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UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI

BERTONE SANTA CRUZ BELELA

OS TELEFONES CELULARES E A CULTURA DA


MOBILIDADE

São Paulo
2010
BERTONE SANTA CRUZ BELELA

OS TELEFONES CELULARES E A CULTURA DA


MOBILIDADE

Trabalho apresentado como exigência parcial


para a disciplina Design, Arte e Tecnologia, do
curso de Pós Graduação da Universidade
Anhembi Morumbi, sob a orientação dos
Profs. Marcus Batos e Jofre Silva

São Paulo
2010
RESUMO

Este artigo pretende apontar como o uso de dispositivos móveis como os celulares,
estabelecem a cultura da mobilidade, criando e recriando produtos culturais através de
características baseadas no constante fluxo de informações e nas possibilidades dos
sujeitos estarem em contato com elas em movimento.

INTRODUÇÃO

A emergência das novas formas de comunicação sem fio (no caso, telefones celulares)
tem proporcionado profundas modificações no espaço urbano e nas formas sociais.
As cidades se transformam em ambientes nos quais as pessoas se desprendem dos
dispositivos eletrônicos com fios e cabos. Segundo Valentim (2005), está surgindo um
novo tempo. O tempo da mobilidade, da portabilidade, da conexão ubíqua, dentro e fora
das casas, do trabalho, dos ambientes de consumo e lazer.
Segundo Lemos (2004), a informatização da sociedade, iniciada nos anos 70,
parece estar estabelecida nas grandes cidades ocidentais desenvolvidas. De acordo com
o autor, nesse começo de século XXI surge uma nova fase da sociedade da informação,
que começa nos anos 80, com a popularização da Internet, e consolida-se com o
desenvolvimento da comunicação sem fio, por meio da popularização dos telefones
celulares e das redes sem fio de acesso à Internet.
As tecnologias móveis estão cada vez mais presentes no cotidiano do homem
moderno. Com sua popularização, outras transformações sociais aconteceram. Tornou-
se possível comunicar-se com pessoas fisicamente distantes sem que a localização de
ambos fosse relevante, estando ou não em movimento pelo espaço urbano.
Lemos (2004) acredita que novas práticas do espaço urbano surgem na
intersecção entre mobilidade, espaço físico e ciberespaço. Para Souza (2005), uma das
características do espaço urbano moderno é a velocidade de circulação da informação.
O aumento dessa velocidade transformou os espaços urbanos em lugares de processos,
onde as interações sociais cedem espaço ao fluxo contínuo de pessoas. (Augé apud
Souza, 2005).
Nos dias de hoje, a flexibilidade das tecnologias de comunicação trazem as
relações sociais entre os indivíduos para os espaços físicos. Os encontros não precisam
mais acontecer em locais pré-definidos, nem com hora marcada. Eles ocorrem nos
lugares de fluxo, nos espaços de deslocamento e o celular serve como um localizador,
conectando as pessoas virtual e fisicamente.

As tecnologias nômades de comunicação re-inventaram espaços urbanos


como ambientes multiusuários. Assim, as cidades, que já haviam se
transformado em lugares de processos, agora se apresentam como espaços
híbridos. (SILVA, 2004, p.165)

A atual passagem do espaço virtual para o espaço híbrido é uma das


conseqüências sócio-culturais da emergência da cultura móvel. Silva (2004) define
espaço híbrido como sendo a mistura ou desaparecimento das bordas entre espaços
físicos e virtuais. Essa mistura acontece através de interações feitas por meio de mídias
móveis nos espaços urbanos. Ainda segundo Silva (2004), os espaços híbridos são
flexíveis, gerados pela mobilidade contínua dos seres humanos, usuários de tecnologias
móveis de comunicação, conectados à Internet e a outros usuários.

