Você está na página 1de 68
uultimato ltimato 314.indd 314.indd 11 33/9/2008 /9/2008 118:17:36 8:17:36
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
11
33/9/2008
/9/2008
118:17:36
8:17:36
uultimato ltimato 314.indd 314.indd 22 33/9/2008 /9/2008 118:17:46 8:17:46
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
22
33/9/2008
/9/2008
118:17:46
8:17:46
Abertura O relógio não pára! S Sempre foi assim. Existem o ontem, ... moças, os moços
Abertura
O relógio não pára!
S Sempre foi assim. Existem o ontem,
...
moças, os moços e os velhos vão dançar
onde não tropeçarão (
).
Então as
o hoje e o amanhã, e também o antes
de ontem e o depois de amanhã. A
e se alegrar. Eu os animarei e mudarei
caminhada do ontem mais distante
o seu choro em alegria e a sua tristeza
até o amanhã mais distante é longa.
e profanará o templo, matará muita
gente, inclusive os filhos do rei, levará
a elite para a Babilônia e vazará os
olhos de Zedequias. O amanhã trará
tudo isso sobre o povo, aquela tríade
repetidamente anunciada por Jeremias:
em prazer
(Jr 31.4, 8, 13, NTLH).
No meio dos dois estava o hoje, que
não está mais. O relógio não pára, não
atrasa nem adianta. É inútil resmungar,
achar bom ou ruim. É a ditadura
do relógio, o domínio do tempo, a
soberania da história.
O crente precisa aprender a olhar para
o amanhã, para o depois de amanhã e
a espada, a fome e a peste (34.17; 38.2).
Todavia, o profeta não tinha só isso
para dizer. Ele faz outras perdições,
em tom totalmente diferente. Ele
avança no tempo, atravessa o amanhã
sombrio e chega ao radiante depois
de amanhã. Jeremias usa a expressão
para o derradeiro amanhã. Em outras
palavras, precisa enxergar o futuro
próximo, o futuro remoto e o fim da
história. Essa visão linear, progressiva e
ampla o livrará das miragens, da sensação
de que perdeu o rumo, da confusão
mental e da miopia escatológica.
Em última análise, o longo ministério
do profeta Jeremias, na época de
Zedequias, o último rei de Israel (598
a 587 a.C.) tinha o propósito de abrir
os olhos do povo tanto para o amanhã
como para o depois de amanhã. O
amanhã seria tenebroso, mas o depois de
amanhã seria radiante. Entre o amanhã e
o depois de amanhã haveria um período
de setenta anos. O povo precisaria ouvir
ambas as predições saídas da boca do
Senhor e acreditar nelas.
Amanhã, isto é, daqui a pouco,
no ano 587 antes de Cristo, o rei
Nabucodonosor, depois de cercar
Jerusalém por um ano e meio, até
acabar todo o pão e toda a resistência,
derrubará os muros, ocupará a
cidade, destruirá o palácio e “todos
os edifícios importantes”, incendiará
O relógio de Deus tem
corda suficiente para marcar
as horas até o último dia. Só
vai parar quando já não
houver separação entre a
criação e o Criador
“estão chegando os dias” três vezes
(31.6, 31, 38), quando coisas novas e
surpreendentes vão acontecer:
“Eu construirei de novo a nação.
Mais uma vez, vocês pegarão os seus
...
Eu os trarei do Norte [da Babilônia] e
os ajuntarei dos lugares mais distantes
da terra. Com eles virão os cegos e os
aleijados, as mulheres grávidas e as que
estão para dar à luz. Eles vão voltar
como uma grande nação. Quando
eu os trouxer, eles virão chorando e
orando. Eu os levarei para a beira de
águas correntes, por uma estrada plana,
tamborins e dançarão de alegria (
).
...
No amanhã (o futuro próximo),
o Senhor vai “arrancar, derrubar,
arruinar, destruir e arrasar” o povo
de Israel por causa de todo pecado
cometido. Mas no depois de amanhã (o
futuro mais remoto), o mesmo Senhor
vai “plantar e construir” (Jr 31.28).
Nos dias anteriores, o Senhor os feriu
gravemente com feridas incuráveis e
não-cicatrizantes (30.12-15). Nos dias
posteriores, o Senhor cicatrizará o
seu ferimento e curará as suas feridas
(30.17). O que ocorre entre um
período de tempo e o outro, chama-se
de “mudança de sorte”. As expressões
“mudança de sorte” ou “restaurarei a
sorte” aparecem várias vezes no livro de
Jeremias (30.3, 18; 32.44; 33.7, 11, 26).
O relógio de Deus tem corda (ou
energia) suficiente para marcar as horas
até o último dia. Não parou antes de
ontem, nem ontem, nem hoje e não vai
parar amanhã nem depois de amanhã.
Só vai parar quando “vier o que é
perfeito” (1Co 13.10), na parúsia, no
último derramar do cálice cheio da
ira de Deus (o juízo final), quando
o que é imperfeito desaparecer por
completo e para todo o sempre, quando
chegarem a nova ordem, a nova terra e
os novos céus, quando não houver mais
nenhuma separação entre a criação e
o Criador, quando o ser humano se
libertar da ditadura do tempo e entrar
na eternidade!
Setembro-Outubro, 2008
ULTIMATO
3
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
33
33/9/2008
/9/2008
119:32:36
9:32:36
Janusz Gawron
Carta ao leitor Fundada em 1968 O Christus Victor e a transparência de Patrícia Neme ISSN
Carta ao leitor
Fundada em 1968
O Christus Victor e a
transparência de
Patrícia Neme
ISSN 14153-3165
Revista Ultimato
Ano XLI · NÀ 314
Setembro-Outubro 2008
Direção e redação
cartas@ultimato.com.br
Elben M. Lenz César (Jornalista responsável)
MTb 13.162 MG
Administração
Klênia Fassoni, Daniela Cabral, Ivny Monteiro e
Lenira Andrade
Nesta edição Ultimato faz um apelo
N dramático: Por misericórdia, tirem o
além de ser um desabafo necessário,
há de mexer com as estruturas
Vendas
Lucia Viana, Lucinéa de Campos,
Romilda Oliveira, Tatiana Alves e Vanilda Costa
crucificado da cruz! O leitor verá que
ele é justo e oportuno. Os cristãos
Editorial e Produção
Marcos Bontempo, Bernadete Ribeiro,
Djanira Momesso César, Fernanda Brandão
Lobato e Roberta Dias
têm mais intimidade com a morte de
Jesus do que com a sua ressurreição.
Porém, precisam caminhar do lugar da
caveira para o jardim da casa de
José de Arimatéia. Parece que
o relógio de muitos de nós
enguiçou e parou na hora
nona da sexta-feira e
não nos levou à
hora primeira
do domingo.
Os artistas
sacros pintam
muito mais
o Christus
Mortuus do que
o Christus Victor.
Precisamos de ambos:
médicas brasileiras (Eu tenho lepra! ,
p. 28). A cada ano, segundo o
Ministério da Saúde, o Brasil tem 47
mil novos casos de hanseníase.
O Ultimato 40 anos — Encontro de
Amigos, realizado entre os dias
31 de julho e 2 de agosto em
Viçosa, para comemorar
o 40º aniversário da
revista Ultimato, foi
surpreendente!
Mais de
trezentos
leitores
de vários
Estados
e todos os
colunistas
(exceto Bráulia
Ribeiro) estiveram
presentes e deram uma
excelente contribuição.
O evento foi tão
proveitoso para a igreja
brasileira, que vamos
compartilhar com todos
os leitores o que ali foi
dito e conversado, com singeleza
de coração, na próxima edição da
revista.
Vale a pena encerrar esta carta
com a advertência de Henri
Nouwen: “A gratidão por todo o
nosso passado apaga a amargura,
o ressentimento, o remorso e
a vingança, bem como todas
as desconfianças e rivalidades”
(Meditações com Henri J. M.
Nouwen , nº 99).
E. César
Finanças / Circulação
Emmanuel Bastos, Aline Melo, Aparecida
Peixoto, Edson Ramos, Emílio Gonçalves,
Luís Carlos Gonçalves, Rodrigo Duarte e
Solange dos Santos
Estagiários
Bruno Tardin, Daniel Figueiredo, Fabiano Ramos,
Luci Maria da Silva, Luiza Oliveira,
Marcela Pimentel e Priscila Rodrigues
Arte - Oliverartelucas
Impressão - Plural
Tiragem - 40.000 exemplares
Łrgão de imprensa evangélico destinado
à evangelização e edificação, sem cor
denominacional, Ultimato relaciona Escritura
com Escritura e acontecimentos com Escritura.
Pretende associar a teoria com a prática, a fé
com as obras, a evangelização com a ação
social, a oração com a ação, a conversão com
a santidade de vida, o suor de hoje com a
glória por vir. Circula nos meses ímpares.
do Cristo que desceu ao
Hades e do Cristo que
subiu ao céu; do Cristo
crucificado, morto e
sepultado, e do Cristo
que ressurgiu dos mortos
ao terceiro dia, subiu ao céu
e está assentado à mão direita de Deus
Pai. No que diz respeito a Jesus Cristo,
vamos voltar ao equilíbrio do Credo
dos Apóstolos, pois, como lembra
John Stott, “a morte e a ressurreição
de Cristo [são] verdades centrais,
históricas, físicas, bíblicas e teológicas.
Se esse fundamento for perdido, toda a
superestrutura entrará em colapso” ( A
Bíblia Toda, O Ano Todo, p. 278).
A corajosa transparência de Patrícia
Neme, 58 anos, mãe de três filhos,
convertida ao evangelho em 2004,
Publicado pela Editora Ultimato Ltda., membro
da Associação de Editores Cristãos (AsEC)
Os artigos não assinados são de autoria da
redação. Reprodução permitida. Obrigatório
mencionar a fonte.
Assinatura Individual - R$ 55,00
Assinatura Coletiva - desconto de 50% sobre
o preço da assinatura individual para cada
assinante (mínimo de 10)
Assinatura Exterior - R$ 97,00
Edições Anteriores - atendimento@ultimato.com.br
Anúncios anuncio@ultimato.com.br
Editora Ultimato
ATENDIMENTO AO LEITOR
Telefones: (31) 3611-8500
Fax: (31) 3891-1557
E-mail: atendimento@ultimato.com.br
www.ultimato.com.br
Caixa Postal 43
36570-000 · Viçosa, MG
4
ULTIMATO
Setembro-Outubro, 2008
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
44
33/9/2008
/9/2008
118:20:15
8:20:15
Billy Alexander
uultimato ltimato 314.indd 314.indd 55 33/9/2008 /9/2008 118:20:49 8:20:49
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
55
33/9/2008
/9/2008
118:20:49
8:20:49
Pastorais 58 . “Não faça uma coisa dessas” M Mesmo que não seja levado a sério,
Pastorais
58
.
“Não faça uma coisa dessas”
M Mesmo que não seja levado a sério, o
bom conselho não deve ser omitido,
mas dado parcimoniosamente. Se for
para tentar evitar a consumação de uma
intenção pecaminosa, o alerta precisa ser
dado com clareza e autoridade, mesmo
que custe algum preço ao conselheiro.
Quando Joanã, o capitão dos judeus
à época da tomada de Jerusalém pelo
exército caldeu, ofereceu-se para matar
Ismael em benefício da segurança de
Gedalias, o governador disse-lhe de
imediato: “Não faça uma coisa dessas”
(Jr 40.16).
Quando o povo de Israel insistia
em queimar incenso e prestar culto
a outros deuses, por influência das
nações vizinhas, os profetas, dia após
dia, exortavam-no assim: “Não façam
essa abominação detestável” (Jr 44.4).
Quando Amnon, o filho mais velho
de Davi, fingiu estar doente para
receber em seu apartamento a visita
de Tamar, sua irmã por parte de pai, e
fechou a porta para agarrá-la e deitar-
se com ela, a moça gritou: “‘Não, meu
irmão! Não me faça essa violência. Não
se faz uma coisa dessas em Israel! Não
cometa essa loucura ’. Mas Amnon não
quis ouvi-la e, sendo mais forte que ela,
violentou-a” (2Sm 13.12-14).
Quando o governador romano
Pôncio Pilatos, sentado em tribunal
entre a cruz e a caldeirinha,
pressionado pelo povo — que, por sua
vez, era pressionado pelos chefes dos
sacerdotes — hesitou a respeito da sorte
de Jesus, sua mulher lhe enviou esta
mensagem: “Não se envolva com este
inocente, porque hoje, em sonho, sofri
muito por causa dele” (Mt 27.19). Mas,
assim como Amnon, Pilatos não seguiu
o conselho da esposa e agiu contra o
seu próprio senso de justiça.
Quando os sobreviventes do cerco
e da tomada de Jerusalém pelo rei
Nabucodonosor intentaram fugir para o
Egito, o profeta Jeremias declarou-lhes
solenemente: “Não vão para o Egito”
(Jr 42.19). Mas eles desobedeceram e
foram buscar a proteção do Faraó, que
não valeu de nada.
O ser humano está sujeito a receber e a recusar
não só o bom, mas também o mau conselho
Curiosamente, o ser humano está
sujeito a receber e a recusar não só o
bom, mas também o mau conselho.
De um lado, alguns sopram em seus
ouvidos: “Não faça uma coisa dessas”,
“Não cometa essa loucura” ou “Não se
envolva com este inocente”. De outro
lado, há sempre alguém dando a voz de
comando contrário. O conselho de Deus
era para que o homem não comesse o
fruto da árvore do conhecimento do bem
e do mal, mas a serpente aconselhou a
mulher a comer, e Eva, depois de comer,
deu-o a seu marido (Gn 2.15-17; 3.1-4).
Foi Jonadabe, amigo e primo de Amnon,
quem o aconselhou a fingir-se de doente
para satisfazer sua paixão sexual por
Tamar (2Sm 13.3-5). Foi Jezabel quem
aconselhou o marido, Acabe, a tomar
criminosamente a vinha de Nabote, que
ficava ao lado do palácio, o que provocou
o severo juízo de Deus (1Rs 21.1-16).
Essa dupla opção é oposta entre si.
Uma persegue a outra. Muitas vezes,
a voz de uma e a voz da outra saem do
mesmo lugar e têm a mesma energia.
A força do Espírito segreda de um lado
“Não faça” e a força da carne segreda
do outro “Faça”. É uma verdadeira
guerra civil, que durará por toda a vida
terrena.
6
ULTIMATO
Setembro-Outubro, 2008
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
66
33/9/2008
/9/2008
221:22:56
1:22:56
banco de imagens oliver
Refl exão “Busquem o Senhor enquanto é possível achá-lo” IS 55.6 Robinson Cavalcanti Pseudo-pentecostais: nem evangélicos,
Refl exão
“Busquem o Senhor enquanto é possível achá-lo”
IS 55.6
Robinson Cavalcanti
Pseudo-pentecostais: nem evangélicos, nem protestantes
36
Seções
Ricardo Gondim
Verdade versus alucinação
38
Abertura
Carta ao leitor
Pastorais
Cartas
Quadro de avisos
Mais do que notícias
Números
Frases
Novos acordes
Deixem que elas mesmas falem
Meio ambiente e fé cristã
Prateleira
Vamos ler!
Ação mais que social
Agenda
3
4
Redescobrindo a Palavra de Deus
“Todo mundo trabalhando pelo desenvolvimento”,
Valdir Steuernagel
40
6
8
13
História
Em defesa do cristianismo, Alderi Souza de Matos
42
14
15
Entrevista
19
Erni Walter Seibert
53
Best-sellers são substituídos e esquecidos,
mas a Bíblia permanece sempre no topo
46
56
57
58
59
Da linha de frente
Cuidado, indígenas na pista!, Bráulia Ribeiro
50
60
63
O caminho do coração
52
“O pão nosso de cada dia
”,
Ricardo Barbosa de Sousa
Arte e cultura
Bem e mal em Gotham City, Mark Carpenter
54
Ponto fi nal
O livro da (minha) vida, Rubem Amorese
66
Capa
Tirem o Crucifi cado da cruz!
A imperdoável omissão do padre José de Anchieta
Nem tudo é sexta-feira
20
22
24
A Reforma colou a exaltação do domingo com
a humilhação da sexta-feira
26
A implicância protestante contra a cruz
E são ambos uma só “carne”
26
27
Especial
NA INTERNET
• Buscando a vontade de Deus
(seção “Altos papos”), por
Jeverton Magrão Ledo
Eu tenho lepra!, Patrícia Neme
“O julgamento chegou ao Planalto”
O verdadeiro amigo do Noivo faz propaganda do Noivo e não de si mesmo
Se o professor pode, eu também posso!, Elben César
28
30
32
www.ultimato.com.br
64
ABREVIAÇÕES:
BH - Bíblia Hebraica; BJ - A Bíblia de Jerusalém; BV - A Bíblia Viva; CNBB - Tradução da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; EP - Edição Pastoral;
EPC - Edição Pastoral - Catequética; NTLH - Nova Tradução na Linguagem de Hoje; TEB - Tradução Ecumênica da Bíblia. As referências bíblicas não seguidas
de indicação foram retiradas da Edição Revista e Atualizada, da Sociedade Bíblica do Brasil, ou da Nova Versão Internacional, da Sociedade Bíblica Internacional.
Setembro-Outubro, 2008
ULTIMATO
7
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
77
33/9/2008
/9/2008
221:22:05
1:22:05
George

Cartas

Cartas O sucesso de Edir Macedo e a pergunta que fica no ar Jesus disse que

O sucesso de Edir Macedo e a pergunta que fica no ar

Jesus disse que “a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens” (Lc 12.15). Quando entendi isso, parei de correr atrás de prosperidade material e passei a estabelecer propósitos de vida coerentes com os valores eternos do reino de Deus.

