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Universidade Estadual do Rio de Janeiro

Faculdade de Formação dos Professores


Curso de Pedagogia

Leonardo Antonio Thürler

Os textos teatrais como estratégia de intervenção médico-higienista no jornal A Mãi de Família no


Rio de Janeiro (1883 – 1888).

São Gonçalo,

2008
Leonardo Antonio Thürler

Os textos teatrais como estratégia de intervenção médico-higienista no jornal A Mãi de


Família no Rio de Janeiro (1883 – 1888).

Monografia apresentada ao Curso de graduação em


Pedagogia da Universidade do Estado do Rio de
Janeiro / Faculdade de Formação de Professores, como
requisito parcial para obtenção do Grau de
Licenciatura em Pedagogia.

Orientadora: Profª Drª SÔNIA CAMARA

São Gonçalo,

2008
CATALOGAÇÃO NA FONTE

UERJ/REDE SIRIUS/CEH/D

T537 Thürler, Leonardo Antonio.

Os textos teatrais como estratégia de intervenção médico-higienista no


jornal A Mãi de Família no Rio de Janeiro (1883-1888) / Leonardo Antonio
Thürler. – 2009.

76 f.

Orientador: Sônia Camara Rangel.

Monografia (Licenciatura em Pedagogia) - Universidade do Estado do Rio

de Janeiro, Faculdade de Formação de Professores.

1. Educação – Finalidades e objetivos. 2. Educação e saúde. I. Rangel, Sônia


Camara. II. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Formação
de Professores, Departamento de Educação.

CDU 37.017

Autorizo apenas para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial deste trabalho.
Leonardo Antonio Thürler

Os textos teatrais como estratégia de intervenção médico-higienista no jornal A Mãi de Família no


Rio de Janeiro (1883 – 1888).

Monografia apresentada ao Curso de graduação em


Pedagogia da Universidade do Estado do Rio de
Janeiro / Faculdade de Formação de Professores, como
requisito parcial para obtenção do Grau de
Licenciatura em Pedagogia.

Aprovado em dezembro de 2008

Banca examinadora:

_____________________________________

Profª Drª Sônia Camara Rangel (Orientadora)

Faculdade de Formação de Professores da UERJ

_____________________________________

Profº Drº Jorge Rangel (Parecerista)

Faculdade de Formação de Professores da UERJ

São Gonçalo,

2008
DEDICATÓRIA

A Deus e a minha família presto esta singela homenagem e sou grato eternamente,
pela presença constante em minha vida, pela paciência nos meus momentos de
impaciência e por todos os valores essenciais a uma boa convivência social, em
especial os valores da humildade e da perseverança a mim transmitido e, por serem
presentes e fundamentais em minha vida.
AGRADECIMENTOS

Em primeiro lugar agradeço a Deus por me possibilitar essa experiência única e as pessoas
fundamentais em minha vida, meu pai Djacy Thürler e minha mãe Maria José Thürler, origem e
agentes de minha existência; ao meu irmão Lenildo José Thürler, que juntamente com meus pais fez-
se sempre um incentivador em minha vida acadêmica e profissional e a minha querida e amada filha,
Bruna Gomes Ferreira Thürler, que sempre foi e será o meu maior estímulo de amor incondicional e
infinito.

E a todos que fizeram parte dessa jornada universitária, as(os) amigas(os) de classe que por
cinco anos participaram de inúmeros momentos acadêmicos in class e extra class promovendo trocas
e debates educacionais, políticos e sociais e que se fizeram extremamente importantes e
enriquecedores no processo de ensino/aprendizagem; as(os) amigas(os) do Laboratório
Interdisciplinar de Ensino e Pesquisa em História da Educação e da Infância (Liephei) e do Núcleo
Interdisciplinar de Pesquisa em História da Educação e da Infância (Niphei), que juntamente com
professores(as) participaram de empreitadas textuais, com leituras, fichamentos, debates e
apresentações em seminários e congressos educacionais, bem como em pesquisas realizadas em
bibliotecas e espaços escolares e acadêmicos. A todas(os) as(os) professoras(es)/amigas(os) que
contribuíram e continuam contribuindo de maneira ímpar em minha capacitação acadêmica quero
expressar a minha gratidão e meu carinho, de maneira muito especial, através da amiga educadora e
orientadora Professora Doutora Sônia Camara e ao amigo educador e Professor Doutor Jorge Rangel
(o Fidel) que com carinho, paciência, atenção e dedicação estiveram sempre presentes e solícitos,
auxiliando no caminho da capacitação profissional e pessoal. Aproveito esse momento para
expressar a todas(os) a minha gratidão, o meu carinho e o meu eterno agradecimento através desta
singela homenagem.
“Determinação, coragem e auto confiança são fatores decisivos para o sucesso.
Se estamos possuídos por uma inabalável determinação conseguiremos superá-los.
Independentemente das circunstâncias, devemos ser sempre humildes, recatados e
despidos de orgulho.”

Dalai Lama
RESUMO

Este trabalho de monografia tem como objetivo analisar o jornal A Mãi de Familia com foco
no texto teatral literário A Herança, do dramaturgo francês J.A. Guyet. Com este intuito pretendo
identificar nos diálogos das personagens indícios que se associem aos objetivos do médico Carlos
Costa em utilizar-se dos textos literários teatrais numa perspectiva de intervenção higienista pelo
viés educativo. E, portanto compreender os escritos literários teatrais como ferramenta pedagógica
educacional utilizada pelos médicos higienistas no Rio de Janeiro do século XIX.

Palavras-chave: Educação Higienista; Textos Teatrais; jornal A Mãi de Família.


ABSTRACT

This thesis work is to analyze the newspaper The May Family with focus on the theatrical text
literary heritage, the French playwright Guyet J.A. To this end I intend to identify the dialogues of the
characters coming together clues to the goals of Dr. Carlos Costa used in the literary theatrical
perspective hygienist intervention from the perspective of education. And so to understand the
written literary theater as a pedagogical tool used by medical education hygienists in Rio de Janeiro
in the nineteenth century.

Keywords: Education Hygienist, Theatrical Texts and newspaper The May Family.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Imagem 1 - Folha onde se vê a gravura e um resumo de justificativa da criação do periódico.


Modelo de mãe de família. Folha avulsa do primeiro volume do periódico de A Mãi de
familia de 1879..........................................................................................................................21

Imagem 2 - “Caricia materna” Jornal A Mãi de familia de janeiro de 1879.............................28

Imagem 3 - Texto: “A herança” – Autor: J.A. Guyet Jornal A Mãi de familia de janeiro de
1879...........................................................................................................................................32

Imagem 4 – Página do Catalogue Générale onde cita as obras literárias do médico francês
André Théodore Brochard, bem como o Jornal “la jeune mére”. Catalogue Générale de la
Librairie Fançaise. 1876. Rédigé par Otto Lorenz....................................................................46

Imagem 5 – Capa do Catalogue Générale de la Librairie Fançaise. 1876. Rédigé par Otto
Lorenz.......................................................................................................................................66

Imagem 6 - Citação do dramaturgo autor Francês J.A.Guyet. Catalogue Générale de la


Librairie Fançaise. 1876. p.622.................................................................................................67
Sumário

INTRODUÇÃO.........................................................................................................................1
CAPÍTULO 1 – MEDICINA E EDUCAÇÃO NA FORMAÇÃO DOS INDIVÍDUOS EM
ESPAÇOS PÚBLICOS E PRIVADOS NO RIO DE JANEIRO EM MEADOS DO
SÉCULO XIX............................................................................................................................6
1.1 - A medicina, os indivíduos e as cidades..............................................................................6
1.2 - A imprensa escrita do século XIX no Rio de Janeiro.......................................................13
1.3 - A Educação no século XIX pelo viés higienista...............................................................16
CAPÍTULO 2 - O PERIÓDICO............................................................................................19
2.1 – O jornal A Mãi de família: estratégia de intervenção higienista no Rio de Janeiro.........19
2.2 – A Mãi de família: configuração, produção e estrutura.....................................................23
CAPÍTULO 3 – OS TEXTOS TEATRAIS...........................................................................31
3.1 – O Teatro: estratégia pedagógica nos espaços escolares...................................................31
3.2 – O Mãi de família e os textos teatrais: estratégias pedagógicas no processo de intervenção
higienista...................................................................................................................................34
CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................................47
BIBLIOGRAFIA.....................................................................................................................49
ANEXOS..................................................................................................................................52
Introdução

Ha alguns annos a esta parte, as directoras de collegio de meninas, desta corte e


do interior, adoptaram festejar o encerramento das aulas fazendo as alumnas
representar comedias, sainetas1, e outras pequenas peças de theatro. Parece-nos
excellente e utilissima a pratica adoptada pelas Sras. Directoras de collegio. 2

Este trabalho de monografia tem como objetivo analisar os textos teatrais publicados
entre os anos de 1883 a 1888 no jornal A Mãi de familia. Periódico originário do Rio de
Janeiro e com tiragens quinzenais, o jornal A Mãi de familia circulou nas províncias de São
Paulo, Minas Gerais, Bahia, dentre outras no período de janeiro de 1879 a dezembro de 1888.
Criado e dirigido pelo médico Carlos Costa, o jornal tinha como principal objetivo propagar
conselhos e orientações relacionados à saúde, ao bem estar, a proteção e a prevenção da
família “(...) em prol da grande obra do progresso com que povo e governos garantirão a força
das gerações futuras!”3 O jornal tinha como colaboradores médicos, higienistas 4 e intelectuais
a exemplo dos doutores José Ricardo Pires de Almeida, Alfredo Piragibe, Brito e Silva, Silva
Araújo, Pires Farinha, K. Vinelli e Felix Ferreira.
O interesse pelo tema surgiu em meio a outro movimento investigativo realizado como
bolsista do projeto “Por uma Cruzada Civilizatória: Educação, Assistência e Proteção à
Infância Menorizada no Rio de Janeiro de 1890 a 1940”; coordenado pela Professora Doutora
Sônia Câmara.5 Ao manusear o jornal A Mãi de familia, nos arquivos de obras raras da
Biblioteca Nacional, pude perceber a presença de onze textos teatrais, publicados em coluna
intitulada Recreio, criada com intuito de promover e divulgar os textos literários.
No que concerne ao primeiro texto teatral que circulou no Jornal, A Herança, cujo
autor é J.A. Guyet6, e que segundo Carlos Costa fora encenado, por meninas de um colégio 7
da Corte e do interior, por iniciativa das diretoras do colégio. A referência feita pelo médico
Carlos Costa quanto aos colégios é de que tais iniciativas eram realizadas tanto na Corte
1
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Definição de Sainetas: Pequena peça teatral em que há bailado.
Disponível em: http://www.priberam.pt/DLPO/default.aspx?pal=sainetas , acesso em: 21 de março de 2008.
2
COSTA, Carlos. Palestra do médico. Jornal A Mai de família. Educação da infância, higiene da família. Rio de
Janeiro: Typ. Lith. De Lombaerts & Comp, 1º ano, número 1, Janeiro de 1879, p.2.
3
Ibdem, p.1.
4
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Definição de Higienistas. Pessoa especialista no estudo e no ensino
da higiene, op cit, s/p.
5
O projeto acima referido tem como objetivo geral promover uma análise histórica acerca das políticas
públicas de assistência, proteção e tutela à infância desenvolvidas no Distrito Federal, no período de 1890 a
1940, no que tange aos campos médico e jurídico. Ligado ao Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa em História da
Educação e Infância (NIPHEI/LIEPHEI).
6
Encontramos indícios sobre J.A. Guyet em Almaques e Catálogos franceses publicados no século XIX na
França, além da referência a ele feita no jornal A Mãi de familia. Ver imagens inseridas no anexo.
7
Até o momento da investigação não se fez possível identificar quais colégios foram apresentados os espetáculos
teatrais, nem mesmo os Theatros de Salão citados como espaço para a apresentação de alguns dos textos.
quanto no interior, não especificando nem quantos e nem quais os colégios. O médico e
redator-chefe do jornal, afirma em trecho publicado, por ele, que para “auxilial-as nesse
empenho louvave começamos hoje a’publicar uma pequena comedia, a Herança, que se nos
affigura muito própria e adequada a’s representações das férias”. 8 Trecho que antecede a
publicação do texto literário teatral.
Chamou-nos atenção o texto A Herança, não somente por ter sido, o primeiro a abrir a
coluna Recreio do periódico, mas também por sua função pedagógica e pelas temáticas
valorizadas e entremeadas nos diálogos das personagens as quais analisaremos no terceiro
capítulo desta monografia. Pelos aspectos apresentados resolvemos utilizá-lo como objeto
central de análise e reflexão nesse trabalho a fim de compreender quais os motivos que
levaram o médico Carlos Costa ao instituir a criação da coluna e que motivos o guiaram na
escolha desse texto. Tal ação nos faz crer no reconhecimento do texto literário como conteúdo
teórico e prático extremamente interessante e propício ao que se pretendia como projeto
naquele momento, mesmo porque a prática de apresentá-lo nas escolas de meninas da época é
por ele elogiada, além de suscitar questões relevantes quanto ao movimento de intervenção
higienista e educacionais desenvolvidas naquele período.
O texto nos provoca e suscita o interesse de desvendar, ainda, as problemáticas
encontradas e indiciadas nas entrelinhas dos diálogos estabelecidos pelas personagens, como:
as mudanças de hábitos educacionais; o papel exercido pela mãe com relação a criação de
seus filhos; os hábitos e as convivências sociais; as virtudes e os valores sociais; dentre
inúmeras outras questões.
Ao estabelecer uma relação intertextual com o projeto, A Mãi de familia, do doutor
Carlos Costa, procuraremos aprofundar as questões, anteriormente, citadas. Para tanto
utilizaremos dos aportes teóricos desenvolvidos por Gondra (2000; 2004); Certeau; Lessa;
Fonseca; Bourdieu; Machado; Luz; Costa; Foucault; Donzelot; Camara; entre outros que nos
permitiram problematizar o papel do jornal e, nele, a importância dos textos teatrais
publicados no jornal.
O periódico como fonte e objeto de investigação, pode ser compreendido como ação
estratégica postulada de um lugar de poder. Quanto a isto Certeau, afirma que “As estratégias
são, portanto, ações que graças ao postulado de um lugar de poder (a propriedade de um
próprio), elaboram lugares teóricos (sistemas e discursos totalizantes), capazes de articular um
conjunto de lugares físicos onde as forças se distribuem.9
8
COSTA, Carlos. Palestra do médico. In: Jornal A Mãi de familia. Educação da infância, higiene da família. Rio
de Janeiro: Typ. Lith. De Lombaerts & Comp, 5º ano, número 7, Janeiro de 1883, p.53.
9
CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994, p. 102.
Na perspectiva de identificar os textos teatrais literários como também possíveis
estratégicas, procurei investigar sobre os colégios e teatros aos quais teriam sido encenados os
textos. Durante o processo de investigação não foi possível encontrar nenhum indício de
nomes de colégios e teatros que remetesse a uma pista sobre os espaços educacionais e de
entretenimento que apoiaram a ação estratégica dos higienistas em relação à representação
dos textos teatrais.
Ao analisar os textos dentro do contexto histórico da época como possível ação de
intervenção médico-pedagógico junto à sociedade foi possível reconhecer algumas das
inúmeras ações intervencionistas dos médicos higienistas presentes no século XIX,
encontramos ainda, para nossa surpresa, na maioria dos textos escritos por ilustres penas e
publicados no jornal A Mãi de familia, a manifestação dos dois principais colaboradores do
jornal, o doutor José Pires de Almeida, que assina a autoria de quatro dos onze textos e a do
doutor Carlos Costa assinando dois textos literários teatrais.
Para uma melhor compreensão dos diferentes aspectos que perpassam a investigação e
que são fatos na construção da história da educação do país, procurarei destacar a importância
de alguns referenciais concernentes a medicina na formação dos indivíduos e das cidades na
educação escolar e na educação da mulher; do jornal como objeto e foco de pesquisa na
imprensa escrita no século XIX; na educação do século XIX pelo viés higienista; o jornal A
Mãi de familia como estratégia de intervenção higienista no Rio de Janeiro e a sua
configuração e produção. A análise ainda retrata o periódico como objeto e fonte de pesquisa
no campo da medicina e da educação; os textos teatrais como estratégia pedagógica no jornal
e nos espaços escolares numa perspectiva de intervenção higienista.
Para isso, esta monografia se organiza em três capítulos, a saber: no primeiro
intitulado, Medicina e educação na formação dos indivíduos em espaços públicos e privados
no Rio de Janeiro em meados do século XIX, discorrerei sobre a medicina e sua função
educativa. Tratada de maneira estratégica em âmbito social e institucional, os médicos
higienistas, decidiram atuar sobre as cidades e seus indivíduos em prol da saúde do corpo, da
alma, do habitar social e do progresso do país.
Questões norteadoras serão fundamentais no processo de construção textual, como:
Quais eram os sujeitos que deveriam, nesse contexto, ser “formados” a fim de ser
“formadores” de novos indivíduos em benefício do progresso do país? Quais os espaços
públicos e privados, na perspectiva médico higienista, se faziam lugares de intervenções
urgentes por vias de uma medicina educacional higienista? Que conteúdos educacionais eram
esses que deveriam ser “inseridos” e “inculcados”, através de uma aculturação, nos sujeitos
componentes dessa sociedade? Tais questões pontuaram e problematizaram o capítulo a fim
de analisar tal movimento e sua atuação por meio de uma medicina social principalmente no
Rio de Janeiro do século XIX.
No segundo capítulo O Periódico, examinarei o jornal A Mãi de familia como objeto e
fonte de pesquisa. Procurarei com este propósito analisar a estrutura do periódico, passando
por temáticas abordadas nos textos teatrais e alguns dos artigos, relacionando-os assim ao
contexto da época. No que concerne ao papel da imprensa como veículo de extrema
importância no processo de vulgarização de saberes procurarei identificá-la como ferramenta
estratégica e ativa no que se refere a reeducação do individuo por vias de uma intervenção
médico higienista.
Num movimento interrogativo problematizador, traçarei relações entre o movimento
médico intervencionista, a educação e o periódico. As questões que nortearam o capítulo, são:
Com qual(is) objetivo(s) fora fundado o jornal? Quem foi seu fundador(a)? Este(a) fora
influenciado(a) por algum movimento na época? Se foi, por qual e, quem se fazia organizador
do movimento? Que relação existia entre o jornal e o contexto histórico vigente? Qual o papel
exercido pela imprensa nesse contexto? Quem se fazia leitor do jornal? Estas são
problemáticas a serem analisadas como forma de compreender o movimento higienista por
via da imprensa escrita da época.
Quanto ao conteúdo temático educacional tratado nos artigos e textos teatrais farei
uma análise mais detalhada no terceiro capítulo desse trabalho que tem como objetivo
historicizar e analisar os textos literários teatrais, publicados entre 1883 e 1888, em coluna
intitulada Recreio. Criada com o intuito de reproduzir textos teatrais, sainetas, literaturas
dentre outros.
Com um olhar direcionado a perceber às estratégias educacionais presentes no jornal
procurarei em meio a questões problematizadoras analisar os diálogos referentes ao principal
texto, A Herança, de Guyet, como possível ferramenta educativa no processo de intervenção
higienista do período.
Mediante afirmativa do doutor Carlos Costa, (...) Parece-nos excellente e utilissima a
pratica adoptada pelas Sras. Directoras de collegio. (...)10, inúmeras questões foram surgindo,
dentre elas, a primeira foi identificar o que tornava excelente, utilíssima e adequada as peças e
suas representações nas férias? Em seguida saber quais valores sociais se faziam presentes nos
textos? Qual a importância dos textos no processo de reconstrução da família e da sociedade

10
COSTA, Carlos. Palestra do médico. In: Jornal A Mãi de familia. Educação da infância, higiene da família. Rio
de Janeiro: Typ. Lith. De Lombaerts & Comp, 5º ano, número 8, Abril de 1883, op. cit., p. 53.
naquele contexto? Porque a utilização do teatro como ferramenta pedagógica educacional no
processo de educação e higienização? Quais os assuntos abordados pelos autores? Quantos
textos teatrais foram produzidos e publicados no jornal? Quem eram os autores dos textos?
Que papel exerciam na sociedade? Os textos eram encenados em algum teatro ou escola, por
quê? Os personagens eram interpretados por quem? Os personagens faziam parte do contexto
histórico daquele período? A partir de que ano se começou a publicar os textos teatrais no
jornal?
Capítulo 1

Medicina e educação na formação dos indivíduos em espaços públicos e privados


no Rio de Janeiro em meados do século XIX.

