvo em Carrión e nem o próprio Cid poderia
exigir que reparássemos a afronta.
Mas, enquanto os infantes diziam estas perversas palavras [p. 84],
um mouro que entendia a língua escutou-os e, sem fazer segredo,
imediatamente vai contar a Abengalbon:
– Alcaide, meu senhor, cuidado com eles, pois combinam tua morte.

127
Abengalbon despede-se, ameaçando os infantes.

O mouro Abengalbon era muito valente; seus duzentos cavalgam


com ele, jogando as armas. Deteve-se diante dos infantes e, para sua
grande decepção, falou-lhes assim:
– Se não fosse por respeito ao Cid de Vivar, eu promoveria um
escândalo, devolveria as filhas do Campeador e vós jamais veríeis Carrión.

128
O mouro volta a Molina, pressentindo a desgraça das filhas do Cid. Os
viajantes entram no reino de Castela. Dormem no bosque de Corpes. Na
manhã seguinte os infantes ficam sozinhos com suas mulheres e
preparam-se para maltratá-las. Rogos inúteis de Dona Sol. Crueldade dos
infantes.

– Dizei-me, pois, infantes, que mal vos fiz? Enquanto vos sirvo sem
malícia, tramais minha morte. Aqui vos abandono como traidores, se Dona
Elvira e Dona Sol me derem seu consentimento, pois o renome dos
Carrions a mim não me importa. Queira Deus, dono e senhor do mundo,
que o Campeador se satisfaça com tais casamentos.
Dito isto, o mouro afastou-se; ao passar pelo Jalon, vai jogando as
armas; muito prudente foi em voltar a Molina.
Os infantes de Carrión abandonam o Ansarera e andam de dia e de
noite. À direita deixam Atienza, rude penhasco; passam a serra de Miedes
e picam esporas por Montes Claros; à esquerda deixam Griza e pela direita
chegam a Santo Estêvão de Gormaz. Já entram no carvalhal de Corpes:
bosques [p. 85] altíssimos, cujos galhos sobem até as nuvens e que é
morada de muitas feras. Ali encontram um vergel e uma limpa fonte e
mandam fincar a tenda. Ali repousaram uma noite os infantes e seus
companheiros. Os infantes, com suas mulheres nos braços, dão mostras
de amor. Que mal as haveriam de tratar no outro dia!
Mandaram carregar as azêmolas com os numerosos fardos e
recolher a tenda que os abrigara aquela noite, deixando ir adiante os que
os acompanhavam. Ordenaram que não ficasse ninguém com eles,
homem nem mulher, salvo suas esposas, Dona Elvira e Dona Sol, com
quem desejavam divertir-se sem testemunhas.
Todos se vão: os quatro estão sós. Ali os infantes de Carrión
meditam maldades:
– Dona Elvira e Dona Sol, acreditai: aqui sereis escarnecidas, nestes
agrestes montes. Hoje mesmo partiremos e vós ficareis aqui
abandonadas. Não, vós não tereis parte nas terras de nosso condado. As
novas chegarão ao Cid e assim estaremos pagos da afrontado leão.
Tiram-lhes os mantos e peles, deixam-nas só com as camisas e os
briais.14 Os negros traidores têm as esporas calçadas e lançam mão de
ásperas cilhas. Quando isto viram as damas, disse Dona Sol:
– Dom Diogo, Dom Fernando, pedimo-vos, por Deus. Tendes duas
espadas fortes e cortantes: àquela chamam Colada, a esta Tizona. Cortai-

14
Brial: túnica feminina presa na cintura.
nos as cabeças, seremos mártires; mouros e cristãos irão dizer que não
merecíamos tal castigo. Mas não cometais tal crueldade, não nos ultrajeis,
que isso vos desonra e hão de pedir-vos contas em juntas ou em cortes.
De nada servem os rogos. Os infantes de Carrión começam a
golpeá-las. Sem compaixão, descarregam sobre elas as tiras corredias e
as esporas, onde mais lhes doa. Assim lhes rasgam as camisas e, com
elas, as formosas carnes; o sangue escorre, tingindo os briais. Já os
corações delas estão mordidos pela dor. Ó que ventura seria se prouvesse
aos céus que aparecesse ali o Cid!
[p. 86]
Tanto as maltratam que jazem desfalecidas, ensangüentados as
camisas e panos. Fartaram-se de feri-las e Dona Elvira e Dona Sol já não
podem falar. Por mortas as deixam no carvalhal de Corpes.

129
Os infantes abandonam suas mulheres (repetição).

Despojaram-nas de seus mantos e de suas peles de arminho; jazem


as tristes sem mais abrigo que os briais e as camisas, miseravelmente
expostas às aves do monte e à voracidade das feras; por mortas, por
mortas, que não por vivas. Ó que grande ventura se agora se deixasse ver
o Cid Rui Dias!

130
Gabam-se os infantes de sua covardia.

Os infantes de Carrión deixam-nas como mortas, que já nem uma


nem outra podem falar. E vão-se gabando pelo caminho:
– Agora sim que estamos vingados do casamento. Nem para
barregãs deveríamos tê-las tomado; para mulheres legítimas, não são
nossas iguais. Já estamos vingados do mau passo do leão.

131
Félix Muñoz suspeita dos infantes. Volta atrás em busca das filhas do Cid.
Reanima-as e leva-as em seu cavalo a Santo Estêvão de Gormaz. Chega
ao Cid a notícia de sua desonra. Minaya vai a Santo Estêvão recolher as
damas. Entrevista de Minaya com suas primas.

