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Cum grano sale

Vaguear por essas ruas


É exercício abstruso
Que requer conhecimento
Experiência e engenho.

Nossos modelos são seres


Que nasceram com o dom
De não serem percebidos
Embora sempre invejados.

Seres estes que são mestres


Na arte da imunidade
A progresso, moda ou meta
A gestos largos e fúteis.

São eles cães sem seu mestre,


Gatos independentes
Pássaros cuja presença
Jamais encanta o esteta.

Vagabundos e seus trapos


Sua bebida e imundície
São ausentes, não-pessoas
Não-pagantes, não-felizes
Não-pagãos, nem eremitas.

Serão, porém esses seres


Tão livres quanto parecem?
Não há respostas, no entanto
Não há respostas, nem dúvidas.
2
Pares

Quero imaginar pessoas


Bichos, coisas, flores
Artigos do lar, vassouras
Como entes que procuram
Por algo que lhes complete.

Haverá nos tempos que vão


Como já houve em tantos outros
Caras-metades, ou espíritos
Dispostos a compartilhar
A solidão e o presente?

Mesmo nós, plenos de orgulho


De sermos, por presunção
Imagem e semelhança
De seres imaginários
Donos de nós, e de tudo.

Pensamos ser elegantes


Amorais, cosmopolitas
E, por conseguinte, shoguns
De um exército que inventamos
E dos quais somos os súditos.

Bichos, coisas, flores


Artigos do lar, vassouras
Sem metas, ou horizontes
Serão talvez tão ou mais
O que secretamente almejamos?
3
Questões de fé

O que afinal utilizar


Dentre as muitas habilidades
Que pretendo possuir?
Fé, razão, discernimento
Ou somente intuição?

Como pergunto eu,


Perguntam também os que pensam:
O metafísico, o sapateiro
O poeta, o guarda, a prostituta, o padeiro
E o senador.

Senhoras e senhores,
Nossas faces são honestas
Ou escondem outras faces?
Nossa equilibrada razão
Diz que quase somos quase.

Viver o vazio do dia


Ou a desculpa da noite?
Fazer coisas com sentido
Ou pensar que as fazemos?
Fazer perguntas é arte.

Estar num vale de lágrimas


Ou na praia dos sorrisos,
Parece-nos indiferente
Perante as dúvidas e medos
Que dissimulamos como mestres.
4
Esperar

O meu e o seu dia-a-dia


Parece-nos sensato e sério
Andamos, falamos, fazemos
Olhamos, sorrimos, amamos,
Satisfeitos com a boa ordem.

Nada há que nos afete


Em nossa caminhada segura
Em nosso trabalho diário
Em nossos amores e ódios.
Somos plenos e felizes.

Alguns, porém, sabem que escondem


Terremotos, vulcões, tormentas
Caos, entropia, treva, horror
Em recessos tão guardados
Em recantos tão sumidos.

São uns pobres desgarrados


Que, sei, têm o segredo
Do verdadeiro e palpável.
Do visível, do tangível
Sem ilusões e, sem metafísica.

Seria de imaginar
Que estes despossuídos
Avessos às nossas crenças
São infelizes, e nós não.
Uma dúvida eterna
Feita de equívocos semânticos.
5
Saciedade

Em meio a caos e barbárie


Poetas, loucos, crianças
Entrevem um mundo diverso
Mas estão insatisfeitos.
A ordem, a simetria,
A ausência de surpresas
Jamais serão importantes
Para quem nada procura.
Crianças, loucos, poetas
Não se importam com sentido
Com certeza ou retidão
Mas, sim, com o provável
Com o quase, com metades.
Se houver no mundo físico
Algo de inacessível
Lá eles estarão
Perguntando, duvidando
Olhar de soslaio, descrença
Sem culpas, perdão, remissão.
Afinal, ser louco é questão
De falta de fé e razão
Ser poeta é ousar ser
O que a teoria proíbe.
Ser criança é nada ser
Invisível estar presente.
Paletós, fraques, estolas
Carros velozes, haveres
São fortuitos, infrutíferos
Ao passo que, certamente
Ser um nada, ou nada ser
Exige muito de gente
Que nada pede ou concede.
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Perdão e indiferença

Faz-me mal, sempre e sempre


Ser pouco mais do que tento
Acabando por ser diverso
Do que tento parecer.
Por não querer com denodo
Talvez por ser tão espelho
Dos que me cercam, fantasmas
De si próprios, como tantos.
Sou a palavra que cala
Quando quer gritar ou cantar
Sou a sílaba impronunciável
Que balbucia e esconde
Talvez verdades, metades
Mentiras, fatos, histórias.
Sou o canto desentoado
A poesia incompleta.
Tanto mal a mim me faço
Quando o que penso se esvai
Quando o que disse, não disse
Quando não faço o futuro
Quando me sento, e esqueço.
7
Alma impudica

