Você está na página 1de 70

FULHA

EXP LIC/\

CARLUS

GGIVIES

LORENZO MAMMI

OIQUISTKA

SINFONICI.

DE

SAC-

DO

ESTADO

PAULO

PUBLIFOLHA

SUMARIO

INTRODUQAO

1. CAMPINAS E sAo

,

|>Au|_o

2. O AUTOR DA CDPERA NACIONAL

3. UM iND|o EM MILAO: /L GUARANY _,

, _

4. FOSCA, sA1_\/ATOR ROSA, MARIA TUDOR

5. o MAESTRO DA ABOLIQAO: LO SCH/Avo

6_ ULTIMAS OBRAS: CONDO/2 E COLOMBO.

CONCLUSAO

,

BIBLIOGRAFIA E DISCOGRAFIA

INTRODUQAO

um ensaio incluido na coletanea Carlos Go-

mes - uma

Obm em Foco,1 Vicente Salles

cita um auto das

Janeiro ern

pastorinhas do Rio cle

com poucas

que é aproveitada,

modificagées, a melodia

do famoso dueto Sento una

Forza Indomita”, do Guamny. A mesma melodia se

reencontra em varias rnanifestagoes folcloricas, desde

Sul. Parece improva»

vel que Carlos Gomes (1836-96) tenha utilizaclo urn

o Arnazonas até o Rio Grande do

motivo popular

reconheceria com facilidade

ja existente,

que um ouvinte da época

E Il Guarany,

ao contra-

rio, que se tornou

dir com o folclore.

tio popular, a ponto de se confun-

Esta ai

urn paradoxo, que

emperra tocla avalia-

sua musica é

gio Serena da figura do compositor:

1 “Carlos Gomes: Passagem e Influéncia em Vérias Regiées Br:-1sileiras”. Em: aa.\rv.,

Introdugdo

9

famosissinia e, ao niesnio tenipo, quase desconheci-

da. Nao ha coreto do Brasil

eni que liao tinha sido

executada a Protofonia clo Cuarany. Ao mesmo

tempo, coni excecao de

obra e

cle

uina do

duas boas gravacoes dessa

Colombo, nao existe registro

coriHavel neni edicao rigorosa

todas as composicoes

de suas operas. De

pais,

eruditas

produzidas no nienos - sao

as suas - alguinas clelas, pelo

aincla

as que

rnais se enraizaram na memoria coletiva. l\/las sua

iniagem

e sua colocacao historica, para além do mito,

clecisivo da historia do pais,

Sao Vagas e embagadas.

Num moiriento

Carlos Gomes foi um icone popular. Poi também o

primeiro musico

zido

brasileiro importante

a ter produ-

uma musica profaria erudita,

claranaente distin-

quanto das

ta tanto da niusica

de entreteniniento

conaposicoes cerirnoniais ou liturgicas. Nuin arco cle

cerca cle 30

anos (da

Noite do Cczstelo ao Schiavo), ele

encarnou a possibilidacle de uina niusica culta brasi-

leira, que

fosse ao mesmo

musicologos,

tenipo

No

erudita e profana,

patriotica e cosmopolita.

forco dos

entanto, apesar do es-

nao se chegou a

ainda hoje

esclarecer se sua obra

pertence realniente a tradicao

um episoclio na histo-

musical do pais ou se é apenas ria cla opera italiana que, por por um brasileiro.

acaso, foi protagonizado

(1889), e

A partir da proclamacao da Republica

talvez um pouco antes, o setor niais

publico

brasileiro ja

inforniado do

comecava a se afastar de Carlos

l\/liguez,

Francisco Braga,

e Henrique

Osvxfald, surgia uma

cledicada principalmente at

romantico

Gomes: com Leopoldo

Alberto Nepomuceno

de compositores

geracao

nausica

sinfonica e cameristica de estilo

riorte-europeu,

sideravel

o que significou uma ampliacao

con-

de horizontes, aincla

que com certo retardo.