Assim se vão gabando os infantes. Mas agora quero dizer-vos de


Félix Muñoz, o sobrinho do Cid. Haviam-no mandado ir à frente; não o fez
de boa vontade. Pela estrada, deu-lhe [p. 87] um sobressalto e, afastando-
se dos outros, mete-se pela floresta, para vigiar a passagem de suas
primas ou ver o que fazem os infantes. Viu-os passar, ouviu-lhes algumas
palavras; eles não o vêem nem o escutam, pois de outro modo, podeis
estar certos, não escaparia com vida.
E enquanto se afastam os infantes, picando esporas, Félix Muñoz
voltou, seguindo-lhes o rastro e, por fim, descobriu suas duas primas
desfalecidas.
– Primas, primas – grita.
Desmonta, amarra o cavalo pela rédea, corre até elas:
– Ai, primas, primas minhas! Dona Elvira, Dona Sol! Horrenda proeza
fizeram os infantes! Praza a Deus que sejam punidos!
Vai fazendo-as voltar a si. Tão desmaiadas estão que não podem
articular palavra. Partem-se-lhe as entranhas do coração.
– Primas, primas, Dona Elvira e Dona Sol – continua gritando.
Despertai, primas, pelo amor de Deus! Despertai, enquanto é dia, vede
que anoitece; que não nos devorem as feras do monte!
Já Dona Elvira e Dona Sol começam a recuperar-se. Abrem os olhos,
vêem a seu lado Félix Muñoz.
– Esforçai-vos, primas, pelo amor de Deus! Os infantes de Carrión,
quando notarem minha ausência, ir-me-ão buscar por toda a parte. Se
Deus não nos valer, aqui morreremos.
E enfim Dona Sol diz, com imensa amargura:
– Ai, meu primo! Assim vos pague nosso pai, o Campeador; pelo
amor de Deus, dai-nos água.
Em um chapéu novo e formoso, que trouxera de Valença, Félix
Muñoz apanhou água e deu de beber a suas primas tão maltratadas.
Enfim, depois de muito pedir-lhes, consegue que se sentem. Pouco a
pouco vai confortando-as e dando-lhes coragem, até que consegue colocá-
las sobre o cavalo e esporeá-lo. Cobre a ambas com seu manto e põe-se a
andar. Ei-los sós pelo carvalhal de Corpes até que, passada a noite, saem
do monte. Chegam às águas do Douro. Félix Muñoz deixa suas primas [p.
88] na torre de Dona Urraca, para chegar a Santo Estêvão de Gormaz,
onde encontra um tal Diogo Teles, homem que foi de Álvar Fáñez. Ao
saber do sucedido, pesou-lhe muito. Tomou consigo bestas e roupas
adequadas e foi recolher Dona Elvira e Dona Sol. Depois conduziu-as a
Santo Estêvão, alojando-as e servindo-as o melhor que pôde. Os de Santo
Estêvão sempre foram boa gente; muito lamentam o acontecido e estão
empenhados em oferecer às filhas do Cid carne, trigo e vinho. Ali
permaneceram elas até que se sentiram restabelecidas.
Entretanto, iam-se gabando os infantes de Carrión. Já correm as
notícias por toda parte. Ao bom rei Dom Afonso pesou-lhe o coração. A
mensagem chega a Valença e, quando o sabe o Cid Campeador, fica longo
tempo meditando. Por fim, afagando as barbas, exclama:
– Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Se tal fizeram os infantes
de Carrión, por estas barbas, que nunca ninguém arrancou, jamais
conseguirão desonrar-me e ainda hei de casar bem minhas filhas!
Que aflição a do Cid e de toda a sua corte e de Álvar Fáñez, a quem
isto tanto pesa.
Cavalgou Minaya, com Pero Bermúdez e Martin Antolínez, o leal
burgalês, e duzentos cavaleiros que mandara o Cid. Ordenou-lhes
imperiosamente cavalgar de dia e de noite e trazer suas filhas a Valença.
Todos se apressam a obedecer-lhe: cavalgam a toda brida, andam dia e
noite; chegam a Gormaz, forte castelo, onde se abrigam por uma noite. A
notícia de que Minaya veio por suas primas chega a Santo Estêvão, onde
se apressam os bons varões a recebê-lo com sua gente; nessa mesma
noite oferecem-lhe tributos, como vassalos. Ele, agradecendo-lhes muito,
nada aceita.
– Obrigado – diz – obrigado, varões de Santo Estêvão, homens de
grande prudência, pelo auxílio que nos prestastes na desgraça. Nosso Cid
Campeador agradece-vos de onde está e eu, que aqui estou, faço-o em
seu nome. Deus, que está nos céus, permitirá que ele vos recompense.
Todos ficam muito contentes e satisfeitos com ele e à [p. 89] noite
vão descansar. Minaya vai ver suas primas, Dona Elvira e Dona Sol, que se
ajoelham diante dele e dizem:
– Estamos tão agradecidas como se víssemos o próprio Deus! E vós
deveis dar graças a Ele de achar-nos vivas e salvas. Depois, em outra
ocasião, quando estivermos em Valença, contaremos nossa desgraça.

132
Minaya e suas primas partem de Santo Estêvão. O Cid sai a recebê-los.

As damas e Álvar Fáñez choravam sem poder conter-se. E também


Pero Bermúdez, que disse:
– Dona Eivira e Dona Sol, não vos preocupeis, pois que já estais sãs
e salvas. Haveis perdido um bom casamento; talvez possais ganhar outro
melhor. Oxalá vejamos o dia de vossa vingança!
Passam ali a noite, todos consolando-se e contentes de ver-se. No
outro dia pela manhã, empreendem o regresso. Acompanham-nos os de
Santo Estêvão até Rio de Amor, onde se despedem e voltam a suas casas.
Minaya e as damas seguem viagem. Passam Alcoceba, deixam à direita
Gormaz, cruzam por Vadorrey e fazem pousada no povoado de Berlanga.
No outro dia seguem caminhando e param em Medinaceli; daí fazem o
trecho de Medina a Molina. O mouro Abengalbon, muito contente, sai a
recebê-los e, por amor do Cid, oferece-lhes uma ceia suculenta. E daí vão
diretamente para Valença.
Chegam as mensagens ao que nasceu em boa hora, que se apressa
em sair cavalgando. Ia jogando as armas e dando mostras de muita
alegria. Ao ver suas filhas, adianta-se para abraçá-las, beija-as e sorri:
– Sois vós, filhas minhas? Deus vos guarde de todo o mal. Aceitei
vosso casamento, não ousando contrariá-lo. Praza a Deus que vos possa
ver mais bem casadas. Que o Senhor me dê a vingança de meus genros!
[p. 90]
As filhas beijaram a mão de seu pai e todos, jogando as armas,
voltaram à cidade. Grande alegria teve ao vê-las Dona Ximena, sua mãe.
O que em boa hora nasceu, sem perder tempo, quis falar reservadamente
com os seus e enviar uma mensagem ao rei Dom Afonso de Castela.

133
O Cid manda Muño Gustioz para pedir justiça ao rei. Muño fala ao rei em
Sahagun e expõe-lhe o assunto. O rei promete reparação.

– Onde estás, Muño Gustioz, ilustre vassalo? Em boa hora te criei em


minha corte. Leva mensagem a Castela, ao rei Dom Afonso. Beija-lhe a
mão, de todo o coração, como a seu senhor o vassalo. E roga ao bom rei
que se dê também por ofendido, pela injúria que os infantes me fizeram.
Ele, e não eu, casou minhas filhas. E agora que estão desonradas, se é
que nisto cabe desonra, pouca ou muita como seja, recai sobre meu
senhor. Levaram muitos de meus haveres e esse é um novo encargo para
juntar à ofensa. Que os cite o rei, em juntas ou em cortes, para que eu
reclame meu direito contra eles, porque grande é o rancor que me rói a
alma.
Muño Gustioz apressa-se em cavalgar, acompanhado dos cavaleiros
que o servem e de alguns escudeiros criados na casa do Cid.
Saem de Valença, andam o mais que podem, sem descansar de dia
nem de noite. Encontram o rei Dom Afonso em Sahagun. É rei de Castela e
de Leão, das Astúrias e de Oviedo. Até de Santiago da Galiza é senhor e os
condes galegos rendem-lhe vassalagem. Muño Gustioz desmonta,
humilha-se aos santos dos céus, roga ao Criador e dirige-se ao palácio,
onde reside a corte. Com ele vão os cavaleiros que o acompanham.
Assim que entraram, o rei reconheceu Muño Gustioz e, levantando-
se, recebeu-o com honras. Este ajoelha-se diante do monarca e, beijando-
lhe os pés, exclama:
[p. 91]
– Mercê, ó rei, a quem tantos reinos chamam de senhor! O
Campeador beija-vos os pés e as mãos; vosso vassalo é, sois seu senhor.
Casastes suas filhas com os infantes de Carrión e eles miseravelmente as
ultrajaram, abandonando-as nuas e desamparadas no bosque de Corpes,
expostas às feras e às aves do monte; agora já estão em Valença. Assim,
pois, beija-vos as mãos, como lhe cumpre, e pede que chameis a juntas ou
a cortes estes infantes: tem-se ele por ofendido, mas maior é a ofensa
para vós e, como estais ciente de tudo, roga que possais acompanhá-lo
neste pesar e que lhe seja dado reclamar seu direito dos moços Carrions.
O rei meditou durante longo tempo:
– Em verdade te digo que me pesa de coração e o que disseste,
Muño Gustioz, está certíssimo: que eu fui que casei as filhas do Cid com os
infantes, pensando que seria para bem e em proveito seu. Oxalá não se
houvesse realizado tal casamento! Compartilho de coração o pesar do Cid.
Assim me valha o Criador, que hei de ajudá-lo no que tem direito. Longe
estava de imaginá-lo! Meus mensageiros reais irão por todo o reino,
apregoando que se juntarão as cortes em Toledo, onde terão que vir
condes e infanções. Ordenarei aos infantes de Carrión que compareçam
para responder às demandas do Cid; e dizei-lhe que, no que puder,
remediarei seu mal.

