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Supremo Tribunal Federal

RECLAMAÇÃO 24.074 SÃO PAULO

RELATOR

: MIN. ROBERTO BARROSO

 

RECLTE.(S)

: NOBELPLAST EMBALAGENS EIRELI

ADV.(A/S)

: FABIANA BETTAMIO VIVONE TRAUZOLA

 

RECLDO.(A/S)

: JUIZ

DE

DIREITO

DA

9ª

VARA

DA

FAZENDA

ADV.(A/S)

INTDO.(A/S)

PROC.(A/S)(ES)

DECISÃO:

PÚBLICA DO FORO CENTRAL DE SÃO PAULO : SEM REPRESENTAÇÃO NOS AUTOS : ESTADO DE SÃO PAULO : PROCURADOR-GERAL DO ESTADO DE SÃO PAULO

Trata-se de reclamação, com pedido de medida liminar, que impugna sentença da 9ª Vara da Fazenda Pública da Comarca de São Paulo nos autos nº 1048114-66.2015.8.26.0053.

O reclamante narra que, por meio de cessão de crédito, adquiriu precatórios do Estado de São Paulo, os quais foram usados em compensação tributária com débito de ICMS, relativo ao período de 11/2010 a 01/2013, no valor de R$ 4.350.340,96 (quatro milhões, trezentos e cinquenta mil e trezentos e quarenta reais e noventa e seis centavos). A aquisição e compensação teria sido realizada nos termos do art. 78, caput e § 2º, de modo que a não liquidação do precatório até o fim do respectivo exercício teria lhe concedido poder liberatório. Não obstante, a Fazenda paulista lavrou auto de infração por suposto creditamento indevido de ICMS, constituindo uma dívida que, somadas às sanções impostas, perfazem mais de onze milhões.

Nessas circunstâncias, a parte ora reclamante ajuizou na origem ação anulatória de débito fiscal, a qual foi julgada parcialmente improcedente, nos seguintes termos:

“Pretende o autor a suspensão da exigibilidade do débito tributário referente ao ICMS pela compensação com os créditos dos precatórios judiciais e, como pedido subsidiário, a exclusão

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/ sob o número 11037098.

 
 

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dos juros de mora acima da taxa Selic e o reconhecimento da ilegalidade da multa que lhe foi aplicada, diante do valor abusivo. O Código Tributário Nacional prevê a possibilidade de extinção do débito tributário mediante compensação, desde que devidamente autorizado por lei específica. No entanto, a questão discutida nestes autos não se enquadra na hipótese legal mencionada. Nos termos do art. 78 ‘caput’ e seu § 2º, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, somente são permitidas as compensações dos precatórios, que não sejam alimentares. Assim, os precatórios comumente cedidos às empresas de natureza alimentar não podem ser utilizados para compensar débitos tributários”.

Na presente reclamação, alega-se afronta à autoridade do julgado do STF na ADI 4.425-QO, pelo qual foram modulados os efeitos da declaração parcial de inconstitucionalidade das autorizações introduzidas pela EC 62/2009 no regime de precatórios. Afirma que, naquele julgado, ficou “decidido, entre outras medidas, que as formas alternativas de pagamento de precatórios previstas no regime especial – entre elas, a compensação – seriam consideradas válidas, desde que realizadas até 25 de março de 2015”. Nessa linha, defende que “não poderia o MM. Juízo reclamado singelamente afirmar que a compensação, na forma do art. 170 do CTN, deve estar prevista em lei, pois é óbvio que a norma constitucional, cuja constitucionalidade foi examinada por essa E. Corte, suplanta a referida previsão do CTN”. No que concerne à natureza alimentar do precatório adquirido, a reclamante arguiu que a diferenciação entre as classes de precatórios, para o fim de compensação, não foi realizada pelo julgado paradigma. Acrescenta que o regime especial do art. 78 do ADCT consagra justamente maior privilégio aos créditos alimentares, “não sendo razoável e plausível excluir o credor do precatório alimentar da regra que possibilita a cessão e compensação – que nada mais é do que um meio alternativo deste credor obter o montante que lhe é devido”

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É o relatório. Decido.

Dispenso as informações, por considerar o feito suficientemente instruído, bem como a manifestação ministerial, em razão do caráter reiterado da matéria (RI/STF, art. 52, parágrafo único). Dispenso, ademais, a citação da parte contrária, em face da manifesta inviabilidade do pedido.

