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“A EXPANSÃO COMERCIAL E A VIDA URBANA”

1. O CRESCIMENTO DEMOGRÁFICO:

A partir do século X, os testemunhos apontam para um forte crescimento demográfico entre os

séculos XI e XIII, mas é extremamente difícil quantificá-lo. De maneira geral, a documentação medieval fornece poucos dados populacionais que permitem um tratamento estatístico. Apenas as fontes inglesas são suficientemente ricas para tanto. Contudo, apesar de suas óbvias limitações, as estimativas da Tabela 1 1 podem dar uma ideia da evolução populacional medieval. Verifica-se por esses números o aceleramento do ritmo de crescimento demográfico: 10,42%

nos séculos VII-VIII, 11,38% nos séculos IX-X, 16,96% no século XI, 34,04% no século XII, 45,31% no século XIII. Como se percebe, a taxa de crescimento do século XII foi apenas um pouco inferior

à dos séculos VII a XI somadas. E a do século XIII foi superior a essa soma.

a)

Fatores obstacularizadores:

O primeiro deles ainda insuficientemente esclarecido foi a ausência de epidemias, com o recuo da peste e da malária, continuando apenas a lepra a ter certa intensidade. Talvez, como já vimos, a fraca densidade populacional anterior tenha funcionado como um diluidor e amenizador dos deslocamentos de bactérias.

O segundo fator a considerar é o tipo de guerra, que não envolvia grandes tropas de combatentes anônimos, como nas legiões romanas ou nos exércitos nacionais modernos: a guerra feudal era feita por pequenos bandos de guerreiros de elite, os cavaleiros. As batalhas propriamente ditas eram raras. Prevaleciam as ações individuais dos guerreiros, e não uma ação coletiva coordenada.

b)

Fatores facilitadores:

O primeiro deles era a abundância de recursos naturais. Já observamos que com o recuo demográfico dos séculos II-VIII extensas áreas anteriormente cultivadas foram abandonadas, permitindo a recuperação das florestas, que tinham sido fortemente exploradas pelos antigos. Dessa forma, no início da Idade Média Central o espaço cultivado era muito restrito, predominando a natureza virgem, da qual homens tiravam importantes complementos à alimentação.

Outro fator que contribuiu para a expansão demográfica medieval foi a suavização do clima. Ainda que insuficientemente explicado, o fenômeno parece indiscutível e de alcance mundial, tendo ocorrido então, por exemplo, um recuo do gelo nos mares e montanhas do norte e abundância de água nas regiões saarianas, que depois o deserto reconquistaria.

Por último, ajuda a explicar o crescimento populacional dos séculos X-XIII o surgimento ou difusão de uma série de inovações nas técnicas agrícolas: charrua, sistema trienal, etc. Na verdade, discute-se qual teria sido o elemento a desencadear o processo: o crescimento populacional, pressionando por maior produção, levou ao progresso técnico, ou, ao contrário, foi o progresso técnico que possibilitou a expansão demográfica?

1 Evolução demográfica da Cristandade ocidental, segundo fronteiras atuais, em milhões de habitantes (McEVEDY e JONES, pp. 43, 57, 63, 65, 69, 87, 101, 103, 107).

2.

O DESENVOLVIMENTO DO COMÉRCIO E DAS ATIVIDADES ARTESANAIS:

3. CONTINUIDADE OU RUPTURA DA CIDADE ANTIGA?

Séculos II e III d.C.: crise e declínio das cidades antigas em decorrência da ruralização da economia e da sociedade em decorrência da insegurança nas cidades e do enfraquecimento das antigas instituições imperiais.

Igreja como única instituição de relevância que persiste à queda do império e as invasões germânicas: ruralização e expansão do cristianismo (vida monástica).

Mutação

as cidades medievais, além de

genuinamente mercantis e artesanais, estavam nitidamente separadas do meio rural do qual, sem dúvida, dependia diretamente.

qualitativa

das

cidades

no

Ocidente:

As ruínas da antiguidade que persistem até o período medieval foram apenas um pano de fundo, assumindo funções e finalidades claramente distintas daquelas para as quais foram inicialmente destinadas. Ademais, estas ruínas eram comumente reutilizadas (mármores, pilares, etc) para a construção de castelos, muralhas e palacetes.

