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Autobiogratia ¢ invencio de 259 AUTOBIOGRAFIA E INVENGAO DE SI Cora Coralina declara, no predmbulo dos seus livros ou em depoimentos acerca do processo de criagdo, que escrever significa elaborar literariamente experiéncias vividas. Sua obra foi construida depois dos sessenta e cinco anos de idade, quando passou a morar sozinha na Casa Velha da Ponte, dedicando-se a uma intensa e permanente relagao consigo, na qual a escrita foi um instrumento fundamental. Pretendo investigar a prdtica autobiogréfica enquanto uma “técnica de si", na acepgo de Michel Foucault, por meio da qual o sujeito vai constituindo-se na relagdo que tem com ele mesmo, na “reflexéio sobre os modos de vida, sobre as escolhas da existéncia, sobre o modo de regular a sua conduta, de se fixar a si mesmo fins @ meios”, a partit de um profundo trabalho de auto-conhecimento. A invengdo de si é, a um s6 tempo, pratica de sujeigso e exercicio de liberdade’, pois significa produzir € reativar para consigo e para com os outros as verdades das quais se tem necessidade * FOUCAULT, Michel. (1997), "1980-1981 — Subjetividade e verdade’, in Resumo dos cursos do College de France (1970-1982). Rio de Janeiro, Jorge Zahar, p. 112. "Em primeiro lugar, eu penso efetivamente que ndo ha sujeito soberano, fundador, uma forma Universal de sujeito que Se poderia reencontrar em todo lugar. Eu sou muito cético e muito hostil em relagao a esta conoepedo de sujaito. Eu penso, a0 contrério, que 0 sujeito se constitui através de préticas de sujeicéo, ou se uma forma mais auténoma, através de préticas do liboragao, de liberdade, como na Antiguidade, a parti, em entendido, de um certo nimero de regras, estis, convengées, que se encontra no meio cultural’. FOUCAULT, Michel. (1904), “Une esthétique de existence’, in Dits ef écrts 1V (1980-1988). Pans, Galimard, p. 733 Autobiografia e invencdo de si 260 Neste processo, a escrita constitui-se em pratica de si, gesto de “mostrar-s , dar-se a ver, fazer aparecer o rosto préprio junto ao outro” e, simultaneamente, exercicio do olhar sobre si proprio, A narrativa do individuo, que se debruga sobre sua vida num movimento de produgao de subjetividade, atua na transformagao de discursos de verdade em praticas de existéncia, ou de governo de si por si, na ‘elaboragéo dos discursos recebidos e reconhecidos como verdadeiros em principios racionais de agéo™ desejo de Cora Coralina de esmiugar-se, entretanto, nao se limitou & literatura; também em indmeras entrevistas ela entrelaca o presente, o passado e © futuro para contar sua vida, inscrevendo sua biografia como pega fundamental de recepgéo da sua obra e um dos alicerces que instaura o processo de monumentalizacao, Nao se trata de poemas autobiograficos esparsos ou relatos factuais acidentais, mas sim de um minucioso trabalho de enquadramento da meméria para imprimir determinada verso acerca da sua propria vida. A escrita e a verbosidade aliadas ao rememorar incessante constituem estratégias de construgéo de si’, profundamente influenciadas por discursos e praticas do presente. Para historiar a si mesma, a poeta criou um modo singular de produgo de memérias no qual a autobiografia literdria esté amalgamada com depoimentos orais gravados e transcritos em jornais e revistas ou filmados para emissoras de televisao. Para instituir e fixar os marcos da sua biografia, Cora repete de forma recorrente um niicleo de lembrangas, ao reproduzir oralmente o enredo de um conjunto de poemas. Nesse processo, que Michel Pollak chama de “solidificagao § FOUCAULT, Michel. (1992), "A escrita de si’ in O que & um autor? Portugal, Vega, p. 150. 4 FOUCAULT, Michel. (1892), op. cit., p. 134 * © poder das palavras na construgao de si é enfatizado por Margareth Rago, 20 produzir 2 biografia da anarquista Luce Fabbri, e inspira a refiexo acerca do trabalho de meména operado or Cora Coralina: “é possivel dizer que @ principal arma de luta com que Luce opera é a palavra, sobretudo @ palavra escrita pensada e praticada como exercicio da liberdade. A palavra permite- she estabelecer pontes com 0 mundo e projetar-se no espaco pilblico (..); ou entao, permmite-Ihe suavizar a dor, nos momentos tragioos de ruptura’. RAGO, Margareth. (2001), Entre a histéria @ @ Jiverdade, Luce Fabbri e 0 anarquismo contemporaneo. Sao Paulo, Editora UNESP, p. 299. Autobiografia e invencao de si 261 da_meméria’, entretecendo a vivéncia do presente e o rememorar do passado aos espacos da ela configura as narrativas constituintes da sua identidade* cidade de Goids: a infancia, a adolescéncia e a velhice emergem como tempos biograficos fundamentais para dar sentido e significados a trajetéria construida a partir da identificagao entre 0 poetar e o viver, entre a matéria literaria e 0 curso da vida A poeta concebe e narra a vida como uma historia, um caminho, um trajeto linear, que tem comego, etapas e fim - “no duplo sentido, de término e de finalidade’, assumindo assim o pressuposto basico da ilusao biografica, apontada por Pierre Bordieu, fundamentada na crenga “de que a vida constitu! um todo, um conjunto coerente € orientado, que pode e deve ser apreendido como expresso unitéria de uma “intengao" subjetiva e objetiva, de um projeto” Na origem da sua vida, compreendida enquanto principio na acep¢ao de inicio mas também de causa primaria ou razao de ser, Cora estabelece o sentido da sua existéncia como designio: Nasci para escrever, mas, 0 meio, 0 tempo, as criaturas e fatores outros, contramarcaram minha vida. (Cora Coralina, quem é vocé?, MLC, p. 73-76) ‘Alguns perguntam pela minha vida, embriao primédrio, de como veio e se encontrou comigo a poesia, a presenga primeira do meu verso, eu respondo: Ela cascateia hd milénios, Minha Poesia ... Jd era viva e eu, sequer nascida. Veio escorrendo num veio longinquo de cascalho. De pedra foi meu berco. De pedras tém sido meus caminhos, Meus versos' © “aqui o sentimento de identidade esta sendo tomado no seu sentido mais superficial, mas que nos basta no momento, que 6 0 sentido da imagem de si, para si @ para os outros. Isto é. @ imagem que uma pessoa adquire ao longo da vida referente a ela propria, a imagem que ela constréi do passado e apresenta aos outros e a si propria para acreditar na sua represemtago, mas também para ser percebide de maneira como quer ser percebide pelos outros’. POLAK Michel, (1992), "Meméria e identidade social”. Estudos Histéricos. Rio de Janeiro, vol. §. n° 10, p 204. * BORDIEU, Piere. (1996), “A ilusdo biografica’, in FERREIRA, Marieta de Moraes @ AMADO, danaina (org,), Usos @ abusos da Histénia Oral, Rio de Janeiro, Editora da Fundagao Gettilio Vargas, p. 184. Autobiografia e invengéo de si 262 pedras quebradas no rolar e bater de tantas pedras. (Mae Didi, MLC, p. 93-94) Os versos “Nasci para escrever’ e “Minha Poesia ... Jé era viva e eu, sequer nascida” configuram o poetar amalgamado com a vida. A poesia tecida com as pedras que encontrou na origem e nos caminhos, ou seja, com a matéria dolorosa da propria vida, é anunciada por Cora em poemas-prefacios nos trés livros que organizou, e enfatizada em inimeros depoimentos como a marca fundamental da sua produgao literaria. Na narrativa autobiogréfica, a poeta organiza suas experiéncia de modo a atribuir significados para 0 passado, presente e futuro. Ela define o presente como “o melhor tempo” da sua vida, exatamente porque configura a execugdo do projeto de escrita, estabelecido desde sempre mas adiado até a velhice pela trama do passado, moldado enquanto coergao, negagao e limitagao do que ela enuncia como “impulso incontrolével” ou “tendéncia inata” para escrever’ Para encadear presente e passado, quando Ihe pedem um resumo biogréfico ou Ihe propéem delinear a trajetéria de escritora, Cora narra o retorno para a cidade de Goids enquanto ruptura com os “fafores” que “contramarcaram” sua vida e como marco inaugural da efetivagao do designio. Esse acontecimento- chave é construido de maneira singular e com elementos invaridveis, dai a importancia de ouvi-lo mais de uma vez, atentando para as estratégias narrativas. “Nasci e me criei em Goids Velho, até que me casei. Nasci no século passado, casei-me em 1910 @ um ano depois deixei Golds e fui para Sao Paulo com meu marido, que nao era goiano. No Estado de Sao Paulo vivi 45 anos da minha vida, encaixada e sem voltar a minha terra. Sé voltei a Golds em 1956. Em So Paulo tenho quatro fihos, quinze netos e quinze bisnetos e tem 21 anos que voltei a minha terra, que sempre esteve presente ao meu emocional. Nunca me apaulistei, nunca deixei de ser mulher goiana e mais que tudo, mulher sertaneja, com todas as marcas de uma mulher sertaneja que me orgulho. Depois de ter dado 45 anos da minha vida aos filhos, eu quis viver longe deles. (...) Em Goiés, vamos dizer assim, abriram-se as portas do pensamento € escrevi o primeiro livro publicado”.* Sai daqui [Cidade de Goids] no 25 de novembro de 1911 e voltei em 22 de margo de 1956. Deixei filhos, nora, genros, netos e bisnetos. A forca da ® “Cora Coraiina, quem € vooé?", MLC, p. 73-76. ° Cora Coralina, in “Eis uma goiana’. José. Brasilia, 13 a 19 de agosto de 1977. Autobiografia ¢ invencdo de si 263 terra [pausa], das raizes que me chamavam eram mais fortes e sobreps a todos esses afetos familiares. Quando eu voltei, ndo tinha intengao de permanecer, tinha intenoéo de matar saudades velhas e carregar saudades novas. Mas fui ficando, fui ficando e enfim considerei que o melhor lugar para eu viver era a minha velha terra, A primeira mensagem minha foi 0 C&ntico da Volta, que eu escrevi e mandei publicar num folhetinho. (...) Foi uma espécie de ligagdo com a minha gente. (...) E dai, entao, foi se abrindo dentro de mim. como se fivesse um pordozinho dentro, e as coisas foram saltando de dentro, as Tecordagées, as lembrangas, aquelas velhas figuras, velha paisagem, velhos costumes, tudo isto foi saindo de mim e eu comecei a escrever 0 primeiro livro."