1 0

CHVIDS GDMKS

O estilo operistico italiano,

agora verista,2

ficava a cargo

Araujo,

a opera

irriigragao

de personalidades menores, como Gomes

Crama

1\/lalcher ou Ara1f1joViana. Além disso,

italiana, queja

ritorio privilegiado de um publico de

cente, centrado em Sao Paulo, mais

nessa época de “musica

fora associada a Corte, tornava-se o ter-

re-

do que no Rio. 1?

torna o oposto

que “rnusica italianada” se

nacional”, como é aindajulgada por Ma-

rio de Andrade.

No universo cultural da

Republica

Velha, entre

1890

e 1930, Carlos Gomes representa a nostalgia do

mau gosto de

irnigragao recente. Nao

Sao os mesmos

antigo regime e, ao mesmo tempo, o

uma pequena burguesia de

por

acaso, defensores de sua musica

criticos que aftacam as novas idéias, como Oscar

Cfuanabarino.

E nesse periodo,

contudo, que a obra e

na Cultura po-

de‘trans<:ri~

a figura de Carlos Gomes se insinuarn

pular, através de uma cadeia

goes e manipulacgoes,

ininterrupta

chegando até

processo

as pastorinhas, os

observado n1uitas

ga-

ranchos, os sambas.3 E um

vezes: o que decai da Cultura alta se contamina e

nha nova vida em produgoes

sempre mais humildes e

periféricas. No caso 'de Carlos Gomes, entretanto, ha

algo

mais: para amplas camaclas da

populagio, 11 Guarczny

sublimacla e

o na-

mantém sua credibilidade

como imagem

rnitica do povo brasileiro -- muito mais

cionalismo

um Nepomuceno,

do que

sofisticado, mas um tanto escanclinavo, de

por exemplo.

A famosa cabeleira

de Carlos Gomes é, assim como a basta barba cle d.

Pedro II, 'uma imagenji Ropular com a qualqnenhum

2 O verismo foi uma corrente literéria icaliana préxima ao realismo francés de Emile

Zola. Seu maior representante é GiovanniVerga (1 840-1922). Em musica, é conside-

rado

verista o estilo de Mascagni,

Leoncavallo e, em parte, Puccini.

3 CR o artigo ji citado de Vicente Salles.

,

Introdutdo

1

1

presidente e nenhum compositor posteriores conse- guirarn competir.

Durante o regime de Getulio Vargas (1930-45), a

postura em relagao a Gomes muda cle novo: afinal, o

Compositor

é uma gloria da nagao, o

primeiro brasilei-

que sentido é

Em 1936,

ro a ter adquirido fama mundial. l\/las em

uma gloria, e em que sentido é nacional?

cenrenirio do nascimento do compositor, o embaracgo

se torna evidente. Quase todos os autores coletados no numero dedicaclo a Carlos Gomes da Revista Brclsileira

de Musica, ainda hoje uma referéncia

obrigatoria sobre

o assunto, parecern pisar em ovos. Enio

Castro comeea seu ensaio confessando a“profuncla di-

de Freitas e

Vergencia entre a [sua] maneira de sentir a rnusica e a

que se pode atribuir a Carlos Gomes". Silvio Deolindo

Froes declara logo que em 1895,

quando conheceu

Gomes, era discipulo de Franck e de Riemann, de ma-

neira que a homenagem aoantigo

mestre é prestada

com o devido distanciamento. Para Gctavio Bevilacqua,

Carlos Gomes se dedicou ao

teatro de opera porque

este era a unica aspiraeao possivel em seu arnbiente cul-

tural - uma aspiragao,

contudo, bem abaixo de sua po~

aponta para elementos

tencialidade. Luiz I-Ieitor

nacionais nas prirneiras operas

infelizrnente teriarn sido abandonados apos sua mu-

de Carlos Gomes, que

dancga para a Italia. l\/lario de Andrade, certamente o

mais sutil de todos esses comentadores, analisando Fos-

ccz, assinala elementos de Wagnerismo

aos quais, de novo

nas obras

mundo civiliza-

infelizmente, Carlos Gomes teria renunciado

seguintes, ante a hostilidade do

publico.