1.1 - A medicina, os indivíduos e as cidades

A história da Educação tem demonstrado o quanto o papel da medicina se confunde


com o da educação no processo de formação dos indivíduos e das cidades. Portanto, até 1808,
como afirma Gondra, no Brasil, “(...) os cuidados com a saúde e as estratégias de cura eram
atividades partilhadas por diversos sujeitos: físicos, cirurgiões, curiosos e feiticeiros. Cada um
deles recorria a um conjunto de experiências diferenciadas.”11
Tais experiências trazem, por meio das práticas e atividades médicas exercidas por
generalistas, a comprovação de que tanto a medicina quanto a educação contribuíram, ainda,
na Colônia, para a formação dos indivíduos que compunham as cidades, em especial da Corte.
Nesse viés

A medicina no Brasil, em seu início, abrange a história de todas as práticas


voltadas para os cuidados com a saúde e daquelas voltadas para a cura propriamente
dita, ocorridas desde o início da colonização branca até a fundação dos primeiros
cursos de anatomia e cirurgia, em Salvador e no Rio de Janeiro, procurando também
reconhecer os sujeitos que exerciam tais atividades. Até o século XIX, a medicina é
aquela relacionada à cirurgia rudimentar e à precária clínica dos físicos, cirurgiões
aprovados, cirurgiões barbeiros, aprendizes, sangradores, boticários, curandeiros,
pajés, padres jesuítas, feiticeiros, curiosos e outras denominações atribuídas aos
ativistas da época (...).12

O século XIX constituiu-se por meio de discursos e projetos religiosos, médicos,


políticos e intelectuais, no sentido de erguer uma cidade moderna, num movimento de
desconstrução da cidade de São Sebastião, conhecida hoje como a cidade do Rio de Janeiro.
Uma cidade constituída em meio a práticas pedagógicas diversas e que se viu, em início dos
oitocentos, num processo de transformação espacial, social, econômico e cultural a partir de
diferentes proposições e discursos de (re)construção de uma cidade capaz de promover in
lócus o progresso do país.
Como protagonistas no projeto de edificação de um futuro, higienistas utilizando-se do
campo da medicina se apresentam como propositores de projetos de saúde e, como principal
11
GONDRA, José Gonçalves. Artes de civilizar: medicina, higiene e educação escolar na Corte imperial. Rio de
Janeiro: EdUERJ, 2004, p. 25.
12
Ibidem, p. 29.
agente da ação higienizadora da sociedade. Durante o século XIX, os médicos chamam para si
a responsabilidade, autoridade e legitimidade no sentido de atuar na vida e na morte dos
indivíduos, como sendo este um dos primeiros passos dados no processo de desconstrução de
uma “Sebastianópolis”13 para a construção de uma cidade moderna que desse conta de atingir
o progresso, visto como prática inevitável.
Por um viés de transformação social da vila colonial em cidade, a do Rio de Janeiro,
projetos de mudança foram propostos. Para tanto se direcionava o olhar para os países que se
faziam, naquele momento, referência de modernidade e de civilização, a exemplo da
Inglaterra e da França. No entanto, desligar-se de tudo que se fazia legado de uma colônia não
era um processo fácil e exigia ações pontuais nesse sentido. O século XIX é reconhecido por
historiadores como sendo um tempo propositivo, onde inúmeras propostas, projetos e ideais
se fizeram como caminhos sobre “o que se queria superar, a incidência do discurso negativo,
da crítica; e sobre o que se queria construir, discursos positivos, de projetos”14. Mas, o Brasil
estava muito aquém do projeto de civilizar, expandir e industrializar desenvolvidos pelos dois
países tidos como referência de modernidade.
Era preciso intervir de forma radical em prol de uma mudança que teria em seu
processo de transformação uma enorme complexidade, pois, significava rever a infra-estrutura
urbana da cidade; o transporte; a economia; a política; a comunicação; a segurança e o
contexto cultural e educacional, principalmente no que se referia ao Rio de Janeiro. Cidade,
que além de herdar como legado da colônia inúmeros problemas urbanos, como saneamento,
água e iluminação, via crescer seu contingente populacional a cada ano e com ele a ampliação
dos problemas.

Neste sentido, o século XIX brasileiro pode ser caracterizado como um tempo
de desafios que supõem a realização de alguns deslocamentos. De colônia a Estado
nacional independente. De anexo de Portugal a Brasil. No caso do Rio de Janeiro, o
grande desafio foi transformar uma cidade colonial, sucessivamente, em sede do
governo português, sede do Estado imperial e sede da República. Isto é, promover
uma alavancagem de vila colonial a cidade. Em outras palavras, passar de
Sebastianópolis a Corte. O referido deslocamento supunha transformações das mais
variadas ordens: de infra-estrutura urbana (água, iluminação e esgotamento
sanitário, por exemplo), transporte (arruamentos, carruagens, bondes e trens, dentre
outros), economia (instalação de fábricas e de estabelecimentos comerciais), política
(organização de partidos e sistema eleitoral), comunicação (imprensa, correios e
telégrafos), segurança (guarda nacional, polícia e sistema judiciário) e cultural
(biblioteca, jardim botânico, escola de belas-artes, faculdades, escolas de primeiras
letras e secundárias). 15

13
Ibidem, p. 19.
14
Ibidem, pp. 19-20.
15
Ibid, pp. 19-20.
Portanto, exigia-se um profundo investimento político, econômico e intelectual no
processo de transformação da colônia em Corte. Dentre os projetos propostos e implantados o
que tratarei nesse estudo diz respeito à institucionalização da medicina e a sua legalização
social. Processo que se configura no Brasil, a partir do século XIX e, mais precisamente com
a chegada da Corte Portuguesa em 1808 e a criação das Academias, das Sociedades, das
Faculdades e das escolas constituindo o campo cientifico. O campo para Bourdieu funciona

(...) enquanto sistema de relações objetivas entre posições adquiridas (em lutas
anteriores), é o lugar, o espaço de jogo de uma luta concorrencial. O que está em
jogo especificamente nessa luta é o monopólio da autoridade científica definida, de
maneira inseparável, como capacidade técnica e poder social; ou, se quisermos, o
monopólio da competência científica, compreendida enquanto capacidade de falar e
de agir legitimamente (isto é, de maneira autorizada e com autoridade), que é
socialmente outorgada a um agente determinado.16

Nos espaços de jogos, de lutas e embates, como na medicina, na política e na educação


tivemos personagens, tais como José Ricardo Pires de Almeida, Carlos Costa, Alfredo
Piragibe, Brito e Silva, Silva Araújo e Pires Farinha que estabeleceram no campo político e
social, papel importante no que se refere ao desenvolvimento social do país.
A institucionalização da medicina é marcada pela criação da Sociedade de Medicina
do Rio de Janeiro em 1829 (intitulada como Academia Imperial de Medicina, a partir de
1835) e também pela transformação das Academias Médico-Cirúrgicas do Rio de Janeiro e de
Salvador em Faculdades de Medicina no ano de 1832. Para tanto a extinção da Fisicatura-
mor, instituição criada para regular e fiscalizar as várias atividades relacionadas as artes de
curar em Portugal e em seus domínios, se fez necessário.
Na estratégia de institucionalização da medicina os médicos higienistas decidiram
atuar sobre as cidades e seus indivíduos em prol da saúde do corpo, da alma, do habitar social
e do progresso do país. Nesse contexto temos a estratégia conceituada por Certeau, onde

Chamo de estratégia o cálculo (ou a manipulação) das relações de forças que se


torna possível a partir do momento em que o sujeito de querer e poder (uma
empresa, um exército, uma cidade, uma instituição científica) pode ser isolado. A
estratégia postula um lugar suscetível de ser circunscrito como algo próprio e ser a
base de onde se podem gerir relações com uma exterioridade de alvos ou ameaças
(os clientes ou os concorrentes, os inimigos, o campo em torno da cidade, os
objetivos e objetos da pesquisa etc.). Como na administração de empresas, toda
racionalização “estratégica” procura em primeiro lugar distinguir de um “ambiente”
um “próprio”, isto é, o lugar do poder e do querer próprios. O “próprio” é uma
vitória do lugar sobre o tempo. É também um domínio dos lugares pela vista.17
16
"O campo científico" In: Pierre Bourdieu: Sociologia. São Paulo, Ática, 1983. Coleção Grandes Cientistas
Sociais, pp. 122-123.
17
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. artes de fazer. Tradução de Ephraim Ferreira Alves.
Petrópolis, RJ: Vozes, 1994, pp. 99-100.
Certeau se refere aos espaços legíveis, onde as relações de lutas e embates se fazem
presentes no cotidiano, como sendo, o lócus onde se pretende em meio a diferentes estratégias
legitimar e distinguir o poder do saber metamorfoseando as incertezas da história. Portanto
seria mais pontual reconhecermos nas “estratégias” uma especificidade de saber, que dá a
sustentabilidade e demarca o poder de subjugar o próprio lugar e, contudo, proporciona
transformações em diversos nichos sociais.
Percebemos em Luz, a importância da medicina no processo de formação dos
indivíduos e das cidades no século XIX, bem como na relação com a constituição do Estado
Nacional brasileiro, atuando como interventora política e socialmente. Nesta direção, a autora
afirma que,

A medicina é, desde suas origens institucionais na sociedade brasileira do século XIX,


nitidamente, não só uma forma de conhecer – através do organismo humano – o corpo social,
mas também uma forma específica de intervir politicamente neste corpo. Trata-se de cuidar
não só da saúde dos cidadãos, mas também da saúde das cidades. As regras de higiene
propostas, as normas de moral e costumes prescritos, sexuais, alimentares, de habitação e de
comportamentos sociais fazem parte, desde a constituição do primeiro império brasileiro, da
maioria das propostas que os médicos submetem ao Estado, do qual são consultores,
assessores, conselheiros, críticos.18

As instituições médicas, por meio de seus representantes legais, assumem


publicamente o compromisso com a sociedade a que se pretende transformar. Compromisso
como o que fora assumido pelo Dr. Carlos Costa, em palestra publicada no jornal A Mãi de
familia, onde afirma que, “Aquelles a quem incumbe o elevado encargo de cuidar da saúde
publica, ao médico, cabe a sublime missão de aconselhar, por todas as formas possíveis, os
meios de tornar regular o funcionalismo do órgão ao qual foi confiada a direcção dos actos
physicos.”19, indiciando ser esse um viés de institucionalização da figura do médico e do
campo da medicina em fins do século XIX e início do século XX.
Conscientes da responsabilidade de intervir nos comportamentos individuais e
coletivos da sociedade, os médicos Carlos Costa, José Ricardo Pires de Almeida, Gama Roza,
Galvey D’Alger, Prosper de Pietra Santa, Pedro José de Almeida, Felippe Neri Collaço,
dentre outros, recorriam à escrita com o propósito de transmitir seus conhecimentos advindos
de práticas empíricas visando intervir em hábitos que durante séculos constituíram-se como
práticas sociais. Alguns dispositivos estratégicos como jornais, teses, livros, etc., foram
concebidos como ferramentas nesse processo. Contudo, os médicos passam a exigir, de
18
LUZ, Madel Terezinha. Medicina e ordem política brasileira: políticas e instituições de saúde (1850 – 1930).
Rio de Janeiro: Edições Graal, 1982. (Biblioteca de saúde e sociedade; v.9), p.13.
19
COSTA, op. cit., nota 2, p.1.
maneira incansável dos governos, uma ação política efetiva, responsabilizando o Estado e
cobrando uma participação efetiva e contínua, no que concerne a saúde, a fim de atuar na
prevenção e na cura das doenças individuais e coletivas da cidade.
A intervenção médica se apresentava através de diferentes movimentos estratégicos
como, por exemplo, a do periódico A Mãi de familia. O movimento de criação do jornal nasce
com o propósito de vulgarizar saberes empíricos, na intenção de aconselhar e orientar as
mulheres, em especial as mães, em seu processo de educar as crianças. Ao apontar o
imaginário da criança no processo de civilização do indivíduo, Veiga diz ser

A elaboração de um imaginário da infância adequado a uma nação que se pretendia


civilizada relacionou-se tanto com acções governamentais e instituições de produção da criança
como dependência social, como com as prescrições de redirecionamento dos processos de
dependência funcional. Essa questão teve como centralidade a família e a educação da mulher
associada à difusão dos saberes de higienismo e da medicina.20

As ações estratégicas advindas do governo e das instituições de produção da criança


como dependência social, vinham recheadas de conselhos, orientações, receituários, palestras
e discursos médicos e intervinham no processo de (re)construção do sujeito e do ambiente ao
qual ele pertencia. Essa era apenas uma dentre as inúmeras ações movidas em benefício da
saúde do corpo e da mente em prol do progresso.
Em meio aos discursos divergentes e as ações políticas e institucionais sabe-se, porém,
do importante papel exercido pela medicina no processo histórico de constituição das
instituições médicas, como Academias, Associações, Faculdades e Institutos de proteção à
infância, no país. Levando em consideração o contexto e as condições sociais e de saúde o
qual a sociedade brasileira se submetia. É importante frisar que dos anos setenta do século
XIX aos anos vinte do século XX o empirismo predominava como prática no campo da
medicina e por vias do conhecimento adquirido nessas práticas se exprimiam determinados
modelos de conhecimento que deveriam ser fomentados a sociedade. O que assegura que tais
propostas de práticas de intervenção saneadora e reorganizadora dos espaços físicos deveriam
ser inseridas no contexto social da cidade com o intento de transformar os indivíduos por
meio do corpo, da mente e da alma em “sujeitos higiênicos, higienizados e higienizadores” 21,
produtores de um novo país. Segundo Costa,

20
VEIGA, Cynthia Greive. Cultura escrita e educação: representações de criança e imaginário de infância,
Brasil, século XIX. In: FERNANDES, Rogério; LOPES, Alberto; FARIA FILHO, Luciano Mendes (orgs.),
Para a compreensão histórica da infância. Porto, Portugal: Campo das Letras, 2006, p. 68.
21
Cadernos Cedes 59: Educação pela higiene: histórias de muitas cruzadas. In: GONDRA, José Gonçalves.
Homo Hygienicus: educação, higiene e a reinvenção do homem. Vol.1, n.1 (1980), São Paulo: Cortez;
Campinas, p.26.
(...) as práticas discursivas que os integram compõem-se dos “elementos teóricos” que
reforçam, no nível do conhecimento e da racionalidade, as técnicas de dominação. Estes
elementos são criados a partir dos saberes disponíveis – enunciados científicos, concepções
filosóficas, figuras literárias, princípios religiosos, etc... – e articulados segundo as táticas e os
objetivos do poder. As práticas não-discursivas são formadas pelo conjunto de instrumentos
que materializam o dispositivo: técnicas físicas de controle corporal; regulamentos
administrativos de controle do tempo dos indivíduos ou instituições; técnicas de organização
arquitetônica dos espaços; técnicas de criação de necessidades físicas e emocionais etc. 22

Em A Mãi de familia indiciamos tais discursos, principalmente nos artigos “Palestra


do médico”. Discurso médico que se encontra direcionado à elite letrada que detinha
condições para educar seus filhos e aliar-se ao Estado. A urgência suscitada pelo Dr. Carlos
Costa diz respeito à ação médica a ser tomada com relação à saúde física das crianças, bem
como a responsabilização da família por sua prole tornando-os seguidores dos preceitos da
medicina. Os ambientes públicos e privados foram aos poucos sendo resignificados visando a
formação do novo cidadão. A higiene, que inicialmente surgiu como arte de conservar a
saúde, teve seus discursos e práticas, redefinidos aos olhos da ciência. Uma higiene
compreendida no período de forma generalizada, mas que devemos entendê-la como ações de
saúde coletiva e individual. Compreendemos aqui a ciência que se ocupa da saúde individual
como higiene privada e a coletiva como higiene pública.
O Brasil se via num contexto similar ao dos países europeus do século XVI, no que se
refere à ação do Estado quanto aos problemas provenientes de um longo período de
colonização, no que diz respeito principalmente as questões de governo, dadas as referidas
especificações é claro, mais que não estiveram na pauta dos governantes oitocentistas.
A arte de governar analisada por Foucault particulariza o processo de
governamentalidade presente no contexto histórico, onde a medicina científica e pedagógica
via discursos e práticas estabelecidas, durante o processo intervencionista propicia a
formatação do indivíduo aos moldes da elite dominante. Para Foucault,

Desde o século XVIII, vivemos na era do governamentalidade. Governamentalização


do Estado, que é um fenômeno particularmente astucioso, pois se efetivamente os problemas
da governamentalidade, as técnicas de governo se tornaram a questão política fundamental e o
espaço real da luta política, a governamentalização do Estado foi o fenômeno que permitiu ao
Estado sobreviver. Se o Estado é hoje o que é, é graças a esta governamentalidade, ao mesmo
tempo interior e exterior ao Estado. São as táticas de governo que permitem definir a cada
instante o que deve ou não competir ao Estado, o que é público ou privado, o que é ou não
estatal, etc.; portanto o Estado, em sua sobrevivência e em seus limites, deve ser compreendido
a partir das táticas gerais da governamentalidade. 23

22
No que concernem as práticas discursivas e seus elementos teóricos, recomendo ao estudo mais
pormenorizado do capítulo III - A higiene da família em COSTA, Jurandir F. Ordem médica e Norma familiar.
Rio de Janeiro: Edições Graal, 1999, p.50.
23
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979, p. 292.
Táticas de governo que permeiam os discursos encontrados nas “palestras dos
médicos”, publicadas no periódico e, que reafirma a valorização da medicina. O discurso
médico do Dr. Carlos Costa extraído do jornal A Mai de familia, reforça a responsabilidade e
o compromisso incansável daqueles que optaram por dedicar a sua vida em prol da medicina e
também da sua incansável missão de cuidar dos seus semelhantes no firme propósito de
prevenir a todos de doenças, via vulgarização dos conselhos médicos e de suas pesquisas
empíricas.
Para Costa da combinação dos discursos teóricos com as regras da ação prática é
subtraído o poder normalizador, ou seja,

a lei, através da repressão, busca principalmente negar desqualificar, obstruir a


via de acesso do indesejável. A norma, embora possa incluir em sua tática o
momento repressivo, visa prioritariamente a prevenir o virtual, produzindo fatos
novos. A regulação é o mecanismo de controle que estimula, incentiva, diversifica,
extrai, majora ou exalta comportamentos e sentimentos até então inexistentes ou
imperceptíveis. Pela regulação os indivíduos são adaptados à ordem do poder não
apenas pela abolição das condutas inaceitáveis, mas, sobretudo, pela produção de
novas características corporais, sentimentais e sociais.24

Percebesse em meio às teorias e práticas aplicadas e publicadas o compromisso


assumido pelos médicos higienistas em prol da mudança e da reconstrução do país, tomando
para si a responsabilidade de intervir no meio social, público e privado, com o propósito de
preparar o país para a modernidade. A intervenção pelo viés científico pedagógico utilizando-
se estrategicamente da imprensa escrita na vulgarização de discursos higienistas em meados
do século XIX, trás em seu conteúdo questões de ordem médica, política e educacional
inseridas no contexto higienista com foco na mudança de hábitos sociais pelo viés da mãe de
família, fosse ela burguesa ou de classe popular. O que proporcionou por meio de uma
imprensa fecunda e propositiva orientações educacionais dirigidas a família, a mulher e a
criança na reorganização das relações sociais e dos espaços físicos da Corte.
Entender a importância da imprensa no processo de demolição do colonial e de
construção da modernidade, bem como, compreender seu papel relativo a (re)organização do
Rio de Janeiro é esforço cabível no sentido de estabelecer vínculo formador de um novo
individuo e de uma nova cidade pelo viés da imprensa educacional e política.

1.2 – A imprensa escrita do século XIX no Rio de Janeiro.

24
COSTA, Jurandir Freire. Ordem médica e norma familiar. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1999, p.50.
A fim de entender e situar a imprensa no contexto brasileiro retornarei ao Rio de
Janeiro de meados do século XVIII, mais precisamente na década de setenta, período onde a
imprensa produzida na Europa chegava ao Brasil por meio de impressos que tratavam de
divulgar cultura e utilidades, ou seja, eram noticiosos, científicos, literários e históricos,
servindo também a Corte. Como exemplo, a Gazeta do Rio de Janeiro e o Correio Braziliense
(Editados em Londres. O Correio Braziliense sendo proibido eventualmente no Brasil) e a
Gazeta de Lisboa, que já davam o ar de sua graça pela América portuguesa, inclusive no Rio
de Janeiro. Porém, a imprensa teve seu desenvolvimento, especialmente na França e na
Inglaterra, impulsionada pelo liberalismo. Papel político desempenhou servindo ao governo
como veículo de embates e discussões. Para Schiavinatto, a escrita aqui é um instrumento de
poder que aproxima o autor do poder real. Dentre as diversas funções a que se destinava a
imprensa podemos citar a de difusora de idéias e notícias.