° © retomo para a cidade de Goids é instituido como desencadeador da escrita da meméria, instaurando o tempo presente em que vivia a poeta Significativamente, ela indica o ano da partida, 1911, e 0 ano da volta, 1956, enfatizando que passara quarenta ¢ cinco anos sem regressar a terra natal e, algumas vezes, citando inclusive as datas completas ou 0 numero de anos decorridos desde o retorno. Aos 67 anos, vitiva hé vinte e dois anos, Cora deixa filhos e netos no estado de S40 Paulo, regressa para Golds e passa a morar sozinha na Casa Velha da Ponte. A poeta constréi uma interpretacéo para esse acontecimento- chave, proclamando-o como encerramento de um ciclo vital que se iniciou com 0 casamento, em 1910, e foi plenamente configurado na maternidade: “depois de ter dado 45 anos da minha vida aos filhos, eu quis viver longe deles”. Em outro depoimento, ela retoma a explicagao acerca da deciséo de atastar-se dos filhos: “Eu j4 tinha cumprido 0 meu dever de casa. Meus filhos estavam criados, parti para viver minha vida”". © periodo vivido em Sé0 Paulo, de dedicagao aos filhos e de rentincia da escrita, é contraposto ao retorno a Goids para viver @ propria vida ou ocupar-se de si mesma, o que significava, primordialmente, cumprir seu destino de literata A velhice € concebida como tempo de reinvengao da trajetoria e considerada como “libertagao” * Cora Coralina, in “Cora Coralina ~ Especial Literatura, n° 14, 29/01/85", TVE. Arquivo Audiovisual dp Museu Casa de Cora Coralina, ™ Cora Coralina, in "Qual a receita, Dona Cora? ‘Muito trabalho, minha filha”. Revista Claudia, dezembro de 1983. Autobiografia e invencao de si 264 Hoje meus filhos moram todos em Sao Paulo e eu aqui. Nem eu tenho vontade de ir para perto deles, nem tenho vontade que eles venham para perto de mim, Porque acho bom assim, NAo quero mais limitacdo na minha vida. Fui limitada na primeira infancia, fui limitada de menina, fui limitada de adolescente, fui limitada de casada e no quero ser limitada depois de velha, Hoje, nao me sinto livre, me sinto liberta. No quero mais limitagao na minha vida, Nao ha nada que vatha para mim a minha libertagao."” Tanto a infancia e a adolescéncia quanto o casamento e a maternidade s&0 conformados como “imitago”. Em outros depoimentos, ela volta a indicar os ‘fatores” que “contramarcaram" sua vida, insistindo em colocar lado @ lado as coergbes € constrangimentos impostos pela familia e pelo marido: “Eu eva comprimida no meu impeto natural, o meio, a formagao. Mais tarde, o marido”* No entanto, quando transforma o passado em matéria literaria, Cora trata estes periodos a partir de diferentes estratégias de produgdo de memérias. Nas composig6es poéticas que engendram a trama de uma vida, a infancia e a adolescéncia sao temas recorrentes, construidas por meio de lembrancas solidificadas pelo discurso oral, enquanto que o casamento constitui uma auséncia ea maternidade raramente 6 poetizada. A profusdo de lembrangas associadas a Casa Velha da Ponte ¢ a cidade de Goids se contrapde ao siléncio produzide em torno do marido e do casamento, denotando a dificuldade de conviver com determinadas recordagdes do passado e a impossibilidade de ressignificé-las. Embora algumas cidades onde morou em Sao Paulo sejam matéria poética, os quarenta e cinco anos vividos longe de Golds nao sao objetos da meméria autobiogréfica. Nos depoimentos, a poeta ndo cessa de estabelecer os estreitos vinculos entre a sua escrita e a cidade de Goids: “na minha obra, estou muito voltada para 0 passado da minha cidade, 0 meu meio familiar e social, 0 meio humano. Minha cidade que, apesar de pequena, sem grandes concentraces culturais, contém um mundo de recordagées, que se prendem & minha infancia e adolescéncia € que retrato nos meus livros. Sé alguma coisa de S80 Paulo, apesar da grande saga que o Estado oferece, A minha forga tribal, as minhas raizes, estéo na minha cidade de Goids”*. Cora Coralina, in “Cora Coralina, conta um pouco tua histéria”, MULHERIO, julho de 1983, p. 8. {2 Cora Coralina, in “Eis uma goiana’. José. Brasilia, 13 a 19 de agosto de 1977. “Cora Coralina, in “A Velha Rapsoda’, Folha de Séo Paulo. S80 Paulo, 10 de junho de 1984 Autobiografia e invengiio de si 265 Cora enfatiza “nunca me apaulistei’, construindo a idéia de que o distanciamento nao significou esquecimento ou auséncia porque, ao contrario, foram anos em que ela afirma ter convivide com lembrangas e acumulado “coisas da minha terra” pela pratica da meméria. “Ougamos" suas palavras, atentando para a repetigéo do mesmo padrdo, visto anteriormente, para se referir a partida e ao retorno, acrescide das referéncias ao processo continuo do rememorar Porque tudo o que eu escrevi e tenho publicado foi depois da minha volta para Goias e quando eu voltei eu era maior de cabelos brancos, passei 45 anos da minha vide no estado de Séo Paulo. Sai cheia de vida, a face brilhante, os olhos de paz, os cabelos lisos, negros. E quando voltei, vinha vestida j4 da média dos anos, mas trazia dentro de mim uma soma, um depésito, um repositério enorme, de coisas da minha terra e alguma coisa muito pouca de fora, porque eu nunca me apaulistei e nunca me ausentei A minha ida para Sao Paulo em 1911 demorou 16 dias, 14 dias a cavalo de Goids a Araguari, dois dias de trem de Araguari a Sao Paulo e a minha volta demorou 45 anos. E quando eu ia, eu jé voltava, eu jé voltava, minha filha, nas patas do caranguejo, um passo para frente, dois para trés, um passo para a frente, dois para tras, E a volta demorou 45 anos."* “Quando eu ia, eu jé voltava” afirma a poeta para delinear 0 pericdo vivido em S80 Paulo como doloroso exilio": afastamento da “forga tribal”, ruptura com suas ‘ralzes’, desterritorializagao, convertido em lacuna da meméria, pois importa apenas que “a volta demorou quarenta e cinco anos’. Entrevemos, portanto, 0 quanto a producao autobiografica é seletiva, elaborada por meio de um complexo processo de gestao da memoria, onde determinadas lembrangas sao muitas vezes narradas oralmente e no discurso literario, mantendo contetidos quase invariaveis, enquanto outras sdo zelosamente administradas, apenas eventualmente mencionadas em depoimentos orais, mais como instituigdes reconhecidas socialmente como marcos biograficos femininos — © casamento, a maternidade - do que como enredos construidos de forma autobiografica. Cora joga para a zona do esquecimento quarenta e cinco anos de sua vida, afirmando que nao constituem matéria da memoria. Ou seja, 0 passado * Cora Coralina, in Debate com Cora Coralina. Sesstio da Academia Feminina de Letras e Artes e Aftes de Goids, ia 10 de junno de 1980. Arquivo da AFLAG, fitan? 50 © Conforme Parizard Dejbord, “se tem observado uma gradual ampliagao do campo semntico do termo exilio. (..) Jé no remete, exctusivamente, a expulsdes forcadas de natureza politica sendo que pode descrever deslocamentos sociais gerados por razbes culturais ou econémicas. (..) ser Autobiografia e invencio de si 266 € enquadrado pela meméria solidificada, de modo a circunscrever determinados periodos reconstruides minuciosamente como fundamentos da trajetoria de vida, ao mesmo tempo que outros acontecimentos, personagens e lugares so alijados da biografia Alistair Thomson auxilia na compreensao deste proceso, ao afirmar que a partir da identidade atual ~ da nossa percepgao de quem somos no momento e do que queremos ser, “compomos nossas reminiscéncias para dar sentido @ nossa vida passada e presente’. Para refietir a respeito dos mecanismos de produgao da memoria, devemos atentar para os miltiplos significados do verbo “compor”: formar ou construir de diferentes partes ou de varias partes; produzir, inventar (escrevendo, pintando, esculpindo, etc.); colocar ou dispor em certa ordem ou arranjo; reconciliar, harmonizar'® Aescrita da meméria tanto quanto o relato oral autobiografico constitui um trabalho de invengao de um passado pelo arranjo de miltiplas lembrangas dispersas, que s4o cuidadosamente dispostas numa narrativa que confere sentido 4 trajetéria de vida. Nesse processo de composigao do passado, conforme Thomsom enfatiza, utilizam-se as ‘linguagens e os significados conhecidos de nossa cultura’. Uma segunda acepgao do termo “composigao” abrange um sentido mais psicolégico desse proceso: “a necessidade de compor um passado com 0 qual possamos conviver™. A composigaéo de uma historia para sua vida significou para Cora Coralina um processo de reconciliagdo com o passado, de harmonizacdo da sua trajetoria de vida com o projeto que orientava suas agdes no presente e antevia o futuro desejado™. Confirma-se, assim, que a empresa autobiografica, tal como uusado para apontar a separagso de variada indole’ DEJBORD, Parizard. (Sid), Cristina Part — escritora de! exilo. Buenos Aires, Galera, p. 31 THOMSON, Alistair. (1997), “Recompondo a meméria. questées sobre a relagéo entre histéria gale as memérias’. Projeto Histéria. S40 Paulo, n® 15, p. 56. ™ FERRREIRA, Aurélio Buarque de Holanda, (1995), Diciondrio Basico da Lingua Portuguesa. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira. THOMSON, Alistair. (1997), op. cit, p. 87. ® VELHO, Gilberto. (1994), Projeto e Metamorfose. Antropologia das Sociedades Complexas. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed.: (1999), individualismo e Cultura, Notas para uma antropologia da sociedad contemporéinea. Rio de Janeiro, Jorge Zanar Ed, Autobiografia e invengio de si 267 define um dos tedricos pioneiros, Georges Gusdorf", é uma obra de justificagao pessoal onde a construgao de uma identidade através do tempo pretende a reconstituicao e deciframento de uma vida em seu conjunto. Na produgao da imagem publica que a singulariza como poetisa, as reminiscéncias escolhidas para compor o passado revelam que o trabalho de enquadramento da meméria busca conformar sua trajetéria de vida aos cédigos sociais usualmente aceitos na sociedade em que vivia: 0 auto-retrato na infancia é dolorosamente tracado pelas lembrangas das relacbes familiares e sociais: a adolescéncia, mesmo sendo o tempo dos ‘primeiros escritinhos”, € remorada a partir de um enredo compartilhado como destino de género socialmente construido* - “sonho honesto de um noivo / 0 desejo de filhos, / presenga de homem, casa da gente mesma, dona ser. Um lar. / Estado de casada"®: a velhice € tempo de reinvencao da propria vida depois de haver cumprido os deveres da maternidade. Quando rememora o periodo posterior & adolescéncia, Cora altera as estratégias narrativas e no constréi enredos autobiogréficos, optando por resumir sua hist6ria de vida, recorrendo a cronologia para estabelecer os marcos de uma verso que corresponde aos desejos anunciados: 0 casamento, a mudanga para S40 Paulo, a maternidade, o regresso. Silenciando ou ressignificando, assim, os acontecimentos dolorosos que talvez considerasse ameacadores para a memoria que queria fixar e, por extensao, para a identidade que lutava por conquistar. Esse passado que permanece mudo é fundamental para a anélise da construgéo autoblografica, pois denota as fraturas na meméria, encobrindo passagens da vida para as quais no se pode reinventar ou comunicar o ® GUSDORF, Georges. (1991), "Condiciones y limites de la autobiografia’. Suplementos Anihropos. Barcelona, n® 29: 9-18 * 0 gnero é um dos dispositivos de “governo™ dos individues, entendido na acepoéc foucaultiana como um conjunto ampio de técnicas © procedimenios destinados a dirigir homens e mulheres: tanto através de praticas de disciplinarzago que procuram, com técnicas e procedimentos diversos de normatizagao, produzir 0 sujeito, quanto através das praticas do governo de si por 81 de controle e de exercicio de si sobre si, FOUCAULT, Michel. (1994), "A propos de la généalogie de Péthique: un apercu du travail en cours’, in Dits et éents IV (1960-1968), op. cit, p. 383-411 (1997), *1979-1980 - Do governos dos vivos’, in op. cit. p. 99-106. * Moinho do Tempo, VC, p. 42-46. Autobiografia e invencio de si 268 passado™, sob pena de estilhagar a coeréncia da personagem inventada para si Miche! Pollak", ao pesquisar as estratégias da memérias de pessoas cujo passado foi marcado por miltiplas rupturas e traumatismos, afirma que, diferente do esquecimento, o siléncio sobre si proprio pode constituir uma gestéo do indizivel ou, em outras palavras, um trabalho de administragdo da meméria segundo as possibilidades de comunicagao neste ou naquele momento da vida Para nossa investigagao interessa que esquecer, esconder, silenciar ‘so mecanismos da inveng&o de si, promovida por Cora Coralina’*, tanto quanto a profusdo discursiva que produz um passado e cria uma historia de vida que é pega fundamental do processo de monumentalizagao. A vvelhice é vivenciada pela poeta enquanto reinvengao da propria vida, como “tempo da meméria”. mas num sentido diferente daquele atribuido por Noberto Bobbio quando afirma que o mundo do velho 6 0 mundo da memoria porque “a dimenséo na qual o velho vive 6 0 passado. (...) O tempo do futuro é para ele breve demais para dedicar seus pensamentos aquilo que esta por vir"™. Para Cora Coralina, 0 uso da meméria como mecanismo para construgao de uma identidade e para a execugao de um projeto constitu uma estratégia criada para se relacionar com o presente e projetar o futuro. A experiéncia singular da velhice, morando sozinha na Casa Velha da Ponte, dedicando-se ao oficio de doceira como meio de sobrevivéncia e, ao mesmo tempo, a produgdo literaria, € objeto de recorrentes discursos, nos quais ela repete expressées e frases como estratagema de fixacdo de um auto-retrato: Minha menina, vocé esta em frente a uma mulher feliz. Tome bem nota toda pessoa pode ser feliz, sentindo a vida, acreditando nos valores humanos, acreditando em si. Felicidade € um estado de espirito interior, apresentando-se em uma expressao muito real - dever cumprido. A pessoa 8 pode ter paz interior, se na verdade cumpriu seu dever, podendo até * SHWARZSTEIN, Dora, (2001), “Histéria Orel, meméria e historias traumaticas”. Histéria Oral $80 Paulo, n® 4: 73:83 ® POLAK, Michael, (1986), “La gestion de lindicible". Actes de /a recherche en sciences sociales, i? 62/63: 30-53. * Conforme Pollak, ‘os modos de construgdo da memeria podem tanto ser conscientes quanto inoonscientes. O que 2 meméria individual grava, recalca, exclui, relembra, 6 evidentemente o resultado de um verdadeiro trabalho de organizagSo”. POLAK Michael. (1992), op. cit, p. 204 *" BOBBIO, Norberto. (1997), O Tempo de Meméra’ de Senecture © outros escritos autobiograficos, Rio de Janeiro, Campus, p. 20. Autobiografia e invencdio de si 269 excedé-lo, porque & sempre possivel. (..) Na minha idade aprende-se todas as filosofias sem ter estudado nenhuma delas. A vida ensina todas."* Nasci nesta velha casa, nesta velha cidade de Golds ¢ nasci no século passado. Tenho comigo todas as idades. E estou vivendo 0 melhor tempo da minha vida, Tempo de paz, tempo de tranghilidade, tempo de certezas, tempo em que nao tenho nada e nada me falta.* Estou vivendo o melhor tempo da minha vida, gragas a coragem de dizer minhas verdades e de atribuir 4 vida o que ha de melhor. Compreensao e ‘otimismo so as palavras chaves para se viver bem e eu consegui chegar a isso. (...) O presente € incomparaveimente melhor que o passado, assim como também o € 0 futuro em relacdo ao presente.” Estou_vivendo o melhor tempo da minha vida. Tempo de paz Tranquilidade, confianga plena, seguranga. A vida me ensinou a compreender 0 passado e o presente, e a me projetar no futuro. Acredito no futuro porque © progresso € uma coisa que se faz todos os dias.’ Esses discursos séo fundamentais para a construgéo da Mulher- Monumento que prociama ter consigo todas as idades e ter aprendido com a vida todas as filosofias e alcangado a compreensao do passado, do presente e do futuro. Realizacao, trabalho, otimismo, felicidade, coragem, compreensao, confianga, paz, tranqtilidade configuram o “melhor tempo da vida’. A identidade, intimamente relacionada com 0 projeto de escrita da meméria, foi gestada a partir do campo de possibilidades em que Cora estava inserida. Tal como afirma Gilberto Velho, “o projeto é o instrumento basico de negociacéo da realidade com outros atores, individuos ou coletivos. Assim ele existe fundamentalmente como meio de comunicagéo, como maneira de expressar, articular interesses, objetivos, sentimentos, aspiragdes para o mundo. (..) A identidade, por conseguinte, depende dessa relagéo do projeto do seu sujeito com a sociedade, em um permanente processo interativo", % Cora Coralina, in “Cora Coraiina’. Cidade de Santos. Santos, 17 de outubro de 1982 ® Gora Goralina, in “Gora Goralina ~ Especial Literature’, op. cit ® Cora Coralina, in “Goids em festa, E aniversario de Cora Coralina’. A Folha de Goiaz. Goiania, 20 de agosto de 1982 ® Cora Coralina, in “Qual a receita, Dona Cora? ‘Muito trabalho, minha fina”. Revista Claudia, dezembro de 1983 “VELHO, Gilberto. (1994), “Meméria, identidade © projeto™, in Projeto e metamorfose Antropologia das Sociedades Complexas. Rio de Janeito, Jorge Zahar Ed, p. 103-104. Autobiografia ¢ invengio de si 270 Uma Unica vez nos depoimentos analisados, ao narrar o retoro @ cidade de Goias, Cora revela 0 quanto a negociagao com a sociedade, para a qual optou por regressar e na qual tenta integrar-se, é dificil: E quando eu cheguei nao fui recebida com festas, nem com flores, nem com fogos € nem com miisica, cheguei como uma estrangeira em sua propria terra. (...) A minha chegada me deu um impacto muito violento. Com © passar do tempo, dos dias, dos meses, dos anos, fui me acomodando, me integrando, me identificando com a minha cidade.*> Esse depoimento possibilita vislumbrar 0 quanto 0 exilio foi vivido como uma experiéncia de exclusao™ e como o regresso pode significar reencontrar e conviver com a meméria que os outros construiram acerca da dissidéncia, provocando ‘um impacto muito violento" e a necessidade de novamente “identificar-se", “acomodar-se”, “integrar-se” num processo lento, talvez nunca concluido No “Céntico da Volta’, primeiro texto escrito apés 0 retorno, a poeta configura movimentos de busca do passado pessoal inscrito na cidade: “sombras do passado deslizam pelas ruas estreitas e curtas’, “vou identificando a minha geracao @ encarando de frente e inquirindo de perto os que sabem mais do que eu’. Em um poema, intitulado “Voltei”, Cora desvela o mesmo sentimento Voltei. Ninguém me conhecia. Nem eu conhecia alguém ‘Quarenta e cinco anos decorridos. Procurava 0 passado no presente e lentamente fui me identificando a minha gente. (Vottei, VC, p. 128) Entrevemos um desejo de reconhecimento, termo utilizado por Alistair Thomson para “descrever o processo de afirmacao piiblica de identidades e ® Cora Coralina, in “Cora Coralina ~ Especial Literatura’, op. cit * As implicagdes subjetivas da experiéncia do exilio sao abordadas por Margareth Rago na biografia da miltante anarquista Luce Fabbri. Quando se exila no Urugual, depois de expulsa da ltdlia pelo regime fascista, Luce escreve seu unico livro de poesias, ‘sob 0 impacto do sentimento de fratura, de quebra, de dor da perda da terra natal e de separagao dos amigos e familiares”. Rago analisa sua produc&o poética “enquanto lugar de subjetividade, da imaginacSo e do sonho, de onde emerge sua esoritura como manitestacéo do desejo”. RAGO, Margareth. (2000), Luce Eabbri e a expenéncia do exilo, p. 2.