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BIBLIOTECA DE FILOSOFIA E HISTORIA DAS CIENCIAS VoL. 7 Coordenadores: IA. Guilhon de Albuquerque Roberto Machado MICHEL FOUCAULT MICROFISICA DO PODER Organizacao, Introdugao e Revisdo Técnica de Roberto Machado 128 Edigdo XIV O OLHO DO PODER “ierre Barou: O Panopticon de Jeremy Bentham f lo século XVIII, mas continuou desconhecido; ‘eveu frases surpreendentes a seu r jento na histéria do espiri ipo de ovo de Colom- uanto a seu autor, Jeremy Bentham, um “Fourier de uma sociedade lar na segun- I, época do grande movimento de reforma queria saber como o olhar médico havia inscrito efetivamente no es- era ao mesmo tempo o feito e 0 suporte de um novo tipo de olhar. E, examinando os dife- rentes projetos arquitetdnicos elaborados depois do segundo incén- dio do H6tel-Diew, em 1772, percebi até que ponto o problema da vi- 209 lade total dos corpos, dos individuos e das coisas para um olhar centralizado havia sido um dos principios diretores mais constantes, No caso dos hospitais, este problema apresentava uma dificuldade suplementar: era preciso evitar os contatos, 08 contagios, es proximi- dades ¢ os amontoamento, garantindo a ven ar: 20 mesmo tempo dividir o espago uma vigilancia que fosse ao mes individualizante, individuos que deviam ser vigiados, que estes eram problemas especificos © de suas creneas, Em seguida, estudando vs problemas da penalidade, me dei con- {a de que todos os grandes projetos de reorganizagdo das prisdes (que, além disso, datam de um pouco mais tarde, da primeira séoulo XIX) retomavam 0 mesmo tema, mas jé sob se sempre explicitada, de Bentham. Eram poucos 08 proje- tos referentes ds prisdes em que 0 “trogo” de Bentham ndo se encom trasse. uma abrindo-se ps outra, dando para o exterior, permite que a luz atravesse a cela de um lado a outro. Basta entdo colocar um vigia na torre central e em cada cela trancafiar um louco, um doente, um condenado, um operario ou um estudante, Devido ao efeito de contraluz, pode-se perceber da torre, recortando-se na luminosidade, as pequenas silhuetas prisio- neiras nas celas da periferia, Em suma, inverte-se o pri morra; a Juz ¢ 0 olhar de um vigia captam melhor que o escuro que, ipressionante constatar que, muito antes de Bentham, jé i preocupaco. Parece que um dos primeiros modelos lade isolante ado em pratica nos dormitérios itar de Paris,em 1751, Cada aluno devia dispor de uma ccla envidracada onde ele podia ser visto durante a ‘hum contato com seus colegas, nem mesmo 10 um mecanismo muito compli linico objetivo evitar que o cabeleirciro tocasse fisicamente o nista quando fosse pented-lo: a cabeca do aluno passava por um tipo de lucarna, 0 corpo ficando do outro lado de uma divisto de vidro ue permitia ver tudo o que se passava. Bentham contou que foi seu 210 ue, visitando a Escola Militar, teve a idéia do panopticon, De quer forma, o tema estd no ar. As realizagdes de Claude-Nicolas i, especialmente a salina que ele construiu em Arc-et-Senans, ram atingir 0 mesmo efeito de visibilidade, mas com um ele- suplementar: @ existéncia de um ponto central que deve ser 0 I de exercicio do poder e, a0 mesmo tempo, o lugar de registro do ‘Mas, se a idéia do panopticon é anterior a Bentham, na verda- ntham que realmente a formulou, E batizou. A propria pa- ‘um prinefpio de conjun- - E,na verdade, é aquilo ‘0s educadores procura- iacia. Algo importan- lado: Bentham pensou e disse que seu sistema dtico era inovagio que permitia exercer bem ¢ facilmente o poder. Na foi amplamente utilizada depois do final do século Mas os