Você está na página 1de 223
Ble) OEHLER O Velho Mundo Desce aos Infernos FUE Nasa.) Besse O TRAUMA DE JUNHO Decree us) Junho de 1848, mais que mera data De CCM als L Ty Mich TeS ae MMOL) DS eee Chie eal ic ie Deselect Cet Blo Pre Meer er ie WC (OR Pot te UCM CC ce stray DO eS CSM Ree CROC Dai em diante, a luta sera intestina, ou seja, de classes. etm Rom T es ett Lee Pec me tory me ma ae eles I} ‘OS nexos entre o trauma dos eventos de Paris e o surgimento da grande li- teratura moderna — tarefa que em- PUD St OR eC ESE tT tores prediletos: 4 maneira de Bau- CE aC ace Ca Ca) se dedica a uma empresa rigorosa de Cee ERC N I R rte) Dee MMs C aM (omni mento. 0 resultado é, sob qualquer an- PORT Sach Gee tele ai SSCA Cora er cet Le ec Pe SU ee EC oe Ue DECOM ORO Comey) Ee eC LCi este Der CUCM TTT od res e figurdes da politica, cada qual contribuindo com o que pode para o a UL Ra ema mer a URC Ce ee ic bee CRU ee Meng Crea a eR oe Coca MS ca ct TOS ee ee Rar) est Li ae TO ese mee Sc Rett eR Tex ed A) TL td SO MMS Te ey Pee MC Cm CLC mee) Pree nL RCS eC too O Heine penitente e devote dos ali mos an0s mostra as Cartas que guar- dara na manga; 0 satanismo de Bau- delaire perde sua aura de perversao elegante e revela o corte analitico; e Fe a CM CUE CMU LED UatU) papel-biblia das edigdes Pléiade. é Oyen Ona CC Fema NVC ae ae Cae CS ie corpo-estranho na Educagéo senti- mental, revela-se pega-chave de um romance que expoe sem do os nexos entre romantismo e repressao, senti- OLS IL Cec DC a Sat a Le a tudou filosofia, filologia germanica e Peer Rca Ut emt! (ela Lo Per aa CEU Ce RT CE ce nem aestética antiburguesa em Heine, Dau- PC Cm ea cy rE eee DOLF OEHLER O VELHO MUNDO DESCE AOS INFERNOS Auto-andlise da modernidade apés o trauma de Junho de 1848 em Paris ‘Tradugao: JOSE MARCOS MACEDO COMPANHIA Das LETRAS. » Frankfurt am Main Copyright © 1988 by Subrkamp Verlag Titulo original: Ein Héllensturz der Alten Welt — Zur Selbsterforschung der Modeme nach der Juni 1848 Capa: Ettore Bottini sobre Pornokrater (detalhe), leo sobre tela de Félicien Rops (1878) Preparagao: Eliane de Abreu Mantrano Santoro Revistio: Carmen. da Costa Beatrizde Freitas Moreira Dados Interacionaie de Cacslogagio na Publicasio (ct) (Camara Brasileira do Linto, st, Beal) Othlec, Dol, 1949 — 1D velho mitndo desee aos imfemos + auro-andlise de smodernidade apés 0 trauina de Jushe de 1848 em Pars! Dol? (Gehler ; raduzao José Marcos Macedo. — Sto Paulo Companhia as Letras, 1999. Tia original: Ein Hellonsture dor Alten Welt — Zur ‘Selbsterforschung der Moderve nach dem Jur 1848 Bibliografic ISBN 85-7164.905.7 1. Civilizago moderna — Influéncias faneesas 2, Franga = Historia — Revelugac de Fevereico, 1848 3. Literatura € sociedede — Francs — Histéria — Séeulo 19 4. Literaura francesa — Século 19 — Histriae erica |, Tul. 99-2004 0p-$40.935805084 indices para eatloge sistemiticn |, Literaura francesa : Revolugan de 1848 2 Historia eerticn 849,935809034 2 Rovolugto de 1848 Literatura francesa Hititis © erica 340,935869054 1999 Todos os direitos desta edigdo reservados & EDITORA SCHWARCZ LTDA. Rua Bandeira Paulista, 702,¢}. 72 04532-002 — Sao Paulo — sr Telefone: (011) 866-0801 Fax: (O11) 866-0814 e-mail: coletras@mteonetsp.com.br i SUMARIO Prefécio. Introdugao.... Primeira Parte CRISE DOS SIGNOS: ASEMANTICA DO JUNHO DE 1848 E SUA CRITICA PELA MODERNIDADE LITERARIA Carfter unico, incomparavel, do acontecimento .. Barbaros e bestas / Monstros, dem6nios — o inferno, Sata / Omal.. Santos e martires / Deus / Jesus Cristo Socialistas / Utopistas / Comunistas / Anarquistas Sonho/ Sonhadores / Menbriage / Banbagiog Loucura/Furor.. Tolice.. Burguesia / Pequena burguesia / Povo, proletariado Guerra social /Luta de classes versus fraternidade /Caim ce Abel. Odio. Misantropia / Pessimismo. Natureza Exterminio / Aniquilacao / Erradicagéo Morte / Fim do velho mundo / Apocalipse ou renascimento. Paris .. 27 31 45 53 55 ST 62 65 76 83 86 89 90 94 97 Franga/Franceses . Europa .. Repiiblica .... Imagens femininas / Papel das mulheres. Perdoar / Esquecer / Recalear versus jamais esquecer/ Recordar .. Junho: a magia de uma data .. Analogias histéricas Metéforas de teatro Coincidéncias e correspondéncias............ Segunda Parte “PELOS ESCRITOS O MAL RESSUSCITADO”: SOBRE UM TRAUMA RECALCADO DO SECULO XIX I. MENSAGENS DESAPARECIDAS DE JO: HIPPOLYTE Dois panfletos: Le Dernier banquet de la bourgeoisiee e La Place publique .... Excurso: 0 anarquismo satanico de Ernest Coeurderoy A Mona Lisa do combatente das barricadas; tentativa de um romance-folhetim socialista.... Ohistoriador ¢ 0 poeta filésofo: passeio com Monsieur Baudelaire... I. O MUNDO (DAS AVES) COMO ELE E£. E COMO ELE DEVERIA SER: A “ORNITHOLOGIE PASSIONNELLE DEALPHONSE TOUSSENEL Osonho do exterm{nio da pega Exercicios elementares de classificagao das aves soci: Odio da esquerda aos judeus: Sartre criticado a luz de Toussenel ...... Ul. AINFELICIDADE DO SABER: ALEXANDER HERZEN O Jeremias russo nas as barticadas de Junho. . Um drama faniliar: a Education sentimentale de Herzen..... 104 108 11 113 121 130 139 144 147 455 155 169 172 183 192 192 198 206 212 212 220 Filosofia da revolugio Epilogo sobre a Europa. IV. ULTIMAS PALAVRAS: A LICAO DO CATRE-SEPUL- TURA. O outro Lazaro: a ressurreigao do poeta Heine. Uma publicidade infernal: os tltimos aniincios parisienses de Heine..... “ V. INDICACOES DE LEITURA PARA O TEXTO DA MO- DERNIDADE: CHAR: BAUDELAIRE, Aniincios e titulo.. Excurso sobre 0 processo contra Les Epigraies . Adedicatéria. Au Lecteur O preambulo da Révolte e textos aparentados Projets de préface... ‘VI. LOUCURA ILUMINISTA: SOBRE TRES POEMAS EM PROSA DO “SPLEEN DE PARIS”. Jogo ir6nico com o mal... Avioléncia como facanha em Le Mauvais vitrier e em Assommons les pauvres!... Le Géteau ou a linguagem da fome. VIL. CRITICA DO CONSUMO PURO: FLAUBERT E OS ILUMINADOS DE FONTAINEBLEAU .. Notas... Bibliografia.... 