@ 3, respectivamente (dati). No livro "A poesia em Goids", a referéncia ao *Cantico da Volta’ é a seguinte: “Trata-se de duas folhas apenas, em formato 13X24, ndo traz indicago de editora, nem data, mas foi publicado na cidade de Golds, em 1956” TELES, Gilberto Mendonga. (1983), A poesia em Golds. Goidnia, Autobiografia e invencdio de si an reminiscéncias. O reconhecimento 6 essencial para a sobrevivéncia social ¢ emocional; a alienagéo e a exciusdéo como altemativa podem ser algo psicologicamente devastador’. O pasado, ainda nao apaziguado pelo trabalho da memoria, parece guardar ‘passagens ndo resolvidas, arriscadas e dolorosas™* que dificultam a aceitagao a afirmagao social Podemos supor que 0 campo de possibilidades que se esboga para Cora, no seu retorno, conserva constrangimentos ¢ limitagées, diante dos quais a construgao da meméria autobiografica ganha novos contornos, aparecendo como um instrumento fundamental de (re)insergdo social e negociagao da identidade e realizagéo do projeto. Pois, de acordo com Thomson”, nossas reminiscéncias podem ser perigosas, temerdrias e dolorosas se nao estiverem de acordo com as normas sociais ou com as versées legitimadas do passado, ¢ talvez por isso tentemos compé-las de modo a se ajustarem ou se moldarem a aceitagdo publica © espago social em que Cora vive, portanto, é fundamental na investigagao da construgao do projeto autobiografico, no qual a escrita de si se complementa pelo incansavel desejo de rememorar a vida que marcou seus depoimentos orais. Com esta técnica de si®, mais do que transformar o passado em literatura, a poeta promove a transformacao do seu passado pela pratica autobiografica. Presente e passado, literatura e meméria so indissociaveis para Cora Coralina: “O passado prevalece muito mais nas minhas recordagées e na minha temattica, do que o presente. (...) A memoria € muito importante. Ela toda esté no meu livro™, No dia seguinte, em nova segao de uma série de entrevistas, ela espontaneamente retorna ao tema: ‘ndo hd ninguém que ndo faga sua volta ao. Editora da Universidade Federal de Goias, p. 476. Em 2001, reecita-se 0 “Cantico da Volta” GORALINA, Cora. (2001), Vila Boa de Goyaz. So Paulo, Global, p. 105-109 * THOMSOM, Alistair. (1897), op. cit., p. 58. * THOMSON, Alistair. (2001), "Memérias de Anzac: colocando em prética a teoria da meméria opular na Austria". Revista historia Oral S20 Paulo, v. 4: 81-101 “As tcnicas de si permitem aos individuos efetuar, sozinhos ou com auxilio de outros, um certo inimero de operagBes sobre seu corpo e sua alms, seus pensamentos, suas condutas, seu modo de ser, de se transformar a fim de atingir um certo estado de felicidade, de pureza, de sabedoria de perfeigao ou de imortalidade". FOUCAULT, Michel. (1994), “Les techniques de sof", in Dits et onits 1V (1980-1988), op. cit. p. 785. * Cora Coralia, in “Cora contemporénea Coralina’. Jomal de Brasilia. Brasilia, 3 de outubro de 1984 Autobiografia € invencdo de si 272 passado ao escrever. Nés todos fazemos. Nés todos pertencemos um pouco ao passado. Todos nés. Queira ou nao queira. E de uma forma instintiva”™. A poeta, entretanto, reconhece que as razées de voltar-se para o passado devem ser procuradas no presente. Quando questionada a respeito dos motivos que a levam a retratar o periodo da infancia, Cora responde: E uma necessidade poética, uma sensibilidade minha de voltar ao passado para explicar 0 presente. A volta a0 passado é uma tentativa de explicar 0 presente. [buscar] maior compreensao para as coisas do passado que eu naturalmente nao compreendia no tempo em que elas se passavam e nem voce esté compreendendo no seu tempo. Hoje compreendo 0 presente com mais clareza e compreendo o passado com mais clareza. Talvez compreenda melhor 0 passado hoje do que 0 proprio presente.“’ Percebe-se que voltar ao passado para explicar o presente significa inquirir-se a partir de um conjunto de questdes colocadas no momento em que a poeta vive e escreve. A compreensao do passado é também a compreenséo do presente, pois os tempos confluem para a invengdo de si como profecia para o futuro®, Presente e passado também sao evocados pela poeta para justificar 0 titulo do seu livro autobiogréfico, Vintém de Cobre - meias confissées de Aninha: E quanto as “meias confissées de Aninha’, é muito simples compreender: € porque ningueém faz na vida confissées completas! Nem faladas, nem escritas. Nés todos temos medo. Temos trés medos da verdade: temos medo dos vivos, temos medos dos mortos e temos medo de nés mesmos, nos comprometendo com a verdade. De modo que eu, como toda gente, tenho as minhas covardias e s6 fago melas confiss6es, que estao no meu livro.® Mais do que fazer “confissées” do passado, Cora Coralina reconfigura a propria vida nas composigdes poéticas que trabalham a meméria no jogo da Cora Coralina, in “Cora politica Coraline". Jornal de Brasilia. Brasilia, 7 de outubro de 1984. Cora Coralina, in “Depoimentos de Cora Coraiina’. Fase de Prospeccéo do Filme *Cora Doce Goralina’, Goids, 1982 "0 passado € reorganizado em imagens do presente, fazendo com que 0 passado seja algo téo necessario para o presente como 0 presente venha @ ser uma conseqliéncia do primeiro. (..) AS recordagées @ @ realidade presente estabelecem uma relagao continua e reciproca, influenciando- se mutuamente de uma forma constante’. OLNEY, James. (1991), “Algunas verciones de la memoria / Algunas verciones del bios: la ontologia de la autobiogratia’. Suplementos Anthropos. Barcelona, n° 29, p. 37. Cora Coralina, in Programa Vox Popull, TV Cultura de $80 Paulo, sid Autobiografia ¢ invenctio de si 273 linguagem com o tempo, construindo incessantemente sentidos e significados novos, alterando a compreensao do que foi vivido, do tempo presente e do futuro. Aproximamo-nos, assim, da concepgéo de Walter Benjamin que compreende a escrita do rememorar enquanto vivéncia da multiplicidade temporal, instaurada no movimento pelo qual o sujeito, ao narrar-se no tempo, abre a propria vida para reconfiguragées infinitas, tecendo o passado com os fios da lembranga e do esquecimento inscritos na meméria Diante de todas as questées teoricas discutidas, anuncia-se 2 complexidade de estruturar a andlise da construgao autobiografica realizada por Cora Coralina. Nao ha uma narrativa elaborada como conjunto, ¢ necessario compor um mosaico com passagens das entrevistas, as poesias e os fragmentos autobiogréficos que descobri nos “Cadernos” em que a poeta elaborava sua obra Essa singularidade, no entanto, vale para nos afastar das solugdes simples: a op¢ao pela narrativa cronolégica ou a apresentagdo da autobiografia em unidades tematicas apenas reforgaria a “ilusdio biogréfica"* pela imposigao de organizagdo e coeréncia, a priori, para memérias que foram produzidas enquanto fragmentos nos depoimentos, mas que guardam, nas composicées poéticas, uma forma particular de esculpir a vida no tempo que so se revela na andlise da estrutura intema do texto de Cora Coralina. Desejo, entdo, construir um texto abundante em citagdes, justapondo narrativas literdrias e orais para enfatizar a redundancia e buscar as estratégias de construgao da meméria, na tentativa de possibilitar ao leitor acompanhar a textura de significados criados nas poesias ¢ solidificados com a forga do discurso oral Torna-se imprescindivel, também, acolher as memérias desterritorializadas, que no constituiram matéria literdria e, a0 mesmo tempo, vasculhar as poesias @ procura dos vestigios que permitam entrever esquecimentos, lacunas, rasuras que integra o proprio movimento de tessitura das memérias. BENJAMIN, Walter, (1994), "A Imagem de Proust’ in Magia e técnica, arte e politica. Sé0 Paulo, Brasiiense * Cf, BORDIEU, Pierre. (1996), op. cit Autobiogratia ¢ invengao de si 274 Antes de analisar como a poeta inventa a si mesma, ao compor suas reminiscéncias, proponho que nos detenhamos em investigar os mecanismos com 0s quais Cora institui a propria vida como ancoramento da sua producao literaria. Gestos da escrita da memoria Nos quatro livros que Cora Coralina organizou, o ato que instaura a relagéo com 0 leitor guarda caracteristicas semelhantes: poema-prefacio, precedido de pequeno texto, em Poemas dos Becos de Goids ¢ Estorias Mais e Meu Livro de Cordel; poema-prefacio em Vintém de Cobre - meias confissées de Aninha e pequeno texto em Est6rias da Casa Velha da Ponte. Alem de apresentar a obra em termos de seus significados para a autora, esses textos estabelecem a concepgao de literatura da poeta, instituindo a propria vida como chave para decifrar 0 enigma literario Nos predmbulos, Cora propde um modo de leitura ao explicitar 0 “espago biogréfico” a partir do qual deseja que seja lido 0 conjunto de seus livros. Essa forma indireta de pacto biografico, de acordo com Philippe Lejeune, estabelece-se quando o autor convida o leitor a ler seu texto “néo somente como ficgdes que remetem a uma verdade sobre a natureza humana, senéo também como fantasmas reveladores de um individuo™®. Por meio desse ‘pacto fantasmatico’, néo apenas 0 livro autobiogréfico Vintém de Cobre - meias confiss6es de Aninha, mas o conjunto da obra de Cora Coralina é lido a partir de um projeto autobiografico, Nas entrevistas que concede, espaco mididtico fundamental para a recep¢do da sua obra e para a formagao da sua imagem publica, Cora Coralina também tece a singularidade da sua escrita, entremeando a matéria poética com a propria vida, produzindo sentidos e significados, a um s6 tempo, para a literatura para a biografia “© LEJEUNE, Philippe. (1996), Le Pacte autobiographique ~ nouvelle édition augmentée”. Paris, Edition du Seuil Autobiografia ¢ invencfo de si 275 Na primeira pagina do seu livro inaugural, publicado em 1965, Poemas dos Becos de Goiés e Esiérias Mais, ela escreve “Ao Leitor” para anunciar que se propée a “revere assinar os autos do Passado antes que 0 Tempo passe tudo a aso’, dirigindo-se @ “geragéo nova, sempre atenta e enlevada nas estérias, lendas, tradigdes, sociologia e folclore de nossa terra” para quem afirma ter escrito “este livro de estorias™’. Na pagina seguinte, faz uma “Ressalva’ Este livro foi escrito por uma mulher que no tarde da Vida recria © poetiza sua propria Vida. Este livro foi escrito por uma mulher que fez a escalada da Montanha da Vida removendo pedras e plantando flores. Este livro: Versos ... Nao, Poesia ... Nao. um modo diferente de contar velhas estérias. (Ressalva, PBG, p. 41) Cora Coralina convida 0 leitor para encontrar no livro os “autos do Passado” coletivo instituides pela experiéncia daquela que escreve no ‘tarde da vida”. Afirmando a indissociabilidade entre autobiografia e memorialismo, ela considera que a escrita da meméria € recriagao da propria vida e narrago da meméria coletiva No inicio do livro, no poema intitulado "Minha Cidade’, a autora explicita ‘a coincidéncia de identidade entre aquela que assina como Cora Coralina e a personagem que atravessa o livro: “Eu sou aquela menina feia da ponte da Lapa Eu sou Aninha’. No conjunto dos poemas, Goids emerge da linguagem que trabalha 0 tempo amalgamado ao espaco em enredos que criam um passado compartihado, delineando a cidade entrelacada a todos os tempos da vida da autora. *" Ao leitor, PBG, p. 39. Autobiogrefia invencto de si . 276 No arquivo pessoal da poeta, encontrei dois recortes de jornal do ano de 1965 com comentarios a respeito de Poemas dos Becos de Goiés, enfatizando a dimensao memorialistica, prenunciando as caracteristicas que, mais tarde, sero retomadas por criticos literarios que analisam a obra da autora (.) Contudo, 0 que impressiona desde logo nos poemas da Sra, Cora Coralina, é a extraordinaria riqueza da vivéncia e 0 poder de sugestéo lirica que consegue extrait de seus temas, em geral colocados no plano reminiscente da evocagao.* (...) Num ritmo embalador, de “casos” contados, a noite, no siléncio de um sobradao, a autora emprega a meméria recriadora para trazer de volta Proustianamente, usancas de outros tempos e antigas imagens de sua cidade ~ Goiés, a Velha. (...) Assim, numa saborosa linguagem de aroaismos, a autora evoca um mundo para sempre perdido, numa narrativa tecida de segredos de familia, lendas, assombragées, etc."” Em um poema do livro Vintém de Cobre, Cora relembra a publicagdo desse primeiro livro e declara que ele foi recebide com “escassos cumprimentos” e que “depois” seguiram-se ‘treze anos de esquecimento” até a segunda edigao em 1978, quando alcangou sucesso ~ “Depois, o que tem acontecido a todos, a vitéria final" Nas entrevistas que concedeu nesse periodo, Cora Coralina conta que foi procurada pela Editora José Olimpio para preparar uma segunda edigao, mas estava muito ocupada com 0 trabalho de doceira". Ela costumava vender o livro para aqueles que iam até a Casa Velha da Ponte procura de seus doces, até que ficou com apenas um exemplar: “Como eu tenho um livro $6, no posso “ Péricles da Silva Pinheiro, “Livros em desfile”. Nao ha indicag&e do nome do jomal e nem da data. No alto do recorte, escrito a lapis, |é-se 1965, ‘SS °A-semana dos livros". No ha indicagao do nome do jomal, apenas a data, 26 de junho de 1965. © "Recusada tantas vezes, até o encontro com a José Olimpo em 1965. / Depois treze anos de esquecimento. / Solidéo, esperando se fazer a geragdo adolescente / que sé 0 conheceu na segunda edigdo / que ao final sensibiizou a geracao adulta, que recebeu na primeira / em escassos cumprimentos. / Depois, 0 que tem acontecido a tantos: a vitéria final" (Meu vintém perdido, VC, p. 61-62) "Cf. Anatole Ramos, “Nos tachos e nos livros a mesma imensa poesia’. Cinco de Margo. Goiania, 4.a 10 de fevereiro de 1974, Brasigdis Felicio, "Cora Coralina, dos becos de Goiés e dos caminhios do mundo”. © Popular. Goiénia, 30 de outubro de 1975, © Esse exemplar esta na reserva técnica do Museu Casa de Cora Coralina e contém diversas ‘mensagens escritas por homens e mutheres. Para exemplificar: “Dona Cora / Viemos buscar doces @ adogamos nossas almas, procuramos 0 passado @ encontramos um futuro no presente. Parabéns @ felicidades @ saiba que néo esqueceremos da senhora’. “Dona Cora, no tenho Autobiografia e invencto de si 27 vendé-lo nem dar. Por isso, os leitores que me visitam 6 que o autografam’®. Recorrentemente, Cora exalta a condicéo de doceira e tece a relacéo com a criagao literaria, inscrevendo os catorze anos em que se dedicou ao oficio como um marco biografico fundamental J& que no posse comunicar com o sentimento, através dos meus versos, ‘comunico-me com a habilidade culinaria, com meus doces. De uma forma ‘ou de outra, sempre proporcionarei uma sensacdo estética, um prazer Aqueles com quem me comunico, embora Ihes atinja o estémago e no o coracao © segundo livro, Meu Livro de Cordel, foi publicado somente em 1976. Na abertura, um longo poema intitulado “Parte Biogréfica’, cuja analise auxilia a apontar tragos recorrentes no jogo que a poeta entretece entre passado e presente para singularizar a sua condigao de escritora. Significativamente, ao preparar a segunda edigao, a autora alterou o titulo para “Cora Coralina, quem 6 voo8?"*: Sou uma mulher como outra qualquer. Venho do século passado e trago comigo todas as idades, Nasci numa rebaixa de serra entre serras e morros. “Longe de todos os lugares” Numa cidade de onde levaram © ouro e deixaram as pedras. &) ‘Sendo eu mais doméstica do que intelectual nao escrevo jamais de forma consciente e racionada, e sim impelida por um impulso incontrolavel. Sendo assim, tenho a palavras para dizer, obrigado & pouco por tudo que aqui recebi. Em minha longa caminhada, quero Segui um pouco seus exempios” Cora Coralina, in “Cora Coralina: sou uma poetisa muito auténtica". Jomal de Brasilia, s/d * Cora Coralina, in “Cora Coralina, 0 tesouro da Casa Veiha de Vila Boa’. O Popular. Goiania, 17 ge outubro de 1971 © Na primeira edigo de Meu Livro de Cordel, varias poesias autobiogréficas compdem a “Primeia Parte” - "Meu Pai, "Mae Didi’, “Das Pedras’, “Minha Vida", “O Chamado das Pedras’-, enquanto que textos em prosa integram a “Segunda Parte’. A segunda edicao fol organizada pela autora mas publicada postumamente, em 1986, pela Editora Global e apresenta varias alteragbes: 08 textos em prosa foram suprimidos & substituldos por poesias; também foram excluidas poesias que haviam sido inseridas na segunda edic30 de Poemas dos Becos de Goids e Estérias Mais (1878, pela Ecitora da UFG) e, embora seja mantida a divisao em | Parte e Il Parte, descaracterize-se a primeira parte como autoblogrétfic tal como era proposto na primeira edigao, Autobiografia e invengdo de st 278 consciéncia de ser auténtica Nasci para escrever, mas, 0 meio, ‘© tempo, as criaturas e fatores ‘outros, contramarcaram minha vida. ‘Sou mais doceira e cozinheira do que escritora, sendo a culinéria a mais nobre de todas as Artes: objetiva, concreta, jamais abstrata a que est ligada a vida e & salide humana. (ou) A-escola da vida me suplantou as deficiéncias da escola primaria que outras 0 Destino nao me deu. Foi assim que cheguei a este livro sem referéncias a mencionar. G..) Apenas a autenticidade da minha poesia arrancada aos pedacos do fundo da minha sensibilidade, e este anseio: procuro superar todos os dias minha propria personalidade renovada, despedacando dentro de mim tudo o que é velho e morto. (Cora Coralina, quem 6 vocé?, MLC, p. 73-76) A poeta anuncia que, vinda do século passado, carrega consigo todas as idades e funda na origem da vida a ligagdo com a cidade. A vivéncia no tempo se entrelaga ao espaco como premissa do trabalho com a meméria, condigao fundamental para sua produgao literaria ‘Ao longo do poema, esboga-se o oficio de literata como sentido para a vida narrada. Quando declara “nasci para escrever’, Cora define um destino que foi “contramarcado” pelo “meio, 0 tempo, criaturas @ fatores outros”. No entanto, ela afirma que nao pode fugir desta “tendéncia inata’, pois & “impelida por um impulso incontrolavel”. Portanto, por nao escrever ‘jamais de forma consciente @ raciocinada’, ela proctama a “consciéncia de ser auténtica’. O livro é anunciado como resultado da “escola da vida’, que teria suplantado a pouca escolaridade, cuja “autenticidade” da poesia confunde-se com a ‘sensibilidade” e a "personalidade renovada” da autora. ‘Autobiografia e invencio de si : 273 Ao lado das referéncias a0 passado, encontra-se 0 esbogo do auto- retrato na velhice, no qual ela se afirma ‘mais