procedimentos de poder colocados em pritica nas so- modernas sio bem mais numerosos, diversos e ricos. Ser que 0 principio da visibilidade comanda toda a teenologi desde 0 século XIX. a arquitetura co- ‘blemas da popula- construir respondia fece-me que, no final do século XVI se especializar, lar com OF pt le, do urbanismo. Outrora, a arte cessidade de manifestar o poder, a divindade, a forga, Feja constituiam as grandes formas, as quais é preciso fortalezas; manifestava-se a forge, manifestava-se inifestava-se Deus. A arquitetura durante muito tem- em torno destas exigénci no final do século “mas aparecem: trata-se de ut objetivos econdi recem importantes a respeito do fato da casa, até 0 sé- aut reaciondrio insistir tanto sobre 0 espago € que o tempo, o a vida eo progresso, E preciso dizer que esta eensura fol or um psicdlogo ~ verdade e vergonha da filosofia do século culo XVIII, continuar sendo um espago indiferenci as: nelas se dorme, se ece-me que a nogio de sexualidade & m cé mostrou isso no caso da vigildncia entre os mi rarece novamente em relagdo a familia; sem di importante, fs, problema funda- © quarto dos pais, eas. As vezes, nos ‘M.-F: Certamente. Nestes temas de vi tularmente de grids ica escolar, parece que os control ide se inscre- cae arquitetura. No caso da Escola Militar, a luta contra @ ho. q ‘exualidade ¢ a masturbacdo é contada pelas proprias paredes, talar, passando pel dente ver como o prot recer como problema da arquitetura, nao the parece que pessoas ‘Tam uma participagdo social considerdvel do século XVIII, desempenharam um papel mais ou menos ganizadores do espago? A hig i di a, da sade, cont fom local de residéncia ou de expansfo de um po fa, de uma lingua ou de um Estado. Em suma, a Fame solo ou como ar; o que importava era 0 subsiran ras. Foi preciso Me 'e os mais sensibilizados pelo problema do ambiente, do lu ‘emperatura, dados que encontramos na investigagio de Ho. sobre as prises ‘Nesta época os médicos eram, de certa forma, especialistas do formulavam quatro problemas fundamentais: o das lo- regionais, natureza dos solos, umidade e secure: les estudavam esta combinagio dos 8 variacdes sazonais que favorece em dado nga); 0 das cocxisténcias (seja dos luestdo da densidade e da proximidade; seja dos ho- ° es da fisica tedrica e experi. : questo das Aguas, dos esgotos, da ventilagéo; dor de cestlojavam a filosofia de seu velho direito de fala de eee mens ¢ dos animais: questo dos matadouros, dos estabul do. do casmos, do espaco finito ou infinito. Este duple assenhora- ‘eit dos homens e dos mortos: questo dos cemitérios); 0 das mara, Grentier anaes? POF uma tecnologia poltica e por une erie de eine lancou a filosoia em uma problemética do tempo A part E,Kuints eabe ao fldsofo pensar o tempo. Hegel, Bergson Heidegger. Sou uma desqualiicagso correlata do espago, que speren ie lado do entendimento, do an {do conceitual, do morto, do imével, do inette, Lembro-me de ter falado, hé uns dex anos dees Proble- te Prisons England and Wales, ith Preliminary Obtersations antares ‘mas de uma politica dos espagos e de me terem responding que era some Foreign Prisons and Hopptas (1777. 