O SURGIMENTO E A EVOLUÇÃO DA TECNOLOGIA MÓVEL

Estudos apontam que em 1978 surgiu o primeiro telefone mecanizado através de


um quadro de distribuição. A partir daí, o telefone foi amplamente explorado. Como
aconteceu com o telefone fixo, o celular (visto por muitos como uam extensão do
telefone fixo), entrou no mercado despertando certa incredulidade no usuário.
O primeiro telefone digital surgiu em 1956 e, por volta de 1980, surgiram os
primeiros aparelhos celulares, que consumiam muita bateria, pesavam de três a dez
quilos, possuíam sinal analógico e tinha baixa qualidade de voz e. Além disso, o custo
tanto dos aparelhos como das ligações era bastante elevado.
Com a evolução tecnológica e o aumento da demanda pelos serviços de telefonia
celular nas grandes metrópoles, foi necessário dar início ao desenvolvimento de
sistemas digitais que, em princípio, além da maior capacidade, ofereciam outras
vantagens sobre os analógicos:
melhor qualidade de voz, facilidades para a comunicação e para uma maior
flexibilidade na criação e desenvolvimento de novos serviços, entre outras.
A partir de 1992, as redes analógicas em que os aparelhos disponibilizavam
apenas o serviço de voz foram, gradativamente, substituídas pelas digitais. Em 1997
surge a segunda geração de telefonia móvel com a tecnologia Global System for Mobile
Communication (GSM), permitindo que toda transmissão de dados via telefonia celular
fosse feita de forma digital, incluindo acesso a Internet mesmo que fosse limitado.
Segundo Silva (2004), desde 1997 a posse de celulares começou a expandir em
todo o mundo e seu desenvolvimento está, em parte, associada à rápida evolução
tecnológica dos aparelhos. Ao longo dos anos, esse boom de aparelhos mais
sofisticados, acabou tornando acessível, o custo dos modelos mais simples às classes de
baixa renda. Os celulares pré-pagos, nos quais os usuários não pagam conta fixa,
adquirindo créditos de minutos de conversação por meio da compra de cartões
telefônicos, também influenciaram diretamente o aumento estrondoso do uso do
telefone celular. A União Internacional de Telecomunicações (UIT), órgão das Nações
Unidas sediado em Genebra, denominado Measuring the Information Society1, revelou
um relatório2, divulgado em fevereiro de 2009 durante o World Mobile Congress em
Barcelona, apontando o grande crescimento do número de celulares em países em
desenvolvimento, como Paquistão, Arábia Saudita, China e Vietnã. A Suécia lidera o
ranking dos países com maior acesso relativo a telefones, computadores e redes, seguida
pela Coréia do Sul e logo depois pelas nações de alta renda da Europa, Ásia e América
do Norte.

(...) O triunfo do telefone móvel está ligado ao fato de que o aparelho não é
mais apenas um telefone. Nos países em que o celular possui os maiores
índices de penetração(...)o aparelho não é usado apenas como comunicação
via voz. É, também, mas, na maioria das vezes, o celular é usado para o envio
de mensagens SMS, e-mails e para o acesso de informação pela Internet.
(SILVA, 2004, p.202)

Segundo dados da ANATEL3 - Agência Nacional de Telecomunicações o Brasil


possui hoje mais de 152 milhões de linhas de telefone celular habilitadas. A
digitalização dos celulares no final da década de 1990 permitiu que novas
funcionalidades fossem incorporadas aos aparelhos, como envio e recebimento de
mensagens, câmera fotográfica, acesso à internet, previsão do tempo, agenda cultural
das cidades, dentre outras.
1
Medindo a sociedade da informação, em livre tradução.
2
http://www.itu.int , acessado em 08/03/2010
3
ANATEL – Agencia Nacional de Telecomunicações http://www.anatel.gov.br Acesso em 12/02/2010
Desde então, os telefones celulares passam por transformações a todo instante.
Estas transformações fazem com que a tecnologia adapte-se às novas necessidades de
comunicação de quem se encontra sempre em movimento: estar acessível em todo o
lugar, sempre conectado. Além disso, não se limitaram aos aspectos físicos do aparelho
e se refletiram, principalmente, em suas funções e interfaces. Hoje, os telefones estão
equipados com telas coloridas de cristal líquido, onde são apresentados ícones em cores,
teclados que permitem acesso a funções com apenas um toque, câmera digital integrada,
internet, dentre outros.
Com isso, os dispositivos móveis de comunicação tornam-se cada vez mais
populares e convergem serviços diversos que conectam usuários através de redes
familiares, de trabalho, entre outras, e tecnológicas, permitindo que as pessoas se
relacionem com as outras em todo o planeta.

