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terça-feira, 31 de Agosto de 2010


O Jornal das Boas Notícias
Os homens vis vivem para comer e dormir
O artigo Boas Notícias, ajuda-o a perceber o conceito; aliás, foi este artigo que no ano
enquanto os homens virtuosos comem e
dormem para poderem viver
2001 deu origem ao primeiro Jornal das Boas Notícias
Sócrates http://o-povo.blogspot.com/2001/01/o-jornal-das-boas-noticias-1.html Por outro lado, no
blog Povo na secção Assuntos e no item Jornal das Boas Notícias encontra os anteriores
Jornais Desportivos .....................................................................1 23 números do Jornal das Boas Notícias. A ideia concretizou-se hoje de forma profissional
O que andamos a ler....................................................................1 como podemos ler na página 17.
"Portugal está à beira da irrelevância, talvez do
desaparecimento" ...................................................................1 Virar o mundo para o bem é a coisa mais extraordinária do ser humano, dizia o director
Bento XVI, Pessoa e a fome de beleza ...................................4 do Good News (pág. 16). Por isso, a beleza, a bondade e a liberdade são temas que fui
Tornar este mundo mais belo ...................................................6 buscar a antigos e recentes artigos enviados para o Povo.
Que mundo estamos a criar? .....................................................7
Combater a pobreza ....................................................................8 Na semana passada, Vasco Pulido Valente olhou para a sua vida como uma sequência de
Um livro esquecido......................................................................8 acasos, tomando consciência da sua dependência. Albert Einstein também o fez e João
Memórias do Vaticano II ..........................................................9 Bénard da Costa reflecte sobre os sinais do acaso (págs. 10 e 11).
Liberdade de Educação e Liberdade de
Informação ............................................................................ 10 Desde que o Povo passou também a residir no blog em http://o-povo.blogspot.com (em
Um acaso..................................................................................... 10 Abril de 2008) só foram publicados dois números do Jornal das Boas Notícias. A principal
Coincidência ............................................................................... 11 razão é que o Povo nesta forma de blog é como um jornal de parede virtual. Outra
Sinais do Acaso, Sinais da Necessidade: a
inteligível extensão .............................................................. 11 razão é que, de facto, é difícil fazer um Jornal das Boas Notícias. Um dos riscos que se
Constituição e a liberdade do presente e do corre é dar notícias aparentemente boas de vidas temperada com ketchup (pg. 13 e 17)
futuro...................................................................................... 12 esquecendo o que nos lembra o antigo Sócrates – que a finalidade da vida é mais do
Retrato sem retoques................................................................ 12
Vida con ketchup...................................................................... 13
que bem estar. Por isso, vale a pena neste recomeço do trabalho quotidiano pensar n’O
O que fica.................................................................................... 14 que fica, naquilo que permanece na vida (pág. 14)
Passe bem! ................................................................................... 15 Recebam um abraço do vosso
A OMS, a gripe A e Bento XVI ........................................... 15
A soldado desconhecida .......................................................... 16
O Estado não ama as pessoas ................................................. 16 Pedro Aguiar Pinto
Boas notícias ............................................................................... 16
Boas notícias II .......................................................................... 17

Jornais Desportivos O que andamos a ler


António Câmara (Presidente da YDreams) Joana Alarcão
RR on-line 26-02-2010 2010.08.27 O cachimbo de Magritte
Quando fui para os Estados Unidos da América, http://cachimbodemagritte.blogspot.com/2010/08/o-que-andamos-ler.html
em 1977, deixei de ter acesso a jornais portu- Nos últimos dias de Agosto, numa altura em que os dias continuam quentes e
gueses. Adaptei-me lendo jornais americanos. muitos ainda estão a banhos o que andam a ler os portugueses? Os livros da
Mas houve um jornal insubstituível: o então tri- Fundação Manuel dos Santos. As semanas passam e eles teimam em aparecer
semanário A Bola. no top de vendas de livros não ficção. O que têm afinal estes ensaios de tão
Amigos meu prontificaram-se a assiná-lo peran- extraordinário? Falam de nós, da nossa educação, da economia nacional, em
te a minha saudade. Era com prazer imenso que edições apelativas, disponíveis em qualquer tabacaria, supermercado ou
lia de ponta a ponta os números de A Bola que
me chegavam com um atraso de vários dias.
Portugal tem actualmente três diários desporti-
vos. Espanha tem dois, sendo quatro vezes
maior. Mas a situação Portuguesa é ainda mais
distintiva pelo facto dos nossos jornais despor-
tivos terem tiragens superiores à maioria dos
nossos diários de referência.
Como explicar esta situação? Alguns dizem que
ela se deve à nossa incultura. Mas há certamen-
te intelectuais a lerem A Bola, o Record e O bomba de gasolina. Custam apenas 3,50€ e procuram explicar como andam as
Jogo. políticas públicas em Portugal. No contexto de incertezas e de falta de serie-
O facto de Portugal ter equipas competitivas dade política em que vivemos, esta Fundação, estes livros, o site que os acom-
internacionalmente em futebol é outra das panha, são uma boa notícia. http://www.pordata.pt/azap_runtime/
razões possíveis para a imensa legião de leitores
desses jornais.
Mas não é fácil encontrar explicações que sejam
"Portugal está à beira da irrelevância, talvez do desaparecimento"
Maria João Avillez
consistentes cientificamente sem o estudo de
Publicado no jornal i em 01 de Março de 2009
uma amostra significativa de leitores. A justiça está refém de grupos profissionais e os portugueses sem esperança.
Mas eu posso justificar os meus quarenta anos António Barreto em entrevista
de leitura diária de jornais desportivos. Neles se Dedica hoje o melhor de si mesmo à Fundação Francisco Manuel dos Santos
documentam diariamente as minhas paixões (FFMS), cujo grande objectivo é "pensar, estudar e contribuir para o melhor
clubistas e desportivas, a que associo inúmeros conhecimento da realidade portuguesa", como se lê na sua carta de princípios.
momentos de felicidade. Mas não é de agora que António Barreto, 67 anos, gosta de números, factos,
Nos últimos tempos, cheguei também a outra dados. À excelência com que tem vindo a desenvolver e profissionalizar esse
justificação que diz bem do momento actual: gosto não foi certamente alheio o convite de Alexandre Soares dos Santos
esses são os únicos jornais que me trazem, em para presidir ao conselho de administração da FFMS. Foi nessa pele que, com
geral, boas notícias. sedutora fluidez e um grande conhecimento de causa, este ex-ministro, ex-
deputado e ex-dirigente partidário viajou comi- de Dados Portugal Contemporâneo": é a tentativa de agregar, organizar e
go pelo país. Os resultados são ácidos, a radio- homogeneizar os dados existentes sobre Portugal desde 1960 até hoje, em
grafia má, embora - surpreendentemente? - não todos os domínios: demográfico, sanitário, educativo, populacional, emprego,
concorde que o país esteja doente: "O nosso desemprego, salários, vencimentos, justiça, cultura... Houve rupturas estatísti-
problema não é doença nem asfixia, mas sim cas nos últimos 20, 30 ou 40 anos que fazem com que muitas delas sejam
dependência, o que é muito mais grave". Com deficientes e exista um enorme défice de informação pública. Não podemos
brilho, sabedoria e substância, explica porquê. obviamente produzir estatísticas - só as instituições oficiais o podem fazer -,
António Barreto, está a tempo e alma inteira mas estamos a coligi-las com uma fantástica colaboração do Instituto Nacional
na fundação que dirige? de Estatística - principal fonte de estudo - e ainda do Banco de Portugal, dos
A tempo inteiro. Estamos na fase inicial e a fazer organismos da saúde e da educação, com as ordens, por exemplo, que têm
coisas tão prosaicas como estatutos, legaliza- dados interessantes sobre as profissões. Harmonizaremos depois tudo isto de
ção, escrituras notariais, etc. Um trabalho que modo a estar disponível para todos. É de graça e será feito de modo tão
me leva o dia inteiro, incluindo fins-de-semana moderno quanto possível, como as melhores coisas que se fazem no mundo!
e noites. É necessário pensar, criar os primeiros Mais?
textos, delinear projectos, estudos, programas A segunda iniciativa é uma espécie de contraponto desta. Os números - tenho
de trabalho a médio e longo prazo, procurar as uma grande atracção pessoal por eles - têm uma grande vantagem: sugerem
pessoas que os possam levar a cabo... factos. E não há boas opiniões sem bons factos por trás. Em paralelo vamos
Com que objectivo prioritário? Dotar o país de lançar - talvez na Primavera de 2010 - uma colecção de ensaios, no verdadeiro
instrumentos para que ele se conheça melhor a sentido da palavra. Contactámos dezenas de pessoas, algumas delas têm
si próprio? prazos já marcados. E todas vão ser surpresas.
A nossa prioridade é Quais os temas?
dar informação e Os que são relevantes na vida nacional: saúde, envelhe-
instrumentos de cimento da população, natalidade, mortalidade infantil.
conhecimento aos Mas também a propriedade, o ensino do Português, a
cidadãos. Aquilo que corrupção, a organização de certos aspectos da justiça
transmite informa- processual. A ideia é organizarmos 10 ou 12 por ano com
ção faz homens e 60 a 100 páginas, no máximo. Não produzirão factos ou
mulheres livres. E estatísticas, não terão uma linguagem hermética. Que-
uma das lacunas de remos que sejam acessíveis a todos, para que todos
Portugal - por falta fiquem informados. Não ambiciono concorrer com as
de hábito, de expe- telenovelas ou o futebol, mas muitas das pessoas que
riência, de cultura - é não ter cidadãos livres, vêem telenovelas ou futebol poderão estar interessadas em lê-los. Aliás, os
informados, capazes de participarem de modo termos de referência com os autores são sempre os mesmos: não se trata de
independente na vida pública. um livro de um jurista para juristas, de um economista para economistas.
Dirige uma fundação que não só é totalmente Destinam-se a especular sobre ideias, e por isso lhe disse que eram o contra-
portuguesa como é a primeira a visar exclusi- ponto dos factos. Quero discutir como se nasce e morre em Portugal, discutir
vamente esses objectivos... os pobres e os ricos, a liberdade das empresas, a dependência do Estado.
Fazer estudos sobre a realidade nacional, torná- Quero uma opinião fundamentada e uma discussão informada.
los públicos e organizar projectos à roda deles, É como se estivesse debruçado sobre a sociedade portuguesa. Como é a
sim, é caso único português. Os think thank que nossa sociedade?
conheço são organizações para pensar, promo- É muito antiga, o que deixa marcas e faz dela uma sociedade complexa. E
ver e publicitar ideias, mas são organizações preocupada com a sua memória. Eduardo Lourenço diz que os portugueses
programáticas, têm um programa político. sofrem por ter identidade a mais e eu concordo. Habituámo-nos a viver da
Como nos Estados Unidos, onde grande parte memória, o que cria frustração. É também uma sociedade que vive obnubila-
destas fundações servem para organizar a dis- da, obcecada com o seu atraso. A ideia de que há um problema de subdesen-
cussão pública promovendo as ideias dos parti- volvimento e sociedades que se desenvolvem menos que as outras deve ter
dos republicano e democrático. Portugal é uma começado cá há 200 ou 250 anos! Havia a memória da grandeza, mas quando
sociedade diferente e nem foi essa a vontade do a seguir vem a pobreza ou o atraso é pior, funciona como mito. E há a ideia da
fundador nem a minha. Não somos um think periferia. Ainda hoje os portugueses pensam que não estão no centro do
thank, na medida em que não temos um pro- mundo e das coisas. Há uma invenção de que Portugal estava no centro do
grama político. Temos uma carta de princípios. Atlântico e fazia a charneira, mas não é a mesma coisa que estar no centro. É o
E têm o conselho científico e o de curadores. facto de estar num canto da Europa não sendo bem Europa, não sendo bem
Actuam em nome de quê? África, não sendo bem Mediterrâneo, não sendo bem Atlântico. Os portugue-
A carta foi aprovada pelos conselheiros e define ses há 500 anos que vão para qualquer sítio, para a emigração, para África,
justamente alguns princípios. Além dos princí- para as conquistas, para o Oriente, para o Brasil ou para o Atlântico... e agora
pios gerais da liberdade e da igualdade de opor- não sabem para onde ir. Não podem ir para a Europa porque já lá estão. Há
tunidades visa-se o reforço dos direitos dos quem diga que Angola é novamente uma oportunidade. É uma relação inte-
cidadãos, para um maior conhecimento por ressante, mas é preciso reconstruir, sarar feridas, fechar cicatrizes. Não faço a
parte deles, uma opinião mais participada e mínima ideia se vamos conseguir e se os angolanos vão conseguir...
independente, para a melhoria das instituições Mas houve mudanças e aberturas...
públicas. Eis o que define uma missão e uma Sim, décadas de abertura com a emigração, a televisão, o turismo e, depois do
causa e não um programa político. É-me total- 25 de Abril, as liberdades, as viagens, a integração europeia, a adesão, a liber-
mente indiferente se houver colaboradores um dade do comércio. Os portugueses ficaram a conhecer o que há de melhor no
bocadinho à esquerda ou um bocadinho à direi- mundo e portanto a ambicionar o que há de melhor no mundo. As pessoas
ta... querem ter o sistema médico sueco, o escolar dos noruegueses, as estradas
O que pode já anunciar? dos alemães, os automóveis dos ingleses. Ambicionar uma coisa medíocre é
Até à Primavera de 2010, creio poder ter já em si mesmo um sinal de mediocridade. Os portugueses querem o máximo,
concretizados dois projectos a que chamamos, simplesmente não são capazes de fazer o máximo: não têm organização, nem
em linguagem interna, "permanentes" - durarão capital, nem empresas, nem experiência, nem treino.
sempre. O primeiro - e digo-lhe o nome em E porquê, justamente?
primeira mão - chama-se Pordata, nome já Porque já estamos atrasados há 250 anos, porque perdemos 15 ou 20 anos
registado, que serve para o mundo inteiro e com a guerra colonial, com uma ditadura que durou, durou, com uma Revolu-
para a net, sem acentos circunflexos, nem til, ção que fez disparates, disparates. Tivemos de revolucionar e fazer a contra-
nem cedilhas... Por baixo há um subtítulo, "Base revolução, nacionalizámos e privatizámos. Foi uma perda de tempo, de recur-

