Você está na página 1de 22

Instituto Superior Bissaya Barreto 1º Semestre -

Direito Constitucional I

Cap I: Noção e espécies de Direito Constitucional Abrange todas as normas que regulam a vida em sociedade; As normas são sempre gerais e abstractas; são coercivas; O Direito Constitucional é um dos ramos de Direito Público, uma vez que é o direito fundamental de qualquer Estado; é o direito da constituição;

Estado = Povo (art. 4º) + Território (art. 5º) + Poder Político (art. 10º).

Noção de Constituição: conjunto de normas e princípios jurídicos fundamentais que hoje em dia têm um conjunto de matérias muito vasto. As matérias da Constituição são:

* Estrutura do Estado: a Constituição preocupa-se com várias estruturas do Estado (político, social e económico);

* Fins do Estado: são os objectivos que se propõe a atingir. São três: justiça, segurança e bem-estar económico-social;

* Funções do Estado: são as actividades que o Estado vai desenvolver para atingir os seus fins (art. 9º):

- Função legislativa;

- Função administrativa;

- Função judicial;

- Função político-governamental.

* Organização do poder político: a constituição vai definir como é que o Estado vai estar organizado;

* Titularidade do poder político: a constituição vai definir a titularidade, ou seja, quem exerce o poder;

* Exercício do poder político: fixa como é que os titulares dos poderes o podem exercer. Define competências dos titulares para exercerem o poder.

* Controlo do poder político: a constituição estabelece os meios para controlar o exercício.

1. Normas constitucionais:

São todas as normas que estão presentes na constituição; fazem parte do ordenamento jurídico português; Estão acima de quaisquer outras normas;

1 2
1
2

2. Normas ordinárias:

São as normas que não estão na constituição consagradas; São hierarquicamente inferiores às constitucionais e tem de as respeitar senão sofrem de inconstitucionalidade.

Primeiras constituições e antecedentes:

 

Surgiram nos finais do séc. XVIII;

Não haviam muitos direitos fundamentais e estavam entregues ao Absolutismo Real.

Iniciam-se revoltas, desde logo da burguesia que ansiava ter poder político já que detinham poder económico; Aparecem assim as Revoluções Liberais (Rev. Francesa – 1789; Rev. Americana –

1776/1787);

1776/1787);

Surge um novo período histórico: Constitucionalismo (para acabar com o Absolutismo real):

Surge um novo período histórico: Constitucionalismo (para acabar com o Absolutismo real):
 
  Direitos fundamentais dos cidadãos (vida, identidade )

Direitos fundamentais dos cidadãos (vida, identidade

)

 

Organização do Poder Político (baseado no princípio da separação dos poderes – Montesquieu e John Locke)

Primeiras Constituições:

Constituição dos Estados de Virgínia (1776);

 

Outras constituições dos Estados dos EUA;

Constituição dos E.U.A. (1787);

Declaração dos Direitos dos Homens e do Cidadão;

Primeira Constituição francesa (1791);

Revolução Liberal Portuguesa (1820) – a primeira constituição portuguesa data de 1822;

No fim do séc. XVIII, existiram alguns documentos que já pretendiam limitar o poder político e proteger os direitos dos cidadãos; são documentos considerados como antecedentes do constitucionalismo. São eles:

* Magna Carta (1215): não era uma verdadeira constituição de direitos mas defendia já as várias classes sociais.

* Petição de direitos: Petition of Rights (1628): foi imposta pelo parlamento ao Rei

Carlos I de Inglaterra e foi uma tomada de posição face a determinadas liberdades civis.

* Contratos de Colonização: Covenants (séc. XVII): Estabelecia direitos e deveres recíprocos entre as colónias e a mãe-pátria.

* Leis fundamentais do Reino (séc. XVII): eram impostas ao monarca que não podia

modificá-los mas diziam respeito às questões de sucessão.

* Instrumento de Governo: The Cromwell (1653): foi a primeira constituição escrita, no entanto era muito rudimentar e serviam para justificar o poder de Cromwell.

→ Espécies de Direito Constitucional:

1) Geral:

Vai fixar uma dogmática constitucional que possa servir de enquadramento teórico ao estudo do direito constitucional particular. Fixa grandes conceitos, categorias e institutos bem como princípios fundamentais para o enquadramento do direito constitucional particular.

2) Particular:

Vai dedicar-se à análise de uma ordenação constitucional de um Estado concreto (é o caso do direito constitucional português).

3) Comparado:

Faz uma descrição dos vários sistemas constitucionais positivos procurando captar o que elas têm em comum e o que têm em específico. Pode ser simultânea ou sucessiva.

1) Direito Constitucional Geral:

Constituição é um conjunto de normas jurídicas fundamentais que definem a estrutura, fins

e as funções do Estado, a organização, titularidade, exercício e controlo do poder político e fiscalização do acatamento das normas constitucionais.

CAP II: Sentidos e classificações da Constituição Assim, a constituição pode ter vários sentidos:

Sentidos da Constituição:

a) Sentido material ou normas materialmente

constitucionais;

b) Sentido formal ou normas formalmente

constitucionais;

c) Sentido Instrumental;

c) b) a)
c)
b)
a)

a) Sentido material ou normas materialmente constitucionais:

Abrange todas as normas jurídicas que regulem matérias que hoje são consideradas

matérias com dignidade constitucional. Essas matérias são as próprias matérias que a constituição prevê.

É mais ampla do que o sentido formal e sentido instrumental porque contém normas criadas

pelo legislador estadual mas que não são constitucionais. São as chamadas normas ordinárias.

b) Sentido formal ou normas formalmente constitucionais:

Abrange todas as normas que são criadas com intenção de serem constitucionais e que por

isso tem uma força jurídica superior. Segundo Jorge Miranda, para existir uma constituição formal é necessário existir 3 requisitos que são cumulativos:

- Intencionalidade na formação

- Consideração sistemática

- Força jurídica própria

Normas que tenham sido criadas por um órgão com legitimidade para tal; e que vai criá-las com a intenção de serem constitucionais; vai atribuir-lhe uma força jurídica superior em relação a todas as outras normas, reunindo-as de acordo com uma sistematização própria.

c) Sentido instrumental:

É o documento onde estão reunidas as normas que foram criadas com a intenção de serem

constitucionais (a Constituição actual é composta por 296 artigos). Este sentido só tem relevância quando relacionado com o sentido formal porque há

coincidência entre ambos; pelo facto de todas as normas que foram criadas com a intenção de serem constitucionais estarem reunidas no documento chamado constituição.

O

sentido instrumental pode se revestir de diversas formas:

 

As normas formalmente constitucionais constam de vários textos constitucionais (ex:

Em Espanha); As normas formalmente constitucionais constam de uma constituição mas também de textos posteriores que foram acrescentados à mesma (Ex: nos EUA fazem aditamentos à constituição);

As normas formalmente constitucionais constam não só da constituição mas também de leis ou textos que são anteriores à própria constituição e que a constituição decidiu que se deviam manter constitucionais (Ex: caso português).

2) Direito Constitucional Particular (realidade portuguesa):

 

Temos uma constituição em sentido instrumental, ou seja, temos um documento escrito que tem o nome de constituição. Temos uma constituição formal uma vez que existe um conjunto de normas que foram criadas por um órgão (Assembleia Constituinte), eleita pelo povo, cujo objectivo foi criar a constituição. Tem também leis anteriores à constituição constantes do art. 292º CRP.