134
O rei convoca corte em Toledo.

– Dizei ao Campeador, nascido em boa hora, que se prepare para vir


a Toledo, com seus vassalos, daqui a sete semanas; este é o prazo que lhe
dou. Por amor do Cid, convoco estas cortes solenes. Saudai-os a todos e
que se consolem, que, depois de tamanha afronta, ainda serão
enaltecidos.
E Muño Gustioz despediu-se e voltou para junto do Cid.
E disse a verdade Afonso, o castelhano, que tomou o pleito como
seu. Por nada no mundo quer retardá-lo; envia logo cartas a Leão e a
Santiago, aos portugueses e aos galegos [p. 92], aos de Carrión e aos
varões castelhanos, comunicando-lhes que fará cortes em Toledo, ao cabo
de sete semanas e quem não vier, não se dê por seu vassalo. E por todas
as suas terras todos se dispõem a obedecer à ordem de seu senhor.

135
Os de Carrión pedem em vão ao rei que desista da corte. Reúne-se a
corte. O Cid chega por último. O rei vai a seu encontro.

Os infantes de Carrión estão muito cabisbaixos, porque o rei


convocou cortes em Toledo; temem que a elas assista o Cid Campeador.
Aconselham-se com seus parentes, pedem ao rei que lhes permita não
assistir. E diz o rei:
– Não o farei, assim me salve Deus! Há de assistir a elas o Cid e
haveis de responder-lhe em seu direito, que está agravado. Quem não
quiser fazê-lo ou não for à corte pode deixar meu reino e não conte mais
com meu favor.
E os infantes de Carrión sabem o que têm que fazer. Tratam do
assunto com seus parentes. Recebem cartas do conde Garcia, inimigo do
Cid, que sempre buscou seu mal, e este deu-lhes conselhos.
Chegava o prazo; iam todos acudindo à corte. Entre os primeiros
estavam o bom rei Dom Afonso, o conde Dom Henrique, o conde Dom
Raimundo – pai do bom imperador –, o conde Dom Froila e também o
conde Dom Birbon. E de todo o reino vieram muitos outros peritos em
direito e os principais de Castela: o conde Dom Garcia, por alcunha o
Crespo de Granon, e Álvaro Dias, o que mandou em Oca, e Asur González
e Gonzalo Ansúrez e Pedro Ansúrez e finalmente Diogo e Fernando, que
traziam consigo à corte muitos partidários; propunham-se a enganar o Cid
Campeador.
De todas as partes chegam os cavaleiros. Ainda não tinha vindo o
que nasceu em boa hora e sua tardança desagradava ao rei. No quinto
dia, enfim, apresenta-se o Cid, tendo enviado antes dele Álvar Fáñez, para
beijar as mãos do rei e anunciar [p. 93] sua chegada por essa noite.
Alegrou-se o rei com a notícia e cavalgou com grande séquito para
receber o que nasceu em boa hora. O Cid e os seus vinham muito bem
ataviados: a companhia era digna de tal senhor. Quando avistou o rei
Afonso, o Cid desmontou e veio humilhar-se diante dele. E o rei disse logo:
– Não, por Santo Isidro, não o façais! Montai a cavalo, Cid, que me
desgostaríeis se não o fizésseis e assim nos beijaremos com toda a alma.
O que a vós vos pesa a mim me dói. Queira Deus que hoje se honre a
corte, fazendo-vos justiça.
– Amém – disse o nosso bom Campeador. Beija-lhe a mão e depois a
boca:
– Louvado seja Deus, que posso ver-vos, senhor. Humilho-me
perante vós e o conde Dom Raimundo e o conde Dom Henrique e quantos
estão aqui. Minha mulher, Dona Ximena, dama ilustre, beija-vos as mãos,
e também minhas filhas, para pedir-vos que compartilheis nossa afronta.
E respondeu o rei:
– Por Deus, que assim o farei.

136
O Cid não entra em Toledo. Celebra vigília em São Servando.

O rei regressou a Toledo, mas nessa noite o Cid negou-se a


atravessar o Tejo.
– Mercê, ó rei, assim vos guarde Deus! Ide à cidade, senhor, que eu
com os meus ficaremos em São Servando. Minhas companhias vão juntar-
se a mim esta noite; eu velarei neste santo lugar e pela manhã entrarei
em Toledo; antes de comer, irei à corte.
– Está bem, disse o rei.
E o rei entra em Toledo, enquanto o Cid pousa em São Servando.
Mandou acender luzes e iluminar o altar; quer velar naquele lugar tão
santo para orar e falar a sós com Deus. Tanto Minaya como os outros
homens bons que o acompanham estão preparados na manhã seguinte.
[p. 94]

137
Preparação do Cid em São Servando para ir à corte. O Cid vai a Toledo e
entra na corte. O rei oferece-lhe assento em seu escano. O Cid recusa. O
rei abre a sessão. Proclama a paz entre os infantes. O Cid expõe sua
demanda: reclama Colada e Tizona; os de Carrión entregam-nas. O Cid
oferece-as a Martin Antolínez e Pero Bermúdez. Segunda demanda do Cid:
o enxoval de suas filhas; os infantes sentem dificuldades em pagar.

