Você está na página 1de 20

!

1!

Dramatugia)cômica)em)Platão:)observações)a)partir)de)Íon 1 .)

 
 

Marcus!Mota!

Universidade!de!Brasília!

Marcusmotaunb@gmail.com!

 

Abstract! In!this!paper!I!propose!a!close!analysis!of!Plato's! Ion! in!order!to!focus!on! comic!procedures.!My!main!goal!is!provide!a!conceptual!framework!that!enables! contemporary! readers! to! connect! text! and! comic! tradition.! ! This! approach! is! based!on!an!approximation!between!Classics!and!Performance!Studies.!! Keywords! Plato,Ion,!Comicity,!Performance.!

Um!dos!aspectos!bem!evidentes!da!escritura!platônica!é!sua!relação!com!a! tradição! cômica.! ! Bem! evidente,! mas! de! difícil! caracterização.! Tal! relação! se! expressa! na! utilização! de! procedimentos! de! comicidade.! Ou! seja,! o! texto! platônico! se! organiza! a! partir! da! apropriação! e! transformação! desses! procedimentos.!O! texto!nos! remete!para!práticas!e! contextos!de!produção! que,! embora!registrados!pela!escritura,!tornamRse!compreensíveis!e!efetivos!quando! melhor!compreendidos!nos!atos!de!sua!realização.!! A! dificuldade! de! identificar! estes! procedimentos! na! escritura! platônica! reside! inicialmente! na! familiaridade! (ou! não)! do! intérprete! com! a! tradição! cômica! que! os! determina.! Como! a! comicidade! se! materializa! em! situações! intersubjetivas! performativas,! em! contato! e! trocas! faceRaRface,! é! preciso! um! modelo! ! hermenêutico! que! leve! em! consideração! as! especificidades! de! seu! contexto!produtivo!para!correlacionar!textualidades!a!atos!performativos.! !Novamente,! não! se! trata! aqui! de! apontar! no! texto! platônico! porções! cômicas,!momentos!de!humor 2 .!Para!a!entender!a!comicidade!em!ação,!um!passo!

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  • 1 !Texto!apresentado!ao!!X!Seminário!Internacional!Archai.!Brasília,!2012.!V.!

www.archai.com.br.!

!

2!

metodológico! importante! é! não! se! restringir! aos! efeitos,! ao! riso! somente 3 .! A! amplitude! do! processo! de! produção! de! comicidade! demanda! estratégias! de! integração,!de!ultrapassagem!de!instâncias!isoladas.!!O!descentramento!quanto! ao!riso!possibilita!a!percepção!da!complexidade!da!produção!de!comicidade,!pois! tornamRse! distinguíveis! e,! disto,! correlativos,! atos! diversos! de! composição,! realização!e!recepção.!!O! foco!na!resposta,!na!recepção,!no!riso!postula!redução! da!amplitude!da!percepção!de!como!a!comicidade!opera.!! !

Em! Íon! uma! dramaturgia! integral,! que! se! explicita! na! correlação! entre! composição,! realização!e! recepção,!encontraRse! não! só! na! organização! do! texto! como!também! é!tematizada!nas!falas!das!personagens.!Dessa!forma,!o!diálogo!se! apresenta! uma! excepcional! riqueza! de! dados! e! questões! tanto! para! a! compreensão!da!apropriação!e!transformação!da!tradição!cômica!elaborada!por! Platão!quanto!para!a!discussão!dessa!mesma!tradição!cômica.!Ou!seja,%Íon!é!tanto! um!documento!que!testemunha!um!experimento!de!expressão!que!negocia!com! a! tradição! cômica! quanto,! por!isso!mesmo,! entra! para! a! tradição! cômica! como! uma!modalidade,!um!tipo!de!produção!de!comicidade.!!!Mais:! Íon! pertence!tanto! à!história!da!filosofia!quanto!à!história!do!cômico.!! Dessa! forma,! ! o! diálogo! filosófico! Íon,! e! mesmo! aquilo! que! chamamos! 'diálogo! filosófico'! melhor! se! compreende! como! uma! escritura! que! se! vale! de! tradições! performativas! vigentes.! O! diálogo! o! é! não! por! registrar! pessoas! em! trocas!verbais.!O!dialógico!do!diálogo!se!encontra!nas! interações!com!situações! outras! que! a! mediação! da! palavra.! Como! a! comicidade! se! manifesta! em! sua! amplitude! tanto! por! contexto! produtivo! quanto! por! sua! corporeidade! generalizada,! a! aproximação! entre! comicidade! e! dialógico! filosófico! possibilita! uma! melhor! compreensão! dos! modos! como! as! tradições! performativas! são! reprocessadas.!!! Dessa! forma! a! comicidade! do! diálogo! platônico! não! é! um! tema! em! si:! a! comicidade! compreendida! em! seu! contexto! de! produção! fundamenta! o! modo! como!se!percebe!o!jogo!do! texto!com!as! tradições!performativas.!A!comicidade!

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  • 2 !Como!ser!vê!em!JONES!s/d.!!!

  • 3 !Outra!estratégia!é!aproximar!as!obras!platônicas!de!outros!'gêneros',!como!a! comédia!antiga,!mas!se!se!problematizar!o!que!se!entende!por!'gênero',!como!em!!

CHARALABOPOULOS!2012,!PUCHNER!2010,!NIGHTINGALE!2000.!

!

3!

indica!a!materialidade!da!performance!no!texto,!ou!a!textualização!performativa!

do!diálogo.!Daí!ser!possível!valerRse!da!comicidade!não!só!para!discutir!a!própria!

comicidade.!!

!

Íon% se!organiza!na!interação!assimétrica!entre!dois!agentes!personativos,! Íon! e! Sócrates 4 .! ! O! minimalismo! do! diálogo,! ao! se! restringir! a! dois! falantes! apenas,!vincula!o!texto!à!procedimentos!do!duplo,!!das!duplas!cômicas,!presente! nas! tradições! performativas! mais! diversas.! ! Contemporâneo! de! Platão,! Aristófanes! abre! muitas! de! suas! comédias! com! diálogos! entre! duplas,! demonstrando!a!!formalização!e!popularidade!do!procedimento 5 .!! No!diálogo! Íon,! porém,!! a!dupla!cômica!não!se!limita!a! algumas!cenas:!a! continuidade!do!diálogo!se!perfaz!na!contracenação!entre!Íon!e!Sócrates.!!Aqui!o! procedimento! é! expandido,! redefinido! dentro! do! escopo! do! diálogo.! A! contracenação! entre! Íon! e! Sócrates! é! o! que! sustenta! a! duração! do! diálogo.! A! dupla!cômica!!é!ao!mesmo!tempo!a!única!fonte!e!o!próprio!veículo!das!cenas.!! Sendo! um! procedimento! com! alta! produtividade,! a! dupla! cômica! faz! convergir! no! momento! de! sua! utilização! um! desdobrado! conjunto! de! expectativas:!tanto!se!atualizam!e!ao!mesmo!tempo!aquilo!que!se!espera!de!uma! dupla!cômica!em!geral!quanto!aquilo!que!a!dupla!de!agora!apresenta.!Assim,! o! jogo!da!dupla!cômica!se!perfaz!em!uma!tensão!entre!completude!e!incompletude,! já!que!a!função!e!caracterização!de!cada!integrante!da!dupla!se!faz!em!função!do! outro.!!Em!outras!palavras,!uma!dupla!cômica!só!existe!na!oferta!de!figuras!que! dependem! uma! da! outra,! senda! cada! uma! incompleta! se! isolada! e! realizável! apenas! quando! na! presença! de! seu! correlativo.! ! O! jogo! da! dupla! é! este:! o! da! carência!e!do!vínculo.!As!oposições!não!são!abstratas,!não!se!reduzem!a!um!rol! de!ideias:!a!dupla!cômica!se!vale!das!diferenças!e!dos!confrontos! para!manifestar! a!integração!das!partes.!! No! diálogo! Íon,! Platão! utiliza! o! recurso! da! dupla! cômica! acrescentando! outros!matizes.!!A!assimetria!comum!entre!os!membros!da!dupla!é!muito!mais! marcada! e! simultaneamente! obscurecida:! o! famoso! performer! Íon! não! pode! mostrar!suas!habilidades,!enquanto!que!Sócrates!domina!verbalmente!o!diálogo,!