De triunfo brasileiro nos palcos do

do, o compositor campineiro se tornava, assirn, uma oca-

siao perdida. Perdida por ter se dedicado a um género tio

artificial e empolatlo /como a opera, ern vez de a musica

instrurnental e canaeristica. Por ter abandonado, na ope-

12

Carlas Gomes

ra, o canainho da nacionalidade, tismo europeu. Por ter escolhido,

em prol do Cosmopoli-

na Europa, a Italia em

paradoxal de recupe-

um esquema esté~

e, ao mesrno

vez da Alemanha. Era uma maneira

rar a figura do compositor, dentro de

tico que buscava um paradigrna moderno

tempo, “autenticanaente brasileiro.

l\/loderno, Carlos

parametros

da época.“Auten-

que

ter

Gomes a seu modo foi, pelo menos dentro dos

um tanto atrasados da musica italiana

ticamente brasileiro”, certamente nao, no sentido de

nao ha

sido escrito

quase nada, em sua musica, que

nao poderia

pais.

por um compositor de outro

Recentemente, Marcus G6es4 tentou defender

tese de

a

que o sucesso do

melodizagao,

Guarany se deve a un1

da modinha_

modi-

parece que

esse

por

novo tipo de

que derivaria

l\/las fica dificil ver

nheiro

algo de particularmente

e tampouco

nas arias do Guamny,

alguém, no Brasil ou na Italia,

aspecto na

“modinha”

época. De fato, o

é tao Vago

tenha detectado que se entende

que fica mesmo dificil Carac-

terizar alguma coisa por ai.

Talvez a questao se

esclarega se deixarmos de co-

depositado

locar a

identidade nacional como algo fixo,

no repertério

podem ou

nio

popular, que os compositores eruditos

atingir, e passarmos a considera-la um

processo historico, que se caracteriza

por umasequén-

de que Carlos

alguns momentosa

porém, nao

cia de escolhas estéticas. Nao resta duvida

Gomes quis

escrever, pelo

menos em

de sua vida, operas nacionais. Nacionais,

em referéncia ao folclore, como seria a musica nacio-

nalista

posterior, mas em relagio a um

espirito nacional

erguendo-se

em formaeao,

ao qual uma nova musica,

acima das tradigoes locais, deveria dar Voz.

" Carlos Gomes, a Farga Ind6mita_ Beléru: Secult, 1996.

Introdugdo

15

Foi nacional como era

nacional Giuseppe Verdi

populares ita-

(1813-1901), que nuuca cita melodias

lianas. Se Gornes nao foi um Verdi brasileiro, isso se

deve ein parte a limites de

seu temperamento (e nao

aos poucos foi

superan-

em

projeto cultural

tanto a lirnites técnicos, que

clo) e ein parte a fragilidade do

que se apoiava e que era, substancialmente, o do Se-

sempre

gundo Reinado. Sua popularidade no Brasil

dependeu de seu sucesso no exterior, e nao sobrevi-

veu a este. Nao havia,

no pais, uni publico burgués

estavel para Sustentar uma

Campo da opera

séria,

suficientemente amplo e

producao nacional - 11510 no

pelo menos.Além disso, o teatro lirico italiano, a cuja

eni crise na época

tradicao Gomes se filiaVa,_ja estava

em que o cornpositor obteve seus primeiros sucessos.

Esse teatro ressurgira temporariamente

a partir de 1890, quando o autor do GMGYHHYJQ estava

corn o verismo,

em franca Clecadencia.

Coino outros compositores ati-

vos na Italia, e talvez rnais do

que os outros, Gomes

desempenha entao papel de artista de transicio; do

qual

nao se sabe clizer se é o ultimo seguidor deVerdi

ou o primeiro precursor cle l\/lascagni (1863-1945).

A trajetoria de Carlos Gomes - sair do arnbiente

acanhado de Campinas para se tornar uma celebrida-

esquecido em

Belém,

tem algo de heroico e emblematico. E, enx versao ex-

treinacla, o percurso daquela classe

Gilberto Freyre

cle européia e, finalmente, morrer quase

de Volta aos confins do mundo civilizaclo -

social em rapida

e do

ascensio no Segundo Reinado que

definiu com os terrrios associados do “bacharel”

‘~‘mulato”.5 Nem patroes

nem escravos, nein portu-

gueses nem aimorés: a camada social que mais natu-

5 Sobrudos e Mocambos, v. II, Cap. ll. Rio de _janeirozjosé Olympic, 1956.

14

Carlos Gomes

ralmente se identificava com o mito indianista de Peri.