Antes do amanhecer, disseram matinas e prima e ouviram missa. Já


os do Cid fizeram valiosa oferta.
– Vós, Minaya Álvar Fáñez, meu melhor braço, ireis comigo em
companhia do bispo Dom Jerônimo e de Pero Bermúdez, Muño Gustioz,
Martin Antolínez, o leal burgalês; Álvar Álvaro Salvadórez, Martin Muñoz,
que em bom momento nasceu, e meu sobrinho Félix Muñoz. Virá comigo
Mal Anda, o perito em leis e Galindo Garcia, o bom de Aragão. Juntem-se a
estes cem dos bons cavaleiros que me acompanham. Vesti as túnicas
alcochoadas, para poder agüentar as armaduras; ponde em cima as
lorigas brilhantes como o sol e sobre estas os arminhos e pelotes; e
apertai bem os cordões, para que não se vejam as armas. Sob os mantos
levai as espadas flexíveis e cortantes. Assim quero apresentar-me na corte
para pedir justiça. E se os infantes de Carrión me armarem uma cilada,
bem confiante estou com os meus cem cavaleiros.
– Assim seja, senhor – disseram todos.
E prepararam-se, conforme as ordens do Cid.
O que nasceu em boa hora pôs umas calças de pano e uns sapatos
primorosamente lavrados, uma camisa de linho tão branca como o sol – de
ouro e prata os botões – e que cai muito bem sobre os punhos; em cima
dela um brial precioso de brocado, cujos lavores de ouro reluzem por toda
parte e ainda uma pele vermelha com franjas de ouro, que costuma usar;
na cabeça, uma coifa de tela finíssima, tecida de ouro, para que ninguém
lhe possa puxar os cabelos; e a barba muito longa também a recolhe com
um cordão, porque deseja [p. 95] estar preparado para tudo. Por cima
vestiu um manto de grande valor, que todos os que viam admiravam.
E com seus cem homens preparados, sai a cavalo de São Servando,
com todas estas precauções, para ir à corte.
Desmonta na porta exterior e entra comedidamente, acompanhado
de seu séquito: ele no centro e os cem homens rodeando-o. Quando viram
entrar o que nasceu em boa hora, o rei põe-se de pé e também o conde
Dom Henrique, o conde Dom Raimundo e quantos estavam na corte. Com
grandes honras é recebido, mas não quiseram levantar-se Garcia Ordóñez,
o Crespo de Granon nem os outros do bando dos infantes.
O rei tomou o Cid pelas mãos:
– Vinde, Campeador, sentai-vos a meu lado, neste escano que
ganhei de vós. Ainda que possa pesar a alguém, vaieis mais que nós.
O que ganhou Valença disse ali palavras de gratidão:
– Continuai ocupando vosso escano, como convém a rei e senhor.
Sentar-me-ei aqui com os meus.
O rei concordou e o Cid foi sentar-se em um escano torneado,
sempre rodeado de seus cem cavaleiros. Todos os que assistem às cortes
contemplam-no e olham aquelas longas barbas recolhidas pelo cordão.
Sim, aquele era um verdadeiro homem, nas obras e na aparência. Os
infantes de Carrión, envergonhados, não se atrevem a olhá-lo.
Então o rei Afonso, levantando-se, disse:
– Ouvi, mesnadas, assim vos guarde Deus. Desde que sou rei só
convoquei duas cortes: uma em Burgos, outra em Carrión e esta em
Toledo é a terceira, convocada por amor ao Cid, que nasceu em boa hora,
a fim de que peça justiça aos infantes de Carrión. Já sabemos todos o
grave ultraje que lhe fizeram. Sejam os juízes o conde Dom Henrique, o
conde Dom Raimundo e os demais que não são do bando. Meditai todos
no caso, já que o conheceis e decidi o que seja de justiça, porque eu não
mando fazer injustiças. E mantenhamo-nos em paz de um e de outro lado.
E juro por Santo Isidro que quem armar celeuma em minha corte deixará o
reino e [p. 96] perderá todo o meu favor. Eu estarei com o que tenha
razão. Queixe-se agora o Cid Campeador e depois saberemos o que os
infantes alegam.
O Cid beija a mão do rei e levanta-se:
– Meu rei e senhor: muito vos agradeço que por mim tenhais
convocado esta corte e eis aqui o que pleiteio contra os infantes de
Carrión: que tenham deixado minhas filhas não me desonra, porque vós as
casastes, rei, e hoje vereis o que se há de fazer. Mas quando eles saíram
de Valença, a maior, levando consigo minhas filhas, contavam com todo o
meu amor e carinho; dei-lhes então duas espadas: Colada e Tizona – que
ganhei como varão – para que com elas ilustrassem seu nome e servissem
a vós. Quando abandonaram minhas filhas no carvalhal de Corpes, já que
nada meu queriam, perderam todo o meu amor. E posto que não são já
meus genros, devolvam-me as espadas.
E os juizes sentenciaram:
– Isto é muito razoável.
E disse o conde Dom Garcia:
– Falemos nós agora.
E saindo com os infantes de Carrión, os demais parentes e todos os
do bando, trataram rapidamente de preparar a resposta:
– É certo que o Cid Campeador nos favorece ao não nos pedir conta
pela desonra de suas filhas.Talvez, com a mediação do rei Dom Afonso,
possamos entrar em acordo. Dar-lhe-emos as espadas e encerre-se a
demanda; quando as receber, irá embora e em paz. Acabou-se a ação de
direito que o Cid Campeador possa ter sobre nós.
E dito isto, voltam à corte.
– Mercê, rei Dom Afonso, senhor nosso! Não o podemos negar; deu-
nos duas espadas e, como as deseja e as pede, queremos devolvê-las
diante de vós.
Tiraram as espadas Colada e Tizona e puseram-nas em mãos do rei,
seu senhor. Ao desembainhá-las, toda a corte cintila: maçãs e copos são
de ouro puro. Os homens bons da corte ficam maravilhados. O rei chama o
Cid e entrega as espadas [p. 97]. Este as recebe, beija-lhe as mãos e volta
ao escano. Em suas mãos tem as espadas, contempla-as: não podem tê-
las trocado, conhece-as bem. Todo o seu corpo se alegra e parece que lhe
sorri o coração. Afagando as barbas, diz:
– Por estas barbas, que nunca ninguém me arrancou, assim iremos
vingando Dona Elvira e Dona Sol.
Chamou pelo nome seu sobrinho Dom Pero e, estendendo o braço,
entregou-lhe a espada Tizona:
– Tomai-a, sobrinho, que melhora de dono.
A Martin Antolínez, o leal burgalês, entrega a outra espada.
– Martin Antolínez, vassalo ilustre, tomai Colada; ganhei-a de nobre
dono: Ramon Berenguer de Barcelona. Ofereço-a a vós, com a
recomendação de cuidá-la bem. Sei que a honrareis com vossa coragem.
Beijou-lhe o outro a mão, recebeu a espada. Depois disto, o Cid
Campeador voltou a levantar-se:
– Graças a Deus e a vós, meu rei e senhor! Já estou pago quanto a
minhas espadas Colada e Tizona. Mas ainda tenho outro encargo contra os
infantes de Carrión. Quando saíram de Valença com minhas filhas,
entreguei-lhes três mil marcos em ouro e prata. Isto fiz eu e eles fizeram o
que sabeis. Que me dêem meu dinheiro, pois já não são meus genros.
Aqui veríeis as queixas que fizeram os infantes de Carrión.
O conde Dom Raimundo exige:
– Eia, pois, respondei: sim ou não.
E os infantes:
– Se lhe demos ao Cid Campeador suas espadas, foi para que não
pedisse mais, que nisso parasse sua demanda.
E o conde Dom Raimundo retrucou:
– Com licença do rei, eis aqui o que decretamos: dai satisfação à
demanda do Cid.
E o bom rei:
– Eu assim o outorgo.
Levantou-se ainda o Cid Campeador.
– Dizei, pois, se me devolvereis o dinheiro que vos dei.
[p. 98]
Afastam-se outra vez os infantes, mas não acham saída, porque é
muito alta a soma e já a gastaram toda. Voltam então ao conselho e falam
o que primeiro lhes vem à cabeça:
– Muito nos aperta o que ganhou Valença. Se tanta cobiça tem de
nossos bens, pagar-lhe-emos com nossas herdades de Carrión.
Quando assim reconhecem sua dívida, dizem os juizes:
– Se isso convém ao Cid, não discordaremos, mas, por nosso
parecer, eis o que decretamos: que aqui mesmo, dentro da corte,
entreguem esta soma.
A estas palavras, interveio o rei Dom Afonso:
– Bem sabemos o direito que assiste ao Cid Campeador. Destes três
mil marcos eu recebi duzentos das mãos dos infantes, como presente de
afilhados. Mas agora quero devolvê-los, para que os entreguem ao Cid, o
que nasceu em boa hora. Já que eles têm que devolver o dinheiro, eu não
quero esta parte.
E ouvi aqui o que falou Fernando González:
– Dinheiro cunhado não o temos.
E respondeu o conde Dom Raimundo:
– Gastastes, pois, o ouro e a prata. Eis aqui a sentença que damos
diante do rei Dom Afonso: pagai em espécie e tome-o o Campeador.
Os infantes de Carrión compreendem que não lhes resta mais
recurso que obedecer. E fazem trazer muitos cavalos corredores, robustas
mulas, formosos palafréns, preciosas espadas guamecidas.
Os juizes avaliaram tudo e o Cid recebeu. Quanto aos duzentos
marcos que tinha o rei Afonso, os infantes pagaram ao que em boa hora
nasceu e, como não têm o suficiente, pedem emprestado. Desta vez a
sentença os deixa em má situação.
[p. 99]

