UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA PAULO ROBERTO DA SILVA GOMES FILHO

CASTELLO BRANCO E A ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). A INFLUÊNCIA E O LEGADO DO MARECHAL PARA A FORMAÇÃO DE LIDERANÇAS DO EXÉRCITO BRASILEIRO

Rio de Janeiro - RJ 2010

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PAULO ROBERTO DA SILVA GOMES FILHO

CASTELLO BRANCO E A ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). A INFLUÊNCIA E O LEGADO DO MARECHAL PARA A FORMAÇÃO DE LIDERANÇAS DO EXÉRCITO BRASILEIRO

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Especialização em História Militar como requisito parcial para a obtenção do título de especialista em História Militar.

Orientador: Prof Karla Leonora Dahse Nunes, Dr

Rio de Janeiro - RJ 2010

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PAULO ROBERTO DA SILVA GOMES FILHO

CASTELLO BRANCO E A ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). A INFLUÊNCIA E O LEGADO DO MARECHAL PARA A FORMAÇÃO DE LIDERANÇAS DO EXÉRCITO BRASILEIRO

Este Trabalho de Conclusão de Curso foi julgado adequado à obtenção do título de especialista em História Militar aprovado em sua forma final pelo Curso de.História Militar, da Universidade do Sul de Santa Catarina.

___________________________________________ Prof e orientadora Karla Leonora Dahse Nunes, Dr Universidade do Sul de Santa Catarina

Rio de Janeiro - RJ 2010

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Àqueles que diariamente sobem aos tablados das salas de aula da ECEME, formando gerações de líderes do Exército Brasileiro.

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AGRADECIMENTOS

À Angelita e às crianças, pela paciência. À professora Dr Karla Leonora Dahse Nunes, pela atenção e incentivo.

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“O maior inimigo da vida militar é a rotina, até mesmo a rotina da perfeição. Em nossa carreira precisamos estar sempre em movimento, para que nunca enferrujemos. Mudar sempre, sempre que possível para melhor, mas mudar. Não deixe nunca que as coisas fiquem paradas porque a nossa profissão é essencialmente dinâmica.” (Castello Branco).

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RESUMO Humberto de Alencar Castello Branco é um personagem importante da história brasileira. Foi Marechal, Presidente da República, Oficial de Operações da Força Expedicionária Brasileira. Mas, além destas funções destacadas e conhecidas, foi também Aluno, Instrutor, Diretor de Ensino e Comandante da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Este trabalho objetivou levantar todas as funções desempenhadas pelo Mal Castello Branco em suas passagens pela ECEME; identificar quais foram as decisões de Castello que tiveram impacto sobre o ensino da doutrina militar terrestre da escola; levantar quais foram as sua ações e decisões que modificaram aspectos relevantes da forma como eram ministradas as instruções e compreender quais os reflexos das decisões que tomou na direção de ensino da escola e durante o seu comando que ainda repercutem na maneira como são ministradas as instruções na ECEME nos dias atuais.

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ABSTRACT Humberto de Alencar Castello Branco is an important character in the history of Brazil. He was Marshall, President and Operations Officer of the Brazilian Expeditionary Force. But beyond these functions he was also Student, Teacher, Director of Education and the School Commander of Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). This study aimed to lift all functions performed by Mal Castello Branco in their passages through ECEME; identify what were the decisions of Castello that impacted on the teaching of military doctrine in the school; check which were his actions and decisions that changed important aspects of how the instructions were given and and understand what the consequences of the decisions taken in the direction of teaching and during his command that still reverberate in the way classes are given in ECEME

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LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Imagem 1 – Gen Girard ............................................................................... 16 Imagem 2 – Escola Militar da Praia Vermelha ............................................. 16 Imagem 3 – Turma Pioneira ........................................................................ 17 Imagem 4 – Integrantes da Missão Militar Francesa ................................... 18 Imagem 5 – ECEME – sede atual ................................................................ 19 Imagem 6 – Castello Branco aluno do CMPA.............................................. 25 Imagem 7 – Castello Branco no Estado Maior da FEB ............................... 29 Imagem 8 – Acervo Mal Castello Branco ..................................................... 36 Imagem 9 – Acervo Mal Castello Branco ..................................................... 36 Imagem 10 – Página eletrônica da ECEME................................................. 39

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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

CPEAEx ECEME EEM EME EMFA EsAO FEB Mal

Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército Escola de Comando e Estado-Maior do Exército Escola de Estado-Maior Estado-Maior do Exército Estado-Maior das Forças Armdas Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais Força Expedicionária Brasileira Marechal

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO .................................................................................................. 11 1.1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS ......................................................................... 11 1.2 O PROBLEMA ................................................................................................ 12 1.3 JUSTIFICATIVA .............................................................................................. 12 1.4 OBJETIVOS .................................................................................................... 13 1.4.1 Objetivo geral ............................................................................................. 13 1.4.2 Objetivos específicos ................................................................................ 13 1.5 METODOLOGIA ............................................................................................. 13 2 A ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO .................... 15 2.1 AS ORIGENS DA ESCOLA ............................................................................ 15 2.2 AS INFLUÊNCIAS ESTRANGEIRAS SOBRE A ESCOLA ............................. 17 2.3 A DOUTRINA “AUTÓCTONE” ........................................................................ 22 3 CASTELLO BRANCO E A ECEME .................................................................. 25 3.1 O MILITAR ...................................................................................................... 25 3.2 DIRETOR DE ENSINO DA ECEME ............................................................... 29 3.3 COMANDANTE DA ECEME ........................................................................... 34 3.4 A INFLUÊNCIA DE CASTELLO BRANCO SOBRE A ECEME ATUAL ........... 36 4. CONCLUSÕES ................................................................................................ 39

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1 INTRODUÇÃO 1.1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS A Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) é o estabelecimento de ensino de mais alto nível do Exército Brasileiro. Nela são ministrados cursos para os oficiais superiores do Exército que irão desempenhar os cargos de assessoramento, comando e chefia. O Curso de Altos Estudos Militares (CAEM), principal curso oferecido pela escola, é pré-requisito para que o oficial do exército possa almejar a promoção ao generalato. Em 11 de junho de 2005, por ocasião das comemorações do centenário do estabelecimento de ensino, este recebeu, por portaria do Comandante do Exército, a denominação histórica de “Escola Marechal Castello Branco”. Tal homenagem foi consignada em razão da marcante trajetória do marechal na ECEME, face aos seus treze anos passados como instrutor, diretor de ensino e comandante. O primeiro contato de Castello com a ECEME (à época denominada Escola de Estado- Maior - EEM) ocorreu entre 1929 e 1931, como discente do Curso de Comando e Estado-Maior. Aluno brilhante, terminou o curso em primeiro lugar, o que lhe valeu, em 1936, a oportunidade de cursar a Escola de Guerra, na França. Entre 1934 e 1936, o então capitão serviu pela primeira vez como instrutor na EEM. Ao retornar da França, em 1939, Castello voltou à EEM, permanecendo até 1941. Após a II Guerra Mundial, onde desempenhou a função de Oficial de Operações da Força Expedicionária Brasileira (FEB), Castello retorna pela 4ª vez à EEM, desta vez como Diretor de Ensino, entre 1946 e 1949. Finalmente, entre 1954 e 1955, já como oficial general, Castello retorna pela última vez ao aquartelamento da Praia Vermelha, desta vez como comandante. Deste modo, verifica-se que o Marechal Castello Branco certamente contribuiu para a formação de várias gerações de oficiais de estado-maior do Exército Brasileiro. Neste sentido, vejamos o que consta na Revista da ECEME (2005, p.42):
O Marechal Castello Branco aqui chegara (à ECEME) para realizar a transição da doutrina militar francesa, ainda uma realidade dos bancos escolares para a doutrina norte-americana [...] impôs mudança radical na ECEME: o ritmo de trabalho foi intensificado e programas e notas de instrução foram reformulados.

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1.2 O PROBLEMA Assim, a questão que se impõe e que se pretende responder no presente trabalho é levantar quais foram, efetivamente, as contribuições de Castello ao sistema de ensino na ECEME e como estas contribuições influenciaram a formação das lideranças do Exército Brasileiro.