MARCUS E. FINK

Atibaia, SP

Li a matéria sobre o bispo Edir Macedo e fi quei indignada com tamanha ignorância cristã. Quem vocês pensam que são? Queridos, orem a Deus e peçam a ele sabedoria para escrever. O que vocês sentem é inveja do tamanho da obra que o Senhor Jesus faz através da IURD. Saibam que nós queremos prosperidade, sim, e não aceitamos doenças, não! Todos os grandes homens da Bíblia eram prósperos e saudáveis. Quando Jesus morreu na cruz, levou sobre si todas as nossas dores e enfermidades. É por causa de pessoas como vocês que existe tamanha miséria e dor no mundo.

MÁRCIA

Parabéns pela reportagem sobre o bispo Edir Macedo e a Igreja Universal. Fazia tempo que me questionava sobre eles e Ultimato respondeu de forma sensata e bíblica a todos os meus questionamentos e de muitos outros cristãos. A revista se revelou como profeta alertando o povo cristão do lobo trajado de cordeiro.

AMANDA ALVES

Vila Velha, ES

Sinceramente, acho enfadonhas algumas reportagens como a sobre Edir Macedo e a IURD. Não pertenço à Universal, mas reconheço o quanto ela tem feito pelo evangelho. Ultimato poderia deixar de lado os neopentecostais e os que

acreditam na teologia da prosperidade e usar seu espaço na mídia para anunciar o evangelho.

ESDRAS MACHADO

Creio que o Senhor chamou a revista Ultimato para ser mais que uma coletânea sobre teologia, fi losofi a e missões. Deus tem desafi ado essa prestimosa revista e ser uma voz profética no cenário nacional. Parabéns pela ousadia da edição de julho/agosto, por denunciar o engodo e a estratégia de Satanás em contaminar o rebanho cristão, de forma sutil, com as deturpações doutrinárias trazidas pela teologia da prosperidade, principalmente por intermédio de muitos líderes neopentecostais, entre eles o maior corruptor da sã doutrina apostólica na atualidade, o senhor Edir Macedo.

MARCOS GARCIA SOARES

Pastor da Igreja Batista Getsêmani Brasília, DF

Para que reino vocês trabalham? Deus lhes deu 40 anos para estarem nessa visão míope? Não sou da IURD, não consinto com alguns pontos doutrinários dela. Mas Jesus me ensinou a não dividir o seu reino: a IURD não é uma seita. Para Ultimato, parece que sim e muito mais. Deus aviva seu povo e alguns evangélicos represados lançam jugo do mal. Eu amo o pentecostalismo. Temos equívocos, mas vocês reformados estão precisando de uma nova Reforma. Passei pela Igreja Presbiteriana do

8 ULTIMATO Setembro-Outubro, 2008 uultimato ltimato 314.indd 314.indd 88 33/9/2008 /9/2008 118:21:15 8:21:15
8
ULTIMATO
Setembro-Outubro, 2008
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
88
33/9/2008
/9/2008
118:21:15
8:21:15

Brasil e vi como é um Vaticano evangélico. Deus fará pela IURD o que vocês, o megaciólogo Paul Freston e cúmplices nunca conseguirão.

APÓSTOLO ALEX CONSACAS

Recife, Pe

Estou escrevendo um livro de memórias e iria fazer alguns comentários sobre os absurdos das idéias de Edir Macedo no livro O Bispo. Entretanto, na edição de julho/ agosto de Ultimato, encontrei artigos se contrapondo àqueles que eram os pontos mais chocantes colocados por ele, de maneira muito mais consistente e elegante do que eu faria.

OBADIAS DE DEUS

Santo André, SP

Não gostei das inverdades sobre a Universal do Reino de Deus publicadas por Ultimato. Fico revoltada quando as pessoas usam inverdades para ganhar dinheiro.

MÁRCIA PAES O. CORREIA

São Paulo, SP

Parabenizo Ultimato pela matéria O sucesso de Edir Macedo e a pergunta que fi ca no ar. Finalmente uma revista séria e de credibilidade se propõe a levantar questões numa área em que muitos se omitem. A

característica de um líder é a sua capacidade e disposição de fazer perguntas. Fazer perguntas abre-nos o caminho para informações que podem mudar nossa vida, nossas prioridades e nosso destino. Ultimamente eu tenho feito muitas perguntas, em especial em relação à Igreja. Por exemplo: o crescimento da igreja é um tema palpitante. É bíblico, pertinente e atual. Devemos buscá-lo com todas as forças da nossa alma, de todas as formas legítimas, em todas as frentes, em todos os lugares, em todos os tempos. Tenho participado de congressos e palestras sobre crescimento de igreja e percebo que existem inúmeras e diversifi cadas “receitas”, que em sua maioria funcionam realmente — não para mim. Porque essas pretensiosas “receitas” estão seriamente comprometidas com a fi losofi a de mercado, com o culto antropocêntrico, e não com a glória de Deus e a pureza do evangelho de Jesus. E minha busca é em resposta a minha pergunta:

Como a Igreja pode crescer em número sem mercadejar o evangelho de Jesus Cristo? (2Co 2.17). Confesso que ainda não obtive resposta à minha pergunta. Tenho constatado que as pessoas estão servindo a Deus pelo que ele faz, e não pelo que ele é. Não estão à procura de doutrina, mas de alívio e soluções imediatas para seus problemas existenciais. Não buscam mandamentos, e sim consolos. Não querem o perdão, mas explicação para suas angústias e difi culdades. A Igreja tem sido procurada como um grande mercado e Deus, como um grande mercador. A igreja moderna está adaptada ao usuário ou orientada para o consumidor. E aquelas que

estão atualizadas pela mídia televisiva “privatizam” a fé, reduzida a um meio de consolo pessoal e identifi cação do fi el com a sua igreja. “A indústria do consumo “adora” Jesus, desde que fature bem.” Então, minha pergunta continua sem resposta.

REV. MISAEL FERREIRA DE OLIVEIRA

Igreja Presbiteriana do Brasil Paracambi, RJ

Parabenizo Ultimato pela matéria O sucesso de Edir Macedo e a pergunta que fi ca no ar. Como cristão, vejo tudo isso com muita preocupação e sofrimento. O Corpo Místico de Cristo e o povo tão pobre e sofrido não merecem tal deformação. Percebo com tristeza que cresce ao nosso redor cada vez mais igrejas desse tipo. Creio que se cumpre em nossos dias o que Jesus falou: “Cuidado com os falsos profetas” (Mt 7.15). Os textos da revista são bastante esclarecedores.

PE. VALDIRAM SANTOS

São Paulo, SP

Gostei da análise bíblica e serena como Ultimato desenvolveu o artigo O sucesso de Edir Macedo e a pergunta que fi ca no ar. Parabéns! Interessei-me também por outra reportagem sobre Edir Macedo (A igreja de Edir Macedo tornou-se um conglomerado que mescla religião, mídia, política e negócio, novembro/

Setembro-Outubro, 2008 ULTIMATO 9 uultimato ltimato 314.indd 314.indd 99 33/9/2008 /9/2008
Setembro-Outubro, 2008
ULTIMATO
9
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
99
33/9/2008
/9/2008
Brasil e vi como é um Vaticano evangélico. Deus fará pela IURD o que vocês, o

221:23:20

1:23:20

dezembro de 2007) citada no artigo. Por favor, enviem- me essa edição para que eu possa

dezembro de 2007) citada no artigo. Por favor, enviem- me essa edição para que eu possa me aprofundar mais no conhecimento da IURD e do seu fundador.

A. M. DE SOUZA

Recife, PE

Embora muito bem apresentado, bem fundamentado e biblicamente explicado, gostaria de mencionar algo que penso ter passado despercebido na análise sobre o sucesso de Edir Macedo. Achei que faltou a mais séria das constatações que diferenciam o evangelho segundo Edir Macedo do evangelho bíblico: o de Edir prepara o crente para viver neste mundo — materialista e passageiro. Um evangelho que leva ao egoísmo materialista: ter para ser e não para abençoar outros. E o mais sério: suas atitudes como líder são ambíguas. Edir “serve a Deus” na sua igreja e ao diabo nas suas emissoras de TV e rádio, bem como nos jornais que nada diferem do mundo. É preciso provar os espíritos. Não considero a IURD como igreja evangélica. E a Bíblia ordena que, se alguém pregar outro evangelho, que seja anátema (Gl 1.8-9). Quanto a Edir Macedo, não tenho “pergunta no ar”! Está óbvio.

IONE GUIMARÃES

Lavras, MG

Uma amiga está realizando pesquisas sobre a IURD em Portugal, com vistas ao seu doutorado em ciências sociais. Enviei-lhe a matéria de capa da edição de julho/agosto

e ela fi cou curiosa sobre a informação de que a IURD está construindo uma grande catedral em Lisboa, fato que ela desconhecia. Ela sabe de uma catedral no Porto. Se possível, mandem para ela o endereço da catedral de Lisboa.

SÉRGIO PRATES LIMA

Rio de Janeiro, RJ

— A informação está no livro O Bispo: “Edir Macedo prevê para breve a inauguração de uma superigreja em Lisboa, para 3.500 pessoas. Também será uma catedral, já em construção, a mil metros do rio Tejo” (p. 252).

Sobre dízimos

Parabéns por terem contrariado na edição anterior os ensinos errôneos do “evangelho” da nova era, que prioriza o reino da terra em detrimento do reino dos céus. Pego carona com Valdeci Santos e vou mais longe do que ele quando escreveu: “É verdade que o Novo Testamento não apresenta diretrizes claras sobre a entrega de dízimos pelos cristãos e esse fator é, no mínimo, surpreendente”. É mesmo surpreendente que em todo o Novo Testamento não é encontrado um só mandamento para ser dizimista, ou mesmo um incentivo claro. As poucas citações estão num contexto completamente judaizante. Com a extinção do sacerdócio levítico, veio também a extinção da necessidade de entregar o dízimo. Entendo que a prática soa como

voz destoante de legalismo, que não combina com a espontaneidade que a graça propõe. Missões e serviço social funcionam com oferta voluntária. Por que as demais coisas não?

DAVI JOSÉ DE OLIVEIRA

Ipatinga, MG

No artigo O que Edir Macedo diz e o que a Bíblia diz sobre os dízimos e ofertas, poderia se dizer um pouco mais. Segundo Paulo José F. de Oliveira, autor de Desmistifi cando o Dízimo (ABU Editora), “a cobrança do dízimo no cristianismo surgiu relativamente tarde, por volta do século 6, assim mesmo não sendo aceita igualmente por toda a igreja. Embora o Novo Testamento reconheça que os que servem o altar têm direito a viver do mesmo, a igreja primitiva não impôs de início o dízimo, porque as ofertas voluntárias dos fi éis bastavam para as necessidades do culto e do sustento do reduzido clero. Assim, nos três primeiros séculos do cristianismo, não houve pagamento de dízimos, e muitos dos pais, como Irineu, por exemplo, condenavam o dízimo por considerá- lo legalista e ritualista, em oposição à espontaneidade das ofertas voluntárias. Todavia, o crescimento da hierarquia e o aumento das despesas em decorrência da nova vinculação da Igreja ao Estado trouxeram consigo a insufi ciência do volume das ofertas voluntárias, o que levou a igreja a exortar os fi éis a trazerem também os seus dízimos. Assim, homens como São Jerônimo (na igreja latina) e São João Crisóstomo (na igreja de fala grega), por volta do fi nal do

10 ULTIMATO Setembro-Outubro, 2008 uultimato ltimato 314.indd 314.indd 1010 33/9/2008 /9/2008 118:21:27 8:21:27
10
ULTIMATO
Setembro-Outubro, 2008
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
1010
33/9/2008
/9/2008
118:21:27
8:21:27
século IV, antes mesmo da queda do Império do Ocidente, iniciaram a corrente favorável à implementação

século IV, antes mesmo da queda do Império do Ocidente, iniciaram a corrente favorável à implementação do dízimo, de acordo com as prescrições do Antigo Testamento. Desse modo, a partir de então, o dízimo já era obrigatório na esfera interna da igreja”. Se cada crente fi el tivesse a consciência de abençoar fi nanceiramente os que lhes ensinam os caminhos do Senhor, não precisaríamos fi car ouvindo tantos discursos em defesa do dízimo. Espero que um dia a igreja confi e mais na provisão de Deus, como aconteceu com Elias. Não precisaremos fazer tantos apelos fi nanceiros quando a igreja for tomada por um avivamento do amor à obra do Senhor. Creio que Deus continuará a levantar sempre homens e mulheres para sustentar a sua obra, como aconteceu na época do rei Davi no que diz respeito à construção do Templo (1Cr 29.1-9).

SÉRGIO MÜLLER

Pastor da Comunidade Cristã Siloé Joinville, SC

Incapazes de usar a vara ...

O artigo Incapazes de usar a vara e incapazes de recolher a vara (setembro/outubro de 2004) é maravilhoso! Realmente vivemos dias pavorosos e sabemos que a tendência é piorar. Que Deus tenha misericórdia de nós. São tantas catástrofes — adolescentes que saem de casa para ir ao cinema, fi cam sumidas uma semana e reaparecem no sul do país em

hotel; pai acusado de jogar fi lha do sexto andar aprendamos a usar a vara e a recolhê-la também.

...

Que

ANDRÉIA ALMEIDA LIMA DE FREITAS

São Paulo, SP

Companheira de ministério

Ultimato é mais do que um periódico. É uma fonte segura de conhecimento bíblico e teológico, um instrumento de conscientização cristã e uma voz de evangelização. Conheci a revista durante meus anos no Seminário Teológico em Pindamonhangaba, SP. Formei-me e continuo tendo-a como companheira de ministério.

JONATHAS DA SILVA DINIZ

Itaperuna, RJ

Novos convertidos

Ultimato tem alergia a novos convertidos? Não posso renovar minha assinatura se o editor da revista não começar a falar sobre o valor que essas pessoas representam. Sou ex-seminarista salesiano e mestre em antropologia física. A revista deveria ter um espaço para novos convertidos e batizados.

JOÃO RIBEIRO DAMASCENO

João Pessoa, PB

FALE CONOSCO

FALE CONOSCO
FALE CONOSCO
FALE CONOSCO

Cartas à Redação

 
 

cartas@ultimato.com.br

Cartas à Redação, Ultimato, Caixa postal 43, 36570-000, Viçosa, MG Inclua seu nome completo, endereço, e-mail e número de telefone. As cartas poderão ser editadas e usadas em mídia impressa e eletrônica.

Cartas à Redação, Ultimato, Caixa postal 43, 36570-000, Viçosa, MG Inclua seu nome completo, endereço, e-mail

Economize Tempo Faça pela Internet

 

Para assinaturas e livros, acesse www.ultimato.com.br

 

Assinaturas

 
 

atendimento@ultimato.com.br

 
  • 31 3611-8500

 
  • Ultimato, Caixa postal 43, 36570-000, Viçosa, MG

Edições Anteriores

 
 

atendimento@ultimato.com.br

 

www.ultimato.com.br

Setembro-Outubro, 2008 ULTIMATO 11 uultimato ltimato 314.indd 314.indd 1111 33/9/2008 /9/2008
Setembro-Outubro, 2008
ULTIMATO
11
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
1111
33/9/2008
/9/2008
século IV, antes mesmo da queda do Império do Ocidente, iniciaram a corrente favorável à implementação