230 235 239 239 253 268 270 273 275 278 281 286 287 291 291 294 301 PREFACIO Escrever historia significa dar as daias a sua fisionomia, Walter Benjamin, Obra das Passagens Les journées de Juin me révélerent I état vérita- ble de l'Europe. Alexander Herzen, Lettres de France et d'ltalie Este livro pretende elucidar um aspecto ainda em grande parte desconhecido — apesar de Lukées, Benjamin e Sartre — da relagao entre histéria social e histéria das mentalidades no século XIx.A empresa consiste na apresentacao sistemiatica das relagdes entre um dos grandes temas recalcados da hist6ria recente da Europa — o fra- casso da revolucdo de 1848, que culminou nos acontecimentos san- grentos de junho em Paris — e uma modernidade literdria suficien- temente conhecida, j4 que canonizada nesse meio tempo, mas cujo contetido critico permanece, tanto ontem como hoje, objeto de con- trovérsia. Em outras palavras, indaga-se sobre a parcela da experién- cia traumatica do ano de 1848 na nova orientacdo dos autores que revolucionaram a literatura romantica e fundaram a modernidade critica. A complexidade do objeto e do método a ser desenvolvido para exp6-lo ea riqueza do material hist6rico e literdrio a ser classi- ficado — e que foi posto a descoberto no curso de minhas pesquisas — sao responsdveis pela demora deste projeto, que na origem fora 9 pensado como continuagdo de meu Quadros parisienses (1830- 1848) e que, em certo sentido, tornou-se também uma nova versao daquele livro, na qual a problemdatica da “estética antiburguesa” € aproveitada num outro nivel de reflexdo. Alguns contemporaneos conceberam as jomadas de junho de 1848, esse primeiroembate de vulto entre a reptiblica liberal eo pro- letariado insurrecto em Paris, como um genocidio social, uma ten- tativa sem precedentes de exterminar toda uma classe da sociedade. Em razdo de sua monstruosidade, esse acontecimento logo foi pre- sa dorecalque,e com ele a literatura que, de uma forma ou de outra, quisera Ihe dar voz, De modo algum a literatura foi cimplice — € nem preparou o caminho — do recalque dos horrores de 1848; antes, ela propria tornou-se vitima desse recalque, exatamente na medida em que tentou opor-se a ele. Além disso, o protesto literério contra o esquecimento nao se limitou a insistir na culpa histérica da socieda- de burguesa. A modernidade critica apés 1848 reinscreveu 0 acon- tecimento no contexto do século e transformou as reminiscéncias hist6ricas em imagens dialéticas, no sentido de Benjamin, e portan- toem imagens nas quais, ao mesmo tempo em que o passado, 0 pré- prio presente vem a luz. Ora, a fim de compreender as imagens dialéticas da moderni- dade literdria parisiense, é indispensavel familiarizar-se antes com a linguagem e o mundo das idéias a que ela se reporta de modo criti- co e irénico. Por esse motivo, estabelecemos aqui a ligagdo entre literatura e histéria mediante a apresentacdo, ordenada segundo temas, da semAntica social do século xXIx, com base numa “literatu- rade junho”. No sentido amplo do termo,uma literatura que vai de testemunhos das préprias jornadas de junho, mais ou menos apécri- fos ,nunea antes apresentados nesse contexto — proclamacées ,arti- gos de jomal, cangées, cartas, didrios etc. — , passa pelos grandes comentarios politicos de Blanqui, Proudhon, Marx/Engels, Toc- queville, até chegar aos autores que levaram ao extremo a pesquisa literdria sobre a patologia da modernidade, sob o signo da catdstro- fe que foi a Revolugao de 1848: de um ladoos dois exilados,Alexan- der Herzen e Heinrich Heine; de outro, os verdadeiros fundadores da modernidade européia. Baudelaire e Flaubert. Os hiatos, todavia, entre Os textos abertamente discursivos e aqueles cifrados pela iro- 10 nia, devem-se a natureza do assunto, mas derivam também de um ato deliberado de redugao ou imediatismo, com o qual certos textos poéticos sao inseridos na primeira parte em conjuntos tematicos determinados sem que seja fornecida, a cada vez, a interpretagio que serve de base ao respectivo rapprochement do texto em questao Ascitagdes de Heine, Baudelaire ou Flaubert, na primeira parte, pre- ludiam as exposigdes mais sistemdticas da segunda. Ao situd-las no contexto semantico de 1848 ,deve-se fazer ver sua inscrigfo histori- ca, mas nfio prové-las com rigor impositivo. (De resto, toda com- preensfio de textos literdrios pode apenas tornar-se plausivel, mas nunca ser irrefutavelmente demonstrada.) Talvez nao seja de todo supérfluorealgar que a abordagem pro- posta aqui da modernidade de Paris s6 desenvolve um aspecto — embora essencial — daquela literatura € no tem pretensdes, abso- lutamente, 4 exausto ou ao monopdlio exegético. Polémicas aqui e acold contra interpretagdes divergentes nao devem atingi-lasem razao de sua simples diferenga, mas por sua tendéncia a contestar fundamentalmente a possibilidade de compreender a arte, por elas vista como auténoma, sob os aspectos histrico e critico. Resta-me agradecer a todos os amigos, colegas, bibliotecarios, estudantes ¢ instituigdes que contribuiram para a realizagio deste livro. Agradego & Deutsche Forschungsgemeinschaft por conceder- me uma bolsa de dois anos, que me possibilitou, apés 0 perfodo de docéncia em Frankfurt, dar seguimento a minhas pesquisas em Paris. Entre todos — e foram muitos — os que me auxiliaram neste trabalho, citarei Pierre Missac amigo