(um conto experimental cyberpunk de léo pimentel

,
[A]m[A]nt[E]|d[A]|h[E]r[E]si[A] – cerrado, outono, 2017)

pUnk[A]l_sUlUk
duna V, baixo paraíso, 4713 psr/ls

exm* amigxs desconhecidxs
morada indeterminada
em mãos, desde o acaso

escondido dentro de uma caixa metalicorgânica de ressonância mórfica artificial, sob uma das cachoeiras
das cataratas de poeira de iguaçu, encontrei a mensagem abaixo – um conjunto de holonotas. não está
intacta. muito menos está em seu estado original. há muitas mãos, de carbono e/ou de silício, que a
tocaram e a transformaram ao longo do espaço-tempo do silêncio e da hiperconexão. assim, sua beleza
foi ampliada e reverberará em nossa web-kundalini. em meu caso, para tal ampliação e reverberação fiz
uso dos encontros em nós de sonhos artificiais, com uma belíssima e poderosíssima xamã
ancestrofuturista que guia, com grande sabedoria, nossos quilombos nômades, há milênios. seu nome é :
{v1ctÓr14}:, uma sábia e indestrutível pós-humana que habita a consciência da rede neural que conecta
todas as iaras-amazonas do presente, do passado e do futuro.

eis o conjunto de holonotas outrora escondido e descoberto, por hora revelado e aqui embelezado:

“Céu ocre. Bela atmosfera enferrujada. Há um tom cromo amarelado em todas as
coisas. Há ruídos, quase harmônicos, entre o som das cigarras ciborgânicas e o
ranger das vigas de concreto nanorobóticos que balançam com as lufadas de vento
ácido que, ritmicamente, lhes tocam. O cheiro é de um tipo estranho de hortelã
transgênico modificado com o DNA de algas marinhas abismais. Chuvinha fina. Com a
língua pra fora dá pra sentir o sabor de jambu das gotinhas que caem do céu.

– Havia um tempo em que um único número reunia informações do
século, ano, mês, dia, hora, minuto e segundo. Ah… havia um tempo…

– Havia um tempo em que as zonas erógenas de meu corpo eram apenas
ímãs como em uma bússola… Ah… havia um tempo…

– Lembro com uma nostalgia curiosa…”

1
Há muitos ciclos gammas de PSR B1259-63 e LS 2883, que venho tentando descifrar
de onde veio essa mensagem. Ela me chegara pelo drone-correio anonimamente.
Mas claro que ela não estava endereçada para mim. Eu precisava capturar esse
drone e pegar suas peças para eu concertar minha moto magnética. Eu precisava de
um navegador que funcionasse. Mas tenha certeza que, se assim, me chegou, assim
te chegará também. Mas o que mais importa agora é saber que adoro enigmas. E
este me foi uma delícia decifrá-lo. Se não o consegui, pelo menos que eu o replique
em outros caminhos bifurcados.

Visões 01: Descobrir desde onde no planeta vê-se um céu ocre.
Da caatinga parti. Minhas bolsas bandoleiras têm tudo o que preciso
para sobreviver a essa viagem. Segui rumo às ruínas de uma das
bibliotecas ocupadas pelas “Anciãs Livres”. Ficava no meio do cerrado.
Eu precisa falar com Tuirá, guardiã-matriarca de uma belíssima rota
para um dos mais belos futuros proibidos.
[...]
Após algumas sessões de jurema, Tuirá mesma projetou no meu recente
equipamento de navegação as seguintes coordenadas 34° 24' 50.77" S -
21° 13' 03.66" E. Não demorou muito para ver que o caminho me era
impossível. Havia um oceano entre nós. Minha bússola holográfica
mostrava, na palma de minha mão, o local. E piscava sobre ela o nome
“Caverna Blombos”.