Em sentido material, é mais ampla do que o sentido formal pois tem normas criadas pelo legislador mas são normas ordinárias.

Classificação das constituições:

1. Constituição escrita e constituição mista:

Constituição mista

é visível no sistema constitucional britânico, onde o costume e a lei

escrita estão no mesmo plano. As suas fontes de direito constitucionais são:

 

-

Custom: prática social da qual surge uma norma obrigatória aplicada judicialmente mas

não se exige dela antiguidade;

Statutes: actos do parlamento que criam normas formais análogos às leis ordinárias, mas têm conteúdo constitucional;

-

 

-

Judicial precedents: são decisões jurisprudenciais interpretando a Common Law ou as

normas constitucionais escritas ou statutes; Conventions: práticas sociais, diferente do costume, que vinculam os órgãos do poder político.

A Grã-Bretanha tem uma constituição não escrita.

Constituição escrita

é o que se encontra na generalidade dos Estados contemporâneos em

que o costume tem um papel apagado, com relevo subsidiário em relação às normas escritas.

É possível distinguir 3 tipos de costume:

- Costume secundum legem: aquele com conteúdo igual ao da norma constitucional escrita;

- Costume praeter legem: abrange matérias em que a lei constitucional é omissa: diz mais que a lei;

- Costume contra legem: com conteúdo contrário ao de uma norma constitucional escrita.

Entre nós, o costume só é admitido por Gomes Canotilho com a função de completude, integração e desenvolvimento das normas constitucionais escritas e não reconhece o costume praeter legem como fonte de direito constitucional.

2. Constituições rígidas, flexíveis e semi-rígidas:

Esta divisão é feita com base no processo de revisão da constituição.

A

que está previsto na própria constituição e que tem de ser necessariamente respeitado porque senão sofre do vício de inconstitucionalidade. Esse processo é um processo mais agravado e que está sujeito a limites: podem ser formais (fixa formalidades), temporais (fixam espaços de tempo), materiais (fixa matérias) e ainda circunstanciais (impedem que, em certas circunstâncias se proceda à revisão).

que, em certas circunstâncias se proceda à revisão). constituição é rígida quando só pode ser revista

constituição é rígida quando só pode ser revista de acordo com um processo específico

A nossa constituição actual é rígida. Define especificamente o processo que deve ser

é rígida. Define especificamente o processo que deve ser seguido para a sua revisão e esse
seguido para a sua revisão e esse processo está consagrado nos artigos 284º a 289º

seguido para a sua revisão e esse processo está consagrado nos artigos 284º a 289º CRP.

A

pode ser revista pelo mesmo processo das restantes leis ordinárias (é necessário uma lei nova para revogar a anterior).

constituição é flexível

quando não exige nenhum processo específico para a sua revisão e

É

semi-rígida quando é um misto das duas classificações anteriores, isto é, em algumas

matérias só podem ser revistas de acordo com o processo específico que elas prevêm (este tipo de constituição, hoje em dia não existe).

3. Constituições normativas, nominais e semânticas (segundo Löenwenstein):

De acordo com o critério ontológico pode se classificar a constituição em nominal,

normativa e semântica:

É

normativa porque traduz a concordância entre as normas constitucionais e a realidade do

processo político. Segundo Löenwenstein, as constituições não funcionam por si mesmas/ por elas próprias; são aquilo que os detentores e os destinatários do poder fazem delas na prática. Quando as normas constitucionais dominam o processo político, isto é, quando o processo do poder se adapta às normas constitucionais e se submete a elas, assim, a constituição funciona como instrumento de controlo dos governantes e protecção dos governados e, por isso, é válida e eficaz.

No caso português, quase todas as constituições foram normativas com excepção da

constituição de 1926 (que foi semântica) e a de 1933 (que foi um misto destas 3

 

classificações em alguns aspectos).

 

A

constituição é nominal

quando é válida (porque pretende limitar o poder político e

protege os direitos dos cidadãos) mas é ineficaz (porque a dinâmica do processo político não se adapta às suas normas). Não tem realidade existencial (não se adapta às estruturas da

sociedade a que se destina). Este tipo de constituições hoje em dia não existe.

As

formaliza o poder existente em benefício dos detentores do poder) mas eficazes (é vivida porque é imposta pelos cidadãos) – está relacionada com os regimes políticos ditatoriais e autocráticos.

constituições são semânticas

quando são inválidas (não limita o poder político mas

4. Constituições utilitárias e ideológico-pragmática:

Com base no critério cronológico, pode se classificar as constituições em utilitária ou

ideológico-pragmática:

Constituições utilitárias

são as primeiras constituições escritas. Surgiram no séc. XVIII e

início do séc. XIX (em Portugal por exemplo); tinha um conteúdo muito restrito (limitava- se a definir o poder político e elencar direitos fundamentais dos cidadãos inerentes aos direitos naturais e negativos).

A

definem o poder político, baseiam-se no princípio da separação dos poderes, definem um conjunto de direitos fundamentais mais abrangente do que os tradicionais direitos naturais e negativos, abrangendo também os direitos positivos (exigem a intervenção do Estado para se efectivarem; são direitos económicos, direitos culturais e os direitos sociais).

económicos, direitos culturais e os direitos sociais). constituição ideológico-pragmática é a do séc. XX, que

constituição ideológico-pragmática é a do séc. XX, que tem um conteúdo mais amplo,

- A Constituição também fixa/estabelece como que um programa ao Estado para atingir

determinados fins, programa esse que se baseia numa determinada ideologia e que daí

resulta a expressão “Constituição ideológico-pragmática”;

- Dentro das normas jurídicas, criam-se grupos de matérias para ser mais fácil o seu acesso e estudo;

- As normas constitucionais são normas jurídicas mas dentro das normas constitucionais

existem normas constitucionais exequíveis por si mesmas e normas constitucionais não exequíveis por si mesmas:

a) Normas constitucionais exequíveis por si mesmas: são todas as normas constitucionais de aplicação directa e imediata e a sua eficácia não está sujeita a nenhum acto posterior a elas. Estas normas são sempre preceptíveis (impõem/vinculam todos os sujeitos de direito mesmo o próprio legislador e são directa e imediatamente aplicáveis; ex:

arts. 12º e 13º CRP).

b) Normas constitucionais não exequíveis por si mesmas: São todas as normas constitucionais de aplicação deferida no tempo pois necessitam de actos posteriores que o complemente e as tornem exequíveis (eficazes), normalmente são aquelas que se propõe a determinados fins ou transformações e para tal, necessitam de ver executado o seu cumprimento. Estas normas constitucionais não exequíveis podem ser:

- Preceptivas: são normas não exequíveis mas que o legislador ordinário deve emanar normas para torná-las exequíveis, ou seja, são normas que não são de aplicação directa e imediatas mas que apenas necessitam de actos legislativos posteriores que venham torná-las eficazes; por isso, dirigem-se à lei ou ao legislador ordinário que deve praticar os actos necessários para torná-lo exequíveis (Ex: Art. 34º nº1 – Normas exequíveis preceptivas; Art. 34º nº2 – Normas não exequíveis).

- Programáticas: também não são de aplicação directa e imediata e estas contêm como que um programa dirigido ao Estado e este, através de todos os seus órgãos devem praticar os actos que forem necessários para as tornar exequíveis/eficazes (art. 9º; art. 58º nº2; art. 59º nº 2).