1.3 JUSTIFICATIVA Como já foi dito, a ECEME é passagem obrigatória, já há mais de um século, para todas as lideranças do Exército Brasileiro. Todos os comandantes de Organizações militares fizeram o curso da escola. Todos os generais combatentes do Exército Brasileiro também. É evidente que a formação recebida na ECEME influenciou de alguma forma estes chefes militares. A visão de mundo, a ideologia, a forma de solucionar os problemas é, em grande parte, fruto das experiências vivenciadas naquelas salas de aula. Castello Branco foi um protagonista da história nacional. Era o Chefe do Estado-Maior do Exército por ocasião da revolução de 1964. Foi o primeiro presidente do regime militar. É plausível que Castello tenha influenciado de alguma forma as suas turmas de instruendos. Mais ainda, que quando alçado às funções mais importantes, de Chefe da Divisão de Ensino e Comandante, tenha empreendido ações que tenham influenciado significativamente o sistema de ensino da escola. Neste sentido, o General Ferdinando de Carvalho, em depoimento à revista da ECEME (2005, p. 40) declara “... (Castello Branco) revia pessoalmente e nos mínimos detalhes todos os temas, notas e provas, submetendoos a uma inspeção rigorosa e inflexível.” Declarações como as acima citadas e a própria decisão do Exército Brasileiro de conceder a denominação histórica à escola em homenagem ao Mal Castello Branco são fortes indícios de que o militar teve uma marcante passagem pela ECEME. Entretanto, nas pesquisas realizadas, não se encontrou uma fonte que apresentasse tais ações de forma ordenada e objetiva e, mais ainda, em que medida tais ações influenciaram na formação das lideranças diplomadas pela ECEME. Assim, a relevância do trabalho encontra-se em buscar tal relação de causa e efeito, para desta maneira colaborar na busca do entendimento da forma de pensar e agir dos chefes militares do Exército no último quartel do século XX e início do século XXI.

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1.4 OBJETIVOS

1.4.1 Objetivo Geral Investigar e refletir sobre as diversas ações, decisões e formas de agir e pensar do Mal Castello Branco enquanto instrutor, chefe da divisão de ensino e comandante da ECEME. 1.4.2 Objetivos Específicos Levantar todas as funções desempenhadas pelo Mal Castello Branco em suas passagens pela ECEME. Identificar quais foram as decisões de Castello que tiveram impacto sobre o ensino da doutrina militar terrestre na ECEME. Levantar quais foram as ações e decisões de Castello que modificaram aspectos relevantes da forma como eram ministradas as instruções na escola. Compreender quais os reflexos das decisões que Castello tomou na direção de ensino da escola e durante o seu comando que ainda repercutem na maneira como são ministradas as instruções na ECEME nos dias atuais.

1.5 METODOLOGIA O trabalho foi desenvolvido por intermédio de uma pesquisa bibliográfica e documental realizada em sua maior parte nos documentos constantes do acervo da Biblioteca da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, no Rio de Janeiro. Esta biblioteca mantém em acervo uma grande quantidade de documentos que pertenceram ao próprio Mal Castello Branco, doados por sua família, em 1968. Foram seguidos os seguintes passos: - levantamento da bibliografia e de documentos pertinentes; - seleção da bibliografia e documentos; - leitura da bibliografia e dos documentos selecionados; - montagem de arquivos: ocasião em que serão elaboradas as fichas bibliográficas de citações, resumos e análises; - análise crítica e consolidação das questões de estudo. Os vestígios do passado pesquisados neste trabalho foram submetidos a uma análise crítica fundamentada na autenticidade, na representatividade e na sinceridade. A autenticidade e representatividade dos documentos do acervo pessoal do Marechal Castello Branco, arquivados na Biblioteca da ECEME são claramente relevantes, não

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podendo ser questionados. A sinceridade dos relatos pessoais colhidos sobre o pesquisado foi analisada segundo parâmetros de isenção, de modo que o pesquisador procurou comparar testemunhos e considerar os interesses envolvidos nos citados relatos.

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2 A ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO 2.1 AS ORIGENS DA ESCOLA Frederico II, da Prússia, foi o primeiro a empregar um serviço de estado-maior. O aparecimento deste se deveu ao surgimento das novas necessidades de controle e coordenação dos exércitos nos conflitos bélicos. Na guerra Franco-Prussiana, em 1870, as assessorias aos chefes militares começam a se destacar, tanto no planejamento quanto no controle das operações militares. Entretanto, apenas no final do século XIX, na França, surgiria uma escola voltada para o ensino e formação de oficiais de estado-maior. No Brasil, com a vinda da família real para o Brasil em 1808, iniciaram-se no país as atividades de Estado-Maior, com a criação do Quartel-General da Corte. Não havia, entretanto, uma instituição de ensino que formasse ou especializasse oficiais para o desempenho destas funções. Decorridos quase cem anos desde o surgimento das atividades de estadomaior no país, tal lacuna foi preenchida com a criação da Escola de Estado-maior (EEM), por decreto presidencial, em 02 de Outubro de 1905. Corria o governo do terceiro Presidente da República, Rodrigues Alves, sendo ministro da guerra o General Francisco de Paula Argolo. A finalidade da criação da escola está contida no artigo 49 do citado decreto:
Art 49 Esta escola fica sob imediata inspeção técnica do chefe do estado-maior do exército; tem por fim proporcionar aos oficiais, até o posto de capitão, inclusive, que tenham o curso de sua arma, a instrução militar superior que os habilite para o serviço de estado-maior no exército e funcionará em uma dependência da repartição do Estado-Maior do Exército. O seu curso será de 24 meses, não sendo permitida a repetição de nenhum dos períodos em que ele é repetido.

A inspiração para esta criação foi buscada na Escola Superior de Guerra da França, na Kriesakademie de Berlim e na Escola de Guerra de Turim. O primeiro programa da escola abrangia Geografia Militar, Tática aplicada, História das principais campanhas, Estratégia, Serviço de Estado-maior, Astronomia, Direito Militar e Internacional, Higiene Militar, Noções de economia política, Espanhol e Francês (ambos obrigatórios), além de Inglês e Alemão a escolher. O curso era feito em dois anos letivos. A primeira sede da então EEM foi emergencial e provisória: as instalações da Direção de Contabilidade da Guerra, sediada no atual Palácio Duque de Caxias, no centro do Rio de Janeiro. O primeiro comandante da escola foi o General-de-brigada José Maria Girard.

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Imagem 1 – Fotografia de Gen Girard Fonte – Acervo da biblioteca da ECEME

Em 1907, a escola se mudou para a Praia Vermelha, na zona sul da cidade, ocupando as instalações que anteriormente abrigaram a Escola Militar do Brasil. Esta sede, também provisória, abrigou a escola em dois períodos alternados: inicialmente, entre 1907 e 1908 e depois, entre 1910 e 1918. No intervalo entre 1908 e 1910, a sede da Praia Vermelha foi cedida ao Ministério da Indústria para a exposição comemorativa referente ao centenário da abertura dos portos brasileiros.

Imagem 2 - Escola Militar da Praia Vermelha Fonte - Acervo da biblioteca da ECEME

Nestes dois anos a escola ocupou uma terceira sede – as instalações da Direção de Saúde, nas proximidades da Praça da República, no centro do Rio de Janeiro. Foi nesta sede emergencial que no dia 30 de abril de 1909 ocorreu a solenidade de formatura da primeira turma de oficiais formada em uma Escola de EstadoMaior no Brasil.

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Imagem 3 – A turma pioneira Fonte – Acervo da Biblioteca da ECEME

Em 1910, ao retornar à sede da Praia Vermelha, a escola passou a viver o auge da reforma implementada pelo general Hermes da Fonseca.

2.2 AS INFLUÊNCIAS ESTRANGEIRAS SOBRE A ESCOLA Em 1909, a reforma Hermes da Fonseca introduziu a primeira modificação no currículo da escola. O idioma alemão passa a ser obrigatório, o ensino da Estratégia e da História Militar passou a ser mais objetivo. O curso passou a ter mais um ano letivo.
Tendo sido comandante da Escola Prática do Realengo e do 4º Distrito Militar, o Marechal Hermes da Fonseca era um grande admirador do Exército Prussiano, devido ao seu elevado grau de profissionalismo, que permaneceu no exército Alemão depois da unificação germânica ( ECEME, A escola do método, 2005, p.161)

No início da década de 1910, tornou-se um assunto dominante na escola a necessidade de se contratar uma missão militar estrangeira para o Brasil. Debatiam-se as vantagens e desvantagens da contratação de uma missão francesa ou alemã. Os “jovens turcos”, tenentes e capitães brasileiros enviados por Hermes da Fonseca à Alemanha para estagiarem, trouxeram, apesar de efêmera no tempo, uma importante contribuição e um forte impulso à profissionalização do exército nacional. Entretanto, com o início da 1ª Grande Guerra e a consequente declaração de guerra à Alemanha, o Brasil decide pela contratação, em 1919, da Missão Militar Francesa. Assim, instrutores franceses foram recebidos no país e passaram a conduzir os destinos da instrução militar nas escolas brasileiras, especialmente na EEM e na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais do Exército (EsAO). Entre 1920 e 1940, a EEM passa a funcionar numa sede construída especificamente para abrigá-la, na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca. Esta foi a sede onde atuou a missão militar francesa. A missão militar francesa iniciou seus trabalhos na EEM em 7 de abril de 1920.