Dessa burguesia

sua conquista

ropéia,

fragil e ousada de intelectuais, e de

afoita da modernidade e da Cultura eu-

Gomes foi a expressao mais vistosa - com cer-

mais eficiente e prestigioso

da politica

teza, o resultado

cultural de d. Pedro II. Nisso, foi profundamente na-

cional - nio por alqingir

Povo, mas por aderir

um atemporal Espirito do

plenamente a uma situaeao his-

torica concreta. Se ha algo

incompleto em sua vida,

se ligar com a verdadei-

mio é por mio ter conseguido

ra natureza de sua

nacgao. E, ao contrario, ter ficado

inevitavelmente ligaclo a ela, a sua situaeio historica e

a seus linaites. Para além de suas qualidades estéticas

(que

existem, embora nao sejam excelsas), a obra de

da musica e da Cultura brasileira, mes-

que parece ter lhe voltado definitivamen-

ll

Carlos Gomes é urn elemento imprescindivel para a

compreensao

mo daquela

te as Costas.

1. C/\MP|N/AS E sAo |=>/\u|_o

ntonio Carlos Gomes nasceu em 1 1 deju-

lho de 1836, filho de Manuel _lose Gomes, mestre-de-eapela, e Pabiana l\/laria jaguary

Cardoso, filha cle um alfaiate. Poi registrado

como “Hlho de pai incognito”, porque os pais ainda nio

estavana casados. Ate a década de 1830, a profissao de

musico, com raras excegoes nos grandes centros urbanos, pertencia a uma Camada social relativamente baixa, com- posta quase exclusivamente de mulatos livres. l\/laneco

1\/lusico, o pai de Carlos Gomes, era “pardo” Segundo os

censos da época. Fabiana, airmam os memorialistas

carnpineiros, era “rnorena clara".

“Filho de pai ClesCor1heCido”, como a maioria de

seus ilhos, l\/Ianeco foi criado em Parnaiba por um padre,

do qual aprendeu as letras e a mf1sica_Aperfei<;oou-se em

Sao Paulo, com André da Silva Gomes, mestre-de-capela

da Sé, e estabeleceu-se em 'Campinas por Volta de 1806.

Alfabetizado, pode se destacar numa cidacle

bastante

rustica, eXercendo,além-do oficio cle musico, o de escrivao.

Carnpinas c Srio Paulo

17

Praticou tambérn o pequeno conmércio: iustrunaentos

xnusicais, aguardente, terras.

Irmicialrnente, a produgao nau-

dirigida, ena sua

quase

Sical de l\/lanuel José Gomes foi

totalidade, as cerimonias religiosas. As Vezes, era requisita-

do para tocar rabeca na Casa da Cpera de Sao Paulo. Seus

fnlhos, além cle terem estudado nausica, praticaranl outras

proflssoesz Carlos Gomes foi aprendiz de alfaiate; Sant’Ana

Gomes, irxnao rnaior de Carlos, foi entalhador.

Esses cletalhes, e outros

niais escabrosos (Fabiana

em 1844, e l\/laneco

foi niorta “com tiro

e punhaladas”

foi suspeito do crin1e), so Vieram 21 tona

filho legitimo. 0

e111 tempos

parecesse

relativamente recentes.6 C) auto de batisrno foi mo-

dificado para que o compositor,ja famoso,

assassinato da mae so foi lenabrado

de sua biografia

de

em 19367 Na primeira edigao

Carlos Gomes, em 1935, ltala Gomes, filha do com-

positor, nao

Na terceira, de

1946, fornece uma Versio edulcorada: Fabiana teria

que penetrarana ern casa

faz mengao do dranaa.

