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LAURA DE MELLO E SOUZA O DIABO E_| A TERRA DE evs re) CRUZ utor: Souza, Laura de Mello " «0 dink & fei Bo Sank Cid : feit Pil ‘Huu = “a Na época em que se descobriu a América, a Europa mergulhava num periodo ambiguo caracterizado pela alternincia das Luzes e das Trevas. De um lado, o Renascimento, a retomada do crescimento econmico, © prospero comércio transocednico; de outro, os manuais do inquisidor, a caga ds bruxas, as fogueiras ¢ a institucionalizagao da tortura. No imagindrio europeu o Brasil foi simultaneamente Paraiso ¢ Inferno. Enviava 4 metr6pole cargas preciosas de metal ¢ pedras rutilantes. Enviava também a carga danada de presumiveis inimigos de Deus e do credo catélico, que, uma vez processados ¢ torturados pela Inquisigao, safam condenados nos Autos da Fé. Ser feiticeiro em terras da colénia era um estigma a mais. Identificava-se o Brasil ao Inferno, e j4 no século XVII frei Vicente do Salvador se consternava ao constatar que 0 nome da madeira vermelha (0 pau-brasil) acabara engolindo a denominagao religiosa de Terra de Santa Cruz. Sendo assim, as praticas préprias dos habitantes da coldnia eram vistas como demonjacas: 0 colono e 0 diabo se aproximavam no imaginario europeu. Para detectar, descrever € O DIABO E A TERRA DE SANTA CRUZ ATENCAO!!!! ‘Trate-me com carinho! Nao me suje, rasgue ou rabisque. Nao pertengo somente a vooé, mas a toda a comunidade. Obrigado! LAURA DE MELLO E SOUZA ODIABOE A TERRA DE SANTA CRUZ FEITICARIA E RELIGIOSIDADE POPULAR NO BRASIL COLONIAL & reimpressao KEch CEs i> bn ly RD: 29 ¥50dF COMPANHIA. Y ETRAS 33Q3 5037 Copyright © 1986 by Laura de Mello e Souza ‘Capa: Ettore Bottini ‘a partir de ilustragdo de Gustave Doré para a Divina Comédia de Dante Revisio: Telma Domingues Jo de Mello Carlos Tomio Kurata Dads Internacionsis de Cualogaco na Publica (cr) (mar Brasileira do Lito, , Bri ‘Sous, Lara de Mello (abo ea Tera de Santa Cruz fears reliioi- dade pops no Bra clos / Laura de Mello e Sou — ‘Sto Paul: Compania das Leas, 1986 Bibkogratia ssi 45 45095.00.0 Demonologia — Bras 2. Feltigara — Brasil 3 Religesdde Ti» ind: Feoyara reponse pope lar no Bras ole snes _ en 2005 Todos os dircitos desta edicdo reservados & EDITORA SCHWARCZ LTDA. Rua Bandeira Paulista, 702, ¢). 32 (04532-002 — Sio Paulo — sr ‘Telefone: (11) 3707-3500 Fax: (11) 3707-3501 ‘wow.companhiadasletras.com.br Para meus pais, e para Mauricio. “O dia que o capitio-mor Pedro Alvares Cabral levantou a cruz (...) era a 3 de maio, quando se celebra a invengio da Santa Cruz em que Cristo Nosso Redentor morreu por nés, € por esta causa pés nome a terra que havia descoberta de Santa Cruz ¢ por este nome foi conhecida muitos anos. Porém, como o deménio com o sinal da cruz perdeu todo © dominio que tinha sobre os homens, receando perder também o muito que tinha em os desta terra, trabalhou que se esquecesse © primeiro nome € Ihe ficasse 0 de Brasil, por causa de um pau assim chamado de cor abrasada ¢ vermetha com que tingem panos, qu: 0 daquele divino pau, que deu tinta e virtude a todos os sacramentos da Igreja...” Frei Vicente do Salvador, Histéria do Brasit (1627) INDICE Agradecimentos " Abreviaturas 12 Introdugao 15 Parte I: Riquezas e impiedades: a sina da colénia . . 19 Capitulo 1: O Novo Mundo entre Deus e 0 Diabo .... 21 Capitulo 2: Religiosidade popular na colénia .... 86 Parte II: Feiticaria, préticas mégicas ¢ vida cotidiana 151 Capitulo 3: Sobrevivéncia material .. 157 Capitulo 4: Deflagragao de conflitos .. 194 Capitulo 5: Preservagao da afetividade 227 Capitulo 6: Comunicagao com o sobrenatural . 243 Parte IIT: Universo cultural, projegdes imagindrias e vivéncias fea eae Capitulo 7: Os discursos imbricados ................. 277 Capitulo 8: Hist6rias extraordinérias: o destino de cada um 334 Conclusao: Sabbats e Calundus ......................... 371 Apéndice ... Bottes ke) biblicgrattates tau: cs rs ah oe cer esewe 387 AGRADECIMENTOS Agradeco & FAPESP pela bolsa de doutoramento que me con- cedeu entre 1982 ¢ 1984, fornecendo-me ainda a passagem agrea para Portugal. Nesse pais, pude desenvolver a pesquisa nos arquivos de- vido & bolsa que obtive junto a Fundacao Calouste Gulbenkian, a qual também dirijo meus agradecimentos. Mais uma vez, sou grata a Fernando A. Novais por ter aceitado a orientagdo da tese, acompanhando-a em todas as suas etapas. Em Portugal e no Brasil, contei com a ajuda e colaboracao de varios amigos, alunos, colegas e antigos professores. Gostaria de lem- brar com reconhecimento as “‘conservadoras” do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em especial as sras. Maria do Carmo Farinha e Manuela Nunes, e os amigos portugueses Antonio Justino Ribeiro, ‘Ana Isabel Ana Maria Reis, colegas de oficio. Agradeco ainda aos colegas e amigos que leram trechos deste trabalho ¢/ou contribuiram com sugestdes e indicagdes bibliograficas: Edgard Carone, Carlos Roberto Figueiredo Nogueira, Hildrio Franco Jr., Janice Theodoro da Silva, Leila Mezan Algranti, Luis Moit, Mary del Priore, Ronaldo Vainfas, Silvia H. Lara, Pelo incentivo constante ¢ pela generosidade em fornecer indicagdes de documentos, tenho um débito particular para com a prof.* Anita Novinsky: Em parte da pesquisa tive a cola- boragdo dos alunos José Augusto dos Santos Felipe, Kétia Gerab, Marcia Fonseca de Mendonca Lima e Maria Angélica de Campos Resende. Contei ainda com a competéncia de Luzia M. Rocha na datilo- grafia dos originais e de Benedito Ramos da Silva Filho (Bené) na execugo das cépias fotograficas que integram esta edicao. Por fim, o reconhecimento aos amigos e parentes que me deram apoio afetivo e me ajudaram na vida cotidiana: Yvonne Feldman, Caio Cesar Boschi, Regina von Christian, meus pais e Mauricio, meu marido. AEAM. AEABH AGCRI ANTT HAHR ABREVIATURAS — Arquivo Eclesidstico da Arquidiocese de Mariana — Arquivo Eclesiastico da Arquidiocese de Belo Horizonte — Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro — Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa — Hispanic American Historical Review INTRODUCAO Objeto de estudo de algumas das principais obras historiogré- ficas dos dltimos anos, inscrita na Histéria das Mentalidades e tam- bém no que vem sendo chamado de Histéria do Imaginério, a feiti- garia no Brasil durante os séculos XVI, XVII e XVIII no suscitou, até hoje, nenhuma pesquisa. E isto no ocorreu por falta de fontes: as préticas mégicas e a feiticaria propriamente dita foram motivo de preocupacdo para as autoridades coloniais civis e para as eclesidsti- cas, € houve casos apurados pelas Visitagdes do Santo O! Quando pensei que poderia pelo menos iniciar 0 percurso no sentido de sanar esta lacuna, tinha em vista um trabalho sobre a feiticaria dos tempos coloniais com base nos processos dos réus bra- sileiros. Procurava, desta forma, alargar os estudos que vinha desen- volvendo sobre as camadas socialmente desclassificadas e sobre a articulago dos aparelhos de poder no Brasil colonial. Ja na época da elaboragao de Desclassificados do ouro, minha dissertagao de mestrado, chamara-me a atengGo a presenga marcante de feiticeiras e feiticeiros negros entre a populaco pobre e marginalizada das Minas, que as Devassas Eclesidsticas retrataram em suas priticas cotidianas freqiientemente impregnadas de magismo ¢ bruxaria. Na- quela ocasiao, acreditava que a feiticaria exercida por esses homens pobres — livres, escravos e libertos — apresentava elementos pre- dominantemente africanos. Sobre eles incidia a carga reprobatoria dos poderosos e também a do homem comum, que na condenacio de seus iguais buscava identificago com as camadas dominantes ¢ introjetava sua ideologia. Reprimindo-se a magia africana, cercea- vam-se as possibilidades de manifestagao de uma cultura propria, 15 especifica, que era a do negro e, mais grave ainda, era a do escravo — sendo, como tal, extremamente ameacadora & ordem vigente. O aprofundamento da leitura de obras especificas permitiu-me entretanto perceber que muitos dos casos presentes nas Devassas, € até entao tides por mim como testemunhos da persisténcia de pré- ticas africanas, diziam respeito a um substrato comum também a feitigaria européia. Evidentemente, entre uma e outra havia diferen- gas bésicas; a colénia nao conhecera grandes surtos de possessio demoniaca como os dos conventos franceses seiscentistas ou como 0 vivido pelos habitantes de Salem, na América do Norte. Mas, apesar disso, fora consideravel a presenga da feiticaria no cotidiano dos colonos, 0 que se tornava cada vez mais evidente conforme eu avan- gava a leitura da documentagao. S6 na Visitagio do Grio-Paré (1763-1769), apuraram-se, num total de 47 culpas, 21 casos de feiti- aria ¢ nove de curas magicas. Por um lado, a feiticaria colonial mos- trava-se estreitamente ligada as necessidades iminentes do dia-a-dia, buscando a resolucio de problemas concretos. Por outro, aproxima- va-se muito da religiao vivida pela populacio, as receitas magicas assumindo com freqiiéncia a forma de oragdes dirigidas a Deus, a Jesus, aos santos, & Virgem. Surgia assim um novo problema: a especificidade da religiio vivida pela populacao colonial, eivada de reminiscéncias folcléricas européias e paulatinamente colorida pelas contribuiges culturais de negros e indios. Andlises brilhantes e sofisticadas como as de Le Goff para a cultura popular medieval, as de Ladurie para o cotidiano cé- taro, as de Guinzburg para a cultura ¢ religiosidade popular no inicio da Epoca Moderna, as de Delumeau para a questao religiosa no mesmo periodo, levaram-me a ter certeza cada vez maior de que nio conseguiria ir muito longe no assunto se nao alargasse minhas preo- cupacdes e considerasse os limites da cristianizagio das camadas populares — limites estes que impeliram certos estudiosos a abra- garem a nogao de “cristianizacao imperfeita’” das massas do Ocidente europeu. ‘A natureza da populacao colonial impés novas preocupacées tedricas, alterando mais uma yez o rumo do trabalho. Sua especifi- cidade residia na convivéncia e interpenetracdo de populagdes de procedéncias varias e credos diversos. Multiplas tradicdes culturais desaguavam, assim, na feitigaria e na religiosidade popular. Dar conta dessa complexidade significava compreendé-la como o lugar em que se cruzavam e reelaboravam niveis culturais miltiplos, agentes de um longo proceso de sincretizacao. Feiticaria e religiosidade coloniais passaram ent&o a ser associa- 16 das & propria estruturacao da colnia enquanto tal. Para detectar os caminhos e 0 modo de sua constituigao era necessério remontar a0 século XVI, quando visdes paradisfacas e infernais se alternavam no imaginério do europeu colonizador — a primeira, referida basica- mente & natureza e ao universo econémico; a segunda, sempre rela- tiva aos homens, indios, negros e logo depois colonos. Entre uma e outra, imiscufa-se ainda uma terceira possibilidade: a do purgatério. Desvios cometidos na Metrépole eram purgados na colénia através do degredo; colonos desviantes, hereges e feiticeiros eram, por sua vez, duplamente estigmatizados por viverem em terra particularmente propicia & propagacdo do Mal. Este é 0 trajeto que procuro fazer no capitulo 1, “O Novo Mundo entre o Céu e 0 Inferno”, onde tento somar 0 procedimento etnolégico & abordagem historica. A seguir, era necessério examinar mais detidamente a natureza da religiosidade colonial. Conforme avancava © processo de color zaco, 0 sincretismo se agudizava, Num primeiro momento, regis- trado notadamente pela Visitacdo quinhentista, prevaleciam os ele- mentos de magia e religiosidade popular comuns a Portugal; a feiti- catia descrita era de cunho eminentemente europeu, e as manifesta- gies de religiosidade amerindia ainda nao chegavam a ser propria- mente sincréticas, ou o eram em Ambito restrito. Avangando pelos séculos XVII € XVIII, 0 desenvolvimento do processo colonizatério propiciava maior interpenetragao entre religiosidade européia, afri- cana e amerindia; enquanto a Europa tridentina se esforgava em depurar a religido e “limpéla” das reminiscéncias folcléricas, a colonizagio européia dos trépicos impunha o sincretismo. No século XVIII — apesar da catequese, e talvez por causa dela —, de um ¢ de outro lado do Sistema Colonial desenrolavam-se processos anta- gonicos, ¢ esta é a matéria do capitulo 2, “Religiosidade popular na colénia”. Os dois primeiros capftulos tragam pois um grande pano de fundo necessério A compreensio da feiticaria e das préticas magicas propriamente ditas, integrando a parte I do trabalho, Riquezas e impiedades: a sina da colonia. A parte I, Feiticaria, praticas mdgicas e vida cotidiana, dividese em quatro capitulos. Procuro neles des- crever mais detidamente estas priticas, procedendo a uma espécie de “arqueologia” e articulando-as com as necessidades da vida coti- diana: a sobrevivéncia, a faina diria, as brigas, os conflitos, os édios, 0s amores, os anseios de comunicagao com 0 outro mundo e a espera de revelagdes vindas do além. Os capitulos séo respectivamente “Sobrevivencia material”, “Deflagragdo de conflitos”, “Preservacio da afetividade” e “Comunicagéo com o sobrenatural”. 7 A Ultima parte do trabalho, Universo cultural, projegdes imagi- ndrias e vivéncias reais procura analisar 0 cruzamento de niveis cul- turais diversos, mostrando como divergem entre si e, simultanea- mente, combinam-se para construir um objeto comum: o proprio esterestipo da feiticaria, encruzilhada em que as concepgdes popula- Tes se reduzem as eruditas €, por sua vez, penetram-nas. A superpo- sigo destes discursos nfo se fez de modo suave: os traumas ¢ vio- Téncias que acarretou se imprimiram dolorosamente em trajetérias humanas. Os dois dltimos capitulos, “Os discursos imbricados” € “Histérias extraordinérias: 0 destino de cada um”, procuram dar conta desta matéria. O caminho que levou do sabbat europeu ao calundu colonial foi longo ¢ largo: estendeu-se por trés séculos e abrangeu os nticleos economicamente mais pujantes. O objeto de estudo impés, assim, a periodizagao ¢ a circunscricao regional — se é que se pode falar em circunscrever quando se tenta dar conta de érea geogrifica tio ampla, Este trabalho trata da feitigaria, das praticas magicas e da religiosidade popular no Brasil colonial dos séculos XVI, XVII e XVIII, abarcando as regides da Bahia, Pernambuco, Parafba, Grao- Paré, Maranhao, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Excetuando-se as duas tltimas areas, todas as demais tiveram Visitagdes do Santo Officio, 0 que prova mais uma vez que “impurezas da £6” e coloni- zacao caminhavam juntas. As Visitagdes, por sua vez, ocorreram NOS trés séculos acima mencionados: além das imposigdes do objeto de estudo, a documentacdo contribuiu, desta forma, para que se defi- nissem as balizas cronolégicas. Caberiam ainda duas palavras sobre a pesquisa documental. Ela assentou-se basicamente nas Visitages, Devassas Eclesiésticas ¢ Pro- cessos de réus brasileiros existentes no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Afirmar que li todos os processos brasileiros de feiticaria seria faltar com a verdade e correr o risco de ser desmentida por todo pesquisador que jé tenha trabalhado neste Arquivo, onde vigora ainda um sistema classificat6rio muito precério, pelo menos no que diz respeito A documentaco inquisitorial. Sendo assim, consultei © maior ntimero de processos que todos estes entraves puderam per- mitir. Muitos ainda devem estar esperando novos investigadores, © que € altamente estimulante e reforca a idéia de que nfo existe Histria nem pesquisa definitivas. Além do mais, consola lembrar que 0 grande Antonio José Saraiva, autor talvez do mais brilhante estudo ja escrito sobre a Inquisi¢ao portuguesa, reputou o trabalho do pesquisador as voltas com a documentacao inquisitorial do Tom- bo como condenado ao “método da pesca a linha”. 18 PARTE I RIQUEZAS DE IMPIEDADES: A SINA DA COLONIA “So cento e quatro as pessoas que hoje saem, us mais delas vindas do Brasil, tibere terreno para diamantes e impiedades.” José Saramago, Memorial do Convento CAPITULO 1 O NOVO MUNDO ENTRE DEUS E O DIABO That unripe sire of earth John Donne, To the Countess of Huntingdon DAS VIAGENS IMAGINARIAS AS VIAGENS REAIS A descoberta da América talvez tenha sido o feito mais espan- toso da histéria dos homens: abria as portas de um novo tempo, diferente de todos os outros — a nenhum semelhante, dizia Las Casas —, somava as jé conhecidas Africa e Asia uma nova porgio do globo, conferia aos homens a totalidade de que eram parte.’ Entretanto, 0 achado nio foi, de imediato, apreendido na sua novi- dade: nas ilhas caribenhas, Colombo buscava, inquieto, os tragos asidticos que Ihe assegurassem ter chegado & terra do Grande Ca, chamando indios aos aborigenes que encontrava, procurando asso- ciar © que via as narrativas de viagem de Montecorvino, Pian del Carpine, Polo e tantos outros exploradores medievais que, do século XIII até fins do século XIV, percorreram a Asia ¢ a regiao do In- dico beneficiando-se da “Pax Mongolica”.? Todo um universo ima- ginério acoplavase a0 novo fato, sendo, simultaneamente, fecundado por ele: os olhos europeus procuravam a confirmacao do que jé sabiam, relutantes ante o reconhecimento do outro.’ Numa época em que ouvir valia mais do que ver, os olhos enxergavam primeiro (© que se ouvira dizer; tudo quanto se via era filtrado pelos relatos (1) Ver T. Todorov, La conquéte de "Amérique — La question de Vau- tre, Paris, Seuil, 1982, p. 14. (2) Jean-Paul Roux, Les explorateurs au Moyen-Age, Paris, Seuil, 1961. (3) Colombo é modelar, neste sentido: “No mar, todos os sinais indicam a proximidade da terra, pois este € 0 desejo de Colombo. Em terra, todos 05 sinais revelam a presenga do ouro: aqui, também, sua convicgdo se talhara por antecedéncia.” E mais adiante: “ele pensa que essas terras so ricas, pois deseja firmemente que 0 sejam; sua convicgio é sempre anterior & experién- cia", Todorov, op. cit. pp. 27 € 28. 21 de viagens fantasticas, de terras longinquas, de homens monstruosos que habitavam os confins do mundo conhecido.* Aos poucos, talvez com traumatismos, as evidéncias da novidade cresceriam sobre 0 acervo milenar do imaginério europeu, destruindo sonhos e fanta- sias, somando-se a outros elementos desencantadores do mundo: em 1820, Leopardi acusou ¢ lamentou este movimento.* Europeu, como tal se perdia na incapacidade de reconhecimento do outro: o uni- verso novo que se constituiu em torno da imagem americana. Ha- viam-se passado trezentos anos, tempo suficiente para que as proje- g6es mentais dos europeus quinhentistas se espraiassem pelo conti- nente recém-descoberto, somando-se ao universo imagindrio de povos de outras culturas e, finalmente, fundindo-se a eles. Com o processo colonizador, tecer-se-ia um imagindrio colonial americano, do qual outros europeus, alm de Leopardi, néo dariam conta. Apesar de especifico — colonial —, 0 novo mundo deveria muito aos elementos do imaginério europeu, sob cujo signo se cons- tituiu. Colombo vira a {ndia na América, impregnado da leitura de obras como 0 Livro das Maravilhas de Mandeville e a Imago Mundi do Cardeal d’Ailly; homem preso ao universo medieval, via para escrever narrativas que, por sua vez, seriam ouvidas.