No entanto, a imprensa periódica, embora disseminasse informações, opiniões e


idéias, não pratica o debate e a divergência política, publicamente, no contexto do Absolutismo
(ainda que illustrado) português. E é na criação de um espaço público de crítica, quando as
opiniões políticas publicizadas destacavam-se dos governos, que começa a instaurar-se a
chamada opinião pública. (...) A expressão “opinião pública” é polissêmica – e também
polêmica. Muitos a tratam como se fosse “coisa”, sujeito ou entidade, com vontade e
movimentos próprios. Mas trata-se, antes de tudo, de palavras – poderosos instrumentos de
combate.25

Mesmo diante das inúmeras dificuldades que permearam a história da imprensa, o


saber pode ser difundido a outros indivíduos, não permanecendo de maneira restrita apenas a
elite burguesa ou a um pequeno grupo de “iluminados”. No Brasil, a chegada tardia da
impressa têm suas origens nas restrições impostas pela metrópole portuguesa e nos obstáculos
inerentes à existência da estrutura escravista. Outro aspecto, referia-se ao quantitativo de
pessoas que não sabiam ler e escrever e que era bastante significativo à época. O que nos faz
entender que, “as limitações da imprensa não se subordinavam apenas aos rigores de uma
legislação, mas também à própria organização da sociedade.”26
O surgimento efetivo da imprensa no Brasil, se deu com a transferência da Corte
portuguesa em 1808. Tal fato se configurou na criação da Imprensa Régia que possuía como
objetivo imprimir legislações e papéis diplomáticos que fossem emanados de qualquer

25
MOREL, Marco e BARROS, Mariana Monteiro de. Palavra, imagem e poder: o surgimento da imprensa no
Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: editora: DP&A, 2003, pp. 17 e 21.
26
MACHADO, Humberto Fernandes. Imprensa abolicionista e a censura no Império do Brasil. In: LESSA,
Mônica Leite e FONSECA, Silvia Pereira de brito (orgs.). Entre a monarquia e a república: imprensa,
pensamento político e historiografia (1822-1889). Rio de Janeiro: Eduerj, 2008, p. 244.
repartição da Corte. Contudo, só foi possível ampliar quantitativamente o número de jornais
após a separação da metrópole portuguesa, como afirma Machado.

Os antagonismos das facções que disputavam o poder, especialmente durante a


Regência, refletiram-se na atuação dos periódicos devido a seu envolvimento nas lutas
partidárias. Essa imprensa caracterizou-se por sua efemeridade. Poucos órgãos conseguiram se
consolidar. Seguiram e desapareceram ao sabor dos acontecimentos políticos. Essa situação
decorria também de uma legislação que, aparentemente, garantia a liberdade de expressão. 27

O Rio de Janeiro sofre com a fundação da imprensa, uma impactante e permanente


transformação, dentre várias outras transformações ocorridas importante no processo de
desconstrução da colônia e de construção do novo Estado Imperial. Schiavinatto ao citar
Morel nos esclarece sobre tais transformações, quando afirma ter o Rio de Janeiro enfrentado
algumas transformações, passando pelo cotidiano e abrangendo ainda instâncias
institucionalizadas do poder monárquico, entre 1810 e 1820. E para tanto cita a fundação da
imprensa como sendo uma das mais impactantes e de maior permanência transformação do
período.
Ainda segundo Schiavinatto, quanto à produção da imprensa da Corte é necessário
compreendê-la de maneira polissêmica e não-linear, a titulo de exemplificar tal afirmativa,
podemos citar o período que abrange as décadas de 10 e 20 do século XIX, em que os
periódicos traziam em seu conteúdo questões inerentes as conjunturais atuais polemizando-as
conforme abordagem e posicionamento. Em 1820, instalou-se um debate entre os periódicos
Portugueses, Londrinos e o Correio Braziliense, de Hipólito da Costa, por simplesmente ter
pautado em sua publicação o Império do Brasil e, principalmente por não ter como definitivo,
naquele momento, a sua política autônoma instaurada. O que significa dizer que sua atuação
foi posicionada de acordo com a conjuntura histórica, econômica, social, política etc. E que
conjunturalmente os mais diversos impressos e manuscritos marcaram presença através de
editores, livreiros, impressores, autores, tipógrafos, censores, leitores e o público em geral.
Schiavinatto aponta, ainda, em seu texto para a força dos debates políticos nos
impressos, objeto de pesquisa que por muitos pesquisadores é considerado “literatura de
circunstância”, destacando as noções disputadas de cidadania e direito e as tensões sociais aí
enredadas. Cabe matizar esse assunto e, para tanto cito em particular o parágrafo a seguir,
onde Schiavinatto aborda a importância da imprensa como objeto relevante de pesquisa.

Se há uma compreensão de que certo volume de textos publicados em jornais do


século XIX é constitutivo da obra literária e do campo literário na sociedade brasileira do

27
Ibidem, p. 245.
Oitocentos (Sussekind, 1990; Meyer,1996; Abreu, 2003. Ver em especial Morel, 2005ª), é
recente perceber quanto e por quais mecanismos essa produção em periódicos, desse momento,
engendrou uma série de textos da cultura política e da recepção mais elaborada e sistemática da
ciência política e suas engenharias. Existe uma tendência em buscar os teóricos da política que
balizaram e avalizaram, no limite, o processo de constituição do Brasil, como um corpo
político autônomo, em livros, livrarias, bibliotecas, em autores lidos e comentados, em outra
ordem documental e discursiva; porém, talvez essa inteligibilidade a respeito do campo político
esteja nesses impressos, considerados “literatura de circunstância”(Algrand, 2004). Vários
estudos concorrem para desfazer esse equívoco e assim ampliam nosso campo de visibilidade.
Nota-se, então, a força dos debates políticos. Neles, destaco o seguinte: as noções disputadas
de cidadania e direito e as tensões sociais aí enredadas; a presença de autores importantes na
época, depois relegados a segundo plano ou a nenhum, no que se refere ao estatuto colonial, ao
Antigo Regime e ao liberalismo constitucional; e os artifícios usados pelos jornais para
chamar, convocar e envolver os leitores, motivando-os para a fala e para o posicionamento
dentro do jornal (embora essa atitude fosse elogiável, muitas posições publicadas se valiam do
anonimato).28

Nesse contexto, podemos identificar a extrema importância política e social dada aos
impressos e manuscritos escritos no Rio de Janeiro do início do século XIX. Em Imprensa,
língua, nação e política nas Regências 29, pesquisa realizada por Lima 30, ao aduzir sobre a
formação da língua nacional no Brasil diz ser esta parte intrínseca da imprensa e não somente
a periódica, mais também à de produção, de circulação e de recepção de impressos de forma
geral o que serviu a sociedade, por meio dos sindicatos, associações, partidos, etc. Como meio
e instrumento nos embates, nas lutas e reivindicações no âmbito das políticas, das questões
trabalhistas, de saúde e da formação da língua. As estratégias advindas por meio de
ferramentas de comunicação e vulgarização dos assuntos condizentes ao período, como
periódicos; folhetos; pasquins; tipografia e impressos eram na sua maioria utilizados como
instrumentos de luta. Mas, a vulgarização da política, que começava a ganhar os espaços
públicos e privados não era bem quista por seguimentos não tão liberais, como se acreditava
ser e no intuito de contraposição aos pasquins e de trazer uma suposta estabilidade dos
sentidos fora criado o dicionário.
Ciente de que o jornal era naquele momento o veículo de maior poder de vulgarização
de saberes e mobilização da sociedade burguesa o doutor Carlos Costa, acreditava ser o jornal
a “verdadeira alavanca para o progresso”, servindo a imprensa, em favor dos interesses da
medicina social. Criando o periódico A Mãi de familia, mescla medicina social com educação
a fim de promover os “sãos principios da hygiene”, e a prevenção de doenças no âmbito
público e privado. Uma mudança radical nos hábitos da família, da infância e da sociedade. O
28
SCHIAVINATTO, Iara Lis. Entre os manuscritos e os impressos. In: LESSA, Mônica Leite e FONSECA,
Silvia Pereira de brito (orgs.). Entre a monarquia e a república: imprensa, pensamento político e historiografia
(1822-1889). Rio de Janeiro: Eduerj, 2008, pp. 15-16.
29
LIMA, Ivana Stolze. Imprensa, língua, nação e política nas Regências. In. LESSA, Mônica Leite; FONSECA,
Silvia Pereira de Brito (orgs.). Entre a monarquia e a república: imprensa, pensamento político e historiografia
(1822-1889). Rio de Janeiro: Eduerj, 2008, p.107.
30
LIMA, Ivana Stolze. Professora adjunta da PUC-Rio e pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa.
Jornal manteve sua circulação pelo período de dez anos na Corte e nas Províncias de São
Paulo e Minas Gerais fomentando seus propósitos e reafirmando a importância da imprensa
junto à sociedade.

1.3 - A educação no século XIX pelo viés higienista.

Que educação se fazia idealizada pelos médicos higienistas? Com o avanço da


medicina, nem a escola nem a formação superior são esquecidas. Pais e professores se faziam
personagens principais no projeto médico-pedagógico que tinha como foco de intervenção
educativa a família e a infância. Tais intervenções nos espaços públicos e privados como
vielas e casas se fizeram extremamente necessárias no processo de higienização da cidade.
Segundo Gondra à escolarização inicial tratada na trama do discurso médico nos faz refletir
quanto

A educação escolar representada no interior da ordem médica pode ser compreendida


em uma grade que defende tanto a necessidade de escolas como um modo moderno ou
iluminista de instalação desse modelo de formação de homens e mulheres. (...) Educar, pois,
nessa nova perspectiva, passava a exigir a invenção de uma nova organização a ser instalada
em obediência aos imperativos dessa nova sociedade que se queria fundar; para qual a escola
deveria concorrer favorecendo o estabelecimento de um processo de formação de longo prazo,
durante o qual os indivíduos fossem educados pelas (e para) as práticas desse mundo fabricado
pela razão ilustrada e que se constituísse em uma experiência útil à nova ordem. 31

Durante o século XIX e inicio do século XX as preocupações médico-higienistas


também se encontravam diretamente relacionadas às questões de educação escolar, bem como
a sistematização de um modelo hegemônico para a escola. Gondra, afirma ainda que durante o
século XIX existia um “amplo projeto de constituição do Brasil como Estado Nacional
Independente”.32 O que suscitou num longo processo de discussões e embates sobre
reformulação dos espaços geográficos; de formação dos professores; dos profissionais de
medicina e de mudança do ser social. Embates e discussões que perduraram durante todo
século XIX e XX e que, ainda, se faz presente nos dias atuais respeitando seus devidos
momentos históricos.
No viés de um discurso onde a ignorância é apresentada por médicos higienistas como
um mal na vida do indivíduo e da nova sociedade a qual se pretende construir, fincada num
projeto burguês de progresso para um novo país, se vê urgir nesse contexto a necessidade de

31
GONDRA, José G. Medicina, higiene e educação escolar. In LOPES, Eliane N., FARIA FILHO, Luciano;
VEIGA, Cynthia (orgs.). 500 anos de educação no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica, 2000, p. 526.
32
Ibidem, p.519.
investir na salubridade da sociedade, via família e escola. Para tanto, sujeitos eram instituídos
educadores, nesse espaço configurado como colégio e, se faziam principais personagens no
processo de intervenção higienista no intuito de fazer valer um novo modelo de medicina
social para aquele período.
Quanto ao processo de transformação, no que diz respeito à educação, fora necessário
à cidade do Rio de Janeiro, para Gondra, formar quadros, produzir o passado e o futuro
considerando as temáticas urbanas, industriais, comerciais e culturais. Transformação que
teve como cunho o processo de formação local de nível superior dos profissionais que se
faziam essenciais à mudança, como médicos, engenheiros, bacharéis e profissionais das artes.
Mas, sem excluir o modelo escolar das aulas régias e do ensino secundário o Estado deveria
gerar e subsidiar a Educação proposta, tendo em vista a já existência de uma estratégia de
patrocínio e composição do aparelho estatal. Porém, a Igreja Católica Apostólica Romana
deveria ser mantida fora da proposta de formação educacional do nível superior.
A necessidade de se intervir urgentemente no processo de formação superior se faz
presente pelo esforço desenvolvido pelos médicos no sentido de construir universidades e
estabelecer uma sistemática de ensino na formação profissional do médico, reforçando a
institucionalização do campo da medicina e do profissional que a constituiu e por ela é
constituído. Para Gondra a medicina e a educação andaram juntas naquele que seria o “projeto
do século XIX”, de higienização dos indivíduos e das cidades. Educação e medicina
configuravam-se como projeto de reforma. Nesta direção afirma Schueler que

Desde meados do século XIX, a educação das crianças, jovens e adultos das camadas
populares livres, nacionais e estrangeiras, e libertas, constituiu um dos projetos de reforma
insistentemente discutido pelos dirigentes do Estado e por outros setores da sociedade Imperial.
A ênfase na instrução e na educação popular, viabilizadas pela construção de escolas públicas e
colégios, e pelo desenvolvimento da escolarização, acompanhavam outros planos de
intervenção dos poderes públicos na vida da população e nos espaços das cidades, como a
construção de ferrovias e bondes, a instalação da iluminação pública, os projetos de
saneamento, ajardinamento e cercamento de praças, a regulamentação das festas, além da
“ideologia da higiene”, responsável pela prevenção e erradicação das doenças como febre
amarela, que atingiam em cheio os setores mais pobres da população.33

Nesse contexto “ideológico da higiene”, proposto e projetado pela medicina, a família


se faz inserida como lócus da educação higienista, por se estabelecerem relações de
complexidade em seu interior o que também acontece por diferentes formas de dependências
no setor privado e público. Esse movimento cria um laço social de ligação e organização dos

33
SCHUELER, Alessandra F. Martinez de. Artigo: Crianças e escolas na passagem do Império para a República.
Revista Brasileira de História. Vol. 19, n.37, São Paulo, 1999, p.4.
indivíduos em torno da retenção de uma determinada situação declarada e legitimada por
setores sociais sem restrições.
O encadeamento de relações sociais sofre por meio da política de intervenção
higienista, em meio a relação de “poder” instituída pelo Estado e suas instituições públicas e
privadas, ações práticas permeadas de violência simbólica. Relação de “poder” que para
Foucault encontra-se inserida num escopo ideológico em meio aos discursos e práticas sociais
e que se constituíu historicamente. As ações práticas higienistas de incitar o Estado a intervir
através da norma na esfera do direito privado é citada por Donzelot.

A totalidade das medidas relativas à higiene pública e privada, à educação e á


proteção dos indivíduos, terá inicialmente efeito ao nível dos problemas colocados para a
economia pela gestão ampliada da população que ela ocupa; problemas de conservação como
também de integração e, a partir disso, elas se irradiarão, fazendo da esfera industrial o ponto
de aplicação e o suporte de uma civilização dos costumes, de uma integração dos cidadãos. É
com esse espírito de preservação da sociedade liberal através da adaptação positiva dos
indivíduos a seu regime, e somente nesse sentido, que os higienistas incitarão o Estado a
intervir através da norma, na esfera do direito privado.34

A moralização, a normalização, o contrato e a tutela estudados por Donzelot, nos


trazem esclarecimentos quanto à atuação do governo no meio familiar. As práticas em meio
aos códigos estabelecidos intervêm no cenário social perpetuando uma violência simbólica.
Diferentes personagens são convocados a entrar em cena e se tornar protagonistas na
transformação do indivíduo e da cidade por meio da educação e da medicina, dentre alguns
desses atores protagonistas encontramos a mulher, a criança e a família, ampla população que
compõem o Rio de Janeiro do século XIX.

34
DONZELOT, Jacques. A Polícia das famílias. Tradução de M. T. da Costa Albuquerque; revisão técnica de J.
A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2ª ed., 1986, p. 57.
Capítulo 2

O periódico

2.1 – O jornal A Mãi de familia: estratégia de intervenção higienista no Rio de


Janeiro.

Na segunda metade do século XIX, em especial a partir de 1880, as elites intelectuais


faziam circular pela imprensa idéias que engrandeciam o progresso, a civilização e a
necessidade de abolir a escravidão, o que para muitos tinha sido motivo de decadência do
Império. A escravidão impedia o avanço econômico do país, na medida em que travava a
modernização agrícola, comercial e industrial do país. Com o aumento da publicação de
periódicos, que angariava leitores por ouvidos e de ouvidos, tendo em vista o enorme número
de analfabetos existente no país e que, portanto, muitos tomavam ciência das notícias ouvindo
o que era lido por outra pessoa, à imprensa pôde adquirir um papel fundamental na difusão de
idéias, influenciando não somente as elites intelectuais. Os jornais tornaram-se verdadeiras
administrações de notícias e informações para uma sociedade que estava iniciando um
processo de mudanças.
Nesse contexto surge o jornal A Mãi de familia lançado por médicos, na Corte, mais
precisamente em janeiro de 1879, com intuito de educar, prevenir, orientar e aconselhar
buscava intervir em hábitos e costumes adquiridos em meio às práticas educacionais vigentes.
Educação que faz parte de um contexto não condizente com o que se pretende para um país
economicamente industrializado, capitalista e de olho no progresso.
Embora, já para o ano de 1843, existissem registros sobre a publicação do Guia
Médico das Mães de Família, organizado por J. B. A. Imbert, a idéia que orientou a
organização do periódico reforçava a necessidade da publicação no campo da puericultura no
Brasil.35 Como carro chefe de todos os fascículos o jornal trazia o artigo, Palestra do Médico,
escrito pelo Dr. Carlos Costa.

Há alguma cousa ainda acima de todos os cálculos de interesse material e que podera
conseguir vencer o desanimo que avassalla todos os sentimentos nos tempos que correm, e que
aniquilando as grandes idéas, tem tornado quase estereis todos os esforços do que, em outros
paizes adiantados, se considera a verdadeira alavanca do progresso, isto é, a imprensa. Esta

35
AGUIAR, Alvaro; MARTINS, Reinaldo Menezes. História da Pediatria Brasileira. In: CAMARA, Sônia.
Artigo: O jornal “A Mãi de familia” como estratégia de intervenção: Medicina, Higiene e Educação na
fabricação da infância e da família no Brasil dos finais do século XIX. 2008, p.2.
alguma cousa é a consciencia do dever. Por mais corruptos que se diga estarem os meios em
que vivemos, será impossivel que alguns nobres corações não tenham escapado ao perigoso
contagio. E’ para estes, que nós, embora conhecedores de nossas fraquezas, nos aventuramos a
iniciar, com este jornal, uma necessaria propaganda. 36

É possível perceber no discurso médico a poderosa força política exercida pela


imprensa nos ditos “países adiantados” e ainda a credibilidade demonstrada pelo médico no
periódico no sentido de fazer valer a medicina por meio de suas orientações médicas e seus
conselhos junto à sociedade burguesa, utilizando-se do discurso de governamentalidade a que
se refere Foucault. Um saber dominado pelos conhecimentos e saberes que permeavam os
discursos encontrados por todo o jornal e que eram fomentados na sociedade. Uma escrita
utilizada como instrumento de poder e práticas sociais e que para Foucault tem seu
significado na prática social constituída historicamente e não como um objeto natural.