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  • 4 !Para!uma!discussão!dos!termos,!v.!MOTA!2006,!MOTA!2008.!

  • 5 !LembreRse!o!início!de!As%Rãs,%%As%vespas,%%As%aves,%A%paz,%Tesmoforiantes.!!

4!

!

mas! ocupaRse! mais! fazer! com! que! Íon! exiba! seu! déficit! cognitivo! quanto! justamente! o! conhecimento! de! sua! arte.! Essa! assimetria! desestabiliza! as! expectativas!em!torno!do!tipo!geral!das!duplas!cômicas,!que!mesmo!baseadas!na! disparidade! dos! atributos,! possuem! um! horizonte! de! solidariedade! e! vínculo! entre!os!integrantes.!!! Mais!especificamente:! segundo! dados! de! John!Bremer,! temos!a! seguinte! estatística:! !

1R!número!de!falas!do!texto:!171.!

2Rnúmero!de!falas!de!Sócrates:!86!

3Rnúmero!de!falas!de!Íon:!85!

4R!número!de!palavras!do!diálogo:!3.859.!

5Rnúmero!de!palavras!de!Sócrates:!3155.!

6Rnúmero!de!palavras!de!Íon:!704!

7R!número!de!sílabas!do!diálogo:!7.776!

8R!número!de!sílabas!de!Sócrates:!6.377!

9R!número!de!sílabas!de!Íon:!1.399!

!

A!partir!da!materialidade!linguística!do!texto,!temos!que!,!em!um!primeiro! momento! o! balanço! entre! as! participações! parece! equilibrado,! como! convém! a! uma! dupla! cômica,! ao! termos! equânimes! oportunidades! de! se! apresentar,! de! mostrar!seu!material:!Sócrates!e!Íon!dividem!ao!meio!o!número!total!de!falas!do! texto.!!!

Avançando! e! detalhamento! esses! números,! começamos! a! qualificar! essa! participar!e!passamos!a!confrontar!o!modelo!performativa!tradicional!das!duplas! com! sua! refiguração! por! Platão.! Em! sua! materialidade! linguística,! a! figura! de! Sócrates! em! suas! falas! manifesta! uma! desproporção! aritmética:! do! total! de! palavras! de! palavras! proferidas! no! diálogo,! Sócrates! é! responsável! por! 82%! delas.! Assim,! Sócrates! fala! mais,! falas! as! frases! maiores,! constituindo! uma! perspectiva!hegemônica!do!texto,!um!centro!de!orientação!do!diálogo.!! Os! dados! linguísticos! aponta! para! algumas! conclusões! na! forma! como! Platão!se!utiliza!do!procedimento!da!dupla!cômica.!Primeiro,!falar!mais!é!ocupar! mais!tempo.!Seguindo!ainda!os!dados!de!J.!Bremer,!pressupondo!uma!velocidade!

!

5!

constante! no! ritmo! da! fala,! o! diálogo! Íon! poderia! ser! performado! em! trinta! minutos!sendo!que!dessa!soma!Sócrates!falaria!por!24!minutos!e!36!segundos! e!

Íon!apenas!por!cinco!minutos!e!24!segundos.!!

Decorrente! do! desproporcional! espaço! de! tempo! assinalado! a! Sócrates! por!Platão,!temos!o!desproporcional!foco!de!interesse!que!recai!sobre!a!figura!de! Sócrates.!Tempo!e!foco!se!completam!em!eventos!performativos.!!Ao!manipular!a! magnitude! da! presença! dos! interlocutores,! dos! partícipes! da! dupla! cômica,! Platão! nos! oferece! um! experimento! arriscado:! ele! desfaz! a! solidariedade! da! dupla,! a! expectativa! de! que! os! performers! tenha! igual! oportunidades! para! demonstrarem! suas! habilidades.! Ao! fim! o! diálogo! se! organiza! quase! como! um! monólogo,!com!evento!unidimensional.!! Mas!a!quem!interessa!esse! 'falso'! diálogo,!ou!esse!monodiálogo!platônico?! Por! que! redefinir! as! formas! de! organização! e! expectativa! de! um! procedimento! cômico! a! ponto! de! desfiguRlo,! colocando! em! risco! a! própria! possibilidade! de! sua!existência?!!Que!experimento!extremo!é!este!o!de!Platão,!uma!dupla!que!não! é!dupla?! Para! poder! responder! melhor! a! essas! questões,! temos! que! ampliar! o! conhecimento!do!repertório!de!procedimentos!cômicos!tanto!associados!à!dupla! cômica! quanto! fundamentais! na! produção! de! comicidade.! ! Em! assim! fazendo,! seguimos!as!implicações!de!se!lidar!com!eventos!multidimensionais!,!que! tanto! se!definem!em!atos!de!integração!e!interação!como!demandam!tais!atos!de!seus! intérpretes.!! Na! realidade,! a! dupla! cômica! não! é! uma! dupla.! A! cumplicidade! de! seus! integrantes! se! desdobra! em! outra! instância! correlata:! a! audiência.! O! jogo! dos! integrantes!da!dupla!entre!si!se!reveza!no!jogo!com!a!audiência.!!A!interação!face! a! face! se! dá! tanto! entre! os!membros! da! dupla! como! entre! a! dupla! e! o! público! imediato.! Este! procedimento! é! chamado! de! triangulação 6 .! Os! integrantes! da! dupla! cômico,! como! os! dos! demais!gêneros!e! tradições! cômicas,! não! procuram!

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  • 6 !O!termo!vem!sendo!mais!explicitado!na!referência!ao!jogo!do!clown!com!sua!

audiência(!V.!PADILHA!2011),!embora!o!recurso!esteja!presente!na!formação!de!

agentes!cômicos!diversos!como!a!do!circo!e!do!teatro!de!rua.!!Em!alguns! contextos!hodiernos,!o!termo!aparece!em!oposição!a!um!modelo!de!atuação!que! prescinde!da!relação!imediata!com!o!espectador!(quarta!parede),!como!vemos!

em!SOFREDINI!1980.!Para!um!relato!de!contato!com!a!experiência!de!

triangulação,!v.!SOFFREDINI!&!PACE!201O.!

6!