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O general francês Emile Gamelin, chefe da missão militar salientou em seu primeiro discurso que “Não será por um ensino dogmático, mas por um esforço pessoal constante, pelo que chamamos método do caso concreto que trataremos de ensinar-vos a guerra.” Neste ponto é interessante salientar que tal metodologia (estudo de caso) é uma importante técnica de ensino utilizada na ECEME até os dias atuais. O trabalho da missão militar francesa pode ser dividido em três períodos: no primeiro período, os oficiais franceses foram encarregados de todos os trabalhos de ensino da escola, sendo os instrutores também franceses. Neste período os franceses substituíram o caráter teórico e cientificista por uma abordagem eminentemente prática dos problemas militares. Baseava-se na resolução de casos concretos na carta topográfica e no terreno, o que era uma grande novidade para a época. Os franceses disseminaram um culto à ação, uma verdadeira apologia à prática. No segundo período, que se caracterizou pela subida ao poder dos revolucionários de 1930, a missão teve sua constituição reduzida. Entretanto, permaneciam responsáveis pelos currículos e eram auxiliados por instrutores brasileiros na instrução. Na terceira e última fase, os militares franceses passam a exercer unicamente a função de conselheiros.

Imagem 4 - Integrantes da missão militar francesa Fonte – Acervo da biblioteca da ECEME

Os membros da missão militar francesa encontravam-se ainda na escola quando foi iniciado o intercâmbio entre os exércitos do Brasil e dos Estados Unidos, em 1938.
Em 5 de junho de 1939, segundo previa o boletim escolar nº 125, de 31 de maio de 1939, a missão militar norte-americana visitou a Escola de Estado-Maior. Era chefiada pelo general George Marshall, responsável pela mobilização (para a guerra) do exército dos Estados Unidos. Em contrapartida, de acordo com o boletim escolar 131, de 7 de junho de 1939, o general Góis Monteiro, então chefe do Estado-Maior do Exército e um dos mais destacados professores assistentes

19 brasileiros da missão militar francesa, viajou com aquela autoridade norteamericana no seu regresso aos EUA.(ECEME, a escola do Método, 2005, p. 180)

A fase da influência francesa finalmente encerra-se em 1940, coincidindo com a mudança da Escola para suas atuais instalações, na Praia Vermelha, Urca, Rio de Janeiro. Esta sede, ao ser inaugurada, em 24 de junho de 1940, compreendia um prédio amplo e moderno, condizente com as necessidades de ensino da escola.

Fotografia 5 - ECEME – sede atual Fonte – Página eletrônica da ECEME

A partir de 1939, com o início da II Guerra mundial, inicia-se um período de entrechoque de influências sobre o pensamento militar nacional. A influência francesa vai sendo suplantada pela norte-americana. Em 23 de maio de 1942, criou-se a Comissão mista Brasil – Estados Unidos, que estabeleceu normas e condições para a colaboração entre os dois países em defesa do continente americano durante a guerra. No mesmo ano, após a declaração brasileira de guerra à Alemanha e Itália, deliberou-se sobre as formas de participação do Brasil na guerra. Oficiais brasileiros passaram a ser enviados para realizarem cursos, em fluxo contínuo, nas escolas militares norte-americanas.
Em 1943, o comandante da escola, Coronel Henrique Batista Duffles Teixeira Lott partiu para os Estados Unidos para estagiar no exército norte-americano. O estado de guerra incentivou a decisão de ampliar a quantidade de vagas de oficiais de estado-maior, estimulando o crescente número de diplomados em 1942, 1943 e 1944. (ECEME, a escola do Método, 2005, p. 180).

Num breve período, foram adaptadas organizações administrativas e operacionais, traduzidos regulamentos e adotados métodos e processos de gerência e instrução em vigor na força terrestre dos EUA na qual também se adquiriu material bélico.

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Com a formação da Força Expedicionária Brasileira, em 1944, deslocaram-se para o teatro de operações da Itália diversos oficiais instrutores da Escola de EstadoMaior, dentre eles o tenente-coronel Humberto de Alencar Castello Branco, que desempenhou a função de Chefe da Seção de Operações da FEB. O regresso vitorioso da FEB favoreceu a transmissão dos ensinamentos vitoriosos aos alunos da escola, desta forma o ensino passou a ser influenciado pela doutrina militar norte-americana. A transição entre a influência francesa e a norte-americana não foi fácil. O orgulho profissional da geração que por vinte anos havia sido influenciada pelas idéias e concepções francesas foi ferido pelas novas idéias. Em alguns casos as mudanças foram traumáticas mesmo. Inconformados com as modificações, alguns instrutores deixaram a escola. Segundo o general Tristão de Alencar Araripe, comandante à época, aquele foi um “período de renascimento”.
O principal mentor desta fase, cuja implantação exigiu firmeza de caráter, disciplina intelectual para chefes e subordinados foi o tenente-Coronel Humberto de Alencar Castello Branco, oficial de operações da Força Expedicionária Brasileira [...] acompanhado de um seleto grupo de oficiais experimentados em duros combates, assumiu em 1946 a função de diretor de ensino e de subcomandante da Escola de Estado-Maior. ECEME (ECEME, a escola do Método, 2005, p. 183)

Durante a fase de influência norte-americana, a duração do curso de EstadoMaior foi de três anos. A divisão dos assuntos propostos era a seguinte:

no primeiro ano – estudo da técnica e da tática combinada das

pequenas unidades das armas, com iniciação ao estudo da tática geral e estudos referentes à cultura geral.

no segundo ano – estudo completo da divisão de infantaria, da divisão no terceiro ano – estudo completo do corpo de exército, das unidades

de cavalaria e da organização e missão das forças aéreas.

motorizadas e blindadas e início do estudo do escalão exército de campanha.”

De maneira diferente de como ocorreu na Missão Francesa, não havia instrutores norte-americanos na escola. Estes frequentavam-na apenas como convidados, ministrando palestras. Em alguns períodos, houve a presença de um oficial daquele país na escola, desempenhando a função de oficial de ligação. Entretanto, a influência norte-americana foi fortemente sentida a doutrina ministrada na escola, pelo conteúdo de seus manuais e pela experiência vivida pelos oficiais, ex-integrantes da Força Expedicionária Brasileira, que por sua vez subordinavase ao V Corpo de Exército dos EUA na Itália. As consequencias ideológicas e estratégicas da II Guerra Mundial também

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influenciavam o ensino e a escola passou a estudar temas voltados para a defesa nuclear e a guerra insurrecional. Em 1952, dez anos após a criação da comissão mista Brasil-Estados Unidos, o acordo militar entre os dois países foi confirmado. Novos compromissos de assistência militar recíproca foram assumidos, inclusive com o fornecimento de material norteamericano para o Brasil.
A década de 50 foi o auge da influência norte-americana em todos os países alinhados aos Estados Unidos, no quadro de bipolaridade ideológica e estratégica. Tal influência não transparecia somente no campo militar, mas no rádio, nas manifestações culturais em geral e no consumo extensivo de produtos norteamericanos. Nesse quadro, a influência militar norte-americana encontrava resistência natural no idioma e nas realidades socioeconomicas dos dois países. Dessa forma, manuais e exercícios operacionais e logísticos, pautados nos trabalhos das escolas de Estado-Maior do exército dos EUA, em virtude do nível de disponibilidade financeira dos EUA, dos seus objetivos políticos e estratégicos, de suas possibilidades e vulnerabilidades, nem sempre se adequavam à situação brasileira ou ao teatro de operações sul-americano. Esse fato dificultava sobremaneira o acompanhamento dos alunos nos trabalhos escolares, o que restringia a intensidade da ação da influência norte-americana sobre o ensino da escola. (A escola do Método,2005 p. 186-187).

Ao completar cinquenta anos de história, em 1955, quando a escola era comandanda pelo então General Castello Branco, foi decretado o nono regulamento da escola, introduzindo importantes modificações e alterando o nome da escola, que passa a funcionar com o seu nome atual: Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Com o novo regulamento, a escola amplia seu alcance, passando a funcionar com três cursos: comando e estado-maior, chefia de serviços e curso de instrutores.
Art 10º – O curso de comando e estado-maior para oficiais das armas destina-se a: – formar oficiais para as funções de estado-maior das grandes unidades das forças terrestres em campanha; – ministrar conhecimentos essenciais para a formação de comandantes de grandes unidades das forças terrestres. – Iniciar a preparação de oficiais de estado-maior para o tempo de paz. Art 11º – o curso de chefia de serviços destina-se a preparar oficiais dos serviços nas grandes unidades das forças terrestres e para o comando de unidades de serviços no escalão exército e zona de administração.