A CULTURA NÔMADE E OS CELULARES

Segundo Elton Herreiras4, Nomadismo é um estilo de vida em que as pessoas


não possuem habitação fixa. Segundo Lopes (2004) e Silva (2004) citado por Lima
(2007), os povos nômades eram considerados desterritorializados, não habitavam um
lugar específico e sim todos os lugares ao mesmo tempo. Já os nômades
contemporâneos, ou híbridos, podem ser interpretados e vistos como indivíduos que
fluem e que utilizam os espaços híbridos.
Pampanelli (2004) afirma que essa flexibilidade telemática se originou através
da massificação do uso do telefone celular e de movimentos sociais.
Pelas ruas das cidades é cada vez mais normal a agregação de pessoas em um lugar, por
um período curto de tempo sem uma causa aparente. O que a primeira vista pode parecer
um movimento de pessoas desocupadas, na verdade é uma nova forma de manifestação
social. Os dois tipos de Smart Mobs mais conhecidas são as Smart Mobs políticas e as
Flash Mobs (multidões relâmpagos), que são manifestações de entretenimento,
lembrando em alguns aspectos os happenings e perfomances. As Flash Mobs tiveram
seu apogeu mundial em 2003, com algumas manifestações em diversas cidades

4
HERRERIAS, Elton. A cultura Nômade. Diponível em
http://tecendoasabedoria.blogspot.com/2010/01/cultura-nomade.html Acesso em 15/06/2010
brasileiras como Curitiba, São Paulo, Porto Alegre, entre outras.
Como exemplo podemos citar um dos pioneiros grupos de Flash Mobs do
mundo: O Improv Everywhere5. Segundo Charlie Todd, o fundador, tudo começou por
acaso, sem o propósito de fazer flash mobs, quando foi confundido com o cantor
americano Ben Folds e mesmo desmentindo o desentendido, aceitou a insistência das
pessoas que o confundiram e cantou para o grupo como se fosse o próprio cantor. A
partir desse momento, Charlie percebeu que poderia criar eventos mobilizando pessoas,
primeiramente utilizando sua rede de contatos, e assim vários flash mobs foram
organizados pela Improv Everywhere. Um dos mais famosos é o Frozen Grand Central,
realizado em Nova York que, no encontro de 200 pessoas, reunidas através do Short
Message Service (SMS) ou serviços de mensagens curtas, cronometradamente, fingiram
estar congeladas e assim ficaram por um minuto, gerando uma enorme discussão.
Segundo Pampanelli (2004) esses eventos servem como um interessante exemplo para a
avaliação dos impactos sócio-culturais e das utilizações sociais das tecnologias móveis.

O caráter portátil do novo meio e seu uso social fez com que o homem
inventasse diferentes formas de interação de se “estar junto” na
contemporaneidade. O surgimento de fenômenos como o Flash Mob vem
demonstrar o impacto que uma determinada tecnologia pode causar na
sociedade. Certamente, o telefone celular foi decisivo para a constituição
desta nova conjuntura em que explodem ativismos políticos e Flash Mobs.
Estes episódios que eclodem no mundo físico demonstram que a
materialidade do telefone móvel altera nosso comportamento social, cria
novos sentidos e novas formas de nos organizarmos na sociedade.
(PAMPANELLI, 2004, p. 8-9)

A tecnologia mais usada nas Smart Mobs é a disseminação de SMS. Através


delas os participantes coordenam ações, tais como protestos, manifestações e
campanhas para mobilização de votos em processos eleitorais. Ao contrário dos
movimentos sociais tradicionais em que existe uma organização central na coordenação
das ações e um líder, nas smart mobs as ações são coordenadas de maneira
descentralizada e sem a existência de um líder.

