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CONTEÚDO

PROFº: JOANA VIEIRA


03 Níveis de linguagem: regência verbal 1
A Certeza de Vencer JACKY19/03/08

"Quando eu chego em casa..." Dizemos, sim -e como! No entanto, em textos


técnicos, científicos, jurídicos etc., é patente o
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predomínio da regência "chegar a" sobre "chegar em". O


"Você Não Entende Nada” fato é que a regência de um verbo pode mudar não só
Quando eu chego em casa nada me consola
de acordo com o seu significado (o sentido de
Você está sempre aflita
"trabalhar" em "trabalhar um livro" é diferente do que se
Lágrimas nos olhos, de cortar cebola
Você é tão bonita vê em "trabalhar num livro", por exemplo), mas
Você traz a coca-cola eu tomo também de acordo com a variedade de língua
Você bota a mesa, eu como, eu como empregada.
Eu como, eu como, eu como Não é por acaso que, em seu respeitado
Você não está entendendo "Dicionário Prático de Regência Verbal", o professor
Quase nada do que eu digo Celso Luft quase sempre termina suas observações
Eu quero ir-me embora sobre as divergências entre os usos de certos verbos nos
Eu quero é dar o fora diversos registros lingüísticos com uma afirmação muito
E quero que você venha comigo
parecida com esta: "Na língua escrita formal culta,
E quero que você venha comigo
recomenda-se o emprego da sintaxe originária".
Eu me sento, eu fumo, eu como, eu não agüento
Você está tão curtida Já sei, já sei: você quer que eu traduza isso.
Eu quero tocar fogo neste apartamento Vamos tomar como exemplo o próprio verbo "chegar".
Você não acredita Como verbo que indica "movimento para", rege
Traz meu café com suita eu tomo (originariamente) a preposição "a", o que também
Bota a sobremesa eu como, eu como ocorre com "ir", "levar", "dirigir-se" etc. (chegar ao
Eu como, eu como, eu como cinema, a Paris, à Europa; ir ao colégio, a Itu, à França;
Você tem que saber levar alguém ao teatro, a Manaus, à Itália).
Que eu quero correr mundo Nas variedades formais da língua, é essa a
Correr perigo
regência que de fato predomina, mas, assim como
Eu quero é ir-me embora
escolhemos a roupa de acordo com a situação,
Eu quero dar o fora
E quero que você venha comigo empregamos (ou deveríamos empregar) os verbos de
(Caetano Veloso) acordo com a variedade lingüística adotada. Você já
imaginou Caetano Veloso (ou Daniela Mercury) soltando
Numa canção popular, como a antológica "Você um "Quando eu chego a casa, nada me consola..."?
Não Entende Nada", de Caetano Veloso, que Gal Costa Como diz a garotada, "sem chance". Na língua
gravou no fim da década de 60, que Caetano e Chico espontânea do Brasil, quem chega chega a. Fora
gravaram Juntos num inesquecível show realizado em 72 Caetano português, certamente teria escrito "Quando
(na Bahia, e que Daniela Mercury gravou há pouco chego a casa, nada me consola", mas isso é outra
tempo), faria sentido empregar a sintaxe lusitana, história. Se ele tivesse de escrever um ensaio ou outro
adequada ao "texto escrito culto formal"? tipo de texto formal, é provável que também optasse
Imagine a musica começando com "Quando chego a por "chegar a", mas, numa música popular, em que
muitas vezes se chega perto da oralidade, é mais do que
casa, nada me consola". Nem pensar. Caetano usou a
natural o emprego de "chegar em".
regência brasileira, adequada ao tipo de texto:
Se você estranhou o fato de não haver acento
indicador de crase no "a" que vem antes de "casa" em
"Quando chego em casa...". "Quando chego a casa", informo que esse "a" não tem
acento mesmo, mas isso também é outra história. Um
Um belo dia, aprendemos na escola que quem belo dia tratamos disso. Por enquanto, peço-lhe que
chega chega a algum lugar, quem vai vai a algum lugar, pense nestas frases: "Não dormi em casa ontem"; "Não
quem obedece obedece a alguém ou a alguma coisa, venho do trabalho; venho de casa". É isso.
quem sobressai sobressai (e não "se sobressai") etc., ( Pasquale Cipro Neto - Coluna publicada no dia 17 de
etc., etc. Tudo isso nos é dito em inesquecíveis aulas de fevereiro de 2006, no jornal "Folha de São Paulo")
regência verbal.
Muitas vezes, falta a informação essencial: Em geral, as palavras de uma oração são
teoricamente, essas regências são as predominantes nos interdependentes. isto é, relacionam-se entre si para formar um
registros formais da língua; nas variedades não-formais, todo composto de significado.
nem sempre a coisa segue esse modelo. Se tomarmos Essa relação necessária que se estabelece entre duas
como exemplo o verbo "chegar", veremos que, na palavras, uma das quais serve de complemento a outra, é o que
oralidade brasileira, costuma-se chegar em algum lugar. se chama regência.
Qual é o brasileiro que, no dia-a-dia, não diz que chegou E o que vem a ser regência? De um modo geral,
VESTIBULAR – 2009

