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ALGUNS ARTIGOS SOBRE METAIS PESADOS

Metais pesados

Contaminando a vida

Minamata, Japão,1956.

No dia 21 de abril, uma criança com disfunções do sistema


nervoso dá entrada no Hospital Shin Nihon Chisso. Logo em
seguida, no dia 1o de maio, quatro outros pacientes com
sintomas similares aparecem no Centro de Saúde Pública
de Kumamoto. Esta última acabou sendo a data oficial da
descoberta do Mal de Minamata, doença cerebral causada
pela ingestão de mercúrio.

Naquele ano, um comitê especialmente designado para


investigar a doença (de causas até então desconhecidas)
reconheceu o mal em 56 pessoas. A investigação apontou
pacientes das vizinhanças da Baía de Minamata, cujas
dietas eram centradas em peixes e frutos do mar. Foram
encontrados cristais de mercúrio orgânico nos dejetos da
indústria química Chisso. O mercúrio era despejado em um
rio que desaguava no mar, o principal fornecedor de
alimentos às comunidades da região. A fauna marinha foi
intoxicada e, através da comida, o metal altamente tóxico
chegou aos organismos humanos.

As mortes e doenças conseqüentes da contaminação por


mercúrio em Minamata são exemplos da força tóxica do
grupo de elementos químicos conhecidos como metais
pesados.

Os despejos de resíduos industriais são as principais fontes


de contaminação das águas dos rios com metais pesados.
Indústrias metalúrgicas, de tintas, de cloro e de plástico
PVC (vinil), entre outras, utilizam mercúrio e diversos
metais em suas linhas de produção e acabam lançando
parte deles nos cursos de água. Outra fonte importante de
contaminação do ambiente por metais pesados são os
incineradores de lixo urbano e industrial, que provocam a
sua volatização e formam cinzas ricas em metais,
principalmente mercúrio, chumbo e cádmio.

Os metais pesados não podem ser destruídos e são


altamente reativos do ponto de vista químico, o que explica
a dificuldade de encontrá-los em estado puro na natureza.
Normalmente apresentam-se em concentrações muito
pequenas, associados a outros elementos químicos,
formando minerais em rochas. Quando lançados na água
como resíduos industriais, podem ser absorvido pelos
tecidos animais e vegetais.

Uma vez que os rios deságuam no mar, estes poluentes


podem alcançar as águas salgadas e, em parte, depositar-
se no leito oceânico. Além disso, os metais contidos nos
tecidos dos organismos vivos que habitam os mares
acabam também se depositando, cedo ou tarde, nos
sedimentos, representando um estoque permanente de
contaminação para a fauna e a flora aquáticas.

Estas substâncias tóxicas também depositam-se no solo ou


em corpos d'água de regiões mais distantes, graças à
movimentação das massas de ar. Assim, os metais pesados
podem se acumular em todos os organismos que
constituem a cadeia alimentar do homem. É claro que
populações residentes em locais próximos a indústrias ou
incineradores correm maiores riscos de contaminação.

Efeitos na Saúde

A maioria dos organismos vivos só precisa de alguns


poucos metais e em doses muito pequenas. Tão pequenas
que costumamos chamá-los de micronutrientes, como é o
caso do zinco, do magnésio, do cobalto e do ferro
(constituinte da hemoglobina).
Já o chumbo, o mercúrio, o cádmio, o cromo e o arsênio
são metais que não existem naturalmente em nenhum
organismo. Tampouco desempenham funções - nutricionais
ou bioquímicas - em microorganismos, plantas ou animais.
Ou seja: a presença destes metais em organismos vivos é
prejudicial em qualquer concentração.

Um estudo realizado por pesquisadores brasileiros avaliou a


concentração de metais pesados em verduras cujo plantio
utilizou adubo proveniente da compostagem de lixo
orgânico.

Os resultados demostraram que o solo e as hortaliças


tinham Cádmio em níveis perigosos para o consumo
humano. Folhas de alface, couve e brócolis continham,
respectivamente, 2,3, 11,8 e 8 miligramas de Cádmio por
quilograma de alimento (mg/kg). Como a Organização
Mundial de Saúde (OMS) recomenda o máximo diário de 1
micrograma de Cádmio por quilograma de massa corpórea,
alguém que se alimente destas verduras acabará por
ingerir dez vezes mais que as quantidades aceitáveis.

Os mesmos pesquisadores afirmam que os alimentos


fornecem 40% do cádmio absorvido pelo homem e que a
vida média biológica deste elemento químico (19-38 anos)
acarreta sua acumulação no corpo humano, especialmente
nos rins e no fígado. Altos teores podem trazer disfunções
em pessoas com mais de 50 anos de idade.

OS METAIS SÃO CLASSIFICADOS EM:


1. elementos essenciais: sódio, potássio, cálcio, ferro, zinco,
cobre, níquel e magnésio;

2. micro-contaminantes ambientais: arsênico, chumbo,


cádmio, mercúrio, alumínio, titânio, estanho e tungstênio;

3. elementos essenciais e simultaneamente micro-


contaminantes: cromo, zinco, ferro, cobalto, manganês e
níquel.

Os efeitos tóxicos dos metais sempre foram considerados


como eventos de curto prazo, agudos e evidentes, como anúria
e diarréia sanguinolenta, decorrentes da ingestão de mercúrio.
Atualmente, ocorrências a médio e longo prazo são
observadas, e as relações causa-efeito são pouco evidentes e
quase sempre subclínicas. Geralmente esses efeitos são
difíceis de serem distinguidos e perdem em especificidade,
pois podem ser provocados por outras substâncias tóxicas ou
por interações entre esses agentes químicos.
A manifestação dos efeitos tóxicos está associada à dose e
pode distribuir-se por todo o organismo, afetando vários
órgãos, alterando os processos bioquímicos, organelas e
membranas celulares.