Não peço favores ao mundo


(O que me cerca, ou não vejo)
Não tento salvar a razão
De ser, não ser, ou sentir.
Sou vago espaço, não-presente
Que se ressente de críticas
Elogios, ironias.
Mas sou também o que faz
Perguntas em demasia
Para as quais não há respostas
Nem sentido, ou precisão.
Inda assim, porém eu crio
O que penso ser um vício
Crio sombras, quase luzes
Lusco-fusco, embriaguez
Falta de senso, absurdos
Em versos que não são nada.
Almas, espíritos, névoa, bruma
Coisas assim imprecisas
Assustam-me com frequência
Pois não há além-do-mundo
Segundo meu mal pensar.
Assim como, certamente
Não há um aquém-de-mim
Segundo o meu saber,
Que sei também, secretamente
É pretenso não-saber.
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Recessos e escaninhos

Sugestivamente trocamos
Olhares, risos e sons
Eu e a multidão.
Somos filhos enjeitados.
Sorrisos, aqui e acolá
Disfarçados, dissimulados
Dizem-me mais que discursos.
Há nas massas algo escuso
Como segredos sabidos
Quase sempre revelados
Há nas massas sapiência
Obscura, inútil, estranha
Dividida entre membros
Que se sabem sabedores.
Eu e as massas dividimos
Coisas comuns, palavras
Desconhecidas de outros
E usamos estas armas
Como se respostas fossem
A perguntas milenares.
Fingimos doenças e medos
Mas rimos às escondidas
Dos que pensam saber tudo
Que há muito descobrimos
É a soma de muitos anos
De abandono de estudos
De revolta, libertinagem
Amoralidade e paixão.
9
Mendicância

Há um pai oculto no alto


Que ignora e ri dos seus
E dos filhos de outrem.
Desnaturado e inculto
Faz de crianças monstros
E de monstros todos nós.
Estamos cá bem embaixo
Sempre experimentando
A verdade das metáforas:
Alto, baixo, claro, escuro, fogo, brisa...
A poesia dos vitrais se reflete
Em nossas fisionomias
Turvas, tristes, tortas, todas
Que esperam por um gesto
Que jamais virá, já sabemos.
Admitir a derrota, a morte iminente
Sem surpresas ou mistérios
É fardo demasiado
É fado insuportável
E fato cruel e injusto.
Coragem tem os que olham
Com olhos escancarados
O porvir implacável, incolor
Encaram o nada palpável
Das horas e dos segundos
E fazem desse tempo pouco
Tempo de ser, de sentir
De criar, absorver
Observar e sorrir.
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Cores e sombras

Há quem seja incorrigível


E veja o belo, inefável
Azuis, laranjas e brancos
Nesta aventura de ser.
Epifania na infância
Juventude de encontros
Ou somente um bom querer?
Mas não há que se entender
Quem na noite vê clarões
Quem na tarde, esperançoso
Aguarda o pôr do sol.
Há não-pessoas, e há gente
Gente que vive presentes
Há pessoas que confiam
Mesmo sem ter certezas.
Serei eu um dia qualquer
Um dos poucos vagabundos
Que no crepúsculo vestem-se
De cinza, para não ser.
Serei em um bom momento
Aquele que ouve sons
De corujas e estrelas
Que olhará para as ruas
E fará gestos e música.
Serei eu, agora mesmo
Cantor, artista do ar
E não me conformarei
Com pouco, nada ou quase.
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Tempo, mãos e desejo

O tempo jamais se alia


A terra, lugar ou pessoa.
Não distingue assim de pronto
O sábio, o estúpido, o ninguém.
Não há, contudo, crueldade
Nesse cru modo de ser.
Mas não somos pacientes
Compassivos, sinceros, crentes
Temos metas, temos medos
Temos mesmo o que não vemos
E, porém, acusadores,
Apontamos tempo e horas
Como perversos e frios.
Há engano ao se pensar
Que nossas culpas são leves
Nossos atos, magnânimos
Nossas mentes, puras, virgens.
Assim como o tempo é
Também são nossos desejos
Que jamais saciarão
Nossas fomes e vontades.
Improvável que alcancemos
Nirvanas, céus, paraísos
Se tivermos as mãos sujas
Se tivermos pés que não voam
Se tivermos corpos inertes.
Ocupamos tempo e espaço
No indiferente universo
Indiferentes planetas
Luzes, luas, céu, estrelas.
Nascemos não-naturais
E não-naturais seguiremos.
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Futuro