Os cemitérios, outrora localizados longe dos centros urbanos, passam a incorporar a paisagem das cidades medievais. O cristianismo medieval funda, assim, uma urbanização dos mortos, ampliando as funções e as finalidades dos locais de sepultura (loca sancta).

4. O IMAGINÁRIO MEDIEVAL URBANO: OS MODELOS E AS REPRESENTAÇÕES SIMBÓLICAS

a) Ideologia escolástica: A reflexão escolástica sobre a cidade deve muito à Universidade de

Paris. Ela repousa em parte numa confusão mais ou menos voluntária. Os dois modelos intelectuais desses universitários são Agostinho (Civitate Dei) e Aristóteles (zoon politikon). Conserva-se para os termos que eles utilizaram, civitas, em latim e polis em grego, o sentido duplo e ambíguo de cidade-estado.

b) Historiografia lendária: A mitologia urbana, já tão fértil nas cidades italianas no século

XIII, mal toca as cidades da França, onde a monarquia parece ter procurado monopolizar, com a lenda das origens troianas, a historiografia mítica antiga. É o espírito legendário das

canções de gesta que confere por toda parte uma auréola pseudo-histórica às cidades francesas, e antes de tudo, é claro, através de Carlos Magno, o grande herói épico.

c) Patriotismo urbano: O patriotismo urbano pode ser detectado já num texto latino do

século XII, o De commendatione Turonicae provinciae (elogio da província de Tours), no qual, como bem mostrou Jean Tricard, tudo girava em torno do prestígio da cidade de Tours e de suas pontes. André Chédeville mostrou como o Livro dos milagres de Notre-Dame de Chartres exprimia, através da ideologia de uma peregrinação e de um monumento, o orgulho de ser chartriano. Esse orgulho é ainda maior quando se exprime na resistência e no heroísmo.

d) Folclore urbanizado: O folclore, enfim, contribui paradoxalmente para a formação do imaginário urbano. Em meados do século XIII aprece um fabliau onde se encontra pela primeira vez um tema fadado a um grande sucesso: o Fabliau de Coquaigne. Ora, o país de Cocagne aparece nele não como um campo mágico, mas como uma cidade maravilhosa.

5. OS TRÊS PODERES QUE CONSTITUEM A CIDADE MEDIEVAL:

a) A Igreja é a primeira a se fazer presente na cidade por seu peso monumental, incomparável ao dos outros poderes, e seu peso topográfico: igrejas, ocupação do solo pelos santuários (igrejas e conventos) e seus anexos. A isso se acrescenta sua atração como centros litúrgicos, centros de devoções e de cerimônias, relicários, pontos de partida de procissões. A Igreja se faz poderosamente presente em sua dupla função, de religião e de ideologia dominante. Vamos reencontrá-la também no exercício das duas outras funções: função econômica de arrecadação (dízimos, censos, rendas), função de comando (alta justiça).

b) Depois vem a função econômica, característica da cidade medieval. Ela ainda tem poucos monumentos durante o nosso período, mas marca intensamente a topografia:

praças e mercados, ruas de artesãos e de mercadores agrupados, moinhos urbanos ou suburbanos. Assinala-se também por seus avanços no sentido do poder econômico- político: mercados, peso público e logo casa comunal, futuro paço municipal, e, no nível individual, casas de pedra dos patrícios, frequentemente, como as dos nobres, com torres.

c) Finalmente há a função política. Esta talvez seja, se não a menos visível, em todo caso a que age menos direta e cotidianamente sobre a estrutura e a vida da cidade. Da autoridade de um senhor local ou regional à do rei, a fortaleza senhorial ameaça, domina a cidade, mas ou se projeta sobre ela ou nela está enquistada, mais do que inserida. Decididamente, esse poder aparece principalmente pelas funções de repressão

6. ALGUMAS CARACTERÍSTICAS PRÓPRIAS DAS CIDADES MEDIEVAIS:

a) Muralha: importância funcional e simbólica; militar e política.