Ora, o que os intelectuais descobriram recentemente é que as massas não necessitam


deles para saber; elas sabem perfeitamente, claramente, muito melhor do que eles; e elas o
dizem muito bem. Mas existe um sistema de poder que barra, proíbe, invalida esse discurso e
esse saber. Poder que não se encontra somente nas instâncias superiores da censura, mas que
penetra muito profundamente, muito sutilmente em toda a trama da sociedade. Os próprios
intelectuais fazem parte deste sistema de poder, a idéia de que eles são agentes da
“consciência” e do discurso também faz parte desse sistema. O papel do intelectual não é mais
o de esse colocar “um pouco na frente ou um pouco de lado” para dizer a muda verdade de
todos; é antes o de lutar contra as formas de poder exatamente onde ele é, ao mesmo tempo, o
objeto e o instrumento: na ordem do saber, da “verdade”, da “consciência”, do discurso. 37

Em texto extraído de uma conversa com Foucault, Deleuze exprime ser a prática “um
conjunto de revezamentos de uma teoria a outra um revezamento de uma prática a outra” 38,
concepção essa comungada por Foucault quando diz ser a teoria a própria prática. Podemos
contrapor com o discurso de lançamento do jornal escrito por Carlos Costa, onde o médico
apresenta claramente a intensão de atuar com o discurso no cerne da elite, inserindo saberes
enquanto teoria e prática, modelo de poder que se pretendia instituir e, que se fazia necessário
ao objetivo maior, o progresso e que para tanto utilizava da escrita como veículo e dos
“letrados” como sujeitos receptores e possíveis propagadores de seus conselhos e orientações.
Contudo os médicos, os higienistas e os pedagogos, atores sociais de extrema
relevância no processo de reconstrução do país pelo viés da educação e da higienização,
moveram suas ações em prol do progresso e da civilização do país. Dentre os principais atores
desse movimento higienista encontramos o redator-chefe, especialista em moléstias de
crianças, Doutor Carlos Costa que contou com a colaboração de outros médicos, como os

36
COSTA, op. cit., nota 2, p.1.
37
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. MACHADO, Roberto (Org. e Trad.). Rio de Janeiro: Edições
Graal, 1979, p.71.
38
Ibidem, pp. 69-70
doutores José Ricardo Pires de Almeida, Alfredo Piragibe, Brito e Silva, Silva Araújo, Pires
Farinha, K. Vinelli e Felix Ferreira. Estes médicos estiveram preocupados não só com a saúde
intelectual, mas principalmente com a saúde do corpo e da mente, considerava ser “(...) de
muita urgencia que seriamente se pense em animar-se o desenvolvimento physico das
creanças, isto é, do futuro cidadão.”39 Ação era essencial para o desenvolvimento físico e
intelectual do cidadão em benefício do mesmo e do país.
Quanto a isso, as imagens possuem um apelo forte no periódico, além de poder ser
considerada uma estratégia educativa e que nos remete a uma leitura quanto à educação da
mulher, da família e da infância proposta pela medicina naquele período. Uma das imagens
que marca esse contexto é a que apresenta a mãe ao lado do berço acalentando o bebê.
Imagem esta que é utilizada logo no primeiro fascículo do jornal.

Imagem 1 - Folha onde se vê a gravura e um resumo de justificativa


da criação do periódico. Modelo de Mãe de família.
Folha avulsa no primeiro periódico de A Mãi de Familia – 1879.
Acervo: Biblioteca Nacional.

Ao apresentar os objetivos do jornal, Dr. Carlos Costa faz questão de frisar sua filiação
ao periódico la Jeune Mére, do médico francês Dr. Brouchard.40 O Dr. Brochard foi também

39
COSTA, op. cit., nota 2, p.1.
40
O doutor André Théodore Brochard, nasceu em La Rochelle, na França, no ano de 1810 e faleceu em 1882.
Especializando-se em aleitamento materno, do ponto de vista da mãe, da infância e da sociedade e em
mortalidade infantil, estudou ainda sobre a situação das mães que trabalhavam, sobre as doenças infecciosas que
afetavam as projenitoras e seus filhos, dentre outros temas em voga na França do século XIX. Contudo procurou
autor de vários livros, entre eles: De La mortalité dês enfants em France41, editado em 1866;
De l’allaitement maternal42, editado em 1868 e De L’amour meternal43, editado em 1872.
Temáticas sobre a educação da mulher e o papel da mãe, da maternidade e os problemas da
mortalidade infantil na França dos fins do século XIX e início do XX são abordadas e
debatidas por doutor Brochard em seus trabalhos teóricos, como nos apresenta Bandinter ao
retratar em seu artigo “A Defesa da criança”, o compromisso assumido por doutor Brochard,
quanto a orientar, aconselhar e previnir as crianças, via progenitoras, de doenças e perigos as
quais estão expostas, principalmente no que se refere a prática da não amamentação. A
utilização por Brochard de uma escrita aparentemente chocante, direcionada as mães, onde
promete as mães inúmeras doenças, inclusive a morte, é apresentada pela autora em seu
artigo, bem como o compromisso por ele assumido no que diz respeito a causa médica.

(...) Se as metástases leitosas podem ser mortais no início do século XIX, é mais de
admirar que tal espectro continue a ser agitado no fim do mesmo século. Mas é um dos pratos
fortes do médico Brochard, que promete todas as espécies de doenças às mulheres que não
amamentem os seus filhos: “epistáxis, hemoptises, diarreias mais ou menos rebeldes,
suores...”. Sem contar com “as afecções agudas e crónicas das glândulas mamárias, as febres
graves das metmperitonites, as afecções do útero”. Pior ainda, Brochard ameaça estas “semi-
mães de cancro no seio e até de morte súbita”. Certas mulheres, como se tivessem sido
fulminadas por um relâmpago, teriam assim expirado antes que houvesse tempo para tentar
socorrê-las.44

Essa causa foi assumida também por seu admirador no Brasil, o Dr. Carlos Costa. Em
nossa pesquisa percebemos, além da sua atuação no sentido de promover a medicina
higienista uma significativa intervenção no sentido de fomentar a institucionalização da
medicina no país e que vinha acompanhada de proposições e intervenções realizadas pelo
próprio doutro Carlos Costa, não somente por meio do jornal A Mãi de familia, mais
principalmente através de suas práticas médicas, realizando consultas pediátricas; atuando
como Secretário Geral do Quarto Congresso de Medicina e Cirurgia e propondo projetos de
intervenções higiênistas em âmbito social privado e público. Tais ações encontramos relatadas
não somente em meio aos artigos publicados no jornal, também de sua autoria, mais ainda no
Livro do Centenário, livro publicado por ocasião das comemorações do descobrimento do
Brasil.
Nele, identificamos apenas uma pequena referência a atuação do médico, contudo esta
citação nos faz refletir quanto a sua significativa influência e interferência intelectual no
41
Traduzido para a língua portuguesa significa “Mortalidade infantil na França”.
42
Traduzido para a língua portuguesa significa “Aleitamento materno”.
43
Traduzido para a língua portuguesa significa “O Amor materno”.
44
BANDINTER, Elisabeth. Artigo: O Amor Incerto. Lisboa, Relógio d’Água. Consulta realizada pelo site
http://www.uac.pt/~sgoulart/pdf/OAmorIncerto.pdf, p.20.
campo da medicina social e da higienização. Nos relatos do Quarto Congresso de Medicina e
Cirurgia, mais especificamente no quarto volume do livro, encontramos o seu nome em ata da
sessão inaugural realizado no dia 17 de junho de 1900, evento no qual teve participação ativa
juntamente com seus contemporâneos, como podemos perceber em fraguimento extraído do
livro. Em Acta da Sessão inaugural em 17 de junho de 1900, o Quarto Congresso de Medicina
e Cirurgia, fora organizado por uma comissão executiva composta pelos Drs. H. Guedes de
Mello, Presidente – Carlos Costa, Secretario geral, - e Francisco Campello, Tesoureiro. O 1º
Secretarios dr. Amaro F. das Neves Armond, dr. José Augusto Moreira Guimarães e dr.
Henrique Autran da Matta Albuquerque. Em 1887, na Sociedade de Medicina e Cirurgia do
Rio de Janeiro, surgiu pela primeira vez a idéia da realização dos Congressos Médicos e que
já havia sido criado há pouco mais de um ano, pela iniciativa do dr. Henrique Monat,
secundado por Hilario de Gouvêa.
No entanto não nos foi possível ampliar os nossos conhecimentos no que concerne a
vida do idealizador e fomentador do jornal, doutor Carlos Costa. Ciente da sua importância no
processo da História da Medicina e da Educação do Brasil. Pretendemos dar continuidade no
seguimento de pesquisa sobre sua trajetória profissional em nosso próximo movimento.

2.2 – A Mãi de Familia: configuração, produção e estrutura.

O periódico pode ser encontrado no arquivo de obras raras da Biblioteca Nacional do


Rio de Janeiro com o titulo de A Mãi de familia, um projeto de caráter científico, literário e
ilustrado, idealizado pelo doutor Carlos Costa. O periódico teve sua circulação e publicação
estabelecida quinzenalmente, e suas principais províncias eram a do Rio de Janeiro, São Paulo
e Minas Gerais, permanecendo assim pelo período de janeiro de 1879 a novembro de 1888.
O projeto tinha como objetivo promover, fomentar e aconselhar às mães de família
mediante os conhecimentos adquiridos por meio da ciência. Para tanto se utilizavam das
estratégias estabelecidas, no propósito de ensinar as mães a nutrir, criar, zelar e educar as
crianças desde a primeira idade, além de orientá-las sobre os cuidados que deveriam ter com a
habitação, a alimentação, o vestuário e a higiene.
O jornal foi produzido, encadernado e divulgado pela editora Lombaerts &
Companhia, impresso em papel de boa qualidade onde apresentava matérias de
aconselhamento, gravuras, textos teatrais, novelas, moldes e riscos de bordados dedicados a
contribuir para a educação e higiene da família. Por todo o período em que circulou pelas
províncias foram publicados 264 números do Jornal, com média de quatro páginas por
exemplares. Apresentando tamanho de 25 cm X 16 cm de largura, com valor de assinatura
anual, correspondente a 6$000, para a Corte e 8$000, “para as demais províncias, o jornal
visava atender a um determinado auditório de leitores prescrevendo idéias, mas também
buscando se relacionando com eles, com seus pares e com a máquina estatal.”45
Em suas palavras iniciais Carlos Costa diz, chamar a consciência do dever. A “todos”
convocava a necessidade de assumir a responsabilidade no processo de transformação do país.
E para o sucesso do projeto espelha-se nos países que chama de adiantados, acreditando na
imprensa como ferramenta alavancadora do progresso “e que podera conseguir vencer o
desanimo que avassalla todos os sentimentos nos tempos que correm, e que aniquilando as
grandes idéas, tem tornado quase estereis todos os esforços.”46 Em particular, o idealizador do
jornal, doutor Carlos Costa e seus colaboradores, acreditam na existência de algo, acima dos
interesses materiais e dos corruptos, e cita a consciência de um dever como sendo a solução e,
a imprensa a ferramenta que fomentará a prática educacional em prol da mudança de cenário
ao qual se encontra o país. Para Costa, somente a consciência do dever e o compromisso para
com o povo, principalmente os de corações nobres e não corrompidos, aqueles aos quais
acredita que o ouvirá, como ele próprio diz, conseguirá vencer o desanimo.
Os inúmeros problemas sociais impostos no âmbito social e a passividade da
sociedade no processo de regulamentação da medicina são abordados por Machado.

O momento em que o Estado se encarrega de maneira positiva da saúde dos cidadãos


é o mesmo em que a sociedade como um todo aparece como passível de uma regulamentação
médica. E regularizar a organização e o funcionamento sociais do ponto de vista sanitário exige
que a medicina se obrigue não apenas a tratar o indivíduo doente, mas fundamentalmente a
supervisionar a saúde da população, não só a visar ao bem-estar dos indivíduos, mas à
prosperidade e à segurança do Estado.47

No jornal A Mai de familia, além da luta pela institucionalização da medicina no meio


social e político, encontramos nos discursos médicos relacionados às questões sociais e de
higiene, implicitamente uma prática de poder, conceituada por Foucault como a arte de
governar. A arte de governar pode ser entendida como sendo a arte de governar a si mesmo, a
família e ao Estado, nas suas pluralidades de formas de governo e imanência das práticas de
governo.

45
CAMARA, Sônia. Artigo: O jornal “A Mãi de familia” como estratégia de intervenção: Medicina, Higiene e
Educação na fabricação da infância e da família no Brasil dos finais do século XIX, 2008, p.2.
46
COSTA, op. cit., nota 2, p.1.
47
MACHADO, Roberto; LOUREIRO, Angela; LUZ, Rogério; MURICY, Katia. Danação da Norma: medicina
social e constituição da psiquiatria no Brasil. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1978, p.253.
O periódico se apresenta no processo de pesquisa como objeto e fonte de estudo da
história da educação. Ao levar em conta o lugar de produção sócio-econômico, político e
cultural e o caro conteúdo educacional e de instrução produzido pelo jornal A Mãi de familia,
uma operação historiográfica48 deve ser empreendida no sentido de contribuir no devir do
campo da história da educação.
O jornal é aqui fonte de análise e reflexão quanto a ação pedagógica desenvolvida
pelos médicos, que se fizeram propositores de projetos significativos e de profunda influência
no corpo social vigente da época. Investigando as estratégias utilizadas, encontramos ainda
nesse contexto uma importante ferramenta cultural e educacional, que se apresenta ainda hoje
na sociedade como prática educativa e de entretenimento, o teatro, que surge através dos
textos teatrais como intervenção educacional nas práticas maternais das futuras mães de
família.
À luz de Certeau, acreditamos na relevância de se trabalhar por um viés minucioso,
empregando as devidas precauções no processo de observação e análise do objeto/fonte,
objetivando suscitar as impressões ocultas e silenciosas que permeiam o documento histórico.

(...) a operação história se refere à combinação de um lugar social, de práticas


“cientificas”49 e de uma escrita. Essa análise das premissas, das quais o discurso não fala,
permitirá dar contornos precisos às leis silenciosas que organizam o espaço produzido como
texto. A escrita histórica se constrói em função de uma instituição cuja organização parece
inverter: com efeito, obedece a regras próprias que exigem ser examinadas por elas mesmas.50

Produções textuais que se apresentam no periódico A Mãi de familia apregoam


impressões discursivas de um projeto político e social que possui como objetivo proteger as
crianças das ações incabíveis de suas progenitoras, bem como da família e da sociedade,
disponibilizando espaços educacionais que lhes forneçam condições propícias a uma
educação que se pretende direcionada aos propósitos da burguesia.
Dentre as diferentes estratégias utilizadas a fim de sensibilizar os governantes e o
Estado quanto a atuar na proteção as crianças contra os riscos de uma criação inadequada,
bem como apoiar e ampliar a criação de creches e escolas que possuam as condições
higiênicas necessárias a manutenção da saúde de seus freqüentadores, indiciamos algumas

48
CERTEAU, Michel. A Escrita da História. Capítulo II: Operação Historiográfica. Editora Forence
Universitária, 1982, p. 65.
49
Em nota, Michel de Certeau, em A Escrita da História. Capítulo II: Operação Historiográfica, apresenta o
termo cientificas, bastante suspeito no conjunto das “ciências humanas” (onde é substituído pelo termo análise),
não o é menos no campo das “ciências exatas” na medida em que remeteria a leis. Pode-se, entretanto, definir
com este termo a possibilidade de estabelecer um conjunto de regras que permitam “controlar” operações
destinadas à produção de objetos determinados. 1982, p. 109.
50
Ibidem. 1982, p. 66.
cartas publicadas no jornal e endereçadas ao Sr. Ministro da Justiça quanto a ênfase na
proteção das crianças. Citaremos nesse trabalho a sexta carta escrita e publicada, em julho de
1888, pelo doutor Carlos Costa.
A sexta carta escrita ao Sr. Ministro da Justiça e a protecção ás crianças, em julho de
1888, é demonstrativa da prática incansável dos médicos nesse viés.

O Sr. Ministro da Justiça e a protecção ás crianças


Sexta carta
Exmo. Senhor,
Não sabemos se teremos tido a fortuna de ser lido por S. Ex. o Sr. Ministro; a quem
naturalmente preoccupam o seu espirito, elevadas questões administrativas; seja como flor,
estas cartas ficam aqui consignadas, e se algum dia poderem merecer a attenção do S. Ex.,
temos a certeza, de que saberá fazer justiça ás intenções de seu autor.
Proseguiremos pois.
Temos tratado longamente das Crèches, entrando nos pormenores de sua organisação,
porque entendemos ser este estabelecimento um dos mais importantes e urgentes meio de
protecção da infancia, e uma palavra do Sr. Ministro, estamos convencido acarretaria logo o
inicio da propaganda em favor d’essa humanitaria idea, que além d’isso carece, para a efficacia
de seus resultados, de leis que a protejam. Esta propaganda já encetamos na tribuna popular,
mas deverá ser continuada n’esse mesmo meio e outros deverão se apresentar. Esperamos que
assim acontecerá; mas antes, ousamos insistir, em solicitar o apoio do Sr. Ex.
A outra sorte de asylo de que carece a criança é a – Escola. Não em tão grande
numero como seria para desejar, mas em todo caso bastantes em relação ao numero de alumnos
que as freqüentam, existem n’esta cidade escolas publicas gratuitas, para ambos os sexos, onde
se ensinam as primeiras lettras. Estas escolas não são, porém, convenientemente distribuídas e
sendo aproveitadas casas particulares, impróprias, sem as condições hygienicas precisas, e cujo
aluguel não póde exceder de uma somma orçada, estas escolas, dizemos, não ficam sempre em
lugares onde existe o maior numero de crianças que d’ellas se podem utilisar, ficam muitas
vezes distantes, e as crianças tendo de fazer grandes caminhadas deixam de ser assíduas, e
quando o são, ficam expostas as intemperies da estações, sendo não poucas vezes as entradas e
sahidas das escolas, as causas de moléstias, sobretudo, em épocas epidemicas.
Deveriam, pois, as escolas ser collocadas, nos bairros especialmente, na circuncripção
onde, segundo informação das autoridades policiaes, houvesse maior numero de crianças.
Porém, o que constituiria o maior serviço a criança, o que valeria uma protecção segura, seria a
obrigatoriedade do ensino primário. Todo pai ou mãi que não mandasse seus filhos de idade de
9 annos para cima, ás escolas, deveria ser punido com multa e prisão...51

A possibilidade de se trabalhar com o aludido jornal, amparado aos aportes teóricos,


nos tem propiciado a ampliação do olhar investigativo na fonte e possibilitado o entendimento
dos projetos educacionais e de institucionalização da medicina num movimento de
estabelecer-se institucionalmente no campo político-social. Dentre os inúmeros personagens
envolvidos no processo de intervenção médica, assinalamos a mulher como a principal
personagem social a ser (re)educada, no sentido de rever suas práticas maternais e de intervir
na educação dos filhos e na condução do seio familiar adquirindo, assim o papel principal na
proposição médica e na intervenção do Estado nos hábitos da sociedade.