!

escamotear! que! estão! diante! de! um! grupo! que! os! observa! e! participa! da! performance.! !Os!agentes! cômicos! realizam! suas! rotinas!na! continuidade! dessa! contextura!observacional! in%loco.!!Desse!modo!as!ações!dos!agentes!cômicos!ora! manifestam!possibilidades!de!ação!e!expectativas!da!audiência,!ora! redirecionam! tais!expectativas.!! Como!se!vê!a!triangulação!é!um!desdobramento!da!dupla,!providenciando! uma! acabamento,! um! amplo! horizonte! do! procedimento! cômico.! Este! desdobramento!na!audiência!de!lá!é!correlativo!do!desdobramento!da!audiência! de! cá:! a! função! recepção! não! está! somente! em! haver! um! público! outro! em! oposição! aos! integrantes! da! dupla! cômica.! Em! sua! performance,! um! e! outro! membro! da! dupla! faz! as! vezes! de! platéia! do! outro.! ! Como! a! audiência! de! lá,! ambos! os! membros! da! dupla! reagem! ao! que! cada! um! faz.! ! ! Essa! ! dinâmica! recepcional! entre! agentes! e! audiência! preconiza! atos! de! interação! e! vínculo,! fazendo! com! que! tanto! os! performers! quanto! o! público! se! integre! ao! mesmo! tempo!e!espaço.!!! Voltando!a! Íon,!!a!interação!demasiadamente!assimétrica!aponta!para!um! recrudescimento! da! triangulação,! da! orientação! do!material! para! seu! consumo! por! um! público.! !Se!a! solidariedade!entre!Sócrates!e! Íon!é! rompida,!e!Sócrates! aparece! como! centro! de! orientação! do! diálogo,! a! figura! de! Sócrates! apresenta! uma! sobrecarga! da! função! recepção.!Ele! se! torna! responsável! pela!maioria! dos! atos! no! diálogos! e! pelos! nexos! de! solidariedade! com! a! audiência.! A! audiência! deste! diálogo! se! define! pelo! jogo! que! as! vincularia! tanto! a! um! quanto! a! outro! integrante! da! dupla.! A! exorbitância! da! hegemonia! de! Sócrates! apela! para! uma! recepção!bem!mais!favorável!a!um!integrantes!da!dupla.!!O!excesso!da!figura!de! Sócrates,!mostrada!no!domínio!das!falas!e!no!recorrente!recurso!de!rebaixar!Íon,! vincula!a!recepção!a!uma!solidariedade!com!a!figura!socrática.!! Excessos! respondem! a! excessos.! ! A! modificação! que! Platão! opera! no! procedimento! da! dupla! cômica! acarreta! alterações! correlatas.! Se! se! muda! na! composição,!modificaRse!a!recepção.!O!diálogo!Íon! se!organiza!em!uma!acerbada! assimetria!que!projeta!um!diminuto!espaço!para!uma! figura!e!uma!exponencial! importância! para! outra.! Este! desequilibrio! produz! a! redução! da! solidariedade! entre! Íon!e!Sócrates!e!proporcionalmente!o!vínculo!entre! a! audiência!e!a! figura!

!

7!

de! Sócrates.! Assim,! aquilo! que! Sócrates! atribui! a! Íon! reforça! e! confirma! aquilo! que!a!audiência!concorda!sobre!Sócrates.!!! A!manipulação!do!procedimento!da!dupla!cômica!por!parte!de!Platão!no! diálogo!Íon!acaba!por!descolar!a!figura!de!Sócrates!da!de!Íon!e!reforçar!o!acordo! entre!Sócrates!e!a!audiência,!no!caso!o!círculo%platônico.! Em!virtude!disso,!Íon!passa!a!ser!o! alvo! de!sátira.!O!rebaixamento!de!Íon! reforça!os!vínculos!e!a!solidariedade!entre!Sócrates!e!a!audiência.!Para! tanto,! é! preciso!dedicar!tempo!para!dissecar!Íon,!para!analisar!o!que!ele!faz 7 .!!! Dessa! forma,! o! procedimento! da! sátira! aqui! performado! exibe! sua! face! biforme:! ! o! rebaixamento! do! alvo! observacional! está! vinculado! ao! seu! conhecimento.! A! sátira! ambivalentemente! depende! do! jogo! de! proximidade! e! distância!entre!audiência,!satirista!e!alvo!observacional.!! Parte!do!tempo!de!Sócrates!no!diálogo!é!dispensado!em!exibir!aquilo!que! sabe!da!atividade!de!Íon.!A!sátira!platônica,!como!no!uso!dos!duplos,!também!é! diversa,!pois!não!se!restringe!ao!rebaixamento!de!uma!personalidade!histórica,! de!um!indivíduo!singular.!O! que!importar!para!Platão!não!é!o!rapsodo!Íon,!mas,!a! partir! da! atividade! de! Íon,! a! amplitude! da! performance,! em! suas! dimensões! compositivas,!realizacionais!e!recepcionais.!!! Este! deslocamento! negocia! com! a! tradição! ateniense! das! sátiras! performadas! publicamente! nas! comédias.! ! Em! sua! discussão! sobre! a! sátira! de! figuras! públicas! entre! os! anos! de! 432/431! e! 405/404! em! Atenas,! Alan! Sommerstein! conclui! que! aqueles! que! foram! alvo! de! rebaixamento! cômico! (komodoumenoi)% apresentavam! características! que! o! faziam! conhecidos! do! público.! Por! sua! atividade! ou! funções,! por! prestígio! familiar! ou! adquirido! instantaneamente,! ! a! notoriedade! revelaRse! ambivalente:! o! indivíduo! adquire! projeção! social,! mas! ao! mesmo! tempo! sua! trajetória! é! contrabalanceada! pela! apreciação!pública,!ampliada!e!redefinida!no!espetáculo!da!comédia.! No!caso!de!Íon,!não!temos!uma!figura!conhecida!que!é!alvo!da!sátira.!Íon!é! um! amálgama! de! traços! atribuídos! à! sua! profissão.! Essa! diferença! platônica! reside! no! deslocamento! do! aspecto! publicista! da! sátira! da! comédia! para! a! dimensão!específica!do!grupo!platônico.!Em!uma!sociologia!da!recepção,! temos!

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  • 7 !Para!um!contraponto,!v.!MOTA!2011!sobre!a!comunidade!pitatórica!e!a!

formação!de!seu!horizonte!de!expectativas.!

8!

!