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O JORNAL DAS BOAS NOTÍCIAS 31 de Agosto de 2010
sos, de energia e abriu feridas. Ainda hoje noto países da Europa fizeram, que foi dois séculos a lerem jornais e só depois com
que Portugal tem uma maneira de fazer política uma passagem gradual para a rádio e para a televisão.
mais crispada que muitos países da Europa. O Portugal deprime-o?
primeiro-ministro, o chefe da oposição, os Não. Entristece-me umas vezes, irrita-me outras. O que se passa hoje com a
partidos da oposição falam uns com os outros justiça em Portugal entristece-me muito, mas também me irrita.
no Parlamento aos gritos, evocando problemas Quando se debruça especificamente sobre o mapa político e social o que o
de honra, evocando a mentira, a coragem, a aflige mais é a justiça?
vigarice. Nos debates parlamentares de Madrid, É. Há muito que falo disso e todos os anos com mais razão que no anterior.
de Paris, dos Estados Unidos, ou até de Itália Não há alternativa para a justiça, como na saúde, em que se pode escolher o
vemos que as pessoas são capazes de falar privado, ou na educação, onde se vai para outra escola. Na justiça não há
racionalmente, com bons modos e educação, alternativa e ainda bem, não deve haver. Mas a nossa justiça está hoje refém,
sem que lhes falte energia ou têmpera. Mas capturada...
nunca com esta crispação portuguesa, que se Por quem?
vem mantendo ao longo dos últimos 20 ou 30 Pelos grandes grupos profissionais: o dos magistrados, dos procuradores e dos
anos. No fundo, o facto de os portugueses advogados, que são quem ordena e quem comanda a justiça, os operativos, os
serem os mais pobres dos mais ricos cria uma agentes. Não sei como lhes chame, mas qualquer nome é bom. Agora até já há
terrível frustração... Fazendo parte dos ricos - sindicatos, que são uma espécie de infantaria avançada de cada um destes
parece paradoxal mas é verdade, há 150 países grupos. Há evidentemente centenas de juízes fantásticos. Sei que há, e é
mais pobres que nós -, somos o último deles, e possível hoje fazer a diferença entre os 100 ou 200 tribunais que funcionam
isso aumenta- -nos a frustração. A distância muitíssimo bem e os outros. Só que a sociedade portuguesa contemporânea
entre o que temos e o que gostaríamos de ter é está essencialmente nas grandes áreas metropolitanas, o resto é paisagem.
muito maior que noutros casos. Não é bem, mas conta muito menos. E o que se passa é que a sua vida privada,
No início dos anos 70 a nossa situação era familiar, as sucessões, as heranças, os despejos, os contratos de trabalho, os
boa... requerimentos... tudo está hoje em causa porque não há justiça, não há recur-
Continuo a pensar isso. Mas comparando com so para nada nem para ninguém. Se quiser resolver um problema, recorre a
países que tiveram recentemente de fazer quem? À justiça. Há 20 anos os magistrados vinham em primeiro lugar, era o
profundíssimas reformas, como a República grupo profissional que mais confiança merecia dos portugueses. Estão hoje em
Checa, a Polónia, a Hungria, a Eslovénia, dou- penúltimo lugar; abaixo só os deputados. É o grupo mais destituído da con-
me conta de que estão a ir mais depressa e fiança dos portugueses. Os portugueses não confiam nos tribunais nem nos
melhor que nós. Estão mais consolidados e, magistrados e isto é terrível, mina a alma, mina os sentimentos, mina o cora-
tendo menos anos de democracia, parece que ção.
têm mais. Têm melhor cultura, melhor forma- Como se inverte tal estado de coisas?
ção e usam muito melhor que nós os meios que O poder legislativo e o poder executivo. Não há outra maneira. Em Portugal há
têm. uma confusão profunda entre independência e autogestão. A independência
Qual a falta mais gritante? dos juízes é aquela com que, no tribunal, diante das partes, julgam e ditam a
Parece-me óbvio que há uma falta de empresá- sentença, e não pode haver a menor beliscadura a essa independência. No
rios, de capitalistas. Será um problema ances- entanto, isso não quer dizer autogestão, que significa organizar as carreiras, os
tral? Vem da nossa maneira passada de viver e dinheiros, as comarcas, as promoções, fazer nomeações e avaliações. Ora isso
de gastar? Dos desperdícios? Do facto de os está totalmente em autogestão. Enquanto o poder executivo, através do
ricos portugueses terem vivido à sombra do poder legislativo - porque ambos representam o povo -, não tomar a iniciativa,
Estado durante 200, 300 ou 400 anos? De o a justiça piorará. Há meses que assistimos a ela estar cada vez pior, cada vez
Estado ter ocupado tudo desde os Descobri- pior...
mentos? Não quero ir por aí, mas o resultado é Tem a tentação de fazer comparações negativas entre a classe política de
este. Há poucos empresários, poucos capitalis- hoje e a gente do seu tempo, quando foi ministro, deputado, dirigente parti-
tas com capitais, as elites são fracas e têm uma dário, fundador dos Reformadores, o movimento político criado em 79?
noção medíocre do serviço público. É raríssimo Isso é ingrato, as circunstâncias eram tão diferentes... Eram tempos de grande
encontrar ricos, poderosos, famílias antigas, empenho, grandes causas, quase de vida ou de morte. Hoje estamos na "vida
com um sentimento forte do contributo que normalizada", em que os políticos fazem carreira e ela pode produzir pessoas
podem dar à sociedade. interessantes, ou não. Não é uma vocação, é uma carreira. Diz-se que muitas
Que mais falta? pessoas competentes saíram da política mas fizeram-no porque dantes ela era
Falta literacia. Tínhamos há 30 anos a mesma uma vocação que se confundia com uma causa. Hoje há certamente pessoas
taxa de analfabetismo que a Inglaterra de 1800. capazes, o que têm é uma maneira muito diferente de fazer política.
Em matéria de alfabetização havia 150 anos de Diferente como?
atraso. Porque é que os portugueses não lêem Porque se fala tanto, há cinco ou seis anos, de um crescendo da propaganda
jornais? A falta de hábito de ler os jornais é política? Porque a vontade não é que as pessoas participem, mas que se limi-
muito importante, porque o jornal é a fonte de tem a subscrever, e passivamente. Se se quiser participação, há que respeitar
informação que mais está virada para o raciocí- as pessoas, dando-lhes conhecimento, informação e manifestando respeito
nio, o pensamento, a participação. Quem vê pelas opiniões contrárias. Participar é isso. Quando não se quer que as pessoas
televisão está geralmente em posição passiva. participem faz-se propaganda: exigindo obediência ou impassibilidade.
Mas hoje a imagem é rainha. O apetite por um Nunca houve como hoje um governo tão praticante da propaganda?
jornal nunca igualará o da televisão... Há 15 anos que vem aumentando, aumentando... O último governo foi o que
Mas quem tem como informação exclusiva a teve mais vontade e mais meios - que hoje são fantásticos: empresas, agên-
televisão subordina o raciocínio, o pensamento, cias, inúmeras pessoas a trabalhar com esse objectivo...
o estudo, o lápis que toma as notas, às emo- Daí à tal "asfixia" vai - ou não vai - um passo?
ções. É mais fácil ser livre e independente com O problema é a dependência, não a asfixia...
um papel na frente do que diante de uma ima- Prefere chamar-lhe "dependência"?
gem que é fabricada com som e se dirige às Prefiro, acho que é mais grave. Em Portugal quase toda a gente depende do
emoções e aos sentimentos e não à razão - ou Estado, do governo, das instituições públicas oficiais, dos superiores, dos
pouco à razão. Sou consumidor de televisão e empregadores. Não há verdadeiros focos de independência. Depende-se de
da net, mas o que quero dizer é que, ao contrá- muita coisa: do alvará, de ter autorização, de ser aceite, da boa palavrinha do
rio de todos os países europeus, quando os bom secretário de Estado que diz ao bom banqueiro que arranje uns bons
portugueses começaram a aceder à escola e a dinheirinhos para fazer o investimento. A dependência é enorme. Não é asfi-
aprender a ler, nos anos 50 e 60, já havia televi- xia, uma vez mais, é dependência. As pessoas têm receio pelo seu emprego,
são. Não se fez o caminho que todos os outros pelo seu trabalho, pelo trabalho da família. Conheço algumas que até têm

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O JORNAL DAS BOAS NOTÍCIAS 31 de Agosto de 2010
receio de falar... sabemos - do endividamento aos fumos de corrupção -, convinha que o país
Já fomos mais independentes? ouvisse mais o Presidente da República?
Há 20 anos havia mais independência em Por- Penso que sim. Desde o conflito sobre o Estatuto dos Açores que está esgota-
tugal, nas associações, nas empresas... Durante da a cooperação estratégica, e com isso a boa saúde das relações entre os dois
o marcelismo, por exemplo, não havia mais órgãos de soberania, Presidência e governo. Não creio que ainda se possa
independência mas as pessoas estavam mais esperar mais alguma coisa. A não ser cordialidade institucional. Por isso
dispostas a correr riscos e nessa altura eles defendo o envio de mensagens do Presidente à Assembleia da República. Os
eram bem mais pesados: metia deportação, argumentos serão mais consistentes e terão o povo como testemunha. A
cadeia, polícia. Hoje há muito menos disponibi- opinião pública pode ser a grande parteira da democracia.
lidade para o risco porque a dependência é
muito, muito forte. Bento XVI, Pessoa e a fome de beleza
O país está muito doente?
por José Tolentino Mendonça, Jornal i, 12 de Maio de 2010
Está dependente, doente não. Há um fenómeno
de esgotamento, de cansaço. Entre 1960 e 1995 Há imagens que valem por mil palavras: são aquelas raras, capazes de expres-
houve uma verdadeira cavalgada: fomos o país sar, ao mesmo tempo, a realidade na sua imediatez flagrante e o que precisa-
que mais cresceu e se desenvolveu na Europa, mente nela escapa ao imediato, apontando camadas profundas de significa-
com uma mudança demográfica completa, ção. Robert Doisneau explica isso bem, falando da sua arte: «A fotografia é
outra nos costumes, algo de absolutamente para mim o instante de felicidade em que aquilo que nos entra pelos olhos nos
fantástico! De repente chegámos a 90 ou 95 e dilata». Doisneau valorizava os momentos culminantes, as situações que, de
percebemos que não tínhamos inovado nem repente, fixam diante de nós a gravidade e a leveza; não só o repetido, mas
criado muito... Fizemos auto-estradas - qual- também o único; não só o próximo e audível, mas também o silencioso e
quer país com um cheque na mão as faz -, mas invisível. Tais momentos descobrem a vida numa singularíssima intensidade.
não fizemos novas empresas, novos projectos, O encontro de Bento XVI com os artistas
novos produtos. E perdemos muito do que No encontro de Bento XVI com os Artistas, em Novembro passado, houve para
tínhamos: demos cabo da floresta, demos cabo mim duas imagens assim. A primeira delas aconteceu quando a numerosa
da agricultura, demos cabo do mar. Três coisas comitiva de Criadores convidados, uma vez passado o Portão de Bronze, se
imperdoáveis, três erros históricos. E não sei se estendeu pelo vasto corredor, chamado Braço de Constantino, em direcção à
ainda é possível voltar a prestar atenção à flo- escadaria Régia e à Capela Sistina. Não sei bem em que altura, nem por que
resta, à agricultura, ao mar... motivo me voltei para trás. O que eu sei é que tive o desejo de conservar o
No Portugal de hoje que há que valha a pena? que vi então para sempre. Centenas de artistas vindos do mundo inteiro,
Há coisas que se conseguiram: nas telecomuni- muitos deles protagonistas de primeiro plano no campo da literatura, da
cações, na organização da banca, um bocadinho música ou das artes visuais, caminhavam como uma multidão compacta, num
na universidade, outro bocadinho na ciência, clima inteiramente cordial, dentro de um trilho emblemático da Igreja, para
numa ou outra indústria, na distribuição dos um encontro solicitado pelo Santo Padre. Há imagens que valem por mil pala-
produtos de consumo diário (que está muito vras. No encontro, e a propósito dele, falar-se-ia muito da reconciliação da
bem organizada). Mas são as excepções. No Igreja com a Arte Contemporânea e da necessidade de renovar o pacto que
resto, importamos 4/5 do que comemos. Hoje, tão intimamente liga a procura espiritual e a procura da beleza, no interior do
no produto nacional, 3% ou 4% são agricultura e espaço católico. Aquela imagem, para mim, representava isso: a reconciliação
alimentação, 20% ou 25% são indústria. Ou seja, que começa a efectivar- -se sob a forma de presença, o pacto que se modela
produtos novos, feitos em Portugal, são 30%, na abertura de parte a parte ao diálogo, ao acolhimento, ao caminho comum.
menos de um terço. Que vamos exportar daqui A outra imagem irrompe do modo como Bento XVI se despediu dos Artistas,
a dez anos? E daqui a 20? Serviços? Quais? no final do seu inesquecível discurso. Ao longo deste, o Santo Padre citou
Financeiros, bancários, serviços de informações, vários passos importantes dos magistérios anteriores; referiu directamente
serviços de quê? Estamos a quilómetros e qui- Platão e Dostoievski, Georges Braque e Cyprian Norwid, Simone Weil, Her-
lómetros de distância da capacidade de expor- mann Hesse e Hans Urs von Balthasar; aludiu a grandes vultos da tradição
tação de serviços da Espanha, de Inglaterra, da iconográfica, como o Beato Angélico, Perugino, Botticelli, Ghirlandaio, Cosimo
França, dos Estados Unidos... Novas coisas, Rosselli, Luca Signorelli e, claro, Michelangelo Buonarroti. Ao escutar ou ao ler
novas indústrias, novos projectos, novos planos, aquele discurso, percebemos que estamos perante uma impressionante lição
novas ideias, fizemos muito pouco. Chegados a de sabedoria, tanto ao nível da cultura, como no plano teológico e espiritual.
95, 96 ou 97, começaram a aparecer os países Contudo, o remate é desconcertante, pois é feito com estas palavras: «Ao
de Leste, apareceu a China, apareceram os abençoar- -vos de coração, saúdo-vos, como já fez Paulo VI, com uma só
grandes concorrentes. No fim da década de 90 expressão: até breve!». Este «até breve» representa uma intromissão da
já a Irlanda estava à nossa frente com inúmeras linguagem do quotidiano numa ocasião de solenidade máxima. Num contexto
reformas feitas - embora hoje se encontre em claramente extraordinário conclui-se adoptando uma marca verbal da expe-
dificuldades -, a Espanha também, e até a Gré- riência ordinária. Digo que me comoveu imensamente esta transição, mais do
cia já nos estava a ultrapassar... que verbal, simbólica. A Igreja aparece empenhada em construir uma convi-
Que conclusão se impõe tirar? E isto para não vência afectuosa e continuada, não apenas uma ocasião pontual.
lhe perguntar que caminho pisar... Regressar à beleza
Se não houvesse a Europa e se ainda houvesse Na arquitectura do discurso que o Papa pronunciou, cabia a esta pergunta o
Forças Armadas, já teríamos tido golpes de papel central: «O que é que pode voltar a dar entusiasmo e confiança, o que é
Estado. Estamos à beira de iniciar um percurso que pode encorajar o ânimo humano a reencontrar o seu caminho, a erguer o
para a irrelevância, talvez o desaparecimento, a olhar além do horizonte imediato, a sonhar uma vida digna da sua vocação se
pobreza certamente. Duas coisas são necessá- não a Beleza?».
rias para evitar isso. Por um lado, a consciência De facto, os outros dois transcendentais, Verdade e Bondade, não têm possibi-
clara das dificuldades, a noção do endividamen- lidade de atrair o homem, a não ser que este se sinta tocado «por algo que
to e a certeza de que este caminho está errado. fascina», como escrevia Plotino. A Beleza é que atrai, faz deslocar o coração,
Por outro, a opinião pública consciente. Os toma e transfigura. Temos, por isso, de ultrapassar o silêncio a que uma certa
poderes só receiam uma coisa: a opinião dos estação racionalista, mesmo dentro da teologia e da praxis cristã, a votava.
homens livres. A Platão devemos o sintagma tantas vezes reproposto, «a beleza é o esplen-
Poderemos estar à beira de uma crise institu- dor da verdade». O autor do Fedro aconselha a que nos tornemos, pelo cami-
cional? nho da contemplação, semelhantes à própria beleza: «Enquanto vê, como no
Com a justiça que temos, sim! Com a cultura tremor da febre, produz-se nele uma agitação, um suor, um calor insólito. É
dominante nos partidos, sim! que recebe o fluxo da beleza pelos olhos. Este fluxo aquece-o e rega a essên-
Em face de tudo o que me disse e daquilo que cia...». Simone Weil, no seu agudíssimo ensaio intitulado "Deus em Platão",
sintetiza: «A ideia de Platão é que a beleza age duplamente, primeiro através
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de um choque que provoca a recordação do arte rivalize com a antiga» - escrevia Leonardo da Vinci, no Tratado de Pintura.
outro mundo, e de seguida como fonte material No seu desenvolvimento histórico, a experiência cristã tornou-se húmus para
de uma energia directamente utilizável para o algumas assombrosas expressões da beleza: a arquitectura religiosa, de
progresso espiritual». Na verdade, já na antigui- Michelangelo a Gaudí; as impressões incandescentes transcritas pelos místicos
dade clássica, o estatuto da beleza se desloca (pensemos em Hildegarda de Bingen ou em São João da Cruz); os registos
do puro plano estético, visual, imanente (isso iconográficos que repetem traço a traço o incomensurável (as multidões diá-
que em grego se diz fantasia). Sentia-se a rias são a prova de que a Sistina arrepia todo o mortal); as peças musicais que
necessidade de aproximação a uma poética da ressoam como inventários da alma ou como seu relâmpago; os dicionários
presença, que é mysterium tremendum. A imensos do natural e do sobrenatural; os símbolos, o laboratório de lingua-
beleza é uma experiência que os sentidos não gens que infinitamente se desdobram. Mas todas estas expressões podem
circunscrevem completamente, mesmo quando tornar-se simplesmente equívocas, pois a beleza não é um património que a
palpam, pois ela permanece inexprimível. Igreja teve ou tem ou administra. A beleza liga-se à revelação da própria Igre-
Uma beleza que se contempla pelas costas ja, à sua identidade sobrenatural. Este é o «grande mistério» referido na pas-
No relato bíblico, Moisés aparece-nos como o sagem da Carta aos Efésios (5,25-26): «Cristo amou a Igreja e se entregou por
amigo de Deus, aquele com quem Deus fala ela...Ele quis apresentá-la esplêndida, sem mancha nem ruga, nem coisa
«face a face, como um homem fala com o alguma semelhante». A Igreja em Cristo, no mistério da sua natureza e da sua
outro» (Ex 33,11). Mas quando pede a Deus missão, é a aurora da visão, é esse arrebatamento, histórico e infinito, ao
para que se mostre, Deus faz passar diante dele ponto de vista de Deus. Em modo velado, mas tremendamente eficaz, ela
«a (Sua) beleza», deixando-se apenas ver «pelas constitui expressão e drama da sabedoria divina. «O sublime Paulo - escreve
costas» (Ex 33, 18-23). A beleza de Deus é, Dionísio, o Areopagita - caído sob o aguilhão do eros divino e tornado partíci-
assim, irrepresentável, transcendente, envolta pe do seu poder extático, clama com voz inspirada: "Vivo, mas já não sou eu
em mistério. Os deuses dos povos vizinhos, que vivo. É Cristo quem vive em mim". Ele fala, pois, como um verdadeiro
esses têm uma substância que se define, um amante, como alguém que, como o mesmo diz, está fora de si e vive extatica-
corpo, uma imagem, um nome que se recita. O mente em Deus (2Cor 5,15), de tal maneira que já não vive a sua própria vida,
Deus da Bíblia deixa em silêncio as possibilida- mas a do amado, como alguém que está cheio de amor apaixonado. Contudo,
des de representação, é transumante e impro- para honrar a verdade, temos de atrever--nos também a dizer que o próprio
nunciável. A sua beleza é somente entrevista. Deus, o criador de tudo, pela desmesura da sua amorosa bondade e beleza,
As teofanias bíblicas são acontecimentos como que é arrebatado de si mesmo em providências que alcançam todos os
desarmantes, porque Deus foge do declarado e seres». A experiência da beleza testemunha como Cristo e o cristão, Deus e o
do nítido e apresenta-se no imperceptível, Homem são arrebatados in invisibilium amorem. Este duplo e recíproco êxtase
naquilo que é apenas sussurrado, «o murmúrio - de Deus no homem e do homem em Deus - é o conteúdo da visão da beleza.
de uma brisa suave» (1Re 19,12). O Código da
Aliança é peremptório: nenhum corpo servirá à Por isso, a beleza não é um atributo, um campo à parte, uma moeda de troca,
representação de Deus, seja «figura de homem um consolo, uma técnica, um código simbólico, um artifício, uma especialida-
ou de mulher, figura de algum animal terrestre, de, um suplemento, como se o Ser e a Beleza se pudessem, de alguma manei-
de algum pássaro que voa no céu, de algum ra, separar. A beleza é uma metafísica concreta, uma teologia visual, um ponto
réptil que rasteja sobre o solo, ou figura de de união entre o mundo invisível e o mundo visível. O chamado regresso à Via
algum peixe que há nas águas que estão sob a Pulchritudinis não se pode confundir com as derivas decorativas que fazem o
terra» (Dt 4,16-18). O Deus Santo é, literalmen- gáudio de alguma sensibilidade hodierna. A forma não seria bela se não fosse,
te, o Deus separado das imagens, o Deus todo fundamentalmente, anúncio e manifestação de uma experiência autêntica.
outro face ao desenho das representações. Mas Como lembrava o Santo Padre aos Artistas, o regresso à Beleza será sim a
o Seu mistério esplende, revela-se, e isso é a descoberta de um caminho que «conduz-nos a colher o Todo no fragmento, o
Beleza. Infinito no finito, Deus na história da humanidade».
1. Esplende enquanto palavra: «Ouvistes o Uma beleza sub contrario
rumor, mas nenhuma figura divisastes: nada, «A beleza salvará o mundo», afirma o príncipe Miskin em " O Idiota", de Dos-
além de uma voz» (Dt 4,12). Palavra que não é toievski. Mas a revelação da beleza que nos salva descobre- -se ao inverso. Na
apenas signo. A sua natureza é performativa: verdade, o belo é um argumento sub contrario, pois o belo pastor «é como
abarca tanto a potência como o acontecimento; raiz que brota de uma terra seca; sem beleza nem esplendor que pudesse
tanto o significante como o significado; tanto o atrair o nosso olhar, nem a formosura que nos deleita»(Is 53,2). Não há beleza
anúncio como o acto. E é uma Palavra bela. Por que não seja costurada pelo escandaloso mistério da cruz. Se acreditarmos no
isso se diz: «O povo bíblico não tem arte, mas aforisma que coloca a beleza como o esplendor da verdade, então temos de
cria arte na palavra». Todas as imagens, as aceitar que a beleza mais elevada é, afinal, uma beleza «sem beleza», a beleza
cores, as cenas principais e secundárias do texto da vítima, a beleza do justo.
bíblico tornaram-se, ao longo da história da Na aguda reflexão sobre a cultura contemporânea, George Steiner recorda
arte, uma espécie de alfabeto. É evidente que a que um grande sintoma de que a beleza perdeu o seu sopro vital é o facto de
beleza da palavra bíblica mais do que um exer- os homens que criaram e mantiveram Auschwitz serem, afinal, requintados
cício de estilo, é uma consequência da sua melómanos, reunirem colecções fabulosas de pintura, se comoverem à leitura
tensão revelatória. de um poema. A beleza sem transcendência é mercadoria, mero artefacto de
2. Esplende enquanto presença irresistível. Em consumo. Por isso também, um dos textos mais belos do séc. XX é o Diário de
momentos determinantes da experiência reli- Etty Hillesum, começado a escrever em 1941, quando tinha apenas 27 anos e a
giosa, o sussurro é o de uma beleza divina que três da sua morte nas câmaras de gás, em Auschwitz. Recorde-se o que ela
se atravessa, obscura e fulgurante, uma beleza escreveu numa madrugada de sábado: «...da minha cama olhava para fora,
que se prende ao nosso corpo, num combate pela grande janela aberta. E era como se a vida com todos os seus segredos
nocturno, até ao romper da aurora. A misterio- estivesse de novo junto a mim, a ponto de a poder tocar. Tinha a sensação de
sa luta de Jacob com Deus (Gn 32,23-33) trans- repousar sobre o seu peito nu, de sentir o bater regular e ligeiro do seu cora-
creve paradigmaticamente como a irrupção do ção. Estava entre os braços vazios da vida e sentia-me tão segura e protegida.
divino é tão forte, de uma beleza irresistível, Pensava: como tudo é estranho. Existe a guerra. Existem campos de concen-
sem deixar nunca de ser obscura e enigmática. tração. Pequenas barbáries acumulam-se de dia para dia...Conheço a grande
Uma nova beleza apareceu dor humana...sei que todas estas coisas existem, e ainda assim insisto em
«Depois de ter morrido no Oriente um Homem olhar nos olhos cada fragmento de realidade inimiga. E num momento de
que o Ocidente chora todas as sextas-feiras, abandono, encontro-me sobre o peito nu da vida e os seus braços vazios
juntamente com a nova verdade, uma nova envolvem-me, tão doces e protectores, e o bater do seu coração que não sei
beleza apareceu. Grande milagre esse, que veio sequer descrever».
renovar a fonte da arte e permitir que a nova