em casa, em Santos, no Japão ou na Europa? regência é o conjunto de relações que se estabelecem entre as
Que fazer, então? Bradar aos quatro ventos que, por ser palavras (ou orações) subordínantes e as subordinadas.
Vamos ver isso com mais clareza. Você certamente
completamente estranha ao uso brasileiro, a regência
sabe que orquestras têm regentes. Diz-se, por exemplo, que
"chegar a" deve ser fulminada etc.? Devagar com o
determinada orquestra está sob a regência de determinado
andor, moçadinha. Por acaso não dizemos, também no maestro. Que faz o maestro, o regente? Em palavras pobres,
dia-a-dia, frases como "Veja a que ponto ele chegou" ou comanda os músicos. Em língua, os mecanismos de regência
como "Ele chegou ao cúmulo de dizer que..."? não são muito diferentes. Tomemos como exemplo o verbo
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"duvidar". Se alguém duvida, duvida "de alguém" ou "de é incomum que grandes escritores utilizem as expressões de
algo". Dizemos, por exemplo, que alguém "duvida da" (“da” = modo diferente do que é pregado pela gramática normativa. A
“de” + “a”) autenticidade de um documento ou que duvida “do diferença entre "onde" e "aonde" é relativamente recente.
policial” que participou de uma certa operação. Podemos dizer, Preste atenção no trecho desta canção, "Domingo", gravada pelos
então, que o verbo "duvidar" rege a preposição “de”. Titãs:
Em geral, aprendemos as relações de regência de uma
... não é Sexta-Feira Santa
forma intuitiva, natural. Não precisamos ler livros de gramática
nem um outro feriado
para saber que quem confia “confia em”, que quem concorda
"concorda com” que quem se dedica “dedica-se a” e que e antes que eu esqueça aonde estou
quem duvida “duvida de”. Mas nem sempre o que usamos no antes que eu esqueça aonde estou
dia-a-dia está de acordo com o que se verifica na variante culta aonde estou com a cabeça?
da língua. "Aonde eu estou" ou "onde estou"? A resposta a essa pergunta
Na língua oral do Brasil, são muito comuns construções seria: "Estou em tal lugar", sem a preposição "a". As gramáticas
como “ele chegou no trabalho” ou “ele chegou na escola”. ensinam que, não havendo a preposição "a", não há motivo para
No entanto, nas variedades formais da língua, os verbos que usar "aonde". Assim, a forma correta na letra da canção seria:
indicam “movimento para” costumam aparecer regendo a ... e antes que eu esqueça onde estou
preposição “a”. De acordo com essa orientação, quem chega antes que eu esqueça onde estou
“Chega a” (e não “em” um lugar) e quem “leva alguém leva onde estou com a cabeça?
alguém a algum lugar” (e não "em" algum lugar). São casos Vamos a outro exemplo, a canção "Onde você mora", gravada
em que o uso oral difere do que é registrado na norma escrita
pelo grupo Cidade Negra:
culta.
O verbo “ir” também constitui exemplo do que ... Você vai chegar em casa
acabamos de ver. Nas variedades formais da língua, a regência eu quero abrir a porta.
predominante é a que se vê em frases como “fomos cinema”, Aonde você mora
“ele foi à praia” ou “você já foi à bahia?”. Apesar dessa aonde você foi morar
recomendação normativa, não se pode dizer que nossa aonde foi?
sensibilidade seja ferida quando ouvimos algo como “fomos no Não quero estar de fora...
cinema” ou “ele foi na praia”. O mais importante é sabermos Aonde está você?
adequar a linguagem, do mesmo modo que sabemos adequar a Quem vai vai a algum lugar. Portanto a expressão correta nesse
roupa que vestimos. Em linguagem formal, seguimos o que é caso é "aonde". Aonde você foi?