que! o! deslocamento! da! figura! pública! conhecida! para! o! estereótipo! é! complementar!da!passagem!da!heterogeneidade!da!audiência!da!comédia!para!a! homogeneidade! do! grupo! platônico.! ! Os! traços! escolhidos! por! Platão! na! construção!da!figura!de!Íon!não!se!resumem!à!caracterização!particular!de!uma! pessoa.!Para!Platão,!o!que!mais!importar!é!demonstrar!uma!negação!ampla,!que! não!se!restringe!às!atividade!de!caracterização.! Nesse!sentido,!se!entende!o!primeiro!bloco!de! fala!de!Sócrates!(503!b,c),! que! identifica! a! atividade! de! Íon! com! de! apenas! sugerir! a! elaboração! de! sua! aparição! em! frente! do! público! R! figurino,! compleição! física,! a! máscara! facial.!! Platão! identifica! esses! elementos! integrantes! da! atividade! do! rapsodo! e! os! destaca,!com!o!propósito!de!a!eles!se!contrapor.!!O!destaque!nos!elementos!de! caracterização!demonstra!que!Platão!não!está!interessado!na!figura!particular!de! Íon!e!sim!no!que!ele! faz.!Dessa! forma!Platão!produz! o!rebaixamento!não!de!um! indivíduo,!e!sim!de!um!alvo!observacional!a!partir!daquilo!que!a!ele!se!atribui.!! Ao!ampliar! o! rebaixamento! cômico! da! figura!individual! para! uma! dimensão!ao! mesmo! tempo!mais!aberta! ! e!de! fácil!identificação! (estereótipo),!Platão!produz! uma! comicidade! que! oferece! para! quem! dela! participa! a! contraposição! entre! a! figura!rebaixada!e!um!outro!modelo!atuacional.!! Nesse! sentido,! Platão! bem! entende! que! o! tipo! de! sátira! que! se! pratica! relaciona! com! o! tipo! de! comunidade! para! a! qual! a! sátira! se! dirige.! Ao! se! apropriar!de!um!recurso!da!tradição!cômica!Platão!o!faz!a!partir!da!comunidade! recepcional!que!configura!a!seleção!daquilo!que!foi!registrado!no!diálogo.!!Assim,! ao!se!ler!Íon,!percebendo!como!o!texto!registra!modificações!nos!procedimentos! da!tradição!cômica,!podemos!tanto!compreender!melhor!esta!tradição!quanto!o! funcionamento! do! círculo! platônico.! ! O! registro! da! paródia! de! Íon! acarreta! o! esclarecimento!sobre!o!horizonte!recepcional!da!comunidade!a!qual!a!paródia!se! dirige.! ! Uma!das!coisas!que!Platão! fez!ao!se!apropriar!do!procedimento!cômico! presente!em!interações!faceRaRface!foi!o!de!modificar!seu!horizonte!recepcional:! do! espaço! ! público! de! trocas! passamos! para! o! espaço! convivial! entre! os! integrantes! do! grupo! próR! Platão.! Assim,! o! texto! de! Íon! se! dirige! a! um! público! específico!e!homogêneo,!no!sentido!de!ser! composto!por!pessoas!que!partilham! certas!práticas!de!produção!e!transmissão!de!conhecimento.!!!

!

9!

Questões! de! recepção! são! fundamentais! para! Íon.! Inicialmente,! temos! a! dupla!cômica,!que! manifesta!papéis!recepcionais!muitas!vezes!bem!marcados:!na! maioria!das!vezes!Íon!é!audiência!do!espetáculo!de!persuasão!de!Sócrates. 8 !! Essa! situação! construída! subverte! as! expectativas! marcadas! na! abertura! do! texto,! quando!o!encontro!com!um!famoso!e!habilidoso!rapsodo!projetam!uma!iminente! oportunidade! para! ! que! Íon! demonstre! publicamente! suas! habilidades.! ! Ao! contrário,!Sócrates!se!recusará!ser!audiência!de!Íon,!e!ainda!Sócrates!mesmo!vai! fazer! as! vezes! de! rapsodo.! ! Tal! ruptura! com! as! expectativas! em! torno! do! encontro!com!Íon!impõe!a!centralidade!da!figura!de!Sócrates!e!de!seus!atributos.! Do!espetáculo! de! Íon! partimos! para!a!exibição! das! habilidades! de!Sócrates.! ! !E! para!quem!Sócrates!se!apresenta?!Para!quem!serve!um!rapsodo!detido,!incapaz! de! performar?! Por! que! interromper! a! carreira! vencedora! de! Íon?! Sócrates! atravessa! o! caminho! do! rapsodo,! e! determina! uma! outra! maneira! de! se! relacionar!com!eventos!performativos.! Em!segundo!lugar,!a!questão!da!recepção!é!explicitada!na!teoria!dos!anéis! ou! teoria!magnética!das!artes!performativas 9 .!Segundo!esta! teoria,!haveria!uma! rede!de!vínculos!entre!os!agentes!de!um!processo!criativo!interativo,!a!começar! por! um! momento! gerador! do! processo(as! musas)! até! se! chegar! no! ponto! extremo! de! efeito! no! público.! ! Graficamente,! teríamos! uma! imagem! retilinear! assim!disposta:! MUSA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!POETA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!RAPSODO!!!!!!!!!!!!!!!!PÚBLICO!

! 9! Questões! de! recepção! são! fundamentais! para! Íon .! Inicialmente,! temos! a! dupla!cômica,!que! manifesta!papéis!recepcionais!muitas!vezes!bem!marcados:!na! maioria!das!vezes!Íon!é!audiência!do!espetáculo!de!persuasão!de!Sócrates.
! 9! Questões! de! recepção! são! fundamentais! para! Íon .! Inicialmente,! temos! a! dupla!cômica,!que! manifesta!papéis!recepcionais!muitas!vezes!bem!marcados:!na! maioria!das!vezes!Íon!é!audiência!do!espetáculo!de!persuasão!de!Sócrates.
! 9! Questões! de! recepção! são! fundamentais! para! Íon .! Inicialmente,! temos! a! dupla!cômica,!que! manifesta!papéis!recepcionais!muitas!vezes!bem!marcados:!na! maioria!das!vezes!Íon!é!audiência!do!espetáculo!de!persuasão!de!Sócrates.
! 9! Questões! de! recepção! são! fundamentais! para! Íon .! Inicialmente,! temos! a! dupla!cômica,!que! manifesta!papéis!recepcionais!muitas!vezes!bem!marcados:!na! maioria!das!vezes!Íon!é!audiência!do!espetáculo!de!persuasão!de!Sócrates.

Segundo!essa!teoria,!em!analogia!com!a! força!do!ímã,! Rque!atrai!anéis!de! ferro!e!neles!infunde!poder!de! atração! R,!!a!causa!originadora!e!mantenedora!de! uma!performance!não!reside!na!interação!face!a!face!entre!rapsodo!e!audiência,!e! sim!no!impulso!extrapessoal!que!atravessa!os!integrantes!da!cadeia!produtora!e! recepcional:!a!musa!inspira!o!poetaRautor;! o!intérpreteRrapsodo!nada!acrescenta,! apenas! repassa!a! obra!do!poetaRautor;!e!a!audiência!se! vincula!à!inspiração!do!

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  • 8 !Íon,530d!,!536e.!

  • 9 !Íon!533d!a!535a.!

!

10!

poetaRautor!por!meio!do!trabalho!do!intérpreteRrapsodo.!!Tal! fenomenologia!do! processo! composicionalRrecepcional! de! eventos! performativos! não! apenas! decompõe!e!descreve!as!funções:!também!os!valoriza.!A!instância!do!intérprete,! do!performer,!do!rapsodo!é!negativamente!assinalada.! Logo,!temos!a!proposição! de!uma!hierarquia,!de!uma!ordem!de!valores!com!suas!implicações!cognitivas.!! Porém,! essa! estrutura! de! causa! e! efeito! que! se! aplica! à! produção! e! recepção!de!eventos!performativos!possui!contornos!bem!delineados.!A! função! do! intérprete,! do! performer,! daquele! que! está! imediatamente! vinculado! à! um! contexto!efetivo!de!troca,!é!o!mais!baixo!grau!da!escala.!Se!se!seguisse!uma!lógica! linear! estrita,! o! último! grau! da! cadeia,! o! do! público,! teria! o! menor! índice! cognitivo,! o! menor! valor,! por! estar! mais! longe! da! fonte! causal,! a! musa 10 .! ! Mas! Platão! manipula! o! esquema! ! geométrico! e! situa! o! rapsodo,! a! antepenúltimo! posição,! como! o! ponto! de! desequilibrio,! de! tensão! da! cadeia.! Ao! impor! uma! ordem!sobre!a!ordem!descrita,!sobre!a!fenomenologia!de!eventos!performativos! concretos,!Platão!demonstra!que!a!escolha!da!hierarquia!é!prévia.!! Íon!e!sua!arte! já! de! antemão! são! tomados! por! antimodelos! daquilo! Platão! e! seu! círculo! defendem.!A!analogia!com!os!aros!de!ferro!mantidos!juntos!pelo!força!do!imã!só!! é!efetiva!no!discurso!platônico.!!! Com!!isso,!temos!que!Platão!constrói!sua!argumentação!por!meio!de!uma! analogia! que! não! se! verifica! em! sua! total! aplicação.!Desse!modo,! a! analogia! só! funciona! se! acatada! pelo! grupo! que! compartilhe! as! mesmas! referências! e! disposições! do! propositor! do! discurso.! Ou! seja,! a! efetividade! da! analogia! depende! da! pressuposição! partilhada! entre! a! figura! e! sua! audiência.! Para! produzir! este! consenso! é! preciso! um! acordo! prévio.! Assim,! o! rebaixamento! da! figura! de! Íon! e! de! suas! habilidades! e! de! todo! o! conjunto! de! referências! relacionados!a!este!atividades!é!anterior!ao! texto!de! Íon:!era!algo!que!definia!o! grupo!platônico.!!! Logo,! se! a! escritura! de! Íon! é! o! registro! dos! pressupostos! do! grupo! em! torno! de! Platão,! ! o! rebaixamento! do! rapsodo! tanto! explicita! aquilo! que! é! considerado!negativo!quanto!positivo!por!esta!comunidade.!Se!Platão!aplica!uma! analogia!deficitária! para!ratificar!posições!prévias,!a!prática!do!grupo!se!perfaz! nessa! distinção! por! pressuposição.! Se! Platão! se! vale! de! uma! hierarquia! pra!