® Assim como, nele, o pensamento medieval se somou ao aventureiro intré- pido de uma nova era — a das navegagdes e das descobertas — também o hébito de ouvir se aliou ao de ver, numa espécie de pre- (4) L. Febvre chamou atengio para a primazia dos sentidos menos inte- lectuais no século XVI em “O homem do século XVI", Revista de Historia, vol. 1, 1950. Ver do mesmo autor Le probleme de l'incroyance au XVI° siecle — La religion de Rabelais, Paris, Albin Michel, 1947, pp. 467 © segs. Ainda nesta linha, R. Mandrou mostrou que, entio, a narrativa “alimentava os Pensamentos ¢ as imaginacdes", 0 homem preferindo escutar a ver, “com toda a impreciséo inquietante que esta preferéncia durdvel comporta” — Introduction 4 la France Moderne — 1500-1640, Paris, Albin Michel, 1974, respectivamente pp. 76 € 77. (5) “Do descobrimento dessa ‘ignota immensa terra’ (...) sé nos sabe dizer que tornou pequeno o mundo, destruindo todo um supramundo de sonhos graciosos ¢ imaginagdes — ‘sogni leggiadri’, ‘belle immaginazioni? — © de ilusdes geogréficas ‘sommamente poetiche’, e da presenca da América faz assim uma funesta ameaga para a poesia” — Antonello Gerbi, La disputa del nuevo mundo — Historia de una polémica — 1750-1900 (1955), trad., Mé- xico-Buenos Aires, Fondo de Cultura Econémica, 1960, p. 350. (6) Todorov diz que Colombo “tudo empreendeu para poder fazer nat inéditas como Ulisses": a narrativa eonstituia ponto de partida para novas viagens. Op. cit., p. 21 22 monigao do primado do visual caracteristicamente barroco.’ Viu-se tomado pela “‘vertigem da curiosidade” que contagiaria tantos depois dele, dos nossos cronistas portugueses a Hans Staden, Knivet e Léry. Colocado a servigo da descoberta do mundo, o olhar comecava a crescer sobre os outros sentidos, captando e aprisionando o raro, 0 estranho, o singular que, anteriormente, também haviam cativado a atengiio medieval. Reorquestrados, os sentidos davam origem a no- vas narrativas de viagem, agora modernas.$ Entretanto, antes de Colombo escrever suas cartas e seu didrio, antes mesmo que os exploradores medievais chegassem & Asia mon- golica e contassem suas viagens reais através de uma estrutura nar- rativa em que o elemento imagindrio ainda ocupava lugar de des- taque, tiveram grande voga no ocidente cristo as viagens imaginé- rias. As complexas narrativas de viagens e vis6es do perfodo caro- lingio constituiram um de seus ndcleos mais interessantes.? No século XII, 0 maravilhoso ganhou forca nova e passou a se mesclar a descrigées geogréficas do mundo desconhecido ou pouco conhe- cido dos europeus: a lenda de Alexandre, por exemplo, popularizou as maravilhas indianas, as mulheres flores e outros seres insGlitos que as Cruzadas haviam tornado mais préximos para o homem feudal.'” Nessa mesma época, difundia-se largamente a lenda do Preste Jodo, soberano cristo do Oriente de que se falaré mais adian- te, Viagens fantésticas para além do mundo conhecido, como e Visdo (7) Sobre a ambigua personalidade de Colombo, diz Michel Lequenne: “um homem de estrutura intelectual mais moderna que a de Colombo, deten- tor dos dados cosmogrificos mais avangados existentes no fim do século XV. teria julgado a travessia da Europa & Asia muito longa e perigosa; um espirito totalmente medieval a teria julgado demasiadamente cheia de perigos por outras razdes. E precisamente porque combinava um pensador medieval a um aventureiro intrépido dos novos tempos que Colombo péde ser 0 homem necessirio” — Introdugio a La découverte de l’Amérique — I. Journal de bord, 1492-1495. Paris, Maspero, 1980, p. 23. (8) Sobre a “vertigem da curiosidade” e 0 “olho a servic da descoberta do mundo”, ver Michel de Certeau, “Etno-graphie: L’oralité, ou espace de Vautre: Léry” in L’écriture de Histoire, Paris, Gallimard, 1975, p. 242. (9) Ver Giuseppe Gatto, “Le voyage au Paradis — La christianisation des traditions folkloriques au Moyen-Age” — Anmales, E.S.C., 34° année, n° 5, set-out. 1979, pp. 929-942. Jacques Le Goff examina muitas dessas viagens no seu trabalho sobre o Purgatério, onde chama a atengdo para a impor- tancia de uma delas, 0 Purgatétio de Séo Patricio, na construgéo da imagem do Purgatério cristéo. La Naissance du Purgatoire, Paris, Gallimard, 1981. (10) Claude Lecouteux, “Paganisme, christianisme et merveilleux”, Anna- les, E.S.C., 37° année, n2 4, jul-ago. 1982, pp. 700-716. 23 de Tundalo, a Navegacdo de Sto Branddo, 0 proprio Purgatério de Sto Patricio, © Livro de Alexandre conheceram “notéve! difusio na rea ibérica durante todo o século XV e, em parte, no século XVI"; dentre elas, destacar-se-ia, pela riqueza de invencdo, a Vida de Santo Amaro, especialmente importante por tratarse de eventura mari- tima na qual se tocam vérias ilhas desertas.'" Desde cedo, portanto, as narrativas de viagens aliavam fantasia ¢ realidade, tornando flui- das as fronteiras entre real e imagindrio: aventuras ficticias como a de Sao Patricio continham elementos extraidos do mundo terreno, aventuras concretas como as de Marco Polo se entremeavam com relatos fantésticos, com situagdes inverossimeis que, tendo ouvido de alguém, o mercador acreditava ter vivido.!? As Viagens de Mandeville so um bom exemplo da fusio entre imagindrio e real. Escritas em francés, provavelmente em Litge, em meados do século XIV, tém por autor um imaginério sir John de Mandeville. Constituem compilacao baseada em textos geogrficos € enciclopédias como a de Vicente de Beauvais, e tiveram vérias edi- des em latim © em diversas linguas européias. Dividem-se em duas partes: um itinerdtio sobre a Terra Santa — “espécie de guia turis- tico para uso de peregrinos”, diz Carlo Guinzburg — e a descrigao de uma viagem a0 Oriente, que atinge ithas longinquas ¢ chega até a India e Catai (China). Termina com a descri¢io do Paraiso Ter- restre © das ilhas que rodeiam o reino mitico do Preste Joao. As duas partes so apresentadas como testemunhos diretos, mas entre uma e outra, ha uma diferenca: “‘a primeira é rica em observagdes precisas e documentadas, a segunda é largamente imaginéria”.!* © que era a realidade da terra para o homem do século XIV? Acreditava-se na existéncia do Equador, dos trépicos, de cinco zonas climéticas, trés continentes, trés mares, doze ventos. A Europa se- tentrional e 0 Atlantico jé se confundiam com o imaginério, sendo (1) Giulia Lenciani, Os relatos de naufrégios na literatura portuguesa dos séculos XVI ¢ XVII, trad. port., Lisboa, Instituto de Cultura Portuguesa, 1978. A citagdo encontrase a p. 52. (12) “A mais pertinente das observagées aparece a0 lado do inverossimi como se 0 maravilhoso fosse inerente a toda descrig&o do mundo asiitico” — Claude Sutto, *L'image du monde a la fin du Moyen-Age” — in Guy H. Allard (org.) — Aspects de la marginalité au Moyen-Age, Montréal, L'Auro- re, Sa p. 63. Ver também Jean Delumeau, A Civilizagdo do Renascimento, trad., Lisboa, Imprensa Universitéria, 1984, vol. I, pp. 49 © segs. (15) Carlo Guinzburg, Le fromage et les vers, trad., Paris, Flammarion, 1980. p. 80 24 descritos quase como ficgdo: na primeira, os hiperbéreos viviam nas trevas; no segundo, havia uma quantidade de ilhas misteriosas. Sobre a Africa, falavase do Magreb e do Egito, desenvolviam-se hipé- teses sobre as fontes do Nilo, que seriam na India — esta, ligada a Africa, fechava 0 Indico — ou no curso superior do Niger. A Asia, grande pélo de fascinio para 0 imagindrio europeu, encerrava © Paraiso Terrestre, vedado por altas montanhas, por uma cortina de ferro e por hordas de animais monstruosos. Ao Norte, ficava 0 Iendério pais de Gog e Magog, composto das tribos israelitas expulsas por Alexandre. No centro, estendia-se o reino do Preste Joao, des- cendente dos reis magos e inimigo ferrenho dos mugulmanos. O primeiro registro que se tem deste reino — importantissimo no ima- ginério europeu — € de Otao de Freising (1145), antecedendo de vinte anos a carta que o Preste teria escrito a Alexandre III, Manuel Comneno ¢ Frederico Barba-Ruiva. Ao Sul, ficava a India, onde as narrativas lendérias situavam a comunidade cristi de Sio Tomés. Para além do Indico, 0 pais dos antipodas, mundo antindmico por exceléncia, povoado de seres monstruosos: cinocéfalos, ciclopes, tro- gloditas, acéfalos, homens-formiga. . .# Durante séculos, 0 Oceano Indico constituiu-se em horizonte mental corporificador do exotismo (ou da necessidade dele) do Oci- dente medieval, “‘o lugar de seus sonhos e do fluir de seus instin- tos”."* Para Le Goff, 0 temor em desvendé-lo seria como o temor em desvendar os préprios sonhos. Uma das componentes bésicas do sonho indiano seria a riqueza, as ilhas transbordantes de pérolas, madeiras preciosas, especiarias, pecas de seda, atrelando o sonho as necessidades de expansio comercial e¢ obtencéo de novos mer- cados complementares ao europeu. A expansio comercial seria, assim, 0 substrato infra-estrutural destas projecdes oniricas, ou pelo menos de parte delas."* Outro lado do sonho indiano era a exube- rancia fantdstica da natureza, dos homens, dos animais — uns ¢ outros, monstruosos: para os europeus, seria a compensagio de seu mundo pobre e limitado. Do ponto de vista sexual, seria a fascina- (14) Claude Suto, op. cit. (15) Jacques Le Goff, “L’Occident médiéval et L’Océan Indien: un ho- rizon onirique” in Pour un autre Moyen-Age — Temps, travail et culture en Occident, Paris, Gallimard, 1977, p. 290. (16) “Horizonte meio real, meio fantéstico, meio comercial, meio mental, ligado & prépria estrutura do comércio do Ocidente medieval, importador de produtos preciosos longinquos, com suas ressondincias psicolégicas” — Le Goff, op. cit., p. 292. 25 40 pela diferenga: canibalismo, nudismo, liberdade sexual, erotis- mo, poligamia, incesto."* Todos estes temas, analisados por Le Goff no tocante ao Indi- co, acham-se presentes na descoberta da América. Com a familiari- dade crescente do europeu em relagfo a0 Indico — em que tiveram papel importante as viagens dos exploradores medievais — os pafses lendérios ¢ as humanidades monstruosas foram sendo empurrados para regides cada vez mais distantes ¢ periféricas, ainda indevassa- das pelos homens do ocidente. Sutto mostra que Gog e Magog pas- saram a habitar o Norte da Rissia. Da Asia Central, 0 Preste Joao se deslocou para a Etiépia. Esta, num primeiro momento, é locali- zada pelo homem medieval na {ndia Meridiana — simbolizando, para Le Goff, a unido entre a Rainha de Sabé ¢ Alexandre, e no mais entre aquela e Salomao. No século XV, os portugueses jé viam a Etiépia como integrando a Africa. Cada vez mais, a Asia aparecia nos relatos com dimensées estritamente humanas.!* Nesta perspectiva, parece licito considerar que, conhecido o Indico ¢ desmistificado 0 seu universo fantéstico, o Atlantico passaré @ ocupar papel andlogo no imaginério do europeu quatrocentista — reduto derradeiro das humanidades monstruosas, do Paraiso Terreal, do Reino do Preste Joao, talvez — como diz frei Vicente do Sal- vador — do reino do préprio demo, que, aqui, travaré combate encarnigado contra a Cruz e seus cavaleiros.”” O maravilhoso estaria fadado @ ocupar sempre as fimbrias do mundo conhecido pelos oci: s longinquas — . dragdes, basiliscos —, Sérgio Buarque de Hollanda diz que estes prodigios “sé se preservaram na India, particularmente, e na Etiépia, que continuaram a ser os dois viveiros de todas as maravilhas, sobretudo enquanto ndo se descobriu 0 novo continente’. Visto do Paraiso — Os motivos edéni- cos no descobrimento e colonizagio do Brasil. 2." ed., Séo Paulo, Companhia Editora Nacional, 1969, p. 198. O grifo é meu. (18) Itinerdrios de viegens ao Paraiso associam-se freqiientemente a noti- cias sobre o reino do Preste Jodo: “Um frade espanhol anénimo, contempo- raneo de Fazio, e que pretendia ter visitado todas as partes do mundo, tam- bém nos oferece sua visio do Paraiso, mas jé agora, acompanhando o itine- rario do misterioso Preste Joao, que, depois de ter sido o grande soberano asidtico, principia a confundirse com 0 potentado cristo da Abissinia, vai situé-lo para os Iados da Nubia e da Etiépia” — Sérgio Buarque de Hollands, op. cit. p. 165. (19) Refiro-me a epigrafe deste livro. Frei Vicente do Salvador, Histéria do Brasil — 1500-1627, 3. edigio revista por Capistrano de Abreu ¢ Rodolfo Garcia, So Paulo, Methoramentos, s.d., p. 15. 26 dentais: 0 mundo coloni teira. A lenda do Preste Joao é elucidativa por dois motivos. Primei- ramente, ilustra de forma modelar a idéia de que ocorre migragéo geogréfica no imaginério europeu, decorrente do devassamento de terras desconhecidas. Em segundo lugar, relaciona-se estreitamente com as navegacées portuguesas e com os descobrimentos. Sérgio Buarque de Hollanda acredita que a duradoura lenda do potentado cristo do Oriente foi desbotada e simplificada pelos portugueses, pouco dados a devaneios fantésticos. Reconhece, entretanto, que este povo de navegantes teve papel de destaque na “‘demanda do fabuloso pais do Preste Joio”*” Em 1487, quando deixaram Por- tugal encarregados de descobrir 0 caminho terrestre para as Indias, Afonso de Paiva e Pero da Covilha levavam instrugies de D. Joao II para o reconhecimento da terra do Preste. Como diz Sérgio Buarque de Hollanda, a lenda era entao ja velha de mais de um século, ¢ nao lucrou muito da imaginago lusa; nao se atém entretanto o nosso historiador maior ao fato de que, incorporando-a, inscreveram-na os portugueses na génese da empresa de devassamento do mundo. No imaginério dos marinheiros portugueses que partiram com Vasco da Gama ou com Cabral, 0 quanto teria pesado a expectativa de, afinal, tocar as terras lendérias do rei cristo? E ainda Sérgio Buarque de Hollanda quem mostra o desloca- mento do mito do Paraiso Terrestre para o universo atlantico, vindo dos confins da Asia e da Africa e associado, neste novo habitat, a tradigdes célticas bastante antigas*" Tratou-se de um processo lento: no século X, 0 Paraiso Terrestre se situava no meio do Oceano; subseqiientemente, foi-se deslocando ora para o norte, ora para 0 este, acompanhando 0 progresso dos conhecimentos geogréficos, “até desaparecer jé em fins do século XVI, embora nio se dissipe da imaginacao popular antes do século XVIII” 22 Acumulando lendas, deslocando-as no espaco, refundindo-as, 0 imaginario europeu englobou também o arquipélago das ilhas Brasil, possivel transformacao sofrida pela ilha de Sao Brandio. De 1351 americano seria, pois, a sua ultima fron- (20) Sérgio Buarque de Hollanda, op. cit., p. 140. (21) “A trasladago para 0 Atlantico de tio nunciada com as tradigdes pags das ilhas Afortunadas ou do Jardim das Hespérides, ¢ por elas de algum modo fertilizadas, j4 ganhara alento, por sua vez, quando passaram a engastarse na mitologia céltica, principalmente irlandesa e gaél = op. cit, p. 166. (22) Sérgio Buarque de Holanda, op. cit., p. 167. os cenérios, jé pre- 27 a 1508, teria conhecido miltiplas variagdes: Brazi, Bracir, Brasil, Brasill, Brazil, Brazile, Brazille, Brazill, Bracil, Bracil, Bracill, Bersill, Braxil, Braxili, Braxill, Braxyilli, Bresilge.*® Em 1367, a carta de Pizi gano acusava trés ilhas Bracir, que, a partir de entdo, seriam regis- tradas na maioria das cartas maritimas; sua posi¢o se manteria inal- terada: ‘a mais meridional das ilhas encontramos assinalada no grupo dos Acores, aproximadamente na latitude do cabo de Sao Vicente; a segunda demora a NW do cabo de Finisterra, na lati- tude da Bretanha; a terceira a W e nao muito longe da costa da Irlanda’” 24 Provavelmente, frei Vicente do Salvador nao tinha conheci- mento da presenca do nome Brasil nas cartas medievais, e parece-me ter sido o primeiro a explicar a designagfo pela presenca da madeira tintorial de cor avermelhada. Entretanto, € curios notar que, a0 fazé-lo, forneceu uma complicadissima explicagao de cunho reli- zioso, alusiva ao embate entre o Bem e o Mal, 0 Céu — reino de Deus — e 0 Inferno — reino do deménio. Mais do que isso, asso- ciou “esta porcdo imatura da Terra” ao Ambito das possessdes de- monfacas: sobre 2 colénia nascente, despejou toda a carga do ima- ginério europeu, no qual, desde pelo menos o século XI, o deménio ocupava papel de destaque. Se a identificagdo com as regides infer- nais é transparente no texto de frei Vicente, a associacao entre o fruto de uma viagem concreta — © descobrimento do Brasil — e as tantas viagens imagindrias que os europeus vinham empreendendo havia séculos 0 € menos, apesar de to legitima quanto aquela. © Brasil, colénia portuguesa, nascia assim sob o signo do Demo e das projecées do imagindrio do homem ocidental. Mas 0 dominio infernal nao era a Gnica possibilidade, neste trecho de frei Vicente. © primeiro movimento — 0 de Pedro Alvares — se fez no sentido do Céu: a este acoplar-se-ia a colénia, ndo fossem os esforgos bem sucedidos de Lucifer, pondo tudo a perder. O texto de nosso pri- meiro historiador é extraordindrio justamente por dar conta da com- plexidade subjacente as duas possibilidades: enxergar-se a colénia como dominio de Deus — como Paraiso — ou do Diabo — como (23) Capistrano de Abreu, O descobrimento do Brasil pelos portugueses, Rio de Janeiro, Laemmert & C., 1900, p. 48. (24) K. Kretschmer, Die Entdeckung Amerikas in ihrer Bedeutung fuer die Geschichte des Weltbildes, Berlim, 1892. Apud Capistrano de Abreu, 0 , p 49. Na cidade de Angra, na itha Terceira, existe um monte Brasi na Irlanda, encontrase um baixio designado Brasil Rock. Capistrano, op. cit., P. 50. 28 Inferno. Para frei Vicente, 0 deménio levou a melhor: Brasil foi © nome que vingou, e o frade lamenta que se tenha esquecido a outra designaco, muito mais virtuosa e conforme aos propésitos salvacionistas da brava gente lusa. Em posi¢ao bastante diversa, Jaboatéo — outro frade — enxer- gou o descobrimento do Brasil como sobrenatural e miraculoso: por muitos anos Deus mantivera oculta a existéncia desta dilatada re- gido, desvendando-a por fim aos olhos dos homens e permitindo que deste tesouro colhesse o Céu “multiplicados lucros”. Prodigioso nao € apenas o que ocorre de forma sobrenatural e milagrosa, mas também “‘o que naturalmente acontece fora da ordem comum das coisas”, tal como se deu com o descobrimento do Brasil, por isso miraculoso e sobrenatural.