Em suma:

Δ Classificação das constituições:

- Escritas* ou mistas (segundo o critério das fontes de direito e o seu valor);

- Rígidas*, flexíveis ou semi-rígidas (segundo o critério do processo e revisão

constitucional);

- Normativa*, nominal ou semântica (segundo o critério ontológico);

- Utilitária ou ideológico-pragmática* (segundo o critério cronológico). - Normas Constitucionais: - Exequíveis por si mesmas (preceptivas)

(são normas jurídicas)

- Não exequíveis por si mesmas ( preceptivas ou

programática). * São as classificações da Constituição portuguesa.

CAP. III: Poder Constituinte e revisão da Constituição:

Poder Constituinte: É o poder ou faculdade de elaborar as normas constitucionais. Em sentido amplo: abrange todas as normas constitucionais escritas ou não escritas. Em sentido estrito: abrange a faculdade de elaborar normas constitucionais escritas que serão a trave-mestra do ordenamento jurídico.

(Em Portugal, o nosso sistema constitucional é essencialmente escrito logo, tomaremos o poder constituinte no sentido estrito).

O Poder constituinte é o poder mais elevado do Estado, através do qual a sua soberania se

realiza mais plenamente porque o órgão vai exercer esse poder, determinando uma opção global quanto ao futuro. Pode-se falar em dois tipos de poder constituinte:

1) Poder Constituinte originário 2) Poder Constituinte derivado ou de revisão

1) Poder Constituinte originário:

É o poder que vai criar uma constituição nova para um Estado que nunca a teve ou então já

não tem em virtude de uma desagregação social que tenha resultado numa revolução ou num golpe de Estado. Ex: Os países da URSS tinham uma constituição geral/universal para todos e quando os países se desmembraram, tornaram-se independentes e tiveram que criar uma constituição. Assim, o poder constituinte originário é lógico e cronologicamente anterior à constituição.

Natureza do poder constituinte originário:

Pretende-se saber se ele é ou não um verdadeiro poder jurídico porque o poder constituinte originário resulta da atribuição de poderes de feitura de um texto constitucional a uma entidade que emerge como consequência de uma revolução ou golpe de Estado, isto porque entende-se que em períodos de normatividade social não se justifica que o fenómeno de criação da constituição se produza fora/à margem do esquema constitucional em vigor, o

que se justificará será uma revisão da Constituição. Quanto à natureza, há duas teses:

a) Positivista: as revoluções ou golpes de Estado são actos contrários ao direito e,

como tal, o poder constituinte cairá nas mãos dos mais fortes e será uma manifestação de força, entendem que a revolução é um fenómeno diferente do direito e, que este só nascerá

com a nova constituição; assim, o poder constituinte é um poder de facto e que só será legalizado a posteriori pela própria constituição.

b) Contemporânea (é a mais seguida): as revisões não são um facto contrário ao

direito mas são um facto ordenado e regulado pelo seu próprio direito, visam substituir a ideia de direito vigente por outra que é a que inspirou a revolução; não pretende acabar como o direito, apenas querem transformar a sua substância e, por isso, o poder constituinte é um poder jurídico.

Características do poder constituinte originário:

Siéyès foi o primeiro teorizador do poder constituinte do séc. XVIII, após a Revolução Francesa. Para este, o poder cabia ao povo ou nação e, como tal, os poderes criados pela constituição seriam uma emanação da vontade do povo ou nação. Assim, o poder constituinte tinha três características:

- Inicial: antes dele não existia qualquer outro que lhe sirva de fundamento;

- Autónomo: é ele que decide como e quando elaborar a constituição;

- Omnipotente: ele não estaria sujeito a quaisquer limites nem quanto à forma nem quanto à substância.

Hoje em dia, entende-se que o poder constituinte é inicial e autónomo e não se aceita a característica da omnipotência pois está sujeito a limites formais (tem que ser exercido por um órgão com legitimidade para tal e de acordo com um processo específico definido pelo órgão que o vai exercer) e limites materiais (porque não se pode partir do nada; há um conjunto de valores superiores que variam de época para época mas que têm necessariamente que ser respeitados pelo poder constituinte originário senão corre o risco de criar normas constitucionais que serão consideradas inconstitucionais por violarem esses valores que são superiores à constituição).

Formas de exercício do poder constituinte originário:

Com base na entidade competente para criar o poder constituinte e na existência ou não de expressão popular distingue-se:

a) Forma de exercício democrática:

Forma de exercício onde o povo é que exerce o poder intervindo directa ou indirectamente na feitura da constituição. Pode ser:

- Democrática representativa: o poder constituinte pertence ao povo que elege os seus

representantes e essa assembleia vai elaborar a constituição (usada nas constituições de

1822, 1911 e 1976).

- Democrática directa: a constituição é elaborada por todos os cidadãos eleitores

reunidos em assembleias; hoje em dia este processo é disfuncional (actualmente só tem sido aplicada na Suíça com uma população reduzida).

- Democracia semi-directa ou referendária: a constituição é criada por um órgão eleito

pelo povo e depois de elaborada, é submetida à aprovação popular através de um referendo (foi utilizada na Constituição francesa actual, na Constituição italiana e na espanhola).

b) Forma de exercício ditatorial:

É aquela em que o poder constituinte é exercido por um indivíduo ou grupo de indivíduos

sem a participação popular. Pode ser:

- Monocrática: quando exercida só por um indivíduo (se o indivíduo foi o monarca, a

constituição diz-se monárquica; se o indivíduo for um ditador que elabora a constituição em nome do povo, chama-se Bonapartista (este foi o exemplo do que aconteceu na Constituição

de 1826).

- Autocrática: quando o poder é exercido por um grupo de indivíduos que o podem fazer a título próprio ou em nome do povo.

c) Forma de exercício mista:

Combina a forma de exercício democrática e ditatorial. Pode ser:

- Plebiscitária: combina o bonapartismo e a democracia, isto é, a constituição é elaborada por um indivíduo e depois submetida à aprovação popular mediante plebiscito (Ex: Constituição de 1933); - Pactuada: combina a democracia e a monarquia, isto é, a constituição resulta de um acordo ou pacto entre a Assembleia representativa e o monarca (ex: a Constituição de 1838).

2) Poder Constituinte derivado ou de revisão:

É o poder de alterar uma constituição já existente mas esse poder é criado pela própria

constituição e, como tal, tem que ser exercido nos termos nela previstos. As constituições escritas, hoje em dia, são fundamentalmente constituições rígidas, ou seja, elas fixam um processo de revisão constitucional todo ele sujeito a limites que caracterizam a sua rigidez. Esses limites têm que ser respeitados sob pena de se tornarem inconstitucionais. Os limites que o processo de revisão fixa são: formais, temporais, circunstanciais e materiais.

Do ponto de vista do

I) Formais: dizem respeito a três aspectos:

Direito Constitucional Geral,

os limites podem ser:

a) Órgão competente para a iniciativa da revisão:

Pode ser do Parlamento (quando o sistema é parlamentar), do Governo (quando o sistema de Governo tem preponderância do órgão executivo) ou ainda uma competência partilhada por

vários órgãos ou ainda iniciativa popular.

b) Quanto ao órgão competente para aprovar a lei:

Pode ser especial (quando é eleito só para esse fim) ou do próprio órgão legislador:

Parlamento (pode ser necessário o parecer de outro órgão ou a renovação dos membros do órgão através de eleições ou ainda a aprovação por esse órgão com submissão ao referendo.

c) As maiorias necessárias para aprovar a lei de revisão:

Como se trata de alterar a lei fundamental do Estado, as constituições exigem a aprovação das maiorias qualificadas, ou seja, bastam 2/3, ¾ ou 4/5 dos votos e não uma maioria simples (em que basta a pluralidade dos votos) nem uma maioria absoluta (que basta

alcançar mais de 50%).