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  • 10 !Íon!535!e.!!

!

11!

rebaixar! o! rapsodo,! a! atividade! interpretativa! do! grupo! valeRse! de! modelos! hierárquicos!com!suas!implicações!axiológicas!e!cognitivas.!! Ora,! essa! lógica! torta,! essa! argumentação! distorcida! se! justificam! em! função!das!escolha!do!grupo,!do!horizonte!recepcional!do!círculo!platônico.!!Para! a!coesão!do!grupo!é!preciso!estabelecer!distinções,!marcas!que!identificam!quem! pertence! ou! não! ao! grupo.! A! transferência! parcial! de! atributos! do! imã! para! a! atividade! do! rapsodo! se,!em! um! primeiro!momento! acabam! por! desvalorizar! o! performer,! contribuem! para! a! processo! básico! que! é! comum! tanto! a! Sócrates! quanto!a! Íon:!a!persuasão,!a!adesão!completa!algo!que!é!maior!do!que!o!senso! comum!e!o!indivíduo 11 .!! O!reforço!do!grupo!a!partir!do!rebaixamento!de!um!alvo!observacional!é! um! procedimento! de! largo! uso! na! tradição! cômica 12 .! E! tal! conexão! valeRse! de! incongruências! que! são! partilhadas! e! experimentadas! pelos! membros! da! platéia 13 .! Parte! da! persuasão! ou!manutenção! dos!laços! entre! os!integrantes! do! círculo!platônicos!advém!desses!jogos!cognitivos,!desse!malabarismo!que!reúne! diversão,!discussão!e!crítica!da!pólis.!!O!fortalecimento!do!grupo!é!proporcional! ao!rebaixamento!do!alvo!observacional,!a!partir!das!práticas!interpretativas!que! em!si!mesmas!podem!parecer!simplificadoras!e!parciais,!mas!que!alcançam!sua! plenitude! justamente! nessa! confusão,! nessa! simultaneidade! entre! aquilo! que! nego!e!aquilo!que!tomo!como!meu.!! Logo,! se! no! lugar! de! discorrer! sobre! a! coerência! da! argumentação! platônica!nos!movemos!na!direção!de!inserir!esses!jogos!cognitivos!nas!rotinas!e! estratégias! de! coesão! do! grupo,! podemos! avançar! mais! nos! dados! que! Íon! disponibiliza!sobra!a!produtividade!da!comicidade!dentro!do!círculo!platônico.! Ao!postar!o!rapsodo!como!o!elo!fraco!dentro!de!uma!cadeia!de!produção! de! recepção! de! eventos! performativos,! a! argumentação! platônica! torna! a! constitutivo!o! déficit! ,!a!inferioridade!do!performer.!!!Se!o!alvo!observacional!está! assim! definido,! proporcionalmente! a!identidade! do! grupo! a! ele! posto! também.!! Nesse!momento!Íon!avança! em!outro!procedimento!cômico:!o!travestimento,!ou! o!jogo!de!assumir!traços!de!quem!eu!nego.!!

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  • 11 !PERKS!2012.!!

  • 12 !BAKHTIN!1987.!

  • 13 !MORREAL!2009a,!MORREAL!2009,!LATAR!1998.!

!

12!

Tal! procedimento! é! fundamental! para! que! novamente! se! enfatize! que! a! problemática! em! torno! da! comicidade! de! Platão! e! do! horizonte! recepcional! de! seu!grupo!não!é!puramente!intelectual.!!Sócrates,!após!rebaixar!Íon,!vai!tomar!o! lugar! do! rapsodo.! Em! um! diálogo! que! abre! e! se! estende! com! iminência! da! demonstração!das!habilidades!do!artista!itinerante! temos!uma! troca!de!papéis:! quem!vai!apresentar!trechos!de!Homero!é!Sócrates,!e!não!o!rapsodo!Íon. 14 !! Mas! propriamente:! Sócrates! se! encontra! com! Íon,! o! qual! está! em! uma! vitoriosa! tournê.!Após!elogiar!o!rapsodo,!Sócrates!passa!a!restringir!a!atividade!de!Íon!aos! exercícios!dialéticos.!Após!recusar!por!duas!vezes!a!performance!de!Íon,!Sócrates! solicita/permite! que! o! rapsodo! apresente! versos! de!Homero,!mas! em! contexto! reduzido,!ilustrativo!da!aplicação!da!dialética.!Depois!Sócrates!interrompe!essa! performance! reduzida! e! passa! a! apresentar! textos! de! Homero! dentro! das! justificativas!da!atividade!persuasiva!já!iniciada.!!!! O! que! temos! então! é! um! SócratesRÍon,! uma! justaposição! entre! uma! reduzida! performance! rapsódica! e! o! exercício! da! dialética! socrática.! O! interessante! são! os! efeitos! dessa! justaposição! entre! antípodas.! Pois! como! aproximar! coisas! que! são! tomadas! como! antípodas! pressupositivamente?! Tal! travestismo! de! Sócrates! explicita! a! assimetria! do! diálogo:! o! status! superior! de! Sócrates!e!o!rebaixamento!do!rapsodo.!Pois!Sócrates!pode!fazer!as!vezes!de!Íon,! mas!não!o!contrário.!Quando!Íon!procura!se!afirmar!em!suas!respostas!que!não! são! atos! de! ! ventriloquismo,! ele! acaba! por! parecer! ridículo,! incongruente 15 .! A! argumentação!deficitária!de!Platão!é!sublimada!pela!adesão!persuasiva,!mas!os! posicionamentos! atribuídos! ao! rapsodo! deste! diálogo! são! incompreensão,! consentimento!ou!desarrazoados.!!Íon!mostraRse!como!alguém!que!não!adere!aos! métodos!socráticos,!que!não!integrará!a!comunidade!platônica.! Novamente,! Sócrates! não! se! transforma! em! Íon! nesse! travestimento.! Fazendo! as! vezes! de! um! rapsodo,! Sócrates! produz! uma! performance! reduzida,! sem!os!traços!de!caraterização!e!a!audiência!associados!à!atividade!do!rapsodo.! Ainda,!a!interpretação!de! trechos!da!obra!homérica!está! vinculada!ao!exercício! da!dialética!socrática.!!