desinteressadoe intérprete de Benjamin, falecido em outubro de 1986, Susanne e Leo Léwenthal, Marthe Robert, Karl Heinz Bohrer, Ross Chambers, Michel Delon, Gerhard Goebel-Schilling, sob cujaégide fluiuo processo de docén- cia entre 1986 € 1987, Youssef Ishaghpour, Hans Jérg Neuschifer, Fritz Nies, Claude Duchet ¢ as equipes “Heine” e “Flaubert” do Institut des Textes et Manuscrits Modernes do Centre National de la Recherche Scientifique. Mas minha gratidao mais fntima é para com Ulrike. Paris, 23 de junho de 1988 dl INTRODUCAO ... fartmoderne a une tendance essentiellement démoniaque. Ft il semble que cette part inferna- lede l’homme, que Uhomme prend plaisir as’ex- pliquer a lui-méme, augmente journellement... Charles Baudelaire, L’Art romantique Raramente politica e literatura tiveram ligacao mais fatima do que durante a Revolugiio de 1848.0 que Victor Hugo, uma de suas testemunhas e um de seus atores, diz de sua capital Paris — que sua dignidade peculiar consistiria no fato de ela ser de esséncia inteira- mente literaria — poderia também ser afirmado da propria Re- volugdo de 1848. Sabe-se que um poeta, Lamartine, foi seu porta- voz, que o Governo Provis6rio da Segunda Reptiblica compunha-se basicamente de literatos e publicistas — cuja escolha, alias, dizia-se recair nasinsinuagées de um editor —.quenaAssembléia Nacional, como no Parlamento da igreja de S20 Paulo em Frankfurt, os escri- tores encontravam-se desproporcionalmente representados. Isso contribuiu para que a Revolucao de 1848 se tornasse, antes de tudo, uma revolucio das belas palavras. Com o que selou-se, naturalmen- te, 0 veredicto sobre ela, e isso nfio apenas no aspecio politico, mas também literdrio, Uma coisa é dizer que uma cidade é literdria, outra, que uma revolugao é literaria; 0 epfteto que, se seguirmos Hugo, “coroa” uma,implicacertamente para a outra um, calcanhar- de-aquiles. Se, no caso da cidade, ser literaria significa uma transfi- 13 guragdo de sua realidade, no caso da revolugao ocorre exatamenteo oposte: uma revolucio literéria ndo é real, mas imaginada, nao é idéia, mas mentira, pois nela a literatura nao eleva a vida a um grau superior, sendo tal superagéio meramente ficticia. A histéria da bela revolugao de fevereiro, 0 fato de ela desembocar na feia revolugao de junho de 1848, sobretudo nas carnificinas sangrentas que puse- ram termo a esse levante de trabalhadores, aparece entio, aprés coup, como inevitavel.“Os fogos de artiffcio de Lamartine transfor- maram-se nas bombas incendiarias de Cavaignac”:’ a amarga cons- tatagao do jovem Marx, ao tracar um primeiro balanco dos aconte- cimentos de Paris, contém a percepgao de uma época, a percep¢o do nexo de causalidade entre a exaltagao poético-forense e 0 colap- so revolucionario. Ela nao langava no descrédito somente a mé lite- ratura, que se comprazia nos higares-comuns, mas a literatura como tal.A frase com que 0 operario Marche certa vez interrompera acan- tilena de Lamartine — “Chega de lira!” — tornou-se proverbial durante certo tempo, citada também pelos inimigos da reptiblica, de tanto que todos os partidos estavam saturados das belas frases que haviam embafdo uns e infundido angtstia e medo nos outros. Odes- tino do abominavel quadro enaltecedor do progresso que o banquei- ro Dambreuse, na Education sentimentale de Flaubert, expde em sua mansao enquanto hd razes para tremer diante da revolucdo,e que desaparece tio logo o perigo vermelho € conjurado e a ordem, restabelecida, é um exemplo tipico da sina da arte e da literatura na Republica de Fevereiro, Enquanto convinha apaziguar uma opiniao publica revoltada, que clamava pelo domfnio do povo, havia um sentido para a literatura, que, como se sabe, ¢ sempre também pro- messe de bonheur — ¢,cm sua forma kitsch, até mais que simples promessa, a saber, imagem iluséria de felicidade — ; os conservado- Tes secretos, que suspiravam pela monarquia e se declaravam da boca para fora a favor da republica, habituaram-se, rilhando os den- tes,ao que no momento parecia inelutavel e portanto também ao fato de que poetas e escrevinhadores miserdveis dayam o tom na nova sociedade. Mas assim que o perigo de um real desabamento politi- co-social tinha sido afastado, o povo insurgente de Paris vencido e dizimado, 0 estado de sitio decretado, a repiiblica dividida e despo- jada de seu carisma, nao era mais preciso tolerar a literatura como 14 um mal necessdrio: ela foi de imediato revogada, posta sob a tutela da Igrejae da moral,e, quando se subtraiu as garras das autoridades, expulsa da cena politica com decretos da censura. O objetivo imediato deste trabalho nao ¢ tanto dar o significado histérico do junho de 1848, mas propor sua relevancia para a historia da literatura ¢ das idéias, sobre ¢ qual nao existe ainda uma pesquisa coerente — ¢ isso apesar de junho de 1848, inclusive na critica ena ciéncia literéria, ao menos de um prisma histdrico-sociol6gico, cons- tarcomo uma data decisiva. Autores tio dispares como Georg Lukacs, ‘Walter Benjamin, Jean-Paul Sartreemesmoojovem Barthes, queain- danfio se pronunciara por uma separagao tio categérica quanto c6mo- dacntre literatura e hist6ria. estabelecem um vinculo entre essa data co inicio da literatura moderna no sentido enfatico do termo, quando niio véem nela o seu verdadeiro ponto de partida histérico. Sem di da, ndo faltam razGes para a auséncia de uma tal pesquisa. Pois as jor- nadas de junho de 1848 nfo representam apenas uma das datas mais dolorosas da histéria do século xIx, um “pecado original da burgue- sia”’ (Sartre), que dividiu a nacao francesa em dois campos, & cujo recalque — ao contrario da