Como exemplo de Smart Mob podemos citar La Rebelion de los SMS6. Na


Espanha, após os atentados terroristas nos trens metroviários em 11 de março de 2004,

5
Improve Eyewhere. Disponível em http://improveverywhere.com/ Acesso em 09/06/2010
6
YouTube. “Smart mobs del 13M en España: noche de los mensajes cortos”. Disponível em
http://www.youtube.com/watch?v=hKYaTVY_BC0 Acessado em 15/06/2010.
vários espanhóis enviaram via SMS mensagens pedindo para que dois dias depois se
reunissem para uma mobilização em favor dos mortos pelo ataque terrorista, e nessas
mensagens a repetição da palavra “pásalo” (repasse, em espanhol) tornou-se um ícone
desse mob. O resultado veio no dia 13 de março, onde as pessoas se reuniram de
maneira espontânea protestando contra o governo por ocultar dados sobre o atentado
terrorista.
Para o professor Julio Valentim, Doutor em Comunicação e Cultura
Contemporâneas pela FACOM-UFBA7, o conceito de Smart Mob:

São mobilizações sociopolíticas nas quais as tecnologias digitais móveis


(computação portátil, telefonia celular e conexões sem-fio) são usadas – junto
com o cibridismo urbano (conexão de redes off-line com redes on-line) que
lhes dá suporte – para estabelecer a comunicação digital móvel e sem-fio
entre seus participantes, permitindo que eles possam coordenar suas ações e
fazer uma cobertura em tempo real dos protestos e das campanhas de
mobilização de votos que organizam. (VALENTIM apud AZEVEDO, 2007)8

Segundo Valentim (2005) citado por Azevedo (2007), a grande novidade das
Smart Mob consiste nas apropriações sociais e política das tecnologias digitais móveis
e, por conseguinte nos novos modos de coordenação de atividades em tempo real que
emergem nesse novo cenário urbano permitindo a integração entre as redes infra-
estruturais, comunicacionais e sociais presentes em nossas cidades.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É fato que os telefones celulares trazem modificações sócio-culturais que vão


muito além das “mobilizações sociais”. O celular tornou-se imprescindível na grande
maioria de nossas atividades cotidianas: no lazer, no trabalho, no deslocamento, na
escola, em casa...
Com o telefone celular, as barreiras entre o mundo real e o mundo digital estão
cada vez mais invisíveis, visto que a pessoa não precisa mais estar ligada a um ponto
fixo de conexão para acessar o conteúdo disponível na rede.
Diante das constantes mudanças que a cultura móvel vem trazendo para a

7
Faculdade de Comunicação da Unversidade Federal da Bahia
8
AZEVEDO, Danilo. Cyberdemo. Disponível em http://cyberdemo.blogspot.com/2007/08/smart-mobs-e-
as-mobilizaes-sociais-nas.html Acesso em 14/06/2010
sociedade, as novas tecnologias influenciam e propiciam uma
conectividade/coletividade no processo de criação das manifestações artístico-culturais
e de entretenimento. Ao passo em que é estabelecida a cultura da mobilidade, o homem
descobre novas maneiras de manifestar e compreender sua cultura através da tecnologia
e da arte.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BEIGUELMAN, Giselle. Arte Wireless, 2004. Disponível em


http://www.cem.itesm.mx/dacs/publicaciones/logos/anteriores/n41/gbeiguel.html
Acesso em 18/05/2010

LEMOS, André. Cibercultura da Mobilidade. Revista Famecos n° 40, Dezembro de


2009. Disponível em:
http://revcom2.portcom.intercom.org.br/index.php/famecos/article/viewFile/5961/5266
Acesso em: 05/06/2010

_____________ Mídias Locativa e Territórios Informacionais, in carnet de Notes.


Disponível em http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/andrelemos/locativa.pdf Acesso
em 13/05/2010

PAMPANELLI, G.A. A Evolução do Telefone e uma Nova Forma de Sociabilidade:


O Flash Mob. 2004. Disponível em:
http://www.cem.itesm.mx/dacs/publicaciones/logos/anteriores/n41/ gazevedo.html
Acesso em: 11/06/2010

SILVA, Adriana. Do ciber ao híbrido: Tecnologias móveis como interfaces de


espaços híbridos, 2006. Disponível em: http://www.souzaesilva.com Acesso em:
03/06/2010

SILVA, Adriana. Interfaces móveis de comunicação e subjetividade


Contemporânea, 2004. Disponível em: <http://www.souzaesilva.com> Acesso em:
03/06/210