138
Acabada sua demanda civil, o Cid propõe o desafio.

O Cid já tomou o pagamento que lhe fizeram em espécie e já está


tudo sob a custódia de seus homens. Mas, quando acabaram isto, ainda
faltava outra coisa.
– Mercê, rei e senhor, por amor e caridade! Não posso esquecer a
maior de todas as queixas. Ouça-me a corte e compartilhem todos de meu
furor. Aos infantes de Carrión, que tanto me ultrajaram, não posso deixar
de desafiá-los.

139
O Cid chama os infantes de traidores.

– Dizei, pois, infantes de Carrión, que dano vos causei eu de algum


modo? Aqui, a juízo da corte, temos que repará-lo. Por que me cortastes
as entranhas do coração? À saída de Valença, eu vos entreguei minhas
filhas, com muita honra e numerosas riquezas. Eia, pois, cães traidores! Se
não as queríeis, por que as tirastes de seu lar? Por que as golpeastes com
cilhas e esporas, deixando-as desamparadas no bosque de Corpes,
expostas à voracidade das feras e das aves do monte? Ó, quanto vos
aviltastes ao fazer tais coisas! Se não o reconheceis, que o julgue esta
corte.

140
Altercação entre Garcia Ordóñez e o Cid.

Ao ouvi-lo, o conde Dom Garcia pôs-se de pé:


– Ó rei, o melhor de toda a Espanha, mercê! Preparou-se o Cid para
estas cortes solenes; deixou crescer as barbas, fazendo-as muito longas; a
uns põe medo, a outros espanta. De tão alta linhagem são os infantes de
Carrión que nem para barregãs lhes serviam as filhas do Cid. Quem, pois,
deu-as por [p. 100] mulheres legítimas e iguais? Se as deixaram, agiram
conforme seu direito. Não nos importa o que alega o Cid.
Então disse o Campeador, levando a mão às barbas:
– Louvado seja o Senhor Deus que manda nos céus e na terra! Se
minha barba é longa, é porque com carinho foi tratada: que tendes, vós,
conde, contra minha barba? Nunca a arrancou filho de mulher, mouro ou
cristão, como eu a vós, conde, naquele castelo de Cabra. Quando tomei
Cabra e também a vós pelas barbas, não houve rapaz que não quisesse
arrancar seu tufo. As que eu vos arranquei não se comparam com as
minhas, que as vossas aqui as trago na minha bolsa.

141
Fernando rechaça a acusação.

Fernando González, de pé, diz com voz alterada o que ides ouvir:
– Basta, Cid, já vos pagamos vosso dinheiro. Não cresça entre nós o
pleito. Temos sangue de condes de Carrión; com filhas de reis e
imperadores podemos casar-nos, não com filhas de simples infanções.
Estávamos em nosso direito, ao deixá-las e por isso não nos aviltamos, ao
contrário, valemos mais.

142
O Cid incita Pero Bermúdez ao desafio.

O Cid Rui Dias dirige-se a Pero Bermúdez e diz-lhe:


– Pero Mudo, varão que tanto calas, filhas minhas são, mas são
também tuas primas irmãs. A mim falam, a ti puxam as orelhas. Se eu
responder antes, não pegarás em armas.
[p. 101]

143
Pero Bermúdez desafia Fernando.

E então tenta falar Pero Bermúdez, mas trava-se-lhe a língua e não


acerta com as palavras. Porém quando começa, não pára mais:
– Direi, Cid, sempre me chamais Pero Mudo nas cortes. Sabeis que
não me agrada, mas, no que for possível, não deixarei de fazer o que
devo. Fernando: em tudo o que disseste, mentes. Muito mais vales pelo
Campeador que por ti. Já descobrirei tuas manhas. Lembras-te daquele dia
em que lidávamos lado a lado nos arredores da grande Valença? Tu tinhas
pedido ao leal Campeador a honra dos primeiros golpes. Descobriste um
mouro, foste sobre ele; mas, antes de acometê-lo, preferiste fugir. Não
estivesse eu ali e ele teria rido de ti. Passei além de onde estavas até
encontrar-me com teu adversário. Venci-o nos primeiros golpes; dei-te o
cavalo e guardei o caso em segredo; até agora não o havia dito a
ninguém. E tu te vangloriaste diante do Cid e de todo mundo de que
tinhas matado o mouro e eras o herói da façanha. Todos, ignorantes da
verdade, acreditaram em ti. Formoso és, mas covarde. Ó língua sem
mãos, como te atreves a falar?

144
Prossegue o desafio de Pero Bermúdez.

– Dize, pois, Fernando e responde agora: não te lembras também de


quando, dormindo o Cid em Valença, soltou-se aquele leão? E tu, que
fizeste, de tanto medo? Lembra-te de que te escondeste debaixo do
escano do Cid e com isso te aviltaste. Nós rodeamos o escano para
proteger o sono de nosso senhor, o que conquistara Valença, até que ele
despertou. Então levantou-se do escano e foi até o leão; este, baixando a
cabeça, esperou o Cid, deixou-se levar pelo pescoço e entrou na jaula.
Quando o Cid voltou para junto de seus vassalos, em vão procurou seus
genros, ninguém os encontrava [p. 102]. Ó Fernando, desafio tua pessoa
má e traidora! E hei de sustentá-lo aqui diante do rei Dom Afonso, pelas
filhas do Cid, Dona Elvira e Dona Sol; porque as deixastes, valeis menos:
elas são mulheres, vós sois varões, mas de mil modos valem mais que
vós. Quando vier o combate, se Deus o conceder, tu mesmo confessarás
por tua boca que és traidor, e eu manterei a verdade do que digo.
E aqui acabou a disputa entre ambos.