Visões 02: Ir até a África sem precisar de movimentar-se pela meatspace.
Tuirá me diz que há um domo holográfico carinhosamente apelidado de
planetário, há uns 300kms daqui. Preciso ir. Mas ela me alertou que terei
de levar uma máquina, movida a gasolina, que ainda esteja
funcionando, para fazer uma oferenda, junto aos Seres Projetores|
Receptores [conhecidos como povo Girassol] que cuidam do local. Seres
curiosos, máquinas-flores com sentimentos humanos, demasiado
humanos, movidos a luz solar. Sempre que podem sacrificam “bebedores
de petróleo” ao Sol – como costumam dizer.
[…]
Lá sacrificamos um antigo walk machine. [Quase perdi meu terceiro
braço para consegui-lo. Minha sorte foi que na luta no bar, o garçom era
meu amigo e o chutou para baixo do balcão, e de lá meu braço pôde,
remotamente, dar tiros certeiros]. [...] Em retribuição, João-de-Deus-está-
morto, o Gran-Girassol do planetário, fazendo uso de ayahuasca e
holografias enteógenas me conduziu até o interior da Caverna Blombos.
Sim, era lindo, e... ocre! Mas infelizmente não tinha uma atmosfera
enferrujada. Muito menos haviam “coisas” em tons cromo amarelado.
Pois ali não havia luz externa. Toda luz era levada por nós.

Outros ciclos gammas de PSR B1259-63 e LS 2883 passaram. Tive que abandonar
as pesquisas pelos olhos. Desta vez minha tentativa será pelos ouvidos. Como o
mencionado na mensagem capturada, eu devia ouvir harmônicos de cigarras
ciborgânicas e concretos nanorobóticos vibrando. Ouvir tal som tão específico, talvez
se consiga descobrir o local de envio da mensagem.

Audições 01: Procurar os ouvidos mais delicados e refinados.
Havia uma comunidade na Chapada do Ornitorrinco Elétrico cujo ritual
de maturidade era a abdicação dos olhos. Para se tornar uma pessoa
adulta o olhar era algo obsoleto. E, em cegueira ritual, por meio do
psilocybe cubensis, conseguiam ouvir a música do movimento das
esferas celestes. Somente o ouvir conseguia alcançar horizontes tão
longínquos. E por tal abdicação, com o correr dos ciclos, seus ouvidos
passavam a reconhecer a menor vibração sonora e a ecolocalizar sua
origem com uma precisão fora do comum. Tanto que, neste exato
momento devem estar ouvindo os meus pensamentos sobre ela.
[...]
Sim, foi o que aconteceu. assim que eu me aproximava da comunidade,
um cântico me era endereçado. Não sei como faziam, pois eu não tenho a
menor ideia de como funciona a relação entre receber e emitir som. O que
sei é que meus sentidos não conseguiam decifrar o que queriam me

2
dizer. Mas gravei o áudio em meu capacete de ressonância mórfica
artificial.

Audições 02: Encontrar cypherpunk colaborativo.
Foi em um sítio arqueológico de parques de diversões que o encontrei. Por
lá todas as pessoas usavam uma mesma máscara branca. Era uma só,
mas tinha nela os dois rostos do teatro. Comecei a rodar a gravação.
Logo alguém disse ser especialista em esteganografia sonora. E logo se
pôs a me ajudar com aquilo. Mas claro que não foi de graça. Mas é bom
lembrar que nossa economia pirata não comete nenhuma injustiça entre
nós.
[...]
Sobre o cântico gravado descobrimos um trecho do livro “All the Birds in
the Sky” de Charlie Jane Anders. O trecho indicava as coordenadas de
um local que era um exato cruzamento temporal entre a escravidão e a
liberdade: um bunker que funcionou, há centenas de ciclos, como abrigo
à radiação da era Pós-Agroterrorismo-de-Estado.

