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CONTEÚDO

PROFº: Joana Vieira


09 NÍVES DE LINGUAGEM: COLOCAÇÃO PRONOMINAL
(TEXTO NARRATIVO)
A Certeza de Vencer CT230408

Nesta nova etapa de nossos estudos sobre a língua O exemplo é extraído da obra de
portuguesa, um dos temas abordados será a colocação Luís Fernando Veríssimo, marcada por
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pronominal. Primeiramente, leia o diálogo abaixo: crônicas humorísticas de questionamento


crítico. Em “Papos” o alvo é o emprego
formal dos pronomes, confrontando a
língua escrita e a língua falada.
O uso dos pronomes oblíquos
átonos ME, TE, SE, O(S), A(S),
LHE(S) e NOS em relação ao
verbo é bastante livre no
Brasil: depende muito
do ritmo, da
harmonia, da ênfase
e principalmente da
eufonia. Como a
pronúncia brasileira é
diferente da
portuguesa, a colocação pronominal neste lado do Atlântico
também difere da de Portugal. O português brasileiro é
essencialmente proclítico, isto é, preferimos usar o pronome na
- Me disseram... frente do verbo na maior parte do tempo. O Manual Geral de
- Disseram-me. Redação da Folha de S. Paulo resume sua orientação alertando
- Hein? para esse ponto: "Atualmente o pronome é colocado antes do
- O correto é "disseram-me". Não "me disseram". verbo haja ou não uma palavra que o atraia (pronome relativo,
- Eu falo como quero. E te digo mais... Ou é "digo-te"? negações etc.). Mas em pelo menos um caso usa-se o pronome
- O quê? depois do verbo: início de oração". Tudo poderia se resumir à
- Digo-te que você... próclise, então. Mas não é assim tão simples. Há algumas
- O "te" e o "você" não combinam. orientações e regras a serem seguidas.
- Lhe digo?
- Também não. O que você ia me dizer? José de Alencar, que não
- Que você está sendo grosseiro, pedante e chato. E que vou te seguia a norma vigente, pautada pela
partir a cara. Lhe partir a cara. Partir a sua cara. Como é que se
imitação dos padrões lusitanos.
diz?
Escreveu em Iracema, duas passagens,
- Partir-te a cara. - Pois é. Partir-la hei de, se você não parar de
para observarmos a posição dos
me corrigir. Ou corrigir-me.
- É para o seu bem. pronomes na frase.
- Dispenso as suas correções. Vê se esquece-me. Falo como
“Não, senhora, não enganou-se.”
bem entender. Mais uma correção e eu...
- O quê? “nem já lembrava-se do sacrifício.”
- O mato.
- Que mato?
- Mato-o. Mato-lhe. Mato você. Matar-lhe-ei-te. Ouviu bem? Casimiro de Abreu, acusado de redigir em
- Eu só estava querendo... “mau português” e defendido por Sousa da Silveira, em
- Pois esqueça-o e pára-te. Pronome no lugar certo é elitismo!
obra onde o grande filólogo discorre sobre vários temas
- Se você prefere falar errado...
gramaticais que teriam sido “desrespeitados” pelo poeta.
- Falo como todo mundo fala. O importante é me entenderem.
Adotando “deixa eu dormir”,
Ou entenderem-me?
- No caso... não sei. sancionou na língua escrita uma sintaxe
- Ah, não sabe? Não o sabes? Sabes-lo não? da nossa língua falada que a análise
- Esquece. lógica pode justificar (deixa dormir eu =
- Não. Como "esquece"? Você prefere falar errado? E o certo é deixa que eu durma), e conseguiu maior
"esquece" ou "esqueça"? Ilumine-me. Me diga. Ensines-lo-me, rigor de expressão, pois a forma eu, de
vamos. “deixa eu dormir”, salienta mais o
- Depende. conceito que o “me”, átono e ainda por
- Depende. Perfeito. Não o sabes. Ensinar-me-lo-ias se o cima enclítico, da locução “deixa-me
soubesses, mas não sabes-o. dormir”.
- Está bem, está bem. Desculpe. Fale como quiser. Monteiro Lobato, que sempre criticou o Brasil
- Agradeço-lhe a permissão para falar errado que mas dás. Mas atrasado e ignorante, cheio de vícios e vermes. Escreveu
não posso mais dizer-lo-te o que dizer-te-ia. O Colocador de Pronomes, em que reforçou sua postura
VESTIBULAR – 2009

- Por quê? de nacionalismo antilusitano.


- Porque, com todo este papo, esqueci-lo.

(Em: VERÍSSIMO, L. F. Comédias para se ler na escola. Rio de


Janeiro: Objetiva, 2001.)

FAÇO IMPACTO - A CERTEZA DE VENCER!!!