51
COSTA, Carlos. Jornal A Mãi de familia. Educação da infância, higiene da família. Rio de Janeiro: Typ. Lith.
De Lombaerts & Comp, 10º ano, julho de 1888, pp. 109-110.
Em Costa, deparamos com dois tipos de intervenção normativa que exemplificam a
prática política do Estado, desenvolvida em nome dos direitos do homem e que defendem a
saúde física e moral das famílias. A primeira intervenção a ser implantada foi a da medicina
doméstica, que no cerne da família elitizada se propunha e fomentava a política
populacionista, numa prática de conservação e reorganização das famílias via educação das
crianças. A segunda intervenção, direcionada aos plebeus, era exercida através de campanhas
de moralização e higienização coletiva.
Dentre as múltiplas possibilidades de análises potencializadas pelo jornal, este nos
permite refletir sobre a suposta identificação dos higienistas ao pedagogo, sendo o higienista,
personagem propositor e defensor de um conjunto de idéias condizentes a saúde pública, do
corpo e da mente em prol de uma sociedade salutar e que encontra-se focada na higiene,
proteção e desenvolvimento da infância. Quanto a identificação com a figura do pedagogo, a
educação para os médicos higientista é tomada como viés primário no processo de
transformação social. Possibilidade suscitada por médicos colaboradores do periódico e que
teve como corroborador, o Estado.
Consideramos que temáticas como, a insubmissão familiar quanto as ações práticas
pretendidas no seio da família; a mudança de hábito imposta pelo Estado e rejeitada pela
família; a reformulação médica do projeto familiar como o intuito de formular um novo
cidadão, devem ser investigadas como objeto de pesquisa para a história da educação.
Imagem 2 - “Caricia materna”
Jornal A Mãi de familia de janeiro de 1879.
Acervo: Biblioteca Nacional

Podemos indiciar na imagem acima, além de um momento de afeto e carícia materna


entre mãe e filho, um ambiente sujo, sem nenhuma higiene, onde a criança se apresenta
completamente despida ao colo da mãe. Tal foto representa a preocupação dos médicos
higienistas quanto a maneira pela qual as mães cuidavam de seus filhos e do espaço em que
viviam, alertando a todos os leitores quanto ao ambiente inadequado a salubridade da família.
O periódico nos oferece infinitas possibilidades de análise que perpassam por artigos,
textos teatrais e literários e imagens 52, compositores opulentos ao impresso. Em nosso
primeiro movimento de investigação encontramos diversos indícios educacionais e de caro
conteúdo que só tende a enriquecer a pesquisa, dentre os quais as escritas voltadas as mães de
família, foco primário do jornal; bem como as crianças; as doenças identificadas no período;
as ações importantes no que diz respeito aos cuidados das mães com as crianças; as
vestimentas; etc.
Mediante análise dos artigos publicados podemos afirmar a intenção do Doutor Carlos
Costa, quanto a propagar, fomentar e promover pelo período de dez anos, tempo em que
circulou pela Corte e províncias do Rio de Janeiro, via artigos temáticos, proposições no
processo de (re)educação das mães e cuidados com as crianças. Temas diferenciados, mais de
conteúdo considerado essencial por higienistas à uma mudança social e que eram elencados e
52
Os quadros dos artigos, textos teatrais e literários e imagens encontram-se disponibilizados em anexo ao final
do trabalho.
abordados por diferentes autores, como: A Creche (Asilo para a Primeira Infância) do doutor
K. Vinelli; Moléstias das Crianças I e Palestra do Doutor Carlos Costa e Farmácia
Doméstica de Mello Oliveira, além do tema do jornal A Mãi de familia, indiciados no
primeiro fascículo.
Em seu segundo número tivemos a continuidade do artigo A Mãi de familia e a
Palestra do médico, além de A creche e Fragmentos – O que se diz das mulheres, este sem
identificação do autor; dentre outros assuntos identificamos o da Hygiene Escolar escrito por
Dr. João Pizarro Gabizo; Variedade o pó de arroz e o arsênico, também sem assinatura e
Moléstias das Crianças – constipação ou prisão de ventro do doutor Carlos Costa, tendo sido
os dois primeiros números publicados em janeiro de 1879. A redação do jornal também se
propunha a esclarecer duvidas e receber opiniões dos leitores, além de publicar apreciações,
poemas, textos e crônicas seguindo o propósito do jornal.
Portanto de 1879 a 1882 manteve um linha editorial única, só mudando o seu formato
e apresentação em 1883. Com a alteração o periódico passa a ter a sua organização elaborada
por algumas temáticas específicas, sendo elas: medicina, higiene, recreio e modas e com a
nova diagramação do jornal excluem-se as gravuras, perdendo assim a proposta ilustrativa
considerada nos anos iniciais.53
A coluna Recreio, criada em 1883, marca sua estréia com a publicação do texto teatral
literário, A herança, escrito por J.A.Guyet, dramaturgo francês. Quanto aos textos, que apartir
desse momento foram sendo escritos e publicados pelo jornal, relacionados no quadro abaixo
respectivamente com os autores e ano de publicação, trataremos no capítulo seguinte,
privilegiando a análise do texto de Guyet publicado por doutor Carlos Costa em abril de 1883.

53
Sua primeira publicação, com nova roupagem, se deu em janeiro do ano de 1883, nela encontramos
transformações textuais e de colunas jornalisticas, como a dos Editores que substitui a Palestra do médico; uma
coluna sobre Medicina, que tem artigo intitulado como higiene da mulher pejada, do doutor Pires de Almeida.
Esta, apresenta ainda outro artigo referente a higiene da mulher pejada, educação, de Alberto Durand; uma
coluna sobre Educação, artigo – a natureza da criança; O ponto, L.B.; coluna Higiene, como texto intitulado
Livrinho de Família do doutor M.S.; A coluna Recreio com seu primeiro texto chamado O tratamento (colencia);
A avó de Raimundo Corrêa; Quadro sinóptico de educação e instrução completa acompnahando o homem desde
a infância até o exercício de uma profissão definitiva; descrição de figurino colorido e assina-se na livraria.
Quadro 1: Textos Teatrais e Literários

TITULO AUTOR ANO PUBLICAÇÃO


“O centenario do Sr. Sempreviva” Dr. Pires de Almeida 1884

“Um Baptisado na cidade nova” Dr. Pires de Almeida 1884

“Tantas vezes vai o cântaro á fonte...” D. Maladie 1884

“A figueira do inferno” Agárico 1884

“Tempestades do coração” Dr. Pires de Almeida 1884

“A hysterica” Agárico Sem indicação

“A herança” J.A. Guyet Abril de 1883, 5º anno, n.8

“O bastardo” Dr. Pires de Almeida 1885

“Perigos de uma leviandade” Dr. Carlos Costa 1887

“Um qui-pro-quo” 30 de abril de 1887

“Os pretendentes” Dr. Carlos Costa 1887


Capítulo 3

Os Textos Teatrais

3.1 – O Teatro: estratégia pedagógica nos espaços escolares.

De maneira geral a imprensa periódica que circulava no Rio de Janeiro, na segunda


metade do século XIX, se exprime por dois contrastes no que concerne a concepções de
“opinião publica”54. A primeira concepção é percebida por uma imprensa intelectualizada,
privada e crítica, enquanto que a segunda se apresenta por vias coletivas e normativas
pedagógicas.
O periódico A Mãi de familia nos instiga e surpreende pela sua originalidade, pelo
precioso conteúdo e pelas diferentes estratégias utilizadas pelo Doutor Carlos Costa e seus
colaboradores no propósito de fomentar uma prática de higiene preventiva condizente ao
período. Este surge de forma diferenciada em meio ao conjunto de impressos que circulavam
no século XIX e que proporcionavam debates e discussões sobre os mais diversos assuntos,
como educação, economia, cultura e higiene.
O movimento higienista promovido pelo campo da medicina trouxe a cena o jornal A
Mãi de familia e, os textos teatrais concebidos, por nós como estratégia utilizada para o
progresso. Identificamos no jornal publicado no período de 1883 a 1888, o foco central.
Especialmente do primeiro texto publicado, intitulado A herança, de J.A. Guyet 55, dramaturgo
Francês, que escreveu diversas obras teatrais, como o drama “Clémence, ou le Doig de Dieu”,
além da “Patrimoine” que em português recebe o título de “Herança”. No Catalogue
Génerále de la Librairie française de 1840, encontramos referências sobre o autor.

54
MOREL, Marco; BARROS, Mariana Monteiro de. Palavra, imagem e poder: o surgimento da imprensa no
Brasil do século XIX. Rio de Janeiro, editora: DP&A, 2003, p.21.
55
Catalogue Génerále de la Librairie française, depois 1840, p. 622. Ver Anexo.
Imagem 3 - Texto: “A herança”
Autor: J.A. Guyet
Jornal A Mãi de familia de janeiro de 1879.
Acervo: Biblioteca Nacional

A prática pedagógica das diretoras de um dos colégios de meninas da Corte56 foi um


incentivador na ação tomada pelo doutor Carlos Costa e seus colaboradores no que se refere a
escrever e publicar os textos teatrais. Os textos deveriam fazer parte do processo educacional
higienista, introduzindo neles valores (re)significados que aos olhos dos autores cabiam ser
inseridos no primeiro momento aos seios familiares pelo viés feminino e paralelamente aos
espaços sociais. Em citação Carlos Costa afirma que “Ha alguns annos a esta parte, as
directoras de collegio de meninas, desta corte e do interior, adoptaram festejar o encerramento
das aulas fazendo as alumnas representar comedias, sainetas, e outras pequenas peças de
theatro. Parece-nos excellente e utilissima a pratica adoptada pelas Sras. Directoras de
collegio.57
Mediante as diferentes estratégias utilizadas pelos médicos no sentido de propagar
suas experiências empíricas e suas idéias quanto a um novo modelo educacional de higiene,
os doutores Carlos Costa e Pires de Almeida, investiram no esforço de escrever textos teatrais
56
No periódico encontramos apenas o trecho supracitado que tece somente um elogio a prática realizada pelas
diretoras de um colégio da corte naquele período. Não nos foi possível até o momento identificar o nome do
colégio, o endereço e nem o nome das diretoras. O movimento de identificação dos personagens e espaços
escolares continua independente do fechamento desse trabalho.
57
COSTA, Carlos. Jornal A Mãi de familia. Educação da infância, higiene da família. Rio de Janeiro: Typ. Lith.
De Lombaerts & Comp, 5º ano, número 7, abril de 1883, op. cit., p. 53.
e publicá-los por um período de cinco anos. Textos que relatam inúmeros assuntos relevantes
ao momento histórico da época e que analisaremos no tópico dois desse capítulo.58
Para compreender e situar o teatro no contexto médico higienista, primeiro faremos
um resumo histórico do teatro tomando como ponto de partida a Grécia, berço da arte teatral,
desembarcando no Rio de Janeiro espaço cênico de ação higienista no século XIX. O Teatro
consolidou-se, enquanto espetáculo, na Grécia antiga originando-se em função das
manifestações em homenagem ao deus do vinho, Dionísio, com equivalência ao deus romano
Baco. A cada nova safra de uva, era realizada uma festa em agradecimento ao deus, através de
procissões. O teatro no Brasil surgiu no século XVI, tendo como motivo a propagação da fé
religiosa. Dentre uns poucos autores, destacou-se o padre José de Anchieta, que escreveu
alguns autos (antiga composição teatral) que visavam a catequização dos indígenas, bem
como a integração entre portugueses, índios e espanhóis. Exemplo disso é o Auto de São
Lourenço, escrito em tupi-guarani, português e espanhol.
A história do teatro traz em seu contexto teórico-prático inúmeras intervenções
culturais e educacionais que comprovam a importância da dramaturgia no processo de
formação e informação sócio cultural e educacional. Dentre as quais encontramos, por
exemplo, a proibição promulgada pela Igreja Católica na Idade Média proporcionando ao
mesmo abandonar o cenário por longo período histórico. Época em que pouquíssimas
manifestações teatrais resistiram e que alguns poucos artistas podiam apresentar-se pelas
cortes dos reis e nobres, atuando como malabaristas, trovadores, imitadores e jograis.
No entanto na Europa do século XI, juntamente com o crescimento da produção
agrícola, o aumento da população, a expansão do comércio e outros adventos do “progresso”,
ressurge das cinzas o teatro. E contraditoriamente na Igreja com o propósito de utilizá-lo
como ferramenta pedagógica dos ensinamentos religiosos.
Ou seja, durante séculos o teatro vem servindo a inúmeros propósitos, dentre os quais,
o de entreter e incutir determinados conhecimentos educacionais, culturais, políticos e sociais.
O teatro também fez parte do processo de colonização e civilização no Brasil. Esta marca
deixada pela Igreja Católica Apostólica Romana, onde os padres, principais responsáveis pela
aplicação prática dessas instruções e saberes, utiliza-o como ferramenta de civilização e
aculturação dos índios.
No Brasil do século XIX, na cidade do Rio de Janeiro, o teatro apresenta-se, entre
outros, como estratégia no processo de (trans)formação dos indivíduos e das famílias atuando

58
Quanto aos autores encontram-se relacionados em quadro anexo situado à página 29 deste trabalho,
respectivamente com seus textos.
nos espaços sociais, como por exemplo nas escolas; residências e teatros. Operando através de
diferentes estratégias, médicos se utilizavam de mais uma ferramenta com o propósito de
codificar as relações entre pais e filhos segundo regras bem precisas. Relações que segundo
Foucault.

São certamente mantidas, e com poucas alterações, as relações de submissão e o


sistema de signos que elas exigem, mas elas devem estar regidas, doravante, por todo um
conjunto de obrigações que se impõe tanto aos pais quanto aos filhos: obrigações de ordem
física (cuidados, contatos, higiene, limpeza, proximidade atenta); amamentação das crianças
pelas mães; preocupação com um vestuário sadio; exercícios físicos para assegurar o bom
desenvolvimento do organismo: corpo a corpo permanente e coercitivo entre adultos e
crianças. A família não deve ser mais apenas uma teia de relações que se inscreve em um
estatuto social, em um sistema de parentesco, em um mecanismo de transmissão de bens.
Deve-se tornar um meio físico denso, saturado, permanente, contínuo que envolva, mantenha e
favoreça o corpo da criança.59

Em meio ao olhar atento e preocupado a medicina move-se em direção a uma


conscientização coletiva da família no sentido de cuidar e educar seus filhos quanto à saúde
dos mesmos, bem como a do próprio seio familiar. A família é vista como lócus primário de
transformação da sociedade no que concerne a saúde da cidade, conceitos que estiveram
presentes nos discursos médicos a partir dos fins do século XVIII e durante todo o período
oitocentista.

3.2 – O Mãi de familia e os textos teatrais: estratégias pedagógicas no processo de


intervenção higienista.

Ao manusear o jornal A Mãi de familia, pude perceber a existência de onze textos


teatrais. E uma das questões suscitadas foi a de identificar qual(ais) a(s) relação(ões) entre
medicina, higiene e educação existente(s) nos textos literários teatrais? E, o que tornava os
textos teatrais próprios e adequados as representações nas férias, na visão dos higienistas?
Questões que surgiram em meio a leitura de um breve comentário justificativo, escrito pelo
Doutor Carlos Costa, da publicação do texto A herança, de J.A. Guyet.
Mediante afirmativa de ter sido uma ação louvável das Doretoras do colégio e do
enredo textual escolhido, inúmeras questões foram surgindo, dentre elas, a primeira foi
identificar o que tornava excelente, utilíssima e adequada as peças e suas representações nas
férias? Declaração feita pelo doutor Carlos Costa no fascículo de lançamento da coluna
Recreio. Saber ainda, quais valores sociais se faziam presentes nos textos? Qual a importância
dos textos no processo de reconstrução da família e da sociedade naquele contexto? Porque a
59
FOUCAULT, op. cit., nota 37, p.199.
utilização do teatro como ferramenta pedagógica educacional no processo de educação e
higienização? Quais os assuntos abordados pelos autores? Quantos textos teatrais foram
produzidos e publicados no jornal? Quem eram os autores dos textos? Que papel exerciam na
sociedade? Os textos eram encenados em algum teatro ou escola, por quê? As personagens
eram interpretadas por quem? As personagens faziam parte do contexto histórico daquele
período? A partir de que ano se começou a publicar os textos teatrais no jornal?
O texto a Herança tem como trama principal a realização de um “exame scientifico”,
promovido por Mme Mérillon, personagem que o autor intitula como rendeira. Com o
propósito de identificar nas sobrinhas de Mme Révissac, Carolina, Isabel e Virginia as
virtudes adquiridas em seu processo educacional. Nesse processo, Mme Mérillon, utiliza-se
da estratégia de encenação, servindo-se de suas camareiras para atuarem como meninas, com
o firme propósito de por “(...) á prova a modéstia, a piedade, o amor á tia, a brandura de
gênio, o desinteresse, todas as virtudes em uma palavra”. 60 Para que, então, possa se
identificar qual(is) da(s) meninas se faz merecedora da herança deixada por Mme Révissac,
tia das meninas. Tais virtudes se apresentam no texto como sendo valores sociais
extremamente importantes no processo educacional e de formação da família naquele período.
Contudo para indiciar quais virtudes sociais foram valorizadas no texto teatral e
entender o porquê da publicação do mesmo no periódico naquele momento, é preciso tecer
uma análise dos diálogos textuais de “A herança”. O interesse e a adesão dos médicos na
criação de novos textos, em especial a do doutor Carlos Costa e a do doutor José Ricardo
Pires de Almeida, que reforçavam a nossa crença de que os autores acreditavam no recurso
interpretativo e na literatura teatral como ferramenta educativa e fomentadora de virtudes e
valores numa mudança de hábitos sociais necessárias e essenciais ao processo de intervenção
higienista.
No primeiro texto, A herança, pretendemos subtrair os valores sociais e educacionais
que se faziam presentes na produção do “sujeito de boa índole”, como nos mostra o autor em
seu texto. Uma das cenas que exemplificam as virtudes e valores é a cena onde Mme.
Mérillon procura saber de Rosina e Maria quanto as atitudes tomadas pelas sobrinhas de
Mme. Revissác em conversa provocativa das camareiras. Processo surpresa de avaliação das
meninas no sentido de identificar as qualidades e com isso premiar com a herança a
merecedora. A “V Cena” nos apresenta alguns dos objetivos das personagens escritos pelo
autor na trama.

60
COSTA, op. cit., nota 8, p.54.
Mme Mérillon. – Digam-me o que fizeram. Seguiram as minhas instrucções?

Maria. – Foi tudo inútil, minha ama.

Mme Mérillon. – Ainda bem! Mas afinal o que fizeram vocês? Pozeram á prova a sua
caridade?

Rosina. – Disse-lhes que a herança de Mme Révissac estava destinada aos pobres.

Mme Mérillon. – E o que responderam?

Rosina. – Pintou-se-lhes a alegria no rosto; que era uma boa acção pela qual seriam
recompensadas.

Mme Mérillon.- Muito bem.- E quanto ao desinteresse?

Maria. – Cada uma dellas deseja que a outra obtivesse o premio.

Mme Mérillon. – Deveras? – Então amam-se muito?

Rosina. – Como três anjos.

Mme Mérillon. – Mostram-se agradecidas á tia?

Maria. – Muito agradecidas; e sobre este ponto mademoiselle Isabel reprehendeu-me


com tanta vehemencia que me meteu medo.

Mme Mérillon. – E’ porque Isabel é um nobre coração.

Maria. – As outras também nos responderam mas com menos calor.

Mme Mérillon. – E’ porque são mais tímidas. Procuram descobrir si tinham inveja
umas ás outras?

Rosina. – Mas não conseguimos nada.

Mme Mérillon. – Muito bem. – São modestas.

Maria. – Nenhuma contava obter o premio.

Mme Mérillon. – Mostraram duvidar da minha imparcialidade, das minhas


habilitações?

Rosina. – Todas disseram que minha ama é muito justa e instruída. E não disseram
mentira nenhuma.

Mme Mérillon, sorrindo. – E você está muito no caso de julgar.

Rosina. – Disse-lhes que os bens estavam crivados de dividas.

Mme Mérillon. – Ah!Ah! E o que responderam?

Rosina.- Responderam que pagariam.

Mme Mérillon. – Admirável!


Maria. – E antes de começar o exame juraram que haviam de amar-se sempre, fosse
qual fosse o resultado do concurso. Mas devo dizer-lhe, minha ama, que mademoiselle Isabel
se encolerisou contra mim.

Mme Mérillon. – Encolerisou-se contra as mentiras; a esta hora já não se lembra mais
disto. Vocês vão ver. Chame-as.

Maria. – Sim minha ama. (sae.)61

Porque utilizar-se do teatro como recurso no processo educacional da infância e da


família? Ao refletir sobre a questão levando em consideração o contexto da época e
principalmente as ações médicas higienistas quanto a se inserir no processo como autores
teatrais. Entendemos como sendo clara, a intenção do autor em promover novos hábitos,
costumes e valores que, aos olhos dos médicos deveriam ser socializados, a priori no espaço
privado da família. Não é por acaso que a personagem principal é a mulher, mãe de família. E
“Para esse fim que mais vasto campo poderiamos encontrar do que a imprensa, esse uberrimo
manancial da educação popular, cujos fructos são sem duvida, a verdadeira civilização das
nações, constituida pela regeneração do organismo humano?”62 A imprensa como estratégia
política, ideológica e educacional agindo num viés de mudanças de hábitos e costumes,
sociais ou privados, intervém nos espaços familiares, bem como nas poucas escolas da Corte
direcionadas as meninas. Neste cenário, a literatura teatral surge como ferramenta educativa
para gerar agentes, mães ou mesmo futuras mães, de família e, assim promover as ações
práticas que se deseja aos diferentes meios sociais.
Na perspectiva de apoiar o projeto literário teatral desenvolvido nos espaços escolares
e ao mesmo tempo se utilizar como veículo de propagação dos valores políticos educacionais,
além da publicação dos textos, que visavam contribuir nos moldes de uma educação burguesa
e plebéia pelo mesmo viés da medicina higienista, os médicos, segundo Gondra buscaram
atuar como conselheiros nos espaços públicos sociais, bem como nos privados (sociedade
familiar) intervindo na “prática educativa” e no processo de criação das crianças.