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Bento XVI na pátria de Fernando Pessoa nidade e também um dos seus sintomas, na radicalização daquela fractura
Na sua vinda próxima a Portugal, Bento XVI tem interior até à completa pulverização. Nesse sentido, a heteronímia traduz não
um encontro marcado com representantes apenas uma estratégia de composição literária, mas também um movimento
dessa realidade coral que é sempre uma cultu- espiritual: precisamente o do homem que se descobre refém da impotência
ra. Ora, uma das ambições comuns do turista extrema de se conceber já e exprimir como unidade. Numa paráfrase do Sal-
que visita Lisboa é fazer-se fotografar ao lado da mo 22, que Jesus reza na Cruz, o poeta escreverá também como sua Paixão:
estátua de Fernando Pessoa (1888-1935), dian- «Meu Deus, meu Deus, a quem assisto? Quantos sou? Quem é eu? O que é
te do emblemático café "A Brasileira", onde este intervalo que há entre mim e mim?». E a Paixão de Fernando Pessoa é
gerações de artistas se reuniram. Não há guia hoje, realmente, Paixão de tantos! Fome de sentido e de beleza!
turístico que não recomende uma atenção
privilegiada à obra poética de Pessoa. E existem Tornar este mundo mais belo
abundantes razões, não só literárias, para isso.
João César das Neves
Dir-se-ia mesmo que as principais, aquelas que DN 20021104
tornaram o poeta um ícone europeu contempo- A Humanidade nos últimos séculos foi dominada pelo sonho mais maravilhoso
râneo, são razões de civilização. e estimulante da História: a busca de um mundo novo. A plausibilidade deste
Pessoa é um surpreendente caso, se pensarmos mito primordial fez nascer as maiores grandezas e as maiores misérias. Hoje,
que a revelação da sua obra dá- -se praticamen- somos herdeiros do sonho, mas também da desilusão. O nosso desânimo
te numa estação póstuma: em vida publicou sistémico nasce da sensação de termos experimentado tudo, sem atingir o
apenas um livro e esparsa colaboração em sucesso prometido. Hoje já ninguém acredita. Mas agora alguém vem dizer
revistas. Ninguém podia então adivinhar que a que ainda há um caminho para o ideal.
famosa arca dos seus manuscritos escondia um O Ocidente viveu empolgado pelas tentativas de chegar a um mundo livre e
dos mais apaixonantes escritores do século XX. justo que, em vários âmbitos e de múltiplas formas, pareceu possível realizar.
A derradeira frase que pronunciou no leito de Quase podemos relacionar cada um dos séculos com um dos seis campos
morte, «I know not what tomorrow will bring» dessa demanda: o espaço, a religião, a ciência, a economia, a política e a famí-
(«Não sei o que o futuro trará»), foi ganhando lia.
também, a este nível, uma intensa coloração O mundo moderno nasceu no século XV, quando as caravelas levaram a Euro-
autobiográfica. Quem o visse naqueles anos, pa a mundos realmente novos. Os Descobrimentos abriram perspectivas exó-
disfarçado de anónimo empregado de escritó- ticas e inesperadas. Após milénios de miséria, opressão e labuta, nascia o
rio, traduzindo correspondência comercial em sonho de abandonar a terra velha e começar tudo de novo, livre dos arcaicos
pequenas firmas de exportação, estaria longe erros, azares e conflitos. O europeu de Quatrocentos gritou por liberdade e
de supor que se cruzava com um Criador da sonhou com uma sociedade nova.
dimensão de Kafka, de Joyce ou de Musil. No século seguinte, a demanda da novidade foi aplicada à mais determinante
A poesia como diagnóstico espiritual das realidades, a religião. A Reforma de Lutero e Calvino representa a mesma
A poesia de Pessoa é um diagnóstico espiritual busca das caravelas, mas no campo eclesial. Só que, se no âmbito geográfico
impressionantemente certeiro da Modernidade. essa ânsia se revelou pacífica e proveitosa, na área doutrinal a luta foi suma-
A essência da cultura moderna não determinou, mente perturbadora e feroz. As «guerras religiosas» ensanguentaram o conti-
ao contrário do que se diz, a ausência do senti- nente por mais de cem anos. As cicatrizes duram ainda hoje.
mento religioso ou da metafísica, da ética ou da No século XVII a busca passou para o campo científico. O tempo de Galileu e
estética. O que define a Modernidade mais do Newton abriu novos mundos intelectuais e experimentais, cujo valor ainda
que o vazio é o excesso. As antigas esferas não se esgotou. Seguiu-se, no século XVIII, o campo económico. A «revolução
subsistem, aquilo que funda a certeza ou a industrial» aplicou as ideias da ciência e rasgou oportunidades inesperadas na
crença permanece. Mas sob um regime novo: o prosperidade e no conforto. Estes foram os sucessos mais duráveis da busca
de uma radical autonomização que confere à multissecular.
cultura e ao homem um perfil estilhaçado. A Então, o século XIX orientou-se para o campo político. E voltou o sangue e a
partir de agora somos fragmentos de uma uni- turbulência. As novas ideologias e sistemas derrubaram velhos privilégios e
dade perdida, dispersão incontrolável, orfanda- disparidades arcaicas. Mas também geraram revoluções e lutas, que a ciência
de e ficção. Como o poeta enuncia numa passa- e a economia ajudaram a tornar destruidoras. Quando a essas se juntaram as
gem de um dos seus poemas mais conhecidos, conquistas geográficas, as guerras foram mundiais.
"Tabacaria": Finalmente, o século XX, herdeiro dos avanços na distância, na teologia, na
natureza, na riqueza e no poder, tentou revolucionar a mais íntima das dimen-
«Fiz de mim o que não soube sões, a família. Generalizaram-se realidades como a promiscuidade, o adulté-
E o que podia fazer de mim não o fiz. rio, o divórcio, a homossexualidade, o aborto, a pedofilia. Os ganhos face à
O dominó que vesti era errado. família opressiva foram muitos, mas o sofrimento é enorme. E mais profundo
Conheceram-me logo por quem não era e não e surdo que nunca, por se situar na própria identidade pessoal.
desmenti, e perdi-me. É difícil descrever o entusiasmo apaixonado com que em cada época, nave-
gantes, reformadores, estudiosos, empresários, revolucionários, hippies e
Quando quis tirar a máscara, tantos outros, se empenharam em cada uma destas buscas. O ser humano
Estava pegada à cara. acreditou sempre a fundo e jogou tudo no mundo novo que se abria. O novo
Quando a tirei e me vi ao espelho, milénio nasce repousando na apoteose desses ganhos: a aldeia planetária e o
Já tinha envelhecido...» diálogo de religiões, a hegemonia científica e a globalização económica, o ideal
democrático e a liberdade sexual. Mas o ser humano não está mais feliz. Sen-
Pessoa levará ao assombro o processo da hete- te-se mais perdido que nunca.
ronímia, que representa fundamentalmente Afinal, o tal mundo novo nunca chegou. E o abandono das antigas referências
esta dissociação interior. Ele não usa pseudóni- criou um vazio e uma confusão avassaladoras, sobretudo na fé, na ideologia e
mos, mas heterónimos: com meticulosidade na intimidade. Sente-se uma ânsia de valores, de orientação, a que ninguém
desarmante, planeia a existência de poetas dá resposta. Temos mais do que nunca e sentimo-nos os menores de sempre.
autónomos, diferentes na sua índole e na sua Já tentámos tudo. Só falta mesmo o ideal prometido.
escrita, contrastantes e perfeitos nos tiques, Há dias, um dos poucos homens que ainda fala com autoridade ao mundo,
nos gostos, no humor. É verdade que já Rim- apontou um caminho para a vida perfeita. A sua solução situa a busca num
baud havia dito, na famosa carta dita "du plano diferente das anteriores: dentro do ser humano, não fora. O papa João
Voyant", endereçada em 1871: «Je est un Paulo II, na Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae sugere uma via sur-
autre». E Pirandello escrevia contemporanea- preendente para o mundo novo: rezar o terço todos os dias.
mente o seu «Uno, nessuno e centomila». Mas Trata-se de uma oração singela e vetusta, quase ingénua. Mas a sua finalidade
Pessoa tornar-se-á um dos videntes da Moder- é a mesma das grandiosas demandas dos últimos séculos: «Como se poderia
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fixar os olhos na glória de Cristo ressuscitado e lhe Jesus: «Que está
em Maria coroada rainha, sem desejar tornar escrito na Lei? Como
este mundo mais belo, mais justo, mais confor- lês?»O outro res-
me ao desígnio de Deus? (...) Longe de consti- pondeu: «Amarás ao
tuir uma fuga dos problemas do mundo, o Senhor, teu Deus,
rosário leva-nos assim a vê-los com olhar res- com todo o teu
ponsável e generoso, e alcança-nos a força de coração, com toda a
voltar para eles com a certeza da ajuda de Deus tua alma, com todas
e o firme propósito de testemunhar em todas as as tuas forças e com
circunstâncias «a caridade, que é o vínculo da todo o teu entendi-
perfeição» (Col 3, 14).» (op. cit. 40). Ao mundo mento, e ao teu
desorientado, o papa aponta este «caminho de próximo como a ti
contemplação» (op. cit. 5), que leva, de facto, mesmo.» Disse-lhe
ao mundo novo: rezar o terço todos os dias. Jesus: «Respondeste
Após tantos esforços, por que não tentar? bem; faz isso e vive-
rás.»
Que mundo estamos a criar? Mas ele, querendo
justificar a pergunta
P. Dennis Clark. In Catholic Exchange. Trad. e adapt.: rm
© SNPC (trad.) | 10.07.10
feita, disse a Jesus:
«E quem é o meu
próximo?» Tomando
a palavra, Jesus
respondeu:
«Certo homem
descia de Jerusalém
para Jericó e caiu
nas mãos dos sal-
teadores que, depois
de o despojarem e encherem de pancadas, o van Gogh
abandonaram, deixando-o meio morto.
Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo,
passou ao largo. Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar
e, ao vê-lo, passou adiante. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao
pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feri-
das, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada,
Anónimo holandês levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois dená-
rios, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: ‘Trata bem dele e, o que gastares a
mais, pagar-to-ei quando voltar. ’Qual destes três te parece ter sido o próximo
daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?» Respondeu: «O que
usou de misericórdia para com ele.» Jesus retorquiu: «Vai e faz tu também o
mesmo.» (Lucas 10, 25-37).
Uma jovem mãe estava a ter um dos piores dias da sua vida. O marido havia
perdido o emprego; o esquentador tinha explodido; o carteiro trouxe um
monte de contas que ela não podia pagar; o seu cabelo estava péssimo e
sentia-se gorda e feia. Estava quase no ponto de rutura quando levantou o seu
filho de um ano e o sentou na cadeira de bebé, apoiou a cabeça no tabuleiro e
começou a chorar. Sem um murmúrio, a criança tirou a chucha da sua boca... e
carinhosamente colocou-a na dela!