** Para Jaboatao, o sobrenatural inter- vém positivamente no caso do descobrimento: este € uma aco divina, foi Deus quem, através de seus designios insondaveis, con- duziu os homens até aqui. O descobrimento revela e reforca a exis- téncia de Deus: milagre divino, eis 0 que foi o achamento da colé- nia portuguesa na América. Separadas do evento que interpretam por um néimero menor ou maior de anos — no caso de Jaboatao, dois séculos e meio —, as formulacdes dos dois religiosos fazem pensar nas persisténcias do universo mental, menos permedyel as mudancas que as estruturas econémicas e sociais. A época das descobertas caracterizara-se por religiosidade exacerbada, 0 préprio descobridor da América, como se sabe, pensando seriamente na possibilidade de usar 0 ouro ameri- cano numa Cruzada contra o Infiel. Para Colombo, poder-se- dizer que foram trés os motiyos das nayegacées: o humano, o divi- no, © natural.?* Componentes do universo mental, nunca estiveram isolados uns dos outros, mantendo entre si uma relagao constante e contradit6ria: na esfera divina, nao existe Deus sem 0 Diabo; no mundo da natureza, nao existe Paraiso Terrestre sem Inferno; entre os homens, alternam-se virtude e pecado. A aventura maritima desenrolou-se pois sob forte influéncia do imaginério europeu tanto na vertente positiva quanto na negativa. A idade de ouro das utopias européias vinculou-se estreitamente as grandes descobertas, os relatos de viagem, “embelezados pela ima- ginagdo”, agindo como choque cultural e provocando cotejos e ques- (25) Antonio de Santa Maria Jaboatio — Novo Orbe Serafico Brasilico ou Cronica dos frades menores da Provincia do Brasil (1761), vol. I, Ri Tipografia Brasiliense de Maximiano Gomes Ribeiro, 1858, pp. 8-9 (26) Todorov, op. cit., p. 22. 29 tionamentos das estruturas sociais de entdo.*" Thevet e sobretudo Léry tiveram influéncia na construcéo do mito do bom selvagem, e as tendéncias edenizadoras tém ressonncia em muitas das cré- nicas ¢ tratados escritos sobre o Brasil, Gandavo sendo considerado, entre outros, propagandista da colonizagao portuguesa nos Tr6pi- cos.?* Mas mesmo nas formulacdes mais réseas, embutia-se 0 risco, © perigo, a morte, O préprio Thevet aponta o outro lado da expan- so, o medo do mar oceano, dos sorvedouros, dos Gigantes Adamas- tores: “‘abandonado ao talante e 4 mercé do elemento mais incons- tante, menos piedoso, e menos seguro entre todos, com pequenos navios de madeira, frégeis e desconjuntados (dos quais se pode quase sempre esperar mais a morte que a vida) para navegar no rumo do pélo Antértico, que nunca foi descoberto nem conhecido pelos antigos..."2° Léry © os companheiros chegaram a pensar que se- tiam eternos prisioneiros do mar: “E de fato, porque havia perto de quatro meses que estévamos sacudindo e flutuando sobre o mar sem tocar nenhum porto, e nos acudia freqiientemente que ali estévamos como exilados, parecia-nos que nunca haveriamos de dali sair” As promessas tentadoras de Gandavo tiveram um reverso trégico (27) J. Servier, Histoire de !'Utopie, Paris, Gallimard, 1967. Apud Jean Delumeau, Le péché et Ja peur — La culpabilisation en Occident — XIII¢- XVI« sigcles. Paris, Fayard, 1983, p. 141 (28) Se os autores so undnimes em destacar a importincia de Léry neste assunto, © mesmo nao acontece com Thevet; Charles-André Julien, entretanto, considera-o “seguramente 0 pai do bom-selvagem, pois foi nas Singularitez que Ronsard encontrou a idade de ouro com que sonhava”. Introdugo a Les Francais en Amérique pendaat la deuxidme moitié du XVIé siécle. Paris, PUF, 1953, p. V. Sobre Gandavo, diz Capistrano: “... seu projeto se reduz a mostrar as riquezas da terra, os recursos naturais € sociais nela existentes para excitar as pessoas pobres a virem povoé-la: seus livros sio uma propa ganda da imigracdo”. Nota bibliogrifica a Tratado da terra do Brasil, Rio, Edigéo Anuério do Brasil, s.d., p. 18. (29) André Thevet, Les singularitez de la France Antarctique, ed. Paul Gaffarel, Paris, Maisonneuve & Cie., 1878, p. LV. O grifo € meu. 0) Jean de Léry, Histoire d'un voyage faict en la terre du Brésil, vol. 1, Introd. ¢ notas de Paul Gaffarel, Paris, Alphonse Lemerre Editeur, 1880, p. 73. Se 0 medo do mar € 0 medo do desconhecido, os seres que vm do mundo em que se navega podem trazer perigo: € 0 que parece dizer a digo dos tempestirios medievais. Na Alta Idade Média, as populagées ru: da Europa tinham pavor dos maleficios acarretados pela ago dos tempesté- rios, seres que, no meio das tormentas, navegavam os ares em barcos ¢ rou- bavam colheitas. Dos camponeses, dizia Agobardo: “créem e sustentam que existe um pais chamado Mag6nia, de onde vem naves através das nuvens”. Agobardo chama-os “marinheiros do ar”. Oronzo Giordano, Religiosidad popu. lar en la Alta Edad Media, trad., Madrid, Editorial Gredos, pp. 142 € 278. 30 nos relatos de naufrégios portugueses, género lite florescou nos séculos XVI e XVII, e nos quais “no temos sendo naus engolidas pelas ondas, equipagens dizimadas pelas doengas, so- frimentos inauditos de mulheres, velhos, ctiangas, magros ganhos para os mais afortunados, que conseguirao por vezes sobreviver a uma viagem mas morrerdo na seguinte”.* Vendo a expansao ultra- marina como “mesquinha ansia de cobiga e opressio”, os autores desses relatos acusaram a instrumentalizagao ideolégica que se fazia dos elementos do imaginério, fundidos na justificativa da “dilatagao da {é e do império”. Descoberto, 0 Brasil ocuparé no imagindrio europeu posigao anéloga & ocupada anteriormente por terras longinquas € misteriosas que, uma vez conhecidas e devassadas, se desencantaram. Com 0 escravismo, este acervo imaginario seria refundido e reestruturado, mantendo, entretanto, profundas raizes européias. Prolongamento modificado do imaginério europeu, o Brasil passava também a ser prolongamento da Metrdpole, conforme avancava 0 processo colo- nizatério, Tudo que li existe, existe aqui, mas de forma especifica, colonial. Mais uma vez, é 0 argutfssimo frei Vicente quem percebe a semelhanca na diferenca: “de Portugal vem farinha de trigo? a da terra basta. Vinho? de agticar se faz muito suave e, para quem © quer rijo, com o deixar ferver dois dias embebeda como o de uvas. Azeite? faz-se de cocos de palmeiras, Pano? faz-se de algodio com menos trabalho do que 14 se faz o de linho e de la... Améndoas? também se excusam com a castanha de caju, et sic de ceteris”? “Este Brasil € jé outro Portugal”, diria Fernio Cardim, acrescen- tando, logo em seguida, as diferencas: o clima muito mais tempe- rado, as doencas muito mais raras, mas menores as comodidades no morar € no vestir.** Percepgao precoce do ser-e-nao-ser; no sé- culo XVIII, ela se agugaria. A América era muito mais filha da Europa do que jamais o foram a Asia e a Africa: mas “era Europa, € a0 mesmo tempo a ndo-Europa; era a antitese geogrifica, fisica e muito logo politica da Europa...” O bom ¢ o ruim, 0 Céu € 0 Inferno que acabayam se harmonizando na Europa — na me- trépole — podiam, aqui — colénia — mais do que em nenhum lugar, tender & polarizagao. No tocante a natureza, a idéia de pro- (31) Giulia Lanciani, op. cit., pp. 130-131. (32) Frei Vicente do Salvador, op. cit. p. 51 im — Tratados da terra e gente do Brasil, 3+ ed., So Paulo, Companhia Editora Nacional/MEC, 1978, p. 66. (34) Gerbi, op. cit, p. 143. Bae longamento da Europa — e portanto lugar de concretizagio dos mitos de um Paraiso Terrestre — tendeu a triunfar: quase sempre, edenizou-se a natureza. Mas no que disse respeito a humanidade diversa, pintada de negro pelo escravo africano e de amarelo pelo indigena, venceu a diferenca: infernalizou-se 0 mundo dos homens em proporcées jamais sonhadas por toda a teratologia européia — lugar imagindrio das visdes ocidentais de uma humanidade invidvel. Houve perplexidade ante as nuvens de insetos, as cobras enormes, © calor intenso; mas ante o canibalismo e a lassidfo do indigena, a feiticaria ¢ a mtsica ruidosa dos negros, a mestigagem e, por fim, © desejo de autonomia dos colonos, houve repiidio NATUREZA: PREDOMINANCIA DO EDENICO A. expansio ocidental caracterizou-se pela bifrontalidade: por um lado, incorporayam-se novas terras, sujeitando-as ao poder tem- poral dos monarcas europeus; por outro, ganhavam-se novas ove- Ihas para a religiao e para o papa.** De todos os frutos que poderia dar a terra recém-descoberta, pareceu a Caminha que o melhor seria salvar a gente indfgena. “E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve langar”, permitia-se aconselhar, com grande naturalidade, o escrivéo de Calicute. A propagacéo da fé cat6lica aparece, no texto de Caminha, como forte desejo do mo- narca: “fazer 0 que Vossa Alteza tanto deseja, a saber acrescenta- mento de nossa santa fé!”*" Quase cingiienta anos depois, D. Joao IIT reiterava os propésitos cristianizadores da monarquia portugue- sa: “a principal cousa que me moveu a mandar povoar as ditas terras do Brasil foi para que a gente dela se convertesse & nossa santa {& catélica”’, escrevia, em 1548, a Tomé de Souza? Tornowse lugar comum afirmar que a religiéo forneceu os mecanismos ideolé- gicos justificatrios da conquista e colonizagao da América, enco- brindo e escamoteando as atrocidades cometidas em nome da fé. E incontestével que assim foi, Mas se tanto foi dito acerca das rela- (85) Sobre 0 caréter bifronte da expansio, ver Luis Filipe Bacta Neves, © Combate dos soldados de Cristo na Terra dos Papagaios — Colonialismo ¢ repressio cultural, Rio, Forense-Universitaria, 1978, p. 28. (56) Carta de Pero Vaz de Caminha in Carlos Malheiro Dias (org), His- t6ria da Colonizago Portuguesa do Brasil, vol. 11, Porto, Litografia Nacional, 1923, p. 99. Grifo no original. (G7) Regimento de Tomé de Souza — 17-12-1548, in Malheiro Dias. op. cit., vol. III, p. 347. 32 gOes entre infra-estrutura e superestrutura, quase nfo se procurou esmiugar 0 mundo complexo da religiosidade. Nunca é demais lem- brar que o fim da Idade Média e os inicios da Epoca Moderna caracterizaram-se por uma religiosidade funda, exacerbada, cheia de angtistia.®* Portanto, sem que os propésitos materiais fossem aca- nhados, cristianizar era, de fato, parte integrante do programa colo- nizador dos portugueses diante do Novo Mundo. Mais do que isto: parte importante, dado o destaque que tinha a religio na vida do homem quinhentista Os portugueses se imbuiram sinceramente de seu papel missio- nario. “Os outros homens, por instituigéo divina tém s6 obrigacao de ser catélicos: 0 portugués tem obrigagao de ser catélico e de ser apostélico. Os outros cristéos tém obrigacdo de crer a fé: 0 portu- gués tem obrigagao de a crer e mais de a propagar”, dizia Vieira, um século e meio apés a descoberta. Para o zelo missionério, 0 exemplo vinha de cima: do rei — “Todos os reis so de Deus feitos pelos homens: o rei de Portugal é de Deus e feito por Deus e por isso mais propriamente seu” — e do prdprio Deus, que elegera os portugueses dentre os demais povos, numa espécie de repeticao da histéria de Israel.*? fe A f€ nao se apresentava isolada da empresa ultramarina: pro- pagava-se a fé, mas colonizava-se também. As caravelas portuguesas eram de Deus, nelas navegavam juntos missiondrios e soldados, pois “nao 86 sio apéstolos os missionérios sendo também os soldados capitaes, porque todos yao buscar gentios e trazé-los ao lume da fé © ao grémio da Igreja”.“° No primeiro quartel do século XVIII, Rocha Pita continuaria explicando teologicamente o descobrimento do Brasil. Aqui, a terra era inculta e barbaros os seus habitantes “quando a descobriu o general Pedro Alvares Cabral”, (...) “ale- gre de ser 0 primeiro que achou uma incégnita regido de tanto genti- lismo (em que 0s nossos monarcas tinham 0 que suspiravam, para dilatar a nossa catélica fé, que era o intento com que mandavam sulcar os mares com tao repetidas armadas)..."" Dilatagdo da fé, colonizacao e fortalecimento do poder monérquico sempre apare- (38) Ver, entre outros trabalhos de Jean Delumeau, as belissimas pagi nas iniciais de Naissance et affirmation de la Réforme, Paris, PUF, 1968, pp. 47-57. (39) Eduardo Hoornaert, A igreja no Brasil-Colénia — 1550-1800, Sto Paulo, Brasiliense, 1982, p. 40. (40) Hoornaert, op. cit., p. 41. O autor diz que 0 messianismo teolégico, centrado no rei de Portugal, seria a chave interpretativa dos discursos de Vieira. 33 cem associados: D. Joao III “espenhou o seu catdlico zelo na em- presa, assim das terras como das almas do Brasil, e conseguiu ambos os triunfos, trazendo tantas ovelhas ao rebanho do universal pastor, como stiditos ao jugo do seu dominio”. Em formulagao quase idén- tica a de Vieira, dizia Rocha Pita que, para as colénias portuguesas, © monarca enviava “juntos capitdes ¢ missiondrios”.** Frei Vicente justificava a lide colonizadora através da religiao: dentre os produtos cultivados na colénia, figuravam o pao e 0 vinho, necessdrios ao sacramento da missa. “Se me disserem que nfo podé ‘sustentar-se a terra que nao tem pao de trigo e vinho de uvas para as missas, concedo, pois este divino sacramento é nosso verdadeiro sustento; mas para isso basta o que se da no mesmo Brasil em Sao Vicente e campo de Sao Paulo...” *? Incorporava-se assim a natu- reza colonial & esfera do sagrado. Gandavo propunha entreter os colonos na exploracao de rique- vas maritimas enquanto nao se descobriam minas de metal precioso uo interior; dizia que, além de explorar estas riquezas, importava muito trazer indios do sertao, pois “postas ao lume e conhecimento da nossa Santa Fé Catélica”, suas almas seriam salvas.** Cabia ao colono descobrir riquezas na terra e ainda enriquecer os céus, con- vertendo almas. Parece mesmo haver um movimento de reciproci- dade, uma espécie de contabilidade: os bons cuidados da Providén- cia, propiciando o achado de prata ¢ ouro, deveriam ser pagos com almas; por outro lado, quanto mais almas se enviassem aos céus, melhores seriam as disposigdes do Criador para com os colonos. Segundo o padre Simao de Vasconcellos, a atengao divina se voltou primeiro para a Europa, Asia e Africa: 14 colocou o homem, o Paraiso Terrestre, os patriarcas. A outra parte do mundo, “nao menos aprazivel”, deixou-a sem paraiso, sem patriarcas, sem pre- senca divina, luz da f€ e salvacao durante 6691 anos. Findo este prazo, “‘deu ordem como aparecesse este novo e encoberto mundo”, fazendo seu 0 brago dos portugueses ¢ encarregando-os de difundir a f€ nas novas paragens.** Mais uma vez, a idéia de que Deus proveu (41) Sebastiio da Rocha Pita, Histéria da América portuguesa desde 0 ano de mil e quinhentos do seu descobrimento até o de mil e setecentos vinte € quatro (1730). Lisboa, Editor Francisco Artur da Silva, 1880, respec- tivamente pp. 27 ¢ 29. (42) Frei Vicente do Salvador, op. cit, p. 51. (45) Pero de Magalhaes Gandavo, Histéria da Provincia de Santa Cruz (1576), Rio de Janeiro, Edigao Anusrio do Brasil, s.d., pp. 119-120. (44) Hoornaert, op. cit., pp. 68-69. Os trechos de Simao de Vasconcellos pertencem & Crénica da Companhia de Jesus no Brasil (1663). 34 a tudo, determinando que os portugueses descobrissem terras para colonizé-las, cristianizando-as; mais uma vez, a idéia de um “reino de Deus por Portugal”. Era pois generalizada, sobretudo entre eclesidsticos, a idéia de que o descobrimento do Brasil fora aco divina; de que, dentre os povos, Deus escolhera os portugueses; de que estes, uma vez. senho- res da nova colénia, tinham por dever nela produzir riquezas mate- riais — explorando a natureza — e espirituais — resgatando almas para patriménio divino. Acdo divina, 0 descobrimento do Brasil desvendou aos portu- gueses a natureza paradisfaca que tantos aproximariam do Paraiso buscavam, assim, no acervo imaginério, os elementos de jade, a vegetagio luxu- riante, a amenidade do clima as descrigGes tradicionais do Paraiso Terrestre tornava mais préxima e familiar para os europeus a terra to distante e desconhecida. A presenca divina fazia-se sentir tam- bém na natureza; esta, elevada a esfera divina, mais uma vez reite- rava a presenga de Deus no universo. E 0 que dizem entre outros Rocha Pita, Thevet ¢ Léry. O pri- meiro, em passagem célebre, descreve a flor do maracujé associan- doa & paixio de Cristo: “‘misterioso parto da natureza, que das mesmas partes que compés a flor, Ihe formou os instrumentos da sagrada paixio”."* Thevet, deslumbrado com a beleza de um pés- saro, possivelmente da familia das araras, constata: “Vés nio sabe- rieis deixar de louvar aquele que € 0 artesio de tio bela obra’”s* Léry, autor de maior fOlego, procura, numa passagem admirével, mostrar que a diversificagao do mundo natural ¢ prova da grandeza da obra divina. Durante 0 ano em que permaneceu na Franga Antér- tica, Léry diz ter observado érvores, frutos ¢ animais totalmente diferentes dos encontrados na Europa; cada vez que Ihe vinha & lembranca a imagem daquele mundo novo, “‘a serenidade do ar, a diversidade dos animais, a variedade dos passaros, a beleza das Arvores ¢ das plantas, a exceléncia dos frutos, (...) as riquezas que ormam esta terra do Brasil”, lembrava-se da exclamagdo do Profeta no salmo 104: “'O Seigneur Dieu que tes oeuvres divers Sont merveilleux par le monde univers © que tu as tout fait par grand sagesse! Bref, la terre est pleine de ta largesse.”” (45) Rocha Pita, op. cit., p. 15. (46) A. Thevet, Les francais en Amérique, p. 166. 35 Felizes os povos que 14 habitam, conclui; mas faz a ressalva: “se conhecessem o autor e criador de todas estas coisas”.*? A posicao de Thevet € mais singela: a beleza e perfeigéo do mundo natural remetem a Deus, provam mais uma vez que Ele exis- te: que outro arteso poderia fazer obra tao perfeita? Léry vai mais adiante: a beleza do novo mundo reforca a existéncia de Deus, mas nao sé por ser bela, e sim por ser diferente. O especifico, neste contexto, comprova o variado ¢ 0 miltiplo contidos na vontade ¢ na ago divinas. Deus existe, pois, por fazer o belo ¢ por fazer diferente. O caso de Léry reflete, evidentemente, a concepgao calvi- nista de que o mundo foi criado para a gléria de Deus: como se sabe, Léry participou da tentativa francesa ¢ calvinista de estabelecer uma colnia religiosa no Brasil. Incorporando esta concepgao, leu © mundo colonial sob prisma religioso. Nesta leitura, catélicos ¢ protestantes acabaram convergindo. Se para 0 Novo Mundo deslocaram-se proje¢ées do imagindrio europeu, se expansao da fé e colonizagio caminharam juntas, nada mais natural que o descobridor da América fosse também o seu primeiro “edenizador”.** Soldado de Cristo, considerava a salva- do das almas. Ora, para justificar a necessidade de cristianizagio, havia que denegrir os homens autéctones. Denegrindo-os, estava jus- tificada a escravizagao. Colombo inaugurou assim 0 movimento duplo que ira perdurar por séculos em terras americanas: a edenizagdo da natureza, a desconsideragéo dos homens — barbaros, animais, deménios. Esta tendéncia — associar os homens da coldnia a ani- mais ou a diabos — se agudizaria posteriormente; mas em Colombo é incontestavel o interesse sempre renovado pelo exame da natureza € 0 desinteresse pelos homens que dela usufruem. “Aqui, ¢ por toda a ilha, as drvores sao verdes ¢ as ervas também, como no més de (47) Jean de Léry, Histoire d'un voyage..., vol. I, pp. 27-28. “Quito numerosas so tuas obras laweh, © todas fizeste com sabedoria! A terra esté repleta das tuas criaturé (Tradugdo em portugués, A Biblia de Jerusalém, Séo Paulo, Edigses Paulinas, 1981). (48) “O processo de transposicéo teve inicio no exato momento em que Colombo pousou os olhos pela primeira vez nas ilhas do Caribe. As varias conotagdes do Paraiso e da Idade de Ouro estiveram presentes desde 0 inicio. Inocéncia, simplicidade, fertilidade ¢ abundancia — qualidades pelas quais a Europa renascentista ansiava, e que pareciam tio inatingiveis — faziam-se presentes nos relatos de Colombo e de Vespiicio...” — J. H. Elliot, The Old World and the New — 1492-1650, Londres, Cambridge University Press, 1972, p. 25. 