(...) a expressão “prática educativa” também se aplica a população carioca do século


XIX, que é referida, nas teses, como objeto de intervenção da ciência médica mobilizada no
tratamento dos temas. Ou seja: a população em geral e os alunos dos colégios em particular são
os objetos a serem tratados – em sentido médico – pelos modelos e preceitos científicos
mobilizados para expor matérias propriamente médicas. Os modelos e preceitos são irradiados,
por assim dizer, em uma operação que perspectiva o social pelo crivo da doença, prescrevendo
a saúde do corpo e sinônimos da mesma para a alma, como a moral, por meio da ordenação

61
COSTA, Carlos. Jornal A Mãi de familia. Educação da infância, higiene da família. Rio de Janeiro: Typ. Lith.
De Lombaerts & Comp, 5º ano, número 7, 2ª quinzena de junho 1883, op. cit., p.94.
62
COSTA, op. cit., nota 2, p.01.
racional do espaço urbano, da organização metódica do tempo e saneamento físico ou
higiênico como ação civilizatória.63

A prescrição higiênica civilizatória que teve como ferramenta de intervenção os textos


teatrais atuou nas diferentes classes como política de entretenimento, mas principalmente
como objeto de inculcação de virtudes, modéstias, piedade e brandura de gênio intervindo nos
hábitos sociais e agindo na prática do “produzir sujeitos higiênicos, higienizados e
higienizadores.”64

Sabem todos, e os nossos jornalistas verdadeiros patriotas o tem demonstrado, em seus


notaveis escriptos, que entre nós muita cousa e senão tudo há fazer em relação á educação
intellectual. Povo e governos estão intimamente convencidos que do desenvolvimento da
instrucção depende a grandeza d’esta terra e a iniciativa particular, que parece querer
patentear-se n’estes últimos tempos, já tem procurado trazer alguns melhoramentos ao systema
da rotina, seguido até então no ensino.
Mas, não é bastante elevar-se templos ostentosos á minerva, esses focos de luz para os
espíritos obscurecidos; não é somente com a educação intellectual que se completara a grande
obra do progresso com que o povo e governos garantirão a força das gerações futuras!
E’ de muita urgencia que seriamente se pense em animar-se o desenvolvimento
physico das creanças, isto é, do futuro cidadão. Aquelles a quem incumbe o elevado encargo
de cuidar da saude publica, ao medico, cabe a sublime missão de aconselhar, por todas as
formas possiveis, os meios de tornar regular o funcionalismo do órgão ao qual foi confiada a
direcção dos actos physicos.65

Entendemos ainda que a dramatização dos textos teatrais, além de proporcionar o


exercício intelectual das crianças as colocava em movimento corporal fazendo com que os
atores do espetáculo trabalhassem não somente as questões relacionadas a sua intelectualidade
mais também os “actos physicos”, que segundo doutor Carlos Costa “garantirão a força das
gerações futuras”. Acreditamos que este seja apenas um dos motivos pelos quais os médicos
higienistas tenham se prontificado a apoiar a ação das diretoras dos colégios e buscado
fomentar mais ações nesse sentido ao escrever os textos teatrais como forma também de
propagação dos seus “saberes científicos”.
A comédia criada por Gueyt tem como propósito transmitir aos espectadores uma série
de valores compreendidos pelo autor, por pedagogos e por médicos naquele período, como
sendo de extrema importância no processo de transformação do sujeito e de progresso para o
país. Dentre as personagens principais temos Mme. Mérillon responsável por elaborar a farsa
criada por ela e que tem como propósito descobrir as virtudes, requisitos de análise

63
GONDRA, José G. Artes de civilizar: medicina, higiene e educação escolar na Corte imperial. In.
CARVALHO, Marta Maria Chagas de. Prefácio. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2004, p.12.
64
Cadernos Cedes 59. Educação pela higiene: histórias de muitas cruzadas. Vol. 1, n. 1. In: GONDRA, José
Gonçalves. Homo hygienicus: educação, higiene e reinvenção do homem. São Paulo: Cortez; Campinas,
CEDES, 1980, p.26.
65
COSTA, op. cit., nota 2, p.1.
educacional, em Carolina, Isabel e Virginia, das sobrinhas de Révissac. As criadas, Rosina e
Maria, são inseridas como protagonistas na encenação da trama e procuram de todas as
maneiras alcançar o objetivo imposto por Mme. Merillon.
As criadas se vestem como meninas a fim de se passar por amigas da casa e não
levantar suspeitas que possam atrapalhar seus planos. Extrair das meninas o máximo de
informação que pudessem e indiciar tais virtudes é o objetivo das criadas meninas, mais para
o sucesso do plano Mme. Merillon as orienta que “(...) Conversem com as tres primas;
procurem depois captar-lhes a confiança, o que é facílimo entre moças. Prestem toda a
attenção ás suas conversas e ao que dizem particularmnente umas das outras.” 66 Só, assim
poderão conseguir alcançar o objetivo do plano, segundo Mme. Mérillon.
Na “Cena III” do texto já podemos identificar as artimanhas utilizadas pelas
camareiras a fim de subtrair informações das primas que pudessem ser repassadas a Mme.
Mérillon. Uma das estratégias utilizadas pelas criadas foi exatamente a de cativar e conquistar
a confiança de Carolina, primeira candidata a chegar a casa. Em seguida provoca a mesma
expondo os valores da herança, fazendo com que Carolina a respondesse com firmeza e
desinteresse.

Maria, maliciosamente. – Não é esse creio eu, o fim unico da reunião; o resultado do
exame é importantissimo, porque dotará a mais digna com uma fortuna de seiscentos mil
francos.
Carolina. - (...) Não ignoro essa circunstancia, mademoiselle, que pouco me seduz. O
que eu temo é mostrar-me no exame inferior ás minhas primas; mas verei sem inveja que uma
dellas enriquece á custa de minha ignorância. O que sobretudo respeito, é a ultima vontade da
minha tia.67

Com tal atitude, Rosina e Maria identificam de imediato no comportamento de


Carolina algumas das virtudes referidas por Mme. Mérillon, como a modéstia, o desinteresse,
o amor e o respeito, que para elas são requisitos de boa educação. Em pequeno diálogo com
Carolina, Maria e Rosina continuam com a provocação insistindo na quantia da herança,
inventando alguns fatos irreais e acrescentando a sua predileção pela mesma. Mas a
ingenuidade, o desapego, a humildade e a caridade, qualidades essas que deveriam ser
observadas nas herdeiras se apresentam nesse diálogo.

Maria. – Esses sentimentos são nobres e belos na verdade; mas peço-lhe que os ponha
de lado. Não conheço suas primas: quer-me parecer, comtudo. Que não terão a sua abnegação.
Seiscentos mil francos não fazem mal a ninguém. Mademoiselle inspira-me sympathia e ficarei
66
COSTA, Carlos. Palestra do médico. In. Jornal A Mãi de familia. Educação da infância, higiene da família. 5º
ano, número 7, abril de 1883, cena III, op. cit., p.54.
67
Ibdem, op. cit., p. 55.
contrariada si lhe não couber uma fortuna tão bonita. Empregue, empregue todos os esforços
para ganhal-a.

Carolina. – Empregarei todos os esforços para mostrar-me digna della; mas o meu
adiantamento nos estudos não me inspira illimitada confiança. E ainda mesmo que eu sahisse
victoriosa, tenho para mim que offenderia minhas primas acceitando para mim só essa grande
fortuna. Desejava repartil-a igualmente entre nós.

Rosina, á arte, batendo com o cotovello em Maria. – Toma para o teu tabaco! (alto) E’
necessário, mademoiselle Carolina, que a avisemos de uma cousa; os bens de Mme. Révissac
estão em grande parte hypothecados e não sei si chegarão para pagar os credores.

Luiza. – Ah! Meu Deus!

Carolina, com orgulho. – Não importa! Eu e minhas primas pagaremos as dividas.

Maria, á parte. – Esta é invulnerável.

Rosina. – Mme. Mérillo está o jardim. Si querem que as acompanhe até lá...

Carolina. – Com todo o gosto! Tenho muita vontade de apresentar os meus respeitos á
amiga de minha tia. Vamos. (saem)68

A personagem Maria, na “IV Cena”, nos chama a atenção e faz perceber quanto à
importância e a valorização dada a esse tipo de instrução ministrada nos colégios durante o
processo de escolarização, lugar, onde também se adquire tais virtudes. No ponto de vista da
personagem, o colégio e os livros são caminhos que transmitem conhecimentos e viabilizam
conquistas. Tal questão nos é indiciada em uma das falas da personagem Maria.

Maria, só. – Si as duas outras primas si parecem com esta, estamos arranjadas...Com
que prumo e ao mesmo tempo com que ingenuidade nos respondeu...E no entanto é uma
creança...Ah! a educação! ...Que thesouro! Foi pena que minha pobre mãe (Deus tenha em paz
a sua alma!) Não tivesse meios para mandar-me educar...Eu dava uma verdadeira
senhora...Sim, porque não havia de dar? Mas paciencia... Nunca é tarde para aprender...vou
comprar livros...Estudarei de dia e de noite...Queimarei as pestanas...Quando eu souber
bastante talvez que alguma fidalga me escolha para herdeira...Mas ouço passos...Voltemos ao
meu papel de menina.69

Na cena cinco Maria decide de imediato adentrar ao assunto e com mais rapidez
coloca a prima Virginia à prova. Além de buscar conquistar sua confiança resolve atacar
Virginia com questões que trazem à tona alguns valores, objeto de análise nas candidatas a
herança, como nos é apresentado no diálogo abaixo, realizado pelas duas meninas.

Maria. – Conheço-a, a mademoiselle, porque tenho ouvido Mme. Mérillon gabar


muitas vezes as suas bellas qualidades, e disse-me também que morava perto daqui.

68
COSTA, Carlos. Palestra do médico. In. Jornal A Mãi de familia. Educação da infância, higiene da família. 5º
ano, número 7, abril de 1883, cena III, op. cit., p. 55.
69
Ibidem, cena IV, op. cit., p.63.
Virginia. – Vejo que conhece os nossos segredos. Estou fallando a uma amiga de
Mme. Mérillon. (Maria faz sinal affirmativo.) Fallou-lhe com louvor a meu respeito; mas eu sei
que Mme Mérillon é muito bondosa.

Maria. – Engana-se, Mademoiselle; Faz-lhe apenas justiça, e aqui que ninguém nos
ouve deixe-me dizer-lhe: Mme. Mérillon manifesta deidida preferência por mademoiselle.
Póde ser que eu me engane; mas estou capaz de apostar em como lhe há de vir a pertencer a
herança de mme Révissac.

Virginia. – Sou muito obrigada a Mme. Mérillon; mas experimentaria grande desgosto
si, por uma preferência que cousa alguma justifica, fosse a causa de uma humilhação feita a
minhas primas. Não era essa a vontade minha tia.

Maria. – Com certeza não haverá injustiça; mas a senhora é filha do irmão de mme
Révissac. Suas primas, filhas das irmans della, não teem o seu nome. E’ preciso attender a isto.
Além disso o senhor seu pae prestou grandes serviços á família; era elle quem administrava as
propriedades de sua irman. Todos esses serviços hão de entrar em linha de conta. Ora
vamos...São favas contadas...A herança é sua.

Virginia. Esses serviços são apenas títulos accessorios e nullos para a intenção de
minha tia e nada pesarão na balança. Herdará a que tiver mais mérito, eis tudo! Se me couber a
fortuna bem seio o que farei.

Maria. – São generosas as suas palavras. Adivinho as suas intenções.

Virginia. – Quer que lhe diga tudo que penso?...Pois, seja. O meu maior desejo é que o
concurso não tenha resultado, isto é, que nenhuma de nós seja julgada mais instruída que as
outras.

Maria. – Mas nesse caso a herança não caberá a nenhuma; não se póde dividil-la,
cumpre que sabia...

Virginia. – Oh! Não falemos mais nisto...já terão vindo minhas primas? 70

Nesse momento percebesse que Virginia propõe mudar de assunto, mais, Maria não se
dá por vencida e resolve “alfinetar” mais um pouquinho a menina, fazendo com que Virginia
responda sua provocação e se esquive do assunto ao mesmo tempo.
Quanto à localização das cenas que vão de VI a XI, ver nota.71
A cena XII, composta por Maria, Isabel, Virginia, Carolina e Rosina, nos retrata o
encontro entre as primas, logo após a entrevista com Mme. Mérillon e, reafirma o desinteresse
das meninas, além da abnegação no que se refere a herança. Virtudes que estão sendo levadas
em conta no processo de avaliação, mais que são de desconhecimento das crianças.

Isabel. – Ah! Ai estão minhas primas. Então?

Virginia. – Mme Mérillon ficou satisfeita com as minhas respostas.

70
COSTA, cena III, op. cit., nota 66, pp.63-64.
71
Em nosso processo de pesquisa não foi possível encontrar as cenas que vão de VI a XI, pois os jornais de maio
e junho do ano de 1883, não foram localizados. A não localização das publicações das cenas, bem como a dos
jornais, impossibilitou a análise dos mesmos, mais não a continuação do processo de análise das outras cenas
localizadas.
Isabel. – E tu Carolina?

Carolina. – Eu também mereci elogios.

Isabel. – Bravo! Estamos em igualdade de circunstancias.

Maria. – E podem repartir a herança.

Rosina. – Oh! Isso não vae assim. No caso que nenhuma obtenha o premio, a herança
sera distribuída pelos pobres.

Isabel. – Ah! Então tanto melhor!

Virginia. – Começaremos a vida por uma boa ação.

Carolina. – Pela qual mais tarde seremos recompensadas.

Maria, á parte. – Que desinteresse!

Rosina, idem. – Que abnegação!72

Na “Cena XV”, composta pelas personagens Maria, Rosina e Mme. Mérillon as


criadas relatam tudo sobre o encontro com as meninas e apresentam as virtudes implícitas nas
ações das crianças. O diálogo estabelecido entre as personagens nos esclarece quanto ao caro
valor estabelecido nas questões de comportamentos sociais familiares e educacionais. O
diálogo aqui referido pode ser analisado no texto em anexo.
Na última cena do espetáculo, de número XVII, composta pelas personagens Maria,
Celeste, Carolina, Isabel, Mme. Mérillon, Virginia, Luiza e Rosina, expõe questões
concernentes ao direito a herança e a revelação de Mme. Mérillon quanto à estratégia por ela
utilizada com intento de identificar em cada uma das meninas as virtudes educacionais que
lhes fariam merecedoras da herança. Antes, porém, põe mais uma vez a prova às três primas.

Mme Mérillon, ás tres primas. – Reconheci com prazer que fizestes notaveis
progressos nos vossos estudos, e por isso vos dou os meus parabéns. Não me surprehendeu a
igualdade de adiantamento que há entre vós. A este respeito Mme Révissac teria apenas motivo
para orgulhar-se. Mas é precisamente essa egualdade que me colloca em grande embaraço, e
não sei qual de vós deva preferir. Devo consultar-vos sobre um caso tão delicado.
Mademoiselle Isabel, qual de vós é digna do premio?

Isabel. – A mais virtuosa e a menos rica. A mais virtuosa é Carolina; a menos rica é
Virginia.

Mme Mérillon. – Qual é a sua opnião, mademoiselle Carolina?

Carolina. – A que minha tia mais amava e aquella cujos Paes lhe prestaram mais
serviços. A primeira é Isabel; a segunda é Virginia.

Mme Mérillon. – O que diz, mademoiselle Virginia?

72
COSTA, Carlos. Jornal A Mãi de familia. Educação da infância, higiene da família. 5º ano, número 7, Junho de
1883, cena XII, p.93.
Virginia. – Aquella cujos sentimentos são mais nobres, Isabel; e a que más faz lembrar
as qualidades minha tia, Carolina.

Mme Mérillon. – Gosto de vos ouvir fallar assim, minhas boas amiguinhas. Todas vós
sois dignas do premio.

Celeste. – Minha senhora, permitta-me que lhe apresente uma sentença, que escrevi a
seis mezes. (apresenta um papel.)

Mme Mérillon. – Ah!Ah! então eu não era o único juiz. Vejamos (Lê) e considerando
que mademoiselles Isabel, Carolina e Virginia são de um mérito absolutamente egual em
talentos, mandamos e ordenamos que a herança seja dividida entre ellas.” Esqueceu-lhe um
considerando, Celeste: “Mandamos e ordenamos” transpira muita onipotencia.

Luiza, a Mme Mérillon. – As nossas amigas tinham combinado dividir a herança em


três partes.

Mme Mérillon, severamente. – Apezar da minha decisão!

Luiza, hesitando. – Sim, senhora.

Mme Mérillon, como acima. – Penalisa-me esse facto; vejo que não tendes
consideração pelas ultimas vontades de vossa tia.

Isabel. – Oh! Minha senhora, perdoe-nos! A nossa intenção não foi essa. A que
obtivesse o premio não o dividiria; dal-o-hia ás outras como presente.

Mme Mérillon, sempre com severidade. – E illudireis a decisão. Isso felizmente não
denota em vós um vicio do coração, porque neste caso eu addiaria o meu julgamento para a
épocha mais afastada. Creanças que sois! Manifestastes somente quanto sois inexperientes!
Mme Révissac previu o caso de accordo entre vós e levando – o a effeito afastareis para
sempre da vossa família a sua fortuna, que passaria a pertencer ao governo. Vede, minhas
amigas, quanto é perigoso conspirar.

Carolina. – Creia, minha senhora, que esta licção nos será muito proveitosa.

Virginia. – Oh! Perdoe-nos, minha senhora...Só a nossa inexperiencia...

Mme Mérillon, acalmando-se. – Perdôo-vos em attenção ás vossas boas qualidades. O


concurso litterario era mera formalidade. O verdadeiro concurso era o das vossas virtudes, e
todas prehenchestes egualmente as condições, resistindo ás suggestões das minhas creadas.
(Indica Maria e Rosina: as três primas fazem um movimento.) Julgo pois obedecer ás vontades
de Mme Révissac, julgo fazer o que ella faria, se vivesse, dividindo egualmente por vós a sua
fortuna. Daqui a pouco vos entregarei os papeis e documentos, que tenho em meu poder.

Virginia. – Ah! Como a senhora é boa!

Mme Mérillon. – Sou apenas justa.

Carolina. – Minha senhora, a gratidão embarga-me as palavras...

Isabel. – O seu nome, minha senhora, confundir-se-á em nossos corações com o


denossa querida tia.

Mme Mérillon. – Obrigada, minhas amiguinhas; sinto-me feliz com o que fiz.

Isabel, voltando-se para Maria. – Como! Então estava aqui para nos tentar?

Maria. – E’ exacto; mas onde se dão, ahise apanham.


Rosina, ao publico. – Minha avó, que tinha um provérbio para cada coisa, desta vez é
que podeia dizer: Duro com duro não faz bom muro.73

Em resumo o texto de Guyet é rico em suas temáticas de valores sociais que para as
diretoras do colégio e os médicos propositores de uma higienização da cidade e da família se
faz essencial no que diz respeito à educação das mulheres, das crianças e da família. A fim de
atingir uma parcela significativa da população e cobrar do governo uma ação política no
sentido de intervir por meio da educação e da medicina na sociedade.
Os médicos e colaboradores do periódico não pouparam esforços e nem proposições.
Engraxates e jornaleiros recém libertos da escravidão, entregadores de recados, e mais tarde
trabalhadores das indústrias, dentre inúmeras outras categorias que serviam a elite e a
sociedade por meio de serviços considerados desumanos, como por exemplo, carregadores de
dejetos humanos e que aproveitavam homens, mulheres e crianças nos diversos serviços
exigidos em nome do progresso, foram alvos no processo de intervenção higienista.
No cerne das inúmeras questões que não podemos deixar de refletir, a que diz respeito
aos leitores privilegiados se apresenta como uma das mais relevantes. Nem o significativo
percentual de analfabetos existentes no país inviabilizou o médico e redator-chefe de tornar
realidade o seu empreendimento, pois a elite daquele período se fazia propagadora de notícias
e discursos fomentados pelos periódicos e multiplicados pelos leitores e ouvintes. Burguesia
essa que seria a responsável na política de multiplicação da nova educação e no surgimento de
uma nova sociedade. No que se refere a classe popular e a educação uma preocupação maior
suscitava naquele momento e dizia respeito principalmente aos escravos libertos e aos pobres
quanto a sua colocação na sociedade, a prevenção dos mesmos à criminalidade e a educação à
qual ele teria de ter.
No entanto o educar significava muito mais do que previnir a criminalidade e as
“desordens sociais”, afirma Schueler em seu artigo “Crianças e escolas na passagem do
Império para a República” publicado pela Revista Brasileira de História na Universidade
Federal Fluminense em 1999. Em meio a preocupação com a educação das crianças pobres, as
proposições voltadas a criação de espaços escolares, colônias agrícolas, oficinas e institutos
profissionais, que foram se constituindo como produtos nos debates em busca de resolver os
problemas relacionados a chamada “transição do trabalho escravo livre”, principalmente no
que diz respeito ao contexto do pós-1871. O advogado, professor e político liberal Leôncio de
Carvalho já apregoava naquele período uma educação popular focada na aprendizagem de
ofícios e tinha a instrução primária como suficiente para as crianças pobres, livres ou libertas.
73
COSTA, cena III, op. cit., nota 72, p.95.
O doutor Carlos Costa em seus artigos, Palestra do Médico, indicia como sendo a
população da época, na sua maioria, independente da classe, ignorante no que se refere a
manutenção da saúde física e mental, colocando as mães como ignorantes no que diz respeito
a educação e cuidados com os filhos, uma visão higienista na época, onde muitas creanças
eram largadas a própria sorte.