118:21:34

8:21:34

uultimato ltimato 314.indd 314.indd 1212 33/9/2008 /9/2008 118:21:44 8:21:44
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
1212
33/9/2008
/9/2008
118:21:44
8:21:44
Setembro-Outubro, 2008 ULTIMATO 13 uultimato ltimato 314.indd 314.indd 1313 33/9/2008 /9/2008 221:30:03 1:30:03
Setembro-Outubro, 2008
ULTIMATO
13
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
1313
33/9/2008
/9/2008
221:30:03
1:30:03
A loucura do quinto homem mais rico do mundo Uma escuridão de três horas em Israel
A loucura do quinto
homem mais rico
do mundo
Uma escuridão de
três horas em Israel
e outra de duas
horas no Japão
A notícia de que o quinto homem
mais rico do mundo está
construindo a casa mais cara do
mundo deve ser colocada lado a lado
com o pronunciamento do deputado
Ciro Gomes: “O que gera a violência
é a justaposição da miséria com a
opulência e a excitação da aspiração
da felicidade referida ao consumo”.
Segundo a Agência Ansa, o indiano
Mukesh Ambani pretende inaugurar
no centro de Mumbai seu novo lar,
estimado em 2 bilhões de dólares,
daqui a um ano. O prédio terá 27
andares e nove elevadores. A mulher
de Ambani pretende decorar cada
andar de modo diferente. Além de
seis andares só de estacionamento, a
supermansão terá uma grande sala para
cerimônias, uma sala de espetáculos
e um heliporto. Sobre ser a casa mais
rica, será o mais alto edifício da
Índia (72 metros mais baixo que o
Morro da Urca, no Rio de Janeiro).
O presidente da Reliance, sociedade
que atua em vários setores,
em especial o de petróleo, e
a mulher dele deveriam ler
aquela passagem bíblica
que diz: “Ai de vocês que
adquirem casas e mais
casas, propriedades e
mais propriedades, até
não haver mais lugar
para ninguém e vocês
se tornarem os senhores
absolutos da terra!”
(Is 5.8).
O que aconteceu no Japão no dia
7 de julho de 2008 faz lembrar
o que aconteceu em Jerusalém
no dia 15 do Nisã (fins de abril e
início de maio) do ano 30 depois
de Cristo. Para festejar o Tanabate
(“festival das estrelas”) deste ano,
os japoneses decidiram desligar
todas as luzes em cerca de 70 mil
imóveis por todo o país, por duas
horas (das 20 às 22 horas). No caso
de Jerusalém, quem “desligou” a luz
do sol foi o próprio Criador. Nos
três Evangelhos sinóticos lê-se que
“houve trevas sobre toda a terra,
do meio-dia às três horas da tarde”
(Mt 27.45; Mc 15.33; Lc 23.44). A
escuridão de duas horas no Japão
foi algo natural e programado. A
escuridão de três horas em Israel foi
algo sobrenatural e surpreendente.
Os japoneses queriam visualizar
a beleza do firmamento e Deus
queria mostrar o horror do inferno
que subiu ao Calvário quando Jesus
estava pregado na cruz.
H ouve um inglês de origem
humilde que, em 1878,
declarou guerra contra duas
poderosas frentes: a pressão da
pobreza e o poder do pecado. Doze
anos mais tarde, ele publicaria seu
único livro: In Darkest England —
and the Way Out (Na Inglaterra
mais escura — e o caminho de
saída). Trata-se de William Booth
(1829-1912), o pastor metodista
que fundou o Exército de Salvação.
Quando alguém lhe perguntou
quais seriam os maiores perigos
doutrinários do século 20, ele
respondeu de pronto: “Religião sem
Espírito Santo, cristianismo sem
Cristo, perdão sem arrependimento,
salvação sem novo nascimento,
política sem Deus e céu sem inferno”.
14
ULTIMATO
Setembro-Outubro, 2008
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
1414
33/9/2008
/9/2008
118:23:06
8:23:06
fotomontagem Enzo Forciniti/Raphael Bonelli
Céu sem inferno
Carlos Caetano
fotomontagem Erica Burrel/Debie Schiel
nnúmeros úmeros 200 novos detentos a mais do que os que saem entram a cada dia
nnúmeros úmeros 200 novos detentos a mais do que os que saem entram a cada dia
nnúmeros úmeros
200
novos detentos a mais do que
os que saem entram a cada dia
nas prisões brasileiras
111.000
detentos brasileiros são jovens
entre 18 e 24 anos, quase todos
de sexo masculino (80%)
769
soldados, o equivalente a
quase um batalhão, foram
dispensados do Exército
britânico por uso de drogas
250
toneladas de mais de 150
produtos de beleza da marca
Kanechomn são produzidas por
dia
850.000
brasileiros são consumidores
de cocaína, segundo relatório
da ONU
8.700.000
toneladas de e-lixo (lixo
eletrônico) são produzidas na
Europa todos os anos. Apenas
um quarto, ou 2,1 milhões de
toneladas, são devolvidas ou
recicladas
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
1515
Escolas e quartéis de guerra fechados para sempre Lena Povrzenic
Escolas e quartéis de
guerra fechados para sempre
Lena Povrzenic

A Bíblia diz uma coisa e os jornais, outra. Os profetas Miquéias e Isaías, que viveram na mesma época (entre 750 e 680 antes de Cristo), garantem que “[numa época futura] haverá paz universal e todas as escolas

militares e quartéis serão fechados” (Mq 4.3, BV). No entanto, os jornais, tendo como fonte o International Institute for Strategic Studies, informam que o número de pessoas nas forças armadas, bem como o de instrumentos de guerra, aumentam cada vez mais. Só em quatro países da Ásia Oriental (Paquistão, Índia, China e Japão) o número de soldados chega a quase 4,5 milhões. O poderio militar desses mesmos países conta com 36.646 peças de artilharia, 16.189 tanques, 5.044 aviões, 184 navios e 99 submarinos (dos quais quatro são nucleares). Na América, os Estados Unidos têm mais de 1,5 milhão de soldados, 6.520 peças de artilharias,

113 navios e 72 submarinos (todos nucleares). Os dois profetas explicam que a paz universal será possível porque “todas as armas das nações serão transformadas em ferramentas úteis, pás, arados e enxadas”. Tamanha reviravolta acontecerá porque “naquela época, o mundo inteiro será dirigido pelas leis

de Deus” e “os grandes problemas internacionais serão resolvidos pelo Senhor” (Is 2.3-4, BV). O texto de ambos os profetas encerram uma mensagem tão bonita e alvissareira que a promessa da transformação dos instrumentos de guerra em instrumentos de trabalho foi colocada na entrada do prédio das Nações Unidas, em Nova York, para expressar o anseio universal pela paz. Essas promessas de paz devem ser consideradas. Elas estão em outro texto de Isaías: “Nesse dia tão lindo, não vai mais se ouvir exércitos marchando, os uniformes de batalha, manchados de sangue, serão todos queimados” (9.5, BV). O mesmo oráculo acha- se no livro dos Salmos: “[O Senhor] acaba com a guerra em todo o mundo, quebrando armas e queimando os carros de guerra” (Sl 46.9, BV). Não há discordância entre a Bíblia e a mídia, pois esta se refere à situação atual e aquela, à situação futura. Embora estejamos dentro da era messiânica, que começou com o primeiro advento de Cristo, ainda não chegamos à sua plenitude, que ocorrerá no segundo advento do Senhor, em poder e muita glória. É só esperar para ver! (Veja O relógio não pára!, p. 3)

nnúmeros úmeros 200 novos detentos a mais do que os que saem entram a cada dia

Setembro-Outubro, 2008

ULTIMATO

15

33/9/2008

/9/2008

118:23:14

8:23:14

A morte é um caso sério. Mais para os jovens do que para os idosos. Estes
A morte é um caso
sério. Mais para
os jovens do que para
os idosos. Estes vão
se acomodando
lentamente com
a idéia da morte,
mais por fatalidade
do que por renúncia
da vida. Aqueles
esperneiam o quanto
podem e abrem a
boca, na esperança de
relaxar.
É o caso do
sargento do exército
americano Jeff Barillaro,
de 31 anos, que serviu em
Bagdá por 15 meses (de
agosto de 2005 a novembro
de 2006). Para suportar
os reveses da guerra, nas
horas de folga ele fazia
música. Numa de suas
canções, Barillaro escreveu:
O que não se
pode medir e
o que não se
pode enxergar
H á coisas tão grandes (o
macrocosmo) que não
“Vou morrer, vou me ferir,
essas coisas sempre vêm à
mente| Ele vai morrer ou
ela vai morrer| É apenas
uma questão de tempo|
Coloco meu uniforme,
coloco meu capacete| Beijo
as fotografias de minha
família, mando um e-mail
à minha garota, para que
ela saiba que eu sinto sua
falta”.
Do outro lado do
mundo, em Nova York,
uma modelo de 20 anos chamada
Ruslana Korshunova, escrevia
poemas e os colocava em seu site de
relacionamentos. Um deles diz: “A
vida é curta. Quebre as regras. Perdoe
rápido. Beije lentamente. Ame de
verdade. Ria descontroladamente. E
nunca lamente nada que tenha feito
você sorrir”.
Curioso é que o sargento
americano que dizia: “Vou morrer”
ainda não morreu, e a modelo
nascida no Cazaquistão e que foi
capa de revistas européias como Elle
e Vogue morreu no dia 28 de junho,
ao cair da janela de seu apartamento
no nono andar de um prédio em
Manhattan.
A morte não tem educação. Ela
não bate à porta. Ela não pede
licença para entrar, como se queixa
o profeta Jeremias: “A morte subiu
e penetrou pelas nossas janelas
e invadiu as nossas fortalezas,
eliminando das ruas as crianças e das
praças os rapazes” (Jr 9.21).
Portanto, vamos nos perdoar
rápido, vamos nos beijar lentamente,
vamos amar de verdade, vamos rir
descontroladamente, vamos valorizar
tudo que há de bom e nos faz sorrir.
E, mais do que tudo, vamos nos
aproximar cada vez mais de Deus,
com quem nos encontraremos face a
face logo depois da morte!
podem ser medidas. Há coisas
tão pequenas (o microcosmo)
que não podem nem sequer ser
enxergadas. Nunca será possível
descobrir o tamanho do universo.
Nem com o auxílio da oração será
possível também compreender
quão extenso, quão largo, quão
profundo e quão alto é o amor de
Deus (Ef 3.18). Nunca será possível
descobrir o número das estrelas do
firmamento (Gn 15.5), dos grãos
de areia que se acumulam nas
praias do mar nem das partículas
de pó que cobrem o solo. Nunca
será possível ver o que é pequeno
demais, como os átomos, cujos
“diâmetros têm aproximadamente
um décimo de bilionésimo de
metro, muito além do poder do
microscópio”, como explica o
físico Marcelo Gleiser. O Criador
do microcosmo atômico e do
macrocosmo das galáxias seria
também invisível, caso Jesus não
fosse “a revelação visível do Deus
invisível” (Cl 1.15, NTLH)!
16
ULTIMATO
Setembro-Outubro, 2008
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
1616
33/9/2008
/9/2008
118:23:48
8:23:48
O sargento americano e a modelo cazaque
fotomontagem Carl Ratcliffe/Rhenan Ferreira
Francis
17 ULTIMATO Setembro-Outubro, 2008 uultimato ltimato 314.indd 314.indd 1717 33/9/2008 /9/2008 221:25:13 1:25:13
17
ULTIMATO
Setembro-Outubro, 2008
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
1717
33/9/2008
/9/2008
221:25:13
1:25:13
Os Irmãos comemoram 130 anos no Brasil “Não basta evitar o nome de sectário, é preciso
Os Irmãos comemoram 130 anos no Brasil “Não basta evitar o nome de sectário, é preciso

Os Irmãos comemoram 130 anos no Brasil

“Não basta evitar o nome de sectário, é preciso também fugir do espírito sectário.” (S. E. McNair)

E mbora nascido na Escócia, Richard Holden era de formação anglicana, e não

presbiteriana. Desviou-se do evangelho na juventude, mas a doença o trouxe de volta a Cristo aos 21 anos. Dois anos depois, Holden trabalhou por algum tempo como comerciante no Brasil, onde aprendeu o português. Mais tarde foi para os Estados Unidos e lá se formou em teologia. Voltou ao Brasil,

desta vez como missionário. Chegou aqui em 1860, cinco anos depois de seu patrício Robert Reid Kalley, o pioneiro da igreja congregacional, e apenas um ano depois de Ashbel Green Simonton, o pioneiro da igreja presbiteriana. A princípio, Holden dedicou-se à evangelização e à distribuição de Bíblias em Belém do Pará e em Salvador. Na ocasião, relacionou-se com políticos liberais e maçons, envolvendo-se, mesmo que indiretamente, com a famosa Questão Religiosa (problemas entre o clero e a maçonaria). Em 1865, Holden tornou-se pastor auxiliar da Igreja Evangélica Fluminense, no Rio de Janeiro. Com a ausência de Kalley por dois anos e meio, Holden veio a ser o pastor substituto. Embora fosse de fato um homem piedoso, bíblico, apologeta, cortês e falasse fluentemente o português, alguns se queixavam dos cultos e das orações longas que o pastor fazia. Além do mais, Holden estava cada vez mais influenciado pelo Movimento dos Irmãos, iniciado em 1825 em Dublin, na Irlanda, também

conhecido equivocadamente como Irmãos de Plymouth. No início de 1872, ele renunciou ao pastorado e voltou à Inglaterra. Naturalmente por influência de Holden, cerca de doze pessoas desligaram-se da Igreja Evangélica Fluminense e formaram o primeiro núcleo dos Irmãos no Brasil, há 130 anos, no dia 7 de julho de 1878. Talvez esta tenha sido a primeira divisão na história do protestantismo brasileiro. Sempre foi difícil referir-se com precisão a esse grupo de evangélicos, porque eles não gostam de etiquetas. O ideal dos Irmãos, desde o início, é reunir pecadores nascidos de novo com a maior singeleza possível, sem burocracia eclesiástica e sem espírito sectário. Eles têm a Bíblia como única regra de fé e prática, mas rejeitam qualquer outro regimento ou lista de normas quanto ao procedimento. Prezam muito a tolerância mútua, embora, como todos os demais grupos cristãos, nem sempre consigam na prática alcançar este alvo, nem mesmo em seus primeiros anos de história. Por não terem nome próprio, são chamados de Irmãos Unidos, Darbistas (por causa do inglês John Nelson Darby, nascido em 1800 e morto em 1882, o líder britânico mais influente do movimento), Irmãos de Plymouth e Casa de Oração (somente no Brasil). Entre os mais notáveis servos de Deus ligados à história dos Irmãos no Brasil está o inglês Stuart Edmund McNair, que veio para cá em 1896, aos 29 anos. Nos lugares em que McNair morava, ele organizava escolas bíblicas para a instrução dos moços crentes visando ter obreiros melhor

Os Irmãos comemoram 130 anos no Brasil “Não basta evitar o nome de sectário, é preciso

S. E. McNair

preparados. Ele é autor da famosa A Bíblia Explicada , ainda publicada no país. As três primeiras edições foram lançadas pela Casa Editora Evangélica, fundada por ele em 1933 na cidade de Teresópolis, RJ. De 1985 para cá a Casa Publicadora das Assembléias de Deus (CPAD) já publicou 85.912 exemplares de A Bíblia Explicada , em dezenove edições consecutivas. Antes de morrer em 1959, aos 92 anos, McNair revelou a sua sabedoria ao escrever, entre outras coisas:

1) O método “cada crente, um obreiro” é a melhor maneira de espalhar o evangelho e promover a vida espiritual dos crentes; 2) O progresso e o aumento de um trabalho não precisam depender da ajuda financeira do exterior; 3) Não basta evitar o nome de sectário, é preciso também fugir do espírito sectário. Nosso amor fraternal deve abraçar todos os crentes; 4) Nossos irmãos que estão no denominacionalismo nos são tão necessários e podem ser tão queridos como qualquer outro.

Os Irmãos comemoram 130 anos no Brasil “Não basta evitar o nome de sectário, é preciso

18

ULTIMATO

Setembro-Outubro, 2008

ltimato 314.indd

uultimato

314.indd

1818

33/9/2008

/9/2008

221:26:00

1:26:00

N unca se viu em toda a história da humanidade um culto ao ego tão exacerbado
N unca se viu em toda a história da humanidade um culto ao ego tão exacerbado

N unca se viu em toda a história da humanidade um culto ao ego tão exacerbado como nos dias atuais.

Robert Swarav,

psicólogo

O ser humano é controlado por uma

civilização e pelas leis. Ele não mata, não porque

não tenha vontade, mas porque sabe que será castigado. Somos todos potencialmente assassinos.

Caterina Koltai,

psicanalista e socióloga,

professora na PUC–SP

N unca se viu em toda a história da humanidade um culto ao ego tão exacerbado

Divulgação

A terra é finita, a água é finita, os recursos marinhos também. O Brasil quer um lucro infinito a partir de recursos finitos.

Maria Sylvia

Carvalho Franco,

professora de fi losofi a na USP e na UNICAMP

N unca se viu em toda a história da humanidade um culto ao ego tão exacerbado

Divulgação

E m vez de viver na terra e com ela, nós vivemos

“da” terra.

Carolyn Steel,

pesquisadora britânica

A ética do materialismo se infiltra na vida

das pessoas, de modo tal

que rompe o tecido de valores da sociedade. O egoísmo do atual modelo social desintegra a família tradicional e os laços de amizade e amor que unem seus membros.

Ushitaro Kamia,

advogado

T odo menino quer ser homem. Todo homem quer

ser rei. Todo rei quer ser Deus. Só Deus quis ser menino.

Leonardo Boff,

teólogo

V amos orar pela salvação das modelos e sua entrada triunfal na New Jerusalem Fashion Eternal Week.

Georgiana Guinle, colunista do jornal Palavra

D eus ouve o nosso clamor, mas não é um deus-supermercado, que tem uma mercadoria conforme o poder de barganha de cada freguês.

Anelise Lengler Abentroth,

teóloga luterana

O verdadeiro perdedor é aquele que, na última

hora, vai ter a impressão de que desperdiçou a sua corrida. O que ele acumulou, tudo isso me parece bastante acessório. Para mim o perdedor é aquele que não conseguir viver sua vida com toda a intensidade que ela merece.

Contardo Calligaris,

psicanalista Divulgação
psicanalista
Divulgação

O maior problema ambiental do mundo é

o consumismo. O mercado ensina egoísmo e o indivíduo cada vez mais está centrado em si mesmo.

Emílio Moran,

antropólogo cubano residente nos Estados Unidos

N unca se viu em toda a história da humanidade um culto ao ego tão exacerbado

Divulgação

S ó pode haver algo de errado em um mundo

em que tantos fogem para a esperança, mas encontram

apenas o medo.

Clóvis Rossi,

jornalista Divulgação
jornalista
Divulgação

D ar carinho a quem se ama é a mais inequívoca demonstração de amor, tão importante que conta com um sistema de nervos específico para detectá-la.

Suzana

Herculano-Houzel,

neurocientista

D ê à sua filha uma chance de casar com um rapaz decente (e não estou falando dessas malditas classes sociais) em vez de casar com um pit bull de boate ou poodle de divã.