A influência doutrinária norte-americana prevaleceu no ensino da Escola de Estado-Maior até 1959, quando um evento teve grande influência sobre os rumos do ensino: um seminário sobre o tema “Demonstração de Estudos Sobre a Guerra Moderna”. O evento despertou interesse das três forças armadas, com o comparecimento de oficiaisgenerais que serviam na guarnição federal do Rio de Janeiro, ainda capital do país. Discutia-se as ameaças nucleares e os avanços ideológicos da esquerda

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revolucionária, em especial depois da derrota francesa em Diem-Bien-Phu. No país, a capital federal mudava-se para o Rio de Janeiro. As esperanças desenvolvimentistas e até as eleições presidenciais tinham o poder de dividir opiniões nas discussões militares. O seminário foi objetivo. Valorizou-se a estratégia e a geopolítica. A ameaça da guerra insurrecional foi vislumbrada. A guerra em ambiente nuclear foi estudada. O seminário se caracterizou por ser um momento essencial para a evolução do pensamento militar brasileiro. Após sua realização, a ECEME lançou-se de forma decidida na discussão doutrinária em busca de uma solução própria para os problemas táticos militares. Era a busca por uma doutrina autóctone.
O Brasil teria de prosseguir, com urgência, por trilhas próprias. O estudo da guerra revolucionária passou a ser priorizado pelo Estado-Maior do Exército, pela Escola Superior de Guerra e pela ECEME, para fazer face às ameaças da guerra fria. Aplicada no teatro de operações sul-americano, em especial no Brasil, a concepção de guerra revolucionária viria a influenciar os destinos do Exército. (A escola do Método, p. 188).

É inegável a importância histórica das influências de origem alemã, francesa e norte-americana na evolução do exército brasileiro. 2.3 A DOUTRINA “AUTÓCTONE” Assim, como já foi visto, a partir da década de 60, intensificou-se a busca por uma doutrina nacional, que levasse em conta as características do ambiente operacional sul-americano, do armamento e equipamento nacionais e do soldado brasileiro. Em 1977, foi encerrado o acordo de assistência mútua Brasil – EUA, com repercussões para a evolução de uma doutrina militar brasileira. A medida impôs aquilo que já se buscava: a adoção de material, doutrina e tecnologias nacionais. Tudo isto trouxe repercussões para a organização dos cursos ministrados na ECEME. Uma destas repercussões foi a criação do curso de direção para engenheiros militares. Passaram a ocorrer modificações cada vez mais constantes nos currículos da escola. Em 1979 as disciplinas foram reunidas em 4 conjuntos.
A missão inicial da escola (formação do oficial de estado-maior) seria atendida no conjunto I: Serviço do Estado-Maior e Operações Militares. As missões de preparar comandantes, chefes e diretores e de apoio ao desenvolvimento da doutrina seriam atendidas pelas matérias do conjunto IV, que reunia as disciplinas de cultura geral (História Militar, Estratégia, Economia, Psicologia, Direito Público e Política). O conjunto II tratava especialmente da Segurança Interna e administração e o conjunto III, da ciência e tecnologia e administração. (A escola do Método, 2005, p. 238).

Entre 1981 e 1985, duas mudanças marcaram a evolução do processo ensinoaprendizagem: a liberação à consulta de documentos nas avaliações de ensino e a

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reforma do curso de preparação para a ECEME. Em 1983, foi publicado o 11º regulamento da escola, transformando a estrutura para uma assemelhada à vigente atualmente.
Capítulo III Dos cursos e seus objetivos Art 3º Funcionam na ECEME os seguintes cursos: 1) Curso de Altos Estudos Militares (CAEM) 1 - Curso de Comando e Estado-Maior (CAEM) 2 - Curso de Chefia e Estado-Maior de Serviços (CCEMS) 3 - Curso de Direção para Engenheiros Militares (CDEM) 2) Curso de Preparação (C Prep) 3) Curso de atualização (CADECEME). (BRASIL, Boletim do Exército Nr 7, de 1983)

A lei de ensino do exército foi modificada em 1986 e no contexto desta nova lei foi criado mais um curso na ECEME. O curso de Política, Estratégia e Alta-administração do Exército (CPEAEx)4. Este novo curso abrangia em sua criação as seguintes matérias: economia, política, relações internacionais, ciência e tecnologia, administração, prospectiva mobilização e logística, doutrina militar, estratégia, conjuntura e política e planejamento estratégico do exército. O 12º regulamento da escola foi publicado em 1993. Nele foram incorporadas as modificações ocorridas nos anos anteriores, destacando-se a inclusão do CPEAEx. Em 1994 ocorreu, em Brasília, no Estado Maior do Exército, um simpósio, que teve suas conclusões divulgadas no documento: Política Educacional para o ano 2000. Lançavam-se as bases para a modernização do ensino no Exército.
Essa política considerou a acelerada evolução científica e tecnológica no mundo e no Brasil. A velocidade da informática, da difusão da informação, das transformações do ambiente (político, econômico, social e militar), as novas estruturas (institucionais, não institucionais e organizacionais) e a globalização impuseram modificações no conceito original de educar. Foi estimulada a mudança de comportamento do aluno, colocando-o em posição mais relevante que a do docente. Foram aduzidos novos conceitos à formação geral e à formulação curricular. Deu-se ênfase a adoção de incentivos à atitude de 'aprender a aprender”, importante conceito, muito próximo daquele ressaltado pela ECEME na década de 1950, quando foi interpretado o papel do instrutor como sendo o de fazer do aluno o principal ator na relação ensino-aprendizagem. (A escola do Método, 2005, p. 243).

A atual Lei de Ensino do Exército foi promulgada em 1999. Neste contexto iniciou-se a elaboração do novo regulamento da ECEME, editado em 2001 e ainda em vigor.
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Para os oficias combatentes, duração de 2 anos. Para oficias de intendência e médicos. 3 Duração de um ano. 4 Curso de mais alto nível no Exército, destinado a coronéis das armas, quadros e serviços. Duração de um ano.

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Ainda em 1999, no CPEAEx, passou a ser oferecido o curso de pós-graduação lato-sensu em administração, pela Fundação Getúlio Vargas. Atualmente funcionam os seguintes cursos na ECEME: - Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército 5; - Cursos de Altos Estudos Militares6 Curso de Comando e Estado-Maior Curso de Chefia e Estado-Maior para Oficiais Intendentes Curso de Direção para Engenheiros Militares Curso de Chefia e Estado-Maior para oficiais médicos Curso de comando e Estado-Maior para oficiais de Nações Amigas - Curso de Preparação aos Cursos de Altos Estudos Militares - Curso de Gestão e Assessoramento de Estado-Maior

2.4 CONCLUSÃO PARCIAL Desta forma, neste capítulo procurou-se ambientar o leitor com a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, de forma que se pudesse compreender o ambiente no qual Castello Branco esteve inserido. Verificou-se que a ECEME é oriunda da Escola de Estado-Maior do Exército, criada em 1905, durante o governo do Presidente Rodrigues Alves, sendo ministro da guerra o Gen Francisco de Paula Argolo. A escola foi sediada em diferentes endereços, sempre no Rio de Janeiro, passando a ocupar as atuais instalações da Praia Vermelha em 1940. A escola foi influenciada por doutrinas de diferentes exércitos, desde a doutrina alemã, em seus primórdios, passando pela a doutrina francesa no período entre - guerras e pela doutrina norte-americana, ao término da segunda guerra mundial. Na década de 1950, notam-se os primeiros movimentos pela busca de uma doutrina “autóctone”, que definisse as formas de emprego do exército nacional. A ECEME teve ao longo de sua história, diversos cursos e diferentes currículos. Todos eles voltados para a formação dos oficiais de estado-maior. Estes oficiais sempre constituíram, em última análise, a liderança do Exército Brasileiro ao longo dos tempos, o que confirma a relevância da escola no contexto do exército e mesmo, da nação.

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Objetivos do CPAEX: atualizar e ampliar conhecimentos e preparar o chefe militar. Objetivos do CAEM: capacitar os oficiais ao exercício de cargos e funções do Quadro de Estado-Maior da atica (QEMA) e de oficiais de Estado-Maior.

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3 CASTELLO BRANCO E A ECEME 3.1 O MILITAR Humberto de Alencar Castello Branco nasceu em Messejana, na região metropolitana de Fortaleza, Ceará, em 20 de setembro de 1900. Era filho de um militar, o General de Brigada Cândido Borges Castello Branco, à época capitão, e de Antonieta Alencar, descendente direta do grande escritor José de Alencar. Em 1912 iniciou seus estudos no Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA), participando da primeira turma daquele estabelecimento de ensino.