II)

Temporais: refere-se à exigência do decurso de um certo período de tempo para que se

possa efectuar a revisão constitucional precisamente com o intuito de garantir a estabilidade constitucional; existem constituições mais rígidas que outras e, como tal, não admitem qualquer antecipação.

III) Circunstanciais: traduzem na existência de certas circunstâncias excepcionais que

impedem a revisão constitucional; normalmente trata-se de períodos de perturbação da ordem política e constitucional nos quais se entende que os órgãos encarregados da revisão poderão não ter a liberdade necessária para a efectuar e, como tal impede-se a revisão constitucional nestes períodos.

IV) Materiais: traduzem-se na existência de um conjunto de matérias que, pela sua natureza

ou determinação constitucional são consideradas como núcleo essencial da constituição e, como tal, podem ser objecto de revisão constitucional.

Do ponto de vista do

escrita, normativa, rígida e também ideológico-programática. É rígida porque consagra um processo específico para a sua revisão, processo esse consagrado na Parte IV da Constituição e nos arts. 284º a 298º da Constituição da República Portuguesa; significa que, para se efectuar uma revisão constitucional, tem que se observar um processo específico diferente do processo de criação das leis ordinárias. É um processo agravado pois impede a livre modificação da constituição pelo legislador ordinário, garantindo assim, estabilidade à constituição. Este processo está sujeito a vários limites consagrados na nossa constituição que podem ser formais, temporais, circunstanciais e materiais:

I) Limites formais: estão consagrados nos arts. 285º e 286º. A iniciativa de revisão cabe aos deputados; só eles podem apresentar projectos de leis de revisão constitucional de acordo com o art. 285º nº1 e 156º al. a). Quando se apresenta o projecto de lei de revisão, podem ser apresentados mais, no espaço de 30 dias (art. 285º nº2). O órgão competente entre nós para aprovar a revisão é a Assembleia da República e só ela (art. 161º al. a) e art. 166º nº1); essa alteração tem valor constitucional. Tem sempre que ser aprovada por uma maioria qualificada de 2/3 dos deputados em efectividade de funções (existem 230 deputados actualmente), segundo o art. 286º nº1. Se a revisão não for aprovada, será inconstitucional. As alterações têm que ser reunidas numa única lei de revisão (art. 286º nº2) e com os limites consagrados no art. 287º. Todas as leis/actos legislativos têm que ser promulgados pelo Presidente da República; nas leis de revisão ele é obrigado sempre a promulgar (art. 286º nº3).

Direito Constitucional português (particular)

, a nossa constituição é

II) Limites temporais: estão consagrados no art. 284º da CRP. A nossa constituição

consagra a possibilidade de dois tipos de revisão:

a) Ordinária: só pode ter lugar depois de correrem 5 anos da publicação da última lei

de revisão ordinária (art. 284º nº 1). Ela, no entanto admite que esse período seja antecipado numa revisão extraordinária. Foi utilizada nas revisões de 1982, 1989, 1997 e 2004.

b) Extraordinária: São as revisões que não têm limites temporais; podem ser feitas a

qualquer momento desde que seja proposto na Assembleia da República, por qualquer

deputado, antecipar a revisão da Constituição e essa resolução de antecipar tem que ser aprovada por 4/5 dos deputados em efectividade de funções (art. 284º nº2). Aconteceu com as revisões de 1992, 2001 e 2005.

III) Limites circunstanciais: consagrados no art. 289º da Constituição da República

Portuguesa. Não se pode proceder à revisão constitucional nos períodos de Estado-de-sítio ou Estado-de-emergência. O Estado-de-sítio e o Estado-de-emergência só podem ser declarados pelo Presidente da República (art. 134º al. d) e, por esse efeito, deve ouvir-se o Governo e recebe a autorização da Assembleia (art. 138º). O Regime destas circunstâncias está consagrado no art. 19º.

IV) Limites materiais: consagrados no art. 288º; indica um conjunto de matérias extensas

que são consideradas pela Constituição como núcleo essencial da mesma e, como tal, não podem ser revistos/objecto de revisão. Eles são limites superiores (porque impedem que as

matérias do art. 288º sejam alvo de revisão) e são limites inferiores (porque impedem que a revisão constitucional insira novas matérias na constituição.

- Quanto à natureza, são limites expressos, ou seja, a constituição indica expressamente o

que considera que não deve ser objecto de revisão. Também podem ser implícitos (princípio

da integridade do território – art. 5,6 e 288º a); princípio da irresponsabilidade dos juízes - art. 203º conjugado com o 288º al. m).

- Quanto ao âmbito, os limites materiais referem-se fundamentalmente a princípios gerais e, como tal, não impedem de disposições concretas desde que não se afecte a essência destes princípios.

- A relevância jurídica dos limites materiais existe com base em 3 teses:

1) Tese da irrelevância jurídica: tudo que está na constituição pode ser alvo de revisão. Argumento: a soberania não pode ser congelada quando se faz uma constituição porque senão sempre que se quiser alterar ter-se-ia que proceder a uma revolução ou Golpe de Estado. 2) Tese da relevância jurídica absoluta (é a tese mais correcta): o poder de revisão é um poder derivado subordinado ao poder constitucional e, como tal, as normas constitucionais sobre limites materiais funcionam como um limite superior que tem que ser respeitado. Alterar essas matérias seria alterar o núcleo essencial da constituição e, como tal, não seria uma revisão mas sim criar uma nova constituição (é defendida pelo Prof. José Gomes Canotilho e pelo Prof. Vital Moreira). 3) Tese da relevância jurídica relativa ou do duplo processo de revisão: é defendida por Jorge Miranda; os limites têm uma relevância relativa e obrigam a um duplo processo de revisão, isto é, quando se pretender alterar alguma das matérias do art. 288º procede-se da seguinte forma: primeiro respeita-se essas matérias mas elimina-se a mesma do art. 288º; na revisão seguinte já se pode alterar essa matéria pois já não faz parte do art. 288º (Esta é a forma mais fácil).

De acordo com o art. 287º nº1, as alterações à constituição podem constar na modificação (substituição), eliminação (suprimir) ou introdução de uma nova norma (aditamento), que devem todos ser inseridos numa única lei de revisão. Este é o processo de revisão que a constituição prevê. Se se proceder à revisão que não

respeite os artigos anteriores, sofre de inconstitucionalidade e pode ser fiscalizado pelo Tribunal Constitucional.