Fausto Wolf, colunista do Jornal do Brasil

Setembro-Outubro, 2008

ULTIMATO

19

N unca se viu em toda a história da humanidade um culto ao ego tão exacerbado

ltimato 314.indd

uultimato

314.indd

1919

33/9/2008

/9/2008

221:26:08

1:26:08

Capa Tirem o Crucificado da cruz! O cristão que não vê Cristo nem na cruz nem
Capa
Tirem o
Crucificado da cruz!
O cristão que não vê Cristo
nem na cruz nem na
tumba, mas consegue
vê-lo ressuscitado e assentado
à direita de Deus, não se
perturba com os livros
e revistas que enchem o
mercado livreiro e as bancas
de jornais com bobagens
e blasfêmias contra o
“Crucificado Ressuscitado”
do professor Battaglia
20
ULTIMATO
Setembro-Outubro, 2008
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
2020
33/9/2008
/9/2008
118:24:02
8:24:02
Xollob
E nquanto o sol estava nascendo em Jerusalém na primeira Sexta-feira Santa da história, o mais

E nquanto o sol estava nascendo

em Jerusalém na primeira

Sexta-feira Santa da história,

o mais destacado dos doze

Chama-se de crucifixo o objeto, esculpido ou modelado, que representa

católico-romana a idéia do Cristo morto, tremendamente arraigada na

 

Cristo na cruz. Foi João VII, o 86º

cultura popular, em especial nos países

papa, entronizado em março de 705, o

ibéricos e em toda a América Latina.

apóstolos esvaziou-se de sua coragem e encheu-se de medo, o que o levou a negar por três vezes consecutivas o Senhor Jesus Cristo (Lc 22.54-62). Enquanto o sol estava se pondo naquele mesmo dia e lugar, um dos mais destacados dos 71 membros da Suprema Corte judaica (mais conhecida como Sinédrio) esvaziou-se de sua timidez e encheu-se de coragem, o que o levou a tirar o corpo morto de Jesus da cruz (Lc 23.50-53). Se ficasse lá, seria jogado numa vala qualquer e comido por cães e abutres como costumava acontecer. O gesto de José de Arimatéia precisa ser repetido hoje. A cruz tem um valor imenso, mas vazia, sem o crucificado,

primeiro a consagrar o uso do crucifixo. A partir daí parece que houve uma ênfase artística cada vez maior no sofrimento de Jesus. No século 13, a coroa real foi substituída pela coroa de espinhos e a fronte de Cristo começou a se inclinar para a terra. Os crucifixos gregos do século 14 eram figuras grotescamente retorcidas e esguichando sangue. Um século antes da Reforma Protestante, os artistas já haviam substituído no imaginário e no espírito dos fiéis a idéia do triunfo de Jesus sobre a cruz pelo sentimento melancólico e vazio da compaixão. Passou-se a ter pena de Jesus, perdendo-se por completo a compreensão

Enquanto não tirarmos o crucificado da cruz, não será fácil oferecer séria e bem-sucedida resistência à nova onda de violência midiática contra o Jesus das Escrituras, que, como lembra John Stott “não é homem disfarçado de Deus nem Deus disfarçado de homem, mas homem e Deus ao mesmo tempo”. 2 O Jesus, que “é a imagem [visível] do Deus invisível” (Cl 1.15), passou pela cruz, mas não permaneceu na cruz. O cristão que não vê Cristo nem na cruz nem na tumba, mas consegue ver o Senhor ressuscitado e assentado à direita de Deus, não se perturba com os muitos livros e as muitas revistas que enchem

pois o seu corpo já não está pregado nela nem deitado sobre a lápide fria

 

do sepulcro novo do homem rico de

Arimatéia. O professor Vittorino Grossi, do Augustinianum, de Roma, lembra

que “a figura humana do crucificado não se encontra a não ser na primeira metade do quinto século ”. A mais antiga até agora conhecida, a de Cristo nu na cruz, está no Museu Britânico, em Londres. Pouco mais de cem anos depois, espalhou-se no Oriente uma figura dramática da crucificação,

real da cruz e desfocalizando por completo a ressurreição. Foi por essa razão que o jovem missionário inglês Henry Martin, depois de passear por Salvador, enquanto o navio que o levaria à Índia permanecia atracado ao porto, no remoto 1805, registrou em seu diário:

o mercado livreiro e as bancas de jornal com muitas bobagens e blasfêmias contra o “Crucificado Ressuscitado” do professor Battaglia. A Superinteressante de julho de 2008 (edição especial), por exemplo, traz outra vez à tona a passagem de um evangelho apócrifo (O Evangelho

Notas

mostrando o Senhor morto, desta vez vestido com o colobium (uma túnica sem mangas). Até então, as cruzes que enfeitavam os monumentos fúnebres eram cruzes sem o crucificado. Vincenzo Battaglia, professor de teologia dogmática no Pontifício Ateneu Antonianum, em Roma, usa uma expressão muito feliz, que encoraja a retirada do crucificado da cruz. Ele chama Jesus de “Crucificado

“Há cruzes em abundância, mas quando será pregada a doutrina da cruz?”. 1 Em 1570, durante o pontificado de Pio V, que revisou o Missal Romano, em decorrência do Concílio de Trento, encerrado sete anos antes, tornou-se obrigatória a colocação do crucifixo sobre ou acima do altar. Até então, só o cálice, a pátena (disco de ouro que cobre o cálice), o pão e o vinho eram colocados naquele lugar sagrado. A regra

de Felipe, do segundo século), que diz que “o Senhor amava Maria [Madalena] mais do que a todos os discípulos e a beijava freqüentemente na boca”. 3 E, para obrigar o leitor a acreditar nessa fantasia, a revista declara que a igreja manipulou os evangelhos, reconhecendo como canônicos apenas os livros que confirmavam a verdadeira tradição cristã.

1.

História Documental do Protestantismo no

 

Ressuscitado”. Os dois fatos — a

atual é colocar o crucifixo no centro do

Brasil, p. 29.

 

crucificação e a ressurreição — são

altar durante a celebração da missa.

2.

Cristianismo Básico, p. 27.

inseparáveis, e um não é mais importante

O grande problema do crucifixo é

3.

Superinteressante, jul. 2008, edição 254-A,

 

que o outro, nem pode ofuscar o outro.

que ele passou aos fiéis de tradição

p. 37.

que o outro, nem pode ofuscar o outro. que ele passou aos fiéis de tradição p.

uultimato

ltimato 314.indd

314.indd

2121

Setembro-Outubro, 2008

ULTIMATO

21

33/9/2008

/9/2008

118:24:17

8:24:17

E nquanto o sol estava nascendo em Jerusalém na primeira Sexta-feira Santa da história, o mais
Capa E mbora não negassem continuava a morrer ( ) Era uma em absoluto a natureza
Capa
E mbora não negassem
continuava a morrer (
)
Era uma
em absoluto a natureza
divina de Jesus, muitos
místicos dos séculos
14, 15 e 16 davam mais ênfase
à sua humanidade. E, quando o
contemplavam como homem, o
que mais despertava a atenção deles
não eram as demonstrações de sua
glória e poder, mas o seu sofrimento
e morte. Juliana de Norwich, uma
das grandes místicas da história,
nascida na Inglaterra em 1343, em
seu livro Dezesseis Revelações do
Amor Divino, que só foi publicado
em 1670, descreve, por exemplo,
o Jesus que ela viu numa de suas
visões:
“Vi seu rosto querido, seco,
exangue e pálido com a morte. Foi
ficando mais pálido e sem vida.
Então, morto, tornou-se azulado,
mudando aos poucos para um azul
amarronzado, à medida que a carne
coisa triste vê-lo mudar enquanto
morria pouco a pouco. Também
as narinas murcharam e secaram
diante de meus olhos, e seu corpo
querido foi ficando negro e pardo
ao secar na morte.” 1
Um dos livros de espiritualidade
cristã mais traduzidos e lidos, tanto
por católicos como por protestantes,
é o clássico A Imitação de Cristo,
de Tomás de Kempis, monge
alemão nascido por volta de 1379.
Só no século 16 foram feitas mais
de duzentas edições. Embora seja
comprovadamente um livro de
grande valor, gerador da verdadeira
espiritualidade, A Imitação de Cristo
acompanha o espírito da época,
de centralizar tudo mais no Jesus
homem do que no Jesus Deus.
Segundo a historiadora Karen
Armstrong, ex-freira católica, no
livro de Tomás de Kempis, “o leitor
é exortado a imaginar-se implorando
às autoridades para salvar a vida
de Cristo, sentado ao lado dele na
prisão e beijando seus pés e mãos
acorrentados”. 2 O livro dá pouca
ênfase à ressurreição do Senhor, um
dos grandes pilares do cristianismo.
(Vale a pena lembrar Paulo: “Se
Cristo não ressuscitou, é vã a nossa
pregação, e vã, a vossa fé”.)
Foi nesse ambiente que nasceu e
cresceu José de Anchieta, espanhol
da Ilha de Tenerife que veio para o
Brasil como missionário da recém-
fundada Companhia de Jesus,
aqui chegando em 13 de julho de
1553, aos 19 anos, antes mesmo
de ser ordenado padre. Um dos
mais notáveis empreendimentos
de Anchieta foi a elaboração do
primeiro catecismo cristão do
Brasil, conhecido como Diálogo
da Fé. Beatificado em 1991 pelo
papa João Paulo II e chamado de
22
ULTIMATO
Setembro-Outubro, 2008
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
2222
33/9/2008
/9/2008
119:47:41
9:47:41
fotomontagen Dorota/web
“O apóstolo do Brasil”, “O Xavier da América” e “O dramaturgo do Novo Mundo”, Anchieta era
“O apóstolo do Brasil”, “O Xavier
da América” e “O dramaturgo do
Novo Mundo”, Anchieta era meio
parente de Inácio de Loyola e tinha
12 anos quando Martinho Lutero
morreu. O catecismo de Anchieta
é bilíngüe (tupi e português) e foi
escrito provavelmente em 1560,
trinta anos depois da Confissão de
Augsburgo (luterana), dois anos
antes do Catecismo de Heidelberg
(reformado) e seis anos antes do
Catecismo Romano (publicado pelo
papa Pio V).
Das 616 perguntas e respostas
do Diálogo da Fé, 168 (mais de
25%) invocam os acontecimentos
da Sexta-feira Santa, desde a saída
de Jesus do Cenáculo até o seu
sepultamento. Qualquer cristão
reformado poderia pôr a sua
assinatura embaixo dessas 168
respostas catequéticas, excetuando-
se apenas aquela que diz que Maria
teria coberto a nudez de Jesus com
o seu véu, simplesmente porque esse
detalhe não se acha em nenhum dos
quatro Evangelhos.
No catecismo de Anchieta nada
há sobre o túmulo vazio, sobre o
terror que tomou conta dos guardas
romanos, sobre o abraço das mulheres
aos pés de Jesus, sobre a entrada de
Pedro e João no sepulcro agora
desocupado
nem sobre
as diferentes
aparições de Jesus
O triste problema do primeiro
catecismo cristão usado no Brasil
é a imperdoável omissão da
ressurreição de Jesus. Nada há
sobre o túmulo vazio, sobre o terror
que tomou conta dos guardas
romanos, sobre a mensagem da
ressurreição dada pelo anjo, sobre
a surpresa das mulheres galiléias
e dos apóstolos, sobre o abraço
aos pés de Jesus e a adoração
das mulheres, sobre a entrada
de Pedro e João no sepulcro
agora desocupado nem sobre as
diferentes aparições de Jesus no
espaço de quarenta dias, entre
a ressurreição e a ascensão. No
catecismo de Anchieta a história
de Jesus termina no túmulo novo
de José de Arimatéia, embora na
última resposta se diga que “o
Senhor se preparava para viver de
novo”. 3 Naturalmente, os leitores
mais atenciosos perguntavam-se:
“Ele só se preparou ou conseguiu
de fato viver de novo?” Graças
a essa desastrosa omissão, José
de Anchieta não passou para os
catecúmenos (o indígena que
morava no Novo Mundo já há
muito tempo, o colono europeu
que chegou em 1500 e o escravo
africano que atravessou o Atlântico
a partir de 1539) o fato que dá
sentido ao cristianismo e completa
tudo o que aconteceu na Sexta-
feira Santa.
Notas
1.
Uma História de Deus, p. 275.
2.
Idem, ibidem.
3.
Diálogo da Fé, p. 193.
Setembro-Outubro, 2008
ULTIMATO
23
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
2323
33/9/2008
/9/2008
119:48:11
9:48:11
Vangelis Thomaidis
Capa Nem tudo é sexta-feira N o tumultuado século 16, a Igreja Católica fez muito mais

Capa

Capa Nem tudo é sexta-feira N o tumultuado século 16, a Igreja Católica fez muito mais

Nem tudo é sexta-feira

N o tumultuado século 16, a Igreja Católica fez muito mais pela evangelização dos povos do que a

nascente Igreja Protestante. Enquanto a Companhia de Jesus enviava levas de missionários para o Oriente e o Ocidente, os protestantes só começaram a se despertar mais amplamente para missões trezentos anos mais tarde, a partir do século 19, depois da publicação do livro

de 87 páginas escrito em 1792 pelo inglês William Carey, com o título Investigação sobre a Obrigação dos Cristãos de Empregar

Meios para a Conversão dos Pagãos. Todavia a evangelização do Novo Mundo foi prejudicada por causa do misticismo europeu que enxergava mais a cruz ensangüentada do que o túmulo vazio, mais a coroa de espinhos do que a coroa real, mais a desfiguração de Jesus do que a sua transfiguração, mais a sexta-feira do que o domingo. Os jovens missionários que deixavam pai e mãe na Espanha e em Portugal e atravessavam corajosamente o Atlântico por amor a Jesus foram contaminados pela cultura da época e a transportaram para cá. A maioria dos cristãos da América Latina continua sofrendo as conseqüências de uma evangelização deficitária, como se pode ver nas palavras do padre José Francisco Schimitt, 65 anos, mestre em teologia e professor do Colégio Marista São Luiz, em Jaraguá do Sul, SC:

Para muitos católicos, no seu imaginário religioso, a celebração

mais importante da Semana Santa é a Procissão do Senhor Morto, na sexta-feira santa. Uma grande parte do nosso povo católico ainda não chegou à verdadeira compreensão de que o Tríduo Pascal da Paixão e da Ressurreição começa com a missa vespertina da Ceia do Senhor, possui o seu centro na Vigília Pascal e encerra-se com as vésperas do Domingo da Ressurreição. 1 Dois incidentes comprovam o que o professor marista afirma. Numa sexta- feira santa, o professor Jaime Maia dos Santos, ao atravessar a cidade de Ervália, encontrou duas faixas estendidas de um lado ao outro da rua. Na primeira estava escrito: “‘Silêncio’! Estamos de luto”. A segunda explicava: “Jesus morreu!” Noutra sexta-feira santa, quatro missionários americanos batistas estavam hospedados num hotel de uma cidade bem no interior de Portugal. De repente, um deles, Lois McKinney, hoje professora na Faculdade Batista de São Paulo, foi ao piano e começou tocar o conhecido hino Cristo já ressuscitou. Os outros três puseram-se a cantar. Então a recepcionista do hotel fez sinal de silêncio e pediu-lhes para não cantarem

A tarefa de enfatizar tanto a morte como a ressurreição de Jesus cabe a todos nós,

católicos e protestantes, sejamos históricos, carismáticos ou pentecostais

24

ULTIMATO

Setembro-Outubro, 2008

ltimato 314.indd

uultimato

314.indd

2424

33/9/2008

/9/2008

118:25:40

8:25:40

Harald Rotgers
Harald Rotgers

naquele dia triste em que se recordava a morte de Jesus. De todas as pessoas que têm chamado a atenção dos cristãos latino- americanos para essa miopia religiosa, a que mais se destaca é John A. Mackay, um escocês nascido em 1889 que conheceu profundamente a cultura ibero-americana, por ter vivido na Espanha (1915-1916), no Peru (1916- 1925), no Uruguai (1926-1929) e no México (1930-1932). No Peru, Mackay lecionou na Universidade Nacional de San Marcos, a mais antiga do hemisfério ocidental, e deu vida nova a uma pequena escola primária que veio a tornar-se o famoso Colégio Anglo-Peruano. Encerrado o seu trabalho missionário na América Latina, Mackay ocupou vários cargos de grande responsabilidade: foi presidente do Seminário Teológico Presbiteriano de Princeton, em Nova Jersey (1936-1959), do Conselho Missionário Mundial

(1947-1957) e da Aliança Presbiteriana Mundial (1954-1959). Quando estava no México trabalhando com a Associação Cristã de Moços ele escreveu o livro The Other Spanish Christ (1932), traduzido para o espanhol apenas vinte anos mais tarde (El Otro Cristo Español ). Nessa obra clássica, recomendada pelo filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), John Mackay mostra que o Cristo que o catolicismo espanhol introduziu no continente é uma figura trágica. O outro Cristo, o Cristo espanhol, “se apresenta diante de nós como uma vítima trágica, ferido, morto e manchado de sangue, ninado nos braços de uma formosa franciscana, morto para sempre”. 2

O misticismo europeu enxergava mais a cruz ensangüentada do que o túmulo vazio, mais a coroa de espinhos do que a coroa real, mais a desfiguração de Jesus do que a sua transfiguração, mais a sexta-feira do que o domingo

Mackay Nouwen Reprodução internet Reprodução Reprodução internet internet
Mackay
Nouwen
Reprodução internet
Reprodução Reprodução internet internet

Cinqüenta anos depois da presença de John Mackay, missionário presbiteriano, no Peru, o sacerdote católico romano holandês Henri Nouwen fez uma visita ao mesmo país e anotou em seu diário:

Em lugar algum encontrei sinal de ressurreição, em lugar algum fui lembrado de que Cristo venceu o pecado e a morte, e ergueu-se vitorioso do túmulo. Tudo era sexta-feira da paixão. A páscoa estava ausente ... A ênfase quase exclusiva no corpo torturado de Cristo me atinge como uma perversão das boas novas em uma história mórbida que intimida ... as pessoas, mas não as liberta. 3 Nouwen (1932-1996) é uma pessoa de peso: além de padre, psicólogo e escritor, ele foi professor das Universidades de Haward e Yale, nos Estados Unidos, e do Seminário Católico de Ontário, no Canadá. Como se vê, a igreja brasileira precisa reparar da melhor maneira possível e com a maior urgência possível a herança deixada pelo catolicismo espanhol e português, ainda arraigada em muitos fiéis. Alguns olhos nunca estiveram fechados e outros já se abriram, mas ainda há muitos olhos para serem abertos. Essa tarefa cabe a todos nós, católicos e protestantes, sejamos históricos, carismáticos ou pentecostais. E tem que ser feita com humildade e muito amor.