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O COLOCADOR DE PRONOMES – fragmento TEXTO PARA ANÁLISE:


Leia o texto para responder às questões de 1 a 3.
Aldrovando Cantagalo veio ao mundo em virtude dum erro
de gramática. PRONOMES
Durante sessenta anos de vida terrena pererecou como “Antes de apresentar o Carlinhos para a turma, Carolina pediu:
um peru em cima da gramática. — Me faz um favor?
E morreu, afinal, vítima dum novo erro de gramática. —O quê?
Mas não quis o destino que o já trêmulo Aldrovando — Você não vai ficar chateado?
colhesse os frutos de sua obra. Filho dum pronome —O que é?
impróprio, a má colocação doutro pronome cortar-lhe-ia o fio — Não fala tão certo?
da vida. — Como assim?
Muito corretamente havia ele escrito na dedicatória: — Você fala certo demais. Fica esquisito.
daquele que me sabe... e nem poderia escrever doutro modo —Por quê?
um tão conspícuo colocador de pronomes. Maus fados — E que a turma repara. Sei lá, parece...
intervieram, porém — até os fados conspiram contra a — Soberba?
língua! — e por artimanha do diabo que os rege empastelou- — Olha aí, ‘soberba’. Se você falar ‘soberba’ ninguém vai saber
se na oficina esta frase. Vai o tipógrafo e recompõe-na a seu o que é. Não fala ‘soberba’. Nem ‘todavia’. Nem ‘outrossim’. E
modo... daquele que sabe-me as dores... E assim saiu nos cuidado com os pronomes.
milheiros de cópias da avultada edição. — Os pronomes? Não posso usá-los corretamente?
(...) — Está vendo? Usar eles. Usar eles!
— Deus do céu! Será possível? O Carlinhos ficou tão chateado que, junto com a turma, não
Era possível. Era fato. Naquele, como em todos os falou nem certo nem errado. Não falou nada. Até comentaram:
exemplares da edição, lá estava, no hediondo relevo da — O Carol, teu namorado é mudo?
dedicatória o Fr. Luís de Sousa, o horripilantíssimo — “que Ele ia dizer ‘Não, é que, falando, sentir-me-ia vexado’, mas se
sabe-me”. conteve a tempo. Depois, quando estavam sozinhos, a Carolina
Aldrovando não murmurou palavra. De olhos muito agradeceu, com aquela voz que ele gostava.
abertos, no rosto uma estranha marca de dor — dor — Comigo você pode botar os pronomes onde quiser, Carlinhos.
gramatical inda não descrita nos livros de patologia — Aquela voz de cobertura de caramelo.”
permaneceu imóvel uns momentos. (VERISSIMO, Luis Fernando. Contos de verão. O Estado de S.
Depois empalideceu. Levou as mãos aos abdômen e Paulo, 16 jan. 2000.)
estorceu-se nas garras de repentina e violentíssima ânsia.
Ergueu os olhos para Frei de Sousa e murmurou: 01. O pedido feito por Carolina a Carlinhos se baseia na
— Luís! Luís! Lamma Sabachtani?! definição da fala do namorado como “certa demais”. O que isso
E morreu. significa? Justifique sua resposta.
De que não sabemos — nem importa ao caso. O que ___________________________________________________
importa é proclamarmos aos quatro ventos que com ___________________________________________________
Aldrovando morreu o primeiro santo gramática, o mártir
número um da Colocação dos Pronomes. ___________________________________________________
Paz à sua alma. ___________________________________________________

02. Em dois momentos no texto, Carlinhos usa os pronomes


No romance Infância, Graciliano Ramos ironiza a corretamente. Em um desses momentos é corrigido pela
mesóclise, colocação pouco do agrado para o ouvido brasileiro: namorada, que deixa claro o que se espera, em uma situação
de informalidade, como utilização “adequada” da colocação
INFÂNCIA- fragmento pronominal.

Afinal meu pai desesperou de instruir-me, revelou tristeza a) Transcreva do texto esses dois momentos e justifique, do
por haver gerado um maluco e deixou-me. Respirei, meti-me ponto de vista gramatical, a colocação pronominal utilizada por
na soletração, guiado por Mocinha. E as duas letras Carlinhos.
amansaram. Gaguejei sílabas um mês. No fim da carta elas ___________________________________________________
se reuniam, formavam sentenças graves, arrevessadas, que
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me atordoavam. Certamente meu pai usara um horrível
embuste naquela maldita manhã, inculcando-me a ___________________________________________________
excelência do papel impresso. Eu não lia direito, mas,
arfando penosamente, conseguia mastigar os conceitos b) Qual seria a utilização dos pronomes esperada pela turma e
sisudos: “A preguiça é a chave da pobreza – Quem não pela própria Carolina?
ouve conselhos raras vezes acerta – Fala pouco e bem: ter- ___________________________________________________
te-ão por alguém.”
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Esse Terteão para mim era um homem, e não pude saber
que fazia ele na página final da carta. As outras olhas se ___________________________________________________
desprendiam, restavam-me as linhas em negrita, resuma da
ciência anunciada por meu pai. 03. Carolina pede ao namorado que não fale “certo demais”
– Mocinha, quem é o Terteão? porque “a turma repara”. E possível afirmar que, segundo a
Mocinha estranhou a pergunta. Não havia pensado que namorada, a maneira de Carlinhos falar poderia parecer esnobe
Tertão fosse homem. Talvez fosse. “Fala pouco e bem: ter- aos amigos dela, uma demonstração de “superioridade
VESTIBULAR – 2009

te-ão por alguém.” lingüística”. Poderíamos dizer que esse juízo sobre a maneira de
– Mocinha, que quer dizer isso? falar de Carlinhos é a manifestação de “um preconceito
Mocinha confessou honestamente que não conhecia lingüístico às avessas”. Em que ele se baseia?
Terteão. E eu fiquei triste, remoendo a promessa de meu ___________________________________________________
pai, aguardando novas decepções.
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