Acredita-se que pessoas idosas e crianças sejam mais


susceptíveis às substâncias tóxicas. As principais fontes de
exposição aos metais tóxicos são os alimentos, observando-se
um elevado índice de absorção gastro-intestinal.
Em adição aos critérios de prevenção usados em saúde
ocupacional e de monitorização ambiental, a biomonitorização
tem sido utilizada como indicador biológico de exposição, e
toda substância ou seu produto de biotransformação, ou
qualquer alteração bioquímica observada nos fluídos
biológicos, tecidos ou ar exalado, mostra a intensidade da
exposição e/ou a intensidade dos seus efeitos.

Recentemente, tem sido noticiado na mídia escrita e falada a


contaminação de adultos, crianças, lotes e vivendas
residenciais, com metais pesados, principalmente por chumbo
e mercúrio. Contudo, a maioria da população não tem
informações precisas sobre os riscos e as conseqüências da
contaminação por esses metais para a saúde humana.

Em Bauru, SP, é um dos exemplos dessa contaminação. A Indústria de


Acumuladores Ajax, uma das maiores fábricas de baterias automotivas do
país localizada no km 112 da Rodovia Bauru-Jaú, contaminou com
chumbo expelido pelas suas chaminés 113 crianças, sendo encontrados
índices superiores a 10 miligramas/decilitro (ACEITUNO, 18-04-2002).

Foram constatados ainda a contaminação de animais, leite, ovos e outros


produtos agrícolas, resultando em um enorme prejuízo para os
proprietários. Um dos casos mais interessantes foi o de uma criança de 10
anos, moradora de um Núcleo Habitacional localizado próximo à fonte
poluidora. Desde os 7 meses de idade sofria de diarréia e de deficiência
mental. Somente após suspeitas dessa contaminação, em 1999, quando
amostras do seu sangue foram enviadas a dois centros toxicológicos nos
Estados Unidos, é que foi constatada a intoxicação por chumbo, urânio,
alumínio e cádmio (ACEITUNO, 18-04-2002).

A cidade de Paulínia, em SP, e o bairro Vila Carioca também foram


contaminados pela Shell Química do Brasil. Em Paulínia, dos 166
moradores submetidos a exames, 53% apresentaram contaminação crônica
e 56% das crianças revelaram altos índices de cobre, zinco, alumínio,
cádmio, arsênico e manganês. Em adição observou-se também, a
incidência de tumores hepáticos e de tiróide, alterações neurológicas,
dermatoses, rinites alérgicas, disfunções gastro-intestinais, pulmonares e
hepáticas (GUAIUME, 23-08-2001).

Dos 2,9 milhões de toneladas de resíduos industriais perigosos gerados


anualmente no Brasil, somente 600 mil toneladas recebem tratamento
adequado, conforme estimativa da Associação Brasileira de Empresas de
Tratamento, Recuperação e Disposição de Resíduos Especiais (ABETRE).
Os 78% restantes são depositados indevidamente em lixões, sem qualquer
tipo de tratamento (CAMPANILI, 02-05-2002).

Recentemente a companhia Ingá, indústria de zinco, situada a 85 km do


Rio de Janeiro, na ilha da Madeira, que atualmente está desativada,
transformou-se na maior área de contaminação de lixo tóxico no Brasil.
Metais pesados como zinco, cádmio, mercúrio e chumbo continuam
poluindo o solo, a água e atingem o mangue, afetando a vida da população.
Isso ocorreu porque os diques construídos para conter a água contaminada
não têm recebido manutenção há 5 anos, e dessa forma os terrenos
próximos foram inundados, contaminando a vegetação do mangue.

Bibliografia

1. ACEITUNO, J. Mais 22 crianças estão contaminadas com chumbo em


Bauru. O ESTADO DE SÃO PAULO. 12-04-2002.
2. ACEITUNO, J. Já são 76 crianças contaminadas por chumbo em Bauru. O ESTADO
DE SÃO PAULO. 18-04-2002.

3. ACEITUNO, J. Ministério inspeciona atendimento aos contaminados por chumbo. O


ESTADO DE SÃO PAULO. 07-05-2002.
2.
4. CAMPANILI, M. Apenas 22% dos resíduos industriais têm tratamento adequado. O
ESTADO DE SÃO PAULO. 02-05-2002.

5. Descoberta a maior área de contaminação de lixo químico do Brasil. JORNAL


NACIONAL. 09-04-2002.

6. GUAIME, S. Laudo comprova contaminação dos moradores de Paulínia. O ESTADO


DE SÃO PAULO. 23-08-01.

7. MUNG, M. CPI vai pedir interdição de terminal da Shell em SP. O ESTADO DE SÃO
PAULO. 03-05-2002.

8. SALGADO, P. E. T. Toxicologia dos metais. In: OGA, S. Fundamentos de


toxicologia. São Paulo, 1996. cap. 3.2, p. 154-172.

9. SALGADO, P. E. T. Metais em alimentos. In: OGA, S. Fundamentos de toxicologia.


São Paulo, 1996. cap. 5.2, p. 443-460.

10. TREVORS, J. T.; STRATDON, G. W. & GADD, G. M. Cadmium transport,


resistance, and toxicity in bacteria, algae, and fungi. Can. J. Microbiol., 32: 447-460,
1986.

11. ZIMBRES, E. www.meioambiente.pro.br