Será mais fácil observar o mundo


Da janela de minha casa.
Muros, grades e treliças
Afastam-nos de não sei quê.
Há pássaros, e há crianças
Nas ruas e nas calçadas
Num frenesi de alegria,
Explorando um mundo diverso
Do que vejo, sinto e vivo.
Gourmets de insetos e risos
Zumbem, ciciam, voam
Vivem no mundo visível
São animais sem disfarces.
E nós somos assim
Criaturas de lágrima e vento
Sem estofo, sem coragem
Mas com olhos muito abertos
Que, embora invejando
O belo, tangível, presente
Refugiamo-nos na insensatez
E desejamos o caos.
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Portas e vitrais

Não estou somente eu


Nesta tarde nublada
Observando tristemente
Os relevos da rua.

Nas ruas estão os mendigos


Sobre os quais a humanidade
Com solene indiferença
Atira lixo e recalque.

Nas ruas há noivas, viúvas


E também há solitários
E gente sedenta de ódio
E gente quase feliz.

Nas ruas há fumaça


Ruído, beleza, morte
E flores de rara espécie
Pássaros, arco-íris, música.

Nas ruas estão as crianças


Vira-latas, gatos vadios
Pardais cinzentos, realejos
Cantores, músicos, acrobatas.

Nas ruas há um silêncio


Que encobre o murmúrio do mundo
Ninguém o ouve, ou percebe
Mas é um silêncio total.

Nas ruas estou eu


Mãos nos bolsos e olhar parado
Comparando minha vida
Às folhas caídas
No abraço do outono.
14
Andarilho

Caminho, poeira e vento


Árvores em verde esmeralda.
Passam por mim peregrinos
Que não sabem aonde vão.

É tarde, o sol se esconde


Sombras se alongam e pássaros
Voltam aos ninhos, saciados.
Tudo isto atento observo
Meus olhos são lentes famintas
Prenhes de imagens e cores.

Doce cansaço e desejo


De seu um com a hora calma
De ser muitos, de ser mais
De ver a noite com olhos
De corujas, de crianças;
E depois, num sono justo
Descobrir constelações.
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Dia de sol

Fim de verão, quase abril,


A cidade esmorece.
Ando, suor e silêncio
Brotam de mim e evaporam.
Pessoas passam por mim
Em número assustador.
Umas cantarolam a sós
Outras conferem valores
Levam pacotes, relógios
Filhos, jornais, guarda-sóis.
Meninos nascidos à toa
Pedem-me o que não tenho:
“Moço, trocado pro ônibus,
A mãe é doente, o pai bebe...”
Fumaça, ruídos, polícia,
Vigaristas e acrobatas
Festejam o dia de sol.
Minha velha e rota roupa
Umedece e seca ao vento.
Mas, num lance inesperado
O mesmo pintor de poentes
Que coloriu a manhã
Expõe sua fase cinza
Ameaçando com chuva
O azul pedante do céu.
No pequeno intervalo
Entre bares, lojas e cinemas
Jorra do céu recortado
Chuva, vento, fuligem.
Pessoas desnorteadas
Correm, tropeçam e riem.
Veja que o riso, tão deslocado
Vem da certeza de todos
De que é sábado, afinal
E nossas culpas, se as há
Ficam portanto adiadas
Para segundas e terças.
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Das Kapital

Cinzentas, áridas, sujas


São as cidades dos homens.
Trazem em si desconforto,
E perda, e indiferença
Com fontes secas de pedra
E insípidas flores de plástico.
Pessoas que nela vivem
Não vivem, não ouvem, não falam.
São como estátuas moventes
Para lá, sem horizontes
Para cá, sem paisagens.
Mas exceções sempre há
Mesmo em devastações.
Senão vede os vira-latas:
Aguardam placidamente
O semáforo de pedestres.
Sibipirunas cobertas
De fuligem, lixo e pardais
Mostram flores majestosas.
Arbustos raquíticos nas ruas
Expõe timidamente aromas.
Rachaduras nos muros contêm
Folhas verdes e inseguras.
Abelhas zunem no tráfego
E bem-te-vis, em seus postes
Avisam que sabem de tudo.
Por vezes, coloridos farrapos
Vestem o músico exímio
O cantor e o violinista
Fazem chorar motoristas
Acrobatas decadentes
Dão de si o que nunca deram!
Assim são modernos tempos
Não de todo inúteis ou frios.
Assim são essas cidades
Mescla de riso e ruído
Mescla de voz e ferrugem.
Alegre século que decai
Tristes tempos de não ser.
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Compra e venda