Cap. IV: Fins e funções do Estado

Fins do Estado:

São os objectivos que o Estado se propõe a atingir e que são:

a) Segurança;

b) Justiça;

c) Bem-estar económico-social

a) Segurança:

Pode ser segurança individual (que consiste em cada cidadão saber com o que pode contar na fronteira do Estado, isto é, através da definição de direitos e deveres de cada um em normas jurídicas. Esta segurança surge como segurança física e moral do indivíduo bem como dos seus bens) ou pode ser segurança colectiva (traduz-se na defesa da comunidade face ao exterior).

b)

Justiça:

O

Estado deve proteger a colectividade do arbítrio e da violência satisfazendo assim a ideia

de

justiça. Tem também um duplo significado:

- Justiça comutativa: o Estado deve assegurar que os indivíduos, nas suas relações recebam o

equivalente que prestou a outrem, assim, são proibidos os negócios usurários em que uma parte se aproveita da situação de dependência ou fraqueza económica e social de outra.

- Justiça distributiva: cada cidadão deve receber os proventos equivalentes à actividade

produtiva que desenvolve ou o equivalente às situações de carência social em que se encontra e é neste sentido que o Estado dá subsídios, reformas e cobra impostos para evitar diferenças que são inevitáveis.

c)

Bem-estar económico e social:

O

Estado tem que promover as condições de vida dos cidadãos, garantindo o acesso a bens e

serviços essenciais pela colectividade e que lhe permitam a elevação do nível de vida de

estratos sociais mais amplos (serviço como saúde, habitação, educação, etc

).

Estes fins estão consagrados na actual constituição portuguesa nos artigos 2º e 9º, sendo que entre eles não existe uma separação mas antes uma interrelação (a defesa dos direitos fundamentais é um efeito da justiça e do bem-estar económico e social; o art. 9º al. a) preocupa-se com o fim da segurança; a alínea d) do mesmo artigo com o bem-estar e o art. 2º, não só com a ideia de justiça, como também de segurança. Para atingir estes fins, o Estado desenvolve uma série de actividades. Essas actividades são

as funções do Estado, assim, cada órgão do Estado realiza um conjunto de actos que podem

ser dependentes ou independentes de outros órgãos mas tendo em vista os objectivos ou os fins do Estado. Esses actos têm duas características essenciais: podem ser de carácter específico ou diferenciado (resulta dos efeitos que produzem do processo de criação e do órgão de que emanam) ou de carácter duradouro (prolongam-se no tempo embora se possam desdobrar em actos localizados, envolvendo pessoas e situações diferentes.

Funções do Estado (no

Direito Constitucional Geral

):

As funções do Estado têm sido objecto de caracterização com base em diversos critérios, no entanto, hoje em dia, com base no critério material, as funções são essencialmente 3:

1) Função legislativa: é um acto de vontade prévio sempre de carácter geral e abstracto, depende apenas da constituição; define uma disciplina inovadora que visa concretizar a constituição. Traduz-se na prática de actos legislativos que podem ser controlados quanto à sua constitucionalidade.

2) Função judicial: é um acto de vontade derivada que visa resolver conflitos de interesses entre duas ou mais pessoas. Vai aplicar o direito aos casos concretos e é levado a cabo pelos órgãos independentes e imparciais. Estes actos são possíveis de recurso contencioso (nos tribunais).

3) Função Administrativa: depende da constituição. Refere-se a actos individuais e concretos de relação entre órgãos (promulgação, autorização), actos auxiliares de Direito Constitucional (actos que se destinam a manter, modificar ou fazer cessar o funcionamento de um órgão), ou ainda relativamente às relações internacionais. Estes actos não são possíveis de apreciação contenciosa.

Funções do Estado na Constituição Portuguesa (

Direito Constitucional Particular

):

Consagra as diferentes funções atribuídas a diferentes órgãos, de acordo com o art. 111º nº1 da CRP; está consagrada uma separação de poderes com interdependência, o que significa que cada uma das funções no seu essencial é atribuída a um determinado órgão mas com a possibilidade de colaboração de outros órgãos para existir um equilíbrio e evitar-se a existência de um super poder. Assim, a função legislativa cabe à Assembleia da República mas também pode ser exercida pelo Governo e pelas Assembleias das Regiões Autónomas.

A função administrativa cabe ao Governo uma vez que, de acordo com o art. 182º da CRP,

ele é o órgão superior da administração mas também pode ser exercida pelas Assembleias

Regionais, pelo Governo Regional e pelas Autarquias Locais. Quanto à função político-governamental, cabe não só ao Presidente da República como também à Assembleia da República, ao Governo e aos órgãos das Regiões Autónomas.

A função judicial cabe apenas aos tribunais.

Função Legislativa:

Pode se distinguir lei em sentido formal (abrange todos os actos que são emanados por órgãos com competência legislativa de acordo com o processo previsto na constituição para

a criação de actos legislativos) e lei em sentido material (abrange todos os actos que

independentemente da sua forma tenham carácter de norma jurídica, ou seja, que tenha um

carácter geral, abstracto e inovador).

Há coincidência entre lei em sentido formal e lei em sentido material, no entanto a nossa constituição apenas indica quais os actos que formalmente se consideram como actos

legislativos pois segundo o art. 112º nº1, são actos legislativos:

as Leis, os Decretos-leis e os

Decretos Legislativos Regionais

. No art. 112º nº5, vigora também o chamado princípio da

tipicidade dos actos legislativos na qual são actos legislativos apenas estes e não podem ser criados nenhuns outros actos além destes.

Competência Legislativa:

Existem três órgãos com competência legislativa:

Assembleia da República: tem uma competência legislativa genérica porque de acordo com o art. 161º al. c), ela pode legislar sobre qualquer matéria desde que esta não seja da competência exclusiva do Governo (sua organização e funcionamento). Ela faz as Leis e a sua competência está consagrada no art. 164º (reserva absoluta de competência legislativa, isto é, só ela pode legislar sobre estas matérias e mais nenhum outro órgão) e 165º da CRP (reserva relativa de competência legislativa, quer isto dizer que a Assembleia da República pode autorizar o Governo e as Assembleias Regionais; estas autorizações são feitas através de uma lei, de acordo com o art. 166º al. d), que define as formas dos actos).

Governo: pelo art. 198º CRP, faz os Decretos-Leis e a Constituição reserva-lhe uma matéria relativa à sua organização e funcionamento de acordo com o art. 198º nº2, ou seja, a Assembleia da República pode legislar por todas as matérias menos por essa. Pode no entanto ser autorizado a legislar pela Assembleia da República pelo art. 165º da CRP.

Assembleias das Regiões Autónomas: segundo o art. 227º nº 4, faz os Decretos Legislativos Regionais. Tem uma competência limitada territorial e materialmente (é um órgão regional) mas também pode ser autorizada a legislar pela Assembleia da República segundo o art. 165º da CRP.

► Competência legislativa da Assembleia da República:

Pelo art. 112º nº2, as Leis e os Decretos-Leis têm o mesmo valor, não são hierarquizados e vigora o princípio de que o posterior revoga o anterior.

Leis Constitucionais ou Constituição - de valor reforçado Leis ordinárias - Comuns
Leis Constitucionais ou Constituição
-
de valor reforçado
Leis ordinárias
-
Comuns
- Leis orgânicas; - de alcançe - Leis estatutárias geral; - de alcance - Leis
- Leis orgânicas;
-
de alcançe
- Leis estatutárias
geral;
-
de alcance
- Leis de bases;
limitado;
- Leis de autorização legislativa;
- Leis de enquadramento;
Leis que aprovam as grandes opções do
plano;
-

* Leis Constitucionais: A Constituição diz, no art. 166º nº1 que reveste a forma de lei constitucional apenas os actos da Assembleia previstos no art. 161º al. a), esses actos são os que aprovam alterações à Constituição, o que significa que no nosso sistema constitucional as leis constitucionais se identificam com as leis de revisão, isto é, só assumem a forma de lei constitucional as leis de revisão constitucional. Não há qualquer outro acto normativo que assuma a forma de lei constitucional, daí que todas as outras leis da Assembleia da República tenham forma de lei ordinária e, como tal, estão hierarquicamente abaixo.