comum no padrão formal. Mas quem mora mora em algum lugar. Quem está está em
algum lugar. Nesse caso, a construção correta seria "onde":
A regência e o texto escrito culto formal: Onde você mora?
O “texto escrito culto formal” é o dos editoriais de jornal, Onde você foi morar?
o de teses acadêmicas o de teorias científicas, o de relatórios Onde está você?
técnicos, o de ensaios literários o de manuais de vestibular, o de A palavra "onde" indica lugar, lugar físico e, portanto, não deve
pareceres jurídicos o de conde toda sorte o da Constituição. ser usada em situações em que a idéia de lugar, metaforicamente
Nesses textos, de fato, parece inconcebível outro padrão que seja, não esteja presente.
linguístico que seja o culto formal. Impõe-se, então, nesses Ensinam as gramáticas que, na língua culta, o verbo "chegar"
casos o “cheegar a" no lugar do "chegar em”. rege a preposição "a". Quem chega chega a algum lugar. A
Mas não é só nesse tipo de
preposição é usada quando queremos indicar movimento,
texto que se encontra o uso do padrão
culto formal. A literatura e a música deslocamento. Portanto na letra acima a regência está correta: O
popular são pródigas em exemplos de ponto aonde você quer chegar.
emprego preposição “a” com verbos Eu chego ao cinema pontualmente.
que indicam movimento. Veja o que Eu chego a São Paulo à noite.
ocorre numa outra canção popular. Eu chego a Brasília amanhã.
Na linguagem coloquial, no entanto, é muito comum vermos
“Pode seguir a tua estrela, construções como "eu cheguei em São Paulo", "eu cheguei no
O teu brinquedo de star, cinema". Não é estranho trocar "onde" por "aonde" na língua do
Fantasiando um segredo,
dia-a-dia ou em versos de letras de músicas populares, em que
O ponto AONDE quer chegar.”
fatores como o ritmo e a melodia às vezes obrigam a uma
determinada escolha gramatical para obter o efeito desejado.
Na conhecida música "Bete Balanço", de Cazuza, De todo modo, conforme a norma culta, utilize "aonde" sempre
encontramos "o ponto aonde quer chegar". Sob a ótica da que houver a preposição "a" indicando movimento: ir a / dirigir-
norma culta, o emprego de "aonde" está corretíssimo. Usa-se se a / levar a / chegar a .
"aonde" com verbos que indicam a idéia de "movimento em
direção a" e que, por isso mesmo, regem a preposição "a". É Tarefa árdua
esse o caso de “chegar”. Bem se vê que a questão não é simples. É ai que entra o
Se alguém chega, chega a algum lugar. Juntando-se a trabalho do professor de português equilibrado, cuja
preposição "a" (regida por "chegar", é bom repetir) com a função é mostrar ao aluno as diferentes variantes
palavra "onde", tem-se "o ponto “onde quer chegar”. Convém lingüísticas, sem reações histéricas, sem querer que tudo
repetir: com verbos que indicam movimento, cabe "aonde". Se seja padronizado. Talvez a principal tarefa do professor de
não houver idéia de deslocamento, de movimento, nada de português seja a de dar ao aluno condições de também se
"aonde", e sim "onde", em se tratando do padrão formal da expressar no padrão culto e de distinguir as situações em
VESTIBULAR – 2009

língua. O poeta Cazuza acertou. que isso é cabível. No Brasil, isso é tarefa árdua,
complicada. Só deslumbrados podem pensar que a missão
Onde, aonde seja fácil, que seja possível reduzir tudo à farta e
"esqueça aonde estou" ou "esqueça onde estou" preconceituosa distribuição de rótulos de preconceito ou
"Onde" ou "aonde"? Muitos temos essa dúvida. Nem vale a pena não-preconceituosos.
tentarmos esclarecê-la por meio dos textos literários, porque não
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