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  • 14 !Íon!538b!R539e.!

  • 15 !Íon!539e,540d.!V.!GOLDBALTT!2006.!

13!

!

A! paródica! personificada! projeta! Sócrates! para! uma! atuação,! para! a! possibilidade! de! Sócrates! ser! um! outro! que! não! ele.! ! Tal! procedimento! é! perigoso,!situaRse!no!limite!de!se!negar!quem!não!se!quer!ser!e!tornarRse!aquilo! que!se!nega.!!De!qualquer!modo,!esse!perigo!é!normalizado!em!função!dos!efeitos! da!simultaneidade:!o!que!importa!não!é!uma!lógica!abstrato!dos!pensamentos!e! uma!a!coesão!das!ações!mesmo!que!díspares.! A!atuação!de!Sócrates!direcionaRse! para!sua!audiência,!para!o!fortalecimento!dos!laços!entre!os!membros!do!círculo! platônico.! ! SócratesRÍon! demonstra! a! comunidade! entre! práticas! performativas! entre!a!dialética!e!entre!a!rapsódia,!mesmo!que!esta!última!seja!alvo!de!paródia!e! rebaixamento!no!diálogo.!! A!dimensão!performativa!do!circulo!socrático!se!manifesta!então!em!atos! de!apropriação!e!transformação!de!outras!performances!sociais,!cujo!prestígio!e! hegemonia!são!colocados!em!revisão.!Mesmo!que!eu!vire!outro,!eu!ajo!dentro!do! horizonte! de! expectativas! de! meu! grupo,! eu! assim! acho! para! reafirmar! pressuposições!da!minha!comunidade.!! Quando!eu!faço!o!que!o!outro!faz,!eu!faço! melhor.!! !Essa! dimensão! performativa! do! diálogo! platônico! e! de! seu! círculo! encontra! no! estudo! dos! procedimentos! cômicos! um! alcance! de! seu! entendimento.! Se! Platão! justapõe! aquilo! que! refuta! com! aquilo! que! assevera,! outros!procedimentos!tidos!como! 'criações'! do!método!socrático!encontram!sua! compreensão! em! tradições! performativas,! e! ainda! mais! tradições! cômicoR performativas.!Como!exemplo!temos!o!interrogatório!socrático! ! e!a!organização! do!diálogo!em!!blocos!descontínuos.! O! interrogatório! socrático! é! um! recurso! recorrente! na! contracenação! assimétrica!entre!Sócrates!e!o!rapsodo.!De!um!modo!geral,! trataRse!de!uma!série! de!perguntas!que!buscam!testar!a!consistência!das!ideias!do!interlocutor.!Mas!a! partir! do! contexto! do! diálogo,! vemos! que! sua! iteratividade! e! formalização! chamam!mais!atenção!que!sua!pressuposta!finalidade!intelectual.!! De!início!o!interrogatório!socrático!se!dá!em!um!contexto!de!falso!diálogo:! as!perguntas!direcionam!e!restringem!a!atividade!do! interlocutor.!Este!acaba!por! mecanicamente! concordar! com! as! afirmativas! presentes! nas! questões! de! Sócrates.! Sendo! assim,! o! processo! dialógico! não! acarreta! troca! entre! os! pólos! conversacionais:! antes,! há! uma!intervenção! de! Sócrates! no!material! discursivo!

!

14!

de! seu! interlocutor.! ! Em! sua! forma,! o! interrogatório! trabalha! com! assimetria! entre! os! interlocutores,! produzindo! diferentes! instâncias,! uma! hierarquia! de! papéis.! A! forma! do! interrogatório! se! impõe! sobre! seus! articuladores.! E! há! um! roteiro!de!atividades!que!explicita!essa!hierarquia:!inicialmente,!no!contato!entre! os!agentes!discursivos,!parteRse!da!situaçãoRproblema!que!determina!o!encontro.! Há! uma! distribuição! de! funções:! Sócrates! pergunta,! seu! interlocutor! responde.! Diante!desta!resposta,!Sócrates!renova!perguntas!que!procuram!mostrar!como!a! resposta!inicial,!como!a!premissa!de!seu!interlocutor!tem!aplicabilidade!limitada.!! Tais!novas!perguntas!inserem!a!premissa!em!contextos!correlativos,!como!forma! de! testar! sua! eficácia.! Proporcional! a! esta! expansão! da! limitação! da! aplicabilidade! da! premissa! ! temos! o!movimento! de! redução! da! participação! do! interlocutor,! que! se! confina!ao! papel! de! corroborar!aquilo! que!Sócrates!afirma! em! suas! questões.! A! assimetria! entre! os! agentes! discursiva! projeta! este! movimento! complementar! que! demarca!a!extensão! da!atuação.!A! continuidade! da!ascensão!de!Sócrates!sobre!seu!interlocutor!é!assegurada!com!a!diminuição! do!espaço!discursivo!deste!último.!! Para! que! esta! esquematização! prévia! da! interação! entre! integrantes! do! interrogatório! se! torne! identificável,! Platão! valeRse! de! dois! procedimentos:! a! duração! desta! conversação! sem! troca,! deste! antiRdiálogo,! e! sua! repetição.! No! primeiro! caso,!em! termos! concreto,! no!mundo! da! vida! ninguém! suportaria! por! muito! tempo! a! situação! discursiva! imposta! pela! hierarquia! e! estabilidade! de! papéis:! pesquisas! sobre! a! conversação! mostram! que! toda! uma! dinâmica! se! dá! entre!os!partícipes!de!um!diálogo,! formando!um!contexto!interindividual!em!que! as! fronteiras!entre!quem! fala!e!quem!ouve!são!constantemente!ultrapassadas 16 .! Os!participantes!do!diálogo!assim!agem!em!função!da!dramaturgia!que!organiza! suas!ações.!O!interrogatório!socrático!assim!se!identifica! em!função!de!sua!forma! de! dispor! a! interação! dos! agentes! discursivos.! Logo,! mais! que! o! tema! do! inquérito!ou!a!premissa,!!que!importa!é!o!exercício!da! fórmula,!a!ratificação!do! modelo! que! determina! as! ações.! Sendo! figuras,! as! personagens! do! diálogo! platônico!expõe!não!o!que!pensam!sobre!si!ou!o!universo,!mas!se!expõem!como! referências! da! apropriação! e! transformação! de! performances! sociais.! O! interrogatório! socrático! aponta! para! a! refutação! de! posturas! e! premissas! que!

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  • 16 !!SACKS!1974,!SACKS!1995,!GOFFMAN!1981,!GOFFMAN!1986.!

15!