Notas

  • 1. Ir ao Povo, março de 2005, p. 9.

  • 2. John A. Mackay, Um Escocês com Alma

Latina, p. 83.

  • 3. A Bíblia Toda, O Ano Todo, p. 251.

Harald Rotgers naquele dia triste em que se recordava a morte de Jesus. De todas as

Setembro-Outubro, 2008

ULTIMATO

25

Harald Rotgers naquele dia triste em que se recordava a morte de Jesus. De todas as

ltimato 314.indd

uultimato

314.indd

2525

33/9/2008

/9/2008

118:25:47

8:25:47

Capa

Capa A Reforma colou a exaltação do Domingo com a humilhação da Sexta-feira A morte e

A Reforma colou a exaltação do Domingo com a humilhação da Sexta-feira

A morte e a ressurreição de

Jesus estão lado a lado em

praticamente todos os mais

notáveis credos, confissões de fé e

catecismos das igrejas luteranas e calvinistas do século 16.

  • 1. No Catecismo Menor do Doutor

Martinho Lutero, de 1529, lê-se que “no terceiro dia Cristo saiu do sepulcro com o corpo transfigurado e glorioso e mostrou- se vivo aos seus discípulos”. Depois, “Cristo foi elevado às alturas segundo a sua natureza humana e entrou na glória

de seu Pai a fim de nos preparar lugar”.

  • 2. Na Confissão de Augsburgo

(luterana), de 1530, o artigo 3 diz que “o mesmo Cristo que desceu ao inferno, no terceiro dia ressurgiu verdadeiramente dos mortos, subiu ao céu e está assentado à destra de Deus”.

  • 3. Na Confissão Escocesa (reformada),

de 1560, há três capítulos sobre os

acontecimentos da Semana Santa, abordando a morte, a paixão e o sepultamento (capítulo 9), a ressurreição (capítulo 10) e a ascensão de Cristo (capítulo 11).

  • 4. No Catecismo de Heidelberg

(reformado), de 1563, a resposta dada à pergunta 45 (“Que importância tem para nós a ressurreição de Cristo?”), menciona três benefícios: “Primeiro, pela ressurreição, ele venceu a morte, para que nós pudéssemos participar da justiça que ele conquistou por sua morte. Segundo, nós também, por seu poder, somos ressuscitados para a nova vida. Terceiro, a ressurreição de Cristo é uma garantia de nossa ressurreição em glória”.

A Reforma colou a exaltação do Domingo com a humilhação da Sexta-feira A morte e a

26

ULTIMATO

Setembro-Outubro, 2008

A implicância protestante contra a cruz

O símbolo do cristianismo, lembra John Stott, poderia ser a manjedoura (para

simbolizar a encarnação de Jesus), a carpintaria (para dignificar o trabalho manual de Jesus) ou a toalha (para lembrar o lava- pés de Jesus). Mas todos foram ignorados em favor da cruz, o que é totalmente extraordinário, porque, na cultura greco- romana vigente, a cruz era objeto de vergonha. Para Stott, “a cruz é um diamante multifacetado”. 1 E para J. Julius Scott, professor de Bíblia e teologia no Wheaton College, nos Estados Unidos, a cruz “é a demonstração suprema do amor que Deus tem pelo homem pecador”. 2 Apesar de tudo isso, algumas igrejas protestantes brasileiras evitam colocar a cruz na fachada e no interior de seus templos. Há

duas explicações históricas para esse estranho comportamento. A completa liberdade de culto só aconteceu com a Proclamação da República, em 1889. Até então, os templos não católicos no Brasil, por força de lei, não podiam ostentar exteriormente símbolos cristãos, como cruz e sinos. Esses privilégios eram exclusivos da Igreja Católica dominante. No imaginário protestante, a cruz era coisa católica e não deveria ser usada por eles. A outra razão, o que agravou ainda mais o problema, era a presença do Crucificado na cruz e a adoração de um Cristo morto.

Notas

  • 1. A Bíblia Toda, o Ano Todo, p. 263-264.

  • 2. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja

Cristã, v. 1. p. 391.

duas explicações históricas para esse estranho comportamento. A completa liberdade de culto só aconteceu com a
Marc Dietrich
Marc Dietrich
Capa A Reforma colou a exaltação do Domingo com a humilhação da Sexta-feira A morte e

ltimato 314.indd

uultimato

314.indd

2626

33/9/2008

/9/2008

118:26:00

8:26:00

E são ambos uma só “carne”: a cruz ensangüentada e o sepulcro vazio! T odas as
E são ambos uma só “carne”:
a cruz ensangüentada e o sepulcro vazio!
T odas as vezes em que Jesus
anunciava a sua morte,
anunciava também a
sua ressurreição: “Jesus
começou a explicar aos seus discípulos
que era necessário que ele fosse para
Jerusalém e sofresse muitas coisas nas
mãos dos líderes religiosos, dos chefes
dos sacerdotes e dos mestres da lei, e
fosse morto e ressuscitasse no terceiro dia ”
(Mt 16.21).
Esse “casamento” da cruz
ensangüentada com o sepulcro
vazio tem sido confessado desde o
terceiro século até hoje, todas as vezes
que cristãos católicos, ortodoxos
e protestantes, recitam juntos ou
sozinhos o Credo dos Apóstolos:
central, fundamental e essencial, a
atual (1998) edição típica do Catecismo
da Igreja Católica (preparado por
ordem do papa João Paulo II, por uma
comissão presidida pelo então cardeal
Ratzinger, atual papa) ensina que ela
deve ser pregada juntamente com a
cruz.
Em Lavras Novas, um pequeno
povoado nas proximidades de Ouro
Preto, MG, cujos habitantes são
descendentes de escravos, há uma
cruz na parte mais alta da rua central
e outra na parte mais baixa. O
padre Marcial Maçaneiro, 42 anos,
doutor em teologia, assessor do setor
ecumênico da CNBB e professor da
Faculdade Dehoniana, em Taubaté,
“Creio em Jesus Cristo, que padeceu
sob o poder de Pôncio Pilatos, foi
crucificado, morto e sepultado; desceu
ao Hades; ressurgiu dos mortos ao
terceiro dia; subiu ao céu; está sentado
à mão direita de Deus Pai Todo-
Poderoso”.
Além de mencionar a ressurreição
de Jesus como verdade culminante,
SP, esteve no povoado recentemente
e observou que nenhuma das duas
cruzes tem a imagem do crucificado,
mesmo que a cruz de cima esteja
coberta pelos instrumentos da paixão,
como a coroa de espinhos, a lança, os
açoites, o martelo e os cravos. Essa cruz
(típica dos Açores e de outras regiões de
Portugal), explica o padre, “simboliza a
vitória de Jesus sobre a morte”. 1
Todavia, talvez não haja outra
pregação simultânea da morte e
da ressurreição numa só figura
tão singela e ao mesmo tempo tão
enfática quanto a cruz vazada. Um
dos modelos dessa cruz estava
fincada até bem pouco tempo
no gramado da Universidade
Gwynedd-Mercy, católica, nos
arredores de Filadélfia, nos
Estados Unidos. O artista que
desenhou a cruz vazada chama-se Jay
J. Dugan e devia ser um cristão muito
piedoso. Para ele, nestes dois mil anos
de cristianismo, a cruz tem revelado
só o sofrimento e a morte de Jesus. Ela
não tem simbolizado também a sua
ressurreição, o que é uma lástima. Com
essa preocupação, Jay Dugan projetou a
cruz vazada: “Removi todo vestígio do
seu sangue e agonia ao remover o seu
débil corpo. A cruz é suficiente para
retratar sua crucificação. No lugar do
corpo de Jesus apliquei uma silhueta
abstrata, uma declaração poderosa de
que deixou a cruz e este mundo para
preparar e aguardar o nosso reencontro
com ele no céu”.
Pouco depois, em 1994, Ultimato
conseguiu com a direção da
universidade americana uma cópia do
projeto da cruz vazada e autorização
para construir uma cruz igual no
gramado do Centro Evangélico de
Missões, em Viçosa, MG, que foi
inaugurada em 1996. Por anunciar o
mais puro evangelho — a eficácia da
morte vicária de Jesus, a ressurreição
de Jesus, o sacerdócio de Jesus, a
ressurreição dos mortos, os novos
céus e a nova terra — Ultimato tem
repassado graciosamente o projeto da
cruz vazada a quem o solicita. Por esta
razão, hoje há muitas cruzes vazadas
pelo Brasil afora, junto a templos
protestantes e católicos, em vias
públicas e até em cemitérios.
Nota
1. Ir ao Povo (março de 2006, p. 8).
Além de declarar a ressurreição como verdade culminante, central,
fundamental e essencial, o recente Catecismo da Igreja Católica ensina
que ela deve ser pregada juntamente com a cruz
Setembro-Outubro, 2008
ULTIMATO
27
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
2727
33/9/2008
/9/2008
118:26:09
8:26:09
Élben César
Especial EuEu tenho tenho lepra! lepra! Patrícia Neme O médico abriu o envelope da eletroneuromiografia e,
Especial
EuEu tenho
tenho lepra!
lepra!
Patrícia Neme
O médico abriu o envelope da
eletroneuromiografia e, num
misto de alívio e preocupação, disse-
me: “Hanseníase neural, em estágio
avançadíssimo”. Ali findavam dois anos
e meio de peregrinação a consultórios
das mais variadas especialidades, sem
Aderi à igreja virtual e Silas Malafaia
tornou-se meu pastor durante o meu
caminhar pelo vale do sofrimento; e só
Deus sabe o quanto ele me pastoreou.
Deus o abençoe!
Lepra
Mudaram o nome para
que eu obtivesse qualquer resultado (e
quantas vezes outros profissionais me
encaminharam a psicólogos, psiquiatras.
Só ele acreditava que havia algo mais
sério). Tantos exames, tantas quedas
súbitas, causando uma interminável
quebradeira de ossos. Dali, fui ao
dermatologista e, em seguida, ao posto de
saúde, onde iniciei a poliquimioterapia.
Apesar de há muito tempo não receber
uma visita pastoral, ou resposta aos meus
e-mails e telefonemas, com o diagnóstico
na mão, procurei o pastor da minha igreja,
na pretensão de que ele entendesse a razão
da minha rara freqüência aos cultos, pois
mal conseguia andar; tinha dores intensas
nas pernas e braços, além de muita dor de
cabeça. Ele me perguntou: “O que você
deseja que façamos por você?” “Quero
sua unção e sua bênção, tudo o mais está
resolvido”, respondi.
Recebi a unção e a bênção, e nunca
mais tive notícias dele. Afinal, se a arca
da aliança ficou três meses na casa de
Obede-Edom e lhe resolveu a vida, eu
passara quase três anos indo de mal a
pior
...
E agora, uma lepra!
...
hanseníase — é mais chique. Mas
é lepra, mesmo. Sempre me julguei
muito culta e, na minha “elevada
sabedoria”, essa doença pertencia ao
Antigo Testamento. A transição daquela
época a 2007 foi difícil, mas comecei a
conhecer o mal silencioso que assola o
país, responsável por 90% dos casos em
todo o continente americano. O Brasil
é o segundo país no mundo em número
absoluto de portadores, só perdendo
para a Índia, que tem uma população
cinco vezes maior do que a nossa. O
que será que realmente fizeram com a
CPMF, se até a poliquimioterapia nos é
doada por uma ONG holandesa?
Causada pelo bacilo mycobacterium
leprae, a hanseníase compromete a
pele e os nervos. A transmissão ocorre
pelas vias respiratórias. Os sintomas
são manchas ou lesões cutâneas
esbranquiçadas ou avermelhadas, com
sensação de queimação, ardência,
coceira ou perda de sensibilidade;
também são sintomas da doença
o aparecimento de placas, caroços
vermelhos dolorosos e inchaços no
rosto, dor nas articulações, febre,
inchaço nas pernas, queda de pelos,
além de dor no trajeto dos nervos que
passam pelos cotovelos, punhos, atrás
dos joelhos e tornozelos, causando a
diminuição da força e dormência nas
mãos e nos pés. Quanto mais cedo
diagnosticada, maiores as chances de o
paciente não ficar com seqüelas.
Porém, para o diagnóstico precoce e a
cura, é necessária uma experiência que
poucos dermatologistas adquirem, pois a
parte cosmética de sua especialização lhes
permite maiores lucros; também urgem
algumas condutas de suma importância,
ou jamais conseguiremos erradicar a
hanseníase. Não podemos acreditar
nas estatísticas, em razão do pouco
conhecimento da maioria dos médicos,
o que os leva a diagnósticos em direções
outras, e do medo da discriminação,
que impede muitos portadores de se
apresentarem aos postos de saúde, onde
as estatísticas são elaboradas.
Assim, é preciso: a) que o Ministério
da Saúde faça campanhas elucidativas,
para que o próprio paciente possa
reconhecer os sintomas da doença e
procurar um médico; b) que nossas
igrejas realizem palestras sobre o tema;
c) que as faculdades de medicina
dediquem um espaço maior no currículo
às doenças negligenciadas (hansen,
malária, tuberculose etc.), com um
ensino mais voltado à identificação dos
28
ULTIMATO
Setembro-Outubro, 2008
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
2828
33/9/2008
/9/2008
118:26:38
8:26:38
Banco de imagens oliver
sintomas e não apenas ao tratamento da doença, principalmente porque a hanseníase pode ser confundida com

sintomas e não apenas ao tratamento da doença, principalmente porque a hanseníase pode ser confundida com várias outras enfermidades; d) que os Conselhos Regionais de Medicina promovam constantemente cursos sobre o tema, já que a situação no país é crítica e muitos médicos acreditam que a lepra está erradicada no Brasil; e) que se acabe com o infeliz slogan “Hanseníase tem cura”, que banaliza a doença, colocando-a quase no mesmo patamar de um resfriado. Porque muitos casos são diagnosticados tardiamente, há muita gente com seqüelas graves (o meu caso), num processo irreversível que desmorona a pessoa física e psicologicamente. Cura parcial não é cura. Ou quem insiste em tal slogan obtém algum benefício ao compactuar com o descaso do governo? Outros dois aspectos não podem deixar de ser mencionados, dada a sua importância na vida dos pacientes. O

primeiro refere-se ao descaso dos peritos do INSS, que desconsideram relatórios médicos dos profissionais que nos acompanham e alteram diagnósticos segundo sua inspiração momentânea (um perito “mudou” meu laudo para osteoartrose e outro, para depressão ... No caso da lepra neural, a boa aparência do paciente é interpretada como saúde total, por desconhecerem que a clofazimina deixa a pessoa com ótima aparência, bronzeada). O segundo aspecto refere-se à ignorância de muitas igrejas (principalmente evangélicas), que rejeitam tratamentos médicos porque “Jesus cura” e ousam afirmar que a lepra é um castigo de Deus a quem muito peca (ouvi isso de um pastor. De outro, ouvi que eu deveria parar com o tratamento, pois tomar a poliquimioterapia demonstrava a minha pouca fé). Oséias 4.6 alerta que padecemos por falta de conhecimento. Até quando seguiremos com essa insanidade? Deus cura, é verdade. Mas no tempo dele e através de diferentes formas, por

exemplo usando a medicina. Ou não cura (alguém se lembra do apóstolo Paulo?), por motivos que ele conhece. E, se ele conhece, isto basta! A lepra é um processo muito sofrido, que aumenta com o desconhecimento dos médicos sobre a doença, o que não lhes permite que nos orientem da melhor forma em relação às reações colaterais do tratamento (quase morri em função da dapsona, pois sou alérgica à sulfa). Ninguém explica ao paciente sobre a necessidade de acompanhamento por outros especialistas, pois a poliquimioterapia pode causar hepatite, anemia, catarata e problemas renais, um roteiro que percorri todo. E a dor agiganta-se, quando tememos a discriminação, o julgamento absurdo daqueles que deveriam nos acompanhar espiritualmente. Pela misericórdia de Deus, e pela facilidade de acesso aos meios de informação, tive a felicidade de encontrar

o Portal da Hanseníase (www.hanseniase. passosuemg.br), um trabalho abnegado e altamente profissional, voltado a ministrar cursos on-line a profissionais da área da saúde e a esclarecer dúvidas de portadores da doença. Mas e quem não dispõe desse recurso? E as pessoas mais simples, perdidas no labirinto da impaciência do sistema público de saúde? É por elas que estou aqui. Quero convidar o leitor a que se informe sobre esse mal; que não nos olhe com reservas ou se assuste com nossas seqüelas físicas — pior seria se fossem morais. Que nos ajude a buscar informações e esteja ao nosso lado nessa luta por uma verdadeira cidadania. Eu tenho lepra, você tem diabetes, há quem tenha câncer. Somos todos merecedores de respeito, tratamento digno e fraterno. Se assim for, só nos contagiaremos de amor. Daquele que eleva e constrói. E cura! Pensemos nisso, e que Deus nos abençoe.