A criança quer seja nascida entre o damasco e a sêda, quer seja oriunda dos
desprotegidos da sorte; quer tenha visto a luz entre douradas paredes de um palacio ou entre os
cáfesaes de uma fazenda, na maior parte das vezes é entregue aos caprichos da natureza que
nem sempre é previdente...As mulheres em nosso paiz não cumprem tanto quanto deviam os
sagrados deveres de mães....(...) a partir dos conhecimentos advindos com a ciência,
estabeleceram diferentes estratégias visando ensinar as mães a nutrir, criar, zelar e educar as
crianças desde a primeira idade, mas também orientá-las sobre os cuidados que deveriam ter
com a habitação, a alimentação, o vestuário e a higiene.74

Médicos, higienistas e intelectuais, como os doutores Pires de Almeida, Agárico e


Carlos Costa buscaram contribuir principalmente com aquelas que se tornariam mães, como
por exemplo, as meninas dos colégios femininos da época. E, dentre os textos escritos e
publicados pelos médicos, temos, por exemplo: “O centenario do Sr. Sempreviva”, no ano de
1884; “A figueira do inferno”, de 1884; “Perigos de uma leviandade”, de 1887;
respectivamente. Em meio as inúmeras questões que permeiam o objeto de pesquisa e
movimentam a investigação no objetivo de analisar os diferentes textos teatrais procuro
identificar a relação do teatro com processo de educação da época e o projeto de intervenção
médica higienista do Rio de Janeiro na formulação de uma idéia de progresso do país, pois
para doutor Carlos Costa tal progresso perpassa pela reeducação dessa mãe no sentido de
proteger e melhor cuidar, bem como na responsabilidade principal de educar seus filhos.
Ao investigar o jornal “A Mãi de família” percebemos em seus escritos grande
influência européia. O mesmo serviu de inspiração para a criação do “Mãi de Família”,
oferece as mães de famílias brasileiras, conselhos e informações que possam auxiliá-las em
suas jornadas diárias de mães, além de preencher espaços ociosos com proposições de
receitas, dicas de corte costura, poemas, dentre outros conhecimentos. Proposições que
contribuiriam para com a educação e organização da família.

74
COSTA, op. cit., nota 2, p.1.
Imagem 4 – Catalogue Générale de la Librairie Fançaise.1876.
Rédigé par Otto Lorenz.
Referência as obras literárias do médico francês
André Théodore Brochard e ao Jornal “la jeune mére”.75

75
Catálogo pesquisado, via internet, em 20 de junho de 2008, no site da Bibliotèque Nationale de France.
http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k48728.image.r=Catalogue+G%C3%A9n%C3%A9ral+de+la+librairie+fan
%C3%A7aise+depuis+1840.f1.langPT.
Considerações Finais

Ao investir esforços no objeto de análise teórica, o jornal A Mãi de familia, com foco
nos textos teatrais, norteado por uma perspectiva educativa e higienista do século XIX no Rio
de Janeiro, procuramos entender o real motivo pelos quais os médicos higienistas resolveram
atuar na escrita e na publicação de textos teatrais. Na busca por compreender e clarear as
questões suscitadas em meio ao processo de pesquisa, com relação a medicina, a higiene, a
educação e os textos literários teatrais, entendemos que os textos surgem como uma crítica
social, ao mesmo tempo, em que se procuravam impor uma mudança de hábitos familiares
inculcando valores virtuais que possibilitava avanço salutar na sociedade. Acreditamos ainda
que na visão dos higienistas o que tornava os textos teatrais próprios e adequados as
representações nas férias escolares educacionais, era exatamente a possibilidade de trazer a
cena questões que incomodavam os higienistas quanto aos cuidados com a saúde da mulher,
da mãe, da criança, da família e da cidade.
Tais questões se encontram nos artigos do jornal e tem a haver com a proposição de se
conferir um outro estatuto as crianças no momento em que o Colégio por meio de suas
Diretoras e alunas se propõe a montar e dramatizar os textos teatrais, inserindo, portanto,
valores sociais necessários, que segundo os médicos higienistas se faziam imprescindíveis na
formação de uma nova sociedade e na reconstrução da família.
Considerando o contexto ao qual se encontravam inseridos os personagens sociais e as
condições educacionais existentes àquele período, algumas ações privadas referentes à criação
de espaços escolares eram tomadas com foco na elite. Porém, o Estado começava a investir,
mediante pressão política institucional higienista, em um processo educativo e instrutivo em
relação a população pobre, composta por negros libertos ou ex-escravos envolvendo a
inserção social e principalmente a idéia de que era preciso atuar preventivamente no processo
de ampliação da população “marginal, criminosa”, mais com uma configuração diferenciada
dos colégios privados existentes.
As ações realizadas pelos médicos, no sentido de escrever e publicar os textos
literários teatrais indicia uma manifestação consciente no sentido de fomentar o
desenvolvimento do Estado. Mesmo ciente da existência de um alto índice de analfabetos e
que alguns poucos intelectuais no país são privilegiados quanto a leitura, sabe-se, porém, que
havia uma prática dos plebeus de se fazerem ouvintes das leituras desses privilegiados, o que
proporcionava portanto a fomentação e ampliação da informação desejada pelos higienistas e
a inculcação dos propósitos educacionais estabelecidos pelos médicos higienistas, utilizando-
se do sentido da audição.
Quanto aos textos literários teatrais a que se propõe escrever os médicos Carlos Costa
e Pires de Almeida encontram-se fundamentados em experiências empíricas focadas numa
atualidade social das quais os mesmos são propositores de mudanças urgentes em prol do
progresso que se objetiva para o país.
No que concerne às questões problematizadoras e mobilizadoras do projeto esperamos
ter possibilitado, no decorrer do processo de investigação, desenvolver o entendimento ou
pelo menos ampliar as questões e o interesse sobre o tema. Não temos nenhuma pretensão de
responder com a verdade as questões suscitadas, é claro. Mas, esperamos ter provocado o
interesse nos assuntos tratados na pesquisa, em especial pelo teatro como ferramenta
pedagógica capaz de intervir e auxiliar no processo educacional do sujeito, bem como na
mudança de comportamento de toda e qualquer sociedade.
A proposta inicial de inserir na integra todos os textos teatrais como o realizado com
“A herança” de J. A. Guyet, não se fez possível devido a enorme quantidade de cenas a serem
analisadas e muitas se tornariam repetitivas dentro do contexto, além de alguns textos também
não conterem todos os atos e cenas e por serem extremamente grandes no quantitativo de
cenas. Então resolvemos apenas utilizar o primeiro texto publicado no jornal e assim se
aprofundar na leitura dos demais textos a fim de analisá-los e traçar um comparativo com o
texto “A herança” pelo viés da educação, da família, da mulher, da mãe, da criança, da
intervenção higienista e dos valores sociais que se pretendia inserir nas mudanças de hábitos
da sociedade vigente naquele período.
Bibliografia

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_______________________. Jornal A Mãi de Familia – Educação da infância, higiene da
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de 1883.
_______________________. Jornal A Mãi de Familia – Educação da infância, higiene da
família. Imprensa: Rio de Janeiro, RJ: Typ. Lith. De Lombaerts & Comp., 10º ano, julho de
1888.
_______________________. Jornal A Mãi de Familia – Educação da infância, higiene da
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Campo das Letras, 2006.
Anexos
TITULO AUTOR ANO ESTILO PÁGINA
PUBLICAÇÃO
“O centenario do Sr. Dr. Pires de 1884 comedia 6, 7, 13, 14 e 15, 22 e
Sempreviva” Almeida 23

“Um Baptisado na Dr. Pires de 1884 comedia 30, 38, 47, 54, 63, 70,
cidade nova” Almeida 86, 94, 102, 109.

“Tantas vezes vai o D. Maladie 1884 84


cântaro á fonte...”

“ A figueira do Agárico 1884 100


inferno”

“Tempestades do Dr. Pires de 1884 Drama 117, 134, 142, 150, 158,
coração” Almeida 166, 173, 182, 190.

“A hysterica” Agárico 126

“A herança” J.A. Guyet Abril de 1883 comedia 54, 55, 63, 64, 93, 94,
95.
5º anno N. 8

“O bastardo” Dr. Pires de 1885 drama 118 e 119


Almeida

“Perigos de uma Dr. Carlos 1887 comedia 5 – 7 e 14 e 15


leviandade” Costa

“Um qui-pro-quo” 30 de abril de 1887 60 – 63, 68 – 69, 86 e


87.

“Os pretendentes” Dr. Carlos 1887 comedia 93 e 94; 109 – 111; 117
Costa – 119; 126 e 127.

Anexo 01: Quadro dos Textos Teatrais publicados no jornal A Mãi de familia.
A Mãi de familia

Referência: I 274, 1, 7
Inventário BN 00.158.187-7
2º anno N. 1
Janeiro de 1880
Livro 2

Autor Palestra Número Imagem Pági


na

Dr. Carlos Costa Palestra do Medico XXV Mãe, Bebê e Filha. 01

Dr. Carlos Costa As amas de leite Continuação do Criança feliz. 02


n. 23

Felix Ferreira A educação da mulher Continuação do Criança estressada. 03


n. 24 IX

O amor materno dos Continuação do Menino e menina 4, 5 e


insectos. Os n. 22 brigando. Criança cai 6
Lepdopteros com a cadeira.

Variedade

Solrac A Mãi escrava IV Continuação do Criança e senhor. 7e8


n.23
Obs. O autor é o Dr. Carlos
Costa utilizando-se do
pseudônimo Sorlac, porque?

Mucio Teixeira As mãis 8

Explicação do figurino. Janeiro – 8


Colorido n.1
A Mãi de familia

Referência: I 274, 1, 7
Inventário BN 00.158.187-7
2º anno N. 2
Janeiro de 1880

Livro 2

Autor Palestra Número Imagem Página

Dr. Carlos Palestra do XXVI Mãe, Bebê e Filha. 09 e 10


Costa Medico

Dr. Carlos A febre amarella Continuação do n. Criança cai com a 10, 11 e 12


Costa nas crianças 23 cadeira

O amor materno VI continuação do Criança estressada. 13 - 15


nos insectos. Os n. 24
Hymenópteros A lição de canto.

Criança, pássaro, mesa


e gaiola.

Livro de Pharmacia 16
receitas. domestica –
(culinárias do Fórmulas de
séc. XIX) licôres

Explicação do Janeiro. N. 2 16
Figurino
colorido.
A Mãi de familia
Referência: I 274, 1, 7
Inventário BN 00.158.187-7
2º anno N. 3
Janeiro de 1880

Livro 2

Autor Palestra Número Imagem Página

Dr. Carlos Palestra do Medico XXVII Mãe, Bebê e Filha. 17 e 18


Costa

Felix Ferreira A Educação da mulher X Criança estressada 18 e 19

Maria de Conselhos A’s mãis. I Menino e menina 19 e 20


Montalchez brigando e criança
derruba deficiente.

O amor materno nos VII Criança a mesa com 21 e 22


insectos. As formigas prato e copo.
criadeiras.

Dr. Carlos “As crianças, diz o sr. 21


Costa, Fréderic Passy, são a
segundo semente da sociedade.
Fréderic Para essa semente viver,
Passy. prosperar e produzir um
dia bons fructos, é preciso
cultival-a, cercal-a de
incessantes cuidados
desde a sua origem até
seu completo
desenvlvimento.”

Solrac Variedade - A mãi V Senhora e criança 22 e 23


escrava
C. C. O Orphão 24

Explicação da folha de Fevereiro 24


moldes.
A Mãi de familia

Referência: I 274, 1, 7
Inventário BN 00.158.187-7
2º anno N. 4
Janeiro de 1880

Livro 2

Autor Palestra Número Imagem Página

Dr. Carlos Palestra do Medico XXVIII Mãe, Bebê e Filha. 25 e 26


Costa

Dr. Carlos Moléstias das crianças. Criança a mesa com 26


Costa prato e copo.

Dr. Antenor Rachitismo da primeira XII Criança estressada. 26 e 27


infancia.

Hygiene alimentar.
Caracteres de uma boa
carne.
A Mãi de familia

Referência: I 274, 1, 8
Inventário BN 00.158.187-7
3º anno N. 1

Janeiro de 1881
Livro 4

Autor Palestra Número Imagem Página

Dr. Carlos Palestra do Medico XLIX Mãe, Bebê e Filha. 01 e 02


Costa
Criança puxa cadeira e
adulto cai.

Dr. Gama Vida Conjugal. 03


Roza

Dr. Carlos Moléstias das crianças. 04 e 05


Costa Inflamação da garganta.

A educação da mulher. Criança lenço na mão. 05 e 06

Variedade Nhô Nhô 06, 07 e 08


Guloso
Do figurino colorido. 08
(Com Molde)
A Mãi de familia

Referência: I 274, 1, 8
Inventário BN 00.158.187-7
3º anno N. 2

Janeiro de 1881
Livro 4

Autor Palestra Número Imagem Página

Dr. Carlos Costa Palestra do Medico Mãe, Bebê e Filha. 09 e 10

Dr. Carlos Costa As bexigas e a O cego 10 e 11


vaccina.

Felix Ferreira A educação da XXI Criança e avô 11 e 12


mulher.

Dr. Gavey Revistas dos jornais Criança na cadeira 12


D’Alger scientificos.

Obs: extrahido do
jornal La Jeune
Mère.

Vaccinações e Continuação n. 24 13
revaccinações.
Variedade Nhô Nhô A gula. 14 e 15
Guloso
Crianças atacam
armário.

Margarida Santos O que mais te posso 16


dar? (imitação)
Explicação da folha 16
de moldes.
A Mãi de familia

Referência: I 274, 1, 8
Inventário BN 00.158.187-7
3º anno N. 3

Janeiro de 1881
Livro 4

Autor Palestra Número Imagem Página

Dr. Carlos Palestra do Medico Mãe, Bebê e Filha. 17 e 18


Costa

Dr. Carlos Moléstias das crianças. XVI Criança a mesa 18 e 19


Costa Anginas comendo.

Felix Ferreira A educação da mulher. XXII Criança peralta a mesa 19, 20 e 21

Dr. Carlos Birliographia. Criança sua o nariz. 21


Costa
Obs: Taboada intuitiva.

Variedade Nhô Nhô Guloso 22

O limpa chaminés. 22, 23 e 24

Explicação figurino colorido. 24


A Mãi de familia

Referência: I 274, 1, 8
Inventário BN 00.158.187-7
3º anno N. 4

Janeiro de 1881
Livro 4

Autor Palestra Número Imagem Página

Dr. Carlos Palestra do Medico Mãe, Bebê e Filha. 25 e 26


Costa

Vaccinações e Criança brinca com 26 e 27


revaccinações. senhor (nariz dedo).

Criança puxa cadeira.

Dr. Carlos Moléstias das crianças. 28 e 29


Costa Bexigas, varioloide ou
bexigas doidas e cataporas
ou varicella.

Felix Ferreira A educação da mulher XXIII As bollas. Crianças 29 e 30


brincam.

Amor materno das Os coelhos. 30 e 31


andorinhas
Os dois amigos (cão e
criança)

Marieta Véro Desassocego. A minha 32


particular amiga. D.
Margarida Santos.
Explicação da folha de 32
moldes.
A Mãi de familia

Referência: I 274, 1, 8
Inventário BN 00.158.187-7
3º anno N. 5

Janeiro de 1881
Livro 4

Autor Palestra Número Imagem Página

Dr. Carlos Palestra do Medico LII Mãe, Bebê e Filha. 33 e 34


Costa
Criança sua nariz.

Dr. Carlos Sociedade Protectora Criança brinca com 35


Costa das Crianças. senhor.

Vaccinações e 36
revaccinações.

Sua utilidade
actual.

Felix Ferreira A educação da mulher XXIX Criança brinca com 37e 38


senhor.

J. Bonilly Variedade. O limpa Conclusão Criança estressada. 39


chaminés.

Explicação do figurino Os coelhos. 40


colorido.
Os dois amigos (cão e
criança)

Anuncio livraria dos Lombaerts & 40


editores. Assigna- Comp.
se
A Mãi de familia

Referência: I 274, 1, 8
Inventário BN 00.158.187-7
3º anno N. 6

Janeiro de 1881
Livro 4

Autor Palestra Número Imagem Página

Dr. Carlos Palestra do Medico LIII Mãe, Bebê e Filha. 41 e 42


Costa

Dr. Carlos Sociedade Protectora Criança brincando. 42 e 43


Costa das Crianças.

Obs: Vaccinações e Conclusão Criança a mesa 43 e 44


Conferência revaccinações. apoiada aos ombros.
feita na sala do
Boulevard dês Sua utilidade
capucines, 05 actual.
de junho de
1879, pelo Sr.
Dr, Prosper de
Pietra Santa.

Hygiene alimentar. O 45
pão

Obs: exclente Bibliographia 46


texto a ser
analisado.

Journal D’hygiene – Criança Senhor 46


Revista dos brincam.
Jornães –
Envenenamento
pelos carrinhos
de crianças)
Variedades os 47 e 48
Papellotes
Explicação de folha de 48
moldes
Anuncio livraria das 48
editores.
A Mãi de familia
Referência: I 274, 1, 8
Inventário BN 00.158.187-7
3º anno N. 7
Janeiro de 1881
Livro 4

Autor Palestra Número Imagem Página

Dr. Carlos Palestra do Medico LIV Mãe, Bebê e Filha. 49


Costa

A filha Fragmentos de Criança Brinaca 50 e 51


autores
celebres.
Dr. C. C. “Desejo mimosear 50 e 51
ás nossas leitoras com a
transcripção de alguns
trechos de autores notaveis
sobre – educação, e
começarei por uma
conferência do notavel
membro do instituto de
França e professor da
faculdade de lettras de
Paris, o Sr. Paul Janet.”

Dr. Carlos Moléstias das crianças. XVIII 52 e 53


Costa Bexigas, varioloide ou
bexigas doidas e cataporas
ou varicella.

Amor materno de vibora Criança pensando a 53 e 54


mesa

J. Bouilly Variedades os Papellotes Criança e senhor 54 e 55


brincam

Sanitarian Revista dos Jornaes Criança sua nariz 55


scientificos. Chapéos
para as crianças.
Explicação figurino 56
colorido e anuncio
editores mais molde.
A Mãi de familia

Referência: I 274, 1, 8
Inventário BN 00.158.187-7
3º anno N. 8

Janeiro de 1881
Livro 4

Autor Palestra Número Imagem Página

Dr. Carlos Costa Palestra do Medico Mãe, Bebê e Filha.


JORNAL MÃI DE FAMILIA
Número Localização Imagem Ano Página

Capa

1ª I – 274, 01, 09 “Mãi de família Sexto Anno - 1884 Capa


educação da
infância”

2ª I – 274, 01, 09 Imagem colorida 133


anexa (Família)

3ª I – 274, 01, 09 Texto Teatro “A 1883 54 e 55


Herança” Autor:

4ª I – 274, 01, 08 Imagem colorida 125


anexa(Família)

5ª I – 274, 01, 08 Imagem colorida 130


anexa(Família)

6ª I – 274, 01, 09 Imagem colorida IV Anno 7


anexa(Família)

7ª I – 274, 01, 08 Imagem colorida III Anno 11


anexa(Família)

8ª I – 274, 01, 09 Imagem colorida 6º Anno – Agosto Anexo


anexa(Família) de 1884

9ª I – 274, 01, 06 Capa 1º Anno – Janeiro 1


1879

10ª I – 274, 01, 06 1ª página “A mãi de 1º Anno – Janeiro 1


família” 1879

11ª I – 274, 01, 06 Caricia materna 1879 21

12ª I – 274, 01, 06 Como se ensina o 1879 189


gato a ler.
Imagem 5 – Capa do Catalogue Générale de la Librairie Fançaise. 1876.
Rédigé par Otto Lorenz.
Imagem 6 - Citação do dramaturgo autor Francês J.A.Guyet.
Catalogue Générale de la Librairie Fançaise. 1876. p.622.
JORNAL A MÃI DE FAMILIA
5º ANNO
Nº 7
ABRIL DE 1883
P.54
Texto: A HERANÇA
COMEDIA EM 1 ACTO
Personagens
Mme Mérillon, rendeira ......30 annos
Carolina......{
Isabel...........{ As três primas – 16 annos
Virgina........{
Maria, primeira camareira..........20 annos
Rosina, segunda camareira..........20 annos
Luiza, amiga de Carolina.............18 annos
Celeste, amiga de Isabel...............17 annos

A acção passa-se na casa de campo de mme Révissac. (Um salão. Porta ao fundo)
Scena primeira

Mme. Mérillon, Maria, Rosina. (As duas camareiras vestidas como meninas).