*****
Compaixão: Ele desconhecia a palavra mas o seu coração conhecia a necessi-
Théodule-Augustin Ribot dade. E deu o que tinha. Nós somos, de tantas maneiras, os artífices dos mun-
dos dos outros. Minuto após minuto criamos o mini-mundo em que vivemos
juntos. E na maior parte das vezes nem sequer pressentimos como é enorme a
nossa capacidade de levar alegria ou tristeza, cura ou dor aos outros.
Por exemplo, quando participamos na missa estamos a criar um breve e
pequeno mundo. Outras pessoas, cujos nomes nem sequer conhecemos,
prepararam o espaço para nós: limparam o pó e varreram, arranjaram e colo-
caram flores, ensaiaram os cânticos. Agora é a nossa vez de fazer da celebra-
ção um espaço calmo, pacífico e acolhedor, um espaço onde podemos ajudar
os outros a experimentar a presença amorosa de Deus, a sua força, o seu
conforto e apoio.
Fazemos isso de inúmeras formas: a forma como entramos e saímos, a forma
como cantamos e rezamos em conjunto, a forma como damos espaço uns aos
outros, a forma como fazemos silêncio uns para os outros. São muitas as
formas como criamos ou destruímos algo admirável.
Toda a nossa vida é assim: desde o momento em que abrimos os nossos olhos
pela manhã até quando os fechamos à noite, temos o poder de criar e o poder
de destruir, o poder de dar os nossos dons – grandes e pequenos – e o poder
Jan Wynants de os recusar.
Provavelmente nenhum de nós encontrará alguma vez um homem a morrer
Levantou-se, então, um doutor da Lei e per- na berma da estrada. E a maior parte de nós raramente será chamada a fazer
guntou-lhe, para o experimentar: «Mestre, que um sacrifício realmente significativo por outra pessoa. Mas todos nós iremos
hei-de fazer para possuir a vida eterna?» Disse- encontrar milhares de pessoas cujas vidas podemos tornar um pouco mais

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ricas, um pouco mais felizes porque estávamos 1998. Apesar de o aumento populacional neste período ter ocorrido sobretu-
lá e porque demos o que tínhamos – tal como do em países pobres, a verdade é que a população nesses países aumentou
aquela criança deu a sua chucha. mais (cerca de 825 milhões) do que o número de pessoas pobres (15,69
A cada momento, cada um de nós tem alguma milhões).
coisa a dar, alguma coisa que é precisa. Dá-la- Observámos também que outros factores surgem associados ao crescimento
emos? Temos de dar, simplesmente porque dar económico: a protecção e estabilidade dos direitos de propriedade; o reco-
os nossos dons é a única maneira possível de nhecimento pelos governos da liberdade de empreendimento e do papel
encontrar a felicidade. A vida não é um despor- central da empresa e do empresário; o reforço das garantias legais fornecidas
to de bancada! Dar os nossos dons – todos eles, pelo Estado de Direito, onde se destaca, entre outros, o controlo da corrupção
todos os dias – é a única maneira de realizar a - designadamente a corrupção governamental.
nossa vida, a única maneira de crescermos à Para aqueles que se preocupam realmente com a pobreza no mundo de hoje,
imagem e semelhança de Deus. isto terá certamente consequências: o dever moral de auxiliar os que precisam
exigirá sempre medidas directas de alívio do sofrimento humano susceptível
Combater a pobreza de ser aliviado; simultaneamente, para que essas situações se tornem menos
prementes e generalizadas no futuro, devem ser criadas condições favoráveis
João Carlos Espada
Expresso, 2002.09.22
ao comércio, à iniciativa empresarial e ao Estado de Direito.
«O dever moral de auxiliar os que precisam
exigirá sempre medidas directas de alívio do Um livro esquecido
sofrimento humano susceptível de ser aliviado; João César das Neves
simultaneamente, para que essas situações se DN, 20020930
tornem menos prementes e generalizadas no Uma das obras mais importantes da cultura ocidental está hoje praticamente
futuro, devem ser criadas condições favoráveis esquecida. Além da volumosa perda civilizacional, o pior são as razões do
ao comércio, à iniciativa empresarial e ao Esta- desaparecimento, que manifestam uma grave desorientação do nosso tempo.
do de Direito.» Diz-se que a Legenda Aurea foi o livro mais lido no século XIV depois da Bíblia.
Ele era, sem dúvida, imensamente popular e manteve--se assim nos séculos
NO CONGRESSO da ACEGE (Associação Cristã de seguintes. O seu autor, Jacobo de Voragine (1230-1298), arcebispo de Génova
Empresários e Gestores) que desde ontem beatificado em 1816, compilou as vidas dos santos do calendário romano de
decorre em Lisboa, terei hoje o prazer de apre- forma elegante, singela e sintética. Este conjunto de 182 pequenas histórias
sentar os resultados de uma investigação que de santidade, do heróico ao humilde, do enternecedor ao empolgante, consti-
foi solicitada por esta associação ao Instituto de tui sem qualquer dúvida uma sublime obra literária. Num tempo como o nos-
Estudos Políticos da Universidade Católica Por- so, fascinado pela aventura, emoção e extraordinário, este livro parece feito à
tuguesa. Durante um ano, dirigi uma equipa de medida. Mais intenso que Indiana Jones, mais surpreendente que O Senhor
investigação, com os mestres Hugo Chelo e dos Anéis, mais variado que Harry Potter, mais misterioso que as Star Wars, a
Miguel Morgado, que procurou testar, isto é, Legenda tem tudo para agradar às audiências. A coragem dos mártires, a
confrontar com os factos, muitas das asserções surpresa dos milagres, o heroísmo das virtudes; princesas, dragões, demónios
hoje em voga sobre a riqueza e a pobreza no e tiranos, santos e pecadores, tudo lá aparece. Conhecemos também a vida
chamado mundo globalizado. O relatório final dos famosos, como a de Nossa Senhora e Madalena depois da Ressurreição, os
será hoje divulgado sob o título Riqueza e actos dos Apóstolos após os Actos, a origem de Judas e da Santa Cruz, etc.
Pobreza (Cascais, Principia, 2002). Nele procu- Tudo isto numa obra de imenso interesse histórico e artístico, alto valor literá-
rámos reunir evidência empírica relevante com rio, moral e cultural. A grande maioria da arte sacra, vitrais, frescos, poemas, e
base em estudos e relatórios internacionalmen- até os nomes de terras e locais, só são compreensíveis com base neste livro,
te credíveis, todos devidamente identificados e onde se inspiraram milhares de artistas e autores. Formando a cultura, a esté-
hoje facilmente acessíveis - logo, facilmente tica, a consciência e o carácter dos leitores, tudo o recomenda para as nossas
controláveis. Os resultados que encontrámos estantes. Mas, após séculos de intensa leitura, a Legenda Aurea quase desapa-
contrariam e desafiam vigorosamente muitos receu no século XIX. Ficou por fazer a indispensável edição crítica. Sem o texto
dos pressupostos ainda hoje correntes na nossa estabelecido cientificamente, as edições são poucas e de qualidade variável.
atmosfera intelectual. Está acessível em cuidada tradução inglesa na Princeton University Press,
Verificámos que o crescimento económico francesa na GF--Flammarion, entre outras. Em português nada. Porquê? O
contribui decisivamente para melhorar as opor- cientifismo triunfante montou nos últimos 200 anos talvez o ataque mais feroz
tunidades do maior número, incluindo os mais e implacável que a religião alguma vez suportou. Alegando-se detentora da
pobres. Observámos que os países com econo- verdade indiscutível, a ciência desafiou abertamente a fé, em particular a
mias mais ricas são também aqueles em que as cristã, com a acusação de ficção mítica e fabulosa. A resposta foi simples. O
classes médias cresceram, tornando por isso cristianismo aceitou o desafio e tornou-se a crença mais estudada, analisada e
mais baixos os índices de desigualdade e, além esquadrinhada de sempre. A História, Arqueologia, Antropologia, Linguística,
disso, elevando decisivamente o nível de vida até a Física e Química, foram usadas para pôr em causa os factos e afirmações
de todos, incluindo os mais pobres. da Igreja. As descobertas e resultados desses estudos foram excelentes. Mas,
Para esse crescimento, observámos que a aber- se teve efeitos muito interessantes, o esforço gerou algumas perdas significa-
tura das economias nacionais ao comércio tivas. A busca do rigor e demonstração na fé apagou a espontaneidade, a
internacional é em regra uma condição favorá- devoção, a arte. Desde o ataque furioso dos cientifistas, os cristãos passaram a
vel e não desfavorável. Os países pobres que tomar uma atitude de acanhamento, quase vergonha. Alvos de permanente
começaram a abrir as suas economias ao exte- discussão e dúvida, os crentes habituaram-se a justificar-se, a pedir licença
rior nas décadas de 1980 e 1990 registaram para falar, a prestar vassalagem à cultura dominante. As consequências foram
elevadas taxas de crescimento anual do PIB drásticas. No tempo que mais exterioriza os sentimentos, desapareceram as
«per capita», bem como taxas positivas de procissões, as penitências públicas e manifestações de fé. No tempo da pro-
convergência com os países já desenvolvidos. moção da arte, a liturgia empobreceu e escondeu-se a arte sacra. No tempo
Em contrapartida, os países pobres que perma- das convicções, partidos e manifestações, apenas a Igreja faz cerimónia. Há
neceram fechados revelam taxas de crescimen- liberdade para se dizer o que se quiser, mas afirmar um princípio religioso é
to muito baixas e taxas de convergência negati- subjectivo e arbitrário, remetido para a intimidade. As asneiras são livres, até
vas. arrogantes; só a devoção é tímida. Foi esta a causa do esquecimento da
A abertura ao comércio internacional de países Legenda Aurea. Ninguém duvida que o livro mistura narrativas verdadeiras
pobres como a Índia, a China, a Tailândia, ou o com contos fabulosos. No esforço de demonstrar a verdade histórica do cris-
Uganda e o Botswana, entre outros, parece tianismo, ele foi um dos primeiros sacrificados. A perda foi injusta, além de
explicar porque a pobreza absoluta desceu no insubstituível. O autor tinha consciência do problema e fez o possível para o
mundo em termos percentuais entre 1987 e corrigir. O volume não é um conjunto de mitos («legenda» não significa «len-
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das» mas «leituras», do verbo latino «legere», tram totiusque Ecclesiae suae sanctae" Não perceberam? Ainda bem.
ler). Está ordenado pelo calendário, celebrando
cada santo na sua festa e incluindo capítulos 2. A constituição sobre a liturgia, que substituiu o latim pelas "línguas vivas",
sobre Advento, Epifania, Paixão, Todos os San- autorizou a concelebração, permitiu a comunhão sob duas espécies, reformou
tos, etc. Constitui, portanto, um livro paralitúr- o missal e o breviário, bem como o ritual dos sacramentos (entre muitas
gico, revelando ao povo a personalidade cele- outras reformas menores, como, por exemplo, a abolição da missa "pro peti-
brada em cada dia. O autor tem também um tione lacrimarum", a que fiz referência na minha última crónica), foi promul-
cuidado extremo em indicar as suas fontes, para gado no fim da segunda sessão do Concílio Vaticano II, em Dezembro de 1963.
evitar falsificações. E, quando cita um episódio O texto foi votado 78 vezes e aprovado, finalmente, com 2147 votos a favor e
um pouco mais incrível, ele próprio refere a sua 4 contra. Ao que parece, os bispos acharam que se acabava com "um isola-
dúvida. Trata-se pois de uma obra séria e res- mento sem sentido", que não tinha razões bíblicas mas apenas históricas. Mas
peitável, onde abundam os elementos hagiográ- não serão históricas todas as razões incluindo as bíblicas? Por mim, falo. Nun-
ficos de devoção popular. Esse é precisamente o ca mais "senti" na missa o que nela sentia antes do concílio e não creio que
seu valor. A fé não é apenas acreditar no Credo, isso se deva, apenas, às minhas crises de fé, de esperança e de caridade. Como
seguir os Mandamentos, rezar o Pai-Nosso. É recordou Ficino, quinhentos anos antes do concílio, "não era sem razão que os
também viver a Legenda Aurea. Pobre a gera- antigos colocavam uma esfinge, pintada ou esculpida, sobre as portas dos
ção que a despreza. templos. Mostrando essa imagem, demonstravam que das coisas de Deus não
se deve falar publicamente, a não ser por enigmas."
Memórias do Vaticano II
3. É bom que, ao escolher-se um tema que muito vivemos, lhe comecemos por
Por JOÃO BÉNARD DA COSTA
Sexta-feira, 11 de Outubro de 2002
tirar os espinhos antes de o transformar em imagem e em memória. Foi o que
É bom que, ao escolher-se um tema que muito fiz. No Vaticano II, o vernáculo é o meu espinho e a minha espinha. Por isso o
vivemos, lhe comecemos por tirar os espinhos esconjurei ao principiar.
antes de o transformar em imagem e em Posso agora dizer, como é verdadeiramente digno e salutar, que se comemora
memória. Foi o que fiz. No Vaticano II, o verná- hoje - 11 de Outubro de 2002 - o 40º aniversário do início dos trabalhos conci-
culo é o meu espinho e a minha espinha. Por liares, em Roma, a 11 de Outubro de 1962.
isso o esconjurei ao principiar Outro dia perguntaram-me se eu me lembrava do que fiz nesse dia. Não me
lembro. Mas lembro-me muito bem que estava em casa da Maria Leonor e do
1. No último dos seus romances - "A Alma dos Nuno Bragança, quando, à hora do jantar, o Nuno chegou a casa a dizer que o
Ricos", segundo tomo de "O Princípio da Incer- Papa tinha anunciado, em São Paulo-Fora-de-Muros a 18 cardeais, a sua inten-
teza" - Agustina Bessa Luís escreve a páginas ção de convocar um concílio. Foi a 25 de Janeiro de 1959, cinco meses menos
tantas: "O que não entendemos é objecto de um dia antes do nascimento do meu filho mais velho.
culto. Quando a Igreja Cristã tirou o latim da O Papa era João XXIII, eleito a 28 de Outubro de 1958, aos 77 anos. Quando se
missa, perdeu muito da sua sacralidade." soube dessa eleição, o mesmo Nuno - sempre o mesmo Nuno - comentou
Eis uma afirmação que plenamente subscrevo e comigo que o Espírito Santo talvez se tivesse distraído um bocadinho. Depois
há muitos anos sustento. Ainda nada sabia de do longo pontificado de Pio XII (1939-1958) dizia-se que a Igreja precisava de
latim, já ajudava às missas de monsenhor Porfí- um "papa de transição", que não reinasse muito. Um papa que não fizesse
rio da Cruz Quintella, prior da Golegã, na capela ondas. Será que havia esse tempo a perder, perguntava-me e perguntava-se o
da casa do dr. Bustorff Silva, na Arrábida. A Nuno. Mas a homilia de coroação já foi uma surpresa. Ao assumir-se como
talha dourada da capela diziam-na recuperada bispo de Roma, "irmão de todos os bispos do universo", retirando a primazia à
ou desviada da nau "Portugal" da Exposição de chefia da Igreja universal, tão proclamada por Pio XII, João XXIII espantou pela
1940. O monsenhor trocava a Golegã pela Arrá- vez primeira (ou pela segunda, já que a escolha do nome também deixara
bida nos meses estivais. O reumático apoquen- muitos perplexos, pois que joões papas os não havia desde o século XIV).
tava-o e andava apoiado em muletas. "Olha, o Mas a 25 de Janeiro de 1959 aconteceu muito mais. Um concílio? Ninguém
monsenhor a remos", disse o Vasco Santana, pensava nisso. E muito menos num concílio para aproximar a Igreja do mundo
que o conhecia de miúdo e do Ribatejo e já não então contemporâneo. Daí o nosso entusiasmo nesse dia. Algo ia mudar. Uma
o via há eternidades. Aos fins de tarde, o bom nova era. Um concílio - o 22º da história da Igreja - ia fazer parte da nossa
do velho, que não tinha acólitos nas redonde- história, quase cem anos depois do Vaticano I, que não era santo do nosso
zas, ensinou alguns miúdos de casas próximas a altar.
ajudar a missa. Os estranhos rituais das ablu-
ções eram-me tão misteriosos como essa língua, 4. Reforma da Igreja como povo de Deus. Diálogo com os outros cristãos.
com que, logo de entrada, eu respondia ao Diálogo com o mundo. Durante os trabalhos pré-conciliares, estes foram os
"Introibo ad altare Dei" do sacerdote com o "Ad três grandes vectores de orientação do pensamento de João XXIII. Marcaram
Deum, qui laetificat juventutem meam". E igualmente a primeira sessão conciliar (Outubro a Dezembro de 1962), a ses-
Alguém ou Algo me alegrava de facto, nesse são que "tomou o pulso à Igreja". Depois, foi a "Pacem in Terris". Depois, a
latim que primeiro me ensinaram a pronunciar morte de João XXIII (3 de Junho de 1963, aos 81 anos, cinco anos incompletos
(com as acentuações eclesiais) e só depois me de pontificado). Mas quem viveu esses anos, por exemplo em Portugal, recor-
ensinaram a traduzir, pelos meus 8-9 anos. E em da um clima como nunca mais se viveu na Igreja. Aqui, a política deu-lhe um
latim respondi aos oficiantes - em Portugal e no tempero especial. O reinado de João XXIII coincidiu com o exílio do bispo do
mundo - desde essa idade até aos 30, quando o Porto, com as primeiras manifestações de católicos contra o regime, com o
vernáculo substituiu o alfabeto dos segredos. "Santa Maria", com o fim da Índia portuguesa e com o começo da guerra de
Li já não sei onde que a "revolução litúrgica" se África, com os movimentos estudantis, com os livros da Morais, com o apare-
teria inspirado numa frase de João XXIII: "Quan- cimento da "Pragma" e de "O Tempo e o Modo". A propósito de tudo, discus-
do penso nas belas orações que disse e vós não sões frementes e veementes. O baluarte católico era o primeiro dos bastiões
compreendeis..." Com a devida vénia, neste do salazarismo a mostrar rombos. A "Seara Nova", revista marxista, publicava
caso acompanhada por tudo quanto significou e o retrato do Papa na primeira página, coisa inimaginável nos quarenta anos de
significa para mim o "bom Papa João", neste vida da revista. Em meios muito conservadores, rosnava-se que já tinha havido
caso não o sigo. É o que não compreendemos outro João XXIII, anti-Papa. Quem se seguiria?
que é o mais belo e transcendente. Quando Quanto rezámos para que o sucessor fosse esse cardeal Montini que já tínha-
tudo se passou a entender (se é que se enten- mos sonhado ver suceder a Pio XII. E foi Paulo VI. No dia a seguir à eleição,
de), o mistério desapareceu. E desapareceu a visitei Mário Dionísio, então meu colega como professor no Camões, que
"catolicidade", que me fazia ouvir as mesmas estava hospitalizado. Marxista dos quatro costados, militantemente agnóstico,
palavras no Japão e na Patagónia, na Sibéria e saudou-me com um largo aceno: "Vocês agora têm um Papa a valer." Sorri-
na Nova Zelândia. "Ad utilitatem quoque nos- lhe, orgulhoso.