hist6ria andloga da Comuna — nunca foi realmente superado; houve recalque também dos testemunhes literé- tios, de um modo ou de outro: esquecidos, ignorados, arrancados do contexto, erroneamente interpretados. As instituigdes tiveram e tém sua parte nesse recalque,bem como o publico leitor,que ainda hoje = eas teses provocativas de Sartre sobre a enfermidade crénica da psi- que coletiva, causada pelos massacres de junho, em nada modifica- ram 0 quadro —‘ mostra pouca inclinagdo para se ilustrar sobre aque- les delicados acontecimentos.A issose soma que o substrato hist6rico dos textos candnicos (Heine, Baudelaire, Flaubert) foi tanto cifrado pelos pr6prios autores quanto sotesrado pela historia de sua recepgao; 08 textos que teriam podido langar uma nova luz sobre o proprio junho esualiteraturaclassica permaneceram até agora praticamente inaces- siveis. Quando um escritor tao relevante como 0 russo Alexander Herzen, que foi abalado como poucas testemunhas oculares pelos combates do junho parisiense, que ruminou com uma paixao tenaz sobre seu significado e que permaneceu durante toda a vida fixado nessa data, vista por ele como a da morte do velho mundo: quando o i5 pr6prio Herzen nunca foi lido como um pensador do junho de 1848, tem-se a prova cabal de que o junho foi recalcado na hist6ria das idéias. Até hoje, nao foi nem sequer registrada a existéncia de uma literatura sobre esse assunto. A razio bdsica dessa “negligéncia” poderia residir nas condigGes de produgao e recepcdo dessa literatu- ra. Alguns textos inspirados pelo junho (por exemplo, os dos anar- quistas Joseph Déjacque e Ernest Ceeurderoy, os de Louis Ménard — amigo préximo de Blanqui e Proudhon),assim como muitas can- Ges politicas, foram ou interceptados, destrufdos e proibidos pela policia, ou entéo impressos no exflio em editoras mais ou menos obscuras, nao raro as expensas do prdprio autor. Se, décadas mais tarde, esses textos foram desenterrados ¢ reeditados, isso se deu sempre de maneiraisolada, separados de seu contexto tematico, his- térico ¢ literario. Intimeros textos haviam desaparecido de facto — nao segundo 0 titulo, pois os catélogos das bibliotecas atestam sua exist@ncia — como textos sobre os acontecimentos de junho: isso vale para 0s escritos de Job le Socialiste alias Hippolyte Castille, de quem trataremos em pormenores, cuja obra literdria, assim como a historiografica, caiu no esquecimento, ¢ que, a exemplo de Herzen, retornou durante toda sua vidaao trauma do verdode 1848, sem pre- juizo das varias mudangas de sua opiniao e de sua escrita. Em rela- go ao naturalista fourierista Alphonse Toussenel é dificil decidir se cabe ordend-lo na categoria dos autores esquecidos ou dos desco- nhecidgs. A favor da Ultima hipdtese depde sua prdpria escrita, que se poderia designar como um hermetismo a iluminar asi proprio — ecujo estudo, no capitulo sobre a Ornithologie passionnelle ,é reco- mendado como propedéutica aos clAssicos da literatura antiburgue- sa apés 1848 —, bem como o fato de que o Esprit des bétes de Toussenel parece jamais ter sido lido como uma satira da época — ao menos nao fui capaz de descobrir vestigios de uma tal leitura na histéria da recepgao desse texto. As mais eminentes vitimas literarias do recalque de junho sao ao mesmo tempo as figuras emblematicas da modernidade literaria: Baudelaire, que hoje é visto como o fundador da lirica moderna, e Flaubert, como o do romance moderno, Esses dois autores — € de certo modo também 0 precursor deles ,o Heine da tiltima fase — sio vitimas do recalque na medida em que uma leitura conformista reti- 16 rou de seus textos o contevido eritico, A prova mais contundente dis- 0 60 fato de o. acontecimento de junho de 1848 ser insignificante na interpretacao tradicional de Baudelaire ¢ Flaubert. Walter Ben- jamin, que como se sabe revisou de alto a baixo a imagem tradicio- nal de Baudelaire, caracteriza com razao os trabalhos de critica lite- rdria que ignoram deliberadamente a importancia das experiéncias hist6ricas do ano de 1848 para a constituigdo da modernidade como “folhetins ampliados”.’ Porém o ciimulo do paradoxo nessa histéria de recepgdo marcada pelo cquivoco ¢ fornecido justamente por Jean-Paul Sartre — ele, que, como nenhum outro, esforgou-se tao cnérgica e metodicamente por estabelecer 0 nexo entre a génese da modernidade literdria c a histéria do fracasso da Revolugiio de 48 ou das conseqiiéncias dos massacres de junho. O autor do Idiot de la famille logra ern centenas de pdginas intepretar Flaubert como 0 romancista que, por ter perdido 0 rendez-vous de 48 e passado as escuiras os massacres de junho (por razdes que ja haviam feito dele, por decisiio prépria, um misantropo e um neurdtico), beneficia ou mesmo antecipa, na Madame Bovary, as necessidades espirituais € ideoldgicas da burguesia do pés-junho; ele, Sartre, simplesmente ignora 0 fato de que a obra de critica social romanesca de Flaubert culmina numa explicacio memordvel do trauma de junho de 1 848. De fato, a Education sentimentale € toda ela uma teflexao sobre a histéria prévia e posterior da revolugao fracassada — uma reflexao sobre as condigées econémicas, sociais ¢ intelectuais que tornaram, possivel passar da euforia de fevereiro aos massacres de junho, reflexfo esta que, em acuidade analitica e critica engajada, nada deve A de Sartre, antes penetra de modo muito mais profundo na complexidade do acontecimento do que 0 filésofo existencialista. que, apesar de toda engenhosidade de seus achados biograficos, carece de sutileza, em particular quando se trata da relagao de Flaubert com a burguesia. O erro de Sartre no seu juizo da