sintomas e não apenas ao tratamento da doença, principalmente porque a hanseníase pode ser confundida com

Patrícia Neme é tradutora, intérprete e poetisa. É autora de Relicário (Ed. Corifeu).

ltimato 314.indd

uultimato

314.indd

2929

Setembro-Outubro, 2008 ULTIMATO 29 33/9/2008 /9/2008
Setembro-Outubro, 2008
ULTIMATO
29
33/9/2008
/9/2008

118:47:07

8:47:07

sintomas e não apenas ao tratamento da doença, principalmente porque a hanseníase pode ser confundida com

Especial Especial

O julgamento

chegou ao Planalto”

Especial Especial “ O julgamento chegou ao Planalto” E sta informação está mesmo na Bíblia (Jr

E sta informação está mesmo na Bíblia (Jr 48.21, BP, TEB, NTLH

e NVI). Outras versões usam as palavras “planície” ou “campina”. Aqui, de propósito, tomamos a liberdade de colocar a palavra Planalto com “P” maiúsculo para dar a entender que o texto pode se referir também ao governo brasileiro,

em Brasília, a capital construída no Planalto Central por Juscelino Kubitschek e inaugurada em 1960. Assim como o julgamento de Deus chegou ao planalto onde ficava uma das nações mais antiga do mundo (Moabe), situada entre a metade sul do mar Morto e o deserto da Arábia, o julgamento dos altos céus pode chegar também ao nosso Planalto,

que abriga a sede do Executivo Federal, a Câmara dos Deputados, o Senado Federal, o Superior Tribunal de Justiça, o Supremo Tribunal Federal, os ministérios e as embaixadas de todas as nações. Quem responde oficialmente pelos acertos e pelos desacertos do país, diante do povo, de outras nações e de Deus, no caso do Brasil, é o Palácio do Planalto, em Brasília, onde o presidente da República despacha. Pode ser que os historiadores não levem Deus a sério, esquecendo-se de que ele é o Senhor da história. Mas eles não tratam de outra coisa senão contar a história do apogeu e da queda dos muitos poderosos impérios do passado remoto (Império Assírio,

Império Medo-Persa, Império Babilônico, Império Romano, Império Mongol etc.) e do passado recente (Império Britânico, Império Soviético, Império Japonês, Alemanha Nazista etc.). Seria ridículo para os pesquisadores de história e para a sociedade atribuir tanto a ascensão como a queda dessas nações à soberania do Rei dos reis, “o Senhor de toda a terra” (Mq 4.13; Zc 4.14). A passagem bíblica “o julgamento chegou ao planalto” diz respeito a Moabe. A nação começou com Moabe, filho de Ló, um dos sobreviventes da destruição de Sodoma e Gomorra, em uma relação incestuosa deste com sua filha mais velha (Gn 19.37). Ocupava um pequeno território (57 quilômetros de comprimento e 40 de largura), na vizinhança de duas das doze tribos de Israel (Rúben e Gade). A história do êxodo de Israel do Egito para Canaã registra o episódio em que mulheres moabitas seduziram os israelitas e os induziram a uma forma de idolatria que envolvia também relações sexuais (Nm 25.1-9). Todavia, há uma moabita que entrou para a história como mulher especialmente virtuosa: chamava- se Rute e seu nome está na genealogia de Jesus (Mt 1.5).

Gibson
Gibson

30

ULTIMATO

Setembro-Outubro, 2008

Especial Especial “ O julgamento chegou ao Planalto” E sta informação está mesmo na Bíblia (Jr

ltimato 314.indd

uultimato

314.indd

3030

33/9/2008

/9/2008

118:47:22

8:47:22

Pode ser que os historiadores não levem Deus a sério, esquecendo-se de que ele é o Senhor da história. Mas eles não tratam de outra coisa senão contar a história do apogeu e da queda dos poderosos impérios de ontem e de hoje

O juízo de Deus contra Moabe é dramaticamente descrito em Jeremias

Na história do Antigo Testamento, os profetas advertiam em primeira

e condenado: “Quão quebrado e destroçado está o martelo de toda a

  • 48 e em Isaías 15 e 16. A derrota

instância Israel, mas não deixavam

dezenas de vezes, principalmente em

terra! Quão arrasada está a Babilônia

final aconteceu no ano 582 antes de

inocentes nem desprevenidas muitas

entre as nações!” (Jr 50.23).

Cristo, quando Nabucodonosor, rei da Babilônia, subjugou os moabitas. Além da informação de que “o julgamento chegou ao planalto”, há outra advertência contra Moabe,

muito mais rude, no mesmo capítulo

outras nações contemporâneas e seus governantes, inclusive o poderoso Nabucodonosor, cujo nome aparece

Jeremias e em Daniel. O dono da história dizia a respeito da Babilônia:

Hoje em dia, essas duras e implacáveis advertências a qualquer nação e em qualquer tempo estão implícitas. Pode-se ler nas enciclopédias o relato da decadência de governos que oprimem seus

  • 48 de Jeremias: “O destruidor

“Você é o meu martelo, a minha

próprios cidadãos e outras nações.

[Nabucodonosor] virá contra todas

arma de guerra. [

]

Com você eu

Portanto, é oportuno lembrar

as cidades, e nenhuma escapará. O vale se tornará ruínas, e o planalto será destruído, como o Senhor falou” (v. 8).

despedaço as nações, com você eu destruo reinos” (Jr 51.20). Mas esse terrível martelo também foi julgado

que o julgamento pode chegar ao Planalto, à Casa Branca, ao Kremlin etc.

Setembro-Outubro, 2008 ULTIMATO 31 uultimato ltimato 314.indd 314.indd 3131 33/9/2008 /9/2008
Setembro-Outubro, 2008
ULTIMATO
31
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
3131
33/9/2008
/9/2008
Pode ser que os historiadores não levem Deus a sério , esquecendo-se de que ele é

118:47:29

8:47:29

Shutterstock

Shutterstock

Shutterstock Shutterstock Especial s Especial O verdadeiro amigo do Noivo faz propaganda do Noivo e não

Especial s

Especial

O verdadeiro amigo do

Noivo faz

propaganda

do

Noivo e não de si mesmo

N ão há como negar: é surpreendente

a propaganda que hoje se faz

de algum pregador bem-sucedido.

Como no caso do pastor americano Rick Warren, autor de Uma Igreja com Propósitos, que esteve em São Paulo no dia 21 de julho de 2008. O cartaz da promoção transcrevia uma série de superlativos a respeito de seu sucesso ministerial: pastor de “uma das maiores e mais conhecidas igrejas do mundo”, fundador de um ministério que “conta com mais de 400 mil pastores conectados em 163 países”, autor de um best-seller que alcançou o título de livro de não-ficção mais vendido no mundo por três anos consecutivos e

que está na lista dos “100 livros cristãos que mais mudaram o século 20”, “uma das cem personalidades mais poderosas do mundo”, “um dos vinte e cinco melhores líderes da América”, “uma das quinze pessoas que fazem a América ser excelente”, “um dos dez pregadores

mais influentes dos últimos cinqüenta anos” etc. A igreja brasileira, ainda não Ressuscitado. Essa é que
mais influentes dos últimos cinqüenta
anos” etc.
A igreja brasileira, ainda não
Ressuscitado. Essa é que é a nossa
missão” (junho de 2008, p. 27).

totalmente acostumada com esses exageros que ferem ou destroem a honra devida exclusivamente a Jesus Cristo, deveria rejeitar o estilo americano e exercer uma influência contrária. Embora fosse o precursor de Jesus e um pregador de multidões (Lc 3.7), e apesar do alto conceito que o Senhor fazia dele (Mt 11.11), João Batista tomava todo o cuidado para não empanar a glória daquele sobre quem pregava: “Eu sou amigo do Noivo, e estou cheio de alegria com o sucesso dele. Ele deve tornar-se cada vez maior e eu devo diminuir cada vez mais” (Jo 3.30, BV). Em entrevista à revista católica Ir ao Povo, o conhecido padre e jornalista Augusto César Pereira, declarou: “É um perigo quando um padre se torna uma ‘estrela’, porque passa a formar o rebanho dele mesmo. Nós, os padres,

temos que formar o povo do Cristo

Timóteo Carriker, missiólogo americano radicado no Brasil, em seu livro Proclamando Boas-novas! , alerta para a tentação da construção de impérios denominacionais, que podem resultar da excessiva preocupação apenas com o crescimento numérico de igrejas, mais por força do proselitismo do que por força do evangelismo. O ensino de Rick Warren tem o seu valor, mas ele e seus promotores deveriam tomar mais cuidado com esse tipo de propaganda, muito bem-sucedida na sociedade poderosa e consumista, mas imprópria na promoção do reino de Deus. Talvez ele próprio teria vergonha de tão inflacionada promoção pessoal. E, aqui no Brasil, precisamos acabar com a associação de uma denominação com o nome e a figura de seu fundador.

Shutterstock Shutterstock Especial s Especial O verdadeiro amigo do Noivo faz propaganda do Noivo e não
Shutterstock Shutterstock Especial s Especial O verdadeiro amigo do Noivo faz propaganda do Noivo e não
A obesidade do ego Glênio Fonseca Paranaguá A descendência de Adão encontra-se contaminada pela síndrome de
A obesidade do ego
Glênio Fonseca Paranaguá
A descendência de Adão encontra-se
contaminada pela síndrome de altar.
(
)
Somos uma raça que gosta de viver
em destaque. (
)
O ser humano comum
gosta da sombra do ostracismo. (
)
O
exibicionismo no palco é uma deformação
que denota obesidade do ego, em
conseqüência da teimosia dominante do
ela se encontra apoiada numa parede
errada. Ninguém que tenha comunhão
com Cristo deveria aspirar ao pódio,
uma vez que ele viveu aqui na terra
almejando apenas glorificar ao Pai,
sem qualquer glamour ou necessidade
de consideração especial. A glória de
Cristo na terra era viver para a glória
do Pai.
pecado original. (
...
)
O gênero adâmico
é presunçoso ao extremo e não concorda
com a fronteira da insignificância. ( ) ...
Ninguém gosta de viver à margem do
êxito e das lentes de observação.
O velho homem, espécie gerada no
útero da rebeldia no Éden, não aceita
viver no deserto social ou afastado das
luzes da ribalta. Ele pode até aturar
essa condição por falta de escolha, mas
não é de bom grado. A expectativa
reservada no seu interior é sempre de
uma visibilidade pública e de prestígio
diante da coletividade. Muitos não
querem perder a sua privacidade,
mesmo assim, não gostam de viver na
carceragem do anonimato.
O risco da elevação é você alcançar
o alto da escala e então perceber que
(Frases retiradas do artigo Desapeando do
pedestal, de Glênio Fonseca Paranaguá,
pastor da Primeira Igreja Batista de
Londrina, publicado na edição de abril de
2008 de Palavra da Cruz ).
32
ULTIMATO
Setembro-Outubro, 2008
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
3232
33/9/2008
/9/2008
118:47:40
8:47:40
Gilber
uultimato ltimato 314.indd 314.indd 3333 33/9/2008 /9/2008 118:48:06 8:48:06
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
3333
33/9/2008
/9/2008
118:48:06
8:48:06
uultimato ltimato 314.indd 314.indd 3434 33/9/2008 /9/2008 221:39:49 1:39:49
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
3434
33/9/2008
/9/2008
221:39:49
1:39:49
uultimato ltimato 314.indd 314.indd 3535 33/9/2008 /9/2008 221:39:59 1:39:59
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
3535
33/9/2008
/9/2008
221:39:59
1:39:59
Reflexão Pseudo-pentecostais: nem evangélicos, nem protestantes Robinson Cavalcanti U m grande equívoco cometido pelos sociólogos da
Reflexão
Pseudo-pentecostais:
nem evangélicos,
nem protestantes
Robinson Cavalcanti
U m grande equívoco
cometido pelos sociólogos
da religião é o de por
sob a mesma rubrica de
pentecostalismo dois fenômenos distintos.
De um lado, o pentecostalismo
propriamente dito, tipificado, no
Brasil, pelas Assembléias de Deus; e do
outro, o impropriamente denominado
neopentecostalismo, melhor tipificado
pela Igreja Universal do Reino de
Deus. Um estudioso propôs denominar
essas últimas de pós-pentecostais: um
fenômeno que se seguiu a outro, mas
que com ele não se conecta, pois neo se
refere a uma manifestação nova de algo
já existente. Correntes de sociologia
argentina já os denominaram de
iso-pentecostalismo : algo que parece,
mas não é. Lucidez e coragem teve
Washington Franco, em sua dissertação
de mestrado na Universidade Federal
de Alagoas, quando classificou o
fenômeno representando pela IURD
de pseudo-pentecostalismo : algo que não
é. Um estudo acurado dos tipos ideais,
Assembléia de Deus e Igreja Universal
do Reino de Deus, sob uma ótica
sociológica, ou uma ótica teológica,
nos levará à conclusão que se trata de
duas manifestações religiosas diversas,
que não podem — nem devem — ser
colocadas sob uma mesma classificação.
Ao se somar, a partir do Censo
Religioso, esses dois agrupamentos,
tem-se um alto índice de pentecostais,
constituídos, contudo, pelos que o são
e pelos que não o são. Equiparar ambos
os fenômenos não faz justiça à Igreja
Universal e ofende a Assembléia de
Deus.
Podemos afirmar, ainda, um
segundo equívoco dos analistas:
considerar a IURD e suas congêneres
como evangélicas. Elas próprias, por
muito tempo, relutaram em se ver
como tal, pretendendo ser tidas como
um fenômeno religioso distinto, e
terminaram por aceitar a classificação
evangélica por uma estratégia política
de hegemonizar um segmento religioso
mais amplo no cenário do Estado e da
sociedade civil. O evangelicalismo é
marcado pela credalidade histórica e
pela ênfase doutrinária reformada na
doutrina da expiação dos pecados na
cruz e na necessidade de conversão, ou
novo nascimento.
Se o pseudo-pentecostalismo não
é pentecostalismo, nem, tampouco,
evangelicalismo, também não é
protestantismo. O discurso e a prática
dessa expressão religiosa indicam a
inexistência de vínculos ou pontos de
contatos com a Reforma Protestante
do Século 16: as Escrituras, Cristo, a
36
ULTIMATO
Setembro-Outubro, 2008
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
3636
33/9/2008
/9/2008
118:48:26
8:48:26
Stockxpert

O fosso entre pentecostais e pseudo-pentecostais

(Igreja Universal e congêneres) tende a aumentar, não só pela aproximação entre pentecostais e históricos, mas também pela crescente adesão dos pseudo-pentecostais a ensinos e práticas sincréticas

graça, a fé. Chamar o bispo Macedo de protestante é de fazer tremer o Muro da Reforma, em Genebra, e os ossos de Lutero e Calvino em seus túmulos. Muita gente tem incluído a IURD, e assemelhadas, como pentecostais, evangélicas ou protestantes, para inflar, de forma triunfalista, os números, ou por temor de retaliações legais, ou extralegais, vindas daquelas instituições. Se sociólogos têm denominado manifestações novas na

cristandade, como as Testemunhas de Jeová, os Mórmons, ou a Ciência Cristã, como seitas para-cristãs, podemos denominar a Igreja Universal e congêneres de seitas para-protestantes. O que se constata, cada vez mais, é que o fenômeno pseudo-pentecostal tem concorrido para uma maior aproximação entre os pentecostais (já tidos como históricos, por sua antigüidade e mobilidade social e cultural) e as igrejas históricas. De um lado, os pentecostais redescobrem o valor da história, de uma confessionalidade e de uma teologia sólida; do outro, os históricos vão flexibilizando (ou ampliando) a sua pneumatologia, reconhecendo a contemporaneidade dos dons do Espírito Santo. O fosso entre pentecostais e pseudo-pentecostais tende a aumentar, não só pela aproximação entre pentecostais e históricos, mas também pela crescente adesão dos pseudo-pentecostais a ensinos e práticas sincréticas, com o catolicismo romano popular e os

cultos afro-ameríndios. Quando estudantes de teologia assembleianos, batistas nacionais ou presbiterianos renovados aprendem com teólogos anglicanos (John Stott, J.I. Packer, Michael Greene, Alister McGrath, N.T. Wright), e anglicanos, luteranos ou presbiterianos usam de um louvor mais exuberante e oram por cura e libertação, na expressão de Gramsci, um novo bloco histórico vai se formando (retardado pelo

extremo fracionamento entre ambos os segmentos), do qual, é claro, não faz parte o pseudo-pentecostalismo. Esse bloco histórico em formação, para se consolidar, não apenas deve se conhecer mais mutuamente, somando conceitos e subtraindo preconceitos, mas também responder aos desafios de um pluralismo que inclui a diversidade do catolicismo romano, o pseudo- pentecostalismo, o esoterismo, os sem- religião e um agressivo secularismo, emoldurado pelo relativismo pós- moderno. Isso passa, necessariamente, pelo aprender com a história da igreja — durante, depois e antes da Reforma — e pela superação de uma iconoclastia que, equivocadamente, equipara o artístico com o idolátrico. Contamos com estadistas do reino de Deus, com humildade, visão e coragem para consolidar esse bloco?

O fosso entre pentecostais e pseudo-pentecostais (Igreja Universal e congêneres) tende a aumentar, não só pela

Dom Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política

– teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo – desafi os a uma fé engajada.