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O JORNAL DAS BOAS NOTÍCIAS 31 de Agosto de 2010
Mas cedo começaram algumas reticências sobre Saiu recentemente mais uma edição do célebre romance de Dostoiévski: "Os
o novo Papa. "Forma Pacelli, fundo Roncalli", irmãos Karamázov" (primeiro volume). Há anos que o tinha arrumado, numa
dizia-se. Quando saiu a "Ecclesiam Suam", pri- velha edição francesa. Quis relê-lo e, confesso, fui direito ao tremendo episó-
meira encíclica de Paulo VI, escrevi em "O dio do Grande Inquisidor. É muito chocante, mas coloca-nos, poderosamente,
Tempo e o Modo" um artigo que procurava perante as mais dramáticas tentações do Mal. Lá reencontrei a previsão do
desesperadamente provar (ou "poeticamente" Grande Inquisidor, retroactivamente posta a Jesus: "Sabes ou não sabes que
provar, como me acusava, de Roma e da Capela daqui a séculos a humanidade proclamará, pela boca da sua sabedoria e da
Sinistra, o Manuel Lucena, que me recordava sua ciência, que não existe o crime e que, portanto, também não existe o
que o mais poético nem sempre é o mais ver- pecado, mas apenas existem os famintos? Dá-lhes primeiro de comer, e pede-
dadeiro) que Paulo VI evoluía na continuidade lhes a virtude só depois."
do seu predecessor. A fome de que fala Dostoiévski é física, biológica. Talvez por isso, o autor ainda
Foi mais difícil sustentá-lo na 3ª sessão (14 de admitia que, depois de saciada a fome do corpo, se poderia exigir a virtude do
Setembro a 21 de Novembro de 1964) e na 4ª espírito. Mas a fome que hoje lavra pelas nossas sociedades da Europa rica, já
(28 de Setembro a 8 de Dezembro de 1965). Em em grande medida libertas da fome biológica, é outra. É uma fome de sensa-
1964, no mesmo "O Tempo e o Modo" um certo ções psíquicas e emoções bizarras, de todos os consumos e experiências "radi-
Manuel Frade já via nos textos conciliares "mui- cais", uma fome libertária, uma fome pela fome. Saciar esta fome não deixa
to mais da multissecular sabedoria da Igreja do ocasião posterior para a virtude, porque é uma fome do vício. Um exemplo da
que daquele pouco da 'loucura de Deus' de que "comida" que excita essa fome é a má televisão que vamos tendo.
todos os homens têm fome". E acrescentou: "O
milagre não se deu." A degradação da televisão
Mas, se institucionalmente se não deu (e dos
milagres aos cismas, vai às vezes um passo, Ficou célebre a opinião de reserva que, num tempo ainda precoce, em que
como recordou outro padre conciliar), para mim muita gente embarcava em embriagadas visões optimistas sobre a televisão,
esses anos - anos da Concilium, que a Helena Karl Popper emitiu sobre a televisão. Infelizmente, confirmam-se as piores
Vaz da Silva espalhou por Portugal e pelo Brasil - expectativas. Apesar de já estarmos quase habituados ao panorama em gran-
foram anos milagrosos. de parte nauseabundo das nossas programações televisivas, e de muitos de
Quem me tirasse esses anos não me tirava tudo, nós já terem desistido, por desolação, de insistir sobre o assunto (relembro a
mas tirava-me muito. Como escreveu José título de exemplo o pioneirismo de Maria de Jesus Barroso e declarações mais
Bergamín, esses foram anos em que "on respire recentes de António Barreto, na sua coluna habitual), a indignação continua a
au Vatican / Une aura si idyllique / Que le Diable manifestar-se inconformada. Alfredo Barroso escreveu recentemente, na sua
devient chrétien / Tout en restant catholique". prosa bem castigada mas quase violenta, no "Expresso" do passado dia 16,
uma crítica lapidar, intitulada "um país de rabo ao léu". Com efeito! Mas o pior
Liberdade de Educação e Liberdade de é que não se trata de um episódio isolado; e se verifica uma tendência que
não pára (ou só parará um dia, por vómito colectivo final?).
Informação Para colocar ao lado do programa descrito por Alfredo Barroso, li, há dias, que
MÁRIO PINTO se tinha feito uma nova experiência televisiva: uma câmara colocada num
Público, Segunda-feira, 25 de Novembro de 2002
caixão podia fornecer, durante longo tempo, um programa de televisão mos-
No passado dia 16, participei activamente (devo trando a decomposição de um cadáver. Li ainda, mais recentemente, que um
dizê-lo desde já) numa tarde inteira de comuni- médico alemão, que se celebrizou por apresentar esculturas feitas com corpos
cações e debates, que teve lugar num anfiteatro humanos plastificados, fez uma autópsia ao vivo para 300 pessoas e a TV,
da Fundação Gulbenkian, por iniciativa do numa galeria de Londres.
Fórum para Liberdade de Educação, recente- E assim se vai desenvolvendo uma cultura e uma televisão de "Sodoma e
mente constituído por um conjunto de pessoas Gomorra". Temos aqui um problema que vai ao âmago da questão da dignida-
que criticam a intolerável estatização do nosso de humana, mas também da democracia. O mercado, tão vilipendiado pelos
sistema escolar e defendem, para os alunos e que defendem o monopólio da educação escolar estatal, e também criticado
famílias, a liberdade de escolha da educação e, pelos defensores dos direitos sociais contra a economia do neoliberalismo, é
por consequência, da escola. soberano na televisão - que de facto constitui uma rede educativa (deseduca-
Fiquei surpreendido com a grande afluência de tiva) e um grande negócio.
pessoas - contaram-se cerca de mil, que não Quem, de entre alguns mestres que entre nós constantemente nos recordam
couberam no anfiteatro e tiveram de assistir a democracia e criticam o neoliberalismo, nos explica? E que dizer da apatia da
noutras salas através de vídeo. Concluo daí que nossa cultura tradicional de inspiração cristã?
o cansaço do monopólio de um sistema escolar A única consciência que pode andar em paz, por estes dias, é a consciência do
estatista, que produz resultados insuportáveis, relativismo pós-modernista, se for sincera. Pior, contudo, ainda são os mor-
começa finalmente a gerar um activo movimen- nos, aqueles que não são frios nem quentes. A esses, diz-se no Apocalipse:
to de opinião a favor de mudanças que são "Oxalá fosses frio ou quente. Assim, porque és morno, vou vomitar-te da
urgentes - e, de resto, já se estão fazendo ou minha boca."
preparando em outros lugares. Sem embargo, porém, não é com esta condenação de excomunhão que ter-
A comunicação social, por seu lado, pouca ou mina o Apocalipse; mas sim com a promessa esperançosa de um reencontro.
nenhuma importância noticiosa deu ao caso.
Não há dúvidas: os órgãos de comunicação
social fazem uma pré-selecção do que interessa Um acaso
ou não interessa como notícia. Os jornalistas Público 2010-08-29 Vasco Pulido Valente
esforçam-se por nos convencer de que são Nasci, como já disse em outro sítio, em 21 de Novembro de 1941, quando o
independentes. Independentes são, desde logo exército nazi estava a menos de 70 quilómetros de Moscovo e o que parecia
na sua liberdade de pré-seleccionar. Mas essa (erradamente) a civilização do "iluminismo" parecia estar no seu último
pré-selecção está indisfarçavelmente ligada a momento. Hitler perdeu Moscovo e, embora ele nessa altura não percebesse,
opções editoriais que são também ideológicas. foi ali que perdeu a guerra. Tive muita sorte. Não nasci por volta de 1920
Logo, independentes, sim, mas não isentas. (como o meu pai) na Alemanha, em França, em Itália, na Roménia, na Hungria,
Esta é a natureza das coisas. Portanto, não vale na Bulgária ou em Espanha. Devo a minha vida à irrelevância estratégica de
a pena fazer grande questão. O ponto é outro: é Portugal e ao catolicismo ultramontano do dr. Salazar, que obedecia ao Papa
que não há pluralismo. Porquê? Só vejo uma e, como lhe mandavam, não gostava do Reich. Quem sabe destas coisas, sabe
resposta: pecado de omissão de alguns. que a violência da II Grande Guerra, apesar da propaganda, nunca penetrou a
sério em Portugal.
Relendo Dostoiévski Parte da baixa classe média, pude aproveitar a educação dos liceus (primeiro
do Camões, depois do Pedro Nunes), que não eram, como hoje se diz, "facili-
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O JORNAL DAS BOAS NOTÍCIAS 31 de Agosto de 2010
tadores". Bem ou mal, saí de lá com algumas barricados em casa, aguardam o eminente ataque das criaturas vindas de
noções de aritmética, lógica e gramática e, outros mundos.
principalmente, com a ideia (muito proveitosa)
de que tudo aquilo me preparava - num futuro Na casa, estão dois irmãos, ambos agricultores nas infinitas planícies que
longínquo - para trabalhar. A desilusão veio com rodeiam Filadélfia, cidade e paisagem obsessivos na obra de Shyamalan. O
a universidade, em que, fora meia-dúzia de mais velho é Mel Gibson. O mais novo Joaquin Phoenix. Graham (Mel Gibson)
professores, a ignorância, o vício, o fanatismo e fora, até há pouco, padre. Mas perdeu a fé quando a mulher morreu, num
até a loucura regiam o ensino estabelecido e desastre de automóvel. Com os dois irmãos, estão os dois filhos de Graham,
consagrado. Mas, mesmo aqui, o regime não fez um rapaz e uma rapariga, ainda crianças (qual é o filme de Night Shyamalan
de mim um trapo. O movimento estudantil, a em que as crianças não têm um lugar central, genialmente dirigidas?).
célebre "permissividade" de 1960 (de facto de No horror daquela noite, Graham pergunta-se a certa altura se coisas como
1967/68) e uma fuga in extremis para Inglaterra aquelas acontecem por acaso ou por alguma obscura razão. Dito de outro
(com "cunhas" de um abençoado tio) acabaram modo, pergunta-se (tudo quanto vimos e quanto já sabemos leva-nos a supor
por me salvar. que, desde a morte da mulher, muitas e muitas vezes se pôs essa questão) se
Quando voltei de Oxford, caiu também, oportu- o acaso ou a necessidade governam o mundo das coisas e o das pessoas.
namente, a ditadura. A descoberta da democra- Joaquin Phoenix está convencido de que há uma razão, que há uma necessi-
cia e do jornalismo vieram quando deviam vir. dade em tudo quanto acontece. Para o provar, conta a seguinte e pasmosa
Até cheguei, um pouco por equívoco, ao Gover- história.
no. Passei a meia-idade e o princípio da velhice Uma noite, poucos anos antes, numa festa, conheceu uma rapariga boa como
sem graves dificuldades de dinheiro, num país o melhor milho que é o pão quotidiano da vida dele. Com o somar das horas e
que se julgava próspero. Só agora as coisas com o somar dos copos, as coisas começam a correr-lhe bastante de feição. A
tremem e há uma autêntica ameaça de um certa altura, senta-se num sofá com a rapariga e repara no olhar cada vez mais
desastre colectivo. O meu destino quase não lânguido dela, na respiração cada vez mais estremecente dela. Decide-se a
dependeu de mim. Dependeu do estado do beijá-la. Mas está a mascar uma pastilha elástica. Discretamente, vira a cara
mundo e da história de Portugal. Um pequeno para o lado e atira a pastilha elástica para um cinzeiro. Volta a inclinar-se
erro de datas teria feito de mim uma pessoa sobre a rapariga, cada vez mais ofegante. Nesse mesmo momento, ela desata
diferente. Melhor ou pior, mas com certeza a vomitar. Joaquin Phoenix enganara-se nos sinais. Nem os olhos de carneiro
diferente. Quando me apanho a exagerar a mal morto, nem a respiração de vitela saltitante significavam o que ele supu-
minha importância ou a minha vontade, este sera, mas eram o efeito de copos a mais. E Joaquin Phoenix retirou a moral da
facto básico consegue sempre repor a noção da história: se não fosse a pastilha elástica e os segundos que mediaram entre a
minha essencial contingência. Sou um produto intenção do beijo e a sua quase concretização, ele tinha apanhado com o
de forças que nunca controlei. De certa manei- vomitado todo na própria boca. Talvez esse episódio o marcasse para sempre,
ra, um acaso. Como nós todos. criando-lhe para o resto da vida irreprimível repulsa por beijos e mulheres. A
pastilha elástica salvou-o. Deus existe.
Coincidência O público ri muito com esta história grotesca e absurda. Mas Mel Gibson não
ri e não se convence. E o exemplo que opõe ao do irmão é o da morte da
"Coincidence is God's way of remaining ano- mulher. Esta foi atropelada por um condutor bêbedo, que adormeceu ao
nymous." volante. O carro que a atropelou quase a cortou ao meio, mas por um daque-
— Albert Einstein (The World As I See It) les fenómenos que às vezes acontecem (já falei neste artigo de casos de algós-
tase) o próprio automóvel lhe prolonga um pouco a vida e a impede de sofrer
Sinais do Acaso, Sinais da Necessidade: muito. A polícia decide não retirar o carro até que o marido chegue e possa
a inteligível extensão ainda trocar algumas palavras com a mulher. Mel Gibson chegou, foi reconhe-
cido e a mulher dá-lhe alguns conselhos sobre os miúdos e o modo como ele
Por JOÃO BÉNARD DA COSTA
Público, Sexta-feira, 29 de Novembro de 2002
terá de se ocupar deles. Depois, diz-lhe uma frase aparentemente desproposi-
Cada vez mais a questão é essa, para Night tada: "Agarrem esse taco e atirem-no com toda a força." Depois morre.
Shyamalan ou para mim: a quem falamos e Para Graham, a explicação da frase é a seguinte: como os dois irmãos foram
quem nos ouve? Quem nos ouve e a quem basebolistas e a mulher gostava imenso de os ver jogar, ela teve uma alucina-
falamos? ção. Viu-os, como antigamente, num desafio de basebol e deu um grito de
apoiante como em tempos tantas vezes tinha dado. Nada a perceber, nada a
"Definitively I'm in the miracle side" interpretar. As últimas palavras da mulher não faziam qualquer sentido. Para
Manej Night Shyamalan ele, a partir desse dia também nada fazia sentido, o que se voltava a verificar
nessa inverosímil situação do ataque extraterrestre.
1 - Vou conversar hoje sobre "Signs", o último
filme de M. Night Shyamalan. Como ainda acre- 3 - Alguns saberão que há um cineasta francês, chamado Robert Bresson, que
dito que a crítica ganha alguma coisa com a morreu há pouco tempo, cuja obra é uma permanente variação sobre o tema
paixão, como me recuso a acreditar, segundo do que acontece pela Graça de Deus ou do que acontece por puro acaso.
outro dia vi escrito, "que a globalização em que Alguns saberão que a questão do primado da Graça ou do primado das obras
vivemos exige profissionais desapaixonados, por para a salvação das almas se prolongou ao longo de séculos de questões teo-
imperativo de nomadismo laboral", é com pai- lógicas, desde Pelágio e Santo Agostinho até às querelas entre jansenistas e
xão que vos vou falar de "Signs", como foi com jesuítas no século XVII. Um dos nomes relevantes nessa grande questão filosó-
paixão que há uns anos vos falei de "The Sixth fica do século XVII foi Nicolas Malebranche (1638-1715), que sempre procurou
Sense" ou de "Unbreakable". Desde que vi o conciliar o cartesianismo com o pensamento de Santo Agostinho e com a
primeiro, comecei-me a convencer de que este origem neoplatónica desse mesmo pensamento.
realizador americano, de origem indiana, era Numa das suas obras mais célebres - Entretiens sur la métaphysique et sur la
um dos vários que valia a pena seguir com religion (1688) -, Malebranche dá dois exemplos que não andam muito longe
paixão. Até à data, não vejo razão para me dos exemplos de Night Shyamalan.
desdizer, embora reconheça que na algóstase Sublinhando o primado da Graça, recorda, como tantos dos seus predecesso-
dominante (insensibilidade à dor, insensibilida- res, o caso de São Paulo, que, enquanto se chamava Saulo, perseguiu cristãos
de ao prazer) seja difícil aos "profissionais desa- com sanha e crueldade desmedidas. Quando um dia, na estrada de Damasco,
paixonados" aceder ao mundo deste ocasiona- cavalgava a toda a brida para chegar a tempo de matar mais uns cristãos,
lista reencarnado nos séculos XX e XXI. ouviu distintamente a voz de Deus perguntar-lhe: "Saulo, Saulo, porque me
persegues?" Houve um enorme clarão, o cavalo estacou apavorado, Saulo caiu
2 - A cena fundamental de "Signs" situa-se no da montada e perdeu os sentidos. Quando os recuperou, converteu-se e
último terço dele, quando os protagonistas, mudou o nome para Paulo. A questão é: se Deus se manifestasse desta forma