212 213 ue durante tanto tempo hoi '0 208 espacos, cu citarei apenas fos. No momento em que sistemdtica dos espagos (no rd torna publicos os resultados de sua investigagio em sua obra: The dias (habitat, urbanismo); © dos deslocament mens, propagacdo das doengas). Eles foram, fares, os primeiros administradores do es M.P.: Além disso, < impressionante @ questdo do nimero de pessoa na reflexdo de Ber rm momentos ele diz ter resolvido 0s problemas de 'a que existem quando um grande némero 4 pessoas esti nas maos de um pequeno numenn af F: Como seus contemporaneos, el se defrontou com 0 problema faracumulacdo dos homens. Mas enquanto os eoonomangn coloca- dae pee ene em termos deriqueza (populagdociquess. na oor da.em que méo-de-obra, origem de i relagdes de dominagio, Acho 9) de poder, que funcionavama mes va to desenvolvida quanto a brechas: sistema lacunar, aleatério, globi chegando at ai lduos, Seus compos, seus gestos, cada um ee sors ae ianos. Que o poder, mesmo tendo uma multiplicida: 7 Berir, sja tdo eficaz quanto se ele se exercesse sobre um si 4.P.: 0 crescimento demogréfico do século XVIII certamente con- tribuiu para o desenvolvimento de um tal poder, 214 ‘ao ¢ entdo impressionante saber que a Revolugéo France- soas como La Fayette, acolheu favoravelmente o projeto Sabe-se que Bentham adquiriu o titulo de “cidadao em 1791 por sua influéncia, (Fs Eu diria que Bentham & 0 complemento de Rousseau. Na ver~ ial € 0 sonho rousseauniano presente em tantos revolucioné dle uma sociedade transparente, ao mesmo tempo visivel ¢ la uma de suas partes; que no haja mais nela zonas + Zonas reguladas pelos privilégios do poder real, pelas prer~ dle tal ou tal corpo ou pela desordem; que cada um, do la 'P4, pOssa ver 0 conjunto da sociedade; que os coragdes se luem Uns com 08 outros, que os olhares ndo encontrem mais de cada um sobre cada um. Staro- teressantes a este respeito em La ence et l Obstacle © L'lnvention de la liberté, tham & ao mesmo tempo isto € o contr: a visibilidade, mas pensando em uma vi is se complementam ¢ 0 bsesstio de Bentham. ‘iste esta frase no Panopticon: “cada camarada torna-so um ‘usseau sem divida teria dito o contrério: que cada vigia camarada. Veja Emile: 0 preceptor de Emile & um vigits € preciso que ele seja também um camarada, JP, lugdo Francesa nao faz uma leitura se- , mas ela até encontra no projeto de tirios, Revolugio se qu insténcia de iona sobre uma -nto? A opinido, into que se sentiriam mergulhadas, ‘Sem um campo de visibilidade total em que a opinido dos ou 215 tros, 0 olhar dos outros, o discurso dos outros os impediria de fazer 0 Um poder cuja instancia principal fosse a opinido nfo poderia mal ou 0 nocivo, Isto est constantemente presente nos textos da Re- regides de escuriddo. Se o projeto de Bentham despertou inte- volucio. porque ele fornecia a formula, aplicdvel a muitos dominios , de um “poder exercendo-se por transparé MP. O conte desempenhou assim seu papel na adogto io por “iliminagdo". O panopticon € iralhas) utilizada paradoxal- do panopticon pela Revolusio; na época, o problema das prises es. te para criar um espaco de legibilidade detalhada. {Gna ordem do dia. A partir dos anos 1770, na Inglaterta como na Franea, existe uma grande inquietagdo a este respeito; a investigagdo de Howard sobre as prisdes, traduzida para o francés em 1788, nos , -P.B.: Foram igualmente os lugares escuros no homem que o Sécu- it to. Hospitais ¢ prisdes sdo dois grandes temas de dis. is Luzes quis ver desaparecer. es parisienses, nos circulos esclarecidos, Tornou-se es- 'o de as prises serem o que so: uma escola do vicioe M. F: Exatamente, do crime; e lugares que, de to desprovidos de hi M.P.: Xo mesmo tempo, as técnicas de poder no interior do panopti- te. Médicos comegam a dizer como 0 corpo se desis realmente surpreendentes, Trata-se essencialmente do olhar; tais lugares. A Revolugdo Francesa realiza, por sua vez, uma inv em dap bos de ago ~ ex: gacdo em cscala européia. Um certo Duquesnoy é encarregado d invenga