sido morta por assaltantes,

para roubar una violoncelo.8

A questao racial teve

certo peso na

psicologia de

ena suas es-

Carlos Gomes e também, possivelmente,

colhas estéticas. De tez escura,

sernpre se considerou

descendente de indios, e nao naulato. E111 suas varias

residencias italianas, gostava de

se cercar de objetos

a

tribo de seus

indigenas, que dizia pertencerem

antepassados. A versao oiicial da ascendéncia do com-

6 O relato nlais compléeto e docunvsntado sobre esses acontecirnentos esta em No-

gueira, ]997'. 7 O. de Camargo,"/\ lnfancia de Carlos Gomes", em: Diério do Povo, Cannpinas, 12/ 7/1 936, p. 1 1 -2; e “Nlaneco I\/lusico", ern: Revista do Centro cle Ciéncias, Letras e/Ines,

Caznpinas, 1936, p. 23-4, cit. em Nogueira, 1997‘; Brito, p. 13-4.

ltala Gomes \/az de Carvalho, Vida de Carlos Carnes. Rio de Janeiro: A Noite,

1935; 3. ed., 1946.

18

Carlos Gomes

positor é a que a Hlha ltala transcreve na biografia de

1936: o bisavo

de Carlos Gomesfdescendente de uma

familia nobre de Pamplona, DonAntonio Gomez, in-

as ultimas bandeiras de l\/Iinas Gerais

corporara-se

Se perdera,

enfim, dos companheiros, levando consi-

belissima india, filha de um chefe Guarany; de teve numerosos filhos”. Escusado dizer que essa

go uma

quem

lenda indianista nao tem fundamento historico.

As falsificacgoes da

biografia

de Carlos Gomes sio

tio reveladoras quanto os fatos: testemunham que seu

estatuto socialja nao era compativel com aquele cor-

riqueiro entre

os musicos da geracgao anterior. No

pelas cartas e por muitos detalhes da

entanto, julgando

vida do

compositor, o indianismo de Carlos Gomes é

mais do que um disfarce oportuno: comporta unia iden-

tificacgio profunda.

“Eu sou de uma raga barbara, mas

reconhecida até a morte a quem saiba preza-la”, escre-

veria, por exemplo, a Carlo Tornaghi, funeionario da

Casa Ricordi.9 Peri

nio teria dito melhor.

AS PR/MElRASsCD`BRAS ~

Por Volta de 1840, o perfil de Campinas Comega a

mudar.Tradicionalmente dedicada ao cultivo da Cana,

a regiao torna-se um dos epicentros da produgao do

café. As relagoes

ma agricola

com Sao Paulo se estreitam, o siste-

se moderniza, surge paulatinamente uma

de pjjblico

eamada de classe media e um émbriao

burguésfo Os protetores campineiros de Carlos Go-

" Revista Brasileira de Mrisica, 1936: 407; Vetro‘, p. 144-5.

Campinas e Sdo Paulo

19

nies pertencem todos a nova elite,_ja distante dos ha-

bitos camponeses dos antigos fazendeiros: o conse-

lheiro Albino José Barbosa de Oliveira, baiano,

magistrado importante, que comecgou a cornprar ter-

ras em Campinas a partir de 1847, dividindo-se entre

a provincia

e a corte;Theodoro Langaard, clinamar-

qués, clinico afamado, cujo neto sera ministro;_]oao

Antonio Bierrenbach, de origem rio~grandense, fun-

dador da Bierrenbach & Irmaos, que fabricava

chapéus

e maquinas de moer café; Henrique Luis Levy, alsaciano

emigrado apos as revolugoes européias de 1848, clari-

netista diletante e comerciante de joias,

que mais tar-

de fundara a famosa editora musical Casa Levy.

Os primeiros pianos chegaram a Campinas por

Volta cle 1838. Substituiam as antigas violas no acompa-

nhamento das modinhas,

tornando-se presenga obri-

gatoria nas festas de fanrilia e na educagio das rnocgas.

Para os musicos, abriana-se novos mercados. Em 1846,

é fundacla aAssocia¢;§o Campineira do Teatro Sao Carlos,

com o objetivo de dotar a cidade de uma casa de espe-

taculo. No mesmo ano, por ocasiao de uma visita de d.