Imagema 6 – Castello Branco aluno do CMPA (a esquerda) Fonte – Página eletrônica do CMPA

Castello era um aluno dedicado.
Naquele colégio, o “cearense”, como era carinhosamente chamado, dono de uma hábil inteligência, de invulgar firmeza de convicções e de acentuado poder de raciocínio, dedicou-se firmemente aos estudos, destacando-se entre seus companheiros. Foi profundo admirador de Rui Barbosa e leitor assíduo de Machado de Assis, José de Alencar e Eça de Queirós, entre outros, hábito que o levou a ser orador oficial da sociedade literária do Colégio Militar. (ECEME. Bol Esp Nº 06, 2005, p. 3)

Ainda no CMPA, Castello iniciou a formação de seu pensamento militar, influenciando-se pelo pensamento militar alemão, por intermédio das leituras do periódicos “A Defesa Nacional”, publicação voltada para a profissionalização do exército, criada por jovens militares que estagiaram no exército alemão à época, conhecidos como “jovens turcos”. Após o término de seus estudos no chamado à época “período colegial” ingressou na Escola Militar do Realengo, sendo declarado Aspirante à Oficial da arma de Infantaria em 18 de janeiro de 1921. Sua primeira Unidade foi o 12º Regimento de Infantaria (12º RI), em Belo Horizonte, MG. Assim o já presidente Castello Branco se referiu àquela passagem de sua

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vida:
Trazia do Realengo a convicção de bem servir ao Brasil, o entusiasmo pela carreira das armas e a curiosidade pelas múltiplas funções que iria desempenhar. Iniciei a vida na caserna participando de uma ruptura dos processos de combate de antes da Primeira Guerra Mundial para a adoção das técnicas, já então ensinadas nas escolas, pela Missão Militar Francesa. A luta que presenciei entre o velho e o novo foi breve, caindo a cada passo as restrições e os preconceitos, ficando para trás a passividade da preguiça intelectual e constituiu ensinamento durante toda a a minha carreira, onde estão sempre presentes para mim, em outras fases decisivas da nossa evolução militar. (CASTELLO BRANCO, 1967 apud ECEME, Bol Esp Nº06, 2005, p.3)

Castello serviu no 12º RI durante três anos, saindo daquela Unidade em 1924, para cursar a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, quando concluiu o curso em 2º lugar, com a menção Muito Bem (MB). EM 1927, sua longa carreira de instrutor teve início, ao participar da formação de oficiais na Escola Militar do Realengo. Nos anos de 1929, 1930 e 1931, ainda primeiro tenente, cursou a Escola de Estado-Maior, então sob a orientação da Missão Militar Francesa. Foi classificado em primeiro lugar na turma, sendo o único a atingir a menção “trés bien” e o grau final oito. Em 1932, estagiou no Estado-Maior do Exército, sendo promovido a Capitão. Em 1933 retornou à escola, como instrutor. Neste período desempenhou as funções de adjunto do diretor de ensino tático e de professor adjunto de tática geral. Seus chefes destacam, no jovem Capitão “a aptidão didática e a inexcedível dedicação às suas funções” (Costa, 1978 apud Santos organizado por Paula, 2004, p. 15). Nesta época, serviu pela primeira vez com o então coronel João Baptista Mascarenhas de Morais, futuro comandante da Força Expedicionária Brasileira, Em 1935, retornou à tropa, servindo no 15º Batalhão de Caçadores, em Curitiba e no 13º Regimento de Infantaria, em Ponta Grossa/PR. Em 1936 retorna uma vez mais à ECEME, como professor de Tática e de História Militar. Todo este tempo em que Castello serve como instrutor ocorreu justamente em um período em que a vida política do país vivia um momento fortemente conturbado. A fase histórica foi marcada pela Revolução de 1930, pela Revolução Constitucionalista de 1932 e seus desdobramentos. Apesar de se manter afastado de episódios políticos, como por exemplo, o ocorrido em 1922 no Forte de Copacabana. Castello desenvolvia intensa atividade intelectual. É deste período uma série de artigos que publicou na imprensa, sob o pseudônimo do “Coronel Y”, onde seus pensamentos e ideias acerca da conjuntura

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nacional podem ser percebidas.
Pertencer ao exército e exercer, ao mesmo tempo, um cargo político, ter acesso aos postos militares como deputado ou funcionário civil, é estabelecer um paralelismo de exercício de funções incompatíveis. É dar ao militar uma situação de privilégio, perniciosa aos quadros oficiais, lesiva e prejudicial aos direitos dos que trabalham nos cargos da profissão das armas [...] (Castello Branco, 1967 apud ECEME, Bol Esp Nº06, 2005, p.4)

Em 1937, ainda capitão, foi enviado à França, onde cursou a Escola Superior de Guerra daquele país. Retornou ao Brasil e à escola em 1939, sendo promovido à major e permanecendo como instrutor de Tática e de História Militar até 1941, ano em que foi designado para comandar o Batalhão de Cadetes de Infantaria da Escola Militar de Realengo, aonde permaneceu até 1944. O General Octávio Costa, em palestra proferida na ECEME em 1978, afirmou que Castello chegava ao comando do Batalhão em uma época em que, para os cadetes, a liderança era exteriorizada pelo brilho dos metais, pelo aprumo do uniforme, pela voz de comando incisiva e forte e pela beleza da apresentação pessoal militar. A inteligência, o caráter e a cultura, estavam em patamar inferior. Entretanto,
Em poucos dias o major Castello Branco, sem qualquer preocupação ou intenção, sem querer aparecer, sem querer impressionar, praticava a lição de que o homem vale pelo que tem dentro de si e que o espírito militar é um conjunto de virtudes muito mais profundas e consequentes do que a simples exteriorização de aparências.(Costa, 1978 apud ECEME, Bol Esp Nº06, 2005, p.5)

A assunção de comando foi no campo de instrução, em Gericinó (Rio de Janeiro / RJ). Assim Castello se dirigiu aos cadetes naquela oportunidade:
Sinto-me feliz e honrado com a oportunidade do nosso primeiro encontro ser no terreno e em particular aqui no Campo de Instrução. O emprego das pequenas unidades de infantaria não se aprende na sala de aula com base nas cartas; é aqui que vamos trabalhar, e trabalhar duro, intensamente, dia após dia [...] Previno-os que estarei ao seu lado nos mínimos detalhes, cobrando e ouvindo suas decisões, criticando, aconselhando, fazendo repetir a manobra quantas vezes julgar necessário até que a julgue correta e adequada à situação criada. Não tenham receio de expor francamente as suas ideias, por mais absurdas que possam parecer. O combate não é um esquema rígido e não obedece a fórmulas para a sua decisão [...].(Castello Branco, 1967 apud ECEME, Bol Esp Nº06, 2005, p.5)

Em 1943, foi promovido à tenente-coronel. Era promovido bem mais tarde do que vários companheiros de sua turma que, na mesma data, foram promovidos à coronel. É provável que seu comportamento apolítico nas décadas de 1920 e 1940 tenha influenciado a esta promoção tardia. Entretanto, a década seguinte marcaria indelevelmente sua carreira, projetando-o como um dos mais importantes chefes militares da história do Exército. Como tenente-coronel, foi chefe da Seção de Operações da 1ª Divisão de

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Infantaria Expedicionária, da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que combateu os nazi-fascistas nos campos de batalha da Itália. Para preparar-se para o desempenho desta função, estagiou entre 1943 e 1944, na Escola de comando e Estado-Maior do Exército dos Estados Unidos da América. Ao retornar, preocupou-se em preparar a FEB para o gigantesco desafio que estava por vir. Intensificou os exercícios de adestramento e o treinamento físico militar. Na campanha da Itália, Castello destacou-se. Foi o único membro da FEB condecorado com a Cruz de Combate de 1ª classe, conferida pelo Exército Norteamericano, por sua decisiva atuação nos combates em Montese. O então capitão Vernon Walters, oficial de ligação entre a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária e o V Exército norte-americano, assim se referiu à Castello:
Em companhia do General Mascarenhas de Morais e do Coronel Castello Branco, eu observava o avanço do 11º Regimento de Infantaria na direção de Montese, apoiado por uma Divisão de Blindados dos Estados Unidos. À medida que os brasileiros avançavam, os alemães reagiam violentamente, com pesado fogo de artilharia. Nas proximidades de Montese, perto do cemitério, notamos que a infantaria brasileira e os tanques norte-americanos de repente pararam. Podíamos notar que havia como que certa hesitação de ambas as partes. Escurecia rapidamente e o General Mascarenhas de Morais estava ansioso por tomar a cidade antes do anoitecer. Ele se voltou para Castello e lhe disse: “desça lá e faça com que aqueles soldados e tanques sigam em frente”. Castello prestou-lhe uma continência e me chamou. Eu o segui para fora do Posto de Observação. Entramos em seu jipe atrás da colina e seguimos para um ponto situado a meio caminho do cemitério.Lá tivemos que deixar o jipe, pois este se tornara um alvo fácil demais. Movemo-nos cautelosamente, atrás do grupo de engenheiros do Coronel José Machado Lopes que caçava minas no terreno e corremos de trincheira em trincheira até chegarmos ao cemitério, no lado oeste de Montese. Ali constatamos uma evidente confusão entre o comando do Batalhão brasileiro e o comando da Divisão de blindados norte-americana. Rapidamente Castello explicou, enquanto eu traduzia, o que eles tinham que fazer: entrar imediatamente em Montese e tomar a cidade antes que escurecesse, seguindo depois na direção oeste. Respondeu algumas perguntas e a seguir ordenou que continuassem seu caminho. A infantaria brasileira subiu nos grandes tanques e, juntos, brasileiros e norte-americanos tomaram Montese, a despeito do pesado fogo da artilharia alemã que caia sobre a cidade e em volta dela. (Walters, apud ECEME, Bol Esp Nº06, 2005, p.6)