36 abril na Andaluzia. © canto dos passarinhos 6 tal que pareceria homem nenhum daqui quisesse partir. Os bandos de papagaios obscurecem o sol. Passaros e passarinhos sio de tantas espécies ¢ tao diferentes dos nossos que € uma maravilha”, diria 0 desco- bridor.** Desde sua primeira viagem, com base em analogias entre o que tinha diante de si e 0 que era em autores como Mandeville, Colom- bo procuraria provar que chegara nas imediagdes do Paraiso Ter- restre."° Como ele, inimeros autores aludiriam exaustivamente presenca do Paraiso em terras americanas — no sentido literal, ou no figurado."" Frei Vicente do Salvador no chegou a expressar a idéia de que o Paraiso era aqui, mas afirmou sem pudor que “é © Brasil mais abastado de mantimentos que quantas terras hé no mundo, porque nele se dio os mantimentos de todas as outras”’.'* Nisso, repetia aquele que primeiro escreveu sobre o Brasil: Pero Vaz de Caminha. Sem qualquer referéncia ao Paraiso Terrestre, preocupando-se muito mais em descrever homens do que paisagens, dizia este ser a nova terra “em tal maneira graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-4 nela tudo; por causa das éguas que tem”. A utilidade potencial do achado importava mais do que desvarios fan- tasistas: contraste com Colombo, incapacidade lusa de sonhar, diria Sérgio Buarque de Hollanda. O aspecto da terra? “Muito cha, muito formosa”, “muito grande”, “muitos bons ares, frescos ¢ tempera- dos”. Jé para Rocha Pita, o Brasil ndo era apenas a melhor porg’io do Novo Mundo, “vastissima regio, felicissimo terreno em cuja superficie tudo so frutos, em cujo centro tudo sio tesouros, em cujas montanhas ¢ costas tudo so aromas”, pais admiravel em que a natureza profusa desentranha férteis produgdes para “opuléncia da monarquia ¢ beneficio do mundo”: € © proprio Paraiso Terres- (49) ‘Da terra vinha um perfume tao bom € tio suave, das flores ou das Grvores, que era a coisa mais doce do mundo”. Ambas as citagdes em Todo- tov, op. cit, p. 31. A p. 39, este autor nota em Colombo a “preferéncia pelas terras mais do que pelos homens”. Estes seriam vistos como parte da paisagem (p. 40). A p. 33, alusdes a Colombo colonizador © evangelizador. (50) Ver Claude Kappler, Monstres, démons et merveilles @ la fin du Moyen-Age, Paris, Payot, 1980, pp. 92 € segs. (51) & mais uma vez Sérgio Buarque de Hollands, a quem estas refle- xées devem tanto, que analisa com propriedade a recuperagéo da idéia de Paraiso Terrestre encetada pela Epoca Moderna. Visio do Paraiso, pp. 181-183. (52) Frei Vicente do Salvador, op. cit., p. 37. (53) Carta de Pero Vaz de Caminha in Malheito Dias, op. cit., p. 99. 37 tre." Vale a pena citar 0 trecho em que defende esta posido, pois apresenta todos os atributos paradisiacos que, depois dele, repetiu-se & exaustdo (inclusive no nosso Hino Nacional): “Em nenhuma outra regidio se mostra o céu mais sereno, nem madruga mais bela a aurora; © sol em nenhum outro hemisfério tem os raios tio dourados, nem os reflexos noturnos tao brilhantes; as estrelas so as mais benignas, e se mostram sempre alegres; os horizontes, ou nasca o sol, ou se sepulte, esto sempre claros; as éguas, ou se tomem nas fontes pelos campos, ou dentro das povoacées nos aquedutos, séo as mais puras: é enfim o Brasil terreal paraiso descoberto, onde tém nascimento € curso os maiores rios; domina salutifero clima; influem benignos astros, e respiram auras suavissimas, posto que por ficar debaixo da t6rrida zona o desacreditassem e dessem por inabitavel Aristé- teles, Plinio e Cicero MM Jaboatéo repetiria muitos dos atributos edenizadores enunciados por Rocha Pita. O Brasil, “‘porcéio notével, deliciosa ¢ rica da grande América”, ficou muito tempo “oculta & noticia dos humanos dis- cusos”. Levou por isso 0 nome de quarta parte do mundo, sem entre- tanto desmerecer o titulo de primeira. Ares sauddveis, frescas vira- des, clima benigno, terreno fértil, 0 conjunto todo sendo recluso por duas preciosas chaves: uma de prata, demarcando-the a porcdo sul outra de ouro, delimitando-lhe o norte. O autor procurava desta forma uma aproximagao com o Paraiso Terrestre, chamando a aten- cdo para os rios da Prata e Amazonas, que fechavam as terras bra- sileiras. A beleza da perspectiva — o mundo natural — reforcava a idéia de Paraiso Terrestre: “‘montes empinados” e “vales estendi- dos” cheios de arvoredos frondosos, incorruptiveis, frutiferos, cober- tos de “‘pomos a qualquer estagao do ano”; flores alegres ¢ matizadas, crescendo “sem mais cuidado para o seu cultivo, que o da natureza, e do tempo”, distraindo a vista e excitando o olfato; ayes que tanto “recreiam a vista com 0 vario € lustroso das penas” como “‘satisfazem © gosto com 0 saboroso e desenfastiado das carnes”, além de encan- tarem os homens com sew canto suave. Em suma, um mundo novo, no qual 0 Criador procurava emendar algumas imperfeigdes do mun- do antigo: “Um novo mundo enfim, e uma tio bem disposta estagio para viver 0 homem, que nao merecia muita censura, quem quisesse plantar nela o Paraiso Terreal, ou ao menos descrevé-la com as exceléncias, ¢ prerrogativas de um terreal Parafso” 5* (54) Rocha Pita, op. cit., pp. 1 € 2. (55) Idem, idem, p. 2. Grifo meu. (56) Jaboatao, op. cit., vol. 11, pp. 3-6. 38 Como se vé, Jaboatiio nao chega a afirmar que o Paraiso ter- restre se encontrava no Brasil, temeroso, talvez, de que sua obra ivesse o destino da do padre Simao de Vasconcellos.*? Entretanto, mesmo que meio timidamente, insinua a analogia em mais de uma passagem: citando autor que ndo nomeia, exalta as qualidades de Pernambuco — a mais “florente, fértil e opulenta” das capitanias. 'O seu clima € um segundo Paraiso”, acrescentava, deixando de lado, e para outros, a questao do Paraiso inicial.** Homem do século XVI, o inglés Knivet, marinheiro de Caven- dish, deixou algumas imagens interessantes sobre o Eldorado, acusa- doras da forga que teve o imaginério europeu na maneira de se enxergar 0 Novo Mundo. Como Gandavo e Gabriel Soares, avistou as Serras Resplandecentes: “‘Arribamos a seguir a uma vasta regio divisando & nossa frente imensa ¢ resplandecente montanha, dez dias antes de poder atingi-la, pois quando chegados & regio plana, fora das serras, com o sol em seu auge, néo era suportével avangar na diregdo deste monte, em razio do seu brilho que nos ofuscava os olhos”. Knivet tinha entao certeza de que se avizinhava o Potosi, como acontecia todas as vezes que se achava ouro e pedras preciosas: “.. .aleangamos numerosas montanhas, nelas encontrando boa cépia de ouro ¢ muitas pedras preciosas; quando chegamos a esta regiao, cuiddvamos estar na provincia do Peru”.*® Pero de Magalhaes Gandavo e Ambrésio Fernandes Brandao constituem expoentes da vertente edenizadora; seu interesse decorre, (57) O padre Simio de Vasconcellos, nas “Noticias curiosas € necessérias das coisas do Brasil” que abrem a Crénica da Companhia de Jesus, afirmou que o Paraiso terrestre se encontrava na América, mais precisamente no Brasil. Com isto, teve confiscados os exemplares de sua obra, que, apés discussio de varios doutores, “undnimes em sustentar que nada havia neles em contrério & Santa Fé Catdlica", acabou sendo expurgada da tal passagem. ‘Sérgio Buarque de Hollanda, op. cit, pp. XXII e XXIII. (58) Jaboatio, op. cit., vol. I, p. 149. © grifo é meu. No titubeio e na timidez de um Jaboatdo, talvez se pudesse detectar aquilo que Sérgio Buarque de Hollanda viu como uma quase incapacidade lusa de edenizar. Em posicao semelhante, Silva Dias reconhece a contribuicéo dos portugueses a revives- céncia do mito da idade do our, mas a atenua: *...ndio thes cabem as res. ponsabilidades fundamentais do prestigio reconquistado pelo mito, Essas res- ponsabilidades cabem aos espanhéis da época de Carlos V ¢, sobretudo, 205 franceses que escreveram depois do primeiro quartel do século” — J. S. da Silva Dias, "A revolugdo dos mitos e dos conceitos", Os descobrimentos ¢ a problemdtica cultural do século XVI, Coimbra, Publicagdes do Seminétio de Cultura Portuguesa, 1973, p. 189. (59) Anthony Knivet — Varia fortuna e estranhos jados, Sd Paulo, Bra- siliense, 1947, respectivamente pp. 82 ¢ 145. O grifo & meu, 39 entretanto, do fato de matizarem a edenizac&o, reiterando a idéia de que 0 cardter edénico se reelabora, transformando-se, com 0 pro- cesso de colonizagao. A natureza é prédiga, generosa, amiga: mas desde que transformada pelo homem. Este pode, inclusive, ser 0 pobre expropriado na metrépole, ou o degredado indesejével: a na- tureza, plena de atributos positivos, € maior que a mesquinhez hu- mana. Com estes dois autores, que escrevem respectivamente em 1576 e 1618, a colonizacio se torna condicao indispensdvel & ede- nizacio da natureza. ‘As imagens que Gandavo utiliza para qualificar a Provincia de Santa Cruz séo as comumente empregadas nas descricdes européias dos Paraisos Terrestres. A terra é “mui deliciosa ¢ fresca”, toda “vestida de mui alto e espesso arvoredo, regada com as Aguas de muitas e mui preciosas ribeiras de que abundantemente participa toda a terra, onde permanece sempre a verdura com aquela tempe- ranga da primavera que cé nos oferece Abril e Maio”. Inversamente a que acontece na Europa, as plantas nao sofrem no inverno: a Providéncia proveu a uma natureza perfeita, rica ainda em gemas e metais preciosos.°” Mas sio poucos os trechos em que a natureza é dissociada dos homens: a Provincia € “a melhor para a vida do homem que cada uma das outras de América”.°' Em Gandavo, as potencialidades edénicas da colénia revertem em favor do trabalho humano, fa tando-o. Por isso, devem acorrer & nova terra todos os que nao encontram oportunidades em Portugal: a colénia tem funcao corretiva sobre as mazelas da metrépole. Naquela, “nenhum pobre anda pelas portas a pedir como neste Reino”; “todos aqueles que nestes reinos vivem em pobreza néo duvidem escolhé-la para seu amparo”’.®? Ressaltando ainda as qualidades climéticas, os ventos frescos, a simetria na duragdo de dias e noites, Brandénio também se atrela & vertente edénica: “nao faltam autores que querem afirmar estar nesta (60) Gandavo, Historia da Provincia de Santa Cruz, p. 82 pp. 14850. Sobre a temperanga dos ares — tema constante nas formulagdes acerca do Paraiso Terrestre — ver 0 notével capitulo “non ibi aestus”. Sérgio Buarque de Holanda, op. cit., pp. 277-305. Para este historiador, do acervo europeu sobre © Paraiso Terrestre Gandavo incorpora basicamente as consideragdes climé- ticas, lembrando Isidoro de Sevilha na versio medieval do Orto do Esposo: a visio edénica de Gandavo € “cortigida e atenuada até os limites do plau- sivel” (p. 295). (61) Gandavo, op. cit, p. 81. (62) Gandavo, Tratado da Terra do Brasil, p. 41, © Histéria da Provincia de Santa Cruz, p. 75, respectivamente. 40 parte situado © paraiso terreal”, diz ele.** Mas os Campos Eliseos, to celebrados pelos europeus, ficavam devendo muito a terra brasi- leira; como “o fabuloso paraiso do torpe Mafamede”, estes campos no passavam de “fingimentos”. Aqui, ao contrério, corriam de fato trios de leite e mel: 0 mel silvestre que abundava nos matos, a man- teiga excelente que se extraia de vacas, cabras e ovelhas.** Brand6nio incorpora pois a edenizacao — elemento importante do imaginério europeu — mas faz dela uma leitura nova. O Paraiso € aqui, onde a natureza exuberante — o mel nativo, jorrando aos borbotées — se alia ao trabalho sistematico — a criagio, o leite, a manteiga. O feliz casamento entre natureza e trabalho, encetado pela colonizacao, tornava o Brasil superior & Europa, Asia ou Africa: “a terra € dis- posta para se haver de fazer nela todas as agriculturas do mundo pela sua muita fertilidade, excelente clima, bons céus, disposi¢ao do seu temperamento, salutiferos ares, € outros mil atributos que se Ihe ajuntam”. Abundavam aqui as aves mansas, 0 pescado excelentis- simo, mariscos e caranguejos ao alcance da mio, “‘ovos sem conta, frutas maravilhosas”, “legumes de diversas castas”, mantimentos © “outras infinidades de cousas salutiferas”.*° Tratava-se de natureza prédiga, mas jé transformada pelo esforgo colonizador. Como em Gandavo, este aparece atenuado pela presenca dos escravos (recurso propagandistico?); mas, mais do que para o autor do Tratado da Terra do Brasil, 0 trabalho do europeu nos tr6- picos é, em Brando, suavizado ainda pelas facilidades de uma natu- reza selvagem (caga e pesca abundantes). Assim, & natureza ja edénica da terra descoberta, que revive no imaginario europeu as imagens do Paraiso Terrestre, superpde-se © processo colonizatério, reedenizador. Ao arrolat as seis riquezas fundamentais do Brasil, das nativas Brandao s6 toma as madeiras ¢ © pau-brasil (que aparecem assim: diferenciados). Todas as outras —a lavoura do agticar, a mercancia, os algodées, a lavoura de man- timentos, a ctiacdo de gado — pressupdem a atividade colonizadora. “De todas estas cousas, o principal nervo e substincia da riqueza da terra € a lavoura dos acticares””, concluiria Brandénio, privile- giando o mais tipicamente colonial dos produtos coloniais.°* H& dtivida possivel? (63) Ambrésio Fernandes Brandio — Didlogos das grandezas do Brasil (1618), Rio, Dois Mundos Editora, s.d., p. 96. (64) Idem, idem, p. 200. (65) Idem, idem, p. 45. (66) Ambrésio Fernandes Brandao, op. cit., p. 138. 41 Num texto enigmitico, 0 j4 citado Jaboatio — que, como se viu, abragava também a idéia do Paraiso Terrestre — mostra 0 outro lado da medalha. Rica pelos infinitos tesouros de metais, pedras pre- ciosas, drogas de alto prego, o Brasil, “desentranhando-se a si”, enriquecia as demais partes com os frutos de seu ventre. Mas como a vibora, que alimenta o filho ingrato e colhe morte ¢ destruigao, a colénia viria a padecer: as riquezas coloniais, “quem nao sabe fo- ram, siio e serdo sempre, a causa motiva da mesma ruina, e a de seus proprios naturais”.*™ Visto no conjunto de sua obra, este trecho parece até um deslize, um desabafo pessimista do historiador da Ordem Serdfica. O sentido € claro: os colonos nao colhem os bene- ficios advindos da colonizacéo, que frutificam fora, na Europa. Ora, primeiramente o tom negativo destoa das demais formulagdes, posi- tivas, onde o Brasil aparece sempre como devendo cumprir um grande destino, bafejado que é pela generosidade do Criador. Em segundo lugar, qual 0 interesse de Jaboatéo em apontar mazelas do sistema colonial, entusiasta que demonstrava ser de Pombal, a quem chegou mesmo a dedicar décimas bajulatérias? ** Mesmo que no se decifre o mistério, podem ser feitas inferén- cias a partir desta passagem. Nos escritos sobre 0 Novo Mundo — tanto nos de autores europeus quanto nos de autores coloniais, que, pertencendo a elite, ou partilhando sua cultura, deixaram-se influen- ciar pelas projecdes do imagindrio europeu — dificilmente a edeni- zagao impera soberana, absoluta. A sombra que a ameaca — ora mais timida, ora mais decidida — € a da visdo detratora da América, a que Ihe procura reforcar os aspectos negativos. As leituras negativas do Novo Mundo — as obras dos “‘detra- tores do Novo Mundo” — se intensificaram sobretudo no século XVIIL. Num livro admirdvel, o historiador italiano Antonello Gerbi percorreu caminho oposto ao de Sérgio Buarque de Hollanda: de Septilveda a Hegel, estudou as polémicas sobre a América, voltando- se entretanto mais para a vertente negativa do que para a positiva. Na segunda metade do século XVIII — época em que Jaboatio escreveria 0 Novo Orbe —, a polémica atravessava um de seus mo- mentos mais intensos.”” (67) Jaboatio, op. cit., vol. Il, p. 4. (68) “Jaboatéo foi membro da Academia Brasilica dos Renascidos, na qual revelou seu cardter bajulatdrio escrevendo umas décimas em homenagem a0 todo poderoso Marqués de Pombal, 0 Mecenas da Academia” — José Honério Rodrigues, Histéria da Histéria do Brasil, 1." parte — Historiografia Colonial, Sio Paulo, Companhia Editora Nacional, 1979, p. 303. (69) A. Gerbi. op. cit 42 As formulagées edénicas projetaram-se sobre a América, criando uma ponte que aproximava 0 Novo Mundo do Velho, integrando-o a0 seu imaginério, preenchendo o lugar antes ccupado pelas terras longinquas que, aos poucos, foram sendo devassadas. De certa forma, edenizar a América significava estabelecer com ela uma camarada- gem, uma cumplicidade que repousava no mundo imaginario. Encon- trava-se aqui algo que, de certa forma, jé estava concebido: via-se (© que se queria ver, o que se ouvira dizer. Entretanto, conforme 0 novo continente comegou a emergir na sua especificidade, a edenizacao ficou ameagada, Novas plantas, ven- tos fortes, chuvaradas, mas sobretudo homens ¢ bichos estranhissi- mos, outros que os europeus.”" E preciso deixar claro que nfo houve uma seqiiéncia ordenada entre um e outro movimento, entre edenizacio e detragao. Mesmo os grandes edenizadores da natureza ndo pouparam observagies, pe- jorativas em maior ou menor grau, acerca do Novo Mundo. Houve, portanto, tendéncia & edenizacao da natureza, predominio dela: mas nfo exclusividade Para entender melhor esta outra face da edenizacio, detratora e mesmo infernalizada — conforme se verd depois — parece-me inte- ressante fazer uma pequena digressio e lembrar a anélise de Erwin Panofsky sobre a pintura de Piero di Cosimo, artista florentino nas- cido em meados do Quatrocento. Homem estranho, que vivia afas- tado do convivio social, recusando pratos quentes e alimentando-se de ovos cozidos, Piero di Cosimo dedicou uma série de quadros a motivos mitolégicos. Panofsky os entende como manifestagio do “primitivismo duro”, de origem cléssica.