[...]
Enfim, cheguei ao bunker. Foi uma perturbadora viagem por dentre cidades-
fantasmas-na-máquina. […] Ahá…. ai está você. [...] Enterrado sob uma antiga
Catedral, que há muitos ciclos deixara de ser branca. Sua arquitetura é de um estilo
pensado como escombros milimetricamente apoiados uns nos outros. Uma cartesiana
geometria do caos. Mas também há sinos e enormes pedaços de estátuas enferrujadas
abandonados ao lado. Parecem esculturas de anjos. Ou seriam de ícaros? Não sei.
Não entendo nada de mitologia jurássica. Curiosamente há pessoas morando nele.
Pessoas estranhas. Muito formais em gestos e em vestimenta. Parecem usar potentes
protetores de ouvido. Acho que não suportam som algum. […] Não param de me
encarar. Mas ao mesmo tempo parecem me ignorar. Que olhos estranhos. [...] O cheiro
aqui é horrível. É preciso máscara. Um local tão higienizado como este. Como isso é
possível? Mesmo parecendo escombros, tudo é tão limpo. Tudo está tão no seu devido
lugar. […] Aqui as coisas têm um tom de cromo amarelado. A luz alaranjada do sol
entra pelo que chama de cobogó e colori todas as coisas. Mas…. deveria ter algum
odor... pelo menos de terra molhada. Está caindo uma estranha chuva fina. [...] Vou
forçar uma conversa com alguém e ver o que têm a me dizer.

(ruídos indescritíveis e muita interferência na imagem)

fim das holonotas. senti náuseas. uma certa vertigem me envolveu. pois o afeto vinculado com o final da
gravação, foi o de surpresa e horror ao mesmo tempo. desconfio que a tragédia foi companhia desse
nosso ou nossa amiga que desvendou parte desse enigma e lhe impossibilitou continuar. minha cabeça
doi. meus olhos ardem. sinto um gosto metálico na boca. há uma queimação em meu peito. será essa a
sensação da shawara que ataca os pulmões de xamãs? pode ser, pois conheço este último lugar descrito
apontado pelas audições. e certamente a mensagem enigma não partiu de lá. aquelas pessoas são
incapazes de atos não burocráticos. interessante é que os olhos e os ouvidos são apenas a metade do
caminho para se saber desde onde se enviou tal mensagem. será mesmo a metade? não seriam apenas
uma pequena fração?

mas curioso que essas holonotas nada dizem sobre a mensagem mesma... será que o lugar não terá sido
criado pelo afeto e pelo corpo de quem a enviou? algo que aprendi com a sábia :{v1ctÓr14}: foi que o
mundo é criado de dentro pra fora e não o contrário. cosmos inteiros criados desde o tato de nossas
línguas – saber sabor. cosmos inteiros criados desde o tato interior de nossa pele – derme|cosmos.
mesmo que sintética e hibridizada com silício. sim! levarei esse enigma para ela me ajudar a encontrar
uma solução. e esta não precisa ser a do local desde onde partiu a mensagem. quero algo mais
profundo. quero ser encarado pelo abismo.

atenciosa e afetivamente
pUnk[A]l_sUlUk

*****

3
é isso compas do baleia|punk[A]biohack|lab. eis nosso segredo fundante. a
aurora crepuscular na qual nossa inteligência eroticoletiva teve início:
pUnk[A]l_sUlUk se encontrou com :{v1ctÓr14}:. nesse encontro nos foi
ensinado que nossas zonas erógenas são parabólicas. é por meio delas que
captamos e criamos outros mundos. este último decifrador|ilusionsita do
enigma da mensagem, acrescentou um ruído na informação para que jamais
nos descobrissem para nos perseguir, se a decifração fosse apenas desde a
racionalidade fria e calculista. que nos descubram pelo amor! foi em tal
encontro que :{v1ctÓr14}: lhe aconselhou a acrescentar o toque da
“nostalgia curiosa”. para que, na verdade, só alguém, cujas as dobras do
corpo fossem a mais pura e genuína transformação de si em si, sentisse a
beleza de uma melancolia insurgente. sim, sentir saudades de um mundo a
ser criado é o primeiro passo para criá-lo.

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