145
Diogo responde à acusação de valer menos.

E ouvi o que disse Diogo González:


– Temos sangue dos condes mais limpos. Oxalá nunca se houvessem
feito estes casamentos, por não sermos parentes do Cid Dom Rodrigo!
Não nos arrependemos de ter abandonado suas filhas; a afronta que lhes
fizemos ficará marcada para sempre. Isto manterei em luta com o mais
valente: que nos honramos mais por tê-las abandonado.

146
Martin Antolínez desafia Diogo González.
A isto, levanta-se Martin Antolínez:
– Cala-te, aleivoso, boca mentirosa! Não devias esquecer o caso do
leão: escapaste pela porta, até o curral não paraste e ali te escondeste
atrás de uma viga. Aquele manto, aquele brial que usavas já não pudeste
usá-los mais. Eu o manterei em combate e não há de ser de outro modo;
por as haverdes deixado, entendei-o bem, as filhas do Cid valem muito
mais que vós. Na hora do combate terás que dizer por tua própria boca
que és traidor e mentiste em tudo.
[p. 103]

147
Asur Gonzalez entra na corte.

Nisto ficou a disputa, quando entra pelo palácio Asur Gonzalez, com
manto de arminho e comprido brial. Como acabara de almoçar, estava
muito vermelho. As palavras que disse são de homem sem comedimento.

148
Asur insulta o Cid.

– Ó senhores, quando se viu coisa semelhante? Quem diria que nos


enobreceríamos por parte do Cid! Ele que vá a Vivar trabalhar em seus
moinhos e receber o pagamento, como convém aos de sua laia. Quem
casou seu sangue com o de Carrión?

149
Muño Gustioz desafia Asur Gonzalez. Mensageiros de Navarra e de Aragão
pedem ao Cid suas filhas para os filhos dos reis. Dom Afonso apóia o novo
casamento. Minaya desafia os de Carrión. Gómez Peláez aceita o desafio,
mas o rei só fixa o prazo para os que desafiaram antes. O rei vai amparar
os três lutadores do Cid. O Cid oferece presentes de despedida a todos.
(Lacuna – prosa da Crônica de vinte reis). O rei sai de Toledo com o Cid.
Manda a este correr em seu cavalo.

Então levanta-se Muño Gustioz:


– Cala-te aleivoso, mau e traidor. Primeiro almoças e depois vais à
oração e a quem dás o beijo da paz, depois da missa, causas nojo. És falso
para todos e mais para o Criador. Não tenha eu parte em tua amizade. Já
te farei confessar que és como te pinto.
Disse o rei Afonso:
[p. 104]
– Acabe-se a disputa. Os que se desafiaram haverão de lutar, assim
Deus me salve.
Acabavam de falar assim, quando dois cavaleiros entram pela corte:
a um chamam Ojarra e ao outro Iñigo Jiménez; um é emissário do infante
de Navarra e o outro do de Aragão. Beijam as mãos do rei e pedem as
filhas do Cid para rainhas de Navarra e de Aragão, em matrimônio e como
legítimas esposas. Toda a corte escuta suspensa. O Cid Campeador está
de pé.
– Mercê, rei Afonso, sois meu senhor! Graças dou a Deus de que
venham de Aragão e Navarra para pedir minhas filhas. Antes as casastes
vós, que não eu. Em vossas mãos as confio. Já nada farei sem vossa
ordem.
Levantando-se, o rei impôs silêncio à corte:
– Ó Cid, prudente Campeador, rogo-vos que o aceiteis e eu o
outorgarei. Quero que nesta corte fique acertado o casamento, que voz
traz feudos e honras.
Levantou-se o Cid e beijou as mãos do rei:
– Senhor, se vos contenta, eu o concedo.
E o rei:
– Deus vos recompense! A vós, Ojarra, e a vós, Iñigo Jiménez, dou-
vos em casamento as filhas do Cid, Dona Elvira e Dona Sol, para esposas
legítimas dos infantes de Navarra e de Aragão.
Ojarra e Iñigo Jiménez levantam-se para beijar as mãos do rei e
depois as do Cid. Feitos estão as promessas e os juramentos de que tudo
será como foi dito ou ainda melhor. Muitos estão contentes, mas não os
infantes de Carrión.
Levantou-se Minaya Álvar Fáñez:
– Mercê vos peço, como rei e senhor, e que não desagrade ao Cid
minha intervenção: já vos dei tempo de falar e queria falar também na
corte.
E disse o rei:
– Agrada-me, dizei o que quiserdes.
– Eu rogo a toda a corte que me escute, porque tenho contra os
infantes de Carrión graves queixas. Eu, em nome do rei Afonso, dei-lhes,
por minhas próprias mãos, minhas [p. 105] primas, com quem contraíram
legítimas núpcias; o Cid Campeador deu-lhes riquezas e agora, com
grande pesar nosso, abandonam suas mulheres. Desafio-os por maus e
traidores. Sangue sois dos Beni-Gómez, que deu condes de preço e valor;
mas vemos hoje em dia as aberrações que engendra. E dou graças a Deus
de que os infantes de Aragão e Navarra peçam a mão de minhas primas
Dona Elvira e Dona Sol. Antes foram vossas mulheres legítimas e vossas
iguais; agora tereis que lhes beijar as mãos, chamá-las de senhoras e
servi-las, ainda que não vos agrade. Louvado seja Deus que está nos céus!
Louvado seja o rei Dom Afonso! Assim cresce a honra do Campeador! Sois
tal como digo; e se houver aqui quem o negue, saiba que sou Álvar Fáñez,
valente como poucos. Gómez Peláez levanta-se e diz:
– De que vale, ó Minaya, o que dissestes? Há nesta corte muitos que
com vós se podem medir e, se alguém o nega, será para seu prejuízo. Se
Deus nos ajudar, tereis que reconsiderar o que falastes.
Disse o rei:
– Acabe-se a disputa e ninguém toque mais neste assunto. Amanhã,
quando sair o sol, será a luta dos que se desafiaram na corte, três contra
três.
Aqui falaram os infantes de Carrión:
– Rei, dai-nos maior prazo; amanhã não pode ser. Se demos ao
Campeador armas e cavalos, teremos que ir a terras de Carrión.
Então o rei disse ao Campeador:
– Seja, pois, este combate onde e quando quiserdes.
E o Cid responde:
– Não, senhor, eu não irei a terras de Carrión; antes quero voltar a
Valença.
E o rei:
– Está bem, Campeador. Dai-me vossos cavaleiros armados. Eles
irão comigo e eu serei seu protetor; eu vos garanto sua segurança, como
corresponde a senhor de tão bom vassalo e cuidarei para que não sofram
violência alguma de condes nem infanções. E aqui nesta corte dou de [p.
106] prazo três semanas para que este combate se leve a cabo, na várzea
de Carrión, estando eu presente. Quem não vier ao combate perca seu
direito e tenha-se por vencido e traidor.
Os infantes de Carrión dão-se por notificados.
O Cid beija a mão do rei:
– Sob vosso amparo deixo, pois, meus três cavaleiros; como a rei e
senhor, vo-los recomendo. Irão preparados para fazer o que devem.
Devolvei-mos honrados a Valença, pelo amor de Deus.
Responde o rei:
– Deus assim o queira.
Ali o Cid tirou a fina coifa, branca como o sol, deixou ver seus
cabelos e, desatando o cordão, soltou a barba. Ninguém se fartava de
olhá-lo. Ele se aproxima do conde Dom Henrique e do conde Dom
Raimundo; abraça-os e pede que peguem o que quiserem de seus haveres
e o mesmo diz a todos os que estão de seu lado; alguns aceitam, outros
não. Perdoa ao rei os duzentos marcos das bodas e do resto escolhe o que
lhe convém.
– Mercê vos peço, rei, pelo amor de Deus! Já que tudo está acertado,
beijo vossas mãos e, com vossa permissão, quero voltar a Valença, a que
ganhei com tanto afã.
O Cid mandou então obsequiar os mensageiros dos infantes de
Aragão e Navarra com bestas e o mais de que necessitassem. E despediu-
os.
E o rei Dom Afonso cavalgou com todos os altos varões de sua corte
para acompanhar o Cid até fora da cidade. Quando chegaram a
Zocodover, o rei disse ao Cid, que ia montado em seu cavalo Babieca:
– Dom Rodrigo, gostaria que corrêsseis neste cavalo, do qual tanto
ouvi falar.
O Cid, sorrindo, responde:
– Senhor, aqui em vossa corte há muitos altos varões capazes de
fazê-lo; mandai a eles que corram um pouco em seus cavalos.
E disse-lhe o rei:
– Cid, isso é verdade; mas quero que me façais o favor de correr em
vosso cavalo.
[p. 107]