™ Idealizando a condigdo (70) “A América nfo era como tinham imaginado; ¢ até os mais ent siastas (dentre os humanistas) tiveram desde cedo que aceitar 9 fato de que 0s habitantes desse mundo idilico podiam ser também viciosos e belicosos, € as vezes se comiam uns aos outros” — J. H. Elliott, The Old World and the New — 1492-1650, p. 27. Elliott fala do “impacto incerto” da América sobre a Europa — pp. 1-27. (71) “Desde as origens do pensamento cléssico, existiam duas opinides opostas acerca da vida do homem nas priscas eras: 0 primitivismo ‘doce’, ou positive, formulado por Hesiodo, descrevia a forma primitiva da existén- cia como uma ‘idade de ouro’, em comparagao com a qual as fases poste- riores no foram se sucessivos de uma longa desgraca; 0 primiti- vismo ‘duro’, ou negativo, representava a forma primitiva da existéncia como um estado verdadeiramente bestial, que a humanidade teria ultrapassado gra- as a0 progresso técnico ¢ intelectual.” A segunda tendéncia remontaria sobre- tudo a Vitririo. E. Panofsky — “Les origines de histoire humaine: deux 43 primeira do mundo, o primitivismo doce se harmonizaria com uma concepeao religiosa da vida — a época em que Eva fiava e Adao tecia. Por sua vez, 0 primitivismo duro se associaria a0 materialismo. Da ligdo de Panofsky, depreende-se que o Renascimento italiano supunha duas possibilidades: a revivescéncia do mito da Idade de Ouro e, a0 mesmo tempo, a negado dele, Nao haveria, portanto, idealizagdo pura e simples da natureza: desde a época cléssica, con- siderar-se-ia também, sempre, 0 seu contrério. De certa forma, Jean Delumeau retomou esta problemética em seu iiltimo livro, Le péché et la peur. Na perspectiva do autor, 0 Renascimento seria mais pessimista do que otimista: “Os Pico della Mirandola e os Guilherme Postel foram minoria”, diz Delumeau. E em outra passagem: “Tristeza ¢ Renascimento: os dois termos pa- recem se excluir, e no entanto foram freqiientemente companheiros de estrada”. Para reforgar sua posigo, utiliza passagem de Eugénio Garin, que diz nao ser dificil encontrar, reunidos &s vezes num s6 autor, “de um lado, os sinais do Anticristo ¢ do cataclisma iminente; de outro, a Idade de Ouro”."* O Renascimento teria sido enigmdtico ¢ contraditério. Seus con- temporaneos tiveram consciéncia dessa ambigiiidade: “Tudo foi mis- turado, o mais alto com o mais baixo, 0 inferno com o céu, o melhor com © pior”, lamentaria o contemporfneo Guillaume Budé."* Sendo assim, nfo ¢ de admirar que Céu ¢ Inferno se misturassem também nas cronicas sobre a América, e que o mais edenizador dos autores se visse também as voltas com a detragao.* cycles de tableaux par Piero di Cosimo” — Essais d'iconologie. Les themes hnumanistes dans Vart de la Renaissance (1939), trad., Paris, PUF, 1967, p. 59. (72) Delumeau, op. cit., respectivamente pp. 138 € 189. (73) E, Garin, *L’attesa dell’eta nuova ¢ la ‘renovatio" in L'attesa dell’eta nuova nella spiritualitd: della fine del Madioevo. Convegni del Centro di Studi sulla spiritualitaé medievale — out. 1960. Todi, 1962, III, pp. 16-19. Apud Delumeeu, op. cit, p. 140. (74) Apud Delumeau, op. cit, p. 157. Grifo meu. (75) “Em alguns casos, ¢ sobretudo a propésito daquele Novo Mundo, Parece mesmo perfilar-se, desde cedo, excitado talvez pelas noticias de expe- riéncias negativas de muitos colonizadores, um movimento adverso a essa miti- ficagdo das terras descobertas. Movimento que, iniciando-se talvez com a tese to debatida entre os pensadores € tedlogos quinhentistas, de que os indios so meio bichos — contraposta a sua idealizacéo por um Las Casas ou um Montaigne — iré desembocar, dois séculos depois, na polémica antiame- ricana dos que sustentam (...) a decrepitude ¢ degenerescéncia da natureza neste hemisfério” — Sérgio Buarque de Hollanda, op. cit., p. 274. 44 Gandavo, edenizador por exceléncia, propagandista da nova terra, considerou-a deleitosa e temperada mas sujeita a ventos mor: tiferos: “Este vento da terra € mui perigoso e doentio”, diria, “e se acerta de permanecer alguns dias, morre muita gente assim portu- gueses como indios da terra’. Qualidades positivas e negativas che- gam _a se alternar num mesmo paragrafo: “A terra em si é lassa e desleixada; acham-se nela os homens algum tanto fracos e minguados das forgas que possuem cé neste Reino por respeito da quentura e dos mantimentos que nela usam, isto é enquanto as pessoas so novas na terra, mas depois que por tempo se acostumam, ficam to rijos e bem dispostos como se aquela terra fora sua mesma patria”.”* Os aspectos negativos do clima e da terra acabariam influindo nos bichos. Gandavo se esquivou deliberadamente de discorrer sobre eles, mas acabou fazendo-o num pardgrafo, procurando justificar sua existéncia, conferindo-lhe cardter de inevitabilidade: “Outros muitos animais e bichos venenosos ha nesta Provincia, de que nao trato, os quais sio tantos em tanta abundancia, que seria histéria mui comprida nomed-los aqui todos, e tratar particularmente da natureza de cada um, havendo, como digo, infinidade deles nestas partes, aonde pela disposicfo da terra, e dos climas que a senho- reiam, nao pode deixar de os haver. Porque como os ventos que procedem da mesma terra se tornem inficionados das podridées das ervas, matos e alagadigos geram-se com a influéncia do sol que nisto concorre, muitos e mui peconhentos, que por toda a terra estio espar- zidos, ¢ a esta causa se criam e acham nas partes maritimas, e pelo sertéo dentro infinitos da maneira que digo”.** Escrevendo o seu Tratado por volta de 1584 — e sendo por- tanto, um de nossos primeiros cronistas —, o padre Ferndo Cardim percebeu que o mesmo clima que propicia o desenvolvimento de belos animais, acarreta a proliferacao de seres repulsivos: “Parece que este clima influi peconha, assim pelas infinitas cobras que hé, como pelos muitos Alacrés, aranhas, e outros animais imundos, e as lagartixas so tantas que cobrem as paredes das casas, e agulhei- (76) Gandavo, Tratado da Terra do Brasil, p. 42. A idéia de chuvas ventos venenosos deveria ser comum no século XVI. Ao tratar dos perigos da navegagao nos arredores da linha equinocial, Léry alude a este tipo de chu- va: “Além disso, a chuva que cai nos arredores desta linha néo apenas fede e cheira mal, mas € tio contagiosa, que se cai sobre a carne faz aparecer nela piistulas ¢ bolhas grandes: © até mancha ¢ estraga as roupas”. Léry, op. cit, vol. I, p. 67. (77) Gandavo, Histéria da Provincia de Santa Cruz, p. 109. Grifo meu 45 ros delas”. E a contrapartida: “Assim como este clima influi pegonha, assim parece influir formosuras nos pdssaros e assim como toda a terra € cheia de bosques, e arvoredos, assim o é de formosissimos péssaros, de todo género de cores”. Ao contrério de outros autores, Cardim constatou a existéncia de pulgas e piolhos apenas entre os indigenas e negros; em com- pensacdo, “‘ndo faltam baratas, tracas, vesperas, moscas, e mosquitos de tantas castas ¢ tao cruéis, e peconhentos, que mordendo em uma pessoa fica a mo inchada por trés ou quatro dias”, Este flagelo atacava sobretudo os reindis, os insetos sendo sequiosos do sangue trazido “fresco e mimoso” gracas aos mantimentos de Portugal.”* De carrapatos, deu-nos-foticia Knivet; teria ele andado por serras to cheias de carrapatos que, para fazé-los soltar a pele e afugenté- los, havia que pegar palha seca no cho e chamuscar-se como se costuma fazer com suinos.*° Grande admirador dos passaros brasileiros, Léry se mostraria mais moderado quanto aos quadrdpedes. Mas, etndlogo avant la lettre, apresenté-los-ia como diferentes, especificos: “...no tocante aos animais de quatro pés, no apenas em geral e sem excegao, no sé encontra um s6, nessa terra do Brasil na América, que seja em tudo ¢ por tudo semelhante aos nossos...”."? Na Histéria Natural do Chile, dois séculos depois, 0 padre Molina afirmaya que a natu- reza americana nao era inferior, e sim diferente.** A preocupacéo com a especificidade do Novo Mundo foi total- mente alheia aos jesuitas que estiveram no Brasil, entre o final do s€éculo XVI e 0 inicio do século XVII. Entre nés, sio os represen- tantes méximos da incompreensio do universo colonial. Mais do que o mundo vegetal ¢ animal, foram os homens o alyo privilegiado da mé vontade jesuitica. Entretanto, bichos, plantas e paragens tam- bém tiveram sua cota na detracao. A terra da colénia é muito pobre e miserdvel, “nada se ganha com ela” por serem também muito pobres os seus habitantes, escre- via Nobrega a0 Geral da Companhia, padre Diogo Léinez. “Aqui (78) Padre Fernao Cardim, Tratado da Terra e gente do Brasil (c.1584), 3.° ed., Sao Paulo, Companhia Editora Nacional-MEC, 1978, pp. 3354. Cardim € autor de uma deliciosa descricfo do bicho-preguica: “€ animal para ver, parece-se com cies felpudos, os perdigueiros; sio muito feios, e 0 rosto parece de mulher mal toucada” — op. cit., pp. 3031. (79) Idem, idem, p. 68. (80) A. Knivet, op. cit., p. 152. (81) Léry, op. cit., vol. 1, p. 157. (82) Gerbi. op. cit. p. 197 46 no hé trigo, nem vinho, nem azeite, nem vinagre, nem carnes, sendo por milagre”, continuava, decepcionado; “o que hé pela terra, que € pescado, e mantimento de raizes, por muito que se tenha, nao dei- xaremos de ser pobres, e mesmo isto no o temos”. Além da escassez de alimentos, os que existiam eram “muito fracos”, sendo “muito maiores” os trabalhos a realizar em terra colonial. Além de pobre e pouco fértil — os alimentos naturais eram fracos —, a terra se achava infestada por “grandissimo ntimero de imundicies, scilicet, bichos dos pés e muito mais pequenos que os de 14, de que todos andam cheios”. “‘Pulgas nao se pode crer, se se no experimentar, como nés experimentamos estes dous anos, assim no verao, como no inverno, porque grande parte do dia, se nos ia em matar pulgas.”** Ainda segundo o padre Jeronimo Rodri- gues, as pulgas foram “a perdicao” das ceroulas ¢ camisas dos padres, que ficaram inteirinhas pintadas de sangue. Numa noite, as apalpa- delas, diz 0 padre Jerénimo que chegou a matar 450 pulgas em sua cama, sem falar nas que fugiram. “E daqui vinha a dizer o Padre, que nao haviamos de adoecer, pelas muitas sangrias que as pulgas nos davam”, prossegue nosso narrador; “mas eu, pelo contrario, dizia que elas tiravam o sangue bom, deixando o mau.” As legides de pulgas se deviam ao fato de haver “‘infinidade de caes” e por urinarem os indios em qualquer lugar onde estivessem. Nao bastassem as pulgas, havia praga de grilos que destrufam livros e vestidos. Mesmo “matando cada dia grandissima multidao”, com facilidade se pegavam, ao acaso, de quarenta a cingiienta: nao acabavam nunca. Fiel ao h4bito de contar insetos, o padre Jerénimo contou, de certa feita, quinhentos grilos.** E as baratas? As “que havia, nao se pode crer, porque o altar, a mesa, a comida, e tudo, era cheia delas. E 0 padre todos os dias tomava na sua carapuga um monte delas e com armadilhas todos os dias tomévamos milhares e parece que sempre cresciam...""* Vicente, 12-6-1561, i Serafim Leite, S. J. (org.), Novas Editora (85) Carta de Cartas Jesuiticas — De Nébrega a Vieira, Séo Paulo, Companhi Nacional, 1940, p. 112 (84) “A missio dos carijés — 1605-1607 — Relacdo do padre Jerdnimo Rodrigues” in Serafim Leite, op. cit., p. 257 (85) Idem, p. 239, (86) Idem, p. 238. Nao hé como se furtar & analogia com o relato de Manuel de Mesquita Perestrelo sobre o naufrégio da nau Sao Bento, ocorrido na costa africana em 1553. Grassou entdo entre os néufragos uma peste de piolhos “que a alguns tirou as vidas, e @ todos (...) pés em risco de as perderem”. Com as roupas em farrapos, ficava o corpo dos homens exposto a7 Delineavam-e pois, j4 no século XVI, os tragos caracteristicos da polémica sobre a América: um continente timido, inferior, coa- Ihado de animais inferiores como insetos ¢ répteis. Em meados do século XVII, diria Buffon: ‘“Vejamos entdo porque existem répteis to grandes, insetos to gordos, quadrdpedes to pequenos, e homens Go frios nesse novo mundo. O motivo é a qualidade da terra, a condigao do céu, o grau de calor e umidade, a situagao e elevacio das montanhas, @ quantidade das dguas correntes ou paradas, a extensio das florestas, ¢ sobretudo 0 estado bruto em que a natu- reza se encontra”.® No momento em que era descoberto 0 Novo Mundo, Isabel de Castela se mostrava aflita e preocupada ante as informagées do Almirante do Mar Oceano: este Ihe explicava que, dada a quantidade de chuvas, a terra ficava podre e impedia as raizes das arvores de penetrarem fundo no solo. “Nesta terra onde as arvores nio se en- raizam”, dizia a rainha, “pouca verdade e menos constancia haverd nos homens”.** Clima timido, animais inferiores, homens fracos e sem vontade: estava feita a relagdo que os cronistas Iusos nao che- garam a fazer no século XVI. E mais uma vez Buffon quem siste- matiza os dados negativos da América, preocupado em explicar os motivos da inferioridade das espécies animais neste continente. Era ele escassamente povoado, e a maior parte dos homens vivia como animais, “deixando bruta a natureza e negligenciando a terra”. Inculta, esta se tornou fria e incapaz de reproduzir principios ativos, tais como os germes dos grandes quadripedes, que para crescerem e se multiplicarem precisam de “todo 0 calor, toda a atividade que © sol pode dar & terra amorosa”. Pela razo contréria, proliferaram répteis, insetos “e todas as espécies de animais que se arrastam na lama, cujo sangue é de égua, e que se multiplicam na podridio...””** Na bela frase de Gerbi, achava-se a América fadada a ser “‘imida mae prolifica de diminutos e malvados animaizinhos, estéril de 0s bichos: “e ali se criavam tantos, que visivelmente nos comiam sem Ihe podermos valer, ¢ conquanto escaldévamos fato muito amitide, e 0 catéva- mos cada dia trés ¢ quatro vezes por ordenanca; (...) quando cuidévamos que os tinhamos todos mortos, dali a pouco espaco eam outra vez tantos, que com um cavaco o ajuntévamos pelo fato, € os levivamos a queimar ou soterrar..." Cerca de quatro homens “fizeram tais gaivas pelas costas e cabe- as, que disso claramente faleceram”. Apud Giulia Lanciani, op. cit., p. 141. (87) Apud Gerbi, op. cit., p. 7, nota 15, (88) Apud Gerbi, op. cit., p. 37. (89) Apud Gerbi, op. cit., p. 8, nota 20. 48 magnénimas feras”.*° O leo majestoso do antigo continente seria na América reduzido a dimensées ridiculas: o rei dos animais era, aqui, um animal poltréo ¢ sem juba.*! De Pauw, em 1768, levaria as consideracées de Buffon as dltimas conseqiiéncias: a natureza americana, como os homens, era decadente e decaida; “é sem diivida um espetéculo grande e terrivel”, diria ele, “‘o de ver uma metade deste globo tao desprotegida pela natureza, que tudo nela era dege- nerado, ou monstruoso”.°? HUMANIDADE: PREDOMINANCIA DA DEMONIZACAO Os habitantes das terras longinquas que os europeus acreditavam serem fantdsticas constituiam uma outra humanidade, fantdstica tam- bém, e monstruosa.** Conforme ocorreram as grandes descobertas, foram elas migrando da {ndia a Etiépia, a Escandindvia, ¢ final- mente 4 América. No mundo precério do homem medieval, surgia a necessidade de nomear ¢ encarnar o desconhecido a fim de manter o medo nos limites do suportavel: monstros descritos pela religio (Sata), monstros descritos pelo bestidrio (unicérnio, drago, formiga- leo, sereias, etc.), monstros humanos individuais (aleijados, tarados) e monstros que habitavam os confins da Terra, parecendo-se com homens normais (ou seja, europeus do oeste) mas trazendo tragos monstruosos hereditdrios. Autores classicos como Ctésias de Cnido e Plinio serviram de referéncia aos teratélogos latinos (Solino, Macrébio, Santo Agostinho, Isidoro de Sevilha, Rabao 0 Mouro), todos sendo incorporados por autores da Baixa Idade Média. Fora Santo Agostinho, ainda na Alta Idade Média, o responsdvel pela fixagdo de determinados conceitos (90) Gerbi, op. cit., p. 11 (91) O leo poltrio ¢ uma imagem de Voltaire: “O México € o Peru possuiam ledes, mas pequenos e sem crina; e o que é mais estranho, o leo desses climas era um animal poltréo” — Apud Gerbi, op. cit., p. 42, nota 38. (92) Apud Gerbi, p. 51, nota 12. (93) Seriam os marginais geogrdficos de que fala Bruno Roy. “En marge du monde connu: les races de monstres” in Aspects de la marginalité au Moyen-Age, pp. 71-81. No que diz respeito aos aspectos gerais da teratologia européia, utilizo este artigo, muito interessante, Sobre os monstros, ver 0 livro ja citado de Claude Kappler, Monstres, démons et merveilles & la fin du Moyen-Age. Para as relagées entre a teratologia ¢ a cincia, analisando também as relagdes entre cultura popular e erudita, ver Katharine Park ¢ Loraine J. Daston, “Unnatural conceptions: the study of monsters in France and England", Past & Present, n 92, ago. 1981, pp. 20-54. 49 acerca dos monstros: 0 monstro tinha algo a mostrar. Isidoro de Sevilha retomaria Santo Agostinho, classificando os monstros em quetro grandes familias: a dos monstros individuais, a das racas monstruosas, a dos monstros ficticios e a dos homens-bestas. Este esforco classificatério representaria o desejo e 0 empenho do homem ocidental de “se confirmar na sua normalidade, confrontando-a ponto por ponto com a deformidade das ragas imagindrias’.*4 No século XIII, Tomés de Cantimpré elaborou uma lista de monstros inspirada em varios escritos anteriores, ¢ que a maior enciclopédia medieval, 0 Speculum de Vicente de Beauvais, assimilaria na integra. Os mora- listas medievais utilizaram-se largamente dos monstros, dando-se conta de sua riqueza didatica e lhes conferindo significado moral e di- mensao social; a monstruosidade dos monstros foi de certa forma esvaziada pela sua interiorizacio.®® Colombo acreditava em monstros, leitor da Imago Mundi do cardeal D’Ailly. Este falava de povos “‘cujos costumes decafram da natureza humana”, de “homens selvagens antropéfagos, com fei¢ao disforme ¢ horrivel, nas duas regides extremas da Terra (. . .): trata-se de seres acerca dos quais é dificil precisar se s40 homens ou bestas”.°* Colombo pensava que, mais para o interior da terra que descobrira, depararia com homens de um 86 olho, e outros com focinhos de cachorro. Em 8 de janeiro de 1492, viu trés sereias pularem fora do mar, decepcionando-se com seu rosto: néo eram tao belas como pensara. Na diregio do poente, escrevia a Santéngel, as pessoas nas- ciam com rabo.*? Talvez assinasse a formulacao de Belleforest: “o tempo presente é mais monstruoso do que natural” °* Em duas das formas mais populares de “literatura escapista”, os monstros tinham papel de destaque: livros de viagens e romance de cavalaria. “Ragas monstruosas — homens com um pé s6, gigan- tesco, ou orelhas enormes. ou com o rosto no peito — ocuparam (94) Bruno Roy, op. cit., p. 76. Solino, Plinio ¢ sobretudo Isidoro de Se- vilha tiveram boa difusdo na peninsula Ibérica. Ver Silva Dias, “A revolugio dos mitos € dos conceitos”, op. cit., p. 195. (95) “O medo do desconhecido geogréfico, do qual os monstros sio a materializagéo, no € sendo um reflexo dos numerosos medos que estio no interior dos homens: medo de perder a integridade corporal, medo de uma punigéo imanente 2 certos comportamentos, medo do desmoronamento do frdgil edificio social. Sua anormalidade define a norma, confirma-a ¢ coloca fim ao medo.” Bruno Roy, op. cit., p. 79. (96) Silva Dias, op. cit., p. 193. (97) Todorov, op. cit., p. 25. (98) Delumeau. Le péché et la peur. p. 155. lugar nas descrigdes da Africa e Asia desde a antigitidade, ¢ ainda figuravam na cosmografia renascentista.” ®° No século XVII, o relato de Francisco Correia acerca do naufrégio da nau Nossa Senhora da Candelaria (“o qual vindo da costa da Guiné no ano de 1693, uma rigorosa tempestade o fez varar na ilha Incdgnita”) dava conta de monstros e animais ex6ticos. Na ilha havia monos com “oito palmos de altura e com dentes de quatro dedos”; cobras da “grossura de um pipote de oito almudes”; mulheres marinhes que safam ligeiras da dgua e subiam morro acima, senhoras de “todas as perfeigdes até a cinta, que se discorrem na mais fermosa”’ e enfeiadas por grandes orelhas que “Ihe chegavam abaixo dos ombros”, subindo, quando levantadas, meio palmo acima da cabeca. Da cintura para baixo, eram cobertas por escamas, “‘e os pés eram do feitio de cabra, com barbatana pelas pernas”. Perto de Tenerife, viu ainda o autor “um homem marinho de tao horrendo feitio que parecia o mesmo de- ménio”100 Dentre os cronistas que escreveram sobre o Brasil no século XVI, muitos se referiram aos monstros marinhos. Knivet viu emergir da gua Pt ma enorme coisa”, “com grandes escamas no dorso, garras medonhas e cauda comprida”, avangando para ele, abrindo a boca, “langando fora a lingua longa, como um arpio”.!”