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a todos os mortais, a fé não seria coisa muito confundir planos. Mas daí até favorecer o discurso do PS vai a distância entre a
difícil de crer. Porque é que, entre tantos, São esclerose do passado e a esperança de um futuro melhor. Passos Coelho tem a
Paulo foi o escolhido, ele que aparentemente coragem de enfrentar o problema.
nada fizera para merecer tal Graça e tudo para a O discurso do PS exibe-se entre o Neandertal e o Cro-Magnon do pensamento
desmerecer? A única resposta vem do que não constitucional. Eu não sou liberal, mas tomara Portugal ter uma Constituição
tem explicação: a Graça de Deus. liberal, como muitas democracias do mundo - incluindo as mais antigas e
Mas Malebranche dá um outro exemplo mais estáveis. E prósperas. Há boas razões históricas para isso: no Estado moderno,
comezinho: a certo nobre francês foi dito que, liberalismo e constitucionalismo são irmãos gémeos, contemporâneos. Com
num baile dessa noite, determinada senhora, uma Constituição liberal, podem governar sem problemas não só liberais, mas
loucamente apaixonada por ele, estaria vestida também conservadores, democratas-cristãos, socialistas, sociais-democratas,
de determinada maneira, para que ele a pudes- até comunistas. Ao passo que, com uma Constituição socialista, só socialistas e
se reconhecer. Assim aconteceu, vieram a casar comunistas estão no seu ambiente - todos os outros ficam amputados na sua
e a ser pais de filhos ilustres. Só muito mais acção política.
tarde, o homem descobriu que, na noite da Uma Constituição liberal é a mais aberta e inclusiva que existe. Aquela que
festa, a sua apaixonada, à última hora, trocara reserva o essencial das decisões políticas programáticas para o povo - em vez
de fato com uma amiga. O encontro não foi de para os juízes.
predestinado? O encontro foi casual? Ou exac- Em 2002, o Tribunal Constitucional chumbou a reforma do Rendimento Míni-
tamente o contrário? Aliás, para Malebranche, mo Garantido para não ser atribuível aos 18 anos de idade, mas apenas aos
o que vulgarmente se chama "causas" são as 25. Fê-lo em nome de um tal "princípio de não-retrocesso social", a fatiota
ocasiões em que Deus age para produzir efeitos. jurídica das "conquistas da Revolução". Concorde-se, ou não, com aquela
ideia, um país em que um Governo legítimo e uma maioria parlamentar não
4 - No filme de Shyamalan, todos os sinais são podem regular o rendimento mínimo respira democracia? Não! É de sentido
ocasiões para produzir efeitos. Desde os enor- único. Tem o destino traçado.
mes ciclos nas plantações de milho, até à água Uma Constituição liberal não impõe o liberalismo - e esse foi o estrabismo de
que a miúda se recusa a beber. Desde o livro certas propostas PSD. A questão não é substituir termos ditos "socializantes"
ridículo sobre os extraterrestres até ao pobre ET por "liberalizantes". Não é trocar uma cartilha por outra. É não ser cartilha.
que vemos no final, muito mais parecido com as Exemplo: é absurdo substituir por "razão atendível" o conceito consagrado de
criaturas dos anos 50, de Jack Arnold e de Euge- "justa causa" - um princípio geral de Direito, mesmo se não escrito na Consti-
ne Lourié, do que com os sofisticados bonecos tuição. Mas já faz sentido discutir se o Direito do Trabalho deve estar fixado na
de Spielberg. Constituição e, portanto, se essas matérias devem continuar lá ou serem
No final, Graham volta de novo a ser padre. Que desconstitucionalizadas. Essas e outras.
aconteceu? Aconteceu que, na noite do comba- Uma Constituição liberal é uma Constituição que percebe isto: quanto mais
te com a tenebrosa criatura, que ele já sabia ser escrever, mais serão os juízes a decidir e menos os cidadãos. Opta pela cida-
alérgica à madeira, os olhos lhe foram ter ao dania, pelo povo. Acredita nas eleições. Liberta o presente e o futuro. Abre a
taco de basebol, pendurado numa parede. política para a política, em vez de a encerrar no Direito. Não impede o devir
Nesse momento, ele percebeu que a última democrático da História.
conversa da mulher não era uma recordação
nostálgica do passado, mas uma visão premoni- Retrato sem retoques
tória do que estava para acontecer. E os dois
José António Saraiva no SOL - 25.Junho.2010
irmãos, agarrando com toda a força o taco de
basebal, conseguiram matar a criatura e salvar- Um homem que sempre foi duro, e até rude, na apreciação das pessoas e das
se. situações, merece mais do que os retratos de circunstância, retocados e adoci-
"Signs", filme de "suspense" e de extraterres- cados, que têm sido feitos nos últimos dias.
tres, é igualmente um discurso sobre a Graça e Conheci José Saramago antes de saber quem ele era. O ateliê de arquitectura
sobre as obras, sobre o que Malebranche cha- onde comecei a trabalhar ficava na Rua Viriato – em Lisboa, perto da Praça do
mava a inteligível extensão. Não serve de nada Saldanha – e ia muitas vezes almoçar a um restaurante chamado Forno da
dizê-lo a quem o sabe muito bem? Como escre- Brites, que distava uns 100 metros da porta do nosso prédio.
veu Pascal: "Il vaudrait mieux le dire à ces Um dia, pouco depois do 25 de Abril, sentou-se nesse restaurante, na mesa ao
autres personnes, dont vous parlez. Mais elles lado da minha, um casal. A mulher era loura, bonita, de olhos muito azuis, e o
ne l'écouteraient pas." Cada vez mais a questão homem era alto, mal encarado, de cabelo comprido na nuca. O almoço daque-
é essa, para Night Shyamalan ou para mim: a les dois seres foi uma autêntica sessão de tortura. O homem falou durante
quem falamos e quem nos ouve? Quem nos quase toda a refeição, num tom áspero, de quem ralhava, e a mulher ouvia,
ouve e a quem falamos? com ar sofredor. A certa altura começou a chorar, abriu a mala, tirou um lenço
e limpou as lágrimas. Mas nem assim o homem se comoveu – e continuou a
ralhar no mesmo tom agreste, que durou até ao fim do almoço.
Constituição e a liberdade do presente e Eu conhecia a mulher de a ver em fotografias: era Isabel da Nóbrega. E aquela
do futuro cena impressionou-me muito. Quando cheguei a casa contei o episódio a
DE, 31/07/10 00:01 | José Ribeiro e Castro minha mãe, que me disse conhecer bem Isabel da Nóbrega, tendo chegado
Com uma Constituição que, a caminho de 2011, ambas a sair juntas no tempo em que esta namorava com João Gaspar Simões.
afirma, no Preâmbulo, a “decisão” (sic) de “abrir E acrescentou:
caminho para uma sociedade socialista”, só – O homem que estava com ela devia ser o Saramago… É com quem agora
podemos sorrir com a fingida indignação de vive.
José Sócrates contra a “ameaça ultraliberal” na Nessa altura, eu só tinha ouvido falar vagamente de Saramago. Mas logo a
revisão constitucional de Passos Coelho. A frase, seguir ele começou a ter muito protagonismo, como director-adjunto do
aliás, é de gargalhada. Diário de Notícias, que se tornara um jornal comunista ortodoxo. Não deixava
O PS perdeu a noção das proporções. Pratica o de ser irónico, aliás, ver um diário que uns meses atrás era quase um órgão
superlativo no gargarejo , como cosmética do oficioso do Estado Novo defender as maravilhas da revolução proletária.
seu Governo negativo. Flagela todos os dias o Começaram então a circular histórias de plenários e saneamentos no DN de
Estado Social, mas aprecia pretextar-se seu que Saramago seria o executor, actuando de forma implacável. E, não sabendo
único paladino. eu se eram ou não verdadeiras, tendia a acreditar que sim pela imagem com
O PSD não foi feliz no tempo de entrada. Falhou que dele ficara a partir daquele almoço.
nas propostas para o sistema político, contradi- E uma crónica que assinou por essa época na 1ª página, chamada Esquerda-
tórias e desnecessárias ou negativas. E também lhos e Pirómanos, publicada no dia seguinte ao assalto à embaixada de Espa-
quanto à Constituição económica e social, ao nha, também me impressionou muito mal. Embora eu estivesse de acordo
com a condenação daquele acto de vandalismo, senti-me incomodado com a
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O JORNAL DAS BOAS NOTÍCIAS 31 de Agosto de 2010
linguagem usada no texto, os termos grosseiros suas intervenções públicas, das suas opiniões e de algumas das suas atitudes.
empregues, o rancor que dali transparecia. Senti-me chocado quando verifiquei que, a partir de determinada edição, ele
Pouco depois Saramago saiu da direcção do DN retirou do Memorial do Convento a dedicatória a Isabel da Nóbrega. Eu pen-
e deixei de ouvir falar dele. Até à publicação do sava que a dedicatória de um livro era para a vida – mas enganei-me. Muito
Memorial do Convento, que foi um grande tempo mais tarde viria a conhecer Isabel da Nóbrega, que me contou episó-
acontecimento editorial. Li o livro, como quase dios a seu respeito de pôr os cabelos em pé, proibindo-me porém de os repro-
toda a gente, e achei algumas páginas notáveis duzir. E Agustina Bessa-Luís dir-me-ia um dia:
– embora não o tenha acabado. A partir de – Foi a Isabel que o ensinou a escrever e ele tratou-a tão mal…
certa altura a história parecia já não poder ter O curioso é que Saramago, tratando mal muita gente, se indignava muito
qualquer novidade. quando se sentia mal tratado. Revoltou-se contra Sousa Lara – e o próprio país
Isso não me impediu de ler outros, como A – por não indicar um livro seu para um prémio literário. Ora não é verdade
História do Cerco de Lisboa ou O Ano da Morte que Saramago apoiava o regime soviético, que praticava uma censura feroz
de Ricardo Reis, onde fui consolidando a sobre tudo o que se publicava?
impressão de se tratar de um bom escritor mas E a defesa do voto em branco, no Ensaio Sobre a Lucidez, não soava a vingança
pesado, com uma prosa um tanto mastigada e contra a democracia? Percebendo que o seu partido, o PCP, nunca ganharia
pouco surpreendente. umas eleições, Saramago lançou-se a defender o voto em branco (recuperan-
Claro que vibrei com a atribuição do Prémio do um apelo do MFA em 1975), extraindo daí conclusões pouco aceitáveis
Nobel, onde pesou a minha costela patriótica – sobre o esgotamento do regime democrático.
embora na altura Saramago já estivesse fora do Impressionou-me também quando, numa entrevista, afirmou que não existia
país, renegando de certa maneira a nacionali- o espírito, só a matéria. Então os livros que escreveu são apenas matéria? São
dade. combustível para as lareiras? Ou o importante nesses livros (e nos outros
À medida que José Saramago se ia tornando todos) não é a matéria de que são feitos mas o espírito que a matéria conden-
célebre e mais conhecido, fui confirmando a sa?
primeira impressão que retive dele: uma pessoa Impressionou-me, ainda, quando contestou o patriotismo a propósito do seu
amarga, zangada com o mundo, pouco simpáti- país – ele que tanto defendeu o direito de outros povos à independência…
ca e pouco interessante nas suas intervenções E não percebi como pôde defender sempre o comunismo, um regime desu-
públicas. As entrevistas televisivas que ia dando mano, violento, castrador em todos os lados em que se implantou.
eram sempre baças, destituídas de rasgo, não Fez-me confusão ele não ter percebido a importância de uma sociedade plu-
parecendo a mesma pessoa que escrevia bons ral. Não entender que o comunismo é, pela sua natureza, inimigo da liberdade
livros de ficção. de pensamento – porque se impõe a partir do Estado, de cima para baixo, e
Um belo dia – já era eu director do semanário um Estado que detém o poder político, o poder económico e o poder doutri-
Expresso – o director-adjunto, Joaquim Vieira, nário, é de sua própria natureza totalitário.
veio propor-me que Saramago tivesse uma A democracia só poderá existir, com todos os seus defeitos, numa sociedade
coluna de opinião na 1ª página. Depois de descentralizada, em que os poderes estão separados. Os empresários, os
reflectir uns segundos, disse-lhe que não – banqueiros, os comerciantes, os bispos, os políticos, toda esta gente que
explicando que, dessa forma, a opinião de Saramago detestava é o que garante a descentralização do poder, o que
Saramago passaria a ser a mais importante do impede que o poder esteja todo concentrado numa clique que, pela ordem
jornal, a mais marcante, o que não fazia senti- natural das coisas, se torna prepotente.
do, até por ele ser assumidamente comunista. Nunca um poder concentracionário, não descentralizado, garantirá uma
Teria algum sentido um jornal de matriz liberal democracia.
ter como principal colunista (sobrepondo-se Não quero terminar sem uma nota de reconhecimento.
mesmo ao Editorial) um militante do Partido Foi ao SOL que Saramago deu uma das suas últimas grandes entrevistas e a
Comunista? primeira depois da doença que em 2008 quase o matou. Aquela em que diz
Contudo, vim a saber mais tarde que essa colu- que Pilar lhe «deitou a mão à gola do casaco e não o deixou cair no poço». É
na já lhe tinha sido mais ou menos prometida, uma entrevista bela, humana, talvez por se sentir fragilizado e reconhecido à
pelo que a minha recusa teve um impacto mulher. Aliás, Pilar del Rio foi a única mulher que teve o dom de humanizar
maior, levando Saramago a estabelecer com o Saramago, o levar a ser humilde, grato, doce. Foi talvez a única mulher que ele
Expresso (e em particular comigo) uma relação verdadeiramente amou – e esse sim, foi um amor bonito.
hostil. Devo dizer que editei essa entrevista com o maior cuidado. Ela foi justamente
Mas a Clara Ferreira Alves, que era redactora- capa da nossa revista, a Tabu, e além disso ocupou quase metade da primeira
principal e mantinha com ele uma boa relação, página do jornal.
visitando-o mesmo em Lanzarote, ofereceu-se Sempre lidei assim com as pessoas: o facto de gostar mais ou menos desta ou
para mediar uma tentativa de reconciliação. daquela nunca influenciou o modo como as tratei no plano jornalístico.
Palavra para cá, palavra para lá, ficou combina- Saramago deu-nos a honra de nos conceder uma das suas últimas entrevistas
do que eu lhe falaria. – e nós tratámo-lo o melhor que soubemos e pudemos.
Telefonei então para Lanzarote. Ele veio ao Assim é que deve ser.
telefone com ar enfadado e disse-me que uma Mas não sei se em situação inversa ele faria o mesmo.
«reconciliação» com o Expresso passava pelo por J.A.S
desmentido de uma notícia saída em 1975
sobre a sua acção no DN. Tendo em conta que Vida con ketchup
estávamos em 1994 ou 95, tratava-se de uma
João César das Neves
notícia com 20 anos!… DN 20020916
Localizei a notícia, que não era mais do que uma Hoje, é difícil saborear a vida. A sociedade mergulha-nos numa torrente tão
local publicada na Gente (uma secção ligeira) avassaladora de interpelações, seduções e tentações que perdemos de vista a
onde se escrevia o que toda a gente dizia na simples vida comum. Habitar nas nossas cidades significa ser permanentemen-
época: que, como director-adjunto do DN, te solicitado, agarrado e percutido pelos gritos de notícias, cartazes, discursos,
Saramago tinha um comportamento estalinista. manchetes, anúncios, concursos, ofertas, oportunidades, etc., etc. Uma tal
Não encontrei nada na notícia que não fosse enxurrada de estímulos acaba por nos toldar a sensibilidade.
voz corrente naquele tempo – pelo que não vi A intensidade de informações e intimações que bombardeiam o homem con-
qualquer razão para a desmentir. E foi isto temporâneo é sem par na História. O frenesim da comunicação social, o fascí-
mesmo que comuniquei a Saramago, em cartão nio da arte, o alvoroço da publicidade, o folclore da política, a omnipresença
que lhe enviei. do divertimento, até a extravagância da moda constituem exigências perma-
A partir daí não houve mais contactos. nentes sobre a nossa atenção a que não se consegue ser alheio. Quando é
Mas continuei a discordar frontalmente das impossível realizar uma operação tão simples como comprar um sabonete
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sem suportar mensagens libidinosas, ou entrar res). Nós vivemos sem susto em ambientes que poriam em pé os cabelos dos
num autocarro sem receber fascinantes ofertas nossos avós. Já se passara o mesmo com os avós deles. Temos, é verdade,
comerciais, a vida está muito estranha. Mas novos e graves males, mas libertámo-nos de outros. E, afinal, a culpa deles não
essa é a nossa condição habitual, sem já darmos vem só daqui, pois os factores contributivos são miríade.
conta. O principal problema desta situação não é, pois, moral, económico ou político.
Os estímulos, ansiosos por obter a nossa aten- É espiritual. A consequência dos excessos é o embotar dos sentidos, impedin-
ção (por razões económicas, políticas, artísticas, do de viver a vida em pleno. Passamos o tempo num mundo de ilusão embria-
etc.), têm de apelar aos elementos mais baixos gante. Perdemos o equilíbrio e a finalidade. Vivemos o dia-a-dia como aqueles
e veementes do ser humano: a adrenalina, o que encharcam a refeição com temperos, maionese, mostarda ou caril. Toda a
sexo, o susto, o orgulho, o prazer. Nas nossas comida lhes sabe ao mesmo. Se não tivermos cuidado, os estímulos baratos
cidades sofisticadas, berra continuamente a voz levam-nos a viver intensamente, mas com a vida a saber a ketchup.
do instinto mais animalesco.
O que fica
Os efeitos são bem visíveis nos jovens, natural-
DN 2010-08-23
mente mais sensíveis e vulneráveis, e manifes- JOÃO CÉSAR DAS NEVES
tam-se através de uma inflação explosiva de O que fica?" Quais as coisas que permanecem na vida? Que valores se man-
tédio. A classificação mais usada por eles é a de têm quando tudo o resto falha? Nesta pausa de Verão é conveniente aprovei-
"seca". Não há pachorra para as coisas normais tar as férias para meditar sobre esta grande questão da existência. E encon-
da vida. À primeira vista, esta opinião parece vir tramos uma boa resposta numa das despedidas mais marcantes do nosso
de uma reflexão, mas em breve se nota que a tempo. Para compreender a importância desse momento é preciso recuar um
questão está não no objecto, mas no sujeito. pouco.
Eles são, de facto, incapazes de apreciar uma O professor Joseph Ratzinger tinha planeado uma vida pacata de académico e
enorme parte da beleza do mundo. estudioso, projecto frustrado por dois papas. Primeiro Paulo VI elevou-o ao
Este problema está longe de ser apenas dos episcopado em Maio de 1977 e ao cardinalato menos de um mês depois. Em
jovens. Todos nós sentimos o terrível fastio seguida João Paulo II levou-o para Roma em 1981, durante quase 24 anos. O
sistémico. Habituados a uma alta intensidade de seu mandato de "Grande Inquisidor" constitui o segundo mais longo de sem-
estímulo, a nossa sensibilidade embotou relati- pre, apenas ultrapassado pelo cardeal Francesco Barberini no século XVII e,
vamente a múltiplos aspectos da realidade. As devido à turbulência doutrinária pós-concíliar, o mais mais mediático de todos
consequências estão à vista. Quase desaparece- os tempos. Todo o mundo, que ignora a burocracia vaticana, sabia bem o seu
ram as conversas, os passeios, os jogos de salão, nome.
substituídos pela televisão, videojogos e des- A 18 de Abril de 2005, dois dias depois de completar 78 anos, o cardeal fez as
portos. Ignoram-se as mais belas obras da suas despedidas. O papa João Paulo morrera duas semanas antes, no dia 2, e
humanidade. Não se lê Victor Hugo (quanto estava a começar o conclave para eleger o sucessor. O novo papa certamente
mais Cervantes ou Aristóteles?), porque lhe escolheria um novo prefeito e a sua espinhosa missão, tão diferente da que
faltam os inevitáveis monstros, vampiros e planeara, estava terminada. Ele, que repetidamente pedira a exoneração,
mágicas. Não se aprecia Gershwin (quanto mais voltaria aos seus estudos finais, até ser chamado à casa do Pai. A última inter-
Beethoven ou Bach?), por ausência dos decibéis venção pública daquele que foi o mais famoso e influente membro da Cúria
frenéticos e ritmados. Não se compreende Romana durante um quarto de século seria precisamente a homilia na missa
Rodin (quanto mais Rembrandt ou Miguel Ânge- inicial do conclave. Esse texto notável constitui o testamento espiritual do
lo?), por ausência de mensagens agressivas de grande cardeal Ratzinger, um dos maiores teólogos da Igreja Católica. Em tom
cartaz. Não se liga à estética de Coppola (quan- de balanço, afirma:
to mais ao preto e branco de Capra ou Hitch- "Mas o que fica? O dinheiro não fica. Os edifícios tampouco ficam, nem os
cock?), por moderação nos efeitos especiais, livros. Depois de um certo tempo, mais ou menos longo, tudo isto desaparece.
sangue e sexo. Acusar o sistema desta situação A única coisa que permanece eternamente é a alma humana, o homem criado
é fuga às responsabilidades. O sistema oferece por Deus para a eternidade. O fruto que fica, portanto, é o que semeamos nas
em grande profusão Hugo e Aristóteles, Rodin e almas humanas, o amor, o conhecimento; o gesto capaz de tocar o coração; a
Rembrandt, Coppola e Beethoven. O que falta palavra que abre a alma à alegria do Senhor" (cardeal Ratzinger, homilia na
não é acesso. É paciência. Perdemos a sensibili- missa na abertura do conclave, 18 de Abril de 2005).
dade para o sofisticado. Hoje, neste Verão, estamos também em tempo de balanço. O que ficou deste
O aborrecimento total é o mesmo que o de ano que passou? Que frutos esperamos do que aí vem? Sabemos bem que a
Jacinto de A Cidade e as Serras (livro sem vio- nossa atenção tem estado ocupada com dinheiro, edifícios, livros. É para aí
lência e sex appeal). Mas mais boçal. Os cem que converge o melhor dos nossos esforços e quase todas as nossas activida-
anos desde a novela póstuma de Eça serviram des. Os projectos profissionais, os objectivos imediatos, o horário de cada dia,
para popularizar a maçada paralisante do meu tudo é concebido e executado para ganhar dinheiro, estabelecer edifícios,
Príncipe. E reduzir as serras redentoras. preencher livros. Chamamos a isso ser pragmático, eficiente, produtivo. Esse é
Já está tudo visto. Nada admira. Tudo maça. A o modelo que a nossa sociedade impõe. No final do ano, neste período do
não ser o superlativo. Daí a espiral de provoca- Verão, foi isso que ficou.
ção em que têm de embarcar anúncios, concur- No entanto todos nós, sobretudo os mais velhos, vamos notando como depois
sos, entretenimentos, até notícias. Tudo dispara de um certo tempo, mais ou menos longo, tudo isso desaparece. Se o nosso
para o insólito, só para manter as audiências. Há balanço for um pouco mais abrangente, basta que olhemos para lá do ano
já tempos que o obsceno é banal. Chegámos ao passado, e vemos logo como todos os esforços se esbateram.
momento em que só resta o cruel, o selvagem, A única coisa que permanece eternamente é precisamente aquilo que fomos
o perverso. esbanjando ao longo dos dias do ano que passou. Aquilo que omitimos, que
É corrente prever daqui as consequências mais esquecemos, que desprezámos, aquilo que sacrificámos ao dinheiro, edifícios
funestas, da doença psíquica à decadência dos e livros, é esse o único fruto que permanece eternamente. O amor, o conhe-
costumes. Temem-se os aspectos viciantes e a cimento; o gesto capaz de tocar o coração; a palavra que abre a alma à alegria
manipulação económica, a promoção dos do Senhor. Aquilo que ficou na alma daqueles com quem passámos o nosso
medíocres e a desorientação de critérios, a tempo, é isso que o tempo não leva. Por isso tantos neste Verão, apostando
injustiça social e degradação moral. Esses naquilo que não fica e sacrificando o que permanece, sentem-se vazios.
medos são, de facto, muito exagerados. A natu- O ano novo começa daqui a dias. "Então, vamos e peçamos ao Senhor que nos
reza humana tem grande capacidade de adap- ajude a levar fruto, um fruto que permaneça. Só assim a terra se transforma
tação. A sociedade actual, apesar de tudo, não de vale de lágrimas em jardim de Deus" (idem). No dia seguinte a pronunciar
se mostra mais neurótica e desequilibrada que estas palavras, o seu autor era Papa.
as anteriores (é bom lembrar muito das anterio-