Pedro II a Campinas, l\/laneco Nlusico iilnda uma Ban-

da l\/larcial, para a qual compora varios dobrados, mar#

Chas, arranjos de operas italianas e francesasfl

Carlos parece decidiclamente

orientado para as

novas praticas musicais.Tem pouca ou nenhuma pro-

pensao para a musica sacra, como demonstra seu

opus,

muito escasso nesse Campo. Sente-se mais a vontade

na musica de

salao: claneas, modinhas, pequenas pegas

acompanha-

sentimentais para piano, ocasionalmente

das por outro instrumento (a Aria para piano e clarineta,

" Nogueira, 1997‘, p. 57 ss; A biblioteca musical de Manuel José Gomes cncontra-se

hoje no Muscu Carlos Gomes de Campinas.Ver Nogueira, 19972.

20

Carlos Games

destinada a uma exibigao em duo com Henrique Luis

Levy); uma Cena comiea para baritono e orquestra, O

Cozinheivfo,

recém-descoberta porjosé Penalva, queja

o cafe chantant."

sugere uma familiaridade preeoee coni

Os ultimos anos da década de 1850 Sao decisivos

para o destino de Carlos

Gomes. Em 1856, Henrique

Luis Levy se instala em Campinas e se torna seu prote-

tor e aniigo. Em fevereiro de 1857, o Correio Paulistano

anuncia Composigoes suas: Rainha das Flores, valsa; Bela

Ninfa de I\/Iinh’/llma, “romance sentimental”; e A

Cayamba, “danea de negros” para piano." Em _janeiro

de 1859, Carlos Gomes abre em Campinas uma esco-

la de niusica, Canto e piano,junto com um tal de Ernest

l\/laneille. A sociedade logo se desfaz, mas Carlos Go-

mes continua mantendo a escola por sua Conta, ate a

mudanga para o Rio. Em abril, Carlos, Sant’Ana Go-

mes e Henrique Luis Levy apresentam

blico no recem-construido Teatro

um recital pu-

Sao

Carlos de

‘Campinas. No programa, além das costumeiras varia-

goes sobre temas de opera, uma Fantasia Sobre a /llta

Noite, para clarineta e piano, que provavelmente é a Aria

para clarineta e piano conservacla no l\/luseu Carlos

Gomes de Campinas. O concerto é repetido em 20 de

junho, dessa vez em Sao Paulo.” Com eerteza, nio era

a primeira vez que Carlos Gomes visitava a capital da

'2 Penalva, 1996, p. 1-88.

‘” Fernandes, p. 23-4.A primeira pega esta perdida; as outras constam das antologias

editadas pela Funarte.

“‘ No prograina do concerto em Sio Paulo, a pega é indicada como %zria;5es Sobre u 'Romance “A Alta I\/oite”, ao passo que a aria do manuscrito de Campinas tem estru-

tura,justamente, de aria do século 19: introdugio, estrofe, transicgio e cabzlleta. A ela

se poderia aplicar a definieio Fantasia, nio

Mariapies, rnas nic devemos exigir muita

precisio de urn anuncio dejornal. O roinance A Alta I\/cite talvez seja a modinha Alta

Noite Tudo Dorme, sobre a

Cernicchiaro, 1926, p. 390).

qual Adolfo Maersch também escreveu variagées (cf.