* Leis ordinárias: dentro das leis ordinárias existem as leis ordinárias de valor reforçado (que pode ser de alcance geral ou alcance limitado) e as leis ordinárias comuns. A Assembleia da República pode fazer qualquer uma dessas leis e elas mantém os seus valores. Leis ordinárias de valor reforçado: são as infra-constitucionais mas são supra- legislativas, isto é, estão abaixo da Constituição mas acima das restantes leis ordinárias que

são as chamadas comuns; interpõem-se entre a Constituição e as leis ordinárias comuns. Estas leis podem ter um alcance geral, quando se impõem apenas a todos os actos legislativos (são as leis orgânicas e as leis estatutárias); e podem ter alcance limitado quando se impõem apenas a alguns actos legislativos (são as leis de bases, leis de autorização legislativa, leis de enquadramento e as leis que aprovam as grandes opções do plano):

Leis ordinárias de valor reforçado e alcance geral: são as que têm um calor infra- constitucional mas que se impõem a todos os outros actos legislativos. Nesta categoria temos apenas leis estatutárias e leis orgânicas:

- Leis orgânicas: são as leis da Assembleia da República que versam as matérias

previstas no art. 166º nº2; são de competência exclusiva e reserva absoluta da Assembleia da República. Têm um valor reforçado e um alcance geral, uma vez que estão abaixo da Constituição e acima de todas as outras leis ordinárias. Este valor supra-legislativo resulta da própria Constituição no art. 112º nº 2 e qualquer lei ordinária que viole uma lei orgânica sofre do vício de ilegalidade, fiscalizado pelo Tribunal Constitucional de acordo com os artigos 280º nº2 al. a) e art. 281º nº1 al. b).

- Leis estatutárias: são leis da Assembleia da República que aprovam o estatuto

político-administrativo das Regiões Autónomas; de acordo com o art. 226º, o projecto de estatuto é feito pelas Assembleias Regionais e têm que ser aprovado pela Assembleia da República (arts. 161º al. b) e art. 166º nº3); o processo de criação está no art. 226º. T Trata-se de uma lei organizatória que vai definir a competência e funcionamento dos órgãos das regiões autónomas; para além disso, a nossa Constituição consagra o princípio da autonomia regional no art. 6º, que se concretiza no Estatuto e, por isso é que ele tem uma posição hierárquica superior em relação às restantes leis ordinárias. Qualquer lei ordinária que o contrarie sofre do vício de ilegalidade que decorre dos arts. 280º nº 2 al. b) e c) e 281º nº1 al. c) e d).

Leis ordinárias de valor reforçado e de alcance limitado: podem ser quatro:

- Leis de Bases: são leis da Assembleia da República que apenas fixam os princípios

gerais do regime jurídico de determinada matéria; estas leis estão previstas nos arts. 164º al. i) e 165º al. f), g), t), u) e z), sendo que estes princípios serão depois desenvolvidos pelo Governo através dos chamados Decretos-Leis de desenvolvimento ou pelas Assembleias Regionais se tratar de matérias de interesse para as Regiões Autónomas, através dos Decretos-Leis de desenvolvimento – art. 198º nº1 al. c) e art. 227º nº1 al. c). Estas Leis têm valor reforçado de acordo com o art. 112º nº2 da CRP, mas de alcance limitado porque apenas se impõe aos outros actos apenas aos Decretos-Leis que vão desenvolver (são diferentes das Organizações). Como elas têm um valor reforçado, os Decretos que irão desenvolver têm desde logo que indicar expressamente a lei de Base que irão desenvolver (art. 198º nº3 e art. 227º nº4) e se não respeitarem a respectiva lei de base sofre do vício de

ilegalidade, fiscalizado pelo Tribunal Constitucional (art. 280º nº2 al. a) e art. 281º nº1 al. b)).

- Leis de autorização legislativa: são também leis da Assembleia da República em que vai autorizar o Governo a legislar sobre matérias que são da sua competência exclusiva mas reserva relativa, isto é, as matérias incluídas no art. 165º; esta possibilidade de autoridade está prevista no art. 161º al. d) e art. 166º nº3. Também pode autorizar as Assembleias Regionais desde que ser trate de matérias previstas no art. 227º nº1 al. b), de acordo com o art. 161º al. e) e art. 166º nº3. Estas leis de autorização da Assembleia da República só podem ser concedidas a estes órgãos e não a quaisquer outros porque vigora aqui também o princípio da tipicidade das autorizações (art. 111º nº2); têm que ter um conteúdo mínimo, isto é, de acordo com o art. 165º nº2 e 227º nº2 têm sempre que indicar o objecto, o sentido, a extensão e a duração da autorização. Se não respeitar isto, sofre de inconstitucionalidade. Para além disso, só podem ser usadas uma vez de acordo com o art. 165º nº3 e art. 227º nº2, a não ser que faça uma utilização parcelada e caduca decorrida o seu prazo ou ainda nas situações previstas no art. 165º nº4 e art. 227º nº3, com excepção do previsto no art. 165º

nº5.

As leis de autorização têm um valor reforçado que resulta do art. 112º nº2 da CRP mas de alcance limitado porque apenas se impõem aos diplomas que irão usar autorização, assim, quando o Governo vai usar uma lei de autorização, deve indicar expressamente qual é a lei (art. 198º nº3) e faz um Decreto-Lei autorizado; as Assembleias Regionais também têm que indicar expressamente a lei de autorização que estão a utilizar (art. 227º nº4) e fazem os chamados Decretos legislativos autorizados. Se estes decretos não respeitarem a respectiva lei de autorização legislativa, há o vício de ilegalidade, fiscalizada pelo Tribunal Constitucional – arts. 280º nº2 al. a) e art. 281º nº1 al. b).

- Leis de Enquadramento: são leis da Assembleia da República que regulam a forma ou modo de produção de outros actos legislativos; também têm um valor reforçado por força do art. 112º nº3 mas alcance limitado porque apenas se impõem aos actos legislativos cuja produção regulam (ex: lei do orçamento, porque tem que estar de acordo com a devida lei de enquadramento – art. 116º nº1, porque senão sofre de ilegalidade, também fiscalizada pelo Tribunal Constitucional, art. 280º nº2 al. a) e art. 281º nº1 al. b)).

- Leis que aprovam as grandes opções do Plano: são leis da Assembleia da República de acordo com o art. 161º al. g) da CRP. Esta lei tem um valor reforçado mas tem alcance limitado porque apenas se impõe a lei do orçamento (art. 105º nº2), se não respeitar, sofre de ilegalidade também fiscalizada pelo Tribunal Constitucional – art. 280º nº2 al. a) e art. 281º nº1 al. b).

Processo Legislativo Parlamentar ou processo legislativo ordinário:

É o conjunto de formalidades ou procedimentos que devem ser observados pela Assembleia da República para a criação de leis. Essas formalidades são exigidas pela própria Constituição e, como tal, se não forem observadas, há um vício de inconstitucionalidade,

fiscalizado pelo Tribunal Constitucional.

