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Os Invisíveis Senhores Japoneses

Havia oito cavalheiros japoneses jantando peixe no Bentley’s. Eles raramente se falavam
na sua língua incompreensível, mas sempre com um sorriso cortês e muitas vezes levemente se
curvavam para se saudarem. Todos menos um usavam óculos. Às vezes a moça bonita que
estava sentada na janela ao fundo, dava a eles um rápido olhar, mas o seu próprio problema
parecia sério demais para ela prestar atenção de verdade no mundo, a não ser nela e em seu
companheiro.

Ela tinha finos cabelos loiros e seu rosto era bonito e mignon que lembrava as moças da
Era Regencial, oval como uma miniatura; apesar de ter uma maneira ríspida de falar – talvez o
sotaque da escola, Colégio Particular para Moças de Rodean ou Cheltenham, o qual ela saíra há
pouco. Ela usava um anel signet de homem em seu dedo anelar mostrando que estava noiva, e,
enquanto eu sentava a minha mesa, com os senhores japoneses entre nós, ela disse: ‘Então,
veja, nós podemos nos casar na semana que vem’.

- Sim?

Seu companheiro parecia um pouco distraído. Ele encheu seus copos com vinho Chablis
e disse:

- É claro, mas minha mãe...

Eu perdi um pouco da conversa nesse momento porque o mais velho dos senhores
japoneses se inclinou na mesa, com um sorriso e um pequeno cumprimento, proferiu um
parágrafo por completo como um murmúrio abafado, enquanto todo mundo se inclinou e
sorriu e ouviu, e eu não me contive, eu mesmo tive que prestar atenção nele.

O noivo da moça se parecia fisicamente com ela. Eu podia vê-los como duas miniaturas
lado a lado penduradas num painel branco de madeira. Ele deve ter sido um oficial jovem da
marinha real, marinha de Nelson naqueles dias quando certa fraqueza e sensibilidade não eram
degraus para uma promoção.

Ela disse - Eles estão me dando de adiantamento 500 libras e já venderam os direitos de
brochura.

A dura declaração comercial me chocou, também era um choque que ela fazia parte da
minha profissão. Ela não devia ter mais que vinte anos de idade. Ela merecia uma vida melhor.

- Mas meu tio... ele disse


- Você não se dá bem com ele. Dessa forma nós vamos ser bem independentes.

- Você será bem independente - ele disse com ressentimento.

- O comércio do vinho não combina com você, não é mesmo? Eu falei com o meu editor
sobre você e há uma boa chance... Se você começar a ler...

- Mas eu não sei nada sobre livros.

- Eu te ajudaria no início.

- Minha mãe diz que escrever é uma boa muleta...

- Quinhentas libras e metade dos direitos do livro é uma muleta bastante firme, ela
disse.

- Esse Chablis é bom, não é?

- Eu tenho que concordar que sim.

Eu comecei a mudar a opinião que eu tinha dele – ele não tinha o toque real de um
Nelson. Ele estava condenado ao fracasso. Ela veio ao seu lado e esquadrinhou-o de proa à
popa.

- Você sabe o que o Sr. Dwight disse?

- Quem é Dwight?

- Meu querido, você não me ouve, né? Meu editor. Ele disse que nos últimos dez anos
ele não lia um romance que mostrasse tais poderes de observação.

- Isso é maravilhoso, ele disse com pesar, maravilhoso.

- Só que ele quer mudar o título.

- É mesmo?

- Ele não gosta de Águas que Sempre Correm. Ele quer chamá-lo de O Conjunto Chelsea.

- O que você falou?

- Eu concordei. Eu realmente acho que com o primeiro romance deve-se manter o


editor feliz. Especialmente quando, de fato, ele pagará pelo nosso casamento, não é?

- Eu entendo o que você quer dizer. Distraidamente, ele mexeu seu Chablis com um
garfo – talvez antes do noivado ele só comprasse champanhe. Os senhores japoneses
terminaram de comer seus peixes e falando um pouco de inglês, mas com formidável cortesia,
pediram à garçonete de meia idade uma salada de frutas fresca. A garota olhou para eles e
depois para mim, mas eu acho que ela só viu o futuro. Eu queria muito adverti-la de qualquer
futuro baseado num romance chamado O Conjunto Chelsea. Eu estava do lado da mãe dele. Era
um pensamento humilhante, mas eu provavelmente tinha a mesma idade da mãe dela.