150
O rei admira Babieca, mas não o aceita de presente. Últimas
recomendações do Cid a seus três combatentes. Volta a Valença. O rei em
Carrión. Chega o prazo do combate. Os de Carrión pretendem excluir dele
Colada e Tizona. Os do Cid pedem o amparo do rei e entram em campo. O
rei designa fiscais do campo e adverte os de Carrión. Os fiscais preparam
o combate. Primeira acometida: Pero Bermúdez vence Fernando.

O Cid então picou esporas e deu tal arrancada que todos se


maravilharam de sua carreira. E o rei, benzendo-se:
– Juro por Santo Isidro, o que se venera em Leão, que não há homem
melhor em todas as nossas terras.
Nisto se aproxima o Cid para beijar a mão de seu rei:
– Mandastes-me correr no veloz Babieca; já vedes que não há outro
como ele; aceitai-o, senhor, ofereço-o como presente.
– Não me parece bem, disse o rei; se eu vos privasse dele, o cavalo
já não teria tão bom ginete. Digno é o cavalo de quem o monta, para
vencer em campo e perseguir os mouros; e não valha Deus a quem o tirar
de vós, que por vós e pelo cavalo aumenta nossa honra.
Despediram-se; regressou a corte à cidade. O Campeador aconselha
assim a seus lidadores:
– Eia, Martin Antolínez, Pero Bermúdez e Muño Gustioz, meu bom
vassalo: firmes na lide, como varões; que me cheguem a Valença boas
notícias vossas.
E Martin Antolínez:
– Para que dizê-lo, senhor? Contraímos a obrigação, fica a nosso
cargo; poderão chegar-vos notícias de que alguns morreram, mas não que
se deixaram vencer.
Alegrou-se com estas palavras o que nasceu em boa hora e
despediu-se de todos os seus amigos. O Cid vai para Valença, o rei para
Carrión.
Já se cumpriram as três semanas do prazo. Estão presentes os do
Campeador, que vão satisfazer a obrigação contraída [p. 108]. Ampara-os
Dom Afonso, o leonês. Chegaram dois dias antes dos de Carrión. Estes se
apresentam muito bem providos de cavalos e armas. Aconselham-nos
seus parentes que procurem matar os do Cid no campo, para desonra
daquele a quem servem. Foi mau o propósito e a execução nem sequer
pôde ser começada.
Os do Cid velaram as armas e rezaram. Já passa a noite, vem a
manhã; muitos bons e ricos-homens reuniram-se, com o desejo de
presenciar aquele combate. E vigilante está o rei Dom Afonso, para cuidar
que se imponha o direito, não a injustiça. Já vestem as armas os do Cid,
concertando-se entre si, como defensores do mesmo senhor. Do outro
lado, armam-se os infantes, a quem aconselha o conde Garcia Ordóñez.
Ainda criam dificuldades e vêm pedir ao rei que não intervenham na
contenda Colada e Tizona, que não as usem os do Cid. Muito arrependidos
estão de tê-las devolvido. Disseram isto ao rei, mas ele não concorda:
– Quando fiz as cortes, não deixamos de parte nenhuma espada. Se
as tiverdes boas, bem vos hão de servir, da mesma forma que aos do
Campeador as suas. Eia, pois, infantes de Carrión, saí em campo! É
preciso que luteis como homens, que os do Campeador farão assim. Se
vos sairdes bem, ficareis enaltecidos, se vos derrotarem, não nos culpeis,
pois todo mundo sabe que fostes vós que o procurastes.
Já os infantes de Carrión estão mais que arrependidos de seus
desmandos. Não desejariam tê-los cometido, por tudo o que há em
Carrión.
Já estão armados os do Cid e o rei Afonso vai examiná-los. Os do
Campeador dizem-lhe:
– Pedimos-vos, como a rei e senhor, que sejais juiz das duas partes.
Amparai-nos, que não queremos injustiças. Os infantes de Carrión têm
aqui muita gente e não sabemos o que maquinarão. Nosso senhor
confinou-nos a vossas mãos. Mantende-nos em justiça, pelo amor de
Deus.
E o rei respondeu:
– Fá-lo-ei de todo o coração.
Trazem-lhes os cavalos bons e corredores e eles, depois [p. 109] de
benzerem as selas, montam com presteza. Ao pescoço levam os escudos
com centros de ouro; na mão levam as lanças de aguçadas pontas, onde
pendões flutuam. Muitos homens bons os acompanham. Já chegam ao
campo, onde estão os sinais. Os três do Campeador puseram-se de acordo
para ferir com todo o vigor os inimigos. Eis de outra parte os infantes,
muito bem acompanhados, porque têm muitos parentes. O rei designou
juizes de campo para que declarem o que for justo e não disputem entre si
sobre o sim e o não. Quando todos estão no campo, diz o rei Dom Afonso:
– Ouvi o que vos digo, infantes de Carrión: em Toledo queria fazer
este combate, vós não o quisestes. A estes três cavaleiros do Cid, trouxe-
os resguardados até Carrión. Cumpri agora com vosso direito, não façais
injustiças que, ao que tal pretender, eu o vedarei, e não há de achar paz
em todo o meu reino.
Ai, quanto lhes pesa de seus desmandos aos infantes de Carrión!
Os juizes e o rei assinalam os marcos e logo saem do campo,
fazendo entender claramente aos seis cavaleiros que quem sair dos
marcos será dado por vencido. Todos os que assistem ficam à distância de
seis hastes de lança dos marcos.
Sorteiam o campo, dividem o terreno, saem os juizes até o meio do
campo. De um lado, vêm os do Cid contra os de Carrión e de outro, estes
contra aqueles, cada um observando o avanço de seu contrário. Abraçam
os escudos sobre o peito, abaixam as lanças, inclinam-se sobre os arções,
picam esporas e arrancam, com um ímpeto que faz tremer a terra. Cada
um avança sobre seu contrário; já se juntam três contra três; os
espectadores pensam que, a qualquer momento, vão cair mortos os
combatentes.
Pero Bermúdez, o que desafiou primeiro, enfrenta-se com Fernando
González e ambos, sem medo, golpeiam-se nos escudos. Fernando
traspassa o escudo de Pero, mas dá no vazio e não lhe alcança as carnes,
quebrando a lança em duas partes. Manteve-se firme Pero Bermúdez e
não se desviou. Se um golpe recebe, outro desfere; quebra e arranca o
fecho central [p. 110] do escudo de seu adversário e trespassa-o sem
resistência. Meteu-lhe a lança no peito, perto do coração; Fernando tinha
três dobras de loriga e isso lhe valeu, porque duas romperam-se mas a
terceira resiste A túnica acolchoada e a camisa entraram-lhe na carne, na
largura de uma mão e começou a botar sangue pela boca. O cavalo caiu
sobre as ancas e todos crêem que está ferido de morte. Dom Pero deixou-
lhe cravada a lança e empunhou a espada. Fernando González, que isto
vê, reconhece a Tizona e, sem esperar o golpe, exclama:
– Estou vencido.
Os juizes outorgam e Pero Bermúdez se afasta.