doméstica do que intelectual” e “mais doceira e cozinheira” do que escritora, confirmando a intima relagao entre a poetisa e a doceira, constantemente assinalada nos depoimentos orais. No livro Vintém de Cobre, publicado em 1983, © subtitulo meias confiss6es de Aninha jé anuncia a coincidéncia de identidade entre Cora e Aninha tornando explicito 0 pacto autobiografico, confirmado na primeira pagina: Este livro, meias confissdes de Aninha € um livro tumultuado, aberrante, da rotina de se fazer e ordenar um livro. Tumultuado, como foi a vida daquela que o escreveu Conseqiente. Vai a publicidade sem nenhuma pretensao. Alguma coisa, coisas que me entulhavam, me engasgavam € precisavam sair. E um livro das consequéncias. De conseqiiéncias De uma estou certa, muitas dirdo: estas coisas também ‘se passaram comigo. Este livro foi escrito no tarde da vida, procurei recriar e poetizar. Caminhos asperos de uma dura caminhada. Nos reinos da Cidade de Goids, onde todos somos amigos do Rei (Parodiando M. Bandeira) (Este livro, meias confissdes de Aninha, VC, p. 33) Tal como na abertura do primeiro livro, Cora Coralina retoma o estatuto da esorita da meméria enquanto recriagao e poetizacao da trajetéria de vida ou dos “caminhos 4speros de uma dura caminhada” a partir da perspectiva do presente, do “tarde da vida” Contudo, dessa vez a autora propdem que o conjunto do livro seja lido como uma autobiografia postica, firmando um contrato com seus leitores, cunhado por Philippe Lejeune de “pacto autobiografico”, que engendra um tipo especifico de leitura: a coincidéncia da identidade entre a personagem das “meias confissées” e 0 pseudénimo literério que assina 0 livro, faz com que o ® Para Philippe Lejeune, 0 que define © género autobiografico & 0 contrato de leitura estabelecido ‘entre autor e leitor, no qual o primeiro deciara explicitamente a coincidéncia de identidade entre autor, narrador € personagem. Os poemas autobiogréficos constituem um “género vizinho" a ‘autobiogratia, visto que sua definiedo pressupde que 0 texto atenda as seguintes caracteristicas: *Relato retrospective em prosa que uma pessoa real faz de sua propria existéncia, pondo énfase em sua vida individual e, em particular, na historia de sua personalidade’. LEJEUNE, Philippe. (1996), op. cit p. 14. Autobiografia e invencdo de si 280 desvelar-se, 0 retratar-se e o avaliar-se da autora nas tramas poéticas tornem-se 0 foco de leitura. © momento que ela vive guia o enquadramento do passado, ou seja, 0 trabalho de produgdo, selegéo e organizagdo das lembrangas para compor a historia de vida. A matéria poética, porém, parece estar hd muito tempo sendo vivenciada, guardada e acumulada, provocando o desejo de exteriorizé-las: “coisas que me entulhavam, me engasgavam e precisavam sair’. A escrita, num primeiro movimento, € associada as experiéncias e expectativas individuais. Todavia, logo a poeta dectara que “muitas diréo: estas coisas também se passaram comigo”, aproximando sua historia de vida a de outras mulheres, entrevendo a identidade de género” inscrita na meméria biografica. Vintém de Cobre foi editado pela Universidade Federal de Goids e langado como parte das homenagens prestadas a Cora por ocasiéo da concessao do titulo de “Doutor Honoris Causa’, em agosto de 1983, Nas intimeras entrevistas que concede neste periodo, a autora repete 0 poema-prefacio, insistindo em teafirmar 0 pacto biografico: Vintem de Cobre é um livro tumultuado, como tumultuada foi a vida de quem 0 escreveu, Nao ha muita seqléncia, stio as pequenas coisas e ‘ocorréncias de minha vida™ (...) Ficou dentro de mim e eu procuro dar expansio a isto porque isto me sufocava, me prendia na garganta. Preconceitos familiares, preconceitos sociais, tudo me fazia calar, mas um dia eu despedacei todos esses Preconceitos e fui na busca do meu vintém de cobre e ndo sou eu na minha idade, eu volto a minha infancia, Volto a ser Aninha, a menina mais atrasada da minha escola, menina pobre. Vintém de Cobre, minha jovem, é um simbolo de um vintém que me faltou ma inféncia para pér na gaiola de um passarinho chamado Porvir uma banana ... me faltou esse vintém. E foi preciso que se abrisse a porta da gaiola e soltasse 0 passarinho para que ele ndo morresse ali de fome Entéo, esse vintém perdido, esse vintém procurado, esse vintém que me faltou, eu procuro até hoje, simbolicamente falando, ele esta ligado © SCOTT, Joan. (1980), “Género: uma categoria itil de andlise histérica’. Educacéo e Realidade. Porto Alegre, n° 16: 5-22. * Cora Coralia, in “Cora, uma poesia entre 0 coragéo © o mundo”. Folha de So Paulo. Sé0 Paulo, 12 de outubro de 1983 “Cora Coralina, in “Depcimentos de Cora Coralina’, op. cit Autobiografia ¢ invenciio de si ; 281 visceralmente & minha vida, a0 meu emocional e as minhas razées de ser de criatura que vem de um passado longinquo.° Logo apés a publicagéo de Vintém de Cobre, Cora ja divulga o livro Est6rias da Casa Velha da Ponte, que s6 foi editado postumamente, prometendo: Est6rias (no va esquecer que é sem “h", minha menina) da Casa Velha da Ponte. Sao crénicas memoriais da minha Cidade, Verdades e mentiras, porque nao sou historiadora, nem memorialista, apenas e sempre a historia do cotidiano. O cotidiano passado e a sua importancia.” No entanto, no pequeno prefacio, sob o titulo “NADA NOVO...", Cora trata de esclarecer que outros escritores podem ter contado as mesmas historias, ambientadas em outros cenarios. Ela assevera que ‘o conto 6 uma modalidade literéria ingrata’, pois 0 enredo nem sempre é original de uma cidade e muitas vezes o autor engana-se em acreditar que tem a ‘primazia de o contar’, visto que “outras cidades também reivindicam 0 mesmo assunto e outros contistas jé garimparam na lavra’. Entao, para resguardar-se dos ‘juizos apressados’, Cora define: “concluimos, portanto, que o enredo seja de toda parte e de todos que escrevem”. No primeiro texto, Cora Coralina evoca a “Casa Velha da Ponte” para estabelecer a ligacdo da sua escrita com a cidade de Goiés e com o passado familiar e pessoal ~ “CASA VELHA DA PONTE, és para o meu céntico ancestral uma bengao madrinha do passado”. 0 espago é amalgamado a varios tempos: 0 tempo imemorial da construgao, associada as origens da cidade; o tempo dos ancestrais, narrado pela bisavé, cujas “estérias’ se misturam com ‘lendas” que fazem parte da meméria coletiva associada ao periodo da exploragao de ouro; 0 tempo vivenciado pela poeta na infancia e juventude, marcado pela pobreza: o tempo presente, no qual a poeta volta “as origens da sua propria vida” para cantar a velha casa: “Andei por mundos ignotos e cavalguei 0 corce! branco do sonho. Pobre, vestida de cabelos brancos, voltei 4 velha CASA DA PONTE, barco centenério encalhado no Rio Vermelho”®. ® Cora Coralina, n Programa Vox Popul, op. cit Cora Coralina, in“A Vela Rapsoda’. Folha de Sao Paulo, S40 Paulo, 10 de junho de 1984 CORALINA. Cora, (1994), Estorias da Casa Velha da Ponte, So Paulo, Global, p. 7-17 ‘Autobiografia e invengiio de si 282 O gesto de escrita da memoria configura os preémbulos e os primeiros textos dos livros de Cora Coralina, tanto quanto seus depoimentes, instalando a obra num espago biografico de leitura e interpretacdo. Lejeune alerta que, para estabelecer 0 pacto de leitura, ao discurso da autora, somam-se os cédigos implicitos ou explicitos da publicagéo que constituem as margens do texto impresso e, na realidade, dirigem toda a leitura: desde o nome do autor, titulo, subtitulo, os textos da “orelhas’, contracapas até 0 “o jogo ambiguo dos prefacios™ Nos livros de Cora, os textos de outros autores que apresentam a obra € a escritora fazem eco aos eixos consolidados pela propria poeta: a produgo literaria na velhice, a escrita como recriagao da propria vida, a associagao entre a matéria literdria e a memoria visceralmente ligada a cidade de Goids. J.B. Martins Ramos, convidado pela Editora José Olimpio para fazer o prefacio de Poemas dos Becos de Goias, afirma que “Cora Bretas se fez, viva, 0 museu vivo, 86 de coisas vivas, no qual ela assume para sempre a fungéo de Guia’, tingindo 0 ‘nivel do registro com arte, preservada a realidade”, quando “se coloca diante das lembrangas-imagens que guardou para olhar e para um dia expor, como agora expée, na exposieao que abriu neste ivr, a fim de as apresentar todas. Guardou-as para deixé-las 4 gente nova, como declara: a que no poderé ver os originais, que o tempo levou"™, Na concepgao desenhada pelo critico literdrio, a memoria é um depésito de fatos e a escrita produz um retrato fidedigno do passado. A matéria literaria € constituida por lembrangas-imagens de um passado que é guardado intacto, preservando a realidade. O leitor é, assim, convidado a ler o texto enquanto recriago objetiva do passado pelos mecanismos da meméria que gravou as recordacées ao longo do tempo". © LEJEUNE, Philippe. (1996), op. cit. p. 44-45. SAtendendo ao desejo da autora, este prefacio foi preservado nas edigées posteriores: 2' (1978) e 3 (1980) edigdes a cargo da Editora da Universidade Federal de Gods ©, a partir da 4° edicao {1983), pela Global Editora Georges Gusdorf, num artigo publicado em 1948 e que se tora inaugural de novas concepgdes da literatura memorialistica, critica veementemente a concepcao que entlo predominava “A autobiografia no consiste em uma simples recuperacéo do passado como foi, pois a evocagao do passado s6 permite @ evocagdo de um mundo ido para sempre. A recapitulacao do vivido pretende ‘Autobiografia ¢ invengéio de si 283 © carater documental e a identificacao entre a obra e a longa experiéncia de vida da autora repetem-se em textos colocados na introdugao dos livros de Cora Coralina, exaltando-se a figura humana da poeta: Conhecer Cora Coralina € um privilégio e uma oportunidade. (...) Percebe- se, em sua personalidade marcante, a pertindcia da inteligencia em busca da auto-libertagao. (...) Seus documentos e criagdes liricas registram episédios de infancia © acontecimentos da terra natal, legando @ cultura goiana um documentario de fecundo saber historico e folciérico.”