Educa- lion,que é 40 monumental como a prépria monografia cuja tese his- t6rico-literaria deve sustenté-lo, seria incompreensfvel sem o influ- xo da imagem tradicional de Flaubert, a qual Sartre — leitor decerto independente, mas nao como Benjamin, que escova a hist6ria lite- raria a contrapelo — sacrifica involuntéria e inconscientemente as percepgGes mais valiosas do autor da Education.' I7 Mas, para ser incontestavel, uma leitura a contrapelo dificil- mente pode prescindir de uma reconstrucfo do contexto semantico em que se situam as obras ou os textos esparsos. Semelhante recons- truco inexiste nao somente em Sartre, que, no tocante ao material hist6rico-literdrio, é de grandiosa modéstia e que, na descrigéo daquilo que ele denomina a névrose objective da sociedade francesa, suscitada apds os massacres de junho ¢ seu recalque, confia quase exclusivamente em sua fantasia especulativa. Parece que Sartre jamais pés seriamente a prova sua hipétese de trabalho, segundo a qual o recalque dos honrores dejunho tornaria simplesmente impen- sdvel a exist@ncia de tomadas de posigio ou testemunhos litcrarios. Contudo, uma reconstrug&o semantica falta também no outro grande modelo da exegese histérica da modernidade parisiense, no Ben- jamin dos ensaios sobre Baudelaire e dos fragmentos da Passagen- Werk [Obra das passagens |]; e isso em razio do postulado hermenéu- tico pelo qual os textos, a fim de aflorarem numa tensio frutiferacom o proprio presente do intérprete, teriam de ser destacados de seu con- texto interno. No entanto, se os comentarios de Benjamin no agri- dem os textos, se eles na maioria das vezes causam espanto, nao sé por sua originalidade,mas também por sua acuidade isso se deve ,de um lado, ao fato de Benjamin ter sondado, de maneira nao sistemati- camas com incomparavel intensidade, o contexto histérico-literario doséculo XIX ,e, deoutro lado, ao fato de eleser ainda um filho daque- laépoca,cuja linguagem ele domina como sua lingua materna. Nesse meio tempo, porém,essa lingua perdeu muito de sua obviedade, mes- mo que nem sempre tenhamos consciéncia disso. Ora, a inovacdo essencial da modernidade literdria depois de 1848 consiste justamente na distancia que ela toma da linguagem de seu século. Assim como o ptiblico afastou-se da literatura, a litera- tura afastou-se do palavrGrio; em outros termos, a literatura moder- na caracteriza-se pelo fato de denunciar toda cumplicidade com 0 espirito do tempo. Mas essa rentincia nao coincide em todos os casos ¢ incondicionalmente com o esforgo de uma purificagao da lingua por meio do refiigio buscado fora do mundo no qual elaé falada. Ao contrario dos representantes da/'art pour l’art ou dapoésie pure — 18 um Leconte de Lisle, o Gautier dos Emaux et camées, um Mallar- mé —, Baudelaire e Flaubert abandonam-se delideradamente embora com repulsa,a prosa de sua época, a fim de “trabalhd-la até seus limites”. Asua escrita vive da idée fixe de que h4 de se transfor- mar aquela prosa em arte: uma operacdo alquimista em que a ironia servird de catalisador. Porém isso significa que 0 conhecimento do contexto semAntico em nenhum lugar é tao indispensdvel quanto justamente na obra dos representantes dessa corrente critica da modernidade literaria. Em busca do material concreto para esclarecer esse contexto,0 ano de 1848 se oferece novamente como paradigmatico, porque a linguagem de 1848 é talvez a expressao mais pura do espfrito de que amodernidade critica quer desvencilhar-se: 0 espirito do século xix sentimental em toda sua contradigao inconsciente entre a pretenséo humanista e a vontade de progresso industrial. Que a literatura de 48, em sentido esirito, tenha malogrado e seja hoje simplesmente ilegivel, em nada fere o seu interesse histérico. A perda de qualida- de estética e conceitual a que os autores de 48 acomodaram-se ao saborear sem escrtipulos a rara felicidade, para escritores, de serem atuais — uma felicidade que arevolugio lhes ofereceu de modo pér- fido por meio da imprensa — , essa perda foi de certa forma compen- sada por um ganho em representatividade. Se eu afirmei,no inicio, que literatura ¢ politica se imbricam ao maximo em 48, agora posso acrescentar que 1848 é 0 tnico instante da hist6ria mundial da fra- ternizagdo nao somente do povo com a burguesia, mas também da literatura com a opiniio publica. O principal meio dessa iltima fra- temizacio 6a imprensa. Em junho de 1848, vem A luz.a problemati- cade uma e de outra fraternidade — 0 junho cava um fosso entre ambas as classes da sociedade moderna; ele também tem por efeito, contudo, fazer com que escritores e artistas, desclassificados e mar- ginalizados, sintam-se como uma classe 4 parte, uma classe entre a cruz e a caldeirinha, por assim dizer. Esses marginalizados preten- dem, em opoigio as “frases volantes” (Marx) de 1848 e contra 0 palayrério dos contemporaneos em geral, desenvolver uma lingua- gem propria, mais consistente, o que muitas vezes impelird varios de seus adeptos As raias do anarquismo, do blanquismo ou até do mar- xismo, ainda que,no mais tardar depois do golpe de Estado de Luis 19 Bonaparte, eles nfo contem mais com 0 povo como destinatério imediato de sua literatura. se é que alguma vez o tenham considera- do como ptiblico possfvel. Mas a resignagao no tocante ao pove nao significa que todos esses literatos, como quer Sartre tenham toma- do parte no recalque de junho. Antes, radicalmente avessos ao espi- rito do tempo, cedo ou tarde eles so confrontados com esse recal- que, e nado é de modo algum por acaso que os escritores mais significativos do Segundo Império sAo os que, ao mesmo tempo, refletiram