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O JORNAL DAS BOAS NOTÍCIAS 31 de Agosto de 2010
Passe bem! família, teorizado por Marx e Engels como um objectivo de luta. Marx escre-
JN, 2010-08-22 Zita Seabra
veu que «a primeira divisão do trabalho é a de homem e mulher para a pro-
Não é certamente possível ter escolas e creches criação de filhos». Engels cita-o e acrescenta que «a primeira oposição de
abertas e maternidades a funcionarem, se classes que aparece na história coincide com o desenvolvimento do antago-
nascem cada vez menos crianças e Portugal tem nismo de homem e mulher no casamento singular e que a primeira opressão
uma das mais baixas taxas de natalidade da de classe coincide com a do sexo feminino pelo masculino» (in A Origem da
Europa. Família, da Propriedade e do Estado, F. Engels.).
Nos últimos anos, todas as políticas dominantes No seguimento desta teoria, nasceram as feministas radicais com a Kolontai e
foram no sentido de atacar a família, de a o ataque à família levado a cabo nos países comunistas que foi um dos maio-
desestruturar e de dificultar que os casais res atentados aos direitos humanos nesses países. Na URSS, os pais não faziam
tenham filhos. Na mesma semana da notícia do férias com os filhos. Os filhos passavam férias nos Pioneiros, enquanto os pais
fecho das escolas, foi promulgada a lei das seguiam para as férias nos sindicatos. Na China de Mao Tse-Tung, além de ser
uniões de facto. Esta lei vem no seguimento de proibido pelo Estado ter mais que um filho e o aborto ser obrigatório, chegou-
toda uma legislação concebida para considerar se ao ponto de proibir as cozinhas nas casas das famílias e de se ter de comer
a instituição familiar - ou, como escreveram e cozinhar nos refeitórios comunitários. Refeitórios masculinos e femininos.
Marx e Engels, a «família patriarcal-burguesa» - Com leis que dificultam cada vez mais ter filhos, com modelos dominantes
algo de obsoleto. desestruturantes da família, ainda há quem proteste por se fecharem escolas,
Senão, vejamos. O aborto passou a ser conside- creches, ATL, maternidades, jardins-escolas? Espantoso é que ainda haja quem
rado um direito, o que teve como consequência seja feliz e acredite no futuro, olhando e vivendo filhos e netos.
imediata transformar-se num banal método
anticoncepcional. Da legislação que existia em A OMS, a gripe A e Bento XVI
Portugal e que apenas pretendia evitar a prisão Público, 2010-08-22 Gonçalo Portocarrero de Almada
das mulheres que, perante um drama que por Não faltou quem avançasse com rigorosíssimas profilaxias e chorudos negó-
vezes acontece nas curvas da vida, partiu-se cios: vacinas, máscaras, desinfectantes, etc.
para esse caminho e os resultados estão à vista. Foi há dias que, num informal encontro de umas três dezenas de amigos,
Hoje, há jovens mulheres que banalizaram o algures no Norte, alguém inocentemente e com a maior seriedade brindou a
aborto na sua vida e já realizaram dois ou três assistência com a última novidade: a Organização Mundial da Saúde anunciou
abortos legais, desde que a lei foi aprovada, em o fim da pandemia da gripe A! A reacção foi imediata e unânime: estalou a
hospitais públicos, ou em clínicas espanholas. gargalhada geral, que não teria sido mais sonora, nem menos sincera, se essa
Alguns dos inspiradores da lei já vieram, alar- conspícua entidade internacional tivesse decidido certificar o naufrágio do
mados, penalizar-se pelos resultados da lei que Titanic, o óbito de Napoleão ou a morte das vítimas do dilúvio universal.
fizeram e reconhecer que nem conseguem que
essas jovens passem, depois de abortar, por No elevador de um hotel de Fátima, encontrei recentemente uma paradoxal
uma consulta de planeamento familiar. Voltam advertência: "Em caso de incêndio, mantenha o sangue-frio"! Pois é, em tem-
apenas, pouco tempo depois, para um novo pos tão infelizmente incandescentes, a Organização Mundial da Saúde não
aborto. Um direito nunca pressupõe culpa e a conseguiu manter o sangue-frio. Pelos vistos, ainda fervilha em febris convul-
lei aprovada banalizou o aborto a pedido, sem sões de uma mórbida imaginação, pois só assim se compreende que, em plena
drama , sem culpa, como se não existisse uma silly season, se tenha dado ao trabalho de declarar extinta a pandemia que
vida interrompida. nunca existiu, muito embora anunciada e profetizada como a nova peste
Em simultâneo, facilitou-se de tal forma o bubónica, a que milhões de seres humanos teriam que pagar o pesado tributo
divórcio sem qualquer salvaguarda da parte das suas inocentes vidas. Salvo as poucas vítimas que, por escassas, não são
mais frágil do casal: os filhos e (quase sempre) a menos de lamentar, a gripe A poupou-nos, graças a Deus, mas não assim a
mulher, surgindo dramas terríveis de casamen- Organização Mundial da Saúde que, não tendo conseguido matar-nos com o
tos desfeitos com um «passa bem». Os filhos temível vírus H1N1, procura agora assassinar-nos com uma arma ainda mais
vêem-se de repente transformados num fardo mortífera: o riso! Haja dó...
que circula de casa em casa, sem quarto, por-
que o que dá mais jeito é que uma semana Não obstante a pouca fiabilidade das catastróficas previsões, a verdade é que
«chateiem» um, outra outro e, muitas vezes, não faltou quem avançasse com rigorosíssimas profilaxias e chorudos negó-
ainda rodem pelos vários avós. As crianças cios: vacinas, máscaras, desinfectantes, etc. Até o templo santo, que se supu-
deixaram de ser, tantas vezes, o centro do vida nha mais imune aos males do século, se viu cenário de severas medidas de
familiar para se transformarem em novos prevenção de eventuais contágios, como as aparatosas abluções a que alguns
nómadas e as mulheres em novos pobres, ministros do culto se entregaram escrupulosamente, os mesmos que antes -
«despedidas» mais facilmente que qualquer por sua alta recreação, sem razão teológica nem licença eclesiástica - tinham
empregado sindicalizado. abolido a prática da lavagem das mãos do celebrante no ofertório, por sinal
Do ponto de vista fiscal, o casamento e os filhos muito mais litúrgica, funcional e discreta do que essas improvisadas e especta-
penalizam quem tem a ideia antiquada de casar culares purificações. É de crer que, com o fim da pandemia que, como a pes-
e imagine-se… ter filhos e ter uma família. As cada, antes de o ser já era, regresse o bom senso, se restaure a praxe do lava-
uniões de facto estão de tal forma equiparadas bo e se remetam para as sacristias, de onde nunca deveriam ter saído, os
ao casamento que o melhor para quem não detergentes e as pias de baixa condição.
deseja nenhum compromisso é mesmo garantir,
publicamente, em notário que, apesar de soltei- Em boa hora, Bento XVI esteve em Portugal em dias inesquecíveis do mês de
ro, viúvo ou divorciado, vive só, assegurando Maria. Foi um primeiro incêndio, este não ateado pelo vento nem por crimino-
que ninguém entra lá em casa. Homem ou sas mãos humanas, mas pelo sopro do Espírito, o fogo do amor e da verdade.
mulher. Para além do sempre surpreendente brilho do verbo inspirado do Vigário de
O casamento civil foi, assim, equiparado à união Cristo, ressoou um pouco por toda a parte o bom exemplo da sua piedade,
de facto, transformado num contrato a (curto) sobretudo nos momentos culminantes das celebrações eucarísticas a que
prazo, quando já tinha sido recentemente equi- presidiu, em Lisboa, Fátima e Porto. E não terá sido por acaso que o mesmo
parado o casamento de homossexuais com o de gesto se repetiu nessas três missas, pois em todas a Sagrada Comunhão foi
heterossexuais. Com filhos ou sem filhos, o dada na boca aos fiéis que a receberam, ajoelhados, das mãos do Santo Padre.
importante é, na ideologia dominante, acabar Sem querer dar ao facto valor normativo, de que carece, cumpre sublinhar
com a opressão da família burguesa. que, em pleno histerismo gripal, a atitude de Bento XVI foi corajosa e inspira-
Não modernas as teorias que originaram estas dora. Quantos presbíteros, em pleno ano sacerdotal, se comoveram ante a
leis mas, felizmente, também não corremos profunda e humilde adoração eucarística do Papa! Quantos leigos agradece-
ainda os riscos das teses extremistas do fim da ram a Bento XVI esse gesto, que lhes recordou a sua liberdade - que é também
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um seu direito - de receber a comunhão com Estamos num processo inexorável de desumanização, um caminho perigoso
essa mesma fé e atitude de veneração! E quan- no qual o ser humano conferiu, numa espécie de outsourcing, plenos poderes
tos cristãos, ante o ridículo dos exageros inter- ao Estado para fazer o bem comum. Deste modo, o cidadão tem vindo a
nacionais, das manipulações da opinião pública renunciar a participar nesta função, assumindo um papel passivo, limitando-se
e, o que é pior, das tentativas de tergiversação indolentemente a reivindicar uma lista infindável de direitos. Esta atitude
da doutrina católica e da perversão da sua pueril tem um preço a pagar, uma vez que nem o Estado tem os recursos para
expressão litúrgica, se sentiram confirmados na satisfazer todas as necessidades, nem as pessoas se podem demitir da sua
fé e reafirmados na sua confiança naquela única responsabilidade social.
instituição contra a qual as portas do Inferno Porque será que um grupo de cidadãos, indignados com o estado de abando-
não prevalecerão! no do seu jardim, em lugar de se juntarem e repararem o espaço que é de
Bem vistas as coisas, agora que estamos em todos, permanecem à espera que seja o município a resolver tudo?
tempo de rescaldo da inexistente pandemia, É curioso constatar que, actualmente, se defenda com tanto ardor a educação
bendita gripe A e bendita Organização Mundial sexual nas escolas e, simultaneamente, se olvide dos currículos educativos a
de Saúde! Licenciado em Direito e doutorado formação no campo da solidariedade. Ser solidário também se aprende e, por
em Filosofia. Vice-presidente da Confederação essa razão, seria da maior importância reservar algumas horas do horário
Nacional das Associações de Família (CNAF) escolar para que os alunos pudessem realizar trabalho solidário concreto,
junto de instituições com mérito social reconhecido. Para além de ser formati-
A soldado desconhecida vo, ajudava a consolidar um sentimento de compromisso social que deve ser
partilhado por todos. Esta seria, sem sombra de dúvida, uma forma positiva de
FERREIRA FERNANDES
DN 12 Agosto 2010
influenciar a sociedade, através dos mais jovens.
Josefa, 21 anos, a viver com a mãe. Estudante Na actual crise económica, não é por acaso que o Estado resiste em emagre-
de Engenharia Biomédica, trabalhadora de cer, nomeadamente reduzindo a despesa do seu funcionamento. O Estado,
supermercado em part-time e bombeira volun- para além de funcionar como um regulador, deve garantir algumas necessida-
tária. Acumulava trabalhos e não cargos - e essa des elementares da sociedade nas áreas da justiça, defesa, saúde, educação,
pode ser uma primeira explicação para a não segurança social, etc. Contudo, este não pode ser um papel exclusivo do Esta-
conhecermos. Afinal, um jovem daqueles que do já que o mesmo tem uma inclinação irresistível para a hipertrofia burocrá-
frequentamos nas revistas de consultório, tica e despesista.
arranja forma de chamar os holofotes. Se é Todos temos a co-responsabilidade de garantir protecção aos mais desfavore-
futebolista, pinta o cabelo de cores impossíveis; cidos e de contribuir activamente para uma sociedade mais justa e solidária;
se é cantora, mostra o futebolista com quem todos podemos mudar verdadeiramente a sociedade quando oferecemos
namora; e se quer ser mesmo importante, é alguma coisa gratuitamente, sabendo de antemão que não receberemos nada
mandatário de juventude. Não entra é na cabe- em troca. Este é um princípio que não está ao alcance do Estado, mas das
ça de uma jovem dispersar-se em ninharias pessoas.
acumuladas: um curso no Porto, caixeirinha em
Santa Maria da Feira e bombeira de Verão. Daí Boas notícias
não a conhecermos, à Josefa. Chegava-lhe, In: DN, 2001.01.01
talvez, que um colega mais experiente dissesse João César das Neves
dela: "Ela era das poucas pessoas com que um
gajo sabia que podia contar nas piores alturas." A primeira grande novidade do milénio foi o aparecimento do GoodNews. O
Enfim, 15 minutos de fama só se ocorresse um diário apresentou-se com o propósito de "dar apenas e sempre boas notícias",
azar... Aconteceu: anteontem, Josefa morreu declarando olhar a actualidade do ponto de vista positivo e construtivo, subli-
em Monte Mêda, Gondomar, cercada das cha- nhando o virtuoso, o amável, o heróico, o bom. "No panorama mediático
mas dos outros que foi apagar de graça. A mor- actual", dizia o seu primeiro editorial (publicado noutro jornal, por tratar de
te de uma jovem é sempre uma coisa tão enor- más notícias), "domina o chocante, o trágico, o dramático, o mau. Quando
me para os seus que, evidentemente, nem trato algo corre bem deixa, por isso mesmo, de ser notícia. Só os desastres e guerras
aqui. Interessa-me, na Josefa, relevar o que ela são referidos. A bondade e a paz apenas aparecem quando falham. Todos os
nos disse: que há miúdos de 21 anos que são jornais, mesmo os mais clássicos, são dominados por esta visão perversa. Em
estudantes e trabalhadores e bombeiros, sem vez do provérbio no news is good news (se não há notícias é boa notícia), a
nós sabermos. Como é possível, nos dias prática passou a ser good news is no news."
comuns e não de tragédia, não ouvirmos falar
das Josefas que são o sal da nossa terra? A nova linha editorial foi muito contestada pelos intelectuais como "românti-
ca, idealista, delicodoce". Mas o jornal recusava ficções ou distorções imagina-
O Estado não ama as pessoas tivas. Publicava a verdade e apenas a verdade. Só que a publicava com aten-
ção ao positivo e não ao negativo. O facto ficou provado quando se deu a
O Sol, 2010.07.13
Pedro Afonso - Médico Psiquiatra
derrocada do arranha-céus na cidade. As agências, jornais e televisões
Nos últimos anos, alimentou-se a ideia de que o enchiam-se com sangue, lágrimas e acusações. O GoodNews referia o sur-
Estado – uma espécie de pai colectivo – teria, preendente número de sobreviventes num desastre daquela dimensão e
em exclusivo, a obrigação de satisfazer todas as louvava o trabalho dos bombeiros e hospitais da zona. Notava a sorte de o
necessidades sociais. Consequentemente, as prédio ter caído a meio da manhã, quando estava bastante vazio, e para as
pessoas tornaram-se mais individualistas e traseiras desertas, em vez de derrocar na avenida, em hora de ponta. E relata-
autocentradas va o feito de um rapazinho, que saltara do segundo andar com a irmã bebé ao
Mas este é um caminho errado, pois uma socie- colo, acto que ficara esquecido nos outros jornais. A sua circulação aumentou
dade que delega em absoluto ao Estado a justi- em flecha.
ça social está a reprimir as mais nobres e eleva-
das características humanas. Neste caso, o O sucesso fez crescer as críticas. Alguns afirmaram que o GoodNews era uma
Homem acabou por dirigir a sua atenção para a nova versão dos tradicionais "jornais da situação". De facto, o Governo lou-
idolatria do consumo e para a realização de vou-o por "finalmente alguém dar atenção ao muito de bom que há no país",
aspirações de ordem inferior, ludibriado com enquanto a oposição o acusava de "simplismo, seguidismo e ingenuidade".
uma nova liberdade. Mas não terá sido uma Mas a pouco e pouco começou a notar-se que a actividade política estava
paixão por esta liberdade individualista que, quase ausente do periódico. Considerava a maior parte desse debate irrele-
juntamente com a indiferença do Estado vante e inconsequente, e muitas das alegadas "boas notícias" do Governo
enquanto regulador, esteve em grande parte na mostravam-se promessas irrealistas e desinteressantes. As que chegavam a
origem da actual crise económica? ser publicadas, nunca o eram da forma que o Executivo pretendia. O Good-
News mostrava, pelo contrário, uma evidente preferência por relatar a vida da
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O JORNAL DAS BOAS NOTÍCIAS 31 de Agosto de 2010
sociedade, a forma humilde e imaginativa como O mundo é um sítio extraordinário; e o mais extraordinário é o ser humano. E
as pessoas vão resolvendo as suas dificuldades, o mais extraordinário no ser humano é a capacidade de virar o mundo para o
mesmo as mais dramáticas. Em vez da busca bem. Vivemos tão pouco tempo aqui. Porque não passá-lo a ver e a fazer o
desenfreada dos "podres" e do culto do "anti- bem ? Por todo o lado há pessoas a trabalhar para aumentar a felicidade. Nós,
herói", descreviam-se serenamente os bons com humildade, queremos relatar isso. Só o bem existe. O mal é ausência. O
exemplos. Recusava a pose pomposa de justi- bem é verdade. O mal é mentira."
ceiro mediático em busca de escândalos, que só
aumenta a injustiça. Preferia relatar a conduta Boas notícias II
virtuosa perante os obstáculos. Na economia,
acompanhava o desenvolvimento estrutural e Há quase 10 anos, o Prof. João César das Neves lançava a ideia de um jornal
iniciativas de mérito, desprezando o saltitar cuja linha editorial era a procura de dar a conhecer, noticiar, aquilo que de
financeiro e o apelo permanente à crise. bem se faz.
Há poucos meses, surgiu uma iniciativa com um portal na Web
De repente, o país tomou consciência da enor- http://www.boasnoticias.pt/ e uma página no Facebook
me quantidade de iniciativas e instituições de http://www.facebook.com/pages/Boas-Noticias/ que, à sua maneira, se apro-
solidariedade e dos seus grandes benefícios. xima deste conceito:
Tornaram-se famosos nomes e caras de muitos “Todos os dias há acontecimentos positivos em Portugal e no mundo que
"heróis do quotidiano", que insistiam em fazer o devem ser destacados - essa é a função do Boasnoticias.pt. Notícias, Vida e
bem em condições difíceis. Como se dizia num Lazer e Diretório de Empresas que fazem o mundo melhor!”
dos artigos, "é impressionante quanto bem Um exemplo dos títulos das últimas boas notícias:
existe entre nós, e como resiste ao mal, mesmo
quando o mal é tão forte". • Pesca: mais apoios para apostar na segurança
• Indonésia: expedição marinha revela novas espécies
Na classe dos profissionais da informação, o • Surf: Tiago Pires na terceira ronda em Teahupoo
GoodNews acendeu uma longa e acesa polémi- • PSP disponibiliza "Contato Direto" na internet
ca. Alguns jornalistas influentes declararam-se a • Setúbal: Discriminação é combatida com formação
favor do periódico, mas a maioria foi muito • Lacoste: português nomeado diretor artístico
crítica. "Trata-se de uma publi-cação ideológica, • Receitas da Io: Espuma de Requeijão
que pretende inculcar uma visão doutrinal aos • Todo-o-Terreno: Português vence título mundial
seus leitores", diziam muitos. Mas que visão era • Índia: Elefante declarado Património Nacional
essa, não era consensual. Apelidado por muitos
como "conservador", o GoodNews era atacado
pelas forças conservadoras por não denunciar o
mal deste mundo progressista. Uns chamavam-
lhe "epicurista" e outros "cristão". Não falta-
vam, até, os que o apelidavam de "tentativa
maçónica de restaurar o comunismo" ou de
"neonazismo encapotado e populista".