<www.dar.org.br>

ltimato 314.indd

uultimato

314.indd

3737

Setembro-Outubro, 2008 ULTIMATO 37 33/9/2008 /9/2008
Setembro-Outubro, 2008
ULTIMATO
37
33/9/2008
/9/2008

118:48:51

8:48:51

O fosso entre pentecostais e pseudo-pentecostais (Igreja Universal e congêneres) tende a aumentar, não só pela
Reflexão Verdade versus aalucinação lucinação Ricardo Gondim Fotomotagem Jean Scheijen O culto pegava fogo. O frenesi
Reflexão Verdade versus aalucinação lucinação Ricardo Gondim Fotomotagem Jean Scheijen
Reflexão
Verdade
versus
aalucinação
lucinação
Ricardo Gondim
Fotomotagem Jean Scheijen

O culto pegava fogo. O frenesi do povo crescia, estimulado por um pastor quase grisalho,

engravatado e bastante brilhantina nos cabelos. Mesmo acostumado a ambientes pentecostais, estranhei o exagero dos gestos e das palavras. Concentrei-me para entender o que o pastor dizia em meio a tantos gritos. Percebi que ele literalmente dava ordens a Deus. Exigia que honrasse a sua Palavra e que não deixasse “nenhuma pessoa ali sem a bênção”. Enquanto os decibéis subiam, estranhei o tamanho da sua arrogância. A ousadia do líder contagiou os participantes. Todos pareciam valentes, cheios de coragem. Assombrei-me quando ouvi uma ordem vinda do púlpito: “Chegou a hora de colocarmos Deus no canto da parede. Vamos receber o nosso milagre e exigir os nossos direitos”. Foi a gota d’água. Levantei-me e fui embora.

Os ambientes religiosos neopentecostais se tornaram alucinatórios porque geram fascínio por poder e pela capacidade de criar um mundo protegido e previsível. Por se sentirem onipotentes, buscam produzir uma realidade fictícia. Para terem esse mundo hipotético, os sujeitos religiosos chegam ao cúmulo de se acharem gabaritados para comandar Deus. É próprio da religião oferecer segurança, mas os neopentecostais querem produzir garantia existencial com avidez. Em seus cultos, procuram eliminar as contingências, com a imprevisibilidade dos acidentes e os contratempos do mal. Acreditam-se capazes de domesticar a vida para acabar com a possibilidade de seus filhos adoecerem, de as empresas que dirigem falirem e de se safarem caso estejam em ônibus que despenca no barranco. Almejam uma religião preventiva, que se antecipa aos solavancos da vida. Imaginam-se aptos para transformar a aventura de viver

em mar de almirante ou em céu de brigadeiro. Acontece que essa idéia de um mundo sem percalços não passa de alucinação. Por mais que se ore, por mais que se bata o pé dando ordens a Deus, o Eclesiastes adverte: “O que acontece com o homem bom, acontece com o pecador; o que acontece com quem faz juramentos acontece com quem teme fazê-lo” (9.2). Mas a pergunta insiste: por que os cultos neopentecostais lotam auditórios e ganham força na mídia? Repito, pelo simples fato de prometerem aos fiéis o poder de controlar o amanhã, eliminar os infortúnios e canalizar as bênçãos de Deus para o presente. Quando oram, pretendem gerar ambientes pretensiosamente capazes de antever quaisquer problemas para convertê-los em fortuna e felicidade. Esta premissa deve ser contestada. Pedir a Deus para nunca se contrariar, ou para ser poupado de acidentes,

38

ULTIMATO

Setembro-Outubro, 2008

Reflexão Verdade versus aalucinação lucinação Ricardo Gondim Fotomotagem Jean Scheijen O culto pegava fogo. O frenesi

ltimato 314.indd

uultimato

314.indd

3838

33/9/2008

/9/2008

118:49:01

8:49:01

A verdade conduz à lucidez. O delírio tranqüiliza e gera um

contentamento

falso. Muitos recorrem à religião porque desejam fugir

da verdade e se

arrasam porque a paz que a alucinação produz não se sustenta diante dos

fatos

significa exigir que ele coloque os seus filhos em uma bolha de aço. A vida é contingente. Tudo pode ocorrer de bom e de ruim. Uma existência sem imprevisibilidade seria maçante. O perigo da tempestade, a ameaça da doença, a iminência da morte fazem o dia- a-dia interessante. A verdade não produz necessariamente

da vida é uma grande tentação. Em um primeiro momento, parece cômodo refugiar- se da realidade, negando-a. É bom acreditar que a riqueza, a saúde, a felicidade estão pertinho dos que souberem manipular Deus. O mundo neopentecostal se desconectou da realidade. Seus

seguidores vivem em negação. Não aceitam partilhar a sorte de todos os mortais. Confundem esperança com deslumbre,

felicidade. Verdade conduz à lucidez. O delírio, porém, tranqüiliza e gera um contentamento

falso. Muitos recorrem à religião

porque desejam fugir da verdade e se arrasam porque a paz que a alucinação produz não se sustenta diante dos fatos. Cedo ou tarde, a tempestade chega, o “dia mau” se impõe e o arrazoamento do religioso cai por terra. Interessante observar que Jesus nunca fez promessas mirabolantes. Como não se alinhou aos processos alienantes da religião, ele não garantiu um mundo seguro para os seus seguidores. Pelo contrário, avisou que os enviaria como ovelhas para o meio dos lobos e advertiu que muitos seriam entregues à morte por seus familiares. Sem rodeio, afirmou: “No mundo vocês terão aflições”. Quando o Espírito conduziu Jesus para o deserto, o Diabo lhe ofereceu uma vida segura, sem imprevistos. As três tentações foram ofertas de provisão, prevenção e poder, mas ele as rechaçou porque as considerou mentirosas. O mundo que o Diabo prometia não existe. Porém as pessoas preferem acreditar em suas ilusões. Fugir da crueza

virtude com onipotência mágica, culto

com manipulação de forças esotéricas e espiritualidade com narcisismo religioso. Os sociólogos têm razão: o crescimento numérico dos evangélicos não arrefecerá nos próximos anos. Entretanto, o problema é qualitativo. O rastro de feridos e decepcionados que embarcaram nessas promessas irreais já é maior do que se imagina. A demanda por cuidado pastoral vai aumentar. Os egressos do “avivamento evangélico” baterão à porta dos

pastores, perguntando: “Por que Deus não me ouviu?” ou “O que fiz de errado?”. Será preciso responder carinhosamente: “Não houve nada de errado com você. Deus não lhe tratou com indiferença. Você apenas alucinou sobre o mundo e misturou fé com fantasia”.

Soli Deo Gloria.

A verdade conduz à lucidez . O delírio tranqüiliza e gera um contentamento falso . Muitos

Ricardo Gondim é pastor da Assembléia de Deus Betesda no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros, Eu Creio, mas Tenho Dúvidas. <www.ricardogondim.com.br>

ltimato 314.indd

uultimato

314.indd

3939

Setembro-Outubro, 2008 ULTIMATO 39 44/9/2008 /9/2008 009:51:46 9:51:46
Setembro-Outubro, 2008
ULTIMATO
39
44/9/2008
/9/2008
009:51:46
9:51:46
edescobrindo a Palavra de Deus R “Todo mundo trabalhando pelo desenvolvimento” Valdir Steuernagel fotomontagem Piotr Sikora/Marco
edescobrindo a Palavra de Deus
R
“Todo mundo
trabalhando pelo
desenvolvimento”
Valdir Steuernagel
fotomontagem Piotr Sikora/Marco Michellini/Gilber

Sim, vamos começar a reconstrução. E se encheram de coragem.(Ne 2.18)

edescobrindo a Palavra de Deus R “Todo mundo trabalhando pelo desenvolvimento” Valdir Steuernagel fotomontagem Piotr Sikora/Marco

H á certos assuntos do cotidiano

que estão sempre presentes

em nossas conversas: filhos,

saúde, comida, contas a pagar etc. E na caminhada de fé não é diferente. Há assuntos que sempre voltam à tona. Um deles, que tem sido discutido nesta coluna, é a nossa atuação como cidadãos. Devemos nos preocupar com as coisas terrenas ou só com as eternas? A vida pode ser “dividida” dessa maneira? Qual é, de fato, a nossa vocação? Imagino que certos leitores, ao lerem esta série sobre os Objetivos do Milênio, fiquem se perguntando se Ultimato não estaria equivocada ao dar prioridade a estas coisas. Por que falar de fome, educação, mortalidade infantil, meio ambiente, se está em jogo o destino eterno das pessoas? Na verdade, a eternidade não é algo desvinculado dos temas da vida, nem é uma mera questão de futuro. A eternidade passa a ser realidade a partir do momento em que o senhorio de Jesus Cristo e os sinais do reino de Deus se tornam presentes na nossa

40

ULTIMATO

Setembro-Outubro, 2008

ltimato 314.indd

uultimato

314.indd

4040

vida pessoal e comunitária. Quando Jesus libertou o geraseno dos demônios que o atormentavam (Lc 8.26-39), ele não estava apenas devolvendo a um homem o seu futuro, mas também o seu presente. O gesto de Jesus não teve um caráter meramente pessoal, mas também comunitário. No momento em que este homem é liberto, seu presente se torna absolutamente diferente, e ele é devolvido à sociedade como uma pessoa transformada. Ele já não é um risco para a sociedade, mas passa a ser um agente de promoção de vida em seu meio. Jesus lhe diz: “Volte para casa e conte o quanto Deus lhe fez”. Nos Evangelhos, a vivência integral de Jesus nos convida e desafia para a vivência inteira do evangelho, na qual fazer o paralítico andar é tão importante quanto que ele não peque mais (Jo 5.1- 14). E assim deve acontecer com os seguidores de Jesus. Não somos chamados apenas a “povoar os céus”, como diz uma expressão antiga, mas também a construir uma cidadania que busque o estabelecimento de sociedades mais justas, mais amorosas e mais felizes.

É por isso que nos aliamos às Nações Unidas na declaração dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio e celebramos quando eles são alcançados. Quando uma mãe dá a luz um filho e ambos sobrevivem, Jesus se alegra. Quando as crianças conseguem ter acesso à escola e continuar estudando no decorrer dos seus anos de crescimento, Deus sorri. Quando as mulheres são melhor tratadas por seus maridos e a violência doméstica diminui, o Espírito Santo sopra com alegria. Quando uma pessoa angustiada é encontrada pelo evangelho da graça, os anjos festejam; e quando o anúncio do evangelho promove o arrependimento e o encontro de nova vida, a igreja dança ao ritmo da dança da própria Trindade. Deus se alegra em ver as pessoas inteiras e satisfeitas — seja hoje ou amanhã, mas de preferência hoje; seja como indivíduos ou como comunidade, mas quanto mais gente, melhor. Um dos belos exemplos bíblicos em que vemos uma mudança fundamental de vida pessoal e coletiva tornar-se realidade está no livro de Neemias. Ali encontramos um homem que abraça o chamado para reconstruir os muros de

edescobrindo a Palavra de Deus R “Todo mundo trabalhando pelo desenvolvimento” Valdir Steuernagel fotomontagem Piotr Sikora/Marco

33/9/2008

/9/2008

118:49:27

8:49:27

Setembro-Outubro, 2008 ULTIMATO 41 33/9/2008 /9/2008 Não somos chamados uma cidade empobrecida e explorada. Um homem
Setembro-Outubro, 2008 ULTIMATO 41 33/9/2008 /9/2008
Setembro-Outubro, 2008
ULTIMATO
41
33/9/2008
/9/2008
Não somos chamados uma cidade empobrecida e explorada. Um homem vocacionado para guiar o povo de
Não somos chamados
uma cidade empobrecida e explorada. Um
homem vocacionado para guiar o povo
de Israel a uma profunda renovação da
sua relação com Deus e assim estabelecer
as bases para uma sociedade mais justa,
mais humana e mais reverente ao próprio
Deus. E tudo isso ele faz em conjunto
com o povo, desafiando inimigos
externos e com um compromisso de vida
pessoal que modela integridade, entrega e
resposta ao chamado de Deus.
Neemias viveu num tempo de muita
dor, pobreza e exploração do seu próprio
apenas a “povoar
os céus”, mas
também a construir
uma cidadania
que busque o
estabelecimento
de sociedades
povo. Mesmo vivendo em situação
mais justas,
mais amorosas e
mais felizes

muito privilegiada como copeiro do rei da Pérsia, não se esqueceu do seu próprio povo. Quando surgiu a oportunidade, procurou informar-se sobre ele e,

ao deparar-se com a realidade, não ficou indiferente: “Quando ouvi essas coisas, sentei-me e chorei. Passei dias lamentando-me, jejuando e orando ao Deus dos céus” (Ne 1.4). Neemias ouviu a Deus e lhe obedeceu, na sua geração e no seu contexto. A nossa geração de cristãos, no Brasil de hoje, é chamada a fazer o mesmo. Orar com fervor e se dispor a servir a Deus com inteireza e vigor. Engajar- se na sociedade, exercitando uma cidadania que honre o Senhor, que expresse uma igreja viva e atuante e busque a construção de uma sociedade onde as crianças já não precisem viver apenas poucos dias (cf. Is 65.20). Quando, em 2015, as Nações Unidas procederem a uma avaliação dos objetivos que se pretendia alcançar até lá, os resultados certamente serão disformes. Enquanto alguns países terão alcançado estes objetivos com alguma folga, outros continuaram a mostrar índices que espelham muito sofrimento, dor e injustiça. Mas seria muito bom se nas Nações

Unidas se pudesse dizer também que significativos setores da Igreja, nestas últimas décadas, viveram

uma cidadania que fez diferença na qualidade de vida das pessoas, especialmente dos mais pobres. E isso nós fazemos para glória de Deus.

Setembro-Outubro, 2008 ULTIMATO 41 33/9/2008 /9/2008 Não somos chamados uma cidade empobrecida e explorada. Um homem
Objetivos do Milênio Acabar com a fome e a miséria Educação básica e de qualidade para
Objetivos do Milênio
Acabar com a fome e a miséria
Educação básica e de qualidade
para todos
Igualdade entre sexos e
valorização da mulher
Reduzir a mortalidade infantil
Melhorar a saúde das gestantes
Combater a aids, a malária e
outras doenças
Qualidade de vida e respeito ao
meio ambiente
Todo mundo trabalhando pelo
desenvolvimento

Valdir Steuernagel é pastor luterano e trabalha com a Visão Mundial Internacional e com o Centro de Pastoral

e Missão, em Curitiba, PR. É autor de, entre outros, Para

Falar das Flores

...

e Outras Crônicas.