A muralha foi o elemento mais importante da realidade física e simbólica das

cidades medievais. Embora seja provável que motivos militares tenham estado na origem da construção das muralhas, nem por isso estas deixaram de constituir inspiradas no modelo dos muros, antigos ou lendários, que definem um espaço sagrado da cidade o elemento essencial para a tomada de consciência urbana na Idade Média.

A cidade medieval situa-se, assim, entre dois tipos de cidades que souberam,

com ou sem muralha, separar-se radicalmente do campo: a cidade antiga, que vivia na oposição urbs/rus e mantinha a rusticidade no exterior, e a cidade industrial e pós-industrial, que devorou o campo. Em ambos os casos, o que permanecia de "natureza" não passava de uma "imitação" sofisticada da natureza os jardins na Antiguidade, os "espaços verdes" hoje.

b) A praça e o mercado: lugar de encontro da cultura erudita e da cultura popular

Mikhail Bakhtin escreveu: "A cultura popular não-oficial dispunha na Idade

Média

constituía um segundo mundo especial no interior do mundo oficial da Idade Média. Um tipo especial de comunicação humana a presidia: o comércio livre e familiar. Nos palácios, nos templos, nas instituições, nas casas particulares reinavam um princípio de comunicação hierárquica, uma etiqueta.

Essa praça entregue à festa

de um território próprio: a praça pública

A praça pública parece-me sobretudo o lugar de encontro entre as duas culturas,

a popular e a erudita. Por ocasião do mercado e da feira, o mundo camponês

penetra na cidade. Lá encontra a cultura mercantil, a cultura eclesiástica e mesmo cavaleiresca. Mesmo fora das festas, na vida cotidiana, o encontro se realiza.

c) Tempo da cidade, tempo dos mercadores:

Nos séculos VI-VII, o cristianismo oferece ao Ocidente uma nova proclamação

do tempo, graças a essa invenção, o sino, que revoluciona a arquitetura religiosa e

produz um tempo novo, o tempo da Igreja, tempo dos clérigos, principalmente dos

monges, feito para seu emprego das horas de preces e de ofícios, mas também para

o enquadramento do trabalho agrícola. É um tempo clerical e rural, que as

cidadezinhas escondidas nos campos adotam facilmente. O movimento urbano não se acomoda a esse tempo.

A nova regularidade do trabalho urbano não é a dos camponeses conciliados

com a natureza e as estações, mas a de artesãos e operários assalariados cujo labor

mensurável em dinheiro deve sê-lo também em tempo, um tempo não mais natural, porém tecnológico. O que faz vibrar a nova sociedade urbana são acontecimentos imprevisíveis a horas fixas: o incêndio que faz arder os bairros de casas de madeira, o inimigo exterior que os vigias avistam do alto das muralhas e das torres, a súbita convocação à assembleia ou à revolta para defender ou conquistar as franquias, ir libertar os companheiros aprisionados pela justiça dos senhores ou dos "graúdos".

d) A cidade e a escola: centros de produção e difusão cultural:

A cidade medieval, centro ativo de produção econômica, é também um centro

de intensa produção cultural. Ela o é, em primeiro lugar, porque criou uma função intelectual nova, diferente daquela do mosteiro ou da catedral da Alta Idade Média, baseada na ideia da ciência, difundida por profissionais, por especialistas, e dirigida

a uma população mais largamente alfabetizada. Centro de trocas, ela permitiu a

cultura popular das camadas rurais, encerrada nos campos, e a cultura erudita dos clérigos, fechada nas escolas eclesiásticas e nos scriptoria, reencontrar-se, e mesclou a realidade e o imaginário a ponto de implantar em si o teatro e de tornar-

se ela própria um teatro.

A cidade é o mercado. É também a escola. A escola ligada ao mercado.

Certamente a escola continua sendo, em grande parte, assunto da Igreja, mas mesmo as escolas religiosas, em contato com a cidade, na cidade, transformam-se profundamente. Entretanto a grande novidade são as escolas para as crianças

destinadas a permanecer laicas, digamos, as escolas dos burgueses.