Campinas c Sdn Paulo

Z1

provincia. Segundo juvenal

Fernandes, 0 conipositor

paulistas

do pais

desde 1857.5

frequentava os circulos estudantis

reito a qual concorriamjovens

era entao, _junto coni

riacional, relativamente

interesses regionais. Em

Cidade universitaria, sede de uma faculdade de di-

inteiro, Sao Paulo

Qlinda, a foija de uma nova elite

independence dos costumes e dos

musica, esse processo de nacio-

do gosto musical

aspectos. Seria preciso

apressadas, lembrando

op6e a “in-

ruptu-

nalizacao, fundamental para a formacao

brasileiro, assumia diferentes

recupera-lo sem simplif1cac6es

sobretudo que, nesse caso,nacional" nao se

ternacional”, e sim a “regi0nal”, implicando uma

ra com as tradic6es localizadas, com a musica de devocao

tudo aquilo

religiosa, com o folclore ~ em suma, com

brasileira. De um lado,

das da Europa - arias de

eram importantissimas para

médio que permitisse a nova elite

com grupos

bem

0 dialogo de varicvs

Outro lado, era necessario,

tidade, que essas formas fossem recriadas de dentro para fora, a

especifica. Por falta de urn repertério

que 0 nacionalismo de firn de século tentou

como fundamento

recuperar

de uma linguagein especificamente

as formas musicais burguesas, vin-

épera, dancas de salao etc. -,

a formacéio de um gosto

nao apenas

0 dialogo

correspondentes de outros paises, mas tam-

grupos regionais entre si. Por

para

a definicao de uma iden-

nao S6 importadas, mas

partir de uma tradicao

erudito consisten~

te, essa tradicao deveria ser encontrada no folclore - mas um folclore idealizado e sublimado, para nao ser confun- dido com a simples continuacao de habitos incultos.

Desde 0 artigo sobre a musica

de Araujo Porto

Alegre na revista Niteroy, em 1836, modinhas e lundus tornaram-se paradiginas da musica genuinainente bra-

zz

Carlos Gomes

sileira.

A partir de entio,

teremos lundus cujos ritmos

com a quadrilha e a polca,

em 2/4, reescritos para serem dangados nos saloes, fun-

dem-se progressivamente

acé gerar o samba

mais se

Q50 em

e o mascixe; modinhas que cada vez

aproximam da aria italiana, visando a apresenta-

concerto. Longe

de ser incorporaeao passiva cle

formas niusicais estranhas, corrompendo a pureza das

tradigoes

tance para a sedimentagao de formas musicais tipicas.

locais, esse processo

é extremamente impor-

QUADR/L/'/A, Qu/Lo/vuso

E OUTRAS DA/\/CAS

As dangas caracteristicas de salao eram o lugar privile-

giado para estabelecer

nais.Em

clistingoes entre idiomas nacio-

o Album

1856, foi publicado no Rio clejaneiro

para piano, acorn-

panhadas por

gravuras e a um ritmo

tipico de diferentes paiseszi Gléria, polca;]ardim Botcini-

co, valsa; Boa I/Yagem, redova (polca russa); S50 Cristévcio,

Pitoresco e Musical, colecgao de dangas

canto da

gravuras. Cada

cidade retratado nas

danga remetia .a um re-

schottische (xote); T§uca, polca-mazurca.'Abriam

chavam a antologia

duas quadrilhas:

Demetrio Rivero, e Petrépolis, de _].A.

fe-

e

Botafogo, de

A quadrilha

chegou ao Brasil na década cle 1830,

trazida por

orquestras de danga izrancesas. Nas festas do

Segundo Reinado, era praxe quie corn ela se abrissem e

fechassem as dangas,

como no Album citado. Era sempre

em Cinco movimentos, todos em 2/4, com excegao do

terceiro, em 6/8. O quinto costumava ser um galope.

A polca

é outra danga de grande popularidade,

brasi-

filndamerital

para a evolugio da mlflsica popular

leira. E, alias um caso iinico na historia

9

da mflsica de

- Campinus c S50 Paulo

23

cncretenimento: surgida em Praga por volta cle 1840,

cm 1 845 ja dera a Volta ao mundo, gerando uma verda-

deira febre, da Franea aos Estados Unidos, daallussia ao

ljrasil. Aqui, sua popularidade foi tao rapida e difusa

que emprestou literalmente

o nome a unia epidemia

de febre reumatica, a “febre polca” de 1846. Em mea-

dos Cla clécada de 184O,_ja era a danga

urbana predorni-

nzmte, ponto de referencia para todos os outros géneros.

Aqui estava, alias, sua foreaz baseada num ritmo de mar-

cha bastante simples, em 2/4, adaptava-se as tradigoes

locais com extrema facilidade: na Alemanha, virava

Scl1nel@9olIea (polca-galope); na Polonia, pol