!

não! se! encaixam! no! que! é! defendido! e! praticado! pelo! condutor! dessa! conversação!sem!troca.!Desse!modo,!o! elenchus! é!utilizado!como!uma! filtragem,! uma! ênfase! do!que!deve!ser!feito!pela!recusa!dos!valores!e!ações!do!não!iniciado,! do!alvo!observacional.!Não!se!trata!tanto!de!converter!o!interlocutor,!de!mudar! seu! modo! de! pensar.! TrataRse! de! demonstrar! a! superioridade! de! uma! forma! distinguível!e!organizada!de!se!lidar!com!o!outro.! ! Pois!excluiRse!da!experiência! dos!interlocutores!estratégias!de!negociação!e!!interinfluência,!para!se!promover! a! reafirmação! do! mesmo! nexo! hierárquico.! O! que! de! fato! é! excluído! então! é! a! interação! entre! os!interlocutores! in%praesentia! para! uma!interação! comunal! de! segunda! ordem:! no! caso! de! Íon,! Sócrates! não! troca! e! partilha! nada! com! o! rapsodo!e!sim!com!os!membros!do!grupo!platônico.!!A!incomensurabilidade!das! ordens!e!planos!de!Íon!e!Sócrates!reforça!outro!vínculo!recepcional!para!a!qual!a! obra!se!dirige,!e!a!partir!do!qual!entendemos!a!dramaturgia!do!diálogo.!! Ao! manipular! o! tempo! dessa! interação! sem! interação,! ao! estender! a! incomensurabilidade!entre!os!interlocutores,!o!diálogo!revigora!tanto!as!formas! de!sua!organização!utilizadas!quanto!o!horizonte!de!expectativa!para!o!qual!se! dirige.!!! Em!segundo!lugar,!este!recurso!do! questionário!socrático!é!recorrente,!é! utilizado!mais!de!uma!vez!na!sequência!do!diálogo.!Em! Íon,!isso!é!bem!marcado:! após!o!momento!de!contato!inicial!entre!o!rapsodo!e!Sócrates,!temos! 1R! primeiro!interrogatório! (531a! R! 532b),!no!qual!o!ponto!de!partida!é!a! pergunta! de! Sócrates! sobre! Íon! ser! muito! bom! (especialista,habilidoso,! extraordinário)!em!Homero!e!não!outros!repertórios,!como!Hesíodo!e!Arquíloco;!!! 2R! o! segundo! (! 532e! R533c)! parte! para! outras! artes,! para! ratificar! a! hipótese! que! Íon! desconhece! aquilo! que! faz,! segundo! os! modos! de! produzir! conhecimento!da!comunidade!platônica;! 3R! o! terceiro! (535bR535b)! conectaRse! à! 'longa'! exposição! da! teoria! magnética!da!performance,!ampliandoRa;! 4R! o! quarto! (536e! R! 5341d)! centraRse! nas! referências! de! Homero! a! atividades! específicas! não! artísticas,! entremeadas! por! trechos! da! épica! performados;! Tal!iteratividade!reafirma!o!caráter!formular!do!procedimento!e!enfatiza! a!sua!identificação!com!a!comunidade!platônica.!Ao!mesmo!tempo!tal!integração!

!

16!

entre!esquema!e!aplicabilidade!aproxima!o!questionário!socrático!de!um!recurso! muito!utilizado!em!processos!de!produção!e!recepção!de!comicidade! e!de!obras! não! cômicas:! a! improvisação.! ! Na! sucessão! de! momentos! do! encontro! entre! o! rapsodo!e!Sócrates,!para!cada!ocasião!o!procedimento!é!atualizado.!Assim,!como! recurso!de!manipulação!das!interações,!o!questionário!toma!o!lugar!das!reações! do!interlocutor,!das!flutuações!possíveis!entre!os!membros!do!diálogo!imediato.!! A!redução!das!diferenças,!dos!distúrbios!na!interação!é!promovido! pelo!uso!de! formas!de!contato!que!se!impõe!sobre!a!vontade!do!interlocutor/recepção.! Coube! à! hipótese! ParryRLord,! por! meio! da! aproximação! entre! a! épica! homérica!e!os!cantadores!narrativos!dos!Balcãs,!trazer!para!os!estudos!clássicos! uma! pioneira! compreensão! das! relações! entre! performance,! improvisação! e! textualidade 17 .!! O!caráter!formular!da!épica!homérica!se!expressa!no!conjunto!de! distinguíveis! formas! ! orientação! do! contato!entre! o! performer!e! sua!audiência.! Não! havendo! um! texto! fixo! e! sim! as! circunstâncias! de! cada! contato,! ! a! formas! permitiriam! o! enfrentamento! dessa! dinâmica! recepcional.! Derek! Collins! assim! sumariza! tais! formas! de! improvisação! ou! composiçãoRemRperformance 18 :!! flexibilidade! do!material,! construindo! sua! duração! em! função! das! respostas! da! audiência;! ampliação! do! repertório! por! meio! de! adição! de! novo! material;!! alinhamento!!competitivo!entre!performers.!! Assim,! o! uso! de! fórmulas! ou! esquemas! em! atividades! performativas! assegura!tanto!para!o!performer!quanto!para!a!audiência!modos!de!participação! na! interação! faceRaRface.! ! O! questionário! socrático! entra! no! conjunto! destes! recursos! ao! apresentar! protocolos! tais! para! sua! realização! que,! quando! atualizados!em!interações!assimétricas,!evidenciam!seu!reconhecimento.!!! Dessa! forma,! a! atividade! de! Sócrates! se! aproxima! do! rapsodo:! ambos! trabalham! com! situações! de! contato! e! interação.! ! A! redefinição! cômica! do! procedimento! é! novidade! platônica.! ! Pois! ao! se! valer! de! esquemas! de! perfil! improvisacional!com!o!intuito!de!parodiar!e!rebaixar!atos!performativos,!Platão! reafirma! a! superioridade! de! sua! comunidade! e! dos! processos! de! produção! e! transmissão! de! conhecimento! que! avaliza.! Logo,! o! questionamento! socrático! é!

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  • 17 !V.!MOTA!2010.!

  • 18 !COLLINS!2001.!

17!

!

uma! paródia! de! uma! situação! de! contato! faceRaRface,! que! é! desfigurada,! redefinida!em!prol!do!horizonte!de!expectativas!da!comunidade!platônica.!! Afinal,! as! perguntas! não! são! para! infundir! conhecimento,! para! transformar! o! interlocutor.! O! caráter! aporético! de! muitos! dos! diálogos! platônicos! não! aponta! para! a! falha! da! persuasão:! antes! a! aporia! desvincula! os! dialogantes!!e!identifica!para!quem!o!diálogo!é!dirigido.!!! Neste!momento,!entramos!no!segundo!aspecto!performativo!do!diálogos! platônicos:! o! de! sua! estrutura! em! blocos.! Como! vimos,! Íon! se! organiza! na! alternância! entre! dois! conjuntos! de! atividades! verbais:! o! jogo! esquemático! de! perguntas! e! respostas! e! blocos! de! afirmações! socráticas.! ! Ou! seja,! não! é! em! função!de!um! tema,!de!uma!unidade!discursiva!que! temos!a!coesão!do!diálogo.!! Há! descontinuidades,!justaposições! de!momentos! relativamente!independentes! que! impedem! uma! leitura! que! resuma! o! texto! a! um! processo! argumentativo! completo!e!unívoco.!!! Tal! lógica! paratática,! acumulativa! projeta! outra! dimensão! da! prática! improvisacional! cômica! e! não! cômica:! a! composição! rapsódica,! variacional! que! não! trabalha!com!hierarquias!conceptuais!e!sim!a!relevância!de!cada!segmento! ou! bloco.!O!mais!importante!é!efetiva!uma!presença!expandida,!uma!atualidade! sempre! renovada,! um! foco! de! interessante! constante! naquilo! que! é! atual,! de! maneira!a! tornar!eficaz! o!jogo!!performativo.!O!que! fica!para! trás!já!não!é!mais! importante:!o!que!de!fato! importa!é!a!imagem!final!do!processo,!elaborada!pela! iteratividade!dos!procedimentos.!! No! caso! de! Íon,! a! alternância! entre! interrogatórios! e! falas! plenas! serve! para!confirmar!as!expectativas!da!audiência!do!diálogo:!sendo!os!procedimentos! de!Sócrates! comuns!aos! de! seu!grupo,!e! sendo! que! Íon! comprovou! sua!inépcia! em! assimilar! tais! recursos,! não! havendo! outro! recurso! senão! o! de! encerrar! o! diálogo,! a! forma! como! isso! ocorre,! nos! diálogos! e! nos! blocos! de! fala! isolados,! manifestam! a! não! pertinência! entre! os! valores! e! horizontes! cognitivos! dos! interlocutores!colocados!em!confronto.! A!técnica!de!composição!rapsódica!ou!por!blocos!realça!o!foco!na!unidade! discreta!dos!acontecimentos!em!sucessão,!!sem!a!seleção!e!avaliação!advindas!de! uma!perspectiva!maior,!de!um!narrador.!!