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Imagem 7 – Castello Branco nos e o Estado-Maior da FEB Fonte - http://segundaguerra.org/wp-content/uploads/2009/04/estadomaiorfeb.jpg

O General Mascarenhas de Morais assim se referiu em elogio consignado formalmente a Castello Branco:
[...] manteve frequente contato com todas as frentes, em deslocamentos sucessivos que atestam um grande vigor físico. Quando a situação parecia indecisa, nunca vacilou em ir às primeiras linhas, sob pesados e certeiros bombardeios inimigos, levar o pensamento do Comando e interpretá-lo por uma decisão nas ocasiões difíceis. É uma figura de chefe que se impõe, que sabe respeitar e acatar a autoridade e o prestígio do comando.” Extraído da alterações pessoais de Humberto de Alencar Castello Branco (Mascarenhas de Morais, apud ECEME, Bol Esp Nº06, 2005, p.6)

Ao retornar ao Brasil, voltou à ECEME, desta vez como subdiretor de ensino. Promovido a coronel, passou a desempenhar a função de diretor de ensino.

3.2 DIRETOR DE ENSINO NA ECEME Foi no retorno à ECEME, após a II Guerra Mundial, que Castello, já como diretor de ensino, atuou de forma mais impactante nos destinos da escola.
Servindo pela quarta vez na Escola de Estado-Maior, Castello Branco representou papel extremamente importante na transição da doutrina francesa para a doutrina norte-americana, por sua dupla vivência junto à missão militar francesa e junto à FEB. (Costa, 1978 apud Santos organizado por Paula, 2004, p. 29)

A maior parte dos alunos da escola nestes anos era formada por alunos que haviam participado dos combates dos Apeninos. Eram, pois militares experimentados, experientes e, por conseguinte, bastante críticos em relação aos ensinamentos

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ministrados pela escola. O comandante da escola neste período foi o general Tristão de Alencar Araripe. Sobre este período, o general escreveu o seguinte:
[...] a necessidade urgente de aproveitar os frutos da cooperação na guerra que findara e as lições que dali emanaram. Havia, nessa época, dois problemas de ordem doutrinária de suma importância do ponto de vista da atualização da escola: - o método de raciocínio - a doutrina, a organização e os processo de emprego. Essa atualização foi processada através da codificação do 'Trabalho de Comando'. Importou isso em tornar muito mais pormenorizada a análise dos fatores da decisão e em repartir a tarefa da tomada da decisão entre o Comandante e os membros do Estado-Maior (grifo do autor)

A análise dos fatores da decisão (missão, inimigo, terreno e meios), feita de forma cartesiana, foi implantada na escola pela missão militar francesa. Essa metodologia floresceu e vigorou de modo absoluto na ECEME até 1945, com o nome de “Método de Raciocínio”. Tal metodologia buscava extrair do aluno uma solução original para os problemas militares impostos nos temas escolares. Analisava-se separadamente cada um dos fatores da decisão e como eles implicavam o problema a resolver, chegando-se a uma síntese final com uma solução que atendesse às necessidades que o problema impusera. O Método de Raciocínio francês, entretanto, não estruturava o trabalho no âmbito do comando, disciplinando melhor as atividades e responsabilidades do comandante e cada um dos membros do seu estado-maior7.
[...] foi esse o encargo (completar o método de raciocínio francês com uma estrutura de trabalho no âmbito do comando) de que se desemcumbiu o Coronel Castello Branco, nos anos de 1946 e 1947, principalmente. (Ruas Santos, Francisco, p. 17)

Castello começava a imprimir, na função de Diretor de Ensino, um ritmo acelerado de mudanças doutrinárias na escola.
Vede bem que esta casa prefere mais a visão concreta das batalha do que as sentenças abstratas. Todos nós, alunos e instrutores, devemos ter bem presente que uma manobra planejada não tem nenhum valor próprio e o único valor que se lhe pode atribuir é o relativo por se relacionar com uma execução. Concepção e execução, no domínio militar, se são independentes para definir responsabilidades são, no entanto, inseparáveis no corpo de uma manobra, Trabalhemos, então, com objetividade, buscando sempre completar o estudo do comando na guerra com a compreensão aprofundada da conduta do elemento que faz a guerra – a 8 tropa . (Castello Branco, extraído da página eletrônica da ECEME)

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Neste ponto, é importante que se aclare as missões típicas dos membros de um Estado-Maior: Há o chefe do Estado-Maior, que coordena todas as atividades, o Oficial de Pessoal (E1), Oficial de Inteligência (E2), Oficial de Operações (E3) e o Oficial de Logística (E4). 8 Palavras de Castello Branco, diretor de ensino, na conclusão do ano letivo de 1946.

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Em 18 de março de 1947, Castello proferiu uma palestra na escola, em que lança as bases do novo Trabalho de Comando. Naquele momento, Castello conceituou o comando como sendo o conjunto formado pelo Comandante e seu Estado-Maior. Advertiu que o Trabalho de Comando deveria ser assentado em uma completa disciplina intelectual e numa compreensível unidade doutrinária. A responsabilidade integral e intransferível sobre as decisões permanecia sobre os ombros do Comandante. Os oficiais membros dos Estados-Maiores deveriam realizar entendimentos com seus correspondentes nos escalões superiores e subordinados. As seções do Estado-Maior deveriam ser cooperativas umas com as outras. O Chefe do Estado-Maior deveria ser o coordenador dos trabalhos. Ainda naquela palestra, Castello apresentou o esquema do desenvolvimento do Trabalho de Comando:
A – Ideia geral sobre a operação a ser planejada. B – Exames preliminares de situação. C – Decisão D – Trabalho de execução 1º – exame pormenorizado 2º – planos E – Ordens F – Fiscalização”

Castello afirmava que a “ideia geral sobre a operação a ser planejada” era de responsabilidade exclusiva do comandante, e nesta fase do Trabalho de Comando, podia consistir numa impressão geral ou ideia de como a manobra deveria ser concebida. Dizia ainda que a intuição era perigosa, sendo apropriada apenas para uma ação imediata e não para uma ação faseada, como a batalha. Dizia que a intuição não se distingue muito bem da ilusão ou da fantasia, ou mesmo de um jogo de azar. O chefe militar poderia, portanto, ser intuitivo, mas deveria sobretudo possuir um espírito lógico. Do aspecto acima da palestra de Castello, podemos encontrar indícios de seu pensamento cartesiano e lógico, que desconsiderava as improvisações e estudos superficiais. A segunda fase do Trabalho de Comando, apresentado na palestra, referia-se aos Exames Preliminares de Situação. Castello apresentou esta fase do trabalho como sendo de responsabilidade exclusiva do Estado-Maior e feita com base na ideia geral concebida na fase anterior do trabalho. Tais exames aproveitavam o antigo “método de raciocínio” criado e sistematizado pela Escola de Guerra da França e ensinado na escola pela Missão Francesa.

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Entretanto, Castello criticava o método francês pelo excesso de abstração.
Este (o método de raciocínio) foi criado e sistematizado pela Escola Superior de Guerra da França. O mundo militar adotou-o. O tempo de paz se alongou e o método foi vítima de excessos de análises. Mas nunca foi para tal. Não é uma ginástica intelectual feita na abstração. É um processo de estudo objetivo, pois a abstração não pode ser um método de estudo para a arte da guerra. Aí, então, o oficial de Estado-Maior mostra como está vinculado às suas funções e como é parte da realidade da guerra. Bem se vê que não pode perder-se no espaço vazio do entendimento puro. Deve, ao contrário, ter: - capacidade de pensar e raciocinar logicamente segundo um fim. - ao lado disso, imaginação criadora. - o discernimento pelo senso do praticável diante das soluções que se apresentam.

Mais uma vez Castello demonstra sua objetividade e seu desprezo pelo intelectualismo estéril. Ele busca mostrar aos alunos que o oficial de Estado-Maior tem que possuir uma sólida capacidade prática, advinda do conhecimento de combate, do senso psicológico dos homens e do ambiente, em cada situação considerada. Estas capacidades dos oficiais de Estado-Maior deveriam ser empregadas no exame da situação para que fosse possível concluir sobre a decisão a ser tomada. Na palestra, Castello apresenta as responsabilidades de cada membro do Estado-Maior, chefe de suas respectivas seções.
No exame de situação: - a 2ª seção (chefiada pelo E2) conclui sobre as possibilidades do inimigo. - a 3ª seção (chefiada pelo E3) vê os aspectos da manobra. - a 4ª seção (chefiada pelo E4) encara as possibilidades do apoio (logístico). - a 1ª seção (chefiada pelo E1) trata das contingências de pessoal.