spetor principal a cada cela zer um relatorio sobre os estabelecimentos chamados “de humani se encontram, nos diz Bentham, néo um prisioneiro, mas pe- de", expresso que recobre hospitais e prisdes. erunge de pelsipuslcor Pies ee Im medo a ‘enfatizada no texto de Benths star exaco eaure o annem a semana metade do séulo XVIIE 0 weessantemente sob o olhar de um inspetor; isto na verdade a espaco escuro, o anteparo de escuridao que impede a total de das coisas, das pessoas, das verdades. Dissolver noite que se opdem a luz, fazer com que no hajarm na sociedade, demolir estas cimaras escuras onde se fe bitrdrio politico, os caprichos da monarqui 45, 08 complés dos tiranos e dos pad epidemias. Os castelos, os hospitais, 08 ce Yentos, muito antes da Revolucdo, suscitaram uma desconf um édio que implicaram sua supervalorizagio; a nova ordem € moral ndo pode se instaurar sem sua eliminagdo. Os rom: terror, na época da Revolucdo, desenvolvem uma visdo fent muralha, do escuro, do esconderijo e da masmorra, que abrigam, em uma cumplicidade significativa, os salteadores ¢ os aristocratas, os monges ¢ os traidores: as paisagens de Ann Radcliffe sio montanhas, Alorestas, cavernas, castelos em ruina, conventos de escuriddo e silén, gio amedrontadores. Ora, estes espacos imaginérios slo como @ “contra-figura” das transparéncias ¢ das visibilidades que se quer es- . Este reino da “opinido”, invocado com tanta freqléncia € um tipo de funcionamento em que o poder poder se i imples fato de que as coisas serio sabidas ¢ de que as os do século XIX respondem: é um poder muito oneroso e com Pessoas serdo vistas por um tipo de olhar imediato, coletivo e andni- icos resultados, Fazem-se grandes despesas de violéncia que tem 216 217 ipacidade de fazer o mal e quase perder o pensamento de ‘n6s estamos no dmago lr a3 pessoas de fazerem o mal te ai duas coisas: o olhar e a interiorizagio; no fundo, nfo © problema do custo do poder? O poder, na verdade, nio se Sem que custe alguma coisa, Existe evidentemente 0 custo eco- © Bentham fala sobre ele: quantos vigias sero necessirios? aiientemente, quanto a méquina custard? Mas existe também 0 propriamente politico. Se a ionava o poder mondrquico. Por exemplo, a justiga sé pren- proporgdo iris 10805; cla se ulilizava do fato lizer: € preciso que a punigdo seja espetacular 1am medo. Portanto, poder violento e que devia, irtude cemplo, assegurar fungdes de continuidade. A isto os novos Pouco valor de exemplo; fica-se mesmo obrigado a mult lencias am-se as revoltas, MP. Foi MF: io. armas, violéncias fisicas, coagdes olhar que vigia ¢ que cada urn, sen i, acabara por riorizar, a ponto de observar ; Sendo assim, cada um M.P. A este respeito, parece que Bentham coloca a questo do po- der sobretudo em relucdo a pequenos grupos. Por que? Sera porque todo; 8 o resultado é bom ao nivel do grupo, se- é i I? Ou serd que 0 conjunto so- fo dados que no momento ‘ culos que, no Antigo Regime, os corpos constitul- légios de certas categorias, do clero &s corporagdes, pas- sando pelo corpo dos magistrados, representavam para as decisoes. do poder. A burguesia compreende perfeitamente qué uma nova le- gislago ou uma nova constituigdo ndo serdo suficientes para garan- tir sua hegemonia; cla compreende que deve inventar uma nova tec- nologia que assegurard a irrigagdo dos efei ‘até mesmo em suas menores part fez no somente uma revolucdo pol hegemonia soci das estas invengdes for tum dos inventores de tecnologia do poder mais exemplares. J.