* Vinda do século passado e trazendo consigo a forga, a magia e a lucidez da propria existéncia, Cora Coralina se faz em cada admirador um ser de Taro poder, revelando a cada momento uma nova licao de vida. Existe em Cora, ndo apenas uma alma de poeta. Existe nela algo além da poesia que € @ grandeza da mulher desafiando 0 tempo, e formando em tomo de si a poesia © o mito. Pelo seu poder atraente e dominador, o critico Oswaldino Marques a chamou de “professora da existéncia’, onde todos que a rodeiam sentem nela uma mulher que guarda dentro de si mistérios profundos e uma sabedoria infinita”. Vintém de Cobre constrdi-se sobre as meias confissées de Aninha, a menina Cora Coralina, mal amada, rejeitada, Delas flui todo um universo de personagens, lugares, preceitos, normas de conduta e de cortesia que provém de um tempo distante, (..) A arte maior da poetisa esta em recolher da meméria do tempo todo um mundo de coisas e fatos cotidianos @ pessoas simples, transfigurando-os, emprestando-Ihes contomos universais. Mesmo abstraindo a ancianidade da autora e sua aparente fragilidade, enquanto mulher encanecida, 0 vigor da sua mensagem desconhece paralelo. (...) Sua obra tardia — melhor dizendo, que nos foi dado conhecer tardiamente ~ € expresso literéria de alto nivel e apresenta, igualmente, contetido sociolégico inigualavel™. Ao pé da Casa Velha da Ponte, onde ela vive, o rio Vermelho passa murmurando estérias e lendas, que s6 ela sabe entender. Eu a vejo, 0 olhar perdido nos longes do tempo, recriando um passado vivo e esquadrinhando, talvez, o futuro fantastico da era eletrénica. Eu a sinto valer pelo vivido em si, e, sem divida, néo revela mais que uma figura imaginada, distante e sem davida incompleta, desnaturalizada além alsso pelo fato que o homem que recorda seu passado faz tempo que detxou de ser 0 que era nesse passado. A passagem da experisnoia imediata & consciéncia na recordacao, a qual leva a cabo uma espécie de recapitulagao da expenéncia, basta {g2"2 modiicar o significado desta tttma’. GUSDORF, Georges. (1991), op. cit. p. 12. CASTRO, Sitvie Alessandri Monteiro de. (1993), “Um privlégio e uma oportunidade", in CORA, Coralina, Poemas dos Becos de Goids e Estorias Mais. Goiania, Ecitora da Universidade Federal de Goids, p. 23-26 *"CATELAN, Alvaro. (1976), “De pedra foi o meu bergo', in CORALINA, Cora. Meu Livro de {Gordel. Govan, Livrana e Editora Goiana ® COSTA Lena Castello Branco Ferreira. (1984), “Essa mulher admirével", in CORALINA, Cora, Vintém de Cobre ~ meias confissdes de Aninha, Goiania, Ed, da Universidade Federal de Gos. p 23-26. Autobiografia e invencto de si 204 como uma deusa de bronze milenar, “mais velha que o tempo e mais jovem que as alvoradas”, na qual habitam as vozes e os coragées de milhares de mulheres. Como deusa, ela fala, ensinando a vida, através dessa arma sublime © poderosa, que é a palavra. (..) Merguihar na obra de Cora, Aninha, a Mulher Guerreira, a Rapsoda, a Cigarra Cantadeira e a Formiga Diligente, sobretudo neste jivro, € uma lirica, telurica e emocionante aventura: 6 um evocar de dados, lembrancas, referéncias as nossas raizes e, acima de tudo, espiéndida imagem de uma vida forte e sabiamente vivida e muito bem expressa na sua palavra poética Ao atribuir @ poeta o poder de evocar, reconstruir e perpetuar 0 passado, esses discursos constréem a Cora-Monumento. Essa forma de caracterizar 0 discurso memorialista, fundamenta-se no que Alfredo Bosi denomina de “consciéncia testemunhal” do autor para instituir © texto como nao- ficgao: “o objeto da sua escrita 6 a experiéncia, e é uma experiéncia que ele pode atestar, empiricamente verificével: 0 real que aconteceu”™. © estatuto da escrita da meméria que fundamenta esses textos converge para a compreensdo de que o passado reconstruido 6 0 “real que aconteceu’, deslocando a compreensao do texto para a realidade extratextual. O modo de leitura passa, com isso, a basear-se no que Philippe chama de ‘pacto referencial”. A autobiografia e a biografia, por oposigao a todas as formas de ficgao, so textos referenciais que, da mesma maneira que o discurso histérico ou cientifico, contém informagées sobre uma realidade exterior ao texto. No entanto, Lejeune alerta para a importancia de se observar como o autor assume 0 pacto referencial, “no qual se inclui uma definig&éo do campo do real a que se refere e um enunciado das modalidades e do grau de semelhanca @ que o texto aspira’”’ Cora Coralina, nos textos que criam 0 espaco autobiogréfico de sua obra, enfatiza que a matéria literdria corresponde @ propria vida “recriada” ‘poetizada’, no comprometendo a composicao poética com os fatos veridicos “ MACHADO, Marieta Telles. (1984), “A palavra postica da mulher guerreira’, in CORALINA, Cora, Vintém de Cobre ~ meias confissdes de Aninha, Goiania, Ed. da Universidade Federal de Goias, *Orelhas* ” BOSI, Alfredo. (1997), “As fronteiras da literatura’, in AGUIAR, Flavio, MEIHY, José Carlos € VASCONCELOS, Sandra (org,), Géneros de Frontera: cruzamentos entre o histérico e o literario, 12 F TEVEUNE, Philippe. (1996), op. ct, p38 Autobiografic € invengio ¢ 285 extratextuais. Em depoimentos, a poeta retorna sua concepgao de escrita da memoria: “Muitas pessoas ~ conta Coralina — me perguntam se o que escrevo é verdade ou imaginagao. E eu tenho grande dificuldade em responder’. (...) A escritora afirma nao ser nenhuma historiadora ou pesquisadora: “Sd sei contar verdades ¢ mentiras. que ¢ do que os leitores gostam. Nao tenho ‘compromisso nenhum com a verdade dos fatos. Por acaso apareceré uma verdade, mas que estara sempre revestida de uma mentira."”” As lembrancas se impdem! E, de modo geral, todas elas sao boas! Porque todas elas trazem um tempo passado que a nossa imaginacao enfeita e que nos trouxe pelo menos ligées da vida e ligdes que nos servimos dela na maturidade.”* Outros autores que se dedicam ao memorialismo, seja no prefacio ou ao longo da obra, também delineiam os limites do pacto referencial. Pedro Nava, por exemplo, em varias passagens dos seus livros, discute as relagées entre os mecanismos da meméria e a composigao do texto, instituindo tal como Cora Coralina, a “recriag&o” como gesto fundamental: Para quem escreve memérias, onde acaba a lembranga? onde comeca a ficg4o? Talvez sejam inseparaveis. Os fatos da realidade so como pedra, tijolo ~ argamassados, virados parede, casa, pelo saibro, pelo cal, pelo reboco da verossimilhanca — manipulados pela imaginago criadora,”* Na abertura do autobiografico Boitempo, Carlos Drummond de Andrade, no poema “(In) Meméria’, configura a tessitura do texto enquanto trama lacunar dos fios da lembranga e do esquecimento, cuja ‘incorporea face” menos do que registro do vivido, é produto do fazer, desfazer e refazer da escrita: De cacos, de buracos de hiatos e de vacuos de elipses, psius faz-se, desfaz-se, faz-se uma incorporea face, resumo do existido”” * Cora Coralina, “Sempre fui muito bonita. N&o me faga feia agora’. Didrio da Manhé. Goiénia, 11 de agosto de 1988. ® Cora Coralina, Programa Vox Popul, op. cit *. NAVA, Pedro. (2000), Baldo Cativo, Sao Paulo, Atelié Editorial e Editora Giordano, p. 313-314 = ANDRADE, Carlos Drummond de. (1998), Boitempo |, Rio de Janeiro, Record, p. 10. Avtobiografia e invengéio de si 286 Para esses autores, a escrita 6, a um sé tempo, gesto de memoria e de imaginagao. O pacto estabelecido com o leitor fundamenta-se na escrita da meméria como um processo ativo de criagao de significagdes para o mundo e para a propria vida. Aproximando-se, assim, do modo de leitura concebide por Anténio Candido, ao analisar trés livros autobiograficos e considerar que “eles tém um substrato comum, que permite [é-los reversivelmente como recordagéo ou como invengéo, como documento da meméria ou como obra criativa, numa espécie de dupla leitura, ou leitura de ‘dupla entrada’, cuja forga, todavia, provém de ser ela simultanea, nao altemativa™. Mantém-se, entretanto, as dicotomias recordagéo ou invengdo, literatura como documento da meméria ou come obra criativa. Enfim, subtende-se a possibilidade de haver meméria ou autobiografia que ndo seja produzida como invengao e criagao”, No estudo da escrita da meméria, no entanto, questiono aqueles que se prendem nas dicotomias texto-vida, texto-verdade, texto-real por acreditar que a vida 6 inventada nas narrativas de si, que o real so é apreendido configurado na linguagem e que a vida, escrita pelo desejo, é sempre ficgdo. Pois, tal como Paul Ricoeur adverte, “a historia de uma vida ndo cessa de ser refigurada por todas as hist6rias veridicas ou ficticias que um sujeito conta de si mesmo”. Nas poesias de Cora Coralina, a meméria, a imaginagao e 0 desejo se misturam para engendrar a trama de uma vida. A poeta inventa a si mesma a medida que se entrega a escrita autobiogrdfica, na qual, segundo Wander Miranda, “o fazer do texto é concomitante a um (des)fazer do sujeito que o faz, delineando uma trajetéria que abole a “autonomizagao” do texto realista enquanto ® Os livros analisados so Boitempo de Carlos Drummond de Andrade, A idade do serrote de Murilo Mendes e Bad de Ossos de Pedro Nava. CANDIDO, Antonio, (1992), “Poesia e fiegzio na autobiografia’, in A educagéo pela noite e outros ensaios. S80 Paulo, Atica, p. 54. 