18!

!

No! trabalho! do! performer! cômico! essa! manipulação! de! fórmulas! de! contato! e! de! blocos! de! acontecimentos! ou! situações! é! o! que! determina! sua! atividade!de!interação!com!a!audiência.!! !

CONCLUSÃO! Como!se!pode!bem!observar!a!partir!de!uma!leitura!atenta!de! Íon,!muitos! de! seus!aspectos! composicionais! se!encontram!melhor! compreendidos!a! partir! de!contribuições!de!Estudos!da!Performance!e!Comicidade.!O!que!é!digno!de!nota! é! que! ao! nos! valermos! de! referências! à! comicidade! em! outras! que! aparentemente! não! são! estudadas! ou! incluídas! em! cânones! de! comicidade,! atingimos! um! patamar! hermenêutico! de! se! ampliar! nossa! perspectiva! sobre! a! construção! de! eventos! sérios! e! cômicos.! Em! outras! palavras,! para! além! da! dicotomia,! começamos! a! não! ver! mais! o! cômico! como! o! não! sério,! ou! o! sério! como! o! não! cômico.! Tal! dicotomização! pressupõe! um! essencialismo,! uma! identificação!estável,!genérica!e!ahistórica! de!modos! de! se! organizar!eventos!e! seus!efeitos.!! A! possibilidade! de! se! fundamentar! uma! abordagem! que! explicite! os! procedimentos! de! comicidade! de! Platão! nos! encaminha! para! melhor! entendimento! do! modo! como! seu! grupo,! na! rivalidade! com! outros,! propunha! parodicamente! uma! imagem! de! si,! que! era! exercitada! no! procedimentos! que! regiam!a!disputa,!apresentação!e!desenvolvimento!das!habilidades! durante!seus! encontros.!! ! ! !

BIBLIOGRAFIA!

BREMER,!J.!!Plato's%Ion:%Philosophy%as%Performance.!Bibal!Press,!2005.!

CHARALABOPOULOS,!N.!Cambridge!University!Press,!2012.!

COLLINS,! D.! ! Homer! and! Rhapsodic! Competition! in! Performance.! Oral%

Tradition%16(2001):129R167.!

GOFFMAN,!E.!Forms!of!Talk.!University!of!Pennsylvana!Press,!1981.!

GOFFMAN,!E.!Frame!Analysis.!Northeastern!University!Press,!1986.!

GOLDBLATT,!D.!Art%and%Ventriloquism.!Routledge,!2006.!!

19!

!

JONES,! J.! A! Complete! Analysis! of! Plato's! Philosophy! of! Humor.! Link! :! http://www.jonathonjones.com/papers/plato.pdf.!!!!!s/d.! LATAR.!R.! The%Basic%Humor%Process:%A%CognitiveNSHift%Theory%and%the%Case%

against%Incongruity.!Mouton!de!Gruyter,!1998.!!

MORREAL,!J.! (Ed.)! The%Philosophy%of%Laughter%and%Humor.!State!University!

of!New!York!Press,!1986,!pp!188R207.!

MORREAL,! J.! ! Humor! as! Cognitive! Play.! ! Journal! of! Literary! Theory!

3.2(2009):241R260.!

MORREAL,!J.!!Comic!Relief.!!WileyRBlackwell,!2009!(MORREAL!2009a).!

MOTA,! M.! ! A! performance! como! argumento:! a! cena! inicial! de! Íon,! de!

Platão.!VIS!!5(2006):80R92.!

MOTA,!M.!!A%dramaturgia%musical%de%Ésquilo.!Editora!UnB,!2008.!

MOTA,! M! ! Performance! e! Inteligibilidade:! Traduzindo! Íon,! de! Platão.!

Archai!2(2009):183R204.!

MOTA,! M.! ! ! Nos! passos! de! Homero:! Performance! como! argumento! na! Antiguidade.! Revista! VIS! (UnB),! 9(2010):21R59.! Link:!

http://www.ida.unb.br/revistavis/revista%20vis%20v9%20n2.pdf.!!

MOTA,! M.! Pythagoras!Homericus:! Performance! as!Hermeneutic!Horizon! to! Interpret! Pythagorean! Tradition.! Anais! On! Pythagoreanism.! Brasília,! Archai,!

2011,!pp!293R306.!

NIGHTGALE,!A.!Genres!in!Dialogue:!Plato!and!the!Construct!of!Philosophy.!

Cambridge!University!Press,!2005.!

PADILHA,P.! "Convívio! e! triangulação! Clownesca! na! potencialização! do! evento! teatral:! Substratos!de!uma!montagem"! Cena%em%movimento! 2(2011):1R8.!!

LInk:!http://seer.ufrgs.br/cenamov/article/view/21632.!

PERKS,!L.G.!!The!Ancients!Roots!of!Humor!Theory.! Humor%25(2012):!119R

132.!

PUCHNER,!M.!The!Drama! of! Ideas.!Platonic!Provocations!in!Theater!and!

Philosophy.!Oxford!University!Press,!2010.!

RASKIN,! V(Ed.).! The! Primer! of! Humor! Research.! MOuton! de! Gruyter,!

2009.!

SACKS,!H.!,!SCHEGLOFF,!E.!&!JEFFERSON,!G.!!A!simpliest!systematics!of!the!

Organisation!of!TurnRtaking!for!Conversation.!!Language,!50(1974):696R735.!

20!

!

SACKS,!H.!!Lectures!on!Conversation.!WileyRBlackwell,!1995.!

SHELLEY,!C!.!Psychology!of!Humor.!Humor!16(2001):351R367.!

SCOTT,!G.A.!(Ed.)!Does!Socrates!Have!a!Method?!Rethinking!the!Elenchus!

in!Plato's%Dialogues%and%Beyond.!The!Pennsylvania!State!University,!2002.!

SOFFREDINI,! C.! De! um! trabalhador! sobre! seu! teatro.! Revista! Teatro!

1(1980).!

SOFREDINI,! R.! &! PACE,! E.! ! Carlos%Alberto%Soffredini:%Serragem% nas%veias.! Imprensa! do! Estado! de! São! Paulo,! 2010.! Link:! www.aplauso.imprensaoficial.com.br.! SOMMERSTEIN,! A.H.! ! How! to! avoid! being! a! Komodoumenos.! Classical%

Quarterly!46(1996):!327R356.!

SOMMERSTEIN,! A.H.!Talking!about!Laughter.!And!Other!Studies!in!Greek!

Comedy.!Oxford!University!Press,!2009.!!

WORMAN,!N.!Abusive!Mouths!in! Classical!Athens.! Cambridge!University!

Press,!2011.!