? Gabriel Soares aludiu aos muitos homens marinhos existentes na regido do RecOn- cavo € chamados de upupiara pelos indios; estes homens carregavam jangadas e pessoas para o fundo das guas, afogando-as: a maré as devolvia depois “mordidos na boca, narizes e na sua natura’”2°? © préprio autor diz ter perdido varios escravos desta forma. Jé Gandavo € rico em detalhes: 0 monstro fora morto na capitania de Sao Vicente no ano de 1564, e o autor se propde fazer um relato fiel do ocorrido, “‘ainda que por muitas partes do mundo se tenha (99) Katharine Park ¢ Lorraine J, Daston, op. cit. p. 37 (100) Giulia Lanciani, op. cit., pp. 23, 5657, “Tinha somente a aparéncia de homem na cara, na cabeca nao tinha cabelos mas uma armaco, como de carneiro, revirada com duas yoltas; as orelhas eram maiores que as de um burro, a cor era parda, 0 nariz com quatro ventas, um s6 olho no meio da testa, a boca rasgada de orelha a orelha e duas ordens de dentes, as maos como de bugio. os pés como de boi e 0 corpo coberto de escamas, mais duras que conchas” — p. 57, (101) Anthony Knivet, op. cit., pp. 3738. (102) Gabriel Soares de Souza, Noticia do Brasil (15872), vol. U1, Sa0 Paulo. Martins, s.d., p. 190. O urupiara pertence, provavelmente, 20 folclore indigena. 51 Noite alta, uma india avistou 0 monstro “‘movendo-se de uma parte para outra com passos © meneios desusados e dando alguns urros de quando em quando”; ia ele por uma varzea junto ao mar, e era to feio “que nfo podia ser sendo o deménio”: “era quinze palmos de comprido e semeado de cabelos pelo corpo, e no focinho tinha umas sedas mui grandes como bigodes”. O rapaz que o matou, chamado Baltazar Ferreira, andou “como assombrado sem falar cousa alguma por um grande espago”. Na lingua da terra, aquele ser se chamava hipupiéra.* No século XVIII, ainda perdurava o temor ao monstro do mar, agora na forma de menino “de trés para quatro anos”, da cor dos gentios, de feigdes disformes e grosseiras, “a cabeca pouco povoada de cabelos”’, agilimo na arte de se esquivar dos tiros que se Ihes davam. Jaboat&o conta um episédio em que aparecem estes meninos marinhos, sendo canoeiro da embarcagao um indio: este, “com a primeira vista que teve do animalejo, se deixou cair, com um grande grito, no fundo da embarcacéo, cerrando os olhos, e os dentes, de sorte que por mais remédios, que na vila se lhe aplicaram, 0 nao houve para a vida, que s6 Ihe durou, no préprio estado em que caiu, vinte e quatro horas”. Os outros companheiros da embarcacio, sendo negros da Guiné, nao tiveram medo nem se abalaram com a visio... Difundida por todo o mundo — como diz o préprio Gandavo —, a Ienda do homem marinho tem cores indigenas em Gandavo e em Gabriel Soares, somando suas caracteristicas & européias, presentes, por exemplo, na narrativa de Knivet. A semelhanga do ocorrido com © Paraiso Terreal, migraram para a América as projecdes imagindrias européias acerca das humanidades e dos animais monstruosos. Pa- rente talyez do milenar dragao europeu seriam as serpentes de “‘asas mui grandes e espantosas” de que Gandavo ouvira falar.'®> Simila- res europeus teria também, sem ddvida, o enorme lagarto “‘coberto de escamas esbranquicadas, dsperas e grosseiras como conchas de ostras” que, de olhos faiscantes, aproximou-se de Léry e dos com- panheiros para contemplé-los. “Mais tarde pensei, segundo a opinidio dos que dizem que o lagarto acha agradavel a face do homem, que este tivera tanto prazer em nos olhar quanto nés medo ao contem- plélo”, diria Léry.2°* (103) Gandavo, op. cit, pp. 120-125. (104) Jaboatao, op. cit., vol. 1, pp. 118-119. (105) Gandavo, op. cit., p. 57. (106) Léry, op. cit., vol. I, pp. 164-165 52 Na Europa, os monstros continuaram em yoga até o século XVII. Pregadores protestantes como Lutero e Melanchton utilizaram-nos fartamente em suas pregacdes, seguindo o exemplo dos moralistas medievais; em tempo de reforma religiosa, associavam a heresia ao monstruoso.'°* Nas baladas populares, cantava-se 0 monstro; multi- does acorriam as pracas piblicas para ver os xifépagos Lazaro ¢ Joao Batista Coloredo, que entre 1637 ¢ 1642 se exibiram por toda a Europa.’ Discutia-se se hermafroditas podiam casar, se as duas cabecas de irmaos siameses deveriam ser igualmente batizadas, e dai por diante."® Até Ronsard escreveu versos sobre monstros.!!° Apesar de disseminado no cotidiano, 0 monstro tenderia, a partir do século XV, a se demonizar, instalando-se de um s6 lado do mundo, pactuando com o diabo, desarmonizando-se: a desarmonia do mundo no fim da Idade Média acarretava assim a desarmonia do monstro.!! Entretanto, este fascinio da Europa quinhentista e seiscentista pelo monstro circunscreveu-se a um tipo especifico: 0 dos monstros humanos individuais. Aos outros, os do bestidrio, os “‘geogréficos” — que habitavam os confins da Terra —, os descritos pela religiio — Sat —, os europeus somaram a concepcao do homem selvagem. Através dos descobrimentos, pois, os monstros nao cederam lugar aos homens selvagens, mas acrescentaram-se a cles.1? Os cosmégrafos quatrocentistas julgavam que as novas terras seriam habitadas por monstros, mas Colombo nelas encontrou apenas homens selvagens — para sua admiragéo, homens bem feitos e bem (107) Ver Delumeau, op. cit, p. 156. (108) Katharine Park e Lorraine J. Daston, op. cit., p. 20. (109) Idem, idem, p. 22. (110) *...Tant de sectes nouvelles Tant de monstres difformes, Les pieds & haut, la teste contre-bas, Enfants, mortsnez, chiens, veaux, aigneaux et chats A double corps. trois yeux et cing oreilles.” ‘Apud Delumeau,, op. cit., pp. 156-157 (111) Claude Kappler, op. cit., p. 294. (112) A idéia de que com os descobrimentos os monstros cederam lugar ao homem selvagem é defendida por Francois Gagnon no artigo “Le theme médiéval de "homme sauvage dans les premitres représentations des Indiens d’Amérique™, in Aspects de la Marginalité au Moyen-Age, pp. 8389. Sacudida por movimentos milenaristas que pregavam a volta a Idade de Ouro ¢ con- victa de que progresso histérico se fazia por renascimentos (voltas a um primitiyismo inocente), a [dade Média preparara o ambiente necessério & recepcio do bom selvagem; entretanto, foi a descoberta da América que dew contetido ao mito. J. Le Goff, "L'historien et 'homme quotidien” in L'Histo- rien entre Ethnologue et le Futurologue, Paris, Mouton, 1972, p. 240. 353 constituidos, de “cardter ineludivelmente humano”, desmentindo ve- Ihas lendas ¢ apontando para a “unidade essencial do género hu- mano".138 Como os monstros, o homem selvagem nfo era tema novo, tendo raizes no mundo antigo. Era a antitese do cavalheiro, e opunha, 20 ideal cristo, a vida instintiva em estado puro. Na Idade Média, vigorou ante ele uma atitude ambivalente de medo e de inveja: amea- gava a sociedade, mas era exuberante, sexualmente ativo e levava uma existéncia livre nos bosques.''* Seus atributos espirituais eram vistos como negativos, enquanto os dotes fisicos eram considerados positivos."™* © homem selvagem medieval emprestou muitas de suas caracteristicas aos homens do Novo Mundo. Nos cortejos, nas festas, nas mascaradas assim como nas representacdes solenes, figuravam, até meados do século XVI, fundidos a auténticos aborigenes das selvas americanas. Para Gerbi, o Caliban de Shakespeare seria “a mais alta representagao pogtica de um desses brutos luxurientos”.""* Mas, antes dele, os naturmenschen figuraram nas lendas, teatro ¢ literatura medievais, sobretudo na Europa setentrional.!? Para Gagnon, a humanidade monstruosa exprimia marginali- dade geografica, constituindo representagdo concéntrica do mundo; ja o homem selvagem exprimia marginalidade sociolégica, constituin- do representacao hierérquica do mundo.!* O amerindio poderia per- tencer a uma ¢ outra representacao: quanto ao afastamento geogra- fico, € monstro; no que diz respeito a nudez e A vida natural, é selvagem. (113) Silva Dias, “A revolugao dos mitos e dos conceitos", op. cit., p. 202. (114) Em relagio @ sexualidade do indigena, as atitudes européias ou europeizadas so extremamente contraditérias. Fontes coevas, como as cartas jesuiticas, escandalizam-se com a exuberdncia sexual dos indios. Com base nelas ¢ nas VisitagSes do Santo Oficio, Paulo Prado construiu toda uma teoria da luxtiria brasileira em Retrato do Brasil. Por outro lado, a impoténcia sexual ¢ a pouca virilidade do indigena americano foram pedras de toque na polémica detratora dos séculos XVII e XVIII. Gerbi, op. ci (115) Gerbi, op. cit., p. 67. (116) Idem, idem, idem. Em fins do século XVIII, 0 Papageno da Flauta Magica ilustraria a convergéncia e contaminagdo das figuras simbélicas do homem selvagem ¢ do amerindio: corpo coberto de penas substituira 0 corpo coberto de pélos. Gerbi, op. cit., p. 67- (117) “...eram seres ferozes, robustos e peludos, faunescamente Hibricos que habitavam os bosques mais fechados e os antros cavernosos; eram certa- ‘mente criaturas subumanas, mas bem distintas dos macacos ¢ demais feras” — Gerbi, p. 67. (118) Gagnon, op. cit., p. 86. As duas representagdes coexistiram, mostra Gagnon. Com o tempo, entretanto, a do homem selvagem acabou prevalecendo, sem contudo abandonar de todo a sua carga monstruosa. A monstruo- sidade achava-se muito ligada ao desconhecido geogrdfico, que a experiéncia das navegagdes e dos descobrimentos acabaram langando por terra. Jé 0 homem selvagem nao dependia do desconhecido, mas da representacdo hierdrquica da sociedade crista. Justificava a em- presa colonial enquanto tentativa de dar cultura e religiao aos que ndo a tinham, durando, portanto, tanto quanto o Sistema Colonial. No século XVII jé se sentia a necessidade de inserir 0 indio brasileiro no universo mental do Velho Mundo. O cutioso é que isto fosse feito justamente no que tocava & sua marginalidade geogréfica. Frei Vicente, citando D. Diogo de Avalos, fornece para a origem dos indios interpretaco que em seguida descarta, mas que vale a pena mencionar por inserir-se perfeitamente na concepcao das huma- nidades geograficamente marginais. D. Diogo, na Miscellanea Austral, dizia que “em as serras de Altamira em Espanha havia uma gente barbara, que tinha ordinéria guerra com os espanhéis e que comiam carne humana, do que enfadados os espanhéis juntaram suas forcas e Ihes deram batalha na Andaluzia, em que os desbarataram e mata- ram muitos. Os poucos que ficaram, nao se podendo sustentar em terra, a desempararam e se embarcaram para onde a fortuna os guiasse, ¢ assim deram consigo nas ilhas Fortunadas, que agora se chamam Candrias, tocaram as de Cabo Verde e aportaram no Brasil. Safram dois irmios por cabos desta gente, um chamado Tupi ¢ outro Guarani; este tiltimo, deixando o Tupi povoando o Brasil, passou a Paraguai com sa gente e povoou o Peru." "#9 Ora, neste trecho admirdvel cruzam-se no imagindrio europeu a migracio do Paraiso Terrestre para o Atlantico — as ilhas Afor- tunadas — ¢ a migracdo das marginalidades geogréficas — homens selvagens e canibais — para a mesma regio! Tudo parece indicar portanto que, para o Brasil, confluiram, desde o fim do século XVI, as formulacdes do imagindrio europeu acerca de terras desconhecidas e humanidades monstruosas. Frei Vicente diz que a opinido de D. Diogo de Avalos nao era certa, porque no tinha fundamento: “‘o certo é que esta gente veio de outra parte, porém donde nao se sabe, porque nem entre eles hé escrituras, nem houve algum autor antigo que deles escrevesse”!2” (119) Frei Vicente do Salvador, op. cit., p. 52. Grifos meus (120) Frei Vicente, op. cit., p. 52. 35 Em passagem répida, Rocha Pita dé o testemunho de que, no inicio do século XVIII, eram ja bem conhecidas as teorias acerca da origem oriental dos indigenas — mais uma vez, a necessidade de atrelar esta outra humanidade a tantas que tinham povoado o ima- gindrio europeu no periodo em que a comunicago Ocidente-Oriente se interrompera. “Deixo a controvérsia sobre a origem dos primeiros habitadores que a esta regio passaram, e donde vieram, se de Trdia, da Fenicia, de Cartago, de Judéia, dos fabricadores da Torre de Babel, ou se de Ofir Indo, porque sobre este ponto nao tém mais forcas que algumas débeis conjeturas os argumentos dos autores. . .”, diz ele.!** A percepcaio dos indios como uma outra humanidade, como animais e como demGnios corresponde a trés niveis possiveis através dos quais se expressaram as consideragdes européias acerca dos ho- mens americanos. Néo seguem uma ordenagio cronolégica — os indios nao foram primeiramente percebidos como outra humanidade e depois como animais —, mas se alternam no mesmo tempo. Em relago ao Brasil, o imaginério de raizes européias se reestruturou ante a constatacéo da diferenca americana. No tocante aos homens, a constatacao foi, quase sempre, depreciativa. Fundidos ao homem selvagem, os quase simpéticos monstros europeus se animalizaram e se diabolizaram na colénia muito mais do que nos centros hege- ménicos. Para efeito de andlise, pode-se dizer que, num primeiro nivel, © europeu vé no amerindio uma outra humanidade. Um dos prin- cipais edenizadores da colénia no século XVI, Gandavo, fala demo- radamente sobre a “multidéo de barbaro gentio que semeou a na- tureza por toda esta terra do Brasil”, enfatizando seus caracteres negativos: ameacam a seguranga dos colonos, combatem com armas na mao “todas as nagdes humanas” (dentre as quais, evidentemente, nao se incluem), no pronunciam o F, 0 L ¢ o R e, por conseguinte, nao tém Fé, Lei ou Rei, “vivem bestialmente sem ter conta, nem peso, nem medida”, “Gente é esta muito atrevida”, diria mais adiante, incapaz de amizade, sem crenga na alma, vingativa. “Mui desumanos © crugis”, desapiedados, “mui desonestos e dados & sensualidade”, entregavam-se aos vicios “como se neles nao houvera razdo de hu- manos”.‘** Ora, como colonizar terra téo paradisiaca com homens (121) Rocha op. cit., pp. 26-27. (122) Gandavo, Tratado da Terra do Brasil, pp. 48-53. A passagem sobre a falta de F, Le R entre os indios, e a consegiiente explicagao, repete-se em intimeros cronistas ¢ historiadores dos primeiros tempos da coldnia, Trés 56 que agiam como irracionais, ou, em outras palavras, agiam como se no fossem homens? O Brasil s6 nfo florescia mais por causa dos escravos indios “que se alevantaram e fugiram para suas terras fogem cada dia: € se estes indios no foram tio fugitivos e mutéveis, nio tivera comparagio a riqueza do Brasil”, diria Gandavo.™ Ede. nizando a natureza e fazendo propaganda da colonizagao, nio parece excessivo afirmar que Gandavo se visse obrigado a reduzit o natural da terra A condi¢ao infima, chegando mesmo a questionar a sua humanidade. Por outro lado, esbosava justificativa & escravidao: “Ha também muitos escravos de Guiné: estes so mais seguros que os indios da terra porque nunca fogem nem tém para onde.” !24 Na Historia da Provincia de Santa Cruz, tornaria a indagar acerca da condigéo humana dos indios, acrescentando consideragdes sobre seu descaso para com o trabalho: “Vivem todos mui descansados sem terem outros pensamentos sendo de comer, beber e matar gente, € por isso engordam muito Sao mui inconstantes e mutaveis. . "72> Dificil sendo impossivel, levar adiante a empresa colonizadora com gente to desqualificada para o trabalho sistemético, Barléu e Thevet — um e outro, europeus envolvidos em expe- rigncias colonizadoras diversas da portuguesa — diferem bastante na percepcao que tém do indio. Descrevendo a maneira de adornar-se do amerindio, Barléu fulmina com um julgamento de valor: “Enfim, comprazem-se admiravelmente em sérdida ¢ fétida barbérie.” 2° A diferenga € assim percebida e imediatamente condenada. J Thevet oscila mais, indeciso. Os indios sao uma “canalha”’,?* e sio “'gros- seiros”;'** mas, crédulos, manipulados por seus profetas, so uns coitados — “ces pauvres gens”, diz, compungido."® Nao tém f6, lei ou religido, nem civilidade, vivendo como “bestas irracionais”, da maneira que os fez a natureza; mas so “‘maravilhosamente estra- séculos depois, Schopenhauer diria que “a vontade de vida, ao se objetivar no Hemisfério Ocidental, sentiuse muito serpentina e muito volétil, pouco mamifera ¢ absolutamente nada humana” — Gerbi, op. cit., p. 422. Grifo meu. (123) Gandavo, op. cit., p. 38 (124) Idem, idem, p. 39. (125) Idem, Historia da Provincia de Santa Cruz, p. 125 (126) Gaspar Barléu, Historia dos jeitos recentemente praticados durante ito anos no Brasil e noutras partes sob 0 governo do ilusirissimo Joao Mau- ricio Conde de Nassau etc..., trad. Claudio Brando, Rio, Ministério da Educagao, 1940, p. 64. (127) Thevet, Les singularitez..., p. 140. (128) Thevet, Les francais en Amérique..., p. 67. (129) Thevet, Les singularitez, p. 233. 57 nhos”."** Em Thevet, a percepgao da diferenca remete ao imagindrio medieval: © homem americano € diferente daquilo que os europeus, com base na concepcao medieval de homem selvagem, imaginavam que ele fosse: “Entretanto, muitos tém a louca opiniio que essa gente que chamamos Selvagens, por viverem nos matos ¢ nos campos quase a0 modo de animais brutos, si também peludos por todo o corpo, como um urso, um cervo, um leio, e chegam a pinté-los assim nos seus quadros opulentos; em resumo, para descrever um homem selvagem eles Ihe atribuem abundancia de pélo, dos pés a cabeca, como um atributo insepardvel, ao modo do negrume no corvo; 0 que € totalmente falso”, diz Thevet, escorado na experiéncia: aqueles que afirmaram tal coisa o fizeram sem nunca terem visto um indio americano, “Quanto & mim", prossegue, “sei ¢ afirmo com seguranca porque foi o que vi”. E a realidade € outra: “. . .pelo contrério, os Selvagens tanto da {ndia Oriental, quanto da nossa América, saem do ventre de sua mae tao bonitos ¢ lisos quanto os meninos da nossa Europa”."** © indio nao tem pélos: € imberbe; é inferior, diriam no século seguinte os detratores da América, ignorando 0 hébito da depilagio do homem adulto, comum entre os selvagens e relatado, entre outros, pelo proprio Thevet. Knivet € um dos pouquissimos europeus a tecer consideragées desfavoraveis acerca do comportamento dos europeus na América, © 0 faz, evidentemente, j4 no contexto de disputa entre pafses hege- ménicos pelo controle das colénias ultramarinas.