com mais profundidade 0 aleance dos acontecimentos de Junho, que integraram o junho 8 textura de sua escrita. Cabe aqui constatar — o que éestranho e certamente nao se explica s6pelacen- sura — que a intensidade do debate /iterdrio sobre o trauma de ju- nho nao para de crescer entre 1848 e 1871, 4 medida que os aconte- cimentos se afastam. Ao contrario das publicagées politicas, das quais 0 texto mais marcante sobre 0 junho — um texto que possui alto nfvel literdério —, o artigo “A Revolucao de junho” de Marx, publicado na Newe Rheinische Zeitung, foi redigido sob 0 calor da hora, ao contrério das publicagGes politicas, em que a literatura tor- na-se palida 4 medida que a recordacdoesvanece — até serreanima- da com a Comuna, como em Victor Marouck —, 0s monumentos mais relevantes, em poesia ou ficgio, da literatura de junho datam dos anos 1855 ¢ 1869. Os escritores necessitam de tempo para liber- tar-se dos estereétipos com auxflio dos quais os burgueses de 1848 imaginavam furtar-se a si proprios da novidade histérica de junho. E como esse proceso de libertacao é simultaneamente um proces- so que cles movem contra a linguagem de 1848 ,é natural uma opo- sigio sistemitica entre a semfntica de 1848 ¢ a de seus criticos modernos, a ser abordada na primeira parte desta obra. Por caminhos dialéticos, é possivel remontar a eficdcia desse processo de libertagdo a despolitizagdo forgada da literatura de 1850, Como lhes é proibido, dali em diante e por longo periodo, tomar partido, atacar abertamente a sociedade da Restauragio e 0 novo Império, exprimir As claras 0 seu luto pela liberdade perdida,a sua compaixao pelo povo miseravel ¢ derrotado, os escritores se véem, enquanto permanecem no pais a fim de seguir a carreira lite- raria, literalmente relangados sobre si mesmos, sobre seu préprio mundo privado. F, entao, esses desdenhadores dos burgueses des- 20 Ainsutreig#o, de Daumier (cerca de 1850) cobrem que a melancolia da impoténcia pode tornar-se uma forga literéria produtiva, umalento para origorismo estético e intelectual, que, concentfando-se ostensivamente no mundo interior dos sujei- tos isolados, é capaz de pér a descoberto as relagGes secretas ou as correspondéncias entre 0 universo pessoal reduzido ao siléncio € 0 universo politico a ser reduzido ao siléncio. (Pouco importa que essa. descoberta j4 estivesse preparada esteticamente: ela s6 ganharia 21 relevo, no plano literdrio e politico, depois de 1848-51.) As auto- anilises desses Heautontimoroumenoi nio sao testemunho, como quer Sartre, de uma “consciéncia volante”, distante da realidade; pelo contrario, o erotismo, o inconsciente e o subconsciente, a lin- guagem, 0 cotidiano, em suma, a vida moderna que eles dissecame expem 4 execracao ptiblica como subjugados A mentira s4o justa- mente 0 erotismo, o inconsciente e 0 subconsciente, a linguagem,o cotidianoe, portanto, a vida de uma sociedade contra a qual eles tes- temunham com uma ferocidade que faz lembrar a seus contempora- neos a frieza da maquina fotografica. Ignorou-se que a acusacio contra os burgueses, por intermédio de um her6éi romanesco ou de umeu lirico,possui depois de 1850 uma referéncia hist6rica: 0 mas- sacre de junho em Paris. Se Marx escreve, no tiltimo ntimero da Neue Rheinische Zeitung, que a Revolucdo de junho foi a alma de seu periddico,” pode-se dizer dos autores a serem aqui apresentados ou reanalisados — no essencial, os seis escritores a que se consa- gram os capitulos monograficos da segunda parte — que aderrota de junho ou os massacres de junho estéo no centro de sua escrita, pelo menos quanto sua dimens@o estética. Uma mudanga de acen- to que revelaseresse olhar sobreo junhonao tantoo do pensador que indica o futuro para as massas, que busca retirar um sentido da car- nificina ao interpreta-la, numa Gialética escatolégica, como o “batismo do proletariado”, “nascimento da revolucao social” etc. Antes, esse olhar é 0 do intelectual atingido, obcecado pela recorda- ¢&o de junho como um crime coletivo,no qual cle, por maior que seja a ruptura com sua classe, tem, no obstante, uma parcela de culpa. Se quarante-huitards assombrados como Ménard, Toussenel ou Castille se oferecem ao povo como testemunhas no processo politi- co-moral que 2 imprensa democratica,logo amordagada, move con- tra o vitorioso partido da ordem, Baudelaire e Flaubert, em certo sentido na esteira de Heine e Herzen, pdem em prética, com maior distancia, uma nova andlise hist6rica da consciéncia e da auto-acu- sag&o do burgués. Sua perspicdcia deve-se acima de tudo A sutileza artistica, que Nietzsche denomina certa vez a “seriedade parisiense par excellence”, a uma “paixfio” inandita “pelos problemas da for- ma”." Do poema introdutério de Les Fleurs du mal até a Education sentimentale € os poemas em prosa do Spleen de Paris, igualmente 22 publicados pela primeira vez em livro no ano de 1869, emergem continuamente nos representantes mais avangados da modernidade antiburguesa, na forma de fios condutores, as reminiscéncias ir6ni- cas do junho de 1848, que sugerem uma afinidade oculta entre & experiencia hist6rica recalcada ¢ a experiéncia cotidiana do indivi- duo mergulhado no tédio.” A técnica das correspondéncias, mane- jada sobretudo por Baudelaire e Flaubert, mas também por Heine, consiste, entre outras coisas, em iluminar a obscuridade do passado pelo que Emst Bloch chama “a obscuridade do instante vivido”, e, inversamente, cm elucidar um presente opaco com a ajuda do pas- sado obscuro. Assim, pode-se compreender 0 acontecimento das jornadas de junho, que parecem absolutamente inimaginaéveis num século x1x civilizado, como o