O General de Divisão Octávio Costa, em palestra na ECEME em 1978, publicada na Revista do Exército Brasileiro do 1º quadrimestre de 2004, assim se referiu à Castello:
Aluno, aqui na Praia Vermelha, nos anos de 1949, 1950 e 1951, acompanhei à distância, a brilhante trajetória do mestre incomparável, atuando no órgão onde suas ideias podiam frutificar. Creio que estes seis anos – três de ECEME e os três de Estado-Maior do Exército – sejam o período mais fecundo da carreira militar de Castello Branco. (Costa, 1978 apud Santos organizado por Paula, 2004, p. 30)

Como diretor de ensino, Castello envolvia-se diretamente na instrução, ministrando aulas que ficaram registradas nos seus arquivos pessoais. Os apontamentos do Marechal anotam precisa e sucintamente referências a exemplos históricos acerca das formulações teóricas que apresentava em sala de aula. Assim, ao ministrar aulas acerca de operações ofensivas, Castello exemplificava apresentando manobras por ele vivenciadas na Itália ou grandes manobras clássicas da história militar. Nos documentos do acervo pessoal de Castello Branco podem ser encontradas as suas aulas sobre operações ofensivas, operações defensivas, a arte da guerra,

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operações de segurança, dente outras. Em todas elas pode-se notar a firme preocupação em contextualizar o assunto, remetendo à prática da guerra. Além dos assuntos militares de sua época, Castello dedicava-se também com afinco à História Militar.
[...] dedicou à História Militar do Brasil uma parte substancial do seu pensamento privilegiado, como intérprete de fatos apropriados à formação de uma Doutrina Militar Brasileira. Fez da história militar um auxiliar prestimosíssimo para sua atuação educativa nas escolas militares. E o fez de modo inexcedível e original, vendo sempre aspectos novos nos assuntos, por mais batidos que fossem. (Santos, 1968, p.87)

Castello proferiu palestras sobre a Guerra Holandesa, sobre a guerra da Tríplice aliança, sobre a campanha contra Rosas, sobre a FEB, sobre Caxias, Sampaio, Osório, sobre a chefia militar e seus problemas, sobre os deveres dos militares, sobre o papel do oficial de Estado-Maior. Acerca deste último assunto, é bastante interessante a análise das palavras proferidas por Castello por ocasião da homenagem que recebeu dos integrantes da turma de 1946-1948 da ECEME. Naquela oportunidade, Castello afirmou que esperava da turma “a luta contra as fórmulas feitas”.
As fórmulas feitas, encerrando aparentemente uma legenda ou um pensamento, cobrem a ausência de ideias e a inação. Vêm a ser, por outro lado, o escudo da rotina. Não vos intimideis, nem recueis. Se levantarem a barreira do amor ao passado, não vos esqueçais de que a nossa tradição é ao contrário, a base de nossa evolução e não da estagnação.

O Diretor de ensino preocupava-se também com a normatização dos procedimentos dos instrutores. O Programa de Ensino de 1949 incentivava a criatividade e a inovação. “Deve-se continuar o esforço no apreciar várias soluções possíveis e não a solução única nos assuntos de Tática Geral” (Revista Coletânea, 1949 apud ECEME, A escola do método, 2005). As recomendações constantes na mesma revista Coletânea, de 1949, p. 28-29, demonstram que a escola já seguia àquela época, modernas recomendações didáticas, colocando o aluno no foco do processo ensino-aprendizado:
A – Qualquer que seja o processo de aprendizagem, é preciso não esquecer nunca que: - é o aluno que aprende; - é o aluno que deve trabalhar mais que o instrutor; - é o aluno que deve sentir e compreender o assunto apresentado; - o ensino deve ser motivado - e que a maior preocupação do instrutor é verfificar, em todos os momentos, se as quatro regras acima foram respeitadas. B-… Nos exercícios em sala, …, o melhor instrutor não é o que melhor discorre sobre o assunto, mas o que provoca ideias dos alunos. C … devem ser reduzidas as conferências ou palestras puras sobre assuntos

34 táticos e profissionais. D - … Quanto mais o oficial-aluno se pronunciar, decidir e redigir documentos, mais eficiente será a aprendizagem.

A passagem do coronel Castello Branco diretor de ensino da ECEME, como visto, foi marcante. Sua passagem marcou a transição da doutrina francesa para a norteamericana, especialmente verificada na adoção do novo trabalho de Comando. Foi nesta época que documentos doutrinários tais como o manual Estado-Maior e Ordens e o Manual de operações foram elaborados na escola e se disseminaram por todo o Exército. Sua presença junto aos alunos foi marcante. Seu prestígio profissional era enorme. Sua palavra e suas ideias eram respaldadas pela brilhante carreira acadêmica e, sobretudo, pela riquíssima experiência militar adquirida nos campos de batalha da Itália. Após mais esta passagem pela ECEME, Castello foi transferido para o EstadoMaior do Exército (EME), primeiro na 3ª seção (responsável pela doutrina militar do Exército Brasileiro), depois na Seção de operações da subchefia de Planejamento. Neste órgão central do Exército, pôde dar continuidade à implementação de suas ideias e à compatibilização entre a doutrina francesa, que ainda vigorava no exército e a norteamericana. Em 02 de agosto de 1952, Castello Branco foi promovido a general-de-brigada. Iniciou o generalato servindo pela primeira vez em sua terra natal: Fortaleza. Assumiu o comando da 10ª Região Militar. Em 1954 foi servir no Estado Maior das Forças Armadas (EMFA), como subchefe do Exército, sob as ordens do seu antigo comandante, Mascarenhas de Morais. Em 1955, retorna mais uma vez à ECEME, desta vez na condição de comandante.

3.3 COMANDANTE DA ECEME Mais uma vez empreendeu uma série de mudanças, destacando-se a criação de uma Divisão de Estudos e Pesquisa e a remodelação do Trabalho de Comando, procurando ajustá-lo melhor à realidade brasileira.
Mais uma vez agitava o ambiente. Era de seu temperamento o gosto de movimentar, de vencer a inércia. Não se conformava com a a rotina, com a estagnação...Embora centralizador, respeitava a iniciativa. Embora autoritário, respeitava as manifestações de personalidade, impondo-se mais pela competência do que pela hierarquia.

Uma vez mais, apresentemos a visão do General Octávio Costa, seu subordinado à época:

35 Como membro do grupo de assessores, sofria ao vê-lo (referindo-se a Castello) mudar...não apenas os exercícios táticos, mas a própria programação. Esta inusitada mutação afligia os instrutores e parecia-me tumultuar a programação escolar, porque tudo na ECEME, a partir de sua chegada, até mesmo uma simples decisão no âmbito de uma situação particular de tema tático, dependia da decisão do comandante. Certo dia, no máximo de sua interferência, tomei coragem e interpelei-o, até além do que me poderia ter sido permitido: “ - Gen Castello, será que a escola estava tão ruim que precisasse mudar tanto assim?” Olhou-me com uma ponta de rancor. Preparei-me para ser fulminado por seu sarcasmo e sua ironia...Deu-me então uma das maiores lições de minha vida: “- Octávio, o maior inimigo da vida militar é a rotina, até mesmo a rotina da perfeição. Em nossa carreira, precisamos estar sempre em movimento, para que nunca enferrujemos. Mudar sempre. Sempre que possível para melhor, mas mudar. Não deixe nunca que as coisas fiquem paradas, porque nossa profissão é essencialmente dinâmica. (Costa, 1978 apud Santos organizado por Paula, 2004, p. 34)

Foi no comando do general Castello Branco que a escola comemorou seu cinquentenário e adotou seu nome definitivo, publicado no 9º Regulamento da Escola, de 1955. A avaliação por meio do grau escolar – as notas – tornou-se menos valorizada. Programas foram reformulados, horários foram revistos para permitir maior cara de trabalho em domicílio e consultas à biblioteca. A responsabilidade pela direção de ensino, que antes era do Chefe da Divisão de Ensino (função exercida pelo Coronel Castello Branco em sua passagem anterior pela ECEME) passou a ser acumulada pelo Comandante da Escola. Castello fez retornar a publicação da chamada “Coletânea”, onde eram publicados assuntos de natureza militar e determinou uma elaboração mensal do chamado Boletim de Informações para conhecimento dos Instrutores. Sempre voltado para as questões práticas da vida militar, mostrava aos alunos que mais importante que o seu desempenho acadêmico, o que se esperava era uma boa performance do oficial de Estado-Maior quando este retornasse à tropa.
O valor dos estudos na Escola de Estado-Maior do Exército não está no muito que o oficial faz como aluno mas, sim, no muito que vai realizar depois. O seu diploma só tem valia se valimento houver no desempenho que deve o oficial dar às funções que este documento lhe confere. (Castello Branco, extraído da página eletrônica da ECEME)

Assim, verifica-se que Castello Branco teve uma marcante passagem pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Inicialmente, como aluno brilhante, depois como instrutor esmerado. Após a guerra, já como Diretor de Ensino, como chefe e líder militar respeitado. Finalmente, coroou sua carreira na escola como comandante, capaz de implementar avanços e interferir sempre de maneira positiva e em benefício do processo ensino-aprendizagem.