Essas formalidades/ procedimentos são os seguintes:

a) Iniciativa legislativa (art. 167º);

b) Discussão e votação (art. 168º);

c) Assinatura

d) Promulgação (art. 134º al. b) e art. 136º);

e) Referenda Ministerial (art. 140º);

f) Publicação (art. 119º).

Processo legislativo Parlamentar: formalidades para a criação de leis da Assembleia da República

a) Iniciativa legislativa:

Consiste na capacidade para desencadear o processo legislativo parlamentar com vista à

aprovação de uma lei pela Assembleia da República e, por isso, distingue-se da competência legislativa uma vez que esta se traduz na capacidade para aprovar leis.

O art. 167º da CRP consagra a iniciativa e esta pode ser:

Iniciativa interna: é exercida pelos Deputados e pelos Grupos Parlamentares que apresentam à Assembleia da República projectos de lei (art. 167º nº1, art. 156º al. b) e art. 180º nº2 al. g)). É uma iniciativa genérica porque eles podem apresentar na Assembleia projectos de lei sobre qualquer matéria. Só têm as seguintes excepções:

- Não podem apresentar as leis de revisão (é de iniciativa exclusiva dos deputados – art. 285 nº1);

- Não podem apresentar projectos de leis estatutárias porque a iniciativa é exclusiva das Assembleias Regionais (art. 226º nº1, art. 227º nº1 al. e) e art. 232º nº1);

- Não podem apresentar projectos de leis que se destinem apenas às regiões autónomas porque cabe às Assembleias Regionais (art. 167º nº1, parte final);

- Não podem apresentar projectos de lei que aprovam as grandes opções do plano

porque a iniciativa é exclusiva do Governo (art. 161º al. g));

- Não podem apresentar projectos de leis de autorização legislativa porque essas são de

iniciativa do Governo ou das Assembleias Regionais consoante a autorização (art. 227º nº2). Iniciativa externa: pode ser exercida pelo Governo, pelos grupos de cidadãos eleitores

ou ainda pelas Assembleias Regionais quando diz respeito às Regiões Autónomas. Apresentam na Assembleia da República propostas de lei – arts. 167º nº1, art. 197º nº1 al. d) e art. 227º nº1 al. f). A iniciativa do Governo é também genérica porque também pode apresentar propostas de leis na Assembleia da República sobre qualquer matéria apenas com

as seguintes excepções:

- Não podem apresentar propostas de leis de revisão (só os deputados);

- Não podem apresentar propostas de leis estatutárias (arts. 226º nº1, 227º nº1 al. e) e 232º nº1);

- Não podem apresentar propostas de leis que se destinem apenas às Regiões

Autónomas (art. 167º nº1, parte final);

- Não podem apresentar propostas de leis de autorização às Assembleias Regionais (art. 227º nº2).

Quanto à iniciativa das Assembleias Regionais, estas são limitadas (não genéricas) porque elas só podem apresentar propostas de leis no respeitante às Regiões Autónomas (art. 167º nº1, Parte final).

b) Discussão e votação:

Apresentada na Assembleia da República um projecto ou proposta de lei e aceite, passa à fase de discussão e aprovação que abrange 3 fases:

- Discussão e votação na generalidade em que o diploma é apreciado na sua totalidade (art. 168º nº1 e 2);

- Discussão e votação na especialidade em que vai ser apreciado artigo por artigo (art. 168º nº1 e 2);

- Votação final global (art. 168º nº2).

Em regra, a primeira é feita no Plenário, a segunda nas comissões especializadas (art. 168º nº3) e a terceira é em Plenário (reuniões semanais dos deputados). Nalguns casos, previstos no art. 168º nº4, a discussão e votação na especialidade tem que ser feita obrigatoriamente no Plenário. Feita esta discussão, aprovação e votação final é feita por maiorias simples dos deputados 8em regra), art. 116º nº3, no entanto se se tratar de leis orgânicas tem que ser aprovado por maioria absoluta dos deputados em efectividade de funções (art. 168º nº5) e se tratar das leis do art. 168º nº6, aí tem que ser por aprovação de 2/3 dos deputados presentes.

c) Assinatura:

Aprovado o diploma, tem que ser assinado pelo Presidente da Assembleia da República para a promulgação - art. 134º al. b). O Presidente da República tem a capacidade/competência para promulgar e mandar publicar as leis e pode sempre promulgar ou não; se não promulgar, diz-se que veta. Pode vetar por não concordar com a oportunidade política do diploma (exerce o veto político, previsto no art. 136º) ou então pode não promulgar porque o Tribunal Constitucional se pronuncia pela inconstitucionalidade do diploma (é um veto jurídico ou por inconstitucionalidade, previstos nos arts. 268º e 269º). O Presidente da República quando recebe o decreto da Assembleia da república tem 20 dias para decidir se promulga ou veta (art. 136º nº1).

d) Promulgação:

É uma formalidade essencial do processo parlamentar; ela é que leva à transformação

jurídica dos decretos da Assembleia da República em leis, por isso, a falta de promulgação de acordo com o art. 137º implica a inexistência jurídica do diploma.

e) Referenda Ministerial:

Traduz-se numa co-responsabilidade do Governo com certos actos do Presidente da

República que são os previstos no art. 140º e traduz-se na prática, na assinatura do Primeiro- Ministro. Um dos actos do Presidente que precisam de referenda é os actos de promulgação; a referenda vai apenas atestar a existência e a regularidade da promulgação.

É uma formalidade essencial e a sua falta implica a inexistência jurídica do acto (art. 140º

nº2).

f) Publicação:

Prevista no art. 119º nº1 al. c); de acordo com este artigo, as leis têm que ser publicadas no Diário da República para se tornarem conhecidas pelos seus destinatários; há um período que medeia a publicação e a entrada em vigor, chamado de vacatio legis, que é um período em que os destinatários vão conhecer melhor a lei.

A lei pode indicar a data de entrada em vigor; se nada indicar ela entra em vigor 5 dias após

a sua publicação (consta da lei de publicação e identificação dos diplomas nº74/98, alterada em 24 de Agosto de 2007).

A falta de publicação, de acordo com o art. 119º nº2 implica a ineficácia jurídica do

diploma, ou seja, o diploma existe juridicamente mas não produz efeitos, portanto não pode ser proposto aos cidadãos.

Se a lei não respeitar estas formalidades é inconstitucional!

► Competência legislativa do Governo:

Prevista no art. 198º da CRP, ele emana Decretos-Leis que, segundo o art. 112º nº1, são também actos legislativos.

O Governo tem dois tipos de competência legislativa:

1) Própria ou independente:

a) Exclusiva: é aquela que ele exerce no que diz respeito à sua organização e

funcionamento (única matéria que lhe é reservada pela Constituição e só ele pode legislar) – art. 198º nº2.

b) Concorrencial: é aquela que ele exerce sob todas as matérias que não estejam

reservadas à Assembleia da República pela Constituição, isto é, que não estejam previstas no art. 164º e 165º; nestas matérias tanto pode legislar o Governo como a Assembleia da República e, por isso, as leis e os decretos-leis têm o mesmo valor (art. 112º nº2) e vigora o princípio de que o diploma posterior revoga o anterior no que lhe for contrário. Está prevista no art. 198º nº1 al. a).