paradigma da vida moderna, como 0 fruto tio monstruoso quanto natural do cotidiano burgués. Mas néo por aqueles que — em consonancia com o espirito eo tom da época — permanecem incuravelmente otimistas. Contra seu ascnrso, quase sempre negligente e por vezes pomposamente alegorico, que celebraardpida tecnicizagia como se fora uma ascensio irresistfvel das forgas do bem, os representantes da modernidade estética pro- testam com sua ironiae seu culto da diferenga semantica. Mas como a linguagem da época — a exemplo de sua ret6rica — f o€ mais imediatamente compreensivel , esse protesto, qué 0s proprios con- temporaneos desnorteados nao notaram, ameaga tornar-se cada vez mais incompreensivel. A quem, entre aqueles que hoje cruzam a Place Saint-Michel, as figuras da fonte de mesmo nome, cercada de garrafas de cerveja e de Coca-Cola, tem ainda algo a dizer? Quem seria capaz, de decifrar historicamente aquela alegoria para turistas, de reconhecer que 0 arcanjo de espada em punho, nos ombros de Satands, devia representar na época a vit6ria da ordem imperial e burguesa sobre a revolugao, 0 triunfo do bem sobre o povo mau de junho de 1848? Se jamais passou pela cabega de alguém procurar confrontar 0 grupo de esculturas da fonte inaugurada em 1860 com © monumento imagindrio em versos que Baudelaire, na mesma época e pelo mesmo motivo, erguia para o seu cisne visiondrio na Place du Carrousel, um outro ponto estratégico da metr6pole, € por- que a chave da compreensio de ambas as obras de arte — 0 oe 0 alegérico da época — foi perdida. Sem o conhecimento da semanti- 23 ca histérica da modemidade incipiente, somos naturalmente tenta- dos a tomar 0 carater indecifravel das alegorias como uma caracte- rfstica do uso moderno da alegoria, como fizerm Jau8 ou De Man, cada um a sua maneira.'* Numa perspectiva atenta 4 semantica his- t6rica, ao contrario, € possivel ler Le Cygne, o grande poema de Baudelaire,como uma contrapartida de Saint-Michel,como um sig- no (signe) de que o otimismo obrigatério da Paris de Haussmann teria de contar com a resisténcia da melancolia ¢ que esta cra solidé- tia aos vencidos de junho. Talvez nao exista mais bela cristalizagio do gesto da modemidade parisiense do pés-junho que esse poema. Fa melancolia contra o jiibilo, a obscura recordagaio do mal, de tudo que era tido como superado e que se manifesta, quase sempre da maneira mais inoportuna, quando é recalcado com toda araiva. 24 Primeira Parte CRISE DOS SIGNOS: A SEMANTICA DO JUNHO DE 1848 E SUA CRITICA PELA MODERNIDADE LITERARIA Segui vossas frases até 0 ponto em que elas ganham corpo. Biichner,A morte de Danion L’dme dort maintenant, ivre de paroles enten- dues. Gustave Flaubert a Louise Colet (1852) Jamais on n'a été plus béte qu’en 48! Cette épo- que est féconde; mais on ne peut pas tout dire, hélas! Gustave Flaubert a Emile Zola (1878) ... he was genuinely incapable of uttering a sin- gle word that was not a cliché... Hannah Arendt, Fichmann in Jerusalem CARATER UNICO, INCOMPARAVEL, DO ACONTECIMENTO Jamais, depuis que le monde esi le monde, on niavait vi une pareille tuerie. Joseph Déjacque, La Question révolutionnaire “4 Revolugao de junho proporciona o espetaculo de um com- bate encarnigado como nem Paris nem o mundo jamais viram”, escreve a 28 de junho de 1848 Friedrich Engels na Neue Rheinische Zeitung.' (Na véspera, Marx falara da “maior revolugao j4 ocorri- da”.) E acrescenta: “Para tragar os contornos gigantescos dessa revolugGo de junho nao bastam trés dias como para a Revolucdo de fevereiro” ? Mas erra quem pensa que s6 os fervorosos comunistas de Colonia teriam visio na insurreicdo, que cles se apressam em qua- lificar como revolugao, a “maior crise histérica que j4 eclodiu”:> observadores de outros campos também sublinham o cariter total- mente inaudito do acontecimento.Alexandre Dumas, mais tarde um bonapartista e que durante as jornadas de junho corre de barricada em barricada como redator ¢ repérter do Le Mois, seu periddico “suprapartidério”, pensa que, comparados a esse combate, tanto a queda da Bastilha quanto 0 levante monarquista de 13 vendemidrio de 1795, esmagado com sangue — é a primeira vez que se usam canhdes em Paris — ,forammeras brincadeiras de crianga,o mesmo yalendo para a revolugdo de julho de 1830 ea Revolucio de feverei- 27 Tomada das barricudas junto a Petit Pont. ro de 1848.‘ Proudhon — teérico, representante do povo e jornalis- tanuma s6 pessoa — anota em seu didrio: “Essa insurreigio é por si 36 mais terrivel do que todas as outras juntas que ocorreram nos tilti- mos sessenta anos”.* Com outro acento, porém de modo comparé- yel, formula Le Constitutionnel ,o porta-voz famigeradamente filis- teu de Adolphe Thiers: “Jamais a patria teve de inscrever nos seus anais dias mais funestos e mais lamentaveis”’ e, dois dias depois, a 27 de junho, quando a vitéria da ordem esta assegurada: “Nao se acharé nos anais de outro povo o exemplo de uma luta tao encarni- cada e tlio assassina”, ou seja, a mesma avaliagio de Engels citada noinicio,coma diferengade que a folha reacionaria recusaao levan- teo titulo honorffico de “revoluciio” e o difama como “motim”. Por mais contraditérias que sejam em suas apreciagdes, OS jornais euro- peus — dos grandes periédicos parisienses, passando pelo Indépen- dance Belge, Telegraph de Londres, 0 Northern Star dos cartistas, aNeue Rheinische Zeitung, a Presse de Viena até os Grados de pro- vincia — siio undinimes em reconhecer fundamentalmente a dimen- Jo tinica da batalha de junho. Assim escreye a liberal Freie Zeitung Wiesbaden, a3 de julho de 1848: “[...] 