Os princípios do mercado são


Por quase todos conhecidos, ou
Ao menos
Intuídos.
Compra-se o que se quer
De quem vende o que é preciso.
Paga-se o que pedem
Conforme regras ora rígidas,
Ora flexíveis, que variam
Conforme variam varáveis.
Estas são explicações que
Sábios, doutores notáveis
Dão-nos, a nós, idiotas.
Contudo, há mais variáveis
Do que supõem os sabidos.
Há no mercado produtos
Insumos, commodities, bens
Sobre os quais regras e leis
São inúteis e ridículas.
Nas esquinas vendem-se sempre
Coisas inúteis, etéreas
Cujo mercado varia
Com a direção do vento,
Ou o formato das nuvens...
Música, malabares, paisagens
Voz, poesia, balés e mágica.
Canto de pássaros, adivinhos
Leitores de mãos, repentistas
Cantores ruins, pintores
Sons de gaita, bandolins, sanfonas
Brinquedos ultrapassados
Passos de dança, poetas.
Haverá em todo o orbe
Profissional mais disputado
De valor inestimável
Que bem faz às oscilações
Das bolsas internacionais,
Que o pobre e maltrapilho que vende
Bolhas de sabão aos bebês?
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Desfaçatez

A natureza tem faces


Por vezes tristes
Por vezes insanas,
Mas, sempre, inesperadas.
Senão, vejamos os pássaros
Cujo respeito à propriedade
É mínimo, ou inexistente.
Pousam onde lhes parece
Confortável e seguro.
Carros, estátuas, varais
Janelas, floreiras, antenas
São seu lar provisório
Seu recanto de descanso.
Flores rasteiras, baldias
Imiscuem-se em rachaduras
De respeitáveis mansões,
E bancos, igrejas, palácios.
Suas cores vestem muros
Cinzentos, sérios, sisudos.
Musgo frágil, esmaecido
Intromete-se na hera
De castelos e catedrais.
Ervas daninhas, ou não
Nascem em nobres jardins
Solenemente ignorando
Sinais de excelência e grandeza.
Homens, mulheres, crianças
Sua atenção, por favor:
Observem com atenção
Seus haveres, bens, pecúlio.
Algum pássaro, algum musgo
Planta, pedra ou cogumelo
Podem querer, de repente
Invadir, crescer, prosperar
Em sua propriedade
Em sua janela ou porta,
Portão, cancela, cozinha.
Não há limites, portanto
À terna indiferença
Da inconstância constante
Do mundo misterioso
Do qual somos parte indolente.
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Formais e castiços
Há bem e mal no envelhecer:
Bem, como a certeza de que
Ficamos estúpidos, mas sábios
Ficamos ladinos, mas lentos.
Há encanto no passado
Coisas há que fazem falta
Como pessoas de outrora
Que falavam como se
Discursando estivessem.

Avós, tios solteiros, professores


Diziam avoar, derradeiro, acolá
E não voar, último, ou lá.
Português de primeiras águas
O que descobri mais tarde.

Havia os mais pomposos


Para quem jornal era diário
Crianças, pubescentes,
Roupas, fatiota
Bandidos eram fascínoras
E brincadeira, pândega.

Hoje as palavras parecem


Comprometer quem as emitem
Nomes de coisas, pessoas
Podem parecer ofensas
A ouvidos melindrosos
Ou consciências sensíveis.

Negro, não mais é negro,


Mendigo tornou-se anátema
Fome não é de bom tom
Ser dita assim, sem rodeios
Pobreza não é proferida
Indígena é quase ofensa
Ignorância, pecado
Velhice, palavra banida
Do meu e do seu dicionário.
Doença, loucura, fracasso
Velhaco, corrupto, elite
Todas estas palavras foram
Execradas, depois transformadas
Em vocábulos inócuos.
Por ironia, ou não
Censura está na moda
Mas dita sempre à sorrelfa
Como verdade ou amor.
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Revolução

Trarei comigo a semente


Do não fazer, não querer
E escolhas insensatas
Serão feitas e desfeitas.

Não querer e não fazer


Não alteram o dia-a-dia
Nem constroem ou inventam
Não revelam a verdade.

A revolução é ser
O que ninguém precisa, ou quer,
É passar os dias úteis
Contemplando o vazio.

Mas mesmo assim ainda tento


Pensar em meio ao vai-e-vem
De carros, pessoas e eventos
E vejo um mundo senil.

Assim como uso ser


Contraponto e antônimo
Outros tentam fazer
O que julgam grandioso.

Passarei por este mundo


Como espaço vazio
Sem temer que minha vida
Altere o porvir em um átimo.

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