7” 0 cere das relagdes entre memoria e ficgo, tal como propée Adélia Menezes, esta na ligag3o entre memona e imaginagao e entre imaginaco e desejo, confluindo para a associacso fundamental entre memoria e desejo, MENESES, Adélia Bezerra de. (s/d), "Meméria: matéria de mimese", in BRANDAO, Carlos Rodrigues. As Faces da Memdria. Campinas, Centro de Memorias >, UNICAMP. RICOEUR, Paul. (1997), Tempo e Narrativa — Tomo ill. Campinas, Papirus, p. 425, Autobiografia e invencto de si : 287 enunciado auto-suficiente e a permanéncia de um sujeito idéntico ao modelo empirico™ Proponho nos voltarmos para a investigagao dessa experiéncia singular de escrita, tentando apreender os movimentos da poeta na escrita de si, enquanto constituigdo/esfacelamento da identidade nos jogos da linguagem que esculpe na multiplicidade temporal as marcas do sujeito. “Aninha que procura reajuntar e recompor” Na leitura de um dos “Cademos’ de Cora Coralina, que guardam manuscritos de textos e poemas publicados ou inéditos, fui surpreendida com esta frase esorita na margem: “Aninha que procura reajuntar e recompor”. “Reajuntar* significa tornar a pér junto, reunir € colecionar, enquanto “recompor" € compor novamente, dar nova forma ou ainda reconciliar e harmonizar. Esses sao gestos de escrita da meméria, nao s6 reunir e colecionar fragmentos do passado, mas também fazer a composi¢éo das lembrangas, num trabalho incessante de reconciliar e harmonizar todos os tempos da vida. Na génese de seus textos literdrios, percebe-se o trabalho artesanal de escrever e reescrever, a procura da expressao revelada pelas correcées, rasuras € palavras sobrepostas, pelas versées cuidadosamente copiadas, cortigidas, recopiadas, numa caligrafia tracada por mos trémulas de quem escreve “no tarde da vida" Integrando esse proceso de criagdo, encontram-se fragments autobiograficos que revelam as fronteiras movedigas dos enredos da meméri ® MIRANDA, Wander Melo. (1982), “Corpos escrito: Graciiano Ramos e Silviano Santiago. Seo Paulo, Editora da Universidade de So Paulo; Belo Horizonte, Editore da UFMG, p. 101-102. Convém um alerta para evitar anacronismos. Todos os relatos intimos ~ hypomneméta, comrespondéncias, didrios, autobiogratias, memérias - so considerados “escritas de si (FOUCAULT, Michel. (1992), op. cit). Entretanto, 0 processo de subjetivacéo do autor pela “narrativa de si" deve ser analisado considerando as condigbes de produga0 do sujeito no periodo de sua elaboragéo e as especificidades envovidas em cada uma dessas formas textuais. A escrta autobiografica enquanto movimento de constituieSo do suieito, tal como ¢ analisada neste trabalho, ‘se relaciona com @ nogo do individualismo moderno. ALBERTI, Verena, (1091), “Literatura € Autobiografia ¢ invencio de si 288 alguns delineados com lembrangas solidificadas e contornos definidos, enquanto outros permanecem esbocos, tragados apenas com sombras de recordagées pedacos de reminiscéncia. Em outras palavras, no trabalho de invengéo de si, enquanto alguns desses fragmentos autobiograficos sao esculpidos cuidadosamente pela recorréncia a poemas e depoimentos, outros persistem como esbocos néo recompostos explicitamente em piiblico, jogados para a zona do esquecimento voluntario, provavelmente por nao se harmonizarem com a composig&éo do passado que se quer perpetuar. Contudo, na escrita da memoria o desvelar e 0 esconder desdobram-se como um jogo, fazendo com que, ao lado dos poemas autobiogréficos mais citados pela autora, encontremos esparsas composigées poéticas que permitem entrever esses enredos dissidentes. Nos “Cademos", assim como nos preambulos dos livros, 0 rememorar transforma-se em matéria de reflexo, tal como nos rascunhos do texto de apresentagao do livro Vintém de Cobre, citado com dois subtitulos diferentes daquele publicado: “Memérias de Aninha’ e “O Livro de Aninha’. Nas suas palavras, percebe-se a urgéncia de dar forma ao desejo de reajuntar e recompor memérias @, a0 mesmo tempo, o quanto esse proceso é limitado e condicionado por censura e interdigao social: Vintem de cobre Memorias de Aninha Memorias.... quem as escreve no completo ... eu nao ... vooé ... duvide. Nossas restrigdes, fragmentacdo, covardias. Medo. Medo dos mortos medo dos vivos e de nos mesmo. Nao sabemos perdoar, sabendo as vezes compreender no inconsciente. Medo dos mortos perdoamos e medo dos vivos que nao perdoam. Dai, nossas meias memérias recortes mentais, alusées, insinuacées. (Cadero 39) Vintem de cobre Livro de Aninha Esta aqui o livro de Aninha que desencantou de Cora Coralina. E um livro antes ( )*' tumultuado dispersos desordenados infeixando paginas Autobiografia: a questo do sujeito na narrativa’. Estudos Histéricos, Rie de Janeiro, vol. 4, n® 7. 66-81 *" Transcrever estes textos tal como foram compesios, sem intervir com pontuagées ou comegtes crtograficas, tem como objetivo nos aproximar do processo de criagdo. Os parénteses em branco ‘que entremeiam 0 texto mais do que convengbes criadas para indicar palavras que no consegui ecifrar, pretendem denotar as lacunas de toda tentativa de interpretagdo da escrita da memoria, Autobiografia e invengéo de si 289 fazendo 0 livro nada de ordem assim 0 quis assim o fago e assim de proprio punho. Para mim é um livro (_) urgente necessdrio seus causos me enchem me torturavam em deviam explodir (_ ) foi compreendido ou no, aceitou ou mal aceito ele ¢ ( _) rotina, arbitrario € o livro de Aninha (dura) algumas Paginas cenguraveis outras muito cencuraveis. (Folha Avulsa)® Dispersos desordenados enfeixando paginas, fazendo o livro, nada de ordem, assim o quis, assim o fago e assim de proprio punho, anuncia Cora para explicitar que da forma ao Vintém de Cobre de modo a manter a desordem do processo de rememorar. Nas composigdes poéticas, entrelagam-se passado, presente e futuro encadeados por teméticas multiplas, demonstrando que produzir memérias & recompor fragmentos de lembrangas. © livro € ‘tumultuado”, “urgente”. ‘necessério” diz a autora que se confessa torturada pelas reminiscéncias que “deviam explodir’. Por isso, “compreendido ou no”, ‘aceito ou mal aceito’, & 0 “livro de Aninha”. Entretanto, a Poeta prenuncia o julgamento: “algumas paginas censuraveis outras muito censuréveis” Censura que acompanhou a feitura do livro, pois, no fragmento anterior © no titulo do livro publicado, a poeta declara que sao “meias confissées de Aninha” ja que ninguém escreve memérias “no completo”. Ela admite “restrigdes, fragmentacao, covardias”’ que condicionam “meias memérias", memérias recortadas, delineadas com “alusées’ e “insinuagdes”. Percebe-se, assim, que a construgao autobiogréfica é uma operacao do presente, quando a autora teme os “mortos” , os “vivos” € si mesma, confessando “medo dos vivos que néo perdoam”, No livro Vintém de Cobre, esse sentimento é retrabalhado no poema “Confissdes Partidas’, instaurando o silenciado, 0 recalcado, 0 indizivel como fios (in)visiveis na trama dos enredos rememorados: ‘Quem dera a mim esse poder, desfacatez, coragem de dizer verdades Quem as tem? $6 0 louco varido que perdeu o controle das conveniéncias. Conveniéncia ... palavra assim de convénio, de todos combinades, forga poderosa, recriando a coragem encabrestando a verdade. Conveniéneia ... imma gémea do preconceito, enganando os dois, = Essa folha fol encontrada em uma das caixas de papelio onde os Cademos estéo armazenados na ‘Reserva Tecnica’ do Museu Casa de Cora Coralina Autobiografia € invengiio de si 290 puxando a carroga das meias verdades Confiss6es pela metade Quem sou eu para as fazer completas? Reservas profundas, meus reservatérios secretos, complexos, fechados, ermos, compromissos intimos e preconceitos vigentes, arraigados. Algemas mentais, ¢ tolhida, prisioneira, incapaz de despedacar a rede onde se dabetem o escamado da verdade Qual aquele que em juizo so, destemeroso dos medos para dizer mais do que as meias dissimuladas, esparsas? Agente tem medo dos vivos e dos mortos. Medo da gente mesmo. Nossas covardias retardadas e presentes. Assim foi e assim sera (Confissées partidas, VC, p. 147) Na aventura da escrita, o conhecimento de si atormenta a poeta com os enredos dissidentes, desnudando intrigas que traduzem rupturas com a identidade duramente conquistada no processo de construcéio autobiografica. As narrativas de si, enquanto praticas discursivas, constituem movimentos em que Cora Coralina busca, inventa, decifra a si mesma”. Vamos, primeiro, procurar “Aninha que desencantou de Cora Coralina’, entrelagando seus “Cadernos’, sua obra poética e seus depoimentos orais para investigar os mecanismos de composi¢do da meméria autobiografica. Poemas dos Becos de Goiés e Estérias Mais é marcadamente memorialistico, instituindo a cidade de Goids como espago da meméria coletiva. A dimensao autobiogréfica dessa ‘meméria topografica™ insinua-se em muitas passagens ao longo do livro, mas encontra-se plenamente configurada nas poesias “Todas as Vidas", “Minha Cidade’, “Antigdidades”, “Vintém de Cobre (Freudiana)” e "Minha Infancia (Freudiana)". Significativamente, na primeira © Maria José Mota Viana configura a escrita memorialistica feminina a partir do desejo da mulher de tomar posse da palavra, apropriar-se do discurso e exercer a literdade de falar, reavaliando a experiéncia vivida, “tragando com sua narrativa @ inscrigdo de si mesmas, para tornarem-se