-P.B.Entretanto, nll se percebe se o espago organizado da forma ‘como Bentham preconiza pode ser utilizado por qualquer um, além daqueles que esto na torre central ou que a visitam, Tem-se a im- 218 de estar na presenga de um mundo infernal do qual ninguém scapar, tanto os que olham quanto os que so olhados, ACF: Sem diivida € o que hé de diabélico nesta idéia assim como em Imente sobre os outros; é uma méquina que circunscreve to aqueles que exercem o poder quanto aqueles s quais o poder se exerce. Isto me parece ser a car 4s soviedades que se instauram no século XIX, O poder mente identificado com um 10 que o possuiria ou que o devido a seu nascimento; ele torna-se uma maquinaria de a lar. Logicamente, nesta maquina ninguém ocupa 0 lugar; alguns lugares so preponderantes e permitem produ- ‘os de supremacia, De modo que eles podem assegurar uma ico de classe, na medida em que dissociam o poder do domi- individual. Mas tenho também uma observacdo a fazer a respeito do pes. esponsivel pelo enquadramento: ele foi um problema para a so- ide industrial. Encontrar os contramestres, os engenheiros capa- es de arregimentar e de vigiar as fabricas ndo foi facil para o patro- 4. um problema importante que se coloca no século XVIII, Po- «demos ver isto claramente no caso do exéreito, quando foi necessario ir um “suboficialato” que tivesse os conhecimentos exatos iadrar eficazmente as tropas no momento das vezes dificeis, ainda mais dificeis porque 0 tos, 08 deslocamentos, as caminhadas exigiam este pessoal di 1. Depois as ofi- locaram, & sua maneita, o mesmo problema; a escola tam- Com, seus mestres, seus seus Vigias. A Tgreja era en- 219 tentes existiam. O religioso nem muito alfabetizado nem completa- arde, O mesmo Tesponsivel lido em grande maioria pelas religiosas josas desempenharam um papel importante -obra feminina: trata-se dos famosos inter- cer a discipli Nao se pod se constata que existe esta vigilincia do inspetor princi sntar 0 panopticon de tais preocupagdes, quando I sobre 0 pessoal responsével pelo enquadramento e, pelas janelas da torre, a vigildncia sobre todos, sucesso interrupta de olfvares que lembra 0 a ponto de se ter realmente a impressio um pouco vertiginosa de se estar na presenga de uma in- vengio que nio seria dominada nem pelo proprio ctiador. E foi Bentham que, no inicio, quis confiar em um poder nico: o poder 10 ler Bentham, fica a pergunta: quem ele coloca na Iho de Deus? Mas Deus esté pouco presente em seu jade. Ento, quem? Afinal de contas, & preciso dizer que o préprio Bentham nio vé bem a quem confiar o poder. 4.F: Ble ndo pode confiar em ninguém na medida em que ninguém pode ou deve ser aquilo que o rei era no antigo: de poder ¢ justica. A teoria da monarquia o exigia. Era preciso con. Sarno tc, Por sua prépria existncia, dese por Deus, ele era fon te de j bom; am mau rei ou a um castigo do soberano absolutamente bom, Deus. J4 nao se pode confiar em rninguém se 0 poder & organizado como uma méquina funcionando de acordo com engrenagens complexas, em que € 0 lugar de cada um ue é determinante, no sua natureza. Se a maquina fosse de tal for- ma que alguém estivesse fora dela ou s6 tivesse a respons: monérquico. No panopticon, cada um, de seu lugar, € vigiado por todos ou por alguns outros; trata-se de um 20 10 de desconfianga total e citculante, pois ndo existe ponto ab- o. A perfeigio da vigilincia & uma soma de malevoléncias. Uma maquinaria diabélica, como voce disse, que nao poupa Talvez seja a imagem do poder atualmente. Mas como vo- ie se pode chegar a este ponto? Devido a qual vontade? E MV-F; A questio do poder fica empobrecida quando é colocada uni- cm termos de legislagio, de