*** Fala da desu- manidade dos portugueses, ¢ incita os indios a se posicionarem contra estes. Da, assim, a outra face da anti-humanidade amerindia: a anti- humanidade européia. “Nao obstante todos estes inconvenientes tre- mendos (leopardos, ledes, crocodilos, surucucus), preferiamos cair sob as garras duma fera, ou de uma vibora, do que as mfos sangui- nérias dos portugueses””. Knivet atiga os indios contra os portugue- ses, mostrando-Ihes que estes ndo reconhecem neles seres humanos: escravizam-nos, marcam-nos “‘a ferro como a cies”, acoitam-os ¢ infligem-Ihes “‘suplicios como se nfo fossem eles de came e sangue”.'™* O inglés dizia preferir “ficar a mercé dos selvagens pagios e carni- (130) Thevet, idem, pp. 134-135. (131) Thevet, Les singularitez..., pp. 151-152, (132) A respeito da questo da disputa pela hegemonia na Europa ¢ pelo controle das colénias, ver Fernando A. Novais, Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial — 1777-1808, So Paulo, Hucitec, 1979, sobretudo cap. 1, “Politica de Neutralidade” (135) Knivet, Véria jortuna.... pp. 55, 56-67, 58 ceiros do que mercé da crueldade sanguinéria dos cristfos portu- gueses”.194 A violéncia cotidiana era uma das faces com que se pintava a humanidade-anti-humana dos amerindios. Humanidade ameagadora, que colocava os europeus entre 0 risco de ser flechado e o de ser comido. Jaboatao tem descrigdes notaveis, cinematograficas, de massa- cres promovidos por indigenas. Em Ithéus, conta, os tapuias gueréns trespassaram de setas toda a familia do sargento-mor Bartolomeu Lopes da Franca, composta dele, da mulher e de cinco filhos, “que todos se acharam mortos ao redor de uma mesa, em que jantavam”.- Pelas lavouras, cafram mottos os escravos, e sobreviveu apenas o quinto filho, que estudava na Vila e que nada pode herdar a néo ser a mégoa, pois a fazenda se perdeu na chacina."° Contra 0 engenho do cavaleito do Habito de Cristo e capitio-mor Antonio de Couros Carneiro também se voltou a “titania” do indigena, apesar de ser bem guardado por gente e armas. Cairam sobre o engenho antes do meio-dia dando “seu espantoso urro”, batendo os arcos “empregendo as frechas na descuidada e desprevenida familia”, De dentro das casas, os empregados gritavam, espavoridos: “Gentio, Gentio!” Uma das filhas do capitéo, Dona Isabel de Géis, rezava por umas contas quando foi surpreendida pela balbtirdia; correu para os eémodos de um seu irméo, mas colheram-na “nuvens de setas” e caitr sob as vistas de toda a familia, invocando 0 nome de Jesus, Pedindo confissio, ajeitando “com as mios as saias, para compostura dos pés”, cobrindo 0 rosto com um lengo, Ievantando as maos para © Céu e se oferecendo em martirio — vitima involuntéria sacrificada em édio da Santa Fé Catélica. Morreu trespassada por mais de vinte flechas. A mae se escondeu nas éguas de levada do engenho, e apesar de “quasi regelada ¢ morta”, foi achada com vida. Pelos aposentos interiores, pelos campos, por toda parte estendiam-se os mortos. Luiz de Freitas, um outro filho, foi achado “‘crivado desde a cabeca até os pés com mais de setenta setas”: tinha saido para cacar porcos monteses.'%* No assalto & casa de Francisco de Sé Menezes, que estava enfermo na cama, os indios mataram no patio um seu filhinho que a ama trazia nos bracos, “ficando ambos trespassados, e cobertos de setas”."** Foi também na Bahia que ocorreu o ataque indigena (134) Knivet, op. cit., pp. 58-59 (135) Jaboatdo, op. cit., vol. I, pp. 105-106. (136) Jaboatio, op. cit., vol. 1, pp. 106-107-108. (137) Idem, idem, p. 110. 59 casa de Francisco de Aradjo de Brum, “‘homem solteiro, que havia pouco tinha concluido na cidade os Estudos de Filosofia”. Numa manha, despachara a gente de armas € os esctavos para os servigos de fora, e ficara em casa sé com os empregados domésticos. Passeava pelo seu terreiro quando uma tropa de gentio rodeou toda a casa, impedindo-o de entrar nela. O licenciado “partiu & carreira’” em direcdo ao rio, que ficava perto, pensando que, uma yez na Agua, se esquivaria das flechadas do inimigo. “Mas quis a sua fortuna que chou a maré vazia, e grandes lamacais, que The impediram os pasos; com que fugindo da morte em terra, a foi beber entre lodos, e nuvens de setas, de que ficou coberto. . .”.* © risco de ser comido est4 presente em muitas das paginas escritas por jesuitas. “Para 0 ano, se ndo nos comerem os negros (leia-se indios), vos escreverei mais largamente de tudo, se Deus for servido”, dizia em 1553 o padre Azpilcueta Navarro em carta aos Irmaos de Coimbra.** Preparando-se para entrar nos sertées — “tesouros de almas” —, Nobrega expressava ao Provincial de Por- tugal o medo do canibalismo indigena: antes de partir, queria deixar “bem comegadas” a obra das casas de meninos, “em que fique funda- mento da Companhia, se poryentura nos matarem e nos comerem a todos os que formos”.” Knivet deixou um relato impressionante da execugdo e ingestdo de portugueses por parte dos indios. Primei- ramente, matava-se o homem a golpes na nuca; em seguida, tirava- se-lhe a pele com um dente de capivara, ajudando com o fogo até que, com as maos, toda a pele do corpo pudesse ser destacada. A cabega, cortada, era entregue ao “carrasco”; as entranhas, as mu- Iheres. O corpo era retalhado junta por junta, distribuindo-se as partes; no dia seguinte, as mulheres “ferveram cada junta numa va- silha de gua”, e assim o grupo todo fez uma enorme sopa.’*? Jaboatao explica as continuadas guerras indigenas pelo apetite por carne humana, e transmite o depoimento prazeroso de uma velha india potiguar que, moribunda, sonhava com o manjar prefe- rido. Ja havia recebido “toda a medicina da alma” e parecia bem disposta espiritualmente, e inclinada a {6 catdlica. Compadecido com a fraqueza da velha, o padre que a assistia resolveu the “aplicar (138) Idem, idem, p. 114. (139) Carta do P. Joao de Azpileueta Navarro aos irmios de Coimbra; Porto Seguro, 19 de setembro de 1553, in Serafim Leite (org.) Novas Cartas Jesuiticas, p. 158. (140) “Ao padre Simao Rodrigues, Provincial de Portugal”, Bafa, 10-7-1552, in Serafim Leite, op. cit., p. 26. (141) Knivet, op. cit, p. 84 também algum alento para o corpo”, indagando-lhe se néo queria comer um pouco de acticar ou outra coisa gostosa do além-mar. “Ai, meu neto”, respondeu a velha, “nenhuma coisa da vida desejo, tudo me aborrece ja, s6 uma coisa me poderia tirar agora este fastio. Se eu tivera agora uma maozinha de um rapaz tapuia, de pouca idade, ¢ tenrinha, ¢ lhe chupara aqueles ossinhos, entéo me parece tomara algum alento: porém eu, coitada de mim, jé no tenho quem me va frechar um destes!””,1 A humanidade anti-humana se manifestava ainda no estado de pecado em que, para o europeu catélico, viviam os naturais da terra. Evidentemente, uma das principais fontes a registrar a vida pecami- nosa dos homens da América portuguesa so as cartas jesuiticas Nelas, a colénia € o lugar por exceléncia do pecado, e este se gene- ralizava de tal forma que muitos dos padres chegavam a descrer no poder regenerador da fé. “Fiquei aqui somente por falta de padres € pela necessidade que havia na terra de despertar a gente que esta- vam € esto no sono do pecado somente com nome de cristdos embe- bidos em malquerencas, metidos em demandas, envoltos em torpezas e sujidades publicamente, 0 que tudo me causava uma tibieza e pouca fé © esperanca de poder-se fazer fruto”, escrevia da Bahia o padre Azpilcueta Navarro. Quais os pecados? Vicios da carne — 0 incesto com lugar de destaque, além da poligamia e dos concubinatos —, nudez, preguiga, cobica, paganismo, canibalismo. “No vicio da carne, sao ‘sujissimos”, escrevia dos carijés 0 padre Jernimo Rodrigues. Havia muitas mu- theres para um s6 homem: sobrinhas, enteadas, netas, “e alguns tem por mulheres as préprias filhas”. E ainda mais espantoso: muitos homens para uma s6 mulher, e maridos deixando “andar as mulheres pot onde e com quem elas querem”."*4 No dizer de um historiador conservador, uma sociedade “informe e tumultudria” 24° A preguica, outro pilar da explicagéo de Paulo Prado (leitor assiduo dos jesuitas e das Visitagdes do Santo Oficio): “‘a mais pre- guigosa gente que se pode achar, porque desde pela manha até a noite, ¢ toda a vida, nio tem ocupagao alguma: tudo € buscar de (142) Jaboatio, op. cit, vol. 1, pp. 1514. (145) Carta de 199-1553, in Serafim Leite, op. cit, p. 156. (144) Relago do padre Jerdnimo Rodrigues, in Serafim Leite, op. ci p. 252. Um dos mais famosos incestuosos dos tempos coloniais foi Joao Rama. tho. Ver & p. 46, carta de Nobrega, (145) Paulo Prado — Retrato do Brasil — Ensaio sobre a tristeza brasi- leira — 7+ ed., in Provincia e Nagao, Rio, Liv. José Olympio, 1972, p. 166. 61 comer, estarem deitados nas redes”; gente ‘“‘afeminada, fora de todo © género de trabalho’’;'* “gente indolente, que nao se importa com nada, deitando o dia todo, preguigosamente, nas suas moradias, nunca saindo para outras regides, exceto para procurar viveres”, diria o inglés Knivet.!*7 A cobiga também entraria no rol dos pecados, envolvendo, desta vez, antes os homens brancos; mostrava ainda como, de fato, a co- l6nia incitava & transgresso. Muito elucidativo, neste sentido, é o relato do irmao Antonio Rodrigues, que como Santo Inécio, primeiro fora soldado. Deixara Sevilha em 1523 junto com 1800 homens em busca de metal precioso. Atingira o rio da Prata e vira muitos dos companheiros perecerem nos dentes de oncas bravas; depois, sobre- veio a fome, sobrevieram os indios: “‘Prouve a Nossa Senhora cas- tigar a nossa cobica e pecados, que soldados comumente fazem. A fome surge pois como flagelo e castigo contra as atrocidades co- metidas: antropofagia, ingestao de fezes, desmandos de varios tipos, blasfémias, falsos testemunhos, “injustas justigas”, “ali os oficiais da ordem da guerra diziam: ‘Bem é que morram, porque nao haverd ouro para tantos’”. Um relato curioso em que os europeus sio fero- zes, e bondosos os indios: “...achamos uns gentios que chamam ‘Timbos’, os quais sao muitos. Nao comem carne humana, antes se afastam disso. Sa0 muito piedosos, porque indo nés muito sumidos € os dentes e beicos negros, levando figura mais de homens mortos que vivos, nos levaram nos bracos e nos deram de comer e curaram- nos com tanto amor e caridade, que era para louvar a Nosso Senhor ver, em gente apartada da fé, tanta piedade natural, que com tanta mansidao e amor tratavam a gente estrangeira, que nao conheciam.” '** Humanidade esquisita, anti-humana, meio monstruosa, diferente, pecadora. Seriam homens mesmo? Poderiam ser convertidos, receber a palavra divina? '** Continuador da tradigao de Vico, o abade Ga- (146) Relacdo do padre Jerénimo Rodrigues, pp. 230 e 259. As pp. 226-227, trecho antolégico sobre md educagao das criangas indigenas ¢ sobre preguica. (147) Knivet, op. cit., p. 142. No s. XVIII, de Pauw diria serem os sel- vagens, por néo trabalharem, menos fortes que 0s povos civilizados, jé que © trabalho fortificaria os nervos. Gerbi, op. cit., p. 62, nota 54. (148) “Antonio Rodrigues, soldado, viajante e jesuita portugués na Amé- rica do Sul, no séeulo XVI" — introd. e notas padre Serafim Leite, S.J., Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, n2 49, Rio, 1927, pp. 55-73. (149) “A proximidade com a animalidade ou com a desordem que nao haje uma permanente unanimidade de opinido quanto & possibilidade da conversao. Seria o indigena capaz de compreender a mensagem crista? Teria ele uma Razao? Seria Homem?” — Luis Felipe Baeta Neves, op. cit. 62 liani acreditava que o indio californiano no chegava a ser um ho- mem, mas ‘“‘o mais desperto, 0 mais astuto eo mais hébil dos ma- cacos”."* Mesmo reconhecendo atributos de humanidade para o indigena americano, William Robertson ndo consegue evitar de qua- lificé-lo, na Histéria da América, de “animal melancélico”**! Para Kant, algumas das ragas americanas representariam o escalfio mais baixo da humanidade.1** AfirmagGes deste tipo trazem atrés de si uma longa histéria de detragao. Lembrou Sérgio Buarque de Hollanda que, durante o pri- meiro século de conquista, os espanhdis que estiveram nas Indias “tenderam a ver os indios sob 0 aspecto, ora de nobres salvajes, ora de perros cochinos”. No Brasil, mostraram os documentos que a segunda vertente levou a melhor, os antigos missiondrios do Brasil aproximando-se mais de um Sepilveda do que de um Las Casas.15* J na carta de Caminha surge a comparagao com os animais: os indios seriam “gente bestial e de pouco saber”, incapazes de com- preender o gesto cortés de Cabral. Mas, apesar disso, limpos e bem curados. Portanto, bons animais: “‘sio como as aves, ou animais montesinhos, aos quais o ar faz melhores penas e melhor cabelo que &s mansas”. Daf 0 asseio, gordura, formosura de seus corpos.% Em 1555, Anchieta, o “suave evangelizador de nossas selvas”, comparava-se praticamente a um veterinério. Ao tratar da doenga dos indios, servindo de médico e de sangrador, descreve suas atividades: condi¢ao humana dos indios, os jesuftas questionavam 4 catequese: “estariam os jesuitas caindo no pecado do orgulho a0 se pro- porem uma tarefa a qual o préprio Deus nao se teria proposto? ou Este teria reservado tal misséo para testar o valor de seus filhos incontestes?” op. cit., » P. 113. Dizia ainda que, como os selvagens, os gatos também podiam ser educados e civilizados, requerendo apenas tem- po. Os gatos teriam levado de 40 a 50 mil anos para aprenderem o que sabem hoje. “E justo pois, que os californianos e australianos, que tém trés ou quatro mil anos de idade, sejam ainda umas feras" — Apud Gerbi, op. cit. P. 113, nota 209. (151) “A pensive melancholy animal"; “a serious melancholy animal” — Apud Gerbi, op. cit., p. 152, nota 44. (152) Gerbi, op. cit., p. 305. (153) Sérgio Buarque de Hollanda, op. cit., pp. 298299 © p. 303. “O reptidio ao indigena — a sua animalidade — centraliza-se em trés formas de comportamento qualificadas de repugnantes ¢ que seriam comuns a todos os ‘nativos'. Séo 0 incesto, 0 canibalismo e a nudez.” Luis Felipe Baeta Neves, op. cit, p. 56. (154) Carta de Pero Vaz de Caminha, apud Carlos Malheiro Dias, op. cit., vol. If, p. 94. 6s “deitar imprastos, alevantar espinhelas, ¢ outros offcios de albeitar, que eram necessdrios para aqueles cavalos, isto & aos indios” 25° Mas foi Nobrega quem mais se debateu com a animalidade do indigena brasileiro. Nas cartas ou no Didlogo, suas idéias se repetem, “o jesuita bate sempre nas mesmas teclas (...) e tanto mais aber- tamente quanto mais os anos passam”.""* Os indios “‘siio cies em se comerem ¢ matarem, e so porcos nos vicios e na maneira de se tratarem”: esta passagem famosa segue dizendo que os padres che- gavam do reino achando que converteriam “‘a todo o brasil em uma hora”, sendo entretanto necessério mais de um ano para converter um 86 indio, tal a “sua rudeza e bestialidade” 2°" A experiéncia com o indfgena solapara desde cedo as esperancas de Nobrega acerca das dimensoes da conversdo, levando-o a consi- derar “o pouco que se podia fazer” por “‘ela ser uma maneira de gente de condicéo mais de feras bravas que de gente racional”. Indiscutivelmente racionais, os colonos crist4os avizinhavamse tam- bém da animalidade: davam “pouca ajuda” ¢ “muitos estorvos” aos jesuitas, oferecendo com seu modo de viver “escindalo” ¢ “mau exemplo” aos indios."** Paulatinamente, a idéia de humanidade invié- vel, de inicio atribuida ao indio, impregnaria toda a populagio da colénia, associando-se & prépria condigao colonial. A mesticagem seria um dos responsdveis por este conidgio.™" Ao tratar dela, Barléu comparou-a a semiferocidade: “mesclando-se entre si brancos ¢ ne- gros, nascem os trigueiros, corrigida a negrura por uma coloragao mais clara”; a este tipo, os espanhéis chamavam de mulatos, ¢ os (155) Sérgio Buarque de Hollanda, op. cit., p. 303. José de Anchieta, Car- tas, Informagées, Fragmentos Histéricos e Sermoes, Rio, 1953, p. 186. Grifo meu. (156) Silva Dias, "Os portugueses e 0 mito do “bom selvagem’*, in op. cit., p. 26. (157) Manuel da Nébrega, Didlogo sobre a conversao do gentio (1556-59), introd. ¢ notas padre Serafim Leite, Lisboa, Edicio Comemorativa do IV Cen- tenétio de Sao Paulo, 1954, p. 54 (158) Nobrega, “Ao P. Miguel de Torres, Provincial de Portugal” — 2-9-1557, in Serafim Leite, Novas Cartas Jesuiticas, p. 68. (159) Sobre 0 contégio da animalidade: “O mal veio primeiramente de outra coldnia vizinha, em a qual o sangue portugués se tinha misturado muito com 0 dos indios. O contdgio deste mau exemplo chegou bem depressa a Sao Paulo, ¢ desta mistura saiu uma geragio perversa...” Charlevsix, apud frei Gaspar da Madre de Deus, Memdrias para a Hist6ria da Capitania de Sao Vicente, 3: ed., introd. € notas Affonso E. Taunay, Sio Paulo-Rio, Weiz- flog Irmaos, 1920, p. 230. 64 romanos, de hibridos, “isto é, gerados de pais desiguais, como os semiferozes, nascidos de ferozes e de mansos”"° Voltando a Nobrega, tem-se na carta de 8 de maio de 1558 uma espécie de resumo de suas idéias acerca dos indigenas: desde o Des- cobrimento, os indios tinham prejudicado muitos cristaos, tomando- Ihes navios e fazendas, maltratando indistintamente 0s que eram cruéis com eles e os que eram bondosos, “E so tao cruéis e bestiais, que assim matam aos que nunca Ihes fizeram mal, clérigos, frades, mulheres de tal parecer, que 0s brufos animais se contentariam delas e Ihes nao fariam mal.” A brava gente portuguesa, a mais temida entre todas as nagdes, era nesta colénia vilipendiada pelo indio, so- fria e suj e triste gentio do mundo”. Havia pois itava-se “ao mais que se enquadrar os indios numa ordem politica de estrutura auto- ritéria, na qual cabia até a escravidao. “Sujeitando-se o gentio, ces- sario muitas maneiras de haver escravos mal havidos e muitos escri- pulos, porque teréo os homens escrayos legitimos, tomados em guerra justa.”’ #°" $6 assim cessaria “a boca infernal de comer a tantos cristéos quantos se perdem em barcos e navios por toda a costa”, diria ainda Nébrega, apontando jé o terceiro nivel de expresso das consideragses européias acerca dos homens americanos: 0 dos indios como deménios. Outros jesuitas seguiriam 0s passos de Nébrega e Anchieta na percepgo do indio como animal: “no comer carne humana so piores que cdes”, diria o padre Jerénimo Rodrigues.'”