O Plenário desta Corte julgou parcialmente procedentes os pedidos nas ADIs 4.357 e 4.425, para declarar a inconstitucionalidade parcial das alterações realizadas pela EC nº 62/2009 no regime constitucional de precatórios. Entre aquelas disposições, considerou-se inválido o novo regime de compensação e a moratória prevista no art. 97 do ADCT:

“4. O regime de compensação dos débitos da Fazenda Pública inscritos em precatórios, previsto nos §§ 9º e 10 do art. 100 da Constituição Federal, incluídos pela EC nº 62/09, embaraça a efetividade da jurisdição (CF, art. 5º, XXXV),

desrespeita a coisa julgada material (CF, art. 5º, XXXVI), vulnera

a

Separação dos Poderes (CF, art. 2º) e ofende a isonomia entre

o

Poder Público e o particular (CF, art. 5º, caput), cânone

essencial do Estado Democrático de Direito (CF, art. 1º, caput). (…) 8. O regime “especial” de pagamento de precatórios para Estados e Municípios criado pela EC nº 62/09, ao veicular nova moratória na quitação dos débitos judiciais da Fazenda Pública

e ao impor o contingenciamento de recursos para esse fim, viola

a cláusula constitucional do Estado de Direito (CF, art. 1º, caput), o princípio da Separação de Poderes (CF, art. 2º), o postulado da isonomia (CF, art. 5º), a garantia do acesso à

justiça e a efetividade da tutela jurisdicional (CF, art. 5º, XXXV),

o direito adquirido e à coisa julgada (CF, art. 5º, XXXVI).”

Após o referido julgamento, inseguros quanto às normas a serem observadas, alguns Tribunais simplesmente paralisaram o pagamento de

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precatórios, à espera de um pronunciamento do STF acerca da modulação dos efeitos da declaração de inconstitucionalidade da EC nº 62/2009. Ao tomar ciência dessa informação, o Min. Luiz Fux proferiu a decisão que se alega violada, ordenando a retomada dos pagamentos, conforme a disciplina vigente até 14.03.2013, “respeitando-se a vinculação de receitas para fins de quitação da dívida pública, sob pena de sequestro”. A referida decisão foi referendada pelo Plenário em 24.10.2013.

Em 25.03.2015, foi concluído o o julgamento da modulação dos efeitos das declarações de inconstitucionalidade realizadas nas ADIs 4.357 e 4.425. Na linha do que já vinha sendo decidido, o Plenário do STF assentou a sobrevida do modelo de pagamento de precatórios instituído pela EC nº 62/2009. No que tange aos meios alternativos de pagamento “consideram-se válidas as compensações, os leilões e os pagamentos à vista por ordem crescente de crédito previstos na Emenda Constitucional nº 62/2009, desde que realizados até 25.03.2015, data a partir da qual não será possível a quitação de precatórios por tais modalidades”.

No caso dos autos, a decisão reclamada aponta que a compensação foi realizada nos termos do art. 78 do ADCT, dispositivo que não foi objeto das ADIs 4.357 e 4.425. Assim, a questão trazida - possibilidade de compensação de dívida tributária com crédito decorrente de cessão de precatório alimentar - é estranha às teses firmadas no paradigma invocado.

Conforme pacífica jurisprudência, é inviável reclamação quando ausente relação de estrita identidade entre o ato atacado e o paradigma supostamente violado: Rcl 11.778-AgR, Rel. Min. Teori Zavascki; Rcl 12.985-AgR, Rel. Min. Ricardo Lewandowski; Rcl 12.501-AgR, Rel. Min. Cármen Lúcia; Rcl 10.125-AgR, Rel. Min. Dias Toffoli; e Rcl 10.690-AgR, Rel. Min. Celso de Mello.

Saliento,

que

a

inadmissão

da

reclamação

não

implica,

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necessariamente, a afirmação do acerto da decisão reclamada, que deve ser impugnada pela via recursal própria. Observo que a matéria, inclusive, está afetada à sistemática da repercussão geral (Tema 111 - RE 566.349-RG, Rel. Min. Cármen Lúcia).

Diante do exposto, com fundamento no art. 21, § 1º, do RI/STF, nego seguimento à reclamação, prejudicada análise do pedido liminar.

Sem honorários, porquanto não citada a parte contrária.

Publique-se.

Brasília, 24 de maio de 2016

Ministro LUÍS ROBERTO BARROSO Relator

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