ltimato 314.indd

uultimato

314.indd

4141

118:49:33

8:49:33

História Em defesa do Alderi Souza de Matos N as últimas décadas, tem se tornado comum
História
Em defesa do
Alderi Souza de Matos
N as últimas décadas,
tem se tornado comum
no mundo ocidental
“malhar” o cristianismo.
Intelectuais, acadêmicos, escritores e
articulistas de renome costumam se
referir à fé cristã de forma desairosa
e depreciativa. Infelizmente, com
freqüência muitos críticos estão dentro
das fileiras do próprio cristianismo. É
considerado politicamente incorreto
falar mal de outras religiões,
como o islamismo, o budismo e
o hinduísmo, que estão muito em
voga na Europa e nas Américas,
mas não se vê nenhum problema em
condenar o movimento cristão. Alguns
pensadores ateus, autores de livros
campeões de vendas, têm defendido
explicitamente a extinção pura e
simples do cristianismo. Segundo
afirmam, seria desejável que todas as
religiões deixassem de existir, mas na
realidade eles têm em mente antes de
tudo a fé cristã, a tradição religiosa
predominante no Ocidente.
Além de preconceituosa, essa atitude
é profundamente injusta do ponto de
vista histórico. Os próprios cristãos
reconhecem que sua trajetória ao
longo dos séculos não está isenta de
dolorosos problemas. As cruzadas,
o anti-semitismo, a Inquisição, as
guerras religiosas e a escravidão nas
Américas são manchas tristes na
experiência da igreja, falhas que os
cristãos conscienciosos lamentam
profundamente. É preciso lembrar
esses fatos continuamente para que
eles não voltem a se repetir. Todavia,
as contribuições e os benefícios que
o cristianismo legou ao mundo são
muito mais marcantes e numerosos
que os seus erros, como o estudo
desapaixonado da história demonstra
de maneira conclusiva. Alguns desses
benefícios não foram generalizados
nem contínuos, tendo ocorrido mais
em algumas épocas e lugares do que
em outras.
A influência histórica
O cristianismo é a principal tradição
cultural do mundo ocidental, o mais
importante fator na formação histórica
da Europa e das Américas. Assim sendo,
a influência cristã permeia todos os
aspectos da vida desses continentes e
suas nações. Caso prevalecesse a tese
dos autores que defendem a extinção
do cristianismo, por uma questão de
coerência vastas mudanças teriam de
ser feitas na vida social desses povos.
Por exemplo, o calendário teria de ser
trocado por outro — a semana de sete
dias, os termos “sábado” e “domingo”
(“dia do Senhor”) e a contagem dos
anos (como 2008) não mais fariam
sentido, porque todos têm origem
cristã ou judaico-cristã. Algumas
das celebrações e festividades mais
apreciadas pelas pessoas (Natal, Páscoa,
Dia de Ação de Graças) teriam de ser
eliminadas. Milhões de pessoas teriam
de mudar seus nomes de origem cristã,
inclusive muitos ateus. O mesmo
aconteceria com um imenso número
de designações de cidades, logradouros
42
ULTIMATO
Setembro-Outubro, 2008
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
4242
33/9/2008
/9/2008
118:49:47
8:49:47
Laurelled
cristianismo e pontos geográficos. Os idiomas, a música, o folclore, as tradições e outros elementos seriam
cristianismo
e pontos geográficos. Os idiomas, a
música, o folclore, as tradições e outros
elementos seriam profundamente
afetados.
Mas existem questões mais
importantes. Olhando-se para a
história antiga e recente, percebe-se
o enorme impacto humanizador e
civilizador do cristianismo. Desde o
início da era cristã, houve uma grande
preocupação com a dignidade da vida
humana, que se traduziu no combate
a práticas degradantes como o aborto,
o infanticídio e as lutas de gladiadores.
O cristianismo valorizou a criança, a
mulher, o idoso, o casamento e a vida
familiar. Embora no início os cristãos
tenham mantido a escravidão que
existia no Império Romano, a fé cristã
continha valores que levaram à gradual
extinção desse mal. Tem sido imenso,
ao longo do tempo, o esforço dos
cristãos em socorrer os pobres, doentes
e desamparados de toda espécie, através
de um sem-número de iniciativas e
instituições humanitárias. Até hoje,
tanto em tribos indígenas e populações
carentes como entre povos adiantados,
a contribuição cristã nessas áreas se faz
notar de modo saliente.
O legado cultural
Sem desprezar as magníficas
contribuições das antigas civilizações
grega e romana, foi principalmente o
cristianismo que moldou a vida dos
povos ocidentais como os conhecemos
hoje, além de exercer grande influência
positiva na África e na Ásia. À medida
que a fé cristã se expandia, ela elevou
o padrão de vida dos povos que
deram origem às nações européias.
A contribuição cristã na área da
educação tem sido das mais destacadas.
Durante séculos, as únicas escolas
que existiam estavam ligadas à igreja.
Muitos povos, ao serem evangelizados,
receberam simultaneamente a escrita e
a alfabetização, como ocorreu entre os
eslavos, na Europa oriental, e em muitas
nações africanas. A Bíblia, traduzida
para as línguas desses povos, se tornou
importante nesse processo. As primeiras
universidades (Paris, Bolonha, Oxford)
e muitas outras surgidas mais tarde
(Harvard, Yale, Princeton etc.) foram
criadas por cristãos.
Setembro-Outubro, 2008
ULTIMATO
43
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
4343
33/9/2008
/9/2008
118:50:27
8:50:27
Laurelled
O cristianismo deu uma contribuição inigualável em outras áreas significativas, notadamente em séculos recentes. Alguns exemplos
O cristianismo deu uma contribuição
inigualável em outras áreas
significativas, notadamente em séculos
recentes. Alguns exemplos no âmbito
político são o governo representativo,
a separação dos poderes, a expansão da
democracia e a ampliação dos direitos
e liberdades civis. As convicções cristãs
permitiram a ascensão econômica do
homem comum, gerando prosperidade
para famílias e povos. Outra área de
atuação foi a ciência, não só pelo fato
de que a maior parte dos cientistas ao
longo da história têm sido cristãos,
mas de que o cristianismo, com sua
visão de um mundo ordenado e sujeito
a leis fixas, porque criado por Deus,
possibilitou o próprio surgimento da
ciência. E que dizer das contribuições
nos campos da literatura e da arte?
Se não fosse o cristianismo, não
teríamos obras como as Confissões,
de Agostinho, a Divina Comédia , de
Somente se os cristãos retornarem continuamente aos
fundamentos de sua fé, eles poderão continuar a
proporcionar ao mundo e à sociedade os mesmos
benefícios oferecidos por seus antecessores
Dante, o Paraíso Perdido, de Milton, e
tantas outras. Não contemplaríamos as
magníficas catedrais góticas, a Capela
Sistina, bem como as esculturas e
pinturas de Michelangelo, Leonardo
da Vinci, Rembrandt e outros mais.
Não poderíamos ouvir “O Messias”
de Haendel nem as inspiradoras
composições de Johann Sebastian
Bach.
Valores religiosos e éticos
Os legados mais valiosos do
cristianismo ao mundo são a vida e os
ensinos de seu fundador, registrados
no Livro dos Livros. Jesus Cristo, o
carpinteiro de Nazaré que os cristãos
consideram o próprio Filho de
Deus encarnado, proferiu algumas
das palavras mais belas, sublimes
e cativantes que se conhecem na
história humana. Ele falou das
coisas transcendentes e eternas de
modo simples e acessível a qualquer
indivíduo. Os valores que ensinou,
como o amor, a compaixão, o
altruísmo, a integridade, a veracidade
e a justiça, têm trazido benefícios
incalculáveis ao mundo. Todavia, ele
não se limitou às palavras e conceitos,
mas exemplificou em suas ações as
verdades que buscava transmitir. Por
fim, deu sua vida na cruz para cumprir
cabalmente a missão de que estava
44
ULTIMATO
Setembro-Outubro, 2008
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
4444
33/9/2008
/9/2008
118:51:10
8:51:10
incumbido. Desde então, seu ensino e exemplo têm inspirado e transformado milhões de pessoas em todos
incumbido. Desde então, seu ensino e
exemplo têm inspirado e transformado
milhões de pessoas em todos os
recantos do mundo, além de ter
induzido mudanças radicais nos mais
diferentes aspectos da sociedade.
Sem Cristo e seu grandioso legado, o
mundo certamente seria um lugar muito
mais sombrio, triste e desesperançado.
Essa é a tese de D. James Kennedy em
seu livro E se Jesus não Tivesse Nascido?
(Editora Vida, 2003). Não se pode
negar que muitos não-cristãos têm dado
contribuições relevantes à sociedade.
Os cristãos não têm dificuldade com
isso, porque entendem que Deus atua
em toda a criação e que sua imagem,
ainda que desfigurada, está presente
em todos os seres humanos. Todavia,
as alternativas de um mundo sem fé
e sem cristianismo podem se tornar
aterrorizantes. Basta lembrar que os
homens mais cruéis, desumanos e
sanguinários do século 20 — indivíduos
como Josef Stálin, Adolf Hitler, Mao
Tsé Tung e Pol Pot — além de não
serem cristãos, eram inimigos do
cristianismo. Mesmo sem apelar para
casos extremos como esses, está claro
que o crescente secularismo que avassala
o mundo, com sua relativização do
significado e da importância da vida,
representa uma grande ameaça para o
futuro da humanidade.
Conclusão
Depois de afirmar todas essas realidades
em defesa do cristianismo, destacando
os elementos construtivos de sua
herança milenar, é preciso acrescentar
que os cristãos não têm motivos para
se entregar ao ufanismo triunfalista.
O cenário cristão contemporâneo tem
dificuldades que deveriam produzir em
seus fiéis um forte senso de humildade e
contrição. As rivalidades, incoerências,
mediocridades, extremismos e outras
distorções existentes em muitas igrejas
e grupos cristãos são amiúde as causas
da atitude beligerante mencionada no
início deste artigo. Daí a necessidade
de se fazer uma distinção entre as
estruturas de poder, as instituições
humanas, a religiosidade meramente
nominal e cultural, e o cristianismo
genuíno ensinado por Cristo e
seus apóstolos, exemplificado pelos
elementos positivos da trajetória cristã.
Somente se os cristãos retornarem
continuamente aos fundamentos
de sua fé, eles poderão continuar a
proporcionar ao mundo e à sociedade os
mesmos benefícios oferecidos por seus
antecessores.
Alderi Souza de Matos é doutor em história da igreja pela
Universidade de Boston e historiador oficial da Igreja
Presbiteriana do Brasil. É autor de A Caminhada Cristã na
História e Os Pioneiros Presbiterianos do Brasil.
<asdm@mackenzie.com.br>
Setembro-Outubro, 2008 ULTIMATO 45 uultimato ltimato 314.indd 314.indd 4545 33/9/2008 /9/2008
Setembro-Outubro, 2008
ULTIMATO
45
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
4545
33/9/2008
/9/2008

118:51:38

8:51:38

ENTREVISTA Erni Walter Seibert
ENTREVISTA Erni Walter Seibert
ENTREVISTA Erni Walter Seibert
ENTREVISTA Erni Walter Seibert
ENTREVISTA Erni Walter Seibert
ENTREVISTA Erni Walter Seibert
ENTREVISTA Erni Walter Seibert
ENTREVISTA Erni Walter Seibert
ENTREVISTA Erni Walter Seibert
ENTREVISTA Erni Walter Seibert
ENTREVISTA Erni Walter Seibert
ENTREVISTA Erni Walter Seibert
ENTREVISTA Erni Walter Seibert
ENTREVISTA Erni Walter Seibert
ENTREVISTA Erni Walter Seibert
ENTREVISTA Erni Walter Seibert
ENTREVISTA Erni Walter Seibert
ENTREVISTA Erni Walter Seibert
ENTREVISTA Erni Walter Seibert
ENTREVISTA Erni Walter Seibert
ENTREVISTA Erni Walter Seibert
ENTREVISTA Erni Walter Seibert
ENTREVISTA Erni Walter Seibert

ENTREVISTA Erni Walter Seibert

Best-sellers são substituídos e esquecidos, mas a Bíblia permanece sempre no topo Em 2007, foram distribuídas
Best-sellers são substituídos e esquecidos,
mas a Bíblia permanece sempre no topo
Em 2007, foram distribuídas no Brasil mais de 5 milhões de Bíblias.
O desafi o é fazer com que a Bíblia seja o livro mais lido, amado e seguido.
P oucos dias antes de completar 21
anos e menos de um mês antes
de se casar, o gaúcho Erni Walter
Seibert graduou-se em teologia no
Seminário Concórdia. Nascido de
uma família luterana e batizado na
infância, Erni Walter teve o raro
privilégio de participar do chamado
culto doméstico, quando toda a
família se reúne para ler a Bíblia e
orar. Mestre em teologia e doutor em
ciência da religião, o atual Secretário
de Comunicação e Ação Social da
Sociedade Bíblica do Brasil já foi
pastor de igrejas luteranas, professor
de teologia, vice-presidente da Igreja
Evangélica Luterana no Brasil e
presidente da Associação de Editores
Cristãos (AsEC).
Quando era
seminarista
em Porto
Alegre, para
sustentar
seus estudos, Erni Seibert, hoje com 56
anos e pai de quatro filhos, trabalhou
como servente de pedreiro e jardineiro.
Esta entrevista é feita a propósito do
60º aniversário da SBB.
distribuição de Bíblias de toda a sua
história. O desafio constante é fazer
com que essas Bíblias sejam lidas,
estudadas e tenham o devido efeito na
vida das pessoas.
Há mais de 180 anos, quando o
Brasil tinha acabado de proclamar
sua independência de Portugal,
o secretário-geral da Sociedade
Bíblica Americana dizia que “os
povos que vivem na América do Sul
estão preparados para receber não
centenas ou milhares de Escrituras,
mas milhões de exemplares”. Essa
previsão se cumpriu?
Na história da Bíblia no Brasil
houve acentuados recuos, tanto da
parte de católicos como da parte
de protestantes. Estes acusavam
os católicos de publicarem Bíblias
com notas culturais e teológicas e
aqueles acusavam os protestantes
de colocarem à venda Bíblias
falsas, por não incluírem os livros
apócrifos. O que o senhor diz?
Erni Seibert — Há 180 anos ninguém
poderia imaginar que a produção de
Bíblias alcançaria as cifras atuais. No
mês de agosto, recebi a estatística oficial
de distribuição de Bíblias no mundo das
Sociedades Bíblicas Unidas, referente
ao ano de 2007. A distribuição mundial
subiu cerca de 5% em relação ao ano de
2006. Em 2007, as Sociedades Bíblicas
Unidas distribuíram 26.996.323
exemplares de Bíblias completas. Deste
total, 11.383.264 foram distribuídos
na região das Américas. A Sociedade
Bíblica do Brasil foi responsável por
distribuir, no ano passado, 5.161.811
exemplares no Brasil. Se pensarmos
na distribuição mundial de Bíblias
e na distribuição da população
mundial pelos continentes, muito
ainda precisa ser feito. No Brasil,
estamos vivendo o período de maior
Erni Seibert — A distribuição de Bíblias
no Brasil teve capítulos difíceis, como
também aconteceu em outras partes do
mundo. A leitura da Bíblia não recebia,
por parte da Igreja Católica, muito
incentivo. A distribuição de Bíblias
era pequena. Quando os evangélicos
começaram a distribuir a Bíblia, houve
vários incidentes. O problema não
era a Bíblia propriamente dita, mas as
acusações que se faziam mutuamente. A
questão do cânone, por exemplo, elucida
muito. Não são os livros apócrifos ou
deuterocanônicos que estabelecem as
diferenças entre católicos e evangélicos.
A diferença está especialmente na
interpretação de passagens dos livros
presentes em ambas as versões do cânone
bíblico. O desconhecimento do conteúdo
desses livros não é muito diferente entre
a maioria dos católicos e a maioria dos
46
ULTIMATO
Setembro-Outubro, 2008
uultimato
ltimato 314.indd
314.indd
4646
33/9/2008
/9/2008
118:52:03
8:52:03
Sociedade Bíblica do Brasil - SBB
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o
 

evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o diálogo sério sobre o texto bíblico certamente

A SBB inaugurou o barco Luz na

Erni Seibert — A região amazônica

a Palavra de Deus, mas vêem o amor de Deus em ação através dos projetos sociais ali desenvolvidos. Esta é uma região de nosso país que precisa receber

Até 1990, havia mais evangélicos

distribuição da Palavra fez com que as igrejas crescessem. Mas a explicação não pára aí. Acima de tudo, a bênção de Deus se fez presente.

 

pode ajudar muito, tanto evangélicos como católicos, no entendimento e na aproximação da Palavra de Deus.

Amazônia III em 1994, quase 140 anos depois da famosa viagem do barco Tabatinga, que levou o representante da Sociedade Bíblica Americana e um carregamento de 2.500 exemplares das Escrituras até

ainda mais atenção no que diz respeito à distribuição da Palavra de Deus. As condições de distribuição são difíceis e caras e precisam do apoio de cristãos de outras partes.

do que Bíblias no Brasil. De 2000 para cá há mais Bíblias do que evangélicos. Qual foi o fato novo que reverteu o quadro?

Com 60 anos de história, a SBB já publicou mais de 60 milhões de Bíblias completas, em português e em outros dezesseis idiomas. Há algum outro livro de tiragem igual ou maior?

Erni Seibert — Não conheço outro livro que alcance os números da Bíblia. Mesmo os autores best-sellers não atingem cifras idênticas. E best-sellers não se mantêm nessa condição por

A SBB é mesmo o maior centro

Iquito, no Peru. Há alguma relação entre um evento e outro?

sempre mereceu atenção especial

Erni Seibert — Estima-se que a distribuição total de Bíblias no Brasil (incluindo todas as editoras que publicam o texto sagrado) seja

muitos anos. São substituídos e, muitos deles, esquecidos. A Bíblia é um caso único na história do livro. Por vezes se fala que o mesmo papel exercido

das Sociedades Bíblicas. Tanto a

de aproximadamente 8 milhões de

pela Bíblia no cristianismo é exercido

Sociedade Bíblica Americana como a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira desenvolveram programas de distribuição de Bíblias naquela região já no século 19. O programa Luz na Amazônia começou em 1962. Na época, o Rev. Luiz Antonio Giraldi fez uma visita à região e perguntou o que a Sociedade Bíblica do Brasil (organizada em 1948) poderia fazer para ajudar na distribuição de Bíblias. A resposta foi que na região amazônica era extremamente necessário um barco que levasse a Bíblia às populações ribeirinhas. Assim, foi comprado o primeiro barco. Hoje, o programa Luz na Amazônia,

exemplares ao ano. Isso significa que a cada cinco anos é possível colocar uma Bíblia ao alcance de cada família. Este quadro de ampla distribuição da Bíblia começou a acontecer quando o custo das Bíblias diminuiu. Sem dúvida, a Gráfica da Bíblia, da Sociedade Bíblica do Brasil, influenciou diretamente essa questão. Com a existência dessa gráfica, Bíblias de boa qualidade gráfica e com preços acessíveis se tornaram comuns no Brasil. Mas esta é apenas uma explicação parcial do que ocorreu. Devemos lembrar também que, nesse período, muitas igrejas empreenderam enormes esforços evangelísticos,

por outros livros sagrados em outras religiões. Na verdade, não há outro livro que em outra religião desempenhe o mesmo papel que a Bíblia desempenha para a fé cristã. Ela é o texto básico da fé cristã e é um livro que nasceu para ser traduzido para todas as línguas existentes sobre a face da terra. A intenção manifesta de Deus, na própria Bíblia Sagrada, é que a sua Palavra alcance todas as línguas e nações. Isso explica, ao menos em parte, a razão pela qual a Bíblia é um livro tão difundido.

produtor de Bíblias do mundo?

além de levar a Bíblia, desenvolve um importante trabalho social na região. As pessoas não apenas são assistidas com

distribuindo Bíblias ao povo, levando a Palavra de Deus às pessoas, com o apoio dos meios de comunicação. A rica

Erni Seibert — Sim. A Gráfica da Bíblia, da SBB, desde a sua inauguração em 1995, já produziu

 
 

O Brasil é o país do mundo onde hoje mais Bíblias são distribuídas. Com o Ano da Bíblia se pretende não apenas chamar a atenção da opinião pública sobre o valor da Bíblia, mas também estimular a sua leitura

 
 
 

ltimato 314.indd

uultimato

314.indd

4747

Setembro-Outubro, 2008

ULTIMATO

47

33/9/2008

/9/2008

118:52:23

8:52:23

evangélicos. Por isso mesmo, as acusações recíprocas nem sempre têm fundamento. Em vez de acusações, o