151
Martin Antolínez vence Diogo.

Dom Martin e Diogo González arremetem com as lanças e tais foram


os golpes que ambos as quebraram. Martin Antolínez lançou mão da
espada e é tão limpa e clara que o campo todo resplandece. De um golpe
arranca o elmo do adversário, cortando-lhe todas as correias; descobriu o
capuz, chegou à coifa, raspa-lhe pelos cabelos, entra-lhe na carne.
Sentindo o golpe da preciosa Colada, Diogo González compreende
que não escapará com vida. Puxa a rédea para virar-se de frente e, ainda
que traga a espada na mão, não pode usá-la. Martin Antolínez recebe-o na
ponta da Colada, dando-lhe um soberbo golpe. A isto, o infante começa a
gritar, descomposto:
– Valha-me Deus, que está na glória! Livra-me, Senhor, desta
espada!
Refreia então o cavalo e, distanciando-se da temida espada, passa
os marcos. Dom Martin continua no campo. Disse o rei:
– Vinde a meu lado. Já vencestes o combate. E, como era verdade,
outorgaram-no os juízes.
[p. 111]

152
Muño Gustioz vence Asur González. O pai dos infantes declara terminado
o combate. Os do Cid voltam cautelosamente a Valença. Alegria do Cid.
Segundo casamento de suas filhas. O jogral acaba seu poema.

Já venceram os dois. Agora vos direi como Muño Gustioz combateu


com Asur González. Descarregaram-se grandes golpes sobre os escudos.
Asur González, bravo e forte, rompe a armadura de Gustioz, mas a lança
desliza no vazio, sem alcançar a carne. Então Muño Gustioz ataca, quebra-
lhe o escudo pelo centro, estropeia-lhe as armas, mete a lança e o pendão
pelo corpo do adversário, atravessando-o pelo outro lado. Depois sacode-o
sobre a sela e, ao tirar a lança, derruba-o no chão. Tintos de sangue estão
a lança e o pendão. Todos pensam que está ferido de morte. Muño
empunha outra vez a lança e vai sobre o caído. Aqui grita Gonzalo
Ansúrez:
– Não o toqueis, por Deus! Vencido está o combate, acabou-se.
E os juizes confirmam:
– Já o ouvimos.
O bom rei Dom Afonso manda então desocupar o campo e toma
para si as armas que estão no chão. Os do Campeador estão gloriosos;
graças a Deus, triunfaram no combate. Em terras de Carrión ficam todos
pesarosos.
O rei mandou que os do Cid saíssem de noite, para que não
houvesse temor de assalto. Eles, prudentemente, põem-se a caminhar dia
e noite. Ei-los já em Valença com o Cid. Maltratados deixaram os Carrions
e cumpriram seu compromisso. Quanto se alegra com isto o bom Cid!
Muito desonrados ficam os de Carrión. Tal venha a suceder ou ainda pior a
quem escarnecer de sua boa dama e depois a deixar.
Mas deixemos estas coisas dos infantes que estão muito pesarosos
do castigo. Falemos do que nasceu em boa hora. Grandes festas há em
Valença, a maior, porque os do Cid saíram daquele lance com glória. Rui
Dias acaricia as barbas e exclama:
[p. 112]
– Louvado seja o rei dos céus! Já minhas filhas estão vingadas. Agora
sim estão quites de suas herdades de Carrión. Já posso casá-las, sem
vergonha, doa a quem doer.
Os de Navarra e Aragão fizeram seus ajustes, tiveram conselho com
o rei Dom Afonso e finalmente se casaram Dona Elvira e Dona Sol. Se
grandes foram as primeiras bodas, estas são maiores e a casa fica muito
mais honrada que antes. Vede, pois, como se enaltecia o que nasceu em
boa hora, que já suas filhas são senhoras de Aragão e de Navarra. Hoje os
reis da Espanha são seus parentes e todos crescem em honra pelo que
nasceu em claro dia.
Nosso bom Cid, senhor de Valença, deixou o mundo na Páscoa de
Pentecostes. Deus lhe tenha perdoado e assim faça com todos nós, justos
e pecadores.
Estas são as façanhas do Cid Campeador.
E chegando a este ponto, acaba-se a canção.
[p. 113]
BIBLIOGRAFIA

1 – ANÔNIMO. Poema del Cid. Texto antiguo preparado por Menéndez


Pidal, seguido de prosificación moderna por Alfonso Reyes. 4. ed.
Buenos Aires, Espasa-Calpe, 1948.
2 – BANDEIRA GÓMEZ, Cesáreo. El “Poema de Mio Cid”: poesia, historia,
mito. Madrid, Gredos, 1969.
3 – CHASCA, Edmund de. El arte juglaresco en el “Cantar de Mio Cid”.
Madrid, Gredos, 1967.
4 – ENÉNDEZ PIDAL, Ramón. Cantar de Mio Cid; texto, gramática y
vocabulário. Madrid, Espasa-Calpe, 1944.
5 – ________________. De primitiva lirica y antiqua épica española. Buenos
Aires, Espasa-Calpe, 1951.
6 – VALBUENA PRAT, Ángel. Literatura castellana. Barcelona, Editorial
Juventud, 1974.
[p. 114]

http://groups.google.com.br/group/digitalsource
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