Eu queria dizer a ela “Você tem certeza que seu editor está te falando à verdade?
Editores são humanos. Eles podem exagerar algumas vezes as virtudes dos jovens e bonitos. O
Conjunto Chelsea será lido daqui a cinco anos? Você está preparada para os anos de esforço, “a
grande derrota de não fazer nada bem”? Com o passar dos anos, escrever não ficará mais fácil,
o esforço diário será mais difícil de suportar, aqueles ‘poderes de observação’ ficarão
debilitados, você será julgada, quando chegar aos quarenta, pelo seu desempenho e não pela
promessa de ser uma boa escritora.”

- Meu próximo romance será sobre Saint Tropez.

- Eu não sabia que você já esteve lá.

- Eu não fui. Ter um olhar novo é de extrema importância. Eu estava pensando que nós
poderíamos passar uns seis meses lá.

- Não sobraria muito do adiantamento até tal momento.

- O adiantamento é só um adiantamento. Eu ganho quinze por cento a cada cinco mil


cópias e vinte por cento depois de dez mil. E é claro que outro adiantamento será pago,
querido, quando eu terminar de escrever o próximo livro. Um maior se O Conjunto Chelsea
vender bem.

- Vamos imaginar que não venda tão bem.

- O Sr. Dwight diz que vai. Ele deve saber.

- Meu tio vai me financiar com mil e duzentos.

- Mas querido, como então você irá a Saint Tropez?

- Talvez seja melhor nos casarmos quando você voltar.

- Talvez eu nem volte se O Conjunto Chelsea vender o bastante. - Ela disse rudemente.

- Oh.

Ela olhou para mim e para a festinha dos senhores japoneses. Ela terminou de beber seu
vinho. Ela disse - Isso é uma briga?
- Não.

- Eu já tenho o título para o próximo livro – O Azul-Celeste Azul.

- Eu achava que azul-celeste fosse azul.

Ela olhou para ele com desapontamento. - Você, realmente, não quer se casar com uma
romancista quer?

- Você ainda não é uma.

- O Sr. Dwight diz que eu nasci uma. Meus poderes de observação...

- Sim. Você me disse isso, mas querida, você não poderia observar um pouquinho mais
perto de casa? Daqui de Londres.

- Eu fiz isso em O Conjunto Chelsea. Eu não quero me repetir.

A conta jazia perto dele fazia algum tempo. Ele pegou sua carteira para pagar, mas ela roubou o
papel de sua mão para longe do alcance dele. Ela disse - Essa é a minha celebração.

- Do quê?

- De O Conjunto Chelsea, é claro. Querido, você é apenas um enfeite, mas às vezes, bem,
você simplesmente não se liga.

- Eu prefiro... Se você não se importar...

- Não, querido, essa é por minha conta. E pelo Sr. Dwight, é claro.

Ele se sujeitou e, ao mesmo tempo, dois dos senhores japoneses deram língua
simultaneamente e depois pararam bruscamente e se curvaram um ao outro como se
bloqueassem a entrada.

Eu achava que as duas jovens miniaturas se combinavam, mas que contraste havia de
fato. O mesmo tipo de beleza podia conter fraqueza e força. Seu lado Regencial, eu imagino,
poderia parir uma dúzia de crianças sem o auxílio de anestésicos, enquanto ele teria sido uma
vítima fácil aos primeiros olhos escuros em Nápoles. Algum dia haveria de ter uma dúzia de
livros na prateleira dela? Eles devem vir ao mundo sem anestesia também. Eu me achei
desejando que O Conjunto Chelsea provasse ser um desastre e eventualmente ela iria seguir o
caminho de modelo fotográfica, e ele se firmasse consistentemente no comércio do vinho em
Saint James. Eu não gostava de pensar que ela seria a próxima Sra. Humphrey Ward de sua
geração – não que eu viveria o bastante para ver isso acontecer. A velhice nos salva da
realização de muitos temores. Fiquei pensando para qual editora Dwight trabalhava. Eu ficava
imaginando a sinopse que ela já deve ter escrito sobre os abrasivos poderes de observação da
moça. Tinha que ter uma foto, se ele fosse sábio, na parte de trás da aba da capa; pois os
críticos, e também os editores são humanos, e ela não se parecia com a romancista Sra.
Humphrey Ward.

Eu poderia ouvi-los conversando ao pegarem seus casacos no fundo do restaurante. Ele


disse - O que será que todos esses japoneses estão fazendo aqui?

- Japoneses? - ela disse. - Que japoneses, querido? Às vezes você é tão evasivo que eu
acho que você nem sequer deseja se casar comigo.

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