2) Derivada ou dependente:

a) Autorizada: é aquela que ele exerce sob matérias de competência exclusiva da

Assembleia da República mas de reserva relativa, isto é, as indicadas no art. 165º e através de uma lei de autorização legislativa. Neste caso, o Governo emana um Decreto-Lei autorizado ou no uso da autorização e que tem de estar conforme com a respectiva lei de autorização legislativa sob pena de ilegalidade fiscalizada pelo Tribunal Constitucional – art. 112º nº2, art. 280º nº2 al. a) e art. 281º nº1 al. b). Por esta razão, o Decreto-Lei autorizado tem que indicar expressamente a lei de autorização em que se fundamenta (art. 198º nº3). Esta competência legislativa está prevista no art. 198º nº1 al. b).

b)De desenvolvimento: prevista no art. 198º nº1 al. c), que o Governo exerce quando vai desenvolver as leis de bases da Assembleia da República, emana os Decretos-Leis de Desenvolvimento (subordinados à respectiva lei de Bases por força do art. 112º nº2) e que tem que respeitar sob pena de ilegalidade fiscalizada pelo Tribunal Constitucional – art. 280

nº2 al. a) e art. 281º nº1 al. b). Os decretos-leis de desenvolvimento devem indicar expressamente a lei de base em que se fundamentam (art. 198º nº3).

Processo de criação dos Decretos-Leis:

É elaborado um projecto de Decreto-Lei pelo Governo, normalmente pelo Ministério da

Tutela e submetida à discussão e votação pelo Conselho de Ministros - art. 200º nº1 al. d).

Se for aprovado, tem que ser assinado pelo Primeiro-Ministro e pelos Ministros competentes em razão da matéria (art. 201º nº3) e depois enviado ao Presidente da República para promulgar e mandar publicar - art. 134º al. d); o Presidente da República tem 40 dias para

decidir se promulga ou veta (art. 136º nº4) e pode utilizar o veto jurídico ou o veto político.

A promulgação tem que ser objecto de referenda ministerial (art. 140º) e depois tem que ser

publicada no Diário da República – art. 119º nº1 al. c). De acordo com o art. 169º da CRP, a Assembleia da República pode sempre apreciar os Decretos-Leis do Governo, só depois de publicados (chamados de mecanismos de apreciação parlamentar) é que se pode aplicar a qualquer Decreto-Lei do Governo desde que não seja da sua competência exclusiva (organização e funcionamento). A apreciação

parlamentar só pode ser feita para efeito de fazer cessar a vigência do Decreto-Lei ou alterá-

lo – arts. 162º al. c) e art. 169º nº1.

Esta apreciação tem que ser requerida à Assembleia da República pelo menos por 10 deputados e nos 30 dias posteriores à publicação do Decreto-Lei (art. 169º nº1). Se a Assembleia da República decidir fazer cessar a vigência do Decreto-Lei, ele deixa de vigorar desde o dia que for publicada essa resolução no Diário da República (art. 169º nº4), se decidir alterá-lo tem que o fazer através de uma lei e se se tratar de um Decreto-Lei autorizado, a Assembleia pode responder a sua vigência até a publicação da lei que o vai alterar (art. 169 nº2 e 3). Este processo de apreciação caduca nos termos do art. 169º nº5.

► Competência Legislativa das Assembleias Regionais:

Nas Regiões Autónomas, a competência legislativa cabe apenas às Assembleias Legislativas

e o Governo Regional tem apenas competência administrativa e política e estes são os dois

órgãos de Governo das Regiões Autónomas de acordo com o art. 221º nº1 e estas competências resultam do art. 232º nº1, conjugado com o art. 227º. As Assembleias Legislativas Regionais (dos Açores e da Madeira), no exercício da sua competência legislativa elaboram os Decretos Legislativos Regionais; são também actos legislativos de acordo com o art. 112º nº1 CRP. As Assembleias legislativas têm três tipos de competência legislativa:

1) Competência legislativa própria: que permite legislar sobre matérias de âmbito regional previstas nos Estatutos político-administrativos que não estão reservados pela Constituição nem à Assembleia da República nem ao Governo – art. 227º nº1 al. a) e art. 232º nº1.

2) Competência legislativa autorizada: permite-lhe legislar sobre matérias da competência

exclusiva da Assembleia da República mas de reserva relativa, isto é, indicadas no art. 165º

e desde que a Assembleia da República a autorize através de uma lei de autorização

legislativa, neste caso, a Assembleia Regional elabora um Decreto Legislativo autorizado

que tem de estar conforme com a respectiva lei de autorização e indicá-la expressamente – art. 227º nº1 al. b, art. 232º nº1 e 227º nº4. Estes Decretos legislativos Regionais, no uso da autorização, podem também ser submetidos à apreciação parlamentar nos termos dos artigos 162º al. c) e 169º. Se o Decreto Legislativo Regional autorizado contrariar a respectiva lei de autorização, sofre do vício de ilegalidade fiscalizado pelo Tribunal Constitucional – art. 280º nº2 al. a) e art. 281º nº1 al. b).

3) Competência de desenvolvimento: permite às Assembleias Regionais desenvolver para o âmbito apenas regional as leis de bases da Assembleia da República através de Decretos Legislativos de desenvolvimento – art. 227º nº1 al. c) e art. 232 nº1. Este Decreto legislativo de desenvolvimento tem que indicar expressamente a lei de base em que se fundamenta (art. 227º nº4) e tem de respeitar porque se trata de uma lei ordinária de valor reforçado e, como tal, se não respeitar, sofre do vício de ilegalidade fiscalizada pelo Tribunal Constitucional – art. 280º nº2 al. a) e art. 281º nº1 al. b).

Quando se trate de matérias que digam respeito às Regiões Autónomas mas que elas não possam intervir por estarem reservadas à Assembleia da República, elas podem actuar exercendo iniciativa legislativa, prevista nos arts. 167º nº1 e 227º nº1 al. f), apresentando na Assembleia da República uma proposta de lei sobre essa matéria. Por outro lado, de acordo com o art. 227º nº1 al. v) e art. 229º nº2, os órgãos de soberania, em relação às questões que dizem respeito às Regiões Autónomas, devem sempre ouvir os órgãos de governo regionais.

A feitura dos Decretos legislativos regionais tem um processo idêntico para a criação de leis

na Assembleia da República; no entanto, estes não precisam de ser promulgados pelo

Presidente da República, tem apenas de ser assinados pelo representante da República – art. 233º (ler o art. 230º).

O Representante da República também pode assinar ou vetar nos termos do art. 233º.

Primado de competência legislativa da Assembleia da República:

No que diz respeito à competência legislativa, as Assembleias Regionais têm uma

competência limitada quer territorial quer do ponto de vista material; já a Assembleia da República e o Governo têm ambos uma competência genérica e, em regra, as leis e os Decretos-Leis têm o mesmo valor (art. 112º nº2) no entanto a Assembleia da República é o órgão legislativo por excelência, primeiro porque enquanto o Governo só tem uma matéria da sua competência legislativa que respeita à sua organização e funcionamento. Razões:

- A Assembleia das República tem um extenso leque de matérias da sua competência

exclusiva e que abrangem as mais relevantes do ordenamento jurídico;

- Também a Assembleia da República pode apreciar os Decretos-Leis do Governo e até cessar a sua vigência mas o contrário não é viável;

- A Assembleia da República pode condicionar a competência legislativa do Governo através das Leis de Bases e das Leis de autorização legislativa.