Constituigo, ou somente em os de Estado ou de aparelho de Estado. O pod ito mais denso ¢ difuso que um conjunt Estado. Nao se pode entender o desenvolvimento das forgas proprias ao capitalismo, nem imaginar seu desenvolvi- isténcia, 2o mesmo tempo, dos aparelhos do do trabalho nas grandes ws do século XVIII, como se teria chegado a esta repartigo das ndo tivesse ocorrido uma nova distribuigdo do poder no rel da organizagio das forcas pro rer em relagao ao exército moderno: na ‘de armamento ¢ uma outra forma de recr "us enguadramento, suas inspegbe, tus jnamentos € adestramentos. Sem o que 0 ‘como funcionou desde o século XVII, ndo teria existido. 2: Entretanto, alguém ou alguns impulsionam ou nfo 0 conjun- 4. preciso fazer uma distngfo,B evidente que, em um 10 um exército ou uma oficina, ou um outro tipo de rede do poder possui uma forma piramidal. Existe portanto ; mas, mesmo em um caso tdo simples como este, este fonte” ou o."prineipio” de onde todo o poder derivar ‘um foco luminoso (esta é a imagem que a monarquia faz O pice e os elementos inferiores da hierarquia estfo + Durante o século I a.C.,a Asia Menor, a Siria, o Egito ¢ a Galia foram anexados aos territérios de Roma, enguanto a Gri-Bre- tanha s6 sucumbiu durante 0 século I d.C. Essas conguistas sucessivas nio resultaram de uma simples sede de aventura, Foram ditadas pelo desejo de buscar uma fronteira natural que pudesse ser mantida sem muitas difi- culdades contra as invasdes de tribos hostis. Esse propésito foi aleancado nos primeiros tempos do império: ao norte, as terras de Roma eram limitadas por dois grandes rio: ‘0 Reno € 0 Dantibio; a leste, ficavam 0 Euffates e o deserto drabe; sul, 0 Saara; € a oeste, 0 Atlintico. Nesse cenirio, Império Rom: viveu em paz ¢ estabilidade relativas durante os dois primeiros séculos da nossa era. Politicamente, Roma comegara como cidade-estado, semelhante muitos aspectos ao modelo grego. A um periodo lendrio de reis ecru seguiu-se uma repiblica dominada por uma classe aristocritica que go~ vernava e controlava o Senado. Quando o Estado cresceu em tamanho ¢ importincia, impuseram-se mudangas constitucionais rumo a demoeracia Ainda que 0 Senado mantivesse bastante poder, a assembleia pop\ passou a ser representada por tribunos que tinham voz nas questées do Estado.Afinal,o cargo de cénsul também se tornou acesivel a homens de origem nio aristocratica, No entanto, como resultado da conquista c cexpansio, as familias governantes amealharam imensas fortuna, 0s pequenos proprietirios eram afistados da terra pelo uso do escravo em larga escala, em propriedades de senhores ausentes, Assim, 0 Senado governava supremo. Em fins do século II a.C.,.umi mov popular democritico liderado pelos Graco rial, Otaviano, filho adotivo de J recebeu 0 titulo de Augusto e gover Instituiges democriticas fossem f fronteiras, enquanto Roma levava uma vida plé- ja ¢ ordenada, Afinal, o exército comegou a tirar vantagem seu poder, usindo-o para extrair ouro em a do favor do seu apoio, Assim, os impe~ ores chegavam ao trono com 0 patrocinio re igualmente cafam quando esse amparo ado, Durante certo tempo,o desastre foi twlado pelos enérgicos esforgos de Diocle- (286-305) e Constantino (312-337), mas jas das medidas de emengéncia adotadas s6 ibuiram para acelerar 0 declinio, Grande de mercendrios germinicos lutava a0 lado do abou sendo uma das razdes da sua queda. Os artes cla guerra ao servirem nas legides de Rom n conta de que as habilidades reeém-adqu os le Roma sucum do passado sob1 iveu atrav gid off reja pode presen > Or funcao produtiva, © Tuncdo