O director do jornal, entrevistado na televisão,


respondeu a estas críticas de forma bonachei-
rona. "É evidente que temos uma visão ideoló-
gica do mundo. Tão parcial como a de todos.
Perante um facto, um acontecimento, uma
realidade, o ser humano observa-o selectiva-
mente, raciocina criteriosamente e decide o que
pensar sobre ele. Tudo isto é feito a partir dos
princípios de análise, dos preconceitos de ava-
liação que cada um de nós tem. A única publica-
ção realmente neutra que conheço é a lista
telefónica. Só aí não existe uma opinião para
observar o mundo e decidir o que dizer e como.

A nossa diferença não está aí. A comunicação


social moderna acredita, por vezes de forma
inconsciente, que só consegue agradar e atrair a
atenção dos leitores de forma bombástica ou
sedutora. Os instrumentos que todos usam, dos
jornais aos politicos e anunciantes, é a adrenali-
na e a líbido. A sua atitude é encarar o público
como um animal, que tem de ser agredido ou
assustado, surpreendido ou acariciado. Nós
tratamo-lo como uma pessoa civilizada, que
olha o mundo de forma serena, positiva e inteli-
gente, que luta com coragem e esperança con-
tra aquilo que pode mudar e se conforma
sabiamente com o que tem de suportar. E tenta
sempre adaptar-se, fazendo o melhor possível.
Estamos conscientes dos erros e dos problemas,
mas, em vez de resmungarmos e de os denun-
ciar-mos, apresentamos bons exemplos de
solução. Não nos indignamos hipocritamente,
mas procuramos compreender e ajudar.

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