Mme Mérillon. – Recommendo-lhes, pois, a maior discrição. Não vão agora dar com a língua
nos dentes e declarar ás tres primas quaes os meus planos. Ellas sabem bellamente que a
herança de Mme Révissac caberá á mais avisada de suas sobrinhas; mas ignoram que ao
talento serão preferidas as virtudes. E’ esta a disposição reservada do testamento...Vejam lá si
a descobrem.

Maria. – Não, senhora; procuraremos pelo contrario ajudal-a naquillo que estiver ao nosso
alcance. Mas cá por mim confesso que não sei a que genero de experiencias devo submettel-
as.

Rosina. – Eu tambem penso que entro nisso como Pilatos no credo.

Mme. Mérillon. – Ouçam-me. Do exame scientifico, que se effectuará no meu quarto,


encarrego-me eu. Vocês são demasiado illustradas para incumbir-se dessa tarefa.

Maria. – Por essa estou eu.

Rosina. – Poderá! Não andamos dez annos no collegio.


Mme Mérillon. – O resto é facil. Vocês estão vestidas como si não fossem minhas creadas; as
meninas julgarão que são ammigas da casa. A comedia há de surtir effeito; vocês teem
disposições naturaes para as boas maneiras.

Maria. – Bondade sua, minha ama; bondade sua.

Mme. Mérillon. – Não me interrompa, Maria. Conversem com as tres primas; procurem
depois captar-lhes a confiança, o que é facilimo entre moças. Prestem toda a attenção ás suas
conversas e ao que dizem particularmente umas das outras.

Rosina. – Conprehendo, comprehendo...

Mme. Mérillon. – Rosina, não me interrompa. Finalmente, contem-lhes as historias que


quizerem; formulem quantas hypoteses forem necessarias, mas que seja tudo para o fim de
pôr-lhes á prova a modestia, a piedade, o amor á tia, a brandura de genio, o desinteresse, todas
as virtudes, em uma palavra.

Maria. – Ahi é que pega o carro...

Rosina. – Onde irás, Braz, que te não esbarrarás?

Mme. Mérillon. – Fallem pouco e ouçam muito; é o meio mais seguro de instruir-se a gente.
Depois contar-me-ão o que houverem colhido. Fico portanto tranquilla pelo que toca a vocês.

Maria. – Ah! Minha ama, si por hoje só eu soubesse metade do que a senhora sabe!

Rosina. – Metade? A mim bastava-me a quarta parte.

Mme. Mérillon. – Basta. Estudem os seus papeis; eu vou ver se já chegaram as minhas
amiguinhas. (sae.)

SCENA II

Maria, Rosina

Maria, Tomando um ar affectado, a cabeça inclinada para traz e os braços cruzados sobre o
peito. – Que tal, hein, Rosina?

Rosina, a mão esquerda na ilharga e fingindo que se abana com o leque. – Hein, Maria? Que
tal?

Maria. – O que dizes da minha pessoinha?

Rosina. – Parece que queres apunhalar o céu com o nariz.

Maria, rindo. – Ah! Ah! Deveras?

Rosina. – E eu? Que te pareço?

Maria. – Uma perfeita tartaruga.


Rosina, rindo. – Tem razão; não nos ficam bem estes ares de senhoras.

Maria. – De certo; transformemo-nos outra vez em creadas (toma um ar natural e modesto.


Rosina imita-a). Vamos a saber: o que dirás ás meninas?

P.55

Rosina. – Sei lá! Tanto hei de parafusar...

Maria. – A conversa há de dar-nos occasião de lhes armarmos bons laços...

Rosina. – Ah! Espera...Vou dizer-lhes...

Maria. – Scio! Ahi vem alguem.

Scenna III

Maria, Rosina, Carolina, Luiza

Carolina. – Bom dia, mesdemoíselles! (Maria e Rosina inclinam-se.) Desejava fallar a Mme
Mérillon.

Maria. – Não tarda. Tenha bondade de esperar um momento. Queira sentar-se...Está fatigada?

Carolina. – E com razão, viemos a pé. Não sei porque achei o caminho mais longo do que
quando era pequena...(senta-se.) Com licença, mesdemoiselles.

Rosina, a Luiza. – Faça tambem o obsequio de sentar-se...(apresenta-lhe uma cadeira.)

Luiza. – Oh! Porquem é! Não se incommode por minha causa. Sou mais robusta do que
Carolina; o passeio não me produziu cansaço.

Carolina. – Minha amiga Luiza não tinha os mesmos cuidados que eu. As minhas
apprehensões concorreram para tornar mais longa a jornada.

Maria, com curiosidade. – Andaram pelo menos duas leguas, não?

Luiza. – Viemos de Castelblanc.

Rosina. – Castelblanc! A terra de Mme Révissac.

Carolina. – Justamente. Sabem dizer-me, mesdemoiselles, si minhas primas já vieram?

Maria. – Ainda não, mademoiselle Carolina. Esperamol-as a cada momento.

Carolina. – Vejo que me conhece e sabe para que fim nos reunimos hoje aqui. (levantando-se)
Mme Révissac, minha Boa Tia, determinando que eu e minhas primas viéssemos a esta casa
prestar exame, teve por fim estimular a nossa emulação no estudo, e pela minha parte acudo
ao seu appello com a maior alegria.

Maria, maliciosamente. – Não é esse creio eu, o fim unico da reunião; o resultado do exame é
importantissimo, porque dotará a mais digna com uma fortuna de seiscentos mil francos.

Carolina. – Não ignoro essa circunstancia, mademoiselle, que pouco me seduz. O que eu temo
é mostrar-me no exame inferior ás minhas primas; mas verei sem inveja que uma dellas
enriquece á custa da minha ignorancia. O que sobretudo respeito, é a ultima vontade da minha
tia.

Rosina, á parte. – Esta dá provas de modéstia, desinteresse, amor e respeito.

Maria. – Esses sentimentos são nobres e belos na verdade; mas peço-lhe que os ponha de
lado. Não conheço suas primas: quer-me parecer, comtudo. Que não terão a sua abnegação.
Seiscentos mil francos não fazem mal a ninguem. Mademoiselle inspira-me sympathia e
ficarei contrariada si lhe não couber uma fortuna tão bonita. Empregue, empregue todos os
esforços para ganhal-a.

Carolina. – Empregarei todos os esforços para mostrar-me digna della; mas o meu
adiantamento nos estudos não me inspira illimitada confiança. E ainda mesmo que eu sahisse
victoriosa, tenho para mim que offenderia minhas primas acceitando para mim só essa grande
fortuna. Desejava repartil-a igualmente entre nós.

Rosina, á parte, batendo com o cotovello em Maria. – Toma para o teu tabaco! (alto) E’
necessário, mademoiselle Carolina, que a avisemos de uma cousa; os bens de Mme. Révissac
estão em grande parte hypothecados e não sei si chegarão para pagar os credores.

Luiza. – Ah! Meu Deus!

Carolina, com orgulho. – Não importa! Eu e minhas primas pagaremos as dividas.

Maria, á parte. – Esta é invulneravel.

Rosina. – Mme. Mérillon está o jardim. Si querem que as acompanhe até lá...

Carolina. – Com todo o gosto! Tenho muita vontade de apresentar os meus respeitos á amiga
de minha tia. Vamos. (saem.)

P. 63

Scena IV

Maria, só. – Si as duas outras primas si parecem com esta, estamos arranjadas...Com que
prumo e ao mesmo tempo com que ingenuidade nos respondeu...E no entanto é uma
creança...Ah! a educação! ...Que thesouro! Foi pena que minha pobre mãe (Deus tenha em
paz a sua Alma!) Não tivesse meios para mandar-me educar...Eu dava uma verdadeira
senhora...Sim, porque não havia de dar? Mas paciencia...Nunca é tarde para aprender...Vou
comprar livros...Estudarei de dia e de noite...Queimarei as pestanas...Quando eu souber
bastante, talvez que alguma fidalga me escolha para herdeira...Mas ouço passos...Voltemos ao
meu papel de menina.

Scena V

Maria, Virginia

Virginia, sem vêr Maria. – E’ extraordinario que eu não encontre ninguém em casa!! Não era
assim no tempo de minha tia.

Maria, á parte. – E’ talvez outra prima!

Virginia, vendo Maria. – Ah! Perdão, mademoiselle, não a vi quando entrei. (comprimenta.)

Maria, correspondendo ao comprimento. – Mademoiselle veio só?

Virginia. – Papae acompanhou-me até a porta...Morámos perto. Daqui se vê a nossa casa.

Maria. – Ah! Tenho então o prazer de fallar a mademoiselle Virginia Révissac?

Virginia. – Exactamente, mademoiselle. Pensei que não me conhecia...

Maria. – Conheço-a, a mademoiselle, porque tenho ouvido Mme Mérillon gabar muitas vezes
as sua bellas qualidades, e disse-me também que morava perto daqui.

Virginia. – Vejo que conhece os nossos segredos. Estou fallando a uma amiga de Mme
Mérillon. (Maria faz sinal affirmativo.) Fallou-lhe com louvor a meu respeito; mas eu sei que
Mme Mérillon é muito bondosa.

Maria. – Engana-se, Mademoiselle; Faz-lhe apenas justiça, e aqui que ninguém nos ouve
deixe-me dizer-lhe: Mme Mérillon manifesta decidida preferência por mademoiselle. Póde ser
que eu me engane; mas estou capaz de apostar em como lhe há de vir a pertencer a herança de
mme Révissac.

Virginia. – Sou muito obrigada a Mme Mérillon; mas experimentaria grande desgosto si, por
uma preferência que cousa alguma justifica, fosse a causa de uma humilhação feita a minhas
primas. Não era essa a vontade minha tia.

Maria. – Com certeza não haverá injustiça; mas a senhora é filha do irmão de mme Révissac.
Suas primas, filhas das irmans della, não teem o seu nome. E’ preciso attender a isto. Além
disso o senhor seu pae prestou grandes serviços á família; era elle quem administrava as
propriedades de sua irman. Todos esses serviços hão de entrar em linha de conta. Ora
vamos...São favas contadas...A herança é sua.

Virginia. – Esses serviços são apenas títulos accessorios e nullos para a intenção de minha tia
e nada pesarão na balança. Herdará a que tiver mais mérito, eis tudo! Se me couber a fortuna
bem sei o que farei.

Maria. – São generosas as suas palavras. Adivinho as suas intenções.


Virginia. – Quer que lhe diga tudo o que penso?...Pois seja. O meu maior desejo é que o
concurso não tenha resultado, isto é, que nenhuma de nós seja julgada mais instruída que as
outras.

Maria. – Mas nesse caso a herança não caberá a nenhuma; não se póde dividil-a, cumpre que
saiba...

Virginia. – Oh! Não falemos mais nisto...já terão vindo minhas primas?

Maria.- Sua prima Carolina chegou ainda agora; está no jardim com mme Mérillon. Bem vê
que sua prima sabe aproveitar o tempo; julgava-a menos desinteressada...

Virginia. – Engana-se; a senhora não conhece a Carolina. – Então falta apenas a Isabel.
Verdade é que ella mora a seis léguas daqui...virá talvez mais tarde e de carro...

(FALTAM 2 CENAS REFERENTES AO MÊS MAIO E A 1ª QUIZENA DE JUNHO)


(Cenas VI a XI)

2ª QUIZENA DE JUNHO 1883. (p.93)

Scena XII

Maria, Isabel, Virginia, Carolina, Rosina

Isabel. – Ah! Ai estão minhas primas. Então?

Virginia. – Mme Mérillon ficou satisfeita com as minhas respostas.

Isabel. – E tu Carolina?

Carolina. – Eu também mereci elogios.

Isabel. – Bravo! Estamos em igualdade de circunstancias.

Maria. – E podem repartir a herança.

Rosina. – Oh! Isso não vae assim. No caso que nenhuma obtenha o premio, a herança sera
distribuída pelos pobres.

Isabel. – Ah! Então tanto melhor!

Virginia. – Começaremos a vida por uma boa ação.

Carolina. – Pela qual mais tarde seremos recompensadas.

Maria, á parte. – Que desinteresse!

Rosina, idem. – Que abnegação!


Scena XIII

As mesmas, Celeste

Celeste. – Mme Mérillon convida-nos para tomar refrescos.

Isabel. – Já vamos. (sahem todas, excepto as camareiras)

Scena XIV

Maria, Rosina

Maria. – Vamos servir as meninas.

Rosina. – Não; fiquemos aqui; Mme Mérillon disse-me que já vinha.

Maria.- Ah!

P. 94

Rosina. – Descobriste alguma cousa?

Maria. – Nada!

Rosina. – Estás como eu.

Maria. – As três primas teem as mesmas virtudes.

Rosina. – Mme Mérillon há de ver-se embaraçada para decidir. Ella ahi vem.

Scena XV

Maria, Mme Mérillon, Rosina

Mme Mérillon. – Digam-me o que fizeram. Seguiram as minhas instrucções?

Maria. – Foi tudo inútil, minha ama.

Mme Mérillon. – Ainda bem! Mas afinal o que fizeram vocês? Pozeram á prova a sua
caridade?

Rosina. – Disse-lhes que a herança de Mme Révissac estava destinada aos pobres.

Mme Mérillon. – E o que responderam?

Rosina. – Pintou-se-lhes a alegria no rosto; que era uma boa acção pela qual seriam
recompensadas.

Mme Mérillon.- Muito bem.- E quanto ao desinteresse?


Maria. – Cada uma dellas deseja que a outra obtivesse o premio.

Mme Mérillon. – Deveras? – Então amam-se muito?

Rosina. – Como três anjos.

Mme Mérillon. – Mostram-se agradecidas á tia?

Maria. – Muito agradecidas; e sobre este ponto mademoiselle Isabel reprehendeu-me com
tanta vehemencia que me meteu medo.

Mme Mérillon. – E’ porque Isabel é um nobre coração.

Maria. – As outras também nos reponderam mas com menos calor.

Mme Mérillon. – E’ porque são mais tímidas. Procuram descobrir si tinham inveja umas ás
outras?

Rosina. – Mas não conseguimos nada.

Mme Mérillon. – Muito bem. – São modestas.

Maria. – Nenhuma contava obter o premio.

Mme Mérillon. – Mostraram duvidar da minha imparcialidade, das minhas habilitações?

Rosina. – Todas disseram que minha ama é muito justa e instruída. E não disseram mentira
nenhuma.

Mme Mérillon, sorrindo. – E você está muito no caso de julgar.

Rosina. – Disse-lhes que os bens estavam crivados de dividas.

Mme Mérillon. – Ah!Ah! E o que responderam?

Rosina.- Responderam que pagariam.

Mme Mérillon. – Admirável!

Maria. – E antes de começar o exame juraram que haviam de amar-se sempre, fosse qual
fosse o resultado do concurso. Mas devo dizer-lhe, minha ama, que mademoiselle Isabel se
encolerisou contra mim.

Mme Mérillon. – Encolerisou-se contra as mentiras; a esta hora já não se lembra mais disto.
Vocês vão ver. Chame-as.

Maria. – Sim minha ama. (sae.)

Scena XVI
Mme Mérillon, Rosina.

Rosina. – Parece-me, minha ama, que nenhuma obtem o premio.

Mme Mérillon. – Engana-se, Rosina. Verá daqui a pouco.

Scena XVII

Maria, Celeste, Carolina, Isabel, Mme Mérillon, Virginia, Luiza, Rosina.

Mme Mérillon, ás tres primas. – Reconheci com prazer que fizestes notaveis progressos nos
vossos estudos, e por isso vos dou os meus parabéns. Não me surprehendeu a igualdade de
adiantamento que há entre vós. A este respeito Mme Révissac teria apenas motivo para
orgulhar-se. Mas é precisamente essa egualdade que me colloca em grande embaraço, e não
sei qual de vós deva preferir. Devo consultar-vos sobre um caso tão delicado. Mademoiselle
Isabel, qual de vós é digna do premio?

Isabel. – A mais virtuosa e a menos rica. A mais virtuosa é Carolina; a menos rica é Virginia.

Mme Mérillon. – Qual é a sua opnião, mademoiselle Carolina?

Carolina. – A que minha tia mais amava e aquella cujos Paes lhe prestaram mais serviços. A
primeira é Isabel; a segunda é Virginia.

P. 95

Mme Mérillon. – O que diz, mademoiselle Virginia?

Virginia. – Aquella cujos sentimentos são mais nobres, Isabel; e a que más faz lembrar as
qualidades minha tia, Carolina.

Mme Mérillon. – Gosto de vos ouvir fallar assim, minhas boas amiguinhas. Todas vós sois
dignas do premio.

Celeste. – Minha senhora, permitta-me que lhe apresente uma sentença, que escrevi a seis
mezes. (apresenta um papael.)

Mme Mérillon. – Ah!Ah! então eu não era o único juiz. Vejamos (Lê) e considerando que
mademoiselles Isabel, Carolina e Virginia são de um mérito absolutamente egual em talentos,
mandamos e ordenamos que a herança seja dividida entre ellas.” Esqueceu-lhe um
considerando, Celeste: “Mandamos e ordenamos” transpira muita onipotencia.

Luiza, a Mme Mérillon. – As nossas amigas tinham combinado dividir a herança em três
partes.

Mme Mérillon, severamente. – Apezar da minha decisão!

Luiza, hesitando. – Sim, senhora.


Mme Mérillon, como acima. – Penalisa-me esse facto; vejo que não tendes consideração pelas
ultimas vontades de vossa tia.

Isabel. – Oh! Minha senhora, perdoe-nos! A nossa intenção não foi essa. A que obtivesse o
premio não o dividiria; dal-o-hia ás outras como presente.

Mme Mérillon, sempre com severidade. – E illudireis a decisão. Isso felizmente não denota
em vós um vicio do coração, porque neste caso eu addiaria o meu julgamento para a épocha
mais afastada. Creanças que sois! Manifestastes somente quanto sois inexperientes! Mme
Révissac previu o caso de accordo entre vós e levando – o a effeito afastareis para sempre da
vossa família a sua fortuna, que passaria a pertencer ao governo. Vede, minhas amigas,
quanto é perigoso conspirar.

Carolina. – Creia, minha senhora, que esta licção nos será muito proveitosa.

Virginia. – Oh! Perdoe-nos, minha senhora...Só a nossa inexperiencia...

Mme Mérillon, acalmando-se. – Perdôo-vos em attenção ás vossas boas qualidades. O


convurso litterario era mera formalidade. O verdadeiro concurso era o das vossas virtudes, e
todas prehenchestes egualmente as condições, resistindo ás suggestões das minhas creadas.
(Indica Maria e Rosina: as três primas fazem um movimento.) Julgo pois obedecer ás
vontades de Mme Révissac, julgo fazer o que ella faria, se vivesse, dividindo egualmente por
vós a sua fortuna. Daqui a pouco vos entregarei os papeis e documentos, que tenho em meu
poder.

Virginia. – Ah! Como a senhora é boa!

Mme Mérillon. – Sou apenas justa.

Carolina. – Minha senhora, a gratidão embarga-me as palavras...

Isabel. – O seu nome, minha senhora, confundir-se-á em nossos corações com o denossa
querida tia.

Mme Mérillon. – Obrigada, minhas amiguinhas; sinto-me feliz com o que fiz.

Isabel, voltando-se para Maria. – Como! Então estava aqui para nos tentar?

Maria. – E’ exacto; mas onde se dão, ahise apanham.

Rosina, ao publico. – Minha avó, que tinha um provérbio para cada coisa, desta vez é que
podeia dizer: Duro com duro não faz bom muro.

Cae o panno

J.ª Guyet.