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3.4 A INFLUÊNCIA DE CASTELLO BRANCO SOBRE A ECEME ATUAL Como já foi dito, em 2005, ano em que comemorou o seu centenário, por portaria do Comandante do Exército, a ECEME recebeu a denominação histórica “Escola Marechal Castello Branco”. Os vários motivos pelos quais o comando do exército resolveu conceder tal denominação já foram tratados neste trabalho. Entretanto, resta investigar se há, ainda, reflexos dos atos do marechal sobre a forma como a ECEME conduz seus trabalhos atualmente. Inicialmente, nota-se que há o culto ao patrono da escola, como inclusive é peculiar ao estamento militar, muito cioso da manutenção das tradições e do culto aos vultos históricos.
As tradições militares são resultado da prática continuada dos valores, usos e costumes que caracterizam as instituições militares. Constituem uma memória viva, permanentemente renovada nas representações que exteriorizam esses valores, usos e costumes (CARNEIRO DE PAULA, 2010, p.20)

Assim, anualmente, por ocasião da passagem da data natalícia do marechal, toda a escola reúne-se para uma palestra, normalmente proferida pelo oficial - aluno que ocupa a função de diretor cultural do grêmio dos alunos, sobre o Marechal Castello Branco. Há na escola diversas referências ao marechal. Há o seu busto, no hall de entrada. A biblioteca da escola detém o seu acervo pessoal, onde estão arquivados diversos documentos pessoais e outros relativos à sua passagem pela escola.

Fotografia 8 – Acervo Mal Castello Branco Fonte – Biblioteca da ECEME

Fotografia 9 - Acervo Mal Castello Branco Fonte – Biblioteca da ECEME

As frases marcantes proferidas por Castello estão inscritas nos “panos de

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fundos” das transparências institucionais que são utilizadas pelos instrutores nas aulas ministradas aos diversos cursos que funcionam na escola. Na página eletrônica da escola há uma seção dedicada ao marechal. Neste local, diversos pensamentos seus podem ser encontrados, com a clara intenção de levar o leitor a meditar acerca de seus pontos de vista.

Imagem 10 – Seção da página eletrônica da ECEME dedicada à memória do Mal Castello Branco Fonte – Página eletrônica da ECEME

Desta forma, nota-se que a presença de Castello, como “ícone” e patrono é marcante ainda nos dias de hoje. Acerca do seu legado prático, como instrutor, Diretor de Ensino e Comandante, pode-se afirmar que, embora passados cinquenta anos e tendo os assuntos militares passado por uma verdadeira “revolução”, especialmente na última década, ainda pode-se notar que há aspectos imutáveis do processo de tomada de decisão militar, codificados no “trabalho de comando” que ainda se fazem presentes na metodologia para tomada de decisão ensinada na ECEME. O espírito inquieto do Marechal, caracterizado por suas recomendações de “sempre mudar”, em busca do máximo dinamismo no processo ensino-aprendizado, continuam presentes. A modernização do ensino no Exército, cujo alicerce está baseado na Lei de Ensino nº 9.786, que foi regulamentada em 23 de setembro de 1999, pelo Decreto nº 3.182, prevê, dentre muitas outras coisas que

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Nessa nova dinâmica, o instrutor surge na sala de aula não mais como o detentor de todo o conhecimento, mas sim como o mediador do processo ensinoaprendizagem, o que exige muito mais dele. (Exército Brasileiro, http://www.exercito.gov.br/01inst/Historia/Artigos/0041309.htm, Acesso em 20 Jul 2010)

Esta preocupação com o instrutor participando, não como protagonista e sim como facilitador da aprendizagem de seus alunos já estava prevista na Coletânea de 1949, feita publicar pelo coronel Castello Branco, então diretor de ensino da ECEME.

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4. CONCLUSÕES – Considerações finais Este trabalho teve por objetivo geral investigar e refletir sobre as diversas ações, decisões e formas de agir e pensar do Mal Castello Branco enquanto instrutor, Chefe da Divisão de Ensino e Comandante da ECEME. Os objetivos específicos, conforme especificado no primeiro capítulo, foram levantar todas as funções desempenhadas pelo Mal Castello Branco em suas passagens pela ECEME; identificar quais dentre suas decisões que tiveram impacto sobre o ensino da doutrina militar terrestre na ECEME; levantar quais foram as ações e decisões de Castello que modificaram aspectos relevantes da forma como eram ministradas as instruções na escola e compreender quais os reflexos de suas decisões na direção de ensino da escola e durante o seu comando que ainda repercutem na maneira como são ministradas as instruções na ECEME nos dias atuais. Ao término da pesquisa, tais objetivos foram cumpridos. Verificou-se que Castello Branco, em suas diversas passagens pela ECEME, desempenhou sempre funções ligadas à atividade fim da escola, qual seja, a instrução e o ensino. Foi instrutor de tática geral, de história militar, chefe da Divisão de Ensino, Diretor de Ensino e Comandante. Diversas decisões suas, especialmente como Diretor de Ensino e Comandante, tiveram grande impacto sobre os rumos do ensino na escola. Nesse sentido, cabe destaque a transição da doutrina militar francesa para a doutrina norte-americana, levada à cabo após a segunda guerra mundial e a adoção do “trabalho de comando”. A adoção de um novo regulamento de ensino na escola, o nono, em que se modernizavam os processos de ensino, é outro exemplo tangível das passagens de Castello pela ECEME. Além dos exemplos acima, tangíveis, sua marcante liderança e modo de conduzir os assuntos dentro de sua esfera de atribuições marcou profundamente todos os oficiais, alunos e instrutores, que com ele trabalharam. Os diversos relatos transcritos neste trabalho confirmam tal fato. Castello Branco foi um homem de ação. Estudando sua passagem pela ECEME, é impossível não vir à mente do pesquisador as palavras de Camões, no Canto X de os Lusíadas.

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A disciplina militar prestante Não se aprende, Senhor, na fantasia, Sonhando, imaginando ou estudando, Senão vendo, tratando e pelejando.

Toda a sua atuação como instrutor, Chefe da Divisão de Ensino e Comandante denotam esta preocupação. O homem da guerra deve ser um sujeito voltado à prática das soluções dos problemas militares que se apresentem. Este pensamento é, sem dúvida, o maior legado do marechal às gerações que o sucederam.

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REFERÊNCIAS

BRASIL. Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. ECEME – A escola do método : um século pensando o Exército. Rio de Janeiro. Biblioteca do Exército. 2005 BRASIL. Exército Brasileiro. Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Boletim especial nº 6. 2005 BRASIL. Exército Brasileiro. Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Boletim escolar nº 178. 1954 BRASIL. Presidência da República. Decreto 37.191. Regulamento da Escola de Comando e Estado-Maior. 1955 BRASIL. Presidência da República. Decreto 5.698. Criação da Escola de Estado-Maior. 1905 BRASIL. Exército Brasileiro. Secretaria Geral do Exército. Boletim do Exército nº 7. 1983 CÂMARA, Hiram de Freitas. Marechal Castello Branco: uma vida dedicada ao Brasil. In: Revista do Clube Militar. Rio de Janeiro. Nº432 fev – mar – abr / 2009. COSTA, Octávio Pereira. Castello Branco: seu perfil na profissionalização das forças armadas e na construção da Doutrina Militar Brasileira. In: Coleção Meira Mattos. Rio de Janeiro. Nº 19 – 3º quadrimestre/2008. ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO <www.eceme.ensino.eb.br> Acesso em 20 Jul 2010. EXÉRCITO. Disponível em

MORGADO, Sérgio Roberto Dentino. Castello Branco: o homem, seu perfil e seus exemplos. In: Revista do Exército Brasileiro. Rio de Janeiro. Vol 131. Nº 2 – Abr/Jun / 1994. REVISTA DA ECEME: Rio de Janeiro: Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Ano V. Nº 5. Dez 2005. SANTOS, Francisco Ruas (org). Marechal Castello Branco – seu pensamento militar. Rio de Janeiro. Imprensa do Exército. 1968. SANTOS, Francisco Ruas (org), adpatação e nova org de Paula, Luiz Carneiro ). Marechal Castello Branco – seu pensamento militar. Rio de Janeiro. Biblioteca do Exército. 2004 SOUZA, DOUGLAS FARIAS; A Evolução histórica da ECEME – Monografia. ECEME. 1969.

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WIKIPEDIA. Artigo Humberto de Alencar Castelo Branco. Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Humberto_de_Alencar_Castelo_Branco>.Acesso em 20 Abr 2010.

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