0 combate com que estamos s voltas hoje é muito mais terrivel, muito mais significativo na hit téria mundial do que aquele que eclodiu na sala do trono das Tulhe- tias,em frente ao hdtel Guizot” — alude-se & revolugio de feverei- ro — ou ocorrespondente do Frankfurter Journal que chama “essa sublevacao [...] a mais terrfvel. [...] amais desesperada jd ocorrida aqui” (3 de julho dé 1848). Ora, alguns poderiam supor que se trata de impressGes momen- taneas dos contemporaneos ¢ que, de uma distéincia maior, 0 acon- tecimento teria sido medido com outros critérios. Esse nio € 0 caso, porém, a menos que se perca totalmente a memoria das jornadas de junho de 1848: essa data-chave da modernidade sé perde em rele- vancia quando recalcada. Donoso Cortés, 0 conservador espanhol que Carl Schmitt quis reabilitar como um dos mais hicidos pensado- res da histéria, um dos grandes homens “mantidos em siléncio no século xix”, qualificou a batalha de junho, num discurso que se tor- nou célebre dianie do Parlamento de Madri em janeiro de 1849, como a mais sangrenta de que os séculos ja tiveram noticia no inte- rior dos muros de uma cidade.! No mesmo ano, Alfred Meifner, 29 jovem alemao de Praga, define “aquela monstruosa batalha do pro- letariado” como o “maior e mais imponente acontecimento danova era”. O liberal Alexis de Tocqueville, em scus Souvenirs, qualifica ainsurreigdo de junho como “a maior e a mais singular que ocorreu em nossa histéria, e talvez em qualquer outra’”," Dez anos mais tarde, em Les Misérables, Victor Hugo sentencia que o junho foi “a maior guerra de rua vista pela hist6ria”," “um fato a parte, e quase impossivel de classificar na filosofia da hist6ria”.!? Os romancistas republicanos Erckmann-Chatrian julgam a batalha de junho “mil vezes mais terrivel que a de Waterloo”,'' e Tomasi de Lampedusa apaziguao herdi de seu Gattopardo, pouco antes de estourar a revo- lugao siciliana, com a idéia de que todas as revolucées logo se trans- formam em comédias e que mesmo na Franga, “com ressalva do ju- nho de 1848”,'* no fundo nunca se deu nada de sério. Herzen, Baudelaire e Flaubert — e também Heine — nao economizam superlativos; 0 significado peculiar que eles conferem As Journées de Juin ressuma do teor e da estrutura de seus prdprios textos, 0 que serd esclarecido de perto na segunda parte. Pardigon, um estudante de direito que, na condigao de insur- recto ¢ prisionciro, viveu os horrores das jornadas de junho, faz a distingdo no inicio de seu relato, que causou sensacdo ao ser publi- cado, entre uma historia visfvel ¢ outra invisfvel desse “perfodo tni- co nos fastos revoluciondrios”: * uma registra 0 que ocorreu nas Tuas, @ outta o que se deu nos porGes que serviam de prisao e por tras dos muros fortificados.' Essa tiltima, que por certo nunca poderd ser completamente elucidada, seriaa histéria verdadeirados massacres de junho. Resta constatar que, quando os contemporancos designam as jornadas de junho de 1848 como algo tnico ¢ novo, na maioriadas vezes eles se referem mais a um ov a outro destes aspectos: & bata- Tha das ruas ou a carnificina que se seguiu, No inicio, foi certamen- te a insurreigdo, a luta por si sé, que marcou os observadores como uma novidade. Pela primeira vez, 0 “poyo” ou ainda 0 “proletaria- do” enfrentaa “burguesia” numa guerra civil; a opiniao publica fala de “guerre sociale” ou “guerre servile”, ou mesmo de uma “luta de classes” ou “castas’”. Porém, com 0 tempo, a impressao deixada nos espiritos pelo junho coincidiu com a produzida pelos massacres. Nao é exagero algum afirmar que a repressao sangrenta do verao de 30 1848 influenciou a evolucdo da sociedade francesa até a Quinta Repiiblica, e isso nao a despeito, mas justamente porque foj recalea- dae nunea trabalhada teoricamente. Além disso, essa repressao influiu — para muito além das fronteiras da Franga — na formagao da teoria e da ideologia tanto burguesa quanto socialista, ¢ marca, finalmente, um ponto de inflexao decisivo na hist6ria da literatura moderna. BARBAROS E BESTAS/MONSTROS, DEMONIOS — O INFERNO, SATA/O MAL Em fevereiro de 1848, 0 povo ¢ a burguesia haviam trocado olhares apaixonados. Depois de poucos meses, se ndo semanas, a aimostera modificara-se, a percepgio social mudara radicalmente: as antigas imagens do inimigo, tidas por superadas, emergiram hovamente, Seu tso demagégico pela imprensa contribuiu para 0 desenrolar catastréfico da repressio, que por sua vez so fez confir- mar vencedores e vencidos em seus fantasmas de classe. Desse modo, 0s acontecimentos de junho de 48 puderam reforgar perene- mente um maniquefsmo social ja existente na Franga. A férmula “novos barbaros” aplicada ao proletariado remonta A primeira insurrei¢So dos teceldes lioneses, de 1831.""Le Constitu- tionnel e,comele, todos os adversarios dos insurgentes € dos socia- listas advertem, em junho de 1848,com mais urgéncia do que nun~ ca, sobre os “barbaros do século xIx” "*tomados como 0 perigo mais manifesto para a civilizagdo. Quer se trate da Kéinische Zeitung" ou de um érgio da grande burguesia como a Revue des Deux-Mondes (“Que requinte de barbarie!”) 2” ou ainda do Frankfurter Journal (“esses atos refinados de barbdrie selvagem cometidos pelos insur- rectos”): qualquer um que teme pela ordem sente os trabalhadores, tao logo fagam reivindicagdes e desgam as ruas para pleited-las, como barbaros — ouage como seeles 0 fossem. A metéfora dos bar- baros impde-se como por si mesma a inimeros contemporaneos, € nao s6 aos jornalistas: Balzac fala do “longo duelo entre a barbirie da Mao parisiense a civilizagao da Cabega”.” Lamartine batiza os insurrectos de “os Barbaros da reptiblica”;® Tocqueville, a partir de 31