* Mas nao foram os inacianos os tinicos a verem © gentio mais proximo das socie- dades animais do que das humanas. A excessiva crueldade do ind{- gena repugna a condigao humana, dizia Gandavo na Histéria da Provincia de Santa Cruz: nfo apenas matam todos aqueles que néo séo de seu rebanho como também os comem, “usando nesta parte de (160) Gaspar Barléu, op. cit., p. 64. Grifo meu. (161) Nébrega, “Apontamento de coisas do Brasil” in Serafim Leite, S.J.. op. cit. pp. 76 © 77. Grifo meu. “A anilise do jesuita € estranha, como se vé, & legenda da bondade para- disiaca do indio, ¢ carece de incitamentos que sugiram a superioridade moral ‘ou ‘cultural’ dos seus costumes.” Silva Dias, “Os portugueses € 0 mito do “bom selvagem’”, in op. cit., pp. 297-298. Este autor defende a tese de que do bom selvagem foi marginal na cultura portuguesa. Nas cartas jesui- as, 0s tragos do mau selvagem seriam “mais vincados ¢ de longe mais abun- dantes” que os do bom selvagem. — p. 294. Sobre o principio da sujeigiio € obediéncia em Nobrega, ver pp. 328 € 329. (162) “A misao dos Carijés" — Relaco do padre Jerénimo Rodrigues — in Serafim Leite, Novas Cartas Jesulticas, p. 236. 65 cruezas téo diabdlicas, que ainda nelas excedem aos brutos animais que no tem uso da razao”.’"* Os Aimoré, dos quais um punhado séo bastantes para destruir muitas terras, nfo tém casa ou lugar certo onde possam ser encontrados, “mas andam como /edes e tigres pelos matos”, dizia frei Vicente do Salvador. “Tigres humanos” € ainda a designacao usada por frei Gaspar para os Guaitacd da regiéo do Rio de Janeiro.'** Animal melancélico, como 0 de Ro- bertson, é 0 indio de Barléu: “O gentio do sertéo ¢ todo aquele que conserva Os costumes patrios aproximam-se, na crueldade, mais das feras que dos homens. Sao avidissimos de vinganca e de sangue hu- mano, temerdrios € pressurosos para os combates singulares e para as batalhas”, diria ainda o historiador do Brasil Holandés.'®* Cabe- los pretos, minazes no semblante, ferozes no olhar, os Tapuia, “na velocidade da carreira dificilmente cedem as feras.” Antropéfagos todos, aterrorizavam “aos outros barbaros e aos portugueses pela sua fama de crueldade”. Também nas inimizades eram animalescos: mostravam-nas “encarnicadas, acima do que permite a humanidade ou 0 ddio”."” Um gente “‘notével pela barbaridade de seus costumes e pela fereza do seu natural”, diria Jaboatfo, associando, um pouco mais adiante, os homens aos animais: “Uma regido (0 Brasil) tao habitada de individuos humanos, como de animais ferozes, tio no- civos muitos destes, como inumanos aqueles; indios selvagens, tio brutos como os mesmos irracionais, e ainda ao parecer mais irra- cionais que os mesmos brutos”. Jaboatdo justificaria esta afirmativa de serem os indios mais irracionais que os préprios bichos com base na antropofagia: nenhum animal come o seu semelhante, ou seja, um outro animal da mesma espécie, ¢ 0 indio nao s6 come outro indio como também os que Ihe sio préximos, parentes ¢ amigos.2** O contraponto positivo ao mau selvagem, animalesco, foi dado nos tempos coloniais sobretudo pelos escritos de Thevet ¢ de Léry. O primeiro, na Cosmografia Universal, afirma que os selvagens “nao sio assim t4o brutos, que a natureza nao Ihes haja dado luzes para falar das causas naturais”, sendo assim capazes de discorrer sobre a dgua salgada do mar, sobre a composigao da terra.’®* Teriam ainda (163) Gandavo, op. cit, p. 137. © grifo € meu. (164) Frei Vicente do Salvador, op. cit., p. 377. (165) Frei Gaspar da Madre de Deus, op. cit., p. 147. (166) “Propensos melancolia, procuram dissipéla com cantilenas e ins- trumentos misicos, que tém proprios” — Barléu, op. cit, p. 24, (167) Bariéu, op. cit, pp. 260-261. (168) Jaboatio, op. cit, vol. I, respectivamente pp. 4 © 7. (169) Thevet, Les francais en Amérique, p. 40. 66 idéia do bem e do mal, afirma duas paginas adiante. Léry avanga mais na percepcao do outro. Mesmo sendo bérbaras e cruéis com os inimigos, a selvageria nao impede estas nagdes de considerarem bem “tudo 0 que se diz a eles com sensatez”’.." Ao contrério do que se pensava na Europa, os indios Tupinambé nao tinham o corpo “nem monstruoso nem prodigioso” em relago ao dos europeus.!™! Mas as formulagGes simpiticas nao vicejaram entre os portu- gueses, que, como viram Silva Dias e Sérgio Buarque de Hollanda, passaram ao largo do mito do bom selvagem e tenderam antes & idéia do “perro cochino”’.’™* Ao tratar do escravo negro no século XVIII, o jesuita Antonil o enxergaria como animal: “Ha anos em que, pela muita mortandade dos escravos, cavalos, éguas e bois, ou pelo pouco rendimento da cana, néo podem os senhores de engenho chegar a dar satisfacdo inteira do que prometeram”, diria, sem dis- tinguir o homem dos bichos de tracdo.’7* A terceira face da percepcio européia do homem americano como humanidade invidvel era a demonizacao. Dizia frei Vicente que 0 deménio perdera o controle sobre a Europa — cristianizada durante toda a Alta Idade Média — e se instalara, vitorioso, na outra banda da terra — a América e, no texto da epigrafe, mais especificamente o Brasil. A infernalidade do demo chegaré até a colorir 0 nome da colénia: Brasil, para nosso religioso, lembra as chamas infernais, vermelhas. E, aqui, ele foi vitorioso, pelo menos na primeira etapa da luta: esqueceu-se o nome de Santa Cruz, e a designacao apadrinhada por Satands acabou levando a melhor. Cris- tianizando, os portugueses procuravam diminuir as hordas de segui- dores do diabo: afinal, o Inferno era aqui.™* Conforme se i (170) Léry, op. cit., vol. II, p. 81. (171) Léty, op. cit, vol. I, p. 122. (172) *Os ventos dialéticos dos Padres de Jesus, por qualquer lado que 0s tomemes, sopram ao revés de Montaigne e de Rousseau. Longe de afaga- rem as nogées de moral natural, de religiéo natural, de sociedade natural, abonam os ideais da civilizagao cristé implantada na Europa.” — Silva Dias, “Os portugueses © mito do bom selvagem”, op. cit., p. 339. (173) Antonil, Cultura e opuléncia do Brasil por suas drogas e minas, Introduco ¢ notas de Alice P. Canabrava, 2 ed., Sao Paulo, Companhia Edi- tora Nacional, s.d., p. 169. Grifo meu. (174) A demonizagéo do homem americano avangou junto com a expan- so: “O confronto da realidade e da legenda avancou com aprecidivel rapidez; e & medida que a penetraco se aprofundou nos territérios, as revelagdes dos missionétios ¢ exploradores puseram em evidén adisiacos, por vezes até julgados diabélicos, na humanidade ‘primitiva’ do americano” — Silva Dias, “A revolugio dos mitos e dos conceitos”, op. cit., pp. 190-191. 67 a agdo dos soldados de Cristo, passaram a existir “‘ndios {ndios” e“indios conversos”, sujeitando-se estes a Deus € aqueles ao Diabo.!"* Mas a colénia continuou Brasil, trazendo sempre no nome o estigma infernal que lhe havia selado o nascimento. Os indios sio povo do diabo, afirmam repetidas vezes os jesut- tas, “Nem sei outra melhor traca do inferno que ver uma multidio deles, quando bebem, porque para isso convidam de muito longe, e isto principalmente quando tém de matar algum ou comer alguma carne que eles trazem de moquém”, dizia a Santo Indcio de Loyola a padre Luis da Gra." Deménios nos hdbitos alimentares, sio-no também nos de morar e vestir: “Cada casa destas tem dois ou trés buracos sem portas nem fecho: dentro delas vivem logo cento ou duzentas pessoas, cada casal em seu rancho, sem repartimento ne- nhum, ¢ moram duma parte e outra, ficando grande largura pelo meio, € todos ficam como em comunidade, e entrando na casa se ve quanto nela esta, porque esto todos & vista uns dos outros, sem repartimento nem divisio. E como a gente € muita, costumam ter fogo de dia e noite, vero e inverno, porque 0 fogo ¢ sua roupa, e eles sao mui coitados sem fogo. Parece a casa um inferno ou labirinto, uns cantam, outros choram, outros comem, outros fazem farinhas e vinhos, etc., e toda a casa arde em fogos...”3™ Senhor das terras coloniais — como diz frei Vicente na epi- grafe —, 0 diabo nao entregaria o seu povo de mio beijada ao ini migo; a cada avanco da evangelizagdo, ele esbravejaria, demonizando ‘a natureza e se inscrevendo no cotidiano. Um rio caudaloso podia estar habitado por diabos: é 0 padre Jerénimo Rodrigues quem tece esta consideragao. Viajando de Paranagud para 0 Porto de Dom Ro- drigo, deparou com um rio Sdo Francisco “to perturbado, que pa: recia andarem ali visivelmente os demdnios, que ali fervia em pulos (175) Luis Felipe Bacta Neves, op. cit., p. 63. AS pp. 30-35, of autor faz uma bela andlise do descobrimento como o reencontro de regides secretas, do- minadas pelo deménio: “Nao seriam abismos, monstros, mares, apenas obsté- culos, provas que seria necessrio vencer — para que se pudesse reconquistar as regides ‘caidas’?” — p. 31 (176) “Carta do Padre Luis da Gra a Santo Inécio” — 27-12-1553, in padre Serafim Leite, S.J., op. cit., p. 163. (177) Padre Fernio Cardim, Tratados da terra e gente do Brasil, pp. 185-86. Luis Felipe Baeta Neves mais uma vez é feliz ao analisar esta passagem, que caracteriza como sendo de “uma sucessio de espantos" ante a desproporeiio indigena. A norma e 0 equilibrio seriam, para os europeus, introduzidos com © aldeamento jesuitico. Op. cit. pp. 124-130. 68 para 0 céu, que punha espanto”.!"* Por todo o trajeto, procurou o deménio atrapalhar a viagem; nao tendo sucesso, “se meteu em uma baleia, € tao bravamente nos seguiu pela esteira da canoa, que nos enfadou assaz”. Ora se aproximando, ora se afastando, a baleia ende- moninhada apavorou os padres. “Eu, contudo, quando a vi tao perto e que trazia diante de si uma serra de 4gua, lancei-lhe um pequeno Agnus Dei.” S6 assim a baleia (deménio) se afastou.'™ Quando, na missao dos Carijé, se preparavam os inacianos para celebrar as pri- meiras missas “e tomar posse, de parte de Deus, de gente que ele tantos mil anos tinha em seu poder”, Satands fez sentir sua forca. dia estava trangiiilo, claro, “bonangoso”; mas quando, consertan- do o altar, os padres comecaram os preparativos para a missa que se realizaria no dia seguinte, “nado péde sofrer o desaventurado, e ordenando uma tempestade de relampagos, trovGes, vento e chuva parece que visivelmente que andavam os deménios, e que bem mos. travam o sentimento que tinham com nossa vinda, e foi to grande que, com estar a igreja mui bem coberta e de boa cobertura, nos molhou o ornamento, e frontal, e deu com a imagem de Nossa Se- nhora, do altar no chao, parece para yer se Ihe podia quebrar a vidraga € nem bastou cobrir o padre o altar com peles”. Nao cessou af, entretanto, a malicia do deménio: no dia seguinte, milhares de moscas cobriram o altar e 0 padre — “foi cousa pasmosa” — du- rante a missa. Indubitavelmente, nas duas ocorréncias havia 0 dedo do diabo: “E passado aquele dia, em dois anos que ali estivemos, nunca mais houve aquelas moscas nem aquelas tempestades. ..”!*° Por toda a coldnia travava-se a peleja: “Neste lugar tivemos muitos combates do deménio e ainda agora temos”’, escrevia anos antes, de S. Vicente, 0 padre Pero Correia.'*! E basicamente na relacéo com o sobrenatural que o homem da colénia paga tributo ao diabo e confirma seu caréter de humanidade diabélica. Assaltados por ilusdes fantdsticas, os pobres indios — diz Thevet — vivem aterrorizados, temendo o escuro e levando consigo um fogo quando saem & noite. As ilusées néo podem ser explicadas pelo raciccinio, pois os fndios destituidos da verdadeira razo: explicam-se pela incansével perseguigao que move o Maligno contra (178) “A missio dos carijés”, padre Jerénimo Rodrigues, in Serafim Leite, op. cit. p. 123 (179) Idem, pp. 214215. (180) Padre Jerénimo Rodrigues, “A missio dos carijés", in Serafim Leite, op. cit. p. 220, (181) Carta de Pero Correia — 18-7-1554 in Serafim Leite, op. cit., p. 174 69 aqueles que nao conhecem Deus.'*? Induzidos ao erro pelo Maligno, incapazes de discernimento por serem privados de razio, os indigenas atolam-se mais € mais no engano da idolatria: adoram 0 Diabo através de seus ministros, os pajés, “pessoas de mé vida, que se dedicaram a servit 0 diabo para receber seus vizinhos”.!*° Ao descrever uma ceriménia indigena comandada pelos pajés — e com a qual confessa ter ficado encantado — Léry a relaciona aquilo que mais assombrava © imaginétio das populagdes européias seiscentistas: 0 sabbat das feiticeiras.'** Festivo, condenado, ameagador — nas palavras de Cer- teau —, o mundo do além “reaparece, exilado, no fim do universo, nas bordas extremas da empresa colonial”. No Novo Mundo, o explo- rador-missiondrio funcionaria como funcionava, do outro lado do Atlantico, o seu colega exorcista: “‘Infelizmente, ainda nao se estudou de forma sistemética a literatura de viagens como um imenso comple- mento € deslocamento da demonologia. E entretanto, nelas se encon- tram as mesmas estruturas.” }*> Constatada nos habitos e na vida cotidiana, confirmada nas pré- ticas mégicas e na feitigaria, a demonizagao do homem colonial expandit-se da figura do fndio — seu primeiro objeto — para a do escravo, ganhando, por fim, os demais colonos. Para se esquivarem dos castigos rigorosos, os escravos negros recorriam a “artes diabé- licas”."" No inicio do século XVIII, temendo revoltas escravas € enxergando sublevagdes por toda a parte, Assumar via nas Minas — nervo da economia colonial portuguesa setecentista — a propria natureza sendo insuflada pelo clima de rebeliao. Tudo era frio na- quela capitania, exceto o vicio, sempre a arder: “‘a terra parece que evapora tumultos; a Agua exala motins; 0 ouro toca desaforos; des- filam liberdade os ares; vomitam insoléncias as nuvens; influem desordens os astros; o clima é tumba da paz e berco da rebeliao; a natureza anda inquieta consigo e, amotinada 1é por dentro, é como (182) “E coisa de espantar que, apesar de ndo serem racionais, esses po- bres homens, pelo fato de estarem privados do uso da verdadeira razio e do conhecimento de Deus, estio sujeitos # varias ilusGes fantésticas, e persegui- ges do espirito maligno. Dissemos que por aqui acontecia coisa semelhante antes do advento de Nosso Senhor; pois © espirito maligno s6 se esforca para seduzit e depravar a criatura que esté fora do conhecimento de Deus.” Thevet, Les singularitez..., p. 168. (183) Thevet, op. cit., p. 172 (184) Léry, op. cit., p. 71. (185) Michel de Certeau, “Ethno-graphie — Voralité, ou Vespace de Vautre: Léry" in op. cit., pp. 245-244. (186) Antonil, op. cit. pp. 165 164. 70 no inferno”,!*7 diria 0 governador. Inquietos, rebeldes, os colonos das Minas e os escravos excessivamente numerosos punham em re- volta a propria natureza. A possibilidade da tomada de consciéncia da condicao colonial reiterava no Brasil sua condigao de um grande inferno, nao se salvando nem a natureza que, em si, isoladamente, era edénica. ‘A catequese ¢ as medidas “normalizadoras” das autoridades co- loniais e dos dignatérios da Igreja, a agao do Santo Oficio somaram esforgos no sentido de homogeneizar a humanidade inviavel, anima- lesca, demonfaca do Brasil colonial. Cumpria “corrigir 0 corpo do Brasil”, afastar as populacdes do deménio e aproximé-las de Cristo,!** amansando-as.'*’ Em 1535, antes mesmo que viessem os jesuitas, na Carta de Doagio a Pero Lopes, D. Jodo III estabelecia que se de- veria trazer & f€ catdlica os iddlatras e infigis da colénia a fim de se povoar e aproveitar a dita terra, punindo hereges, sodomitas, fal- sitios com pena de morte, dando-se a sentenca e execugio “sem apelagio, nem agravo”." O prdprio poder real se antecipava & Igreja na tarefa de conter as hostes do demo e converter o inferno em parafso, mesmo que terrestre. Seria o inferno um destino? Em 25 de julho de 1763, Domingos Marinho, natural de Vila Rica, confessava junto a Inquisigdo que, por padecer de “algumas enfermidades”, chamara a curandeira Maria Cardosa e seu afilhado Antonio, de 16 anos, ambos pretos foros. Estes fizeram vérias oragdes, correndo-lhe o corpo com uma pedrinha branca, depois com uma navalha amarrada com novelo de algodao. Rezaram ainda para a Santissima Trindade, para Sdo Domingos, para So Francisco, falando “na sua lingua”, Domingos Marinho estava arrepenidido, ou pelo menos dizia estar. No final da confissio, de- clarou: “Estas Minas estio bastante infectadas do Deménio”.!®! Ate- morizado, Domingos falava com a voz da Inquisigao, dos poderes estabelecidos. Morava nas Minas Gerais, que, indubitavelmente, sin- (187) Apud Sylvio de Vasconcellos, Mineiridade — Ensaio de Caracteri- zagao, Belo Horizonte, 1968, p. 25. Grifo meu. (188) Luis Felipe Baeta Neves, op. cit., pp. 134 e 58 respectivamente. (189) Gandavo, Histéria da Provincia de Santa Cruz, p. 131 (190) Carta de D. Jodo III, Evora, 21-1-1555 apud frei Gaspar da Madre de Deus, op. cit., pp. 258272. (191) ANTT, Inquisicdo de Lisboa, Caderno do Promotor, n 126, fl. 415. Foi © historiador Luis Mott quem encontrou esta passagem, “uma perolazi- nha", conforme me escreveu. A ele, pois, devo a gentileza desta indicacdo. 71 tetizaram a colénia no século XVIII." Vinte e seis anos depois, a Inconfidéncia mostraria com sangue — sempre ele — como o indio- bicho ¢ 0 indio-diabo haviam se fundido no corpo danado do colono em busca da consciéncia da condicao colonial. E a colénia continua- ria inferno pelos deménios interiores que, felizmente, continha. COLONIA, COLONIZACAO: O PURGATORIO POSSIVEL Em A Divina Comédia, Dante Alighieri fixou definitivamente a imagem do Purgatério, dando-Ihe inclusive existéncia geogrifica: era uma montanha onde as almas pagavam seus pecados, purgando-se deles e esperando a salvacdo possivel que viria com o Juizo Final. Mas até se corporificar na montanha de Dante, © purgatério atra- vessou um longo percurso, construindo-se a partir de elaboragdes mentais, sonhos, projecdes do imagindrio europeu fundidas a tradi- 6es milenares origindrias do mundo antigo. Para tecer 0 Purgatério, entremearam-se os elementos da cultura erudita e os da popular. Entre 1150 € 1250, afloraram com vigor as crencas populares, ga- nhando os sermées eruditos, colorindo as hagiografias, emprestando tradicdes & prépria formulacdo erudita do Purgatorio. Mesmo atuando neste processo, a imaginag&o popular nunca deixou de ser vista como ameacadora, como algo a que se devia resistir: os concilios que insti- tucionalizaram 0 Purgatério — Lido II (1274), Florenca (1438) Trento (1563) — tenderam a manter todo o rico imagindrio do Pur- gatdrio fora dos dogmas e das verdades da f€, acentuando o fosso entre cultura popular e cultura erudita.* O Purgatério atenuava a tensdo terrivel de ter o destino inexo- ravelmente amarrado as duas possibilidades extremas representadas pelo Inferno ¢ pelo Paraiso. Era uma chance que se abria para 0 cristo, possibilitando a corregio do desvio, o perdéo do pecado cometido. Passou a ocupar papel tao importante na mentalidade cristé que uma santa especial foi escalada para atender aos apelos e oracdes encaminhados as almas que nele se encontravam: Santa Lutgarda. (192) Ver @ este respeito o meu capitulo “Minas Gerais, a sintese ,da ", Laura Vergueiro, Opuléncia e miséria das Minas Gerais, 2° ed., 1983, pp. 75-79. io de Jacques Le Goff em La naissance du Purga- toire. As pp. 404-405 0 autor deixa claro que as penas de priticas magicas sero purgadas no Purgat6rio, este novo espago geogrifico que nascia garan- tindo as massas um lugar no Além. cold Sao Paulo, Bra: 72