de adestramento, ico produtiva € sensivelment disciplinar sio muito imp ‘Componentes coabitem, 10 com a impressio de téncia do material a" © panopticon de Bentham nao é um pouco iio de quase todos os reformadores do sécul xvi, Por ser a conscigncia imediata de lesconheciam as condi conten geet 08 pensadores desconhecem as difteulda- lcontrario para faz & reformar e a devo! ' Fealidade, existe um mater ‘e, O mesmo pod }o da produ dia reaimen- 5 pessoas nas oficin field © de registro continuos? Tinham ck cons- ey ciriter subordinante, dominador, insuportével desta viei- 1 eles & aeeitavam como natural? Ein suma, houve revolt olhar? 08 sistemas, te. Este tipo de vigi- rimeiro nos setores me- as, Dortanto pessoas ha- a século IIT, veio 4 tona uma nova interpretago da antiga ética 3 luz da doutrina estoica, movimento que se achava em perfeita sintonia com as condigdes gerais da época. Esse amalgama de diferentes teorias passou a ser chamado de neoplatonismo ¢ exerceria grande influéncia na teologia cristi. Em certo sentido, representa uma ponte entre a Antiguidade ¢ a Idade Média. Com isso, a filosofia dos antigos chega ao fim e se inicia © pensamento medieval. © neoplatonismo sungiu em Alexandria, ponto de encontro do Oriente com 0 Ocidente. Ali se misturavam influéncias religiosas da Pérsia e da Babildnia, restos de ritos egfpcios, uma forte comunidade judaica pra~ ticando a sua propria religi3o, seitas cristis e, com tudo isso, um cenario geral de cultura helenistica. Diz-se que a escola neoplatdnica foi fuandada por Aménio Sacas, de quem pouco se sabe. O mais importante dos seus discipulos foi Plotino (204-270), 0 maior filésofo do neoplatonismo. Nasceu no Egito e estudou em Alexandria, onde viveu até 243. Interessado nas religides e no misticismo do Oriente, Plotino segui imperador Gordiano IIT numa campanha contra a Pérsia, empreendim que, no entanto, no prosperou. © imperador era jovem e inexperiente € de algum modo cain no desagrado dos seus comandados. Naqu época, tais conflitos eram resolvidos de maneira suméria, ¢ 0 jov César teve um fim prematuro nas maos daqueles que deveria comandat. Consequentemente, em 244 Plotino fugiu da Mesopotimia, cen assassinato, e se estabeleceu em Roma, onde viveu € ensinow até o da vida. Seus escritos se baseiam em anotagdes para as auilas que nos seus tiltimos anos, editadas pelo seu discfpulo Porfirio, que era tanto pitagérico, Como resultado, as obras de Plotino nos chega Compilada em nove livros, a obt tem o titulo de Enéades. O tom embora sem o alcance € 0 vis confinando-se quase inteiramente mitos pitagér se fossem irreais é bem conveniente para conciliar 05 homens com o seu destino. A doutrina central da metafisica de Plotino € a teoria da trindade, que consiste no Uno, no Nous € na Alma, nesta ordem de prioridade e dependéncia. Antes de examinarmos esse assunto, observemnos que, apesar da influéneia que essa teoria exerceu na teo- logia, ela nio & crista,¢ sim neoplaténica. Origenes, contemporineo de Plotino e discfpulo do mesmo neste, era cristo ¢ também formulou uma teoria rindade que igualmente situava as trés partes. niveis diferentes, o que mais tarde The valeu a nclenagio como herege. Plotino, como estrangeito, o foi atingido assim pela censura e, provavelmente ppor isso, a sua influéncia foi maior até a época de stantino. © Uno da trindade de Plotino se assemelha muito de Parménides, do qual o melhor que pode- @ que “é”. Deserevé-lo de qualquer outra aria que pode haver outras coisas maiores As vezes Plotino fala disso como de Deus maneira da Repiibli como Brnraano